Revista Percursos Urbanos Cariri

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  • PERCURSOS URBANOS 1

    PERCURSOS URBANOSREVISTAUniversidade Federal do Cariri - Curso de Jornalismo - 1 Edio - setembro de 2014

    UM PERCURSO PELACHAPADA DO ARARIPE

    PECORRENDO OS PASSOS DA EXPEDIO CIENTFICA

  • O projeto Percursos Urbanos surgiu em Fortale-za, em 2002, pela ONG Mediao de Saberes (ou Coletivo MESA), integrando a programao do Centro Cultural Banco do Nordeste (CCBNB), em 2004, para a realizao de trajetos culturais den-tro de um nibus urbano comum. As conversas se do dentro de um coletivo, com uma caixa de som e microfone aberto a todos. Em 2011 expan-de suas parcerias e chega ao Cariri, como projeto de extenso do curso de Jornalismo da ento Uni-versidade Federal do Cear (UFC), hoje do Cariri (UFCA), em parceria com o CCBNB de Juazeiro do Norte.

    A cada dois sbados ao ms, um nibus sai conduzindo um grupo de pessoas, de diversas faixas etrias, para um passeio at ento desco-nhecido. O roteiro segue uma temtica e a partir dela, com debates entre mediao e o pblico participante, construmos uma nova viso da ci-dade, discutindo questes latentes na concepo do tecido social e urbano. Cada edio traz um recorte cultural da cidade sob os pilares da me-mria social, do patrimnio material e imaterial, da poltica e da transformao das tradies. De 2011 a setembro de 2014 foram realizadas mais de 60 edies, em todas, discutimos assuntos re-ferentes regio do Cariri.

    PERCURSOS URBANOS

    CAPA: CHAPADA DO ARARIPEFOTO: RICA BANDEIRA

    EXPEDIENTE

    REPORTAGEMCCERO DANTAS

    PROFESSOR COLABORADOR TIAGO COUTINHO

    DESIGN GRFICOCCERO DANTAS

    Com um tema definido, mediador e o pblico, visitamos dois a trs locais da regio que tenha alguma referncia com o tema em questo. O mediador funciona como um facilitador para con-duo, ao longo do trajeto, sendo responsvel por repassar um pouco da sua experincia no as-sunto discutido. O projeto segue a perspectiva da educao popular e informal, assim, o interces-sor no necessariamente ser um professor ou pesquisador. necessrio apenas ter um amplo conhecimento no assunto para que possa com-partilhar com os participantes.

    Atualmente, o projeto est sob a coordenao do professor de jornalismo da UFCA Tiago Cou-tinho, auxiliado pelos estudantes de jornalismo Alana Maria, Antonio Rodrigues, Ccero Dantas, rica Bandeira, Felipe Vieira, Rodolfo Santana, Sauanny Lima e Uni Barros.

    UNIVERSIDADEFEDERAL DO CARIRI

    2

    O Projeto Percursos Urbanos ocorre dois sbado por ms, com sada s 15 horas do Centro Cultural Banco do Nordeste. Nossa Misso, alm do passeio de sba-do tarde, conhecer a diversidade cul-tural urbana existente na regio do Cari-ri. O projeto pretende contemplar temas e pblicos heterogneos, com nveis de renda muito diversificados, de diferentes segmentos scio-culturais. Assim, a cida-de cresce, tem sua percepo favoreci-

    Inscries no:

    Participe!

    da, tornando-se mais cosmopolita, ciosa de sua pluralidade e diversidade. O Per-cursos funciona como um frum de dis-cusses sobre os desafios e as potncias da regio. Para participar, voc deve ape-nas, realizar sua inscrio na recepo do Centro Cultural Banco do Nordeste.

  • PERCURSOS URBANOS4 PERCURSOS URBANOS 5

    CAROS LEITORES,

    Nesta edio da revista Percursos Urbanos, ire-mos percorrer e conhecer a Chapada do Araripe, localizada ao sul do estado do Cear, que serviu de cenrio para algumas das edies do projeto Per-cursos Urbanos. Suas belezas naturais, sua rica vegetao e as centenas de fontes de gua mine-ral serviram de inspirao para compor os rotei-ros culturais nesses trs anos de projeto no Cariri.

    Das mais de 60 edies, em nove oportunida-des tivemos a chapada como um dos trajetos pro-postos pelos mediadores. A primeira delas, foi em 2012 com o tema O Crato do Joo, conhecemos a Chapada do Araripe sob a perspectiva, vivncia e memria de Joo do Crato, educador popular local.

    As Lendas e Os Mitos do Cariri foi o tema da oitava edio. Com a mediao do mdico e es-

    critor Jos Flvio Vieira, visitamos o rio Batateira, no Crato, famoso pela lenda da Pedra da Bata-teira. Na mesma edio, conhecemos a comu-nidade barbalhense Cabeceiras, localizada aos ps da chapada do Araripe. L contamos a vida de Vicente Finim, um lobisomem da regio, que assombrava os populares locais.

    Um ano depois, voltvamos a visitar a imensa floresta, agora, na 30 edio com o tema Oasis Urbano, ttulo conquistado pela regio, graas s fontes de gua que brotam dos ps da Chapada do Araripe. Novamente visitamos o rio Batateira, dessa vez, fomos sua nascente, onde fora im-plantada a primeira hidroeltrica do interior do Nordeste. Nessa edio, discutimos sobre o pro-jeto de transposio do rio So Francisco, que

    ameaa desapropriar a comunidade Baixio das Palmeiras.

    Com o tema No Gingado da Liberdade, nosso roteiro cultural foi na busca de conhecer o Cariri pelo gingado da capoeira. E um dos locais visitados foi o stio Santo Antnio, em Barbalha, na Chapa-da do Araripe. Em um novo percursos, agora, em comemorao a dois anos de projeto na regio, visitamos a Trilha do Belmonte, no Crato, como ponto inicial para o Histrias extraordinrias.

    Para Amenizar os Bros, a Chapada do Arari-pe foi o cenrio durante todo o percurso. Procura-mos descobrir o porqu dos meses de setembro a dezembro ser to quente na regio. Floresta Na-cional, chapada e polticas pblicas sobre o uso da gua, foram discutidas no trajeto. Em mais

    um percursos totalmente na chapada, desenvol-vemos o tema Agroecologia e a experincia do semirido, visitamos a comunidade do Catol, ao sop do Araripe, e conhecemos um pouco do sistema agroflorestal desenvolvido pelos agricul-tores da comunidade.

    Em homenagem ao artista Orlando Pereira, fizemos um piquenique no Riacho do Meio, em Barbalha, na edio Um sorriso para um bando de vndalos... que homenageou a vida e obra do artista. Por fim, j em 2014, refizemos alguns dos passos da Comisso Cientifica do Imprio que veio regio no sculo XIX, conhecer e desvendar as riquezas do imenso Araripe.

    Ccero Dantas

    HISTRIAS EXTRAORDINRIAS - Percursos urbanos/ agosto- 2013

    UM SORRISO PARA UM BANDO DE VNDALOS... - Percursos urbanos/novembro - 2013AGROECOLOGIA E A EXPERINCIA DO SEMIRIDO - Percursos urbanos/outubro - 2013 UMA EXPEDIO CIENTFICA - Percursos urbanos/ abril - 2014PARA AMENIZAR OS BROS - Percursos urbanos/ setembro - 2013

    O CRATO DO JOO - Percursos urbanos/ abril - 2012 AS LENDAS E OS MITOS DO CARIRI - Percursos urbanos/ abril - 2012 NO GINGADO DA LIBERDADE - Percursos urbanos/ abril - 2013

  • PERCURSOS URBANOS6 PERCURSOS URBANOS 7

    CHAPADA DO ARARIPE: UM TESOURO GEOLGICO ENCRAVADO NO CARIRI

    Lendas, riquezas naturais, turismo e histria!

    A chapada do Araripe em 4 atos

    A brir a janela do meu quarto pela ma-nh, receber aquela brisa e olhar para a Chapada do Araripe, no tem coisa melhor! a certeza que estou no meu Cariri, o que afirma Viviane Vieira, estudante de histria que retorna ao Cariri para visitar sua famlia.

    Vista praticamente em toda regio, a Chapada do Araripe - localizada ao sul do estado do Cear, a 500 km da capital Fortaleza - alm do seu as-pecto geogrfico, tambm palco de forte misti-cismo regional.

    Lendas, mitos, histrias e estrias, a Chapada do Araripe cheia de mistrios! Josenir Lacerda, cordelista natural do Crato, aponta os ndios Ka-riris (os primeiros habitantes da regio), como os responsveis por criar esse forte misticismo em torno da chapada. A lenda da pedra da Batateira praticamente um marco. Conta a lenda, se um dia a pedra chegar a cair, todo o vale do Cariri ser inundado e voltar a ficar debaixo dgua, como um dia j foi. E quando esse dia chegar, os ndios Kariris retornaram s suas terras que um

    dia o homem branco destruiu, conta a cordelista.

    Alm da vingana dos ndios Kariris, h lendas de sereias vistas l nas cachoeiras de Misso Velha; de lobisomens nas serras barbalhenses; e de pedras misteriosas que fazem as pessoas desaparecerem, l no alto da serra do Araripe, em Porteiras. Todas essas lendas, fruto da tradio narrativa caririense, tm como plano de fundo a imensa Chapada do Araripe.

    A chapada caririense serve, tambm, de inspi-rao para os diversos grupos culturais da regio. Est presente em canes de cantores regionais, nas literaturas de cordel e nos espetculos de grupos teatrais. Alm de seu carter ambiental, a Chapada do Araripe contribui e participa efetiva-mente da cultura local.

  • PERCURSOS URBANOS8 PERCURSOS URBANOS 9

    FORMAO GEOLGICA E LEGADO

    A Chapada do Araripe localiza-se na divisa dos estados do Cear, Pernambuco e Piau, compre-ende uma rea de aproximadamente 7,6 milhes de hectares e abrange 25 municpios cearenses, 18 pernambucanos e 60 piauienses. Segundo estudos geolgicos e arqueolgicos, foi constitu-da a 150 milhes de anos, no desmembramento do supercontinente Gondwana, formado, em sua maior parte, pelos continentes que atualmente in-tegram o hemisfrio sul.

    A separao entre o que hoje a Amrica do Sul e frica, gerou uma instabilidade na regio onde localiza-se o Cariri, provocando um rebaixa-mento em suas terras, motivo este, permitiu a re-gio receber correntes martimas, estabelecendo uma nova biodiversidade. H milhes de anos, tudo isto era nivelado e ao longo do tempo os agentes erosivos e corrosivos, como o sol, a gua dos rios e da chuva, foram formando depresses, resultando no que hoje o vale do Cariri. Tudo isso possibilitou termos um livro aberto, para fa-zermos a reconstituio da evoluo desse terre-no (chapada do Araripe) e da origem da vida das espcies que aqui viveram, explicou Anderson Camargo, professor e membro do Grupo de Es-tudo e Pesquisa em Geografia Agrria (GEA) da Universidade Regional do Cariri Urca.

    A principal caracterstica de uma chapada a sua formao geolgica elevada que possui uma poro plana na parte superior. A chapada cari-riense possui em sua feio mais elevada 920 metros de altitude. Seu bioma predominante a caatinga, com reas de cerrado e mata atlntica, possui uma enorme importncia climtica para o Cariri, responsvel pela manuteno do equilbrio hidrolgico, climtico, ecolgico e edfico (aquilo que pertence ao solo) da regio.

    Privilegiada por mais de 300 fontes de gua natural, o verde predominante na chapada mesmo em tempos de forte seca, considerado um verdadeiro osis encravado no serto nordes-tino. Para Anderson, este o maior patrimnio, na questo ambiental do Cariri. a Chapada do Araripe que provoca o equilbrio trmico na re-gio, propiciando um clima mais ameno, chuvas em maior quantidade e uma floresta mais mida e verde, comenta.

    E por causa dessa riqueza geolgica e hdrica que em 1946 a Chapada do Araripe se torna a primeira Floresta Nacional (Flona) do Brasil, a Flo-resta Nacional do Araripe-Apodi, ou simplesmente Flona Araripe, uma das unidades de conservao mais ricas em diversidade ambiental no pas, se-gundo o Instituto Chico Mendes de Conservao da Biodiversidade (ICMBio). Em 1997, parte de seu territrio passa a ser reconhecido como rea de proteo ambiental (APA). Em 2006, passa a integrar a Rede Mundial de Geoparques, reco-nhecido pela UNESCO - Organizao das Naes Unidas para a Educao, a Cincia e a Cultura como um relevante patrimnio geolgico e pa-leontolgico mundial. O Geoparque Araripe foi o primeiro Geoparque das Amricas, que atualmen-te conta com mais dois: O Geoparque uruguaio Grutas Del Palacio e o canadense Stonehammer Geopark.

    A Chapada do Araripe o maior patrimnio do Cariri

    Pangeia, nico continente no planeta at ento, deu origem a dois megacontinentes chamados de Laursia e Gondwana.

    1

    O Gondwana desmembra-se, for-mando o que atualmente a Amrica do Sul e frica.

    2

    A separao entre os continentes abriu enormes crateras, permitindo que a gua dos oceanos escorresse at Vale do Cariri.

    3

    Vista Global da terra atualmente.4

    A Teoria da Deriva Continental afirma que os continentes se movimentam por meio das placas tectnicas. Fenmeno que modificou a estrutura da terra, e contribuiu para formao da Chapada do Araripe.

    Milhes de anos atrs

    200 120 40 Hoje

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    OS FSSEIS ENCONTRADOS NA CHAPADA DO ARARIPE AJUDAM A RECRIAR SUA HISTRIA. NAS ROCHAS, POSSVEL IDENTIFICAR QUAIS RIOS E CORRENTES MARTIMAS PERCORRERAM O CARIRI. Foto: Divulgao/ Geosstio Pedra Cariri

    Por que a Chapada do Araripe possui essa riqueza geologica?

    O rompimento das terras proporcionou a formao de um grande lago no Vale do Cariri, com guas provindas do Mar Sul e Caribe.

    O lago se instabiliza com faunas distintas. Nas rochas da Chapada do Araripe possivel indentificar os rios e as correntes maritimas que percorreram a regio na poca.

    Atualmente o museu de paleontologia de Santana do Cariri possui um acervo de mais de 3 mil fsseis. Em destaque, fssil de peixe de aproximadamente 150 milhes de anos encontrado na regio.

    Anderson Camargo

  • PERCURSOS URBANOS10 PERCURSOS URBANOS 11

    FLONA E APA

    A Floresta Nacional (Flona) do Araripe abrange cinco cidades caririenses: Crato, Barbalha, Jar-dim, Misso Velha e Santana do Cariri. Com apro-ximadamente 39,3 mil hectares de vasta vegeta-o, possui pouco mais de duzentas espcies de pssaros e mais de 300 fontes de gua mineral, que servem de sustento para os pouco mais de 254 mil habitantes que, segundo o censo 2010 do IBGE, vivem no seu entorno. Atualmente, toda essa rea administrada pelo Instituto Chico Men-des de Conservao da Biodiversidade (ICMBio).

    Criada em 1946, a Flona Araripe tem como ob-jetivo proteger os recursos hdricos da biorregio do Araripe, no semirido brasileiro, alm de pre-servar um dos ltimos redutos da Mata Atlntica. A Lei Federal n 9.985 do ano 2000, caracteriza a regio como uma rea com cobertura florestal de espcies predominantemente nativas e que tem como objetivo bsico o uso mltiplo susten-

    tvel dos recursos florestais e a pesquisa cien-tfica. Atualmente, possui um valor incalculvel para a regio, no s no que diz respeito ao meio ambiente, mas tambm em termos econmicos, sociais, polticos e culturais.

    De acordo com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renovveis (IBA-MA), as Florestas Nacionais podem ser utilizadas para estudos cientficos, manejo florestal, turismo e lazer. Na Flona Araripe no poderia ser diferen-te, alm de proteger os recursos hdricos e as ma-tas da regio, desempenha tambm importante papel socioeconmico, com o fornecimento de alimentos, energia e plantas medicinais, alm, claro, do geoturismo.

    Hilda Daniel, estudante e tambm membro do GEA, alerta para necessidade de formular polti-cas pblicas que assegurem a retirada de recur-sos naturais, da floresta, de maneira sustentvel. Uma vez explorados de maneira no adequada, ou renovvel, poder acarretar em perdas em

    A CHAPADA DO ARARIPE ABRANGE 3 ESTADOS BRASIEIROS: CEAR , PERNAMBUCO E PIAU. Foto: Divulgao

    um futuro prximo, explica. A estudante destaca tambm a importncia de trabalhar a educao ambiental nas comunidades. H muitas famlias que vivem no entorno da chapada, que precisam e sobrevivem dela, ento, no se pode negar a elas de usufrurem dessas reas. No entanto, necessrio demonstrar o que uma Floresta Nacional, o que APA. Qual rea destinada a explorao e onde no . Portanto, necessrio reeducar essas comunidades, para que elas se tornem defensores da floresta, ressaltou.

    rea de Proteo Ambiental (APA) citada pela estudante considerada espao de planejamen-to e gesto ambiental de extensas reas que pos-suem ecossistemas de importncia regional. A APA Araripe possui uma enorme riqueza hdrica no semirido e um dos mais importantes patri-mnios arqueolgico e paleontolgico brasileiro. Abrange uma rea de pouco mais de 970 mil hec-tares, que compreendem 33 municpios nos esta-dos do Cear, Piau e Pernambuco.

    Criada em 1997, a principal meta da APA criar um Plano de Conservao, que permita o ordena-mento e o uso territorial, j que a rea destinada ao domnio privado. Todas as atividades so acompa-nhadas pela Secretaria Estadual do Meio Ambien-te Cear (Semace), pelo IBAMA e pelo ICMBio.

    Para Anderson, o tamanho - quase um milho de hectares - da rea destinada a APA acaba sen-do uma das problemticas para a fiscalizao e sua gesto ambiental. Muitos projetos, para uti-lizao de recursos da chapada, so aprovados. Mas, nem todos so fiscalizados. Muitos deles acabam retirando e explorando tais recursos de maneira no sustentvel, relata. Anderson afir-ma que s um planejamento adequado poder conservar os recursos da floresta. necessrio um projeto mais apropriado para manuteno da cobertura vegetal da floresta. ela que manter o solo e os recursos hdricos conservados, cabe a ns, humanos, e s grandes empresas, us-los de maneira sustentvel, finaliza.

  • PERCURSOS URBANOS12 PERCURSOS URBANOS 13

    FONTES E O SOLDADINHO-DO-ARARIPE

    O Cariri privilegiado por gua, apesar de se localizar na regio mais seca do Brasil, isso graas Chapada do Araripe que funciona como um reservatrio dgua proveniente das chuvas irregularmente distribudas ao longo do ano. Esse reservatrio natural contribui para a formao de fontes de gua, em especial, na formao Arajara, no Cariri. Primeiramente, por causa do perodo de chuvas mais abun-dantes no estado do Cear e tambm porque a formao Arajara possui um inclinamento que contribui para a formao dessas fontes, expli-ca Anderson.

    A formao Arajara tem funcionado por mi-lhares de anos como um gigantesco funil, cap-tando guas das chuvas, concentrando-as em um vale profcuo. A gua proveniente destas fontes possui uma vazo de quase 4 metros c-bicos por hora, principalmente as localizadas em Barbalha e parte do Crato e de Misso Ve-lha, o que suficiente para abastecer essas ci-dades, explica o professor. A gua acumulada na encosta da chapada deixa o solo mais frtil e contribuiu para a formao de mais de 300 fontes dgua no seu entorno.

    Hilda Daniel alerta sobre os recursos mate-riais que esto sendo retirados da chapada de maneira no sustentvel, o que poder afetar, futuramente, na formao das fontes. Estima--se que pouco mais de 70% da cobertura vege-tal da chapada ser destruda, e o que abas-tece essas fontes so as chuvas que caem no topo da chapada. Retirando essa cobertura ve-getal, essa gua ficar concentrada ou descer at as cidades provocando alagamentos nos centros urbanos, explica a estudante. Ander-son complementa afirmando que a destruio da vegetao nativa poder provocar a reduo na quantidade de gua das fontes, gerando problemas de distribuio de gua na regio, nos prximos 30 anos, finaliza.

    Hilda comenta tambm a falta de fiscali-zao dos rgos pblicos na distribuio da

    Se o soldadinho-do-Araripe desaparecer, o prximo poder ser ns, seres humanos

    pssaro endmico da regio, ameaado de extino. E que necessrio proteger as matas e as nascentes para que o soldadinho-do-araripe possa sobreviver, conclui. J para Fabiano de Cristo, tambm integrante do pro-jeto, o risco de desapareci-mento do soldadinho serve como um alerta para os seres humanos, o soldadinho se re-produz e vive nas encostas das nascentes, se retiramos isso deles, estaremos colocando no s em ris-co a vida do soldadinho, mas, tambm a nossa prpria existncia, j que a gua o elemento vital da nossa vida, justifica.

    O Instituto Chico Mendes, em parceria com o governo e sociedade local, lanou em 2010 um Plano de Ao Nacional (PAN), com a finalidade de evitar a extino da ave. Flaviana comenta que o objetivo principal do plano, com vigncia at agosto de 2015, garantir o hbitat para o aumento populacional da espcie. O Plano visa conservar e recuperar a qualidade ambiental do hbitat natural do soldadinho-do-Araripe (matas midas de encosta da Chapada do Araripe de Bar-balha ao Crato), com a finalidade de ampliar sua distribuio e aumento populacional, conclui.

    gua proveniente dessas fontes. Muitos balne-rios se apropriam dessas fontes, sem ao menos pedir autorizao, relata. A estudante alega que as guas acabam sendo desviadas de seu leito para o abastecimento de canais de irrigao ou de balnerios, alterando a dinmica hdrica das fontes, que passam a pertencer a lotes de man-ses, stios e condomnios construdos na cha-pada. A fonte pertence unio, no entanto, no percebemos isso aqui, finaliza. De acordo com a Companhia de Gesto de Recursos Hdricos do Estado do Cear (Cogerh), na regio do Cariri so explorados trs mil litros de gua por segundo. Entretanto, no mesmo perodo de tempo, a natu-reza s repe dois mil.

    Alm da questo social, as fontes da Chapa-da do Araripe so essenciais para a manuteno da vida do soldadinho-do-araripe - tangara mais ameaado de extino do planeta, de acordo com o Instituto Chico Mendes de Conservao da Bio-diversidade (ICMBio) - devido aos hbitos repro-dutivos da espcie serem restritos s nascentes. Atualmente estima-se que existam 800 espcies aos arredores das encostas da chapada, sendo essa espcie exclusiva da regio do Cariri.

    Flaviana Santos, integrante do Projeto solda-dinho-do-Araripe, afirma que alm de proteger o pssaro, exclusivo da regio, um dos objetivos do projeto conscientizar a populao da regio. Fazer a populao reconhecer que temos um

    Fot

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    Fabiano de Cristo

  • PERCURSOS URBANOS14 PERCURSOS URBANOS 15

    GEOPARQUE

    O Geoparque Araripe, criado em 2006, abrange os municpios de Crato, Juazeiro do Norte, Bar-balha, Misso Velha, Nova Olinda e Santana do Cariri, todos na regio do Cariri, apresentando uma rea aproximada de 3.796 Km. um ter-ritrio que possui um notvel patrimnio geolgi-co aliado a uma estratgia de desenvolvimento sustentvel regional, baseado em atividades de geoconservao e geoturismo, aponta Francisco Idalcio, coordenador do Geoparque Araripe.

    A regio caracterizada pelo importante regis-tro geolgico do perodo Cretceo. Destacando seu contedo paleontolgico, com registros de 150 e 90 milhes de anos, apresentando um es-tado de conservao impar, revelando uma diver-sidade paleobiolgica invejvel.

    Dessa forma, com o intuito de preservar este patrimnio geolgico e de importncia cientfica, educativa e turstica, foi encaminhada em 2005, sob a iniciativa da Universidade Regional do Cari-ri (URCA), atravs da Secretaria da Cincia, Tec-nologia e Educao Superior (SECITECE), com o

    apoio do Servio Alemo de Intercmbio Acad-mico (DAAD) e o Governo do Estado do Cear, a proposta de candidatura do Geoparque Araripe UNESCO, visando a sua integrao a Rede Global de Geoparques (GNN).

    Em setembro de 2006, o Geoparque Araripe passa a ser reconhecido pela Rede Global de Ge-oparques como o primeiro das Amricas. O que significou uma rea de proteo a riquezas geo-lgicas e paleontolgicas, com reconhecimento internacional.

    O Geoparque Araripe foi dividido em nove uni-dades de conservao, os chamados geosstios. A escolha e demarcao de um geosstio feita atravs de levantamento de seus potenciais geo-lgicos e cientficos, levando em conta outros po-tenciais, seja natural, social ou turstico, afirma Idalcio. Estes parques esto localizados em seis municpios do Cariri, j citados acima. Em todas essas cidades possuem representaes de estra-tos geolgicos e em quatro deles existem forma-es fossilferas. Segundo Idalcio, o Geoparque

    SEDE DO GEOPARK ARARIPE, LOCALIZADO NA CIDADE DO CRATO. Foto: Cariri Notcias

    Araripe possui 26 geosstios, no entanto, apenas nove esto aptos a receber visitao. futuramen-te pretendemos trabalhar nessas unidades, para que possamos aumentar o nmero de geosstios do Geoparque Araripe. Idalcio comenta tambm o trabalho que est sendo realizado com as co-munidades que vivem nos entorno desses geoss-tios. Estamos trabalho com essas comunidades para que elas conheam o que um geosstio, para que elas conservem-nos. Porque futuramen-te queremos que cada uma dessas comunidades sejam responsveis pelo seu geosstio, finaliza.

    Hilda Daniel conta que o Geoparque foi criado para preservar reas naturais com trs caracte-rsticas. A fauna, a flora, alm da riqueza pale-ontolgica, arqueolgica e a geolgica, comple-ta. Acrescenta ainda que dever do Geoparque conservar os Geosstios de maior relevncia geo-lgica e paleontolgica; proporcionar populao local e aos visitantes oportunidades de conhecer a regio atravs do turismo, alm, claro, de di-vulgar a cultura regional e suas manifestaes e as formas de utilizao sustentvel dos recursos naturais na regio, ou seja, desenvolver a regio de maneira sustentvel, atravs do geoturismo, desenvolvendo assim a regio econmica e so-cialmente, finaliza a estudante.

    O Geoparque Araripe um dos mais completos do mundo. Segundo Idalcio, o Geoparque preser-va reas que vo do estudo geolgico: com rochas de mais de 600 milhes de anos; paleontolgico: com seus fsseis de dinossauros e pterossauros; histrico: por a regio contar a ocupao do inte-rior do pas; ambiental: protege um dos ltimos redutos de Mata Atlntica, que mesclado com a caatinga, bioma exclusivamente brasileiro, d ori-gem s espcies nicas; religiosa: pelas romarias que giram em torno do Padre Ccero em Juazeiro do Norte; e, por fim, o cultural: pelas inmeras manifestaes de cultura popular que a regio possui. Ou seja, O Geoparque Araripe a regio do Araripe, tem que ter a cara do Cariri, a nossa cultura, a nossa religio e as nossas riquezas na-turais, complementa o coordenador. GEOSSTIO MISSO VELHA, UM DOS NOVE GEOSSTIOS, ADMINISTRADOS PELO GEOPARK ARARIPE. Foto: Mrcio Feitosa

  • Geoparque AraripeGeosstios

    Situado no Stio Olho Dgua, tambm em Misso Velha,caracteriza-se pela existncia de uma Floresta Petrificada, com fragmentos de trocos petrificados com aproximadamente 145 milhes de anos.Um importante tesouro paleontolgico de valor incalculvel.

    Geosstio Floresta Petricada do Cariri2

    Localiza-se no Parque Ecolgico Riacho do Meio, em Barbalha, contempla uma rea de vegetao densa, onde esto preservadas a fauna e flora nati-vas da serra do Araripe. O local oferece tambm espao para realizao de trilhas ecolgicas.

    Geosstio Riacho do Meio 3

    Localizado em Juazeiro do Norte, a colina do Horto, compreende um dos lo-cais de maior devoo popular do Nordeste. L est localizada a esttua do Padre Ccero, importante figura mstica da regio, que move milhes de fiis todos os anos cidade.

    Geosstio Granito 5

    Geosstio Ponte de Pedra 4Localizado no stio Olho Dgua de Santa Brbara, que liga Crato a Nova Olin-da. Na regio h vestgios arqueolgicos das populaes pr-histricas. So gravuras e pinturas rupestres e achados ocasionais de restos de cermica e de material ltico usado pelos antigos habitantes Kariri.

    Situado no Parque Estadual Stio Fundo, no Crato, caracterizado pela presena de fontes naturais de gua. Muitas dessas fontes tornaram-se

    balnerios e reas de lazer para a comunidade local.

    Geosstio Batateiras 6

    Localizado entre as cidades de Santana do Cariri e Nova Olinda, compreen-de uma antiga rea de minerao de calcrio, conhecida por Mina Triunfo.

    Apresenta um elevado valor cientfico, devido presena de diversos fsseis como de insetos, pterossauros, peixes e vegetais.

    Geosstio Pedra Cariri 7

    Situado no Stio Canabrava, em Santana do Cariri, a regio considerada uma as reas mais antigas de achados de fsseis do planeta.

    J encontraram por l restos de pterossauros, tartarugas e vegetais

    Geosstio Parque dos Pterossauros 8

    Localizado no topo da chapada do Araripe, numa altitude de aproximadamen-te 750m, d uma vista panormica da cidade de Santana do Cariri. considerada a rocha mais jovem da Bacia Sedimentar do Araripe,

    com 90 milhes de anos.

    Geosstio O Pontal da Santa Cruz 9

    PIAU

    JUAZEIRO DO NORTE

    MISSO VELHABARBALHA

    CRATOSANTANA DO CARIRI

    NOVA OLINDA

    CEAR

    PERNAMBUCO

    9

    874 5

    6

    3

    1

    2

    Localizado no Stio Cachoeira no Municpio de Misso Velha, caracteriza-se por suas quedas daguas, de aproximadamente 12 metros de altura. Aqui esto preservados icnofsseis, estruturas que segundo os paleontlogos so vest-gios da atividade viral de antigos organismo invertebrados aquticos.

    Geosstio Misso Velha1

  • PERCURSOS URBANOS18 PERCURSOS URBANOS 19

    A COMISSO CIENTFICA DO IMPRIO:A REDESCOBERTA DO CEAR

    H mais de 150 anos, cientistas brasileiros do governo Imperial

    viajaram ao Cear com o objetivo de conhecer os sertes do Brasil

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    P ercorrer, descrever, inventariar e ilustrar, so algumas das aes realizadas por comisses cientficas nos diversos lugares por onde passam. Relatos estes que se transformam em documentos do conhe-cimento e em produes do redescobrimento da histria.

    Revisitar o passado e conhecer a histria. Imaginar um Cariri que pouco conhecido por seus habitantes, a partir de um olhar vindo de fora, o que a assessora tcnica e estudante de administrao pblica Luciana de Medeiros afirma ao comentar da importncia dos relatos da Comisso Cientfica de Explorao na histria cearense e caririense.

    A Comisso Cientfica de Explorao, designa-da oficialmente de Comisso Exploradora das Pro-vncias do Norte, foi desenvolvida em 1856 pelo Instituto Histrico e Geogrfico Brasileiro (IHGB), principal instituio cientfica do Brasil no pero-do. Para o historiador Paulo Santos, o objetivo da Expedio era enviar para provncias do Norte, at ento desconhecidas, pesquisadores para catalogarem recursos naturais de um Imprio re-cm-constitudo, alm do desejo de dar sentido natureza brasileira no projeto de integrao da nao e de suas riquezas naturais, acrescentou.

    Patrocinada pelo Imperador do Brasil, Dom Pedro II, a expedio foi comandada por alguns dos principais cientistas brasileiros da poca, e tornou-se a primeira Expedio Cientfica forma-da, exclusivamente, por pesquisadores nacio-nais. Para Luciana, essa era a chance do Brasil, recm-independente de Portugal, estabelecer uma cincia autnoma e uma nova identidade nacional. O principal objetivo ali era dar ao Brasil uma nova identidade, e de uma vez por todas se desvincular de Portugal. A expedio surge para mostrar essa independncia, ao passo que se de-senvolve um projeto cientfico 100% brasileiro, justifica.

    Outro objetivo do governo imperial era conhe-cer as regies brasileiras de pouco interesse dos naturalistas estrangeiros e descobrir os recursos naturais e minerais existentes nas provncias do Nordeste brasileiro. A Comisso tinha uma meta audaciosa colher informaes sobre fauna, flora, minerais, geografia, alm do comportamento e costumes da populao. O governo queria pro-mover a integrao regional do pas e ao mesmo tempo buscar potenciais recursos naturais, como metais preciosos.

    Constituda a princpio para desvendar as pro-vncias do norte brasileiro, a Comisso Cientfica limitou-se apenas a provncia cearense aps a fal-ta de verbas e os questionamentos em relao validade do projeto. Para Ana Cristina, secretria escolar e estudante de histria, outra possibilida-de da Expedio se reter apenas ao Cear foi o boato da existncia de ouro na provncia. Fala-va-se da existncia de minas de ouro em monta-nhas no estado, j que acreditava-se que o solo cearense era rico em minrios, comentou.

    Foram trs anos de preparao para a expe-dio. Alguns dos equipamentos utilizados pela comisso, cmeras fotogrficas, microscpios, medicamentos, foram adquiridos na Europa. A Comisso Cientfica de Explorao foi a primeira no Brasil a fazer registros fotogrficos, no entanto, esse material se perdeu no naufrgio do Iate Pal-pite. A chegada da Comisso Cientfica em terras cearenses decretou a integrao da provncia ao projeto de constituio brasileira. A ideia de Expe-dio tambm estava atrelada a ideia de unifica-o, de desvendar terras jamais exploradas, por isso as terras do Norte e Nordestes ficaram apon-tadas como as primeiras a serem exploradas.

    Nos passos da Comisso Cientica no Cear

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    O pintor da Comisso, Jos dos Reis Carvalho, retratou os edifcios das povoaes visitadas, como a igreja matriz de Aracati, antiga capital do Cear (reproduo / Comisso Cientfica do Imprio: 1859-1861).

    O martim-pescador-pequeno, comum beira de rios, e lagos, em ilustrao feita a partir da coleo de zoologia reunida pelo ornitlogo Manuel Ferreira Lagos (reproduo / Comis-so Cientfica do Imprio: 1859-1861).

    Jos dos Reis, tambm fazia pinturas botnicas, provavel-mente a pedido de Freire Alemo. Nesta imagem, est um exemplo de Rubiaceae, planta que produz o caf (reprodu-o / Comisso Cientfica do Imprio: 1859-1861).

    Pescas das piranhas em Russas Quix, retratada por Jos dos Reis Carvalho em 18 de setembro de 1859 (reproduo / Co-misso Cientfica do Imprio: 1859-1861).

    FORTALEZA

    ARACATI

    RUSSAS

    CRATOMISSO VELHA

    BARBALHA

    JARDIM

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    VIOSASOBRAL

    UBAJARA

    JAGUARIBE

    Trajeto descrito no pri-meiro Dirio de Freire Alemo.

    Trajeto descrito no se-gundo Dirio de Freire Alemo.

    LEGENDA

    ACARA

    IC

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    A EXPEDIO CHEGA AO CEAR

    Aps trs anos de preparao, finalmente em fe-vereiro de 1859 os principais representantes da elite intelectual brasileira desembarcaram em Fortaleza para uma viagem de dois anos e cinco meses provncia cearense. Iniciava-se a Comis-so Cientfica de Explorao, formada por botni-cos, zologos, gelogos, etngrafos e artistas que objetivavam estimular a criao de uma cincia exclusivamente brasileira.

    A Comisso foi dividida em cinco sees, cada uma chefiada por um associado do IHGB. Perso-nalidades ilustres e os principais cientistas brasi-leiros do perodo, hoje imortalizados em diversas reas do conhecimento e da produo literria integraram a comitiva, entre eles, destacam-se: O presidente da Comisso, Francisco Freire Ale-mo, botnico e chefe da seo Botnica; o fsico Guilherme Capanema, responsvel pela seo Geolgica e Mineralgica; Manuel Ferreira Lagos, encarregado da seo de Zoologia; a seo Etno-grfica ficou sob o comando do poeta Gonalves Dias e, por fim, a seo Astronmica e Geogrfica, chefiada pelo matemtico Giacomo Raja Gaba-glia. A comitiva contou tambm com a participa-o do tenente da Marinha, Jos dos Reis Car-valho, discpulo do pintor francs Jean Baptiste Debret. Reis foi o desenhista oficial da expedio, e produziu desenhos e aquarelas da natureza e da arquitetura da provncia.

    Uma das principais fontes da passagem da Comisso Cientfica nas terras cearenses foi re-gistrada pelo presidente e chefe da seo de bo-tnica, Freire Alemo. Apesar do nome estrangei-ro, Freire Alemo era brasileiro, natural do Rio de Janeiro. Com seu olhar investigativo, o botnico registrou passo a passo da Expedio, tornando seu dirio de campo a principal fonte histrica da-quela comisso.

    Segundo o dirio de Freire Alemo a Expedio iniciou-se em 30 de maro de 1859 e teve seu fim em 24 de julho de 1861. Para Luciana, esse dirio representa um valioso documento para que se possa conhecer nossa histria, bem como a representao que os de fora faziam de nossa gente, comenta.

    Luciana relata tambm a importncia do dirio do botnico nas narrativas da comisso. Freire Alemo retrata de maneira clara e minuciosa o modo de vida da provncia [do Cear] no pero-do. H relatos ou simplesmente documentao acerca das singularidades do clima, do relevo, da culinria, dos elementos naturais, do comporta-mento das pessoas, conclui.

    A Expedio tornou pblica um dos grandes desafios da provncia cearense, e, que ainda per-siste atualmente, a seca. O principal propagador da problemtica foi Guilherme Capanema, res-ponsvel pela seo de Geologia e Mineralogia. O fsico chegou a apresentar relatrios sobre o tema ao IHGB. A partir da expedio, o Cear passa a ser entendido como um problema a ser resolvido tanto pela comitiva quanto pelo governo imperial, comentou Cristina.

    Alguns membros da Comisso Cientfica logo relacionaram o tal ouro prometido no Cear com a gua. Os audes, poos, reservatrios eram os verdadeiros tesouros daquele povo e a coisa mais cara por estas bandas, aponta Cristina, len-do os relatos de Capanema. E conclui: falta-lhes somente a gua, que, quando chega, constitui a felicidade da Provncia.

    Em contraponto com a temtica de Capanema, Freire Alemo apresentou, em seus relatos, um Cear rico em belezas naturais, cheio de terras frteis e bela vegetao. No seu dirio, o botni-co relata o inferno de viajar pelo serto durante o inverno, So lamas, atoleiros, riachos e rios

    cheios. Chuvas, trovoadas, moscas, mariposas, descreveu Freire Alemo.

    Cristina conta que a comisso presenciou o reverso da estao climtica, da seca extrema gua abundante. Encontraram no Cear abun-dncia de uma terra frtil e mal administrada. Eles puderam observar um surto de lamento e desolao com a seca e logo depois com a chega-da da chuva a transformao dos campos secos e rachados por uma vegetao verde e irradiante, comenta com os relatos de 1862.

    Foi uma expedio rdua, os cientistas tiveram grandes dificuldades de deslocamento por conta da falta de estradas. Muitas vezes, tiveram que atravessar rios e abrir caminho em regies de mata com o auxlio de faces. Ao final da viagem, o grupo trouxe uma extensa coleo de botnica, geolgica e zoolgica, alm de exemplares do ar-tesanato cearense, desenhos e aquarelas. Todo esse legado resultou em um aumento significati-vo das colees do Museu Nacional e do Museu Imperial. O primeiro, por exemplo, conta at hoje com materiais disponibilizados pela Expedio.

    ARTE DE JOS DOS REIS CARVALHO, REPRESENTA UM RIO COM GUA, NA POCA DAS CHUVAS, E A VEGETAO ENCOBRINDO O ENTORNO. Foto: Reproduo / Comisso Cientfica do Imprio: 1859-1861.

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    A EXPEDIO NO CARIRI

    Como as sees tinham finalidades diferentes, elas no seguiram o mesmo rumo. As sees de botnica e zoolgica, por exemplo, saram de Aracati com destino regio do Cariri, sul da pro-vncia cearense. Seguindo pelas margens do rio Jaguaribe, chegaram regio caririense em de-zembro de 1859 e se fixaram na cidade do Crato. Cristina relata, de acordo com relatos do Freire, que a comitiva foi bem recepcionada na cidade e em outras cidades da regio. Eles permane-ceram na regio at abril de 1860. Alguns dos cientistas chegaram a cogitar a possibilidade de residir na regio, como o Gonalves Dias, que, acabou se apaixonando pelas belezas do Cariri, finaliza.

    Por meio do dirio de Freire Alemo, Luciana descreve as impresses do botnico sobre a re-gio. As belezas naturais da chapada que com-punha a paisagem da regio foram descrita como um bonito panorama que revestia a regio com uma vigorosa vegetao, contrastando com o as-pecto do serto. Outro aspecto destacado pela assessora tcnica est nos espetculos apresen-

    tados no teatro local. Nos relatos do Freire ele afirma que o teatro do Crato era mais bem equi-pado e tinham espetculos teatrais de melhor qualidade do que os de Fortaleza, acrescentou.

    Diferente da capital, a chegada da Comisso causou um misto de reaes no Cariri. As pes-soas ficavam surpresas, havia um sentimento de referncia pelos cientistas; alguns viraram motivo de chacota; outros por estarem, bem paramenta-dos e cheios de equipamentos, foram considera-dos ricos. Ento, a populao pedia dinheiro, ou outro tipo de esmola, finaliza Luciana. No dirio do Freire Alemo era descrito a misria na regio. A quantidade de pobres, rfs, de presos de ca-deia que pediam esmolas comisso. Para o bo-tnico, tal misria era fruto apenas da preguia daqueles miserveis, j que o ambiente em que viviam era bastante produtivo. A pobreza, por indolncia vive miseravelmente, porque e terra muito produtiva, relatou Freire Alemo.

    REAO POPULAR

    Ao desembarcarem na provncia cearense, os membros da comisso cientfica logo causaram estranhamento entre os nativos. Acreditava-se que aqueles senhores vieram em busca de uma riqueza potencial para entregarem aos estrangei-ros e posteriormente escravizarem o povo do cea-r, relatou Paulo.

    Outros consideravam os prprios membros da comisso cientfica estrangeiros. Por seu portu-gus formal, tcnico e cientfico, modo de se ves-tir e tambm pela parafernlia cientfica e outros objetos muitos populares apontavam como es-trangeiros, finaliza o historiador.

    Em suas anotaes, Ana Cristina comenta o porqu do estranhamento dos nativos em relao aos cientistas. A estudante analisa que os cea-renses entendiam a sua nacionalidade como Bra-sil, ou seja, o Cear para eles era o Brasil. Nesse caso, quem no fosse cearense, era considera-dos estrangeiros, para os nativos, ressaltou.

    Apesar do estranhamento dos nativos, a comi-tiva contou com o saber popular durante a expedi-o. Um dos episdios relatado pelos cientistas da comisso durante sua passagem pelo munic-pio de Ubajara. Eles decidem dormir em redes do lado de fora da casa rejeitando o aviso do dono que logo iria chover. Analisando o cu com seus aparelhos sofisticados, a comitiva constatou no haver a possibilidade de chuva. Armaram as redes na varanda da casa, horas depois, so pegos por uma tempestade que os fossam a entrar na casa. Ao amanhecer, o dono da casa conta como previu aquela chuva, e explicou, que o burro que man-tm amarrado na cerca do stio relincha de deter-minada maneira, avisando que vir gua do cu, descreve Cristina com seu caderno de anotaes. VISTA DA CIDADE DO CRATO. 14 DE MARO DE 1860. AQUARELA DE JOS DOS REIS DE CARVALHO. Acervo do Museu de Arte Vicente Leite, Crato-CE.

    REPRESENTAO DE CENA COTIDIANA CEARENSE, SEM INDICAO DE LUGAR. Foto: Acervo Comisso Cientfica do Imprio: 1859-1861.

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    FRACASSO E POLMICA

    A memria da expedio cientifica no ficou ape-nas marcada pelas suas descobertas cientficas. Muito pelo contrrio, ficou marcada por aconte-cimentos pitorescos. Uma das mais comentadas da tentativa de aclimao de 14 dromedrios provenientes da Arglia. Sem sucesso! Logo no primeiro teste um dos camelos caiu e quebrou a pata ao realizar o trajeto entre Fortaleza e Batu-rit. Episdio que levou o presidente da provncia do Cear acusar ironicamente Gonalves Dias, que estava utilizando o camelo como meio de lo-comoo no momento, de camelicdio.

    Outra polmica ficou com a fama dos doutores serem namoradores, o que conferiu um apelido para o comit de Comisso Defloradora, segun-do Luciana, havia relatos nos dirios do Freire Alemo de noites festivas com a companhia de jovens mulheres e bebidas. Comisso das Bor-boletas foi outro nome dado expedio, que, sofreu crticas de populares que consideravam um gasto intil do dinheiro pblico para pesqui-sar plantas. E para ironizar eles comentavam, vo pesquisar borboletas, relata Luciana.

    LEGADO

    A viagem, de dois anos e cinco meses, gerou uma vasta documentao: relatrios, dirio de viagem, apontamentos sobre a seca, estudos botnicos, alm de objetos coletados na provncia cearense. Atualmente, alguns destes materiais, encontra-se nas instituies do Rio de Janeiro, como o Museu Histrico Nacional (MHN) e o Instituto Histrico e Geogrfico Brasileiro (IHGB). No Cear, algumas pinturas de Reis de Carvalho encontra-se no Mu-seu do Crato.

    A comisso foi pioneira no Brasil ao fazer regis-tros fotogrficos, no entanto, o material se perdeu no naufrgio do Iate Palpite. Bem-sucedida ou no, a Comisso Cientfica de Explorao contribuiu para a ideia de que o Brasil podia sim fazer cin-cia. Foi a partir da Comisso Cientifica que o gru-po nacional de cientistas brasileiros se expandiu.

    Em 1995 a Escola de Samba Imperatriz Leopol-dinense levou para a Marques de Sapuca o en-redo Mais vale um jegue que me carregue, que um camelo que me derrube... L no Cear. A escola contou em seu desfile a histria da Comisso Cientfica de Explorao a partir da ideia de Dom Pedro II desenvolver uma expedio cientfica 100% brasileira. Em seu desfile, a escola demonstra a escolha do Cear, para expedio, pela suspeita de que l havia inmeras riquezas. No entanto, foi a substituio dos jegues pelos camelos provenientes da Arglia que chamou a ateno da carnavalesca Rosa Magalhes. A partir do fracasso da tentativa da aclimao dos camelos e a escolha do jegue como melhor animal para transportar os membros da comisso, a escola proclamava Abaixo o camelo, Viva o Jegue!. Embalada por um grande samba, a escola realizou um belo desfile e conquistou o bicampeonato do Carnaval Carioca.

    Balanou, no deu certo noPois no passou de ilusoEles trouxeram o balano do desertoMas no o gingado certoPra cruzar o nosso cho

    Comisso Cientca no Carnaval Carioca

    Gravuras que mostram parte do espao re-servado para o Brasil na Exposio Interna-cional de Londres, de 1862. Em razo da Comisso Cientfica, o Cear foi a provncia mais bem representada. Londres foi invadi-da por produtos da carnaba e diferentes es-pcies de abelhas do Cear, sem falar das redes, tecidos de algodo, lenos bordados e rdeas de couro. Dezenas de redes pendu-radas fizeram um belo efeito de conjunto.

    Cear na Exposio Internacional de Londres

    CURIOSIDADESSERVIO

    OS ZIGUEZAGUES DO DR. CAPANEMA: CIN-CIA, CULTURA E POLTI-CA NO SCULO XIXManoel Francisco de Carvalho , Maria Sylvia Porto Alegre.

    Secretaria da Cultura do Estado do Cear, 2006. 372 pginas.

    DIRIO DE VIAGEM DE FRANCISCO FREIRE ALEMO: FORTALEZA-CRATO. 1859 Francisco Freire Alemo

    Museu do Cear, 2006. 235 pginas.

    COMISSO CIENTFICA DO IMPRIO: 1859-1861

    Magali Romero Sa, Lorelai Kury, Maria Margaret Lopes, Kaori Kodama, Silvia Figuei-roa

    Andrea Jakobson. 272 pginas.

    Samba Enredo da Imperatriz em 1995

  • PERCURSOS URBANOS28 PERCURSOS URBANOS 29

    Jos dos Reis Carvalho retratou o costu-me dos sertanejos, tanto em festas quan-to em situaes menos alegres.

    A Comisso Cientfica trouxe da frica 14 dromedrios e tentou aclimat-los no

    Cear, sem sucesso. O episdio uma das histrias mais contadas sobre a expedio.

    Igreja de Nossa Senhora da Conceio em Jaguaripe. Desenho de

    Jos Reis de Carvalho.

    Vista da cidade de Ic, onde a Comisso Cientfica acampou

    por 40 dias.

    Pintura de Jos Reis de Carvalho repre-sentando o universo feminino cratense.

    A maioria das mulheres, segundo relatos dos viajantes, andava sempre coberta

    com mantas.

    Pssaro no identificado. As ilustraes de aves fazem parte do acervo feito a

    partir da coleo de zoologia reunida pelo ornitlogo Manuel Ferreira Lagos

    Expedio em

    A R T E

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    Quem foi?

    Participar de um Percursos foi um excelente aprendizado, e ter a oportunidade de mediar um, foi mais gratificante ainda. O per-cursos um projeto que est em prol da cultura, lindo isso. Esse projeto no deve parar nunca, ele no um projeto nota 10, no! nota 1000!

    O Percursos Urbanos muito mais que um passeio no sba-do tarde. um compartilha-mento de conhecimentos de temas diversos. O contato hu-mano, atravs do bate-papo no nibus, nos locais que visi-tamos, faz surgir uma energia na qual no encontramos nas salas de aula. A alegria e a in-terao das tardes no percur-so nos fazem pensar o quanto o conhecimento vlido.

    Mediar um Percursos foi uma ex-perincia bastante interessante. O projeto em si fantstico! um tipo de ao educativa profunda, que encanta, passando pelo afe-to, pelo sentido das pessoas. Essa aproximao com o pblico e com o ambiente que ser estudado, caracterstico do projeto, tornar o aprendizado mais eficaz.

    O Percursos Urbanos um proje-to que vem contribuindo e mui-to com as minhas produes na universidade, desde artigos minha monografia. Ir aos s-bados tarde, conhecer novas pessoas e lugares, poder deba-ter sem medo de ser criticada, proporciona momentos riqussi-mos de aprendizado, no s pra mim, mas, para os demais parti-cipantes tambm. O projeto abre portas para aquelas pessoas no visibilizadas, que possuem o saber popular como formado-res de vida, e isso, muito lindo! Porque demonstra que no h uma segregao de conhecido, estamos todos ali para aprender e trocar ideias.

    Mestre Gilberto Diretor da Associao Cultural Capoeira Arte e Tradio

    Elizabete Santos Estudante de Cincias Sociais

    urea BarbosaEstudante de Cincias Sociais

    Luciana de MedeirosEstudante de Administrao Pblica

    um dos projetos mais interes-santes que eu j participei. O Percursos Urbanos possibilita compreendemos e entendemos sobre determinados temas da nossa regio que esto to per-to e ns no conhecemos. Poder sair no sbado, conhecer esses temas, vivenciar e conversa com pessoas que vivem ou partici-pam daquilo, um dos pontos mais instigantes do projeto.

    Morgana SiqueiraEstudante de design

    Ter mediado um Percurso Ura-bnos foi uma das atividades mais envolventes e dinmicas em que participei e acredito que ele contribue para a elu-cidao dos temas discutidos durante o projeto.

    Jucieldo FerreiraProfessor de histria da UFCA

  • NARRATIVAS EM VOLTA DO FOGO

    Conhea mais um projeto da Universidade Federal do Cariri. O Narrativas em Volta do Fogo, ocorre nos ltimos sbados de

    cada ms s 18 horas, no Largo da RFFSA, cidade do Crato.