Revista Percursos Urbanos Cariri

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  • PERCURSOS URBANOS 1

    PERCURSOS URBANOSREVISTAUniversidade Federal do Cariri - Curso de Jornalismo - 1 Edio - setembro de 2014

    UM PERCURSO PELACHAPADA DO ARARIPE

    PECORRENDO OS PASSOS DA EXPEDIO CIENTFICA

  • O projeto Percursos Urbanos surgiu em Fortale-za, em 2002, pela ONG Mediao de Saberes (ou Coletivo MESA), integrando a programao do Centro Cultural Banco do Nordeste (CCBNB), em 2004, para a realizao de trajetos culturais den-tro de um nibus urbano comum. As conversas se do dentro de um coletivo, com uma caixa de som e microfone aberto a todos. Em 2011 expan-de suas parcerias e chega ao Cariri, como projeto de extenso do curso de Jornalismo da ento Uni-versidade Federal do Cear (UFC), hoje do Cariri (UFCA), em parceria com o CCBNB de Juazeiro do Norte.

    A cada dois sbados ao ms, um nibus sai conduzindo um grupo de pessoas, de diversas faixas etrias, para um passeio at ento desco-nhecido. O roteiro segue uma temtica e a partir dela, com debates entre mediao e o pblico participante, construmos uma nova viso da ci-dade, discutindo questes latentes na concepo do tecido social e urbano. Cada edio traz um recorte cultural da cidade sob os pilares da me-mria social, do patrimnio material e imaterial, da poltica e da transformao das tradies. De 2011 a setembro de 2014 foram realizadas mais de 60 edies, em todas, discutimos assuntos re-ferentes regio do Cariri.

    PERCURSOS URBANOS

    CAPA: CHAPADA DO ARARIPEFOTO: RICA BANDEIRA

    EXPEDIENTE

    REPORTAGEMCCERO DANTAS

    PROFESSOR COLABORADOR TIAGO COUTINHO

    DESIGN GRFICOCCERO DANTAS

    Com um tema definido, mediador e o pblico, visitamos dois a trs locais da regio que tenha alguma referncia com o tema em questo. O mediador funciona como um facilitador para con-duo, ao longo do trajeto, sendo responsvel por repassar um pouco da sua experincia no as-sunto discutido. O projeto segue a perspectiva da educao popular e informal, assim, o interces-sor no necessariamente ser um professor ou pesquisador. necessrio apenas ter um amplo conhecimento no assunto para que possa com-partilhar com os participantes.

    Atualmente, o projeto est sob a coordenao do professor de jornalismo da UFCA Tiago Cou-tinho, auxiliado pelos estudantes de jornalismo Alana Maria, Antonio Rodrigues, Ccero Dantas, rica Bandeira, Felipe Vieira, Rodolfo Santana, Sauanny Lima e Uni Barros.

    UNIVERSIDADEFEDERAL DO CARIRI

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    O Projeto Percursos Urbanos ocorre dois sbado por ms, com sada s 15 horas do Centro Cultural Banco do Nordeste. Nossa Misso, alm do passeio de sba-do tarde, conhecer a diversidade cul-tural urbana existente na regio do Cari-ri. O projeto pretende contemplar temas e pblicos heterogneos, com nveis de renda muito diversificados, de diferentes segmentos scio-culturais. Assim, a cida-de cresce, tem sua percepo favoreci-

    Inscries no:

    Participe!

    da, tornando-se mais cosmopolita, ciosa de sua pluralidade e diversidade. O Per-cursos funciona como um frum de dis-cusses sobre os desafios e as potncias da regio. Para participar, voc deve ape-nas, realizar sua inscrio na recepo do Centro Cultural Banco do Nordeste.

  • PERCURSOS URBANOS4 PERCURSOS URBANOS 5

    CAROS LEITORES,

    Nesta edio da revista Percursos Urbanos, ire-mos percorrer e conhecer a Chapada do Araripe, localizada ao sul do estado do Cear, que serviu de cenrio para algumas das edies do projeto Per-cursos Urbanos. Suas belezas naturais, sua rica vegetao e as centenas de fontes de gua mine-ral serviram de inspirao para compor os rotei-ros culturais nesses trs anos de projeto no Cariri.

    Das mais de 60 edies, em nove oportunida-des tivemos a chapada como um dos trajetos pro-postos pelos mediadores. A primeira delas, foi em 2012 com o tema O Crato do Joo, conhecemos a Chapada do Araripe sob a perspectiva, vivncia e memria de Joo do Crato, educador popular local.

    As Lendas e Os Mitos do Cariri foi o tema da oitava edio. Com a mediao do mdico e es-

    critor Jos Flvio Vieira, visitamos o rio Batateira, no Crato, famoso pela lenda da Pedra da Bata-teira. Na mesma edio, conhecemos a comu-nidade barbalhense Cabeceiras, localizada aos ps da chapada do Araripe. L contamos a vida de Vicente Finim, um lobisomem da regio, que assombrava os populares locais.

    Um ano depois, voltvamos a visitar a imensa floresta, agora, na 30 edio com o tema Oasis Urbano, ttulo conquistado pela regio, graas s fontes de gua que brotam dos ps da Chapada do Araripe. Novamente visitamos o rio Batateira, dessa vez, fomos sua nascente, onde fora im-plantada a primeira hidroeltrica do interior do Nordeste. Nessa edio, discutimos sobre o pro-jeto de transposio do rio So Francisco, que

    ameaa desapropriar a comunidade Baixio das Palmeiras.

    Com o tema No Gingado da Liberdade, nosso roteiro cultural foi na busca de conhecer o Cariri pelo gingado da capoeira. E um dos locais visitados foi o stio Santo Antnio, em Barbalha, na Chapa-da do Araripe. Em um novo percursos, agora, em comemorao a dois anos de projeto na regio, visitamos a Trilha do Belmonte, no Crato, como ponto inicial para o Histrias extraordinrias.

    Para Amenizar os Bros, a Chapada do Arari-pe foi o cenrio durante todo o percurso. Procura-mos descobrir o porqu dos meses de setembro a dezembro ser to quente na regio. Floresta Na-cional, chapada e polticas pblicas sobre o uso da gua, foram discutidas no trajeto. Em mais

    um percursos totalmente na chapada, desenvol-vemos o tema Agroecologia e a experincia do semirido, visitamos a comunidade do Catol, ao sop do Araripe, e conhecemos um pouco do sistema agroflorestal desenvolvido pelos agricul-tores da comunidade.

    Em homenagem ao artista Orlando Pereira, fizemos um piquenique no Riacho do Meio, em Barbalha, na edio Um sorriso para um bando de vndalos... que homenageou a vida e obra do artista. Por fim, j em 2014, refizemos alguns dos passos da Comisso Cientifica do Imprio que veio regio no sculo XIX, conhecer e desvendar as riquezas do imenso Araripe.

    Ccero Dantas

    HISTRIAS EXTRAORDINRIAS - Percursos urbanos/ agosto- 2013

    UM SORRISO PARA UM BANDO DE VNDALOS... - Percursos urbanos/novembro - 2013AGROECOLOGIA E A EXPERINCIA DO SEMIRIDO - Percursos urbanos/outubro - 2013 UMA EXPEDIO CIENTFICA - Percursos urbanos/ abril - 2014PARA AMENIZAR OS BROS - Percursos urbanos/ setembro - 2013

    O CRATO DO JOO - Percursos urbanos/ abril - 2012 AS LENDAS E OS MITOS DO CARIRI - Percursos urbanos/ abril - 2012 NO GINGADO DA LIBERDADE - Percursos urbanos/ abril - 2013

  • PERCURSOS URBANOS6 PERCURSOS URBANOS 7

    CHAPADA DO ARARIPE: UM TESOURO GEOLGICO ENCRAVADO NO CARIRI

    Lendas, riquezas naturais, turismo e histria!

    A chapada do Araripe em 4 atos

    A brir a janela do meu quarto pela ma-nh, receber aquela brisa e olhar para a Chapada do Araripe, no tem coisa melhor! a certeza que estou no meu Cariri, o que afirma Viviane Vieira, estudante de histria que retorna ao Cariri para visitar sua famlia.

    Vista praticamente em toda regio, a Chapada do Araripe - localizada ao sul do estado do Cear, a 500 km da capital Fortaleza - alm do seu as-pecto geogrfico, tambm palco de forte misti-cismo regional.

    Lendas, mitos, histrias e estrias, a Chapada do Araripe cheia de mistrios! Josenir Lacerda, cordelista natural do Crato, aponta os ndios Ka-riris (os primeiros habitantes da regio), como os responsveis por criar esse forte misticismo em torno da chapada. A lenda da pedra da Batateira praticamente um marco. Conta a lenda, se um dia a pedra chegar a cair, todo o vale do Cariri ser inundado e voltar a ficar debaixo dgua, como um dia j foi. E quando esse dia chegar, os ndios Kariris retornaram s suas terras que um

    dia o homem branco destruiu, conta a cordelista.

    Alm da vingana dos ndios Kariris, h lendas de sereias vistas l nas cachoeiras de Misso Velha; de lobisomens nas serras barbalhenses; e de pedras misteriosas que fazem as pessoas desaparecerem, l no alto da serra do Araripe, em Porteiras. Todas essas lendas, fruto da tradio narrativa caririense, tm como plano de fundo a imensa Chapada do Araripe.

    A chapada caririense serve, tambm, de inspi-rao para os diversos grupos culturais da regio. Est presente em canes de cantores regionais, nas literaturas de cordel e nos espetculos de grupos teatrais. Alm de seu carter ambiental, a Chapada do Araripe contribui e participa efetiva-mente da cultura local.

  • PERCURSOS URBANOS8 PERCURSOS URBANOS 9

    FORMAO GEOLGICA E LEGADO

    A Chapada do Araripe localiza-se na divisa dos estados do Cear, Pernambuco e Piau, compre-ende uma rea de aproximadamente 7,6 milhes de hectares e abrange 25 municpios cearenses, 18 pernambucanos e 60 piauienses. Segundo estudos geolgicos e arqueolgicos, foi constitu-da a 150 milhes de anos, no desmembramento do supercontinente Gondwana, formado, em sua maior parte, pelos continentes que atualmente in-tegram o hemisfrio sul.

    A separao entre o que hoje a Amrica do Sul e frica, gerou uma instabilidade na regio onde localiza-se o Cariri, provocando um rebaixa-mento em suas terras, motivo este, permitiu a re-gio receber correntes martimas, estabelecendo uma nova biodiversidade. H milhes de anos, tudo isto era nivelado e ao longo do tempo os agentes erosivos e corrosivos, como o sol, a gua dos rios e da chuva, foram formando depresses, resultando no que hoje o vale do Cariri. Tudo isso possibilitou termos um livro aberto, para fa-zermos a reconstituio da evoluo desse terre-no (chapada do Araripe) e da origem da vida das espcies que aqui viveram, explicou Anderson Camargo, professor e membro do Grupo de Es-tudo e Pesquisa em Geografia Agrria (GEA) da Universidade Regional do Cariri Urca.

    A principal caracterstica de uma chapada a sua formao geolgica elevada que possui uma poro plana na parte superior. A chapada cari-riense possui em sua feio mais elevada 920 metros de altitude. Seu bioma predominante a caatinga, com reas de cerrado e mata atlntica, possui uma enorme importncia climtica para o Cariri, responsvel pela manuteno do equilbrio hidrolgico, climtico, ecolgico e edfico (aquilo que pertence ao solo) da regio.

    Privilegiada por mais de 300 fontes de gua natural, o verde predominante na chapada mesmo em tempos de forte seca, considerado um verdadeiro osis encravado no serto nordes-tino. Para Anderson, este o maior patrimnio, na questo ambiental do Cariri. a Chapada do Araripe que provoca o equilbrio trmico na re-gio, propiciando um clima mais ameno, chuvas em maior quantidade e uma floresta mais mida e verde, comenta.

    E por causa dessa riqueza geolgica e hdrica que em 1946 a Chapada do Araripe se torna a primeira Floresta Nacional (Flona) do Brasil, a Flo-resta Nacional do Araripe-Apodi, ou simplesmente Flona Araripe, uma das unidades de conservao mais ricas em diversidade ambiental no pas, se-gundo o Instituto Chico Mendes de Conservao da Biodiversidade (ICMBio). Em 1997, parte de seu territrio passa a ser reconhecido como rea de proteo ambiental (APA). Em 2006, passa a integrar a Rede Mundial de Geoparques, reco-nhecido pela UNESCO - Organizao das Naes Unidas para a Educao, a Cincia e a Cultura como um relevante patrimnio geolgico e pa-leontolgico mundial. O Geoparque Araripe foi o primeiro Geoparque das Amricas, que atualmen-te conta com mais dois: O Geoparque uruguaio Grutas Del Palacio e o canadense Stonehammer Geopark.

    A Chapada do Araripe o maior patrimnio do Cariri

    Pangeia, nico continente no planeta at ento, deu origem a dois megacontinentes chamados de Laursia e Gondwana.

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    O Gondwana desmembra-se, for-mando o que atualmente a Amrica do Sul e frica.

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    A separao entre os continentes abriu enormes crateras, permitindo que a gua dos oceanos escorresse at Vale do Cariri.

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    Vista Global da terra atualmente.4

    A Teoria da Deriva Continental afirma que os continentes se movimentam por meio das placas tectnicas. Fenmeno que modificou a estrutura da terra, e contribuiu para formao da Chapada do Araripe.

    Milhes de anos atrs

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    OS FSSEIS ENCONTRADOS NA CHAPADA DO ARARIPE AJUDAM A RECRIAR SUA HISTRIA. NAS ROCHAS, POSSVEL IDENTIFICAR QUAIS RIOS E CORRENTES MARTIMAS PERCORRERAM O CARIRI. Foto: Divulgao/ Geosstio Pedra Cariri

    Por que a Chapada do Araripe possui essa riqueza geologica?

    O rompimento das terras proporcionou a formao de um grande lago no Vale do Cariri, com guas provindas do Mar Sul e Caribe.

    O lago se instabiliza com faunas distintas. Nas rochas da Chapada do Araripe possivel indentificar os rios e as correntes maritimas que percorreram a regio na poca.

    Atualmente o museu de paleontologia de Santana do Cariri possui um acervo de mais de 3 mil fsseis. Em destaque, fssil de peixe de aproximadamente 150 milhes de anos encontrado na regio.

    Anderson Camargo

  • PERCURSOS URBANOS10 PERCURSOS URBANOS 11

    FLONA E APA

    A Floresta Nacional (Flona) do Araripe abrange cinco cidades caririenses: Crato, Barbalha, Jar-dim, Misso Velha e Santana do Cariri. Com apro-ximadamente 39,3 mil hectares de vasta vegeta-o, possui pouco mais de duzentas espcies de pssaros e mais de 300 fontes de gua mineral, que servem de sustento para os pouco mais de 254 mil habitantes que, segundo o censo 2010 do IBGE, vivem no seu entorno. Atualmente, toda essa rea administrada pelo Instituto Chico Men-des de Conservao da Biodiversidade (ICMBio).

    Criada em 1946, a Flona Araripe tem como ob-jetivo proteger os recursos hdricos da biorregio do Araripe, no semirido brasileiro, alm de pre-servar um dos ltimos redutos da Mata Atlntica. A Lei Federal n 9.985 do ano 2000, caracteriza a regio como uma rea com cobertura florestal de espcies predominantemente nativas e que tem como objetivo bsico o uso mltiplo susten-

    tvel dos recursos florestais e a pesquisa cien-tfica. Atualmente, possui um valor incalculvel para a regio, no s no que diz respeito ao meio ambiente, mas tambm em termos econmicos, sociais, polticos e culturais.

    De acordo com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renovveis (IBA-MA), as Florestas Nacionais podem ser utilizadas para estudos cientficos, manejo florestal, turismo e lazer. Na Flona Araripe no poderia ser diferen-te, alm de proteger os recursos hdricos e as ma-tas da regio, desempenha tambm importante papel socioeconmico, com o fornecimento de alimentos, energia e plantas medicinais, alm, claro, do geoturismo.

    Hilda Daniel, estudante e tambm membro do GEA, alerta para necessidade de formular polti-cas pblicas que assegurem a retirada de recur-sos naturais, da floresta, de maneira sustentvel. Uma vez explorados de maneira no adequada, ou renovvel, poder acarretar em perdas em

    A CHAPADA DO ARARIPE ABRANGE 3 ESTADOS BRASIEIROS: CEAR , PERNAMBUCO E PIAU. Foto: Divulgao

    um futuro prximo, explica. A estudante destaca tambm a importncia de trabalhar a educao ambiental nas comunidades. H muitas famlias que vivem no entorno da chapada, que precisam e sobrevivem dela, ento, no se pode negar a elas de usufrurem dessas reas. No entanto, necessrio demonstrar o que uma Floresta Nacional, o que APA. Qual rea destinada a explorao e onde no . Portanto, necessrio reeducar essas comunidades, para que elas se tornem defensores da floresta, ressaltou....