Cariri Revista - Edição 01

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Publicao bimestral sobre comportamento, economia, cultura, arte, gastronomia, meio ambiente, etc.

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  • CARIRI REVISTA 1

    caririRevistaO Mundo para o Cariri. O Cariri para o Mundo

    edio 01

    ESpEditoSElEiro

    chapadado araripE

    #serto fashion

    #meio ambiente

    as peas exclusivas de mestre seleiro, arteso contemporneo e habitante de Nova Olinda, j desfilaram na so Paulo Fashion Week e conquistaram admiradores do Brasil inteiro.

    @caririrevista

  • 2 CARIRI REVISTA

  • CARIRI REVISTA 3

    Promover a regio do Cariri, divulgando as conquistas concretas da economia, as potencialidades do desen-volvimento, a capacidade empreendedora da popu-lao, a riqueza cultural, a exuberncia da natureza. Mostrar ao mundo o que o Vale do Cariri presente e futuro a motivao que concretiza esta revista.

    Uma iniciativa que pretende oferecer aos leitores de outras paragens inicialmente Fortaleza e Braslia histrias do Cariri que cresce, que se torna cosmopolita, que participa da modernidade. Nesta primeira edio apresentamos um panorama do desenvolvimento eco-nmico dos ltimos anos e das polticas pblicas vol-tadas para a dotao de infraestrutura. Empreendemos uma aproximao da Chapada do Araripe para evoluir em todos os seus detalhes nas edies subsequentes.

    Contamos a histria do casario de Barbalha, dos cinemas do Crato, da arte em couro de Espedito Se-leiro de Nova Olinda. Na expresso do turismo religioso que possui mltiplas datas no calendrio, descobrimos quem o romeiro do sculo XXI e o que o leva ao Cariri em caravanas diversas.

    Um roteiro de compras, a feira do Crato e a visita-o ao centenrio de Juazeiro do Norte empreendida pelo escritor Daniel Walker so outros pontos da nos-

    Editora-Geral: Tuty Osrio

    #caririeditorial

    DO CaRiRiPaRa O muNDO

    sa viagem por esse vale verde que est no centro do Nordeste, e compreende, alm do Cear, espaos do Piau, Paraba e Pernambuco.

    DO muNDOPaRa O CaRiRiAo mesmo tempo em que mostramos o Cariri, nos co-locaremos em sintonia com outros centros, exibindo o que h de relevante para o nosso foco principal es-tabelecer conexes com o mundo de protagonistas de opinies e decises que agreguem informao de valor nossa regio.

    Na nossa estreia, revelamos pinceladas do trabalho do designer de moda Mrio Queiroz, conversamos a respeito de desenvolvimento regional com o empre-srio e secretrio Ivan Bezerra e lanamos os nmeros e as reflexes dos desafios em torno dos transplantes de rgos. Ainda sobre sade, trazemos aos nossos leitores os conselhos cotidianos do Dr. Drauzio Varela, mdico que compartilha o seu conhecimento para a melhoria da qualidade de vida dos brasileiros.

    Cariri que se revela. Cariri que amplia o seu olhar.

  • 4 CARIRI REVISTA

  • CARIRI REVISTA 5

  • 6 CARIRI REVISTA

    #edio o1

    MEIO AMbIEnTE

    COTIdIAnO

    08

    38

    CAPA DESTA EDIO: Espedito SeleiroFOTO: Rafael Vilarouca

    EXPEDIENTE

    DIrETOrES Isabela BezerraRenato Fernandes

    EDITOrA-GErAL Tuty Osrio | tuty@caririrevista.com.br

    EDITOr DE ArTE Fernando Brito

    EDIO DE TEXTOSClaudia Albuquerque

    rEPOrTAGEM E rEDAO Raquel ParisSarah Coelho

    FOTOGrAFIARafael Vilarouca

    PubLICIDADE88 | 3085.1323 88 | 8855.3013contato@caririrevista.com.br

    rEDAOredao@caririrevista.com.br

  • CARIRI REVISTA 7

    dESIgn

    F E TRAdIO

    dESEnVOlVIMEnTO ECOnMICO

    PERFIl

    34

    40

    12

    26

    POltiCas PBliCas

    CONveRsa

    CultuRa

    aRquitetuRa

    saDe

    liteRatuRa

    gastRONOmia

    ROteiRO De COmPRas

    estilO

    esPeCial

    2022

    7174

    54

    64

    60

    68

    58

    66

  • 8 CARIRI REVISTA

    Com mais de 300 fontes de gua perene em meio a uma rica e variada vegetao,a Chapada do Araripe acolhe uma Floresta Nacional, uma rea de Proteo Ambientale um Geopark. Sua beleza, porm, no est a apenas para o deslumbre de moradores do Cariri e ecoturistas brasileiros. A Chapada abriga tesouros capazes de melhorar a vida das comunidades mais carentes.

    tesOuROs e segReDOs

    Da CHaPaDa

    #caririnatureza

    Chapada do araripe: osis no serto

    RAFAEl VIlAROUCA

  • CARIRI REVISTA 9

    De longe, o serto nordestino parece uma coisa s. Seco, inspito, rstico. A imensa faixa de semi-rido d a impresso, para os mais apressados, de que o Nordeste, ex-

    ceo do litoral, um imenso e montono deserto, com uma vegetao retorcida e animais mngua. Parece.

    Um erro comum associado imagem do Nordeste e de seu povo. No de hoje que se retrata o nordestino como um eterno retirante, sempre pronto a abandonar a terra seca e degradada em busca de oportunidades. Um homem nmade, mudando de regio para regio medida que a seca avana.

    Tal imagem, alimentada durante dcadas de hist-ria, gerou uma quadro imutvel na cabea de muitos: um Nordeste sem gua, sem terras frteis, sem vege-tao mida. Nesse processo de criao de discursos e mitos que caricaturam a regio, a despersonalizao do nordestino um caminho lgico. Retirante e para-ba so as denominaes frequentes que uniformizam milhes de homens e mulheres, to diversos quanto a regio que habitam.

    uMA SurPrESA PArA OS OLHOSPara espanto de alguns e maravilhamento de muitos, incrustado em meio caatinga h um ecossistema sur-preendente, to rico quanto pouco estudado. Para todo canto que se olhe, l est ela: a Chapada do Araripe ergue-se orgulhosa e imemorial sobre o Vale do Cariri. Presena quase humana que todo caririense aprende a amar e a respeitar. Um paredo que se estende por mais de 10.000 km2 e abarca os estados do Cear, Per-nambuco e Piau.

    Chamada de FlONA, a Floresta Nacional do Ara-ripe tornou-se, em 1946, a primeira Floresta Nacional do Brasil. Cinco dcadas depois, em 1997, foi criada a rea de Proteo Ambiental do Araripe APA, e em 2006, delimitado o Geopark do Araripe, que se esten-de por seis municpios do Cariri (Crato, Juazeiro do Norte, Barbalha, Misso Velha, Nova Olinda e Santana do Cariri), com nove geosstios de valor histrico, geo-lgico e paleontolgico. A extenso de aproximada-mente 3.520 Km2.

    Com enorme potencial paisagstico, ambiental e turstico, a rea oferece trilhas ecolgicas e uma vege-tao diversificada de florestas midas, cerrados e flo-restas secas, alm de animais de grande porte, como a ona pintada, e de pequeno porte, como o soldadinho do Araripe, pssaro smbolo da regio.

    bELEZA AMEAADA, HISTrIA ANTIGAFormada h mais de 130 milhes de anos, a Chapada do Araripe constituda basicamente por rochas sedi-mentares. Trata-se de um dos principais stios paleon-tolgicos do planeta, com fsseis de diversas espcies, a exemplo do pterossauros (rptil voador do perodo Mesozico) e de pelo menos dois dinossauros, o Santa-naraptor e o Irritator, encontrados na regio.

    A bacia sedimentar favorece tambm o apare-cimento de fontes perenes por todo o Vale do Cariri. O epteto osis do serto no toa. So mais de 300 fontes de gua que jorram dos canais fluviais que irrigam todo o Vale. Nesta rea, o clima ameno se evi-dencia devido vasta floresta que recobre a Chapada.

    So 39.262,326 hectares de floresta, onde vivem muitas espcies de mamferos, 23 espcies de anf-bios e 59 espcies de rpteis entre estes h espcies raras como o lagarto Stenocercus squarrosus, com apenas um espcime encontrado, e a serpente Atrac-tus ronnie. J as aves aparecem em um nmero ainda maior. So 280 espcies, sendo que destas, 14 esto ameaadas de extino.

    O soldadinho do Araripe, ave smbolo da regio, um exemplo de como a depredao da floresta chegou a um nvel crtico. Ele foi descoberto em 1996 pelo ento estudante de biologia Weber Giro, numa expedio Chapada do Araripe em companhia do professor Galileu Coelho, da Universidade Federal de Pernambuco. Mal foi encontrado e o soldadinho do Araripe j figura na lista de aves em extino, com uma populao estimada em 50 a 250 indivduos. Localizado apenas nos municpios de Crato, Barbalha e Misso Velha, seu habitat restrito a 28 km2 nas encostas da Chapada do Araripe. L h uma ressurgncia das guas absorvidas pelo plat da Chapada, o que propicia o aparecimento de uma mata bem mida, com rvores altas, bem diferente da caatinga e do cerrado, explica Thieres Pinto, bilogo do Aquasis, entidade sem fins lucrativos que congrega pesquisadores em torno da questo ambiental.

    S.O.S SOLDADINHO

  • H um milho de anos atrs, uma floresta mida que ia do Amazonas ao Rio Grande do Norte, formava um imenso corredor ecolgico por toda regio Norte e Nordeste do pas. Com as mudanas climticas ocorridas no planeta, essa vegetao se retraiu. Da imensa floresta sobraram pequenos nichos isolados. Um deles a Floresta Nacional do Araripe. Lutando contra o processo alarmante de desmatamento, a FLONA instiga nos cidados o desafio de pr em prtica um desenvolvimento capaz de conciliar crescimento scio-econmico conservao dos recursos naturais. Temido por alguns e sonhado por muitos, o desenvolvimento sustentvel a nica alternativa vivel para as prximas geraes.

    PRESERVAR PRECISORA

    FAEl

    VIlAR

    OUCA

  • CARIRI REVISTA 11

    CINCIA E rArIDADE NA FLOrESTAH tesouros escondidos na Chapada que os nossos olhos no captam. Uma descoberta feita pelo profes-sor e pesquisador Waltcio Almeida, da Universidade Regional do Cariri, promete contribuir com as pesqui-sas em torno da evoluo das espcies. Encontrado apenas na Chapada do Araripe, a espcie de onycho-phora Epiperipatus cratensis, pertence a um grupo in-termedirio entre aneldeos e artrpodes.

    Conhecido popularmente como onicforo, um animal raro que j foi considerado o elo perdido entre os aneldeos (minhocas e sanguessugas) e os artrpodes (insetos, aranhas e crustceos), por pos-suir caractersticas comuns aos dois grupos. Para os leigos, a aparncia de uma minhoca com antenas e patas carnosas.

    Os onicforos podem ser os animais mais antigos ainda vivos no planeta, pois seu aparecimento data de 500 milhes de anos atrs. So muito mais antigos que os dinossauros, que teriam aparecido h 150 mi-lhes e 200 milhes de anos. Neste tempo todo, eles sobreviveram s mudanas climticas e geogrficas da Terra, perdendo pouca ou nenhuma caracterstica original. Por isso, so considerados fsseis vivos e chamam a ateno de toda a comunidade cientfica.

    No mundo inteiro so conhecidos 50 gneros e 150 espcies, que vivem na Oceania, frica, sia, e Amricas Central e do Sul. Estes animais ajudam a comprovar a teoria do Pangea, segundo a qual o pla-neta seria uma nica poro de terra, que se dividiu e formou os atuais continentes. Outra evidncia apon-tada por alguns cientistas a da evoluo das esp-cies, j que os onicforos possuem caractersticas de dois tipos de animais.

    SAbEDOrIA POPuLAr COMPrOVADAEssa apenas uma das descobertas dos pesquisado-res que compem o Programa de Ps-Graduao em Bioprospeco Molecular da Universidade Regional do Cariri URCA. liderado pelos professores Waltcio Almeida, Galberto Martins e Irwin Menezes, o labora-trio pretende compreender a biodiversidade do semi-rido nordestino e reconhecer aspectos importantes da biodiversidade regional, inclusive caracterizando, planejando e modificando molculas bioativas com potenciais scio-econmicos.

    Trata-se, portanto, de um projeto que ultrapassa a fronteira institucional e se apresenta como um fator de interesse regional, suprindo as necessidades de pes-quisa de alto nvel e a formao de recursos humanos. No centro das atenes esto plantas e animais de re-conhecida utilidade na medicina popular, que agora ga-nham respaldo cientfico atravs de um conjunto de pes-quisas que buscam a certificao dos produtos obtidos.

    Exemplo disso o leo extrado da gordura do lagarto Tupinambis merianae, popularmente chama-do de tei. Muito encontrado na Chapada do Araripe, a gordura do tei usado na medicina popular para a cura de reumatismo, problemas de pele, doenas res-piratrias e inflamaes.

    Recentemente, pesquisas feitas no laboratrio pelo prof. Irwin Menezes comprovaram que o leo re-tirado da gordura do lagarto reduz, de fato, a produo da atividade inflamatria no organismo. O estudo foi publicado na principal revista de etnofarmacologia do mundo, Journal of Ethno-pharmacollogy, e deixa cla-ra a importncia do conhecimento cientfico andar de mos dadas com o saber popular.

    Segundo o prof. Galberto Martins, esse conheci-mento um dos pilares para a conservao e compre-enso da Chapada. Alm disso, atravs das pesquisas desenvolvidas no laboratrio, o conhecimento do povo pode ser confirmado, produzindo extratos de im-portncia econmica para as comunidades.

    A Chapada do Araripe no apenas um jardim para nosso deslumbramento. Ela uma fonte inesgo-tvel de pesquisas cientficas srias, que engrande-cem, conservam e melhoram a vida de sua populao, finaliza Waltcio Almeida.

  • 12 CARIRI REVISTA

    O DeseNvOlvimeNtO

    Campus da Universidade leo Sampaio: a educao como propulsora do desenvolvimento

  • CARIRI REVISTA 13

    O escritor portugus Ea de Queiroz era um observador sagaz do seu tempo. Di-plomata, teve oportunidade de viver em Paris no final do sculo XIX e, assim, olhar o mundo a partir de seu centro a capital francesa era a capital do mundo. De l partia a divulgao exube-rante das experimentaes do progresso, pautadas pela velocidade e por tentativas hoje consideradas rudimentares de automao da indstria, dos servi-os pblicos e at da vida privada. Em seu romance A Cidade e as Serras, publicado em 1901, um ano aps o seu falecimento, Ea descreve uma srie de gerin-gonas bizarras destinadas a agilizar atividades coti-dianas como o abotoador de ceroulas e o colador de estampilhas. Expe o deslumbramento com a luz eltrica e com o automvel, convivendo com a dvida perturbadora se as mltiplas conquistas tecnolgicas corresponderiam a um mundo melhor de se viver. Na viso crtica do escritor, ricos seguiam entediados com o progresso e os pobres das cidades no usufruam de quaisquer vantagens dele advindas.

    Quase 120 anos depois, aps a virada de mais um sculo, que aconteceu concomitante virada do milnio, a ironia criativa de Ea de Queiroz revela-se surpreendentemente atual. Ainda nos questionamos a respeito das virtudes do progresso e a fuligem que sujava as vidraas de Paris transformou-se numa pe-rigosa ameaa que atinge a camada de oznio, dese-quilibra o clima, prolifera ameaadoras bactrias cada vez mais resistentes aos modernos medicamentos. Em 2011 no existe alternativa a continuar avanando, enquanto consertamos as mazelas que o avano vai deixando. Como vantagem temos um mundo que am-plia o desenvolvimento, mesmo sem ter equacionado as desigualdades.

    nesse contexto que se insere o recente cresci-mento econmico da regio do Vale do Cariri. Com-preendendo os estados do Cear, Piau, Pernambuco e Paraba, o Cariri encontra-se geograficamente locali-zado, exatamente, no centro do Nordeste brasileiro. O panorama aqui exposto aborda, nesta primeira edio

    #cariridesenvolvimento

    da Cariri Revista, o Cariri cearense, onde o esprito em-preendedor da populao local, aliado a investimentos pblicos e privados, conferiu regio um salto nos resultados da economia, com impactos na vida social significativos, embora, ainda, abaixo do desejvel.

    O desenvolvimento mais visvel quando o con-tedo social mais evidente. Ainda temos no Cariri focos de pobreza, analfabetismo e mazelas como a violncia, entre outras. Entretanto, para a continuidade do crescimento, se faz necessrio maiores investimen-tos pblicos em infraestrutura, especialmente educa-o formal e profissional voltadas para a juventude, sublinha Erasmo Mendona, empresrio responsvel pela EBM consultoria, que se dedica formatao de projetos para captao de investimentos em segmen-tos diversos. Em operao h 16 anos, a EBM uma expresso eloquente do Cariri que cresce velozmente e busca excelncia na expresso desse crescimento. Sua atuao viabiliza incentivos de crdito, estruturais e fiscais e, extrapolando fronteiras, j tem escritrio alm-mar, em Portugal.

    liderando uma das maiores indstrias brasileiras no segmento de medicamentos, a Farmace instala-da em 1996 no Cariri em funo da boa qualidade da gua e da excelncia da localizao geogrfica , o deputado federal Manuel Salviano tambm defende a educao como grande aliada e propulsora na conti-nuidade do crescimento da regio. Na minha viso, o Cariri comeou a se desenvolver depois da chegada da

    RAFAEl VIlAROUCA

  • 14 CARIRI REVISTA

    Tnia Meire do Sebrae: o desenvolvimento econmico passa pela educao

    1

    escola de medicina da Barbalha e do Juazeiro, que in-centivou a vinda de outros cursos e marcou o processo de crescimento da iniciativa privada. Hoje temos mais de 60 cursos de terceiro grau no Cariri. Sabemos que as regies que mais crescem no Brasil so aquelas que recebem incentivos. A vinda da Universidade Federal para a regio vai, com certeza, incrementar o desen-volvimento, porque o que falta aqui mo-de-obra es-pecializada. Essa a nossa maior dificuldade, analisa Salviano. A Farmace uma das maiores captadoras de mo-de-obra da regio e sua expanso nacional pos-sibilitou o avano da pesquisa cientfica, da aplicao de alta tecnologia e da capacitao de profissionais formados localmente. Alm da absoro de pessoal qualificado de outros centros, com o consequente in-cremento dos referenciais de qualidade.

    Na avaliao de Tnia Meire, articuladora regional do Sebrae no Cariri, de fato, o desenvolvimento econ-mico da regio nos ltimos 15 anos passa pela educa-o. Ela lembra que nesse perodo houve uma exploso de faculdades, cursos tcnicos e de formao de mo-de-obra. Mais recentemente instalou-se o Campus Avanado da Universidade Federal do Cear-UFC, que tem atrado pessoas de todo o Brasil.Grande parte dos cursos ofertados vo ao encontro dos vrios segmen-tos empresariais da regio, por ordem de prioridade a indstria, o comrcio e os servios, explica Tnia.

    A indstria de calados um destaque importante destes ltimos anos no Cariri. Hoje, essa indstria o maior polo exportador de calados do pas e o terceiro polo produtor, s ultrapassado por Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul e por Franca, no estado de So Paulo. Segundo dados do Sindindstria, o Cariri produz anualmente 90 milhes de pares de calados. Parte

    dessa produo destinada aos mercados da Bolvia, Argentina, Uruguai, Itlia, Frana e Portugal.

    Outras indstrias. como a de alumnio (artigos para o lar), semi-joias, cermica e pedras calcrias, metalrgica, medicamentos e confeces, so repre-sentativas na gerao de emprego e renda, todas com visibilidade nacional. No mbito do agronegcio, o Cariri detm produo significativa de mel orgnico e destaca-se pela comercializao no mercado externo a preos competitivos. O Cear, alis, o segundo maior exportador de mel do pas, ficando atrs apenas do estado de So Paulo. A produo de mel do Cariri em 2010 foi de 866 toneladas, geradas por mais de mil apicultores, a grande maioria componentes da agricul-tura familiar, enfatiza, ainda, Tnia Meire.

    O comrcio conta com grandes redes de distri-buio de alimentos, shoppings, lojas de material de construo e de varejo de produtos alimentcios. No setor de servios, o turismo religioso o campeo de resultados no impacto positivo sobre a economia da regio (ver detalhes no espao Cariri de F). No seg-mento de turismo, lazer e cincia evoluem em busca de incrementar a estrutura de recepo de visitantes. Certificado pela Unesco, o Geopark Araripe detm um territrio de excepcional valor geolgico, paleontol-gico, cultural e social, cuja rea definida compreende os municpios de Crato, Juazeiro do Norte, Barbalha, Misso Velha, Nova Olinda e Santana do Cariri.

    As redes de ensino superior proliferaram com grande variedade de cursos de formao profissional e acadmica (ver Cariri Educao). Juazeiro do Norte abrigou a primeira faculdade particular de medicina do Cear, antecipando-se capital. Hospitais e clnicas mdicas enfatizam a medicina praticada na regio, que se nivela aos centros avanados do Nordeste. Os transplantes de crnea e rins so um exemplo impor-tante (ver Cariri Sade).

    AS AES DE FOMENTOA presena do Banco do Nordeste na regio do Cariri tem papel decisivo na mobilizao de recursos finan-ceiros e no apoio a novas atividades. Somando-se os valores contratados em operaes de crdito de longo e de curto prazos, foram aplicados R$ 125,2 milhes

    RAFAEl VIlAROUCA

  • CARIRI REVISTA 15

    Jaime Romero: o Cariri num contexto globalizado

    o de indstrias fornecedoras de matria-prima, sem esquecer o grande apoio do Banco ao setor de servios mdicos.

    AS AMEAASContudo, a exploso do crescimento vista com cautela por seus protagonistas, preocupados em apri-morar essa tendncia e em prevenir a disperso de esforos na arriscada perda do foco. Jaime Romero, presidente das Faculdades leo Sampaio, sintetiza a preocupao, advertindo que preciso considerar que para o cenrio desenhado o Cariri como uma fora econmica, inserida num contexto comercial globalizado , o ambiente certamente ser muito mais competitivo, com concorrncia cada vez mais acirra-da, clientes muito mais exigentes, pressionando por qualidade superior, menores preos e fatores de aten-dimento e convenincia. Desta forma, a manuteno da vantagem competitiva se dar somente se os seg-mentos locais mais representativos desenvolverem competncias para atuarem nesta nova arena.

    Jaime Romero sabe bem do que fala, pela prpria experincia. Sua histria no Cariri comeou com a im-

    somente na economia do municpio de Juazeiro do Norte, no ano passado. O resultado representa incre-mento de 12% em relao a 2009, quando foram con-tratados R$ 111,8 milhes.

    Os micro e pequenos empresrios de Juazeiro contrataram financiamentos da ordem de R$ 56,7 milhes em 2010, por meio de 946 operaes, que beneficiaram 360 clientes. Alm disso, o programa de microcrdito, Crediamigo, conta atualmente com 13 mil clientes ativos, pulverizando o crdito e fomentando o comrcio informal que abastece, principalmente, o turismo religioso. Em 2011, as operaes j somam R$ 164,5 milhes. Desse montante, R$ 60 milhes destinam-se indstria de calados. Outras duas ope-raes, no valor de R$ 30 milhes cada uma, sero destinadas ampliao de um shopping center e implantao de um outro.

    O gerente da agncia do Crato, nos ltimos anos frente da agncia de Juazeiro Norte, conta que o Banco do Nordeste tem estado muito mais presente na concesso de negcios e na atrao de novas indstrias, bem como no fortalecimento do setor de calados, que est recebendo apoio para a instala-

    RAFA

    El VIlAR

    OUCA

  • 16 CARIRI REVISTA

    plantao da Singer, multinacional fabricante de m-quinas de costura, que aps cinco anos de trabalhos voltados ao aperfeioamento dos processos e dos recursos humanos, conquistou posio de destaque que a credenciou a exportar para mais de 120 pases. Romero cita esse exemplo como bem sucedido no desenvolvimento de uma nova vocao. A Faculdade leo Sampaio nasceu exatamente da constatao dessa necessidade em buscar diferencial competitivo na regio, por meio da melhor qualificao e capacita-o das pessoas, aprimorando os talentos contextuali-zados na cultura local.

    A hora agora de organizao das cadeias produ-tivas, incremento de investimentos e de capacitao de pessoal. Manuel Salviano sintetiza o que deve ser prio-rizado, defendendo que os empresrios precisam ur-gentemente desse apoio na formao de mo-de-obra. Hoje temos toda a condio de fortalecer o polo univer-sitrio na regio, e isso, sem dvida, impulsiona o cresci-mento. Erasmo Mendona estende a reflexo a fatores sociais amplos, como expresso do desenvolvimento consistente. Ns somos uma federao de estados de tamanho gigantesco. Ao mesmo tempo em que isto favorece a grandeza do pas, estabelece verdadei-ros abismos entre regies. Entretanto, o Nordeste vem numa escalada histrica nunca antes vivenciada quanto ao seu desenvolvimento econmico, por exemplo. En-tretanto, acredito que o grande desafio est centrado no trip sade, educao e trabalho para todos. Isto torna a sociedade mais consciente, integrada e exigente quanto ao seu estilo de vida, pondera Mendona.

    O professor Jaime Romero refere-se ao contexto nacional e internacional como cenrios a serem con-siderados na avaliao do crescimento do Cariri, su-blinhando mais uma vez a urgncia na qualificao de todos os atores empresrios, executivos, tcnicos, gestores pblicos, trabalhadores dos vrios setores. Se-gundo ele, o Brasil, por projees internacionais, estar entre as cinco maiores economias do mundo at 2020. Esse crescimento tambm impulsionar a regio do Ca-riri. A grande restrio, o grande desafio, ser superar a falta de recursos humanos qualificados, tanto para ativi-dades tcnicas e operacionais quanto para a gesto das empresas em atendimento a essa demanda.

    AS OPOrTuNIDADESErasmo Mendona evidencia o manancial de gua cor-tando todo o subsolo caririense, as regies vocaciona-das para a agricultura e pecuria com solos adequados para a produo de cerqueiro e irrigao, os arranjos pro-dutivos locais diversificados calados, galvanotecnia, confeces, sade e educao o comrcio presente em todas as cidades da regio, a estrutura de atendimen-to para financiamento e a poltica de incentivos fiscais estabelecida pelo governo do Cear como componen-tes da lista de oportunidades que proliferam na regio.

    Alm disso, Erasmo destaca a riqueza cultural, a estrutura de lazer, as estradas, a expanso da energia eltrica. Passou o tempo das grandes catstrofes, dos flagelados pela fome e sede dos anos 50,60 e 70. Te-mos de trabalhar uma conjuntura complexa envolven-do todas as potencialidades com mltiplas polticas, adequadas e efetivamente atuantes para cada seg-mento, numa conjuno difcil de apontar prioridades. Todas so exigentes quanto ao governo e sociedade civil organizada, conclui.

    Erasmo Mendona: o grande desafio est centrado no trip sade, educao e trabalho para todos

    SARAH COElHO

  • CARIRI REVISTA 17

    O empresrio Manuel Salviano, da Farmace, con-tinua apostando no segmento de medicamentos. Temos todo o potencial para desenvolver um polo qui-micofarmacutico na regio, buscando incentivos do poder pblico municipal, estadual e federal e o incre-mento da Universidade Federal. Tornando-se um polo, voc traz o investidor de fora, exemplifica. Ele preco-niza uma expanso maior ainda do setor da construo civil, impulsionada pela exploso imobiliria. Tambm defende a explorao de gs natural, com a implan-tao de um gasoduto para atender demanda de energia das indstrias. Estamos perdendo tempo em no agilizar essa iniciativa, que ajudaria a preservar a Chapada do Araripe, sentencia.

    Para o gestor do BNB, Albery Viana, o grande po-tencial a vocao do povo para produzir e criar. Ele explica que isso tem seu incio na lgica implantada pelo Padre Ccero, quando disse que cada casa devia ter uma oficina e um oratrio. Albery acrescenta que com o grau de evoluo que as indstrias de calados tm atingido, o potencial maior est em dar mais um passo para atender demanda criada por elas, no sentido da indstria de mquinas para suprir o setor. Albery destaca ainda a grande reserva de minrio e de calcrio na regio, que comporta outra fbrica de cimento. Um turismo diferenciado tambm compe a avaliao de potencialidades feita pelo gestor. Temos o Geopark, que nos dar uma divisa muito grande em turismo, principalmente turismo palentolgico, com seus diversos stios, da cidade de Jardim cidade de Santana do Cariri, conclui.

    O professor Jaime Romero refora a sua tese, comprovada na prtica: tudo comea pela vocao local. Reconhecendo que novas vocaes podem ser desenvolvidas, como ocorreu com o polo caladista, Romero adverte que no se pode desviar o foco do co-mrcio, j que o Cariri conta com um grande nmero de visitantes, alm de localizao e vias de acesso privile-giadas. O turismo tem grande potencial, mas ainda tratado com muito amadorismo por alguns segmentos da gesto pblica e privada, comenta. O prprio seg-mento lder, o caladista, precisa de um plano regional com atrao de fornecedores de matrias primas e equipamentos, assistncia tcnica, desenvolvimento tecnolgico e qualificao de mo-de-obra especiali-zada, acrescenta, ressaltando tambm a importncia da manuteno e ampliao das principais vias de acesso e escoamento, como as estradas e o aeropor-to. Para Jaime Romero, essencial que empresrios e gestores pblicos avaliem suas estratgias atuais e implementem imediatamente correes e adequaes onde desvios de foco estejam evidenciados.

    J a Educao Superior a base de todo projeto de desenvolvimento. Podemos citar Estados Unidos, Japo e Coria como estrategistas que basearam suas principais aes na educao, pois eles tambm constataram que o grande desafio ao aperfeioamen-to passa pelas pessoas, com o desenvolvimento de competncias tcnicas e gerenciais. Cristvam Bu-arque, senador e ex-ministro da Educao, indignado com o pouco investimento em Educao, disse em certa oportunidade: enquanto os pases desenvolvidos investem em pesquisa e desenvolvimento, no Brasil se aprova o voto do analfabeto, conclui Jaime Romero.

    Como podemos constatar, longe de qualquer risco de acomodao ou de deslumbramento diante da ten-dncia de prosperidade do Cariri, as lideranas empre-sarias da regio aguam o senso crtico e perseguem consistncia e consolidao de resultados.

    FONtes : Banco do Nordeste e seBRae.

    linha de produo da Farmace. Polo de medicamentos em expanso.

    RAFAEl VIlAROUCA

  • 18 CARIRI REVISTA

  • CARIRI REVISTA 19

    www.newland.com.br

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    O panorama que expusemos em Cariri Desen-volvimento Econmico revela uma regio que cresce empresarialmente, sempre em busca de mudanas positivas nos indica-dores sociais. Mudanas que s so possveis a partir de uma consistente prosperidade econmica.

    Crescer 157%. Tal meta pode parecer inalcanvel no contexto do semi-rido brasileiro. Mas no . realida-de. O nome do desafiante: Juazeiro do Norte. Entre 2004 e 2008, o PIB juazeirense cresceu de R$ 770 milhes para R$ 1,986 bilho, o que propiciou ao municpio a se-gunda colocao no ranking de crescimento do Estado.

    Os nmeros ilustram a regio da qual Juazeiro faz parte, o Cariri. Chegar ao Cariri deparar-se com a rea-lidade consequente de mais de uma dcada de grande desenvolvimento na regio, com investimentos em in-dstria, comrcio, turismo, construo civil, educao, alm da implantao de dezenas de faculdades, pblicas e particulares. A perspectiva de um futuro promissor.

    Atenta a esse futuro, a gesto pblica estadual, liderada pelo governador Cid Gomes, em seu segundo mandato, planejou e executa uma srie de obras im-portantes, em todas as reas pertinentes viabilizao de condies objetivas para o crescimento avanar. As prioridades foram estabelecidas em conjunto com as lideranas da regio, em seminrios abertos, realizados ainda no incio do primeiro mandato, conduzidos pelo governador, pessoalmente.

    Assim, vm-se concretizando aes que esto fazendo a diferena na regio, com impacto para todo

    O FutuRO agORa

    o Cear e para o Brasil na perspectiva de que a inte-riorizao do desenvolvimento estabelece um crculo virtuoso no pas. Detm a migrao para as capitais, fixa a populao nas suas localidades de origem, impulsiona a expanso do conhecimento, incrementa os investi-mentos em equipamentos sociais. Invertendo sauda-velmente o movimento histrico, tcnicos e acadmicos deslocam-se das grandes metrpoles em direo a esse interior que desponta. E consigo levam saber, experin-cia, transferncia de capacitao.

    A criao da Regio Metropolitana do Cariri, em ju-nho de 2009, integrando as cidades de Juazeiro do Nor-te, Crato e Barbalha, tem estendido o desenvolvimento para as cidades prximas. Alm de usufrurem da expan-so dos negcios, criando novos postos de trabalho e gerando renda, podem contar com a nova infraestrutura que chega, em reas diversas.

    VIAJAr, PrODuZIr E rEZArBase ancestral da comunicao entre as comunidades, desde os primrdios das civilizaes do mundo, as estra-das so a concretude do desenvolvimento. Componente de um programa amplo de melhoria da malha viria do Cear, numa parceria com o BID Banco Interamericano de Desenvolvimento, a Rodovia Padre Ccero interligar o Cariri capital, Fortaleza. Conta com um investimento total de R$ 94,6 milhes e teve seu primeiro trecho inau-gurado em maro deste ano. So 50 quilmetros unindo os municpios de Banabui e Solonple, em pleno serto. A nova interligao abreviar tempo e distncia no trajeto. Alm do que, por onde passa, amplia as oportunidades de escoamento de mercadorias e de circulao de pessoas.

    Tambm este ano, ser realizada a integrao total do Metr do Cariri, que est operando comercialmente desde maio de 2010, articulado s linhas de nibus inter-municipais. Com isso, haver um incremento em torno de 20% a 30% de passageiros no sistema. A integra-o ser tarifria, operacional, temporal e fsica. A lgica da integrao que com o mesmo bilhete eletrnico que hoje existe no acesso aos nibus, os usurios possam ter acesso ao Metr do Cariri, ou vice-versa.

    Marcante trao caririense, o turismo religioso cons-titui-se numa importante fonte de renda para a regio. Pensando nisso, o governo estadual investiu mais de

    #cariripolticaspblicas

    O recm inaugurado Hospital Regional do Cariri.

    RAFAEl VIlAROUCA

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    R$ 9 milhes nas obras da Praa dos Romeiros, em Ju-azeiro do Norte, um espao destinado comercializao de produtos da regio e artigos religiosos, principalmen-te durante as romarias na cidade.

    Com mais de 41 mil metros quadrados de rea cons-truda, a praa conta com 1.100 quiosques, divididos em quatro tipos de forma e tamanho. Destes, 1.052 sero utilizados para a comercializao de produtos religiosos, alm de 48 sanitrios integrados e ainda mais quatro blo-cos de sanitrios independentes.

    O equipamento proporcionar maior organizao e conforto no atendimento aos turistas, que, no Cear, chegam a aproximadamente 915 mil durante a alta esta-o. O turismo tem sido um dos principais vetores eco-nmicos do Estado. Somente no perodo de dezembro a fevereiro a renda gerada na cadeia produtiva do seg-mento foi de R$ 2,3 bilhes.

    A construo do Centro de Convenes do Cariri tambm ser decisiva para aumentar o espao da ati-vidade turstica. Segundo o Secretrio do Turismo do Estado, Bismarck Maia, a necessidade da construo de um Centro de Convenes no Cariri uma realidade, tendo em vista a vocao para eventos agropecurios e industriais da regio. O local dever contemplar diversas atividades culturais e sociais, atraindo seminrios, cur-sos profissionalizantes, exposies, feiras, teatro, entre outros eventos. A finalizao das obras est prevista ainda para este semestre.

    No prdio haver um auditrio com capacidade para abrigar 600 pessoas, alm de outros trs, com 160 lu-gares cada, recepes, subsolo para depsito e casa de mquinas, quatro salas de reunio e multiuso, alm de estacionamento com 208 vagas. Tambm vo ser cons-trudos espaos cobertos e ao ar livre para exposies, e jardins paisagsticos com espelhos dgua.

    EDuCAr, SALVAr E ESTruTurArNa chamada rea social, que muitas vezes descartada ou minimizada quando o investimento em infraestrutura exuberante, o Cariri tem recebido, tambm, relevante ateno governamental.

    Em 2011, R$ 17,3 milhes j foram investidos em educao. De 2007 a 2010, o montante atingiu R$ 206,7 milhes. Entre as principais aes, deve-se citar o incremento das Escolas Profissionalizantes, com a construo de novas unidades, ampliao das j exis-tentes, aquisio de material didtico, mobilirio e equi-

    pamentos para laboratrios de informtica e de cincias. Destaca-se tambm a implantao do Projeto Primeiro, Aprender!, que visa a aumentar o aprendizado de portu-gus e matemtica.

    Na rea da sade j concreta uma grande trans-formao. O Cariri acaba de ganhar o Hospital Regional, construdo para atendimento de urgncia e emergn-cia, bem como para a realizao de servios e exames de mdia e alta complexidade. Ns no queremos mais que as pessoas saiam do interior para a capital para fazerem cinco, seis, dez horas de viagem antes de ter acesso aos procedimentos. Eu acredito que seja uma grande marca do processo de interiorizao, pelo padro do hospital. Eu fiquei muito impressionado com o HRC, ele no deixa a desejar a nenhum hospital pbli-co e privado de todo o pas, vibra o ministro da sade, Alexandre Padilha.

    O HRC fica em Juazeiro do Norte, estrategicamen-te localizado entre os municpios de Barbalha e Crato, para facilitar o acesso populao dos 41 municpios da macrorregio do Cariri e das microrregies de Iguatu e Tau. A inaugurao do equipamento, com 294 leitos, aconteceu no incio de abril. No total, uma populao de 1 milho e 335 mil habitantes ter assistncia na prpria regio. Foram investidos R$ 96 milhes. O Brasil gasta percentuais nfimos na sade, comparado a pases mais desenvolvidos. Precisamos investir mais, enfatizou o governador Cid Gomes, na inaugurao do HRC.

    Ainda na rea social, investimentos em consultorias relativas a temas diversos somam R$ 66 milhes. Apli-cados em desenvolvimento de sites, estudos relativos ao Geopark da Chapada do Araripe e ao plano de in-cluso de catadores nos municpios de Barbalha, Crato, Juazeiro do Norte, Santana do Cariri, Nova Olinda, Mis-so Velha, Jardim, Farias Brito e Caririau, dentre muitas outras aes e projetos.

    Em A Retrica da Intransigncia, o socilogo po-lons Hirchman, naturalizado americano aps a segun-da guerra mundial, defende que no devemos rejeitar resultados positivos parciais s porque no resolvem estruturalmente os problemas sociais. Uma longa cami-nhada comea com um primeiro passo, ensina a filosofia chinesa de Confcio. No possvel fazer tudo. Contu-do, vivel colocar muitas coisas em prtica, debelando as dificuldades de crescer prodigiosamente em meio ao desafio de eliminar as desigualdades. o caso do Brasil. Do Cear e do Cariri.

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    O empresrio Ivan Bezerra um cidado de Juazeiro do Norte que ocupa hoje espao no mundo. Fundador da TBM, uma das maiores indstrias txteis do pas, hoje ge-rida pelo filho, tambm Ivan, sua trajetria compreende desafios, superaes, muito trabalho e muito sucesso. No h obstculo que eu j no tenha passado e apren-dido a ultrapassar, define, quando comenta a sua expe-rincia como empreendedor e lder empresarial.

    Hoje totalmente dedicado s atividades do Conse-lho de Desenvolvimento Econmico, rgo estadual responsvel pelas estratgias de atrao de inves-timentos e de articulao com os empresrios, Ivan Bezerra comemora os bons resultados dessa gesto. Nos ltimos quatro anos so 86 empresas implanta-das, que totalizam mais de R$ 910 milhes captados para o Cear, gerando 9.713 empregos diretos. No

    Cariri foram 16 empresas, mais de R$ 56 milhes em investimentos e 2 mil empregos diretos. S a Trevo In-dustrial de Gesso, implantada em Juazeiro do Norte, e atuando a partir de uma tecnologia de ponta aplicada construo civil, trouxe para a regio mais de R$ 15 milhes em investimentos.

    Ivan Bezerra fala com entusiasmo, porm com simplicidade, do seu trabalho frente do Conselho de Desenvolvimento Econmico. Planejamento, dedica-o e criatividade so, na sua compreenso, os gran-des aliados do esforo para a atrao de investimen-tos. O investidor s vem para c botando a mquina para calcular e vendo o lucro que ele tem. Ele no vem para ter prejuzo. Ento preciso o incentivo para valer a pena. Com isso, ele incrementa o retorno, explica, referindo-se iseno de ICMS oferecida s empresas que se dispem a trazer suas operaes para o Cear. E esclarece que h outras vantagens, tanto para o in-vestidor como para o estado que o recebe.

    O Norte e o Nordeste no produzem 30% do que consomem, tudo vem do Sul e do Sudeste, com uma mo-de-obra mais difcil e mais cara. A indstria que se instala aqui fica perto desse mercado consumidor e ainda desonera o transporte, que em torno de 8%. Ele tem incentivo, mo-de-obra farta e barata e o mer-cado consumidor. Estamos trazendo muitas empresas

    a missO DePROmOveR O DeseNvOlvimeNtO RegiONal

    #caririconversa

    Ivan bezerra: O investidor nao vem para c para ter prejuzo.

    FERN

    ANDO

    BRITO

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    de Santa Catarina para c, na rea de txtil, por esses fatores. Eles tm os clientes e a mo-de-obra aqui. Ns damos o incentivo. J temos um histrico nisso. Impacta sobre a gerao de emprego e renda e sobre a economia como um todo, porque os produtos ficam mais prximos de ns.

    Sobre a gerao de empregos decorrente da atra-o de investimentos externos maior objetivo desse tipo de poltica , Ivan Bezerra enfatiza o crculo virtuo-so decorrente dos empregos diretos. A gente fala de 8.000, 10.000 empregos diretos. E os indiretos? Uma empresa que tem 1.000 funcionrios consome 3.000 refeies por dia. E h quantas empresas desse porte, gerando restaurantes industriais para atender os oper-rios? So rendas que vo se multiplicando. Outra con-seqncia positiva relaciona-se com a educao. Est havendo tambm uma concepo dos industriais de que preciso dar estudo aos funcionrios, o que ou-tro benefcio dessa vinda de investidores. Isso faz com que os pais incentivem mais os filhos a estudarem.

    Para o Cariri, alm do que j existe de concreto, Ivan Bezerra revela os projetos de curto prazo, alguns j em implantao. Estamos construindo um distrito indus-trial no territrio entre Juazeiro e Barbalha. Vamos lot-lo praticamente em dois meses. Hoje o Cariri calados, depois confeco. A confeco vai ter um potencial muito grande, porque as lojas Marisa vm para c com um centro de distribuio para todo o Norte e Nordeste. Eles querem comprar o produto de lingerie todo aqui, ento vamos incentivar o Cariri para ter a produo. Estamos mobilizando as prefeituras, a FIEC e o SENAI, para oferecer a capacitao e ampliar as oportunidades. O segmento do alumnio est crescendo muito tambm, vamos criar um distrito, dentro do distrito, s para o alu-mnio. Em cada setor vou criar um distrito especfico, uma cadeia produtiva para cada setor.

    Outro segmento interessante e para o qual a regio do Cariri tem vocao, na viso de Ivan Bezerra, o de artesanato de mobilirio. H uma cidade no interior de

    So Paulo, Emb, para onde se viaja com esse objeti-vo, de comprar mobilirio artesanal. As cidades do Ca-riri podem ser um destino assim, de um determinado tipo de turismo. Temos planos de revitalizar o Centro de Artesanato Mestre Noza, em Juazeiro, para esse fim. Nossos artesos so talentosos, com capacitao, podem usar a sua genialidade para isso.

    Quanto ao desafio de estar no Cear, um estado deslocado do eixo Sul/Sudeste, com a misso de promover o desenvolvimento regional, Ivan Bezerra sente-se privilegiado. A nica coisa que nos atrapa-lhava era a seca. Temos o clima ideal, o mesmo guarda roupa o ano inteiro, mo-de-obra em abundncia com enorme facilidade em absorver novas capacitaes. Com um PIB maior que o do Brasil, somos o segundo estado brasileiro que mais cresce. E o nosso merca-do consumidor prspero . Ivan acredita que com a perenizao das guas, a partir de 2014, atravs da transposio do Rio So Francisco, no nos faltar nada para sermos um lugar qualificado a receber cada vez mais investimentos.

    Porm, h sempre uma relutncia do investidor em atender a essa interiorizao do desenvolvimento. Ivan explica: as distncias, por exemplo, dificultam. O inves-tidor vem para c e quer estar dentro do porto, dentro da comunicao. Um interior como o Cariri, que j tem facilidade em transporte, sade e educao, possui to-das as condies de convencer o investidor a se fixar na regio. Estamos atentos s oportunidades. Recente-mente incentivamos uns investidores paulistas a ir para Jaguaribe, atravs de uma poltica de incentivos. Articula-mos com as prefeituras, mobilizamos as entidades. S as-sim sero superados os problemas da falta de estrutura. Instalando uma fbrica numa regio dessas os impactos positivos so enormes. Estamos fazemos tudo para faci-litar, para vencer essa resistncia e mostrar que com-pensador investir no serto. Estou aqui para dar minha contribuio no sentido de fazer o Cear desenvolver-se cada vez mais. Essa a minha funo.

    FERNANDO BRITO

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    Ser expedito agir velozmente, porm sem perder a preciso. Santo Expedito era um militar gil e habilidoso, hoje padroeiro das causas urgentes, protetor dos que no podem abrir mo da pressa nas graas. Espedito Seleiro, o mestre do couro de Nova Olinda, encarna com S a desenvoltura e a preciso do santo. Espedito homem tradio, contemplao e modernidade. Em algumas horas de conversa com a Cariri Revista, o arteso contemporneo, habitantedo serto, contou as suas histrias de coureiro, artista e designer de estilo em peas apresentadasno So Paulo Fashion Week para a grife Cavalera.

    #caririperfil

    a mODeRNiDaDemeDieval De mestRe

    seleiRO

    No comeo, em 59, quando era s ele e a mulher Francisca, grvida do primeiro fi-lho, era diferente. Muita dureza, dinheiro, nenhum. Nem ferramenta para o ofcio

    tinha. De importante s a feira e a missa no domingo. Como eu j vinha quebrado, sem dinheiro, resolvi botar a oficina aqui. E oficina, voc sabe, a gente comea s com a cara. Pega uma ponta de ferro e faz uma sovela, pega uma faca de mesa e amola, bem amoladinha. Foi assim que eu comecei, nem mquina tinha, costurava tudo na mo. S eu e minha mulher, enquanto eu fazia sela, ela costurava, e assim a gente ia at quando des-se sono conta o mestre.

    Espedito Seleiro no ateli to essencial quanto as peas que vende. Se ele no est, o cliente man-da chamar. E no adianta ter pressa. Aperto de mo, foto, muita conversa. A camisa desabotoada, bermuda e chinela de dedo. Cada sandlia, bota, bolsa, feita sem precisar medir, e leva dias sendo confeccionada. Trabalho feito totalmente mo, olhos atentos e muitas horas envergado sobre a mquina de costura. As peas nicas, originalssimas, contm a sabedoria de um ofcio passado de gerao em gerao. O pai, Francisco Se-leiro, e antes dele o av, Manoel Seleiro, passaram para Espedito a alcunha e o saber milenar de tratar, tingir, cortar, modelar e costurar o couro. Um ofcio to antigo quanto a arte de montar e adestrar um cavalo.

    Por Raquel Paris

  • RAFA

    El VIlAR

    OUCA

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    Detentor dessa sabedoria, transformou-a em de-sign arrojado, de finos pontos, to pequenos e per-feitos que impossvel copiar. Alm da arte, quando faleceu, seu pai legou-lhe duas importncias: a pri-meira foram as peas para sua oficina. A mquina de costura, alguns utenslios para modelar o couro e os moldes de selas e vestimentas dos vaqueiros alfor-jes, gibo, perneira, chapu, bornal, sela e arreios. O segundo legado, esse ainda mais importante, foram seus seis irmos mais novos que ele teria que cuidar dali por diante. Ensinou-lhes o ofcio e os tem at hoje trabalhando no ateli.

    Foi numa tarde de 1980 que Alemberg Quindins, seu amigo e hoje presidente da Fundao Casa Gran-de, tambm em Nova Olinda, lhe disse: Espedito eu quero que voc faa uma sandlia diferente das sand-lias que voc j fez e tem por a afora, a bicha pode ser feia, pode ser o que for. Seu Espedito comenta que Alemberg cheio de presepada... A eu pensei num modelo que meu pai fazia e dizia que era pro prprio lampio. Ele contava isso pros amigos. Eu estava com os modelos guardados, ainda... E fiz um diferente pra Alemberg... Nessa poca o mestre vivia no sufoco.

    Era obrigado a ir para a feira vender, e cada um pa-gava como queria. Um dia dona Violeta Arraes viu e perguntou quem tinha feito a sandlia. Violeta Arraes Gervaiseau, que foi reitora da Universidade Regional do Cariri, secretria de cultura do Estado do Cear, irm do poltico Miguel Arraes, era uma intelectual dos crcu-los eruditos de artistas do Brasil e da Europa. Quando eu dava f ela chegava com os artistas amigos dela, s aquele povo importante, lembra o mestre.

    Em 2006 o trabalho ganhou expresso nacional e internacional, quando a marca Cavalera o descobriu e o convidou para integrar a coleo de vero, com seus sapatos, sandlias, botas e bolsas. Um dia eu tava tra-balhando quando um carro estacionou aqui na frente e eu s ouvi algum dizendo: pode descer. aqui mes-mo que o homem mora, relata seu Espedito. Eram seis estilistas da Cavalera dizendo que queriam fazer negcio comigo, me encomendar 40 peas, mas que eu s tinha um ms de prazo. A a menina comeou a fazer um desenho de um sapato. Eu disse a ela que me desculpasse mas que s fazia sapato de modelo meu. Se eles quisessem eu desenhava uns modelos, fazia e mandava pra eles ver. Se gostasse tudo bem, se no, eu vendia aqui mesmo. Gostaram tanto que compra-ram todas as peas enviadas e encomendaram mais para fazer parte da coleo.

    Espedito em seu ateli

    Pontos pequenos e perfeitos, difceis de copiar

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    O mestre em casa, em nova Olinda

    culturas e povos diferentes. Muito pelo contrrio, se atualiza e ganha uma linguagem mundial, enfatiza.

    A sandlia que lhe deu fama, lampio, inspirada no modelo de Virgulino e seus cabras, ganhou requin-tes e cores ao longo do tempo, inspiradas nas mem-rias afetivas do artista. Espedito conta que quando criana via bandos de ciganos passarem por Arneirs, cidade na regio dos Inhamuns, onde nasceu. A maio-ria dos ciganos andava esculhambada, mas o chefe no. Esse andava todo pronto e a montaria tambm. Eu ficava admirando aqueles desenhos e, baseado no que eu me lembrava, criei meus prprios modelos.

    Espedito confessa que no gostava de fazer pro-dutos para o pblico feminino por uma boa razo. Porque mulher um bicho complicado. O modelo de homem que essas botona que meu pai fazia, at hoje eu fao. Os homem compram, botam no p e vo sim-bora. As mulher no. De 15 em 15 dias elas querem usar um modelo diferente. E eu digo: no vou fazer nada pra vocs no, so muito complicada. Voc leva o tempo s fazendo modelo e no fim da semana, cad o di-nheiro? E no fazia a sandlia. Mas a eu fui castigado

    logo depois a marca Canto tambm convidou o artista a elaborar peas para a sua coleo. Quando os pedidos comearam a se tornar maiores que a produ-o, seu Espedito resolveu encerrar as parcerias. S a Canto tem mais de 700 lojas, pra dar de conta tinha que ser uns 10 Espedito, esclarece. Em 2007 Guel Arraes pediu-lhe que confeccionasse a vestimenta que Marcos Palmeira usaria em seu prximo filme, O Homem que Desafiou o Diabo. F confesso do arteso, o diretor foi um dos famosos que mais difundiu a sua arte.

    A designer Juliana loss, professora da Universida-de Federal do Cear, explica que essa arte diferencia-da devido s leituras extremamente contemporneas que o arteso faz do mundo sua volta. Espedito Seleiro est antenado com tudo o que o rodeia. um artista antropofgico que absorve e retira o que h de melhor na moda contempornea, conservando a au-tenticidade da cultura do couro.

    Os desenhos circulares que vemos na produo de Espedito so representaes pictricas que mui-to remetem aos expressivos volteios da iconografia andaluza, conforme interpretao de Juliana loss. neste momento que percebemos toda a genialidade de Espedito. Ele prova que a tradio no perde sua autenticidade ao ser misturada com inspiraes de

    FOTOS: RAFAEl VIlAROUCA

  • 30 CARIRI REVISTA

    Sandlias ganharam requinte e cores com o tempo

    So 12 mil pessoas vivendo em Nova Olinda. No tem fumaa, no tem poluio, no tem trnsito engarrafado, no tem roubo mo armada, no tem sequestro... Nada disso tem em Nova Olinda. Tem a igreja matriz com a pracinha domingueira. As ruas caladas de pedra, impossvel de se perder. Tem cadeira na calada, fanfarra de cinco pessoas fazendo barulho no coreto, meninada brincando despreocupada. Isso tudo tem em Nova Olinda. E tem em Nova Olinda, bem no meio da rua Monsenhor Alencar, n 190, o ateli e a casa de Espedito Veloso Carvalho, seu Espedito ou Espedito Seleiro, que da profisso tirou a alcunha, o sustento e a fama. s entrar na cidade que l est. Suspenso a uns dez metros do cho, o rosto de seu Espedito estampado num outdoor. a primeira coisa que a gente v.

    NOVA OLINDA

    porque hoje s o que eu fao so coisas pras mulher, porque vende bem. A sandlia a gente no tem produ-o pra dar conta.

    Seu Espedito ainda se sente o mesmo depois de todo esse sucesso? Afinal, at destaque do desfile da Cavalera, no 19 So Paulo Fashion Week, ele foi. Falta mais alguma coisa?

    Suas palavras so de prazer, de harmonia e cons-cincia do espao que seu trabalho alcanou. Eu me sinto como uma pessoa que tava morrendo afogada e foi puxada pra cima. Eu sentia como se tivesse uma coisa entalada dentro de mim. Eu sabia que tinha uma estrela, sabia que minhas coisas eram boas, bonitas e ficava pensando: meu Deus do cu, mas ser que eu vou morrer e ningum vai saber disso aqui? Era muita humilhao. Tentava vender minhas coisas, mas que-riam pagar umas mixaria porque sabe que o cabra t precisado e o jeito voc aceitar. Hoje no. No en-riquei porque no era pra enricar mesmo, mas minhas coisas to a no mundo. Todo mundo sabe onde Nova Olinda, quem Espedito Seleiro. Hoje eu sou um homem muito feliz e realizado. Graas a Deus.

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    FERNANDO BRITO

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    A cadeira design da Aspecttus que custa r$ 2.178,99

  • CARIRI REVISTA 35

    DesigN: FaZ tODa a DiFeReNa

    #cariridesign

    Beleza, funcionalidade, segurana, estilo, conforto, qualidade e, acima de tudo, imagem diferenciada. O design pode ser a alma do negcio, visto que o mercado, cada vez mais competitivo, exige inteligncia na escolha das melhores e mais adequadas solues visuais. Quer seja uma bolsa, um relgio ou um automvel, os profissionais do design garantem a harmonia entre a forma e a funo, sempre pensando na interao cotidiana dos seres humanos com os seus artefatos.

    aprimorar o design garantir a maior inser-o do produto nos hbitos individuais de consumo, enfrentando a concorrncia com uma identidade visual marcante e di-

    ferenciada. O Cariri, com a riqueza e variedade do seu artesanato, xilogravuras e trabalhos em ferro e couro que se transformam nos mais diferentes produtos, com destaque para joias e calados conhecido Brasil afora pelo talento natural de seus artesos.

    Terceiro maior polo caladista do pas, o Cear tem em Juazeiro, Crato e Barbalha um tringulo geogrfico de intensa produo, cuja atividade se expandiu a par-tir de 1997, quando foi criado o Sindicato das Indstrias de Calados e Vesturio de Juazeiro do Norte e Regio (Sindindstria), com parceria firmada com o SEBRAE no Cear. Calados femininos representam a maior fatia do mercado, mas h bastante espao para os sa-patos masculinos e infantis. As bolsas tambm atraem consumidores de todo o Brasil.

    LINHAS bEM TrAADAS NA uFCEm 2010, o Cariri deu um salto fundamental na bus-ca por novas e criativas solues para produtos de qualidade. A inaugurao da Escola de Design da UFC-Campus Cariri deu incio a uma etapa distinta no aprimoramento da linha de produo que abastece o mercado interno, nacional e internacional. O curso de Design de Produto acontece no campus de Juazeiro do Norte e oferece duas habilitaes: joias e calados.

    O objetivo do curso formar profissionais, em nvel superior, com conhecimentos dos processos industriais e tecnolgicos, assim como domnio das linguagens visuais e culturais alinhadas s caractersticas locais. A meta final contribuir para o desenvolvimento scio-econmico da regio, preparando cidados capazes de atuar de maneira tica, crtica e reflexiva, interagindo com o meio onde vivem e respeitando o dilogo entre as prticas tradicionais e a metodologia projetual.

    Implantado no ano passado, o curso de Design de Produto ainda tem muitos desafios pela frente. Acredito que o potencial cultural e econmico do Cariri um for-te impulsionador para estabelecer uma relao de troca de saberes muito rica entre Universidade e a comuni-dade caririense, defende a professora Aura Celeste Cunha, que integra o corpo docente da instituio.

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    MuLHErES DA PALHAAt agora so sete professoras no curso de Design de Produto desenvolvendo um projeto de extenso cha-mado Mulheres da Palha, coordenado pela professo-ra Jeanine Torres Geammal.

    O objetivo geral melhorar as condies econ-micas e sociais das mulheres ligadas Associao dos Artesos de Juazeiro do Norte. O trabalho junto s mulheres pretende estimular o sentimento de coletivi-dade, cooperativismo e empreendedorismo no grupo,

    um CENRIO FORtE DE mANIFEStAES ARtStICAS E CuLtuRAIS. AURA CElESTE

    A professora Aura Celeste da Cunha uma entu-siasta do Curso de Design de Produto do Cariri. Ela enfatiza que a universidade ajuda os artesos na medida em que qualifica os produtores locais, apre-senta novas tecnologias e estimula a inovao. O curso tambm vem promover a conquista de novos mercados e a ampliao dos existentes, por meio da inovao tecnolgica e artstica aplicada aos pro-dutos, melhorando a renda dos trabalhadores. Na entrevista a seguir, a prof. Aura explica como criar

    uma sociedade sustentvel atravs do design.

    Cariri revista: Por que to importanteter um curso de design no Cariri?

    aUra: A regio do Cariri , inegavelmente, um cen-rio forte de manifestaes artsticas e culturais. Basta ver a diversidade e intensidade com que a comunida-de envolve as tradies religiosas e a cultura indgena, entre outros tantos elementos. Alm disso, a regio tem uma indstria em crescente expanso, com destaque para o polo caladista. Todos esses fatores justificam a presena, em Juazeiro, do curso de De-sign promovido pela Universidade Federal do Cear. Estamos lidando com um processo de formao pro-

    fissional orientado para o desenvolvimento de pro-jetos associados a vrias disciplinas. Essas discipli-nas visam constituir uma matriz de desenvolvimento social, econmico e poltico atravs da gerao de produtos e servios que carreguem consigo atribu-tos, valores e padres de qualidade mais coerentes, em consonncia com uma sociedade sustentvel.

    Cariri revista: Como o design podeajudar na profissionalizao dos artesos?

    aUra: Os artesos do Cariri so conhecidos pela profuso de tcnicas que utilizam. So exmios na escultura, tranado, xilogravura, pintura e modela-gem. Incorporam s diversas tcnicas elementos de forte identidade cultural. A unio de uma metodolo-gia projetual, proposta pelo design, manualidade caracterstica do artesanato, ser capaz de ampliar essa alternativa de renda aos arranjos produtivos locais, a fim de gerar produtos mais competitivos e promover sua maior aceitao no mercado. Vamos agregar valor pautado na funcionalidade (design) e nesse fazer manual nico

    que passa por dificuldades de sustentabilidade do ne-gcio de artesanato em palha de carnaba.

    O trabalho dever ser desenvolvido em 12 meses e constitui um projeto de interao entre alunos e co-munidade atravs de grupos focais, oficinas e outros instrumentos. Ao final do projeto, a universidade espe-ra ter contribudo para a insero do grupo de artess, com a criao de novos produtos e a construo de canais de divulgao e de distribuio da produo.

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    Apuro manual, linhas sinuosas, perfeito acabamento: o designer de joias produz peas nicas, como um arteso, mas auxiliado por tcnicas sofisticadas e estudos de materiais, como manda as regras do design. Essa mistura foi levada em conta pelas experientes designers Ana Neuza Videla e Jeanine Geammal, quando da montagem da habilitao em joias do Curso de Design de Produto do Cariri.

    Um estudo feito pela Secretaria do Desenvolvimento Local e Regional do Governo do Estado indica que existem cerca de 45 produtores formais e mais de 200 produtores informais em Juazeiro do Norte, sendo o municpio nacionalmente conhecido pela produo de joias folheadas.

    At nesse setor, o Padre Ccero figura como personagem importante. Dizem que foi devido insistncia dos devotos em se casarem sob as bnos do padim que o Juazeiro comeou a desenvolver uma prdiga linha artesanal de alianas e outras joias. Hoje existe na cidade um polo significativo do comrcio de joias folheadas que atua como distribuidor para as demais cidades da regio, empregando aproximadamente 4.000 pessoas e gerando um faturamento anual de R$ 60 milhes.

    JOIA

    Jeanine geammal, professora do curso de design de Produto

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    ainda madrugada e j os faris dos ca-minhes carregados de farinha de Arari-pina, abacaxis de Tabocas, rapadura de Jardim, iluminam as estradas embaadas

    pela garoa serrana. Seu destino a feira livre do Crato, onde iro se encontrar com outros chegados de vs-pera. Animais e ambulantes transportando caos, ba-laios , malas de couro cru, abarrotados de mercadorias diversas a se misturar com paus-de-galinha, bodes, carneiros, jumentos, burros, rezes.

    segunda-feira. Dia de feira livre. O vai-e-vem das pessoas carregando cestas e sacolas, na labuta sema-nal para abastecer suas despensas, lembra um formi-gueiro na faina de fornir seus caseiros. Tida como a mais importante feira da regio, numa poca em que no se contavam com os supermercados e os centros de abas-tecimento, ela aglomerava comerciantes de todos os estados do Nordeste. No Almanaque do Cear, de 1953, eis a descrio do autor sobre o comrcio da cidade:

    O municpio do Crato fica situado na zona sul do Estado, no ubrrimo Vale do Cariri e talvez, a cidade mais importante do estado, no ponto de vista intelectu-al, social e econmico. A sua maior fonte a agricultu-ra, em virtude da fertilidade do solo. O produto principal a rapadura e produz ainda farinha, goma, aguardente, algodo, mamona, fumo e grande variedade de frutas. por isso o mercado mais abundante e de melhores preos do Cear, dando margem a uma larga exporta-o para fora do estado.

    Esperava-se a semana toda por esse dia, um dia de trabalho, muita andana e muita canseira, verdadeiro dia de festa, num entusiasmo que durava da manh ao fim da tarde e que nem o sol do meio-dia desanimava. Para os solteiros, uma festa de roupas novas, perfume e flertes que vez por outra findavam aos ps do padre. Ou do juiz.

    amOR liBeRDaDe

    #cariricotidiano

  • CARIRI REVISTA 39

    Frutas, verduras, cereais, galinhas, perus, peixes, carne-seca, jogos de dados, confeces, objetos de cermica, ferramentas... De tudo que se necessitava, at mesmo plulas e unguentos medicinais de larga procedncia e utilidade, que tanto serviam para gen-te como para animais, curando at dor de chifre conforme apregoavam os representantes. Ou doutores de ocasio.

    No faltava nem mesmo o famoso homem da cobra, que falava pelos cotovelos, sem parar, sempre ameaando retirar de uma caixa ou de um cesto en-coberto com um pano preto uma pretensa serpente venenosa, que jamais algum viu. A isso tudo junta-va-se a voz dos cordelistas, cantando seus versos, e pelos recantos, a dos pedintes, implorando pelo amor de Deus uma ajuda, que agradeciam com um sonoro Deus lhe pague ou com um incompreensvel resmun-gar, dependendo do peso da oferta.

    Para completar, o cheiro convidativo dos pratos feitos, numa variedade de comida que ia de buchada, panelada de vsceras de boi, galinha na cabidela, baio de dois com carne de porco, linguia assada na brasa, caldo de costela e mungunz, ao conhaque So Joo da Barra e aguardente brejeira temperada com razes e cascas de plantas.

    H trinta anos vendendo goma em sua banca, seu Raimundo Aniceto, mestre da Banda Cabaal dos Irmos Aniceto, lembra de tudo isso e muito mais. Quando no est fazendo show, vem para a feira para complementar a renda da famlia. De teimoso, ainda continua, segunda aps segunda, insistindo na venda da goma que vai fazer tapioca quentinha, uma iguaria que se come da maneira que a imaginao permitir. Essa feira aqui tambm j me deu muita inspirao. J fiz muita msica com o povo e o produto que se vende aqui, conta Aniceto, sintetizando a importncia me-morial daquele sobrevivente espao.

    A feira do Crato, por fora das convenincias urba-nas, foi ao longo do tempo se deslocando de um canto para o outro, a comear pela Rua Dr. Joo Pessoa, indo esbarrar e quase agonizar s margens do Canal do Granjeiro, onde hoje luta pra sobreviver, entre super-mercados, mercearias, restaurantes, mercados pbli-cos, industrias de confeces. Tudo aquilo, afinal, para onde se encaminham os tempos modernos, com suas praticidades, seus artifcios e suas urgncias. Moder-nidade importante, mas que ficar bem mais atraente na romntica companhia da velha feira, testemunha da histria, palco da cultura.

    FOTOS: RAFAEl VIlAROUCA

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    O ROmeiRO,esse DesCONHeCiDO

    #cariridef

    Abordar o sagrado e suas diversas formas de apropriao em uma regio cercada pelo misticismo, como o Cariri, sempre matria complexa e instigante, constantemente explorada pelos meios acadmicos e miditicos. muito j se falou, e ainda h de se falar, de Ccero Romo Batista, o Padre. Ccero, um homem que virou mito ainda em vida. mas poucos se perguntam quem o romeiro, esse eterno peregrino das promessas cumpridas e esperanas inabalveis. A Cariri Revista seguiu o rastro dos caminhantes e encontrou novas tintasnas personagens que todos os anos vm a Juazeiro.

    No dia 24 de maro de 1844, na cidade do Crato, dona Joaquina Vicncia Romana, mulher de Joaquim Romo Batista, entra-va em trabalho de parto. Mais conhecida

    como dona Quin, ela haveria de dar luz ao prprio Cristo reencarnado, conforme professaria anos mais tarde a crena popular.

    O Menino Jesus redivivo chegou dos cus em meio a uma exploso de luz, com a fora de mil sis, no meio do serto. Foi trazido por um anjo de asas cintilantes, que na mesma hora levou embora a filhinha recm-nascida de uma catlica fervorosa [...]. De to intenso, o claro deixou a mulher temporariamente cega, bem na hora do parto, o que a impediu de per-ceber a troca das duas crianas. Como sinal de que era um iluminado, o menino santo acabava de regressar ao mundo em um 24 de maro, vspera da data em que se celebra a Anunciao de Nossa Senhora, exatos nove meses antes do Natal.

    O trecho acima, retirado do livro Padre Ccero Poder, F e Guerra no Serto (Editora Cia. das letras, 2009), do jornalista lira Neto, narra o que para milhares de pessoas a exata histria do nascimento de Ccero Romo Batista, um homem em cuja biografia a verdade e a fantasia se entrelaam de forma reiterada, perpetu-ando um mito que se alimenta da devoo popular.

    Os devotos acreditam que chegada de Ccero, aos 28 anos, na ento vila de Tabuleiro Grande, foi outro fato precedido por inspirao divina. J ordenado pa-dre, em sonho, Ccero teria recebido a visita de Jesus Cristo acompanhado de uma multido de flagelados. Cristo dizia estar decepcionado com a humanidade, mas estaria disposto a conceder uma segunda chan-ce, proferindo ento essas palavras: E voc, Padre Ccero, tome conta deles.

    Hoje, 139 anos aps a primeira visita de Ccero, a antiga vila uma cidade bem diferente daquela que o sacerdote ajudou a criar. De algumas centenas de

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    casas de taipa em um lugar esquecido, Juazeiro do Norte transformou-se na segunda cidade mais im-portante do Cear.

    So 250 mil habitantes espremidos no caos de carros, motocicletas, carroas e caminhes que devo-ram suas ruas largas com pressa e barulho, sobrando pouco espao para as caladas e menos ainda para os pedestres, que no encontrando espao suficiente, pulam das caladas para o meio das avenidas. E em tempos de romaria, de 250 mil a populao de Jua-zeiro agiganta-se. 750 mil, dizem as autoridades. Mas para quem se aventura a peregrinar nas ruas durante as romarias de Finados e Candeias, a sensao de algo na casa do milho seria mais apropriado.

    CAPITAL DA F E DO DINHEIrOJuazeiro, porm, aceita o desafio de ser a Capital da f e abriga, alberga, escancara-se para a confusa chegada dos romeiros que a tomam de assalto. So pequenos agricultores, comerciantes de uma porta, gente que vive de todo tipo de expediente e que che-ga cidade para gastar larga o dinheiro trocadinho da colheita do milho, arroz ou feijo o que em ano de seca prolongada ainda mais suado.

    Romeiros movimentam a economia da regio

    RAFAEl VIlAROUCA

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    Em tempos de chuva farta, o dinheiro escoa a ro-dos, literalmente. Conta-se que na igreja do Socorro, padres munidos de rodos arrastam as notas para den-tro de sacos, que saem de l estufados. Boato ou no, o caso que o romeiro o grande convidado dessa festa. Todos ali sabem que as notinhas trocadas iro irrigar, farta e largamente, desde o comrcio de santi-nhos at o oramento municipal, j distendido pelo mi-lagre de lucrar, h mais de um sculo, com as benesses em torno da imagem do Padim.

    So mais de dois milhes e meio de pessoas que todo ano passam pela cidade, gastando uma mdia de R$ 500 a R$ 2.500, distribudos em hospedagem, alimentao e doaes para a Igreja. Um dos setores privilegiados o comrcio de imagens e santinhos. S um fabricante de velas na cidade calcula um retorno de meio milho por quase todo o ano.

    POr TrS DO MITOMas afinal, quem na verdade o romeiro? Fazemos essa pergunta ao fotgrafo sergipano, Alejandro Zam-brana, que pela sexta vez vem a Juazeiro registrar as romarias. Com certeza no mais o romeiro tpico, vestindo bata e de vu na cabea que a gente v nos jornais. O romeiro que vem a Juazeiro dispensa o pau-de-arara e viaja de avio ou carro prprio. o cara ou mulher que vem a Juazeiro fazer turismo, no s pagar promessas. Porta cmera digital ou, como eu vi, prefe-re jogar mini-game a assistir missa.

    Fcil topar com jornalistas, cineastas, fotgrafos espalhados por todos os cantos da cidade. Com c-meras, flashes, microfones, disposio e muito filtro solar, l se vo os profissionais da mdia, estes soci-logos de batente que possuem a sagrada e irrevogvel tarefa de nos dizer, com objetividade e preciso, quem

    Um novo perfil de romeiro visita a capital da f

    FOTOS: RAFAEl VIlAROUCA

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    na verdade esse ilustre desconhecido. Quando vim a Juazeiro pela primeira vez ficava buscando esse ro-meiro que eu via nos jornais, at que me dei conta de que eu estava apenas reproduzindo uma idia equivo-cada em uma imagem congelada, explica Zambrana.

    Retratados, filmados, virados do avesso, os ho-mens, mulheres e crianas que chegam a Juazeiro de tantos lugares, sotaques, costumes e feies, no fim so reduzidos a uma s palavra: romeiros. logo eles, to an-siosamente esperados, louvados e festejados aparecem nos jornais como uma imagem congelada no tempo, rostos sofridos e batas marrons que se limitam a nme-ros na matria do dia seguinte e fotos em paus-de-arara.

    s dar uma volta por Juazeiro para percebemos o quo distante essa caracterizao est da realidade. Os romeiros vestindo bata e ornados de crucifixos so figuras tradicionais da cidade e esto em todos os can-tos. Ao observarmos homens e mulheres envergando roupas de tecidos grossos e escuros, a sensao imediata voltar ao passado, a uma poca em que o Padre Ccero ainda andava cercado por uma multido de beatos vindos de todos os lugares. Esses homens e mulheres, que j fazem parte do imaginrio coletivo de Juazeiro, so essenciais para criar uma atmosfera pi-toresca e reafirmar a idia de que as romarias resistem modernidade, conservando seus traos de cultura tradicional e imutvel.

    Porm, tal sensao reavaliada ao nos depara-mos com uma famlia de classe mdia vestindo shorts floridos e camisas regatas para combater o calor in-tenso. A filmadora digital, pea essencial do pacote, direcionada para tudo que se mova, e as expresses de surpresa so uma constante. Eles no so beatos. Mal conhecem a histria que cerca o Padre Ccero. Re-presentam o novo perfil do turista que vai a Juazeiro do Norte para contemplar a catarse popular que cerca o mito e, por que no?, fazer parte dela. Em um mundo em que todas as crenas e valores se dissolvem com a rapidez de um sonho, estar em contato com a f slida, cega e persistente uma experincia to surpreenden-te quanto a novidade da ltima semana.

    Exemplo desse novo perfil de romeiro, Ccero Ba-tista lopes, que j veio 28 vezes de Floresta, em Per-nambuco, at Juazeiro, prova que essa histria de ro-meiro s viajar pendurado em pau-de-arara no bem a verdade. Vim de carro com meus filhos e noras, que esto por a conhecendo a cidade. Ccero alcanou a graa de ver sua mulher sobreviver a um parto difcil, e desde ento vem todos os anos deixar 100 reais para a caridade. No esmola, veja l, para ajudar nos tra-balhos do pessoal, faz questo de explicar. Depois de pegar as fotos da famlia no lambe-lambe, sai apressa-do. Tchau. J t ficando tarde pra pegar a estrada.

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    RAFAEl VIlAROUCA

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    sOB a luZ Das CaNDeias

    em Juazeiro do Norte, as festividades de Nossa Senhora das Candeias marcam a primeira grande procisso do ano numa cidade repleta de manifestaes e pr-

    ticas religiosas. Tradicionalmente invocada pelos cegos, Nossa Senhora das Candeias, ou da luz, tornou-se muito querida em Portugal a partir do s-culo XV. Foram os colonizadores lusos que trouxe-ram as primeiras imagens e o sentido da devoo a essa santa para o Brasil.

    Os iluminados festejos de Juazeiro se iniciam no dia 29 de janeiro e se encerram no dia 02 de feve-reiro, quando acontece a romaria das Candeias, cujo ponto de partida a Capela do Socorro. Dali saem os romeiros, levando nas mos as velas que formam um enorme cordo de luz. Contritos, homens e mulheres

    entoam hinos e pedem graas, repetindo em unsso-no: Valei-me meu Padim Cio e a me de Deus das Candeias. O ponto de chegada da procisso a Bas-lica Santurio de Nossa Senhora das Dores.

    Vrios dias antes dessa festa, que representa a terceira maior romaria do ano, Juazeiro e seus arredo-res recebem levas intermitentes de peregrinos, muitos deles vindos de Alagoas, Pernambuco, Parnaba e outros estados vizinhos. Em 2011, mais uma vez, as comemoraes transcorreram com enorme afluncia popular, sendo abertas por uma missa campal na Pra-a do Romeiro. Por causa dos 100 anos da cidade, o tema escolhido foi: Me das Candeias, ilumine o Jua-zeiro centenrio, terra de orao e trabalho. Um lema que o Padre Ccero, grande incentivador da procisso e do progresso, certamente aprovaria.

    #cariridef

    devotos seguem at a baslica de nossa Senhora das dores

    RAFAEl VIlAROUCA

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    A origem da festa das Candeias est ligada a uma histria repassada de gerao em gerao. Conta-se que quando a eletricidade chegou em Juazeiro, os comerciantes de candeeiro sofreram muito, devido ao encalhe da mercadoria nas lojas. Um deles foi at o Padre Ccero solicitar aconselhamento. O Padre ento mandou que continuasse fabricando candeeiros. Frente incredulidade do comerciante, o padim apenas reafirmou o conselho. Aps fabricar mil candeeiros, o comerciante foi at Padre Ccero. Este disse que mil ainda era pouco, que podia fazer mais. Quando j haviam sido finalizados cinco mil candeeiros, o padre finalmente deu ordem para parar. Logo depois, ao fim de uma missa, Padre Ccero informou aos fiis que a partir daquele ano a congregao iria comemorar o dia de Nossa Senhora das Candeias com uma grande procisso. Detalhe: para que a procisso ficasse bonita, todos deveriam levar um candeeiro na mo.

    O PADRE QuE ILumINOu A PROCISSO

    RAFAEl VIlAROUCA

  • 48 CARIRI REVISTA

    A devoo a Santo Antnio existe na regio de Barbalha desde o sculo XVIII. No ano de 1778, o ento proprietrio da Fazenda Barbalha, capito Francisco Magalhes Barreto e S, idealizou a construo de uma capela em louvor ao santo medieval portugus, nascido em Pdua. Erigida a capela, o crescimento de Barbalha se deu em torno desse pequeno ncleo, que pouco tempo depois foi elevado categoria de vila, desmembrando-se do Crato. J em 1876 Barbalha era considerada uma cidade.

    ANtIGA DEVOO

    Irreverncia popular na festa do Pau da bandeira

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    quaNDOO sagRaDOe O PROFaNOse uNem

    No Olinda (PE), mas bem que podia ser. Nas ruas de Barbalha, sombra dos imensos casares, milhares de pessoas se divertem bebendo, danando e pa-

    querando, enquanto esperam a passagem do tronco que servir para o hasteamento da bandeira de Santo Antnio, padroeiro da cidade. A festa, barulhenta e ani-mada, seduz tanto os moradores quanto os forasteiros, revivendo anualmente uma antiga tradio. Desde o ano de 1928, o carregamento e hasteamento do Pau da Bandeira abre oficialmente os festejos dedicados ao santo casamenteiro, que acontecem em junho.

    Nessa colorida mistura do profano ao sagrado, a primeira providncia a escolha do tronco de uma rvore de grande porte, cujo fim receber a bandeira com a imagem do padroeiro. Depois de secar ao sol por alguns dias, o mastro transportado por centenas de devotos, que o levam nos ombros at o Cento da cidade, onde ento erguido diante da bela Igreja Ma-triz de Santo Antnio.

    A festa comea no ultimo domingo de maio ou pri-meiro de junho e se estende at 13 de junho, Dia de Santo Antnio, quando se realizam os ritos celebrati-

    #cariridefRAFAEl VIlAROUCA

  • 50 CARIRI REVISTA

    vos finais. Se por um lado o festejo uma realizao da Igreja e das elites locais, com a manuteno dos aspectos rituais da liturgia crist e dos valores da socie-dade rural, por outro, a imensa participao das cama-das populares faz desta celebrao uma ocasio para todos. Trabalhadores, pequenos comerciantes, donas de casa, biscates, mestres de obras, pintores de pare-des, operrios da construo: a afluncia grande, e a balbrdia tambm.

    PASSOS FESTIVOSNo contexto institudo da Festa de Santo Antnio, a abertura oficial consiste numa missa no incio da ma-nh, seguida pelo desfile folclrico, que sai da Igreja Matriz percorrendo as principais ruas da cidade, sem-pre sob o alarido dos grupos de capoeiristas, reisados, maneiro-pau, lapinhas, quadrilhas, bandas cabaais, guerreiros, cocos, mateus e at penitentes.

    frente destes vo as autoridades da festa: cl-rigos, representantes polticos e o capito do pau. Nas caladas e seguindo o desfile, o povo em geral. O comrcio fervilha no Centro da cidade, onde se pode comprar de tudo, incluindo imagens de santos e bone-cos pornogrficos. Tambm possvel brincar em par-ques montados para crianas ou divertir-se nos vrios prostbulos disfarados de bares.

    Enquanto se desenvolvem os ritos institudos, a alguns quilmetros dali, na Chapada do Araripe, os homens devotos se preparam para transportar nos ombros o gigantesco mastro de aproximadamente duas toneladas at a Igreja Matriz. O percurso cha-mado de cortejo e se configura numa festa dentro da festa de Santo Antnio. Na preparao do cortejo, be-bidas, comidas, brincadeiras, banhos e muita diverso tm lugar no meio do povo. As mulheres solteiras ou descasadas se apressam em retirar lascas da madeira

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    para fazer chs e simpatias, no intuito de garantir bom casamento. Trata-se de um contraponto ordem e hierarquia do desfile folclrico e da missa, elementos de domnio da Igreja. Uma aliana harmoniosa, embora improvvel, entre os desejos dos homens e as bn-os dos cus.

    Como bem observou o pesquisador Gilmar de Carvalho: Talvez, por isso, Barbalha seja um lugar to privilegiado, ameno, e doce, com sua rapadura preta, seus mestres da cultura, seus santos penitentes do Stio Batateiras e gua das fontes termais do Caldas. Talvez por isso, quando a festa passa, a cidade conti-nue, no cotidiano, com seus encantos, sem precisar da festa o ano inteiro, como se bastassem os 13 dias para que a catarse e a purificao se dem e, ainda, a paz volte a reinar s margens do Rio Salamanca.

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    O Crato perdeu sua ltima sala de exibio no incio da dcada de 90, mas houve um tempo em que a cidade se reunia no escurinho do cinema, para ver filmes nas muitas salas existentes a primeira delas aberta h 100 anos. Vamos recordar essa histria e conhecer os jovens cineastas do Cariri, que j esto dando o que falar.

    aNtigas sesses De CiNema

    em 1911, o italiano Vittorio Di Maio, aps passar pelo Rio de Janeiro, So Paulo e Fortaleza, levou seu cinematgrafo para o Crato, abrin-do nas imediaes da Praa da S defronte

    ao atual Museu Municipal , o Cinema Paradiso, primeira sala de exibio do interior do Cear. Com o filme Bor-boletas Douradas, o Paradiso encantou uma plateia

    #cariricultura

    que finalmente conhecia as emoes da tela grande. Ao longo dos anos a cidade teve outras salas im-

    portantes, como o Cine Moderno, o Cassino Sul Ame-ricano e a sala Cine Educadora. Os moradores mais ve-lhos recordam com saudades daquele tempo em que os cinemas criavam crculos de amizade, instigavam namoros e possibilitavam uma festiva interao social.

    neste lugar j funcionou um dos muitos cinemas do Crato

  • CARIRI REVISTA 55

    o memorialista cearense tom cabral, remetendo ao cinema paraso, oferece uma atenta descrio do interior de uma salade cinema:

    Havia duas classes distintas: a primeira, logo em seguida ao salo de entrada, e a segunda ou geral, perto da tela, provinda apenas de compridos bancos sem encosto, nesta o ingresso custava apenas a metade da primeira. As classes ficavam separadas por uma grade de madeira, antes do incio do espetculo, a orquestra encostava a bateria e vinha-se postar no fim da primeira classe, junto grade, tocava durante o desenrolar do filme, de preferncia valsas, choros e dobrados, conforme a natureza do enredo. Durante a exibio, havia trs, quatro e at mais intervalos, para a mudana das partes do filme no projetor .

    NO ESCuRINHO DO PARASO

    Por dcadas, as salas de projeo foram perso-nagens importantes nas tranqilas noites cratenses, mesmo enfrentando concorrentes de peso como o volteio das garotas em torno da Praa Siqueira Cam-pos, com a rapaziada perfilada na beira da calada formando uma plateia de pretendentes.

    Outros rivais de peso eram as nove noites de fes-tejos em honra padroeira da cidade, que no ms de setembro explodiam luminosamente em forma de bar-racas, parques de diverses, leiles e namoros passa-geiros com gosto de cachorro quente, pipoca, roletes de cana e tapioca com fgado.

    LEMbrANAS QuE NO SE APAGAM Dentre os quatro cines de passagem mais recente Araripe, Educadora, Cassino e Moderno , os ltimos tiveram uma vida relativamente longa, lutando brava-mente contra a correria das carruagens do tempo, abarrotadas de novidades, que iam influindo com mui-ta nfase no ramo de diverses.

    Muitos recordam do Cine Moderno e do Cassino, cada um com seu amplo salo lotado de cadeiras dobrveis, entrada controlada por funcionrio da em-presa, um comissrio para coibir a frequncia de menores nos filmes sob censura, as carteirinhas dos provveis associados, que davam direito ao pagamen-to da metade do preo cobrado pelo ingresso...

    A legenda ficar com esta formatao

    RAFAEl VIlAROUCA

  • 56 CARIRI REVISTA

    Nas manhs e tardes de domingo, invariavel-mente formavam-se longas filas para as matins e as vesperais, quando eram exibidos, alm das pelculas normais, os famosos seriados em que os mocinhos eram hipoteticamente instigados pelos gritos e palmas da plateia aflita. Entre os espetculos de romance e aventura, exibidos nas fitas de celulose que chegavam nos enlatados redondos, duas pelculas, embora re-petidas anualmente, figuravam sobejamente como campes temporrias de bilheteria.

    Paixo de Cristo, no perodo de Semana Santa, e O brio, cujo astro-produtor era o inesquecvel tenor Vicente Celestino, deixavam na poeira to-dos os outros filmes, lotando suas diversas sesses dirias com aficionados no s de Crato, mas de ci-dades vizinhas e at mesmo de outros estados, prin-cipalmente Pernambuco.

    Desses bravos heris, Cassino e Moderno, nos restam boas e saudosas lembranas que as novida-des, substitudas mal chegam a se conhecer, no con-seguem apagar. De 1911, quando apareceu o primeiro cinematgrafo, at no incio da dcada de 90,quando o derradeiro cinema apagou as luzes, foram 80 anos de exibies dirias no Crato. Atualmente estuda-se a possibilidade do retorno de uma dessas salas, jus-tamente o Cine Moderno, que parece representar o futuro, em exibies de filmes na cidade.

    LuZ, CMArA, AO:JOVENS rEALIZADOrESPassado tantos anos, as salas de cinema que vierem a ser abertas na cidade serviro para no s exibir filmes estrangeiros, mas tambm para abraar as produes de jovens cineastas caririenses Provenientes de facul-dades de cinema ou de cursos de iniciao fomenta-dos pelo Centro Cultural Drago do Mar, nomes como Franklin lacerda, Orlando Pereira, Ythallo Rodrigues e Alisson Gomes j figuram como realizadores de diver-sas produes premiadas dentro e fora da regio.

    Ythallo Rodrigues desponta com um dos desta-ques do cinema caririense. Seus mais recentes traba-lhos como diretor so os curtas Amor (2010) e lam-pio (2010). Ele tambm colaborou com os longas O Cu de Suely (Karim Anouz) e Bezerra de Menezes - o Dirio de um Esprito (Joe Pimentel e Glauber Filho). Em Estrada para Ythaca (Irmos Pretti e Primos Pa-rente), Ythallo atuou e fez cmeras e sons adicionais.

    H tambm promessas como o fortalezense, radicado no Cariri, Glauco Vieira, com dois filmes no currculo: Cerca (2006) e Sete Almas Santas Va-queiras (2008), e o cratense Judson Jorge, com seu primeiro curta-metragem, Assentamento (2011). O documentrio Tambm Sou Teu Povo, dos diretores Orlando Pereira e Franklin lacerda, corajosamente retrata o outro lado das romarias. O filme tem como protagonistas travestis de Juazeiro do Norte, que em poca de romaria transcendem a fronteira do social-mente permitido e saem s ruas para fazer programas ou simplesmente exibir-se.

    Sem as salas de cinema o que esses realizadores do audiovisual fazem provar que o axioma uma c-mera na mo, uma idia na cabea ainda vlido. Ao exibir suas produes em praas ou organizar seus pr-prios festivais independentes, eles mostram que pos-svel realizar e consumir cinema no Cariri cearense.

    Veja onde funcionavam as antigas salasde cinema do crato:

    cine cassino: O prdio ainda mantm o mesmo nome, Cassino Sul Americano. Fica na PraaSiqueira Campos, Centro.cine Moderno: atualmente o Teatro Salviano Arrais, no calado, Centro.cine Educadora: O prdio ainda existe. onde funciona a Rdio Educadora. Hoje o espao da sala conhecido como Teatro da Educadora. Na rua Coronel Antnio Lus, 1068, Pimenta.cine paraso: O prdio fica na Praa da S. J foia Biblioteca municipal. Hoje abriga diversas lojas.

    O mAPA DA mINA

  • CARIRI REVISTA 57

    Alisson Gomes o realizador do curta-metragem Do Paraso ao Moderno, que conta a histria das antigas salas de cinema no Crato. Antes disso ele j havia participado da produo de vrios filmes e assinado a direo de dois curtas: Adeus, Meu Bem e Quarta Parede. Em entrevista Cariri Revista, Alisson explica por que ficou to fascinado pelos antigos cinemas do Crato, a ponto de querer fazer um documentrio sobre eles.

    Cariri revista: Fale um pouco do percurso do seu filme, Do Paraso ao Moderno.aLissON: Dirigir um documentrio seria um desafio, e eu j tinha vontade de me expressar em relao s salas de cinema do Crato. Conhecia um pouco da historia e fiquei surpreso ao descobrir o quanto j foi rica a historia do cinema aqui. Quando tinha uns nove anos, vi uns trs filmes no Cine Cassino, e depois disso, s no shopping do Juazeiro. Ento fiz um projeto e o inscrevi no Prmio Cear de Cinema e Vdeo (da Secult), no qual fui contemplado. Com o financiamento obtido, realizei uma pesquisa, descobri vrios personagens, fiz uma visita prvia, montei minha equipe e fui a campo gravar os depoimentos. Todos falaram emocionados e muito saudosos sobre suas experincias naquelas salas, destacando como diferente a relao das pessoas com o cinema hoje, comparando-se com o que havia antes. Consegui fotos antigas das salas para ilustrar os depoimentos. Hoje o vdeo est em fase de coleta de imagens e edio de vdeo e udio.

    FOI EmOCIONANtE OuVIR A HIStRIA DOS ENtREVIStADOSAlISSON GOMES:

    Cariri revista: O que foi mais bacana na realizao desse curta?aLissON: Eu nasci no Crato e amo essa cidade. Tambm amo cinema. Vejo muitos filmes desde criana, mas quase no vi filmes em um cinema da minha terra. E sempre me inquietou o fato do Crato no ter cinema. Conversar com pessoas que viveram a poca urea das salas de exibio foi muito gratificante. Era emocionante sentir a alegria dos entrevistados quando eles lembravam as histrias, quando mostravam onde ficava cada coisa, onde se formava a fila. Foi muito bom ouvi-los e compartilhar da sua nostalgia.

    Cariri revista: Qual a sensao de lanar um filme sobre as salas de cinema de uma cidade que no possui mais cinema?aLissON: O fato do Crato no ter mais cinema foi uma das coisas que me impulsionaram a produzir esse curta. Eu me senti muito envolvido com as histrias, porque eu fao parte disso, e me emocionei bastante durante as gravaes. Na verdade, vou divulgar agora, em primeira mo, minha vontade de fazer um longa sobre o mesmo assunto. Durante a produo desse curta notei que preciso de mais tempo para contar essa historia, num prximo projeto, quem sabe at em pelcula. Os editais esto a. Posso ter sorte de novo... vamos ver no que d.

    Hoje s restam as fachadas das velhas salas de exibioAntigos projetores aindaresistem ao tempo

    FOTOS: RAFAEl VIlAROUCA

  • 58 CARIRI REVISTA

    Barbalha, cidade que habita os altiplanos da Chapada do Araripe, carrega em suas vias as marcas de memrias de pedra. Eri-gida ainda no tempo do Brasil Colnia, foi

    a mais prspera e rica cidade do Cariri at a primeira dcada do sculo passado. Responsveis por isso, os canaviais ainda resistem ao que um dia foi o principal elemento da economia barbalhense e regio.

    Com o dinheiro que corria farto, proveniente da cana-de-acar, ergueu-se uma cidade inteira, com igrejas, casares e sobrados. Com seus 165 anos, Bar-balha ainda mantm um ar colonial. A populao revive os ureos tempos, disposta a preservar a memria da nica cidade do Cariri em que o modelo monarquista ganhou, e com folga, o plebiscito sobre a escolha entre repblica e monarquia, em 1893.

    Ao se chegar Rua da Matriz, encontramos a Igre-ja Matriz, consagrada a Santo Antnio. Datada de 1799, a Igreja a mais antiga que a cidade. no seu entorno que todos os anos se concentram as festividades do corte do pau da bandeira, na festa de Santo Antnio. A poucos passos dali, um sobrado amarelo com mui-tas janelas azuis chama a ateno. Hoje abrigando a Faculdade de Artes da Universidade Regional do Cariri, era o sobrado de Antnio Sampaio, rico canavieiro que construiu nos fundos de sua casa uma senzala com um tnel que a ligava ao canavial. At a anexao da facul-dade de artes ao local, conta-se que ainda era possvel ver o tronco e os nichos de ferros onde eram presas as correntes dos escravos.

    Em frente ao sobrado, deparamo-nos com um imenso casaro que servia como a mais importante casa de venda de tecidos da regio. Construdo em 1859, o casaro foi saqueado pelo bando de lampio quando este, em 1926, dirigia-se a Juazeiro do Norte para receber das mos do Padre Ccero a patente de Capito. Dobrando a esquina h um prdio inusitado. Saindo da esttica colonial, o antigo Cine So Jos

    eNgeNHOs, sOBRaDOse Ruas De PeDRa

    #caririarquitetura

    estilo Art Nouveau. Erguido na era Vargas, carrega con-sigo smbolos caractersticos do Estado Novo e do na-zismo, como um H que faz referncia a Hitler e outros emblemas muito usados por essa esttica.

    O professor e historiador Josier Ferreira da Silva lamenta no ter havido uma sensibilidade municipal para a preservao do patrimnio arquitetnico. No h nenhum projeto concreto para tombamento de nvel municipal em Barbalha. Os nicos prdios tombados so o sobrado de Antonio Sampaio e o Palcio 3 de Ou-tubro, em nvel estadual. E o pior que as pessoas no se vem no patrimnio materializado, devido falta de um trabalho pedaggico de educao patrimonial nas

    Memrias de pedra nos sobrados

  • CARIRI REVISTA 59

    escolas que tente agregar o valor simblico e histrico do prdio vida da cidade. Da as novas geraes no se identificarem com esse patrimnio, define.

    Apesar das dificuldades em se preservar o patri-mnio arquitetnico de Barbalha, o que vemos nos edifcios histricos um reflexo singular da diversi-dade cultural que ocorre em toda a regio do Cariri. Os mais de 30 edifcios de valor histrico, incluindo casares e sobrados, narram a saga de uma cidade que viu o florescimento da riqueza e da prosperidade, numa poca em que bandos de cangaceiros, padres santificados pelo povo, coronis e retirantes protago-nizavam sua histria.

    A preservao do patrimnio de barbalha tambm depende do interesse das novas geraes

    A histria vive nas esquinas

    FOTOS: RAFAEl VIlAROUCA

  • 60 CARIRI REVISTA

    tRaNsPlaNtes De RgOs: avaNOs e PROmessas

    #caririsade

    Com o aporte do Sistema Nacional de Transplantes, cujos braos abarcam 548 unidades de sade em 25 estados do pas, o Brasil possui um dos maiores programas pblicos de transplantes de rgos e tecidos do mundo. O Cariri foi o primeiro centro credenciado no interior do Norte e Nordeste a realizar transplantes de rins. tambm uma das regies brasileiras que mais fez transplantes nos ltimos anos. Ainda assim, h grandes obstculos a serem vencidos nessa corrida contra o tempo e em favor da vida.

    200 transplantes renais j foram realizados no cariri

    ARQUIVO/SHUTTERSTOCK

  • CARIRI REVISTA 61

    um motivo de grande orgulho! O Cariri atin-giu a marca de 200 transplantes renais, des-de que comeamos a realiz-los, em 1994. Ns fomos os pioneiros no servio de trans-plantes no interior, comemora o nefrologista Valncio Carvalho, coordenador do servio de transplante renal do hospital So Raimundo, no Crato, e presidente da I Jornada Mdica de Transplantes do Cariri. Exultante com os nmeros, ele nem por isso est satisfeito com a realidade. A marca atingida poderia ser ainda melhor.

    O nosso problema exatamente a captao de rgos, fundamental para o sucesso dos transplantes. No ano passado, em 30 possibilidades de captao, s conseguimos efetivar cinco, lamenta o Dr. Valn-cio, reconhecendo que so muitos os preconceitos que cercam o tema. Inmeras famlias vem com re-servas os procedimentos indispensveis doao, au-mentando com isso a fila dos pacientes que aguardam um doador compatvel.

    O corpo do doador totalmente recomposto an-

    tes de ser entregue famlia. Todos os procedimentos observam a dignidade humana. Eu penso que h uma conexo solidria entre todos ns. Podemos comple-mentar uns aos outros atravs da ao consciente da doao, compreendendo que o conceito de estar vivo ultrapassa, de fato, a vida efetiva de um corpo especfi-co, finaliza o Dr. Valncio.

    rEGrAS CLArAS NO JOGO DA VIDACom todos os entraves, o Cear est muito bem colo-cado no ranking nacional de transplantes renais, assim como o Cariri, que s fica atrs de Fortaleza e Recife. Os transplantes podem ser feitos com doadores vivos ou com pacientes que tenham tido morte cerebral comprovada. A ideia agora avanar para outras fren-tes, viabilizando um grande nmero de transplantes de crnea (que j acontecem na regio), fgado e corao.

    No primeiro trimestre de 2010, segundo a Associao Brasileira de Transplantes e rgos (ABTO), o Cear obteve o segundo melhor desempenho do Pas na doao de rgos. Tambm bateu recordes em realizao de transplantes, ficando com o quarto melhor desempenho no setor. Somente no ano passado, foram realizadas 875 intervenes: 229 de rins, 463 de crnea, 113 de fgado e 14 de medula ssea. Isso significa 108 a mais que em 2009 e 100% a mais que em 2007.

    Em 2009, o Hospital Geral de Fortaleza fez o primeiro transplante de pncreas do Cear, procedimento que se repetiu seis vezes no ano passado e que deve ser duplicado este ano. Alis, 2011 promete vida nova para muita gente. Somente nos primeiros 13 dias do ano, o nmero

    OS NmEROS DO EStADO

    de transplantes chegou a 36. Desse total, 12 de rins, 12 de crneas, oito de fgado, trs de corao e um de medula ssea.

    A Unio de foras entre a Central de Transplantes e as comisses intra-hospitalares tem sido fundamental para a deteco precoce da morte enceflica. Outro fator que contribuiu para o aumento de procedimentos foi a descentralizao das doaes, que antes eram realizadas apenas na capital.

    Com a inaugurao do Hospital Regional do Cariri, em Juazeiro, as equipes mdicas acreditam que haver um aprimoramento no processo de captao de rgos. A Secretaria da Sade do Estado j divulgou em sua pgina eletrnica que pretende superar este ano a marca de 1.000 transplantes no Cear.

  • 62 CARIRI REVISTA

    umA QuEStO DE SOLIDARIEDADE

    Uma cadeia de fatores precisa ser contemplada simultaneamente para a captao de doadores em potencial e a viabilizao dos transplantes. Antes de qualquer procedimento, imprescindvel que as famlias se conscientizem de que doar um ato solidrio cuja finalidade salvar vidas. Cada pessoa com morte enceflica representa a vida de pelo menos seis outros pacientes, informa o cirurgio Valncio Carvalho.

    Muitas famlias ainda resistem porque, com exceo da crnea, que pode ser retirada seis horas aps o falecimento do doador, os demais rgos tm que ser extrados com o corao ainda batendo. Precisamos esclarecer que a morte enceflica ou cerebral a morte definitiva. O corao s segue batendo por causa dos aparelhos, mas isso no significa qualquer possibilidade de volta vida. Se o crebro no mais irrigado, no h retorno. O que podemos fazer aproveitar os rgos para salvar outras pessoas, enfatiza o doutor Valncio.

    Dentro dos hospitais tambm h dificuldades, por causa da demora na notificao central de captao, ou devido ao tempo de constatao da morte cerebral. Essa morte s pode ser atestada oficialmente por um neurologista ou por um neurocirurgio, juntamente com o intensivista, que o mdico plantonista da UTI. Se o paciente

    Em recente Jornada Mdica de Transplantes, o Cariri reuniu profissionais e estudantes da rea, alm de pacientes transplantados h mais de 10 anos. Na ocasio, o presidente da Associao Brasileira de Transplantes de rgos, Ben-Hur Ferraz Neto, que atua no Hospital Albert Einstein de So Paulo, defen-deu a manuteno de regras claras e previamente estabelecidas, como acontece hoje, para que ningum seja privilegiado na fila de espera. Paralelamente, ele considera que possvel pensar num processo de regionalizao dos transplantes, desde que isto no prejudique a transparncia do sistema.

    Atualmente, as captaes dos rgos aconte-cem em Barbalha, no Hospital Santo Antnio, e os transplantes so feitos no Crato, no Hospital So Raimundo. Na mesma cidade, o Banco de Olhos do Hospital So Francisco foi o primeiro do interior a reali-zar com sucesso uma cirurgia de crnea. Em Juazeiro, o Hospital Santo Incio tambm est apto a cumprir este tipo de procedimento. As cirurgias para os trans-plantes hepticos acontecem na capital cearense. A sobrevida do rim transplantado gira em torno de 95 a 97% no primeiro ano aps o transplante, de acordo com o doutor Valncio Carvalho.

    chega ao hospital sem qualquer possibilidade de sobreviver, preciso agir rpido, fazendo os exames que iro mostrar se ele um doador em potencial. A retirada dos rgos s realizada aps a autorizao dos familiares.

    O retardo na realizao dos exames, bem como a demora no protocolo de morte enceflica, impedem que muitas pessoas recebam novos rgos. Os rgos doados devem passar imediatamente a condies rigorosas de conservao um fgado deve ser transplantado, no mximo, em oito horas, um rim em 24 horas, o corao quase que imediatamente aps a morte do doador, contabiliza o cirurgio Valncio Carvalho.

    A instalao das unidades OPO (Organizao para Procura de rgos) pelo Governo Federal promove um alento no setor, porque concretiza uma busca ativa por rgos, num grande elo que inclui desde a educao e conscientizao da populao, dos pacientes e de seus familiares, at a prtica intra-hospitalar, com exames de compatibilidade, cuidados com o doador em potencial, constatao de morte cerebral e conservao dos rgos. Essas unidades OPO funcionam a nvel regional e so supra-hospitalares. No Cariri, atuam em nove hospitais com potencial de captao de rgos. Cada hospital, por sua vez, tem uma comisso intra-hospitalar de transplante.

  • CARIRI REVISTA 63

    A insulina um hormnio produzido pelo pncreas, que funciona como fonte de energia para a entrada da glicose nas clu-las. Os quadros de hipoglicemia se instalam, quando aumenta a quantidade de insulina no sangue, ou diminui a quantidade dos hormnios de contrarregulao (glucagon, hormnio do crescimento, adrenalina e cortisol). Esses hormnios so produzidos quando se esgota o estoque disponvel de glicose no sangue, e ajudam a liberar o gli-cognio armazenado no fgado.

    Nveis baixos de glicose no sangue comprometem o funcionamento de mui-tos rgos, especialmente, o funciona-mento do crebro.

    TIPOS E CAuSASExistem dois tipos principais de hipogli-cemia: a hipoglicemia de jejum e a ps-prandial, ou reativa, que ocorre depois das refeies. Entre as causas da hipogli-cemia de jejum destacam-se: 1) produo exagerada de insulina pelo pncreas, 2) medicamentos utilizados no tratamento de diabetes, 3) insuficincia heptica, car-daca ou renal, 4) tumores pancreticos, 5) consumo de lcool, 6) deficincia dos hormnios que ajudam a liberar glicognio.

    A hipoglicemia ps-prandial ou reati-va ocorre por volta de trs a cinco horas depois das refeies, como resultado do desequilbrio entre os nveis de glicose e de insulina no sangue. Em geral, ela se

    Hipoglicemia um distrbio provocado pela baixa concentrao de glicose no sangue, que pode afetar pessoas portadoras ou no de diabetes.

    manifesta em pessoas predispostas de-pois da ingesto de alimentos ricos em acar e nos pacientes submetidos ci-rurgia do estmago, ou em fase inicial da resistncia insulina. SINTOMASOs sinais da hipoglicemia podem ser pro-duzidos pelos hormnios de contrarregula-o e pela reduo da glicose no crebro. No primeiro caso, os sintomas so: tre-mores, tonturas, palidez, suor frio, nervo-sismo, palpitaes, taquicardia, nuseas, vmitos e fome. No segundo, confuso mental, alteraes do nvel de conscin-cia, perturbaes visuais e de comporta-mento que podem ser confundidas com embriaguez, cansao, fraqueza, sensao de desmaio e convulses. DIAGNSTICOPara fazer o diagnstico, preciso con-siderar os sintomas e o resultado dos exames de glicemia, curva glicmica e glicemia capilar. Este ltimo permite medir o nvel de glicose a partir de uma gota de sangue extrada da ponta do dedo. Outro indcio importante para o diagnstico a melhora dos sintomas aps a ingesto de alimentos ou de acar. TrATAMENTOO tratamento da hipoglicemia est dire-tamente associado causa do distrbio.

    A retirada cirrgica de tumores, a abstinn-cia de lcool em jejum, um novo esquema medicamentoso, por exemplo, so formas diferentes de solucionar o problema.

    Quanto hipoglicemia reativa, o me-lhor prevenir as crises. Por paradoxal que possa parecer, assim como nos casos de diabetes, fundamental restringir ao mxi-mo a ingesto de acares.

    No entanto, uma vez instalada a crise hipoglicmica, o paciente deve tomar um copo de suco de laranja, ou de refrigerante no diettico, ou meio copo de gua ado-ada com uma colher de acar, ou chupar balas para repor os nveis de glicose. O efeito ser mais rpido se esses alimentos forem ingeridos junto com carboidratos de longa durao, como pes, pipocas, biscoitos, etc. Se o nvel de conscincia estiver comprometido, o paciente deve ser encaminhado para atendimento mdico, a fim de receber a medicao adequada. rECOMENDAES Refeies menores e mais prximas

    umas das outras ajudam a prevenir a queda da glicose no sangue;

    Refeio leve, base de carboidratos e protenas, antes de dormir ajuda a pre-venir crises noturnas de hipoglicemia.

    A prtica de exerccios fsicos pode exigir o consumo de carboidratos para evitar a queda brusca dos nveis de gli-cose no sangue.

    #cariricolunadesade

    HiPOgliCemia

    Por drauzio Varella

  • 64 CARIRI REVISTA

    #caririliteratura

    Por Cludia Albuquerque

    PODeR, F e gueRRaNO seRtO

    lanado com grande sucesso em 2009, o livro Padre Ccero Poder, F e Guerra no Serto, do jornalista lira Neto, mais uma contribuio valiosa para o entendimento de uma fi gura mpar na histria nacional. Resultado de exaustivas investigaes e leituras de documentos exclusivos, alm de centenas de entrevistas e viagens para pesquisa de campo, o livro vem iluminar, em mais de 500 pginas, o homem e o mito contidos na frgil silueta de Ccero Romo Batista.

    Uma excelente oportunidade para de-votos, estudiosos, admiradores, detratores ou simples curiosos conferirem, no estilo vibrante que caracteriza as obras de lira, os pormenores do longo percurso do Pa-dre Ccero, falecido aos 90 anos: as origens simples; o incio da carreira eclesistica no Seminrio da Prainha; a nomeao como vigrio de Juazeiro, em 1872; a reao aos fenmenos misteriosos que alarmaram a Igreja; a suspenso da ordem em 1894; o ingresso na carreira poltica e os acordos com as oligarquias da regio.

    lira Neto, bigrafo tambm de Jos de Alencar, Castello Branco, Rodolfo Tefi lo e Maysa, reconstri de maneira magistral episdios como o Milagre da Hstia, de 1889, quando o ento jovem Ccero v a hstia transformar-se em sangue na boca da beata Maria de Arajo. O jornalista con-

    tou com o acervo da Cria do Crato e suas mais de 900 cartas para reconstruir o dilo-go entre autoridades da Igreja no Brasil e o tribunal do Santo Ofcio.

    Em vrias entrevistas ps-lanamento, lira Neto revelou que sempre quis es-crever sobre Ccero, mas considerava o personagem grande demais. S mudou de posio ante a promessa de lidar com documentos inditos. Experiente, 47 anos, lira foi reprter, editor e ombudsman do Jornal O POVO, onde trabalhou por dez anos. Tambm j atuou como coordena-dor editorial das Edies Demcrito Rocha (Fortaleza) e da Editora Contexto (So Pau-lo). Radicado na capital paulista, escreve atualmente a biografi a de Getlio Vargas, que ser publicada pela Cia. das letras em trs volumes.

    Enquanto o cineasta Srgio Machado prepara um fi lme inspirado no livro de lira sobre Ccero, com previso de estreia para

    2012, o Vaticano estuda a reabilitao do Padim. O prprio papa Bento 16 j mostrou simpatia pela causa, que seria tambm uma forma de inibir o crescimento da cor-rente evanglica no Brasil. Afi nal, Ccero um mito capaz de atrair 2,5 milhes de fi is todos os anos a Juazeiro do Norte. A sa-gacidade na costura de alianas, a percia na acomodao de interesses, a simplici-dade com que concebia o mundo, a fora de trabalho e o invencvel carisma fi zeram dele um lder popular capaz de sobreviver a todos os obstculos e perseguies.

    Padre Ccero Poder, Fe Guerra no Serto, de Lira Neto. Cia das Letras,557 pginas.

    SERVIO

    lira neto: documentos exclusivos e pesquisa aprofundada

    PADRE CCERO:

    lAIlSON SANTOS

  • CARIRI REVISTA 65

    vaRgas llOsa e Os eNCaNtOs Da FalaNa onda de relanamentos e reedies do peruano Mario Vargas llosa, prmio No-bel de literatura de 2010, um dos ttulos fundamentais O Falador. lanado em 1987, quando Vargas llosa j era mundial-mente conhecido por obras como Con-versa na Catedral (1969), Pantaleo e as Visitadoras (1973) e Tia Jlia e o Escre-vinhador (1977), O Falador no obteve o mesmo xito comercial dos seus pares, mas contm todas as qualidades reconhe-cidas do autor: exuberncia de estilo, ca-pacidade de surpreender e tcnicas narra-tivas extremamente sofi sticadas, sempre a servio de histrias arrebatadoras.

    No livro, um narrador cuja biografi a se confunde, em parte, com a de Vargas llosa, recorda sua amizade de juventude com Saul Zuratas, o Mascarita, um judeu de lima cuja paixo pelos ndios Machi-guenga resultaria num futuro inesperado e assombroso. Em suas refl exes, o narra-dor mistura um perodo de sua vida com a histria de Mascarita, a imerso no cotidia-no dos Machiguenga e uma anlise sem preconceitos da situao das sociedades indgenas numa Amaznia convulsiona-da. Tais refl exes so substitudas, em

    quem l O qu

    est lendo: galilia autor: Ronaldo Correia de Britoeditora: alfaguaraas impresses que fi cam deste romance vm de encontro com uma idia idealiza-da e criada por outros escritores que li no passado do que serto e a partir dele pude pensar numa pespectiva contempo-rnea do mesmo, s que acompanhada por personagens densas de forte memria oral que habitam um no lugar.

    est lendo: a mulher sem tmulo autor: Nilze Costa e silvaeditora: armazm da culturaDesde criana que escuto histrias sobre a beata maria de arajo, famosa beata dos fenmenos ocorridos em Juazeiro, terra de me das Dores, e nesta narrativa a escri-tora consegue construir um forte universo simblico e imagtico que est sendo fon-te para uma pesquisa artstica de um futu-ro projeto em parceria com uma artista de so Paulo, erika mizutani.

    O Falador, de Mario Vargas Llosa. Editora Leya, 251 pginas.

    SERVIO

    captulos alternados, por uma segunda e misteriosa voz narrativa, que recria a tradi-o oral e a maravilhosa cosmogonia dos Machiguenga.

    uMA CuLTurA E SuASPOSSIbILIDADESDispersos na selva peruana em pequenos ncleos nmades, sem lderes, os ndios Machiguenga mantm contato entre si atravs da fi gura de um contador de his-trias, el hablador, ou o falador, que visita as famlias e seduz a audincia narrando lendas, recriando mitos, revivendo situa-es passadas e informando sobre casa-mentos, nascimentos e mortes. Tmidos, arredios e frugais, eles vivem em delicado equilbrio com a selva. Equilbrio este ame-aado por interferncia dos brancos e mestios, acusados de contaminar a cul-tura indgena, sob o pretexto de civiliz-la. Vargas llosa no prega o isolamento a todo custo nem se perde em elucubraes romnticas sobre os povos da fl oresta, mas observa a realidade a partir da hist-ria, refl etindo junto com os leitores os per-calos do crescimento e as possibilidades de uma cultura solidria entre os povos.

    uNINDO O QuE DISTINTOMario Vargas llosa nasceu em Arequipa, Peru, em 1936. Sua vasta obra inclui livros como A Cidade e os Cachorros (1963), sobre os dois anos de internato no Col-gio Militar de la Perla; A Guerra do Fim do Mundo (1981), que conta a saga de Canudos e As Travessuras da Menina M (2006), uma histria de amor tumultuada por 40 anos de idas e vindas. Cidado do mundo, Vargas llosa considerado um dos maiores escritores latino-americanos de todos os tempos. Ele concorreu presidncia do Peru em 1939, perdendo para Alberto Fujimori. No discurso em que agradeceu a Academia Sueca pelo prmio Nobel de 2010, resumiu um pouco de sua crena literria: A boa literatura cria pon-tes entre povos distintos e, fazendo-nos gozar, sofrer ou surpreendermo-nos, nos une por baixo das lnguas, crenas, usos, costumes e desgraas que nos separam.

    CarLa Prata (Gerente Operacional do sesC Crato)

    aDriaNO BritO (artista visual)

  • 66 CARIRI REVISTA

    bOAS INFLuNCIASPOrTuGuESASAlm do refinamento, o colonizador por-tugus introduziu alguns ingredientes importantes na culinria brasileira: o coco (trazido da ndia), o sal, e a canela em p misturada com acar. O sarapatel, o sar-rabulho, a panelada, a buchada, o cozido, no fazem parte da culinria africana, mas, sim, portuguesa. Os dois primeiros vieram, tambm, da ndia atravs dos colonizado-res. A doaria lusa trouxe: pudim de iai, arrufos de sinh, bolo de noiva, pudim de veludo. Vieram, ainda, muitos quitutes mouriscos e africanos, como o alfenim e o cuscuz, e frutas como a manga, a jaca, a fruta-po e a carambola, que foram trazidas do Oriente. Do j famoso cozido portugus que partiu a idia de se incluir feijo preto ou mulatinho, carnes e muitas verduras, a fim de fazer um prato nico: a feijoada.

    trecho do texto Culinria Brasileira, de semira adler vainsencher, pesquisadora da Fundao Joaquim Nabuco

    Mistura, variao, aproveitamento: a alqui-mia dos ingredientes transforma a cozinha num territrio de saborosas surpresas. Com seus muitos temperos, o vasto mundo da gastronomia nos proporciona uma viagem instigante, colorida e reveladora atravs dos tempos e dos costumes.

    No Nordeste, a buchada um desses pratos que evocam conjuno. Isso porque o tipo mais tradicional feito com os mi-dos (corao, bofe, rins, garganta, sangue coagulado e fgado) de bode.

    Tais midos so picados, temperados e colocados dentro de uma bolsa feita a partir da barrigada do animal. Com ou sem pi-menta, o prato servido fumegante, muito bem acompanhado de piro e arroz branco.

    alquimia De saBOResNa mesa NORDestiNa

    Pesquisa: Ruth Marinho[Pesquisadora em gastronomia e praticantede maravilhosas receitas]

    No Cariri possvel degustar as buchadas em diversos restaurantes. O espao Coisas do Serto, em Juazeiro do Norte, oferece inclusive a de peixe, num ambiente decorado com as corese os smbolos da regio.

    Restaurante Coisas do sertoav.Padre Ccero 3020(88) 35717676Juazeiro do Norte -Ce

    ONDE COmER

    uma iguaria que lembra reunio fami-liar, festana entre amigos, gula de domin-go. Com seu gosto forte e inconfundvel, vai bem com cachaa e pede uma boa rede aps a ingesto. Todas as receitas exis-tentes demandam cincia de tempero e intuies misteriosas de clculo, como fri-sa o pesquisador Cmara Cascudo, grande estudioso da cozinha brasileira.

    A buchada no uma receita origina-riamente nordestina. Na verdade, ela he-rana dos portugueses que desembarca-ram no Brasil em 1500 (ver box). Porm, o prato conquistou definitivamente o paladar do nosso povo, adquirindo sotaque local, permitindo variaes regionais e arreba-tando os paladares mais exigentes.

    O que nem todos sabem que existem tipos inusitados de buchada, como as de peixe e de camaro. A seguir, a Cariri Re-vista ensina como preparar essas delcias. fazer e delirar!

    #caririgastronomia

  • CARIRI REVISTA 67

    Tradicional Buchada de Bode

    Ingredientes: 1 fussura de cabrito completa 2 tomates picados 1 pimento verde picado 1 cebola grande picada Coentro a gosto Limo Sal a gosto 3 dentes de alho picado 1 colher de sopa de cominho com coentro ralado 3 dentes de alho amassados no pilo Agulha e linha de costura

    Modo de preparo: 1. Limpe e escalde as tripas e vsceras. 2. Limpe o bucho, esfregando limo por dentro

    e por fora. Deixe de molho em gua fria com o suco de 1 limo por algumas horas.

    3. Coloque em uma panela todas as vsceras, cortadas em cubos bem pequenos. Adicione o tomate, a cebola, o cheiro-verde, o pimento, o coentro com cominho ralado, o sal e o alho. Misture bem, refogando em azeite ou leo quente.

    4. Junte o sangue coagulado j picado5. Retire o bucho do molho de limo para

    aferventar inteiro.6. Coloque o refogado de vsceras no interior do

    bucho e costure com agulha e linha.7. Leve ao fogo uma panela com bastante gua

    e sal e deixar ferver. Cozinhe o bucho em fogo brando durante 4 h.

    8. Sirva com molho de pimenta, arroz branco e farinha.

    Buchada de Peixe

    Esta receita foi criada pelo cozinheiro Josimar Mateus, inspirado na variedade de peixes do Ors. A buchada de peixe j uma iguaria de muito sucesso entre os bons de garfo.

    Ingredientes: Fil de 5 tilpias de tamanho mdio copo de creme de leite 1 vidro de leite de coco de copo de leo Pimenta do reino e sal a gosto 2 limes fruta po cozida 1 travessa de cheiro verde

    Modo de Preparo:1. Abra o peixe, tire a pele e conserve.2. Corte os files em pedaos mdios e tempere

    com sal, pimenta do reino e colorau.3. Faa um refogado parte, com tomate,

    cebola picada, cheiro verde picado e alho triturado e um pouco de leo.

    4. Prepare as peles para encher com a mistura de tilpia. Costure bem. Leve ao fogo, juntando aos temperos j refogados, por 5 minutos.

    5. Coloque ento as buchadas e cubra-as com gua por mais 5 minutos de fogo.

    6. Ao final, adicione o leite de coco e o creme de leite por mais 20 minutos .

    7. Sirva com baio de dois e piro.

    RAFAEl VIlAROUCA

  • 68 CARIRI REVISTA

    ROteiRODe COmPRas

    Centro de Artesanatos mestre Noza.Rua So Luiz, s/n. CentroJuazeiro do Norte Fone: (88) 3511.3133

    Caminho de mesa bordadoem rechelieu (2,40 m cumprimento /

    para mesas de 6 lugares)Origem: Juazeiro do Norte

    $: 75,00Onde encontrar: mercado Central /

    3 piso, Box 541, Fone: 3511.6396

    quadros em argilaArteso: Famlia CndidoOrigem: Juazeiro do Norte

    $: de 25,00 a 45,00Onde encontrar: Centro

    de artesanato mestre Noza

    escultura em madeira de lampio Arteso: KalysteneOrigem: aurora$: 900,00Onde encontrar: Centrode artesanato mestre Noza

    escultura em madeirade luiz gonzaga

    Arteso: KalysteneOrigem: aurora

    $: 700,00 Onde encontrar: Centro

    de artesanato mestre Noza

    escultura em madeirade Padre CceroArteso: everaldo$: 1.000,00 Origem: Juazeiro do NorteOnde encontrar: Centrode artesanato mestre Noza

    mercado CentralRua So Pedro com a Rua Santa Luzia, CentroJuazeiro do Norte - De segunda sexta de 8:00s 18:00h. Aos sbados, de 8:00 s 13:00h.

    Cachaa Kariri com KOrigem: Juazeiro do Norte$: 7,00 Onde encontrar: mercado Central / Beco do alemo

    manta artesanalOrigem: Juazeiro do Norte / vrzea alegre / Jaguaruana

    $: de 7,00 a 35,00Onde encontrar: mercado

    Central / Box 130

    RedeOrigem: Juazeiro do Norte / vrzea alegre / Jaguaruana$: de 10,00 a 250,00 Onde encontrar: mercado Central / Box 130

  • CARIRI REVISTA 69

    Bolsa (azul marinho) Onde encontrar: sagian

    Origem: Juazeiro do Norte$: 339,90

    Ivo Pita (folheados)Rua So Pedro, 612. CentroJuazeiro do NorteFone: (88) 3511.4423

    Corrente e pingente banhadosa ouro 8.9 gramas (masculino)Onde encontrar: ivo Pita Origem: Juazeiro do Norte$: 89,00 (corrente)$: 12,10 (pingente)

    Conjunto feminino: gargantilha de ao / pingente e brincos (Nossa senhora) folheados a prataOnde encontrar: ivo PitaOrigem: Juazeiro do Norte$: 17,20

    redes, cachaas, quadros de argila, bolsas, sandlias e esculturas de mestres artesos. produtos populares e artigos finos se misturam nos mercados e esquinas do cariri. Saiba onde encontrar os tesouros da regio.

    SagianRua So Pedro, 634. CentroJuazeiro do NorteFone: (88) 3511.2766

    sandlia (branca com lao azul)Onde encontrar: sagianOrigem: Juazeiro do Norte$: 69,90

    FOTOS: RAFAEl VIlAROUCA

  • 70 CARIRI REVISTA

    a inaugurao da mais completa unidade de sade do Cariri reuniu profissionais de sade e autoridades.

    #cariripersonasgratas

    eNtRega DO HOsPital RegiONal DO CaRiRi

    O ministro da sade Alexandre Padilha, o governador Cid gomes, os secretrios estaduais Arruda bastos (sade) e Camilo Santana (Cidades) na inaugurao do HRC Ministro da sade, Alexandre Padilha

    governador Cid gomes apresenta as instalaes ao ministro Padilha Ministro conversa com equipe do novo hospital

    Primeira-dama e o governador Cid gomes

    Estrutura garante atendimento a toda a regio

    Ministro Padilha e o prefeitode Juazeiro, Manoel Santana

    Arnon e Elise bezerra, Arruda bastos e Valrio Saheina do Hospital So Raimundo

    FOTOS: NETA BUlHES

    RAFAEl VIlAROUCA

  • CARIRI REVISTA 71

    Moda linguagem, expresso de comportamento, cdigo para transmitir mensagens de um tempo, de uma estao, de um estado de esprito. Para comentar esse momento contemporneo da moda que se faz no Brasil e no mundo, convidamos o consultor, professor e designer de moda mrio Queiroz. Do mundo para o Cariri.

    #caririestilo

    A gerao de adolescentes, em torno de 15 anos, apesar de ser muito ligada em marcas com visibilidade, valoriza o estilo prprio, preconizando tendncias que se consolidaro quando forem adultos. At que ponto ter um estilo prprio e no se-guir cegamente a moda pode prejudicar o consumo? A moda caminha para a di-ferenciao cada vez maior atenden-do os diferentes estilos. O que deve acontecer as empresas de moda se ocuparem cada vez mais da criativi-dade, buscando atender este pblico que valoriza o estilo e demonstrando que est cada vez mais antenada, diz Mrio Queiroz.

    Em seu livro O Heri Desmascarado A Imagem do Homem na Moda o desig-ner faz uma abordagem nova a respeito da moda, tratando-a como uma expresso de comportamento e at como linguagem. um olhar especfico. Mrio conta que o livro o resultado do mestrado em comunicao e semitica. A discus-so sobre o masculino me interessa porque dediquei mais de vinte anos de trabalho como designer a este setor. A inteno tentar entender porque o homem do sculo XX foi to engessado em relao moda e como neste novo XXI ainda sofre-mos com isto.

    Mrio Queiroz atua na moda brasileira desde os anos 80. So destaques do seu trabalho a marca Vision Street Wear, a consultoria Renner e Avon. Especializou-se em moda masculina e hoje destaca-se com a marca que leva o seu nome e como pesquisador. Com uma trajetria intensa, no mercado e na academia, hoje uma referncia na criao, concepo e compreenso do universo da moda. Em si mesmo e em suas mltiplas conexes com outros universos.

    CONEXO

    Mrio Queiroz cria a partir de refern-cias da cultura brasileira, sempre em sinto-nia com o contexto internacional. Avalia a convivncia dos regionalismos brasileiros e da multiplicidade de culturas, que so a marca do Brasil, com a contemporaneida-de das megalpoles que ditam as tendn-cias, como Nova York, Milo,Tquio, Paris e londres, refletindo que atravs das mdias, principalmente a internet, recebemos as mesmas informaes que todos os outros pases do mun-do. Apesar de jovens e com muitos problemas econmicos nosso de-sign ganhou fora, como nos pases mais desenvolvidos, ento natural que pensemos a moda como inter-nacional. Ao mesmo tempo, quando

    mRiO queiROZ

    criamos, deixamos que nossa cul-tura brasileira se manifeste. Afinal o nosso DNA.

    Pensando nos estilistas que atuam regionalmente, muitas vezes vivendo o dilema entre abandonar suas referncias locais e partir para o mundo ou desconhe-cer o mundo, mantendo-se fiel s suas influncias culturais, Mrio Queiroz reflete que primeiro precisamos entender que as referencias devem ser pon-to de partida e no interpretaes literais. Acho importante um tema que fale de nossa cultura, especifi-camente, mas importante a tradu-o para algo universal: que a pes-soa esteja bem vestida em qualquer lugar do mundo.

  • 72 CARIRI REVISTA

  • CARIRI REVISTA 73

  • 74 CARIRI REVISTA

    No Brasil, o processo de eman-cipao poltica dos povoados e sua transformao em mu-nicpios basicamente igual.

    Geralmente assim: em dado momento, a comunidade percebe que o povoado cres-ceu e chegada a hora de deixar de pagar impostos ao municpio-sede, pois o retorno social dos recursos remetidos nem sempre corresponde aos anseios da populao. En-to, algum, no necessariamente um lder, se sente no direito de representar a coletivi-dade e convoca a populao para desenca-dear o movimento de independncia.

    Com o povoado de Juazeiro foi desse mesmo jeito. Porm, a forma de desen-volvimento do processo foi diferente, da porque a histria da independncia de Jua-zeiro singular.

    Em 1907 o povoado estava em franco desenvolvimento e pagando pesados im-postos ao Crato. Um cidado filho da terra, chamado major Joaquim Bezerra de Me-nezes, rico fazendeiro, divulgou um boletim no qual convocava a populao para uma reunio cvica em que a emancipao do po-voado era o principal tema da pauta.

    A reunio foi um fiasco! Pouca gente compareceu. Algum aventou a hiptese de que a populao, embora desejosa de ver o povoado livre, estava dividida devido a divergncias ideolgicas e, por isso, vez por outra se desentendia. Na verdade, a populao juazeirense, ontem como hoje, formada por dois tipos de habitantes: os filhos da terra, chamados nativos, e os ad-ventcios, chamados genericamente de ro-

    meiros, pois para aqui vieram atrados pelas pregaes de um padre, lder carismtico autntico, e pela crena num fato que todos acreditam como sendo milagre. Este fato, basicamente, consistiu no sangramento da hstia na boca de uma beata quando a mes-ma comungava, alm de outros fenmenos igualmente estranhos.

    O filho da terra e rico fazendeiro, referido acima, conseguiu a adeso de dois destemi-dos adventcios para engrossar as fileiras do movimento: um padre cratense fugido de sua cidade por questes polticas com o prefeito (Padre Joaquim Marques de Alencar Peixoto) e um mdico baiano (Dr. Floro Bartolomeu da Costa) com habilidade em advocacia, embora no fosse advogado formado, que para aqui veio se oferecer para resolver pen-dncias jurdicas referentes a umas minas de cobre do padre que vivia no lugar, mas estava suspenso das ordens eclesisticas, o lder carismtico j citado. Por coincidncia, os dois forasteiros tambm eram jornalistas.

    Assim, melhor preparado, o grupo re-solveu fundar um jornal, cujo objetivo seria servir de ponta-de-lana do movimento de independncia do povoado.

    Mas, apesar de todo o empenho o empreendimento no crescia da forma desejada. Algumas razes impediam-no: o fazendeiro rico no se dava bem com o prefeito do municpio-sede e os adventcios chamados romeiros se achavam discrimina-dos pela populao nativa.

    Era preciso, ento, o surgimento de um fato novo, porm forte o suficiente para es-quentar os nimos da populao e capaz

    de deixar todos com os nervos flor da pele, prontos para fazer valer a reivindica-o to justa.

    E, por incrvel que parea, em vez de um apenas, surgiram trs. Um atentado de morte contra o mdico baiano; uma frase insultuosa ao povo juazeirense proferida no Crato durante uma visita pastoral do bispo auxiliar de Fortaleza, dom Manuel, por um padre da comitiva (Padre Tabosa) e, final-mente, a determinao desastrosa do pre-feito cratense (coronel Antnio lus Alves Pequeno) que ameaou de forma ostensiva usar a fora policial para receber os impos-tos atrasados que os contribuintes resolve-ram no pagar mais. A ordem do prefeito era severa: em caso de resistncia, bala!

    Pronto, estava criado o ambiente prop-cio para o lder carismtico do lugar (Padre Ccero Romo Batista) agir. Ele at ento se encontrava receoso, pois era adepto da poltica da boa vizinhana, e tambm no queria se indispor com o prefeito cratense, seu amigo, cujo pai havia contribudo de for-ma bastante efetiva para sua ordenao. E como se no bastasse, era ele prprio um cratense da gema.

    A situao era dramtica e clamava por uma deciso imediata, pois um conflito ar-mado estava prestes a ocorrer.

    O lder carismtico, o padre dos romeiros, estava num dilema: honrar sua naturalidade cratense ou defender a terra que adotou, optando, assim, pela cidadania juazeirense.

    #caririespecial

    JuaZeiRO CeNteNRiOPor daniel Walker[escritor, morador e estudioso da histria e da cultura de Juazeiro do Norte]

  • CARIRI REVISTA 75

    Com a frase pronunciada em tom enrgi-co - Sou filho do Crato, mas Juazeiro meu filho -, Padre Ccero desfraldou finalmente a bandeira de independncia, e o povoado se tornou livre. Aqui o fato contado em rpidas pinceladas, mas no livro Histria da indepen-dncia de Juazeiro do Norte, ele mostrado com riqueza de detalhes.

    importante ressaltar, porm, que ne-nhum povoado, no Brasil, teve um movimen-to de emancipao poltica como o de Jua-zeiro. Ele singular por trs motivos: no foi um movimento religioso, mas teve a partici-pao de dois padres - Ccero Romo Batis-ta e Alencar Peixoto. Comeou com um lder e terminou com outro e fundou um jornal, O Rebate, para ser o porta-voz dos anseios de liberdade do povoado.

    O POVOADO ANTESDA INDEPENDNCIA Em 1909 o povoado de Juazeiro j se en-contrava em franco desenvolvimento e no suportava mais pagar impostos ao munic-pio-sede, Crato, pois o retorno social desses tributos no correspondia aos anseios da populao. Um documento apresentado Assembleia legislativa do Cear, existente nos arquivos do Padre Ccero em poder de seus herdeiros (Congregao Salesiana), em apoio ao pedido de autonomia municipal para Juazeiro, mostra uma radiografia fiel do estado do povoado aspirante emancipa-o poltica naquela poca. Segundo esse documento, graas ao do Padre Ccero o povoado j possua uma farmcia, um m-dico residente, um jornal, vrias instituies religiosas, como o Apostolado da Orao, fundado diretamente por ele, um escritrio de intercmbio comercial com a capital e uma instituio civil para cuidar do engrande-cimento do lugar.

    A zona rural de Juazeiro possua 22 en-genhos de acar empenhados na produo de rapadura e subprodutos alcolicos e cerca de 60 locais equipados para preparar farinha

    de mandioca. Alm do cultivo de arroz, feijo e milho, Juazeiro j se destacava na produ-o de borracha de manioba e algodo. Foi Padre Ccero quem introduziu a borracha no Cariri, na primeira dcada do sculo XX. E graas ao seu empenho, o algodo, cuja cul-tura havia sido quase totalmente abandona-da, reapareceu entre 1908 e 1911. Ele chegou a comprar uma mquina de beneficiamento de algodo, movida a vapor. A borracha e o algodo foram os principais responsveis pelo intercmbio econmico de Juazeiro com o comrcio exportador das grandes casas comerciais da capital cearense, espe-cialmente com a firma francesa Boris Frres e a companhia brasileira de Adolfo Barroso.

    Mas o crescimento urbano do povoado foi ainda maior do que sua expanso agrco-la. A populao do povoado era de 15.050 habitantes. A zona urbana compreendia 22 ruas e duas praas pblicas iluminadas a querosene. No setor de servios havia duas padarias, trs barbearias, duas farmcias, quinze alfaiatarias, dezoito escolas particula-res e duas pblicas, uma tipografia, uma es-tao de telgrafo, uma agncia de correios, um tabelio e uma repartio da Coletoria de Impostos do Estado.

    O comrcio pulsava com a realizao de uma feira semanal, todos os domingos, em frente Igreja de Nossa Senhora das Dores. Existiam dez lojas de tecidos e artigos de ar-marinho, igual nmero de armazns e cerca de 30 pequenas mercearias, bares e lojas de miudezas. Muitos dos comerciantes tinham imigrado para Juazeiro provenientes de pe-quenas cidades vizinhas e de outros Esta-dos. Mas a atividade econmica principal do povoado provinha de suas indstrias artesa-nais de onde saa uma grande e diversificada produo de produtos utilitrios e decora-tivos, alm de produtos religiosos. Tudo se desenvolveu tendo em vista atender s de-mandas de consumo em ascenso e como uma resposta oportuna incapacidade das limitadas reas rurais de Juazeiro em absor-

    ver os imigrantes nas atividades agrcolas, de imediato, aps a chegada. Chegando ao povoado, os romeiros, orientados pelo Padre Ccero, trabalhavam na manufatura de vrios artigos de uso domstico confeccionados com matria-prima local: louas de barro, vasos, panelas, cutelaria, sapatos, objetos de couro, chapus, esteiras de fibras vegetais, corda, barbante, sacos e outros receptculos para estocar e expedir gneros alimentcios. As habilidades manuais do povo e as neces-sidades do serto levaram, eventualmente, fabricao e exportao de instrumentos rurais tpicos, tais como, enxadas, ps, facas, punhais, rifles, revlveres, balas e plvora.

    logo cedo, devido grande procura de seus produtos, muitos artesos saram de suas casas e passaram a produzir em maior escala em oficinas amplas e equipadas de mquinas, localizando-se no centro da cidade para ficarem mais ao alcance dos clientes. Naquela poca, o lugarejo possua 40 mestres-de-obras, 8 ferrarias e 7 oficinas de latoeiro, 15 fogueteiros, 20 oficinas de sa-pateiro, 2 ourivesarias, 35 carpintarias e at mesmo uma fundio que produzia sinos de igreja, relgios de parede e de torre de igreja destinados exportao no Nordeste.

    Os reflexos do desenvolvimento do povoado estavam bem evidentes nos impostos arrecadados... principalmente para o Crato. Por isso, o desejo de se tornar independente nasceu.

    JuAZEIrO NA ATuALIDADEO municpio de Juazeiro do Norte ocupa atualmente uma rea de 249 km2. Pela ltima estimativa do IBGE (2009) a populao resi-dente de 249.829 habitantes.

    A populao de Juazeiro do Norte se concentra praticamente na zona urbana e formada por pessoas procedentes de muitos Estados da Federao, sendo a grande maio-

  • 76 CARIRI REVISTA

    ria do Nordeste que para aqui vem como ro-meiros, atrados pelo Padre Ccero, de quem so afilhados. O nmero de juazeirenses na-tos inferior a 50% do total. Na zona rural moram menos de 10% da populao total.

    Juazeiro do Norte uma das mais impor-tantes cidades do Nordeste. Foi a primeira cidade do interior cearense a ter shopping (mais dois esto em construo), emissora de rdio FM e canal de televiso. O parque industrial representado por indstrias de sandlias de plstico e couro, bebidas, refri-gerantes, alumnio, alimentos, confeces, mveis, jias, laticnios, etc. Seu polo cala-dista um dos maiores da Amrica latina. O movimentado comrcio possui unidades de grandes cadeias de lojas nacionais e ata-cades, mas ainda permanece muito forte a presena da economia informal, representa-da principalmente por empresas de fundo de quintal, vendedores autnomos e artesos, cujos produtos, pela beleza artstica que ostentam, so bastante apreciados. Aqui de tudo se vende.

    Afora uma grande rede de ensino funda-mental e mdio, Juazeiro do Norte se desta-ca atualmente por sediar o maior polo univer-sitrio do interior cearense, com mais de 60 cursos superiores, entre os quais Medicina,

    Odontologia, Engenharia, Administrao, Fi-sioterapia, Direito, Enfermagem, Jornalismo, Histria, Educao Fsica, Servio Social, Biomedicina, Psicologia e Filosofia. Juazeiro tambm um grande celeiro de cultura geral e popular. Possui vrios centros culturais, diversos grupos de danas, msica e teatro, de onde tm sado nomes famosos, e publica anualmente dezenas de livros sobre os mais variados assuntos. Na literatura de Cordel e xilogravura destaque nacional e internacio-nal, possuindo tambm grandes nomes nas artes plsticas.

    No setor de sade, Juazeiro dispe de vrios hospitais (inclusive um regional, inaugurado recentemente), clnicas mdi-cas, laboratrios de diagnstico por ima-gem dotados de modernos equipamentos, e profissionais atuando nas mais diversas especialidades.

    No ramo das comunicaes existem v-rias estaes de rdio AM e FM, dois canais de televiso e vrios jornais, inclusive com circulao diria. O setor de transporte inter-liga a cidade com o Brasil e o mundo, atravs de nibus e avio, e seu aeroporto regional um dos mais movimentados do interior brasi-leiro. Recentemente foi inaugurado um metr de superfcie servindo linha Juazeiro-Crato.

    No segmento de turismo, Juazeiro uma cidade com muitos atrativos, sendo, por isso visitada por romeiros e turistas do Brasil e do Exterior, numa mdia anual de dois milhes de pessoas. A rede hoteleira conta com bons hotis e pousadas, alm de dezenas de ranchos para hospedagem de romeiros. Eis algumas atraes tursticas: Serra do Horto, Monumento do Padre Ccero, Museu Vivo do Padre Ccero, Santo Sepulcro, Memorial Padre Ccero, Museu Padre Ccero, Baslica de Nossa Senhora das Dores, Casa dos Mi-lagres, Capela do Socorro, Santurio de So Francisco, Igreja do Sagrado Corao de Je-sus, luzeiro da F, Centro de Apoio aos Ro-meiros, Praa Padre Ccero e Mosteiro Nossa Senhora da Vitria (Monjas Beneditinas). A cidade de Juazeiro do Norte conhecida nacionalmente como A terra do Padre Ccero. uma cidade santurio. um dos maiores centros de romarias e turismo religioso do Brasil. A cidade cresce e se moderniza, mas no perde a sua identidade romeira to decantada por seu fundador.

    Oficina de espeditO seleirOOnde fica: Rua Monsenhor Tavares, 190Nova Olinda

    cOmO chegar: Em Nova Olinda, todos os caminhos levam oficina de Espedito Seleiro, basta perguntar!

    Onde cOmer: Uma boa pedida o restaurante da Fundao Casa Grande. Alm de se deliciar com uma comidinha caseira, o fregus pode conhecer melhor esse belo projeto. Rua Jeremias Pereira, 444, Centro.Fone: 3546-1333

    Onde ficar: A Fundao Casa Grande tambm oferece servio de hospedagem. So quartos nas casas dos prprios meninos da fundao. O hspede se sente em casa, tal o acolhimento com que recebido.Rua Jeremias Pereira, 444, Centro.Fone: 3546-1333

    cOntatO: www.espeditoseleiro.comFone: (88) 3546.1432Fone: (88) 9927.0402

    BarBalhaOnde ficar: Barbalha fica a 610 km de Fortaleza e a 9 km de Juazeiro do Norte. O trajeto at a cidade tranqilo e agradvel,

    com extensos canaviais margeando a rodovia. O clima serrano torna a viagem ainda mais prazerosa.

    Onde cOmer: Restaurante Restor Jardim Av. Leo Sampaio 5460 - Centro(88) 3532-1495

    Restaurante L em CasaRua Vdeo, 24, Centro.(88)3532-1169

    Restaurante Padre Ccero R Pinto Madeira 114 - Centro(88) 3532-0230

    Onde ficar: Hotel das Fontes CaldasSituado dentro do complexo do Balnerio do Caldas - Barbalha-CE(88) 3532-9066/ 3532-9104www.hoteldasfontescaldas.com.br

    Imperial Palace HotelRodovia Juazeiro - Barbalha , Km 04 Fone: (88) 3532.0786 / Fax: (88) 3532.0735www.imperialpalacehotel.tur.br

    pOr a: Uma boa dica ir a Barbalha sem marcar horrio de retorno. Um passeio tranquilo pelas ruas de pedra ladeadas pelos imensos casares uma tima maneira de conhecer e apreciar a arquitetura da cidade.www.barbalha.ce.gov.br

    rOmaria de finadOsOnde: Juazeiro do Norte

    QuandO: De 29 de outubroa 02 de novembro

    nO perca: A chegada dos paus-de-arara. So milhares de caminhes provenientes de todos os estados do Nordeste, trazendo os romeiros. Ao ver o imenso cortejo de caminhes com homens, mulheres e crianas abanando seus chapus , o observador se sente transportado ao passado. Outro momento inesquecvel a bno dos chapus, na baslica menor de Nossa Senhora das Dores, no dia 02. Os romeiros portando chapus, rosrios e todo tipo de objetos, pedem a bno de Padre Ccero e um retorno seguro a seus lares.

    rOmaria de candeiasOnde: Juazeiro do Norte

    QuandO: De 29 de janeiro a 02 de fevereiro

    nO perca: O espetculo das luzes na procisso de Nossa Senhora das Candeias. Centenas de milhares de fiis se renem na Capela do Socorro para em procisso, luz de velas, encandeando toda Juazeiro do Norte.

    Onde ficar em JuazeirO:Verde Vale Hotel Avenida Plcido Aderaldo Castelo - Lagoa Seca, Juazeiro do Norte Fone: (88) 3566-2544

    Panorama HotelRua Santo Agostinho, 58, Juazeiro do Norte. Fone (11) 2244-7097Resort Pousada Recanto da LagoaRua Firmino A Sousa, 150 - Lagoa Seca, Juazeiro do NorteFone: (88) 3571-4122

    festa de santO antniOOnde: Barbalha.

    QuandO: De 31 de maio 12 de junho.

    nO perca: No dia 31, o dia do Pau da Bandeira. quando centenas de homens e mulheres carregam nas costas uma imensa tora de madeira, por toda a cidade, para servir de mastro a ser colocado em frente Igreja Matriz. o dia mais caracterstico da festa. Imperdvel!

    hOrriO de funciOnamentO:De Tera a Sexta, das 13h s 22h. Fone: (88) 3512.2855 / Fax: (88) 3511.4582www.bnb.gov.br

    chapadafiQue pOr dentrO:Geopark Araripewww.geoparkararipe.org.br

    Fundao Araripewww.fundacaoararipe.org.br

    designpOr a: Uma dica para se conhecer a diversidade do artesanato e do comrcio de Juazeiro do Norte visitar o Mercado Central. A diverso est em se perder em meio a suas galerias com uma infinidade de produtos a venda. Dezenas de box vendendo folheados e peas em ouro, por precinhos camaradas, so encontrados por l.

    Onde fica: Esquina da Rua So Pedro com a Rua Santa Luzia, Centro.

    cinemaassista: Para ver alguns dos filmes citados basta acessar o youtube, alguns j esto disposio.

    VOOsJuazeiro do Norte possui um aeroporto com vos regulares da Gol e da Avianca.

    principais destinOs: gol: Braslia, Fortaleza, Recife, Rio de Janeiro - com conexes para os diversos destinos nacionais e internacionais operados pela cia. avianca: Braslia, Fortaleza, Porto Alegre, So Paulo (Guarulhos) - com conexes para os diversos destinos operados pela cia.

    aerOpOrtO dO cariri : Av. Virglio Tvora, 4000 - Juazeiro do Norte Fone: (88) 3572-0700

    empresa de taxi areO: Fone: (85) 3572-1397

    principais agncias de niBus:empresa gontijo de transportes ltda Fone: (88) 3571-2857 empresa lobo transportes coletivos ltda Fone: (88) 3572-1571empresa Viao itapemirim s/a Fone: (88) 3571-1177expresso aailndia ltda Fone: (88) 3571-3311expresso guanabara PABX: (88) 3571-2143

    #CaRiRi ENDEREOS E tELEFONES

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