Artesania Cariri - 03

Download Artesania Cariri - 03

Post on 30-Mar-2016

212 views

Category:

Documents

0 download

DESCRIPTION

Projeto Artesania Cariri, publicado na edio do jornal do Cariri de 20 a 25 de dezembro de 2011

TRANSCRIPT

  • Realizao promoo apoio

    D e z e m b ro - 2 0 1 1

    Regio Metropolitana do Cariri

  • 2 REGIO DO CARIRI DEZEMBRO DE 2011

    Redao: cidades@jornaldocariri.com.br | policia@jornaldocariri.com.brredacao@jornaldocariri.com.brDepartamento Comercial: comercial@jornaldocariri.com.br Geral: jornaldocariri@jornaldocariri.com.br

    Contatos:

    Administrao e Redao: Rua Pio X, 448 - Salesianos Cep: 63050-020 - Fone: (88) 3511.2457

    Antes da chegada dos portugueses ao inte-rior brasileiro, no sculo XVII, as terras lo-calizadas no sop da Chapada do Araripe eram habitadas pelos ndios Kariris. Os primei-ros contatos com o homem branco foram man-tidos pelas caravanas militares e/ou religiosas, que tanto estudaram a regio como catequiza-ram os indgenas e os agruparam em aldeamen-tos ou misses.

    Segundo historiadores, esses contatos e al-guns descobrimentos no interior do pas ajuda-ram a espalhar os boatos de que nessas regies existiria ouro em abundncia, o que ocasionou uma verdadeira corrida aos sertes brasileiros. Inclusive com a chegada de famlias inteiras, vindas de Portugal, sonhando com as riquezas

    das terras inexploradas e com a esperana de encontrar o minrio. At porque isso represen-tava aumento de patrimnio e do prestigio pes-soal na Corte portuguesa. Era a lenda das Minas dos Cariris Novos.

    A busca do metal nas ribanceiras do Rio Salga-do trouxe a colonizao e, como consequncia, a doao de sesmarias, o que permitiu o surgi-mento de lugarejos e vilas que mais tarde se tor-nariam municpios.

    Hoje, resultado de uma reivindicao antiga e efetivamente concretizada graas Lei Com-plementar n 78, de 26 de junho de 2009, a Re-gio Metropolitana do Cariri um fato. Com as complexidades, exuberncias e contradies culturais de um grande ajuntamento humano

    abrigado na riqueza natural de um verdadeiro osis ao Sul do Cear. formada pelos munic-pios de Juazeiro, Barbalha e Crato, Santana do Cariri, Nova Olinda, Farias Brito, Misso Velha e Jardim.

    Uma parcela desses recursos governamentais ser destinada, justamente, ao fomento e forta-lecimento do setor turstico atravs de iniciati-vas como, por exemplo, a construo do Centro de Cultura e Eventos do Cariri, no Crato; o pro-jeto Roteiro da F, que requalificar o Centro Comercial de Juazeiro; e a implantao do Mu-seu do Engenho, no stio Tupinamb. Tm rele-vncia, tambm, os projetos e as aes voltadas para a produo associada ao turismo, em que se enquadra o artesanato caririense.

    EDITORIAL

    A criao da Regio Metropolitana do Cariri teve, como objetivo, constituir uma circunstn-cia cultural e socioeconmica capaz de compar-

    tilhar, com a capital do Estado, a atrao de equi-pamentos, servios e investimentos pblicos e privados. Segundo a Secretaria das Cidades do

    Estado do Cear, at 2013, US$ 65 milhes sero investidos para a implantao do projeto Cida-des do Cear / Regio Metropolitana do Cariri.

    Janela de artesania parao mundo todo

    Janela de artesania parao mundo todo

    Diretor-presidente: Luzenor de Oliveira - Diretor de Contedo: Donizete ArrudaDiretora de Jornalismo: Jaqueline Freitas - Editor Caderno Especial: Wilton Bezerra JrEditor-chefe : Mrcio Dornelles - Fotografias: Mrcio Dornelles e Ccero ValrioProjeto Grfico e diagramao: Flvio Marques e Evando Ferreira Matias

    SANTANA DO CARIRI

    NOVAOLINDA

    FARIAS BRITO

    MISSOVELHA

    JARDIM

    BARBALHA

    JUAZEIRODO NORTE

    CRATO

  • 3REGIO DO CARIRIDEZEMBRO DE 2011Juazeiro do Norte

    Janela de artesania parao mundo todo

    Janela de artesania parao mundo todo A religiosidade est na gnese

    do crescimento do lugar. Assim, no h como fugir s exponenciais refe-rncias sobre a figura responsvel no s pela fundao e desenvolvi-mento de Juazeiro do Norte, como pelo incentivo na popularizao dos ofcios que disseminaram as tipolo-gias artesanais Cariri afora: o Padre Ccero Romo Batista.

    Com uma rea total de 4.115,828 quilmetros quadrados, a Regio Metropolitana do Cariri ou Cariri Central, rene oito municpios com caractersticas histricas comuns. Basicamente, as cidades formaram--se ao redor de fazendas de gado e de propriedades religiosas doadas por donos de terras para a constru-o de igrejas. Essas comunidades

    religiosas tinham, tambm, o objeti-vo de catequizar os ndios e morado-res da regio.

    No primeiro volume desta trilogia, lembramos que era a figura do sa-cerdote quem recebia as legies de sertanejos em busca do abrigo em Juazeiro. Do padre, ouviam a direta recomendao de que deveriam se-guir as tradies catlicas e aprender um ofcio para garantir e dignificar o prprio sustento. E assim, Juazeiro e o Cariri seguiram risca a orientao do Padim, criando seus oratrios nas salas e uma oficina nos fundos de cada casa.

    Quem no bordava, costurava, te-cia, esculpia, talhava, fundia ou tran-ava, tratava de aprender e passar a

    tcnica para os filhos, a fim de garan-tir a sobrevivncia e as bnos do padre. De tal forma incentivados, os muitos peregrinos que se radicaram no pequeno arraial que deu origem a Juazeiro, comearam a produzir utenslios para o cotidiano.

    Hoje, a cidade concentra, tambm, o maior nmero de artesos e de as-sociaes voltadas para o artesanato. Algumas famosas como o Centro de Cultura Popular Mestre Noza, local de parada obrigatria para turistas, e a Associao dos Artesos Me das Dores do Padre Ccero.

    Tradio de fazer arteque dignifica e sustenta

  • 4 REGIO DO CARIRI DEZEMBRO DE 2011

    O Estudo Setorial do Artesanato do Sebrae Cear classifica o muni-cpio como um dos mais ricos em tipologias. As tcnicas mais fortemente presentes so relaciona-das ao trabalho em ce-rmica, couro, madeira, rendas e tecelagem.

    Com taxa de urbaniza-o superior 95%, o que praticamente extingue zonas rurais, diversida-de artesanal o que no falta cidade. As mos rpidas e talentosas dos artesos juazeirenses es-to presentes em quase tudo. Nos utenslios em palha, bordados e xilo-gravuras que deixaram as capas dos livrinhos de cordel para se transfor-marem em quadros reli-giosos e decorativos, bem como na nova gerao de artesanias: os reciclados. Um setor que cresce em novas utilidades e plasti-cidades das peas usadas e renovadas na sua finali-dade primria.

    Pelas ruas de Juazeiro, encontramos ar-tesos de metais que ainda mantm viva uma tradio iniciada pelo fundador da cidade: a produo de lamparinas. Em um quartinho apertado, de porta nica e sem janelas, vamos encontrar seu Ccero Sousa em plena atividade

    de flandrereiro, nome que ele prprio d a quem trabalha o flandres, comprado em

    folhas.Sentado num banco pequeno e baixo

    e munido de uma espcie de alicate, ele vai, com destreza, moldando e burilando,

    reunindo e apertando peas, at que surge mais uma lamparina. Por dia, mais de 100 saem das suas mos direto para o mercado. Resulta-do de uma jornada de trabalho que comea s sete horas da manh e vai at as 17 horas.

    Seu Ccero acredita que seu o ofcio apren-dido com a famlia est longe de ficar com os dias contados. Desde que eu comecei, h 15 anos, continuo vendendo do mesmo jeito. E no acredito que isso v mudar. Vai sempre ter mercado para a lamparina.

    Sobre a pergunta que no cala: Se tem luz eltrica, para que comprar lamparina? Ele tem a resposta na ponta da lngua: a tradio. Alm disso, quando falta energia, quem salva a lamparina. Ela muito usada para andar no escuro e ir de uma casa para outra, nos stios.

    Como Ccero, outros 50 dividem o mesmo ofcio na cidade. Cada lamparina tem cerca de dez centmetros. Ele vende por R$ 1,50 a uni-dade. E no d para quem quer. Tanto que no incremento de seu mercado fiel, Ccero lanou uma novidade: a lamparina pequenina, de pou-co mais de trs centmetros. Essa para quem quer levar de lembrana. Acesa, a luz dura uma hora. J a grande faz luz a noite toda.

    Urbanizao como fator de diversidade

    Segundo publicao do Sebrae sobre Caminhos do Fazer, Guia de Produtos Associados ao Turismo, o contato com matrias-pri-mas como o barro e a ma-deira, revelou vocaes em Juazeiro do Norte.

    Assim, grande parte dos artesos passou escultura, especialmente inspirada na temtica religiosa. Imagens sacras de todos os tamanhos podem ser encontradas, do simples souvenir de gesso a grandes esculturas finamen-te executadas com argila e fibra de vidro.

    em Juazeiro, tambm, que vamos encontrar uma interessante parceria en-tre lapidadores e ourives. promovida pela Associao dos Lapidrios, Artesos Minerais e Ourives, que uniu na cidade a j tradi-cional ourivesaria lapida-o de pedras, resultando na produo de belssi-mas jias. Na sede da entidade possvel assistir ao trabalho de lapidao dos cristais, ametistas e turmalinas.

    Meca da escultura religiosa, ourivesaria e lapidao

    Lamparinas do Padim.Para sempre, amm!

  • 5REGIO DO CARIRIDEZEMBRO DE 2011

    O frtil Vale do Cariri mantm entre suas principais tradies a confeco de doces e compotas. Com uma expressiva produo de frutas, comum encon-trar quem transforme, com acar, talento e arte, bananas, abacaxis, laranja, caju, goiaba e siriguela, em deliciosas iguarias.

    Na cidade de Barbalha, onde ainda pontificam os trabalhos com madeira, ce-rmica, tecelagem e metal, a produo artesanal de doces tem reconhecido des-taque. na terra natal do celebrado Monsenhor Murilo, do advogado Hermes Carleial e dos mdicos Leo Sampaio e Lrio Callou, que dona Maria do Socorro Silva Soares (foto) a doceira mais afamada.

    Nascida em Exu, ela veio para o Cariri depois do casamento com um barbalhen-se. Demorou para ver na especialidade desenvolvida pela me, um ofcio que iria ajud-la a educar as filhas. Moradora de Barbalha h 32 anos, dona Maria do Socorro lembra que foram os pedidos dos amigos e a propaganda boca a boca os responsveis pelo seu reconhecimento.

    Embora diga que seus doces no tem segredo, vai revelando detalhes e cui-dados que explicam o sabor nico, unanimidade na regio. Um item com a-car, outro com mel, outro com rapadura preta. Assim, combinando sabores, ela conquistou e continua encantando a cidade, principalmente com ineditismo em receitas com os doces de jambo, amendoim e gergelim.

    Doces e CompotasDoces e Compotas

    Barbalha aucaradacom arte e talentoBarbalha aucaradacom arte e talento

  • 6 REGIO DO CARIRI DEZEMBRO DE 2011

    O mesmo amor que dona Maria do Socorro dedica aos doces em Barbalha, outra exuense emprega nos bordados que faz

    e vende na cidade do Crato. Bero natal da figura que move a f no Cariri, o Padre Ccero, a cidade, tem fortes registros de tipologias

    como couro, tecelagem e madeira, mas as rendas e bordados so um caso parte. E foi isso o que percebeu dona Maria Neide de Macedo (foto) quando chegou cidade, em 1971.Casada com um cratense, foi o bordado mo que sempre ajudou a bordadeira no oramento familiar. Hoje, ela emprega uma das suas duas filhas. Comeou trabalhando no quintal de casa. As peas ficaram conhecidas e as encomendas foram chegando. Tanto que se encheu de coragem e montou uma loja no Centro. Agora, a demanda cresceu ao ponto da necessidade de empregar outras bordadeiras. Isso a afas-tou da mquina de costura e do bastidor. Foi cuidar de pensar novos produtos. A minha especialidade cama, mesa, banho, enxovais de noiva e de beb enumera.

    Enxovais e Paramentos

    Crato bordado mo como ofcio de f

    J dona Maria Marques da Costa (foto), tambm bordadeira e moradora do Crato, tem uma especialidade diferente: Sou especialista

    em fazer e bordar roupas de padre. Esse tipo de vestimenta tem nome especfico: paramentos litrgicos. Mas, como ela foi descobrir esse ofcio? A histria longa e comea com a menina que adorava ver a me bordar, mas no tinha nem agulha. Usava um espinho de mandacaru. Minha me dizia que no ia desperdiar agulha comigo, que no sabia trabalhar di-reito, conta.

    Nessa poca, dona Maria Marques morava num stio onde tudo era di-fcil. Por isso, s foi ganhar a to esperada agulha muito tempo depois. A, fui aprender a fazer richeli, j na mquina da minha me. Fazia blusas e recebia muitas encomendas. Foi ento que um padre me pe-diu para fazer uma roupa para ele. Disse que no sabia e ele explicou: dava o pano e, se ficasse bom, me pagaria. Caso contrrio, no haveria problema.

    A roupa ficou linda e logo a histria se espalhou entre o clero da regio. Hoje, dona Maria Marques veste padres de 52 parquias. Do Crato, de Juazeiro e ainda sacerdotes da Paraba e Pernambuco. Mas, se engana quem pensa que as roupas ricamente trabalhadas so vendidas por um alto preo. Uma promessa feita por ela, depois que conseguiu andar de novo aps um ano numa cadeira de rodas, faz com que seja cobrado apenas o material usado e um percentual para que ela sobreviva com dignidade.

    Sei que d muito trabalho, mas gosto do que fao e tem, ainda, a minha promessa que vou cumprir at o fim da vida, garante.

  • 7REGIO DO CARIRIDEZEMBRO DE 2011

    Misso Velha conhecida por patrimonios naturais como a sua cachoeira e pelo grande nmero de pontos de concentrao de fsseis. Suas tipologias mais expressivas so a tecela-gem e a cermica. Esta ltima, em franco cresci-mento graas vocao natural e aos de cursos de capacitao que propiciam a descoberta de novos talentos.

    Uma das professoras dessa novssima gerao, Maria do Socorro Nascimento (foto, esquerda) a ceramista mais fa-mosa da cidade. A habilidade para mol-dar o barro e tirar dele desde esculturas de conhecidas personalidades pblicas a peas utilitrias como potes, jarras e panelas j lhe rendeu fama e v-rias viagens. Em uma delas, teve o orgulho de apertar a mo do ex-presidente Lula e da atual presidente Dilma Rousseff. Suas esculturas tambm j foram parar nas mos de gente famosa como o apre-sentador J Soares.

    Nada dessas histrias, po-rm, muda o jeito humilde de quem sabe, como poucos, misturar areia, gua e talento. Vizinho a casa onde Maria do So-corro mora com a me e o pai, na localidade de Baixa do Coresma,

    ela mantm um galpo onde trabalha, s vezes, at durante o turno da noite. Se deixar, esqueo at de comer, conta.

    A me da artes, dona Terezinha (foto), uma espcie de auxiliar. Entre fazer o almoo, lavar roupa, arrumar os quartos e varrer a sala, ela vai

    cortando a massa, como se chama o ato de molhar o barro. Depois, passa uma es-pcie de arame para desfazer os ndulos e partes duras. Assim, quando Maria do Socorro chega para esculpir e moldar, j encontra a massa pronta.

    A vocao ela descobriu aos 13 anos, vendo os mais velhos trabalharem na

    olaria. Com um ms, lembra, fez sozinha o primeiro pote. E, de-pois, no parou mais. Foi se aperfeioando no ofcio, des-

    cobrindo os segredos do bar-ro e criando releituras para peas tradicionais.

    Sorriso fcil e jeito inquie-to, Maria do Socorro conta que, embora o trabalho com o barro tenha lhe dado tudo,

    sonha com outros desafios. Est no segundo semestre da

    Faculdade de Servio Social, cur-so distncia que considera uma

    vitria para quem chegou gradu-ao fazendo telecurso.

    Utenslio e decorao

    Misso Velha do barro que molda a vida

    Entre potes e esculturas

    O lugar j foi conhecido como Barra do Jardim e Santo Antonio do Jardim. Est encravado em regio an-tes habitada por tribos indgenas e serviu de palco a memorveis aconte-cimentos histricos. Hoje, o municpio

    de Jardim, que ostentava como tipo-logias de maior incidncia o tecido, as rendas e bordados, o couro, a tecela-gem e o metal, v crescer na regio um tipo de artesanato quase rudimentar, mas de grande aceitao: o tranado e a cestaria.

    Tipologia caracterstica de utenslios e objetos de decorao encontrada em vrias verses por todo o Cariri. Em Jardim, tem destaque pelas bandas do Stio Gravat, localizado pouco antes da sede do municpio.

    Francisca Sirley de Sousa (foto) uma dessas artess dedicada ao tran-ado e cestaria. Portadora de defici-ncia que limita os movimentos, ela conta que comeou a trabalhar com cip. Para ter o que fazer, pois desde pequena, passa a maior parte do tem-po sentada. Quanto matria-prima, a me, os irmos e primos trazem da

    floresta que cerca a casa humilde, mas de alvenaria, plantada no alto de uma pequena elevao, beira da estrada.

    Sirley autoditada. No s no ofcio de tranar o cip, que transforma em luminrias, vasos, leques e outros ob-jetos de decorao. Aprendeu sozinha, tambm, a bordar e, agora, a costurar. Apesar de receber aposentadoria, o dinheiro que consegue com o artesa-nato ajuda a pagar os estudos da irm mais nova, hoje cursando o ltimo ano do curso de Pedagogia. A primeira da famlia a conseguir graduao superior.

    A conquista, inimaginvel h al-gum tempo, o sonho realizado de Sirley. Ela conta com indisfarvel orgulho. Afinal, sem o trabalho arte-sanal dessa filha, neta e bisneta de agricultores, no seria possvel pa-gar os estudos da primeira professo-ra formada da famlia.

    Jardim repleto de tranados e cestarias

  • 8 REGIO DO CARIRI DEZEMBRO DE 2011

    Com 13 mil habitantes e 54 anos de histria, o municpio de Nova Olinda deu novo impulso ao turismo quando inaugurou a Fundao Casa Grande Memorial do Homem Kariri. Hoje, se-gundo Francisco Alemberg de Souza Lima, coordenador do projeto Promo-o do Turismo Social e Cultural de Base Comunitria no Serto do Cariri, apoia-do pelo Ministrio do Turismo, a cidade recebe uma mdia de 33 mil visitantes por ano.

    No entorno do projeto, surgiram en-to, pousadas domiciliares, oficinas

    caseiras de artesa-natos, lojas de

    souvenirs e res-taurantes de

    comidas tpi-cas. Com o dinheiro gerado pelo fluxo turstico foi criado um fundo de educao que tem dado aos jovens a possibilidade de acesso formao universitria. Hoje, a pequena Nova Olinda um dos 65 destinos indu-

    tores do Desenvolvimento Turstico Regional priorizados pelo Ministrio do Turismo.

    A cidade bero de Espedito Veloso de Car-valho, o Seu Espedito Seleiro (foto), um dos artesos em couro mais conhecidos do Cear. O apelido ganhou graas habilidade para fazer selas de vaqueiro. Filho e neto de artesos, ele conta que comeou cedo no ofcio. Tratou de passar aos filhos, que hoje tambm trabalham com couro. Sentado na velha mquina de cos-tura, Espedito Seleiro diz que acha inspirao

    em tudo o que v. De todas as peas, a que lhe d mais satisfao a sela. Fao roupa de vaqueiro, tambm, bolsa, san-dlias, mas na sela onde eu exercito tudo o que aprendi. E o que ele apren-deu no pouca coisa, no. Na oficina, instalada no Centro de Nova Olinda, as paredes esto cobertas de artesanato e de homena gens a quem ganhou fama em todo o Nordeste sem nunca ter sado da sua cidade.

    Na entrada de Nova Olinda, mora ou-tro arteso em outra realidade. Menos conhecido, mas tambm popular. Seu Jos Felipe Ferreira, que tira o seu sus-tento do trabalho em pedra. So peque-nos souvenirs, simples e rsticos, alm de esculturas de peixes que fazem a alegria de quem passa em busca de lem-branas dessa parte do Cariri.

    Artesos como Seu Jos Ferreira ou como Dona Bernadete Santana, que vamos encontrar vendendo abanos de palha de coqueiro na bei-ra da estrada, prximos ao Stio Serra do Zabel, so autnticos representantes do artesanato ca-ririense. Gente annima que, com a vocao flor da pele, vive de uma produo nem sempre reconhecida ou bem remunerada, mas que d o tom dos saberes e fazeres populares que fazem do Cariri cearense o celeiro de vocaes mais rico do Cear.

    Conhecida como a capital cearense da Pa-leontologia, Santana do Cariri possui um vasto stio arqueolgico. Abriga o Museu da Univer-sidade Regional do Cariri e tem uma das maio-res reservas fossilferas do mundo. O municpio destaca-se tambm pelo comrcio de produ-tos feitos manualmente.

    Turistas compram artesanato tpico em ren-da, bordado, cermica e pintura. Boa parte des-sa produo est concentrada no Casaro Cul-tural Felinto da Cruz Neves e Generosa Amlia da Cruz, que abriga artesos e rendeiras.

    A renda de Santana coisa rara. A cidade tem orgulho de fazer a de bilro como manda a tradio. L, ao invs da almofada peque-na, que caracteriza as rendeiras do litoral, usada a almofada grande, com mais de um metro e apoiada em cavaletes. As mulheres trabalham sentadas em cadeiras. Tambm a forma de torcer a linha foi preservada e repete o ritual, feito h sculos, com o fuso rodando no cho. J o bilro de espinho de mandacaru, que tem na ponta uma semente de macaba.

    Dona Antonia Toilza (foto) faz parte de uma iniciativa que resgata e preserva o arte-sanato original da cidade, batizado de Pro-jeto Bilro. Ela conta que retomou os traba-lhos manuais h seis anos, com um curso da Ceart (Centro de Artesanato do Cear). Hoje, faz croch e bordado cheio, alm da renda de bilro. Trabalha com outras cinco artess em redes, caminhos de mesa, bolsas , toalhas de bandeja e manta.

    O projeto est ajudando a formar uma nova gerao de rendeiras. Os quatro filhos de dona Antonia, a exemplo de outras famlias das rendeiras, tambm sabem o ofcio.

    Chapada do Araripe

    Santana coisa rara em renda, pedra e gesso

    Fama e autenticidade

    Nova Olinda da Casa Grande e do Seu Espedito Seleiro

    Mais adiante, vamos encontrar outra tipologia ca-racterstica de Santana do Cariri: o trabalho com pedra. Santeiro e tambm escultor, Francisco Evilzio usa a pe-dra Cariri, o gesso e o calcrio laminado, abundantes na regio.

    Como a retirada e venda de fsseis esto proibidos, o artista imita perfeio esqueletos de peixes, calangos e liblulas, como se estivessem fossilizados. uma forma de preservar o meio ambiente e, ao mesmo tempo, ga-rantir para os turistas uma lembrana da cidade, explica.