Cariri Revista - Edição 03

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Cariri Revista - Edio 03

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  • CARIRI REVISTA 1CARIRI REVISTA 1

    caririreViStaO Mundo para o cariri. O cariri para o Mundo

    edio 03

    @caririrevista

    MASTIGANDO HUMANOS

    daniel peixoto lana disco solo, deglutindo msica eletrnica

    e infl uncias caririenses

    ONDE ANDABRBARA?

    na memria, na histriae nos caminhos do serto,

    os passos de brbara de alencar desafi am o esquecimento

  • 2 CARIRI REVISTA

  • CARIRI REVISTA 3

  • 4 CARIRI REVISTA

  • CARIRI REVISTA 5

  • 6 CARIRI REVISTA

    A nossa terceira edio da CARIRI revista conta hist-rias de diferentes brilhos, vindos de diferentes tempos e personagens. O maravilhoso trabalho de Alemberg Quindins e de Rosiane junto com os meninos incrveis da Fundao Casa Grande, projeto social que muda destinos pelos trilhos da cultura.

    Leonardo Boff e sua lcida expresso da religio-sidade contempornea numa conversa com Raquel Paris. Indcios de Brbara de Alencar, cujos rastros fo-mos buscar pelo Cariri e por outras paragens, no Cear e nos estados vizinhos, por onde andou a mulher forte que lutou e padeceu por ideais polticos no sculo XIX.

    #caririeditorial

    Gente pequena,Gente Grande,Gente brilhante...

    Daniel Peixoto, na capa, conta a sua histria inicia-da no Crato, em direo ao mundo. Msica eletrnica ouvida em Londres que volta s origens do Cariri no l-timo lbum. Mostramos tambm um panorama da edu-cao superior na regio, as ltimas novidades do polo caladista e o olhar sobre o serto da ministra Ellen Gra-ce. Muita arte com Ricardo Salmito e Rafael Limaverde. E viva a leitura, alento da inteligncia e da sensibilidade!

    Editora-Geral: Tuty Osrio

  • CARIRI REVISTA 7

    por email: Caros conterrneos da Cariri, um forte abrao e parabns pela brilhante revista!

    Ricardo Lotif

    por ser apaixonado pelo Cariri estou feliz por uma revista to bem pensada! bravo!

    Marquinhos

    Chegou s minhas mos exemplar da revista Cariri cuja capa estampa espedito Seleiro. Como carirense da Cepa, nascido em milagres-Ce, residindo em Fortaleza h anos, muito me emociona e vibro com tudo de bom que divulga nossa querida regio. e no foi diferente desta vez. a revista, o seu contedo, as matrias, a qualidade est excelente. parabns a todos que criaram e trabalharam em to belo exemplar!

    Rudson Coelho

    a revista est mais uma vez muito bonita. Gostei mui-to de como ficou a entrevista. acho que diz coisas que no ficam claras nos artigos. parabns mais uma vez.

    Frederico Lustosa

    no FaCebooK da Cariri reViSta: Milene Moraes, bibliotecria: parabns pelo belssimo trabalho,achei muitssimo linda!

    Verinha Torres, secretaria: no vejo a hora de deleitar meus olhos nessas matrias! a Cariri revista ser mais uma fonte bibliogrfica... ansiosa!!!!! (...) desse tipo de iniciativa que o Cariri Cearense necessita! parabns pelo trabalho.

    Sandemberg Pontes, jornalista visual: perfeita essa fotode capa. parabns para toda equipe :d

    tweets

    #caririconexo

    @danfidelisDaniel Fidelis

    Ganhei minha edio da @caririre-vista e j estou lendo... material de primeira.. parabns. realmente uma reViSta.

    @a_dcarvalhoAnderson Carvalho

    @caririrevista estou enviando por dm meu endereo.. obrigado... o trabalho de vcs demais, parabns pela iniciativa e pela revista...

    @andersonweiserAnderson M. Alves

    @caririrevista tima surpresa: rece-bi a revista #01 e j t destrinchan-do-a. pedir demais a nmero #02 tambm? parabns pelo trabalho!

    @pegemorais1PauloGilbertoMorais

    quem no conhece ainda a@caririrevista, precisa conhecer. muito boa publicao.

    @flaviacastro_Flavia Castro

    @caririrevista chegou minha 2 edio, adorei! parabnS todos da equipe!Envie sua mensagem para Cariri Revista pelo e-mail: contato@caririrevista.com.br, pelo

    Twitter: www.twitter.com/caririrevista ou Facebook: www.facebook.com/caririrevista

    Estudante de Design

  • 8 CARIRI REVISTA

    #edio o3

    MEMRIA

    EducAO

    18

    24

    pERfIl

    54

    CAPA DESTA EDIO Daniel Peixoto FOTO: Bruno Zanardo

    EXPEDIENTE

    DIrETOrES Isabela BezerraRenato Fernandes

    EDITOrA-GErAL Tuty Osrio | tuty@caririrevista.com.br

    EDIO DE TEXTOS E rEDAOClaudia Albuquerque

    PrOjETO GrFICO E DIAGrAmAO Fernando Brito rEPOrTAGEm E rEDAO Raquel ParisSarah CoelhoRoger Pires

    FOTOGrAFIARafael Vilarouca

    rEDES SOCIAISLara Costa

    DIrEO DE ArTE Em PubLICIDADERubnio Lima

    PubLICIDADE88 | 3085.1323 88 | 8855.3013comercial@caririrevista.com.br

    rEDAOredao@caririrevista.com.brwww.twitter.com/caririrevistawww.facebook.com/caririrevista

    COLABORARAM NESTA EDIO

    Kiko Bloc-BorisRicardo SalmitoRafael Limaverde

  • cIdAdANIA

    44

    CARIRI REVISTA 9

    pIcOTAdO

    pERSONA

    EcONOMIA

    12 e 13

    30

    14

    ConVerSa

    Sade

    6069

    GaStronomia

    CaririanaS

    7073

  • 10 CARIRI REVISTA

  • CARIRI REVISTA 11

  • 12 CARIRI REVISTA

    Tabu (de F. W. Murnau), um filme mudo da dcada de 1930, hoje tido como um clssico do expressionismo alemo, foi projetado no ano de 1951 em Juazeiro do Norte. Na plateia, um menino atendo ia s lgrimas. Foi o primeiro filme que assisti, aos sete anos, e o nico em que chorei, relembra Svio Leite Pereira, juiz de Direito aposentado, ex-secretrio de Cultu-ra de Juazeiro e cinfilo desde o primeiro foto-grama. Grande admirador de Stanley Kubrick (2001 Uma Odisseia no Espao o filme preferido), Svio cresceu assistindo as pelcu-las do Cine Eldorado e anotando impresses em cadernos, que se acumularam no tempo e no espao. Com oito anos j fazia meus resu-mos: o nome do filme, diretor, sinopse e nota de 0 a 5. Os rabiscos acompanharam o juiz ci-nfilo em suas andanas por Farias Brito, Crato, Barbalha, Sobral, Caririau, Misso Velha, For-taleza e Juazeiro do Norte, at que se transfor-maram no livro Volta ao Mundo dos Filmes em 50 Anos, lanado pelas Edies Livro Tcnico em 2001, com dicas preciosas, prosa elegan-te e anlises breves sobre centenas de filmes. Svio, que lamenta a infantilizao do atual cinema americano, segue esperando pelos no-vos Bergman, Buuel, Godart, Truffaut, Fellini, Antonioni e Chabrol, dentre outras feras euro-peias de pelculas eternas.

    O jornal O POVO lanou em agosto um alma-naque em homenagem ao centenrio de Juazei-ro do Norte. Ricamente ilustrado com fotos do precioso arquivo do banco de dados do jornal e dos fotgrafos que acompanham a histria do Cear, a publicao passeia pela saga da cidade nos seus aspectos polticos, econmicos, cultu-rais e religiosos. Uma programao visual que alude expansiva-mente s cores vivas das romarias e da Chapada do Araripe emoldura as informaes diversas do almanaque. Dos nmeros da economia revela-o da trajetria dos artistas que a terra produz com generosidade. Um dos destaques a entre-vista com o escritor Gilmar de Carvalho falando do seu romance Parablum (relanado em ju-nho) e de sua relao apaixonada com o Cariri.

    #cariripicotado

    RAFA

    EL V

    ILAR

    OuCA

    JUAZEIROEM ALMANAQUE

    A LUZ DA TELA GRANDE

  • ARTE REVERSAA fotgrafa Angela Moraes j est envolvida em novos projetos, mas ainda colhe os bons frutos da exposio Arte Reversa: Para os Ro-meiros, Romaria, que seduziu e encantou olha-res no CCBN-Cariri entre julho e agosto. Como uma grande feira mgica, ou uma procisso de cores em diferentes suportes, Angela montou barracas-estandartes em que imagens de ro-marias se projetavam, revelando um universo de formas, cones e tons singulares. O peque-no comrcio de objetos religiosos, as lonas das barracas improvisadas e as redes que acolhem a populao flutuante ganharam uma repentina expresso plstica no registro fotogrfico de Angela, que fundiu imagens e testou misturas cromticas para criar a arte reversa do ttulo. Eu na verdade pinto com a mquina fotogr-fica. Quem sabe depois dessa exposio eu co-mece a fazer fotografia?, brinca a juazeirense radicada em Fortaleza, que durante trs anos utilizou uma antiga e analgica Kodak Pro Star 100 como instrumento de captao das imagens de romarias.

    NO MATARS!Juazeiro do Norte recebeu no dia 12 de agosto o I Seminrio Internacional de Direitos da Mulher sobre o enfrentamento Violncia. O Semin-rio contou com presenas de ilustres militantes no combate violncia, como a jurista, advoga-da de intensa atuao e defensora pblica Mni-ca Barroso. Alacoque Bezerra, primeira mulher senadora do Cear, foi homenageada pelos par-ticipantes, por sua trajetria passada e presente em defesa dos direitos humanos. A ministra do Supremo Tribunal Federal, Ellen Grace, profe-riu a palestra de encerramento, ressaltando os ensinamentos do Padre Ccero em prol da paz e destacando a imperativa necessidade de se combater a violncia domstica no Brasil.

    VISO DE RAIO-XNasci em Recife e fiquei boa em Juazeiro, co-menta Maria do Carmo Alves da Silva, com um jeito peculiar de resumir informaes. Isso signi-fica que ela veio ao Cear com a famlia de reti-rantes, sem conseguir andar, mas aqui se curou e nunca mais voltou para Pernambuco. Transfor-mou-se na Maria Raio-X, uma curandeira espiri-tual capaz de ver com o toque das mos o que se passa no corpo de uma pessoa. Isso o que garantem seus pacientes, que chegam de todas as partes do Cariri e de outros estados. Na Rua de Todos os Santos, a casinha de Maria Raio-X est sempre cheia. Vem gente de Recife, Bra-slia. Joo Pessoa, Fortaleza. J tratei de poltico e j consultei na casa do vigrio, garante Dona Maria do Carmo, uma figura frgil, de fala man-sa, repleta de exclamaes religiosas, que hoje mais uma figura emblemtica da vasta galeria de tipos curiosos de Juazeiro do Norte.

    MUITOS VOOS VISTA!A ampliao do aeroporto regional do Cariri, h tanto tempo sonhada e reivindicada, final-mente vai acontecer. Os terminas de embarque e desembarque sero reformados e o horrio de funcionamento 24 horas j est em vigor. Para completar as boas notcias, alm das com-panhias Gol, Avianca e Azul, que j operam na regio, a Passaredo acaba de chegar com inte-ressante oferta de voos diretos.Quando as obras estiverem concludas, o ae-roporto ter capacidade para receber 500.000 passageiros por ano. A ampliao da pista para 2.700m, possibilitando a incorporao de aero-naves do porte do Boeing 767-300, a reivin-dicao da comunidade para a internacionaliza-o do aeroporto e a consolidao de fluxo do turismo cientfico e ecolgico.

    RAFAEL VILAROuCA

    RAFA

    EL V

    ILAR

    OuCA

  • 14 CARIRI REVISTA

    a primeira imagem que vem cabea quando se fala em calados do Cariri certamente so as sandlias de couro, famosas nos ps de cangaceiros e apro-priadas pelo mestre da cultura Espedito Seleiro. Po-rm a primazia dessa imagem tradicional est sendo disputada por calados mais modernos, em razo da produo industrial significativa que move a regio.

    Apenas Franca, em So Paulo, e Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul, ultrapassam o maior polo pro-dutor do Norte-Nordeste brasileiro formado por Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha. Muitos brasileiros e es-trangeiros nem sabem, mas j tm um, ou melhor, dois pezinhos no Cariri.

    Destaque na produo principalmente de sand-lias microporosas (estilo Havaianas) e injetadas de PVC (as de plstico), a regio do Cariri representa o Cear nesse ramo pelo mundo. O nmero de inds-trias chega a aproximadamente 250, e 80% da pro-duo destinada aos calados femininos, sendo o restante dividido entre o pblico masculino e infantil. Mas no so apenas as sandlias, to requisitadas pela vaidade feminina, que tomam conta do mercado.

    H indstrias que produzem apenas matrias-pri-mas e exportam, contando com a facilidade e rapidez de transporte para os portos cearenses do Mucuripe e do Pecm. Alm das condies favorveis e da

    tradio regional na rea, subsdios e facilidades ofe-recidas pelo governo e instituies parceiras atraem investidores de outros estados e pases, o que movi-menta a economia e gera empregos.

    INVESTINDO NO jEITO CErTO DE FAZEr Alm de atingir nmeros excepcionais, a regio inves-te na qualidade. Principal responsvel pelo Cear ser o segundo maior exportador de calados (o Rio Grande do Sul est em primeiro e So Paulo em terceiro), o Cariri ainda importa mo-de-obra qualificada de outros estados, mas a previso que essas vagas sejam ocu-padas por pessoas da regio.

    A professora do curso de Design de Produto da uFC-Cariri, Juliana Loss, justifica que o curso preten-de formar profissionais capacitados para suprir esta necessidade, contribuindo para que o Cear tambm

    #caririeconomia

    Por Roger pires

    nada de pedraS noS SapatoS CaririenSeSDestaque nacional na produo de calados, a regio do Cariri busca ampliar a participao no setor, qualificar a mo-de-obra e oferecer pisantesde qualidade ao consumidor final. Segundo maior exportador no ramo, o Cear conta como Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha para continuar no topo desse ranking.

  • CARIRI REVISTA 15

    POLO DECALADOSDO CARIRI

    seja destaque em criatividade e qualidade. Alm dis-so, Juliana lembra que o calado est ligado direta-mente sade do usurio.

    Para o presidente do Sindicato de Trabalhadores de Calados de Crato, Barbalha e Juazeiro do Norte, importantes sairmos dos fundos de quintais e mos-trarmos nossa cara, mas queremos crescer junto com os outros estados e pases, e no ser explorados por eles. Antnio Cledmilson pontua que o setor vem crescendo rapidamente em alguns anos e que por isso merece ateno.

    NEGOCIAES SuPErAm EXPECTATIVAE na Feira de Tecnologia de Calados do Cariri (FE-TECC) que todos os envolvidos nos negcios, alm dos curiosos e adoradores de calados, se encontram. No mercado h doze anos, a FETECC cresce a cada

    Formado na sua maioria por pequenas e mdias empresas, o polo caladista do Cariri tem cerca de 250 fbricas

    Gera 16 000 empregos formais 80% da produo de peas femininas e 20%

    de peas masculinas e infantis. responsvel por cerca de 50% da produo

    cearense de calados. a produo mensal chega a alcanar 8,8 milhes

    de pares exportao para o mercosul, europa

    e estados unidos no ano passado, o laboratrio do Senai*

    atendeu 49 empresas e realizou mais de 500 ensaios para controle de qualidade da matria-prima, calados prontos e acessrios

    *Servio nacional de aprendizagem industrial do Cear

    produo mensal chega a 8,8 milhes de pares

    RAFAEL VILAROuCA

  • 16 CARIRI REVISTA

    edio, e em 2011 recebeu 10 mil pessoas em trs dias de evento, movimentando R$ 50 milhes em neg-cios entre produtores, investidores e consumidores.

    A EBM Consultoria e Investimentos um exemplo de como a FETECC consegue agitar a economia no s do setor de calados. Prestando servios para a maioria das indstrias e lojas do ramo na regio, a EBM aproveita a Feira para fortalecer a atividade dos clien-tes atuais, alm de negociar com os novos. Este ano, houve um cliente em potencial que ficou interessado em instalar uma unidade fabril e uma loja no Cariri. Ele nos convidou para visitas, l em Franca, em So Pau-lo, revela Samara Mendona, administradora da EBM.

    Para o presidente do Sindicato das Indstrias de Calados e Vesturios de Juazeiro do Norte e Regio (Sindindstria), Antnio Barbosa Mendona, as expectativas foram superadas. Segundo dados do Banco do Nordeste do Brasil (BNB), as negociaes ultrapassaram o previsto. Esses resultados nos dei-xam realizados e motivados para organizar a prxima Feira!, conclui Mendona.

    RAFAEL VILAROuCA

  • CARIRI REVISTA 17

    Hoje, a diversidade de opes algo corriqueiro. Sapatos, sandlias, chinelos, botas e produtos os mais modernos e ousados so facilmente encontrados nas lojas de calados, espalhadas em grande escala nos centros comerciais. Essa abundncia contraditria origem do calado, que antes mesmo de ser identificado como tal era um artigo de vestimenta com a funo de proteger os ps do frio e evitar ferimentos em terrenos irregulares.

    Os primeiros registros do uso desses artigos de proteo datam do final do perodo Paleoltico, entre 12.000 a.C e 15.000 a.C. Pinturas rupestres nas regies onde atualmente se situam a Espanha e o sul da Frana mostram uma espcie de bota primitiva de pele animal e outros modelos semelhantes s sandlias abertas.

    No mesmo caminho da vestimenta, os artigos usados nos ps passaram a ser objetos de diferenciao social. Nobres e cidados de alto poder aquisitivo usavam materiais

    PASSOS FIRMES NA HISTRIA

    raros e/ou colocavam joias nos calados para demonstrar superioridade.

    Em algumas sociedades, como na Grcia antiga, os escravos do Imprio no podiam se calar; e camponeses e membros de classes humildes s podiam usar tamancos. Na mesma civilizao, contraditoriamente, num perodo distinto, o uso de calados foi encarado como uma forma de esconder os escravos que deveriam se calar para encobrir seus membros inferiores.

    A tecnologia e a criatividade de estilistas, arteses e sapateiros fizeram o calado se popularizar, tornando-se no apenas necessrio, mas tambm uma pea de apelo esttico que compe o visual. As guerras e batalhas impulsionaram e incentivaram a produo em grande escala, pois vrios pares foram encomendados para vestir os guerreiros e soldados. Dessa forma, a produo foi se instalando e os homens aprimorando a forma de fazer calados.

  • 18 CARIRI REVISTA

    noS raStroS

    #caririmemria

    Crato, setembro de 2011

    o vai-e-vem de carros impede a passagem tranquila da menina que olha assustada o trnsito entre a Igreja e a Praa da S, no centro do Crato. Do outro lado, o barulho de dezenas de crianas brincando faz coro com o repi-que dos sinos, que determina o atraso da estudantada, a correr esbaforida para a primeira aula na universidade situada a poucas quadras dali. Indiferente a tudo isso, um senhor ressona sossegado em frente casa verde que serve de sede Secretaria da Fazenda do Esta-do do Cear. Bem acima da vista dos passantes, uma placa repousa no cume da casa com os dizeres: Aqui morou Brbara de Alencar.

    A homenagem, se assim podemos chamar a placa solitria e imperceptvel, no mnimo desproporcional grandeza de Brbara de Alencar, primeira mulher re-publicana, primeira presa poltica do Brasil e destemida ativista da Revoluo Pernambucana de 1817 em terras cearenses. Da casa em que ela morou quando chegou ao Crato, em 1782, aps casar com Jos Gonalves dos Santos, portugus, negociante de tecidos, nada restou. Foi demolida em 1937 para dar lugar a um pr-dio sem graa da Exatoria Estadual. A residncia, uma tpica edificao colonial de beira-e-bica, que estava completando 200 anos, foi a primeira edificao par-ticular do Crato a ser construda de pedra e cal, tendo vindo o mestre de obras do Recife.

    No Crato, Brbara de Alencar nome de rua. Essa toda a informao que Vitria Arraes, 14 anos, estudante do 8 ano, possui sobre a revolucionria matriarca. Brbara de Alencar? Nunca ouvi falar!, diz a menina. No surpreende. Ovacionada como herona

    da Repblica, sobre Dona Brbara muito se fala e pou-co se conhece. Seu nome por muito tempo foi alijado da histria nacional e envolvido em difamaes por d-cadas. No entender do historiador e memorialista Ar-mando Lopes Rafael, tudo comeou quando Brbara foi acusada injustamente de ter sido amante do padre Miguel Carlos da Silva Saldanha.

    O historiador rebate as acusaes citando as datas de chegada do vigrio no Crato e o nascimento dos fi-lhos de Dona Brbara. O padre chegou ao Crato em 1800, o senador Jos Martiniano de Alencar, que dizem que era filho do vigrio, nasceu em 1794, e o primogni-to Joo Gonalves Pereira de Alencar nasceu no serto de Pernambuco em 1783, quando o padre morava ainda na casa de seus pais. Apesar do que afirma o historia-dor Armando Rafael, muitos bigrafos insistem na tese de que Brbara cometeu adultrio com o padre Salda-nha, desta relao clandestina nascendo o senador Jos Martiniano, pai do escritor Jos de Alencar.

    de brbara

  • CARIRI REVISTA 19

    Harmonia nos traos, boca ampla, lbios firmes, porte alto e forte, quase masculino, braos longos, passada larga e decidida. Assim o Almirante Rufino de Alencar, contemporneo e parente de Brbara, descreveu a herona do Crato, cujos traos fisionmicos perderam-se na histria, assim como os de seu filho predileto, Tristo. O nico desenho que temos de Brbara , na verdade, um retrato presumido nele vemos uma senhora altiva, cabelos presos em tranas que se dividem e fixam no alto da cabea, sem enfeites e sem requintes de sinh. Arisca, a matriarca de 1817 no se revela facilmente. As informaes sobre sua vida circulam desencontradas pela Internet, pginas de bibliotecas, declaraes de estudiosos, documentrios, filmes e teses acadmicas. Morta em 1832, no Piau, numa rea que faz limite com o distrito de Itagu, em Campos Sales, Brbara foi sepultada em terras cearenses, na Igreja de Nossa Senhora do Rosrio. Historiadores e estudiosos pedem o tombamento do templo de Itagu pelo IPHAN. A casa em que morou, no Crato, j foi demolida. No Stio Pau Seco, hoje municpio de Juazeiro do Norte,

    MEMRIA QUE PERMANECE

    onde preferia ficar junto com os filhos, s existem runas e fantasmas. Uma plida paisagem, bem diferente do tempo em que ela reinava ali, senhora dos campos, rebanhos e plantaes, cercada pela famlia, os agregados, os escravos e as crianas que a chamavam de tia Babu. Em melhor situao est o Stio Caiara, no lado oeste da Chapada do Araripe, em Exu (PE), onde Brbara nasceu. A Casa Grande a mais antiga da regio e remonta primeira metade do sculo XVII. No local funciona hoje um museu que tenta preservar a memria do que passou. Quem tambm nasceu nas possesses da Caiara, muitos anos depois da herona do Crato, foi Luiz Gonzaga, o rei do baio, heri de lutas diversas. Numa msica em que bendiz o local, Gonzago enumera os imortais conterrneos:

    Quero louvarOs grandes desse lugarLuiz Pereira, Dona Brbara de AlencarE o Baro que no sai da lembranaQue mandou buscar na FranaSo Joo e Baltazar

  • 20 CARIRI REVISTA

    um rgo pblico no lugar da velha casa, que foi demolida

    Me de heris, herona ela mesma. O que no faltam so ttulos honorficos a Brbara de Alencar, incluindo o que lhe foi concedido in memoriam em maio de 2005 pela Assemblia Legislativa do Estado do Cear, que lhe outorgou o ttulo de cidad cearense. Entretanto, o resgate mais que salutar de sua vida e

    Crato, maio de 1817

    A rua batida de terra estava cheia naquele dia. A multi-do se espremia para ver e ouvir o dicono, vestido de sobrepeliz, que no plpito da Igreja da S declarou em alto e bom som a independncia da Vila Real do Crato do resto do Brasil e do julgo portugus. Era Jos Mar-tiniano de Alencar Araripe, filho de Brbara de Alencar, enviado pelos lderes da Revoluo Pernambucana

    luta, assim como dos fatos que envolvem a Revoluo de 1817, tornou-se, infelizmente, um assunto restrito a grupos de professores universitrios, escritores e jornalistas. Os caririenses pouco sabem da impressio-nante insurreio que se deu em sua terra.

    do plpito da iGreJa,uma reVoluo de batinaS

    para armar um brao do movimento em terras cari-rienses. Assim, cinco anos antes do restante do pas e 72 anos frente do Marechal Deodoro da Fonseca, Martiniano d o grito de Independncia da Repblica.

    A Revoluo Pernambucana de 1817, deflagrada em Recife foi, segundo Lus da Cmara Cascudo, a

    ROGER PIRES RAFAEL VILAROuCA

  • CARIRI REVISTA 21

    mais linda, inesquecvel, arrebatadora e intil das revo-lues brasileiras. Ele explica o motivo: Nenhuma nos emociona tanto nem h figuras maiores em tranquila coragem, serenidade e compostura, suprema deciso de saber morrer, convencidos da misso histrica, as-sumida e desempenhada. Feita essencialmente por padres, diconos e seminaristas, a Revoluo de 1817 se inspirou nos ideais liberais europeus e pretendia ex-pulsar os portugueses do Brasil, considerados absolu-tistas e despticos.

    Nas palavras do escritor Manuel Bonfim, a consti-tuio ou o esboo de constituio de 17 absoluta ga-rantia da honestidade dos seus autores: condenao da escravatura, liberdade de conscincia, liberdade individual, eliminao de todo poder no oriundo da democracia. Tinham f e, sinceros, eram to inacess-veis aos interesses materiais que, durante toda a sua incontestvel autoridade, no tocaram os revolucion-rios num vintm do estado, para qualquer espcie de retribuio pessoal.

    Deflagrada a revoluo, a efmera Repblica do Crato durou oito dias, entre 03 e 11 de maio, quando ento os cabeas do movimento Jos Martiniano e Tristo Gonalves de Alencar, ambos filhos de Brba-ra so presos. Num primeiro momento a matriarca escapa dos perseguidores, porque se refugia junto ao padre Saldanha, no stio Pau Seco. Em As Quatro Sergipanas, monsenhor Fernando Montenegro assim descreve a fuga:

    D. Brbara refugiara-se no stio Pau Seco, de pro-priedade do seu filho Joo Gonalves, e onde ficou em segurana at a madrugada do dia 12; nessa data, antes que a propriedade fosse cercada completamen-te pelos imperiais, tratou de ocultar-se no canavial; noite, saiu do esconderijo e entrou na mata com a qual

    no era familiarizada; quando deu de si, estava na parte de trs da casa de D. Matilde Teles, no stio Miranda; outrora, tinham sido amigas, agora, a poltica as sepa-rara, o que no impediu que lhe fosse dada, naquele transe, cordial e fraterna acolhida.

    O stio Miranda a que o padre se refere hoje o Es-tdio Municipal Governador Virglio Tvora, o Estdio Mirando, no Crato. De l, D. Brbara e o padre Sal-danha seguiram at a cidade de So Joo do Rio do Peixe, na Paraba, onde ela finalmente presa, levada cadeia pblica do Crato e s ento enviada a Fortaleza junto com os outros acusados. Os mais de 500 quil-metros vencidos a cavalo, sob o sol quente do vero nordestino, foram apenas o incio de uma dura prova. Segundo o historiador Armando Rafael, o tratamento que os soldados do Imprio dispensaram a Brbara e seus filhos durante a travessia, e depois disso, na cadeia, foi o pior possvel. Mesmo quando havia lua cheia, propositadamente paravam o transporte dos presos polticos do Crato ao anoitecer para passar de dia durante as vilas, a fim de que fossem vaiados e apalpados.

    No texto Tristo Araripe, Alma Afoita da Revolu-o, o escritor Oswald Barroso descreve da seguinte forma a Fortaleza que viu chegar os 25 prisioneiros extenuados: uma cidade de pouco mais de dois mil habitantes, com casas de um s pavimento, pois acre-ditava-se que os sobrados afundariam em seus areais soltos. Embora Silva Paulet j tivesse esboado seu futuro traado urbano, no possua mais de meia dzia de ruas, todas sem pavimento, duas praas e trs igre-jas. Seus principais edifcios eram o Palcio do Gover-no, a Casa da Cmara, a Cadeia, a Casa do Mercado, a Alfndega, o Errio, o Chafariz, o Lazareto e a Fortaleza de Nossa Senhora da Assuno.

    No dia 22 de fevereiro deste ano a deputada Ana Arraes (PSB-PE) apresentou ao Congresso Nacional um projeto de lei que prope a inscrio do nome de Brbara de Alencar no Livro dos Heris da Ptria. O livro uma escultura com pginas feitas de metal, onde se gravam os nomes dos heris nacionais, como Tiradentes, Santos Dumont, Jos Bonifcio e Zumbi dos Palmares. Tambm chamado de Livro de Ao, a obra repousa no Panteo da Ptria e da Democracia, em Braslia. O Projeto de Lei 522/2011, da autoria da deputada Ana Arraes, est aguardando o parecer da Comisso de Constituio e Justia e de Cidadania (CCJC). Se for aprovado, far com que Brbara seja a primeira mulher inclusa num seleto grupo formado exclusivamente por homens.

    PIONEIRA SEMPRE

  • No correto afirmar que em Fortaleza Brbara ficou presa numa cela onde mal podia ficar de p. Isso completamente equivocado. Esse lugar era o paiol da plvora do quartel e D. Brbara nunca ficou presa ali, ressalta Armando Rafael Entretanto, quan-do estavam recolhidos no Quartel da 1 linha entre a cadeia do crime e a velha Fortaleza de Nossa Senho-ra da Assuno o historiador Joo Nogueira conta: Tristo, enfurecido com o tratamento que recebia na priso, rasgou um brao e escreveu com sangue, em uma mortalha de cigarro: hoje, ou amanh, na ocasio da comida, fugiremos, d no que der. E enviou o bi-lhete me, que estava noutra cela. D. Brbara com medo das consequncias da fuga, faz o bilhete chegar s mos do governador, que se condi da situao e melhora o tratamento dispensado aos presos.

    Em 1820, aps quatro anos de encarceramento, Brbara ganha finalmente a liberdade. Na ocasio, estava presa em Salvador. Passado o perodo de so-frimento e humilhao, viveria mais 12 anos. Para ela,

    foi difcil suportar as mortes de dois de seus filhos, principalmente a de Tristo, em 1824. O corpo da matriarca se encontra enterrado na cidade de Cam-pos Sales, no Cariri. Em Fortaleza, uma placa marca a suposta passagem de Brbara por um local onde ela nunca esteve aprisionada: o paiol de plvora do quartel, no interior do que hoje a sede da 10 Regio Militar. uma lenda diz que seus gritos ainda so ouvi-dos pelas altas madrugadas:

    Aqui gemeu longos dias D. Brbara Pereira de Alencar, vtima em 1817 da tirania do Governador Sampaio.

    Numa cano de 1976, o compositor Ednardo cor-robora com a lenda: Hoje ao passar pelos lados/ Das brancas paredes, paredes do forte/ Escuto ganidos, ganidos, ganidos, ganidos/ Ganidos de morte/ Vindos daquela janela/ Brbara, tenho certeza/ Brbara, sei que ela.

    Nascida em 1760, Brbara de Alencar teve cinco filhos, sendo que trs deles Jos Martiniano (pai de Jos de Alencar), Carlos Jos dos Santos e Tristo Gonalves Pereira de Alencar (mais tarde Araripe) entrariam com a me para a histria, presos todos por conspirarem em favor da Repblica. Junto com os insurrectos, Brbara foi condenada, teve os bens confiscados e vagou de crcere em crcere Crato, Fortaleza, Recife, Salvador sob condies extremamente precrias.

    inegvel a repercusso da Revoluo de 1817 em revoltas posteriores que se deram no Nordeste. E, entretanto, em nenhuma outra uma mulher se fez to presente e foi motivo de inspirao a ponto de se tornar herona. Na viso do crtico literrio Araripe Junior, Brbara de Alencar era uma mulher escrupulosa, de costumes rigorosamente austeros, sangunea e nervosa, tinha assomos irresistveis, cogitaes e deslumbramentos muito alm do seu sexo e da educao sertaneja que recebera. Outros

    A CORAGEMDE SER BRBARA

    historiadores dizem que Brbara infundiu em seus filhos um nimo inquebrantvel, ensinando-os a no suportar ultrajes.

    Entre o mito e a verdade, configura-se o contorno da matriarca sertaneja. Do ponto de vista do imaginrio social brasileiro, a figura da matriarca mostra at hoje uma enorme vitalidade. No h nordestino que no conhea pelo menos a histria de uma dessas mulheres, corrente na famlia ou de casos narrados por terceiros. Em certas regies, chegam as matriarcas a fazer parte do patrimnio cultural local, comentam Rachel de Queiroz e Helosa Buarque de Hollanda, num texto em que analisam as faanhas das matriarcas, entre as quais se filia Brbara.

    A herona de 1817 teria sido, nas palavras das autoras, uma dessas raras mulheres semi-lendrias, proprietrias de terra e gado no interior do serto, longe das pretenses fidalgas das Casas Grandes da zona aucareira. Mulheres que levavam uma vida rstica relativamente distante dos padres culturais europeus que, na poca, moldavam as sociedades do litoral nordestino. No serto, exerciam grande poder de liderana, tendo controle total de seus feudos regionais.

  • CARIRI REVISTA 23

    herona CoiSSSimanenhuma

    Contrariando a historiografia oficial, o pesquisador Ar-mando Rafael possui uma viso controversa sobre o envolvimento de Brbara nos acontecimentos de 1817. Segundo ele, a participao da matriarca do Crato foi bem menor do que se divulga. O estudioso explica: A histria sempre escrita pelo vencedor. Qual o regime vigente no Brasil? O regime republicano. A Repblica oriunda de um golpe militar, o primeiro de uma longa srie que houve no Brasil, e como a imprensa precisa-va de um cone, nada melhor que uma mulher corajosa, simptica, que foi a primeira presa poltica e que a partir da comeou a ser tratada unicamente como a herona Brbara de Alencar.

    Armando Rafael, que autor da biografia Os dois Leandros e tem vrios trabalhos sobre a histria regio-nal publicados nas revistas Itaytera e A Provncia, cita o livro Apontamentos para a Histria do Cariri, de Joo Brgido, para sustentar a tese de que Brbara no teve tamanho destaque antes da proclamao da Repblica. Basta ler o livro, escrito na cidade do Cra-to em 1888. Ele restringe o episdio da Revoluo de 1817, aqui no Crato, ao mnimo, sequer cita Brbara de Alencar. O historiador situa a participao de Brbara apenas como anfitri de um jantar elaborado para an-gariar adeses Revoluo. Conta-se que ela matou cinco capotes e abriu duas garrafas de vinho, das quais foi tomada apenas uma, diz Armando Rafael.

    O fato mais substancial para basear seus argumen-tos seria a falta de provas contra Brbara e o ttulo de herona que lhe outorgaram. Quando houve a contra-revoluo e o juiz Joaquim Teles chegou para apurar os crimes, no encontrou nenhuma acusao sobre a participao de D. Brbara. O titulo de herona foi dado a ela em 1810, sete anos antes da revoluo acontecer. Quem deu esse ttulo foi o padre Arruda Cmara, um padre republicano que foi fundador da Maonaria em Pernambuco. Ele escreve: D. Brbara do Crato deve ser vista como herona. Isso em 1810.

    Apesar de no concordar com a fama dispensada a Barbara de Alencar, Armando faz questo de salien-tar seu carter pioneiro. Ela tinha qualidades? Muitas qualidades. Ela era uma pessoa decidida. Imaginar que no sculo XIX uma poca em que uma mulher s tinha direito a dizer trs coisas: calaboca menino, x gali-nha e sim, senhor para o marido por ela conseguir se projetar significa que no era uma mulher comum.

    Falar sobre Brbara e de todos os eventos que sucederam no Cariri em 1817 sempre deu margem a debates e foi motivo para arroubos. Para a maioria da populao cratense, Brbara de Alencar, quando mui-to, apenas um nome de rua. Nome que se perdeu no tempo e que nada significa. Mas para o estudante que tira fotos da casa sem graa, no local onde um dia se tramou uma revoluo, Brbara de Alencar ainda pode dar algumas lies. Quem ia dizer que uma mulher nordestina, daquela poca, seria uma revolucionria?, pergunta-se Victor Rocha, estudante universitrio. Ele mesmo resume: Sabe o que eu acho? Eu acho que Brbara serve de exemplo.

    A Casa Grande da Fazenda Caiarafica a 15 km da sede do municpio de Exu. A via de acesso a PE-122 (rodovia Asa Branca), sentido Exu-Bodoc. Os turistas devem entrar em contato com a Secretaria de Cultura, Turismo e Desportos (R. Cel. Joo Carlos, 64. Tel: 087.3879.1397), a fim de agendar a visita.

    SERVIO

    RAFAEL VILAROuCA

    Armando Rafael: viso controversa

  • 24 CARIRI REVISTA

    durante toda a semana uma multido baru-lhenta e animada de alunos com os mais diferentes sotaques invade os vrios n-cleos da universidade Regional do Cariri,

    a urca, sediada nos municpios de Crato, Juazeiro do Norte e Santana do Cariri, com unidades tambm em Iguatu, Misso Velha e Campos Sales.

    So estudantes em busca dos cursos de gradua-o, programas especiais e ps-graduao lato sensu oferecidos pela instituio de nvel superior mais anti-ga da regio, que acaba de incluir em sua grade o pri-meiro doutorado interinstitucional do interior do Cear, em Bioqumica Taxolgica. O campus do Pimenta, no Crato, onde funciona a Reitoria, o que concentra o maior nmero de alunos.

    Na vizinha cidade de Juazeiro do Norte as institui-es pblicas e privadas oferecem, juntas, mais de 50 cursos. uma delas a universidade Federal do Cear-uFC, cuja trajetria regional comeou, na realidade, em Barbalha, com a abertura do curso de Medicina. Em Juazeiro fica o campus com maior nmero de cur-sos. Essa estrutura abrigar em breve a universidade Federal da Regio do Cariri (uFCA) conforme prev o programa de expanso das universidades federais no pas, sob responsabilidade do MEC.

    As demais instituies so a Faculdade Leo Sam-paio de Cincias Aplicadas, credenciada em 2001; a Faculdade Paraso (FAP), h mais de quatro anos em funcionamento; a Faculdade de Juazeiro do Norte (FJN), que iniciou suas atividades em 2003 e a Facul-dade de Medicina de Juazeiro do Norte (FMJ), primei-ra a oferecer ensino mdico privado no Cear.

    Juazeiro tambm possui um Campus Avanado de Difuso Tecnolgica da universidade Vale do Acara (uVA). No Crato, a Faculdade Catlica do Cariri oferece graduao em Filosofia e ps-graduao em Gesto Empresarial, Docncia do Ensino Superior e Biotica.

    Maior centro universitrio do interior, o Cariri atrai,

    Com o diploma na mo

    ano aps ano, centenas de estudantes das cidades vizinhas e dos demais estados nordestinos. Todos em busca de formao superior, horizontes de vida mais amplos e novas chances de crescimento no mercado profissional. Este cenrio peculiar sugere grandes trans-formaes numa terra cujas fronteiras educativas se ex-pandiram consideravelmente em apenas uma dcada.

    Antes, para fazer um curso superior, ns tnhamos que deixar a regio. Quem no possua tantos recursos tinha que se conformar com os poucos cursos que havia aqui. Hoje no. Eu posso fazer uma faculdade de Jornalismo, o que era impensvel h dois anos, pagando s uma passagem de nibus para Juazeiro, comemora o estudante Mrcio Oliveira, do Crato, que almeja entrar para o curso de Comunicao Social da uFC-Campus Cariri.

    Questionado sobre o panorama atual, o presidente da Faculdade Leo Sampaio, Jaime Romero, vislumbra uma razo muito simples para a regio ter se transfor-mado num centro aglutinador de estudantes universit-rios: No Brasil, pouco mais de 10% da populao teve acesso ao ensino superior, ento havia uma demanda reprimida. Ns sabemos que no existe desenvolvi-mento sem investimento em educao. No Cariri, h 10 anos, s tnhamos a urca, e especializada na formao de professores, no nas reas de Negcios e Sade.

    Se a demanda reprimida levou a uma competio pelos melhores lugares em sala de aula, a professora Faustina Loss Justo, moradora do Crato, considera que preciso precauo contra o excesso. A principio isso timo, ter tantos cursos e faculdades no Cariri, mas preciso cuidado com a qualidade. No adianta ter uma demanda enorme de faculdades se no pudermos atestar seu desempenho. Sem discordar de Faustina, Jaime Romero aposta na consolidao de um polo universitrio de referncia no interior do Nordeste, com as diversas Instituies se esforando em prol da qua-lidade do ensino.

    #caririeducao

  • CARIRI REVISTA 25

    Jamais o foco e a prioridade devem ser a comer-cializao da educao. um pensador j disse: edu-que as crianas e no precisar reprimir os adultos. Pois minha citao : semeie educao e colher prosperidade. Para Romero, essa mxima poderia ser equacionada em menor desigualdade social com melhor distribuio de renda, menos recursos pblicos aplicados em programas sociais assistencialistas e, em especial, populao capacitada para competir em melhores condies com os grandes centros.

    No texto Economia do Conhecimento, o profes-sor Ladislau Dowbor (PuC-SP) defende que o repasse de conhecimento um novo fator de produo: uma vez produzido, o conhecimento pode ser divulgado e multiplicado com custos extremamente limitados. Contrariamente ao caso dos bens fsicos, quem repas-sa o conhecimento no o perde. O direito de acesso ao conhecimento torna-se assim um eixo central da democratizao econmica das nossas sociedades.

    O reitor da uFC, Jesualdo Farias, traduz o conceito na prtica: Profissionais esto sendo formados e inse-ridos no mercado, contribuindo para o desenvolvimen-to local. visvel o impacto positivo da implantao do campus da uFC sobre o desenvolvimento econmico,

    Um dos fatores que ajudam a explicar a exploso de instituies de ensino superior na regio o aquecimento da economia. Segundo a Fundao Getlio Vargas, entre 2003 e 2008, algo como 32 milhes de brasileiros ascenderam classe mdia no Brasil (classes A, B e C). J os dados do instituto Ipsos Public Affairs apontam que apenas em 2010 quase 31 milhes de brasileiros melhoraram de nvel social. Desse total, cerca de 19 milhes saram das classes D/E e engrossaram a chamada grande classe mdia, a classe C. Perto de 12 milhes de pessoas pularam da classe C para as classes de maior poder aquisitivo (A/B).

    De cinco anos para c, portanto, a estratificao social do Brasil abandonou o antigo formato de pirmide tpico dos pases pobres para adotar a figura geomtrica de um losango, que expressa um equilbrio mais prximo dos pases desenvolvidos. A grande mobilidade social resultante do aumento da renda gerou na populao brasileira a expectativa real de uma vida melhor, algo que alguns pesquisadores e socilogos esto chamando de brazilian way of life. E nada expressa melhor essas novas expectativas que o aquecimento da oferta de cursos universitrios.

    Isso dito, bom lembrar: mesmo com as boas perspectivas, os nmeros de hoje carregam os problemas de ontem. O Brasil traz no peito um fosso que separa grande parte de sua populao da educao superior, e o Cear ocupa um lugar nada honroso neste ranking acadmico. A disparidade entre as vagas das universidades e o nmero de habitantes imensa: 5,7 vagas para cada grupo de 10 mil pessoas. A meta chegar pelo menos a 10 vagas para 10 mil habitantes.

    notadamente nos setores imobilirio e de servios, gerando emprego e renda para populao. possvel contabilizar ganhos sociais a partir dos trabalhos de extenso e das atividades artsticas e culturais desen-volvidas pela comunidade, pontua.

    A INSTITuIO PIONEIrAE umA NOVA uNIVErSIDADE Dentre as universidades da regio, a urca a pioneira. Foi criada em 1986 e instalada no ano seguinte. Man-tm em Santana do Cariri o Museu de Paleontologia, e sua estrutura organizativa est ligado ao Geopark Arari-pe. A universidade pblica oferece diversos programas e cursos, alm de um doutorado em Bioqumica Taxo-lgica e um mestrado em Bioprospeco Molecular, que pretende formar professores e pesquisadores de altssimo nvel, atuantes nas reas de Bioqumica,

    BRAZILIAN WAY OF LIFERA

    FAEL

    VIL

    AROu

    CA

    A urca a mais antiga da regio

  • 26 CARIRI REVISTA

    Biologia Celular e Molecular, Farmacologia, Botnica Aplicada e outros. Trata-se de um dos nicos cursos de ps-graduao stricto sensu no interior do Nordeste.

    J o campus da universidade Federal do Cear ini-ciou suas atividades no Cariri com o curso de Medicina em Barbalha, h 10 anos, e conta hoje com 11 cursos de graduao, um curso de mestrado em Desenvolvimen-to Regional Sustentvel e outro, em Agronomia, apro-vado para comear no incio de 2012. Vrios projetos de pesquisa e de extenso envolvem as temticas do cotidiano da regio, que agora se prepara para mais um salto. Durante estes 10 anos, criaram-se as condies necessrias para se pensar em um projeto maior, o de transformao do campus em uma nova universida-de, informa o reitor Jesualdo Farias.

    J anunciada oficialmente pela presidente Dil-ma Rousseff e pelo Ministro da Educao, Fernando Haddad, a universidade Federal da Regio do Cariri (uFRC) aproveitar a atual estrutura da uFC, que se divide entre as cidades de Juazeiro, Crato e Barbalha. Afora as unidades do Crajubar, a nova instituio ter campi em Ic e Brejo Santo, alm de instalaes em Crates e Russas. Este tem sido um grande anseio da comunidade caririense, agora contabilizado como uma conquista. J estamos trabalhando no processo de criao da universidade, que ser realizado com a par-ticipao da comunidade universitria da uFC no Cariri e de representantes dos diversos setores. Descortina-se um futuro brilhante, de uma universidade que nas-ce com a marca de uma das melhores instituies de ensino superior do pas, comemora Jesualdo Farias.

    A expectativa que a universidade Federal do Ca-riri seja inaugurada at 2014. Alunos e professores j se mobilizam em torno da estruturao desta que ser a terceira universidade federal do Cear. A princpio questionamos a notcia, por ter sido dada sem grandes

    discusses de base, embora j houvesse um debate interno. Mas uma notcia boa. Ter uma instituio des-sas no Cariri sempre foi um projeto de muitos. Ganha-mos uma universidade, e imediatamente, dois campi, em Ic e Brejo Santo, alm de mais 12 cursos. Ento uma grande vitria, porque as pessoas da regio tero acesso ao ensino superior gratuito sem se deslocarem para longe, afirma Fanka Santos, professora do curso de Biblioteconomia da uFC.

    CINCIA mDICA E uNIVErSOSPArTICuLArES O Cariri o primeiro centro credenciado no interior do Norte e Nordeste a realizar transplantes de rins. tam-bm uma das regies brasileiras que mais fez trans-plantes nos ltimos anos. Em abril a regio ganhou um avanado Hospital Regional, que fica em Juazeiro do Norte, estrategicamente localizado entre os mu-nicpios de Barbalha e Crato, para facilitar o acesso populao dos 41 municpios da macrorregio do Cariri e das microrregies de Iguatu e Tau.

    Grande parte da mo-de-obra necessria ao fun-cionamento do polo de sade caririense formada na prpria regio. Em Barbalha, o curso de Medicina da uFC conta hoje com 240 alunos e 74 professores, sendo 25 efetivos. Antes disso, a regio j contava com uma instituio particular na rea, a Faculdade de Medicina de Juazeiro do Norte (FMJ). Implantada

    FOTO

    S: R

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    fanka: experimentaes no laboratrio de Afetos

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    em 1998, a FMJ recebeu sua primeira turma em 2000. Hoje, j responsvel pela formao de mais de duas centenas de mdicos.

    Tuiane Alves, estudante do 2 semestre, uma dessas futuras profissionais de sade: Sou do Iguatu e estou adorando morar no Cariri. Eu fao parte da pri-meira turma que teve acesso Faculdade pelo FIES, diz ela, acrescentando com entusiasmo que est sen-do uma experincia maravilhosa estudar em um lugar em que eu tenho tudo disposio. Acho que ao abrir as portas para o aluno que no poderia pagar, a Facul-dade permite o encontro de mundos diferentes.

    Esses mundos diferentes foram vivenciados, em parte, pelo estudante Pedro Paulo Nunes, ex-aluno de Histria na urca, que hoje cursa o 1 semestre de Fisiote-rapia na Faculdade Leo Sampaio, entidade privada de ensino superior: Eu sempre gostei da rea de Sade. Como no havia antes esses cursos aqui, fiz Histria, gostei da urca e fui ficando. Mas com a chegada dos novos cursos, aproveitei para fazer o que sempre quis.

    Pedro pe na balana o que aprendeu nessa tra-vessia. Tenho conhecimento tanto da faculdade pri-vada quanto da pblica. Na pblica a gente tem uma experincia formidvel com coisas antes impensveis, como poltica partidria e estudantil, participao em congressos e discusso de temas que sero bandeira de luta dos estudantes em todo pas. J no ensino par-ticular, a boa estrutura oferecida indiscutvel.

    uma dessas instituies privadas, a Faculdade de Cincias Aplicadas Leo Sampaio oferece treze cursos de graduao, dentre os quais Administrao, Fisiote-rapia, Gesto Comercial, Servio Social e Odontologia. A faculdade est hoje no seleto grupo das melhores instituies do pas, segundo dados do MEC/INEP. Isso se deve principalmente ao sucesso que os egres-sos tm tido no mercado de trabalho, concursos e processos seletivos para mestrado e doutorado, entre outros, afiana o presidente Jaime Romero.

    Para ele, os profissionais formados esto criando uma nova ordem regional, envolvendo as indstrias, o comrcio, o 3 setor e os servios de sade. So mu-danas significativas, com a adoo de novas tecnolo-gias e novos conceitos de gesto. A faculdade foi uma das maiores geradoras de empregos em funes de alto valor agregado. So mestres e doutores, mdicos, dentistas, administradores, consultores financeiros... Os salrios so gastos aqui. Considerando que 60% dos alunos vm de fora do eixo Crajubar, h uma gran-de atrao de investimentos e aportes financeiros nos diversos setores: imobilirio, restaurantes, comrcio...

    J a Faculdade Paraso (FAP), tambm funcionan-do em Juazeiro, possui cursos de Direito, Administra-o e Informtica. um dos destaques o Ncleo de Prtica Jurdica NPJ, muito utilizado por estudantes como Stefani Dantas, aluna do 10 semestre de Direi-to. Eu sou de Mauriti e vim ao Cariri para estudar por motivos bvios. Aqui onde esto as melhores facul-dades e as maiores oportunidades de emprego. Os professores no faltam, a biblioteca tima, com um acervo diversificado, e a dedicao dos funcionrios evidente. O preo das mensalidades, porm, ainda uma barreira para muita gente que no pode pagar.

    Ainda que no seja acessvel a todos, o ensino su-perior vem abrindo novos horizontes numa terra que j se acostumou a ser pioneira em muitas frentes. Que o diga Leda Pinheiro, professora do curso de Psicologia da Leo Sampaio: formidvel ver o quanto o Cariri se expande em educao. Quando eu tive que fazer meu curso universitrio, no tinha escapatria, tinha que sair daqui para estudar, e isso muito dispendioso. Hoje no. O aluno que quiser ficar no Cariri sabe que ter cursos variados e de qualidade, inclusive com a oportunidade de desenvolver pesquisa e extenso nas universidades privadas.

    Jaime Romero: possvel investir em qualidade

  • 28 CARIRI REVISTA

    Os alunos esto em crculo. Alguns estendidos no cho, outros sentados em cadeiras, muitos apoiados na parede. No meio da sala de aula, frutas que eles mesmos trouxeram para compartilhar com o convidado da semana, que pode ser um msico, um poeta, uma prostituta, um arteso, uma celebridade ou um ilustre desconhecido. Quinta-feira dia de LATA, o Laboratrio de Troca de Afetos criado pela professora Fanka Santos, da UFC-Campus Cariri.

    O LATA uma experincia instigante que funciona como parte da disciplina de Cultura e Mdia, nos cursos de Biblioteconomia e de Msica da UFC. Comeou em 2006, como projeto de extenso, sob o impulso de proporcionar aos alunos uma profunda troca de experincias com habitantes de diferentes universos.

    Cada pessoa, com a sua trajetria, vem como testemunha da cultura para nos afetar. O afetamento a tem dois sentidos: o da criao de laos de afeto e o de impacto na vida dos outros: afetar para que eu possa modificar a minha

    UM LABORATRIODE AFETOS

    viso de mundo, teoriza Fanka, professora, pesquisadora, mestra, doutora e membro da Sociedade dos Cordelistas Mauditos. Nascida em Juazeiro do Norte, so dela os livros gua da Mesma Onda: a Peleja Potica Epistolar Entre a Poetiza Bastinha e o Poeta Patativa do Assar, recm lanado, e Romaria de Versos: Mulheres Autoras Cearenses, premiado pelo Edital das Artes da Secult, alm de muitos ttulos de cordel.

    Na prtica, o laboratrio de experincias humanas funciona assim: os convidados, ou testemunhas da cultura, so introduzidos em sala de aula, tomam caf com os alunos, desfiam suas vidas, mapeiam trajetrias, despertam reflexes, saciam curiosidades. Trocam afetos. Alguns tocam, danam, recitam. Tudo fotografado e filmado, na inteno de que os momentos vividos, as poticas da pessoa, gerem pequenos documentrios. O rico acervo de imagens est prestes a ser editado graas a um convnio com o Sesc.

    Nesses muitos anos de LATA, a lista de convidados extensa. Houve troca de afetos com a escritora Ana Miranda, o poeta Chacal, o gaitista e bluseiro Jefferson Gonalves, a historiadora Lia Calabre (da Fundao Casa de

  • CARIRI REVISTA 29

    Rui Barbosa), a arqueloga Conceio Lopes (da Universidade de Coimbra), o pesquisador Daniel Walker, o arquivista Renato Casemiro, o xilgrafo Jos Loureno e muitos outros.

    Atores, atrizes, bailarinos todo mundo nos interessa, Quando a convidada foi Silvana, cafetina e dona de bordel, os outros cursos quase esvaziaram, porque os alunos vieram v-la. Cada convidado tem a sua potncia, e essa potncia um arquivo de afetos. So pessoas interessantes que sempre deixam alguma coisa para ns, avalia Fanka, explicando que quando um escritor chamado, os alunos so incentivados a ler sua obra. O LATA mexe com a experincia da subjetividade, de descobrir coisas, algo valoroso.

    Formada em Letras pela Urca, Francisca Pereira dos Santos, a Fanka, fez mestrado em Sociologia (UFC) e doutorado em Literatura e Cultura (UFPB). Apesar dos ttulos, nunca esteve em conformidade com as regras. Eu fui uma aluna inquieta e me tornei uma professora no-convencional. O ensino brasileiro totalmente descontextualizado da realidade. Acho que preciso implodir todo o sistema escolar. No d pra fazer reforma, tem que criar um novo, sentencia ela, que este ano vai pela quarto vez

    Frana, para visitar a Universidade de Poitiers, onde funciona o maior centro de cordel da Europa. Eu pesquisei literatura de cordel e fiz minha bolsa-sanduche l, explica a professora, que tambm cordelista e acaba de lanar um livro sobre a correspondncia entre Patativa do Assar e a poeta Sebastiana Gomes de Almeida Job, a Bastinha, um dos maiores nomes da rea.

    Sempre apaixonada, Fanka explica: Um dos discursos da historiografia que mulher no faz cordel, no faz poesia. Sempre fez! Mas como estava num espao privado, os versos ficaram na gaveta. Se voc pega mulheres como Salete Maria da Silva, Bastinha e Josenir, voc pira! So dez mil vezes melhores do que todos os grandes homens do cordel. A melhor produo de cordel, para mim, de autoria feminina, com exceo de Patativa.

    Para a criadora do LATA, o grande desafio dos professores fazer os alunos olharem para a sua cultura e o seu papel no mundo. A universidade antes era um local de reflexo. Hoje no mais. Apenas forma pessoas para o mercado. preciso transformar a universidade num territrio de prazer, de trocas, de afetamentos, considerando as experincias e trajetrias de cada um, finaliza.

  • 30 CARIRI REVISTA

    DANIELpeiXoto

    Por Kiko Bloc-Boris

    tem Fome de ViVer!

    Desbravador de fronteiras em direes e sentidos amplificados, Daniel Peixoto se define um artista livre. Fazer msica eletrnica de boa qualidade, mixada a ritmos e elementos tropicais, me d uma visibilidade

    diferenciada. Essa a ideia!, situa o jovem msico cearense, que nunca negou as razes caririenses nem temeu alastrar-se em variadas mixagens pelas esferas globais do universo pop. Em carreira solo, o popstar

    nacional desde a banda electropunk Montage formada por ele em 2005 e com a qual rodou meio mundo at meados de 2009 se desligou do duo para conectar-se melhor consigo, temperou as clulas criativas com condimentos nacionais e lanou o primeiro

    disco solo, Mastigando Humanos, em abril deste ano. Pouco depois zarpoupara a Europa, dilatando horizontes.

    #cariripersona

  • CARIRI REVISTA 31

    FABI

    O M

    OTTA

  • 32 CARIRI REVISTA

    de Amsterd, na Holanda, onde gira em temporada, ele emplaca xitos pelo Velho Continente. O lbum de estria virou dois discos em difuso por um selo francs. Sem

    desplugar das redes sociais, abocanha com gula novas composies mundo afora. de l, e pela Internet o meio democrtico em que se divulga e disponibiliza os sons e imagens que lhe erigiram a fama , que o moo de 20 e alguns anos alardeia um sonoro tropicalismo bem casado msica eletrnica, e lembra das vivncias e ini-ciaes nas artes pelas terras do Sul do Cear.

    Filho da cratense Valria Peixoto com o carioca de ascendncia alem Oswaldo Moellmann Cordeiro de Farias, Daniel Peixoto nasceu em Fortaleza. Ainda no colo foi para o Rio de Janeiro e aos trs anos chegou ao Crato, onde permaneceu por uma dcada. Estudou nos colgios Diocesano, Pequeno Prncipe e Nosso Mun-do, habilitando-se no canto, dana, teatro e coral pela Sociedade de Cultura Artstica do Crato. Com 11 anos j viajava como ator de teatro. Para Daniel, o Cariri repre-senta um caldeiro cultural de etnias. De l retirei toda a vontade de ser artista e as primeiras referncias, em todos os sentidos, msica, artes plsticas, cnicas....

    Em casa, na escola, nas ruas caririenses, DP de-glutiu influncias, assimilou manifestaes e alicerou

    o futuro nos ambientes artsticos. Os amigos da me eram na maioria atores, bailarinos, poetas, cantores. Estar no meio deles me deu uma bagagem de estmu-los. Cresci vendo Abdoral e Pachele Jamacaru can-tarem, Elina Sousa danar, Joo do Crato em perfor-mances absurdas com aquele visual nico, remonta. Na trajetria pessoal, no se censura de expressar o que pode unir pela msica. Ecoa com escrachos, ar-remates visuais e esculachos, as transgresses sem agresses que lhe propagaram como um cantor per-formtico, andrgino, que se maquia, usa vestidos. O que prega diverso, diversidade, verdade e coragem.

    Madonna e Bowie sero sempre fontes inesgot-veis de inspirao, identifica Peixoto, para se alongar em extenses atentas. Estou muitssimo influenciado por nomes novos, como IAMX, Placebo e Ladytron, mas adoro os sons brasileiros da Gaby Amarantos e essa ga-lera do guetho paraense... Sou uma mistura, graas a Deus!. A variedade j rendia ao obstinado adolescente, que em 1999 veio morar na capital. Em Fortaleza mo-delou a persona de facetas nonsense-sexy-bagaceira, com ar romantic-freak-clubber-outsider. Na paixo pela msica, especialmente a eletrnica, desdobrou ligas, armou-se com o Montage, emigrou em 2005 para So Paulo, fez rdio, atuou como DJ e, sem raias pr-estabe-lecidas, fez-se celebridade na TV e na Web.

    Carismtico, DP transmuta-se nos cortes e colori-dos dos cabelos, roupas e adereos. Ama a expresso corporal, que evidencia nas tatuagens e no desnuda-mento em cena. Hoje o personagem sou eu exagera-do. o Dani x 4 para o palco e vdeos. Mas reconhece: Se a msica no for boa, slida, no h roupa, foto ou desempenho que sustentem um trabalho. Moda e hype passam, msicas boas ficam. Resume ento: Minha voz est melhor, a performance tem amadurecido. Con-tinuo apostando na ateno da audincia, s que aliado a uma musicalidade mais slida e com mais identidade pessoal. No comando da trilha, o sertanejo cosmopoli-ta brada que tudo fica mais lindo misturado.

    BRuN

    O ZA

    NARD

    O

  • CARIRI REVISTA 33

    NOVAS mONTAGENSNo Montage, Daniel conheceu bem as facetas afveis e contrastantes do sucesso. Ele e o parceiro Leco Juc pousaram em todos os estados do Brasil, fizeram sho-ws, se exibiram em festivais dentro e fora do pas. Elei-tos pela Folha de SP o melhor show do Brasil, em 2005 e 2006, tambm venceram por jri popular os prmios London Burning de Melhor Artista em 2007 e o HellCity de Melhor Show em 2008. Tocaram ao lado de bandas e msicos do naipe do Justice, Digitalism, The Killers, Artick Monkeys, Hot Chip, Supergrass, Stereo Total, Neon Judgement e Gang of Four. Peixoto tem mui-tssimo orgulho de ter dividido palco com artistas que me influenciaram bastante, como Bjrk, Prodigy e The Cardigans, parece surreal na minha cabea at hoje.

    O fim amigvel da banda em 2009 no esmae-ceu excitaes passadas. Daniel, que j se destaca-va como maravilhoso, o novo David Bowie para o jornalista ingls Peter Culshaw do The Guardian, tambm era apontado no site pessoal do astro Justin Timberlake como um encontro entre Shine Toy Guns, Prodigy e a paixo tipicamente brasileira. Ao trilhar no-vas e independentes veredas, lembra que no Montage seu forte era a performance ao vivo. Ficava meio com vergonha de interferir nas ideias do meu parceiro Leco Juc, um msico profissional e excelente produtor, confessa, recordando que musicalmente era quase regra o grupo no soar brasileiro, no ter referncias locais. Para o trabalho solo decidiu adubar faixas com sonoridades brazucas e regravou Raio de Fogo e I Trut My Dealer, que j rolavam nas apresentaes e gravaes do duo. Agora sim, esto exatamente como gostaria que fossem.

    SOLOS PArA rENOVAES!A independncia e energia de Daniel Peixoto multi-plicaram-se na busca da identidade artstica prpria. Apresentaes com seu nome frente, incurses como DJ e hostess de festas, aparies na TV e edi-torias de moda, tudo fluiu no sedimentar da fase solo. A empatia persuasiva e o dom de aglutinar repercutiam em parcerias com novos e tarimbados DJs, produtores de msica eletrnica, diretores, fotgrafos e um arse-nal de profissionais. A latinidade vibrava nos embalos do msico-cantor, que arquitetou intersees vocais em portugus, ingls e nos dialetos dos badalos no-tvagos, amalgamando percusses e brasilidades com batides eletrnicos. Toda a arregimentao convergiu na diversidade de estilos musicais e na comunho de participaes do lbum solo. Mas incurses anteriores j vinham com tais contornos.

    Em outubro de 2009, o happening melodioso de Daniel com guitarradas paraenses, lundus tecnobre-gas e outras cadncias ecoavam em apelo irrecusvel a convocar fs, amigos fashionistas e ferventes festei-ros em Belm para a filmagem do clipe de Come to Me. Exibido em abril de 2010, inicialmente com exclu-sividade pela MTV Brasil (onde DP um queridssimo colaborador desde que surgiu no mapa pop nacional), marcaria a temporada independente, deflagrada com o lanamento do primeiro single, que imprimiu e moti-vou outras tantas promoes nova fase.

    O lbum com 16 verses diferentes de Come to Me traz cada faixa trabalhada por uma nata de aliados, entre eles Luca Lauri, Leco Juc, DJ Chernobyl, Killers on the Dance Floor, Database e Camilo Rocha, a partir da base lrica entoada a cappella por Daniel, que flama a uma memorvel intimidade. Ainda em junho de 2010, ele confirmou o poder conclamatrio ao cantar ao vivo para uma multido de 3,5 milhes de pessoas na maior parada gay do mundo em SP, para a qual comps Sin-ta o Amor em Mim e juntou no trio eltrico ostentado com seu nome uma considervel trupe de artistas.

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  • 34 CARIRI REVISTA

    O cariri presente no novo disco, Mastigando Humanos

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    mASTIGANDO HumANOS =SHINE + DONT GIVE uPEmbries concebidos, Daniel estava preparado para solar, bem acompanhado. Em abril, o lbum Mas-tigando Humanos, com 12 msicas inditas, duas novas verses de hits e um encarte recheado de refe-rncias ao Cariri, saa nacionalmente pela Fora do Eixo Discos em parceria com o site Toque no Brasil, que se ateve ao preceito de DP e torna pblicas as msicas para download, vdeos, fotos e biografia pelo link www.danipeixoto.tnb.art.br.

    O ttulo do CD at sugere leituras antropofgicas. Todavia vem mesmo do romance psicodlico de Santia-go Nazarian, escritor amigo, que tambm assina a letra da cano homnima. A deglutio voraz qual Daniel se refere tem mais a ver com as prprias sendas exis-tenciais. Desde que saiu do Crato para tentar a vida e atentar s artes, diz que no fez muito alm de absorver, degustar e digerir provas humanas, alheias e pessoais.

    Na mescla de programaes eletrnicas com per-cusses e incidncias regionalistas, Peixoto comps um salado rtmico que chama electro-brega-industrial-pop-punk-tropical. Liga trip hop, menes s sonorida-des 90s e vertentes do rock com sotaques nacionais no estrondo de pandeiros, atabaques, um tamborzo mais frentico, elementos de samba, macumba, ca-rimb, tecnobrega e forr para refrescar o fundamento eletrnico. O ecletismo na pluralidade do trabalho e a participao de muita gente bacana no abreviam a capitania de Dani em Mastigando Humanos.

    Sempre confessional, DP um catalisador do que vive, um amplificador do que o cerca. Abre o disco na delicadeza embalada de Olhos Castanhos, romantiza com a viajante A Fish Alone e comea a acelerar na inequvoca brasilidade melodiosa, sexual e bem humo-rada de Flei. A cano-ttulo do disco evidencia as

    farragens mandatrias, que no abrandam em Shine, quando se une ao luzente vocal de Nayra Costa para chamar s pistas. E a levada caliente ecoa no acelera-do hit Come to Me.

    Dani amaina na declarativa My Love Has Green Lips e mareja pop nas ondulaes hbridas de Praia do Futuro, que tambm sapecam em Raio de Fogo, com participao de Thalma de Freitas (vocalista da Orquestra Imperial). Na entusistica Dont Give up, divide crditos com o rapper Xis e Clowie de Wolf. A diverso bomba na descarada Eu s Paro se Cair, e I Trust My Dealer volta com novos arranjos e efeitos, antes do agitado remixe de Discokillah para Come to Me ganhar os apaziguamentos de despedida da acalentadora Desacelerando, com backing vocal da tambm cearense Laya Lopes.

    EurO DISCOMastigando Humanos mal comeava a ser devora-do no Brasil, elogiado pelas revistas Rolling Stones e MixMag, abalizado por sites como MadDecente do Dj Diplo de NY, e Daniel j seguia em excurso por Paris e Berlim. Tendo garantido o lanamento digital do traba-lho pelo selo francs Abtjour Records, com distribuio pela inglesa Pias Records (a mesma de artistas como Adele, Radiohead e Massive Attack), ele explica que o label francs decidiu dividir o disco em dois por acre-ditar que 14 faixas seria muito para um lanamento na Europa, j que a maioria lana EPs.

    Batizada Shine, nome fcil, curto e com o apelo pop que a cano confere, no dia 18 de julho saa na Europa a primeira verso compactada do CD, que traz a faixa homnima, alm de Flei, Eu s Paro se Cair, Come to Me (Discokillah remix) e I Trust my Dealer. DP, que grava clipe de Shine com uma equipe mui-to competente na Holanda, adianta que em alguns

  • 36 CARIRI REVISTA

    meses lano o segundo disco, Dont Give up, com as faixas que ficaram de fora do primeiro e umas inditas que j produzo.

    A gingada no exterior era prevista pelo artista. Cer-teza, meu disco foi feito pensado bastante no mercado gringo. Os preparativos para apresentar algo que soas-se diferente e se encaixasse comercialmente valeram. O selo europeu fez parceria com a Microsoft e o MSN, disponibilizando gratuitamente a faixa de Shine para baixar na pgina de abertura dos sites ligados s empre-sas em cinco pases europeus, o que aqueceu as ven-das do lbum e divulgou o meu trabalho, sada Peixoto.

    Daniel renova visto pelo Brasil e vem a Fortaleza no dia 08 de outubro lanar Mastigando Humanos. Mas vale ficar atento onipresena de DP pela Web, onde posta novidades, roteiros, vdeos, fotos e as prximas cenas, como no perfil artstico do Facebook (http://www.facebook.com/danielpeixotobr), no twitter @DaniPeixoto e em outras instncias do seu mundo interligado: http://www.danipeixoto.tnb.art.br; http://danielpeixoto.tumblr.com/; http://www.myspace.com/danipeixoto; http://www.soundcloud.com/danipeixoto.

    LTImAS PELO CArIrIO regresso ao que realmente importa a Daniel incluiu revisitas s fontes, aluses e ilaes ao seu Cariri. Minha ltima passagem pelo Crato foi em outubro de 2010, quando votei pra presidente e aproveitei para fotografar o encarte de Mastigando Humanos e gra-var um videoclipe indito. O clipe, recm-lanado, o da cano Olhos Castanhos, em que Daniel entoa com legitimidade pessoal, sob batidas compassadas, tocantes confisses, invocando um penitente que se flagela para se regenerar, reconstruir, sobreviver.

    No filme, o brincante popstar cearense se reconec-ta com as riquezas e ambiguidades de manifestaes religiosas e culturais caririenses, numa espcie de pre-ce pelos cenrios de onde artisticamente emergiu. Em

    meio s simblicas imagens do artesanato de Mestre Noza, num santurio caseiro, aos ps da esttua do Padre Ccero e em danantes conjunes com folgan-as locais, o moderno retirante nordestino despe-se, literalmente e em oraes. Vestido em trajes folclricos e na t-shirt estampada com Juazeiro do Norte, evoca uma ode estranha So Paulo, outro palco familiar de tantas cheganas.

    EurOPEANS NIGHTLIFES E CONTATOS EXTrATErrENOSEle canta e avisa em portugus mesmo: Eu s paro se cair. E se cair vai at o cho, levanta, d a volta por cima, por baixo, mas parar no pra no. Tudo rola su-per bem no solo europeu. O primeiro disco emplacou, logo render repercusses no lanamento sequencial da segunda parte do trabalho. Neste nterim, Dani mantm o single de Eu s Paro se Cair nas paradas. Na Alemanha o hit lidera acessos e downloads em si-tes como o www.oljo.de, que sublinha o artista como Mr. Gaga, em alusiva referncia diva do momento.

    A ideia agora fazer mais shows, circular o nome para o ano que vem entrar no circuito de festivais, tenciona ele, que voltou a ser atrao em clubes e ba-res como quando comecei meu trabalho musical no Brasil. Ao invs de cinco msicos, na Europa trabalha com um DJ executando o live p.a., o que possibilita tocar e mostrar seus vdeos em qualquer buraco. Em viagens com rumos certeiros j fez Holanda, Frana, Sua, Blgica, Alemanha, Espanha e Itlia. Estou adorando formar novo pblico e apresentar meu show a brasileiros que vivem nesses locais, que conheciam meu trabalho, mas nunca me viram em ao ao vivo.

    Atualmente Daniel toca com a cearense Priscilla Dieb e Anderson Villa Nova, dois DJs brasileiros que vivem em Amsterd. Desde agosto, trabalha com uma empresria sua e um assessor de imprensa alemo. No comeo corri atrs de tudo sozinho, o que causava

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    deficincia em algum ponto, j que minha prioridade o criativo e a execuo ao vivo. Delegando funes, me concentro. Coisas bacanas j acontecem. Meu clipe nas MTV de vrios pases e meu single Eu S Paro se Cair h semanas nos chartes da Alemanha, enquanto os remixes comeam a rolar. Vou lanando aos poucos para no dividir informaes e desviar a ateno do pblico. Tenho sido paciente e organizado, um passo a cada vez, pondera animado.

    Em meados de julho, Daniel ganhou loas em outra dimenso hemisfrica ao ser eleito com 65,73% dos votos o Artista da Semana no site da MTV Iggy de NY. Chamadas o apresentaram com honrosos codnomes, remissivos aos gneros musicais em que se inclui, como o Hedwig portugus e o rapaz Lovefoxxx (em aluso bandleader do grupo brasileiro CSS, fen-meno electropop l fora). Nas distines s ousadias

    de traje e comportamento, a vitria massiva coroou a encantadora nova revelao com frisos no site e bateu papo desnudante com o proclamado Prncipe Brasileiro do Electro.

    EVOLuESH dois anos e alguns meses, no dia 30 de janeiro de 2009, tudo na vida de Daniel mudou com a vinda de Daniel Peixoto Teixeira Cordeiro de Farias. Meu filho tem o mesmo nome que o meu, incluindo o Teixeira da me. Com ele as responsabilidades cresceram e eu passei a ver o futuro com outros olhos. Antes vivia so-mente o presente. Apesar de passarem o mximo de tempo juntos, o Daniel filho mora com a me em For-taleza, enquanto o pai percorre o mundo. At um breve retorno ao Brasil, Daniel no se desliga do filho. Todo dia a me dele me manda fotos e vdeos para que

    Show em Barcelona

    ARQu

    IVO

    PESS

    OAL

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    MASTIGANDO HUMANOSNO FAIXA A FAIXAPOR DANIEL PEIXOTOEspecialmente para a Cariri, o artista ruminaas 14 fatias de seu lbum solo:

    1. Olhos Castanhos => Foi a primeira faixa feita, quando percebi que o lance raiz teria fora, misturado ao meu pop. Fala sobre o fim do Montage, recomear, assumir perdas e andar pra frente....

    2. A Fish Alone => Uma msica que me emociona todas as vezes que canto ao vivo. Quem nunca chorou por amor?.

    3. Flei => A parte mais escrachada e divertida do lbum, mistura electro e brega, e a letra uma piada gostosa sobre pudor!.

    4. Mastigando Humanos => Minha ode a So Paulo, por ter sido to bem aceito numa terra dificlima de se viver!.

    5. Shine => Fala sobre a vida louca noturna de So Paulo, mas sob a tica de pessoas que amam estar juntas! Fala sobre amizade!.

    6. Come to Me => Por mais que parea algo sobre relacionamento, fiz isso para amigos queridos!.

    7. My love has green lips => Amo o Leonilson (artista plstico cearense). Foi uma apropriao de uma letra pintada em uma de suas telas. Tenho muita admirao pelo trabalho dele e fiz exclusivamente para divulgar ao meu pblico esse conterrneo, que no to conhecido hoje. Vai virar single e j tenho clipe gravado.

    8. Praia do Futuro => a minha praia do corao em Fortaleza, onde vivi muitas histrias e loucuras!.

    9. Raio de Fogo => Queria que essa msica voltasse ao meu repertrio com a roupagem que merecia, transformei o electro punk do Montage numa macumba electro bemmm made import!.

    10. Dont Give Up => a faixa que meus fs mais amam, um pedido de ateno anti mentira. Perdi um amor por conta de mentiras e invejas alheias, da fiz a msica para expor isso. As pessoas se identificam porque feita para a pista, mas com letra doce e muito emotiva!.

    11. Eu S Paro se Cair => A piada-mor do disco, liberdade potica sobre o uso do lcool. Quem nunca bebeu at cair, que atire a primeira pedra!.

    12. I Trust my Dealer => Refiz a msica porque acredito muito no potencial internacional da faixa. A piada compreendida em todos os locais por onde passo! No segundo minuto, mesmo quem no conhece, j canta....

    13. Come to Me (Discokillah RMX) => remixe da faixa 06.

    14. Desacelerando => Fala sobre o tempo, quanto temos que esperar por nossos desejos. Sou muito paciente, espero o tempo preciso para realizar meus sonhos!.

    distncia eu possa acompanhar o seu crescimento. Quando conseguimos conciliar o fuso horrio fazemos sesses ao vivo na webcam.

    Enrgico e vibrante, Daniel Peixoto contabiliza mu-taes em evoluo. Avalio que sou um cara de muita sorte e atrevido. Sonho alto demais. Quero ser uma pessoa e um artista melhor. Essa evoluo notria aos que acompanham meu trabalho e vida pessoal. Cresci muito com as experincias e principalmente correndo os riscos que corri e corro! No sou medroso, isso me d substncia para crescer. mpeto realmente no falta a DP. Sobre o prazo de validade da recente onda sonora mais regionalista, ele avisa que no de-fino meu trabalho por pocas ou modas. Adoro ser mutante e deixo meu feeling me levar. Na batalha, os remixes so armas certeiras. Por exemplo, agora na Europa o pau que rola o dubstep. No tenho nada disso no meu CD, mas providenciei remixes para me inserir nisso. Assim funciona!, evolui.

    Surpreender com Dani, que desfecha uma reve-lao final. Estou super satisfeito com minha sonori-dade, mas penso no futuro fazer algo mais brasileiro ainda... usar o repertrio de artistas que amo, como Cartola, Alceu Valena, Cazuza, Luiz Gonzaga, Fagner. Parece estranho vindo de mim, mas vai acontecer cer-tamente!, promete.

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    crianas recebem os visitantes na fundao casa Grande

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    #cariricidadania

    Misto de centro cultural, escola de comunicao e laboratrio de convivncia social, a Fundao Casa Grande - Memorial do Homem Kariri, sediada em Nova Olinda, alou vo como um ncleo criativo de trajetria singular. Criada em 1992, a Casa Grande uma organizao no-governamental que trata de educao, cultura e aspiraes em quatro programas principais. A experincia bem sucedida hoje referncia nacional na formao de pequenos cidados.

    Por Raquel paris

    entre, a CaSa Sua!

    RAFAEL VILAROuCA

  • 46 CARIRI REVISTA

    Com exceo de uma ou duas mes no refei-trio da Casa, no h adultos na Fundao Casa Grande. Os meninos, como so cha-mados os jovens e crianas que vivenciam

    experincias no espao, dividem-se em funes varia-dssimas. So recepcionistas do Memorial Homem Ka-riri; locutores e sonoplastas da rdio comunitria 104.9 Casa Grande FM; quadrinistas e editores grficos da Casa Grande Editora; iluminadores e diretores de arte no Teatro Violeta Arraes ou mesmo cameraman, pro-dutores e editores de imagem dos inmeros documen-trios e curtas produzidos no estdio de vdeo.

    Podemos entrar e sair das diversas salas da Fun-dao, e nada. Nenhum adulto. Ordem, organizao, trabalho bem feito e risada de crianas batendo bola, penduradas na ponte de corda ou jogando bila. E de repente aquilo que s se ouvia falar fica patente: no meio do serto cearense um bando de jovens e crian-as pensa, elabora e executa aes de arte e cultura que servem de exemplo para polticas pblicas a se-rem executadas em qualquer parte do mundo.

    Diferente do que se imagina, no foram Alemberg Quindins e sua esposa Rosiane Limaverde funda-dores da Casa Grande que introduziram as crianas nos projetos da Fundao. Quando a Casa Grande comeou, o foco era a coleta e a pesquisa dos vest-gios arqueolgicos e mitolgicos do homem Kariri pr-histrico. Reformamos a casa e criamos o Memorial do Homem Kariri. As crianas ficavam brincando no terreiro, de bila, de pio, elstico, macaca. Depois os meninos passaram a observar e a explicar aquilo que a gente explicava no museu, alm de entrar na admi-nistrao da Casa. Ento, foram praticamente eles que criaram essa histria da Casa Grande ser uma escola de gesto cultural a partir da infncia, conta Alemberg.

    Os trs primeiros cargos criados foram os de di-retor de cultura, diretor de pesquisa e manuteno. Segundo Alemberg, eles foram inventados pelos pr-prios meninos. As meninas antes de brincar varriam a calada, os meninos viam algo quebrado e conserta-vam. A nasceu o cargo de manuteno. Os meninos

    CrianaS e JoVenS no Comando

    explicavam o museu, ento surgiu o primeiro diretor de pesquisa. E os diretores de cultura eram os que orga-nizavam as brincadeiras. A gente deu esses nomes de adulto para as crianas, que receberam isso como uma grande honraria.

    As pautas de discusses que hoje so debatidas e vivenciadas pelos jovens e crianas da Casa Grande envolvem a formao antropolgica do homem Kariri, democratizao da comunicao, turismo de conte-do, desenvolvimento sustentvel e estreitamento dos laos entre pases de lngua portuguesa e espanhola. Para dar conta de todas as vivncias que acontecem na Fundao, a instituio possui quatro programas: Memria, Artes, Comunicao e Turismo.

    ACumuLANDO CAPITAL SOCIALNo programa Memria, capitaneado por Rosiane Li-maverde, as crianas ampliam o conhecimento sobre a vida e as prticas do homem pr-histrico Kariri. No Museu do Homem Kariri, ficam resguardados, catalo-gados e expostos os achados arqueolgicos da pr-histria do homem da regio, para depois serem reela-borados em forma de quadrinhos e documentrios nos laboratrios de produo. No ficam de fora tambm os mitos e lendas dos ndios, narrados pelas crianas e expostas para o visitante, no intuito de proteger o uni-verso imaginrio Kariri.

    Sem se preocupar em formar artistas e sim em despertar as sensibilidades individuais, estimulando a inteligncia, os gostos e a imaginao, o programa de Artes conta com uma gibiteca, dvdteca, discoteca e biblioteca para livre consulta. Mais do que teorizar sobre a construo de um indivduo crtico, autnomo, consciente e inventivo por meio das artes, o programa oferece recursos e produtos de qualidade, que esto sempre disposio das crianas. S a gibiteca possui mais de 3.200 ttulos, que podem ser lidos em cabines individuais. O acervo inclui HQs clssicas, mangs ja-poneses e livros sobre perspectiva e bonecos articula-dos. Oficinas de tcnicas de desenho em vrios nveis acontecem ao longo do ano.

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    J o programa de Comunicao tem como obje-tivo a produo de materiais educativos e a formao de leitores, ouvintes e telespectadores. A rdio comu-nitria 104.9 Casa Grande FM vai ao ar sob o comando dos pequenos, que mostram tudo o que sabem sobre sonoplastia, locuo e boa msica. Esse programa vem se expandindo a partir da Rede de Crianas Co-municadoras em Lngua Portuguesa, que une Brasil, Moambique e Angola, com apoio da uNICEF. Em 2006, o programa De Criana para Criana, criado pela Casa Grande, foi escutado em sete provncias de Angola. Em Moambique so 32 programas, envol-vendo duzentas crianas nas provncias.

    No meio do serto o intercmbio de culturas

    Eles esto desenhando o novo mapa do cariri

    FOTOS: RAFAEL VILAROuCA

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    No alto do Rio So Francisco, nos sertes da Bahia, uma casa muito alta se destacava em meio paisagem rude. Ali se criava touro, novilhas, cavalos. Escravos africanos e indgenas serviam de mo-de-obra na lida da casa imensa e nas penosas expedies pelos sertes misteriosos. Era a afamada Casa da Torre, enorme sesmaria concedida ao portugus Garcia dvila, com a estrita condio de que este povoasse as terras do interior.

    Corria o fim do sculo XVII e o Ciclo do Couro fazia brotar dinheiro por onde o gado passava. Foi ento que numa manh do ano de 1680, Afonso Serto, imediato da famlia Dvila, foi encarregado de levar at as terras do Piau a bandeira da Casa da Torre. Ele deveria tocar um rebanho dos leitos do So Francisco at a cidade de Oeiras, ento capital do Estado. Recebeu ordens expressas para que, em sua passagem, construsse currais primitivos, pontos seguros para abrigar e proteger o rebanho.

    A 741 km de seu ponto de partida, Afonso Serto chegou a um imenso vale cercado por

    E ASSIM NASCEUUMA CASA AZUL...

    uma vasta chapada. O clima ameno, aps tantos dias enfrentando um intenso calor, foi a senha para o pretendido descanso. Seguindo as instrues recebidas, ergueu uma tapera para pousar com o gado, uma armao rude de paus entrecruzados, sem paredes laterais.

    A terra frtil da Chapada do Araripe logo despertou o interesse dos invasores, que no lugar da tapera construram uma casa grande, uma capela e um cemitrio, para pouco depois surgirem as primeiras casas no entorno. As construes transformariam o lugar no povoado de Tapera. Trezentos e trinta e um anos depois, o povoado agora a cidade de Nova Olinda.

    Entre seus 14 mil habitantes, seria natural que nomes como Afonso Serto ou Casa da Torre nada significassem. Menos ainda uma construo erguida no sculo XVII. Mas o caso, que incrustada bem no meio da cidade, pintada em azul e amarelo berrantes, l est a casa grande que deu origem cidade de Nova Olinda, agora conhecida por Fundao Casa Grande - Memorial do Homem Kariri, centro irradiador de cultura e desenvolvimento para todo o planeta, nica casa de ideias no mundo a ter seu ncleo pensante composto por jovens e crianas.

    JOO PAuLO MAROPO

  • 50 CARIRI REVISTA

    TurISmO DE CONTEDOEm 2006, a Casa Grande recebeu 28.050 visitantes, nove vezes a populao urbana da cidade de Nova Olin-da o que mostra a expressiva capacidade da institui-o de atrair turistas de todas as partes do mundo. Por causa da falta de infraestrutura que o municpio ainda apresenta para receber essas pessoas, foi criada a CO-OPAGRAN, cooperativa dos pais dos meninos da Casa Grande, que desde ento recebem os turistas em suas casas, adaptadas em um nmero maior de quartos e ba-nheiros. O turista convive com a famlia, senta mesa e come a mesma refeio de um sertanejo. o chamado turismo de contedo, que atrai cada vez mais pessoas ansiosas por participar de novas experincias.

    Recentemente a Fundao criou o programa de Esporte e Meio Ambiente, que tem o objetivo de ocu-par a rea urbana da cidade com o desenvolvimento de esporte de rua, mais preczisamente o futebol. O programa ser desenvolvido no centro da cidade, em uma rea doada pela Prefeitura, onde antes ficava a

    aldeia indgena. Em parceria com a Fundao Nestl, a Casa Grande reurbanizou o lugar para que as crianas pudessem brincar. Por ltimo, atravs de um convnio com o Futebol Clube Barcelona, a Fundao ter uma unidade do clube para a capacitao das 80 crianas que faro parte do projeto. A parceria foi oficializada em junho deste ano, na abertura da Copa Barcelona FC de Futebol infantil sub 12, que contou com a presen-a de Eric Roca, patrono do Barcelona.

    SEm PrObLEmA DE AuTOESTImA A 45 km de Nova Olinda, na cidade do Crato, em uma sala recoberta de fotos de times de futebol e banners de eventos, Alemberg Quindins, fundador e presidente da Fundao Casa Grande, trabalha ao lado de Rosia-ne Limaverde, co-fundadora da Fundao, presidente do conselho cientfico da instituio e tambm sua es-posa. Juntos, acompanham a movimentao da Casa Grande de longe, porm, de perto, ou mais precisa-mente, pela tela do computador.

    Rosiane e Alemberg com as crianas da fundao

    FOTOS: RAFAEL VILAROuCA

  • CARIRI REVISTA 51

    No momento dessa reportagem, a Fundao, est envolvida nos ltimos retoques da Mostra Cariri de Msica Ibero-Americana. A mostra internacional, com msicos e produtores das culturas ibero-americanas, foi criada no intuito de estabelecer e fortalecer os la-os entre pases de lngua portuguesa e espanhola. No evento, com a participao de msicos como Manu Chao, ser discutido a papel dos coletivos de msicos e gestores culturais para a afirmao e criao de es-paos alternativos de cultura.

    Eventos como este atraem visitantes do mundo inteiro e ajudam a explicar como uma cidade pequena, no interior do Nordeste, reordenou o mapa do turismo em sua regio. Tanto , que o Ministrio do Turismo incluiu Nova Olinda entre os 65 destinos indutores do turismo no Brasil, em funo de sua projeo nacional por meio da Fundao Casa Grande. No Cear, os ou-tros destinos escolhidos ficam todos no litoral: Jericoa-coara, Fortaleza e Aracati.

    A Fundao hoje integra um novssimo nicho de negcios - o do turismo comunitrio. Seduzidos pelo acervo da gibiteca, os filmes da dvdteca, as oficinas e experincias dos laboratrios, as produes e eventos de alto nvel, muitos artistas, pesquisadores e curiosos

    do mundo inteiro vo a Nova Olinda, no intuito de vi-venciar e trocar conhecimentos, gerando um intercm-bio de culturas e negcios.

    Esse recurso que vem a Nova Olinda gera distri-buio de renda porque quem recebe so as famlias da cidade e as pequenas pousadinhas. Muitos pro-prietrios de grandes hotis do Cariri no apiam os eventos culturais. Ento ns resolvemos trabalhar com quem faz o turismo comunitrio local. Hoje ns temos condies de receber at 40 pessoas nas pousadas. Durante os principais eventos, os hotis e pousadas de Nova Olinda tm sua capacidade esgotada com ante-cedncia. Alemberg acredita que a diferena est na maneira como os eventos so concebidos. A ideia que gerem cultura e desenvolvimento social.

    O QuE A ImAGINAO NO CONCEbENo faltam turistas. Basta uma rpida olhada no cader-no de visitas que fica na Fundao para ver nomes pro-venientes dos cinco cantos do planeta. Gente que sai dos lugares mais longnquos apenas para ver com os prprios olhos o que a imaginao no concebe. No incio houve uma no aceitao disso. Pois se acostu-mem os brasileiros, porque pelos caminhos do social

    1 - Em 2004, a Casa Grande recebeu das mos do presidente Luis Incio Lula da Silva a Ordem do Mrito Cultural, maior comenda dada pelo Ministrio da Cultura pelo trabalho realizado em favor da cultura nacional.

    2 - A carta que regula as Casas de Patrimnio no Brasil chama-se Carta de Nova Olinda, por ter sido concebida na Fundao Casa Grande.

    3 - A COOPAGRAM arrecadou em 2010 um total de R$ 35.011,75. Nmero modesto para uma grande cidade, mas bastante representativo num pequeno ncleo como Nova Olinda. A lojinha que vende produtos e artesanato no interior da Fundao gerou com seus produtos R$ 9.808,75. O restaurante, que serve apenas comida sertaneja, arrecadou R$12.000,00, e as pousadas, sutes que ficam nas casas dos meninos, amealharam R$13.202,10. Dinheiro que vai direto para as famlias, contribuindo para uma maior distribuio de renda.

    CURIOSIDADES

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    que o Brasil est se colocando no grupo dos oito e se destacando a nvel internacional. No adianta centrali-zar, enfatiza Alemberg.

    Os diversos prmios angariados pela Fundao tambm ajudam na captao de turistas. Devido excelncia do trabalho em pesquisa arqueolgica e ao cuidado patrimonial, em 2009 o Instituto do Patrim-nio Histrico e Artstico Nacional IPHAN concedeu instituio o ttulo de Casa do Patrimnio da Chapada do Araripe. Assim, a Casa Grande, agora com respaldo federal, possui um termo de cooperao tcnica com o objetivo de constituir-se num espao para o aperfeio-amento da gesto, proteo, salvaguarda, valorizao e usufruto do patrimnio cultural.

    Em 2011 a distino veio atravs do Prmio Trip Transformar, que destaca projetos de empreendedo- Alemberg Quindins: o cariri como estado de esprito

  • CARIRI REVISTA 53

    rismo social. Alemberg foi uma das 13 personalidades reconhecidas pelo trabalho desenvolvido, assim como o ex-jogador Ra, que leva adiante o projeto Gol de Letra, com reconhecimento da unesco, e de Ana Primavesi, precursora da agroecologia no Brasil, hoje com 90 anos.

    Alemberg comemora: Do Cariri ns conhecemos outro mapa. Como foi a formao da personalidade do homem Kariri. Ento, a gente passa a ver o Cariri no como um estado poltico, mas como um estado de es-prito. E isso no separatismo, isso personalismo. a personalidade que construda a partir desse estado de esprito, muito presente em todos os momentos da histria do homem no Nordeste. Essa chapada sempre foi um entroncamento humano muito forte. O Cariri o Exu, a Paraba o Piau. um estado de esprito que tem como me a Chapada do Araripe. Rosiane limaverde: aguando sensibilidades

    FOTOS: RAFAEL VILAROuCA

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    RAFAEL VILAROuCA

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    #caririperfil

    Por Raquel paris

    Sentado em uma velha cadeira de rodinhas para escritrio, o senhor de barba tosada, culos escuros e chapu de massa observa tranquilamente a rua. Ao seu redor, uma variedade impressionante de objetos novos e usados esto expostos ao sol e ao gosto do fregus. Atrs dele uma loja se estende apinhada de bugigangas, algumas to velhas que levantam dvidas sobre seu uso e utilidade.

    Porm, para quem passa pela Rua Santa Luzia, centro comercial da cidade de Juazeiro do Norte, o senhor de ar montono e impvido um cone quase to famoso quanto o Padre Ccero, com o adicional bvio: est vivinho da silva. De nome ningum o conhece. H muito que passou ao estgio de ser descorporificado, habitante fantstico de histrias que percorrem todo o Nordeste e alm.

    Seu Joaquim est aborrecido. As histrias que se atribuem a ele alimentam h anos a imaginao popular. Respostas abrutalhadas para perguntas descabidas fizeram deste homem simples um verdadeiro mito no anedotrio nordestino. O cidado real, porm, nega a lenda inventada. Despindo a capade ignorante e zangado, quer ser visto apenas como bom vizinho e poeta inspirado.

    o aVeSSo da lenda

    H at quem diga que ele simplesmente no existe. E os que sabem de sua existncia preferem desconsiderar sua vida real. Joaquim Santos Rodrigues, ou para ser mais claro seu Lunga, segue vivendo assim uma vida dupla: a de ser homem e lenda ao mesmo tempo.

    O HOmEmO homem nasceu em 1927, em Caririau, cidade fronteiria a Juazeiro. Seus pais eram alagoanos, viviam da agricultura e assim criaram todos os oito filhos. A chegada de Joaquim em Juazeiro se deu em 1947, quando ele tinha 20 anos e a ourivesaria reinava soberana na terra do Padre Ccero. O recm-chegado passou a fabricar joias, para logo negociar cereais no mercado pblico da cidade.

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    Casado desde 1951, em 60 anos de casamento Joaquim estendeu a famlia em 13 filhos e 12 netos. A loja de ferragens, que existe at hoje, foi montada em 1960. Dessa poca para c ele abre suas portas s oito da manh, fecha ao meio-dia, reabre s duas da tarde e fecha novamente s 18h. Todo dia, religiosamente.

    O mITOA data exata em que nasceu a lenda difcil precisar. O certo que o cordelista Abrao Bezerra Batista foi pioneiro ao publicar, em 1983, um folheto de cordel intitulado As Histrias de Seu Lunga, o Homem mais Zangado do Mundo. A partir da surgiram outros 78 ttulos de cordel, de 39 cordelistas diferentes, que podem ser encontrados em feiras, bancas e livrarias em todo Nordeste.

    De seu Lunga, o mito, pouco se sabe. Nascido em Juazeiro do Norte, ele tido como o homem mais mal-humorado do mundo. Sua fama se deve precisamente s respostas grosseiras que dirige a quem fizer uma pergunta besta. Impaciente, ignorante, brabo, cabra da peste: so adjetivos costumeiramente associados ao personagem fictcio. As histrias so passadas oralmente, gerao aps gerao, fazendo de seu Lunga um ser sem idade exata e definida. A rabugice, logo associada velhice, tornou-o idoso pela vida inteira.

    A VINGANAO homem, cansado da lenda, resolveu ento se vingar. Moveu uma ao contra o cordelista Abrao Batista, alegando que este se utiliza de seu nome indevidamente, o que consolidaria uma imagem negativa. Joaquim Santos Rodrigues teve ganho de causa e Abrao Batista no poder mais usar o nome Seu Lunga em seus escritos.

    Na minha opinio, no meu pensamento, na minha lgica, isso s acontece por falta de justia. So 157 histrias sobre a minha pessoa e nenhuma verdade. Esse cabra que escreveu isso nunca me deu um bom-dia. Dizer o que voc no , ruim. Me diga uma coisa, como que o camarada vai escrever sobre essa personagem que voc pensa da minha pessoa e no pesquisa pra saber se isso verdade? Eu sou comerciante desde 1950 e tenho um s preo, esbraveja seu Joaquim.

    A mgoa contra o que o mito esconde. Esse camarada Abrao botou no folheto que eu sou o homem mais ignorante do mundo, a tem gente que chega aqui pensando que eu sou um homem ignorante e vem com perguntas imbecil, vem com proposta desagradvel. Mas olhe, eu sei ler, sei escrever, sei as operaes de conta, e alm disso eu crio discursos, eu fao discurso poltico e tenho vrias poesias que de minha autoria. Eu sei dialogar e nunca recebi uma reclamao, eu sei onde eu me meto, afirma.

    O OCuLTO O que o povo desconhece que Joaquim Santos Rodrigues, quando assim o deseja e a verve est afiada, um poeta atilado, de criaes espontneas e firmes. Dedo em riste, sorriso nos lbios, declama em alto e bom som:

    RAFAEL VILAROuCA

  • CARIRI REVISTA 57

    Quem no mora muito longe, morando perto vizinho.Encostado a essa mata, mata que tem espim.Cada pau tem o seu galho, cada galho tem um nim.No vou morar nessa mata por causa dos Passarim.

    Morava bem em Juazeiro, me transportei daqui,Mas fui morar em Salgueiro.L existe uma fazenda que s existe vaqueiro.Existe tambm um boi que um grande boi mandingueiro.E eu montado em meu cavalo, cavalo muito ligeiro,Eu vou derribar um boi, cavalo, boi e vaqueiro.

    RAFA

    EL V

    ILAR

    OuCA

  • 58 CARIRI REVISTA

    E muito de repente, o homem mais ignorante do mundo, o senhor de respostas ferinas, nordestino brabo transformado em piada nacional, se converte em um cidado tranquilo e vaidoso. Como essas eu tenho umas outras tantas!. E seu Joaquim se revela um anfitrio conversador, prtico e honesto, embora intransigente, como os diversos Joaquins que existem em todo o serto Nordestino.

    Quem me conhece no me interessa. Mas quem me conhece me preza, afirma ele, categrico. E de sorriso no rosto, aperto forte na mo direita, se despede em verso com a gentileza tpica do sertanejo:

    Adeus amante querido,Meu amor sempre livrado,Aceite lembranas minhas, E recordaes do passado.

    RAFAEL VILAROuCA

  • CARIRI REVISTA 59

  • 60 CARIRI REVISTA

    Cariri Revista: O senhor um dos autores da

    Carta da Terra, que um dos documentos

    mais importantes do comeo do sculo XXI.

    Gostaramos de comear falando sobre isso.

    Leonardo boff: Trata-se de um grupo criado por Gor-batchev depois que ele deixou a presidncia da Rssia, preocupado com o futuro do planeta. Gorbatchev viu que a lgica capitalista que estava se homogeneizan-do depois da queda do imprio sovitico era demasia-damente devastadora para os recursos da Terra. Se ns segussemos todos naquele ritmo poderamos pr fim s condies fsico-qumicas da vida e ao futuro da civilizao humana. Ento, dentro dessa preocupao, trabalhamos durante oito anos, de 1992 at 2000, consultando os povos quilombolas, os indgenas, v-rios grupos da humanidade... Desse trabalho surgiu a Carta da Terra, um dos documentos mais significativos assumidos pela uNESCO. A partir da eu passei a me preocupar muito com essa questo da ecologia.

    CR: Hoje este o tema central de seus livros.

    O que o faz perseguir tanto o assunto?

    Lb: Vejo que ns estamos num vo cego e que se no cuidarmos podemos criar uma situao em que a vida,

    LEONARDO BOFFe o admirVel noVo mundo

    #caririconversa

    Com mais de 80 livros publicados em vrios idiomas, Leonardo Boff dispensa apresentaes. Autoridade mundial quando se fala em Teologia da Libertao

    e questes ambientais, ele esteve pela segunda vez em Juazeiro do Norte para debater sobre educao e incluso. Muito assediado pelos admiradores catlicos ou no , o catarinense de 73 anos neto de imigrantes italianos da regio do Vneto. Formado em Filosofia e Teologia, doutor honoris causa em Poltica pela universidade de Turim (Itlia) e em Teologia pela universidade de Lund (Sucia).

    Nascido Genzio Darci Boff, Leonardo ingressou na Ordem dos Frades Menores, franciscanos, em 1959, mas renunciou em 1992, depois de ameaado pela c-pula da Igreja com uma segunda punio. A primeira havia acontecido em medos dos anos 1980, devido defesa dos preceitos da Teologia da Libertao no livro Igreja: Carisma e Poder. Em entrevista exclusiva Cariri Revista o filsofo, telogo, professor e escritor, que hoje vive no Rio de Janeiro, fala sobre uma nova concepo da Terra, os riscos do consumo desenfre-ado, a importncia de Padre Ccero e a riqueza cultural do catolicismo popular.

    Quando no h educao, ns nos tornamos vtimas da cultura do consumismo

  • CARIRI REVISTA 61

    a biodiversidade, ser grandemente reduzida. Nosso comportamento com a Terra agressivo, devastador, sem nenhum cuidado com a gua, as florestas, o solo... Se no trocarmos de rumo, podemos ir ao encontro do fim. fundamental uma tica ecolgica capaz de entender a Terra como a entendem os povos prim-rios, os indgenas Kariris, a terra como Pacha Mama, a Grande Me. O fato que ns j consumimos tanto que o planeta precisa de um ano e meio para repor o que tiramos dele.

    CR: Existem pessoas que antes levantavam a

    bandeira do neo-liberalismo e hoje propagam o

    discurso ecolgico.

    Lb: A expresso que eles adotam capitalismo na-tural. Significa seguir produzindo, incorporando ritmos da natureza, respeitando tambm os recursos limitados, etc. A expresso no s infeliz, como contraditria. Porque a lgica do capitalismo explorar a natureza, ti-rar o mximo de sua riqueza e apropriar-se dela privada-mente. Ento, isso falsa ecologia, uma ideologia que incorpora o discurso ecolgico para esvazi-lo. Temos que produzir sim, mas produzir em equilbrio com os ci-clos da natureza, respeitando cada ecossistema.

    CR: O senhor veio a Juazeiro do Norte h dez

    anos. Passado todo esse tempo, o que mais

    o impressionou?

    Lb: Depois de dez anos Juazeiro mudou muito no quesito infraestrutura. Tornou-se um centro universi-trio o que importante porque alarga as conscin-cias e questiona a realidade. uma cidade s madura quando comea a pensar em si mesma. Mas devemos ressaltar um segundo ponto. No Brasil, aqueles que antes tinham insuficincia de consumo, que viviam na pobreza, comiam mal, passavam fome, comearam a consumir. Ter a sua casa, a sua geladeira, o seu micro-ondas e realizar os desejos da vida um direito. Agora, ele abre espao para que se crie a cultura do consu-mismo. a lgica do capital e o capital faz as famosas liquidaes. O camarada pensa: eu no preciso disso ou s vou precisar daqui a um ano. Mas compra. Essa a lgica do consumismo, que acarreta os problemas ecolgicos. A terra no agenta, no tem recursos su-ficientes para suportar tal lgica.

    CR: E como se muda isso?

    Lb: preciso apostar na educao ambiental, ter um novo conceito de Terra, uma nova apreciao do que ser feliz. Ser feliz no acumular, ter alta conta no ban-co, tantos tnis, tantos vestidos. ter o suficiente e se envolver no capital humano, ou seja, cultivar a cultura, a msica, as tradies. O capital humano, espiritual, ilimitado. Voc pode acrescer cada vez mais arte, be-leza, integrao... Mas antes de tudo preciso educa-o. Se no h educao, ns nos tornamos vtimas da cultura do consumismo.

    CR: Existe uma soluo poltica?

    Lb: Esse o problema maior da humanidade. Quem acostumado a comer bife no quer comer ovo, e ns vamos ter que nos acostumar a comer ovo para que to-dos possam comer. Atualmente h mais de um bilho e 200 milhes de pessoas passando fome. Antes da crise de 2008 eram 860 milhes. Emigrados climti-cos j so mais de 100 milhes. Nos prximos cinco anos sero entre 150 e 200 milhes, e isso vai criar um problema poltico no mundo inteiro, porque essas pessoas no vo aceitar a morte, vo invadir pases. A humanidade ter que criar necessariamente aquilo que constitui uma grande discusso hoje, uma governana global. Tem que haver uma planificao planetria, se ns no chegarmos a isso, assistiremos a grandes ca-tstrofes humanas.

  • 62 CARIRI REVISTA

    CR: Voltando ao Cariri, como o senhor entende

    a devoo em torno do Padre Ccero?

    Lb: um fenmeno ambguo. Por um lado ele man-tenedor de uma espiritualidade, de um sentido de in-tegrao, o que importante. E por outro lado, ele en-trou no mercado e virou um produto. A gente tem que explorar, no fenmeno do Padre Ccero, as dimenses que so contemporneas, que esto mais ao menos esquecidas, como por exemplo, os dez mandamentos da ecologia. Isso precisa ser resgatado pelos padres, pelos coordenadores de comunidades, pela imprensa.

    CR: O senhor acha que a Igreja consegue

    normatizar esse fenmeno que to popular?

    Lb: Eu acho o seguinte: existem dois tipos de catolicis-mo. O catolicismo oficial, do catecismo, dos dogmas, e o catolicismo popular. Qual o mais forte? O mais forte, o mais permanente, o popular. Tanto faz que o papa diga isso ou aquilo, que proba isso ou aquilo. indiferente. O catolicismo popular tem uma fora prpria, ele no a decadncia do catolicismo oficial,

    O Padre Ccero um fenmeno ambguo. Por um lado ele mantenedor de uma espiritualidade, de um sentido de integrao, o que importante. E por outro lado, ele entrou no mercado e virou um produto.

  • CARIRI REVISTA 63

    como normalmente se dizia. Ele tem uma lgica, uma totalidade, os seus santos, seus dogmas, suas festas. Darcy Ribeiro achava que a maior criao cultural que a Amrica Latina fez foi o catolicismo popular. Ele deu sentido ao povo, manteve o significado da unio, ali-mentou a razo espiritual da vida que no s con-sumista e que independe da Igreja Catlica.

    CR: E como o Padre Ccero se encaixa nisso?

    Lb: O Padre Ccero uma figura catalisadora. Lgico que a Igreja procura no perder seus fiis, mas eles tm uma dupla pertena. Se h missa, eles vo missa, mas o importante no a missa. fazer a devoo ao Padre Ccero. E Ccero, para mim, o exemplo do pa-dre novo. Ele viveu h muitos anos, mas representa a novidade. No aquele que detm o monoplio do sa-cramento, da palavra, da doutrina. aquele que acon-selha, que acompanha as famlias, que ensina o povo a no cair na criminalidade, ajudava os necessitados. o cristianismo na prtica, a prtica libertadora, huma-nitria. Esse o catolicismo que precisamos. O dou-

    trinrio no leva a nada, est diminuindo cada vez mais para dar lugar a outras denominaes crists. Ao passo que o catolicismo popular cresce e tem grandes valores, porque mantm viva a alma criativa do povo. Trata-se de uma grande criao cultural do povo brasileiro, que ape-sar da Igreja criou esse espao de liberdade.

    Darcy Ribeiro achava que a maior criao cultural que a Amrica Latina fez foi o catoli-cismo popular. Ele deu sentido ao povo, manteve o significado da unio, alimentou a razo espiritual da vida que no s consumista e que independe da Igreja Catlica.

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  • CARIRI REVISTA 65

  • 66 CARIRI REVISTA

    o que Faz do Cariri um luGar niCo

    o que faz do Cariri um lugar nico? Por que ser que o sertanejo afirma que somente em caso extremo e no ltimo pau-de-ara-ra deixar seu torro natal? Ser a fora

    telrica de suas paisagens sem fim, que a todos restitui suas verdadeiras e nfimas dimenses?

    Ou os cus imensos banhados do sol implacvel que leva os olhos a se defenderem da invaso de luz?

    Ser a religiosidade arraigada que responsvel pelas peregrinaes e oferendas, num dilogo cons-tante com o cu e os santos?

    Certamente todos esses elementos se combinam sobre o pano de fundo das devastadoras secas que ciclicamente rememoram aos homens sua dependn-cia da natureza. Foi graas companhia de excelen-tes amigos que conheci, recentemente, um pouco da complexa realidade da regio do Cariri.

    Desde logo verifiquei que ela se destaca como plo difusor da cultura popular para o extenso territrio que,

    #caririespecial

    Por Ellen Grace[Ministra do Supremo Tribunal Federal]

  • CARIRI REVISTA 67

    independentemente de divisas estaduais, pode ser con-siderada como o corao do Nordeste. Resguardado da invaso turstica que caracteriza o litoral, o Cariri permite um relance no que de mais autntico a sociedade local produziu: uma populao altiva, consciente de sua sin-gularidade e orgulhosa de seu patrimnio histrico.

    A relativa solido em que se desenvolveu a cultura do hinterland nordestino protegeu sua autenticidade e lhe conferiu o acento j raro de um arcasmo que vem revelado em ditos e expresses populares, nos ofcios tradicionais, nos festejos, cantares e danas e em seu extraordinrio misticismo.

    A par disso, entusiasma verificar o crescente de-senvolvimento industrial para ocupao de uma mo-de-obra cuja atividade no fique merc do clima. Como tambm o estabelecimento de inmeras casas de ensino superior que iro qualificar as novas gera-es. Com isso o Cariri se aparelha para enfrentar a competio de um mundo globalizado.

    A um s tempo autntico e atual o Cariri surpreen-de agradavelmente. Por isso, como o sertanejo que no o quer deixar, os visitantes gostariam de lev-lo no corao, para recordarem sempre a majestade dos pa-noramas e a profunda dignidade do seu povo.

    DIVuLGAO

  • 68 CARIRI REVISTA

  • CARIRI REVISTA 69

    Originalmente, a palavra era empregada para definir o medo de lugares abertos ou com muita gente. Hoje, usada para defi-nir comportamentos de esquiva, que apa-recem quando a pessoa se encontra em situaes ou locais dos quais seria difcil ou embaraoso escapar, ou mesmo receber socorro, se algo de errado acontecesse.

    No se conhece a causa do distrbio, que se manifesta mais nas mulheres do que nos homens. Em alguns aspectos, ele pode se confundido com a fobia social, uma vez que os portadores da desordem tendem a reduzir os contatos sociais como forma de esquivar-se das situaes em que imaginem ser difcil obter auxlio.

    Nos casos mais graves, a agorafobia compromete a vida social e profissional dos pacientes. A antecipao do medo de sentir medo e de um ataque de pnico inesperado impede, muitas vezes, que a pessoa realize atividades banais, por con-sider-las potencialmente de risco..

    Agorafobia um transtorno de ansiedade, na maioria das vezes, associado s crises de pnico.

    DIAGNSTICOO diagnstico leva em conta a histria e os sintomas apresentados. Estabelecer o diagnstico da agorafobia importante para diferenci-la de outras fobias (fobia social, estresse ps-traumtico, etc.) e orientar o tratamento. SINTOmASOs sintomas so semelhantes aos da crise de pnico e a intensidade varia de pessoa para pessoa. Eles podem ser classificados em:

    1. Psicolgicos (medo de morrer, de enlou-quecer, de perder o controle sobre si prprio);2. Somticos (taquicardia, palpitao, falta de ar, sudorese abundante, nuseas, vmi-tos, dor de estmago, diarria, tremores, tonturas).

    TrATAmENTOOs quadros de agorafobia podem reverter espontaneamente. Quando isso no acon-

    tece, a terapia cognitivo-comportamental representa o recurso mais eficaz de trata-mento. Baseia-se numa tcnica chamada de auto-exposio ao estmulo fbico que consiste no enfrentamento gradual das situaes geradoras do medo. medida que so vencidas as etapas, o grau de di-ficuldade aumenta, at que no haja mais nenhum desconforto diante de determina-do estmulo. rECOmENDAES Pessoa com medos exagerados que desencadeiam crises de pnico no est querendo chamar a ateno: tem um transtorno que pode precisar de cuidados mdicos;

    A adeso s sesses de exposio pro-postas pela terapia cognitivo-comporta-mental indispensvel para que o portador de agorafobia volte a ter vida normal, sem as limitaes provocadas pela doena.

    #cariricolunadesade

    aGoraFobia

    Por drauzio Varella

  • 70 CARIRI REVISTA

    bODAS DE VINHODentre as festas comemorativas por anos de casamento, tais como as bodas de prata e a de ouro, temos tambm as bodas de vi-nho, que so celebradas no Brasil aps 70 anos de casamento, feito conquistado em Barbalha (CE), conforme fiquei sabendo, pelo casal Antnio Gondim Sampaio e Ma-ria Zuila Couto Gondimum.

    H uma lenda que diz que a designa-o boda veio do hbito de se matar uma carneira para festejar o casamento, da que no Cariri resolveram usar a fmea do bode, a boda, cuja carne era muito mais macia. Matar a boda era sinal de que haveria fes-ta. Devido a isto o nome boda passou a ser sinnimo de festa. Se duvidam da his-tria podem ver na Wikipdia.

    DAS CONSEQuNCIAS DO VINHOPovo Velho Dionsio! um vinho de presen-te. Ontem ns bebemos deste vinho e ficamos muito alegres.Velho Dionsio Vinho especial.Vinho de doutor. Povo Mas depois quase brigamos...Velho Dionsio Que isso, filhos!Povo Terminamos discutindo muito.No sabemos por que isto aconteceu.

    Por Srgio pires[Ex-funcionrio do Banco do Brasil, praticante de karat e aluno do curso profissional para sommelier. No momento elabora dois livros sobre vinho, devidamente engavetados ao lado da adega]

    #caririgastronomia

    VelhoS VinhoS

    Velho Dionsio Mas eu sei. Meu Profes-sor Sileno contava a histria que ouviu de seu av. Diz a lenda que Baco, o deus do vinho, encontrou certo dia uma planta muito delicada e pequenina cujos frutos saciaram sua sede. Resolveu levar para casa uma mu-dinha. Para proteger a plantinha, colocou-a dentro do osso de um passarinho. Povo Mas deu dentro do osso de um passarinho?Velho Dionsio Lgico que deu, no era osso de soldadinho-do-araripe no. Era de um bicho maior. Mas a viagem era longa e a planta comeou a crescer e o osso ficou pequeno. A Baco a colocou em um osso maior, dessa vez no osso de um leo. Mas a planta continuava crescendo, a Baco a colocou dentro de um osso de burro.Povo E depois?Velho Dionsio A ele plantou a mudinha que cresceu at nascerem as uvas. Quando fizeram o vinho descobriram que ele ficou com as caractersticas dos animais que emprestaram seus ossos. Igual a vocs ontem.Povo Como assim?Velho Dionsio De incio vocs ficaram alegres: se sentiam leves como pssaros. Continuaram a beber e queriam brigar, acharam que eram fortes como o leo. Beberam ainda mais e discutiram, ficaram to estpidos como os burros.

    O PrImEIrO VINHO NO brASILO vinho veio para o Brasil com Cabral e sua frota. Composta, inicialmente, de tre-ze embarcaes com 1500 homens, que representavam 2,5% da populao de Lis-boa. Cada navio armazenava 200 pipas de vinho, uma vez que para ajudar a enfrentar a dura rotina de bordo e a total falta de hi-giene, cada tripulante recebia uma canada (1,4 litro) diria de vinho.

    Pero Vaz de Caminha, em sua carta ao Rei de Portugal, uma verdadeira Cer-tido de Nascimento do Brasil, descreve a primeira degustao de vinho realizada por brasileiros natos, os primeiro ndios levados a bordo: Trouxeram-lhes vi-nho em uma taa; mal lhe puseram a boca; no gostaram dele nada, nem quiseram mais. Nossos antepassados ndios j demonstravam bom gosto.

    Mais tarde, numa refeio em terra, os paladares se tornaram menos exigentes: Comiam conosco do que lhes dva-mos, e alguns deles bebiam vinho, ao passo que outros o no podiam be-ber. mas quer-me parecer que, se os acostumarem, o ho de beber de boa vontade! Caminha foi proftico!

  • CARIRI REVISTA 71

    O VINHO brANCO mAISCArO DO muNDOEm um leilo realizado em julho deste ano em Londres, foi quebrado o recorde mun-dial de preo para um vinho branco com a venda de uma garrafa de 200 anos de ida-de do Chateau dYquem, safra de 1811, por 75 mil libras, ou cerca de R$ 190 mil.

    O feliz comprador foi o empresrio fran-cs Christian Vanneque, que planeja exibir a garrafa por trs de um vidro a prova de balas em seu restaurante em Bali, na Indonsia. Parece que dentro de alguns anos pretende degust-la em seu aniversrio de 60 anos.

    Lgico que logo surge um questiona-mento: por que uma garrafa de vinho pode valer tanto assim? A primeira resposta b-via por sua raridade. uma garrafa de 200 anos de idade no se encontra a toda hora. Porm, o mais surpreendente neste caso que o vinho se encontra em perfeitas con-dies de ser degustado.

    Seu bom estado surpreendente ape-nas para quem leu as notcias sobre o leilo, ou assistiu na televiso, quando o Chateau dYquem foi descrito simplesmente como um vinho branco. Como sabemos que em

    mdia os vinhos brancos muito raramente atingem seu sexto aniversrio bebveis, ima-gine como estariam em seu bi-centenrio.

    O Chateau dYquem um vinho de so-bremesa, com elevado teor de acar e 14% de lcool fatores que permitem sua grande longevidade. produzido a partir de uvas contaminadas com o fungo Botritis Cinerea, que ao invs de destruir as uvas perfura suas cascas e gros, provocando a sada de gua e concentrando o acar. As uvas ficam com aspecto de uvas passas ou apodrecidas, da o nome podrido nobre (pourriture noble). A produtividade mnima, quase que somente uma taa de vinho por videira.

    O padro de qualidade requerido para o Chateau dYquem tamanho que safras inteiras costumam ser descartadas e no engarrafadas.

    O Chateau dYquem a luz engarra-fada, uma referncia de vinho de sobre-mesa, presena constante em filmes e na literatura, j tendo sido citado por Vladmir Nabokov, Dostoievski, Marcel Proust, Jlio Verne, Alexandre Dumas Filho e outros.

    bAIO-DE-DOIS bEm HAmONIZADONa edio 02 da Cariri, a linda e talentosa modelo e atriz Suyane Moreira revelou que adora comer e que ama baio-de-dois.

    O baio-de-dois que leva em sua re-ceita arroz, feijo, carne-seca, paio e queijo coalho bastante gorduroso, e ainda for-temente marcado pelo sabor e aroma da manteiga de garrafa.

    A harmonizao ideal com o vinho deve levar em conta principalmente a gordura deste prato, e, para ela, o corpo e a acidez no vinho a melhor resposta.

    um tinto de bom corpo e, principalmen-te, com tima acidez. Cabernet Sauvignon, Shiraz ou Tannat. Muito bom, tambm seria um espumante brut que vai limpando a boca e a preparando para mais um baio. Mas se quiser ser um pouco ousado, v com um branco encorpado.

    No almoo servido para o presidente Obama com a presidente Dilma no Itama-raty, em Braslia, no primeiro semestre deste ano, o baio-de-dois esteve presente e o cerimonial acertou em utilizar o Espumante Brut Premium e os vinhos branco Chardon-nay e tinto Cabernet Sauvignon, ambos da linha Gran Reserva da vincola Valduga, de Bento Gonalves no Rio Grande do Sul.

    Na equao de harmonizao, tanto quanto no prato, temos que pensar no momento e nas pessoas.

    Agoraque a velhice comeapreciso aprender com o vinhoa melhorar, envelhecendoe sobretudoa escapardo perigo terrvel de envelhecendovirar vinagre...[Dom Hlder Cmara, no seu livroMil Razes para Viver]

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    As ruas e os bairros das cidades ganham seus nomes ou tm suas alcunhas altera-das no af nada discreto de homenagem a personalidades falecidas. Familiares e no-bres (e nobres familiares) tm seus regis-tros afixados em letras de placas e muros. Mesmo no to prximos, so lembrados os mortos alheios de destaque e reconhe-cimento local, nacional ou mundial.

    uma forma digna de valorizar aqueles que foram/so importantes para a cidade ou para o proponente. E como estamos numa peleja eterna contra o acionamento coletivo precrio da memria, pode ser at uma distino didtica... Na grande maioria das ruas em que morei, por exemplo, tive que pesquisar posteriormente em enciclo-pdias e google quem havia sido tal perso-nagem que virara endereo.

    Por outro lado, nA Evocao do Recife, Manuel Bandeira escreveu:

    nomeSCaririanaS 02:

    Por Ricardo Rigaud Salmito[Professor e cronista ]

    Esse trechinho do poema vem e volta ao meu pensamento todas as vezes em que repito numa loja ou para um amigo os trs nomes que compem a minha rua e os dois outros que identificam o meu bairro. Alm, claro, dos trs que completam quem sou. nome e sobrenome demais, de gente de-mais para uma nica localizao.

    Comeou primeiramente com as ruas esse processo de drfulanizao. Mas ago-ra tambm nos bairros (e at em cidades) possvel encontrar menos referncias na-tureza, s cores ou aos sentimentos e mais aos nomes de pessoas, personalidades.

    Pensei sobre isso porque estive no bair-ro Bico da Arara em Caririau, circulando por aquelas ruas que sobem e descem e descortinam horizontes de verde, de casas, de histria grande da Chapada. Realmente feliz quem pode dizer seu bairro assim, sem

    #cariricrnica

    nome e sobrenome. Viajante displicente, no perguntei a razo do surgimento daque-la denominao. Tambm no quis saber, melhor esse anonimato potico para deva-neio individual, emancipador de imaginao.

    Ali D. Dina abriu o porto de sua casa e pude articular vento e sol e a pedra. Pedra como panorama. Era a gruta de Nossa Se-nhora de Lourdes, que olha para o centro da cidade. Com simpatia e sem reservas mostrou o acesso a um mirante com ban-cos e vista para os pontos cardeais de to-dos os lugares. Ao final da visita, o Bico da Arara promoveu encontro com a palavra, palavra-paisagem.

    Na periferia do Cariri, o Bico da Arara como a crnica: periferia das letras, tan-gente de literatura e jornalismo. Lugar de salvao da cidade, da palavra. Salvao-saudao dos nomes do mundo.

    (...)Rua da unio...Como eram lindos os nomesdas ruas da minha infnciaRua do Sol(Tenho medo que hoje se chamede dr. Fulano de Tal)Atrs de casa ficava aRua da Saudade...(...)

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    Assim como erano princpio...

    #caririespecial

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    XICRA (Xilogravuristas do Crato): Pesquisa em torno do uso da gravura

    em diversos suportes.

  • 76 CARIRI REVISTA

  • CARIRI REVISTA 77

  • 78 CARIRI REVISTA

  • CARIRI REVISTA 79

  • 80 CARIRI REVISTA