alentejano. evolu§.esp§.agrtrio fluminense

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  • A EVOLUAODO ESPAOAGRARIO FLUMINENSE

    PAULOROBERTOR. ALENTEJANO* Universidade do Estado do Rio de Janeiro

    O estado do Rio de Janeiro inegavelmenteum espao metropolizado. Ao longo do sculo XX, o enorme crescimento da cidade do Rio de Janeiro e o crescente esvazia-mento econmico do interior do estado1levaram a uma enorme polarizao do espao fluminense, absolutamentedependenteda capital estadual. Vale dizer que a influncia da capital fluminenseespraia-separa alm dos prbprios limites estaduais,estendendo-se para reas dos estados de Minas Gerais e Esprito Santo, porm, nos marcos deste trabalho nos limitaremos s fronteiras estaduais, afinal, o Estado, nas suas diversas instncias, elemento de central importnciapara refletirmos acerca dos processos de ordenamentotenit~rial .~

    Dentre os principais agentes organizadores do espao fluminense ao longo deste sculo, destacam-se o capital industrial e o capital imobilirio. O primeiro foi o

    Gegrafo, Doutor em Desenvolvimento, Sociedade e Agricultura e Professor do DGeo/FFP/ERJ.' Vale lembrar que at 1960 a cidade do Rio de Janeiro tinha status de Distrito Federal, por abrigar a capital do pas, enquanto que o estado do Rio de Janeiro, tinha Niteri como capital. Entre 1960 e 1975, passaram a coexistir dois Estados, o da Guanabara, no antigo temtrio do Distrito Federal, um estado de um s6 municpio e uma s6 cidade, e o do Rio de Janeiro, mantendo suas antigas caractersticas. A partir de 1975, os dois estados foram fundidos num nico estado, denominado Rio de Janeiro, passando a capital deste a ser a cidade do Rio de Janeiro. Os impactos da fuso sobre a realidade estadual so at hoje alvo de controvrsia e diversas propostas de desfuso j foram feitas ao longo deste perodo, tanto por polticos da capital que sustentam que a cidade do Rio de Janeiro foi prejudicada, como por polticos do interior que julgam que foi esta a regio que mais perdeu com a fuso. Apesar da crescente tendncia a se negar a importncia do Estado no atual contexto de

    globalizao, consideramos que h um exagero nestas afirmaes e o Estado continua tendo importante papel na organizao espao-territorial. inclusive ao conceder incentivos cada vez maiores ao capital em seu crescente processo de territorializao-desterritorializao-reterritorializao, como fica patente na guerra fiscal em andamento no Brasil (ver a este respeito, entre outros, SANTOS e SILVEIRA, 2001).

  • GEOgraphia -Ano 7 -NO 13 -2005

    principal responsvel pelo impulso inicial do processo de metropolizao. J o segundo foi o principal agente da crescente subordinao do capital agrrio no interior do esta- do, assim como da expulso macia do campesinato do campo, exceo feita s regies Norte e Noroeste, onde o agente central da expulso dos trabalhadores do campo foi o prprio capital agrrio, em suas metamorfoses.

    Tais fatos refletem-se em alguns dados estatsticos que ajudam a compreender as caractersticas centrais da organizao do espao fluminense: 96% da popula- o reside em reas urbanas; a regio metropolitana concentra 75% da populao, 80% do valor da produo industrial, 85% da arrecadao do Imposto sobre Circulao de Mercadorias e Servios (ICMS), sendo que 70% deste imposto arrecadado na capital.

    Por outro lado, a participao do setor agrcola no Produto Interno Bruto (PIB) fluminense inferior a 2% (CIDE, 2001).3 O processo de desruralizao, entendido como esvaziamento econmico e demogrfico e perda de peso poltico e cultural, foi to intenso no estado que entre 1940 e 2000, a populao rural decresceu de 1.400.000 pessoas (38,8% do total em 1950) para 570.000 pessoas (4% do total em 1996), con- forme a Tabela 1, abaixo.

    Tabela 1 - Populao residente por local de domiciio e taxa de urbanizao

    Rio de Janeiro - 194012001

    Ano Total Urbana Rural Taxa de Urbanizao (?h)

    Fonte: IBGE, Censos Demogrficos.

    Entretanto, se a metropolizao e a desruralizao so uma marca dominante na organizao do espao fluminense, isso no elimina as contradies presentes neste

    Apesar de imsrio em termos proporcionais, o PIB agrcola estadual no chega a ser desprezvel em termos absolutos, atingindo 1,17 bilhes, o que equivale ao do estado vizinho do Esprito Santo, onde este equivale a 45% do PIB estadual (IBGE, 2001).

  • I

    I

    I.

    Evoluo do Espao Agrrio Fluminense

    processo. Dentre estas inmeras contradies, interessa-nos especialmente a resistn- cia dos trabalhadores rurais ao avano do capital especulativo, que a marca dos conflitos fundirios no estado, inclusive na regio metropolitana.

    Assim, ao longo deste artigo - onde buscaremos analisar as formas principais de ordenamento do temtrio que marcam o espao fluminense, bem como as regionalizaes da surgidas, tomando o sculo XX como parmetro - estaremos permanentemente preocupados com a evoluo destes conflitos.

    Apesar de no ignorarmos a importncia dos processos ocorridos ao longo dos sculos anteriores para a definio do perfil da ocupao do espao fluminense, nos concentraremos no sculo XX, por considerar que foi ao longo deste que ocorreram as transformaes mais substanciais e importantes, do ponto de vista da questo.agrria e do ordenamento do territrio.

    Buscaremos destacar a configurao de novos recortes regionais a partir das trans- formaes operadas no meio rural, resultantes da sua prpria dinmica, ou das influn- cias dos processos de urbanizao e metropolizao. A periodizao apresentada a seguir tem como critrios norteadores precisamente as mudanas na dinmica scio- espacial fluminense que nos permitem identificar novos recortes espaciais e inflexes na relao entre o rural e o urbano no Rio de Janeiro.

    1. A GEOGRAFIA DO RIO DE JANEIRO NO I N ~ I ODO SCULO XX

    At o incio do sculo XX, a organizao do espao fluminense era hegemonizada pelo capital agrrio e pelo capital mercantil. Entretanto, as diferentes condies ambientais existentes no Rio de Janeiro - alis a diversidade ambienta1 um elemento fundamental na definio dos diferentes projetos de ordenamento do territrio no Rio de Janeiro, seja no passado, seja no presente - concorriam para a existncia de diferen- tes formas de ordenamento territorial.

    Nesse perodo, podemos reconhecer, basicamente, quatro regies no estado, produ- to das formas diferenciadas de ordenamento do temtrio: (1)a regio do Vale do Paraba, dominada pela oligarquia cafeeira e marcada pela ampla destruio da Mata Atlntica produzida pelo avano extensivo e degradador da cultura do caf, num ambiente onde as condies edafo-climticas originais eram extremamente favorveis4; (2) a regio das baixadas situadas a leste da regio da Baixada da Guanabara, estendendo-se at os limites com o Esprito Santo, ao norte, dominada pela oligarquia canavieira e marcada pela existncia de inmeros engenhos de acar em meio aos amplos canaviais que se estendiam pelas baixadas aluviais e tabuleiros litorneos; (3) a regio da Baixada da

    Solos de boa profundidade e fertilidade, clima tropical de altitude, ou seja, combinando expressiva insolao com uma temperatura amena e praticamente livre de geadas.

  • Guanabara, dominada pelo capital comercial que organizava a agroexportao e a redishibuio interna dos bens e da riqueza, a partir do controle sobre a vasta rea navegvel da baa e rios que nela desembocavam; (4) uma vasta regio cujo elemento de unidade a topografia acidentada, estendendo-se do litoral sul at o noroeste do estado, passando pela rea da Serra dos rgos, a qual, por no ser reivindicada por nenhuma frao expressiva do capital, mantinha-se como rea de fronteira e como tal, de reproduo do campesinato, dentre eles, antigos escravos recm libertados e imigrantes (principalmente alemes e suos).

    Percebe-se, portanto, que as fraes do capital agrrio e comercial, organizavam o espao a partir da combinao de seus interesses com as particularidades ambientais existentes no estado, onde estas desempenhavam importante papel na definio das formas de ordenamento do temtrio.

    2. AS PRIMEIRAS DCADAS DO SCULO: O IMPULSO INICIAL DA METROPOLIZAAOE DA DESRURALIZAO

    A partir das primeiras dcadas do sculo XX, tal configurao regional ser profun- damente alterada, com a decadncia da oligarquia cafeeira e a ascenso da burguesia industrial. Com isto, duas transformaes que sero centrais ao longo do sculo XX e, como vimos anteriormente, podem ser definidas como as marcas da organizao do espao fluminense, se delineiam: o desenvolvimento da metropolizao e o incio da desruralizao do estado.

    Neste novo contexto, redefinem-se formas de uso dos recursos naturais e ordenamento territoriai. No perodo que vai at os anos 1940, das quatro regies descritas anterior- mente, duas sofrem expressivas mudanas -o Vale do Paraba e a Baixada da Guanabara - sem contudo redefinirem expressivamente seus contornos; uma se fragmenta - a regio caracterizada anteriormente como de fronteira; e apenas uma mantm suas ca- ractersticas bsicas - a das Baixadas Leste e Norte.

    O Vale do Paraba a regio mais impactada com as transformaes ocomdas no perodo, sofrendo um brutal esvaziamento econmico e demogrfico. A decadncia da cafeicultura, provocada pela degradao dos solos que reduziu drasticamente a produti- vidade, tomou a regio incapaz de concorrer com outras reas produtoras, como o oeste paulista. Esta decadncia que j vinha se delineando desde fins do sculo passado, no rastro da crise da escravido, toma-se arrasadora nas primeiras dcadas deste sculo. Com isso, os cafezais da regio foram sendo paulatinamente abandonados e as cidades da regio, at ento importantes centros comerciais, foram sofrendo esvaziamento, uma vez que a cafeicultura -atividade rentvel e que empregava significativa quantidade de tra- balhadores -foi substituda pela pecuria, com seu carter extensivo e poupador de mo- de-obra (GALVO, 1986).

    Assim, observa-se que no h propriamente uma mudana no que se refere ao tipo