toponimia lx - glic­nia quartin

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Brochura realizada pela Comissão Municipal de Toponímia em 2012, sobre a actriz Glicínia Quartin (1924-2006)

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  • 2ComissomuniCipal de Toponmia

    abril 2012

    Glicnia Quartin

  • 3

  • 4Evocar e perpetuar a memria de Glicnia Quartin, atravs da

    atribuio do seu nome a uma rua da cidade, so um gosto e uma honra para a Cmara Municipal de Lisboa.

    A que associo a minha prpria homenagem como seu antigo aluno.

    Glicnia Quartin, actriz de excepo, uma personalidade de referncia

    no panorama do teatro e da Cultura em Portugal, permanecendo no

    imaginrio de vrias geraes muitas das suas notveis interpretaes

    em teatro, cinema e televiso.

    Sendo a toponmia um meio privilegiado de preservao da memria colectiva

    da cidade, constitui, em si mesma, uma homenagem e a expresso do

    reconhecimento da Cmara Municipal de Lisboa e dos muncipes a Glicnia

    Quartin pelo seu talento e versatilidade artsticas, pela sua qualidade e

    dedicao ao ensino de teatro, e, bem sim, pelo exemplo para todos ns do seu

    extraordinrio sentido de independncia, de inconformismo e de liberdade.

    Combater a eroso do esquecimento e tornar viva a memria de personalidades

    de relevncia maior so imperativos ticos e de cidadania, porquanto a

    memria e a conscincia colectivas so factores essenciais da identidade e

    do fortalecimento da comunidade.

    A atribuio deste novo topnimo testemunha publicamente a admirao

    do Municpio por Glicnia Quartin e simboliza o enriquecimento

    do patrimnio memorial da cidade de Lisboa.

    O Presidente da Cmara

    Municipal de Lisboa

    Antnio Costa

  • 5rua m

    alu

    da

    eixo

    nort

    e sul

    rua an

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  • 6Glicnia Vieira Quartin, figura de referncia do teatro e cinema portugueses, nasceu na Vila Sousa no bairro da Graa, em 19 de dezembro de 1924 e foi a terceira filha do jornalista Antnio Pinto Quartin1 e de Deolinda Lopes Vieira, professora de portugus.

    Em 1954, licenciou-se em Cincias Biolgicas, na Faculdade de Cincias de Lisboa e, embora tenha iniciado a sua atividade profissional como Biloga foi investigadora do Instituto de Biologia Martima, bolseira do Instituto de Alta Cultura no Institute of Marine Research de Bergen (Noruega), no Greenland Fishery Investigations em Copenhaga (Dinamarca, 1957) e no Fisheries Laboratory em Lowestoft (Inglaterra,

    1959) o teatro surgiu tambm na sua vida estreando-se, em 1951, no Teatro Experimental da Rua da F, numa pea escrita e encenada por Toms Ribas, intitulada Roberto e Melisandra.Sobre esta pea, numa longa conversa com Jorge Silva Melo, publicada na Revista Artistas Unidos2, a intrprete referiu que era uma histria de amores contrariados, mas era como se fossemos uns fantoches. Era engraadinho. Foi um grande sucesso na altura. Depois l continuei, fiz O Velho Ciumento do Cervantes as pessoas muito agradadas e eu desconfiadssima, a achar que aquilo no me tinha custado nada. E at houve um elogio de que eu no me esqueo, veio do Costa Ferreira, que disse: Vejam s, esta rapariga estreante e j sabe mexer-se

    1 Pinto Quartin, jornalista (1887-1970). Foi homenageado na Toponmia de Lisboa, atravs do edital de 29-01-1979.2 Revista semestral / Abril 2005 n13, pag. 13 Glicnia na Vila Sousa (1934)

  • 7em palco, que uma coisa to difcil. nesta dcada de 50 com o advento de vrios grupos de teatro experimental que Glicnia comea a destacar-se nos palcos e a receber da crtica da poca grandes elogios. Com o Teatro Experimental de Lisboa, dirigido por Pedro Bom interpretou, entre outras as peas televisivas, em 1952, Guerras de Alecrim e Manjerona, Auto da Alma de Gil Vicente, Frei Lus de Sousa, A Menina Tonta, Fidalgo Aprendiz e O Burgus Fidalgo; em 1959, As Duas Barcas e, em 1960, Nas Covas de Salamanca, direo de Artur Ramos.

    A sua estreia no cinema foi em 1962, no filme Dom Roberto, de Ernesto de Sousa, onde contracenou, entre outros, com Raul Solnado, Costa Ferreira, Rui Mendes, Adelaide Joo, Fernanda Alves1 e Nicolau

    Em Roma com Mrio Ruivo e Neruda(1962)

    1 Fernanda Alves (1930-2000). Foi homenageada na Toponmia de Lisboa, atravs do edital de 19-04-2004, na freguesia da Ameixoeira.

    Foto de Ernesto de Sousa

  • 8Breyner, que a levaria decisivamente a dedicar-se s artes de palco. Conforme Glicnia mencionou na j referida conversa: Foi ao ver-me no Dom Roberto que me convenci de que era capaz de ser actriz. Aquela mulher era eu e no era eu. At essa altura, isto de representar era assim um prazer pessoal, mas no se pode dizer que eu estivesse muito convencida.E acrescentou quando fui viver para Itlia, j ia com a inteno de ser actriz profissional. Tinha l ido passar umas frias com um amigo, o Mrio Ruivo, meu colega em Cincias e que trabalhava na FAO em Roma () Conheci muita gente, intelectuais, escritores, jornalistas, gente ligada ao teatro (). Fui direitinha Accademia Slvio dAmico, que o Conservatrio, para me inscrever como aluna () no fui aceite na Accademia

    Com Raul Solnado Dom Roberto (1962)

  • 9porque no sabia italiano, claro. Fui depois para uma escola, o Teatro Studio dirigida por um senhor chamado Alessandro Fersen, que se anunciava como seguindo o Mtodo de Stanislavski. Agora at h um prmio Fersen em Itlia, para novas peas. Era no Trastevere () A mim eles no me ligavam muito e eu l ia andando. At que um dia o Pressburger diz: Agora vo estudar o monlogo da Irma Lambert na Louca de Chaillot do Giraudoux para apresentar na prxima semana. Fui para casa e l meti aquilo na cabea em italiano. E no dia da apresentao, as meninas foram todas apresentando o monlogo, e eu fui a ltima. Olha, foi um xito. Eu nem sei o que que fiz para ter resultado daquela maneira. Passei a ser bem tratada, todos os dias me pediam que eu fizesse a Irma, chamavam-me para eu explicar () um

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    monlogo muito bonito, uma mulher a dias que tem a sua vida arrumada, com marido e tudo e l vai dizendo aquilo que pensa, que sonha, um texto sobre o amor. Quem fez na companhia da Luzia foi a Graa Lobo () O Fersen ficou encantado, s dizia fantstico, e o Pressburger estava sempre a dizer-me: no voltes para o teu pas, eles no te vo perceber, no percebem a delicadeza nem a poesia E a escola abriu-se para mim, e que frequentou durante dois anos.

    J em Lisboa, frequentou ainda o Curso de Preparao de Actores de Adolfo Gutkin, na Fundao Calouste Gulbenkian (1969/70), teve aulas prticas com os professores Reeves e Hans Schmidt; fez o Curso de Monitores de Educao pela Arte no Conservatrio Nacional (1972) e o estgio New Music In Action, na Universidade de York (1976).

    Os Burossurios, com Eduarda Marina (1965)Foto de Tefilo Rego

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    A sua carreira profissional iniciar-se-ia trs anos mais tarde, em 1965, no Teatro Experimental do Porto onde participou na pea Os Burossurios, com encenao de Joo Guedes e nos O Auto da ndia, O Auto da Feira e A Barca do Inferno, de Gil Vicente, encenao de Carlos Avilez.

    Trabalhou regularmente como atriz, passando pelo TEL Teatro Estdio de Lisboa1, TEC Teatro Experimental de Cascais, Teatro D. Maria II, Os Bonecreiros, Teatro da Cornucpia, Teatro Popular Companhia Nacional I e Centro Cultural Bernardo Santareno.Nas palavras de Glicnia: No estive muito tempo no Porto, estive seis meses, depois vim para o Teatro da Luzia Maria Martins () Vim para Lisboa sem saber se tinha trabalho e, estava ela a comear a

    1 Luzia Maria Martins e Helena Flix tornaram-se empresrias ao organizar uma companhia para o Teatro Vasco Santana, que ambas constrem por adaptao de um espao na Feira Popular at ento utilizado como estdio da RTP Rdio Televiso Portuguesa e foi assim que em 1964, fundaram o Teatro Estdio de Lisboa (TEL), que ser a primeira companhia de teatro independente de Lisboa.O TEL revelou em Portugal muitos dos mais importantes dramaturgos portugueses e estrangeiros, mas teve vrios problemas com a censura. Foram por exemplo os casos, do espetculo Joana da Lorena, de Maxwell Anderson, estreado em 1964 e de Bocage, Alma Sem Mundo, um original da prpria Luzia Maria Martins, apresentado em 1967 e que se manteve em cartaz durante oito meses, uma proeza sem precedentes para o Teatro de Autor. Ambas esto consagradas na Toponmia de Lisboa, atravs dos editais de 26-06-2001, na freguesia de S. Domingos de Benfica, e de 18-05-1992, na freguesia de Campo Grande.

    Ele, Ela e os Complexos, com Adelaide Joo, Jorge de Sousa Costa e Maria Laurent (1965)

    Mesas Separadas, com Joaquim Rosa (1965).Fotos de Lus Mendes

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    ensaiar outra pea, Ele, Ela e os Complexos de Jean-Bernard Luc, uma comediazinha. Precisava de mais uma rapariga, l fui eu. S agora reparo que fiz muitas vezes essas comdias, alta-comdia. Fiz essa com a Luzia, no Nacional fiz um papel pequenino nas Trs Perfeitas Casadas do Casona, no Villaret uma comdia inglesa, Sexta-Feira s Quatro e um Quarto quem dirigiu essa foi o Armando Cortez1. () Entrei na Luzia e a o ambiente j era diferente. Era com o Joaquim Rosa, com o Jorge Sousa Costa, o Carlos Duarte, a Helena Flix, era eu, era a Jlia Babo e a Adelaide Joo tambm. A seguir veio as Mesas Separadas do Terence Rattingan, outra comdia dessas sofisticadas. E a tive o papel que gostava de fazer, era o da Wendy Hiller ().

    Auto da ndia, com Antnio Montez (1965)Foto de Tefilo Rego

    1 Armando Cortez (1928-2002). Foi homenageado na Toponmia de Lisboa, atravs do edital de 20-11-2003, na freguesia de Campolide.

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