Do estereotipo a realidade (1)

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Cultura brasileira e lngua portuguesa: do esteretipo realidade MEYER, R. M. de B. Cultura brasileira e lngua portuguesa: do esteretipo realidade IN: CUNHA, M. J. C. e SANTOS, P. (orgs.). Tpicos em portugus lngua estrangeira. Braslia: Ed. da UnB, 2002. Pp. 201-207 Rosa Marina de Brito Meyer PUC-Rio / SIPLE Uma das mais acentuadas dificuldades para a integrao de estudantes internacionais na sociedade brasileira e especificamente na maneira carioca de ser consiste em conseguir abandonar os esteretipos relativos Amrica Latina, ao Brasil e aos brasileiros. Certamente, carnaval, futebol e esportes de praia so fatos sociais importantes no Brasil, no posso neg-lo. Mas eu devo enfatizar que no so tudo. Ns no vivemos danando, embora msica, ritmo e movimento em geral sejam traos especiais de nossa personalidade social. Nem todo brasileiro adora futebol eu mesma sou um bom exemplo e a atividade de lazer nmero um ver televiso, seguida de ir ao cinema e ora vejam! fazer algo relacionado a msica (shows, festas, ou simplesmente ouvir msica ou tocar um instrumento). E, claro, apenas alguns poucos brasileiros so capazes de ir praia todo domingo a absoluta maioria da populao no vive beira do mar -, mas ns certamente somos amantes da natureza e, mais que isto, temos um relacionamento naturalmente muito informal e sensual com a natureza e entre ns mesmos. Mas o mais importante de tudo, e oposto ao to duradouro estertipo, ns somos XX trabalhadores. Em uma cidade do porte do Rio de Janeiro 12 milhes de pessoas na regio metropolitana a maioria da massa trabalhadora mora na periferia, e tem que tomar duas ou trs condues e levar no menos do que uma hora e meia para chegar no local de trabalho, e fazer tudo novamente para voltar para casa. O horrio de trabalho estende-se das 8 da manh s 6 da tarde. Escolas secundrias comeam s 7 da manh. Estudantes universitrios geralmente cursam 6 a 8 disciplinas por semestre. Talvez por causa de todos estes aspectos, mais todos os fatos da Histria do Brasil, ns somos quem ns somos. Ns fomos colonizados pelos portugueses, povo latino que se mesclava com outros grupos tnicos facilmente; tivemos forte influncia da cultura africana uma mistura Palestra apresentada sob o ttulo Brazilian culture and Portuguese language: from the stereotype to the real use na mesa-redonda Creating the Context for Foreign Language Development, International Student Exchange Program 20th Anniversary Conference, Washington D.C., EUA, 29-31 de outubro de 1999, para um pblico de coordenadores de intercmbios estudantis em universidades norte-americanas. extremamente bem sucedida de ritmos, cores e sabores e dos ndios nativos um povo centrado na comunidade, para quem individualidade no significava muito e uma relao distensa com a natureza prevalecia. Alm dessas origens, ns tambm tivemos os imigrantes dos sculos XIX-XX: os italianos, os ucranianos, os chineses, os japoneses, os libaneses e, claro, os novos portugueses. A maioria de ns somos catlicos, e assim acreditamos na salvao pela f; mas a f das pessoas facilmente rene imagens catlicas e de outras religies em um s conjunto, sem maiores preocupaes com a coerncia. Ns nuca sofremos as trgicas conseqncias de guerras, rebelies civis sangrentas ou catstrofes da natureza, mas nos acostumamos a interagir com o lado negro de nosso pas: a pobreza, o analfabetismo e, mas recentemente, a violncia urbana. Ns somos extremamente apegados famlia e o primo do primo do meu primo , sem dvida ... meu primo. E vai me visitar na prxima visita ao Rio. E eu no vou me sentir invadida! Em geral, ns nascemos, crescemos e nos casamos na mesma cidade melhor se no mesmo bairro. Ns estudamos, trabalhamos e nos aposentamos na mesma cidade. Uma mudana para outro pas pode soar dolorosa. Ns nunca tomamos nada demasiadamente a srio um aspecto que tem seus prs e contras. absolutamente ruim quando a flexibilidade conspira com a irresponsabilidade ou a desonestidade. certamente bom quando um erro pode ser compreendido, uma falta pode ser aceita ou um problema pode ser resolvido com flexibilidade. E por esta mesma razo ns somos definitivamente muito mais informais do que a maioria dos povos. E tolerantes. Ns gostamos, admiramos, acolhemos os estrangeiros. Por sinal, estrangeiro uma palavra semanticamente marcada como positiva em portugus. diferentemente de outras lnguas. Por este motivo, ns damos as boas vindas aos estrangeiros, ns ensinamos portugus a estrangeiros, ns pesquisamos na rea acadmica de Portugus para Estrangeiros. No h qualquer necessidade de usar a palavra internacional. A ainda assim ou por causa disso tudo sim, ns cantamos, ns danamos, ns rimos. Neste ponto de minha palestra eu posso imaginar que vocs esto achando que eu no vou chegar ao cerne da questo dessa mesa-redonda. Mas por favor ponham todos todos estes aspectos sociais juntos e estou certa de que vocs vo perceber o que eles representam em termos de uso da lngua. A lngua portuguesa no Brasil no poderia ser de outra forma informal, diversa, sensual. Ento, eu vou tomar o mote novamente: sim, ns cantamos, ns danamos, ns rimos. E ns nos tocamos, ns gesticulamos, ns nos abraamos. Ns nos beijamos em pblico, ns flertamos todo o tempo sem nenhum motivo outro que o prazer do jogo da seduo. Ns falamos prximos um ao outro, ns falamos alto, ns falamos sobre qualquer assunto sem constrangimento quase que em qualquer situao. E a que ensinar portugus torna-se especialmente desafiador: quando o foco volta-se para o comportamento social lingstico, no para as regras gramaticais. Ensinar o modo subjuntivo no nada comparado a explicar que em portugus voc deve evitar a palavra no quando reagindo negativamente a um convite, a uma sugesto ou meramente a uma expresso de opinio: os brasileiros evitam tanto quanto podem negar ou opor-se ao interlocutor ao menos claramente. Ento, ns usamos digresses. Um brasileiros que no possa aceitar o convite Que tal jantar l em casa no prximo sbado? nunca, nunca diria algo como Sinto muito, eu no posso. Ns diramos algo como Talvez. Eu vou falar com o meu marido / a minha mulher. ou Vamos ver. Eu ligo para voc. No contexto da lngua portuguesa do Brasil, estas respostas claramente significam que a pessoa no vai ao jantar. De tal forma que o anfitrio no vai ficar esperando por outro contato. Ele sabe. Para quem est familiarizado com a Teoria dos Atos de Fala pode-se dizer que a negao em portugus tipicamente indiretiva. Usar o masculino e o feminino, o que sempre causa confuso para aprendizes de portugus, no nem um pouco difcil se comparado aos atos de concordar e agradecer. Estas formas de interao realizam-se em portugus do Brasil atravs de padres completamente diferentes dos da negao. Neste caso, voc tem que ser direto: ser sutil, conciso, digressivo significa ser indelicado. Voc deve ser absolutamente enftico e reagir quase teatralmente. Ento, se voc recebe um presente qualquer presente voc no deve nunca dizer simplesmente Obrigado. ou mesmo Obrigado, eu gostei muito. Isto no suficiente. Voc especialmente se mulher - tem que dizer uma seqncia de exclamaes como Ah, que lindo! Como que voc sabia que eu queria um destes? Muito, muito obrigada! Vou us-lo j, j! E assim por diante. H tambm o iniciar e o encerrar os turnos conversacionais. Em portugus, no imperativo esperar at que o interlocutor complete todo um enunciado para retrucar. Em uma discusso poltica, por exemplo, interromper o outro pode significar que voc est to entusiasmado com a conversa que no pode esperar pelo seu turno, pela sua vez de falar. E isto positivo. Tambm no considerado rude interromper duas pessoas conversando para pedir uma informao. Desde que seja uma breve interrupo, claro. No portugus do Rio de Janeiro, as formas de tratamento constituem padres muito complexos de interao social. Como muitos de vocs provavelmente sabem, o portugus tem, assim como o espanhol, muitas formas de tratamento diferentes, sendo as principais o senhor/a senhora, voc e tu, dentre outras mais ou menos formais. Mas as situaes quando cada uma destas formas deve ser usada pode no ser clara para o falante no nativo. Assim, voc deve usar o senhor/a senhora para dirigir-se ao patro apenas quando h uma diferena de idade considervel sendo o patro o mais velho; neste caso, a expresso expressa respeito, formalidade. Um patro no to mais velho, um scio, um amigo devem ser chamados voc. Mas o senhor/a senhora podem tambm ser usados especialmente por mulheres quando voc se dirige a um empregado, como um porteiro, ou um frentista Seu Jos, d para lavar o carro hoje noite?; neste caso, significa distncia, relacionamento no pessoal. Outras vezes, no entanto, a mesma expresso pode ser usada com crianas, em repreenses Seu Marcelo, pela ltima vez: v para a cama j!; neste caso, ela revela que o falante est enfatizando sua autoridade e/ou zanga. Um ambiente muito interessante com relao s formas de tratamento a sala de aula. Na maioria das regies do Brasil, o relacionamento entre professores e estudantes mesmo na universidade, entre professores titulares, ou catedrticos, e estudantes muito mais prxima do que em muitos pases. A um estudante perfeitamente permitido chamar o professor de voc. De fato, espera-se que ele o faa. Ns no temos faculty clubs1, e os restaurantes nas universidades so reas comuns a professores, funcionrios e estudantes. No raro encontrar professores tomando uma cerveja de happy hour com alunos e perfeitamente aceitvel que professores convidem alunos para uma reunio social informal em suas casas e vice-versa. Para ns, brasileiros, os limites so muito claros: dentro de sala de aula, o professor um professor, e deve ser tratado como tal; fora dela, ele pode ser um amigo. Ento, em uma conversa informal fora de sala de aula o estudante poder at, eventualmente, chamar o professor de cara uma forma de tratamento extremamente informal, familiar mesmo (talvez semelhante a man em ingls). Mas ele no deve nunca, nunca faz-lo em sala. Estudantes estrangeiros nem sempre compreendem estas sutilezas. A polidez outra rea delicada. Pessoas que j estiveram no Brasil algumas vezes dizem coisas como Os brasileiros so mal-educados porque no dizem por favor. Este um dos mais evidentes malentendidos de nossa lngua e cultura. Em portugus, ns raramente usamos a palavra sim, da mesma forma que ns raramente usamos a expresso por favor. No entanto, ns temos outras formas de expressar as mesmas idias, como veremos a seguir. Respostas curtas realizam-se pela repetio do verbo da pergunta: Voc fala portugus? Falo. uma seqncia que seria literalmente equivalente, em ingls, a Do you speak Portuguese? Speak.. Note-se que, neste caso, o portugus diferencia-se at mesmo do Espanhol, uma lngua to semelhante ao portugus que nos leva, muitas vezes, a falar o Portunhol uma mistura de portugus e espanhol. Voltando aos pedidos, em portugus a expresso por favor substituda por estruturas sintticas que, ligadas a uma entonao especfica, significam por favor. Assim, ns no diramos Abra a porta, por favor. - Please, open the door -, mas algo como D para abrir a porta?, o que corresponde aproximadamente a Could you please open the door?. Percebam que em ingls eu deveria usar a palavra please por favor nos dois casos. Em portugus, a entonao especfica aliada expresso d para significam por favor por si mesmas. Ainda com relao polidez, outro tipo de comportamento lingstico relevante o enunciado Te ligo., Te ligo amanh.: este a forma mais popular de encerrar uma conversao. E isso tudo: significa apenas Tchau. Algo semelhante expresso See ya do ingls. Estas expresses no significam, de forma alguma, que a pessoa tenha 1 Designao das instalaes reservadas exclusivamente aos professores, em universidades de alguns pases, onde alunos e funcionrios no so admitidos. Geralmente compem-se de restaurante, sala de estar, sala de leitura, etc. qualquer inteno de telefonar para o outro to cedo. E esta outra ocasio quando os estrangeiros tendem a considerar os brasileiros mal educados. Porque eles esperam por um telefonema que no chega, claro! Estas so apenas alguns aspectos curiosos porm reais da lngua portuguesa do Brasil. So bons ou maus? A cultura brasileira, o estilo de interao social do portugus do Brasil melhores ou piores do que os de outras lnguas ou culturas? Nenhum dos dois. Isto apenas como ns somos. A nossa forma muito particular de sermos ns mesmos. E estes so apenas alguns exemplos daquilo que se faz nos cursos de Portugus para Estrangeiros da Pontifcia Universidade Catlica do Rio de Janeiro PUC-Rio. Mais do que ensinarmos a estrutura gramatical do portugus o que feito, sem dvida, mas no somente mais do que nos referirmos s manifestaes mais bvias da cultura brasileira msica, literatura, folclore, etc. -, ns deixamos que os aprendizes sintam o que ser brasileiro. E os levamos a agir e reagir como os brasileiros fariam. E a falar e interagir como os brasileiros fazem. Talvez esta seja a nica forma de ns afastarmos das mentes de nossos estudantes estrangeiros a sombra dos to imprprios esteretipos que mascaram o que o Brasil, os brasileiros e a lngua portuguesa do Brasil so na realidade.