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    UMA REFLEXO SOBRE A APRENDIZAGEM ORGANIZACIONALAPLICADA S IES

    Claudio Freitas Neves - neves@peno.coppe.ufrj.br Programa de Engenharia OcenicaCOPPE / UFRJCaixa Postal 6850821945-970 Rio de Janeiro, RJ

    Resumo: O trabalho de Peter Senge, que estabeleceu os princpios da aprendizagemorganizacional em termos de Cinco Disciplinas a serem seguidas pelos membros daorganizao, foi aplicado a diversos segmentos do setor produtivo e at mesmo do terceirosetor. As aplicaes a instituies de ensino so, contudo, escassas e, dentre essas,quelas dedicadas a Instituies de Ensino Superior so ainda mais raras de encontrar.Motivado pela dvida se as tradicionais Cinco Disciplinas seriam ou no aplicveis sIES, o autor elaborou um questionrio visando determinar os modelos mentais, acapacidade para trabalhos em equipe, a viso de futuro e a viso sistmica de um grupode professores e de funcionrios. A maestria pessoal no foi questionada, pois os critriosde excelncia atualmente adotados pelas IES garantiriam a alta qualificao deprofessores e de funcionrios. Os resultados do questionrio so apresentados notrabalho, que conclui sobre a pertinncia da aplicao dos princpios de Senge, mas que,paradoxalmente, demonstra que a Universidade no necessariamente uma organizaoque aprende. Tal paradoxo poderia ser a raiz de algumas dificuldades que se verificamno relacionamento universidade-empresa e sinalizam para mudanas na formao defuturos professores.

    Palavras-chave: Aprendizagem organizacional, Organizao universitria, Culturaorganizacional, Formao de professores.

    Programa de Engenharia Ocenica COPPE/UFRJ Caixa Postal 68508 Rio de Janeiro, RJ 21945-970 e-mail: neves@peno.coppe.ufrj.br

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    1. INTRODUO

    Os princpios da aprendizagem organizacional, ou o conceito da organizao queaprende, foram propostos por Peter Senge em 1994 (SENGE, 1998) a partir da identificaode cinco caractersticas bsicas que deveriam ser compartilhadas pelos membros de umaempresa: pensamento sistmico, domnio pessoal, construo de modelos mentais, visocompartilhada e capacidade para aprendizagem em equipe. Em geral, estes conceitos foramaplicados a empresas e a ONGs, mas poucos exemplos na literatura referem-se a instituieseducacionais, em particular s IES.

    Este trabalho prope-se a investigar trs questes:1) A Universidade em si ou pode ser uma organizao que aprende?2) A Universidade forma seus alunos para trabalharem neste contexto organizacional?3) Como a Universidade poderia preparar seus alunos a enfrentar novos paradigmas

    organizacionais da sociedade?A primeira questo motivada pela profunda reformulao e processo de discusso pelos

    quais as universidades esto passando, especialmente as universidades pblicas. evidente ocrescimento da opinio de que uma viso empresarial de mercado possa ser implantada dentrode uma universidade; portanto, o argumento o que vlido para uma indstria seriaigualmente aplicvel universidade parece bastante atraente e atual para uma reflexo maisaprofundada. Acrescenta-se a este fato o surgimento no Brasil das universidadescorporativas, cujo modelo j foi implantado nos pases mais desenvolvidos. Uma anlisemais cuidadosa das ligaes complexas entre a universidade e a sociedade na qual ela estimersa, bem como da estrutura interna e da misso da universidade revela que no pode serfeita a extenso imediata das leis da organizao empresarial universidade.

    A segunda questo motivada pela funo formativa do ensino superior. Um indivduoque esteja matriculado hoje na universidade, estar no mercado de trabalho dentro de umprazo de 1 a 6 anos. Neste intervalo de tempo, ele dever adquirir conhecimentos especficos,desenvolver habilidades e adquirir comportamentos (posturas) condizentes com a formaoescolhida. Quando atinge o mercado de trabalho, porm, o recm-formado verifica que asexigncias da empresa diferem daquelas para as quais ele se preparou na escola, asferramentas tecnolgicas que utilizou j foram ultrapassadas e, frequentemente, sente-seinseguro para assumir as funes e responsabilidades que lhe so exigidas. Trabalhar emequipe, obter uma viso sistmica do seu ambiente de trabalho e das relaes pessoaisenvolvidas para conduo das tarefas, apresentar pontos de vista prprios em debatestcnicos, ser criativo, estes so exemplos de algumas competncias que muitos alunos docurso de engenharia no desenvolvem.

    Quando se propem novos objetivos educacionais e novas habilitaes profissionais emnvel de graduao (dentro de uma habilitao clssica como a engenharia, o caso damecatrnica, da robtica, da engenharia ambiental), pertinente questionar o tipo deformao que se deve dar e avaliar o curso de maneira mais abrangente do que apenas ocontedo programtico das disciplinas. Em nvel de ps-graduao, o que se tem verificado uma crescente demanda pela composio de currculos interdisciplinares, produzindo umchoque com hbitos de estudo j arraigados no aluno.

    Se for mantido o foco na formao profissional do indivduo, conjugando-seconhecimentos e valores, atitudes e posturas, interesses e habilidades, a Universidade poderestar respondendo ao desafio do futuro.

    Esta reflexo inicia-se por caracterizar a Universidade, identificando as pessoas, a divisofuncional e os diversos relacionamentos ali presentes, que tornam esta instituio to rica.

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    2. CARACTERIZAO DA UNIVERSIDADE COMO ORGANIZAOCOMPLEXA E ESTTICA

    As universidades foram formadas no sculo XIII como uma corporao jurdica dedireito prprio, reunindo a totalidade dos professores e alunos que participavam do studium,distribuda em vrios pontos de uma cidade (Universitas magistrorum et scholarium)(BOEHNER e GILSON, 1995, p.355). Se, por um lado, a Universidade Medievalcaracterizava-se pela sua constituio mais intelectual do que material (ao contrrio daUniversidade Moderna que dispe de prdios, patrimnio, relaes trabalhistas entrefuncionrios etc.), por outro lado, mais prtico, ela nasce de um movimento corporativo quevisava defender os interesses dos profissionais de ensino e de conhecimento avanado.

    No contexto medieval, a universidade distinguia-se de outras instituies educacionaispor estar vinculada a toda a cristandade atravs do Papa, ao invs de pertencer a uma cidadeou reino, assumindo pois um carter supranacional (ou globalizada). Mostravam-sepresentes duas foras de composio: as Cincias (com fins laicos) e a Filosofia (com finsreligiosos), foras estas que, ao longo dos sculos, ora se atraram ora se repeliram, mas aUniversidade permaneceu e expandiu-se.

    Desde ento, as universidades cresceram, material e numericamente, mas percebe-se quealgumas caractersticas fundamentais sobrevivem at os dias de hoje, embora comecem a serpostas em cheque. A Tabela 1 aponta seis aspectos que ilustram o contraste que se criaatualmente em relao ao modelo medieval.

    Tabela 1: A Universidade em perspectiva histrica.

    Valores Tradicionais Valores em Mutao

    Forte sentimento corporativo entre alunos eprofessores, que os distingue de outrossegmentos da sociedade ou outras organizaes.

    Fraca identidade com o ambiente universitrioou entre os professores e a organizao (maisum local de dar aula).

    A noo de universalidade, onde todos tmdireito de acesso por mrito.

    A direcionalidade do conhecimento, onde oacesso se d por razes scio-econmicas.

    A subordinao a um poder mais elevado (oPapa, o Governo federal, o Governo estadual).

    A subordinao a um poder local (o dono, afundao, a empresa).

    Os requisitos de formao necessrios paraatingir a liberdade de ensinar, a posio deMagister.

    O doutoramento condio necessria esuficiente para pleno exerccio das funesdocentes, mas a LDB estabelece cotas mnimascom mestrado e doutorado.

    O processo de aprendizagem / ensino, baseia-sena exposio de texto ou de contedos (lectio) eno debate entre alunos e entre mestres(disputatio).

    O processo de aprendizagem / ensino, baseia-sena exposio de texto ou de contedos e naprtica de laboratrios (quando os h).

    A compartimentao do conhecimento e dasartes atravs da diviso em Faculdades.

    A excessiva especializao conduz separaoem Faculdades, Departamentos, Laboratrios,com pouca conexo entre si ou conduz disputapor recursos.

    Estes seis atributos tradicionalmente conferiam o carter esttico da universidade,organizao que sobrevive h sete sculos, como centro dedicado ao saber em sua expresso

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    mais elevada. Desde a Idade Mdia, porm, j estava implcito o carter complexo dauniversidade, por exemplo o desenvolvimento das Faculdades de Medicina, de Direito ou dasArtes, em oposio Faculdade de Teologia, ainda na Idade Mdia, caracterizava a dinmicaintrnseca da organizao universitria. Atualmente, porm, a universidade assume papeladicional de transmisso de conhecimento, fomento da cincia e formao de recursoshumanos para uma sociedade, por si s, tambm mais complexa. Identificam-se assim doisnveis de complexidade: interno, enquanto se consideram as relaes da organizao dentro desi mesma, e externo, enquanto se consideram as relaes da organizao com a sociedade.Estariam professores e alunos preparados para lidar com tal complexidade?

    Para fins do presente estudo, as universidades no Brasil podem ser categorizadas deacordo com a sua manuteno (pblicas, privadas religiosas e privadas leigas) e de acordocom a sua localizao (campus em uma nica cidade ou campi mltiplos).

    As IES pblicas podem ser federais ou estaduais, vinculadas ao MEC ou s SecretariasEstaduais de Educao, mantm um alto grau de autonomia, em muitos aspectos semelhantequela da universidade medieval; so instituies que detm significativa respeitabilidadejunto opinio pblica e esto inseridas na sociedade atravs de vrios tipos de servios. AUniversidade Federal do Rio de Janeiro, a principal instituio pblica federal de ensinosuperior, u