04- ascese mística - pietro ubaldi (volume revisado e formatado em pdf para ipad_tablet_e-reader)

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  • 8/3/2019 04- Ascese Mstica - Pietro Ubaldi (Volume Revisado e Formatado em PDF para iPad_Tablet_e-Reader)

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    PRIMEIRA PARTE O FENMENO ......................................................................... 1

    I. SITUAO DO PROBLEMA ........................................................................................ 1

    II. EVOLUO DA MEDIUNIDADE ............................................................................... 4III. MEDIUNIDADEMETAFANIAMISTICISMO .................................................. 7

    IV. A CATARSE MSTICA E O PROBLEMA DO CONHECIMENTO..................... 11

    V. OBJETIVISMO E SUBJETIVISMO .......................................................................... 14

    VI. O MTODO DA UNIFICAO ................................................................................ 18

    VII. ESTRUTURA DO FENMENO MSTICO ........................................................... 24

    VIII. COROLRIOSF E RAZO ............................................................................. 29IX. DIAGRAMA DA ASCENSO ESPIRITUAL .......................................................... 34

    X. PRIMEIRO ASPECTO PLANOS DE CONSCINCIA ......................................... 38

    XI. SEGUNDO ASPECTO. EXPANSO DE CONSCINCIA .................................... 42

    XII. TERCEIRO ASPECTO. CONSCINCIAS COLETIVAS .................................... 44

    XIII. EGO SUM QUI SUM ............................................................................................... 49

    XIV. DA TERRA AO CU ............................................................................................... 53XV. METODOLOGIA MSTICA .................................................................................... 59

    XVI. A NOITE DOS SENTIDOS ...................................................................................... 63

    XVII. A UNIFICAO .................................................................................................... 69

    XVIII. INCOMPREENSO MODERNA ........................................................................ 74

    XIX. O SUBCONSCIENTE .............................................................................................. 77

    XX. O SUPERCONSCIENTE ........................................................................................... 80

    SEGUNDA PARTE A EXPERINCIA .................................................................. 86I. EM MARCHA ................................................................................................................ 86

    II. NAS PROFUNDEZAS .................................................................................................. 90

    III. DOR .............................................................................................................................. 96

    IV. RESSURREIO ...................................................................................................... 101

    V. A EXPANSO ............................................................................................................. 106

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    VI. A HARMONIZAO ............................................................................................... 110

    VII. A UNIFICAO ...................................................................................................... 114

    VIII. A SENSAO DE DEUS ....................................................................................... 119

    IX. CRISTO ...................................................................................................................... 123

    X. AMOR .......................................................................................................................... 127

    XI. A REDENO ........................................................................................................... 132

    XII. ASCESE DA ALMA ................................................................................................ 136

    XIII. MINHA POSIO ................................................................................................. 142

    XIV. MOMENTOS PSICOLGICOS ........................................................................... 151

    XV. IRMO FRANCISCO ............................................................................................. 154

    XVI. VISO DA CATEDRAL GTICA ....................................................................... 158

    XVII. PROFETISMO ...................................................................................................... 159

    XVIII. OS ASSALTOS .................................................................................................... 164

    XIX. TENTAO ............................................................................................................ 169

    XX. INFERNO .................................................................................................................. 172

    XXI. QUEDA DA ALMA ................................................................................................ 173

    XXII. MEA CULPA ......................................................................................................... 175XXIII. CNTICO DA UNIFICAO ........................................................................... 176

    XXIV. BEM-AVENTURANAS .................................................................................... 178

    XXV. CNTICO DA MORTE E DO AMOR ............................................................... 180

    XXVI. PAIXO. ASSIS, QUINTA-FEIRA SANTA, 1937. .......................................... 182

    Vida e Obra de Pietro Ubaldi(Sinopse) .......................................................................... 189

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    Pietro Ubaldi ASCESE MSTICA 1

    PRIMEIRA PARTE

    O FENMENO

    I. SITUAO DO PROBLEMA

    Analisarei neste volume o fenmeno da ascese mstica. Dispenso-me de no-vamente situ-lo no campo cultural e no momento psicolgico moderno, vistoque o apresento em seu duplo aspecto de fenmeno cientfico e de fenmenoespiritual, como sequncia lgica e vivida do fenmeno inspirativo, j ampla-mente analisado no precedente volume1. Quem o tiver lido, nele ter encontra-

    do a dupla razo desta continuao, tanto no campo cientfico, como no campoespiritual. E, para responder objetivamente, ou ainda, quase fotograficamente, realidade do fenmeno, tal qual foi por mim vivido, aqui o analisarei e apro-fundarei sob dois aspectos decorrentes de duas psicologias diversas, que, embo-ra hoje consideradas opostas, so para mim equivalentes: a cincia e a f.

    Isto servir no apenas para demonstrar a substancial identidade do fen-meno em todos os campos, principalmente em face deste to discutido e con-troverso fenmeno mstico, mas tambm para evidenciar que j devem sertidos como superados certos antagonismos to agudos, ultimamente trans-formados em sementes de dolorosas cises da unidade do pensamento e daf. Assim, quando eu tiver feito convergir para as mesmas concluses as ex-tremas e opostas atitudes do pensamento humano, minha concepo interpre-tativa, baseada na realidade por mim muito intensamente sentida, ter solidezde verdade universal e poder ser considerada um novo fundamento que, nomeu permanente anseio de realizar o bem, terei conseguido lanar para a

    construo do edifcio do conhecimento. Ouso esperar isso no somente co-mo fruto do imenso trabalho interior em que me tenho amadurecido, por fata-lidade da lei de evoluo, superior aos mritos meus e minha prpria vonta-de, mas tambm porque este mesmo estudo constitui, para mim, to alto coro-amento de minhas precedentes snteses, que as posso resumir e levantar todaspara aquilo que eu poderia chamar de minha mais alta sntese conceptual, depaixo e de vida. O fenmeno mstico , de fato, animado por um dinamismo

    1As Nores, obra do mesmo autor (N. do T.).

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    to potente e profundo, feito de maturaes e superamentos interiores tosubstanciais, anelante de mpetos to excelsos, que deve ser necessariamenteconsiderado no vrtice das aspiraes da inteligncia e do corao.

    O precedente estudo, a que j me reportei, conquanto seja aparentemente

    exaustivo e definitivo, mais no do que a preparao deste, assim como ofenmeno da mediunidade inspirativa, nele descrito, nada mais foi, para mim,seno uma fase de vida. Nesta nova fase, na qual parecem levantar-se, comonum turbilho, todas as potncias da alma humana, guiarei, atravs de minhaexposio, o leitor que me seguiu at aqui, levando-o ainda alm da sensaoviva da vertigem arrebatadora por mim vivenciada em meus estados supra-normais de viso e de xtase. Como j afirmei, trata-se aqui da continuaodeprecedentes fases do fenmeno, razo pela qual, neste escrito, devo referir-me

    necessariamente ao volume em que estas so descritas. Declarei que se trata defenmenos por mim vividos e, por isso, sou compelido a falar ainda de mim.Se isso deselegante, constitui, todavia, garantia de objetividade, porque mi-nha anlise, tal como nas fases j examinadas, toca tambm aqui uma realida-de que, embora interior, perfeitamente acessvel para mim. Conquanto pes-soal e objetiva, dela pude abstrair-me nitidamente, submetendo-a a um estudometdico, analtico e cientfico.

    Somente numa segunda parte, o fenmeno mstico apresentado em seu as-pecto espiritual, religioso e ideal, tal qual o foi de modo quase sempre exclusi-vo2. Ele se distingue, portanto, dessa comum nomenclatura, vaga e imprecisa,para ser aqui definido em suas linhas fundamentais, como fenmeno de evolu-o biolgica, levada at ao campo do mais alto psiquismo. Encarado assim,sob a forma de caso vivido, o fenmeno, conquanto parea circunscrito ao sub-jetivismo de minha conscincia individual, apresenta-se, sem dvida, no so-mente na solidez de uma realidade experimental, mas tambm nos limites de

    uma verdade universal, porquanto eu o concebo e encaro, em concordnciacom a orientao filosfica e cientfica constantemente seguida por mim, comofase da normal evoluo biolgica humana, continuada e projetada aqui at aossuperiores nveis da ascenso espiritual. Verdades, pois, universais estas de quetrataremos; linhas fundamentais do desenvolvimento fenomnico, que lei dascoisas; realidade objetiva situada alm do relativo, no absoluto; realidade pro-fundamente humana, tecida de lutas, de dores e de conquistas.

    2 Segunda parte do presente volumeA Experincia (N. do T).

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    Grande vantagem esta de poder operar sobre uma realidade psicolgica, pa-ra mim experimental, e sobre uma verdade universal. Estas so as duas basesde nosso estudo, bastante slidas, que compensam tudo quanto poderiam opor-me como defeito, em relao contnua necessidade de falar de mim e de mi-

    nha precedente produo literria. A esta devo, contudo, indispensavelmentereportar-me, porquanto dela resultam as primeiras fases da maturao do fe-nmeno espiritual por mim vivido. Para compreend-lo no caso concreto ana-lisado e apresentado aqui, imprescindvel recorrer, como preparao e expli-cao, ao meu passado, que o contm em germe e do qual ele se desenvolveu.No saberia estabelecer diversamente os termos deste estudo, at porque so-mente quem tem experimentado determinadas sensaes e emoes possui apalavra suficientemente vibrante para exprimir o inefvel.

    Perdoem-me semelhante ostentao, mas foroso reconhecer-se o quan-to seja ela inevitvel. Perdoem-me se ela parece chegar a uma confissodesapiedada de todo o meu ser at intimidade mais recndita, mas tal con-fisso proporcionar ao leitor aquela mesma sensao que provo, feita desacrifcio e de holocausto, e no de vo exibicionismo. Doao de mimmesmo para o conhecimento e soluo dos mais rduos problemas da cin-cia e da f, implcitos no esprito; problemas do mundo, no somente emsentido evolutivo, mas tambm histrico, porquanto msticos sempre oshouve, em todos os tempos e em todos os pases. Ampliado no apenas pelaressonncia que minha alma encontra nas almas de tantos msticos e quesuas almas encontram na minha, mas tambm pela comunho de f, de expe-rincias e de metas espirituais e pela universalidade histrica de fatos e fe-nmenos vividos, meu pobre caso vai alm dos limites de um subjetivismoque, evidentemente, j no se acha circunscrito em mim, mas transbordapara alm das fronteiras de minha personalidade.

    Espero haver justificado assim a posio em que situo o problema mstico,a qual se compensa aqui com dois pontos de apoio slidos em conjunto, em-bora de relativa debilidade entre si.

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    II. EVOLUO DA MEDIUNIDADE

    Coloco, assim, o fenmeno mstico na sequncia evolutiva do fenmenoinspirativo. Precisemos, pois, com maior exatido.

    Em meu livro precedente, classifiquei em vrias fases a mediunidade, quetenho considerado um fenmeno em evoluo, momento e expoente da maiorevoluo biolgica humana, a qual, superadas as formas orgnicas, aventura-sehoje, desmaterializando-se progressivamente, nas formas psquicas. Aqui nodemonstro, mas apenas relembro esta evoluo biolgico-psquica, alhures jpor mim exaustivamente tratada3.

    Em seu primeiro nvel inferior, o fenmeno medinico manifesta-se emforma fsica, de efeitos materiais. Em um plano mais alto, aparece uma mediu-

    nidade superior, mais evolvida, de efeitos mentais. Formas demasiado conhe-cidas, para que nelas eu insista. Se, em seu primeiro nvel, a mediunidade inte-lectual simples mediunidade passiva e inconsciente, na qual a vontade e aconscincia do mdium se afastam do fenmeno, como elementos estranhos einteis, ela, ao chegar por evoluo a um nvel mais elevado, transforma-se emsentido ativo e consciente, no qual, como tenho demonstrado, a conscincia domdium est desperta e do qual parte integrante. Em verdade, ocupei-melongamente dessa mediunidade inspirativa, que a mediunidade intelectualativa e consciente, limpidamente operante na viva personalidade do sujeito.Delineei a lei de ressonncia do fenmeno, pela qual, entre o centro de emana-o transmissor, individualizvel como nores ou correntes de pensamento, e aconscincia desperta do mdium, pode estabelecer-se, pela sintonia de vibra-es, uma comunicao, que base da recepo inspirativa.

    Este o ponto no qual me havia detido, porque, ento, ele constitua o ltimotermo de minha realizao, condio esta, porm, que j no se verifica agora.

    Aquelas afirmaes, no entanto, continham as razes para esta continuao.A mediunidade inspirativa4j imensamente superior comum mediuni-dade passiva e inconsciente, no apenas por ser ativa, mas tambm por tendera se fixar na personalidade do mdium, como sua normal emanao. No entan-

    3 EmA Grande Sntese eAs Nores (N. do T.) .4 Os que estiverem habituados a denominar estes fenmenos com outra nomenclatura, amenos que substituam a palavra pelo conceito e a forma pela substncia, sabero igualmen-

    te, estou certo, compreender, ainda que as expresses por mim adotadas sejam inslitaspara eles. (N. do A.).

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    to o fenmeno no pode interromper aqui o seu desenvolvimento e, certamen-te, nos levar para altitudes vertiginosas, sobretudo em relao cincia, queno est acostumada a tratar de fenmenos cuja progresso evolutiva os leva auma normal desmaterializao, pela qual eles so subtrados comum percep-

    o sensria e psquica, sendo levados aparentemente a desvanecer-se nummundo que, por ser impondervel, contestado pela cincia. Isto, porm, noconstitui razo bastante para que eu deva deter-me, principalmente quando, emmim, encontro o guia de uma experincia vivida. Prossigamos ento, tal comodurante um ano prosseguiu em mim o fenmeno. Releguemos ao passadoaquela fase conhecida e superada, para nos aventurarmos na zona superior deevoluo do fenmeno medinico inspirativo.

    Temos visto que os dois termos do fenmeno inspirativo, semelhana de

    uma transmisso-recepo radiofnica, so dados pelo centro conceptual(emisso) e pela conscincia do mdium (captao e registrao). Os dois ter-mos so distintos, porm comunicantes, estando ligados por fenmeno de res-sonncia. A recepo norica baseia-se nesse princpio, estabelecendo-se atra-vs de um estado de sintonia ou harmonizao vibratria, que se alcana me-diante duas recprocas aproximaes: primeiro, a entrada na fase de super-conscincia por parte do eu do mdium, que se pe em tenso, realizando odeslocamento ascensional de seu centro ao longo da escala evolutiva das di-menses, at mais alta fase psquica e superconscincia; segundo, a descidaao longo da mesma escala evolutiva, atravs da involuo de dimenso con-ceptual por parte do centro emanante e de sua irradiao. Nesta condio, atin-gida atravs de uma recproca propenso de um para outro, torna-se possvel oencontro e o amplexo dos dois termos.

    Essas faculdades tendem, mediante contnuos exerccios, a superar a zonainstvel de fadiga e de conquista, para alcanar a zona de assimilao comple-

    ta na personalidade do mdium, estabilizando-se na zona de instinto, comouma qualidade normal (automatismo).Forma-se um hbito da conscincia, atravs da constante e sutil respirao

    nas zonas rarefeitas dessa estratosfera do pensamento. A aproximao entre osdois termos tende, assim, a tornar-se cada vez mais estreita, mais constante,mais normal. Com o passar do tempo, a sintonizao vibratria entre transmis-sor e receptor estabiliza, por constante repetio, aquele estado de afinidade,que constitui simpatia e atrao, sendo esta reconhecidamente a condio bsi-

    ca sobre a qual tanto insisti no estudo do fenmeno da recepo norica.

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    evidente o resultado deste processo, pois ele contm um campo de forasconvergentes para o mesmo ponto, que dever necessariamente ser tocado,mais cedo ou mais tarde. A comunicao anormal do pensamento tornar-se-,na conscincia do metafnico,uma espcie de educao e, consequentemente,

    de hbito para viver numa superior zona espiritual, na qual ela tender a nor-malizar, em forma cada vez mais estvel, o equilbrio de seu novo peso espec-ficopsquico. Tal comunho no somente lhe estabilizar as vias de acesso,mas tambm lhe dilatar as fronteiras, que, se alcanavam antes apenas as zo-nas da inteligncia, em forma de luz resplandecente, porm fria, inundar ago-ra as zonas do corao e ser tambm calor que inflama de paixo.

    Intensamente ativo o Alto na transfuso de foras para a transumanizaodo ser, tornando assim extremamente frvido de maturaes o fenmeno, que

    tende, ento, para uma gradual, progressiva e total elevao, de si para si, daconscincia receptora, de todo o eu humano do sensitivo, com todos os seusrecursos e potencialidades. Da resulta uma espcie de incndio, que reduz acinzas o homem velho, fazendo-o ressurgir numa forma completamente nova,na qual se apresentam totalmente renovadas a concepo, a orientao psico-lgica e a viso do fenmeno e de suas leis.

    Vemos, assim, o fenmeno da mediunidade inspirativa amadurecer e trans-formar-se, naturalmente, por lgico desenvolvimento, naquilo que se podechamar, em seu primeiro tempo, metafaniamstica,no sentido de uma recep-o cada vez mais total, com emanaes no mais exclusivamente conceptuais,mas tambm afetivas etc. Esse fenmeno, porm, medida que se encaminhapara sua maturao, transcende de tal modo o simples fenmeno inspirativo,num arrebatamento de todo o ser, que acaba por se encontrar diante deste, co-mo a luz solar diante da luz lunar.

    Tal o fenmeno mstico de que agora nos ocupamos.

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    III. MEDIUNIDADEMETAFANIAMISTICISMO

    Entraremos, mais adiante, nos pormenores deste desenvolvimento. Basta-nos, por agora, traar as linhas de orientao. A sucesso destas fases no a

    apreendi de livros, que no leio, ou de textos, que no consulto, mas sim deminha experincia direta. Quis conservar aqui minha virgindade de pensa-mento, permanecendo em contato direto e exclusivo com o fenmeno, demaneira que, depois, a eventual coincidncia com os resultados de outrosestudos e de outras experincias se tornasse, para mim e para os outros, maissurpreendente e comprobatria.

    Fica assim definida a amplitude do fenmeno da ascese mstica, o qual objeto deste estudo. Por ascese msticaque pode ser expressa nestes termos e

    compreendida dentro destes limitesentendo o desenvolvimento do fenmenopsquico, desde a fase de metafania lcida ou de inspirao consciente, at sua fase de misticismo, que se consuma com a unificao integral entre recep-tor e transmissor. O presente estudo, assim como minha experincia, que lheserve de guia, move-se entre esses confins.

    A essncia do fenmeno consiste sempre na universal e insuprimvel evo-luo do esprito. Mas certo que, nesses nveis, o simples fenmeno medi-

    nico se espraia sobre tal mar de conquistas e de grandiosas afirmaes, queaquele fio de revelao supranormal e primeiro lampejo de transparnciastranscendentais oferecido pela simples metafania, perde-se na vertigem de luzalcanada pelo estado mstico, no qual a personalidade, longe de ser diminu-da na inconscincia, arrebatada consciente at ao superconcebvel. Ouo avoz interior exprimir-se num cntico de harmonias universais, dizendo-me:Contempla a substncia espiritual das formas do ser. O todo um turbilho-nar de esferas. Este movimento representa a mais doce msica, a mais mara-

    vilhosa harmonia de luzes, a mais gigantesca construo, a mais ampla exati-do de relaes, sendo tambm cntico de conceitos e sentimentos. Observa e,na harmonia deste amor infinitamente mltiplo, esquece a dissonncia de tuador, que se encontra fechada no tempo. Deixa teu esprito explodir alm detodas as medidas, no incomensurvel; alm de todos os limites, no infinito;alm de todos os ritmos menores, no ritmo divino do todo. Vers e ouvirs.Toda alma feita para ver e ouvir.

    Repara. Os seres dividem-se e renem-se segundo hierarquias. Cada um sepe, por virtude de seu peso especifico, em seu nvel natural, inviolavelmente.

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    Eles se veem e se falam e se escutam. Vozes e luzes, de plano a plano, desceme sobem, porque o Alto tem sede de se dar, como o plano inferior tem sede deajuda. Esta a Lei, imperante em toda parte e em todo nvel. Assim tudo sedistingue por individuaes inconfundveis, mas tudo volta a reunir-se e irma-

    nar-se na mesma luz e no mesmo cntico. Ao apelo do fraco responde um ecobondoso, havendo, graas bondade do Alto, sempre uma ddiva por fazer.Auxiliar-se reciprocamente, eis a Lei.

    A luz irradia do centro e transparece de esfera a esfera, atravs dos seresque a compem. O metafnico alma desperta escuta e ouve aquilo que paraos outros silncio. Aquela luz, consubstanciada por conceito, harmonia epotncia, sinfonia de pensamentos e de aes, mas tambm corrente de amore de fora a enxertar-se no esprito, que a causa nica da vida. Ela refora as

    motivaes e fecunda vossas obras.A percepo norica um contato com a irradiao divina, que a linfa

    vital do universo.Por isso, vos digo: Escutai e purificai-vos, para que tudo seja ascenso.

    No ausculteis em vo, por simples curiosidade, porque sagrada a voz doAlto. No dissipeis a potncia substancial da vida. Sirva-vos tudo isso parasubir. Jamais atendais s tristes vozes dos planos inferiores, a no ser para aju-dar a sofrer e a subir.

    A lei de ascenso moral, conduzida atravs da bondade e do amor, a leido centro, que por ela sustm o universo.

    Relembro aqui as palavras de Goethe a Eckermann: Nenhuma produo deordem superior, nenhuma inveno jamais procedeu do homem, mas emanoude uma fonte ultraterrena. Portanto o homem deveria consider-la um dominesperado do Alto e aceit-la com gratido e venerao. Nestas circunstn-cias, o homem somente o instrumento de uma potncia superior, semelhante

    a um vaso julgado digno de receber um contedo divino. Sentiremos depois, mais de perto, o incndio daquelas sublimaes de esp-

    rito, pelas quais se passa da fase de inspirao consciente de unificao ms-tica. Mas necessrio, antes, compreender e explicar racional e cientificamen-te o fenmeno. Antes de abandonar-se ao impetuoso lirismo da viso, neces-srio seguir o fenmeno em cada uma de suas manifestaes, apreendendo-oem sua realidade nua, com as tenazes do analista. Cumpre, antes de tudo, dar

    completa satisfao razo.

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    Na evoluo do fenmeno medinico, do plano fsico ao plano psquicoinconsciente e depois ao consciente, at unificao mstica com a fonte, anota fundamental a progresso de conscincia e de interveno da vontade,concomitante a uma desmaterializao, na qual se encontra uma progressiva

    conquista do fator moral, uma ascendente realizao de acrisolamento espiri-tual, uma transformao do peso especfico, que se faz cada vez mais livre emais leve. Todo o vasto fenmeno da evoluo da mediunidade se conjuga,assim, em suas zonas de desenvolvimento, atravs de caractersticas constan-tes. Enquanto a mediunidade de efeitos fsicos move-se prevalentemente porfora de causas barnticas5, apoiando-se na tcnica ectoplasmtica, e a me-diunidade intelectual inconsciente pode abrir-se por todas as portas, fazendo-se rgo de recepo de todo pensamento, desde o mais nobre at o mais vil,

    assistimos aqui a um processo de progressiva purificao do fenmeno e domdium. Na recepo inspirativa consciente, o fator moral, como tantas vezestenho insistido, ocupa o primeiro plano, constituindo no fenmeno msticono somente condio prevalente, mas tambm absoluta e irrevogvel, tantoque este representa o vrtice da perfectibilidade moral e religiosa. O fenme-no, assim, em suas mais altas maturaes, transborda alm dos limites daspossibilidades e da competncia da cincia, no campo da f e da religio. Paramim, todavia, no existe antagonismo, a no ser de relatividade de perspecti-vas e de unilateralidade de pontos de vista. Devemos, contudo, elevar a cin-cia ao nvel da f e empreender, sem transviar-nos, a penetrao nos domniosdo supersensrio. chegada a hora de carem para sempre, assim como caemtodas as coisas ultrapassadas, estes antagonismos entre cincia e f, hoje des-titudos de sentido, porque filhos de vises unilaterais e de momentos histri-cos superados, relegados ao passado.

    O fenmeno mstico deixa para trs assim, na via das ascenses humanas,

    os fenmenos medinicos, dos quais, embora se origine neles, liberta-se com-pletamente, como se pode ver. Ingressamos, ento, em um campo supermedi-nico, embora resultante do medinico. Nestas superiores fases, s quais ofenmeno ascende, intensificando-se e libertando-se, ingressamos numa zonade extrema purificao.

    5Neologismo formado de elementos gregos: baros (gr. bros, ous) pesado, denso, e ontos(gr. n, ntos)ser, entidade. Barnticas: provenientes de espritos de constituio densa (enti-

    dades inferiores). Esse problema de correntes barnticas amplamente explanado no livro AsNores, do mesmo autor (N. do T.).

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    Ainda no pude elevar a nveis mais altos, pelo menos at hoje, minha ca-pacidade de penetrao. Parece-me haver tocado o vrtice de minhas possibili-dades e do meu sonho de realizaes humanas.

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    IV. A CATARSE MSTICA E O PROBLEMA DO CONHECIMENTO

    O fenmeno mstico pode ser tambm concebido, na sua mais amplaacepo, como um momento das ascenses espirituais humanas. Ele inclui,

    portanto, o problema do conhecimento e pode ser considerado, como o con-sidero, uma verdadeira tcnica de pensamento e mtodo particular de indaga-o, dotados de superlativo rendimento. Alhures, j insisti nestes conceitos,quando do estudo do fenmeno inspirativo. Prosseguindo a anlise do mes-mo fenmeno, em suas fases superiores, natural que aqueles conceitos tam-bm encontrem aqui seu ulterior desenvolvimento.

    a evoluo do esprito que traa e supera os limites do conhecimento, si-tuando-o diversamente em seu progredir, at ao ponto no qual a unificao

    com a fonte de emanao, que encontramos no vrtice do fenmeno mstico,torna-se tambm unificao, numa nica verdade humanamente absoluta, dosdivergentes aspectos sob os quais se contempla o relativo. Assim, s diferentesfases da evoluo espiritual correspondem diversos graus de conhecimento ediferentes aproximaes de revelao da verdade.

    Nos albores de sua vida espiritual, o homem no sabe elevar-se alm dasimediatas consequncias de suas impresses sensrias. Seu julgamento se de-tm, ento, na superfcie dos fenmenos, limitando-se a uma interpretaoemprica e desconexa, que simplesmente projeta, no cosmo, as reaes de seupequeno mundo interior.

    Num mais avanado momento, a conscincia, ao atingir um grau de ama-durecimento maior, como vem acontecendo at hoje no seio da civilizao,quer dar-se conta do valor das prprias reaes e, por isso, no apenas procu-ra, mas tambm exige uma verdade menos aparente e mais substancial, indoao encontro dos fenmenos com o olhar objetivo do observador, e no mais

    exclusivamente com a fantasia do primitivo. Ela tem, assim, aprendido a ca-talogar fatos, coordenando-os segundo planos hipotticos e tentando desco-brir-lhes a lgica, para fixar a lei de progresso dos fenmenos e, com isso,chegar a estabelecer gradualmente os princpios, cada vez mais abstratos egerais, que regem o funcionamento orgnico do universo. Tal a presentefase cientfica. Diante do homem supersticioso, que se impressiona antes desaber observar, o homem moderno percebe, com toda razo, a sua superiori-dade e sente-se orgulhoso de no se deixar invadir por vos temores, diante

    de fenmenos cuja causa pode compreender com seu poder de anlise. E isto

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    Pietro Ubaldi ASCESE MSTICA 12

    j muito. O homem tem desenvolvido esta potncia arquitetnica que aracionalidade. Ela a capacidade para realizar as construes ideolgicas; o poder de escolha e de coordenao; a viso de relaes e unificao; ainduo, a deduo e a sistematizao que guiam para a reconstruo do pen-

    samento originrio da Criao.A cincia tem recolhido todas as pedrinhas do grande mosaico, procuran-do reconstruir o grandioso painel, sem, todavia, lograr nada mais do que de-linear uma simples figura. Trata-se de um longo caminho e de um mtodoextremamente prolixo, a tal ponto que pode ser considerado inadequado consecuo da sntese mxima. Evidencia-se, dessarte, a inpcia da cincia e,consequentemente, uma fundamental questo de mtodo, o qual, da formacomo concebido, nada mais pode ser do que um eterno caminhar, incapaz

    de atingir uma sntese.Da maturao evolutiva da conscincia humana decorre, porm, uma fun-

    damental mutao. Sinto por experincia pessoal e por observao de tiposhistricos do movimento das leis biolgicas, a verdade desta afirmao. Ofenmeno da catarse mstica representa uma to completa elevao da consci-ncia, que se lhe escancaram as vias do conhecimento. Este um importanteaspecto do fenmeno mstico, que estamos aqui estudando. Antes de enfren-tarmos seus maiores aspectos psicolgicos, ticos e religiosos, examinemo-lhesob a perspectiva cientfica e gnoseolgica.

    Os trs graus do conhecimento, dados pela fase sensria, fase racional-analtica e fase intuitivo-sinttica, correspondem aos trs tipos de homem ede conscincia por mim descritos em outra obra6, a saber: o homem vegetati-vo, fsico, sensrio e de ideao concreta, movido pelos instintos primordiaisda vida; o homem racional, psquico, nervoso e utilitrio, submetido edu-cao; o super-homem, dono de si, das foras da vida e do conhecimento. O

    fenmeno da ascese mstica representa a maturao biolgica deste novo tipode homem.Acontece agora, neste momento da evoluo humana, uma tal renovao da

    conscincia, que seus efeitos so incalculveis no campo psicolgico, mere-cendo, portanto, um exame particular. Trata-se de uma nova e autntica tcni-ca de pensamento, de uma completa reconstruo dos mtodos de pesquisa e

    6

    Em A Grande Sntese, cap. 78 AsVias da Evoluo Humana; v. tambm Cap. 37 Conscincia e Superconscincia. Sucesso dos Sistemas Tridimensionais (N. do T.) .

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    de orientao cientficas. Devo, por isso, retornar a esses conceitos, j prece-dentemente esboados7, para aqui lev-los mais alm, na continuao lgica deseu desenvolvimento. Devo retornar a eles porque, se, naqueles escritos, omtodo da intuio comeava a revelar-se na fase de mediunidade inspirativa

    consciente, aqui ele se manifesta plenamente na fase mstica, que lhe constituia continuao. Neste nvel de evoluo, est completa a maturao daquelemtodo, cujo rendimento se nos apresenta com plena eficincia.

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    V. As Nores, particularmente os captulos V Tcnica das Nores, e VI Conclu-ses. (N. do T.).

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    V. OBJETIVISMO E SUBJETIVISMO

    Ao enfrentar o problema gnoseolgico, partimos de princpios decisiva-mente novos no pensamento moderno. O conhecimento, creio, no se alcana

    com os mtodos chamados objetivos, de projeo para o exterior, mecnicos,iguais para todos e acessveis a todos, mas sim por mtodos subjetivos, deintrospeco, peculiares somente a determinados tipos de superconscinciaCreio que os limites do conhecimento sejam dados e medidos, prevalente-mente, segundo o grau atingido pela conscincia humana na escala da evolu-o psquica. Isto significa que a amplitude do campo fenomnico dominado condicionada extenso conseguida pelo eu em sua evoluo, que suapotenciao e dilatao. Eis a razo pela qual o fenmeno mstico, que a

    fase superior de evoluo do esprito, apresenta-se conexo com o problemado conhecimento e coincide com sua soluo.

    Coloco-me, assim, como antpoda da hodierna forma mental adotada pelacincia, ao mesmo tempo que, sobrepondo-me psicologia objetiva, elevopara os primeiros planos o subjetivismo.

    Indiquei, no princpio, o carter subjetivo deste escrito, que tambm atnica de toda a minha orientao psicolgica. Podero arguir-me de subjeti-vismo, como se isso fosse um defeito. A objeo, que pode ser global, insur-gindo-se contra a minha personalidade e contra o valor que atribuo ao mto-do da intuio, parece grave, mas no .

    Como pode a cincia racional opor-me, como defeito, a arbitrariedade dosubjetivismo e de suas bases intuitivas, quando ela mesma se funda sobre basesaxiomticas, igualmente intuitivas e arbitrrias, que ainda carecem de demons-trao? Os fundamentos daquele organismo conceptual, de onde pode proviresta acusao, embora sejam considerados absolutamente seguros, so axiomas

    gratuitos, de valor transitrio e extremamente relativo. Isto pode dar a algunsespritos autnomos a sensao de que o pensamento humano, em toda a suaesmagadora congrie de construes ideolgicas, filosficas e cientficas, mova-se sobre bases convencionais. No entanto a cincia ignora o que sejam, substan-cialmente, os fenmenos sobre os quais opera.Ela averigua e combina os efei-tos, pois suas experincias indicam que as coisas ocorrem deste e daquele modo,mas, por que causas e de que maneira isto ocorre, no o sabe. No campo abstra-to, se penetrarmos at aos bastidores desataviados da construo ideolgica e

    pusermos a nu o jogo com que se tece e desenvolve a cadeia do silogismo hu-

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    mano, verificaremos, subindo de concatenao em concatenao e de relaoem relao, que se deve necessariamente chegar ao ponto fixo de partida, pe-dra basilar de todo o edifcio. Ora, esse ponto fixo, justamente aquele pelo qual regida a construo e por cuja falta toda ela se esboroa, simplesmente um axi-

    oma do qual outra coisa no se sabe dizer, alm de que assim porque assim,e cuja demonstrao se reputa suprflua, pela simples razo de o declararemevidente. Assim, enquanto, para a aceitao de um pormenor, so exigidas milprovas, nada se requer para a aceitao do princpio-base, simplesmente porqueele j existe na qualidade de aceitao indiscutida na grande maioria humana.Ento a garantia dessa verdade fundamental confiada nica e exclusivamente aum fundo de intuio coletiva, que instintivamente apoia um mnimo de verda-de. Instintivamente e, portanto, fora de qualquer controle racional. Assim, dei-

    xando parte a cincia utilitria, vemos que a verdadeira cinciaabstrata, filo-sfica, matemtica, de contedo conceptualvolve e revolve, reincide e apoia-se toda ela sobre rudimentos de intuio. Intuies menores, mas seguras, garan-tidas somente pelo fato de se estenderem a um grande nmero de pessoas; ouintuies maiores, de gnios, videntes insulados, as quais so posteriormentedesenvolvidas, analtica e racionalmente, pela cadeia do raciocnio.

    H, pois, nas razes do pensamento moderno uma zona daquela arbitrarie-dade e daquela intuio, justamente das quais se viria a inquinar meu subjeti-vismo. O mtodo da intuio consiste apenas numa extenso do mesmo siste-ma comum a todo desdobramento ideolgico. Isto significa estender o mesmocontato intuitivo a todo o desenvolvimento, mantendo-se constantemente nosistema axiomtico, sem buscar apoio racional. Se o axioma o contato intui-tivo com o absoluto, estendo esse contato e o torno contnuo e universal. Nocondeno, pois, a cincia; considero-a, antes, como uma centelha de pensamen-to que se estende at ao ponto onde no est demonstrada e aonde no chega a

    sua atividade racional. Amplifico, assim, seus fundamentos num mtodo que,embora acessvel somente a quem, por evoluo, tenha-o conquistado, o ni-co que verdadeiramente pode atingir o conhecimento.

    O mtodo da intuio no aceito pela cincia positiva moderna, porque antiobjetivo. Ele rejeitado porque, enquanto o mundo fenomnico, segundo omtodo da observao e da experimentao, aproximadamente igual paratodos e suscetvel de ser entendido e construdo, o mtodo intuitivo, sendoextremamente pessoal e subjetivo, no possui fora para subir e elevar-se a

    uma altura maior do que a de uma interpretao pessoal.

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    Existe a uma ideia preconcebida, que, baseando-se na quantidade, admitecomo garantia da verdade a simples extenso numrica do juzo. D-me isto aideia de cegos que se do a mo, para guiarem-se reciprocamente. Ora, o re-sultado da observao exterior , se no total, pelo menos parcialmente igual

    para todos, porque, sendo exterior, est conjugado apenas forma mais sim-ples de percepo sensria, a qual, por ser a mais rudimentar, tambm amais difusa e fundamental no mundo biolgico. O valor da objetividadeapoia-se, portanto, somente na extenso de uma identidade de juzo, que ,por sua vez, filha de uma identidade de construo fisiolgica, nervosa e ps-quica. A objetividade, ento, revela-se tanto mais evidente, quanto mais pri-mitiva a estruturao sensria da qual ela depende, como se d primeira-mente com o tato (e sabemos quo ilusria esta indiscutvel realidade sens-

    ria em face da constituio cintica da matria), depois a vista, o ouvido etc.Pode-se dizer ento que ela funo direta da inferioridade do nvel evoluti-vo, pois o ser, necessariamente, quanto mais evolve, tanto mais penetra, gra-as lei de diferenciao, no subjetivismo.

    Ora, o mtodo objetivo, embora apresente a vantagem de chegar a conclu-ses e interpretaes mais universais, parece construdo, por sua natureza, pre-cisamente para permanecer aderente, sem poder super-las, s aparncias maisexteriores, s estruturas e interpretaes fenomnicas mais rudimentares e su-perficiais. Esta unidade de juzo uma vantagem apenas aparente, pois noapenas nos deixa na superfcie, mas tambm tende a nos reconduzir semprepara o relativo, o particular, no constituindo, absolutamente, uma unidade deorientaes e de concluses, nem fornecendo uma universalidade de concep-es capaz de alcanar a substncia das coisas. O objetivismo nasceu fatal-mente sem asas. Com efeito, a cincia hodierna incapaz de construir um sis-tema que contenha a explicao de todos os fenmenos e que evidencie, por

    meio deles, o funcionamento da lei universal.O mtodo objetivo , em suma, a negao do mtodo da penetrao naprofundeza e na substncia das coisas, parecendo-me quase um lastro queintercepta e detm em baixo, automaticamente, as vias do conhecimento,sendo capaz de resultados utilitrios, mas impotente em face de resultadosmais profundos. O valor da objetividade reside inteiramente nesse consensohumano, que certamente no contm a chave do absoluto, nem pode ser to-mado como medida das coisas. O nico e verdadeiro consenso est na voz

    dos fenmenos, a qual somente o subjetivismo intuitivo sabe ouvir e fazer

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    ouvir, fazendo-a emergir do silncio do mistrio. No pode deixar de nascer,no nimo de quantos hajam ouvido esta voz, uma confiana em outras pro-vas, que no so aquelas fornecidas pelos sentidos e pelos instrumentos, nemaquelas estabelecidas pela aceitao da normal psicologia humana.

    Mas no tudo. O mtodo objetivo baseia-se totalmente sobre um erro fun-damental de situao, que lhe impede a penetrao conceptual dos fenmenos.Esse erro consiste na distino entre o eu e o no-eu, entre o sujeito e o objeto,entre a conscincia e o mundo exterior. Sobre esse individualismo, filho do ego-smo, baseia-se toda a psicologia cientfica hodierna. Ora, faz-se mister admitirque as duras necessidades da psicologia de luta imposta pela vida no podem serdefinitivamente superadas. Enquanto, no mtodo intuitivo, a conscincia, fazen-do-se humilde, mas sensvel, logra transportar-se, por vias interiores, do seu

    ntimo ntima essncia dos fenmenos, no mtodo objetivo, a conscincia,permanecendo autnoma e volitiva, no apenas suprime sua sensibilidade e su-foca a voz dos fenmenos, mas tambm, chocando-se contra eles, sem penetr-los, detm-se na superfcie, na forma, no tocando seno aparncias e iluses. Opensamento de Deus, que est no ntimo das coisas, retrai-se quando enfrenta-do com uma psicologia de dvida e de violncia, no entanto revela-se esponta-neamente a quem se aproxima com amor e f. Tal a lei da vida.

    O objetivismo , pois, filho de um preconceito, resultando de um fundamen-tal instinto humano. Que valor ter ele, ento, ao ser transportado para a atmos-fera rarefeita da concepo? da que procede essa orientao psicolgica dedestruio. A distino entre sujeito e objeto no somente separatismo quedistancia, cavando um insupervel abismo de incompreenso entre observadore fenmeno, mas tambm verdadeiro antagonismo, porque a observao partejustamente da negao e da dvida, para tomar como garantia de verdade exa-tamente a desconfiana, opondo-se confiana e f, condio na qual se as-

    sume uma atitude mental que fecha, a priori, todas as vias de comunicao.Com essa psicologia de agresso e negao, no se pode chegar seno des-truio conceptual, obtendo apenas trevas e silncio diante do mistrio.

    O mtodo do subjetivismo e da intuio oposto ao mtodo do objetivismo.Enquanto o segundo distancia, diverge e separa, o primeiro aproxima, convergee unifica. O subjetivismo verdadeiramente o mtodo que, demolindo comple-tamente o dualismo do mtodo objetivo, realiza a unificao conceptual.

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    VI. O MTODO DA UNIFICAO

    Como, ento, resolveremos o problema do conhecimento? neste ponto que, de novo, ele se conjuga e se funde com o fenmeno da

    ascese mstica, porque o mtodo da unificao pode manifestar-se apenasquando a evoluo da conscincia atinge a fase mstica. Nesse plano ocorre ogrande fenmeno da unificao, que aprofundaremos a seguir. Isto no podiadeixar de ter reflexos e repercusses tambm no campo gnoseolgico. A evo-luo altera os mtodos e dilata a conscincia. Assim como a psicologia racio-nal absorvida na expanso da psicologia intuitiva, processo pelo qual se pas-sa da fase lgico-cientfica fase que poderemos chamar inspirativa, a intuiotambm continua e completa-se na unificao conceptual, dando-se o mesmo

    com a recepo inspirativa, que continua e completa-se, como veremos, nafuso unitria dos dois termos dessa recepo.

    Uma vez atingido esse pice, desaparece na conscincia o dualismo do m-todo objetivo. Aproximam-se ento os dois termos: sujeito e fenmeno; a dis-tncia reabsorvida at desvanecer-se; solda-se a ciso; o dissdio entre osdois antagonismos sanado; abre-se a compreenso. Em relao a este fen-meno da unificao, ocupamo-nos aqui somente do que dele se reflete no pro-blema do conhecimento. Quando a conscincia, na catarse mstica, no apenasse comunica quase radiofonicamente com a fonte norica, como na mediuni-dade inspirativa, mas tende tambm, por um processo que examinaremos, asobrepor-se e identificar-se com a prpria fonte, ento o contato to ntimo eintegral, que se adquire espontaneamente o conhecimento, mediante um novosentido de viso, no qual a verdade transborda de todas as categorias da razo,cujos esquemas racionais se reduzem ento a uma priso insuficiente para con-ter os conceitos. A conscincia transcende os confins da lgica, trazendo uma

    sensao de imensa dilatao, pela qual o pensamento humano abalado emsua base, numa revoluo e renovao to completas, que seus fundamentospermanecem incompreensveis e inadmissveis para quem no os tenha expe-rimentado. A compreenso existe, na verdade, em funo da amplitude e pro-fundidade do campo de conscincia e de seu grau de sensibilizao.

    Para resolver o problema do conhecimento, necessrio atingir a universa-lidade do eu. Faz-se mister escancarar, mediante um ato de f e de amor, me-diante um senso de completa submisso, as portas da alma e projetar-se fora de

    si, para que o infinito nela penetre. Certamente, este um comportamento no-

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    vo na hodierna psicologia, contudo ele necessrio consecuo de resultadosnovos. Somente a identificao do eu com o fenmeno pode permitir a dilata-o do primeiro at aos limites do segundo. Assim, quando o fenmeno setornar o universo, a expanso do eu no ter limites, como no os tem a Divin-

    dade. O amplexo de almas abranger o infinito. Atiram-se fora ento as velhasmuletas da observao e voa-se. somente atravs da evoluo do sujeito, pormeio de renovaes de conscincia, que se podem obter superamentos tosubstanciais. Resolve-se ento o problema do conhecimento. Neste novo modode ser, o conhecimento est implcito; a verdade revela-se automaticamente,por viso; a sntese apresenta-se espontnea, simples e completa. So deixadaspara trs a observao sensria e a presumida segurana objetiva, como mto-dos rasteiros, inadequados, incapazes de verdadeira sntese; so abandonadas

    as tortuosas vias da razo, para conquistar uma nova sensao do verdadeiro,direta, imediata e exauriente. A viso verdadeira e palpitante; a concluso, jno mais oriunda de uma fatigante destilao cerebral, vivente; nela o uni-verso vibra e exulta de pensamento e de ao.

    Com a dissoluo do separatismo da fase egostica na unificao da fase al-trustica, caem as barreiras do dualismo do mtodo objetivo. A verdadeira nicae radical soluo do problema do conhecimento s pode ser obtida mediante atransferncia da conscincia para um plano superior de evoluo. O problemafilosfico no pode ser insulado nem resolvido independentemente da realidadebiolgica e psquica. Ele reside na personalidade humana e com ela avana, nopodendo progredir seno como um momento do progresso desta. necessrioromper o crculo dos impulsos instintivos, bem como os vnculos da psicologiaracional e das concepes habituais. Assim como o mistrio da unificao naascese mstica, a conquista do conhecimento tambm um fenmeno natural,que se desenvolve segundo uma tcnica prpria de desenvolvimento.

    Ento, ao surgir a viso, aparece entre as duas formas de pensamento aracional e a intuitivaum dualismo psicolgico. Trata-se de duas vises dife-rentes, sendo que a maior compreende a menor, mas a menor no compreendea maior. Quem estiver fora desta realidade mais elevada ir tom-la segura-mente por iluso, at que a conquiste por evoluo. Considera-se irreal o queest fora da prpria experincia. Os dois olhares atingem profundidades diver-sas e, consequentemente, veem da mesma verdade aspectos diferentes. Seronecessariamente distintos os dois pontos de vista, devido a uma questo de

    incompreenso, porque as duas conscincias so diversas e a extenso das re-

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    cprocas sensibilidades a nica medida do respectivo cognoscvel. Todavia,se a psicologia superior pode penetrar a inferior, mas no ocorre a recproca,esta ltima, ainda que a negue, no pode deixar de voltear em torno da outra,movida por um vago pressentimento da verdade, por um desejo que, incessan-

    temente, clama na alma desvendar o mistrio. Pois que a treva no satisfaz vista, nem o silncio ao ouvido, nem a ignorncia ao intelecto, e ningum podesimplesmente negar ou sentir-se satisfeito com a realidade que possui, semjamais desejar realizaes sempre mais amplas. A incompreenso do ignototambm constitui um vago tormento, que estimula a sair dele.

    O mtodo da unificao contm em si os elementos para compensar seusubjetivismo, que pode parecer seu ponto fraco. Como poderemos compensara pluralidade das concepes e a dissonncia das contradies que derivam de

    tal subjetivismo? A prpria filosofia, precisamente a, onde o pensamento,elevando-se e abstraindo da simples averiguao objetiva, chega a ser necessa-riamente subjetivo, um mar de inconciliveis divergncias, que desorientamo esprito, dando sensao de ser absurda a pesquisa da verdade. No entanto averdade una. Ser, ento, incapaz de atingi-la o subjetivismo divergente?

    Foi exatamente assim, como reao a tudo isso, que a cincia se mutilou naobjetividade de compreenso, a fim de alcanar uma verdade igual para todos.Mas evidente que o conhecimento ganha em profundidade e potencialidade, medida que passamos do mundo exterior ao interior. No baixando-se aoprimeiro, mas sim elevando-se ao segundo, que se ganha em verdade. pre-cisamente a, quando mal nos separamos da superfcie sensria e progressi-vamente nos aproximamos da ntima substncia, que comea o subjetivismo,com sua variedade e divergncia de expresses individuais. As vias do conhe-cimento esto na subjetividade, enquanto as vias da subjetividade conduzemao separatismo intelectual, que parece distanciar-se da unidade do conheci-

    mento. A conquista da verdade deve, portanto, atravessar e saber conciliaresta contradio. Uma verdade igual para todos no pode ser seno uma ver-dade de superfcie. A procura de uma realidade mais profunda conduz di-vergncia. necessrio, portanto, saber primeiramente compreender e, de-pois, coordenar e reorganizar aquela divergncia.

    natural mudarem-se as apreciaes medida que subimos, porque, en-to, desperta e movimenta-se cada vez mais o eu pessoal, no mltiplo indivi-dualismo em que se reflete a unidade do absoluto. Este permanece simples e

    monista, sem nada perder de seu carter unitrio, exprimindo-se na infinita

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    variedade do relativo. Como j vimos e devemos recordar aqui, o eu queconcebe um relativo e est em evoluo.

    preciso, ento, superarmos essa divergncia e reconstruirmos a unidadeda substncia. necessrio no nos intimidarmos em face dessa aparente

    inconciliabilidade, dessa dissonncia de interpretaes, mas sim nos empe-nharmos, atravs da coordenao das expresses do relativo, em reconstruir atrama unitria do absoluto. A ciso est na manifestao humana, no nasubstncia. Se reorganizarmos os reflexos particulares, reconstruiremos osaspectos da nica luz. Da fuso das vises unilaterais sair um mosaico quenos fornecer os delineamentos do modelo divino. As variadas intuies dosubjetivismo se escalonaro por amplitude e profundidade; as verdades rela-tivas se coordenaro, as menores atrs das maiores, at s mais abrangentes e

    mais puras aquelas que mais tenham-se avizinhado da substncia e hajamconseguido torn-la de maior transparncia. Elas sero consideradas comodiferentes jatos de luz, cada um dos quais representando o sinal de uma lin-guagem eterna e infinita, a palavra de um sermo divino; sero consideradassucessivas aproximaes da alma humana, que ascende entre trevas e lutas,ao longo do mesmo caminho da verdade, do relativo para o absoluto, da an-lise para a sntese, galgando por seu prprio esforo as vias da unificao.Tomar-se- ento, por unidade de medida e ndice de verdade, no a objeti-vidade ou o juzo do nmero, mas sim o grau de purificao do ser, que, emsua evoluo, aproxima-se de Deus.

    Deixe-se tambm florescer em mil formas o jardim da intuio. Cada flordiversa ser igualmente bela e exprimir uma revelao. Ver-se- ento que,na essncia, cada flor, em sua variedade, traduz a mesma eterna beleza e cantaa mesma infinita sapincia. A flor mais perfeita e mais pura nos falar doce-mente, com transparncia mais evidente; a mais rude e primitiva mal saber

    balbuciar. Una, porm, a palavra, porque unos so o plano da criao e opensamento de Deus. Ento, atravs da multiplicidadebela, porque ricadosubjetivismo, espontaneamente se regressar unidade, na qual o separatismose reunifica e o eu, sem destruir-se, funde-se novamente no Todo, como cola-borador que se deu a si mesmo para a reconstruo do grande edifcio do co-nhecimento. Nessa altura, ver-se-o coincidir na profundidade, no mesmo cn-tico, que a voz de Deus, as cindidas intuies pessoais.

    Ento esta multiplicidade e diversidade de juzos nada mais do que o n-

    dice assinalador da distncia entre a intuio e a fonte central nica. Quanto

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    mais perfeito torna-se o ser, tanto mais sensvel e potente torna-se o instru-mento conscincia e tanto mais evidente torna-se a unidade conceptual doverdadeiro. A dissonncia das contradies , pois, devida unicamente aoembaamento do espelho refletor, sendo dada pelo grau de impureza do meio

    receptivo. As cises nas concluses indicam o grau de corrupo do pensa-mento e a distncia que tal degradao cava entre este e Deus. A harmonia,que perfeita no Centro, corrompe-se medida que se afasta na imperfeiode ressonncia da periferia. E a ignorncia humana, que irradia desordem, ainvoluo que gera o caos.

    Existe, portanto, soluo para o problema: basta progredirmos, a fim desuperarmos a zona das primeiras desordenadas aproximaes da intuio.Encontraremos ento, espontnea e automaticamente, a unidade do verdadei-

    ro. Somente a evoluo, e unicamente a evoluo, pode dar-nos e nos darnecessariamente a unificao. Somente pela evoluo se pode passar da igno-rncia ao conhecimento, da separatividade unidade. A involuo trevaque divide, a evoluo luz que unifica. Na involuo, emudece-se a verda-de, sufocada no meio denso, que no permite transparncias. A evoluocoordena, reorganiza, harmoniza e, com isto, reabsorve as divergncias, tor-nando mais evidente a realidade do verdadeiro.

    No se deve, portanto, condenar e abandonar o subjetivismo intuitivo, massim faz-lo evolver, purific-lo, conduzi-lo sempre mais para o alto, at re-encontrar nele a unidade. Assim ele permanecer sempre a via mestra doconhecimento. Coordenar, pois, as atuais intuies, para reconstruir a verda-de, mas, acima de tudo, subir, fazendo evolver a conscincia, a fim de apro-ximar-se da verdade. necessrio subir tambm por humildade de corao,por pureza de intenes, por sublimao de paixo. necessrio, para fazerevolver a conscincia, atravessar a catarse mstica, que est no centro deste

    estudo. Num corao corrompido no pode nascer outra coisa alm de lin-guagem soberba, de v sabedoria, de dissdio, de confuso, de incompreen-so. Eis as estreis logomaquias de alguns filsofos.

    Una e simples a verdade. Mas, para v-la toda, em sua unidade e simpli-cidade, importa saber alcanar-lhe a altura; no se pode pretender traz-lapara baixo, para nosso nvel humano, sem inquin-la e falsific-la. A verda-de, a soluo dos mistrios, a viso do pensamento de Deus no se conse-guem mediante poderosas argumentaes, por laboriosas pesquisas ou atra-

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    vs de prepotncia de lgica e de razo, mas seguindo as vias das ascensesdo esprito, que so as da catarse mstica.

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    VII. ESTRUTURA DO FENMENO MSTICO

    Falei de mediunidade, de metafania. Falo agora de misticismo, consideran-do-o, em suas formas, o ndice e o expoente mais ostensivo desta evoluo

    espiritual, que o problema central de todo o meu estudo, como o de minhavida. Diante destas consequncias, levadas at ao campo dos mtodos para aconquista do conhecimento, pode ser evidenciada e averiguada a importnciade tais questes, uma vez que to gigantescas repercusses se projetam at nocampo prtico de problemas de orientao conceptual, to graves, tormentosose ainda hoje no solucionados.

    Superados esses corolrios de ndole filosfica, nos quais me tenho detido,no s por sua importncia intrnseca, mas sobretudo para melhor enquadrar o

    fenmeno mstico no conhecimento moderno e justificar-lhe a tcnica de pen-samento em face da psicologia racional, retomemos agora, mais particular-mente, a anlise de seu desenvolvimento e metas conclusivas, dentro do mbi-to traado na definio de ascese mstica, dada no princpio do Cap. III.

    A soluo do problema do conhecimento mais no do que um aspecto datransumanizao que se realiza na ascese mstica, a qual consubstancia toprofunda transformao do ser, que chega a mudar e resolver todos os pro-blemas humanos. Quando o esprito chega a esse nvel, desaparece o simplesfenmeno da unificao, que aqui no somente uma tcnica de pensamento,mtodo para atingir o conhecimento, mas constitui uma transumanizao dapersonalidade, uma reabsoro do distinto no todo, da conscincia na Divin-dade. Ento, a simples recepo norica torna-se viso e xtase, j no sendoapenas uma comunicao de pensamento, mas sim uma expanso total do serem todas as suas capacidades. Para muitas psicologias, esse campo estarsituado na zona do superconcebvel.

    Para compreender o fenmeno mstico, necessrio reconstitu-lo desde oprincpio, orientando-o, antes de tudo, no seio da fenomenologia universal.Trata-se de um fenmeno psicolgico, resultante da evoluo biolgica, que,partindo das superadas fases orgnicas, prossegue nas superiores fases de evo-luo espiritual. Constitui, portanto, fenmeno universal, logicamente situadono desenvolvimento da lei de evoluo, sendo natural, necessrio e insuprim-vel. Tem carter supranormal, mas somente em sentido relativo, com refern-cia atual posio evolutiva da conscincia humana. , como o so todas as

    culminncias, pouco comum, pouco visvel e dificilmente concebvel para os

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    que se encontram nos baixos planos da medocre normalidade atual. Vemo-lo,com efeito, surgir em todos os tempos e em todos os lugares, de um a outroextremo da histria e do mundo. Cada tipo intelectual lhe imprime, segundosua especfica diferenciao, a nota particular de sua personalidade, plasman-

    do-o, transformando-o e adaptando-o a si, sua raa e ao seu tempo. Mas ofenmeno subsiste como momento integrante das leis da vida. Parece fatalque, no limiar desta, ele deva apresentar-se, como numa grande curva de suatrajetria, no pice da evoluo humana, chegada ao momento de sua mais altamaturao. Nada, pois, de miraculoso, de excepcional ou de gratuita e arbitr-ria concesso do cu. Em todos os fenmenos, sobretudo naqueles que se ele-vam para Deus, sentimos cada vez mais a presena de uma ordem, de umajustia, de uma harmonia divina. Isto no significa falta de f e de religio,

    mas simplesmente seriedade, positividade, conformidade com a justia.Expliquei cientificamente, em A Grande Sntese, na teoria da evoluo

    das dimenses8,como o esprito humano, por evoluo, ascende da atual fasede conscincia para a fase de superconscincia, que a primeira dimenso dosucessivo universo trifsico, no qual evolui o atual, trino em seus planos dedesenvolvimento: matria, energia, esprito. Certamente, o ingresso da psi-que humana nesta nova dimenso do ser, aqui j absolutamente supermaterialou supersensria, para ela um fato to novo e grandioso, que a simplesapresentao no limiar da nova dimenso e do novssimo modo de ser bastapara dar-lhe profunda sensao de vertigem, como sucede a quem se debruasobre o abismo do mistrio. Este parece feito de trevas, mas no passa de uminexplorado mar de novas sensaes.

    Mais adiante, exporei o fenmeno em termos de sensao tal como o vi-veram tantos msticos, em concordncia com as linhas fundamentais formana qual eu mesmo o tenho vivido e que objetivamente descreverei. Como te-

    nho dito, opero a anlise de realidades para mim experimentais, deduzidas noapenas de outrem, mas sobretudo de minha observao.Antes, porm, de abandonar-me ao mpeto lrico do momento mstico, devo

    expressar-me aqui em termos de cincia e de razo, expondo a possibilidadelgica do fenmeno, de modo que ele se torne racionalmente admissvel atpara os que, no o tendo tocado por evoluo, sejam incapazes de senti-lo e,portanto, no estejam aptos para entend-lo, a no ser nos termos de sua psico-

    8A Grande Sntese, Cap. XXXIV a XXXVII (N. do T.).

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    logia racional. Poderemos assim analisar e compreender, com a moderna for-ma mental da cincia, um fenmeno que parece relegado s mais altas e ina-cessveis zonas do espiritualismo e das religies. Ele aparecer, portanto, emsua realidade nua, no como um privilgio ou concesso do Alto, nem como

    um monoplio particular, mas sim na sua real natureza, como uma via aberta atodos os homens de boa vontade. Aparecer qual ele , ou seja, como um fe-nmeno exato e objetivo, cuja lei possvel traar, como faremos, e cuja veri-ficao se pode fazer naturalmente, todas as vezes que dele se apresentem ascondies determinantes. Sua ocorrncia no se d pela interveno de capri-chosas vontades extracsmicas, mas sim pelo normal desenvolvimento funcio-nal do universo, em seus mais elevados planos. Reconstruamos, pois, atravsda observao a lei do fenmeno.

    Para assim proceder, reduzamo-lo sua mais simples expresso, focali-zando a essncia de sua estrutura vibratria. Vibrao significa, no mundohiperfsico em que ora ingressamos, o verdadeiro modo de ser, a qualidadefundamental, capaz de individuar a forma em tipos especficos nitidamentedefinidos. Vemos isto, por exemplo, nas ondas hertzianas. Os seres situadosno plano fsico, onde vivem na forma orgnica de um corpo material, distin-guem-se uns dos outros pelas qualidades deste invlucro, pelos limites dadimenso espacial em que ele est situado, pela sua impenetrabilidade, bemcomo pelas suas caractersticas sensrias. Mas h, indubitavelmente, formasde existncia hiperfsicas, de conscincia supersensria, livres do invlucroorgnico. Quando passamos do organismo fsico, regido por um princpiodinmico, ao organismo de estrutura exclusivamente dinmica, no qual ocorpo j no constitudo de matria, mas apenas de energia, a individuaoespecfica pessoal, aquela que distingue, no pode mais ser dada pelo corpo epor suas caractersticas fsicas. Ento, o fator individualizante o tipo de

    vibrao que constitui a manifestao de vida do ser, a peculiar forma deenergia segundo a qual ele se agita, so as caractersticas da onda pelas quaisse define essa vibrao.

    Em tal forma de vida esto situados e se manifestam no s o esprito de-sencarnado (to mais definidamente, quanto mais, por evoluo, estiver li-berto de seus invlucros mais densos), mas tambm aquela parte do homemque pura conscincia ou esprito (to mais claramente, quanto mais conse-guir superar a zona barntica das paixes inferiores e atingir os superiores

    planos de evoluo, ainda que seja em especiais estados metafnicos). Neste

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    ponto, o eu existe, ento, somente na forma daquele dinamismo, superandoas dimenses espao e tempo.

    J explicamos, na Tcnica das Nores9, como pode ocorrer a comunica-o entre centros puramente psquicos (naquele caso, corrente de pensamento

    e conscincia do mdium). Isto se d graas ao fenmeno da ressonncia,que lei universal de repercusses at no campo acstico. J vimos que essefenmeno a base da transmisso e recepo norica e que, para ele se veri-ficar, os dois termos transmissor e receptor devem entrar em sintonia,harmonizando-se segundo o mesmo ritmo vibratrio. Vimos ainda que ne-cessria uma comunho de vibraes. Se estas forem semelhantes, poderocoincidir e sobrepor-se, porm, se forem dissemelhantes, no haver resso-nncia e, portanto, nenhuma sintonia, tornando-se impossvel a comunicao.

    E temos, de fato, colocado a afinidade como condio necessria para atransmisso e captao norica.

    As conscincias ou espritos so, portanto, semelhantes ou dissemelhan-tes pelas caractersticas vibratrias. No nvel fsico, dois ou mais seres quevibram perfeitamente em unssono, sentindo-se como um s, por instintos,sentimentos e pensamentos, permanecem, todavia, inexoravelmente distintospor sua constituio humana, sem qualquer possibilidade de se sobreporeme coincidirem. Porm, se lhes suprimirmos os invlucros, eles parecero e setornaro o que realmente so como conscincia, ou seja, um ser nico, sempossibilidade de distino. Se os situarmos em suas posies de espritos,eles se confundiro no mesmo tipo de vibrao, de modo anlogo maneirapela qual duas notas idnticas, emanadas de duas fontes diversas, formam omesmo som. Eis por que, muitas vezes, torna-se difcil a assim chamadaidentificao espiritual, justamente porque, em mais altos planos, j no temsignificao o conceito de personalidade em sentido humano. Nestas zonas

    de evoluo espiritual, os seres se ligam por ressonncia, numa forma deexistncia coletiva, existindo em forma de correntes de pensamento. Porisso, to logo imergimos nessa atmosfera conceptual da evoluo, encon-tramos nores, e no individualidades separadas, como nos induziria a supora analogia com o mundo humano.

    Na descrio da tcnica da recepo norica j estavam contidos os germesdeste desenvolvimento. Assim como o fenmeno inspirativo evolui e se com-

    9 No volumeAs Nores, Cap. V (N. do T.).

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    pleta no fenmeno mstico, a simples comunicao norica tambm se comple-ta, aqui, na identificao de conscincias, que constitui uma unificao de per-sonalidades. No campo acstico, o fenmeno de ressonncia, que havamostomado como ponto de partida daquela tcnica, dado justamente por uma afi-

    nidade dinmica, por uma identificao de modo de ser, por uma superposiode individuaes. A sintonia sempre a base do mesmo fenmeno em continu-ao, pois a harmonizao a sua lei, segundo a qual se chega, primeiro, co-municao, que o centro do fenmeno norico, e, depois, unificao, que o centro do fenmeno mstico. Ento, as duas conscincias, vibrando em uns-sono, ou seja, existindo numa forma idntica, perdem toda nota distintiva, paraadquirirem um tom de identificao, fundindo-se na mesma unidade.

    Todo fenmeno mstico se realiza, portanto, mediante um processo de atra-

    o, que tende a encurtar as distncias decorrentes da diversidade, suprimindoas diferenas, e que contm um mtodo para a conquista da afinidade, a fim dechegar unificao. Trata-se de um processo de amor, que, constituindo a co-luna central do edifcio da evoluo, a grande mola da ascese mstica. Nomundo espiritual, os seres que entoam a mesma nota e emitem a mesma luztornam-se a mesma msica e o mesmo esplendor; os seres que se movem se-gundo o mesmo tipo dinmico fundem o seu movimento, unificando-se, poisso a mesma conscincia.

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    VIII. COROLRIOSF E RAZO

    Estas simples afirmaes nos oferecem a chave do fenmeno da ascesemstica e dos respectivos corolrios espirituais. Vibrao, ressonncia, sin-

    tonizao, afinidade, unificaoso as suas fases lgicas e evidentes. Maisno alto, teremos, como j disse na Tcnica das Nores, equivalncias supe-riores da vibrao, embora seja idntico o princpio. Quando se pensa que, naascese mstica, o segundo termo verdadeiramente a Divindade, pode ima-ginar-se desde j quo vertiginosa exaltao de conscincia pode aquela as-cese representar para a personalidade humana que a empreende. Segue-seimediatamente da que a ascese est nas vias do aperfeioamento espiritual,segundo o modo mais elevado, e que os vrtices das conquistas morais lhe

    so a meta natural e necessria.Os msticos falam sempre de Deus e de amor, de unio, de npcias espiritu-

    ais da alma com Deus. Vemos funcionar a todo o mecanismo vibratrio dopensamento, dos sentimentos e das paixes, cumprindo-nos, aqui, chegar racio-nalmente explicao dessa nomenclatura e psicologia, que eles no explicam.

    Atravs de sinais positivos e negativos, vemos formarem-se simpatias e an-tipatias, harmonias e dissonncias, atraes e repulses. A esto as grandesforas do amor e do dio, que se encontram nas bases da vida.

    A ascese um fenmeno de evoluo e, portanto, de harmonizao e uni-ficao, mas sobretudo de amor. Na ascese mstica estabelece-se esta corren-te de atrao tanto entre o alto e o baixo como entre o baixo e o alto, condi-o na qual revelado, em termos de razo, o maior mistrio, que a descidado amor de Deus at ao homem. Veremos que maravilhoso jogo de luzesespirituais nascer desses fenmenos. O princpio de sintonizao e de afini-dade impe o processo de purificao, gerando a necessidade de fazer o v-

    cuo em baixo, no mundo da matria, o qual relegado ao passado, a fim deque, em um nvel mais alto, haja espao para ceder-se vida. Nasce ento aluta interior da renncia, a fadiga da virtude, a dor que dilacera os vnculosdo esprito, o superamento das paixes, a destruio do euhumano e a res-surreio em Deus do eusuper-humano.

    O princpio vibratrio no qual se baseia o fenmeno nos induz a compreen-der as vias da libertao, fazendo-nos entender por que se devem guiar as pai-xes, em vez de destru-las, e por que necessrio alcanar-lhes o domnio,

    em vez de esterilizar-se na sua simples destruio. necessrio reconstruir a

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    vibrao que se detm, reconstruindo-a num movimento mais intenso, paraque seja vida, e no morte. necessrio transformar, reedificar, renascer con-tinuamente, afirmar vigorosamente. E direi mais, necessrio gozar, viver,amar no alto, e no apenas sofrer e morrer em baixo. O meu misticismo ale-

    gre, construtivo, dinmico. So absurdos certos misticismos conventuais, fei-tos somente de rida renncia, que nega, mata e destri, sem nada mais deixaralm do vazio. So absurdas certas contemplaes que, s vezes, encontramosno Oriente, as quais insulam o homem no seu egosmo de esprito e o segre-gam do mundo, sem torn-lo ativo agente do bem na vida de todos.

    Compreendemos assim o mecanismo da renncia e da conquista. Cada umse torna escravo daquilo que ama. Portanto, quando se trata de coisas materi-ais, o corao que se liga ao caduco e ao ilusrio condena-se a novos dilace-

    ramentos, at compreender e, assim, dirigir-se a metas mais seguras. o prin-cpio vibratrio, pelo qual se estabelece uma corrente de atraes entre os doistermos, o eu e o objeto de seu amor, que nos explica a gnese da ligao. Sopotncias sutis, porm reais, que depois preciso demolir. Real tambm ador. O homem vinculado, arrastado de todos os lados, tormentosamente, poresses liames imponderveis, criados por ele mesmo. Tambm aqui nos depa-ramos com os mesmos termos do fenmeno: vibrao, sintonizao, afinidade,unificao. E o nosso corao experimentar a sorte do objeto de sua unifica-o. A comunho de vibraes nos torna semelhantes ao que amamos: pe-seno alto o objeto, e a alma o serve. Eis a razo mecnica que nos explica a ne-cessidade de se desprender da terra, fazendo-nos compreender como os senti-mentos, as paixes e as atraes geram fuses que podem, segundo a naturezado objeto, tornar-se vnculos de alegria ou de dor.

    Compreendemos assim o fenmeno e o significado da f. Concebo a cons-cincia como uma unidade radiante o eu evolvido como nore, que tende

    perenemente difuso, dilatao de si mesma, constituindo centro de ema-naes contnuas. Como se rompe, ento, o crculo fechado da razo e se pene-tra no cu da intuio e da viso? Como se conquista, com os limitados meiosde uma dimenso conceptual inferior, o domnio da dimenso superior? Com af. A tcnica vibratria nos d a chave do mistrio.

    A razo objetiva. Quer, antes de crer, assegurar-se e, s debaixo de seucontrole, confiar. Mas o mtodo da prudncia e da segurana no o mtododo voo. Ressurge aqui o incessante antagonismo entre o mtodo do meu pen-

    samento e o do racionalismo cientfico, os dois em contnuo, estridente e in-

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    concilivel contraste. Todavia o primeiro o sistema dos msticos, dos gniosdo Evangelho, das grandes criaes do esprito, constituindo o modo que sebaseia no aperfeioamento do rgo central da concepo, a conscincia, fatofundamental, do qual a cincia se afasta. Se no rompermos, por evoluo, o

    crculo em que se fechou a razo, esta jamais sair dele e, impedida de evadir-se, retornar sempre sobre si mesma. E impossvel romper este crculo, a noser atravs da evoluo, mediante a introduo na conscincia de fatores no-vos, capazes de lhe dilatarem a potencialidade. F como se designa o atopsicolgico com o qual se introduzem esses fatores novos.

    Para que serve permanecer no campo da positividade e da segurana, se es-te to limitado e no oferece possibilidade de expanso? A verdade universalj est totalmente pronta e presente, escancarada diante de nossos olhos. O que

    nos compete fazer no cri-la, mas sim desenvolver a vista para v-la. Reto-ma-se, pois, todo o problema mediante uma transformao de conscincia.Esta chegar somente at zona na qual for capaz de existir, onde encontra,ento, uma barreira pacfica, mas inviolvel, que detm os imaturos, os indig-nos. A violncia destes, ento, torna-se impotente, pois a Lei coloca-lhes umvu diante dos olhos, mantendo a verdade fora do campo de sua conscincia.

    Cabe a cada um dizer: Cumpre-me saber subir qualitativamente, pois oconhecimento um estado vibratrio de sintonizao que se alcana pela har-monizao com as vias da bondade, pela ascenso espiritual. Portanto quem,em vez de seguir estas vias, colocando-se em estado positivo de confiana, noqual se estabelece a ressonncia, pe-se no estado vibratrio negativo de dvi-da e de desconfiana, que se afasta na dissonncia, fechar automaticamente,para si mesmo, as portas do conhecimento.

    Apliquemos sempre os mesmos conceitos: vibrao, ressonncia, sintoni-zao, afinidade, unificao. Por essas vias, o esprito consegue fundir-se

    tranquilamente na verdade. Ora, pode-se compreender que o problema do co-nhecimento, na sua essncia e integridade, consiste num problema de unifica-o entre o eu humano e a Divindade, constituindo um problema de ascesemstica, de revelao, porque, em nossa conscincia, aquela Divindade, sendolimitada somente pela nossa capacidade de conceber, entrega-se nossa almaapenas em proporo nossa potncia de harmonizao. Mas, quando atin-gida a sintonizao e completada a unificao, a verdade se torna ento umcntico divino, uma harmonia suprema, um incndio de amor, no qual a alma

    j no sente a si mesma como coisa distinta.

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    Esta concepo vibratria nos revela mecanicamente que no amor de Cristoreside a grande via das ascenses humanas. O Evangelho o mtodo da har-monizao universal. Nele, como em nenhuma outra parte, transparece a Di-vindade, na sublime poesia do Seu amor. Trata-se justamente da transparncia

    que se conquista na ascese mstica.Se nos pusermos em posio de resistncia, num estado vibratrio fechado,como se nos recusssemos a subir, ento ns mesmos nos deteremos e nos pri-varemos da recepo amplificadora que desce das correntes vivificantes difusasno todo. A razo para isso est no fato de formarmos um crculo de foras fe-chadas, um egosmo conceptual que no sabe ultrapassar a si mesmo, no se dpor simpatia e no conhece as vias de atrao vibratrias, que levam fusocom o no-eu e, portanto, sua dilatao at ele. Necessrio se faz subjugar

    este equilbrio e reconstru-lo em mais alta e completa forma, embora mais ins-tvel e, no obstante, mais dinmica. E a f o primeiro salto para frente.

    Num duvidoso tormento, tenho interrogado o mais profundo de mim mes-mo, dizendo-me: Como posso eu confiar-me a um impondervel que em mimainda no existe e ao qual devo eu mesmo criar?. E o profundo me tem re s-pondido: Cr, porque somente a tua f, base dos impulsos ascensionais, tor-nar objetivas e tangveis aquelas realidades mais altas que hoje te escapam.

    No se trata de f louca, do credo quia absurdum10, desesperada capitula-o da razo, que, sem embarao, pretende ser sempre a nica a falar, atmesmo fora de seu campo. Extinga-se esta para sempre, dobre-se em suas ex-presses caricatas e permanea fechada em seu mbito, como rainha, mas sempretender outros reinos. A f no uma renncia s faculdades de pensar, co-mo pode parecer a quem seja incapaz de atingir esse nvel; ela antes um es-tado de graa, que v e conhece por outras vias, conservando em si a sua ale-gria infinita; uma doao em que nada se perde, porque quele amor e quela

    confiana responde o universo, retribuindo com novas doaes. Ela no ce-gueira seno para os cegos, porque naquela cegueira se abre a viso e se reve-lam os cus, fazendo surgir fulgurante o pensamento de Deus.

    A f, portanto, um ato criativo por excelncia, que acompanha a realidadeem formao e que, voluntariamente, pode e sabe antecipar os futuros estadosda evoluo. Dentro de ns, em nossa profundeza, j reside o germe dos infini-

    10 Creio porque absurdo. Frase de origem desconhecida, diz Paulo Rnai. Possivelmente

    adaptao de palavras de Tertuliano. Impropriamente atribuda a Santo Agostinho, essa expres-so define a f em oposio razo, conforme conceito generalizado na Idade Mdia (N. do T.).

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    tos desenvolvimentos do divino. Faz-se mister aliment-lo em nosso ntimo,devendo ser nossa a primeira impulso. H no eu a potncia de levantar esseseixos dinmicos, ampliando-lhes como turbilhes de foras, para atrair e assi-milar infinitas correntes universais. Com a f, podemos crer antes de sentir,

    afirmar antes de conhecer, querer antes de ser. Absurdo, diro. No entanto assim que sentimos, conhecemos e existimos, voando com antecipao ondeoutros caminham. Da emerge uma criao, impossvel de outra forma. Des-sarte, com antecipao, forma-se o estado vibratrio e excita-se-lhe a resso-nncia que, amplificando-se em contnua vibrao, nos transportar ao modode vida daquele plano, aonde queremos subir, e que nos transformar nele.

    Assim como o Sol uma torrente de luz e fora que se irradia por toda par-te, mas cuja utilizao e valorizao se verifica somente quando incide sobre

    um germe receptivo, Deus tambm uma torrente de pensamento e de energi-as que frutifica somente quando recolhido pela ressonncia de uma almapreparada. A fonte um todo, e dela fluem no s conhecimento, mas tambmbondade, ao e poder. Contudo o euque, mediante um ato de f, deve abriros braos, escancarar as vias da absoro conceptual e dinmica em todas assuas modulaes, executar o trabalho de projetar-se para aprender, cingir eassimilar. Fecundado assim pela divina ressonncia e nutrido dessas respostas,o estado vibratrio ir estabilizar-se e formar a aptido, a qualidade, o modoespiritual de ser, que depois se fixar com a repetio, tornando-se hbito, ins-tinto, necessidade. Assim o influxo divino representa uma potncia eternamen-te ativa na obra da criao.

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    IX. DIAGRAMA DA ASCENSO ESPIRITUAL

    Para penetrar mais profundamente no problema da ascese mstica, retome-mos os conceitos j expostos, fixando-os, tanto quanto possvel, em um dia-

    grama. Dessarte, poremos em evidncia, graficamente, o fenmeno em suaslinhas mais expressivas, para obtermos sua definio em forma mais sinttica eintuitiva, com uma estrutura grfica que nos dar a sua tcnica funcional. Te-mos colocado o fenmeno da ascese mstica no seio do fenmeno da evoluo,como sua parte integrante e central.

    Assim, a ascese mstica se projeta sobre o fundo grandioso do maior fen-meno do universo. Temos visto como o princpio vibratrio, individuando oesprito, permite a sintonizao por ressonncia e como, pela estabilidade desta

    em um estado de afinidade, ele guia o ser ao ltimo termo da ascensoa uni-ficao com Deus. Portanto, no seio da evoluo, quando esta chega sua su-perior fase espiritual, a ascese mstica o fenmeno em marcha progressivapara a unificao. Procuro, assim, guiar gradativamente o leitor compreensoracional e, depois, sensao deste supremo vrtice de ascenses ao qual estpresa minha alma. Nesta concepo, atinjo o conhecimento por sintonia comcorrentes noricas, operando com o mtodo da intuio.

    Observemos o diagrama anexo, para explicar-lhe o significado e o desen-volvimento, imaginando constru-lo qual efetivamente ele surgiu em minhamente (Fig. 1).

    O diagrama exprime, por coordenadas ortogonais, a lei de variao da evo-luo em funo do tempo. Mais exatamente, temos gradaes de evoluosobre o eixo vertical das ordenadas e gradaes de tempo sobre o eixo hori-zontal das abscissas. Por tempo, entendo no a dimenso temporal, que, nassuperiores zonas de evoluo, superada, mas sim o ritmo do transformismo

    fenomnico, que fato universal e subsiste por toda parte, qual passo assinala-dor do caminho do eterno vir-a-ser. Especificaremos mais adiante quais so osgraus de evoluo.

    Desta condio resulta um V de progressiva abertura, cujos ramos sotangentes aos crculos sobrepostos. Supondo a coordenada vertical, indicadorada evoluo, repetida mais direita e elevada ao longo dos centros dos crcu-los, teremos um diagrama simtrico, cuja metade direita se repete na metadeesquerda, nos lados da referida linha, aparecendo na forma muito mais expres-

    siva de um V que se abre para o alto.

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    A srie dos crculos e tangentes que se repetem lateralmente exprime a re-petio do fenmeno no seu andamento em individuaes idnticas e contem-porneas, expressando-as no mesmo mbito de desenvolvimento. Esta repeti-o do diagrama em casos colaterais necessria para estabelecer as relaesentre as vrias individuaes do fenmeno.

    Figura 1

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    Pietro Ubaldi ASCESE MSTICA 36

    A progresso ascendente dos crculos simplesmente um diagrama inseridono precedente, contendo os mesmos eixos de desenvolvimento, cujas coorde-nadas poderiam repetir-se, partindo do centro de cada uma das sucessivas cir-cunferncias. Obtemos assim a expresso no s do desenvolvimento interno

    do fenmeno, compreendido na abertura coniforme das duas tangentes diver-gentes, mas tambm da causa determinante desta abertura, definida pela pro-poro na qual se ascende para as mais altas esferas da evoluo. Compreen-der-se- este diagrama interno, observando-se que ele simplesmente exprime aprogressiva abertura de uma espiral, cujo centro, por comodidade de observa-o e de evidncia de expresso, desloca-se progressivamente para o alto, aolongo do mesmo eixo, recordando-nos exatamente o desenvolvimento da traje-tria tpica dos motos fenomnicos (Fig. 2)11,aplicado e repetido neste caso

    particular, com o supracitado deslocamento de centros. evidente, com efeito,que tambm este particular fenmeno da evoluo de conscincia ou asceseespiritual, o qual estamos estudando aqui, deva manifestar em sua linha espiri-tual a mesma trajetria tpica tomada como expresso abstrata e universal doandamento de todos os fenmenos. Assim, o diagrama da figura 1 apresenta amesma progressiva cobertura de zonas (tracejadas), como no diagrama da fi-gura 2 (porm, nesta, em forma concntrica), indicando, tanto num como nou-tro desenho, as zonas sucessivas de expanso do fenmeno.

    Esta a explicao analtica que, no entanto, na sua originria fase intuiti-va, foi em mim instantnea. Vejamos agora o significado destes sinais. Temos,pois, trs diagramas fundidos conjuntamente: o primeiro dado pelas duaslinhas divergentes em forma de V que se abre para o alto; o segundo dadopela abertura da espiral com cobertura de sucessivas zonas, o que exprime aexpanso do fenmeno (seu aspecto dinmico), permitindo a um tempo fechar-lhe e isolar-lhe as vrias fases (aspecto esttico); o terceiro dado pela repeti-

    o lateral dos dois diagramas precedentes, o que permite estabelecer as rela-es entre os vrios casos e, assim, transformar o simples fenmeno individualem fenmeno coletivo. Trplice , pois, o significado do diagrama, que, pri-meiramente, exprime a ascenso do ser ao longo dos vrios planos de evolu-o; em seguida, traduz a correspondente dilatao (espiritual) de conscincia(zonas tracejadas); por fim, apresenta a progressiva superposio de individua-

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    ConfronteA Grande Sntese, Cap. XXVI A trajetria tpica dos motos fenomnicos, e afig. no 1 deAs Nores (N. d