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    Resumo: O artigo analisa repercusses de uma poltica curricular de apelo ao trabalho colaborativo entre professores, desenvolvida na transio do sculo XX para o sculo XXI em Portugal, nos efei-tos que gera ao nvel da articulao da ao docente e nos modos da sua sustentabilidade. Para a obteno de dados recorreu-se a entrevistas semiestruturadas que permitiram conhecer opinies de professoras e da diretora de uma escola de ensino bsico da regio do Porto envolvida nesta poltica, bem como de acadmicos de uma universidade portuguesa com formao em Cincias da Educao que tambm a vivenciaram. A anlise do contedo dos discursos destes entrevistados revelou que a medida poltica que ocorreu no final do sculo XX promoveu um aumento do trabalho colaborativo entre os professores desta escola e uma cultura institucional que tem garantido a sua sustentabilidade, apesar das polticas curriculares desta segunda dcada do sculo XXI apontarem para um afastamento de prticas docentes colaborativas.

    Palavras-chave: trabalho colaborativo entre professores, polticas curriculares, polticas pblicas, educao bsica

    The collaboraTive work beTween Teachers in Their daily school rouTine: condiTions for iTs exisT-ence and susTainabiliTy

    Abstract: The article analyses repercussions resulting from curricular policies focused on collabora-tive work between teachers developed in Portugal over the 1990s and 2000. The data was collected by semi-structured interviews that allowed knowing the views of teachers and the head teacher of a primary and lower secondary school in Porto, Portugal, as well as two researchers in Education, who

    * CIIE Centro de Investigao e Interveno Educativas, Faculdade de Psicologia e de Cincias da Educao da Univer-sidade do Porto (Porto, Portugal).

    ** IFSul Instituto Federal Sul-Rio-Grandense (Rio Grande do Sul, Brasil).

    O TRABALHO COLABORATIVO ENTRE OS PROFESSORES

    NO QUOTIDIANO ESCOLAR Condies para a sua existncia

    e sustentabilidadeCarlinda Leite* & Carmem Lascano Pinto**

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    experienced this policy. The content analyses of these interviewees discourses revealed that curricular policies in Portugal, at the turn of the century, increased collaborative work between teachers and improved its sustainability, although the curricular policies in the 2010s have distanced themselves from collaborative work.

    Keywords: collaborative work, curricular policies, public policies, primary and lower secondary education

    le Travail collaboraTif enTre les enseignanTs dans la vie scolaire quoTidiennes: les condiTions pour son exisTence eT dveloppmenT durable

    Rsum: Cet article analyse les rpercussions dune politique curriculaire invitant les enseignents un travail collaboratif lors de la transition du XXe sicle au XXIe sicle au Portugal. Cette analyse est centre sur les effets produits au niveau de larticulation de laction de lenseignement et sur les raisons de sa durabilit. Pour obtenir des donnes, des entretiens semi-structures ont t realiss. Ces entre-tiens ont permis de connatre lopinion des enseignants et de la directrice dune cole primaire de la rgion du Porto implique dans cette politique, ainsi que celle des universitaires diplms en Sciences de lducation par une Universit Portugaise qui ont galement vcu cette politique. Lanalyse du contenu du discours des participants indique que la mesure politique qui a eu lieu la fin du XXe sicle a favoris une augmentation du travail collaboratif entre les enseignants de cette cole, ainsi quune culture institutionnelle qui assure sa prennit, malgr les politiques curriculaires de la deuxime dcennie du XXIe sicle, qui tendent scarter des pratiques de lenseignement coopratif.

    Mots-cls: travail collaboratif entre les enseignants, politiques curriculaires, politiques publiques, du-cation primaire et secondaire

    Introduo

    A aluso importncia do trabalho colaborativo (TC) em inmeras reformas educativas e polticas pblicas que ocorreram em vrios pases desde a dcada de 1990, chegando mesmo a ser referida como condio essencial para o sucesso de algumas delas, parece indicar o reco-nhecimento do papel central dos professores, enquanto coletivo, na consolidao das mudanas educativas institudas pelos governos (Popkewitz, 1998; Prez Gomez, 2001). Estas polticas tm apontado para processos de descentralizao de poderes de deciso curricular e para a atribuio de maior autonomia s escolas e aos professores. Nos seus fundamentos, estas polticas apoiam--se na crena de que o TC tem potencial para fomentar o desenvolvimento profissional docente e assim promover a melhoria do servio educativo prestado. Pelo contrrio, s polticas que se alinham pela lgica dos sistemas de organizao burocrtica fundados em critrios de eficin-cia externamente impostos tm sido atribudas situaes de competitividade e de resistncia

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    vivncia de um trabalho verdadeiramente colaborativo, capaz de reconstruir as culturas escolares tradicionais (Prez Gomez, 2001). De facto, quando os pressupostos de algumas medidas polti-cas no so apropriados ou quando no so proporcionadas condies para a sua concretizao, so reveladas outras faces deste apelo organizao do coletivo escolar, em muitos casos vindo a reforar o isolamento e o individualismo (Leite & Pinto, 2014).

    Na pesquisa de que este artigo d conta feita uma anlise sobre as repercusses de polticas curriculares que ocorreram em Portugal na transio do sculo XX para o XXI que se apoia-ram no trabalho colaborativo entre professores com o objetivo de promoverem uma educao escolar que favorecesse a aprendizagem de todos os estudantes , e feita a sua confrontao com a situao que est a ocorrer nesta segunda dcada do sculo XXI. Por isso, o artigo apre-senta e interpreta estas polticas na sua relao com os efeitos gerados no trabalho colaborativo entre professores.

    Uma breve apresentao das polticas de cunho colaborativo ocorridas em Portugal no final do sculo XX

    No final dos anos 1990, o Ministrio da Educao (ME) portugus, atravs do Departamento de Educao Bsica, props s escolas deste nvel de ensino uma poltica curricular de participao voluntria que tinha como princpio considerar as escolas e os seus professores como configu-radores do currculo (Leite & Fernandes, 2010), isto , com um papel central na recontextuali-zao (Bernstein, 1990) do currculo prescrito a nvel nacional. Para esta participao voluntria as escolas tinham de apresentar um projeto de escola, alinhado aos princpios definidos no Despacho n 4848/97. Esta poltica pblica denominada Projecto Gesto Flexvel do Currculo (PGFC), e que se enquadrou na inteno governamental de apoiar as escolas na construo da sua autonomia, assumiu que o recurso ao trabalho colaborativo entre os diversos intervenientes das escolas geraria um currculo mais adequado a cada contexto e contribuiria para melhorar a aprendizagem dos alunos.

    Com estes objetivos, no que refere organizao curricular, era sugerido que o projeto tivesse em conta as especificidades de cada escola e de seu grupo de alunos, assim como da comuni-dade escolar circundante. Aos projetos curriculares de escola associar-se-iam projetos especficos para cada turma, com a inteno de se concretizar um trabalho mais integrado entre os profes-sores, capaz de proporcionar uma articulao horizontal e vertical dos contedos curriculares (Leite, 2012), alm da apropriao de uma cultura de projeto pelas comunidades escolares.

    Trs reas curriculares no disciplinares, designadas por rea de Projeto, Formao Cvica e Estudo Acompanhado, foram institudas no PGFC que antecedeu a reforma curricular de 2001.

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    Com estas reas pretendia-se que cada escola configurasse um projeto educativo diferenciado e articulado, gerador de uma formao integral dos distintos alunos. Na rea de Projeto consolida-vam-se os projetos de turma concebidos pelos alunos, apoiados por professores, na inteno de desenvolverem competncias de planeamento e de interveno. Na Formao Cvica visava-se promover nos alunos o desenvolvimento de competncias transversais, essenciais ao convvio em sociedade e fundamentais para a formao integral de cidados responsveis, crticos, ativos e socialmente comprometidos com as questes polticas, econmicas e culturais que afetam as comunidades e o pas. Nesse espao curricular poderiam ser tambm geridos os assuntos e problemas relativos turma, como um todo, atendendo s caractersticas, interesses e expectativas diferenciadas dos alunos. O Estudo Acompanhado tinha o objetivo de ensinar os alunos a estudar. Neste sentido, esta poltica pblica destacou-se pelo seu carter inovador e pelo potencial que o recurso ao trabalho colaborativo podia gerar nas aprendizagens dos alunos, pois permitia ter em considerao a diversidade cultural existente nas comunidades educativas portuguesas.

    A adeso ao PGFC foi gradual, comeando apenas com dez escolas (em 1997) e ampliando--se a 184 aps quatro anos. Em 2001, valorizando as experincias e a produo de conhecimento conseguida com o PGFC, o Ministrio da Educao concretizou uma Reorganizao Curricular do Ensino Bsico (RCEB), consagrada no Decreto-Lei n 6/2001. Esta alterao curricular foi aplicada a todas as escolas pblicas de educao bsica portuguesa.

    Passados mais de dez anos do perodo em que essas polticas foram implementadas, novas alteraes ocorreram, mas agora deslocando o foco da ateno curricular para os resultados esco-lares e para a avaliao do desempenho docente (Fernandes, 2005, 2011; Leite, 2006), embora os documentos governamentais ainda contenham resqucios dos discursos das medidas vigentes nessa transio para o sculo XXI.

    O trabalho colaborativo entre professores: o que apontado por alguns estudos

    O trabalho colaborativo1 entre os professores tem vindo a ser considerado uma mais-valia quando apropriado pelas instituies educativas, nomeadamente pelas possibilidades que oferece

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