jornal cidadão (edição 31)

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  • Jornal-laboratrio produzido pelos alunos de Jornalismo da Universidade Cruzeiro do Sul - Ano IX - Nmero 31 - Agosto de 2008

    Mulheres que tm filhos deficientes lutam por direitos bsicos eainda precisam lidar com o preconceito. Vera de Camargo no conseguiu

    que seu filho, portador de atraso de desenvolvimento psicomotor, fosseatendido em nenhuma instituio, e decidiu fundar a Associao Mantenedora

    de Mes Especiais (AMME), que h nove anos presta assistncia a pessoas comdeficincia. Pgina 7

    O Hospital e Maternidade Leonor Mendes Barros,localizado no Belenzinho, considerado um centro dereferncia na coleta e estocagem de leite materno. De-senvolvido pelo governo estadual, o programa dosBancos de Leite Humano (BLH) faz a coleta de leiteexcedente de mes em perodo de amamentao paraatender recm-nascidos e bebs com problemas cau-sados pela falta de leite. Pgina 5

    Mes especiais

    O Clube Atltico Juventus, localizado na Mooca, o pioneiro no futebol femini-no do pas. Desde 1982, o clube tem revelado muitos talentos, como Thais Duartee Ingrid Carolina, que garantiram vaga no Mundial Feminino Sub-17, que ser rea-lizado na Nova Zelndia entre 28 de outubro e 16 de novembro de 2008. Pgina 8

    Elas so motoristas, policiais, engenheiras. Enfrentaram o preconceito e hojedisputam vagas antes destinadas exclusivamente aos homens. Mas ainda h muitopara ser conquistado: em geral, elas recebem salrios inferiores aos dos homens edemoram mais tempo para conseguir emprego. Pgina 4

    Luta desigualLuta desigual

    Meninas de chuteiraMeninas de chuteira

    A motorista delotao LuzaMagno Miranda

    Treino dofutebol femininono Juventus

    Leite salvador

    A cada ano, cresce o nmero de mulheres que sesubmetem a cirurgias plsticas no Brasil. A queda nospreos e a facilidade no pagamento so alguns dos atra-tivos. Os mdicos alertam que, antes de fazer qual-quer tipo de cirurgia, a interessada deve pesquisar eescolher uma clnica de sua confiana. Algumas mu-lheres acreditam que, ao fazer uma plstica, possvelter um corpo igual s modelos de revistas. Pgina 6

    Mulheres no crime

    Corpo perfeito

    De acordo com o Departamento PenitencirioNacional (Depen), nos ltimos seis anos a popula-o carcerria feminina aumentou cerca de 50%. Asdrogas esto entre os principais motivos dos roubose furtos cometidos por mulheres que, em sua maio-ria, tinham um emprego regular quando cometeramo delito. Pgina 2

    Paulo Medeiros

    Taila de Farias

    Seme Amaral

    EDIOMULHER

  • PGINA 2 - AGOSTO DE 2008

    POLCIA

    Elas tambm cometem crimesPolticas de encarceramento no evoluem no mesmo ritmo do registro de delitos

    Knia Honda

    PREO Mulheres pagam caro pelos erros cometidos no crime

    Knia Honda

    A mulher vem conquistandoimportantes espaos na sociedadebrasileira, inclusive nos ndices decriminalidade. As violaes, normal-mente por roubo ou furto, tmcomo um dos principais motivosas drogas, delitos sem tanta gravi-dade, mas que deixam um rastrode sofrimento.

    Segundo dados do Departa-mento Penitencirio Nacional (De-pen), pouco mais de 5% da popu-lao carcerria composta pelo sexofeminino. primeira vista, umdado sem tanta importncia, masconsiderando o crescimento de cer-ca de 50% dos ltimos seis anos,podemos perceber que no futuroessa estatstica ser bem maior, poisno existem medidas de recupera-o especficas. Apesar da diferena,elas so expostas s mesmas condi-es disciplinares que os homens.

    Os motivos so muitos e, deacordo com o psiclogo HlioBraunstein, as drogas esto em pri-meiro lugar. Cerca de 60% das en-

    trevistadas por ele assumem que jforam ou so usurias de algum tipode entorpecente ou de bebidas al-colicas, sendo que a maconha amais utilizada. Em segundo lugar,est a influncia de amigos e apenasem terceiro, o dinheiro, pois apesarde profisses de baixa valorizaosocial, a maioria estava empregadaquando cometeu o delito.

    Braunstein, em sua tese de dou-torado pela USP, com o ttulo Mu-lheres encarceradas, passou mais deseis anos na Penitenciria Femininado Butant colhendo dados. L, elepde perceber a predominncia dejovens entre 19 e 29 anos, sendoque quase 85% possuem at o ensi-no fundamental como nvel de es-colaridade.

    Suas pesquisas mostram diasrotineiros, cercados de regras, o so-frimento ntido. Segundo ele, ra-ramente se vem comportamentosmais alegres. De acordo com umasecretria (que preferiu omitir a iden-tidade), que passou dois meses napriso, as principais dificuldades soa saudade dos familiares, a m ali-mentao e os rigorosos horrios.Eu tinha que dormir cedo, s 17horas, comenta ela. Apesar daslembranas ruins, elas no apreci-am as visitas, pois no querem queos filhos as vejam presas.

    O psiclogo diz que o encarcera-mento uma das realidades que en-volvem a condio da mulher emnossa sociedade e esta realidade estcada vez mais presente. A preocupa-o agora fazer com que as tarefasde reeducar, ressocializar e reintegrarsejam realizadas de forma eficiente,o que, de acordo com suas pesqui-sas, no est ocorrendo. Elas mos-tram que instituies prisionais noso capazes de atender esses termos,pois tratam isso de forma minimi-zada, descontnua e improvisada.

    Jornal-laboratrio do Curso deComunicao Social (Jornalismo)da Universidade Cruzeiro do Sul

    Ano IX - Nmero 31 - Agosto de 2008Tiragem: 3 mil exemplares

    Telefone para contato: 6137-5706

    ReitoraSueli Cristina Marquesi

    Pr-reitor de GraduaoCarlos Augusto Baptista de Andrade

    Pr-reitor de Ps-graduao e PesquisaLuiz Henrique Amaral

    Pr-reitor de Extenso e Assuntos ComunitriosRenato Padovese

    Coordenador do Curso de Comunicao SocialCarlos Barros Monteiro

    Professores-orientadoresCeclia Luedemann, Dirceu Roque de Sousa,

    Flvia Serralvo, Luciana Rosa e Valmir Santos.

    EDITORIAL

    A mulher carrega consigo in-meros esteretipos passados de gera-o para gerao, mas em meio a issoela criou foras para lutar por seusdireitos, batalhas travadas dia-a-diaque foram tomando grandes propor-es at mudar conceitos hoje vistoscomo antiquados. O direito ao voto, aplula, a insero no mercado de tra-balho foram passos cruciais para suaafirmao e reconhecimento nos maisdiversos setores da sociedade.

    Por isso, nesta 31 edio do jor-nal Cidado, teremos a mulhercomo tema principal. Ao seu redor,os assuntos abordados sero variados,deixaremos um pouco de lado esta ima-gem de frgil, submissa e daremos lu-gar mulher moderna que, mesmo emmeio a dificuldades, busca e conquis-ta seu lugar.

    Nesta idia, os alunos do 6 se-mestre de Jornalismo da Unicsul fo-ram s ruas procura de histrias einformaes pertinentes. No umarotina fcil. So mes que enfrentamtudo e todos para dar melhores condi-es de vida aos seus filhos to espe-ciais, alm de se preocuparem com osdemais. A solidariedade torna-se umato natural no s com estranhos,mas tambm com aqueles que vivemlado a lado, enfrentado problemas desade que deixam marcas eternas.

    O futebol ganhou espao com asjogadoras brasileiras premiadas comoas melhores do mundo, mas ainda hmuito que evoluir, pois grande parteda populao ainda desconfia da boaqualidade delas no esporte, o que noas impede de continuar e provar o con-trrio, assim como no mercado de tra-balho, onde elas ignoram o preconcei-to e ocupam cargos importantes, an-tes dominados pelos homens, obtendosucesso e respeito profissional. Exem-plo disso so a policial Cristina Ric-ciarelli, a engenheira Marianne Ben-cini Silva e a motorista de lotaoLuza Magno Miranda, entrevista-das nesta edio.

    Destaque tambm para as cam-panhas de doao de leite materno e acriao dos bancos de leite humanopara atender mes com dificuldadespara amamentar seus filhos.

    Neste dia-a-dia maante, algumasmulheres acabam se desviando e fa-zendo parte de uma minoria poucoconhecida: as que cometeram algumtipo de delito - os motivos so vrios eas histrias, surpreendentes, que fe-rem esta imagem de fragilidade.

    Mas em meio a tudo isso elas nodeixam de lado a vaidade, caracters-tica prpria e companheira insepar-vel. Bom, assunto o que no faltapara este ser to enigmtico.

    Boa leitura.

    Ningumnasce mulher,

    torna-se mulherSimone Beauvoir

    Quando um crime justifica outroFui investigada, assumi o que fiz, no neguei nada a ningum e no me arrependo

    Aos 79 anos, Maria Isabel(como prefere ser identificada) nosconta o que a fez matar seu padras-to na sua juventude. Nascida numapequena cidade da regio sul, pr-xima divisa com o Paraguai, elaficou rf de pai ainda na adoles-cncia. Sua famlia passou por mui-tas dificuldades. A me casou-se no-vamente e quando tudo parecia me-lhorar um golpe de violncia trans-formou de maneira trgica o desti-no de Maria Isabel.

    Aos 16 anos, ela passou a sermolestada sexualmente pelo pa-drasto: Ele casou com ela e come-aram os abusos, mas eu no con-tei para ela... ele era bom para ela,no deixava faltar nada em casa...tive medo de contar e ela se separardele e ns voltarmos a passar difi-

    culdades...Porm, no foi possvel susten-

    tar essa situao e aos 18 anos elaresolveu relatar para sua me o queestava passando com o padrasto:Ela no acreditou em mim e meexpulsou de casa... eu no tive esco-lha, virei prostituta num cabar...

    O padrasto de Maria Isabel erafreqentador da casa onde ela tra-balhava. Depois que saiu de casa,descobriu que ele passou a violen-tar sua me e tomou conhecimentodos crimes cometidos por ele comoutras seis mulheres antes de se ca-sar, inclusive com a prpria irm.Era um homem extremamente vio-lento e abusava de suas amigas pros-titutas tambm. Numa noite, eleusou tanto sexualmente minha mee bateu tanto nela que ela caiu doen-te numa cama. Depois daquela noi-te, ela nunca mais andou, diz.

    Como se no bastasse tudo quej havia passado, tomar conhecimen-to desses fatos levaram Maria Isa-bel a premeditar o assassinato dopadrasto para dar um fim na situa-o que alimentava sua revolta.Conviver