Confissoes de Aurelio - Completo

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Romance filosfico-espiritualista publicado em 2015.Autor: Leonam Rocha

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Leonam Rocha Leonam RochaIlustrao da CapaArtur BicalhoProduo EditorialTasa Siqueira taisasiq.blogspot.com.brRevisoHelton Gonalves de SouzaRocha, LeonamR672cConfsses de Aurlio / Leonam Rocha. Belo Horizonte: Do autor, 2015.395p.ISBN: 978-85-918894-0-21. Fico brasileira. I. Ttulo.CDU 869.0(81)-3FICHA CATALogRFICAElaborao: Helenice Rgo dos Santos Cunha CRB 1461Nota ao leitorRendemoshomenagemaAurlioAgostinho,maisconhecido comoSantoAgostinho,queviveuentre354e430d.C.Erahomemde notveis virtudes, um inquieto, um buscador espiritual, e por fm encon-trou na Igreja o recanto de seus anseios. Fez-se bispo de Hipona, na fri-ca romana. Suas obras correram o mundo, rendendo importantssimos frutos espiritualidade catlica. Escreveu suas famosas Confsses livro que fgura entre os mais editados do mundo ocidental em 397 d.C., e contribuiuenormementeparaconsolidaraautobiografacomogne-ro literrio legtimo e de profundidade introspectiva. Seu nome jamais ser apagado da Histria. Estudiosos o chamam de o ltimo homem da Antiguidade, aquele que, por seu exemplo de vida e legado intelectual, rematou a arquitetura do homem da ento nascente Era crist. Rendemos homenagem e pedimos: Santo Agostinho, rogai por ns. No mais que isso. Zelamos mormente pelos passos dos presentes caminhantese,maisainda,pelodestinodosvindouros,defnidosas-sim: os que tateiam e ainda tatearo no escuro, garimpando solues para os desafos dos novos tempos.Entre os homens susceptveis de serem acolhidos pelaFilosofia,creiodistinguircomoquetrs espcies de navegantes. A primeira daqueles que, tendo chegado idade em que a razo domina, afastam-se da terra, mas no demasiadamente. Com pequeno impulso e algumas remadas chegam a fixar-se em algum lugar de tranquilidade, de ondemanifestamsinaisluminosos,pormeio deobrasrealizadasnaintenodeatingiro maior nmero possvel de seus concidados, para estimul-los a virem ao seu encalo.Santo Agostinho, A vida feliz(Dedicatria a Mnlio Teodoro)9Acordei. Era cedo, era muito cedo. Tinha sede. Mal havia aber-to os olhos, mas sabia que tinha sede, uma sede fora do comum, inten-sa,tointensaqueeupareciadispostoabebervinagreouqualquer coisa que aliviasse. Saltei da cama num pulo e fui at a janela. Vendo a cidade espreguiar-se naquele fnal de madrugada, percebi que uma frase ressoava meio solta em meus pensamentos: Pai, por que me aban-donaste?Fiqueicomaimpressodequetinhaescutadoaquilonodia anterior; mas, no. Seriam os resqucios de um sonho?Imagensvvidasaforaramemminhamente.Vitudodeuma svez.Umlugardesconhecido.Umtipoderitolitrgico.Euvestia branco e era cercado por pessoas estranhas e taciturnas. Minha roupa pareciaummandriodebatismocomumapombabordadanopeito. Nodesfechodaordenao,recebiumacordaeumofcioescritoem letras de ouro, mas, subvertendo totalmente a santidade do momento, algoinesperadoaconteceu:fqueitodeslumbradocomabelezadas letras que no li o texto. Quando dei por mim, eu j havia me amarra-Prlogo10 PRLOGO do a um madeiro rstico que marcava o centro do enorme salo, e, ao tentar consultar novamente as instrues do ofcio, sentindo-me inse-guro quanto ao que estava por fazer, deparei com um papel em branco jogado a meus ps. Meu corpo todo tremeu, no mesmo instante em que a longa tnica branca tingiu-se de vermelho-sangue. J com as vistas embaralhadas e a mente turva, ouvi minha voz quebrantada repetir o enigmtico clamor de Jesus no glgota. Eli, Eli [...].Arecordaodaquelesonhonofezmuitosentidoparamim, at porque nem pude refetir sobre seu signifcado. Enquanto ainda ti-nha aquelas imagens na cabea, a sede terrvel que me consumia piorou, tornando-se insuportvel. Tentei primeiro a geladeira. Desci meio litro de gua gelada diretamente do gargalo. Foi como se no tivesse bebido nada.Continueisentindoamesmasecuranagarganta.Ummal-estar, uma nusea. Debruado sobre a mesa do caf, chupei um cubo de gelo; nada.Euestavadesesperadoenomeapercebiademeusgestosani-malescos. Por fm, lembrei-me de ouvir dizer que gua gelada no mata sede e fui ao fltro de barro. Dois, trs, quatro copos, e nada.Inquietude talvez seja uma boa palavra para defnir o quadro psicolgico que se instalou a partir de ento. Angstia, tambm. Minha face, terrivelmente sinistra, no espelho tremulava sem vida.Aquele dia, o primeiro de outros tantos, foi o pior. Meu deses-pero aumentava a cada instante. Como compreender tamanha aberra-o? Que sede era aquela? A sensao era repugnante. Confuso, eu ten-tava me convencer de que estava sob o efeito do sono, tal como num pesadelo, ou sob o efeito de algum tipo de droga que, provavelmente, tinham colocado em meu copo na noite anterior; mas, no: eu estava defnitivamente acordado. S me faltava compreender o prenncio da metamorfose. CONFISSES DE AURLIO 11Eracedo,eosraiossolaresmalhaviamrompidoabrumada madrugada.Porm,logoqueatineiparaasquestesprticasdodia que estava por nascer, o relgio passou a correr mais depressa. Como faria no trabalho? Ser que as pessoas notariam alguma diferena em mim? Ser que conseguiria chegar at o escritrio, ou me espatifaria noprimeiromeio-foqueselevantassediantedemeuspserradios? Invadiu-meumsentimentodeimpotncia.osentimentoevoluiuem pnico. Eu provavelmente enfartava. Era o fm. Minhas vistas escurece-ram. Um aperto no peito, um n na garganta, uma pontada. Um grito. No! No segundo seguinte, eu ainda estava ali, via os mveis, o quadro abstrato na parede e uma mulher adormecida em meio a edredons.Se no vai por bem, vai por mal. Assim, a semana passou, en-quanto eu me deixava levar como quem sobrevoa o palco da vida ou tangencia a superfcie de um oceano. Aquela estranha sede no deu trgua.Algumaspessoasperguntaramseestavatudobemcomigo; outras, se era ressaca. Tudo dentro dos bons costumes. os brasileiros so cordiais. Minha namorada tambm no tocou diretamente no as-sunto, nem no primeiro dia nem nos seguintes, manteve-se compre-ensiva,emboranotenhadeixadodemanifestaralgumasopinies maisimediatasdotipogostoquandovocfazabarbaouesque-ceu-se de pentear os cabelos?; isto , embora no tenha deixado de exigir, com delicadeza, seus direitos de namorada. Fora isso, meu si-lncio foi respeitado.Uma, duas, trs semanas, o estado mantinha-se inalterado, mi-nha mente vagava alhures, as pessoas pareciam distantes. Na verdade, eunoconseguiapensaremmuitacoisa.Sentiaumvaziotenebroso. E a sede, muita sede, insuportvel, indescritvel, me castigava; melhor seria estirar-me sob o sol escaldante de um deserto. PRLOGO 12Inquietude.Porfm,chegueiaomeulimite.Nopudeconti-nuar. Pedi licena ao pessoal do trabalho e me tranquei em casa. No joguei a chave fora. Joguei dentro. Mas o mais terrvel era, a despeito do recolhimento, no ter para onde correr, porque, aonde quer que eu fosse,levavaminhasedecomigo.Somentequandochegueiaoponto de entrega total quando e somente quando me dei por vencido , vi uma luz brilhar em meu corao. Era uma esperana, no fnalzinho da madrugada, mais ou menos mesma hora em que semanas antes tudo aquilo tinha comeado. Da janela do meu apartamento, vi brilhar, pou-co acima dos arranha-cus da cidade, a estrela da manh. Vi a magia daquela estrela que, tal como me piedosa, irradiava suas bnos para um novo dia.Foi como se eu ouvisse uma voz me aconselhando a ter pacin-cia; uma voz que tambm me dizia para crer que sou amado incondi-cionalmente. Ento, com os medos e mpetos suavizados manso e re-signado , comecei a compreender o que estava acontecendo comigo, a comear por entender que eu no tinha de lutar contra a sede, e que, naverdade,ocasoeramuitomenosdelutadoquedeautoconheci-mento. Se havia algo ou algum querendo me derrubar, logo, seria ne-cessrio estar mais atento e consciente para no cair, apensa isso. Pela primeira vez, aps tantos dias de desespero, no tive medo da sede, e at considerei a possibilidade de nunca mais me livrar dela.Clareou o pensamento. Eu podia enfm decifrar aquele sonho. No como quem decifra um enigma, mas como quem fnalmente cons-tata existir um adversrio oculto e decide cham-lo s claras.Quem estiver a, aparea!, lancei essas palavras no vasto deserto do meu co-rao. A voz que ouvi se disfarava entre meus pensamentos, tecendo seudomnio,eminhaconscinciaaignoravatantoquantoaluzno CONFISSES DE AURLIO 13toca a escurido. A voz era a do acusador que inferniza eternamente a vida dos coraes divididos, e o que ela dizia era: Aurlio, onde est o seu Deus?Eis o inimigo: voc chama e ele aparece. Mas depois se esconde outra vez. Se na noite daquele sonho eu me deitava imaginando erro-neamente poder me dar ao luxo de um descanso, agora, tendo penado semanas de desequilbrio, eu descobria o contrrio: a estrela da manh me revelou o tempo propcio para o combate. Hora de ver, ouvir, com-preender e seguir em frente. E foi isto que fz, comeando por procu-rar o esconderijo do hspede tinhoso: procurei-o conscientemente no lugarmaisbvioondeelepoderiaseocultar,ouseja,emmeuponto fraco. E l estava ele, com voz de falso conselheiro:Aurlio,ondeestavaseuDeusquandoelasefoi?Amulher que voc mais amou...15 15.1.[...] fizeste-nos para ti, e inquieto est o nosso corao, enquanto no repousa em ti.Santo Agostinho, Confisses (I, 1)Das confissesAcrianaquehabitaemmimadormeceuumsonodemorte, deixando acesa apenas uma centelha de esperana, como promessa de um tempo no qual as manhs lhe pertencero. Convices caram por terra,sonhosdesvaneceram.AcordouAurlio,umhomem.Maisum homem. Mais um que desperta para a batalha csmica imemorial que deu origem ao mundo. Mais um que compreende que, nessa batalha, a displicncia e a falta de iniciativa favorecem a campanha do mal. Mais um que procura fazer sua parte.Assim,subiaomontedeminhaalmaeaquipermaneo,em retiro, neste lugar onde me vejo mais perto de mim e de Deus. Meu ora-trio est aberto. Peo a guarnio divina para o trabalho que tenho a fazer. Hei de ir ao passado. Mas aprendi com os antigos que o passado terrarepletadearmadilhas,decujoshabitantesnosedistinguemfa- CAPTULO 1 16cilmente os atributos reais das iluses, sendo que, ao revisit-lo, bom no estarmos ss, pois corremos o risco de nos equivocarmos quanto a quem so nossos verdadeiros aliados. Por isso, estou aqui. Sei dos perigos que me aguardam. Ao ludbrio do vasto corao humano, concorrem as incontveis artimanhas do adversrio: pelo nome esconjurado, Satans. Dou incio s confsses de uma vida e quero que meu objetivo esteja bem claro. Por que confessar? Para encontrar Deus em cada ca-ptulo de minha histria. Para recolher, em meu oratrio, os santos de minha devoo.Mas por que no recorrer, por exemplo, ao div, que tambm um bom lugar para se fazer um balano biogrfco? Penso que se trata de uma imprescindvel questo de mtodo. Alguns preferem a psican-lise. outros, a introspeco. Quanto a mim, creio que o ato de confessar trazavantagemdenodarchanceaoengano.Aanlisepodesele-cionar o contedo da investigao. A introspeco pode ser ludibriada pela fantasia. Somente a confsso infalvel, porque a confsso ver-dadeira consiste no ato de no mentir nem omitir uma palavra sequer. Eu tambm poderia escrever uma autobiografa. Por que no? Primeiramente,nosouescritor.Ademais,noescrevoaleitoresim-plcitos: falo! S quem me escuta Deus.Vou me confessar, para que no reste pedra sobre pedra, para que eu me veja fora da tenda, a cu aberto. Assim, talvez, direi amanh quemeconheomelhordoqueontem,semasmculasdavaidade, sem neuroses. Mas, se tudo vaidade debaixo deste sol,... quem sou eu? Sublime insignifcncia.Tal como a tartaruga marinha, que depois de trinta anos retor-na mesma praia onde nasceu para sua primeira desova; como o ele-fante, que jamais se esquece da fonte que um dia saciou sua sede; como CONFISSES DE AURLIO 17aninfa,quesabeahoracertadesairdasprofundezasdaterra,para no alto das rvores morrer como ninfa e renascer no canto da cigarra; comoocondor,quenodescansaenquantonoencontraocumeda mais alta montanha para fazer seu ninho; e como todo e qualquer ser vivo que cumpre seu papel natural, eu tambm sou guiado pela nature-za. Meus instintos me fazem buscar Deus. Sou como a tartaruga mari-nha realizando a viagem de retorno; sou como o elefante caminhando rumo fonte para matar a sede; sou como a cigarra saindo de dentro da casca; sou como o condor andino procurando um lugar nas alturas.ofereo minhas confsses ao meu Deus e a mais ningum. Ne-nhumjuizdestemundomejulgar.Acadavezqueeufalaromeu Deus, haver uma grande parcela de mentira em minha lngua, por-quanto estou infnitamente distante de conhecer o Deus do universo, o Inefvel, e me manteria muito mais prximo da verdade se perma-necesse calado. Mas preciso falar ainda um tanto antes de alcanar o silncio verdadeiro. Sigo falando por necessidade. Preciso de palavras edifcantes. Preciso das palavras que fazem andar. Preciso dar uma fa-xina em minha casa. At que chegue o tempo do silncio, as palavras ainda valero mais que ouro.MuitagenteseincomodacomessejeitodesereferiraDeus comoomeuDeus.Masnadadireisobreisso.opiniesnomeaba-lam. No creio que os incomodados conheam o juzo Dele. Sigo minha intuio, e ela me diz que estou a marchar numa boa direo.Vejo-mecomopartedeumacontecimentohistrico;somos muitos, somos os portadores de uma nova conscincia religiosa. Dize-mos acredito no meu Deus simplesmente para marcar esta diferena: no aceitamos o deus de um povo, de uma religio, de uma instituio. Etambmacrescentamosessepronomepossessivoparaindicarque CAPTULO 1 18vivemosnossafnointeriordensmesmos.Visamosaumaexperi-ncia universal do divino, nada mais; queremos sentir o sagrado como a intimidade de algo do qual fazemos parte ou como a intimidade do irmo que sorri e fala de amor.No subverto, no transgrido; procuro minha verdade na srie de manifestaes da nica verdade que no cessa de se transmitir. Tra-dio aquilo que fala aos coraes, a qualquer tempo.Confessarei o que fui para compreender o que sou: luz e tre-vas. Algumas batalhas perdi, de outras sa vencedor. Quando chegar l na frente, quero estar pronto para dizer que combati o bom com-bate. No alimento iluses. Sou responsvel por todos os meus erros. A luz vem de Deus.Minhacasaprecisadereformaparatornar-semaioremais bela.Porisso,continuoacaminho,avanandoapassoslentos.olho para trs e vejo as pegadas que deixei. Comecei por uma rua que foi dar no meu corao. Da em diante, s encontrei ladeira para subir.19.2.[...] eu que sou p e cinza [...] Que pretendo dizer,SenhormeuDeus,senoqueno sei de onde vim para c, para esta vida mortal, ou antes, para esta morte vital? Santo Agostinho, Confisses (I, 6) Do desejo dos pais de Aurlio Meu nome Aurlio. Tenho 33 anos. Sou brasileiro. Nasci no final de um sculo problemtico, em tempos de grandes incertezas etransformaes.Minhamequisquemeupartofossenormale ignorouaorientaodoobstetraquealertavaparaofatodeque sua pelve no dava passagem suficiente ao beb. Ela havia sonhado trsvezescomonascimentodeumfilhohomemeestavamuito seguradequetudocorreriabem.Nossonhosnohaviamdico, era ela quem dava luz por si mesma. Histrias contadas pela fam-liaatestamquefoiprecisofazertantaforanahoradopartoque, esgotada,aparturienteapagouantesmesmodeacriancinhasair completamente de seu ventre. CAPTULO 2 20Meu pai, por sua vez, tinha l suas supersties. No quis assis-tir cena da mulher parindo seu primeiro flho, o qual, misteriosamen-te, e sem o auxlio da ultrassonografa, ele j sabia que era macho. Nada poderia dar errado. A presena de um progenitor ansioso tambm em nada ajudaria. Ele, ento, com a melhor das intenes, rezou um pai--nosso e colocou um radinho de pilhas no ouvido, para se distrair com uma partida de futebol. Somente quando a enfermeira o chamou para me ver na incubadora que conseguiu voltar a si. Sem querer, gritou: gol!Percebeu a gafe, disfarou e soltou o ar preso nos pulmes: Ufa! graas a Deus!Emsuasmosseencontravamapenaspedaosdeumapare-lhoestilhaado.Ningumjamaissoubeoqueaconteceu.Sabe-seto somente que o desejo de um pai capaz de realizar muitas faanhas, incluindo o esmagamento de um radinho de pilhas entre os dedos.Assimchegueiaestemundo,euquefuifeitoparatornarao p. No tenho a mnima ideia de como se dera minha verdadeira ori-gem, no sei de onde vim, sei somente que fui acolhido a quatro braos. Enxovalcompleto,casalimpa,berodemadeiradelei.Tudoissofez partedocenrioqueabrigouminhasprimeirasaventurasnomundo doshomens;tudoparaseresquecido,comoquesubmersonasguas deumgrandedilvio.oqueseidaminhaprimeirainfnciamuito pouco, resume-se nos relatos que ouvi de terceiros e em meus parcos conhecimentos de psicologia infantil.Meuspaisnuncaforamricos.Naverdade,passarammaisde trs anos se preparando, para que pudessem dispor de suas economias quando o primeiro flho viesse. No sem antes conquistar casa e carro prprios,logicamente.Tudotinhadeserperfeito.Tirandoamorte, CONFISSES DE AURLIO 21nohaviaobradoacasoquepudessepeg-losdesurpresa.Porisso, devodizerquesehalgumacoisadaqualelesdefnitivamenteno podem ser acusados de terem sido imprudentes e desprevenidos.Vivamosconfortavelmentenumacidadedointerior.Eraum localbomparaseviver,noqual,emboranohouvessetantasopor-tunidadesdeemprego,tinha-sefcilacessoatodotipodenovidade disponvelnomercado.Nomais,noeralongedaCapital;sefaltas-se alguma coisa no comrcio da regio, bastava rodar uma centena de quilmetros para resolver o problema.Fao parte de uma gerao mpar na histria deste pas. Somos os nascidos entre o fnal da dcada de 70 e o incio da dcada de 80. Na infncia de meu pai, j existia um esforo das famlias para que os f-lhos chegassem aos estudos superiores, e boa parte dos jovens da classe mdiajsedirecionavaparaumaprofssoestabelecidanosmoldes universitrios.Entretanto,enquantoaindaeramcrianasesomente sonhavamcomsuasprofsses,pensavammaisnaconquistadebens durveis como casa, carro e fazenda. No havia nem mesmo televiso. Na poca de meu av, nos idos anos 20, muitas vezes era preciso espe-rarsemanasoumesesatquechegassealgummascatecomroupas, tecidos, lminas de barbear e coisas do gnero. Meu av fabricava seus prprios brinquedos; talvez seu maior desejo de consumo fosse um dia comprar um belo campolina. Comigo, foi tudo muito diferente.Minhageraofoiaprimeiraaternainfnciaumsonhode consumosemprecedentes:consumir.Noentanto,justamenteporter sido a primeira, o sonho se realizava de maneira lenta e gradativa. os produtos novos no mercado eram sempre caros, e, alm disso, a velo-cidadecomqueiamaparecendonovidadesnasprateleirasevitrines era bem menor do que o bombardeio frentico atual. Isso sem contar o CAPTULO 2 22fato de que algumas das tecnologias mais essenciais vida contempo-rnea ainda no existiam em nossa infncia, como por exemplo micro--ondas, internet e smartphone. Costumo dizer que somos um ponto de partida de grandes transformaes culturais, isto , tambm temos um p no passado. Essa condio intermediria nem l nem c nosso maior diferencial, e nos ajuda a manter uma reserva crtica quanto ao que vemos no mundo hoje. Lembro-me de ter escrito uma carta a meu primeiro amor. Carta de papel. Ela havia se mudado para outro estado. Precisei esperar mais de um ms para levar um fora.Como disse, papai no era rico. Tinha, sim, uma profsso es-tabelecida. Formou-se tcnico em Contabilidade e trabalhava para um dos homens mais ricos da cidade. o tal homem possua uma rede varia-da de comrcio na regio e, apesar de ter sido conhecido por conduzir seus negcios com mos de ferro, no pagava mal a seu contador-che-fe. Minha me tambm chegou a ser funcionria de uma das lojas dele, noperodoemqueocasallutavaparaformarabasedopatrimnio familiar, mas, logo que engravidou, preferiu deixar as ambies profs-sionais e se dedicar ao rebento que viria.Patrcio, meu pai, era catlico. No muito atuante, mas catlico convicto. Na verdade, fora sempre um homem conservador, avesso aos ataques contra a ordem pblica, aos atos imorais e s ofensas dirigidas soberania do Estado. Muitas vezes o vi entoar sua ladainha. gostava de frases de efeito. Em seus momentos de irrupo moralista, gesticu-lava de modo caricato e franzia o cenho, provavelmente imitando meu av.certoque,najuventude,chegouaseinteressarpelocomunis-mo, leu alguns livros e sonhou, como todo jovem; mas era conservador, s se permitiu adentrar superfcialmente nesses guetos, sem assumir amilitncia.Porfm,noresistiu:emmeiosintensaspropagandas CONFISSES DE AURLIO 23dogovernoditatorial,acabouseconvencendodequeocomunismo ofereciaperigoordempblica,estimulavaatosimoraiseameaava asoberaniadoEstado.Foiporissoque,comcertarazo,acaboume ensinando a no confar tanto em utopias polticas.Mnica, minha me, fora sempre uma mulher espiritualizada. gostavadeestudarasvriasreligiese,tambm,deconversarsobre otema,emboranopossusseumaidentidadereligiosaestabelecida. Costumava abusar de trejeitos lingusticos do catolicismo popular, tais como graas a Deus, vai com Deus, Deus te abenoe, ai, minha nossa senhora, e dizia simpatizar mais com o cristianismo. Sei que era umasimpatiaparcimoniosa,jquetodasasvezesquetocavanoas-sunto frisava em seguida: Falo do verdadeiro cristianismo, aquele que Jesus pregou, porque religio no deve se misturar com poltica. Sua lucideznoescondiaomnimotraodearrogncia,muitopelocon-trrio;conversavasempredemodoagradveletinhafacilidadepara cativar pessoas. Mnica tinha um enorme corao.Ageraodelesviveunalinhadefogodemaliciosaspropa-gandas. A verdadeira guerra fria tinha o corao do povo como campo de batalha. Era tempo de liberdade. Liberdade para qu? Havia muita gente poderosa querendo propor respostas para essa pergunta.Mnica e Patrcio no compreendiam bem o alcance daquela disputa. No lhes importava tanto a situao real da vida nos pases comunistas ou os motivos do estratosfrico investimento na corrida espacial.Aboa-novasituava-senomagodeumarevoluocultu-ral: isso eles podiam sentir e compreender. Quanto a ter uma crtica consistente sobre a circulao de novas ideias polticas, morais, re-ligiosas,institucionais,cientfcaseartsticas,possvelqueno chegassem a tanto. CAPTULO 2 24Puderam, sim, ver uma juventude que criticava seus pais e avs por terem servido como peas de manobra de um envelhecido sistema exploratrio; puderam ver os heris carem por terra, enquanto dolos de calas jeans iam surgindo e fazendo o maior sucesso entre as garotas histricas;puderamouvirosclamoresemnomedapazedoamore puderam pressentir os ecos longnquos de uma gerao que dizia no s guerras e danava rock num xtase quase mstico; puderam aplaudir, ainda que em seu brasileirssimo silncio, o apelo coletivo em nome de um novo mundo: Chega de autoritarismo, chega de hierarquia, chega de diviso de classes, chega de lei!. E o que mais? o declnio da antiga lgica patriarcal no poupava ningum. Evidentemente, o rebulio res-valou na igreja l de Roma, porque, ressuscitando vozes do sculo XIX, noforadifcilirromperumchegadeDeus,comoseoDeusdeles no passasse de mais uma forma tirana das representaes do sistema dominante. Vejam como esse Deus rico! Vejam como matou muitos na Inquisio! os artistas abusavam desses brados.Nesse contexto, considero um fato importante: naturalmente osincretismoreligiosocomeouaserestimulado.Bomporumlado, nem to bom por outro, tendo em conta a multido de lderes e malu-cos que invadiu o vazio das mentalidades.No que me toca, como flho de Mnica e Patrcio, certas ideias aceitas por eles se fzeram sentir em minha criao. Fui educado para a felicidade, com dilogo, sem opresso, sem represso sexual, sem falso moralismo e com uma viso plstica de futuro; alm do mais, tive a sor-te de ter vindo a este mundo para ser flho de Mnica, a mulher que me salvou de cair no mesmo engano desta atual gerao, que vem fazendo a palavra felicidade virar sinnimo de consumo. CONFISSES DE AURLIO 25Enfm,notenhomuitomaisadizer.Digoapenasquemeu nome Aurlio e que me sinto infnitamente honrado por meus pais. Noseideondevim,masseiquevimpelodesejodeles,eissobas-ta. A escolha desse nome causou certo frisson durante a gravidez, pois, paraospaisdeprimeiraviagem,daronomeaumflhojeradar luz uma pessoa; era como materializar uma ideia, uma imagem. Claro que houve uma lista. Na verdade, trs. Patrcio no queria misturar as etimologias e, para que isso no ocorresse, subdividiu a lista em nomes bblicos,nomeslatinoseavulsos.Peloquesei,porpouconoacabei sendo mais um Joo Paulo neste mundo; fui salvo disso graas a uma leve excentricidade de minha me, que vetou o nome evanglico por-que desejava um nome de sonoridade mais complexa.MarcoAurliotemapompadeumimperador.Esse,sim,era umnomequeatendiaaodesejodeMnica;maspapai,sentindoseu direito ferido pelo veto do nome que escolhera, incluiu uma condio, como que para poder se gabar de sua autoridade paterna. Marco, no; Aurlio, sim. Tirou uma carta da manga para justifcar sua posio. Ha-via um tio em sua famlia chamado Marco, j falecido. o dito cujo, um fotgrafo que vivia em viagens pelas capitais do pas, no chegara a se casar nem tivera flhos. Rondavam nos pores da famlia boatos sobre suas prticas sexuais nada convencionais. Era um farrista. E provavel-mente no distinguia muito entre homens e mulheres. Morrera cedo, devido a uma cirrose heptica.Meu nome, ento, Aurlio; Marco, no. Mesmo antes de nas-cer, Aurlio. Feito de ouro.27.3.Mas,ento,eunadamaissabiaseno sugaroleite,aquietar-mecomoque agradavaaosmeussentidos,echoraro que importunava minha carne, e nada mais.Santo Agostinho, Confisses (I, 6)Do primeiro despertaro primeiro despertar no mundo e so tantos! foi traumti-co. A mudana de ambiente provocava sensaes demasiado intensas, de modo que, para meus sentidos virgens, fosse qualquer estmulo, por maisleve,seriasemelhantedor.Maisdedezgrausdediferenade temperatura. Frio. A primeira respirao mais parecia um sufocamen-to, fazendo nascer a pior das faltas: a falta de oxignio. Ar, ar, mais ar; a ansiedade nascia em mim com a marca de que, embora eu no tivesse pedido para vir ao mundo, agora me dispunha a lutar para permanecer aqui. Meu corao j estava condenado a bater at o ltimo minuto. Que jeito estranho de comear uma histria! No gostei. Faltou--me a sensibilidade potica. Ento, melhor recomear com mais estilo. CAPTULO 3 28No dia em que desembarquei neste planeta, vindo sei l donde, fui entregue a uma anftri que assim se apresentou: Maternalmente cruel, eu sou a Vida.Sa do hospital envolvido num manto bordado pelas mos de minha av materna. A princpio, incomodei-me com uma novidade, o movimento; era estranho ser transportado no espao e, mais estranho ainda, ser retirado do colo de minha me. Mas eu no estava desampa-rado; os diversos panos e braos em torno de mim formavam um casulo de amor. Em casa, outro manto aguardava minha chegada. A outra av veiologocobrir-mecomsuaoferenda.Asduasexperientessenhoras sabiam das coisas. Meu corpinho ainda no possua energia sufciente para manter-se aquecido.Por um milagre divino, minha me transbordava em leite. Fui fartamente nutrido desde o primeiro momento em que repousei a ca-bea na pele macia de seu seio. No sentia ainda prazer com o sabor do leite ou com sua suave temperatura, entretanto, medida que sorvia o nctar desconhecido e me saciava, mergulhava numa sonolncia oce-nica, at desaparecer. Isso era bom. Mas o nirvana era perdido pouco depois. Novamente a vida batia porta, chamando para fora. Acorda! Dores gastrointestinais, fezes, urina. Ansiedade. Luz e som. Eu passava a esperar novamente por aquele cheiro, aquela pele...Com uma aluso explcita ao chamado pecado original, dou o nome de recusa original ao desejo primevo de mergulhar no oceano e desaparecer. Escolho esse nome porque vejo em tal desejo a recusa de um chamado. A vida nos chama e nos convida a nos mantermos num permanente estado de tenso, e quem puder perceber isso ver que s existe repouso na morte. CONFISSES DE AURLIO 29 preciso confar na vida. Por mais brutal que ela seja, por mais imperativa,noacompreendemosplenamentesemnosrendermos ao fato de que ela tambm cuida de ns, exatamente como uma me. VejoamodeDeusnamaneiraordenadacomoanaturezanutree desenvolveseusfrutos.Recebidoleiteanutrio,ahidrataoeas defesasdocorpo.Fuibanhadoehigienizadoporpessoasquemal sabiam que estavam me ajudando a combater microscpicos parasitas. Fuiaquecidopelomantodasavs.obtiverevigorantesmomentosde paz ao sugar o seio de mame. E por isso, e por muito mais, digo que fora pela vontade eterna de Deus que eu, este p da terra, esta poeira csmicaanimada,nometransformei,aindanaqueletempo,emali-mento para os vermes.Masquempoderentenderabrutalidadedessedivinocha-mado? Queimava-me os ps, para em seguida adoar-me a boca. Pela dor e pelo prazer, obrigava-me a ser. Que grande mistrio a ipseidade consciente!Vejo-menooutroporqueooutrodesdeoinciobate porta.Eembaladopelocolodemamemeucorpofoitomandofor-ma, porque a alma ia tomando corpo. Dedinho com dedinho, beijo no beijo, abrao meu abrao.observo minha prpria complexidade, o quanto sou capaz de produzir, pensar, sentir, desejar; o quanto o mundo se transforma por minha causa. De onde surgiu tudo isso? No principio havia uma coisa s,apenasantidadistinoentreprazeredesprazer;isto,sim;isto, no. Por exemplo: ainda que a suco do leite materno iniciasse pelos movimentosrefexos,eraodeleitequepropiciavaacontinuaode tal comportamento at o repouso no oceano da saciedade, pois, se no fosse assim, se houvesse o importuno da dor, meus msculos produzi-riam um grito espasmdico de rejeio. CAPTULO 3 30Aos poucos, fui evoluindo para um estado de maior interativi-dade com o ambiente. Tornei-me capaz de sorrir em resposta aos olha-res.Umadeterminadafaceouexpressofacial,assimcomotambm umdeterminadotomdevozeatmesmoapronnciadecertaspa-lavras j conhecidas, agora eram sufcientes para me confortar. Esses elementos funcionavam como sinais de que meus desejos seriam reali-zados, compunham uma rotina segura, demonstravam a existncia de uma ordem no fuxo dos acontecimentos. Na verdade, ainda muito pre-maturamente,essessinaisindicavamcomoqueumaportaporonde eu queria passar; uma porta de retorno que, passando pelo repouso da saciedade, levar-me-ia erroneamente ao nada.Mas se existiam sinais, logo seria preciso mais que reconhec--los:seriaprecisocaus-los.Asprimeirastentativasdecomunicao vieram da, impulsionadas pelo desejo de controlar os fenmenos ex-teriores.Eufaziaumesforoenormeparaimporminhasvontadesa quempudesseatend-las.Eraumtaldeviradec,viradel,dum chorinho, balbucia desengonado, balana os braos, faz chutes no ar, em suma, um escasso repertrio pouqussimo efciente. Quase sempre, num misto de raiva e frustrao, um acesso de choro esganiado fnal-mente cumpria a funo de expressar o que eu queria.Abro uma pergunta fundamental: devo confessar que fui uma crianam?Antesmesmodecompletaroprimeiroanodeidade,eu jusavaochoro,noparacomunicar,masparacontrolar,dominare terprazer.Maisfrente,meussorrisostambmnoteriamfunes menossrdidas.Parapioraraindamais,nodemoreiaperceberque aqueles que me amavam tinham o costume de agir mais rapidamente quando eu chorava com maior intensidade, e por isso passei a usar meu choro como uma arma, com a qual eu constantemente me vingava de CONFISSES DE AURLIO 31meus cuidadores desobedientes. Nesse caso, curiosamente, o alvo mais visado era sempre minha me. E ento? Qual era meu pecado? No me arrisco a responder. E tambm no sei se justo condenar o broto por no dar frutos. Tudo o que sei que Deus me fez assim e deve haver um motivo para isso.Quandomedoucontadequefalodecoisasquenoexistem realmenteemminhamemria,concluoquejmorriinmerasvezes desde que vim ao mundo. o beb que se extasiava com o cheiro da mis-turadeleiteesuornoexistemais,defnitivamente.Entretanto,ele compe o fuxo daquilo que sou. Ser legtimo desconsiderar os nove meses que passei no tero? E antes disso? onde comea a histria de uma pessoa?Muitos so os que acreditam na existncia do esprito anterior aocorpo.outrostantosprocuramexplicaramentehumanasomente pela derivao de processos neurofsiolgicos, completamente indepen-dentes de qualquer noo metafsica de esprito. Quanto a mim, prefro no concluir, pois a presuno uma porta fechada para o futuro.Deus estava lFalo de um tempo morto estranha maneira de iluminar o pas-sado. Desejo religar o que fui ao que sou.oqueprecisoparabuscarDeus?Tenhoumcorpovivoea conscincia. o primeiro, o corpo, mal nasce e j comea a morrer. No posso confar nele. A conscincia, por sua vez, est bem aqum do que seesperadela.Defnitivamente,nomegaranto.Minhaimperfeio severa. Mas j sou um pouquinho melhor do que era ontem disso CAPTULO 3 32tenho convico , e essa constatao faz o esforo valer a pena. Conti-nuo querendo.ondeestavaDeusnaquelestemposdeinfncia?Sevejouma sementinhabrotarnaterra,perguntoquemplantou?.Seguindoa mesma lgica, reconhecer a imperfeio dar o primeiro passo no sen-tido de apreender a evoluo e a Histria da humanidade. Qualquer um pode ver que o choro estridente do infante precede o discurso sofsti-cado do mestre da retrica; que a garatuja desordenada vem antes da Mona Lisa, de da Vinci; que o brinquedo imaginrio estimula a inventi-vidade do futuro cientista. E depois? Haver sempre um depois? Ser esta vida como que um casulo de borboleta? At aqui, o que sei que j nos primrdios de minha jornada os desafos do dia a dia constituam o nico caminho para a superao. Em meio a dores fsiolgicas de um organismo imaturo, frustraes de desejosdesordenadosetorrentesdeemoesprimitivas,avidame conduzia para o lao com o outro e, a partir desse lao, preparava os moldes das duas asas do meu esprito: o conhecimento e o amor.A recusa originalSou um pecador, desde o primeiro segundo, isto , desde que sadoventredeminhameparahabitarestemundo.Meupecado sempreums:recusarochamadodavida.Naverdade,pensoquepor trs de todos os pecados da humanidade existe a infuncia da recusa original.Emtodadesobedincia,emtodasasformasdeorgulho,em todas as preferncias no permutveis, que fazem com que coisas re-lativas se tornem absolutamente necessrias, em todo delrio, em toda CONFISSES DE AURLIO 33forma de destruir o outro em proveito prprio e, mais ainda, na igno-rncia generalizada do indivduo sobre si mesmo, a recusa primordial que se faz repetir s escuras.Essa recusa tem sua origem no trauma do nascimento, na ma-neira brutal com que cada um sofre obrigatoriamente o primeiro des-pertar. E no h qualquer chance de fugir disso, pois, de certa forma, trata-se de algo hereditrio. o sujeito nasce, e a primeira coisa que se lhe apresenta uma tenso inexplicvel em seu ser. Ento, para man-ter-sevivo,eleluta,paradoxalmente,contraessatenso.Eignorar porlongosanosqueatensonooutracoisasenoaprpriavida; genuinamente, a vida.Hoje, vejo que os lances decisivos de minha existncia conver-gem para a escolha de uma das duas possibilidades, a recusa ou a acei-tao do chamado. E quero crer na possibilidade da aceitao. Crer em que cada experincia vivida abre simultaneamente portas para ambas. Crer que a recusa no soberana. Estou ciente de que ningum escapa a essa dualidade e, por isso, peo fora para frmar no lado certo.Existe, contudo, uma faceta da recusa original que difcilmente podereisuplantar.Elaseinstalamuitocedoequasesempredeforma de tal maneira o ego da pessoa que, por toda a vida, fca comprometida sua capacidade de amar. A pessoa se torna prisioneira de uma iluso e no pode evitar sentimentos como inveja, orgulho e cime, porque se sente constantemente ameaada por outros indivduos. Falo da iluso que faz com que o prximo seja percebido como rival. Umcorriqueiroexperimentocientfcopodeilustrarbema natureza desse fenmeno: dois ratos so colocados dentro de uma cai-xa previamente preparada e, de tempos em tempos, so eletrocutados por um sistema eltrico acoplado ao piso. o que acontece? Logo aps CAPTULO 3 34o choque, eles se atacam. A tenso descarregada pela funo motora, e mesmo com a repetio do experimento no chegam a exibir graves sinais de estresse nem adoecem. o curioso que a coisa muda muito de fgura quando o rato colocado sozinho na caixa. o rato isolado sem ter como descarregar a tenso no resiste, adoece e morre.Souhumanodemais.Comocompreenderquenascersejato parecidocomserexpulsodeumparaso?Porqueraiosnossajorna-da neste mundo precisa ser to tortuosa e cheia de difculdades? Pois bem, imagino que exista uma meta. Toda a sabedoria dos antigos ensi-na a ver que a meta Deus. Ento? Sou humano demais mesmo. Certa-mente me afasto quando penso que me aproximo. E, como caro, caio quando penso que voo.35.4.Por a se conclui, com bastante clareza, que para aprender mais eficaz a livre curiosidade do que um constrangimento ameaador.Santo Agostinho, Confisses (I, 14)No comeo era o verboCreio que uma pessoa desperta vrias vezes na vida. Desper-tarsignifcapassardeumacondioaoutra.Aconteceumaviagem entre mundos.Todos experimentam diariamente a forma mais bsica do des-pertar. A pessoa abre os olhos e repete a mesma sensao de acordar para algo mais verdadeiro. Ento, ela pensa ah, sim, eu estava sonhan-do e agora estou diante da realidade!.No comeo foi o trauma. Sobre isso, basta. Nasci, fui expulso do paraso.Emseguida,nocomeoeraoverbo.Nocomoumfatodo qual se diz que foi, mas como um transe que se instala e do qual se deve dizer que era. Era qualquer coisa encarnada, como uma entida-de, um fantasma, uma coisa viva invisvel.Quando se pergunta o que faz do humano um humano ou o que o distingue dos animais , comum ouvir as pessoas dizerem que CAPTULO 4 36a linguagem o elemento de separao, o atributo humano por exce-lncia. Existem tambm os que defendem a funo do polegar opositor como divisor de guas na evoluo; e, ainda, uma minoria que aponta para a prematuridade do beb humano, no intuito de ressaltar os fato-res fundamentais do processo de humanizao. Simpatizo com essa l-tima teoria, pois, ao contrrio do que ocorre com os outros mamferos, quecomumentejnascemprontosparaexercersuashabilidadesvi-tais, como andar e buscar o prprio alimento, nossos flhotes precisam fcar anos com seus progenitores para sobreviver; e isso signifca que, para se adaptarem, eles devero estabelecer profundos laos de amor.Essa duradoura intimidade da criancinha com seus cuidado-res preciosa. o recm-nascido levar de dezoito a trinta anos para conquistar a independncia. No h na natureza selvagem qualquer precedente para esse fato. No obstante, as pessoas em geral no per-cebem os efeitos extraordinrios que advm da: assim como no h nenhumanimalquefaleouescreva,tambmnohnenhumque possua uma vida afetiva to complexa quanto a nossa. Se me pergun-tassemsobreaprincipalcaractersticaouatributodahumanidade, eucertamenteapontariaparaalinguagemcomoresposta,mas,de outra forma, se me perguntassem por que somos humanos, diria: por nascermosmuitopequeninos,excessivamentefrgeis,eporviver-mos muitos e muitos anos em completa dependncia de nossos pais. Acreditomesmoque,emessncia,serhumanonopensarcomo humano, mas amar como um de ns.Talvez a senha seja esta: o amor. Quem mais seno o amor po-deriaabrirosportesdocudalinguagem?Quandocomeceiafalar, por exemplo, no foi por mero entretenimento, como se houvesse um tdio existencial precoce a me aperrear. No assim. Eu no teria fei- CONFISSES DE AURLIO 37to todo esse esforo de aprendizagem simplesmente por um capricho, comoquemdizai,mesintos,precisoconversar.Acreditoquea necessidade em questo era unicamente a de expressar meus desejos a quem tinha o poder de realiz-los; ou seja, no vejo como pensar a fala sem pensar na pessoa a quem a palavra se enderea.Inicialmente,eunotavaasdiferentesreaesquemeuscom-portamentos provocavam. Quando eu sorria, ou quando produzia sons amenos, minha me tambm sorria e falava comigo em um tom de voz agradveleacolhedor.Quandoeuchoravalevemente,elaprocurava entreter-me com objetos coloridos e brincadeiras. Se o choro era for-te,trazia-meoalimentoeinvestigavameucorposapalpadelas.ou, ainda,seminhavozesganiava-seaosberros,demonstravaenorme preocupao; no fcava tranquila at resolver meu problema. Assim, fui compreendendo que era preciso me manifestar para que fzessem minhas vontades.E como tudo nesta vida muito complexo, a construo dessas primeiras garatujas lingusticas no poderia ser diferente. No comeo, interessei-me pelos gestos, as feies, a voz e as palavras mais simples comopapai,mame,mam,bubu.Depois,comeceiaprestar maior ateno no que diziam minha volta, para identifcar sinais po-sitivos ou negativos. At que, por fm, passei a imitar os sons articula-dos. Foi s a que me dei conta de que a linguagem dos adultos era bem diferente da minha. As palavras deles tinham o poder mgico de fazer ascoisasacontecerem,jasminhasquasenuncaeramcompreendi-das. Isso me dava uma raiva danada; e eu era obrigado a me virar para aprender a falar direito. CAPTULO 4 38O espelhoSe no princpio era o verbo, ento quem falava?Tosignifcativaquantoapronnciadasprimeiraspalavras foi a conquista da imagem corporal. Por essa conquista, eu soube que cesegatosnofaziampartedafamliae,damesmaforma,entendi que eu desafortunadamente no era como os adultos. Como se diz: o espelho no mente.ofcialmente, aqui nasce o eu; inaugurei-me enquanto pessoa no plano da dualidade: sou, no sou; dou, no dou; quero e tenho medo; amoeodeio.Duasportasseabriramparamim.Sempoderescolher apenasuma,tivedepartirmeucoraoedeixarcadametadeseguir seucaminho.Umadasportasmelevouaoscamposentrincheirados darivalidade.Erauminfernohabitadopormonstrosdevoradorese crianasexatamenteiguaisamim.Ametadezinhadesamparadado meucoraosentiumuitomedoquandolchegou.Conheciosperi-gos do mundo, os territrios, os interesses, a guerra, as estratgias de defesa,oataque,afugaeaespionagem.Aoutraporta,porsuavez, conduziu-me aos jardins da amizade. Descobri o cu. Conheci anjos e crianas felizes, cada qual com seu sorriso. Meu corao sentiu-se em casa e, desde ento, sonha em reaver a metade perdida.Predestinado a ser livreJamaisfuiumcapetinha,comosedizporadascrianasin-teiramente indomveis; no tiranizei os mais novos, no maltratei os animais,noaprendiamentirdecaralavada.Mastambmnoera CONFISSES DE AURLIO 39santo, devo admitir. Com um corao dividido daquele jeito, o mximo que eu conseguia era ser um anjinho travesso na Terra. Ento, d para imaginar a baguna...Com meus amiguinhos de jardim de infncia, queria somente buscar maneiras de subverter a ordem do mundo adulto. Quando era repreendido, baixava a cabea e no respondia a mais nada; s vezes, at chorava, mas no fundo era desobediente, questionava em silncio quasetudooquemefaziamconhecercomocerto.Defnitivamente, minhaeducaofoipenosa.osprimeirosprofessoresquetivecome-ram o po que o diabo amassou por tentarem enfar algo de bom em minhacabea.Esetentassemconversarcommeuspaissobremeus problemas de comportamento, a coisa apertava, porque acabavam sen-doacusadosdeleviandadeoudefaltadepreparopedaggico.Meus pais sempre acreditaram piamente na boa ndole da cria deles.Alguns anos mais tarde, no ensino fundamental, quando chegas-se o boletim trimestral, a reao de papai seria outra, nada condescen-dente. Recebi tantos castigos que j nem sei qual pde ter me ensinado alguma coisa. Eu fcava triste por ser impedido de jogar com meus ami-gos, ou por ter de resolver as mesmas contas de matemtica dez, vinte, trinta vezes. Ficava com muita raiva tambm, pois julgava que no mere-cia passar por tais privaes. E, no fnal das contas, meu comportamento no mudava muito; eu ia como se diz levando nas coxas.Hoje,entendoquedenadavalemsermesecastigoscontra um corao recalcitrante. Somente os anos e o amor de mame pu-deram ensinar-me algumas poucas virtudes.Creioqueavidadecadapessoatemumpropsitoeques existemduascoisascompodersufcienteparamoldarumdestino: Deus e o tempo.No meu caso,desdecedo, j eravisvel que eu tinha CAPTULO 4 40sido predestinado a seguir o caminho torto do livre-pensar. Jamais per-miti que me bloqueassem o direito de escolher entre crer ou duvidar. Ainda que fosse preciso baixar a cabea, de minha conscincia eu no abriamo.Eporqueagiaassim?Tudoindicaquevimaestemundo comamissodenosucumbiraosdogmatismosquesemultiplicam por a afora.Lembro-me bem da repulsa que as primeiras aulas do catecis-mo provocaram. Eu tinha oito anos de idade. A parquia era um lugar tranquiloebastantefamiliarparamim,jque,almdenelatersido batizado,tambmfrequentavaamissamaisou menosregularmente, porvontadedepapai.Minhamenoqueriamecoagir,achavaque eumesmodeveriaescolheressetipodecoisa,notempocerto,mas cedeupresso,vistoquePatrciodefendiatantooaspectopedag-gico quanto prtico do ensino religioso. J no primeiro dia, desanimei; a mulher que ministrava as aulas causou-me horror, pois parecia uma me severa que jamais tive e jamais quisera ter. Se ao menos as aulas fossemcomosimpticopadreparoquial;mas,no;elenemaparecia por l. Resolvi fazer o mesmo no terceiro dia, e no voltei mais.Certa vez, ao tocar-me com volpia durante o banho, senti um estranho remorso. No havia ningum comigo, no entanto, ao mesmo tempo, parecia que algum estava me olhando. Pensei em meus pais, em Deus e, curiosamente, no padre, cada qual me encarando friamente emsinaldereprovao.Nopudeevitarnemosentimentodeculpa nem a indiferena, ambos plausveis e substanciais. Minha conscincia entrouemdebate.Sempodermentirparamimmesmo,solucioneio impasse com um atrevido sofsma infantil: Se eu tivesse certeza de que Jesus era Deus, eu nunca mais ia fazer coisas erradas. CONFISSES DE AURLIO 41Aindanotinhavividonoveanosnestemundoquandoisso aconteceu, e, se pudesse, voltaria ao passado para dizer-me que eu es-tava no caminho certo. Algumas mentes nebulosas insistem em repri-mir a expresso da dvida na alma das crianas, e isso terrvel; no veem que a dvida subversiva a primeira manifestao de um espri-to lcido, e que a suscetibilidade no conta entre as tendncias inatas deumbuscadorespiritual.Porfm,acabamcometendotodotipode violncia.Masdeixeestar,otemposeencarregardessesqueainda pensam assim.Por ora, melhor ir em frente, sei que a estrada destas confs-ses ser longa. Quero incluir apenas uma ltima recordao pertinen-te queles primeiros anos escolares.Falei do aprendizado da linguagem e da insero no universo da cultura pela via escolar; agora me ponho a pensar nos livros que me iniciaram no mundo da leitura. os livros? ou melhor: a ausncia deles.Na escola, vez ou outra, lamos pequenos pargrafos ou livros ilustradoscomquasenenhumcontedotextual.oensinodalngua portuguesaeraexageradamentefuncional,emdetrimentodofoco na formao humana; raramente adentrvamos no universo das per-sonagensarquetpicasdaliteraturanacional.MonteiroLobato,por exemplo,apareciamaisporsuaobraadaptadaparaatevdoque propriamentepelosseuslivros.Todavia,cantvamosdiariamente ohinonacional,emfla,meninasdeumladoemeninosdeoutro, distadospeloespaodeumbrao.Euachavaessarotinaumtanto cansativa, devido repetio; o hino, porm, me parecia lindo e era agradvel de ser cantado.Curiosamente,jamaismeexplicavamosentidodefrases como o lbaro que ostentas estrelado ou iluminado ao sol do Novo CAPTULO 4 42Mundo.Minhasprofessorasprovavelmentenoerammuitoleva-das a exegeses. Contudo, ainda assim, devo minha iniciao potica a essa maante imposio patritica. E, por mais engraado que possa parecer,afaltadeexplicaesfavoreceumeuladocriativo;acabei dando meu prprio sentido ao texto, por achar que o autor era o mes-mo que dissera a to famosa frase Independncia ou morte!. Ficava contentecomoherosmodomeupassoberano,apesardenemde longe imaginar o porqu de cantar o hino diariamente e o porqu de, em meados do fnal da dcada de 80, esse hbito ter cado em desuso na Escola Estadual Castelo Branco.Alm de ter encontrado salvao literria na beleza potica do hino nacional do Brasil, tambm tive a sorte de cair nas mos de uma almacheiadesensibilidade.Minhaprofessora,coitada,nopodiase meter a escolher livros que estimulassem demais a imaginao dos alu-nos; porm, no havia qualquer restrio quanto a pedir que cada um escrevesse seu prprio livro. Viva! Bravo! Uma salva de palmas para a criatividadedaprofessoraMariadaConsolao.Escritoeilustradoa prprio punho, meu primeiro livro foi intitulado A casa de meu pai.43.5.[...]tinhaboamemria,tinhafacilidade parafalar,erasensvelamizade;fugia da dor, da humilhao, da ignorncia. Que haviaemtalcriaturaquenofossedigno deadmiraoelouvor?Mastudoissoso dons de meu Deus; no os recebi de mim mesmo; so coisas boas, e o conjunto deles constitui o meu eu.Santo Agostinho, Confisses (I, 20)Reflexes sobre a infnciaDedico-me a estas confsses no s pelo desejo de me conhecer melhor, mas tambm pela esperana de encontrar dentro mim algo aci-ma de mim mesmo. onde devo procurar, se no quiser entoar um emara-nhado de memrias e especulaes ao lu? A Bblia diz que fomos criados imagem e semelhana de Deus, ento, vou puxar por esse fo; e parto do pressuposto de que Deus impenetrvel a nossa compreenso, haja vistaainsufcinciadenossosconceitosquandosetratadedefni-lo. Quem Deus? Deus , no mnimo, abstruso: material e imaterial, impes-soal e pessoal, eterno e temporal, criador e imutvel, bom e onipotente. CAPTULO 5 44E quanto a mim, o que sou? Existo,vivo,quero,recordo,penso,examinoefao.Soucapaz de criar. Aprendi a falar com facilidade, pois era um menino ativo e ta-lentoso. Muito cedo j podia dizer eu: eu quero, eu fao, eu sou. Parece simples, como se fosse bvio, mas ser pessoa um grande mistrio.Uma parte de mim apenas coisa, isto , matria inanimada, mistura de gua, minerais, protenas, gordura e tudo o quanto h. Po-rm,soucoisaviva,dotadadeenergiaemovimento,elutoparame manter vivo e expandir minha vitalidade. No ltimo grau, no esteio da liberdade, sou ainda coisa pensante, respondo por um nome e desejo saber das coisas.Por que fui criado com tal desejo de conhecer? Mesmo na mais tenra idade, jamais apreciei o engano, o erro e a ignorncia.Deus,talvez,queiraserconhecido.Creionisso;creioemque eledeixouvestgiosdesuapresenaportodaparte,principalmente em mim, que sou sua imagem e semelhana. Alm disso, o que mais? Recebidonsdivinosquesemanifestaramaindanainfncia, mas nenhum deles veio pronto para uso, ou de tal modo acabado que no permanea, at hoje, em contnua evoluo. Sou uma coisa em de-vir.Umapartedemimparececondenadadecadncia,enquantoa outra parte tem mania de guia turstico e sempre me convence de que aprximaparadavaleapena.Noconheomaneiramaislcidade sentir a presena de Deus em minha vida: ver Deus naquilo que deve ser cultivado. E derivo essa ideia de uma interpretao particular que fao do Gnesis bblico.Ahistriasagradacontaque,noinciodostempos,osseres criadosimagemdocriadorforamcastigadospelopecadodadeso-bedincia,cujoresultadofundouumaheranadetrabalhoemorte. CONFISSES DE AURLIO 45Comeo por perguntar: o que signifca a expulso do Paraso? Eis uma bela metfora. E continuo: no que tivesse o homem sido criado per-feitopara,depois,perderaperfeio,poismeparecemaisplausvel conceber a imagem de Deus em potencial, ou seja, conjecturar sua ma-nifestaofutura,eassentiremqueelavsetornandomaisntida medida que aperfeioamos nossos dons.47.6.E o que que me encantava,seno amar e ser amado?Santo Agostinho, Confisses (II, 2)Dentro de mimMuita coisa acontecia nos dias de minha adolescncia, dentro de mim. Se fosse preciso eleger um ano como smbolo de todo aquele catico movimento subterrneo de placas, eu escolheria meus dezes-seis anos. Foi com essa idade que o ardor das experincias aumentou, eaumentoutantoquepasseiameconsiderarhomemfeito,comose estivessenoaugedaexistncia,comosedesfrutasseagenunaliber-dade, como se fnalmente pudesse dizer: Eu conheo a vida. Pseudo--erotismo,amoresplatnicos,amigos,identidades,utopias,vividos com a ingnua urgncia de quem acredita estar prximo de encontrar a soluo de um enigma.No nego que fui um jovem talentoso, cativante, cheio de ener-gia e curiosidade. os professores me elogiavam com frequncia, e isso eu atesto, mas tambm reconheo que eu no era exatamente aquele tipo de aluno cujo destaque se deve a atitudes exemplares de dedica- CAPTULO 6 48oeinteresse.Euosimpressionavapelasensibilidadecrtica,fazia perguntaspoucocomunsparaafaixaetriaeescreviaredaesque demonstravamjalgumaintimidadecomaspalavras.Agoraooutro lado da moeda: mesmo com algum talento, a onda dos dezesseis anos quebrava noutra praia. Pensar em futuro, profsso e famlia no satis-fazia minhas exigncias mais profundas. o foco dos meus interesses in-cidia ora sobre a descoberta do sexo, ora sobre as querelas da incluso na microssociedade adolescente. Como poderia me dedicar com afnco a atividades srias e produtivas?Falsaliberdadeconquistada.Eudavaumadehomenzinhore-beldeedescompromissadoe,assim,desafavameusprprioslimites. Estavalongedemeencontrar.Novoavanempousavaalgures;como avionapista,apenastestavaapotnciadasturbinas.Entretanto,por trs de quase tudo o que eu fazia, por mais contraditrio que fosse, havia uma motivao profunda, perfeitamente humana e positiva. Que Nossa Senhora, de quem sou devoto, interceda em favor do adolescente que fui e me faa serenar a recordao dos erros que cometi. o que movia meu corao mesmo no erro era a vontade de amar e ser amado.Mas desafar limites coisa muito perigosa. E mesmo o amor podesergravementedeturpadoporsentimentostrevosos.Eucriava hbitos que posteriormente me trariam vrios problemas. Na verdade, no s posteriormente, porque, j naquele tempo, o resultado de meus erros se fazia sentir como uma espcie de turbulncia interior.Estaalei:aoereao.Paracadaato,umaconsequncia. Uma pedra lanada ao ar deve cair; da mesma forma, um corao habi-tuado a desejos ardentes deve sucumbir ao medo; um ego envaidecido deve perder-se em iluses; uma vontade desobediente deve culminar em dor; uma mente tola deve se tornar presa do mal. CONFISSES DE AURLIO 49Os dezesseis anosMeu pai foi muito alm do que seus recursos fnanceiros per-mitiam para investir em minha educao formal. Para o bem e para o mal,aosdezesseisanosfuienviadocapitaldoestadocomamisso de completar o ensino mdio num Colgio Arquidiocesano de altssimo nvel.Mesmocomovalordasmensalidadessobrecarregandooora-mento da famlia, tambm fz curso de lngua estrangeira, morei numa boa penso, em quarto individual, tive livros, computador e, ainda, as assinaturasmensaisdeumdosmaioresjornaisdopasedeumare-vista de divulgao cientfca. Recebi tudo isso e no precisei dar nada em troca; no me esforava nem mesmo para obter o aproveitamento mximo do que me era oferecido; alis, tampouco dava o devido valor ao sacrifcio daquele tcnico em contabilidade que, com seu exemplo, esperava ao menos ensinar o flho a ter vergonha na cara.Mame, por sua vez, injetava mais combustvel nessa mquina, acreditando cegamente num futuro pleno de possibilidades para mim. Acima de tudo, mantinha postura amorosa e compreensiva, indepen-dentementedoerroqueeucometesse.Noprocuravamedirecionar para as profsses mais rentveis, e quase nunca falava sobre meu fu-turo fnanceiro, muito pelo contrrio; dizia ela que, antes, eu descobri-ria os verdadeiros valores da vida, pois o resto viria por consequncia. Aos quinze anos, presenteou-me com O Pequeno Prncipe, de Antoine de Saint-Exupry.E por isso que costumo dizer que, no fosse o apoio incondi-cional de meus pais, talvez eu tivesse me tornado uma pessoa grosseira; talveztivesseafundadonabrutalidadedeespritoevivessecomoum troglodita tpico, desses que brigam nas partidas de futebol, xingam no CAPTULO 6 50trnsito e acham que, se um cara no se mostra babando por uma bunda feminina transeunte, porque deve ser gay. Devo isso a eles. A razo de serdetodoocuidadoquetiveramcomaformaodomeucarterse faria notar no tempo certo, quando, por uma imposio trgica, a vida me obrigaria a ter mais responsabilidade comigo mesmo. Antes disso, contudo, tive de pagar o preo dos maus hbitos adquiridosemmeioqueleturbilhodehormnios,desejoseideais. Um hbito como argamassa umedecida; coisa que seca e fca dura com o tempo. os mais arraigados se formaram a partir da maneira neu-rtica com que inicialmente solucionei o enigma da libido. Corri o risco de me deformar para o resto da vida, sem nenhum exagero, e por sorte no acabei como um desses tantos viciados em sexo. Eu pendulava da masturbao para a fantasia; da pornografa barata para o falatrio dos grupos de adolescentes.Juntoameusamigoshaviaumacompetioparaverquem possuamaisconquistasnocamposexual,dotipo:eujfzisso,eu aquilo, pus a mo aqui e ali. Era como se disputssemos um poder invi-svel ou uma imagem com a qual pudssemos nos comparar e nos sen-tir eventualmente melhores uns que os outros. Porm, ramos liberti-nosimaginrios.Asgarotasdenossaidadetinhamprefernciapelos rapazes mais velhos; as mais novas no cediam facilmente s investidas de rapazolas inexperientes. Vivamos dando pontos sem n e, por isso, mentamos sobre nossas experincias. Somente diante de revistas e fl-mes porn, surrupiados cada qual com sua estratgia, descobramos o objeto de nosso desejo, sem cheiro ou sabor.Enquanto isso, minha me falava sobre sentimentos, amizade e companheirismo, e se referia ao sexo como uma experincia mstica deunio.Sobreapornografa,mantinha-sesemprereticente,tendo CONFISSES DE AURLIO 51apenas insinuado, uma vez ou outra, que certas prticas sexuais so prpriasdepessoasrudeselimitadas.Comelaaprendiosignifcado da palavra depravar. Aprendi tambm que o amor pode elevar-se bem acima dessas relaes de consumo carnal.Masquemmederaafchativessecadologodeprimeira.o fatoqueeuaindanoestavaprontononaquelesdezesseisanos , porque no suportava ser inferiorizado entre os amigos. Eu precisa-va provar minha masculinidade, afrmar-me como homem dentro do grupo, e queria exibir minha virilidade, e comparar os cacifes, e saber quemeraquem,etudoomais,tudo,tudo,paratornarmaisntidaa imagem do que eu era.Aindabemquemeuspaisnotinhampressadeverafcha cair. Posso me gabar de ter recebido de Deus progenitores cheios de pacincia. Mantinham sempre suas palavras e atitudes, porque acre-ditavamnaflosofadodarexemplo,es:nomoviamumdedo sequerparameconvencerdenada,menosaindaparameobrigara seguir seus conselhos, e, nos momentos oportunos, diziam at que eu devia me virar para encontrar meu caminho. Por fm, ao invs de me vigiar, fzeram vistas grossas para os banhos demorados, as revistas escondidas debaixo do colcho, os cochichos ao telefone, os cheiros defumaanacamisaeaspequenasmentirascontadasparaganhar algum dinheiro extra, em acrscimo mesada. o foco deles era meu carter,eporissointervinhamunicamentenoquepoderiagerar consequnciasmaisgravesnofuturo.Nomeesqueodequando comecei a me aventurar com uma turma de baderneiros que pratica-vaatosilcitoscomopichaesedestruiodepatrimniopblico: tiveram uma atitude bem mais severa. Fui repreendido de imediato e levado de volta para minha cidade natal. Somente com a promessa de CAPTULO 6 52no mais me envolver com tais elementos, pude convenc-los a me dar uma segunda chance.No entanto, eu mentia. No estava disposto a andar na linha, tal como queria meu pai. Isso me irritava.Porqueandarnalinha?Quemquesabealinhaquedevo seguir? eu bradava em pensamentos e reforava minha rebeldia. E fazia isso como o faz toda e qualquer criana. No caso delas, ascrianas,bastaqueospaisdigamno,bastaqueoacessoadeter-minadoobjetosejainterditado,epronto!estfeitaamgica.Daem diante o pequeno mudar seu comportamento em relao coisa in-terditada. A mera curiosidade inicial se transforma em desejo. No caso dos meus dezesseis anos, acontecia outra coisa, eu dava um passo alm. A tendncia era reforada pelo hbito.Meuspaisrealmentetiverammuitocomoquesepreocupar. Quandonoeraumacoisa,eraoutra.Logo,logo,comojeradese esperar,pichaes,pequenaspilhagensedepredaessetornaram passatempos obsoletos e pouco convenientes. Eu precisava de modos mais sofsticados de desafar o poder institudo. o que veio depois? No tardou a chegar o dia de fumar meu primeiro baseado.Fumar o tal cigarro proveniente da inocente cannabis sativa me pareceuumaoportunidadetentadora.oquemaiseupoderiadesejar para fazer-me um legtimo transgressor? o papo daquela turma era en-volvente, oferecia um leque de termos bem atraentes, como liberdade, mente aberta, paz, viagens; enfm, fumei. Entrei por um caminho sem saber que talvez no fosse mais querer sair.Dei trs tragadas na primeira vez, prensando no pulmo para obter maior efeito, tal como os usurios mais experientes haviam me ensinado. Meus olhos fcaram vermelhos em poucos minutos. Mas eu CONFISSES DE AURLIO 53no sentia nada, nenhuma alterao. Fiquei to decepcionado que tive vontade de ir embora para casa. Ento, quando abri a boca para dizer a meus amigos o que estava pensando, a voz no saiu; olhei em volta e no os vi; eu estava em p diante de um muro, a uns quinze metros deles. Algum gritou de l: o Aurlio t doido!J no sentia meus ps. A sensao era parecida com acordar deumsonhopelamanh,comosehouvessealgoestranhonoar,ou como se faltasse um parafuso no real. Tive vontade de rir. Minha mente se fragmentou; uma multiplicidade de imagens invadiu minha cabea. S aos poucos comecei a dominar a turbulncia inicial e me senti mais confortvel com aquele estado alterado de conscincia. Ento, deixei--me levar por uma crescente sensao de poder, pela qual acreditei ter adentrado um nvel superior de pensamento; cheguei a um estado em que meu corpo vibrava sem culpa, medo ou qualquer emoo negativa, e somente exalava uma mistura de alegria e plenitude. A experincia foitointensaqueatmesmoapercepotemporalsedistorceu.o tempo passava mais devagar.Nomearrependodoquefz.Ponto.Aindaassimno recomendoamesmaousadiaaningum.Pensarqueexistemdrogas leves ingnuo e pode sair caro. o risco alto. Todavia, no desconsi-dero os benefcios da ruptura psicodlica com a realidade. o risco em questo est ligado ao peso do hbito pouco saudvel que, com o uso contnuo, pode se instalar. E, por outra perspectiva, se no me arrepen-do, porque talvez eu no tivesse adentrado to profundamente numa busca interior sem o despertar das drogas se que posso chamar essas experincias psicodlicas assim. Experincias: devo mesmo dizer isso no plural, porque muita gua rolou depois daquele primeiro baseado. CAPTULO 6 54Ademais, no pretendo ressuscitar os mortos, nem me agrada chorar a morte da bezerra. Tenho mais o que fazer. o caminho para dentro, para cima e sempre em frente. E como dizia minha av: guas passadas no movem moinhos.55.7.[...] e quero recompor minha unidade depois dosdilaceramentosinterioresquesofri quandomeperdiemtantasbagatelas,ao afastar-me de tua Unidade.Santo Agostinho, Confisses (II, 1)Reflexes sobre a adolescnciaComoentenderqueumapessoavenhaadesejaronada?E como entender que essa pessoa possa desejar o nada pensando desejar umbem?TalcomoaesfngedeTebas,avidanosimpeseuenigma: decifra-me ou te devoro.Somos a imagem e semelhana de nosso criador. Mas ser que fomosequipadoscomalgumdispositivoparadetectaroquebom para ns? gente para dar palpites que no falta, mas ainda est para nascer o inventor da mquina de tomar decises infalveis. E como se esse problema j no fosse exorbitantemente grave, tambm somos le-vados a admitir outro, de gravidade semelhante ou pior. Falo de nossa desgraadacapacidadedenosboicotaransmesmos,oraquerendo uma coisa, ora querendo outra, ora querendo duas, trs, quatro coisas ao mesmo tempo. Seria muito mais fcil se pudssemos nos guiar ape-nas pelo prazer. A vida seria bem menos doda... CAPTULO 7 56Muito tempo passa e muitas dores e decepes so infringidas aumapessoaatqueelaformesuasprpriasconvicesetomeum rumonavida.Sabermesmoaondevaichegar,ningumsabe.Encon-trando-seemsituaessemelhantessquerelateiaindahpouco,e semteramesmasortequeeutive,muitagenteacabamergulhando num mar de sentimentos negativos.Por que tipo de bem eu me orientava naqueles dezesseis anos?Assim como um rio que enfrenta as rochas e aclives interpos-tosemsuatrajetria,eunoconsentiaemdepurarmeusinstintos. Queria contornar barreiras, e no suavizar desejos. Eu era movido pelo qu? Pelo medo. Temia e este um dos absurdos da vida ser privado de um bem que eu desconhecia. E devido a essa instigante constatao que quero aproveitar o presente momento de refexo para avanar um pouco mais na arte que interessaaestasconfsses:aartedeerguerdefesascontraoinimigo. Todo o meu esforo no sentido de desbaratar seus esconderijos e des-cobrir por onde ele entra quando ataca meus pensamentos. Para tanto, interessa-me agora investigar a ligao entre a recusa original e o medo. Voupartirdanoodetrauma.Umdosprimeirosefeitosde qualquertraumacriarumaespciedenostalgiadotempoperdido. Isso assim desde o trauma primordial. Quando um terremoto arrasa um pas, por exemplo, as pessoas parecem chorar, caminhando por so-bre os destroos, um paraso perdido mesmo no caso de um pas de terceiro mundo, como o Haiti, em que os problemas sociais j eram su-fcientemente terrveis antes da catstrofe. Eis a lgica da recusa origi-nal, e os resultados de sua repetio no decorrer da vida de uma pessoa so desastrosos, porque ocasionam a perda da realidade potencial, isto , no a realidade de um paraso perdido, mas sim a realidade daquilo que tem potencial para vir a ser, sem jamais ter existido. CONFISSES DE AURLIO 57Arealidade potencial opresente.Mesmosendorido, mes-mo sendo deserto, no presente que, carregando pedras, caminhamos. Porm, existe a infeliz possibilidade de criar-se uma ponte imaginria entreopassadoeofuturo;e,ento,quandoosujeitotraumatizado constrisuacasanessaponte,recusando-seveementementeapular no rio que passa por baixo, d para prever o que acontece depois. Num belo dia, aparece uma pedra qualquer e bloqueia a sada, de modo que osujeito,desdeantesparalisadopelomedo,torna-seumprisioneiro desuaprpriaponte.Issosetransformanumacontecimentotrgico do qual ele dir at o fm de seus dias: No meio do caminho tinha uma pedra, nunca me esquecerei.Maisumpassofrentenesseraciocnioedeparocomuma pergunta que me permite relacionar a recusa de pular no rio e os senti-mentos negativos que podem estragar a vida de uma pessoa. Se a cria-tura, acabrunhada por seus medos, deixa de agarrar as chances que o universo lhe oferece para realizar seus sonhos, com que artifcios ela consolar os anseios mais profundos de seu corao?Volto, ento, ao problema do bem, tal como ele se apresentava nos meus tempos de adolescncia. E j arrisco uma primeira observa-o: parece-me que raramente um adolescente escapa do poder para-lisantedomedo.Aadolescnciaumafasedetransio,eporissoa pessoa que entra nessa fase fca meio perdida entre as coisas que tem de deixar para trs e os anseios que projeta no futuro. E retomando ainda a metfora da ponte, mesmo o caso de di-zer que pouqussimos adolescentes so orientados corretamente quan-do recorrem a ela pela primeira vez. os pais percebem que seus flhos estocomproblemas,percebemasdiferenasnocomportamento,a irritabilidade, a insegurana, a distoro na autoimagem, mas simples- CAPTULO 7 58mentenosabemoquefazer,porque,afnal,elesmesmospassaram por difculdades semelhantes e tambm no tiveram quem os ajudasse. Quanto a mim, tambm no tive quem me dissesse as palavras certas quando achei que a soluo era fugir para a ponte. Mas no cul-po meus pais, jamais. Eles fzeram o melhor que puderam, e s a paci-ncia deles j valeu muito. No entanto, o que eles poderiam ter dito algo to singelo que, talvez, no o tenham dito somente porque o b-vio facilmente escapa aos olhos. Eu desejo que cada adolescente possa ouvir da pessoa que ele mais ama e confa a seguinte frase, quando sentir um vazio no corao: Voc no mais quem voc era, e o futuro imprevisvel. Aceite isso e v devagar. Acolher e curar o adolescente que fui mais importante do que acusar os erros que, com ele, cometi. Ademais, a vida sbia professora: concede-nos o galope hoje, para nos ver cair do cavalo amanh.59.8.Estabeleceste, de fato, e efetivamente acontece, que toda alma desregrada seja seu prprio castigo.Santo Agostinho, Confisses (I, 12)Dos castigosMeupaimeensinouqueoprazernonosorientaconfavel-mente para o que nos faz bem. Ele costumava dizer que as pessoas que buscam somente o prazer acabam sempre se dando mal. Essa foi a lio de minha adolescncia e o legado de Patrcio. A cada vez que eu pisa-vanabola,elerepetiaseusermo.Ecomoavidanolhedeutempo sufciente para ver seu flho crescer e se tornar homem, e para teste-munhar as evidncias de que as palavras que pareciam entrar por um ouvido e sair pelo outro no eram ditadas em vo, pois apenas falavam a um esprito ainda adormecido, dedico-lhe agora a recordao de uma de nossas conversas, como panegrico em sua memria.Na ocasio, meu desempenho escolar beirava o ridculo, e ele sabiaqueeufaziaqualquercoisa,menosempenhar-menosestudos. Ento,abordou-menumatarde,quandoeujiasaindodecasapara CAPTULO 8 60encontrar-me com meus amigos. Estava sentado no sof da sala e, pro-vavelmente,aguardavaomomentoemqueeuiriapassarporeleem direo porta da rua. Comumente, eu apenas me despedia com fra-ses curtas e displicentes, tipo Tchau, pai, No demoro, Vou ali, na casa de fulano, e esse modo informal de tratamento era sempre bem aceito em minha famlia; mas no daquela vez, pois o que escutei, antes mesmo de abrir a boca, foi: Sente-se a.Noteiqueminhasltimasprovasescolarestrepidavamem suas mos, e engoli a seco a vontade de dizer que eu no estava a fm de conversar, j que minha tpica frase Mas pai... foi cortada ao meio: Sente-se a ele repetiu com um pouco de rispidez.Eu soube que a coisa era sria; quando meu pai falava daquela maneira, no havia remdio. Era calar-me. Mas sua atitude me pegou de surpresa. No fui repreendido nem ouvi um nico comentrio a res-peito daquele irrecupervel chumao de folhas que ele logo em segui-da jogaria no lixo, sem qualquer cerimnia. Meu flho, voc no acha que est exagerando? a pergunta veio seca.Seria muito mais fcil aguentar a bronca calado e, de prefern-cia, sem olhar nos olhos de Patrcio, tal como j era do meu costume fazer, contudo, a estratgia de fcar de cabea baixa no funcionou, e fui obrigado a me defender: Mas papai, eu no fz nada de errado, s ia sair um pouco! no sei como tive coragem, mas falei isso de cara lavada.Em vo. Patrcio permanecia impassvel: Ento, isso? Voc acha que est tudo bem?Antes mesmoque eu pudesse concluir minhas promessasva- CONFISSES DE AURLIO 61zias, tpicas de quem quer apenas se livrar de um censor inoportuno, dizendo eu vou recuperar essas notas, se for esse o problema etc., ele me interrompeu: o problema que estou preocupado com voc, meu flho. o problema que voc deve estar pensando que a vida uma festa! Mas a vida tambm no s trabalho! tentei revidar, mes-mo sem saber se acreditava em meu prprio argumento.E levei mais uma: Isso conversa, Aurlio! Voc e seus amigos acham que tudo curtio! Mas no pensam nas consequncias. E depois, como vai ser? Voc no acordou para a vida ainda.A nica coisa que eu no tolerava naquele tempo era quando algum me taxava de imaturo ou me considerava como uma pessoa jo-vem demais para entender a realidade do mundo. Se meu pai pensava que podia falar comigo daquela maneira, ele estava redondamente en-ganado, porque era previsvel que, em troca, eu iria menosprezar seus conselhos: J sei que voc vai dizer que o prazer isso, que o prazer aquilo, que a gente no deve viver apenas em funo do prazer. Voc diz sempre a mesma coisa!Mas fui surpreendido:Vocestcerto,Aurlio.issomesmoPatrciotemperou sua fala com um toque de sarcasmo. Eu ia falar sobre o prazer, e sobre comportamentos repetitivos e limitantes. Mas melhor eu falar de ou-tro assunto e parar de te encher com essas minhas ideias antiquadas, das quais voc j est careca de saber. No bem isso que eu quis dizer... titubeei.Masbemporamesmoeleinsistiu,senoquisermos CAPTULO 8 62falar dos enganos e dos erros que cometemos pela nsia de prazer, po-demos falar do outro mtodo de que o universo costuma se valer para nos orientar: o castigo. o que acha?Deideombros,imaginandoquepapaihaviapuxadoaquela conversasparanomedarumcastigosemsermo.Masocastigo no veio, e Patrcio revelou-se menos previsvel do que eu pensava, fa-lando de um jeito que eu quase no reconhecia como sendo do homem que diariamente eu via sentar-se mesa e discorrer sobre assuntos de jornal, contas, manuteno da casa e memrias de famlia:Assimcomoumacrianareconhecequefoicastigadapara seu prprio bem, tambm ns podemos nos indagar sobre o sentido de nosso sofrimento e de nossos fracassos. Perguntamos: ser que estou sendo castigado por meus hbitos? ser que infringi as leis da nature-za?serqueestoucultivandosentimentosnegativos?serquemeu estado emocional favorvel ao adoecimento? E por a vai... ele fez uma pequena pausa, como se tentasse ler meus pensamentos, antes de perguntar: Est me entendendo? Voc meu pai, se quiser pode me castigar... respondi entre dentes.Mas o castigo no veio: No estou falando das suas notas na escola, meu flho. Isso peixe pequeno para voc. o que eu quero que voc entenda vai te valer para a vida toda. Preste ateno neste exemplo: o cara sofre de gastrite nervosa e acha que o problema est no excesso de gordura que sua es-posa coloca na comida. Seu cime doentio, irrita-se facilmente, fca vigiando o comportamento da mulher, o celular, o cheiro das roupas e tudo mais. Chega ao escritrio em que trabalha e olha para seu chefe de modo submisso, porque o v como um leo faminto invencvel. Esse CONFISSES DE AURLIO 63cara sofre as consequncias de sua obsesso e possessividade. Sua gas-trite, defnitivamente, no acidental.AoperceberquePatrcionotinhaaintenodemepunir, fnalmente fquei menos arredio e at arrisquei uma pergunta direta: Por que voc est falando disso?A resposta me pareceu absolutamente inusitada:Porquequeroquevoccompreendaquesexisteumpai, que Deus.Depois de alguns segundos de silncio, continuou: Veja outro exemplo: o camarada sentado na fla do consult-rio do oncologista mostra-se abatido, beira de uma depresso. Seu ar-rependimento no ajuda em nada. Foi fumante por trinta e cinco anos e agora no tem mais pulmo para respirar o oxignio que o universo lhe oferece. No entanto, o oxignio esteve sempre aqui, disposio. Mas voc no Deus! No pode julgar as pessoas arrisquei dizer exatamente o que estava sentindo, sem hostilidade.E ele concluiu, falando pausadamente: o verdadeiro pai Deus, Aurlio. Mas voc tem uma famlia aquinaTerra,parateamparar,nutrireeducar.Umdiavocvaica-minharcomsuasprpriaspernas,evaiterdeseresponsabilizarpor todas as suas escolhas. At l, fazer voc perceber a diferena entre o que certo e o que errado minha obrigao.ohomemquefalavacomigodefnitivamentenoseparecia commeupai,nocomopaiqueeuconhecia;noentanto,gosteido novoPatrcioquealiseapresentou,emesentiorgulhosoporele considerar que j podia falar comigo daquela maneira. Se ele estivesse vivohoje,nsnossentaramosmesaparajantareconversaramos longamente, como fazem os velhos amigos, e teramos muitas experi- CAPTULO 8 64ncias para trocar, e eu o recordaria sempre daquele dia em que ele me fez descobrir a natureza do amor de um pai. Quem sabe ns at no po-deramos continuar falando dos tantos castigos e frutos amargos que a humanidade colhe por persistir nos mesmos erros...A natureza castiga o planeta, eu lhe mostraria a manchete de uma revista formadora de opinio, dessas de acesso ao grande pblico. Enscomentaramosprimeiramenteumfato:derepente,depoucas dcadas para c, os especialistas do mundo inteiro passam a divulgar uma lista infndvel de catstrofes naturais que, muito em breve, sero ameaascontundentessobrevivnciadaespciehumananaTerra. E,talvez,partilharamosaesperanadequeoserhumanocomecea se compreender de uma maneira diferente, percebendo seu potencial de destruio e, de uma maneira ainda mais extrema, desvelando sua natureza parasitria em relao ao ambiente em que vive.Depois, examinaramos os indcios de que nossa esperana no partilhada em vo. Eu levantaria a hiptese de que uma das afrma-esmaisbombsticasdacinciadosculoXXjvemcumprindoa funo de acordar a humanidade: Veja, papai, estamos mais conscientes desde que percebemos que os recursos naturais so esgotveis. Eutambmpoderiadizerque,noritmoatualdassociedades de consumo, os recursos so rapidamente esgotveis. Papai concordaria comigo, dizendo:Tudocomeaa,masoutrasconclusesnochegamaser mais reconfortantes.Ele provavelmente citaria muitos exemplos e faria uma longa ex-posio de suas ideias, e, se assim lhe aprouvesse, quem sabe, enfatizaria o problema das alteraes climticas e suas terrveis consequncias; ou, CONFISSES DE AURLIO 65quem sabe, preferiria falar dos bilhes de barris de petrleo que saem de suasvetustascatacumbasparasetransformarememcalor,poluioe lixo no biodegradvel; ou, quem sabe, ainda, com o corao amolecido pelosanos,demonstrariamaiorpreocupaocomodesequilbriodos ecossistemas e a lista de espcies ameaadas extino. E, se assim fosse, vingando a derradeira hiptese, ele certamente faria um discurso cheio de sentimentalidades e choraria em razo das mazelas do urso polar, da ona pintada do Brasil, do atum azul, dos bebezinhos focas e de outras tantas criaturas que, na terra e no mar, encontram-se em vias de de-saparecer. Ele falaria desses e de muitos outros problemas do mundo, falaria da corrupo, da misria nos pases pobres, da intolerncia, das armas nucleares, da iminncia da barbrie, da poluio das guas, e a, sim, seramos dois marmanjos a chorar pela ignorncia que existe em cada um de ns, humanos.Enfm, a colheita inevitvel. Acho que aprendi a lio.Que Deus me permita honrar at o fm dos meus dias a mem-ria de Patrcio, meu pai.Do gosto pela culturaDuas formas de expresso artstica me agradavam mais: a m-sicaeocinema.Emambososcasos,oprazerestticoseuniaauma forte atrao pelas celebridades.Ao som do rock, eu dava vazo aos sentimentos de amor e dio reprimidos. As letras das msicas e as declaraes bombsticas dos ar-tistas na mdia encarnavam a voz de minha garganta muda. Uma bar-reirainvisvelseparavameussonhosdemim.Eutinhaumavontade CAPTULO 8 66imensa de agir, de fazer algo acontecer, mas, refreando meus mpetos, todos os caminhos se mostravam bloqueados, e era como se a prpria sociedade advertisse: o mundo ainda no seu.Meus dolos me ensinavam a falar. A voz deles emprestava con-tedo articulado a tudo aquilo que eu somente era capaz de sentir. Cada canotraziaumamensagem,quepodiaserumautopiapoltica,um apelodepaz,umgritodeliberdade,umclamortranscendentalouat mesmo uma singela declarao de amor. Em cada uma havia uma parte revelada de mim mesmo: traos da arte de inventar um jeito de ser.Algumas canes me acompanharam por um longo tempo, como um dirio pessoal. Eu as levava comigo. Parecia que tinham sido escritas para mim. ou melhor, parecia que eram de minha prpria autoria. Todos os dias quando acordo, no tenho mais o tempo que passou...Quero colo, vou fugir de casa... preciso amar...Ideologia, eu quero uma para viver... Porque se chamava moo, tambm se chamava estrada...Eu no sou besta pra tirar onda de heri... In the name of love, what more? Come as you are, as you were... Pacato cidado, pacato da civilizao... Sou pescador de iluses... CONFISSES DE AURLIO 67Jocinemaeraumacaudalosafontedeentretenimento,por meio da qual eu percorria mundos inteiros de fantasia e projetava todo omovimentodramticodeminhasemoes.Cinemasempredra-ma.Avidapuratrama.Emcomparaoaosherisdasantigastra-gdias gregas, as personagens que povoavam meu imaginrio tinham um sentido mais unvoco: heri-heri, vilo-vilo, o bem vence o mal. Essedualismohojemecansaumpouco,masnapocainsufava-me de ideais pelo mecanismo mesmo da estereotipia. Um movimento ver-dadeiramentecatrticoerabastanteraro,tendoemvistaque,como diziaAristteles,paralevaropblicoaatingirapurgaocatrtica, no basta que na representao uma pessoa m ou boa se d bem ou mal,independentementedaordememquetaisjbiloseinfortnios aconteam, pois o essencial que a tragdia advenha de modo simul-taneamenteinexorvelevoluntrionavidadoheri.Semoaspecto inexorveldodestinotrgico,osentimentodepiedadenosemani-festa.Semoaspectovoluntrio,ouseja,semoserrosqueaprpria personagem acaba cometendo por sua conta e risco, no se terrifca o espectador perante a angustiante iminncia de sofrimento que a todos constrange nesta vida. Naquele tempo antigo, a pessoa que ia ao teatro voltava para casa munida de um aprendizado til para o viver, e talvez ela passasse aestarmaispreparadaparaosaltosebaixosdavida.Nessesentido, atragdiaauxiliavanaformaodecidados,semincidnciademo-ralismo.Nocinemahollywoodianodomeutempo,comumente,no acontecia assim. o heri fazia a caricatura de uma virtude monotnica, eseusofrimentosefaziapresenteapenasparafgurarapersistncia no bem ou para insufar um sabor epopeico na busca da mulher amada. o sofrimento do vilo, por seu turno, trazia tona uma vingana lcita, CAPTULO 8 68aceitvel,epromoviaadescargademonesagressivaslatentes,de modo que o resultado fnal no era tanto a catarse, mas a mobilizao de paixes e ideais em prol de um senso deveras vago de herosmo.Lembro-me de um dos flmes mais fantsticos daquela poca, Seven, no qual o serial killer fazia com que cada um de seus assassinatos simbolizasseumdossetepecadoscapitais.ofnaldothrillerdeuum nnaminhacabea,toacostumadaelaestavacomsoluesfceis. Ao mesmo tempo em que eu queria me sentir como um bom mocinho, transcendentalmentesuperioraosconfitosmorais,tambmhavia avontadededaraopsicopataseumerecidocastigo,eliminando-o queima-roupa. No resisti; o herosmo cedeu ao desejo de vingana. Fi-quei angustiado. No me reconheci. Esse voc mesmo, Aurlio? Qual o seu desejo? Atira! Explode a cabea desse desgraado!No mesmo ano, perdi meu pai.Morre o pai de AurlioEuviajavanoturbilhodofnaldosculoXX,semtercom-pletadoaindaosdezoitoanos,quandopapaiveioafalecer,atingido por um infarto fulminante. Meu mundo caiu. Tudo o que antes me ale-grava perdeu o sentido. Retra-me num profundo estranhamento com relao ao cerco do real. Morri e renasci; mas no to rpido, no sem antes descer ao breu: Ser que vale a pena? Viver para qu? deprimido, eu estan-cava em pensamentos dilacerantes.Seanteseusentiaquetudoestavaaomeualcance,seacre-ditava que meus amigos conspiravam a revoluo, adolescentes como CONFISSES DE AURLIO 69eu,paraummundomaisexcitante,esedebochavadosconselhosde papai, com sua morte, descobri minha prpria fragilidade. Meu velho era forte como um touro, eu jamais havia visto uma doena derrub-lo por um dia sequer. Perdi o cho. Como pde ir-se assim, numa frao de segundos, como que soprado aos ventos? Ser isso o homem, uma alma inquebrantvel num corao de passarinho? Alma imortal... minhas palavras assediavam o silncio de Mnica.Ns, que tanto precisvamos da fora de papai, nos encontr-vamosdesamparados.Issonofaziasentido.Meucoraoagitava-se feito mar revoltoso. onde est a bondade de Deus? Por que deixou meu pai mor-rer? No existe deus algum, e nada faz sentido eu destilava meu pr-prio caos interior.osmonstrosquehabitamosporesdaalmacorriamsoltos. Mais do que sofrer a perda, mais do que envolver-me na mortalha do luto,piorerabeberumcoqueteldesentimentosconfusoseamargos como fel. Era uma nusea, um remorso, algo que eu no podia enten-der. Desejava sumir, pensava em isolar-me num canto qualquer e sen-tia dio do mundo. Agredia as pessoas que me amavam e no aceitava consolo. Meu desempenho escolar foi a zero.Permanecinesseestadopormeses.Atque,umdia,mame pronunciou palavras mgicas: Aurlio, meu flho, meu amor, at quando continuar se punindo?Somente uma me para traduzir to bem as tormentas ocultas daalmadeumapessoa.AoouviraspalavrasdeMnica,desabeiem lgrimas. Eu tinha dvidas a acertar, precisava de perdo, por ter agido como animal desgovernado, que circula sem rumo e dorme ao relento; CAPTULO 8 70maseratardedemais,acasacaiuantesdeoflhoprdigochegar,e meu pai jamais voltaria a estar l para festejar o meu retorno.Levei minha me garagem e lhe mostrei um pneu rasgado, en-costado no canto. Prometi, aos prantos, que no dia seguinte ele estaria restaurado. Ela no entendeu muito bem a urgncia daquela promessa, e assentiu apenas em respeito minha dor. No tive coragem de contar--lhe a verdade. Eu mesmo era o autor do estrago, enquanto todos pensa-vam que o pneu havia sido rasgado por algum vadio noturno.oh,meuDeus,confessooquantosoupequenino!Comopude atacar o patrimnio da minha prpria famlia? To somente porque pa-pai me proibira de ir a certa festa e me afastara de um ambiente que eu mesmo no aprovaria para um flho meu? Na memria do universo, es-tou eternamente rasgando o pneu do carro de meu pai. Sinto vergonha.Chorei muito no colo de minha me. No dia seguinte, procurei um borracheiro especializado em recauchutagem e o convenci a fazer o servio. Como pagamento, ofereci meu sangue; uma semana de trabalho braal.Ainda guardo aquele velho pneu comigo, misto de trofu e ci-catriz no corao.Despertando a conscincia A melancolia um tipo de morte que no morre nunca. Voc padece de um sofrimento que di, di; voc se entristece, e isso dura uma eternidade. Mesmo que dure somente um dia, ou um ano, no faz diferena,durasempreumaeternidade.otemponopodemedira melancolia, porque ela no possui movimento, no muda, no evolui; a melancolia o absoluto do sofrimento. Dela, o tempo s mede a cura, quando isso, por sorte, acontece. CONFISSES DE AURLIO 71No meu caso, a cura no veio por sorte, mas por graa. S pude recuperar a capacidade de amar porque a ajuda veio de cima. ordens superiores quiseram que eu fosse salvo pelo amor ao conhecimento.Falodeumconhecimentoquesalva,nodoconhecimento tcnico-cientfco.Falodoconhecimentoque,naAntiguidade,levou Pitgoras a apresentar-se no como sbio, mas como amante da sa-bedoria,eque,naverdade,omesmoconhecimentoquedevemos amaremCristo.Trata-sedeumaimportantedistino,porque,sea cincia moderna vem do desejo de transformar o mundo, a sabedoria, por sua vez, vem da arte de dar sentido vida. claro que eu ainda no estava pronto para a verdadeira busca dasabedoria.Fuisalvoporumailuso.Umailusoboa.Umfode esperana.Euqueriaumacidade,umporto,umba,umtesouroou, ao menos, um mapa. Eu queria vencer a morte. Somente com os anos compreenderiamelhorosentidodajornada,mas,paraalgumque ainda dava seus primeiros passos, j estava bom: a iluso do porto era sufciente para me fazer navegar.Misteriosos acontecimentos fzeram despertar essa busca. No me importo se a maioria das pessoas prefere acreditar no acaso ou nas coincidncias. As pessoas geralmente recusam o espanto. Elas procuram afastar tudo aquilo que eventualmente lhes perturbe o sono do materia-lismo. E, na verdade, no h nada de estranho nisso, visto que o sonho tem funo biolgica, qual seja: impedir o sujeito de acordar. mais fcil dizer isso foi uma coincidncia do que dizer ouvi o chamado. Ento, sejaloqueforquepensefulanooubeltrano,devoconfessarquefui chamado.Numintervalodepoucosmeses,umasequnciadeeventos mudou para sempre minha maneira de ver a vida e transformou meus sonhos. Tudo comeou com a leitura de O Pequeno Prncipe. CAPTULO 8 72Faziajalgumtempoqueavelhaestantedelivrosdepapai andavaesquecida.Mesmodepoisdamortedele,elaforapreservada; mame a mantinha do jeitinho que ele gostava, embora ningum cos-tumassemexerl.Certodia,encontrando-mesozinhoemcasa,senti grande saudade do meu velho e quis ver se estava tudo em ordem no escritrio. Logo que entrei, notei que faltava um dos puxadores da por-ta da estante. Fiquei muito irritado; talvez nossa empregada no reco-nhecesse o valor daquela relquia; mas encontrei a pea cada ao lado de uma poltrona e decidi reparar imediatamente o estrago. Depois de encaix-la, abri e fechei trs vezes para testar a resistncia.Foi ento que notei um dos livros em posio invertida, com a lombada voltada para dentro; peguei: era o livro de Antoine de Saint--Exupry. No aquele que mame me dera, mas um exemplar mais an-tigo.Papai otinha guardadopor dcadas,e eu melembravadeouvi--lodizerqueahistriadoprincipezinhotinhasidoumadasleituras que mais infuenciaram o curso de sua vida. Dissera que o livro era um espetculo da beleza, enquanto eu, criana, no entendia bulhufas do que ele queria dizer com isso.Tive vontade de iniciar a leitura ali mesmo, e assim o fz. Fiquei muito animado. De cara dei risadas com a cobra que engolira o elefan-te. Eu j havia me esquecido de como era rir. Senti saudade de papai. Asaudademudoudetom,pudesenti-lopertodemim,comoseele estivesse partilhando a leitura comigo.Li tudo numa sentada s. Nem vi o tempo passar. Ao fnal, f-queilembrandocomopapaierageneroso;pareciaquenoseligava nas grandes ambies dos homens. Tudo dele era muito bem cuidado. Costumavafazerpessoalmenteamanutenodacasa.Noquartinho dosfundos,prateleirasguardavampeasreutilizveis,latasdetinta, CONFISSES DE AURLIO 73cera lquida para o carro, adubo para o jardim, tesouro, faco, botas de vaqueiro para os fnais de semana no stio, pesticida animal, pregos, parafusos, inseticida, lanterna e a caixa de ferramentas. Tudo aquilo, a olhos pouco atentos, podia parecer mero utilitarismo de um pai de fa-mlia; mas, no. Patrcio trabalhava para fazer de seu mundo um lugar harmnico, simtrico e limpo. Talvez ainda houvesse um pouco daque-le pequeno prncipe em seu corao; talvez procurasse ver mais beleza nomundoe,assimcomoeutambmaindanocompreendo,talvez no compreendesse bem a seduo do poder.Agradeciasguasquecaaminsistentemente,abenoadas,e aproveitei para lavar, em chuva fna, a sujeira de um ba de velhas hist-rias. Quantos sentimentos ambguos! Peguei uma foto de papai e disse: Te amo onde quer que esteja. Achoquepelaprimeiraveznavidafzalgoparecidocom meditar.Meuspensamentoscorriamsoltos,comumalevezaqueeu desconhecia.Deolhosfechados,respireiprofundamente.Sentimeus pelos arrepiarem. Tive orgulho de ser flho de Patrcio, o homem que fez de nossa famlia o seu jardim; e tive certeza de que eu era sua for preferida, sua rosa.No verso da foto, que levarei para o tmulo comigo, escrevi as seguintes palavras: Adeus, papai, seja bem vindo em meu corao.O nome dela SofiaPassou-sepoucomaisdeummseoutroeventoinslitoir-rompeunasuperfciedosacontecimentoscotidianos.Eraoperodo das frias escolares, eu me sentia bem e pretendia aproveitar o tempo CAPTULO 8 74livre para curtir minha famlia e amigos. Todos estavam contentes por me ver atravessar o luto. Eu conversava, sorria e agia de maneira am-vel, demonstrando uma sensibilidade jamais percebida antes. Cheguei a escutar uma conversa entre minha me e um tio, quando ele dizia: Agradea a Deus por no perdermos o Aurlio, Mnica, nosso garoto est muito bem, cada dia mais parecido com o pai.Contudo, ainda nos primeiros dias de frias, mudei o rumo dos planosparamededicarleiturademaisumlivro.gasteiboaparte das minhas economias na compra de um best-seller lanado na poca, O mundo de Sofa.No dia em que o comprei, eu no sabia muito bem o que que-ria.SadecasapensandoemcomprarumoudoisCDs.Agradava-me aideiadegastarmeudinheirinho,apenasisso,nopornecessidade, mas simplesmente porque estava de bom humor e no tinha pretenso de acumular grandes quantias. Nem sequer fui direto loja de discos, decidipassarporumaavenidaquecortavaapartedetrsdocentro comercial da cidade, um caminho obviamente mais longo. E foi ento que, ao cruzar uma rua, encarei um mendigo que se encontrava senta-do na esquina sobre caixas amassadas de papelo. Ele sorriu com olhos dantescamente vermelhos e me perguntou: Voc sabe o que flosofa?Antes que eu me afastasse, ainda gritou algo como garoto burro!. Fiquei to assustado que entrei na primeira loja que vi pela frente. Era uma livraria.Ningumpodecontraosmarqueteiros.Apenasumlivropai-ravasobreosdemais.Eraeleaprimeiracoisaqueapessoainevita-velmenteviaquandoentravanaloja.Logoquebatioolhonele,ouvi uma voz de bartono me chamar. Eu havia mordido a isca. o vendedor abordou-me subitamente pelas costas: CONFISSES DE AURLIO 75 Interessado em flosofa, meu jovem?Sentiumfriocorrerpelaespinha,gaguejei,respondisim, sem saber o que estava dizendo, mas tentei desconversar: Esse livro grosso. Eu nunca li nada assim to volumoso.Meus esforos de defesa foram em vo: acabei levando o livro por um preo salgado.Umaleituraqueprende.Umatramadeliciosaqueapresenta novos elementos a cada pgina. Que grande mestre esse autor norue-gus!Nometorneiumespecialistaemflosofa,maslicomprazer, eissonopoucacoisa.Defato,aprendiaomenosduascoisasma-ravilhosasaofnaldahistria:aprendiogostodeler,coisaqueno aprendinaescola,eaprenditambmogostodeperguntar.Decerta forma, aprendi uma nova linguagem, um modo mais claro de formular as questes profundas que todo ser humano faz desde a infncia.o professor ou seja, o autor tem formao flosfca e teol-gica. Seu livro foi capaz de me despertar para uma flosofa no acad-mica, menos sistemtica, uma flosofa que defno simplesmente como buscadasabedoria.Notivevontadedelerlivrosflosfcos,nofoi isso que nasceu em mim, at porque, para a idade que eu tinha, seria umdesejomuitoprecoce.oquenasceuemmimfoiumnovoolhar, uma vontade de ver alm e de compreender a vida. Uma pessoa s deseja compreender a vida quando a vida deixa de ser bvia, quando deixa de ser um dado inquestionvel. E, de fato, levei isso muito a srio, a ponto de me comparar com a personagem Sofa. Quem estaria escrevendo mi-nha histria? Em quantas camadas repousa o decantado do real?Eu no era inclinado a aceitar solues que parecessem bvias. Sendo assim, embora os mais velhos orientassem a buscar respostas na religio,aleituradaBblianomepareciamuitoatraente,tendoem CAPTULO 8 76conta que at mesmo a empregada l de casa era crente, e que, por isso mesmo, a meu ver, a igreja crist parecia ter sido feita para pessoas de pouca inteligncia. Porm, o mais engraado que, a despeito dessa infantil rejeio, comecei a suspeitar de que alguma coisa meio mgica estava me levando a ler os livros certos e, intuitivamente, me propus a abrir o Evangelho e ler um versculo qualquer. Li em voz alta as pala-vras de Mateus 5, 37: A vossa palavra seja sim, se for sim; no, se for no. Tudo o que passar disso vem do mal.Palavras de Jesus. No fzeram muito sentido para mim no mo-mentoemqueasli,apesardeteremsidoimpactantespelaforada exortao do Mestre. Senti somente um tremor, ou respeito. Era cedo para eu perceber que, num futuro no muito distante, eu as reconhe-ceriacomoumdospilaresfundamentaisdaespiritualidade.Hojesei que a retido de esprito me da sade mental signifca ser integral-mente fel verdade interior que nos habita. Certamente, tudo o que passar disso vem do mal.Quandooterceirolivromeapareceu,entendiqueotrecho do Evangelho de Mateus no me fora revelado em vo. Que essa palavra revelaonosoecomoumdespropsito!Revelao,sim.Creioe confessoquenadaaconteceemvo.ParaDeus,jdiziaSalomo,at nossos fos de cabelos esto contados; no h tempo que escape. Tudo de graa, tudo graa. Um sujeito nasce nos recnditos inominveis dosertonordestino,bebeguapodreparasobrevivere,numbelo dia, ainda que sub-repticiamente, torna-se o Presidente da Repblica mais votado de todos os tempos: graa. outro nasce em bero de ouro e termina a vida transferindo a seus flhos a herana multiplicada que recebera de seu pai: graa. outro, ainda, talvez o neto daquele que mul- CONFISSES DE AURLIO 77tiplicou a herana do pai, toma sua parte no patrimnio bilionrio, doa a instituies de caridade e vira padre; morre em paz: a mesma graa. E, se um livro inexplicavelmente cai sobre minha cabea sem dar qual-quer notcia de sua procedncia, o que devo pensar? graa. ou ainda: provavelmente a mo de um anjo cuidando do futuro de seu irmozi-nho caula.Foi exatamente assim que a obra O despertar dos mgicos pousou emminhasmos.Revolvendoabagunadoquartinhodosfundos que j no era mais o mesmo sem Patrcio , tentei retirar uma velha capa de chuva do alto de uma prateleira e, ao pux-la meio desengon-adamente, senti o impacto de algo pesado na fronte. Umlivro!Introduoaorealismofantstico?!exclamei com verdadeiro espanto ao observar a capa. o ttulo por si s j valia por toda uma campanha de marketing. Quem resistiria?No foi fcil acompanhar aquele jorro de ideias. Eu tinha por volta de dezenove anos, era ainda muito jovem, no passava de um lei-tor iniciante que mal havia sado da casca do ovo, mas o clima de ur-gncia para os novos tempos, estimulado por Louis Pauwels e Jacques Bergier,logomeencantou.Elesfalavamdepressa,eeuaindaenga-tinhava;foiquandocaiuafchadaminhainsignifcnciaintelectual. Em uma hora de leitura, comumente, eu no passava da marca de sete ou oito pginas. Que diria de centenas por dia, como aqueles autores? Confesso que ainda estou longe dessa marca.Umachuvadesapos?ocorpoembalsamadodeumgigante? Alquimia?Sociedadessecretas?Magiaourealidade?Existeoposio entre uma coisa e outra, tal como pensa a maioria das pessoas? H mais coisasentreoscuseaterradoquepodesupornossavflosofa... CAPTULO 8 78Vislumbrei os primeiros traos de um universo muito mais amplo, para alm da minha imaginao pbere e tacanha. Meus sonhos comearam a se expandir.O despertar dos mgicos tornou-se meu livro de cabeceira. Tem-peradaspelaideiadequeaespciehumanaaindanoalcanouseu prprio cume, palavras soavam como mgica. Eu lia: o poder religioso da Terra que sofre em ns uma crise defnitiva: a da sua prpria descoberta. Comeamos a perceber, e para sempre, que para o homem a nica religio aceitvel a que antes de mais o ensinar a reconhe-cer, amar e servir apaixonadamente o Universo do qual ele o elemento mais importante.Palavrasque,nofuturo,encontrariamressonnciasemmi-nhas prprias ideias e atitudes, mas que, naquele tempo, geravam so-mente uma inquietao. Que religio ser essa que est para alm das religies que o mundo conhece? pus-me a perguntar.Mistrios da natureza. Segredos guardados a sete chaves. Mo-numentosprovenientesdeumaAntiguidadeperdidanosfascinam. Aspirmides,Stonehenge,Nazca.Anjos,extraterrestres,homensde inteligncia superior: o que temos com isso, se no fazemos parte da turma deles? Muitas so as especulaes. E da? Sem provas, afrma-se qualquer coisa. Eu no possua recursos para julgar criteriosamente os fatos incrveis revelados naquele livro; tambm no era muito inclina-do a voar ingenuamente na desmesura da imaginao. A explorao do universo fantstico de Pauwels e Bergier me remetia mais a um insight religioso do que ao puro ocultismo. Eu apenas comeava a vislumbrar um sentido mais sublime para a existncia humana. CONFISSES DE AURLIO 79Mas e se tudo aquilo fosse loucura, mera excentricidade? Mui-ta gente falava do perigo de pensar demais, porque deixa a pessoa lou-ca. Ento? o desejo era mais forte que o medo. Alguma coisa dentro de mim me dizia para seguir em frente. Como que por um herosmo par-ticular, eu sentia que ia desbravar terras desconhecidas, vencer mons-trosedrages,cumpriromeudestino.Entretanto,haviaoriscodas quimeras, das mentiras e dos desvios; risco esse que eu me dispunha a enfrentar. A vossa palavra seja sim, se for sim; no, se for no. Tudo o que passar disso vem do mal: eu estava guarnecido.Daqueletempoemdiante,defnitivamente,deixeideacre-ditar em coincidncias. E tambm despertei para um tipo de atitude muito importante, que me fortalece no caminho da espiritualidade. Comecei a entender que era preciso ter cuidado com as palavras, com as peripcias do discurso, e que era preciso acreditar somente naqui-lo que pudesse indubitavelmente ser reconhecido como uma verdade em meu interior.Religio e religiosidadeTermina aqui o primeiro ciclo de memrias destas confsses: do nascimento morte de meu pai, do trauma primordial ao ocaso da adolescncia,dalactnciaaofmdoensinomdio.Tereiesgotadoa totalidade de registros biogrfcos desses quase vinte anos de existn-cia? certo que no; tampouco alimento essa inteno. Tento apenas traar o mapa de um tesouro, pinando aqui e ali, nada mais; biografa outra coisa. CAPTULO 8 80Como todo ciclo deve possuir abertura e fechamento bem def-nidos, introduzo j o marco inaugural do que vem a seguir. L estou eu diante da tev, por volta das dezoito horas, com o controle remoto na mo. A programao tediosa, canal atrs de canal; flmes repetidos, novelas,sriesinterminveis,msicadebaixaqualidade,entrevista-doseentrevistadores.Umbarbudinhomepareceinteressante.Sim, fco com o barbudinho hoje. Assisto a uma entrevista. o entrevistado algum acadmico famoso no pas, pesquisador de humanidades, prin-cipalmente flosofa e religio. o tema da conversa: religio versus re-ligiosidade. Note-se que a situao inusitada, sou muito jovem e no costumo me interessar por esse tipo de programa.Depoisdamortedepapai,foicommuitocustoqueconse-guipassarnovestibular.Acabeiatrasandomeusestudosemumano emeio.Aofnaldosdezenove,estavaaindanoprimeiroperododo cursodeLetrasdaUniversidadeCatlica.Noentanto,naqueledia,l estavaeudiantedatev,comumapulgaatrsdaorelha,deantenas extraordinariamente alertas. Eu no sabia a diferena entre religio e religiosidade. Ser que tem a ver com aquela religio de que se fala no livro do realismo fantstico? pensei. Assimdiziaoentrevistadofaominhasaspalavrasdele: areligiopropriamenteditaumainstituiohumana,criadapelos homens;cadaumatemseuarsenaldedogmas,sacramentos,rituais, regras morais e, para sobreviver, precisa de grande nmero de fis e acmulo de bens patrimoniais. Segundo Durkheim, uma coisa o sa-grado,outra,completamentediferente,aadministraodosagrado. A reside a distino desses conceitos, porque religiosidade tem a ver com a experincia nica e individual que cada pessoa tem do sagrado. Como dizia Mircea Eliade, o sagrado se mostra. o sagrado o que res- CONFISSES DE AURLIO 81ponde ao sentido da vida, sem fazer parte dela diretamente. o concei-to de sagrado se liga intuio de algo transcendente. Estou dizendo quereligiosidadealgoparticulardecadapessoa?Simeno.algo daespciehumana.olhamosparaomundoenopodemosevitaras perguntas:comoissotudofoicriado?qualosentidodavida?oque acontece quando morremos? So perguntas legtimas; por elas nos da-mosaoluxodedizerquesomosseresracionais.ooutronomedisso espiritualidade,porquenossodesejoevoluireparticipardeuma realidade mais alta.Fiquei pasmo diante da tela, sem entender direito as consequ-ncias daquelas palavras. Eu sabia que precisava grav-las na memria, ainda que no pudesse interpretar plenamente seu sentido. E foi o que fz.maneiradajiboia:primeirocomeobicho,depoisprocuraum lugar tranquilo para fcar, enquanto o corpo faz o trabalho da digesto por si mesmo.83.9.Meupesooamor;porele sou levado onde sou levado.Santo Agostinho, Confisses (XIII, 9)TeringressadonocursodeLetrasfoialgoprovidencialeme ajudou a no pirar demais nas ideias que fervilhavam em minha mente. A jiboia, por exemplo, depois que engole sua presa, precisa manter-se em repouso por dias, deslocando-se o mnimo possvel e com lentido, pois, caso contrrio, os riscos de uma indigesto fcam muito altos. o mesmo poderia acontecer comigo. Todo aquele ano que se passou en-tre os dezoito e os dezenove anos tinha sido intenso demais, no dava paraeusimplesmentecontinuarnumabuscaingnuaedesenfreada. Alm do risco de loucura, eu seria presa fcil para os charlates.Noqueeutenhaescapadoilesodosembusteirosqueseau-todenominam mestres ou gurus ou lderes de seitas pouco confveis. Por toda parte, procura-se vender um produto com o rtulo Conhe-cimento nas prateleiras da babilnia global, e o negcio est em alta; a coisa chegou a tal ponto que quase impossvel atravessar o deserto da vida sem ser capturado por essas miragens. Todavia, eu ao menos ia mais devagar com o andor. CAPTULO 9 84O universitrioFarei uma defnio arbitrria com o nico intuito de me situar. Quanto opo religiosa, tirando aqueles mais discretos, como os karde-cistas e os umbandistas, havia na universidade quatro tipos de estudantes.o primeiro grupo se misturava menos com os outros trs, era ogrupodosquedefatotinhamreligio,sendoconstitudo,nomais das vezes, por catlicos atuantes e evanglicos. genunos mulumanos, judeus e budistas eram rarssimos. No frequentavam festas, assumiam publicamente uma postura contra lcool e drogas e tinham prefern-cia por se agrupar somente com seus companheiros de f.outrogrupo,bastantereduzido,declarava-seabertamente ateu. De maneira geral, no constituam um grupo propriamente dito, porque alm de serem pouqussimos no faziam da religiosidade uma caractersticaessencialdeseumododesernomundo.Noobstante as tribos se misturassem muito no ambiente universitrio, esses ateus erammaisfrequentementevistosemcertosmeios,comonapoltica estudantil e entre usurios de drogas; ou ainda, com frequncia, entre intelectuais de esquerda, herdeiros de flsofos como Nietzsche e Marx ou da psicanlise.Um terceiro grupo que merece destaque era formado por reli-giosos futuantes e espiritualistas de toda sorte. Na maioria das vezes, tambmtinhamprefernciapelaconvivnciacommembrosdames-ma tribo e eram facilmente reconhecveis com suas batas e saias india-nas, sandlias, cabelos e barbas ao lu, aquele tipo de conversa sobre energia, mapa astral, suas meditaes ao sol dos jardins da faculdade e tudo o mais; uma delcia! Um dia falavam de budismo, depois xamanis-mo,depoisHareKrishna,SantoDaimeeassimpordiante.Simpatizo CONFISSES DE AURLIO 85muito com as pessoas dessa linha, pois quase sempre tm bom corao. Isso sem falar dos grandes amigos que fz nas rodas de cannabis.Finalmente, eu me enquadrava no quarto tipo. Assim como os ateus,tambmnoformvamosumgrupoidentitriodefnido,po-rm, diferentemente deles, circulvamos melhor por todos os meios. A principal caracterstica que me permite conceituar esse quarto grupo deriva da forma bruta e subjetivista com que experiencivamos a reli-giosidade. Eu me enquadrava num perfl cada vez mais numeroso nos dias de hoje. Falo daqueles que acreditam em Deus, mas no tm reli-gio. Era como se cada um de ns dissesse: Eu acredito no meu Deus.Com exceo do primeiro grupo, ns, os universitrios, parti-lhvamosummododevidamenosligadoaregrasmoraisfxas.Pos-suiralgumtipodefnoimplicavadiretamenteassumirnormasde comportamento. Sendo assim, entre ns reinava o esprito liberal e o respeitosdiferenas.Nofaziasentidocriticaralgumporsergay, usurio de drogas, promscuo, por se vestir assim ou assado, por assu-mirestaouaquelaposturapoltica.Desejvamosliberdadeealegria, nadamais.Emmeucorao,assimcomoprovavelmentenocorao daquelesmeuscompanheiros,haviasomenteodesejodeamar.Isso eranossareligio.Ademais,eudiziaacreditonomeuDeusporque no fundo queria dizer creio que perteno a alguma coisa boa, alguma coisa plena de sentido.Mas fexibilidade moral tambm tem limites. Jamais aderi cega-mente a tudo o que acontecia naquele meio universitrio. Nunca fui um animal de rebanho. Jamais fui conivente com atividades ilcitas, como os caixas dois de nossa chapa no diretrio acadmico. Tambm no fcava vontade com os esquemas de cola nas avaliaes de fnal de semestre ou com os trabalhos copiados na ntegra de textos retirados da internet. ou- CAPTULO 9 86tra situao que me incomodava bastante era quando um colega tentava espalhar boatos maldosos sobre algum professor, sentindo-se prejudica-do por uma nota inferior mdia. Isso me parecia muito baixo. Eu estava quase sempre pronto para vestir a toga da justia.Eassimtranscorreramosprimeirosepisdiosdeminha vida acadmica...Acontecequecomotempo,apartirdosegundoanodecurso, aquela vida foi perdendo o encantamento, e minhas crticas ao rebanho universitriosetornarammaisseveras.Emboahoraeuatinavacomas evidncias: as festas, o sexo livre, as fofocas e dilogos vazios, irremedia-velmente, no preenchiam meu esprito. S havia uma lei entre eles, nico interdito: no ser chato. Chato era todo aquele que desse uma de moralista ou que ousasse falar de assuntos acadmicos em festas. A que estava o problema. Eu gostava de assuntos acadmicos e gostava de lingustica, por exemplo; e se queria ir fundo nas teorias de Saussure, Benveniste, Bakhtin, isso era problema meu, restavam-me confdentes meus botes. Calar o co-rao, tagarelar com a lngua. Comecei a achar isso chatssimo. Eu j no queria ser sempre divertido, sempre superfcial, sempre leve e displicente; eu queria um pouco de peso. Mas perdi o lugar.No que eu tenha chegado ao ponto de me isolar, j que, em-bora me sentisse deslocado, inquieto como quem tem uma espinha de peixe entalada na garganta, tambm no era o nico a estar ali procu-rando alguma coisa sem saber direito o que. Mas mudei minha postura. De maneira bem razovel, passei a ser mais seletivo e restringi a maio-ria de meus contatos ao mbito acadmico; trabalhava com os colegas emsalaetrocavaamenidadesduranteosintervalosdasaulas,pouco passava disso. CONFISSES DE AURLIO 87Foientoque,beiradeumsertoexistencial,conheciduas pessoas cruciais em minha histria: minha ex-mulher, Flora Emlia, a quemdevotantoportersidominhafelcompanheira,meualicerce, meurgodoequilbrio,eAlpio,meuqueridoamigoeconfdente. Nossos caminhos se cruzaram numa tarde de inverno, na situao mais corriqueira possvel, dessas que acontecem todos os dias e s quais no damos a menor importncia. Porm, no daquela vez: os laos se for-maram dali para sempre.Na biblioteca, eu procurava pela estante da literatura brasileira, quando uma garota de sorriso cativante abordou-me com uma pergunta: oi, por acaso voc perdeu um cachecol? Acabei de encontrar no corredor ao lado. Devo ter fcado inerte por uns cinco segundos, completamente extasiado com aquele sorriso, sem conseguir dizer palavra, e, quando j ia mover os lbios para responder, outra pessoa se antecipou a mim. Era Alpio, um sujeito educado que se aproximou de ns e nos agrade-ceu de uma maneira incomum: Comlicena.Queroagradec-losdeantemopelocuidado com minha indumentria de inverno. Achei aquilo engraadssimo, porque ningum que fosse deste mundousariaapalavraindumentriaparasereferiraumsimples cachecol,epercebiqueagarotatambmseesforavaparacontera gargalhada.Fizmenodemeretirar,masparameuespanto,antes disso, ela rompeu a pelcula das superfcialidades sociais: gente, eu tenho a impresso de j conhecer vocs dois de al-gum lugar falou com tanta naturalidade que seu sorriso pareceu ter menos dentes do que luz. CAPTULO 9 88Fiqueimeiosemgraa,eslheconfrmeiteramesmasen-sao.orapaz,quemepareciaserpadreouseminaristatalvezum tanto por timidez , no respondeu ao comentrio. Reparei no seu per-flfranzino,cabelosbemaparados,culos,sapatoseroupasneutros e monotnicos, simplesmente no identifcveis, no havia nem mes-mo um crucifxozinho em que eu pudesse me pautar para classifc-lo: certamente ele no fazia parte de nenhuma das tribos com as quais eu estava mais acostumado a lidar.Foi Flora quem rompeu o silncio novamente: Meu nome Flora. Estudo Jornalismo.E como ningum se prestou a dizer nada, ela prosseguiu:Tenhoumnome,Flora,elamentoafaltadesortedevocs pornoteremumojeitodespojadodefalarsoavaalgopedante,j que, como se diz no senso comum, era como se ela estivesse se sentin-do a gostosa diante daqueles dois jovens paralisados.Mas enfm reagimos e tambm nos apresentamos: eu, das Le-tras; Alpio, da Filosofa. Cada um tinha seus afazeres naquele momen-to.Ento,rimosumpoucodoinusitadoencontroenosdespedimos com os tpicos foi um prazer e a gente se v. E de fato nos vimos. Quanto a mim, no acredito em coincidncias: nos encontramos nova-mente no dia seguinte, na fla do caixa da lanchonete.Comasalutarespontaneidadequesemeiaosafetos,comea-vaumaforteamizade.Floramaisafeitaatomariniciativasdeuo pontap inicial ao nos convidar para lancharmos juntos. Com pouco j trocvamos intimidades. Alpio confessava sua inaptido para relaes sociais: era sempre mal compreendido por sua aparente falta de humor e empenho acadmico excessivo. o cara ainda estava a um ano e meio da formatura e j superava alguns professores em erudio. Desde que CONFISSES DE AURLIO 89o conheci, dicionrios e enciclopdias perderam a utilidade, pois pas-seiaconsultarosarquivosdacabeadoAlpio.Flora,porsuavez, andavameiodeprimidadesdequeromperasimultaneamente,epelo mesmomotivo,umlongonamoroeboapartedeseuciclosocial.A coincidncia era incrvel. Acabamos por rir de ns mesmos, trs jovens carentes de novas amizades.Amigos inseparveisEu,FloraeAlpionostornamosamigosinseparveis.onde quer que estivssemos, independentemente do tipo de comentrio in-vejoso que nos atacasse, nossa companhia mtua nos bastava. Nossos rostosdenunciavamalegria.Eosboatoslogicamentenotardarama surgir, pois mentes maldosas queriam fazer parecer, ora que praticva-mos orgias, ora que ramos homossexuais, ora que simplesmente no passvamos de nerds desprezveis. Nada disso nos afetava.amos frequentemente a teatro e cinema, e nos reunamos em minha casa para sesses de pipoca e DVD quando no nos era possvel sair.Floranosconduzianesseuniverso.Almdeserumaentusiasta docinemanacional,quenapocajseachavaemfrancaascenso, tambm era muito ligada a produes consagradas de grandes direto-res. Paralelamente, lamos clssicos da literatura e trocvamos textos lidos na faculdade, buscando criar um clima de entusiasmo intelectual. Nossointeresseresumia-senisto:conhecimentoecultura.Tnhamos atcertoorgulho,poracreditarquenossogostoeramaisrefnado que o da maioria dos universitrios. Nossa presena em festas e bares tornou-se rara e maisseletiva. Quanto a mim, j comeava a trocar a CAPTULO 9 90cervejapelovinhoseco,otniseasandliapelosapatodecouro,as grias pela linguagem culta sem rebuscamento, claro. Flora e Alpio nunca gostaram de cannabis.Funcionamosassim,estritamentecomoumtrio,duranteal-gum tempo. onde estava um, estavam tambm os outros dois. E tudo correra muitssimobem, at que a jiboia voltou a dar sinais de fome, sinalizando que precisava caar novamente. Quase trs anos haviam se passado desde a entrada na faculdade. Flora,ummembrotpicodogrupodoeuacreditonomeu Deus, mostrava-se satisfeita com sua f pessoal e, incontestavelmen-te,noseinteressavapordebatesdeflosofaereligio.Chegavao tempoemqueAlpioeeunopoderamosmaiscamufarafaltaque sentamos,faltadealgoquenocabianosencontrosdotrioeque, considerandoosltimosacontecimentos,nomaisdependiaapenas das inclinaes de Flora, pois, quando efetivamente passamos a ter en-contros s entre ns dois, o trio quase j no era mais trio. Como Flora tentava dar uma de cupido, trazia sempre uma amiga. A tal garota se entretinha com a conversa do flsofo e, no mais das vezes, aquilo que antes era um trio passava a ter a cara de um encontro de casais.CommuitadifculdadeerelutnciadapartedeFlora,decidi-mos tomar as quartas-feiras para nossos estudos, somente eu e Alpio. Masaondechegamos?Mesmomunidosdetimasintenes,fracas-samosnatentativainicial.Umestudobblico!derir.Prepotncia? Ingenuidade? Sei l. Alpio costumava dizer que os textos da Bblia ca-tlicatmumalinguagemprpriaeque,sabendointerpret-los,en-contra-se de tudo neles. Sendo assim, nossa ideia, mais precisamente a ideia do Alpio, era tentar limar as partes puramente histricas e, tam-bm, as crendices e dogmatismos, para colher a sabedoria fna daque- CONFISSES DE AURLIO 91les povos antigos. Porm, deparamos com um empecilho: ns mesmos. ramos apenas jovens inexperientes, e de nada valia partir de uma boa premissa, se no sabamos efetivamente por onde comear. onde bus-car referncias bibliogrfcas fdedignas? Infelizmente, Alpio no era padre, tal como imaginei naquele primeiro encontro na biblioteca.Ns at que tentamos, mas em muito pouco tempo desistimos da empreitada. A histria da criao do universo em sete dias nos pare-cia ilgica e paradoxal. A ferocidade do Deus do Velho Testamento nos incomodava. A ideia de ressurreio nos parecia absurda. As imagens do Apocalipse, ento, melhor nem comentar.Coincidentemente, na mesma poca, Flora foi selecionada para umprogramadeintercmbiouniversitrio,obtendoaoportunidade de cumprir um ano de sua grade curricular numa universidade france-saaltamenteconceituada.Nossadespedidafoiquasemelodramtica. Se eu pudesse a teria amarrado ao p da cama, mas tambm no tinha comonegarqueaquiloseriadegrandeimportnciaparaseufuturo profssional. E assim, interrompido o namoro que tomava grande parte do meu tempo, investi toda minha energia na parceria com Alpio.Difcil foi encontrar novos pontos de convergncia entre nos-sos interesses. Ele propunha um estudo mais amplo sobre os flsofos gregos, Plato era o seu preferido; eu falava de escolas iniciticas, sei-tas secretas e coisas desse tipo. Difcil, mas no impossvel. Nada que bons amigos no pudessem resolver. Um cara ou coroa j estava bom, e eu me dispunha a superar o impasse, contanto que desse a minha cara ou a minha coroa. Uma brincadeira para descontrair; Alpio cedeu.o primeiro lugar que visitamos foi um centro de pesquisas em parapsicologia que frequentemente panfetava seus cursos e palestras gratuitasemfrenteaosportesdauniversidade.Haviamuitoeume CAPTULO 9 92sentia atrado por aquelas propagandas, embora hesitasse, sem saber se valeria a pena conferir, e temendo que tudo no passasse de um tipo de golpe ou maneira de atrair pessoas para um centro esprita duvido-so que, ao fnal, acabaria cobrando pelos seus servios. Contudo, as pa-lestras tratavam de um tema instigante: a experincia de sair do corpo fsico, fenmeno que eu j conhecia vagamente pelo nome de viagem astral. Contei a Alpio que algo parecido acontecera em minha adoles-cncia, numa noite em que me vira futuando sobre meu prprio cor-po. Na poca, no entendi direito o que estava acontecendo e julguei estar sonhando. Nunca esqueci aquelas imagens, que fcaram gravadas comumanitidezincrvelemminhamemria.Alpio,porsuavez,j tinha lido algo a respeito desse fenmeno e, mesmo conservando um ceticismo declarado, fcou impressionado com meu relato e decidiu as-sim me acompanhar em uma das palestras.Noendereoindicadonopanfeto,encontramosumaplaca: InstitutodePesquisasAstrais.Alojaocupavaquaseametadedoan-dar num prdio comercial da zona nobre da cidade. Fomos muito bem recebidos. Fiquei surpreso ao ver que a maioria das pessoas ali presen-tes pertencia boa sociedade local: eram mdicos, advogados, comer-ciantes, profssionais liberais, estudantes universitrios, enfm, gente normal. Escutamos uma srie de relatos de pessoas que afrmavam ter controlevoluntriodaseparaoentreseuscorposfsicoeastral;e devo admitir a forte impresso que tive de que era preciso levar aquilo a srio, porque, de outra forma, o que poderia motivar aquelas pesso-asadeixaremseuscnjugeseflhosemcasaparaestaremali,seno a veracidade dos fenmenos investigados? Num mundo em que reina o consumo e a busca pelo lucro, no meio do corre-corre do dia a dia, ninguminterromperiasuasatividadesparaviajaremfantasiasvs. CONFISSES DE AURLIO 93Interromperia? Fosse o que fosse, o fato que no pude simplesmente descartarapossibilidadedeaquilotudoserreal,nosemantesme envolverprofundamentecomacoisa.Desdeoprimeirodiamesenti impelido a conhecer mais. Mera curiosidade ou vocao?Numa conversa particular, aps a palestra, um dos coordena-dores do evento me explicou que os trabalhos desenvolvidos ali eram de cunho puramente cientfco, sendo que de forma alguma se preten-dia formar uma seita ou religio. Ele se autodenominava espiritualista e compartilhava das mesmas convices de seus confrades; porm, a f no entrava em jogo nas reunies. Na defnio dele, os membros da-quele instituto eram todos pesquisadores interessados no potencial da mente humana; contou-me inclusive que muitos eram parapsiclogos experientes e especialistas em assuntos correlacionados.Eu vinha esperando por uma oportunidade como aquela fazia tempo.Aconversacomopalestrantemedeixoumuitoentusiasma-do.Retroceder?Jamais.Manifesteilogomeuinteressedefrequentar o instituto e, assim, fui convidado a participar das atividades internas exclusivas para membros. Tudo dependia de eu passar por uma curta iniciao padronizada, o pr-requisito para a admisso de novatos. Era precisopagar.Assistia-seprimeiramenteaalgumasaulasintrodut-rias, para adquirir conhecimentos bsicos sobre os fenmenos parap-squicos;depois,emdoisoutrsencontros,ocandidatoeratestado quantoasuasprpriasfaculdadesparapsquicas.Elesacreditavam quequasetodasaspessoastmalgumtipodedom,equepreciso conhec-loparaqueseodesenvolvanadireocorreta.Eassimfoi. Juntamente com Alpio, cumpri as etapas bsicas de iniciao e passei a frequentar reunies semanais para novos membros. Descobri que no meu caso a faculdade proeminente a desenvolver chama-se telepatia. CAPTULO 9 94Mas recebi pouqussimas explicaes. Disseram-me somente que a te-lepatia uma faculdade mental natural que serve para muitas coisas, dentre elas: captao de conhecimento e comunicao.Eu estava s voltas com perspectivas assaz empolgantes. Fica-vaexcitadocomapossibilidadederealmentepossuiredesenvolver um dom to maravilhoso. E devaneava:Aondequeissotudovaidar?Chegareiacompreendere dominar as emoes humanas? Farei contato com espritos mais evo-ludos?Adentrareioutrasdimenses?eutinhamuitasperguntase, tambm, muitas fantasias.Comeceiacumprirumarotinadetreinamentos.Naverdade, doisexerccios.Explicaram-mequeeuprecisavacriarumfocomen-tal para que as faculdades parapsquicas se desenvolvessem. Eu tinha deafnarmeuinstrumento,emparelharcorretamenteosveculos,e assim o fz. Durante o dia, meu trabalho era manter-me atento a qual-quercoisaquesurgisseemminhamenteaoaproximar-medeoutra pessoa. o objetivo dessa tarefa consistia em perceber estados emocio-nais e descobrir pensamentos. Em poucos segundos, eu tinha de tentar formar uma imagem e associ-la ao sentimento percebido. Por exem-plo:sepercebiaumacargapesadadeemoesnegativasnapessoae em seguida deparava com a imagem de um homem batendo uma porta em estado de ira, podia perguntar-lhe, caso fosse uma mulher, se havia se divorciado recentemente ou se era casada com um homem violento. o exerccio era sempre o mesmo: para cada sentimento, uma imagem mentalcorrespondente.Jooutroexercciodeviaserexecutadodu-rante a noite. Tratava-se do treinamento para viajar fora do corpo fsi-co. Esse era o pr-requisito mais importante para progredir nos estu-dos realizados naquele instituto. E, de fato, os membros se distinguiam CONFISSES DE AURLIO 95pelo grau de poder ou de conhecimento que tivessem dessas realidades ocultas.Eupercebiaclaramenteasdiferentesformasdetratamento entreeles,demodoqueosupostogrupodepesquisanaverdadefoi fcando cada vez mais parecido com um tipo velado de seita ou coisa assim; enquanto eu, mordido de curiosidade, fui fcando cada vez mais envolvido naquele troo.Hoje percebo que os exerccios meio que resultavam numa pe-rigosalavagemcerebral.oaprendizdeviatrabalharemtempointe-gral. No estranho se algum lhe diz para fcar dia e noite por conta de uma coisa, uma nica meta, seja ela qual for? ou seja, se o camarada se envolve demais com algo que foge de seu controle, se confa demais em promessas, pode vir a se tornar alvo de todo tipo de explorao.Hoje percebo isso. Naquele tempo, Alpio j o percebia e no poupou esforos para abrir-me os olhos a respeito das mudanas que estavam acontecendo. Alpio queria mesmo era estudar flosofa, ali-mentavaumadesconfanageneralizadaemrelaoatodotipode esoterismo e, por mais que tentasse, no obtinha resultados anima-dores em suas experincias prticas. Em pouco tempo, ele j abando-nava as reunies no instituto, e eu passava a seguir sozinho por um caminho incerto, com pretenses ainda muito imaturas e repletas de temerosas supersties.Resumo da pera: dentro de mais ou menos dois anos, cheguei a passar por diversos lugares, visitei lojas e terreiros, conheci flosofas e religies, procurei aqui e ali e no me encontrei em lugar algum, nem me aprofundei em nada do que vi. Demorei-me um pouco mais com certos esotricos,queencontreientreosestudiososdaparapsicologia,ecom uma religio brasileira de nome Santo Daime. Sobre essas duas experin-cias, talvez, eu tenha algo a dizer. Afora isso, apenas vaguei e naveguei. CAPTULO 9 96TudocomeounopenltimoanodocursodeLetras,quando as responsabilidades aumentaram e, com elas, a presso para ingressar nomundoprofssional;namesmapocaemqueFloraresolveufcar mais um tempo na Frana e me deixou de molho no Brasil, sem namo-rada, namorando, e tambm coincidindo com o afastamento de Alpio no instituto, que foi a gota dgua para que eu me obrigasse a escolher entre acompanh-lo em novos estudos de flosofa ou seguir solitaria-mentepelaviaemquejtinhacomeado.Segui.Meucoraopedia isso, meu corao me lanava ao mar.At que a psicanlise viesse colocar um freio nessa jornada de diretrizes um tanto quanto aleatrias, Alpio vrias vezes tenta-ria me alertar: Voc est diferente, Aurlio!Nocomeo,porexemplo,procuravarepreender-meemmeu exagero,muitasvezesdenunciandoocarternadacientfcodosco-nhecimentos ensinados nas palestras que havamos assistido. Em vo. Lamentavelmente,Alpionotinhaumtalentotograndeparacon-vencer pessoas. E conhecia pouco de psicologia. o que eu de fato preci-sava escutar no me foi dito por ningum.Eu me imaginava adentrando o jardim dos deuses e no com-preendia meu prprio jogo de vaidades e seduo.Sobre a cincia dos lastrosna vida espiritualViagensforadocorpo,telepatia,clarividncia,contatocom mestres que no habitam neste mundo inevitvel questionamento : CONFISSES DE AURLIO 97quebemeupoderiapromover,casomefossemconcedidostaisdons maravilhosos? Penso que me faltava o lastro, sem o qual as embarca-esfutuamdesgovernadaspormaresrevoltosos.Quemeresponda omaiordosnavegantesquevivohouvernestaterradeDeus:deque valem enormes velas sem o peso do lastro a equilibrar a embarcao?Eudesejavaiarvelas,lanar-meaosventos;todavia,como carodesvairado,nadasabiasobreacinciadoslastros.Eunemche-gava a supor o que signifca flosofcamente que cada coisa tenha seu peso. E digo peso, no como mero indicativo da massa corporal de um objeto concreto, mas como energia ordenadora e criativa que se oculta pordetrsdasforasqueimpelemcadacoisaparaseudevidolugar. No conheo melhor defnio para a ideia de peso: o peso determina o lugar e o movimento de todas as coisas. Da se compreende a diferena de umlastroeumancora.Ambossoobjetosdegrandepesoincorpo-radoscarcaadeumaembarcao.Squeexisteumadiferenana distribuiodopeso.Umpesocalculadoedistribudocorretamente dentro da embarcao serve de lastro, age como regulador do centro degravidade.olastrosomenteestabilizaomovimentodanave,por no deixar que ela futue muito pela superfcie. A ncora, por sua vez, no um peso distribudo, e sim atrelado a um cabo. A ideia da ncora resume-se no clculo do peso mnimo capaz de manter a nave em re-pouso. Basta que ela toque o fundo para manter a embarcao em seu porto, em seu lugar, mesmo que soprem os ventos gelados do inverno.Nemlastronemncora,eutinhasomenteavontadedenave-gar. Queria seguir livre, encontrar meu prprio potencial. No procurava um continente e, de maneira perigosamente ingnua, agia como quem acredita que o bem est no ato de perambular a esmo. Eu, somente eu. Inadvertidamente me condenava a sofrer terrveis desenganos. CAPTULO 9 98Demorei muito para compreender os benefcios imprescindveis de se ter um lastro. Como qualquer pessoa, eu era impelido pelo peso do meu corao, porque o amor o peso da alma do homem; como qualquer pessoa, eu seguia as estrelas do meu prprio desejo. Nada mais previs-vel:ns,sereshumanos,plantamosecolhemososfrutosdoamorque temos. Quem ama o mal, pensa mal, age mal; isto , possui o peso do mal. por onde imagino o vazio de uma vida sem Deus. O amor a Deus o lastro. Esse amor estabiliza, equilibra a alma no mar do mundo.Porimaturidadeouporfaltadeinstruo,eualmejavamais poderes, como se quisesse velas maiores e mais resistentes para voar aos ventos com minha nave. Na falta de recursos para enfrentar o des-conhecido,espelhava-menosmembrosmaisadiantadosdosgrupos que frequentei imaginava-os super-humanos , imaginando que, um dia, seria como eles, e que seria mais feliz do que em meio a uma vida de tantas limitaes.Essa fase durou cerca de trs anos e terminou no perodo em que iniciei estudos em psicanlise, donde eu passava a mirar novos ho-rizontes. Chego a sentir preguia s de pensar em fazer um relato de-talhado de tudo o que ocorreu desde as primeiras reunies no Instituto de Pesquisas Astrais at os tempos mais ridos do ceticismo psicanal-tico. Acho que no vale mesmo a pena entrar em pormenores.Voupuxararecordaoapartirdeoutraperspectiva.osre-tratos do inconsciente so mais verdadeiros. Tive sonhos to signifca-tivos que prefro relat-los; resultaram de momentos crticos, quando me sentia inseguro por minhas prprias escolhas, e, embora revelem meus desejos inconscientes, tambm desvelam anlises profundas que minha inteligncia em viglia escondia de si mesma. CONFISSES DE AURLIO 99Esperonoferiropropsitodestasconfisses.Foramtrs sonhos.Serviramcomotermmetro,oucomoasirenequesoa hora de parar.101.10.Encontrei a mulher audaz e desprovida de prudncia que, na alegoria de Salomo, est sentada porta e diz: Comei vontade o po tomado s escondidas e bebei as doces guasroubadas.Elameseduziu,porque me encontrou fora de mim.Santo Agostinho, Confisses (III, 6)Debaixo deste sol, tudo parece se repetir. dia e o homem ain-da dorme. No entanto, ningum escapa viglia de Deus.Sou um ser pequenino. Sou uma poeira csmica que se dissipa antes mesmo de o relgio universal marcar a passagem de um nico se-gundo. Com o alcance da inteligncia, no chego a compreender toda acomplexidadedemeuprpriocorpoe,menosainda,oincompleto quebra-cabea da sociedade humana; e, muitssimo menos, os estratos todos da Vida. Quanto vale minha alma na economia do universo? So incontveisosdesvarioseimperfeiesdeminhahumananatureza. Venho me perguntando: ser que Deus se interessa pelos rituais, sm-bolos e doutrinas que os homens inventam?!Agorafalodesonhos.Naverdade,hanostenhoguardadas algumasanotaesquefz,edeixareiqueelasfalemporsimesmas. CAPTULO 10 102Recordo-medequeasescrevidesupeto,quasesempensar,jque, como de costume, ao acordar precisei escrever logo, para no perder asimagensaindafrescasnamemria.Noprimeirosonho,principal-mente, havia muitas coisas em minha cabea, e acabei transformando minhasimpressesnumaespciedecontofantstico.Comestaspa-ginas j meio amareladas em mos, sinto-me como um arquelogo de minha prpria mente. Espero que meu Deus aceite a leitura como parte legtima destas confsses.O primeiro sonho: a Loja Branca(leitura do manuscrito)Osonhocomeacomumconvite.Umareunio,agora na casa do mestre, em regime secreto. O homem que se apresenta como meu tutor diz apenas que estou pronto.Tenho uma sensao estranha, tipo de suspeita conspira-tria, enquanto um pensamento sbito me advm: O Instituto de Pesquisas Astrais deve ser um brao de atividades pblicas de um grupo fechado, onde s se entra por via de convite pessoal.Imediatamente me vejo chegando casa do mestre. Sou recebido por um de seus funcionrios. O homem me conduz a uma sala ampla, com lugares reservados para cerca de vinte ou trinta pessoas. Meu tutor est l, levanta-se de seu lugar ao lado do mes-tre e se aproxima sorrindo cordialmente: Seja bem vindo, Aurlio, voc est numa Loja Branca.Em seguida, recomenda: CONFISSES DE AURLIO 103 Fique tranquilo, para aos poucos ir compreendendo os acontecimentos.Fico um tanto excitado com as coisas que vejo. Um mes-tre milionrio. Pessoas com trajes estranhos reunidas numa man-so.Umsaloparecidocomalgomeioigrejameiomuseu,com decoraosincrtica,reunindomveisdemadeirapesada,uma enormemesadepedra,esttuasdeestilosvariados,otetoabo-badadoilustrandoemafrescocenasmitolgicasdoprincpiodo mundo e da civilizao e um enorme relgio de tipo ingls, anti-qussimo, aparentando duzentos ou trezentos anos de idade. Alm do mais, Loja Branca!Os sentimentos iniciais so de temor, respeito e espanto. No tenho dvidas de que esse foi um dos sonhos mais es-tranhos, intensos e enigmticos que j tive em toda a minha vida.Oritualteminciocomummantraentoadopelomestre. Enquanto ele canta uma melodia de trs notas, lenta e sem interva-los, invoca a proteo de entidades de cujos nomes desconheo at a pronncia. O mestre parece falar uma lngua arcaica, produzindo sonsguturaisintercaladosporpouqussimasconsoantes.Depois, invoca proteo para o novo membro da Loja e seguido por uma enrgica salva de palmas. Um a um, cada membro se levanta para vir at mim, e todos me prestam seus cumprimentos. Ningum diz umapalavrasequer.Omestreproferemaisalgumaspalavrasem seu idioma enigmtico e, imediatamente, todos se dirigem para ou-tra sala, anexa ao grande salo.Ali, encontramos servido um banquete, com diversas igua-rias,desdefrutasraras,legumesegros,acaldos,pesepeixe.A ordem dos convivas mantida de acordo com suas posies no sa- CAPTULO 10 104lo principal. O mestre senta-se primeiro, ocupando a cabeceira da mesa. A mim, reserva-se o lugar na cabeceira oposta.O mestre prope: Brindemos estas nossas npcias com vinho branco.Um frio sbito me sobe a espinha, e sinto medo de cair, pois a sensao de que meus joelhos perderam a capacidade de supor-tar o peso do corpo. Ergo como um autmato a taa para o brinde. Simplesmente no tenho coragem sufciente para questionar a pa-lavra que saiu da boca dele: npcias. Meu tutor se levanta e diz algumaspalavrasdecoradas,comoquemrezaumconhecidobor-do. Suas palavras falam sobre a criao do universo e sobre o des-tino da humanidade. Diz algo sobre a Grande Pirmide que supera o tempo, e tambm sobre obedincia e disciplina. Aqui me recordo dasnpcias.Elecomealistandohierarquias,taiscomoomenor obedece ao maior, a mulher obedece ao homem, o corpo obedece ao esprito. Depois, anuncia o advento de uma mente suprema que vir fecundaramentedohomem.isso!Omestreumveculodessa mente suprema, e, sendo assim, as npcias signifcam que eu devo obedec-lo para, por ele, ser fecundado.Nenhuma palavra volta a ser dirigida a mim, enquanto todosceiamemsilncio.Somenteaofnaldesseencontrofesti-vo, sou interpelado por meu tutor, que me entrega alguns livros, indicando que ser necessrio adquirir informaes preliminares antes de prosseguir na senda. No haver retorno, Aurlio ele enfatiza.Sinto medo.Sim,foisumsonho.Porm,sim,eraeu.Porquetive esse sonho? Ser que no passo de um rapazola imaturo em si- CONFISSES DE AURLIO 105tuao propensa para ser infuenciado pelos fogos de artifcio do esoterismobarato?Parecequeessesonhoretrataminhasmais obscuras fantasias...A mistura de medo e fascinao produz efeitos alucinantes. Agora me vejo em casa, abrindo um dos livros. Na epgra-fe da primeira lio, boas vindas ao aspirante celestial: SEJA BEM-VINDO, VOC EST NUMA LOJA BRANCA!Voc sabe o que a Loja Branca?: a primeira linha do texto; Voc sabe qual sua origem?, a segunda. Na sequncia, explica-se que o nefto ter acesso a um importantssimo conhe-cimento. Ento, sentado em uma mesa de estudos, concentro-me na leitura das lies, folheando pginas e mais pginas, e fao isso por um longo tempo.Naquele momento, eu me sentia excitado por estar apren-dendomuitascoisas,contudo,infelizmente,noconsigomelem-brar do contedo agora. Tenho apenas alguns fashes dessa parte do sonho. Lembro-me de que havia algo sobre mestres, hierarquias ce-lestes, civilizaes antigas. No obstante, foi tudo muito real. Parece atquetivemesmoumchumaodefolhasentreosdedos.Como pude ler num sonho?Eporqueacabouempesadelo?Acoisafcoubizarra. Maisdoquenunca,desconfodequeaindanoencontreimeu lugar, e de que estou cansado de esoterismo barato. Os irmos da Loja se pareciam muito com gente que conheci na vida real, gen-te que usa segredos como isca. O secretismo a alma do negcio deles. Quando querem seduzir os cardumes, fazem com que cada sujeito se sinta a caminho de algo obscuro, desconhecido, e se ufa-nam de altos poderes. Talvez, seja esse o motivo central do investi- CAPTULO 10 106mento excessivo na formao hierrquica dentro de certas seitas. Um vu negro cobre os olhos dos seguidores, crianas ingnuas.Acho que o sonho sinaliza um princpio de cura.Seosecretismoaalmadonegcio,portransformar pessoasemseguidoresobcecadospelodesconhecido,osincre-tismomalorientado,porsuavez,oalimentodoscoraesmal alimentados.Nohaveriaoutraformadeentretercoraesto diversamenteconfituososeinquietos,senopormeiodeuma miscelneadeproposiesreligiosaseflosfcas,aptasaserem aplicadasuniversalmenteaqualquercontextoimaginvelde uma vida humana.Alpiosempreesteveaanosluzdemim,talvezporser maismaduro.Adorariaqueelesoubessedasrefexesqueesse sonho me propicia. Desde o comeo, quando desistiu de me acom-panhar nas idas ao Instituto de Pesquisas Astrais, j me alertava sobre as teias em que eu cairia se acreditasse inocentemente em tudooqueescutavaali.Temiapormeusatos,minhasescolhas, pelos efeitos da credulidade, da inquietude de esprito e da urgn-cia de chegar l.Ele falava exatamente destes dois recursos: sincretismo e secretismo. E falava disso porque sabia que eu no estava satisfei-to, sabia que eu procuraria ir alm, sabia que eu no descansaria enquanto no fosse admitido em alguma seita secreta, sabia que eu me enfurnaria em qualquer canto onde houvesse ao menos um mestre e um segredo. Costumava me perguntar sobre o que have-ria para alm dos tantos segredos e rituais de iniciao, e respon-dia com certo sarcasmo: Nada! CONFISSES DE AURLIO 107E os smbolos enigmticos? Aurlio! Voc no percebe o vazio de signifcados por trs desse carnaval?Quantas e quantas vezes descartei os preciosos conselhos do meu amigo querido! Como se diz, suas palavras entravam por um lado e saam por outro. Mesmo com tantas advertncias, fz o que fz, li o que li, andei por onde andei, e hoje estou s voltas com esse sonho meio sem p nem cabea.Tambm vejo Alpio em uma das cenas. Seu papel como odeumpai,algumquenopodesaberdetudo,tipoafgura encarnada da censura. Elemeparecegrande,bemmaiordoqueeu,quasena proporo do tamanho de um adulto em relao ao de uma crian-a.Pergunta-mesobreoqueacontecenosencontrossecretosda Lojaesilencia;fcameolhando,esperadeumaconfsso.No fundo do meu peito e na superfcie rubra de minha face espelhada nos olhos de meu amigo, sinto vergonha das bizarrices que acon-tecem sob a proteo das paredes da casa do mestre.A presena de Alpio parte de uma virada no sentido do sonho, a partir da qual prevalecem sentimentos de culpa, an-gstia e medo.Acenaseguintebrotadeumcortenotempo,comonos flmes em que se diz Algum tempo depois.... Estou prestes a me tornarGuardiodoTemplo,isto,prestesarecebercomoque uma primeira ordenao de grau, para ocupar um lugar mais alto na hierarquia da Loja. Lembre-se, Aurlio, um guardio trabalha! adverte-me meu tutor. CAPTULO 10 108Noseioquevaiacontecernograndesalodacasa do mestre no momento em que entro nu, de olhos vendados, e sou conduzido at uma espcie de altar baixo todo em bronze batido. Apesar disso, sinto o corao saltar pela boca e suspeito de algo macabro.Porm,aansiedadetomacontademimeprovocanova ruptura no sonho. Sou repentinamente lanado ao passado e pre-senciooutracena:umritualdeiniciao.Vejoaimagemdeum brindeemmeunome,anunciandoquefuiadmitidonointerior da confraria. Vejo os trajes especiais que os membros usam. Estou feliz e orgulhoso de mim.O mestre anuncia o tipo de ritual: um trabalho de Procis-so. A casa est escura, iluminada somente pela luz de pequenas tochasafxadasnasparedes,etodososmveisparecemtersido retirados do salo, restando somente um pequeno altar de madei-ra com um livro sem ttulo, quase colado na parede oposta porta de entrada. As pessoas que entram no recinto se posicionam per-feitamente no alinhamento Norte-Sul. Hora da blindagem magntica avisa-me meu tutor.No fao ideia do que seja isso, mas logo os mantras co-meamasercantadosetodosmarchamemespiral,produzindo movimentos ondulatrios que preenchem o ambiente por inteiro. Apenas sigo o ritmo da marcha.Por fm, cessada a cantoria, os homens se dispersam pela casaeandamfreneticamente,cadaqualaseusabor,comoque passando e repassando toda a extenso do piso. De repente, a voz do mestre d a ordem: Fim da perambulao! CONFISSES DE AURLIO 109Imediatamente,todosretornamparaseuslugaresno grandesalo.Completamenteimvel,meututoravisa-mepara fazer o mesmo, explicando que no devo interferir nas correntes magnticas ali produzidas. Somente o mestre com seu incens-rio munido de gomas de benjoim caminha lentamente pelo lado de fora da espiral. Meditamos em completo silncio. Quando vejo, j no h ningum a meu lado; os membros da Loja formam um grande crculo em torno de ns: no centro, solitrios, o mestre e eu.Ele brande uma espada de madeira macia e, com mo-vimentos precisos, faz cortes no ar. uma ameaa. Fico imvel, sem saber como reagir, at que percebo outra espada de madei-ra apoiada num suporte bem a meu lado. A primeira pancada vem na canela. A espada muito pesada. Caio de dor, enquanto meuoponentesegueimpiedosamentemecastigandoacarne. Tenhoquerolardeladoparaganharespaoeconseguirme levantar.Tudoindicaque,seeunoesboaralgumareao, apanharei at a morte.Estou assustado, contudo decidido a lutar. Defendo-me de golpes cada vez mais fortes, durante um tempo que me parece uma eternidade, at que a espada do mestre se quebra ao bater com uma fora descomunal contra a minha. Segue-se uma longa salva de palmas. Est consagrada mi-nha iniciao.Entretanto,emvezdemesentirconfante,fcoainda mais angustiado. Minha cabea est a mil. Se as coisas chegam at esse ponto na consagrao de Aspirante, fazendo o adepto em concurso arriscar um osso quebrado e, talvez, a prpria vida, que mais eu posso esperar das cerimnias ulteriores, seno absurdos CAPTULO 10 110quevodaparapior?.Comessapergunta,encontro-menova-mente diante do altar de bronze batido, ao som de palavras estra-nhas cantadas em unssono. Na consagrao do grau de Guardio, o cordeiro do sacrifcio sou eu. O guardiotrabalha,Aurlio vejo afacesombriade meu tutor repetir, o guardio parte da vida do Templo, como uma coluna: voc ter de morrer para ser um guardio.Sou colocado de joelhos sobre o altar, em posio de qua-drpede,tendoospunhosejoelhosamarradosapequenasalas metlicas soldadas nas arestas. Assim que o cntico cessa, sinto o peso da espada do mestre pousar sobre meu ombro direito. Um brao para o Templo!Sinto uma dor aguda, seguida do calor do sangue escor-rendo pelo brao. Pousa a espada no lado oposto: Um brao para os Irmos!Mais uma vez, a dor aguda e o sangue escorrendo. Tu ests morto, Aurlio! Teu corpo coluna do Templo e suportar as chuvas e os ventos, os fogos e os tremores. Teu ego ser dissolvido qual a gota de orvalho que repousa sobre o oceano. A Suprema Providncia atravessa teu corpo como fecha. Entrega-te!Perceboqueomestrecontornaoaltareseposiciona atrs de mim. Sua espada pende sobre minhas costas, na base da coluna vertebral. Estou nu. Sinto vergonha.O que acontece em seguida difcil de relatar, sei l, mes-mosendosonho,fcomeioconstrangido.Noconsigoimaginar comominhamentecrioutaisimagens:senhoresaparentemente dignos se prestando a uma cena de horror. Voc sabe como criar um homem? inquire-me o mes-tre com voz de trovo. CONFISSES DE AURLIO 111Que sonho esse! Fui objeto do gozo perverso de homens insanos. Um bode fedorento trepou sobre minhas costas e se lam-buzou na lama de seus prprios instintos. Enquanto eu trinco os dentes para suportar o coito, ouo umaturbadeanimaisgrotescosuivar,urrarebatermarcada-mente as mos no peito, como que imitando os picos emocionais e alucinaes prprios de um ritual de sacrifcio antigo. Suporto at o fnal. Mas algum ainda grita: Vamos ver se ele macho!E outro: Ele no vai aguentar. Mande-o para a casa da mame!Derepente,escutoobarulhodasmosdomestreespa-lhando algum lubrifcante entre os dedos. a ltima coisa de que me lembro, antes de sentir algo enorme como um punho fechado penetrarmeucorpocomaforadeumnicomovimento.Sinto comoseumacorrenteeltricafortssimasubissepelosmembros inferiores at o topo da cabea; todos os meus msculos se contra-em num espasmo. Apago.Naltimacenadosonho,estoudeitadoemumacama; algum entra no quarto e me diz para descansar, pois um banque-te, meia-noite, celebrar minha vitria. Diz tambm que acabei de realizar um grande feito, e que poucos membros conseguiram cumprirsatisfatoriamenteaquelaprova,semchorar,sempedir misericrdia e desmaiando somente aps os trabalhos. Toca-me a testa para conferir a febre e sai.Soulevadopontualmentesaladejantar,conduzi-dopormeututor,queempurraacadeiraderodas.Assimque entramos,otradicionalbrinde,seguidodeumalongasalvade CAPTULO 10 112palmas.Umaum,cadamembroselevantaparamecumpri-mentar. Primeiramente o mestre e os dois ministros, sorriden-tes:estendem-measmosparaqueeuasbeije.Emseguida, osmembrosdetrsequatroinsgnias,somandodezouonze homens: esses me beijam o rosto. E, por ltimo, os membros de umaeduasinsgnias,beijando-measmos.Estotodoscom seustrajesofciaisdelinhonegroeornamentosdourados.So-mente eu de branco. Percebo em meu ombro direito, com algum assombro, trs insgnias pendentes.Noqueroestarali,sintoraiva,fcoconfusoporver aqueles alegres senhores falando de amenidades como os sabores do vinho tinto, as melodias de Chopin, os avanos da Fsica mo-derna e sabe-se l mais o que. Como podem agir com tanta na-turalidade, como se nada tivesse acontecido, como se tudo aquilo fossetocertoeperenequantoocursodasguasquebrotam nos cumes dos montes e, de remanso em remanso, encontram o mar? Janto em silncio e deixo que o tempo passe. Apenas meus pensamentos conspiram: Sei de muitos segredos, esses homens so capazes de ma-tar para fazer cumprir um juramento, no posso vacilar com uma confraria que se vangloria de existir desde o incio dos tempos. O ltimo sentimento do sonho o de querer estar em casa.Acordo. Os lenis encharcados de suor. Vejo que ainda madrugada. Volto a dormir.113.11.Sorrindo,edeixandotransparecerminha alegria, disse minha me:Alcanaste,decididamente,ocume da Filosofia.Santo Agostinho, A vida feliz (II, 10)Uma conversa com MnicaJamaisesquecereiumaconversaquetivecommame,alguns diasdepoisdaqueleprimeirosonho.Elapareceterpressentidominha inquietao, por um tipo de sintonia que s uma me pode ter com um flho. Foram palavras doces, suaves, e me envolveram tal manto de con-soloecompreenso.Euhaviamerefugiadonacasadelacomoquem carecedeumtempoconsigomesmo,comoquemrecorreaoremanso para curar sua prpria confuso interior, e por isso tentava ser discreto emmeusassuntosntimos.Sempreemvo!Nopassavanadabatido. Mame tinha percepes muito sutis. Tambm agia de maneira natural-mente franca. Quando tinha algo a dizer, no fazia rodeios.Estvamos somente os dois mesa, quando ela me abordou sem meiaspalavras.Disse-mequesabiadasminhasandanasequeestava CAPTULO 11 114preocupada com meu futuro. Temia que eu me perdesse de mim mesmo: Voc sabia que existem pessoas ms neste mundo, Aurlio?Notivetempoderesponder,porqueelacontinuoufalando sem demonstrar o mnimo interesse em me ouvir:Tenhomedodepessoasqueconseguemsersimultanea-mente curiosas e preguiosas. A gente nunca sabe do que elas podem ser capazes... Ela nem me olhava nos olhos para no intimidar. Cuidado, Aurlio! Seja cauteloso! sussurrou e passou a sibi-lar com voz de vento: Querer saber muito pode at ser uma virtude; no entanto, toda virtude implica fortes responsabilidades. Tem gente aloucaparasaberosentidodavida,epensamuitonoassunto.Fica to sozinho que acaba encontrando a resposta no interior da cavidade do prprio umbigo. Por favor, no deixe isso acontecer com voc. Pro-cure orientao. E leia sempre, leia muito, conhea a cultura do nosso povo, respeite as tradies, mantenha-se informado, transite e, princi-palmente, comunique-se.Dito isso, deixou pairar o silncio, observando minha reao. Eu no disse nada; somente os meus olhos arregalados diziam alguma coisa.Logo ela continuou, e cada palavra pronunciada parecia mar-car-me a pele de dentro para fora, da alma para o corpo: Lembra o ditado, Aurlio? Santo de casa no faz milagre. Em casa de ferreiro, espeto de pau. A gente se cansa daquilo que nosso e comea a valorizar mais aquilo que vem de fora. Hoje em dia, virou modaserbudista.Estudargnose.Queimarincensoindiano.Eoque mais?Aspessoasqueremconhecerooriente,poisestocansadasde sua prpria casa: o velho mundo ocidental, inveno do macho adulto branco europeu. o valor do cristianismo como grande herana espiri- CONFISSES DE AURLIO 115tual do ocidente fca abafado sob os escombros desse imprio em ru-nas. Desculpe-me, meu flho, talvez voc ainda no me entenda bem, mas algumas coisas devem ser ditas. Se afaste dos modismos. Voc j viu aquelas pessoas que adoram ir a museus quando esto em viagem de turismo? Fique atento, pois a maioria delas no conhece a histria da prpria cidade natal.otomdavozeragrave,porm,suave,expressandoperfeita-mente a seriedade e a ternura prprias ao corao de uma me. Com poucasfrases,tocouomeu,porqueerameucoraoqueaescutava dizer que o bem mais valioso de um ser humano seu livre-arbtrio: No se deixe aprisionar, Aurlio! repetiu isso trs vezes. E continuou:PrestamosocultoaonicoDeuseamamo-nosfeitoir-mos. Desconfe de tudo o que passar disso. Sei que voc procura um mestre. Sei que voc procura uma palavra de verdade. Voc ainda pre-cisa daquele pai que hoje est morto, mas olhe bem, saiba quem voc ; voc no est desamparado. Algumas respostas estaro dentro de voc, e na hora certa voc compreender. Fique em paz, meu pequeno!Naquelediachorei.Pelaprimeiraveznavida,abraceiminha me no s como flho, mas tambm como irmo. Meu corao se en-cheu de paz.117.12.Tu (porm) eras meu mais profundo interiore meu superior sumo.Santo Agostinho, Confisses (III, 6)No, eu no estava prximo de alcanar a paz. Quando a pes-soaaindaconservaumanaturezamuitoatribulada,elapodeatser agraciada com certos momentos de apaziguamento; contudo, paz mes-mo, paz verdadeira, no chega nem fca: para ser honesto, prefro dizer que, nesta vida, paz coisa que s se v de relance.Contato com a ayahuasca no Santo DaimeDepois da conversa que tive com mame, meus nimos muda-ram, fquei dividido. Eu no sabia se valia a pena prosseguir. A empol-gaoinicialquemeacompanhavadesdeosprimeirosencontrosde quarta-feiracomAlpioarrefeceu,ealgumascobranasemrelao vida profssional passaram a martelar em minha cabea. Nem sei por que aceitei o convite de um colega para conhecer um grupo religioso chamado Santo Daime. Na verdade, nem sei por que o convite veio logo CAPTULO 12 118naquele momento; no entanto, como costumo dizer, no acredito em coincidncias. Sei que decidi mecnica e inopinadamente. E me recor-do to s de que a proposta era tentadora: Vocvaicomagentesparaconhecer,semcompromisso. uma oportunidade que voc vai ter para experimentar o sagrado de uma maneira mais direta, atravs da ingesto de um ch indgena mui-toantigo,denomeayahuasca,muitousadoemrituaisepajelanas propagandeou o dito-cujo, autor do convite.Masnoquefrequenteiostrabalhosdaimistasporlongos meses? A coisa colou, ou melhor, o Daime pegou, ainda que eu no te-nha me tornado membro ofcial, fardado, como se dizia entre eles. A beleza da cantoria acompanhada por um enrgico bailado me cativava. Agentecantavahinoscomalegriaevigor,fazendoumaverdadeira louvao a este bem to precioso que a sade. Por fm, acabei no frmando na doutrina; mas a bem da verda-de, por mais que eu tenha deixado de frequentar a cantoria daimista, ainda admiro a essncia da doutrina deles, que une busca espiritual e vigor fsico, interioridade e disposio para o trabalho, religiosidade e comunidadeativa.Eutinhaexperinciasintensasduranteoslongos rituais, cantando hinrios e mais hinrios, com um p na terra e outro na Lua. A sensao era de ser lanado noutra dimenso, ou algo como trocar de corpo, substituindo este veculo carnal por outro mais leve.odaimetemumgostoforteeazedo,devidoaoprocessode fermentaoqueocorreemseuarmazenamento.Suaconsistncia diferente de outras bebidas, parecendo uma substncia etrea; quando a pessoa acaba de beber, sente um arrepio subir pela nuca at o topo da cabea. uma experincia nica. Em meia hora os efeitos j so senti-dos. o corpo vai fcando leve, e uma sensao de bem-estar anuncia a CONFISSES DE AURLIO 119mirao. As cores fcam vivas, cintilantes, como se o sabor da luz pu-desse ser sentido na alma. Esse o ponto em que a fora se apresenta, e quando a pessoa est prestes a entrar em outro mundo.Avivnciadochtemsuasparticularidades.Comosolhos abertos, eu me via exatamente no mesmo lugar, cantando e bailando cristalinamente, a mente limpa, esvaziada, refetindo o esprito puro. Nesse estado, a mente mirava a si mesma, presena viva, tal qual pura refetividade da coisa viva que se admira no espelho do mundo. pre-cisoestarnuparacompreenderomomento;precisodespir-sedos pensamentos mundanos. Nesse plano, a pessoa aprende a disciplina e fortalece seu campo emocional. Trabalha-se o fortalecimento da obje-tividade da conscincia, sem mscaras. Voc canta, voc toca seu ma-rac, voc baila, e isso o seu querer, sua potncia. Nada de esmoreci-mento, de fadiga, de incertezas e arrependimentos.Aofecharosolhos,descobriaoutrarealidadequepodeser chamadademundoespiritualoumundointerior,deacordocoma crena da pessoa ; tudo se passava como se eu descobrisse a mim mes-moemoutroplanodeexistncia.ocorpofcavaleve,bastandoum pensamento para voar. Alguns falam em transe, outros falam em via-gem astral, outros ainda pretendem desvalorizar a vivncia entegena dizendo que se trata de alucinao; teorias so muitas, porm o certo que existe muito valor em tudo o que a mente capaz de apreender e examinar atravs do estado de hipersensibilidade provocado pelo ch.Semprequeeubebiaodaime,ascoisasfcavammaisclaras dentro de mim. Era como esfregar uma fanela na lente do olho inte-rior,fcavatudolimpinho,cristalino.Noentanto,aindasobravaum buraco, um vazio, inculcando-me a impresso de que alguma coisa da maior importncia estava sendo postergada ou esquecida. Eu me per- CAPTULO 12 120guntavaseaquilofaziasentido,tentandomeimaginarnosprximos trinta,quarenta,cinquentaanos,repetindoomesmoritual,bebendo o ch, provocando alteraes de conscincia e, talvez, por isso mesmo, abafando as necessidades mais profundas da alma. No. Isso no cor-respondia s expectativas que eu tinha. A ideia de depender de um ch oudequalqueroutracoisadomundonomesatisfaziaplenamente. Eu esperava algo mais puro, algo que estivesse ao mesmo tempo em mim e alm de mim.Atualmente no penso assim. Naquela poca, acabei concluin-do que a ayahuasca me prenderia ao cho, ao invs de arrancar-me de mim mesmo rumo a algo superior. E foi no perodo em que eu era ator-mentado por essas questes que o segundo sonho aconteceu, suscitan-do novos horizontes a trilhar.Aqui esto minhas anotaes. Vejamos:O segundo sonho(leitura do manuscrito)Sonhei com uma festa no Santo Daime. Era Dia de Reis, e todos vestiam suas fardas brancas, inclusive eu. O salo estava cheio. Na fla do ch, quando fui me posicionar, algum me puxou pelo brao e me empurrou para o ltimo lugar. A fla estava longa demais, e eu no queria esperar. Tentei furar a fla, mas fui nova-mente puxado para trs. As pessoas se empurravam impaciente-mente,entrandoumasnafrentedasoutras,epareciamafoitas para receber sua poro da bebida. CONFISSES DE AURLIO 121Quando estava quase chegando a minha vez, o ch aca-bou. Assim, eu e mais alguns fomos retirados para um salo par-te,ondehaviaumestoquedefolhasecips.Ohomemquenos conduzia informou que era preciso fazer mais ch. Disse-nos que o ch no podia acabar jamais; era preciso fazer mais, muito mais ch! Em minha frente, foi posta uma quantidade enorme de cips para eu amassar com um porrete de madeira.Umsujeitoquetrabalhavapertodemimpiscouoolho e apontou para o fundo do salo, indicando-meuma escadaque dava acesso ao poro. Aurlio, voc tem grana a? disse ele rindo e insinuan-do, com um gesto de cabea, que eu fosse at l.Pedi que me explicasse o que estava acontecendo. No en-tanto, ele s fechou a cara e me instigou: Vai, vai logo!Obedeci de pronto, sem saber por que caminhava de ma-neira dissimulada, tentando no ser notado pelas outras pessoas que servilmente trabalhavam.No poro, encontrei um pequeno grupo de homens, qua-tro ou cinco, luz de velas, sentados em volta de uma mesa com um garrafo em cima. Na entrada fui advertido: Fale baixo, Aurlio. Voc no precisa fcar a vida toda batendo cips.E logo me serviram um copo cheio: Beba! Voc especial.Pagueipelabebida,apsoqueretornamosemmeioa olharesmtuosdecumplicidadeanossospostosdetrabalhona bateodocip.Somospartedeumclubefechado:esseerao CAPTULO 12 122sentimento, uma mistura de orgulho e sadismo. Vocespecial,Aurlio.Nosintaculpa.Vocdeve cumprir seu destino uma voz parecia falar dentro de mim, en-quanto vi surgir um anel brilhante em meu dedo.Depois disso, um homem de barbas longas e brancas apa-receu do nada e me retirou dali s pressas, dizendo que eu devia segui-loporumapassagemsecretaconhecidasomentepelos membros eleitos. Explicou-me que no podamos nos atrasar, pois a passagem se abria somente uma vez ao ano. Pediu que eu no me assustasse e que me preparasse para viajar em mundos espi-rituais.Equandopassamosporumaescadaquedavaacessoao pequeno salo dos trabalhos de cura, uma luz branca de intensi-dade insuportvel brotou do centro do meu peito e explodiu como uma supernova. Durante alguns segundos, houve somente a luz, o universo desapareceu em completo silncio. Ser que morri? me perguntei.No,vocestvivo,Aurlio,eternamentealgum respondeu.Era o homem de barbas brancas que me olhava sorrindo intrepidamente.J no estvamos no salo onde a luz apareceu, haviasomenteumpentgono,nomuitogrande,traadocom fogonomeiodeumaforestadensa.Poralgumtemponopude vermaisnada,devidoescurido,atquealgumasfgurashu-manas foram lentamente saindo das sombras, como se antes esti-vessem misturadas ao breu das rvores. Elas diziam:Vocumdens;vocdescobriuosegredo;voc um Deus! CONFISSES DE AURLIO 123Enfm,umhomemnegromuitoaltoseaproximou.Ele estavadescaloeseguravaumreticenciosocajado.Estendeua mo em minha direo e disse:Suabeno,padrinho!Ondeestopai?ondeesto pai? onde est o pai? sua voz ecoou pelo silncio das rvores. A ltima coisa de que me lembro o estranho gosto me-tlico que senti na boca, quando minha viso ofuscou-se exata-mente como acontece nos segundos que antecedem um desmaio.Acordeinaescuridodoquarto.Meucoraopalpi-tava acelerado.125.13.Tal como na sociedade humana, em que a autoridade maior precede menor quanto obedincia devida, assim Deus deve ser obedecido por todos.Santo Agostinho, Confisses (III, 8)Para fins religiososEumeperguntavasobrealegitimidadedousodaayahuasca parafnsreligiosos.Pesavam-measpalavrassimpleseprofundasde mame: Prestamos o culto ao nico Deus e amamo-nos feito irmos. Desconfe de tudo o que passar disso.NoSantoDaime,pessoasidneassereuniampelopropsito compartilhado de alcanar paz, felicidade, sabedoria e conhecimento, cadaqualacreditandoencontrarnabebidamgicaumveculoapro-priado para tanto. Porm, por mais que eu tambm j tivesse compro-vadoosmltiplosbenefciospropiciadospelousodoch,afaltade algofundamentalmeangustiava.Aquiloaindanomepareciauma religio. Religio no sentido estrito de religar.Ao deixar o Santo Daime, eu argumentava comigo mesmo: CAPTULO 13 126Seumapessoausacocanaparamelhorarseudesempenho no esporte, ela est simplesmente alterando sua qumica interior para melhor adequ-la ao objetivo esportivo; e se outra bebe cachaa para afogarasmgoasdeumcasamentofalido,damesmaformanoest fazendo mais do que usar um inibidor do sistema nervoso para ajud-la a exercer uma de suas capacidades naturais: o esquecimento. Eu via uma lgica caduca se repetir nesses comportamentos. E meachavacadavezmaisconvencidodequequalquersubstnciaqu-mica s poderia, ou potencializar uma faculdade natural de meu orga-nismo, ou, ento, pelo efeito inverso, debilit-la. E assim concluindo que uma pessoa nem se aproxima nem se afasta de Deus por meio do uso de qualquer substncia assertiva fastidiosamente reiterada, como estra-tgia de autopersuaso tomei minha deciso. Dei um passo. De f?Meu raciocnio era certamente simplista demais, embora no estivesse de todo errado. Faltava-me, antes de tudo, aceitar um mestre. ochnotemefeitosbvios;tudodependedaorientaoedadis-posio espiritual do praticante. Ademais, a imaturidade me levava a emitir juzos apressados.Metamorfose silenciosaNa superfcie da conscincia, eu sentia minha busca espiritual minguar como luz evanescente e acreditava que estava na hora de ser maisprticonavida,depreocupar-memaiscomascoisasconcretas do dia a dia. Todavia, nas camadas mais profundas do corao, o movi-mento era outro. Eu ainda desejava uma luz que me fzesse enxergar o que no se enxerga; que me fzesse ouvir o que no se ouve; que me f- CONFISSES DE AURLIO 127zesse compreender o que se faz mistrio; que me ensinasse as palavras que decifram o inefvel. o incessante ruminar da mente racional que ofuscava o sentido intuitivo do corao.Naverdade,mudanasinterioresjoperavamdesdeaspri-meiras viagens com o Daime. Eu me considerava ento melhor do que antes,maisconsciente,maisconectado;trilhava,sim,umbomcami-nho e, no entanto, no me aquietava. Era como se a coisa nova que vinha se criando ainda no tivesse tomado forma defnida para que eu pudesse v-la, e, por isso, eu titubeava, ponderando que j tinha ultra-passado um limite perigoso e que era tempo de retroceder. No mais conseguia confar na doutrina nem podia evitar a forte impresso de quecorriaperigoporabrirportasdesconhecidas.Quandochegavam osdiasdostrabalhos,previamenteestabelecidospelocalendrioda religio daimista, sentia um aperto no peito, tanto antes de sair de casa como na hora de beber o ch. Foi assim que a intuio me fez partir.Contudo, devo cuidar de no parecer ingrato. o Daime fez muito bem para mim. o que dizer das experincias ntimas de pertencimento csmico, experincias com um potencial mstico altamente transforma-dor?Vimeumundointeriorseexpandir.Minhascertezasegostasfo-ram abaladas. Nos trabalhos, eu sentia os limites do corpo se dilurem, cedendo a uma energia transbordante que fua em todos os sentidos, e que circulava por todos os presentes. Abria os olhos e os raios luminosos penetravam pelas retinas num prazer indescritvel. A Natureza se fazia aconchegante num abrao maternal, caloroso e terno: como continuar sendo o mesmo depois de me redescobrir dentro dos seus encantos e sua beleza?Ah,aNatureza...Euaindanoestavapronto,masfqueiaum passo de compreender o maior poder do universo o invencvel, indes-trutvel, impassvel, harmonia magistral e fora de criao: o Amor. CAPTULO 13 128Tornar-se pessoaBenefcios foram muitos. No campo moral, nem se fala. Passei a compreender melhor as responsabilidades de ser o que sou. Posicio-nei-me na vida com mais frmeza.o passo moral fundamental foi dado durante um dos trabalhos no Santo Daime, num instante fugidio de iluminao. Enquanto todos bailavam e cantavam o hinrio, tive uma mirao inesquecvel. Eu via as pessoas no salo, cantando e bailando, mas tambm as via em outro lugar, onde havia um corpo celeste incandescente que irradiava muita luz. Quando se aproximavam dele, faziam um tipo de limpeza, despeja-vam pequenos objetos, roupas, pedaos de papel, palavras, pensamen-tos, desejos; muitas vomitavam; no sobrava nada, tudo era consumido pelaschamasdaquelecentrodeluz.Quandoavisocessou,escutei uma voz interior dizer: Eu no sou o meu ego.Desde ento, algumas peas comearam a se encaixar. E embo-ra eu no compreendesse bem as verdades espirituais com que me de-frontava, ao menos tinha de encarar um questionamento contundente sobre meu prprio modo de ser no mundo: Qual meu papel no mundo? A que vim? Que coisa sou eu, em essncia? o bem e o mal existem? Como distinguir o certo e o erra-do? eu meditava longa e prolixamente.Em regra, atrapalhava-me em meu voo e, como pssaro distra-do, caa diante do incompreensvel: Aurlio, palavras so s palavras... CONFISSES DE AURLIO 129EofatoquedeixeioSantoDaimelevandomuitomaisd-vidas do que certezas. Jamais consegui resolver um problema que, na poca, eu exprimia da seguinte forma: Se o ser humano pode chegar to longe em sua busca espiri-tual, como entender sua tendncia de permanecer no erro? Eu listava um sem-fm de exemplos comprobatrios dessa su-posta tendncia:Quasetodossabemqueocigarro,porexemplo,destrios pulmes, e que a m alimentao provoca obesidade e outras doenas, equeafaltadeexercciosfsicosprejudicaocorpoeosistemaimu-nolgico; da mesma forma que certos comportamentos sexuais so de alto risco para a vida; da mesma forma que o crime conduz ao castigo; da mesma forma que a violncia atrai mais violncia; da mesma forma que a preguia emperra o crescimento pessoal; da mesma forma que a falta de amor ao prximo faz o mundo parecer hostil e insuportvel. E assim por diante. Quase todos erram sabendo que esto errando. Ns, humanos, conhecemos nossos erros; contudo, duvidamos.Eu queria acessar a difcil soluo: Como errar menos? Isto:comopremprtica?Jnomepareciasatisfatrio apenas frequentar religies ou seitas; um grave problema estava posto, e, intuitivamente, eu sabia que as respostas viriam pelo autoconheci-mento. Passei a alimentar, propriamente falando, a singela esperana de poder me encontrar.obviamente,issoerasocomeo.Inmerossoostropeos. Ningum se livra to facilmente de suas imperfeies. Mas, ainda as-sim,no sademosvaziasdesseprodigioso captulo deminha vida. Economicamente falando, no temo afrmar que o saldo fnal das com- CAPTULO 13 130plexas transaes em que me meti foi positivo. o que fcou? ora, isso no sou eu quem vai dizer. Apenas me confesso. Certa vez, escrevi uns versinhos. Talvez me sirvam agora. A cada vez que os leio, digo amm:Orao da FirmezaSenhor, salva meu coraoOuve esta orao.Que meu passado se faa escolaE que, por fazer o que devo hojeEu veja o futuro como fosse agora.131.14.Durante esses anos, eu vivia em companhia de uma mulher [...] porm, uma s, e eu lhe era fiel.Santo Agostinho, Confisses (IV, 2)Por quem os sinos dobramDepois da formatura na faculdade, minha me me colocou con-traaparede.Apresentoudadosdenossasituaofnanceira,queno permitia extravagncias, e concluiu que no seria vivel manter-me fora decasa.Nopudediscutir.Sopreodoalugueldoapartamentoem que eu morava j era um absurdo. Sei que suas intenes eram as melho-res, inclusive porque um pouco de presso em relao a buscar indepen-dncia fnanceira no faz mal algum aos estudantes recm-formados e acostumados com o cio estudantil. Porm, sei tambm que havia uma perigosa inconsistncia em suas atitudes. Mnica at podia se fazer pas-sar por uma me severa e preocupada com o futuro do flho; todavia, no separava bem as ordens vindas do crebro das do corao de me.Havia um fundo meldico, um canto de sereia, que me prome-tia casa, comida, roupa lavada e um emprego numa escola municipal. CAPTULO 14 132ElaqueriaoflhonovamentesobsuasasasFreudexplica!Paraela, restava essa ltima alternativa, que era tudo o que ela tinha para me oferecer. Para mim, havia todas as chances do mundo; eu olhava para ofuturoeviaumapginaembranco.Eunopodiaceder.Nopodia mesmo.Nopodia.Cedi.Cediporcomodidade,confesso.Notenho nem uma desculpa para amenizar. Foi um lance de risco mesmo. Mas eu planejava um recuo estratgico...Porseismeseslecioneiparaosalunosdoensinomdioem minha cidade natal. Minha tarefa era ensinar-lhes o prazer da lngua, mais do que a tcnica. ou, pelo menos, era isso que eu pensava. Era o que fazia sentido para mim. o mundo real, por seu turno, tinha outros planos, outras preferncias. Rapidamente fui sendo podado em todas asminhasiniciativas.Encontreibarreirasintransponveis,acomear pelo baixssimo nvel de cobrana que eu devia impor nas provas.Vcomcalma,Aurlio!osgarotosprecisamdeincentivo, ento, como voc vai se explicar se a turma toda for reprovada em sua disciplina? induzia-me o diretor da escola.Nosilncionoturnodomeuquarto,eulembravaaprofessori-nha de minha infncia, que no podia estimular demais a imaginao dos alunos com livros imprprios. Imprprios para quem? Ela acreditava no potencialdesuascrianaseserecusavaaseguiramedocrepolticade nivelar por baixo. Por isso nos mandava escrever nossos prprios livros.Maisdoqueumame,Mnicafoiumagrandeamiganesse perodo to difcil. Talvez eu tivesse me deprimido gravemente sem seus sbios conselhos e sua escuta acolhedora. Eu revia alguns ami-gosdainfnciaedaadolescncia,retomavarelaesantigas,eat gostavadisso.Squenotinhacomquemdesabafar,peloriscode CONFISSES DE AURLIO 133maldizermeuganha-po.Seriapiorparamimseaquelasinsatisfa-es chegassem aos ouvidos do diretor. Uma boa alternativa era desa-bafar com Alpio, j que ele tambm ingressava na carreira docente e, como iniciante, concordava com minhas crticas quanto ao fracasso do sistema de ensino de nosso pas; contudo, fcvamos usualmente limitadosatelefoneeinternet,equasenuncacruzvamosasdeze-nasdequilmetrosdeasfaltoquenosseparavam.Somentemame me dava substanciais foras para continuar, com seu abrao seguro e incondicional. Tanto que me apoiou de pronto quando decidi prestar concurso pblico e retornar Capital.o empurrozinho que faltava foi dado quando recebi uma ex-citante notcia: dentro de poucos meses, Flora voltaria ao Brasil. Eu j no suportava mesmo a vida pacata no interior do estado e, menos ain-da,osdisparatesdeumdiretorescolarquemalsabiadiferenciarum adjetivo de uma conjuno. Mas a pulga que tinha vindo morar atrs de minha orelha se preocupava com um problema mais delicado. Havia urgncia em meu corao. Pois se eu no me adaptava bem ao recanto onde nasci e no conseguia me imaginar vivendo ali por muitos anos, Floratalveznosuportasseumasemana.Sempreforaumamenina ambiciosa, ativa, pouco convencional e, acima de tudo, cosmopolita de corpo e alma. Como que uma pessoa assim poderia retornar de uma estadia prolongada no velho continente, depois de j ter se habituado ao bom gosto e vanguardismo cultural de Paris, para cair num fm de mundosemqualquersignifcnciaemtermosglobais?Issosemfalar nas possibilidades fnanceiras que uma publicitria de talento estaria perdendo se fosse viver na modesta economia de uma cidade de menos desessentamilhabitantes.Decididamentejeramuitoelaresolver voltar ao pas. CAPTULO 14 134DesdequeFloraanunciouseuretorno,passamosanosfalar commaisfrequncia.Euaproveitavacadaminutolivreparamepre-parar para a prova do concurso, vivendo com o corpo numa cidade e a cabea noutra. Ela se despedia dos dias de estrangeira e queria garan-tias de que seus dois melhores amigos ainda a reconheceriam. Falava sempre do Brasil, pedia notcias, lembrava nossos tempos de faculda-de. Dava-me provas de que continuava sendo a mesma Flora de antes, evitando comparaes culturais ou relatos excessivos de suas experi-ncias,paranoparecerarrogante.Elaestavaloucaparavoltarpara casa,esseeraorecado,comosedissesseAurlio,vocmeu.Eeu respondia na mesma nota: Flora, voc minha.Escolhi prestar o concurso da Secretaria de Cultura do Estado, paraocargodeofcialadministrativo.Noeralessascoisas,masa prova seria em dois meses, e a maioria das vagas era para a Capital. Isso me bastava. Tudo o que eu precisava fazer era abocanhar a oportunida-de e, depois, comprar a passagem: adeus interior, adeus diretor malu-co, adeus solido. No tinha de me preocupar com mame, pois nossos coraes jamais conheceram distncia alguma. Ento, assim determi-nado, agarrei a chance com unhas e dentes. A cada livro, artigo, textos e mais textos que eu literalmente comia, literalmente comia Flora.Todas as pessoas que investigam as profundezas da mente hu-mana sabem que o ltimo grilho da alma o orgulho. quase impos-svel livrar-se totalmente desse visgo que pesa em nossas asas, porque ele se alimenta de nossas vitrias, nossas conquistas, e nos toma de tal forma que passamos a desconhecer o real valor de nossos progressos. o homem caro, que faz de suas asas mero entretenimento; Nero, quegozasozinhodopoder,achando-seumdeus;mesquinhocomo tio Patinhas, nadando em dinheiro; um cientista genial, que precisa CONFISSES DE AURLIO 135se sentir incompreendido para supervalorizar o alcance de seu gnio. Tudoissoohomem.Atmesmoquandoprogrideespiritualmente correoriscodesesentirsuperior,diferentedosdemaisporeleio. Por isso confesso: passei em primeiro lugar no concurso. No que meu Deusnecessitedessainformao;queroapenasconfessaroorgulho que tive na ocasio.Comessetrofu,nofoidifcilconvencermameabancar minhas despesas novamente, at ser nomeado para a posse do cargo. Eu queria preparar uma surpresa para Flora. Aluguei um apartamento no para um, mas para dois. Quando ela desembarcasse em terras tu-piniquins, teria de escolher onde morar. Haveria mais algum alm de seus pais a esper-la de portas abertas.Esperei.MasFlorapreferiuirmorarcomafamlia.Elatinha os ps no cho. Eu no. Havia tambm o problema fnanceiro. Eu ainda aguardava o edital de convocao do concurso, e ela distribua curr-culospelacidadecurrculoquaseheroico,diga-sedepassagem.A espera me pareceu interminvel. E, mesmo depois de estarmos ambos empregados, ela ainda achava melhor esperar mais um pouco.Vivi na incerteza por alguns meses, at que o destino nos deu umsinal.Inesperadamenteeemtemporecorde,fomosquasesi-multaneamentepromovidosemnossosempregos.Nemnospassava pela cabea que isso pudesse acontecer to rapidamente. Ela trabalha-va numa emissora de tev, onde as promoes eram raras. Passou a co-brir grandes eventos, entrevistando gente grada com aquele sorriso irresistvel que me capturara j em nosso primeiro encontro. E eu fui indicado para um cargo comissionado, por indicao direta do secre-triodaCultura.FuinomeadochefedaassessoriadeCultura,cargo que,naverdade,deveriasechamarsecretrioadjuntoousubstituto, porque, desde ento, quase no vi o tal secretrio mais. Tudo fcava nas CAPTULO 14 136minhas costas, enquanto ele, pessoa pblica e empresrio , viajava e cumpria seus compromissos polticos.Era tudo o que precisvamos para acabar com a espera. Ela f-cou sem sada. Convidei-a para um jantar e, ao fnal, antes de apagar as velas, inadvertidamente entreguei as chaves. Nem era preciso dizer nada. o universo parecia conspirar a nosso favor.Mas sem querer exagerar no misticismo, para ser mais exato, no d para dizer que foi somente a sorte que nos uniu. No foi bem assim.Eutinhaumamulherambiciosaaomeulado.Florasempre me dizia para jogar o jogo, e, mesmo sem saber se era aquilo que eu queria, trabalhei para conquistar a confana daquele secretrio, al-mejando seus favores.Certa vez, numa conversa particular que tivemos, ele se mos-troupreocupadoporacumularcompromissosdemais,sendoque quasesempretinhadeadi-losdevidoaoexcessodetrabalhono gabinete.Aproveiteiadeixa.Semtocarnoassuntodosseusneg-cios privados, disse-lhe que o compreendia, mas que melhor seria se algumcomcapacidadedelideranaegestocuidassedosprojetos internosdaSecretaria,demodoqueelefcassemaislivreparase dedicar ao trato com os parceiros da iniciativa privada e executivos municipais. Desde aquele dia, passou a tratar-me por flho. E tam-bm se ps a atribuir-me tarefas que no eram propriamente funes de um ofcial administrativo. Dentro de pouco tempo, saiu o tal cargo deassessor.Chamou-mesuasalasemqualqueravisoprvioeme perguntou se eu sabia da existncia do cargo. Respondi que no. En-to ele disse que estaramos com o governador na semana seguinte e arrematou: Parabns!. CONFISSES DE AURLIO 137Um merecido puxo de orelhaAdrogadopodermesubiurapidinhocabea.Masemvez defcarsatisfeitoeuqueriamaisumadose.Rezaumvelhoditado:a melhor maneira de se conhecer uma pessoa dar-lhe o poder. Fato. o Aurlio em busca de si e de Deus desapareceu nessa embriaguez.Com pouco, outro Aurlio aproveitou o lugar vago para roubar a cena: o ctico. Ctico e, tambm, cnico. Foi um longo perodo de ri-das semeaduras. Eu no queria perder mais tempo com espiritualida-de, mas tambm no conseguia ser indiferente. Resultado: quando no se sabe de que lado se est, resta apenas uma posio, o cinismo. Esse outro Aurlio passou a se alimentar do fracasso de todo tipo de crena. Eleestavaobcecadocomaideiadequeomundoocidentalerauma farsa e, para sustentar isso, precisava encontrar adversrios, isto , tro-cando em midos, precisava confrontar a convico pessoal daqueles que no concordassem com ele.Hojecompreendoquetudotemsuarazodeser.Ns,que vivemos nesta terra, no evolumos sem conhecer as foras do mal. o combate que nos ergue.o ceticismo, por exemplo, serviu de casulo para o homem que sou. Nem todo mundo entende isso, mas uma atitude ctica pode ser bem vantajosa em certas fases da vida. Basta ver o caso da lagarta, que precisa fechar-se em si mesma antes de ressurgir na forma de uma bor-boleta azul brilhante.o cinismo muito pior. Alpio percebera a insurgncia daque-leAurliocnicoe,comobomamigo,nodeixoudemealertar.Pela segunda vez, jogou-me na cara: CAPTULO 14 138 Aurlio, voc est diferente!Isso aconteceu durante uma conversa sobre astrologia, ou me-lhor,numaocasioemqueeulhefalavadeumapessoaquesedizia astrloga.Eueramovidoporumairrevernciadestrutivae,com muitarazo,fuirepreendidoporAlpio,essemeuamigosempreto sbio e correto.Eu mesmo puxei a conversa, do nada, num dia em que nos en-contramos para uma caminhada num parque da cidade. Perguntei-lhe:Alpio,oqueseriadeumapessoaquenascessenoexato momentoemqueumenormeasteroidesechocassecomocorpo gasoso de Jpiter?Ele fez aquela cara de quem no estava entendendo o assunto, mas me interpelou: Voc est falando de astrologia?Ento, expliquei: Uma funcionria l da Secretaria, uma senhora de meia-ida-de, ganha alguns pezinhos extras fazendo mapas astrais e quer que eu v at a casa dela para uma consulta.Alpioriuporque,comoflsofoacadmicoeconservador, nuncativeraafnidadecomcoisasdessetipo.Emseguida,fezumde seus rarssimos comentrios espirituosos: Diga a ela que voc tem um irmo gmeo, que de voc s tem a cara, e pergunte como a astrologia explica isso. Diga tambm, s para complicar, que conhece um camarada que, coincidentemente, nasceu no mesmo hospital, no mesmo dia e no mesmo horrio que vocs, e depois pergunte: como explicar o fato de os trs no terem nada em comum?Rimos ingenuamente. Mas Alpio no previa que eu maquinava algo muito pior. CONFISSES DE AURLIO 139Quandolheexpliqueimeuplano,fuiimediatamenterepre-endido.Eupretendiainventarumadatadenascimento,sparaver elaselascarnofnal.Iadarpistassobreminhavidaemeujeitode ser,deix-laperscrutarlivrementeminhascaractersticasedramas pessoais,paranofnalrevelaraarmao.Diria:Sim,minhacara, vocacertou,parabnsporsuahabilidade.onicoproblemaque voc trabalhou sobre informaes falsas. Este era um bom plano: deix-la acertar para depois desmascarar os truques usados. Mas Al-pio no o achou to bom assim.Quase fui execrado quando lhe revelei o discurso que eu havia preparado, pensando em terminar a conversa da maneira mais humi-lhante possvel. Se dependesse de mim, ela no colocaria mais os ps na repartio, de vergonha, porque eu mesmo contaria tudo aos cole-gas. Confesso que cheguei a redigir o tal discurso, e escolhi cada frase com requintes de crueldade. Deus me perdoe. C est: Basta ver voc para entender o porqu de muito astrlogo por a estar afundando na depresso. de dar pena. Vejo seu passado em mi-nha bola de cristal. Primeiramente, voc foi seduzida por algum maluco maisvelhoedecidiupagarparaaprenderaditacinciadaastrologia. Depois, ralou um bocado para conquistar clientes. Quando acordou para assandicesqueandavafazendo,jeratardedemaisparacomearde novo e arranjar outra fonte de renda. Da para frente, a histria a mes-maparatodos,srestamesmoadepresso.Apessoavaiempurrando a vida com a barriga, sem saber direito se est fazendo bem ou mal aos desesperados que procuram as consultas. Acordar para o tempo perdido deve ser foda! Tem gente que nem liga, porque pensa no dinheiro. Mas voc,no,vocaindatemalgumsensomoral.Euvejoavergonhaque CAPTULO 14 140Minhas intenes eram ms, Alpio soube perceber isso muito bem. Sua cara de decepo quase me matou.Fiqueienvergonhadodiantedaintegridademoraldomeu amigo. Nada demais; como acontece sempre entre verdadeiros irmos, acabamos rindo de tudo, quando Alpio fnalmente recomendou: Deixa disso, Aurlio, no faa nada de que possa se arrepen-der.Isso,nomnimo,podegerarumcarmaterrvelparavoc.Sem contar que j ouvi dizer que esses astrlogos so meio bruxos. Mexer com o que voc no conhece direito burrice.Alpio at que pegou leve comigo. Eu no conhecia absolutamen-te nada de astrologia. Merecia mesmo uma censura mais incisiva, inclu-sivepormeesquecerdeMateus5,37.Tagarelices!Porm,nofalamos maisnoassunto.Comemospipoca,tomamossorvete,alimentamosos peixinhos no lago do parque e terminamos o dia bem felizes.voc sente de si mesma. Tem dias que voc acorda e pensa: Poxa, estou enganando o meu cliente, minha astrologia no passa de uma psicolo-gia superfcial que serve para tudo, e fao a pessoa acreditar que estou lendo o mapa dos astros. Pretendia fazer isso comigo, minha senhora? Ficariameenrolandoatpescaralgumasdifculdades,pontosfracos, para depois chutar bolas ao gol? Ora alimentando esperanas, ora me-tendo o dedo nas feridas. Saio agora de sua casa e espero que aguente sua prpria conscincia.141.15.Conservava ainda a ideia de que no ramos nsquepecvamos,masalgumaoutra naturezaestabelecidaemns.Ofatode estar sem culpa e de no dever confessar o mal aps t-lo cometido satisfazia meu orgulho [...]Santo Agostinho, Confisses (V, 10)DistoresEnquanto parte de mim ainda se ligava aos sonhos daquele jo-vemquequeriavoar,omedodenochegaralugaralgumpuxavaa outra parte para baixo, mantendo-me cada vez mais preso ao cho. Eu estavadivididodentrodemimmesmo.Nosempagarcaroporisso. Desse confito resvalava uma destrutividade que eu desconhecia. Com-petitividade, ambio material, cinismo, sarcasmo e arrogncia jamais estiveramentreminhasprincipaiscaractersticas.oestranhamento de Alpio tinha sua razo.o tema agora : distores. o plano de ataque contra aquela inofensiva senhora que pre-tensamenteseautoproclamavaastrloganoeranadapertodoque CAPTULO 15 142eu andava tramando com meus botes. Ela era peixe pequeno. A prova tinha de ser feita com um adversrio de mais peso. Talvez, um advers-rio que pudesse me vencer.o mundo uma casca. oco. No h remdio para a angstia humana. No h resposta para o enigma da vida. Tolo aquele que es-pera derrotar a morte era o fm de uma tarde tediosa. olhei-me no espelho.Euestavahorrvel.Eueraaimagemdadecadnciadomun-do ocidental e no via futuro. o declnio me parecia irreversvel. Para onde fosse que eu olhasse, no encontrava uma referncia sequer, nada sufcientementeestvel;ummestre,umguia,umprofessor,umpai, alguma fora capaz de orientar para o bem o desgoverno dos homens.Foi mais ou menos com essa disposio de esprito que come-ceiaprocuraroadversriofnal.Sehouvesseaomenosummestre verdadeiro neste mundo, eu o encontraria. Criana orgulhosa eu era. onde procurar? Meus critrios eram fteis. A priori, eu descartava os ci-dados comuns. Riqueza e prestgio social sinalizavam possveis can-didatos.Euplasmavaumhomemelegante,forte,virtuoso,generoso e, acima de tudo, prspero. Monges e ermites no me interessavam. Votos de pobreza me causavam ojeriza.Dizemqueosmestresencontramseusdiscpulosquandoes-tes esto prontos. Eu no tinha pacincia sufciente para isso. De fato, apossibilidadedehaveralgumdignodesertomadopormestreme pareciamuitoremota.Quandodecidiforjarumaiscaparaatrairum dos mais nobres senhores da sociedade brasileira, eu pensava mais em derrub-lo do que em qualquer outra coisa. Eu imaginava uma prova-o fantstica.Se a montanha no vinha at Maom, Maom se punha a cami-nho da montanha. CONFISSES DE AURLIO 143Abro um parntese. A guerra aplaina as distores. o homem o campo de batalha. Eu j nem me lembrava de meu pai... queria provar oqu?Confessoquenosei.Sseiqueeutinhaocoraodoentee, como leproso do sentimento, no sentia a realidade direito.Alpio quedava estarrecido ante os estandartes ideolgicos que eu passava a levantar durante nossas conversas. Meus brados modula-vam-se entre timbres de mgoa, cinismo e conspirao: A morte o fm de tudo, no h nada alm. A nica fora ver-dadeira que move os homens o desejo de poder. A sociedade no passa de um esquema horrendo de dominao. A Histria uma fraude.Fecha parntese. Que motivos eu tinha para recuar?No contei meu plano a ningum, nem mesmo a Alpio, por-que sabia que seria demovido de minhas intenes. Sua infuncia so-bre mim era enorme, bastava um sinal de reprovao e eu j baixava a cabea como um flho arrependido diante de um pai. E isso acontecia porque minha idoneidade moral no era perene. Ele parecia ter nas-cidodaquelejeito,ntegro,honesto,emocionalmenteequilibrado. Ademais, Alpio no gostava das teorias da conspirao e, por certo, diria algo como: Aurlio, voc est defnitivamente diferente. Eu no queria ser diferente para o Alpio.ojeitoeraexecutaroplanosozinhoeemsegredo;depois, quem sabe, contaria a ele todos os detalhes. Tendo em conta o tama-nho do peixe que eu desejava pescar, toda cautela ainda era pouca. Eu no fazia ideia do tamanho da boca dele, talvez engolisse a isca, o barco e a mim numa bocada s. Como saber o que esperar de um homem co-nhecido em praticamente todos os pases, relacionado com as pessoas mais infuentes do planeta, detentor de um patrimnio multimilion- CAPTULO 15 144rio?Eramaisprovvelquenemmordesseaisca,meignorandopor completo.Eussabiadeumacoisa:nadamefariadesistir.oalvoj tinha sido escolhido. Ele era a caa; eu, o caador. E o melhor de tudo: ele jamais imaginaria que algum pudesse ter a ousadia de ca-lo.Quandoescolhiomaiorescritorbrasileirovivocomovtima deminhaemboscada,raciocineidaseguintemaneira:oqueeufaria se eu fosse um homem extremamente culto e sbio, se j tivesse resol-vido grande parte dos problemas de minha existncia neste planeta, e se j tivesse obtido total controle e conhecimento sobre mim mesmo? Bemconjecturei,eucertamentedesfrutariadosmaissofsticados benefciosofertadospelacivilizaoeseriarelacionadocompessoas da mais alta estirpe. E continuei divagando. Eu poderia me disfarar de cidado comum ou poderia ser abertamente espiritual, como um lder religioso; poderia vestir a toga da Justia no Supremo Tribunal; pode-ria lidar com a coisa pblica; viajar pelo mundo em misses diplomti-cas; fngir apertar-me numa gravata de seda, olhando o Rio de Janeiro doaltodacoberturadeumprdiocomercialnazonamaisnobreda cidade. Todos esses supostos eus, por detrs dos disfarces mundanos, poderiam esconder o mestre sbio que eu tanto queria encontrar.Aescolhaveioderepente,numdiaemqueeunemestava pensandonoassunto.Haviaumlivronamesadeumafuncionria, nossadigitadora;eusemquereresbarreineleeoderrubei.Joti-nhalido,euemetadedomundointeiro.Numestaloatineiparao fato de que tinha encontrado o cara. Algum que escreve narrativas quetocamnocoraodemilhesdepessoas,quefaladeespiritua-lidade com a mesma naturalidade de quem passa manteiga num po francs;algumquedprovasdeconhecerprofundamenteaalma humana,namesmamedidaemqueexibeequilbrioemocionalnas CONFISSES DE AURLIO 145relaessociaisedesfrutadetodoconfortomaterial;algumque provocaadmiraonaspessoastantopeloquedizquantopeloque faz,tantopelaspalavrasquantopelosatos.Finalmente,eraele!Se essenofosseumverdadeiromestre,ningummaisseria.Restava ento um problema: como atra-lo? Como fazer com que soubesse de minha existncia e se interessasse por mim?Fcil. Eu trabalharia para ele, mesmo sem ser contratado.A execuo do planoFoi da que surgiu a ideia de criar umsite para divulgar os li-vrosdessegrandeescritorbrasileiro.gasteiumbocadodedinheiro comisso.EpreciseiacionarmeuscontatosatravsdaSecretariade Cultura tambm atravs de Flora , para conseguir um bom material efazercomquemeu sitesuperasseoutrossimilaresemqualidadede contedo.ParaFlora,disseapenasqueprocuravaconhecermelhora vidadoautor,pormeroentretenimento.Comoeradeseesperar,ela no deu a mnima. Sempre muito envolvida com o trabalho, ajudou-me semfazermuitasperguntas.Empoucotempo,ecomumadedicao de duas ou trs horas por dia, fz uma enorme coletnea de vdeos, fo-tos, crticas, entrevistas, reportagens sobre a vida e a obra do escritor, epusonegcioparafuncionar.Aideiaeraqueaspessoaspudessem interagircomocontedooferecido.Todoomaterialdisponibilizado paraacessopodiasercomentado,tantodiretamentenavisualizao como num frum parte, mais reservado, e os usurios tambm eram convidados a fliarem-se para formar uma comunidade de fs. Por fm, juntamentecomumamiguinhoirmocauladeFloraeconsultor CAPTULO 15 146precoce de tcnicas de SEo para sites , tratei de me colocar no topo das pesquisas do Google.Nodeuoutra:osucessosuperouoesperado.Eutinhadado umacartadademestre.Astendnciasdeentretenimentointerativo ainda no estavam bem estabelecidas, e todo mundo achava o mximo poder comentar, discutir, postar novos materiais e, enfm, fazer parte deumacomunidadevirtual.Emmenosdeseismeses,meusitejera imbatvel, alcanando uma invejvel marca de acessos.o primeiro sinal de que o plano daria certo aconteceu. A asses-soriademarketingdocarafcoulouca.Entraramemcontatoefzeram muitos elogios e agradecimentos. Queriam saber sobre mim, quem tra-balhavacomigoetc.Chegavaahoradosegundopassodoplano.Tudo saa como eu sonhara. Respondi aos agradecimentos e propus que inse-rssemos um link de venda de livros no site, fazendo dele um site nacio-nalmente reconhecido como comunidade ofcial do autor. Logicamente eu estava oferecendo a faca, o queijo e a vontade de comer. Eles precisa-vam de mim, pois mesmo que copiassem minha ideia seria tarde demais; eles sabiam que nesse tipo de corrida ganha quem sai na frente.Commaisalgunstantosmeses,ositetriplicouonmerode acessos e j no me trazia nenhum custo. Eu no cobrava nada do au-tor, somente uma taxa de manuteno obtida sobre a venda dos livros. Chegava a hora. Pulei de alegria quando veio o convite para uma festa em sua casa, em comemorao marca de um milho de livros vendi-dos num pas estrangeiro em que o mercado demorara a vingar. Flora quase surtou de tanto entusiasmo, pois achava que eu pretendia tratar de negcios. Comparecemos juntos. Ela tambm tinha interesses, em-polgadssima que estava com a possibilidade de sair na coluna social de uma revista qualquer. CONFISSES DE AURLIO 147Meuprimeirocontatopessoalcomoescritorfoirpido,po-rm marcante. Fiquei meio apaixonado com sua gentileza e elegncia, um tipo de humildade superior. Tambm havia algo de irresistvel no seu jeito de ser, um magnetismo pessoal to forte que, no dia seguinte, quase desisti de todo o resto do plano. Ele se mostrou estranhamente interessado em minha pessoa, disse que eu tinha algo que lhe parecia familiar e me intimou a jantar em sua casa assim que ele retornasse de algumas viagens fora do pas. Ele entraria em contato.Aviagemnoserialonga,ento,eutinhapoucotempopara mepreparar.Eumaquinavaumaprovaodef.Teriaapenasuma noite para fazer isso, e visto que praticamente impossvel conhecer verdadeiramenteumapessoanumprimeiroencontro,dispunhade pouqussimaschancesdealcanarminhameta.Chegaraconhecera personalidadedeumhomemtarefaquepodelevaranos.Emesmo se o escritor por acaso se mostrasse inspirado no dia, disposto a falar de assuntos to ntimos, ainda no seria o bastante, pois eu precisava assistir a uma prova real. Como se diz por a, falar fcil, na prtica so outros quinhentos, pois, quando a situao aperta, muita gente perde apompaeseborratodo.Euprecisavadeumtestequeservissepara medirasmaioresvirtudesdeumhomem:sabedoria,coragem,auto-controle e, acima de tudo, a f.MeuDeus!atquepontopodechegarumcoraocegode ressentimento!Euhaviaperdidoanoodolimite.Estavadispostoa tudoparasatisfazerminhacuriosidadevenoabriamodeminha tola convico, ao sustentar obstinadamente que um homem s revela quem ele realmente no momento em que enfrenta a ltima das per-das. Assim, o escritor teria de enfrentar a morte. CAPTULO 15 148Hoje, sei que ser mestre era a ltima coisa que o escritor dese-java, ainda que no lhe faltassem atributos para tanto. Destarte, perdi a chancedefazerumamigodealtssimonaipe,coisaqueouronenhum pode comprar. Por mais que a quantia que recebi pelos direitos do site no tenha sido nada desprezvel, bastando para encher-me de orgulho, no vale o que perdi. A quantia no era desprezvel, o desprezvel era eu.Paraaminhasurpresa,oassuntoprincipaldojantarnoera outro: ele queria comunicar-me pessoalmente a proposta de sua agen-tesobreosite.Fuiavisadodissoassimquepiseinogranitonegrodo salo a que a porta de entrada da manso dava acesso. Eu no esperava ser recebido daquela forma, pelo que minha cegueira aumentou e me impediu de perceber que no fazia sentido algum ser convidado para jantar com um homem como aquele simplesmente para falar da venda de um reles site. At porque era uma pessoa jurdica quem realmente oferecia a proposta. Somente um cego no perceberia isso.Meu caso era pior. Eu no estava somente cego, estava surdo. Muita coisa estranha aconteceu naquela noite. o escritor parecia que-rer me ensinar alguma coisa, agia o tempo todo como se houvesse um propsito maior em nosso encontro. Antesdojantar,apresentou-meabibliotecaondepassavaa maior parte do seu tempo ocioso. Tocou em meu ombro esquerdo ao entrarmos e recomendou: olhe em volta, Aurlio, so milhares de volumes. o verdadei-ro homem est a, disperso, como promessa de um escatolgico futuro. Quando ele vier, far com que tudo se rena num nico livro, sem con-tradies. extremamente importante saber disso antes de se aventu-rar na carreira da escrita. CONFISSES DE AURLIO 149No tive tempo de abrir a boca nem sei se teria algo a dizer, sei apenas que, da em diante, at o fm da noite, s se ouviu naquela man-so a voz do escritor. No entanto, lamentavelmente falou a um surdo. Foi somente pela graa divina que consegui memorizar ao menos uma parte do que ele dissera.Misteriosamente,eleagiacomoummestrequeencontraseu discpulo. Falava sem muitas pausas, como se procurasse aproveitar o tempo,oucomosesoubessequeaquelediscpuloteriaapenasuma noite para recolher os ensinamentos necessrios. Confesso que estre-meci diante da seguinte profecia ditada por ele: Aurlio, voc morre hoje, e vai precisar do que estou lhe en-sinando, l no outro lado. Estanqueientreaincredulidadeeasurpresa,enofznada alm de coar o canto da boca e piscar os olhos desconsertadamente. Ao que ele continuou: Cuidado com a palavra, Aurlio!Ele procurava me fazer entender algo, mas eu ainda no estava pronto. Eu imaginava que um mestre tinha de ser uma pessoa, de carne eosso.Aocontrriodisso,oescritorqueriamefazerentenderquea palavra verdadeira o nico mestre. Como sabia que eu procurava um mestre? E por que falou de morte? As coincidncias me assustavam; eu me sentia como se tivesse sido pego em fagrante. Desde alguns meses, eumepreparavaparaaquelemomento,acreditandoingenuamente que o escritor seria minha caa. Quem era realmente o caador?Tenteiperguntaromotivodeeleterditoqueeuiriamorrer, maselepareceunomeescutar,tergiversoudescaradamente,mos-trou-mealgunslivrospelosquaisnutriamaioressentimentose,por fm, como quem decididamente ignorava os propsitos do interlocutor, CAPTULO 15 150entrou nos relatos das viagens que fez pelo mundo. os olhos brilhavam de paixo, pelo que pude perceber que o escritor no era somente um homemricoeculto,masumapessoadevidaintensa,dessasquese entregam a tudo que toca na alma. Ele no falava simplesmente de via-gens; de modo extremamente sutil, tentava me mostrar que s existem doiscaminhosparacadapessoa:ocaminhodavidaeodamorte.A paixo reluzindo nos olhos daquele senhor de meia-idade revelava um homem realizado, no sentido mais amplo dessa palavra. Ele no viajava; em verdade, fazia to somente o necessrio para sentir-se vivo. Assim me ensinou:Umdiadescobriisto,Aurlio:avidanosobrigaaescolher entre dois caminhos. Eu podia levar meus sonhos at as ltimas conse-quncias, como quem avana pela nica estrada disponvel para si, ou podia me esconder num gueto qualquer, buscando conforto e seguran-a, morto aguardando a segunda morte.Viagens,dilogoscompessoasdetodosostipos,amores,vi-vncias nas mais diversas culturas, mergulhos no universo dos livros: seu maior mrito no era poder dizer que fez tudo o que fez por amor?Meu erro naquele dia foi no me deixar seduzir pela prosa ma-ravilhosa daquele homem, um mestre sem discpulos, um mestre que decidira no ser mestre para no interferir no destino das pessoas. Ele sabia que cada um tem um tempo e um alcance prprios. Escrevia seus livroscomoquemfazumaboaao,comoquemcaminhasedeixa pistas para os que vm atrs. A escada a mesma para todos foi o que ele disse, antes de prosseguir com uma rara lio de sabedoria.orientou-me a subir sempre, sem jamais cair na presuno de acharquepossveldescerparacarregaralgumquetenhapernas fracas. Foi incisivo neste ponto: CONFISSES DE AURLIO 151 No desa jamais! Lembre-se: passarinho que anda com mor-cegoamanhecedecabeaparabaixo.Sepuder,lanceumacorda,es-tenda a mo, mas no desa!Elefalavadavidadoesprito,recebia-mecomoumirmo,e eu cego e surdo me mantinha frio. ou melhor, metade de mim era uma geleira, a metade rasa da conscincia, que s conseguia pensar na realizaofnaldoplano.Aoutrametadeserviadesolofrtilparao plantio das sementes.Somente durante o jantar, quando fnalmente obtive um espa-o de silncio, enquanto o escritor mastigava as fbras vegetais de um palmito de pupunha, pude fazer uma pergunta. Eu que imaginava con-duziraconversanaqueleencontro,conseguisomenteoespaopara uma solitria pergunta: o senhor segue alguma religio, carssimo escritor?A resposta veio sem qualquer cerimnia, algo como sim, sim, soucristo.Tosimples,todireto,todiscreto,quenoconsegui darcontinuidadeconversa.ohomemmepareciaperfeitodemais. Mas no procurava discpulos? Como assim? No se importava com a possibilidade de morrer sem herdeiros. Certamente se importaria com a possibilidade de morrer, e isso eu mesmo colocaria prova.Meu plano era simples, bem objetivo. Eu no tinha alternativa. Confesso ter pagado a um sujeito de pssimas referncias para armar uma emboscada nas proximidades da manso. Minha nica tarefa con-sistia em convencer a vtima a levar-me em seu carro de passeio at o hotel onde eu estava hospedado. o trajeto era curtssimo, alguns pou-cos quilmetros; um convite para um passeio beira-mar certamente no levantaria suspeitas. o facnora nos renderia assim que cruzsse-mos o primeiro quarteiro, e a comearia a cena de terror. Eu queria CAPTULO 15 152queoescritorfossesubmetidoapadresextremosdeintimidaoe violnciapsicolgica.Comaressalvadequeningumsemachuque muito, enfatizei ao tratar com o mau elemento. E assim fndava nosso trato: na hora certa, ele aceitaria uma pequena quantia de dinheiro a ser oferecida por mim e desapareceria no breu noturno.Com esse esquema armado, portanto, logo que terminamos o jantarfngiindisposioealegueiestarcansadodaviagem.Disseao escritor que fcaria imensamente lisonjeado se fechssemos nosso en-controcomchavedeouro,aproveitandoaquelaexcelenteoportuni-dade para ver o mar. olhando-o nos olhos, com certo apelo emocional, informei-o de que, nas primeiras horas da manh, eu j estaria voando de volta para casa.o que aconteceu em seguida ainda hoje me intriga. Como muitas vezes acontece em minha vida, a realidade se vestiu de fco e mostrou--se fantstica. No sei se Deus quis me impedir de promover um verda-deirodesastre,doqualquemsairiamaisferidoseriaeumesmo.ouse talvez o escritor contasse com a ajuda de um poderoso anjo. ou, ainda, se ele foi capaz de salvar a si mesmo, provando ser um mago de poderes extraordinrios. Simplesmente, no sei. o fato que no h como duvi-dardequefuiliteralmenteimpedidoderealizarmeuplano.Noacho que seja necessrio apelar para o sobrenatural, digo somente que foras ocultas estiveram agindo sobre as circunstncias naquela noite.oescritormostrou-sereceptivoameuconvite,eatconcor-dou que um pouco de brisa marinha conviria ao momento. Ele tambm pretendia se deitar logo e considerou que o ar fresco daqueles primei-ros dias de primavera atuaria como relaxante natural. Era uma noite de lua cheia, praticamente isenta de nuvens. Assim que entramos no car-ro, a fsionomia do meu anftrio mudou. os olhos enegreceram-se re- CONFISSES DE AURLIO 153pentinamente. Por alguns segundos, ele pareceu olhar fxamente para o espelho retrovisor, absorto, como se na verdade olhasse para alm da prpria imagem refetida. girou a chave e nada aconteceu. Novamen-te, e nada. Escutamos um estrondoso trovo, e de um segundo para o outro o barulho do vento chacoalhando a copa das rvores tornou-se brutal.Nohaviaprevisodechuva,ento,sugeriqueeletentassea ignio novamente. Deu certo. Ningum acreditaria no que aconteceu em seguida. Assim que samos da rea coberta da garagem, o cu desa-bou sobre ns, numa tempestade de gua e granizo. Retornamos para a garagem e decidimos esperar um pouco. Em menos de quinze minutos, o bairro inteiro j futuava no breu.o meu amigo escritor parecia exausto. o relgio marcava 11:12 pm. Ele riu e mais uma vez disse palavras enigmticas:Algumlemcimaestdandoumafesta,Aurlio.Issofoi uma tempestade de amor. Vamos dormir, amanh ser outro dia.Subimos em silncio para o salo central da manso, onde ele me deixou na companhia do mordomo, depois de pedir-lhe para cui-dardeminhaestadiaegarantirminhachegadaaoaeroportonama-nh seguinte. No se despediu. Quando me dei conta de que precisava agradec-lopelahospitalidade,jtinhadesaparecido.ouvisomente seus passos se distanciando.155.16.Tornei-me um grande problema para mim mesmoeperguntavaminhaalmapor que estava to triste e angustiado, mas no tinha resposta.Santo Agostinho, Confisses (IV, 4)A notcia que recebi assim que desembarquei no aeroporto ex-plodiucomoumabombanaalma.Meuestagirio,umgarotodede-zesseis anos, morrera naquela manh por atropelamento, enquanto se dirigia ao ponto de nibus. Caminhava para mais um dia de trabalho. Eunopodiaacreditar,eleeraomeuboy,meuflho,confava muitoemmimesemprerecorriaaosmeusconselhosparaassuntos particulares. E mais, a pessoa que me ligou para avisar do velrio tam-bm disse que eu tinha de ser forte e apoiar a famlia, porque o rapaz morrera com o celular na mo, escrevendo uma mensagem para mim. Ele atravessava uma rua e se distraiu com o texto, no viu o carro que virava a esquina furando o sinal vermelho. Morreu na hora, sem largar o aparelho. No display, maldita frase para sempre interrompida: Bom dia, chefe, espero que tenha feito boa viag....Nopudeconteraslgrimas,quejorraramincontinentesdo maisprofundorecantodemeuser.Eunosabiaoquepensar,oque CAPTULO 16 156fazer,oquedizer,estavaconfusoeparalisadopelaangstiainexor-vel. Queria acordar do pesadelo, como se fosse possvel anular o peso insuportvel do real fazendo-o retroceder. Imediatamente me lembrei das palavras do escritor: eu iria morrer naquele dia. Que terrvel coin-cidncia! Cheguei a cogitar que se eu tivesse morrido mesmo teria sido melhor;contudo,afsgadadaangstiadoeumaisforte.No.Euno conseguia preferir minha prpria morte daquele jovem inocente.Distores, aindaEnsimesmei-me em acusaes, recusando a ironia do destino e a inconcebvel ira de Deus. Afnal, saber que o garoto morrera me desejandoumbomdiapareciaalgorepulsivodemaisparaserver-dade.Maseraverdade.Pudevercommeusprpriosolhos.ospais conservaram o aparelho intacto. Chorei muito no velrio. No havia nada a fazer para aplacar a dor imensamente maior daquele casal que perdera seu nico flho.Nos dias que se seguiram, fui fcando cada vez mais angustia-do.Eujnemmelembravadoencontrocomoescritor;eracomose uma pgina da vida tivesse sido virada. o dinheiro referente compra do site foi depositado em minha conta, e Flora achou que merecamos uma comemorao altura. Comemorar o qu?, se eu estava nublado, envolto nas brumas do ressentimento.Era o culminar da segunda grande crise existencial da minha vida. Meus olhos enxergavam a morte por toda parte. o Aurlio ctico aproveitava para frmar o seu reinado, dizendo: Viu s, a vida no tem sentido, estamos ss neste universo. CONFISSES DE AURLIO 157o Aurlio cnico tambm aproveitava o ensejo e desconfava do amor: Se liga! Tudo s faixada, neste mundo cada um por si. Tornei-me um problema para mim mesmo. o drago ressurgia das profundezas. Eu literalmente desejava cuspir fogo. Agia de manei-ra fria e rude. noite tinha pesadelos em que o mundo aparecia todo pintado de cinza. pena que o tempo no volte atrs, pois haveria muitas coisas paraconsertar.Seaomenosoarrependimentobastasseparamudar oquepassou,certamenteeunemprecisariaestarconfessandoisso agora; porm, as pessoas que magoei no tinham nada a ver com meus problemas e, com razo, acabaram se afastando de mim.Foi assim o caso do Nilson, antigo ascensorista do prdio onde fcavaaSecretariadeCultura,umsenhordemaisdecinquentaanos que,almdetudo,eramuitoqueridoportodos.Percebendoqueeu estava um tanto quanto abalado desde a morte do Fbio, o estagirio, arriscou algumas palavras de consolo: Sabe, meu jovem, a gente precisa saber enfrentar as pedradas da vida sem perder a f. obviamente, ele sabia que eu andava cuspindo fogo contra as pessoas. E ainda por cima, naquele dia, meus olhos inchados e verme-lhos alardeavam a situao. Eu havia chorado muito na noite anterior. Quisera eu que ele tivesse se abstido da interveno, porque, gratuita-mente,caemcimadelecomoumco.Dissecoisasdequepreferiria nem me lembrar. Acho que o senhor est se intrometendo em questes particu-lares que no lhe dizem respeito comecei com um corte seco e brusco.Ele ainda arriscou uma justifcativa cordial: CAPTULO 16 158 No, sim, voc est certo, Aurlio, mas que com a idade a gente vai aprendendo um pouco mais sobre a vida, sabe? Me desculpa se meu conselho...Equemosenhorparamedarconselhos?contesteiem-pertigadamente, interrompendo-o. E continuei: Aonde o senhor pen-sa que o mundo vai parar se todos os ascensoristas comearem a achar quepodemdarconselhosrevelia?Seupapelaquisubiredescer, subir e descer, e no dar conselhos. ou o senhor acha que um grande talento desperdiado? H?! E quer saber mais? Veja o quanto vale a sua experincia: enquanto eu sou um novato aqui e j ocupo um cargo de chefa, o senhor, por sua vez, j perdeu a conta dos anos em que est a, no mesmo lugar, apertando os mesmos botes. Percebi uma lgrima furtiva querendo se insinuar, mas ele se segurou.Ningumdissemaisnada.Diasdepoisfqueisabendoque eletinhaidotrabalharnoutrolugar,ondenoprecisasseverminha cara, conforme me repassaram ipsis litteris.Durante quase um ms, eu era esse cara. Arrogante, cruel, pre-potente, intolerante: um estranho habitava em mim. Aos sentimentos alheios, indiferena. Ficar s? Isso no me incomodava. Eu me via como um vencedor, no tinha motivos para me incomodar com a opinio de perdedores.E,almdomais,ovencedorests,pensavacomigo. Dei de ombros quando me disseram que o Nilson no trabalhava mais com a gente. Reagi da mesma forma quando no me convidaram para a festinha dos aniversariantes do ms. Eu estava nublado.Andei obcecado com aquela imagem do vencedor por um bom tempo. Parecia um tipo de compensao traumtica. E, apesar da facha-da, estava na cara que eu tinha entrado em crise. Nada me alegrava. CONFISSES DE AURLIO 159Quandoentrouagranadositeeeunodeiamnima,Flora percebeu que havia algo de errado comigo, e at sugeriu que eu pro-curasse ajuda psicolgica, pois, no seu entender, aquilo s podia ser depresso. Segundo ela, ningum em s conscincia fcaria indiferen-teaumaquantiaextradedinheiro,jque,afnal,todomundotem ao menos um sonho de consumo. Uma viagem a Paris ou Jerusalm. Uma reforma no apartamento. Um carro novo. Por que motivo eu no me alegrava com isso?Respondo com outra pergunta: quais so os desejos mais pro-fundos da alma humana? Amar e conhecer. o buraco era mais embaixo. Pela primeira vez na vida, eu tinha sede, uma sede to intensa que tal-vez me dispusesse a beber vinagre. Eu tinha sede e no sabia.Flora estava certa: sim, eu corria o risco de adoecer gravemen-te. Ela s no sabia o tipo de doena que me ameaava. Ela no tinha ideia daquilo que um homem capaz de fazer para sanar sua angstia.A angstia uma coisa muito perigosa. Se a pessoa no se en-tregadepresso,podechegaraconsumarloucurasinacreditveis. No existem limites para quem sucumbe ao medo de voltar ao p. Eis a pivotante do problema: o eu teme desaparecer, porque sua verdade mais essencial no concebe o no existir. Ele sabe que exis-te, sabe que vive e sabe que sabe esses dois saberes. Disso ele no du-vida jamais. Mas tambm, justamente por ter essas certezas, no pode evitar o temor ante os mistrios da origem, do fm e do tempo. o que haviaantes?oquehaverdepois?oquevaiacontecernoprximo minuto? Abrem-se as ramifcaes: medo da dor, medo da falta, medo da solido, medo da ignorncia, medo da morte; medos. Assim, quando uma pessoa no acredita no amor e no conhecimento, ela invariavel-mente perde o sentido da existncia. Ela adoece. CAPTULO 16 160No recorri ajuda psicolgica, tal como Flora sugerira. E, na verdade, nem sei se seria uma boa ideia, tendo em conta que a maioria dospsiclogosepsicanalistasaindanodespertouparaainfuncia da espiritualidade nisso a que eles chamam problemas psicolgicos. Penso que, se fui salvo de tal adoecimento, devo isso ao prazer sutil e sereno que a convivncia com as pessoas queridas proporcionava. S fzusodeduasmedicaes.EstoumereferindoaocolodeFloraeao ombro de Alpio.Temposdepois,pudemeditarsobreoprocessodacrisecomo umtodo,desdeoincioatofmdafaseaguda,e,considerandoprin-cipalmenteojeitocomoacabeiencontrandoumaluznofmdaquele tnel, posso dizer que aprendi algumas verdades valiosas. Aprendi que muito bom amar e sentir-se amado. Quando isso acontece, o presen-tetorna-seumpomardefrutasdocesemaduras.Quandoduvidamos do amor, o tempo nos mostra sua face deserta, rida, e nesse estado de coisas somos tomados de angstia, porque esperamos um futuro negro. Aprenditambmqueapessoaansiosatorna-seviolenta,porcarregar consigo a sensao de que a todo instante pode ser atingida por algo ter-rvel; no entanto, quando encontra um amigo, se aquieta, fca satisfeita consigo mesma, compartilhando da bondade que descobre em si a partir do espelho do outro. Reside a um fato psicolgico inalienvel. o ser hu-mano necessita do outro, precisa se sentir parecido com o outro, precisa seracolhido,precisasercompreendidopelooutro.Ningumfelizse sentindo um aliengena. Desejamos habitar este planeta, aqui, no alhu-res. Rimos juntos, vamos ao cinema, lemos livros, batemos uma bola. As-simdescobrimosaesperana.Assimerguemosvaloresediscernimos: isto bom, aquilo mau. Assim fundamos as crenas de que estamos no caminho certo e de que subimos todos por uma mesma escada. Qualquer CONFISSES DE AURLIO 161umquepercaessaidentifcaoaooutroacabacaindoemdesespero, porque comea a pensar que no existe escada alguma.graas a Deus, fui curado. Hoje, se o famoso gnio da lmpada meconcedessearealizaodeumdesejo,pediriaparaverofnaldos tempos.Elepoderiamerepreenderedizer:Vocquerqueomundo acabe?. Sim, quero. Nada mais do que isto: a consumao da obra. E no acho que isso seja impiedade de minha parte. Toda obra fca mais bela no fnal. Assim como todo discurso s produz sentido depois da ltima slaba. o que quero dizer que impiedoso ou no me sinto como uma slaba, ou talvez uma letra, ou talvez nem isso. Eis a esperana. Alguma coisa muito boa est sendo formada, sou parte dela. Sou uma formiguinha tentando compreender o corpo de um elefante; sou cego e surdo, muito pequenino, e tenho apenas duas anteninhas para ir tateando o bicho.Falo somente a verdade. Se o gnio dos desejos, inconformado, me acusasse de usar argumentos retricos vazios para encobrir a reali-dade, eu confessaria com mais veemncia: o prazer do todo maior que o prazer das partes. Ser demais enunciar um princpio de sntese regendo o princpio do prazer? Exemplos tenho muitos. Nossa cincia no des-cansarenquantonoabarcaratotalidadedouniverso.Nossosenso esttico prefere a obra do artista tcnica do trabalho; acompanhamos cadapinceladaesperandooresultadofnal.Amesmacoisaacontece com a esttica musical. Ningum capaz de preferir uma nota a outra, como se pudesse afrmar prefro um d a um sol. No entanto, somos todoscapazesdemanifestarprefernciaquantosmelodiase,mais ainda,quantoaoconjuntoharmnicototal.Quandoadmiramosum homem, procuramos saber da famlia e perguntamos quem o pai?. Tambm perguntamos de onde veio, de que cultura, de que pas?. Atesto minha confsso. CAPTULO 16 162Sobre a funo das lgrimasPor algum motivo, recordei-me agora de que tive vrios aces-sosdechoroduranteocursodaquelacriseexistencial.Querofazer uma refexo sobre isso. Derramei mesmo muitas lgrimas. E tambm foicommuitaslgrimasqueconseguicombaterofogoferozqueme consumia.Porqueossereshumanoschoram?Talvezaslgrimaste-nham uma funo psicolgica e, talvez, espiritual.Que coisa milagrosa so as lgrimas! Sneca, um sbio da Roma antiga, j dizia: As lgrimas aliviam a alma. No dito popular, fala-se emlavaraalma.Acadatempo,elaspareciamestaralicumprindo uma funo, aliviando a dor, equilibrando as emoes, reconciliando--me comigo mesmo e limpando o corao. Chorar era como fazer um mergulho interior; era como se algo me forasse a voltar para dentro e me fzesse ver que, na verdade, a batalha humana interior, e que eu precisava reencontrar a harmonia dentro de mim.Psicologicamente falando, vejo um mecanismo natural de de-fesa. Se no fosse pela interiorizao induzida pelo choro, por exemplo, eu continuaria indefnidamente em confito com tudo e com todos. A reatividade uma bola de neve, precisa de algo que a faa parar. Ento, chorando,eunosinterrompiaesseprocessodereatividade,como tambm comunicava s pessoas meu pedido de socorro. Minhas lgri-mas atraiam os cuidados daqueles que me amavam. Dizendo de manei-ra mais explcita: minhas lgrimas abriam uma porta para o amor.Que chuva essa que cai de nossos olhos e nos molha a face? Que rio esse que leva embora as impurezas da alma? Que fonte essa a jorrar dentro de ns? Que oceano misterioso est contido numa ni-ca lgrima! viva! Salve Me das guas, da natureza, dos bichos e dos passarinhos! Lgrimas mais puras vm nos lavar: so as guas da cura. So as guas da transformao.163.17.Acudira-me de fato a ideia de que os mais esclarecidosentreosfilsofoseramos chamadosAcadmicos,quandoafirmavam ser preciso duvidar de tudo, e que o homem nada pode compreender da verdade.Santo Agostinho, Confisses (V, 10)Depoisdaerupovulcnicadesentimentosrevoltosos, veioaindaoendurecimentodascrostas.Anaturezadependede processos lentos para cumprir seu curso. Eu no me livraria to fa-cilmente do ceticismo.Fiquei um tanto arrependido das burrices que tinha cometido noltimoano,principalmenteporquesabiaquealgumasdelaseram irreversveis. Eu chegara perto de virar um psicopata, ou, no mnimo, uma pessoa corrupta e desprezvel como as tantas que existem por a. Quando olhei para trs fazendo um balano, suspirei como se acordas-se de um sonho: Ufa! Finalmente acabou!. Porm, eu ainda no esta-va pronto para abandonar o ceticismo. A rejeio contra todo tipo de pensamento religioso parecia aumentar. CAPTULO 17 164Endurecimento das crostasNessa mesma poca, Alpio nos introduziu a mim e a Flora num pequeno grupo de jovens flsofos bastante interessados em dis-cutir a questo das crenas religiosas a partir da tica da psicanlise. bem verdade que se tratava de um grupinho farrista demais para meu gosto,quecostumavaseencontrarembares,regandosuasincurses intelectuaisbasedelcool.Todavia,erampessoasagradveis,inte-ressantes, e que ao menos tinham flego para aprofundar na obra de autores como Freud e Lacan.Decaramesentiatradopelaoportunidadedefazernovos amigos e de conversar com gente isenta de responsabilidades ideol-gicas.Tudooqueeuqueriaerafugirdaladainhadoscrenteseda imaginao frtil dos espiritualistas.Quando fui apresentado a eles, estvamos num bar sugestiva-mentechamadoDmod.Nadamaisapropriadosituao,tendoem conta o tipo de papo cult que rolava na mesa. Passamos quase uma noi-teinteiradiscutindoasregraseametodologiadogrupodeestudo. Pareciaqueamosfundarumaconfraria.onegcioerasrio.Nossos olhares denunciavam um mpeto quase conspiratrio.Porfm,quandojestavatudocombinado,equandojcaa-mostodosdebbados,solteiumaimpudicaprovocao,talvezcom menos inteno de instigar o debate do que de seduzir. Era preciso ve-rifcar se estvamos efetivamente falando a mesma lngua. Carssimos amigos falei muito alto, porque o ambiente era ruidoso e todos falavam ao mesmo tempo, e ainda bebi um gole de cer-vejaantesdeprosseguir,jqueagoraviajamosnomesmobarco, sinto-meautorizadoalevantarumabola.Quemquisercairemcima CONFISSES DE AURLIO 165que caia. Dou-lhes uma prvia do que vem pela frente. Qual de vocs pode responder seguinte pergunta: de onde vem a ideia de Deus? Pairouaquelesilncionamesa.ramosseis.Cincohomens eFlora,amenosinteressadanoassunto.Elaestavaalitosomente parameacompanhare,porissomesmo,notinhanadaaperder, nem tinha a mnima pretenso de brilhar na roda, como tnhamos eu e os outros trs e, bem menos, o Alpio. Foi fcil para ela dar um chute em qualquer direo: Acho que voc precisa explicar melhor sua pergunta, Aur-lio. Ns no inventamos a ideia de Deus, apenas recebemos isso de nos-sos antepassados disse sem cerimnias.Alpioeosoutrostrsperceberamqueestavamganhando tempo e fzeram sinal de aprovao em relao interpelao de Flora. Ento, eu continuei: Sim, voc est certa, Flora. fato que a crena de que existe um Deus vem sendo repassada atravs das geraes por longos sculos, mas isso no nos impede de questionar a raiz do problema. gente, acho que no precisa complicar tanto! atrevida, ela ainda insistiu. Algum um dia pensou que existia um Deus, e pronto! oavensinaparaopai,opaiensinaparaoflhoeacoisanopara nunca. Eu mesma no tenho religio, mas acredito em Deus.Agoraeujnopodiadeixarbarato,eporissoespicaceium pouco mais: No esse o ponto, meu bem. Existe algo mais. Se voc acre-ditaemDeus,porqueissoteconvence.Seseupaitivessepedido para voc crer num abacate que devora criancinhas, as coisas seriam muito diferentes. Voc no entraria numa igreja para pedir salvao a um abacate. CAPTULO 17 166 Eu no entro em igrejas, esqueceu?Alpio viu que a discusso j descambava para o lado pessoal e interveio com sua costumeira moderao:Noisso,Flora.AchoqueagoraestouentendendooAu-rlio. Ele quer saber por que ns, seres humanos, necessitamos tanto dessa ideia de que existe um Deus. No isso, Aurlio? Sim, dom Alpio, isso e mais um pouco respondi com o dedo em riste e no parei: Como possvel pensar em Deus? Como possvel falar de Deus? Ser que Deus um legtimo objeto de conhecimento?Um dos nossos camaradas captou a mensagem e sentenciou: Estamos falando de epistemologia. Que tal partirmos de Reli-gio e Cincia de Bertrand Russel?Ao que o segundo tambm resolveu se manifestar:LembremosoflsofoWittgenstein!Noserdifcildesar-mar todo o artifcio dogmtico das religies.E o terceiro emendou: Quanto a mim, no sou ateu nem sou agnstico, e, como diria AlfredJulesAyer,afrmarqueDeusnoexistefaztopoucosentido quanto afrmar que Deus existe. Deus uma palavra vazia.Propus uma salva de palmas em nossa homenagem e arrematei: Pois que venha a psicanlise! Viramosvriastulipasdecervejaatsermosdelicadamente expulsos pelo proprietrio do estabelecimento, que j aguardava nos-so bom senso desde uma hora antes, quando o derradeiro cliente havia deixado o bar. Fato curioso: no calor do debate, eu me lembrei do pro-fessor que anos antes falara sobre religiosidade numa entrevista para umcanaldeculturanateleviso.Tratava-sedadiferenaentrereli-gio e religiosidade e da possibilidade de se experienciar diretamente CONFISSES DE AURLIO 167o sagrado. Contudo, calei-me. Aquele era o momento para tagarelices. Quando citvamos nossos pensadores favoritos, demonstrvamos uma intimidade apaixonada, quase como quem fala de celebridades da m-dia ou de algum produto da indstria de entretenimento. Sim. Estvamos, portanto, falando a mesma lngua.O psicanalistaCom o tempo, acabei me envolvendo intensamente com a psica-nlise. Nosso grupo ia a todo vapor. Era fascinante penetrar nos pores da natureza humana, adentrar os misteriosos labirintos do desejo, visi-tar o backstage do teatro das gentes. Muito facilmente passei a dominar o linguajar psicanaltico bsico. Li boa parte da obra de Freud e mais um bocado de textos de outros psicanalistas. E, devido a essa facilidade, me tornei uma espcie de orador ofcial de nossa trupe, a quem se atribua a tarefa de abrir os debates com a sntese do texto do dia.ogrupofuncionoudessaformadurantemuitosmeses.Fica-mos to envolvidos com nossa prpria atividade criativa que acabamos pordescartarasescolasformadorasdepsicanalistas.Nemmesmoa clnica nos interessava. Nosso barato era transitar livremente pelo es-pao intelectual da cidade, acreditando que ramos parte de uma nova gerao de pensadores, verdadeiros vanguardistas.Pelo menos num primeiro momento, esse envolvimento infor-mal com a psicanlise satisfez plenamente meus anseios. Mas a coisa erabemsriaparamim.Estarforadestaoudaquelainstituiono signifcavacomprometer-memenoscomadoutrina.Lembro-mede quando li um livro chamado O futuro de uma iluso, tratando diretamen- CAPTULO 17 168tedotemareligioso.ocercocomeouasefechar,porquealiapare-cia mais claramente o aspecto ideolgico dos pensamentos do supos-to cientista Sigmund Freud, e, como acontece toda vez que algum se expe a uma ideologia, restaram-me somente dois caminhos, a saber, engolir ou cuspir. Engoli.oqueumailuso?Ilusoquandoacreditamosexatamente naquilo que corresponde a nosso desejo. como ter miragens no deser-to: a pessoa tem sede e, ento, v gua. ou melhor, a pessoa acredita ver agua.Essedetalhetemrelevncia,porquefazcomqueailusoseja concebida j de partida como algo que envolve uma crena. A ideologia do livro de Freud impunha-se sub-repticiamente pelo ttulo. No se tra-tava de discutir se a religio uma iluso, mas de discutir o futuro de uma iluso. E, obviamente, se algum vai falar do futuro de algo que sabe ser uma iluso, signifca que pretende falar do fm de tal iluso.Comoeupoderiareagirataldoutrinamentoferoz?Imagine. Vem um velho de barbas soltando baforadas com seu charuto e diz: Sua mente apenas uma ferramenta. No existe nada alm darealidadematerial.oshomensviviamindefesosnumanatureza selvagem e necessitavam de proteo, por isso comearam a acreditar numa ideia que lhes era conveniente: assim nasceram as religies. Comocombaterumargumentodesses?Emlinguagemmais atual, chamamos isso de lavagem cerebral.Tudo bem que Freud realmente entendeu a essncia das ideias religiosas ocidentais, tenho de admitir isso. Segundo ele, ser religioso, isto , buscar religar em nosso mundo patriarcal branco europeu, signi-fca crer num propsito para a vida e para o homem; crer que o homem se elevar a um estado superior de existncia; crer numa inteligncia suprema ordenadora do universo; crer na bondade dessa inteligncia CONFISSES DE AURLIO 169criadora e ordenadora; crer na vida aps a morte; crer na recompensa do bem e na punio do mal; crer na extino futura do sofrimento ter-reno; e, na base dessas crenas, crer fundamentalmente na existncia deoutraordemderealidade,nomaterial.Nadamaiscerto.Porm, fcou no meio do caminho e no viu tudo o que estava em jogo. Ficou focado demais na religio como fenmeno de massa e acabou descon-siderando as origens. Qualquer um que queira entrar nesse campo de pesquisa penso eu deve se interrogar sria e profundamente sobre como nossos antepassados chegaram a crer nessas ideias e no em ou-tras. E, depois de muito estudo, deve se perguntar sobre a possibilidade deexistiralgumadisposionaturalquenosconduzaataiscrenas. Freud no chegou a tanto.Espero que Deus me perdoe por fazer piada no solene momen-to em que me confesso, mas no resisto a certas lembranas que, alm de me fazerem rir, tambm me trazem um sentimento parecido com o de desengavetar fotografas antigas. Era um fm de tarde como outros tantos, mais uma quarta-feira, e o grupo, como de costume, estava reu-nido no Dmod, em torno da mesma mesa, uma que fcava mais isolada e que nos fora reservada em carter defnitivo por mrito de fdelida-de.odonodobarfaziaquestodeinformaraosoutrosclientesque aquela mesa destinava-se a seis jovens que, no raro, eram os primei-ros a chegar e os ltimos a sair do estabelecimento. Contudo, naquele dia, instigados por um rompante espirituoso de Flora, fugimos a nosso costumeiroroteirodeestudosedemosvazoaoutrotipodedebate. Quando queria, ela tinha uma lngua mordaz. E, provavelmente, sendo mulherdeespritoeminentementeprticoecheiodedinamismo,j achava nossos encontros flosfcos por demais tediosos. Ningum ou-sou questionar seu direito ao desabafo: CAPTULO 17 170 olha, gente, vocs bem sabem que eu no tenho muito tempo para esse grupo, no mesmo? falou de um modo destemido e im-paciente. Se eu fosse ler esses textos todos... nem sei. Mas eu quero sabersevocsjformaramumaopiniosobreoseguinte:quemo preferido de vocs, o velhinho de barbas brancas ou o alemo neurti-co bigodudo que anunciou a morte de Deus algumas dcadas antes da publicao daquele livrinho sobre o futuro das iluses religiosas?lgicoquecamosnagargalhada,poisnotododiaque algum nos joga uma pergunta desse naipe na cara. Mas a gargalhada foiredobrada,porqueFloraesbarrounamesaassimqueterminou de falar, de um jeito estranhamente desengonado, e a taa de vinho queelatinhaacabadodepedircaiueseespatifouemmilpedaos, deixando canelas respingadas e uma enorme poa de um lquido cor-de-sangue no cho.Pudemos caoar dela vontade, e trocamos diversas amenidades antes de dar uma resposta ao que ela perguntara. A todo instante algum imitava a expresso desolada que ela tinha feito quando a taa caiu, ou o tremular empertigado de sua perna como que contando os compassos de uma marchinha com o calcanhar. Papo vai, papo vem, debatemos bastan-te, sem muito rigor, at que a fala de um dos presentes retomou defnitiva-mente o foco da conversa e atendeu ao consenso geral: Quanto a mim, no tenho dvidas de que Freud foi mais lon-ge, embora os dois me paream bem prximos o jovem flsofo, que se chamava Z Roberto, falou buscando o apoio de olhares cmplices. Eu assenti com a cabea e vi que os outros fzeram o mesmo. Ento, ele continuou: Ambos, Freud e Nietzsche, defenderam um tipo de causa, no eram pensadores desinteressados, e alegaram motivos semelhantes, cada CONFISSES DE AURLIO 171qual com sua prpria militncia. Em essncia, o que eles queriam era re-conduzir a humanidade a um nvel superior e mais saudvel de existncia e, no tocante s religies, acreditavam que eram as crenas limitantes que impediam o pleno desenvolvimento dos potenciais humanos.Floratendiaaconcordarcomessaposiofnaldogrupo, mas no quis descer totalmente do salto. Por isso manteve o mesmo tom de sarcasmo: Pensando bem, at que d para dar um trato nesse Nietzsche! Cortaobigode,amansaosolhosedeixaqueorestosejatratadono div. Imaginem! E se ele tivesse sido paciente do Freud? Se voc estiver pensando em escrever um livro, Flora, esque-a! Parece que algum j teve essa ideia antes de voc... trocei para no render mais o assunto.Fecho o lbum de fotografas e sigo em frente. Sigo revisitando o passado. Sigo ressignifcando os acontecimentos. Que tenho a dizer ou a confessar dessas primeiras incurses psicanalticas? Cem anos desde a fundao da psicanlise, fui eu ser fecunda-do pelo esperma decadente do macho branco europeu do fnal do scu-lo XIX. No seio daquela pequena sociedade de flsofos beberres, fui gerado Aurlio ctico psicanalista. Eu me sentia rompendo os grilhes dacredulidadeedasubmissoneurticae,assim,pudemanter-me, por um tempo relativamente longo, livre da inquietude espiritual. S no entendia bem as motivaes de Freud. Que motivos ti-vera ele para desejar um futuro melhor para a civilizao? Sua utopia de educar as novas geraes sem o jugo das crenas religiosas me pare-cia inexplicvel. Como algum que no via propsito no mundo e que sabidamente adorava acusar a falsidade de todo altrusmo podia ser to altrusta a ponto de trabalhar pelas geraes vindouras? Curiosida-de? Vaidade? Uma pura e desinteressada simpatia pela civilizao? CAPTULO 17 172Entrementes, essas eram questes menores. Desconhecer as re-ais motivaes de Freud no me incomodava tanto, ainda. Meu fascnio pela psicanlise s fez aumentar com o tempo, at que passei a frequen-tar outros crculos psicanalticos mais formais, terminando mesmo por me matricular num curso de formao para analistas freudianos.Como se diz na minha terra, mudei de pau para cavaco. Se an-tes eu me sentia realizado por divagar livremente entre intelectuais de vanguarda, agora eu desejava ir mais longe, almejava discusses mais fundamentadas e via muitas limitaes naquela trupe de bote-queiros. Na verdade, eu sabia que, tambm, por serem todos flsofos docentes, aquilo seria somente uma fase, de modo que a empolgao delescomapsicanlisecederialogopressodeoutrosmodismos. Algo me dizia que, muito em breve, passariam a falar de outra moda, maisumdessesismosquesepretendemplenosdeverdades.So-mente Alpio levava as coisas mais a srio, o que no deve espantar a ningum, visto se tratar de um cara que ainda hoje segue um cami-nho de erudio humanstica bastante louvvel.Fosseoquefosse,ocertoqueeucareciadeorientao nos estudos.Entre psicanalistasAbro um parntese.Devo confessar que meu envolvimento com o meio psicanalti-co me proporcionou certas facilidades sociais como, por exemplo, ter sido apresentado ao principal investidor do projeto em que hoje traba-lho. Se ainda estivesse na assessoria da Secretaria de Cultura do Estado, CONFISSES DE AURLIO 173provavelmente j teria perdido at a vontade de viver. A situao che-gou a um ponto em que aquilo me incomodava demais, principalmente por minha promoo ter sido em favor de interesses pessoais daquele secretrio. Ele cuidava de seus negcios privados, e sei l mais de que, enquanto eu fazia a parte mais chata do servio pelo qual ele era pago com o dinheiro pblico. Viver como rmora no era nada confortvel. Confessomeuerro:fuilevadoporinteressespoucolouvveis.Maso pior de tudo que eu ainda sentia inveja dele.Fuilevado,medeixeilevar,levei:quediferenafazsaberde quem a culpa? Tenho ao menos a conscincia limpa de ter despertado a tempo e de ter aproveitado a primeira oportunidade vivel para sair daquele esquema.Bendita seja a sociedade psicanaltica brasileira. E bendito seja o senhor Carlos Felcio, diretor da mais proeminente escola freudiana dopas.Porseuintermdio,conheciumhomemque,napoca,era oprincipalpatrocinadordeumapesquisarealizadanaUniversidade Federal sobre tecnologia para gesto em Educao. o Carlos Felcio me chamouaofnaldeumevento,dizendoquequeriameapresentara algum importante. Chegou lmesadele e merecomendou de ma-neira inusitada. Disse que eu era uma rvore que em breve daria frutos e ainda completou: guarde esse nome: Aurlio. De incio, o homem pareceu meio surpreso e receou dar aber-tura ao estranho que se punha sua frente com um largo sorriso. Mas logo baixou a guarda. No demorei a perceber que o senhor giovanni Luci era um empresrio diferente. Eu nunca tinha visto algum to po-lido.Conversoucomigodemonstrandorealinteresseemminhapes-soa.Dentreoutrascoisas,quissabersobreoqueeujtinhafeitona CAPTULO 17 174vida, quais eram meus interesses de pesquisa, como era meu trabalho naassessoriadeCultura.Falavadeumaformamuitobemcolocada, semparecerinvasivo.Aconversarendeu.Sentiqueelepossuaum magnetismo pessoal incomum, algo que eu s havia sentido na presen-a do clebre escritor.Enotemoafrmarqueminhasimpressesiniciaisestavam corretas. Hoje, tenho ainda mais convico disto: o senhor giovanni uma pessoa rara. No age como a grande maioria dos homens de neg-cios, que s vivem pensando em alavancar o nome de suas empresas. Sua paixo humanstica excede todos os limites. Assim como fez comi-go, j ajudou muita gente. Na verdade, eu diria que ele um caador de talentos diferente, um homem velho, podre de rico, que tem o estra-nho prazer de ver boas ideias se tornarem realidade. No sei se posso cham-lo headhunter. um homem misterio-so. Por demais discreto. Ningum sabe quase nada sobre ele. Naquele primeiro encontro, deixou comigo um carto.Agora fecho o parntese e volto a falar da psicanlise.Deus sabe que ainda a considero uma ferramenta bem til para a reduo do sofrimento psicolgico humano. Tanto que me submeti a uma anlise pessoal, testando em mim mesmo o alcance dessa prtica, e me submeteria novamente se isso fosse preciso. Respeito a clnica do div.Snopensomaiscomopensavaantes.Aspessoasmudam.Eu mudei.Naqueletempo,eutinhaoutrosobjetivos,precisavacumprir umdospr-requisitosparaingressarnasociedadepsicanaltica.Seo nefto no fzer sua prpria anlise, ento no poder se dizer analis-ta. Eis uma regra e tambm um ritual de iniciao.Psicanalistas.Tenhoforteadmiraoporeles,emboravejaa sombra negra que se esconde sob seus mais sofsticados semblantes. As CONFISSES DE AURLIO 175pessoas comuns se deixam seduzir pelo ar de mistrio que eles exibem, mas nem imaginam o quanto fcar no lugar deles di. os psicanalistas sofrem. Por qu? Deixo em aberto essa questo. Mas vale ressaltar que aferramentaqueelestmnasmosdiferentedetudooqueseco-nhece, sendomeioflosfca,meiomdica,meioeducativa,meiolin-gustica e, para piorar a ansiedade dos praticantes, meio ideolgica; ou melhor,bastanteideolgica.Nofcilfcarnomeiodetantacoisa. Corre-seoriscodefcarnomeiodocaminho.Anicacoisafrmee estvel que lhes resta a paixo por um mestre e a convivncia grupal.Coincidnciaouno,essaseramexatamenteasduascoisas que eu inconscientemente buscava com mais intensidade. Eu precisava pertencer a alguma coisa; e, no fnal das contas, pertencer ao crculo psicanaltico no era to diferente de fazer parte de uma igreja. Alm do mais, o elitismo, o linguajar repleto de neologismos e conceitos her-mticos e os padres estereotipados de comportamento faziam aquilo parecer um clubinho bem divertido.Assimqueconseguiumaboaindicao,inicieiminhaanlise pessoal. Escolhi um dos mais famosos do ramo, atuante como clnico, escritor,palestrante,professoruniversitrio,epagueibastantecaro parafrequentarseuconsultrio.Compouco,asportascomearama se abrir. Era tudo o que eu queria: circular no meio psicanaltico, fre-quentar eventos, reunies sociais e festinhas mais ntimas. Eu no per-diaumachancedeaparecer,desejavaardentementeumaposiode destaquee,porissomesmo,mostrava-mesempreespirituosoebem articulado. Entre psicanalistas, eu praticava uma emplumada esgrima intelectual. E como no me saa mal nisso, obtive logo algum respeito e fui reconhecido, digamos, no dizer do Carlos Felcio, como um jovem psicanalista de talento. CAPTULO 17 176Mas que grande coisa! Enfm, pouco importa se fui bem ou mal sucedido entre os psicanalistas. Eu no era verdadeiro. Mais vale con-fessar minha prpria vaidade. E mais relevante para a memria destas confsses o fato de que, no consultrio daquele analista, iniciei um processodepurifcaointerior.Noqueeufossetoneurticoas-sim, que no tivesse condies de andar com minhas prprias pernas. Na verdade, penso mesmo o contrrio, e me incluo entre aqueles que oSigmundaseutempochamavanormais.oquefznaquelecon-sultriofoiumaespciededepuraodosdesejos,despindo-mede sentimentos de culpa e de falsos altrusmos. Passei a reconhecer meus monstros interiores e perdoei o drago furioso que, ainda na infncia, eu escondera no poro da alma. No vejo qualquer restrio em qualif-car a anlise como um processo de purifcao. Pessoas no analisadas tendem a agir de maneira dbia, desconhecem os sentidos ocultos da-quilo que dizem e, no raro, vivem uma vida cheia de efeitos colaterais.H outro detalhe interessante. No div, eu falava de tudo, evi-tandotosomenteostemasrelacionadoscomreligioeespirituali-dade. Alguma coisa me fazia no confar no analista para esse tipo de assunto. Era como se eu quisesse guardar algo para um tempo futuro. Mas por que tinha esse receio? Arrisco-me a dizer que eu inconsciente-mente temia perder a ligao com um desejo mais profundo. Eu tinha um tesouro guardado dentro de mim e temia dar chances ao ladro.oinconscientefascinante.Principalmenteoinconsciente queospsicanalistasparecemdesconsiderar.Queforaeraaquelame resguardando do ataque ideolgico que certamente adviria se falasse de espiritualidade com meu analista? No fundo, jamais ignorei o lado espiritualdavida,apenastenteiabafar.Houvesempreumtoquede intuio a me puxar para cima. CONFISSES DE AURLIO 177Freud, que em tantos aspectos fora um homem extraordinrio, deviatersidomenospessimista.Falodecorao.Eleparecenoter visto algo que estava diante de seu prprio nariz. Com um pouco mais de f, provavelmente teria avanado em suas descobertas e teria esti-madomelhoroladosaudveldoinconsciente,paraalmdosefeitos nocivos do retorno do recalcado.Porqueestoufalandodeumhomemmorto?Issomeassusta um pouco. No quero fugir das responsabilidades destas confsses, s oquemeincomodaainfunciaqueessehomemmortotemsobre mim e, por que no dizer, sobre o mundo. Preciso encar-lo de frente. Falodele,noparafugirdomeutrabalhointerior,masparaencher meu peito de esperana.Freud analisadoNoacreditoemcoincidncias,poisnenhumacontecimento temvaloremsi.oquecunhaovalordosacontecimentospareceser omrito,nosentidodequeumacoisasaconteceparaalgumna hora certa quando a pessoa merece. A oportunidade pode passar por debaixo do seu nariz sem voc perceber, ento, foroso admitir que tudo depende do tempo propcio. Querofalardeumdiaemqueestivenolugarcerto,nahora certa, para conhecer a pessoa certa. Quase sempre, precisamos de al-gumquenosvenhaabrirosolhos.Precisamosestarnumacafeteria lendo um livro para que um senhor de mais de setenta anos passe pr-ximo nossa mesa e lance um olhar por sobre nossos ombros, xeretan-donossaleitura.Precisamosestardebomhumorpararecebermoso CAPTULO 17 178olhar intruso com um sorriso, e para convidarmos o homem a se sen-tar, quando, ainda por cima, ele tem a indiscrio de comentar o que viu, dizendo mais ou menos assim: Ah, voc se interessa por psican-lise!. E precisamos estar prontos para compreender palavras ousadas, quando elas se prestam a analisar uma celebridade histrica como Sig-mund Freud. Ento, damos ouvidos ao senhor de mais de setenta anos que comea um dilogo assim:Poucosentendemosentidoinconscientedaamizadedura-doura entre Freud e o pastor Pfster. Perdo? o que qualquer um responderia.Foioquerespondi,eteriaimediatamentemelevantadoda mesa se ele no demonstrasse logo em seguida que sabia do que esta-va falando: Nocuriosoqueumdosquatrocavaleirosdoatesmo moderno tenha mantido relaes to prximas com um pastor pro-testante?eleolhoudiretamentenosmeusolhos,comoquepers-crutando um coelho assustado dentro da toca, e certamente notou a fagulha que se acendeu.Assim, continuou: Na verdade, Freud no teve lucidez sufciente para analisar a si mesmo. No acha?Esseassuntomuitomeinteressava.Elehaviaacertadoem cheio. Mas o mais intrigante foi que, embora sua abordagem contivesse uma dose um tanto quanto exagerada de soberba, no cheguei a sentir repdio nem desconfana diante daquela fgura extica. Pelo contr-rio, senti respeito. preciso se sentir muito seguro de si para falar de Freud des-sa maneira... observei cordialmente, mantendo um oportuno silncio em seguida. CONFISSES DE AURLIO 179osenhordebrincosbrilhantes,rabodecavaloprateado,pa-letbrancoechapu-panamdamesmacorfezsinalparaogarom trazer-lhe um caf e se acomodou na cadeira: Quantos anos voc tem, rapaz? Eleparecianoteramenorpressa.Retirouumcachimbodo bolsointernodopaletefezsinalparamim,educadamente,como quesolicitandoaprovao.Mostrei-lheumaplacadeproibidofu-mar e abanei a mo esquerda diante do nariz, fazendo uma expresso caricata de repugnncia enquanto respondia: Tenho quase trinta, e o senhor?Notei que o canto esquerdo de sua boca repuxou discretamente: Tenho idade para ser seu av, mas devia ter pouco mais do que voc quando li a correspondncia de Freud e Pfster pela primeira vez. Voc j leu as cartas? No, ainda... minha resposta veio com um ar de decepo, ou de receio de que ele viesse a se desinteressar da conversa.No entanto, ele me pareceu mais instigado:Ah,vocnosabeoqueestperdendo!Masvocjouviu falar do pastor Pfster, no mesmo? Sim, claro, e j vi alguma coisa a respeito da publicao das cartas.Esseumdosmeustemasatuaisdeinteresse.Porqueose-nhor acha que eu ainda estou aqui, dividindo a mesa com um estra-nho que usa rabo de cavalo e brincos? fz questo de dizer isso com a cara mais sria possvel.Apenas quando veio a primeira nota de sua gargalhada explo-siva foi que desfz o cenho e tambm me permiti rir do chiste. Em se-guida, aproveitei o silncio de nossos goles de caf e direcionei a con-versa ao ponto que realmente me interessava: CAPTULO 17 180 o senhor dizia que Freud no soube analisar a si mesmo... Quem tiver ouvidos que oua! bradou o velho. Muita gen-te me olhou de soslaio quando eu quis debater esse tema num congres-so nacional de psicanlise. Mas isso foi h muito tempo... a morte j me espera na prxima esquina, e no tenho mais saco para as babaquices dos homens com seus egos e ismos. Hoje em dia, eu s quero mesmo cuidar do meu jardim.No me contentei com a evasiva, ento, insisti: Como foi esse congresso?Ele se esquivou novamente:Esqueaisso,novaleapena.Queroapenastedarunsto-ques, para aguar seu esprito crtico. Quando for ler as cartas, comece porseperguntar:seFreudrompeucomamaioriadesuasamizades maisbrilhantes,comoporexemplocomJung,secuspiafogocontra discpulos pouco obedientes, ento, por que tolerou aquele pastor, que mais do que tantos outros discordava abertamente de vrias das teo-rias psicanalticas? Falhou em analisar-se a si mesmo... insisti mais um pouco. Sim! Jamais compreendeu seu prprio alterego ele asseve-rou, agora se apossando da autoridade que convinha ao momento. Maseunoesperavatalresposta,eporissodeixeinoarum Alterego?. Ao que ele completou: Tambm no entendeu que seu inconsciente tentava lhe dar um recado do tipo ei cara, voc est deixando coisas importantes para trs, liberte seu corao dos rancores infantis.Das duas uma: ou eu era muito ingnuo e precisava conhecer mais o pai da psicanlise, ou aquele sujeito era para l de pretencioso. Aonde ele almejava chegar com to extravagantes consideraes? CONFISSES DE AURLIO 181 Voc falou do inconsciente de um jeito peculiar, pouco freu-diano apenas pontuei.ohomembaixouosolhosesegurouemmeuantebrao,imi-tando um estereotipado gesto de lastima, e prosseguiu:Ah!seoaustracotivesseperdoadoafraquezaeaforado seu prprio pai... certamente teria sido menos obsessivo com a cincia e mais tolerante com as crenas. Mas em vez disso elegeu algum para carregar o otimismo e a bondade de corao que no suportou desen-volver em si mesmo. Seu melhor amigo! Minha cara j dizia tudo, era bvio que eu no daria mais nem um pio. Ele que desse um jeito de se explicar! o que de fato fez, depois de um vagaroso gole de caf puxar um no menos enfadonho pigarreado: Ningum poderia suspeitar de que o alterego do famoso Freud fosseumhomembom,simplesepiedoso.Quegrandeironia!Imagino uma cena teatral: o velho de barbas brancas e charuto aceso regredindo ao estado masoquista infantil, tomando palmadas no bumbum. outro gole de caf. olhares conspiratrios. Risadas descontra-das. Enfm: Por que no rompeu a amizade, j que o pastor o criticava aber-tamente? meu interlocutor brandiu as mos e a cabea, incitando-me a revidar, mas continuou, em vista de meu silncio complacente: Em vez disso,remetia-lheseusescritos.QuequeriaFreudcomOfuturodeuma iluso, livro este endereado a Pfster? Da Sua, Pfster escreveu a Freud sobre o livro nos seguintes termos: Sua rejeio da religio no me traz nada de novo. Um adversrio de grande capacidade intelectual mais til religio que mil adeptos inteis. E, no ano seguinte, escreveu e publi-cou A iluso de um futuro para rebater as ideias de Freud. Que queria Freud, ento? Palmadas no bumbum. Palmadas que, efetivamente, recebeu. CAPTULO 17 182 ... quem sou eu para dizer se o senhor est certo ou errado... fz uma longa pausa e continuei: Vou precisar de tempo para digerir tudo isso. Falando assim desse jeito, suas opinies parecem inquestio-nveis. At compreendo por que te ignoraram no tal congresso. o se-nhor era muito jovem. Acho que existem coisas que somente os velhos podem dizer.Ele riu, assentindo com a cabea, e fez sinal para o garom. Pe-dimos dois cafs. Esperei um pouco, mas ele no disse nada, e pareceu--me distrado com duas garotas que acabavam de entrar na cafeteria. Ento,aproveiteiparalanarumaperguntasobreoutroassuntoque me preocupava:Quandoosenhorfalouinconsciente,tiveaimpressode que no era o mesmo inconsciente de Freud. Pode me explicar isso? Freud era muito pessimista. Nada demais... desinteressado, ele ainda mirava as duas garotas. Pessimista? insisti.Mas ele j sinalizava o fm de nossa conversa: Voc muito jovem e, ainda por cima, est sendo doutrinado poressespsicanalistas.Noseiseestpreparadoparaverqueapsi-canlise no explica tudo. Espero que um dia voc se abra mais para a espiritualidade.A sim eu revidei: Talvez eu no esteja to longe assim. J me pergunto se essa ideia de que os seres humanos tm desejos reprimidos explica mesmo toda a profundidade de nossa mente. No haveria um lado saudvel do inconsciente?ovelhoarregalouosolhosecomentoucompropositada arrogncia: CONFISSES DE AURLIO 183 opa! Voc j foi mais longe do que eu pensava. Continue nes-sa via, acho que voc pode chegar a algum lugar.Precisei ser rpido no gatilho, para no deix-lo escapar: Por acaso est querendo dizer que devo seguir minha intuio?Costumodizerqueprecisamosescutaravozdesseincons-ciente saudvel. Refetiusobresuaprpriafalaporalgunsinstanteseprosse-guiu em tom didtico: s vezes, ele diz no v por essa rua. E voc deve ouvi-lo, porquepodeserquenaprximaesquinaumperigooaguarde.Mais adiante,eledizvporessarua.Damesmamaneira,vocdevees-cut-lo,porqueassimqueossonhosserealizam.Quemnoescuta essa voz jamais resolve o enigma da vida. o senso comum chama esse inconsciente saudvel de intuio. Intuio uma boa palavra. o velho de rabo de cavalo e brincos mal concluiu essa ltima frase e foi logo se levantando. Disse que tinha acabado de se lembrar de um compromisso importante, pediu desculpas, cumprimentou-me manifestando o prazer daquele encontro circunstancial e saiu.Deu uns cinco passos e parou; olhou para trs e tornou a dizer, com um sorriso maroto nos lbios: Intuio uma boa palavra.185.18.Eusentiagrandeeansiosaperplexidade aolembrar-medolongotempodesdeos meus dezenove anos, quando sentira pela primeiravezoamordasabedoria[...] Chegavaeu aostrintaanos econtinuava presoaomesmolodo[...]Enquantoisso repetia:Amanh encontrarei a sabedoria.Santo Agostinho, Confisses (VI, 11)Os 30 anosCheguei beira dos trinta anos sem compreender a inquietu-dedemeucorao.Desdeosdezenove,ouantes,eubuscavaalguma coisa sem saber o que. Lia, conversava com pessoas, perambulava pelo mundo procurando sentido. Perambulando, deparei com a psicanlise. Estacionei. A tentativa de fazer dela a panaceia universal durou quase quatroanos.Insistimuito,mesmoenfrentandoacontumazsensao de estar negligenciando algo da maior importncia. At que, por fm, meu corao reclamou seus direitos, sinalizando que chegava a hora de despertar daquele sono. CAPTULO 18 186Aconversacomaquelesenhornacafeteriamefezapertaro gatilho de uma metralhadora de questionamentos. Psicanalistas espi-ritualizados so atpicos e difceis de encontrar. Solano Lzaro era seu nome, pude saber disso na segunda vez em que nos vimos. Mais preci-samente, s nos encontramos duas vezes e praticamente falamos dos mesmos assuntos nos dois encontros, mas a sacudida que levei surtiu um efeito duradouro. Fiquei mais alerta.Aindanodiadenossoprimeiroencontro,quandoelesaius pressasemedeixounovamentenacompanhiadeumlivroedeuma xcara de caf, ocorreu-me questionar no a Freud, mas a mim mesmo. Dei um passo crtico crucial. Para meu espanto, foi quando percebi que minha anlise j se estendia por quase dois anos, e eu ainda no havia tocadonoassuntodainquietudeespiritual.Entendiquedeviahaver ummotivomuitosrioparaisso.Elanceiumaperguntanoar:Au-rlio,vocjencontrouasrespostas?Jseresolveunasquestesda espiritualidade?.Pela psicanlise, eu j havia pressentido a natureza da eterna batalha humana, e j entrevia o combate infndo de duas foras no in-terior do homem. Palavras de um famoso psicanalista: a religiosidade inquebrantvel;aanimalidadeinquebrantvel.Palavrasminhas: quandoohomemmergulhaemseusrecnditosinterioresbuscando seubem,acabafcandodividido,porque,enquantoumaescadavai paraalajedacasa,aoutravaiparaoporo.Todavia,faltavampeas decisivas no quebra-cabea que eu tanto insistia em montar.Entre os psicanalistas, eu j no me reconhecia. o convvio foi se tornando cada vez mais difcil. Cheguei a um ponto em que tive de me afastar do crculo que eu frequentava, pois mesmo em situaes so-ciais simples era atacado por uma espcie de pnico. Se eu comparecia CONFISSES DE AURLIO 187a um encontro do grupo de estudos, por exemplo, precisava inventar desculpasparasairspressasenoconseguiaconterasensaodu-plamente angustiante de estar asfxiado num tnel sem sada.Em uma das tentativas de enfrentar o problema, obriguei-me a comparecer a uma palestra de um estrangeiro que havia sido convidado especialmente para fechar um ciclo anual de seminrios. Arrependi-me amargamente. Eu estava l, no meio do auditrio, sem a menor condio desairsemsernotado,suandofrio,tremulandoe,pior,aguardandoo terrifcante desfecho do evento, quando eu seria forado a fazer aquele socialcompessoascujacaraeunoestavanemumpoucoafmde ver. Foi peia das brabas. Pensei que fosse morrer. E, na mesma noite, tive um sonho altamente representativo daquilo que me faltava constatar: a psicanlise era uma pgina virada em minha biografa.Tal como eu j havia anunciado antes quando decidi relatar trs sonhos nestas confsses , recorrerei a anotaes feitas na poca.O terceiro sonho(leitura do manuscrito)Tive um pesadelo horrvel. Entrava num consultrio m-dico em busca de cura. Minha garganta doa muito. Sourecebidoporumsenhordeidade,cabelosebarbas brancas. Freud! Ele diz que sabe o que eu tenho e me manda deitar num catre enferrujado. Enquanto o escuto falar sobre uma epide-mia de dor na garganta que assola a cidade, sinto medo, fco ima-ginando que aquele catre no aguenta meu peso e que, portanto, acabar despencando no cho. CAPTULO 18 188Nomomentoemquetentofalardomedoquesinto,re-cebo a ordem de abrir a boca para o exame. Calo-me. Tento falar novamente,maseleenfaumpalitoparasegurarminhalngua, mandando-me fcar quieto: Sim, sim, j sei do que voc precisa diz em seguida. Evemcomumainjeoenorme,prontoparaespet-la emminhagarganta.Saltodocatrenosustoemeescondoatrs de uma estante de livros. Mas ele tenta me agarrar, gritando que devo abrir a boca. Assustado, peo-lhe para consultar os livros an-tes de fechar o diagnstico.Inicia-se uma perseguio. O consultrio parece enorme; rodo de um lado para o outro pedindo que ele consulte os livros, enquantoeletentamecercar,mantendoainjeoemriste,tal como uma espada, e me mandando furiosamente abrir a boca. Por fm, me alcana. Quando est prestes a aplicar a injeo, a porta doconsultrioseabrecomovento.Pensoemchamarapolcia, mas de minha boca sai: Chamem um padre!Acordo. O amanhecer est prximo.A potica do fogoDesde o comeo dos tempos, a humanidade procura respostas: a origem, o sentido, a morte, Deus e o homem. os mitos, a metafsica, a teologia e a cincia abraam as mesmas questes, e cada uma contribui sua maneira para elevar o grau de nossa condio. Mas por que dese-jamos conhecer? CONFISSES DE AURLIO 189Seja qual for a noo que se tenha a respeito do Conhecimento, ele sempre se apresenta aos homens como pr-requisito indispensvel paraafelicidade.Estaabasedetudo:afelicidade.Emtodosospovos, em todas as lnguas e em todas as pocas, nunca houve uma s pessoa nesteplanetaquenosoubesseosignifcadodessapalavra.Quando falamos em tica, avistamos no horizonte a felicidade. Quando falamos em cincia, procuramos felicidade. Quando exaltamos o amor, agrade-cemos a Deus por situar nossa felicidade to perto de ns. A religiosidade no se origina de iluses, muito pelo contr-rio; acho que nunca a compreenderemos se no considerarmos nossa luta diria por superao eu disse a Flora e a Alpio em certa ocasio, algum tempo depois do pesadelo da injeo.Estvamos em casa e, como de costume, Alpio era nosso con-vidadoparaojantar.Conversvamosdescontraidamente,comainti-midadequenoseraprpria.Nohaviasegredosentrens,easmu-danas pelas quais eu vinha passando desde o afastamento do crculo psicanaltico os deixava cada vez mais curiosos. outros rumos, outros interesses. No sei se a transformao era recproca, mas ambos con-tinuavam sendo bastante atenciosos comigo; na verdade, no eram ca-pazesdemetratarcomindiferenanempodiamsercompletamente imunes a minhas opinies. Ah, Aurlio, voc to previsvel! De ctico psicanalista, ago-ravaiacabarconvertendoatodosns!Florameespetoucomseu humor custico, mais intentando evitar que nosso jantar descambasse para um pesado debate terico do que querendo verdadeiramente me atacar ou desmerecer.Alpio,porsuavez,dispunha-separaoqueviesse,aindaque fosse um debate terico, e por isso deu corda na conversa: CAPTULO 18 190 Deixe o Aurlio falar, Flora. Se ele estiver pensando em se con-verter, esquea! Ns tambm no escaparemos de nos tornarmos beatos. Afnal, quem sabe no tenha chegado o tempo de eu me tornar padre?A gente ria muito, mas eu no pretendia deixar barato. En-to, continuei: Padre ou no, ningum se conforma com essa nossa limitada condio, humana demais, ou humana de menos, mas defnitivamente no acabada. Fale por voc, meu querido. Eu me sinto muito bem com mi-nha vida e comigo mesma Flora retorquiu. Claro, voc tem uma carreira promissora, nem mesmo a mor-te pode lhe assustar... contive o golpe cnico que eu j ia desferindo contra ela, evitando entrar em seu jogo.Alpio veio logo em meu socorro: Ento, voc acha que as religies nos levam a transcender os limites puramente materiais da vida? Exatamente aproveitei o ensejo. Voc usou a palavra cer-ta: transcendncia.Maseleaindanocompreendiaminhamaneiradecontestar os argumentos freudianos: E isso no advm de uma mera projeo de fantasias? ou, em outraspalavras,nosetratadeumafugadarealidadenuaecruatal como ela ?De modo que achei conveniente no entregar o que ele queria de bandeja: Voc que me diga: como a realidade ? Na verdade, Aurlio, eu no consigo ser to intenso quanto vocmeuamigofaloudeumamaneiramuitofranca,semrodeios. CONFISSES DE AURLIO 191Latrs,quandoramosuniversitrios,omaisespiritualizadoera voc; depois, em nossos estudos psicanalticos, o seu ceticismo se tor-nou bemmaisradicalqueomeu.Noengraado?Achoqueeusou meio sem sal... Voc vive as coisas mais intensamente.Flora de imediato emendou:Issoverdade.SeoAurlioentrasseparaalgumareligio, provavelmente, iria acabar trancado para sempre dentro de um mos-teiro ou coisa parecida.Eu sabia que, no fundo, ambos admiravam meu jeito apaixona-do de ser. Por isso, levei na esportiva:Seino.Algomedizquesuasogranopermitiriauma coisa dessas.Assim, Alpio retomou seu questionamento, indo direto ao ponto: Mas por que necessitamos de crer em algo alm deste mundo para sermos felizes?Hesitei um pouco antes de responder. Enchi os pulmes, ex-pirei ruidosamente e baixei os olhos. At que, por fm, falei o que veio na cabea: Eujmefzessaperguntaumasmilvezes!Porqueser? Serpormerafragilidadedenossoesprito,quenosuporta,como voc mesmo disse, a realidade nua e crua? Ultimamente tenho estado mais propenso a admitir que isso possa estar em nossa gentica, como se ns tivssemos sido programados para nascer com a lembrana de um lugar que no existe e de um tempo que no vivemos. Percebe que aludoaumalembranaancestraldoParaso?Porm,nopensoque nascemos com isso porque vivamos num paraso antes de nascer, mui-to pelo contrrio. o nascimento um trauma. Sendo assim, a primeira experincia da felicidade o alvio do sofrimento. CAPTULO 18 192Florameolhoudeumamaneiradoceerecostou-seemmeu peito,semdizermaisnada.Alpiotambmpermaneceuemsilncio, tendo apenas se reclinado no sof, num gesto misto de refexo turbu-lenta e contemplao musical. ouvamos jazz. Miles Davis, talvez. No. Era um Choro loco do Yamandu. E eu, j de olhos cerrados, balbuciei um preldio delirante: Quem vai e quem fca? Mais cedo ou mais tarde, somos obri-gados a tomar lugar nessa antiqussima jornada humana em busca de Deus e de ns mesmos. Fazertrintaanos.Findamaisumciclodememriasdestas confsses. o fm da juventude o fogo. Esse o elemento misterioso da potica da vida. Com ele, recordo-me de uma das mais belas repre-sentaes da mitologia clssica, a ave fnix, aquela que renasce de suas prprias cinzas. Sua glria nos toca a alma. Somos ns, humanos, que sofremos quando nossos castelos so levados pelas ondas, ou quando nossas roupas j no nos servem, ou quando a casa paterna fca peque-naparanossossonhos,ouquandoapalavraditaprecisaserdesdita, ouquandonadamaisnosrestasenoergueracabeaerecomear. Mastambmsomosnsquesustentamosaeternaesperanadeque os tropeos e recomeos da vida valham a pena, pelo desejo de v-los compor o preldio do triunfo fnal.O aniversrio de MnicaNaquele ano, no aniversrio de mame, fz uma visita surpre-sa,paranodeixarpassarembranco.Floratinhacompromissosde trabalho;fuis.guardeinamemriacadamomentodaquelediaque considero ser o dia em que verdadeiramente conheci Mnica. CONFISSES DE AURLIO 193Preparamos um jantar simples, procurando fazer tudo num cli-madedescontraoagradvelanossosafetos.Asuavemelancoliade seus olhos que no a deixava mentir. No fundo, ela queria passar a noi-tesozinhacurtindofossadelobacinquentonavivaesemnamorado. Estvamoscoincidentementepassandopordramaspessoaisparecidos e nos comportvamos exatamente como tal, isto , cada um tinha aque-letipodesemblanteobtusodequemalmejailhar-seemsimesmo.o tempo de encarar certas mudanas em nossas vidas diminua, e isso nos assustava. Entretanto, sem desmentir o recproco desejo de clausura que nos oprimia, por uma ambivalncia tpica da natureza humana, tambm nohavianadaquenspudssemosquerermaisdoqueestarmosum na companhia do outro. Foi um encontro mgico, harmnico, pleno de sinergia. Me e flho acolhidos em total cumplicidade e sintonia.Duranteumbomtempo,escutei-afalardeseusproblemas pessoais.Deixeisairodesabafo,acolhi,mesmosemousarconselhos, sabendo que, em seguida, seria minha vez de desabafar. Como sempre, mame me ampararia na hora mais difcil. Fora sempre assim. Nem sei por quantas vezes na vida precisei daquele colo; para chorar, ou s para fecharosolhosumpoucoefcaremsilncio,ou,ainda,paraescutar seus sbios conselhos, sempre muito precisos e efcazes. Eu precisava dela novamente, contudo, naquela ocasio, antes de despejar minhas lamentaes, tinha de enxergar a mulher que se desvelava ante meus olhos, tinha de olhar menos para mim mesmo, pois ela estava ali, mais verdadeiraquenunca.Meudevereracompreenderaqueleserque apenas me pedia para acolher sua solido, seu sentimento de perda de autoestimadevidoidade,suafaltadeidentidadecorroendoaalma desde que o flho cresceu e deixou de necessitar de seus cuidados. CAPTULO 18 194Como se diz no senso comum, a vida dela estava sem sal. Acho que foi a primeira vez que desejei um novo companheiro para minha me. Do fundo do corao. Desde a morte de papai, esse havia sido um dos meus maiores e mais irracionais medos, e eu no conseguia aceitar a ideia de v-la com outro homem em casa. Somente naquele momen-to, quando um sentimento mais fraterno aforou em ns, pude pensar verdadeiramente no bem dela. No foi preciso dizer nada. Meu olhar j dizia tudo, cintilando como quem declama um soneto de libertao.orecadoestavadado.Elaenfimcalou-se,deuumsuspiro profundoemeagradeceu.Ficoumeolhandoduranteumtempoe depois disse: Voc se parece muito com seu pai.Fez uma pausa mais longa e acrescentou: difcil seguir sem ele, j no sinto tanta segurana e moti-vao para a vida como quando o tinha ao meu lado.Cheguei a tremer diante de to aguda sinceridade, e realmen-te no pude dizer mais nada. Nem ela disse qualquer outra coisa at o fm do jantar.Na sala de estar, enquanto matvamos nossa saudade de comer brigadeiro de colher juntos, resolvi me abrir e falei: Me, estou um pouco angustiado.Ela sorriu. Eu tinha muitas ideias confitantes que se rebatiam dentro da cabea. o que falei em seguida saiu como um lapso: Sinto falta dos meus amigos.No era isso que eu pretendia dizer, mas disse. A coisa saiu na lata, sem racionalizaes. Mais espantosa ainda foi a reao de Mnica. Ela me respondeu de maneira quase trivial, sem nenhuma gravidade: CONFISSES DE AURLIO 195 Aurlio, voc sempre teve uma espiritualidade muito agua-da. Voc uma pessoa sensvel. olhe mais para dentro de si mesmo e veja o que est acontecendo. Tudo o que sua me tem a oferecer isto: um colo incondicional e uma tigela de brigadeiro. o resto com voc. Lute pelos seus sonhos. No isso que todos ns devemos fazer?Aquelaspalavraslibertaramummardelembranas.Minha memria despertou. Entendi que o lapso trouxera uma mensagem do bom inconsciente. Era preciso que eu me situasse melhor em relao a mim mesmo, porque todo aquele embate terico que eu vinha travan-do contra a psicanlise no passava da ponta de um iceberg gigantesco. A pergunta era: que tipo de urgncia me fazia agir daquela maneira?Enfm, revelou-se minha solido. Eu me via deslocado no mun-do,maisumavez.Entreospsicanalistasjnoencontravapares.No trabalhoenetworksemgeral,andavainsatisfeitocomoautomatismo das relaes humanas. No relacionamento com Flora, sentia-me inse-guro como quem navega para lugar nenhum.os olhos de mame denunciavam cumplicidade e compaixo. Aov-lostrmuloscomoluzdevela,tiveacertezadequeelacom-preendia meu testemunho. Qual sua tribo, Aurlio? Qual sua tribo, Mnica? o que signifca ter uma casa? Ao fazermo-nos essas pergun-tas,fomostomadosporumaquasedocemelancolia:umsentimento decais.Nossasvidasnocabiammaisnodesenhoquensmesmos havamos traado. CAPTULO 18 196AnunciaoComo havia combinado com Flora que estaria em casa cedo no diaseguinte,paraajud-lacomalgumacoisadequenestemomento no me recordo o que era, decidi, por uma questo de praticidade, en-frentar a viagem de retorno ainda naquela noite. Mame no se ops enaverdade,contandotodaminhavida,onmerodevezesquea vi contradizer uma deciso minha cabe nos dedos de uma mo. Dessa forma, o fnal daquela nossa conversa fatalmente teve de ser um tanto quanto apressado.Eu j estava de p quando lhe contei que recentemente tinha lido alguns livros bem interessantes. Depois de ter falado tanto sobre psicanlise,realizaopessoal,relacionamento,imagineiqueseria bom se ela soubesse que, para alm da angstia, tambm havia certo otimismo no modo como eu via os fatos. Acho que pude deix-la mais tranquila. No mnimo, ela merecia isso. Nenhuma me gosta de ver o flho navegando sem rumo. Corao de me coisa delicada.Maselanoreagiudeimediatoefcousomentemeolhando, provavelmente, tentando entender o que tinha escutado. Seu flho ali, de p, despedindo-se aps um jantar intimista e falando de livros. Af-nal, ela devia estar pensando: Livros?! E da?.Percebendo que precisava dar um descanso mame, sem for-ar a barra, disse apenas: Fique tranquila, tudo vai correr bem. Essa angstia apenas sinal de transformao.Dei uma risada, peguei em sua mo e, amenizando ainda mais o tom, no resisti a uma brincadeira. Disse que tinha comprado uma pas- CONFISSES DE AURLIO 197sagem para uma longa viagem. Ela fez uma cara medonha de surpresa, mas eu completei: Vou para outra galxia, em direo nebulosa contagiante de um novo paradigma nascente.A sbita expresso de preocupao se desfez, e ela tambm se permitiu entrar na brincadeira: Voc vai longe, para muito alm de B612, meu pequeno prncipe.Colocandoamodireitaemconchaaoredordaorelha,fz menodeestartentandoouviralgumacoisa,earremateicomuma expresso de luntico Jim Carrey: oua, mame, o murmrio das multides, qual ser o segredo que desperta os homens mais cedo?Finalmente ela entendeu o recado. E riu; riu mas fcou calada, com uma expresso to vaga que me deixou meio apreensivo. Por um minuto, era como se para ela eu no estivesse ali. Fiquei esperando.Por fm, voltou a si e disse que tinha se lembrado de uma coisa importante. Contudo, em vez de dizer logo o que era, pediu somente que eu esperasse enquanto ela ia ver se encontrava a tal coisa. Passaram-se uns dez minutos at que ela retornou e me entregou um livro. Tinha a assinatura de papai. Ento me contou que ele guardara aquele livro por bastante tempo, embora no tivesse lido uma nica pgina sequer. Seu pai fazia o maior mistrio sobre este livro, Aurlio. Cuide bem dele. Acho que chegou a hora.E tendo dito isso, j me empurrando para dentro do carro para nomeatrasarnaviagemdevolta,deixoupairar,enigmaticamente, um ltimo conselho de me:Snomisturenuncareligioepoltica,meuflho,eno acredite em nada nem ningum que traga essa marca. CAPTULO 18 198Ela adorava repetir esse bordo.o livro que guardo entre meus tesouros chama-se O fenme-no humano. Na poca, eu no conhecia o autor, Pe. Teilhard de Chardin. Um padre!199.19.Instigadoporessesescritosaretornar amimmesmo,entreinontimodomeu corao sob tua guia [...] Entrei e, com os olhosdaalma,acimadestesmeusolhos e acima de minha prpria inteligncia, vi uma luz imutvel.Santo Agostinho, Confisses (VII, 10)Considero-meumhomemreligioso.Nopagoodzimo,no vivoemmosteiro,notenhoparquia,noprocurodiscpulos.Mas souprofundamentereligioso,epresumoqueestejadentrodemim mesmo o lugar mais prximo de Deus.Minha converso se que j tenha vivido algo que se parea com uma converso no se deu da noite para o dia nem decorreu de qualquerrompante;pelocontrrio,foibrandaegradativa.Pensoat que o uso comum da ideia de converso insufciente, e prefro v-la como a metfora da vida de um homem: comea com o nascimento e terminacomamorte.Comunhotranscendncia.Religartrans-mutar-se. Todavia, por razes que desconheo, sinto que alguma coisa mudou depois daquele jantar com minha me. CAPTULO 19 200Na viagem de volta, enquanto cruzava os faris dos caminhes, deslizando pelo tapete de asfalto, ouvi uma voz vinda de no sei onde: Aurlio, saiba quem voc !Chorei muito, torrencialmente. Nem sei como segui conduzin-do o veculo. Acho at que no era eu quem conduzia, era meu anjo me levando para casa. Em minha mente havia um emaranhado de imagens esentimentos.Euchoravaepressentiaumamordiferentequerendo contagiar o corao.Confesso que tive medo. A princpio, pensei em buscar auxlio na parquia mais prxima de minha casa. Frequentar missa, conversar com o padre, receber os sacramentos, tudo isso poderia ser de grande ajuda,masmelembreidaspalavrasdeminhame:noconfarem nada que traga a marca da mistura poder-religio. Igreja catlica: ok. Apostlica: ok. Romana? Como poderia ser ao mesmo tempo universal e romana? Como eu faria para distinguir o joio do trigo dentro dessa Igreja?Comosaberquemcatlicoapostlicoequemromano?Eu teria de cuidar para no me iludir com os falsos santos.Melhornoterpressa.Aquiesci.orientaoespiritualnose encontra em qualquer esquina. Aceitar um mestre j no muito fcil. Aceitar os discpulos, dos discpulos, dos discpulos do mestre, passa-dos sculos e mais sculos de hipocrisia e corrupo, ento, deveras pior. Por isso, decidi procurar mais, andar pelo mundo e tentar com-preender os novos rumos da Histria. Mame tambm havia me acon-selhado a dar ouvidos ao corao. Ela sabia que eu estava vulnervel e quis me proteger. Fora esse o motivo de ela ter insinuado que nenhuma outra pessoa poderia me amparar, nem mesmo ela, que no tinha mais do que uma tigela de brigadeiro a oferecer. Primeiro o corao; depois o mundo, as ruas, o turbilho de ideias que emana das incontveis ca-beas que ali habitam, os livros etc. CONFISSES DE AURLIO 201os livros. De fato, houve livros. No d para descartar o auxlio dos livros no estudo espiritual, embora tambm no seja recomend-vel apostar todas as fchas neles. Revelo uma constante em minha vida: oslivrossempreparecerammeescolhermaisdoqueeuosescolhia pelo livre-arbtrio. E, mais ainda, examinando as coisas que acontece-ram comigo um pouco mais adiante, logo aps esse perodo de imerso noslivroslancesqueculminaramnestasconfsses,soulevadoa reconhecer que minha vida vem se compondo de uma srie de aconte-cimentos fantsticos.Aurlio e a sombra dos ancestraisDestaco dois livros lidos ento. o primeiro, antiqussimo, cha-mado Histria Eclesistica, de Eusbio de Cesarea, serviu para instigar--me ao conhecimento das coisas antigas da civilizao. Como sempre fao quando pego um livro pela primeira vez, abri numa pgina qual-quer e li uma histria curiosa.A histria contava o que aconteceu depois que o primeiro ho-mem pecou. Dos flhos de Ado, a raa se multiplicou e encheu a ter-ra com seus descendentes. Posto isso, o autor oferece descries bem interessantes sobre a vida naqueles primrdios. A grande massa vivia em total barbrie, agrupada em pequenas hordas que vagavam a esmo pela face da terra, sem construir cidades, sem governo, sem produzir arteoucincia.Nohavialei,justiaouvirtudesaseremcultivadas. Simplesmente, matavam-se uns aos outros na luta pela sobrevivncia. Viviam como animais selvagens e ferozes. Pouqussimos, em centenas de anos, tiveram a razo iluminada e procuraram melhorar aquele es- CAPTULO 19 202tado de coisas. Porm, quase sempre eram incompreendidos ou mortos ou banidos. Para o entendimento das hordas embrutecidas, os deuses no passavam de espritos malignos, responsveis por mandar as tem-pestadeseassecas,ostroveseosterremotos,osincndioseasdo-enasetodaformamortferadeaonatural.Soquesabiamfazer era matar e maldizer a terra que no lhes dava o sustento. E assim, a maldade cresceu nos coraes, tal como chaga ainda mais mortfera.Aos rarssimos homens piedosos, Eusbio chamou amigos de Deus,fazendotalvezumtrocadilhocomapalavraflsofo(amigo da sabedoria). Ele falava de uma separao que se perpetrou ainda no inciodostempos,eissomefezcompreendermelhorametforade Caim e Abel, dois nomes bblicos que at ento no signifcavam nada para mim.o livro de Eusbio me trouxe uma insondvel pergunta: Por que to poucos?SolanoLzarotambmhaviamefaladosobreasorigensda espiritualidade em nosso segundo encontro , e, depois de ler casu-almenteahistriadosprimrdiosdasreligiescontadaporEusbio, passeiacultivarumrespeitoaindamaiorporele:opsicanalistaque queria me convencer da idoneidade dos homens que lanaram as pri-meirassementesdaespiritualidade.Naocasio,detocasmurro,eu o rebatia com todos os argumentos possveis, mas no me esqueci de uma s palavra que ele disse: Aurlio, os seres humanos descobriram Deus. Repito: desco-briramnaturalmenteDeus,assimcomoqualqueranimalsabenatural-mente a diferena entre o dia e a noite, o claro e o escuro; assim como qualquer animal difere o veneno do alimento. CONFISSES DE AURLIO 203Esse no era o foco de nossa conversa, j que o Solano levava suacontendacomapsicanlisemuitoasrioeaassumiacomouma genuna misso de vida, mas, por fm, esbarramos numa pergunta ine-vitvel, a respeito da procura de uma explicao plausvel para a exis-tnciadetantasediversasreligies.Euaindaestavasvoltascoma problemticadasilusesedascrenase,detofechadoemminhas convices, no reagi de imediato ao solavanco do raciocnio dele: Seja qual for a explicao que se d a esse fenmeno adver-tiu-me , no devemos menosprezar a legitimidade das origens. Entre os hebreus, os gregos, os egpcios, os persas, os celtas, os indianos, os chineses, os amerndios, e onde quer que um povo humano tenha exis-tido, registrou-se sempre a heroica presena de homens que traziam as mensagens do mundo espiritual.Desdeento,euvinhapreparandoaminhamemriaparater maisaberturaemrelaoaessetipodeassunto,quemepareciades-medidamenteimpenetrvel.NofoipormenosqueaHistriaEclesis-ticacativouminhaateno.Emeusquestionamentosnoseativeram inquietante desproporo demogrfca que separa na histria antiga uma grande massa de nmades ferozes de um reduzidssimo nmero de famlias tementes a Deus. Assim como deve fazer todo aquele que estuda sem ter quem lhe oriente, eu perguntava muito, examinava cada ensina-mento,examinavaminhasprpriasimpressesedavaasasimagina-o. Mas havia outra pergunta que me assolava com maior pujana: Por qual razo as religies estiveram sempre to manchadas pela hipocrisia e pela ganncia?Daaimportnciadosegundolivrodequequerofalar.um livronomnimoraro,paranodizerfabuloso,quasemtico.Algum ohaviaesquecidodentrodobanheirodeumabibliotecaqueeucos- CAPTULO 19 204tumava frequentar. Certa vez, no momento de resolver minhas neces-sidades,percebiquejaziasobreapia.Aoveronomedoautor,Vico, nodeimuitaateno,poisjamaistinhaouvidofalaremtalpessoa; entretanto, o ttulo se referia a uma nova cincia. Compreendi que se tratava de um livro de flosofa. Mas quem seria o tal Vico? giambat-tista. Italiano, portanto. Contudo, flsofo italiano soa meio estranho; nem mesmo o Alpio nunca fzera qualquer meno a esse sujeito. Fiz o emprstimo do livro e o levei para examinarmos juntos.Mas quando lhe disse que os livros me escolhiam, tive de engo-lir a espria sugesto: Ai, ai, ai, Aurlio, v se procura logo um psiquiatra para voc.Eleachavaqueascoisasnodeviamserlevadastoasrio. Porm, o fato de encontrar um livro de flosofa escrito por um italiano tambm capturou seu interesse. o nome de Vico havia lhe passado em branco durante a graduao. Com um rpido telefonema, foi informa-do por um de seus colegas da Academia que o tal Vico era reconheci-dssimo em alguns meios flosfcos. Era gente de bem, recomendara o informante. Eu encontrara o maior flsofo italiano, ou, talvez, um dos poucos a merecer grande destaque.Resumodapera:liolivrocomredobradointeresse.oque encontrei ali? Pois bem, s encontrei exatamente aquilo que precisa-va encontrar. Vico me fez ver que a histria primitiva da humanidade culminara realmente na separao das linhagens. E, se eu via em todas as religies o joio misturado ao trigo, no era sem razo. Meus pensa-mentosrevoaramporlongosdias,comonumsonhointerminvel,a tal lonjura que vi surgir do meio das hordas donde se destacaram os piedosos amigos de Deus os patriarcas de outro povo, os inimigos de Deus,arqui-inimigosdohomemreligioso:ohomolupus,homemlobo, CONFISSES DE AURLIO 205assim nomeado por mim. E no pude evitar a constatao de que tanto ohomoreligiosusquantoohomolupusgeraramdescendentesque,no decorrer da Histria, compuseram o joio e o trigo dentro da religio.Esse sentimento empolgante de descoberta me aproximou um pouco mais de minha vocao espiritual. Todavia, a nica coisa que me parecia certa era que eu no descambaria para o sacerdcio.E por que no o sacerdcio?Numa das tantas ocasies em que Alpio jantou em minha casa, tive de responder a esta sinuosa provocao: E por que no o sacerdcio?Como eu no quisera dar-lhe ouvidos logo de cara, ele insistiu nessa judiaria:Porquetantacertezaquantoanoquererosacerdcio? Voc at que leva jeito...A maioria das pessoas que conheo nem chegaria a levar uma brincadeira dessas a srio, mas comigo era diferente, por muitas e mui-tas vezes eu remoera essa questo em meus silncios. Destarte, se Al-pio queria me enfrentar, eu o acossaria com uma impetuosa sabatina: Nobilssimo dom Alpio ele sabia que quando eu o chamava de dom era porque o colquio poderia ser longo , voc acha mesmo que ainda h lugar para sacerdotes no mundo de hoje?Mas falhei.Seeuacho?elefrisoualtimapalavra,insinuandooab-surdo de minha pergunta. Minha opinio no vale nada nesse assun-to.Vamosdarumavoltalforaparavermosquantasemaisquantas CAPTULO 19 206igrejas esto de portas abertas e, principalmente, lotadas de fis. Vai negar que as evanglicas tm sido um timo negcio? Tem at bandido e trafcante chegando junto...Defendi logo a pertinncia da minha pergunta: Sim, sim, esse lado eu entendo, mas no isso que eu queria dizer: refro-me ao terceiro milnio, o futuro, a nova era.Porm, ele no cedeu: Voc sabe que eu sou um pouquinho mais p no cho nessas questes. Acho difcil de acreditar que os lobos largaro o osso Alpio imitou um banqueiro de cartola contando dinheiro.Debater com o Alpio pedir para perder, pois ele sempre tem argumentos bem fundamentados para qualquer assunto. Ento, perce-bendo que ele j pretendia crescer para cima de mim, mudei o foco da discusso:Concordocomvoc,afonteinesgotvel,eonegcio muito antigo. os sacerdotes foram os primeiros nobres do mundo, e esto a at hoje.Meu amigo demonstrou que sabia aonde eu queria chegar: Ah, agora voc se lembrou do Vico!Alpio e eu: sintonia rara. A gente no conversa, a gente bate uma bola. Ns j falamos disso antes, no mesmo, meu amigo? Voc sabe o quanto eu temo um retorno aos tempos de intolerncia. .oquevocachoudateoriadoVicosobreosurgimentodo sacerdcio? Se formos pensar bem, faz sentido. Mas a flosofa dele pare-ce bruxaria, voc no consegue saber de onde ele tira essas ideias. CONFISSES DE AURLIO 207deespantarmesmo.Achoqueelerecebiaissodiretodo astral. A fora da inspirao dele chega a impressionar.NogostomuitodapalavraastralAlpiocoouanuca antes de prosseguir, mas o cara foi foda mesmo. Me parece bem con-vincente a ideia de que as religies ancestrais fzeram com que alguns nmadessefxassememterritriosdefnidos,transformandoseus costumes ferinos. Porque, se pensarmos bem, evidente que o seden-tarismo implica um modo diferenciado de procriao e limita a oferta de parceiros reprodutivos. Foda.Eu at queria perguntar se ele estava pensando em inserir Vico nabibliografadealgumadesuasdisciplinasnocursodeFilosofa,mas esperei ele continuar, pelo prazer de ouvi-lo falar. Alpio cresceu. Ficou de p, recostado na janela da sala, enquanto eu permaneci deitado no sof.Qualanaturezadanobreza?perguntou-meolhandonos olhos, para ver se eu compartilhava de seu interesse pelo tema. E con-tinuou:Athojeamesmacoisa:procedncia,estirpe,herana.E issocomeoulatrs,comosdescendentesdasprimeirasfamlias sedentrias, porque eles tinham um tipo de vnculo com suas origens, ou seja, sentiam-se diferentes dos nmades sem procedncia. Eram nobres. E tambm, sacerdotes completei. ou eram sacerdotisas? ele replicou, gesticulando para cha-mar minha ateno. Vico pareceu desconsiderar a hiptese das civi-lizaes matriarcais. Mas isso uma outra conversa... Sim...Mantive o silncio; com mais um passo ele se colocaria exata-mente onde eu queria: CAPTULO 19 208 Por enquanto, j nos basta examinar essa possvel relao en-tre nobreza e sacerdcio. Por que eram sacerdotes? A prpria ligao das palavras latinas divino e adivinhar revela bastante coisa sobre isso. A adivinhao est na essncia da prtica religiosa mais arcaica. Repro-duo, sade, cultivo das terras, tudo dependia dos favores dos deuses.Na mira: Chegamos aonde eu queria chegar intervim: o surgimento da funo social do sacerdcio. Percebe que tambm estamos falando da inveno das relaes civilizadas de dominao entre os homens?Seucrpula!Quehistriaessadeaondeeuqueriache-gar? Alpio tentava segurar o riso. Voc acha que me manipula, ?Dei uma gargalhada intencionalmente macabra e levantei-me antes de prosseguir: Sim, senhor, dom Alpio. Voc no queria uma resposta sobre o porqu da rejeio ao sacerdcio?Ele achou a maior graa: Ah, eu j tinha me esquecido! Nem acredito que voc ainda estava pensando nisso!E virou as costas, debruando-se na janela para ver a rua, en-quanto me ouvia concluir: Pois ento imagine como o problema foi se agravando. Dizen-do em palavras claras: aos poucos, e somente aos poucos, uma linha-gemdehomensfoipercebendoqueasadivinhaesesacrifciosno eram necessrios, e que o domnio sobre as massas lhes proporcionava umavidaseguraeluxuosa.Chegamosaonascimentodohomolupus, porque ele ser o arqutipo do poder hipcrita, que usa a religio poli-ticamente como instrumento de dominao. CONFISSES DE AURLIO 209Paranodarobraoatorcer,meuamigoaindasevaleude alguma presena de esprito: Uma vida segura e luxuosa... isto , nada que te interesse. Vai nessa de virar santo para ver no que d. Vou me lembrar disso quando a Flora fnalmente te der um p na bunda.Na origem, duas linhagensConfesso minha origem, e certamente a origem me ultrapas-sa, ainda que sobreviva em mim tal como sobrevivem os achados ar-queolgicosnosubsolo.Noentanto,noquerocaminhardesampa-radonessesporesdahumanidade.Sozinhoeuacabariaperdido,e morreria. Que Deus me responda! Quem so meus ancestrais? Lobos ou amigos de Deus?Venhomefazendoessaperguntadiaapsdia,semencontrar resposta. Se pudesse, colocaria um fm em toda essa debilidade e me pre-sentearia com um corao fel, digno de pronunciar a to famosa frase do mestre Jesus diante de Pilatos: Meu reino no deste mundo.211.20.[...]parapartirmosdeumaverdade evidente, eu te perguntaria, primeiramente, seexistes.Ou,talvez,temasservtima deenganoaoresponder aessa questo? Todavia, no te poderias enganar de modo algum, se no existisses.Santo Agostinho, O livre-arbtrio (II, I, 3, 7)Estratos das confisses de um homemA nebulosa do discurso eleva-se em espiral. Segue a mesma l-gica da evoluo universal. o mundo assim. Por ser impelido a con-sumar seu curso, retorna recorrentemente ao mesmo lugar, porm um poucoacima,fazendolembraramaneiracomoaserpenteenrolada sobre si mesma posiciona a cabea para o bote.Quando se confessa, um homem procura se conhecer a si pr-prio,masesbarraemobstculosquecolocamseuprpriosignifcado existencial em jogo. Como confessar quem sou, se no sou meu prprio criador? As confsses devem inexoravelmente iniciar com a mesma fra-se, a mesma para todos os seres do mundo: No primeiro dia, fui criado. Nasci numa determinada casa, num tal dia, tal horrio, flho de fulana e CAPTULO 20 212de sicrano, falei um idioma, fz-me cidado de tal ou qual pas, fz ami-gos, casei-me, tive flhos, trabalhei, fz mais amigos e busquei sabedoria. Depois morri; eis o roteiro do livro da vida de uma pessoa.Masnomecrieinemmemorri.Neminventeimeuidioma. Muito menos costurei a bainha de minhas calas. A primeira certeza da pessoa que se confessa existir existo! , a segunda o outro. Ele existe, e eu estou nas mos dele: assim descobrimos, desde muito cedo, a outridade do outro. Penso, logo o outro existe. Sem ele, seria impossvel pensar. Quem meditar com conscincia sobre a gnese do pensamento vislumbrar uma realidade poucas vezes considerada pela maioria das pessoas, qual seja: o pensamento no nem nunca foi uma emanao autctone do indivduo, nem uma maquinao fecha-dadesiparasimesmano;sendoopensamento,portanto,uma atividade de ligao, pela qual a pessoa participa da vida que a cerca, incluindo as coisas do mundo, as pessoas, a natureza, e realidades mais sutis como as energias e as infuncias espirituais. A terceira certeza o livre-arbtrio. A despeito de qualquer con-tingncia limitante, sabemos que o outro no pode dominar nosso dese-jo, ou nossa vontade, pois mesmo que ele possa nos coagir, mesmo que possa nos tirar o alimento, no pode nos tirar a fome. Isso sagrado.Preservo meu livre-arbtrio, ainda que no seja sufciente para que eu possa saber tudo sobre mim mesmo, e ainda que, tambm, no sejasufcienteparaescolherminhasnecessidades.Possoescolher talvezmeusdesejos,jamaisasnecessidades.Comosediz,nopedi paranascer.Tampoucomeagradaaideiademorrer.Sonecessida-des. No pude escolher meu rosto ou minha sade. No escolhi meus pais nem meu pas. No escolhi a fora da gravidade do planeta. E um milho de outras coisas no escolhi. Escolho afetos, relaes e transas CONFISSES DE AURLIO 213energticas e materiais, carrego pedras, e mais nada. Pareo o zelador de um condomnio. No escolhi meu emprego, no constru o edifcio, noconheooarquitetonemopedreiro,nosouamigodosndico. No sei se minha cabine de trabalho resiste a uma tempestade. Assim existo. Ao menos, estou certo disso.Penso,logoDeusexiste.Dessaconvicoemergeoprincpio da cura. E se falo de cura porque tenho uma ferida aberta: eu e, tal-vez,aquasetotalidadedaespciehumana.ospsicanalistaschamam issodecomplexodecastrao,edefatoessaparecetersidouma das mais brilhantes sacaes do pai deles. S no creio que a ideia de cura proveniente da psicanlise se aproxime muito daquilo a que estou mereferindo,asaber:h,sim,umtipodeameaaquepairasobre aquiloqueaspessoasmaisamamemsimesmas,umaameaaqueas acompanhaportodaavida,umpontofraco,umamutilaonoser, mas, ao contrrio do que muitos podem pensar, a ferida no cicatriza semqueseconquisteaplenaconvicodequeexisteumamoque sustentacombondadeamisriadaexistncia.Nemfuga,nemluta, nemdiverso,nemconformidade,nemqualqueroutracoisa,muito pelo contrrio: preciso crer em Deus.A converso lenta, no acontece da noite para o dia e, muitas vezes, pode ser cheia de desiluses. bom lembrar-se disso. A conver-so termina com a morte, quando cada um devolve os dons recebidos a Deus. Por isso, hoje confesso a criatura, o criador e a criao. Quero acelerar minha converso. E confesso-me homo religiosus, porque meu dever conhecer meu povo.215.21.Quandoissoacontecer,porm,ese acontecer,aCriaturaqueesteveem formao possuir a plenitude, de modo a nada lhe faltar quela forma, qual dever chegar.Contudo,nuncasehdeigualar quelasimplicidadedivinanaqualnada hemformao,formadooureformado, mas que apenas pura forma; no sendo informe nem formvel, mas uma substncia eterna e imutvel.Santo Agostinho, A Trindade (XV, 16)Se to longo deve ser o processo de converso ao nico e su-premocriadordouniverso,entendendoporconversoomesmoque toda uma vida dedicada a Deus, converso que encerra em si a ampli-tude do esforo humano por atingir a perfeio, ento, no temo dizer que ler O fenmeno humano, do padre Teilhard de Chardin, foi um ato de confsso. Digo isso no sentido em que comumente se diz confsso de f, ou seja, f declarada e fortalecida pelo entendimento.Estoucertodisso.Nosetratadotipodelivroqueapessoa entende ou no entende, trata-se de outra coisa; em O fenmeno huma-no, ou voc confessa os pensamentos do autor, ou no. o mstico jesu- CAPTULO 21 216ta comprova cientifcamente o sentido espiritual-evolutivo da vida, e voc, leitor, decide o que fazer com isso.Iniciei a leitura pouco depois de eu e Alpio termos devorado a Novacincia, de Vico. Foi num dia emque, inusitadamente, estando eu sozinho em casa, acometeu-me uma pujante angstia. Apreensivo, eu andava de um canto para o outro, tinha ideias fugidias sobre minha vida, meu trabalho, e no detectava a raiz do incmodo. Cogitava mu-dar de cidade, de emprego, ruminava argumentos sobre meus prprios valores e sobre o tipo de vida que queria levar. o livro permanecia ex-posto sobre minha mesa de estudos, sem que eu me atrevesse a abri-lo, desde o dia em que o trouxera da casa de mame.o livro que meu pai no leu. Sua herana intelectual s aves-sas. os dias passavam e um clima denso de suspense me paralisava a cada vez que aproximava os olhos daquelas pginas envelhecidas. Eu temia o peso do desconhecido. Novas responsabilidades. Responsabi-lidade de ler o que meu pai no leu; entender o que ele no entendeu; fazer o que ele no fez. Mas naquele dia, quando levianamente o to-mei em mos, angustiado com meus pensamentos, descobri uma pe-quena dedicatria escrita a caneta atrs da folha de rosto. Reconheci a letra de Patrcio:Emconhecer-seasimesmoresideo princpio da f. Que o corao do pequeno Aurliovenhaaserdignodasabedoria, equeseusolhosvejamaluzdeNosso Senhor Jesus Cristo. CONFISSES DE AURLIO 217Compreendiorecado.Estremeci.Jnohaviacomoeludira responsabilidade de possuir aquele livro, eu o tinha em mos, enquan-to aos meus ouvidos falava a voz de meu pai.Enfm, me meti no brenhoso pensamento ali contido e, embo-ra no possa reproduzir as palavras do autor com exatido, posso ao menos confessar minhas impresses pessoais. Aludi a uma confsso de f e quero agora explicitar isso. Confessar incessantemente re-tornar s origens, mirando o fm. No ser tambm a f um retorno s origens? ou uma sutura no corte abismal do tempo? Vamos s minhas refexes chardinianas. Uma confisso de fMinha histria comeou muito, muito, muito antes de mim. Numbelodia,nasci.Moronumplanetapequenino,deslumbrante-mente pequenino em relao ao universo que o contm. Meu plane-ta talvez continue vivo por mais um bilho de anos. Provavelmente, mais. Enquanto eu, quando muito, no passo de um sculo. A cincia queaprendiaindanaescolamegarantequesoufrutodafantstica torrentedevidadoplanetaazul.Issosignifcaquenofuisimples-mente feito do barro: meu smen conduz adiante uma histria gen-tica de milhes de anos.A evoluo o dado fundamental da realidade. Fui lanado no mundo assim, como que de paraquedas. Para trs, tem poeira a perder de vista. Com todo mundo acontece do mesmo jeito, e devagarzinho a gente vai se acordando, at descobrir que, desde o princpio dos tem-pos, eventos csmicos fantsticos j favoreciam a probabilidade futura CAPTULO 21 218de nossa vinda existncia. Cabrum!!! Depois de uma misteriosssima exploso, que foi capaz de colocar cada coisa em seu devido lugar, o pla-neta Terra veio parar no melhor lugar do melhor sistema solar do uni-verso. Nada como um bom pontap inicial. Da em diante, no exagero dizer que tudo fcou bem mais fcil. o resfriamento da crosta terrestre eaconcomitanteinteraodegases.Asdescargaseltricas.Agua. ocarbono.Numlongoprocessoevolutivo,asmolculassetornaram maiscomplexaseassubstnciasforamlentamentesediferenciando. Em algum gueto lipoproteico nutritivo e esponjoso, reaes qumicas se isolaram no ambiente interno das membranas de uma pseudoclula e,porummilagredoacaso?,pipocouavida.oancestralcomum atodososseresumaclula;dentrodela,oelo:DNA,ainformao gentica capaz de se autorreproduzir. o dado mais importante no a constatao da existncia do ancestral, mas a constatao do elo. No h intervalos nem ruptura na cadeia. Tudo se passa como se uma nica e mesma criatura estivesse a se formar desde o princpio, inventando e reinven-tando a si mesma atravs de infnitos invlucros descartveis.Existir um eixo e uma fecha para a evoluo? inegvel que, em bilhes de anos, uma srie numerosssima de eventos naturais pre-cisou agir, como que ao acaso, para conduzir a evoluo do planeta at o surgimento do homem.Meu pai no frmou na verdade. Contentou-se em ter esperan-asquantoamim,imaginandoqueeupoderiachegaraondeeleno chegou. Mas o que esperar de mim? Mudar os hbitos de vida de uma pessoa no se faz seno lenta e forosamente. Minha caminhada era e ainda incipiente. Estou ainda engatinhando.ComolivrodeChardinemmos,eutantoteimavaquanto aquiescia.ograndedilemaeraconfessarounoconfessarOfenmeno CONFISSES DE AURLIO 219humano;vercomotudocomeou,comoviemospararaqui,e,porfm, perguntarparaondevamos.Senadafoiporacasonahistriadouni-verso,nodemaiscrerqueamatriadesdesempreestiveragrvida do esprito. E ns, estamos grvidos de qu? Na evoluo, nos diferen-ciamos dos animais. Em um dia perdido no passado, fomos um punhado de hordas nmades espalhadas pela terra. ramos ferozes e impiedosos. Depoisaprendemosaplantar,colherepastorearpequenosanimais,e formamosfamlias.Possuamosrudimentosdelinguagem.Multiplica-mo-nosrapidamenteeengendramosgrandescivilizaes.Inventamos a escrita, perpetuando pensamentos atravs das eras. Tivemos sempre um impulso gregrio irresistvel. Desejamos nos comunicar, inventamos mensageiros, cartas, telefones, cdigos, rdio, televiso, at o ureo des-pertar da World Wide Web. Para onde caminhamos?Vejo com assombro que o futuro nos escapa: uma nova criatura vem se formando acima de nossas cabeas.O tio de FloraConfesso a irritao e a preguia que senti de uma pessoa com quemtivededebateressasideiasnoperodoemqueaindaestava imerso na leitura do livro. Flora convidara um tio para jantar conosco, umhomemdemaisdecinquenta,matemtico,professoruniversit-rio, que estranhamente parecia disposto a rebater tudo o que sasse de minha boca naquela noite.Na verdade, desconfo de um plano de Flora: acho que ela pre-tendiasalvarnossorelacionamento.Aquiloeraumatodedesespero. Ela no suportava o tipo de vida que eu queria levar, porque eu nun- CAPTULO 21 220caestavadisponvelparaacompanh-laejuroquenosopoucas as festas que ela frequenta. os tempos de universitria tinham fcado para trs. Mudar a cabea do companheiro passou a ser sua ltima es-perana. Ela sabia que teria de me deixar, se eu me tornasse um obst-culo para seus sonhos. Flora do tipo de pessoa que sabe o que quer, que persegue seus desejos, uma mulher realizada e autoconfante. jornalistacompetentssima,sempreantenadanosassuntosdasocie-dade global, e muito valorizada por ter uma excelente qualidade: fala de poltica e economia como ningum. Manteve seu amor pelo cinema eleumuitosdosgrandesbest-sellersdaliteraturainternacional.Nas reuniessociais,elabrilha.Falodeumamulheradmirvel,capazde despertarofascniodosquearodeiam.Qualeraoproblema,ento? Flora se liga no mundo prtico. Seu ser, suas aes, sua energia e seus pensamentos so regidos por um sol: sua carreira profssional.Minhafaltadeambiopareciapreocupanteaosolhosdela. No ritmo em que as coisas iam, a destituio do cargo de assessor j era inevitvel.Euviviadizendoquenosuportavamaissaberdascoisas que eu sabia. Quando deixei de prestigiar a premiao de uma das em-presas do meu chefe, que recebia o ttulo de Empresa Cidad, Flora me repreendeu violentamente. S faltou me esganar. Pouco importava se o ttulo se devia a duas coisas pouco louvveis: primeiro, ao conluio dele com um vereador infuente na Cmara Municipal; depois, ao exce-lente trabalho de uma consultoria de marketing, capaz de fazer brilhar um belssimo projeto social que praticamente no sara do papel. Para ela, o cargo vinha em primeiro lugar. E os motivos de sua consternao lhe pareciam bem razoveis: politicamente eu me tornava uma pessoa pouco confvel. CONFISSES DE AURLIO 221Enfm,euprecisavamesmodeumtiomatemticoparame abrir os olhos. Mas o problema que meus olhos j ansiavam por fcar realmente abertos.Quando uma pessoa gosta de preto, e a outra gosta de branco, invariavelmente, o encontro delas se torna tedioso. Eu queria falar de evoluo espiritual e demonstrava cultivar certo encantamento diante davida.omatemtico,porsuavez,novianomundonadaalmde um quebra-cabea incompleto, faltando peas fundamentais. Enquan-tohumano,possvelqueelesevissecomoumobjetoerrante,sem destino. Que dilogo poderia haver? Se voc gosta de preto, tudo bem, v adiante.o argumento fnal daquele homem era o seguinte: Pare de buscar o que no existe, Aurlio! A vida aqui e agora, e voc deve se preocupar mais com suas fnanas, sua carreira e sua mulher.Ele tambm tinha uma mxima flosfca, que, no contexto de nossa conversao, mais parecia um cala-boca: No faa tantas perguntas. Voc s precisa saber o seguin-te: se o tempo universal dilata-se infnitamente, contando bilhes e bilhes de anos, ento, pela lgica, por menores que sejam as proba-bilidadesdecertascoisasaconteceremaoacaso,htempodispon-velparaquetodasaconteam.Nessaperspectiva,sseconsiderao possvel e o impossvel para o universo. Se existe uma chance em um trilho para que o que quer que seja acontea, acontecer. o provvel um decreto do universo.Como se eu no conhecesse os argumentos dos cticos! Ao que de pronto respondi, aos bocejos: Tudo bem, meu caro tio. Deguste seu vinho. Eu vou de suco de laranja. E aproveite o ar fresco que respiramos na varanda. Nossas CAPTULO 21 222poltronas lhe parecem confortveis? Que maravilha! Acenda um cigar-ro.Eusubo,vocdesce.bomaproveitarotempo,nomesmo?A morte no obra das probabilidades.Percebendocertaapreensoemsuafsionomia,intenteiau-mentar a dose de sarcasmo, e at comecei a falar qualquer coisa mais ou menos descabida, mas calei-me, em respeito a Flora, que j no es-condia seu embarao. Minha vontade era de soltar uma rajada de fran-quezas para cima dele, a ttulo de pagar-lhe a inconvenincia da visita. Eu tinha algumas palavras na ponta da lngua: Pode ser que eu esteja levando as coisas a srio demais. Pode ser que eu perca a mulher e o emprego. No duvido de nada disso. Mas meu corao est inquieto no melhor dos sentidos. Minha vida ser um livro escrito a cada dia, ao contrrio da sua, que ser um livro comido por traas, a cada dia, at desaparecer. Afnal, somos obras do acaso... no? Tome seus olhos cartesianamente mopes e v para... e observe o universo. o que voc v? Ah, deixa para l...Contudo, no disse nada disso, contive defnitivamente os m-petos e, por fm, conclu com um pouquinho mais de mansido: Meu tio, medite mais um pouco e volte amanh que lhe darei uma segunda chance.otioforaemboranomesmodia,umdomingo;Florasaiude casa na tera, depois de chorar muito por mim; na sexta, perdi o em-prego.Aoverminhaserenidadediantedeeventostocatastrfcos, Alpio concluiu: Aurlio, voc est diferente. S resta uma dvida: se voc est louco ou se entrar de uma vez por todas para o rol de santos da Histria.Agora era eu quem estava fcando com cara de padre, e Alpio, que sabia da primeira impresso que tive dele quando o conhecera na biblioteca, ria-se disso. CONFISSES DE AURLIO 223Uma pergunta para AlpioAlpio tambm acompanhou a leitura do livro. A princpio, ti-midamente,liaapenasalgumaspartesessenciaisindicadaspormim, mas com pouco vi meu amigo experimentar os primeiros lances de um sentimentoreligiosomaisrobusto,e,porisso,ospotlightdeseues-critriopassouaatravessarasmadrugadasiluminandomaisemais pginas chardinianas.o jesuta Teilhard de Chardin nos parecia inclassifcvel. Seria ele um autor cristo como os outros? Era padre, de fato, porm no um padre qualquer, pois viveu mais como cientista e mstico do que como sacerdotedaIgrejaromana;e,tambm,paracomplicaraindamais nossa tentativa de classifcar sua obra dentre as publicaes de autores cristos, descobrimos que a Igreja proibira a publicao dos livros, tor-nando a liber-los poucos anos aps a data de seu falecimento.svezes,andandopelasruasdacidade,olhvamosparaa multido incgnita dos transeuntes em busca de um rosto familiar: Quantos aqui conhecem Teilhard de Chardin? indagvamo--nos com perplexidade.Nos estratos mais instrudos da sociedade, a maioria das pes-soas at j se cansou de nomes como Freud, Nietzsche e Marx. Milhes leram Castaeda; outros tantos, o Siddhartha, de Hesse; e simplesmente ningum conhece O fenmeno humano. Como explicar isso? Calculva-mos o erro de Andr Malraux, imaginando que talvez o sculo XXI no venhaaserreligioso,equeoocidenteaindatenhadeesperarmais cem anos. A hora de Chardin chegar.J no tnhamos mais como escapar. Lembro-me de pergun-tar a Alpio: CAPTULO 21 224O universo se interioriza, a matria se ilumina de conscincia.Existe um propsito csmico para tudo o que existe.A humanidade constitui o eixo presente da evoluo da vida em nosso planeta, e por isso ela possui responsabilidades. O primeiro dever humano buscar autoconhecimento, porque o homem constitui novidade para si prprio.A espcie humana representa um salto evolutivo, mas a natureza ainda no terminou seu trabalho; a vida ainda no desabrochou em sua ltima for, e, do psiquismo coletivo humano, j se prev o surgimento da criatura nova. Alpio, me responda, para onde vamos?Juntos, confessamos. Meditamos profundamente sobre o fen-meno humano e, em seguida, redigimos um documento, algo como um conjunto de mximas que pretendamos adotar em nossas vidas. Isto fcou escrito num grande pedao de cartolina: CONFISSES DE AURLIO 225o documento registrava uma declarao de responsabilidade. Por mais intangvel que isso pudesse ser, por mais distante do mundo prtico, por mais ininteligvel para outros que no ns mesmos, decla-rvamosnossopoderdecontribuirconscientementeparaoobjetivo fnal do universo. Certamente Louis Pauwels nos aplaudiria.227.22.Assim,esquecendoopassado,sema preocupaodascoisasfuturasque passaro, e inteiramente voltado para o que eterno, poderei caminhar para o prmio da vocao do alto, no na distenso, mas com desejo pleno [...] Agora, porm, transcorrem os meus anos em lamentos.Santo Agostinho, Confisses (XI, 29)maisfcilenfrentaratravessiaquandosetemumamigo felcomoAlpio.Euaindanoentendiamuitobemasconsequncias daquelasescolhas.ViFloraencaixotarsuascoisasepartir,semm-goas. Vi meu chefe me enviar de volta ao servio administrativo, sem desespero. Deixei tudo acontecer, com o sentimento de estar fazendo o necessrio. Sendo necessrio, no havia o que lamentar. Alis, havia umganho,umcrescendomotivacional,eeumetornavamaisemais consciente da irreversibilidade do desejo que operava dentro de mim. Mas principalmente sou grato a Deus, por socorrer-me a tempo, e pe-los seus sinais. CAPTULO 22 228O rezadorH um episdio que merece destaque entre as memrias des-se perodo de transio de uma vida secular e meramente intelectual para uma vida de profundidade e busca espiritual. E o destaco por dois motivos: um deles o aprendizado de uma das leis mais fundamentais da espiritualidade, o outro o sinal da presena de Deus. os principais sinaisdapresenaDeleso:abeno,aproteo,oarrebatamentoe osocorro.SoessesosmomentosemquedizemosDeuscomigo. E, por certo, eu precisava de socorro. No tinha conscincia, mas pre-cisava. S de pensar na decepo de Flora, no rancor de seus familia-res,namaledicnciadecertoscolegasdetrabalhoenasansiedades de mame, j d para ter uma ideia do tipo de energia que eu andava recebendo. Eu estava carregado. Foi o que disse o sinhozinho que me abordou na rua, antes mesmo de se apresentar. Eu tinha sado para resolver umas coisas e, de uma hora para outra, me senti muito mal, minha cabea comeou a doer e fcou pesa-da, meu corpo esmoreceu, at o ponto em que no suportei e, para no cair, me sentei no meio fo. Ento, ele apareceu, uma pessoa distinta, e falou comigo: T tudo bem, meu flho? Nussa me! C t carregado!olheiparacima,comasduasmosnoqueixoeoscotovelos apoiados nos joelhos, e vi um homem negro, de cabelos brancos, bem vestido,ecomumaexpressoserenaquefoiparamimumblsamo. Sua voz era doce; e o jeito de falar, manso. Estendeu a mo e disse que era melhor eu me levantar, antes que meu estado atrasse a ateno de algumvagabundomalintencionado.Eaindacompletou:Temmuito desses por aqui. Com muito custo, pus-me de p e o agradeci. Disse- CONFISSES DE AURLIO 229-lhe que no precisava se preocupar e que eu ia fcar bem. Ele concor-dou, mas orientou-me a lavar o rosto e colocar uma pitada de sal debai-xo da lngua, e me convidou para ir sua casa no mesmo dia, por volta das seis da tarde. Reforou o convite e prometeu que no me tomaria muito tempo, pois s precisava fazer algumas oraes para mim.Quando cheguei s imediaes do endereo indicado, pergun-teiaumasenhoraquepassavaporaliseconheciaosenhorJosdo Amparo. Ao que ela sorriu e respondeu: o seu Z Rezador? Claro! Mora bem ali, .Confesso que quase voltei para trs no ltimo segundo. Pus o dedo na campainha e retirei-o apressadamente, hesitante. Pensei que talvez no valesse a pena. Afnal, o homem era um desconhecido para mim. Notei que a porta s estava encostada, e que o portozinho no tinha cadeado.Por fm, desisti da campainha e chamei: Seu Z! e bati palmas cinco vezes. Ele apareceu logo e me mandou entrar, no veio at o por-to. Foi muito amistoso e hospitaleiro. Me deu gua para beber.Acasinhaerabemmodesta,pormlimpaeaconchegante. Tudo dentro dela parecia antigo. o velho preto estava de banho toma-do e exalava um perfume silvestre bastante suave, cheiro de mato mes-mo. Era casado, e isso pude averiguar pelo quadrinho ovoide na parede, daquelesemoldurados,emqueantigamentesecostumavaretrataro bustodosrecm-casados,comumtipodefotografacoloridaquese assemelhaaumapintura.Amulher,quepossivelmentepreparavaa janta na cozinha, nem mesmo deu as caras na sala, onde nos sentamos, apenaseueele,emtamboretesdemadeira.Percebiqueaquelacena era bastante comum na casa. o seu Z era um rezador! CAPTULO 22 230Minha visita foi rpida, durou no mximo uns trinta minutos. Tempo sufciente para eu aprender alguma coisa. E receber a benze-o, claro.oseuZRezadormeensinoucoisasdaaltaespiritualidade, pelo que lhe sou eternamente grato. Ele comeou assim: Meu flho, vou ensinar como que oc se protege. Pega essa caneta aqui e anota as palavra que eu ditar. Firme?Ensinou-me a orao a So Miguel Arcanjo:E explicou: As orao tem poder, meu flho, porque chama os esprito do bem pra fcar do nosso lado.Norespondinada,maselecontinuoufalandocomoseesti-vssemos num dilogo: oc num acredita no?! Presta ateno no que a orao t di-zendo. o povo diz que foi um Papa que trouxe ela, l pelos anos de mil e oitocentos. E ainda tem gente que acha que a igreja catlica desco-So Miguel Arcanjo, protegei-nos no combate,sede nosso auxlio contra a malcia e ciladas do demnio.Exera Deus sobre ele imprio,como instantemente vos pedimos,e Vs, Prncipe da milcia celeste, pelo divino poder,precipitai no Inferno a Satans e os outros espritos malignosque vagueiam pelo mundo para perder as almas. CONFISSES DE AURLIO 231nhece o espiritismo. o que se diz que o tal Papa viu tudo, que tava no meio duma missa e viu os esprito perdido vagando na terra. Por causa dessa viso dos inferno, ele ensinou essa orao pras pessoa chamar as falange de So Miguel.Permaneci calado. A veio o mais importante: Vou falar um negcio pro c, presta bastante ateno. Depois oc passa a arrepar pra ver que tudo verdade que eu t dizendo.Fitei os olhos dele, mudo. o inimigo se aloja dentro da pessoa. As orao tm poder, mas depende da conduta, s atende se for gente de bem. o cabra tem que tomar conta da lngua. Ser consciente. Vivo. Se vem assim um pen-samento mandando ele falar coisa que no presta, ele no fala. Pronto. Se no fala, no faz. Se falar, t chamando. Ento, no fala. E arruma um jeito de despedir.Quando o seu Z comeou a reza, eu senti a fora. As madeiras do telhado rangiam sem parar. Ele bocejava, enquanto em mim subia um arrepio atrs do outro. Ao fnal, perguntei o que ele queria. Queria nada no. Disse apenas algo como Recebeu bem? Passa pra frente.A verdadeira paixo da InquisioMetamorfose. So tantas. Nasceu em mim o fogo ardente de umapaixo.obemlavouradobem.Entreinacorrente.oseuZ tambm j dizia: No tem moleza, no. Tem trabalho!. Eis o Inqui-sidorquesonhacomumfuturomelhor,emboradistante.Tentoser implacvel.Sepudesse,terminariatodomeutrabalhonumsdia. Seria mais ou menos assim: CAPTULO 22 232 Quem voc?SouaIndolncia.Euconvenomeusseguidoresabuscar somente o conforto e a corrupo. Eu destruo os ideais mais elevados. Para a fogueira, senhora! E voc?EusouoCinismo.odeiotudooquenopossocontrolar, souinimigodastradiesedetodaformadeautoridade;nome submeto,souinsubordinvel,esoucomobrocaecupim:destruo tudo de dentro para fora. Para a fogueira! E vocs?Somosirms,aMediocridadeeaCovardia,membrasda famlia da Indolncia. Fogo! E voc, de rugas e olhos cinzentos? Sou o Pessimismo, fechei-me dentro de mim mesmo e tudo que vejo obscuro e feio, sou o conselheiro da corte do mal.Noprecisadizermaisnada,queimaremfogolento.E voc, menina de notvel beleza, de vestidinho rendado e lao de fta, quem s tu? Sou Luxria, querido, em mim voc pode confar, tudo o que euqueroobemdaquelesquemeabraam.olheparamim!Prove minha doura! Acha que sou capaz de fazer algum mal? s uma sereia disfarada, cubro meus olhos e tapo os ouvidos para queimar-te de uma s vez. Fogo! E voc, jovem rapaz, por que tenta esconder essa montanha de lixo? Sou irmo da Luxria, senhor, chamo-me Prodigalidade. No faonadadeerrado,esselixonoculpaminha,apenasacheium pomar repleto de frutas doces e comi, mas, como no me ofereceram uma lixeira, tive que jogar os restos no cho. CONFISSES DE AURLIO 233 E por que sobrou tanto, vejo frutos quase inteiros lanados ao cho?Nadano,bobagem,eunoestavacomfome,squeriame divertir; que mal tem nisso?Semmaisperguntas,vaiparaafogueira.Evoc,decorpo magro e doente, a idade lhe pesa? Nada disso, no sou to velha quanto pareo. Meu nome Ira. Eu me chamava Agressividade, depois fui me corroendo por dentro at chegar ao que sou hoje. Sou inimiga da inteligncia e gosto de tomar decises. Tenho boas intenes. De boas intenes o inferno est cheio, voc vai para o fogo! Agoraosquatroltimos,anciossentadosemseustronos:quala relao de parentesco entre vocs?Somosossenhoresdestemundo.Estamosunidosdesde oprincpiodostemposejtivemosmuitosflhosenetos.Curve-se diante de ns. Quem o mais velho? Sou eu, Medo, o mestre das sombras. Tive um irmo gmeo, dequemmesepareidesdequeeledecidiumudardenome:agorase chama Prudncia. Raptei minha irm caula, a Vaidade, para consumar umcasamentoincestuoso,tornando-aminhaescravasexual.Sou possessivo e vigilante, muito difcil escapar de mim. E os outros dois?Tambmsomosumcasalincestuoso.Novqueparecemos gmeos? Cime, o prncipe da vileza e da tirania, e Inveja, a princesa do fel. Eu j cuido de vocs. Mas, primeiramente, tenho algo a dizer: oua-me,Vaidade,falecomigo,eupossotesalvar.Nodesejadizer nada em sua defesa? CAPTULO 22 234 No, seu verme; estou acima de qualquer julgamento. Chega de conversa, fogueira para quatro. J!oproblemaqueaqui,nomundoreal,meusinimigossoinco-mensuravelmente mais tinhosos. o medo, a vaidade, o cime, a inveja e suas hostes parecem indestrutveis. Acodem-me apenas a convico do bem e a esperana. No fossem essas aparentemente frgeis virtudes, nem sei...opinies so coisas volveis. Metamorfose no tem retorno. Na metamorfose, a morte de uma realidade inspira o preldio de um sonho.Assim, do ponto de vista prtico e da vida social, venho seguin-domeucaminho,cheiodealtosebaixos,buscandoviverdamaneira maiscoerentepossvel.Desafoumpoucomaisdelicadoencontrar maneiras de evitar o abismo da solido e da misria material. No se-riam o material e o espiritual os dois lados de uma mesma moeda?Alpiomeugrandeparceiro.Comelenotemtemporuim. Em todas as decises difceis, sempre me encorajou a ser honesto co-migo mesmo. E foi por seus conselhos que cheguei a me resignar com o fato de que meus passos deveriam ser irremediavelmente audaciosos. DeixarFloravoarlivrenosseussonhosdejornalistaglobal.Deixaro confortodoempregopblicoparasimplesmentesereumesmo,com ousadia e honestidade.Audcia no me faltou. os colegas de repartio j aguardavam meuretornoesaboreavamanotciadomeudesentendimentocoma chefa poltica. Eu seria ento um prato apetitoso; enquanto eles, aves de rapina. Todavia, s os vi para a despedida, nem cheguei a retomar meu posto. Convidei todos, inclusive o secretrio, para uma rodada de pizza, e sentei-me cabeceira da mesa. Eu estava decidido e confante, e repetia para mim mesmo: No ser de fome que morrerei neste mundo. CONFISSES DE AURLIO 235Para bem dizerFalo de travessia.PensoemguimaresRosa...orealno est na sada nem na chegada: ele se dispe para a gente no meio da tra-vessia. E o que seria mais real: um emprego, um casamento, a opinio pblica? Quando a loucura acontece, o desejo o real, embora na ver-dade o real seja sempre o desejo. A diferena entre o louco e o cidado ordinrio est no fato de que este, em detrimento daquele, fez da nor-maseudesejo.Nofundo,tudofarinhadomesmosaco.Amassahu-manaseerguedomesmolodoevagamiservelpelasuperfcierida daterra.Arealidadenoseaguenta.oquehdemaisrealnoreal paradoxalmente o futuro. o real no est aqui, porque o que est aqui no presta. o mundo deserto. Mais propriamente falando, o real desponta na travessia e parece um chefe que nos d trabalho.Euprocuravaoreal,contudonooencontravanoemprego nem no casamento, porque ele estava na travessia, isto , ele se lanava interminavelmente ao futuro, este presente sem fm. Eis sua caracte-rstica cruel: o real resiste. Para dar-se a uma pessoa, ele necessita da comunho quase mgica entre a verdade interior da pessoa e o mundo dos fatos. Por isso, ele se dispe no meio da travessia, porque para atra-vessar um caminho preciso que haja tanto o caminho como a vontade de atravessar. E somente no meio, porque o incio no existe e o fnal j foi para outro lugar.o que acontecia entre mim e Flora era inevitvel. o real se di-vidiu e nos dividiu. Cada um seguiu seu caminho. Simples assim. Sem mgoas.Choramoscatarticamentenahoradadespedida,masnosso amor e amizade mtuos mantiveram-se intocados. Sou grato por Flora serumapessoasaudvel,nemnormopatanemloucanempsicopata. CAPTULO 22 236Se fosse normal, fcaria deprimida. Se fosse louca, entraria em delrio. Se fosse psicopata, sabe-se l. Ento, tal como se espera de uma pessoa saudvel, Flora no se deprimiu, no delirou, no irou, no matou, nem mesmoprocuroulevarqualquervantagem;simplesmenteconsentiu no corao aquilo que a cumplicidade do olhar do outro no desmen-tia, a partir do momento em que j estvamos prontos para dizer que ramos amigos, e no amantes.237.23.Compreendaparacrer,creiaparacompreender.Santo Agostinho, Sermo 43Cristianismo. Estvamos, portanto, eu e Alpio, de volta ao in-ciodenossajornada,quandodoisjovensuniversitriospretenderam realizarumestudobblicoembuscadesabedoria.Nomesmoponto, umpoucoacima.Benditaserpentedotempoanunciandoseufuturo bote! Deparvamos mais uma vez em nossa caminhada com as portas majestosas da Casa Me do mundo ocidental: a Igreja. Porm, era agora ochardinianortulodecristianismodofuturoquenosatraa.Isso eraumanovidadeinstigante.Principalmenteemsetratandodeuma instituio milenar extremamente avessa a renovaes contundentes.Felizmente,devidoaumdosmaioreserrosquecometina vida,eupodiamedaraoluxodetirarumasboasfrias.Tudograas generosidadedaqueleescritor!Aomenosporalgunsmeses,eume dedicaria inteiramente a outro tipo de trabalho: o trabalho espiritual. De que maneira esperava progredir? Trabalhar o lado intelectual, para compreender melhor a f; e trabalhar a f no corao, para iluminar o entendimento. CAPTULO 23 238O sentido da perseveranae a primazia da fDei o meu primeiro passo na espiritualidade quando aprendi a orar. orar de verdade, sabendo como e o que pedir a Deus. As lies dorezadornotinhamsidosufcientesparamudarmeushbitos, nosemanteseuserpostoprova,enosemveroladoprtico dacoisacommeusprpriosolhos.Lembro-mecomosefossehoje: eu me preparava para dormir, estava sozinho em meu apartamento, quando uma lgrima sub-repticiamente escapou de meu olho esquer-do. Criou-se um vazio enorme dentro de mim, e eu simplesmente no pude cont-lo, porque ele se ps a infar-me como um balo, avessa-mente infando-me de nada. Vi o fantasma de Flora vaguear pela sala, ftandomeusolhos,cobrandoopreo,vidoporacertodecontas. Fraquejei. Fui tomado de um profundo desgosto, e, por um momen-to,todasasminhasescolhasrecentesmepareceramincrivelmente desacertadas. Repeti vrias vezes em voz alta: Aurlio, eu te odeio. E a, sim, a cobrana aumentou, e uma coisa dentro de mim cresceu, umavozqueproclamavainsultoseacusaes.oumelhor,nouma nica voz, mas vrias. Era uma confuso de pensamentos que parecia entrar em minha cabea sem pedir licena.Foiumaexperinciaterrvel.Devoterchegadopertodeum colapso nervoso. Depois da primeira lgrima, uma tromba dgua veio e me carregou em sua irresistvel correnteza, at as profundezas tur-vas e lamacentas do leito. Eu tremia. Suava frio. Tinha ideias de morte. ScomeceiamelhorarquandomelembreidosconselhosdoseuZ Rezador:ocpassaaarreparpraverquetudoverdadequeeut CONFISSES DE AURLIO 239dizendo. Num timo me dei conta de que tinha cado na cilada perver-sa do inimigo. A verdade verdadeira era que Flora estava bem: eu no era culpado de faz-la sofrer. Eu no era culpado de nada. Ento, decidi orar. o pai-nosso. A ave-maria. A orao a So Miguel. Em seguida, uma conversa com Deus. Alguma coisa me dizia, intuitivamente, para pedir f, me concentrar nisso, pedir com excelente fervor, at dissipar inteiramente aquela nuvem negra de maus pensamentos. E assim fui, repetindo, repetindo, repetindo. Pedindo. At que baixou uma calma-ria e no sobrou nem vestgio de tribulao. Eu s sentia amor.Daadveioumarevelao:comoqueiluminadoporumaluz superior, meus olhos viram a realidade, fugazmente, por alguns segun-dos. Depois a realidade desapareceu e s restaram as aparncias. Mas eu vi. Foi o bastante. Recordei-me de no esmorecer, certo de que abai-xo da perseverana s existem runas. Deus sabe o quanto ainda peo, a cada dia, para ir me frmando mais na f. Eis o maior desafo dos homens: crer. A despeito das evidn-cias e do absurdo, crer.241.24.[...] que progredindo escrevo, e escrevendo progrido.Santo Agostinho, carta a Marcelino escrita em 412 d.C.Coincidncias no existemQuehorizontesdivisavaTeilharddeChardinquandoprofeti-zou o cristianismo do futuro? Enquanto retomvamos o estudo bbli-co, Alpio e eu, procurvamos um homem-para-alm-da-Bblia. Justa indagao:advirumaNovaEraparaalmdaBblia?opensamento voa, mas os olhos de quem pisa o cho que do notcia do mundo: a humanidade ainda precisa muito da Bblia. Se dependesse de mim, eu dedicaria, talvez, uma vida inteira aos estudos das Sagradas Escrituras, to belas e profundas. Mas a vontade superior tinha outros planos. Vi mais uma vez o piedoso empreendimento ser interrompido prematu-ramente. E Deus sabe que, quando chegar o momento, juntarei todas asminhasforasparaconfessarebendizeratragdiaquecausoutal interrupo. Por ora, desejo to somente agradecer por uma das me-lhores lembranas que guardo desses meus trinta e poucos anos. CAPTULO 24 242Falo do encontro com Iara. Impossvel mensurar a doura dos momentosquepassoaoladodaminhamezinhadasguas.Edevo agradecer infnitamente, porque somente a presena da mo generosa deumanjoexplicanossoencontro.Primeiro:eunoprocuravaum novo relacionamento, uma vez que o rompimento com Flora era ainda muito recente. Segundo: nem eu nem ela deveramos estar no lugar em queestvamosquandonosencontramos.Terceiro:eujamaisolharia para uma garota de dezessete anos.Na minha verso dessa histria, tudo comeou quando o anjo soprou aos ouvidos de Alpio: Convide o Aurlio a dar uma aula para osalunosdoterceiroperododocursodeFilosofanaUniversidade Catlica, a primeira aula do semestre. Eu no aceitaria jamais um con-vite como esse, at porque j sabia que Alpio vivia tramando para me levar para a Academia. Se eu aceitasse o primeiro convite, certamente depois viria outro; e depois, quem sabe, uma palestra, um seminrio, ummestrado,umdoutorado,e,quandomenosesperasse,jestaria tomandoumcafezinhonasaladosprofessores.No.Minharesposta foi enftica. Alpio a contragosto aceitou, dizendo: Que pena! Voc ia gostar do tema: religio e cincia...Ele aceitou; mas meu anjo, no.noite,recebiemminhacaixadee-mailsumamensagem Urgente do Alpio: Meu amigo, pode parecer brincadeira, mas vou realmenteprecisardevoc,fqueisabendohojequepapaifaruma cirurgianavsperadaentradadasaulas.Vocsabe,souflhonico tambm,nopossodeixarmamedesamparadanessasituao.Me perdoe, amigo, conto com voc. Alpio jamais mentiria por uma boba-gem dessas. Seu pai realmente tinha uma cirurgia marcada. E, diante dessascircunstncias,seeufossepesarfriamenteosfatos,noseria CONFISSES DE AURLIO 243difcil lanar uma ltima evasiva, do tipo Relaxe, meu amigo, no to grave a turma fcar sem aula no primeiro dia...; mas, poxa, com meu melhor amigo precisando de mim, o que mais eu poderia fazer? Afnal, dar uma aula no seria algo to terrvel assim. Meu anjo venceu.Quandomepusaprepararomaterial,mesentiindisposto comaideiadeministrarumalongaaulaexpositiva.Acheiquepara os alunos tambm seria muito tedioso chegar ao primeiro dia de aula, encontrar um professor substituto e ainda ter de fcar quase duas ho-ras ouvindo uma ladainha tendenciosa. Sim, eu seria tendencioso. Sou um espiritualista. Meu discurso obviamente procuraria favorecer uma aproximaoamistosa,ecolocariareligioecinciaempdeigual-dade. Declarar a vitria da cincia, jamais! Incitar o fundamentalismo religioso,Deusmelivre!Cadaumnasuaseara.Respeitonuncade-mais. Assim sendo, arbitrei o critrio de soluo do impasse: nada de aula expositiva. Afora isso, eu s precisava ser fel minha conscincia. Noexistetemporuimparaquemagedeacordocomseusprprios princpios.Alis,otemaeramuitobom,sintonizavacommeusinte-resses. Vamos l encorajei-me uma boa chance de semear no coraodessesjovens,nofaltaroadversriosparapux-losparao outro lado.Tivedereconhecer,ainda,queaquelaaulaseriaimportante para mim. Eu no sabia muito bem o que dizer sobre o tema. No dava para simplesmente pegar alguma coisa pronta e apresentar; a situao me obrigava a refetir, pesquisar, escolher uma perspectiva. Nesse sen-tido, o preparo da aula tornou-se efetivamente proveitoso e divertido. Aprendi um bocado. E se antes eu no tinha uma opinio formada so-bre o assunto, desde ento passei a ter.Por fm, preparei somente um texto curto para abrir a aula, a partir do qual eu planejava deixar os alunos debaterem suas ideias. A CAPTULO 24 244opo mais vivel para a ocasio: eu me manteria dentro de certa zona de conforto e, no pior dos casos, ao menos os estimularia a pensar.No dia da aula, eu estava at bem animado. Pedi para a turma abrir uma roda e dei incio aos trabalhos. Deixei bem claro que meu pa-pel era somente o de oferecer uma perspectiva possvel, de modo que todos seriam respeitados em suas opinies. Escrevi no quadro: Religio e cincia Interface. Todos sabem o que signifca interface? perguntei.Eantesdeprocederleituradotextoexpliqueiquedoisdos usos possveis dessa palavra poderiam nos ser muito teis. Em comuni-cao, interface faz pensar num meio capaz de promover o dilogo ou a interao entre dois ou mais grupos. Em ecologia, interface a rea de fronteira entre regies adjacentes, rea que promove a interao de ecossistemas independentes.Masquandojiacomear,fuiinterrompidoporduasmoas queentraramnasala.Sentaram-selogo,procurandonoatrapalhar. Umadelaspareciabemmaisjoveme,claramente,nofaziaparteda turma. A outra cumprimentou os colegas com discrio e, depois, fcou meolhando,jmeidentifcandocomosendooprofessor.Expliquei--lhes que aquela era uma aula inaugural, apresentando-me como con-vidado do professor Alpio. Engasguei nessa hora. A presena daquela garota mais jovem me causava um singular incmodo. Era Iara. Achei melhor iniciar logo a leitura.Tenhoaquicomigoumacpiadaqueletexto.Agrada-mea ideia de l-lo mais uma vez, pois ainda corresponde ao que penso sobre o tema. Confesso tambm que no consigo v-lo sem ser invadido pela lembranadaquiloqueeleverdadeiramenterepresentaparamim:o primeiro encontro com meu amor, meu bem, Iara.Vejamos: CONFISSES DE AURLIO 245Religio e cincia Interface(Leitura do texto)Descobriraorigemdascoisassempreumproblema paraoinquietocoraohumano.Estemnossanaturezaper-guntar sobre a origem. A criana pequena pergunta por que e nem desconfa de que os adultos talvez no tenham resposta para tudo.Invariavelmente,umdiaperguntarcomonascemosbe-bs?. Com o tempo, j na vida adulta, outros mistrios povoaro os campos de sua imaginao: a origem do universo, a origem da vida, a origem da mente. E o esprito, ser que ele existe mesmo? Essas perguntas germinam no corao do homem como sementes de um profundo desejo de conhecer.Pormilnios,mitosdecriaoofereceramexplicaes paraosgrandesmistrios.Emseguida,asflosofaseteologias recobriramosmesmosproblemas.Enfm,nomundocontempo-rneo,muitosdostemasmticosreaparecemnasexplicaesda cincia,enquantooscientistasbuscamconhecerecontrolaro universo, a matria, a vida e a psique.Conhecernossasorigensumanecessidadequetemos. Nossosancestraisolhavamparaoscusprocuraderespostas. Com a cincia, o mistrio s aumenta. A vida na Terra improba-bilssima. Sermos um punhado de poeira csmica que evoluiu ao funcionamento perfeito de um organismo vivo e consciente no CAPTULO 24 246uma hiptese menos fantstica do que a da tradio que diz, por exemplo,quefomosfeitosdobarroporumsupremodemiurgo. Para desvendar o mistrio da origem, precisaremos percorrer ain-da um longo itinerrio. Por que existem coisas em vez de apenas nada? Ser ou no ser. Como explicar que o universo seja ordenado ao invs de ser completamente catico e informe? Como a matria inanimada se transformou em matria viva? E como esta se tor-nou matria pensante?Na contramo da cincia, os mitos e as religies recor-rem s mais diversas vias sobrenaturais, metafsicas, alegri-cas para responder s perguntas ltimas da existncia, e con-vergem para a ideia de que a ordem natural do universo s pode ser compreendida a partir da existncia de outra ordem de rea-lidade que a determina de cima para baixo. Assim aprendemos, poressaheranamilenar,apensaremtermosdedicotomias como:criador-criatura,espiritual-material,mutvel-imutvel, eterno-temporal. Achamadamodernidade,porsuavez,propicioua construodeumcenriomaisricoeinteressante:existemho-mens para quem as formas do pensamento religioso no parecem razoveis; existem homens que negam a cincia em nome de suas sacras tradies. Examinemos isso com esperana. O tempo da in-tolerncia j passou. Essas foras de pensamento no se anulam completamente, muito pelo contrrio. A resultante que nos pa-rece promissora, ainda que a cincia tenha suas vantagens.Mas ser que a cincia tem todas as respostas? Estare-mos porta de uma era em que a humanidade no mais precisa-r das religies? CONFISSES DE AURLIO 247Creioqueno.Quantomaisacinciaavana,maisse aproximadaespiritualidade.Oaparentementesimplesatode conhecerjprofundamenteespiritual.Estamosdiantedeuma inevitvel mudana de paradigma. J est acontecendo. Amplia-mosnossoconceitosobreonatural.Oconceitodesobrenatural cedeavezaumacompreensointeressada,profundaemenos preconceituosa do mundo que nos cerca.Ningum precisa ser religioso para fascinar-se com o uni-verso. A beleza ser sempre beleza. A grandeza jamais nos parecer insignifcante. O mistrio retumbar em qualquer tempo. As pir-mides do Egito eternizam vozes do passado. O sopro do Levante se-gue espalhando as palavras de seus sbios. O cip das almas ainda conduz seus xams, revelando o mesmo sol adorado por maias e in-cas. Qui, numa Atlntida submersa encontraremos a escrita sa-grada de um povo desaparecido. As perguntas so as mesmas e vm sendo feitas h milnios. Em cada poca, o que muda a cultura e, com ela, a maneira de transmitir o Conhecimento.Acinciadizqueouniversosurgiuh13,7bilhesde anos.Umdia,quemsabe,poderemosreconstruirsuahistria, aindaquecomrelativapreciso,apartirdeumsegundoapsa criao.Issonoserpoucacoisa!Noentanto,nochegaremos origem.Acinciatambmpretendequetodososseresvivos daTerrapossuamumancestralcomum,umserunicelularque, possivelmente, viveu h 3,5 bilhes de anos atrs. Mas, quanto origem da vida em si, ela nada tem a dizer: fcamos entre as pro-babilidades do acaso e a ao de leis naturais que ainda desconhe-cemos.Eparapiorarascoisas,naverdade,nemestamoscertos sobre o ancestral; talvez existam vrias origens da vida. CAPTULO 24 248Por acaso algum j contou os 100 bilhes de neurnios que parecem defnir quem somos? Isso nosso crebro! Quem de-cide por todos esses neurnios? De quem o dom do livre-arbtrio? Equantoaofuncionamentodasclulas,paraalmdosneuro-transmissores,simplesmentenosabemosoqueacontecequan-do sentimos o mundo. Por exemplo: a luz penetra os olhos, incide nas retinas, as clulas do nervo ptico se excitam, despolarizam e conduzem um impulso que parece se dirigir regio occipital do crebro;eento?Defnitivamente,nosabemosemquepulodo gatosedaviso,nosabemosoquesoasimagensvivasque fcamcomoqueimpressasemnossamemria.Sabemosmenos ainda sobre a memria.Aprpriaconscinciapodeultrapassarosindivduose seus crebros. Pesquisas cientfcas consoantes com o novo para-digmajconseguiramdemonstrarqueocrebrodeumapessoa pode infuenciar o crebro de outra pessoa sem que seja necess-rio qualquer tipo de contato ou transmisso por meio conhecido. Talvez o universo seja consciente!Arealidadefantstica.Osobrenaturalumconceito intil. Precisamos ir fundo nesse desejo de conhecer. As questes no respondidas servem de motivao tanto para os msticos e re-ligiosos como para os cientistas. O destino fnal far com que todos se encontrem.Por ora, aceitemos a interface do mistrio.249.25.Quem conhece a verdade conhece esta luz, e quem a conhece conhece a eternidade. O amor a conhece.Santo Agostinho, Confisses (VII, 10)Iara e a UDVFiquei muito satisfeito com aquela aula. Senti que tinha alcan-ado meu objetivo com o texto. os alunos participaram intensamente, debateram, cismaram, disputaram. Enfm, morderam a isca.Tentei sair imediatamente aps o trmino das discusses. Esta-va incomodado sem saber com o que. Sentia uma ansiedade estranha, como se a intuio tentasse me alertar de um perigo iminente. Era Iara. Despedi-me da turma e peguei o corredor que dava para a sada do pr-dio.Emumminutoestarianoestacionamento,aperteiopasso,mas, quando fz o contorno para o segundo vo de escadas, escutei uma voz que mais parecia um canto me chamar: Ei, professor!Fui capturado em fuga. Meu nome Iara, bl, bl, bl.... Ela tinha dezessete anos e no era aluna da Filosofa: passara no vestibular CAPTULO 25 250de Cincias Biolgicas e vinha para seu primeiro dia de aula. No entan-to, como as aulas de seu curso aconteciam no turno da tarde, e como ela no tinha o que fazer ali no campus, resolveu acompanhar a amiga na Filosofa, s para sentir o drama.Donadalanouumaperguntaumtantoquantoincomum. Com a inocncia tpica de uma criana, disse: Voc sabia que o Mestre gabriel ensinou que um dia a cincia vaiterqueencontraracinciaespiritual?Penseinissoquandovoc falou que o destino fnal far com que todos se encontrem.Mestre gabriel? Eu no fazia ideia do que ela estava falando. o que eu sabia era que devia acabar logo com aquela conversa e sumir. Algumconhecidopoderiameverefcarpensandocoisas.Ealtima coisa que eu queria era ser visto como um professor pedflo aprovei-tador. Eu suava frio enquanto ela continuava falando, tentando puxar assunto. Falou coisas de que no tenho a menor lembrana, tamanho era o meu desconcerto naquele momento, principalmente depois que ela tocou em meu brao. Foi somente um toque, com a ponta dos de-dos,pormnoumtoquequalquer,masumtoquesufcientemente marcante para ser quase a nica coisa de que me lembro.o que ela queria? At hoje repito essa pergunta. Nem ela sabe responder;normalmentedizapenasquemeachougatinhoeque sentiuvontadedepuxarconversa.Ademais,gostadehomensmais velhos.Elapreferepensarassim,sque,diantedaminhainsistncia em no acreditar em coincidncias, tambm reconhece que, para alm dessasexplicaessuperfciais,deveadmitirqueteveumcomporta-mento meio estranho. Naquele dia, fcou martelando minha pacincia atconseguirmeue-mail.Suajustifcativaeraadequeiriafalarde mim para seus pais, pois queria que eu conhecesse a UDV. CONFISSES DE AURLIO 251obviamenteeujtinhaouvidofalardaUniodoVegetal;na poca do Daime, tinha at lido algo a respeito. No entanto, no me in-teressavamaispelotemadasreligiesdoch,vistoquenaminha cabea tudo parecia ser a mesma coisa Santo Daime, Barquinha, UDV, tudofarinhadomesmosaco.Nemchegueialevaroconviteasrio. Cedioendereoeletrnicounicamenteporelatercolocadoonome dos pais na conversa. Com isso, me senti menos pedflo.Acho que s Freud mesmo para explicar certas esquisitices das pessoas. Iara sempre ri no maior sarcasmo quando admito que naquele dia me senti um pedflo. Afnal, era seu primeiro dia de universitria eelajestavapertodecompletardezoitoanos.Maspoucoimporta, era assim que eu me sentia. Iara linda. Linda. Dava at medo de olhar. Minha mezinha das guas. Linda. claro que liguei para o Alpio no mesmo dia. Ele queria saber daaula;euqueriafalardaIara.Elogioumeutexto,mesmopuxando minha orelha por eu no ter citado as fontes bibliogrfcas coisa que compreendo bem, e o perdoo pelo sermo. Na Academia ningum rein-venta a roda, ningum fala exclusivamente por si mesmo, pois essa algicaeomtododotrabalhocientfco.Semproblemaseeul queria seguir carreira de professor?! ; na verdade, nem dei ateno ao que ele disse, j que a vontade de falar a respeito da tal Iara era muito mais urgente: Cara, dei meu e-mail para ela! exaltei-me ao telefone.Esentomeapercebidemeurompantejuvenil.Alpiono deu a mnima. At lembrou um de seus colegas docentes que j tinha namorado duas ou trs alunas. Ainda por cima, eu nem era professor.Mesmoassim,nomeupontodevista,asituaonoparecia tosimples.Muitascoisasestavamemjogo,enovaleriaapename CAPTULO 25 252envolver com ningum naquele momento. Eu atravessava um perodo de mudanas radicais, precisava encontrar uma nova fonte de renda, e tambm tinha a Flora, a ltima pessoa do mundo que eu ia querer ma-goar. Decidi no alimentar fantasias vs. E assim foi. Dois anos se pas-saram desde o meu primeiro encontro com Iara at o dia em que nos vimos novamente. Durante esse tempo, trocamos apenas um punhado de mensagens.Quantoamim,nopossodizerquefavoreciaaproximao, mas tambm no posso dizer que a evitei. No princpio, eu apenas res-pondia aos e-mails; era ela quem insistia em manter contato. Normal-mentefcavaquerendosabermaissobremim,minhaspreferncias, meus hbitos, meus livros, meus flmes, minhas msicas e tudo o mais, ou ento voltava a falar da UDV, porque achava que eu adoraria ir l. Depois, pediu tambm para me adicionar no Facebook, com a desculpa de que queria mostrar minhas fotos para seus pais. Aceitei. Aos poucos fuibaixandoaguarda.Econfessoque,comotempo,passeiaentrar quase todos os dias l no perfl dela, s para fcar vendo as fotos.253.26.PorqueaCidadedossantosestnocu, embora c na terra gere cidados, em quem peregrina at chegar o tempo de seu reinado.Santo Agostinho, A Cidade de Deus (XV, I)A grande aventura humana conviver. No outro, encontramos tanto a fonte das nossas maiores alegrias como a de nossos piores so-frimentos. Aquele com quem desejamos nos unir hoje pode vir a ser o mesmo de quem desejaremos nos libertar amanh. Instveis e impre-visveis somos ns, seres humanos. Haver remdio?A cidade virtualQuempoderiaimaginarquedeumafugaobsessivanasceria uma grande ideia? Como prever que a luta contra um sentimento pos-sa acabar inspirando um novo projeto profssional? Comigo foi assim. Sim,eulutavacontraumsentimento.Sim,eutentavameesquivara todo custo. Quando percebi que estava fcando meio neurtico, come- CAPTULO 26 254cei a achar tudo aquilo muito engraado. Eu me sentia ridculo. E, de um poeminha que escrevi quase que brincando com a situao, nasceu umaideiainusitada,umaideiaque,porincrvelqueparea,acabou resolvendo meu status de indefnio profssional.Ironicamente, por medo de conviver com a Iara , hoje sou empreendedor da www.Eu havia escrito isso num pedao de papel rasgado sem qual-quer pretenso potica, isto , to s pela necessidade efervescente de quemtemdefazerbordaaumobscurorealdentrodesi,sendoque nem mesmo cheguei a reler os versos assim que os conclu. J o papel, quequaseforaparaolixonamesmahora,acaboufcandoemcima daescrivaninha.Umasemanadepois,enquantoatendiaaumtelefo-nema,evasivamentepasseiosolhossobreaquelaslinhas.Desligueio aparelho num gesto sbito e li com mais ateno. genial! Atinei que eu estava de braos dados com o Google, que mal acabava de fazer vingar o servio de Street View.Ento, rascunhei algumas anotaes pontuais com o intuito denoperderofiodameada,comosediziaantigamente.Mais umpedaodepapelescritomofoipararnomeubauzinhode Iara.comVou me mudar daquiVou para outra cidadeL eu vejo a rua, mas no fco com medo de mim Sua casa um linkDois cliques no boto esquerdo do mouse:Voc a sorrir. CONFISSES DE AURLIO 255recordaes,destinadoaenfeitar-secomoamarelodotempo.In-terioridadeemretrato.gostodeguardaressascoisas.Aquiest. Vejamos o que est escrito:Crticaliterria(entenda-sedemimparamimmesmo,noen-simesmamento do minuto da inspirao): no meu versinho, o eu lrico proclama o desejo de viver noutro lugar, manifestando uma difculdade afetiva nas relaes diretamente vividas com seu pr-ximo.Noobstante,eletambmrevelacertafamiliaridadecom sua cidade-ptria idealizada, e a caracteriza com termos que alu-dem ao mundo virtual, forjando essa ptria como um lugar onde oconfitoservirtualmentesuavizado,eondeeleantecipada-menteemdevaneiosjsevcapazdeircasadooutro,seu espao ntimo, capaz at de despertar no outro um sorriso.Crticapessoalsubsequente:meuproblemaomedodebancar ossentimentosquepodemadvir.Iaraquaseumaadolescente! Venho me esforando para fltrar isso. De que modo? Fazendo do ciberespao uma interface segura para nossas relaes. Que outro sentidohaveriaparaessadilatadatrocadee-mailseconversi-nhas no Facebook? Refexes gerais (ou razes flosfcas de um projeto profssional): extrapolandomeuprprioexemploparaumcontextomaisglo-bal, entendo que no foi por acaso que a humanidade aderiu to rapidamente ao uso da internet. H um desejo profundo envolvido nissotudo.Emparte,minhahistriacomIarapodeparecerbo- CAPTULO 26 256al, e eu posso ser acusado por excesso de cautela ou, at mesmo, ingenuidade, mas quantas e quantas pessoas hoje em dia j no demonstram que necessitam da banda larga para terem uma vida social mais satisfatria? No obstante existirem os sujeitos nostl-gicos que vivem criticando o mundo em que vivemos, porque cis-mam que as pessoas eram mais felizes num passado remoto , no d para negar que uma boa parte dos cidados de hoje est mais conectada ao mundo. Isso gera uma satisfao pessoal sem preo.Aspessoaspagamparaterseussmartphones;pagam tambmparateracessointernet;passamamaiorpartedo tempoconferindocaixasdemensagens,piandotutes,trocando opiniesgerais,observandoseusamigosnossitesderelaciona-mento. Quantos milhes de pessoas tm mais de duzentos amigos no Facebook? H quarenta anos, ter duzentos amigos era uma re-alidade quase inalcanvel. H pouco mais de cinquenta anos, as pessoas falavam baixo dentro de suas prprias casas para evitar que os vizinhos soubessem de assuntos particulares de suas vidas. Hoje,asfotografasnofcammaisengavetadas,ecoisasmuito ntimassopostadasparaoacessodeummnimodeduzentos amigos num mural qualquer do Face.Aspessoasdesejamsemudarparaumacidadevirtual. Issojestacontecendo.Derepente,meimaginocontribuindo para a evoluo desse processo. A WWW j uma espcie de meio ambiente parte, habitvel, se no por todos, por muitos. Oferece--se como mais uma opo dentre os distintos ambientes: terrestre, aqutico,espacial,intraterreno,lunare...virtual?Falaremosem seres cibernuticos? CONFISSES DE AURLIO 257Praticamente j chegamos a um tempo em que no exis-temterritrios.Asferramentasestotodasdisponveis.Eseal-gumpropusessealgocomoumaplataformacapazdeintegrar todaessagamadispersadedados,informaes,servios,trocas comerciais, canais de interao, interesses e expresses culturais queligamacidaderealaociberespao?Essapodeserumadas perguntas norteadoras de um novo projeto profssional em minha vida. Numa lgica mais ou menos inversa: territorializar o dester-ritorializado. Cidades virtuais. Neste primeiro insight, questiono--mesobreapossibilidadedepensarparaalmdaideiadeuma cidade virtual ancorada ou suportada pela cidade fsica, com seus processosenecessidades;isto,lanominhaimaginaoaoc-mulo futurstico de uma cidade virtual que se prope como espao habitvellegtimo,meioambientevivo,umacidadequecomo outra qualquer se justifca como fm de si mesma. Dela se dir: a vida simplesmente acontece a. Por que no?No sou do tipo de pessoa que desiste de seus prprios sonhos. Desde aquele dia no descansei mais; conversei com muitas pessoas a comear por Mnica, que no se negou a bancar minhas contas por um tempo , pesquisei, corri atrs dos scios em potencial e batalhei para formaraequipebasequeiriaencararoprojetocomigo.Compouco maisdeumanodetrabalho,apresenteiaestruturaquaseprontada cidadevirtual.com ao senhor giovanni Luci, em busca de patrocnio. Ele se alegrou por eu ter guardado o carto. Fui recebido como se fssemos velhos amigos e obtive total apoio. Firmamos uma parceria. Uma ideia simples, mas de alcances promissores: transformar nossa cidade numa cidade inteiramente virtual. CAPTULO 26 258Ainda estamos trabalhando na implantao do projeto e, gra-as a Deus!, temos o Google conosco se que no devo dizer que somos ns que estamos com eles. Mas a velocidade dos acontecimentos chega a ser assustadora. s vezes sinto como se as fchas demorassem a cair. Saiodecasaparaotrabalhoe,revendooscompromissosdodia,as ligaes que espero receber, os clientes que aguardam meu retorno, as propostas em aberto, me pergunto: Esse cara sou eu?Tenhofeitotudocomamelhordasintenes.Masconfesso quenuncativeamnimapretensodecriaralgumacoisanova.Do modocomoeuvejoascoisas,nossaplataformanodevefazermais doqueseguirastendncias,poisquasetodososserviosdisponveis nas grandes cidades j podem ser acessados on-line. A diferena que eu e meus parceiros encontramos uma maneira de integrar tudo isso numespaohabitvel,umambientevirtualtridimensional.Criamos um territrio. Acho at que posso dizer que jogamos com uma possvel ampliao do conceito de cidadania virtual. A plataforma permite que a pessoa crie um perfl, acesse a cidade, caminhe pelas ruas, mantenha--se conectada a seus amigos, compartilhe dados com sites e aplicativos, mova-separaoutrossitespararealizartransaesouenviare-mails, trace rotas de transporte, encontre pontos comerciais e possa, dentre outras coisas, interagir com os transeuntes a seu redor. Tudo isso com grande segurana para todos. o conceito se resume a isto: um ambien-te virtual que integra as vidas fsica e virtual do cidado.Farei, a ttulo de confsso, uma breve descrio de nosso tra-balho,epeoaDeusquemelivredoengano,casoeuestejaabrindo alguma porta para o mal.o que a cidadevirtual.com? Acoisapareceumgame,talcomoumGTAouumSecondLife, CONFISSES DE AURLIO 259masoambientevirtualrecriadoapartirdeimagensdacidadereal nocaso,acidadeemqueresido.Logicamente,noseicomosefaz isso, no minha praia; os responsveis por essa parte so os meninos denossaequipe,verdadeirosmgicosdaprogramaofssuradosem animaes e games. Mas, enfm, o que importa que a coisa funciona.Para o usurio, importa que a cidade virtual esteja l, dispon-vel, aberta; e oferecemos uma interface muito simples, visando tornar oservioacessvelatodos.Apessoacriaumavataraoabriraconta, sendo que, para isso, basta fornecer seus dados pessoais e algumas fo-tos:simplesassim,elaestnasruas.Podetransitar,abordaralgum, pedir informao, qualquer coisa, sei l, vender um par de sapatos ve-lhos. Contudo, creio que estamos oferecendo pelo menos dois grandes diferenciais,quenoscolocamnapontadoquevemporanofuturo. Em primeiro lugar, o avatar gerado a partir de imagens reais da pes-soaecarregadocumentosdeidentifcaoiguaisaosdomundoreal, com foto e tudo. E para aumentar ainda mais a segurana dos usurios e a sinergia entre as cidades fsica e virtual, iniciamos com a proposta deintegraodeperfs,isto,exigimosqueapessoacrieumperfl ofcial de usurio, conectando sua existncia real nome, endereo, fliao,documentosasuavidavirtualredessociais,contasdee--mail, Youtube etc. , e gerando assim uma espcie de cadastro de cida-do virtual. A poltica de nossa comunidade no permite a criao de contas falsas ou identidades mltiplas. Ningum paga nada. Somente as pessoas jurdicas pagam para inserir seus negcios. o seu Joo da Silva pode registrar sua mercearia. Primeiramente,nossaequipevaiaolocalparafazeroregistrofoto-grfcopanormicodoambienteinterno;depois,fazemosoproces-samentodigital,obtendoimagensperfeitamenterealsticas.Assim,o CAPTULO 26 260cidadovirtualpodeiratl,entrar,vercomo,falarcomovende-dor e comprar o que quiser. o delivery e a qualidade dos produtos so deinteiraresponsabilidadedoseuJoo.osrestaurantesadorarama ideia.oclientetemapossibilidadedeirconheceroambiente,vero cardpio, a adega e, at mesmo, j fazer a reserva para a mesa de sua preferncia. outro setor que j tira muitas vantagens desse sistema o ramo imobilirio. As placas com o vende-se ou aluga-se podem ser acessadas com um duplo click do mouse. o cidado virtual, na maioria dos casos, ainda acessa apenas fotos e textos informativos. Porm, em algunsimveis,jpossvelentrar,transitareatmesmodaruma olhadinhapelajanela.APrefeituradacidadetambmaderiu.Pontos tursticos, parques e museus j podem ser visitados. Em alguns lugares, a pessoa paga para entrar, assim como no mundo fsico. No museu de arte contempornea, por exemplo, cada pea nova em exposio passa pelo mesmo processo de digitalizao, para fcar disponvel na cidade virtual. Com o duplo click diretamente na obra desejada, abrem-se cai-xas de textos explicativos, fotos e vdeos.Estamos em fase de testes, obviamente, e hoje temos cobertu-ra de apenas uma parte da cidade, mais especifcamente a Zona Sul e Centro; no entanto, no demoraremos a ver toda a humanidade conec-tada por seus notebooks, smartphones, tablets e outros dispositivos. o que vir? Como sero as cidades virtuais de um futuro prximo? Em breve, provavelmentenoserprecisosairdecasanemmesmoparaabrir umacontabancriaoupararealizarumaentrevistadeempregoou, numahiptesemaisaudaciosa,paratrabalhar,mesmoqueocidado sejaummdicoouumoperadordemquinasindustriais;ealgumas pessoas optaro por imergir completamente na cibercivilizao.Numa das primeiras sesses de teste, fui casa de Iara, fquei ali, parado na calada, sem os ps no cho, sem medo de mim. Tive a sensa- CONFISSES DE AURLIO 261o de que eu estava certo: existe um desejo profundo que liga as pessoas ao mundo virtual. Deus testemunha disso. Iniciamos o funcionamento h pouqussimo tempo, e j existem usurios que passam dias e noites inteiros on-line. Nossa equipe monitora tudo o que vem acontecendo ali. Existem ambientes de encontro. Muitos casais comearam seus relacio-namentos nas ruas da cidade virtual. os cidados virtuais podem esco-lherumaconversaemvdeo,outambmpodemfalaratravsdeseus avatares, sem precisar recorrer escrita. Basta que outro cidado aceite um convite de conversa para que eles se escutem mutuamente. Podem caminhar pelas ruas enquanto batem um papo.Iaraeeufzemosissoalgumasvezes.Nodiaemqueconver-samos via webcam pela primeira vez, estvamos sentados no banco de um parque da cidade virtual. Foi como decidir dar mais um passo rumo aproximao. No que esse excesso de cautela fosse importante para ela. Era importante para mim. Quando samos de nossos avatares e nos vimos frente a frente ela pelo smartphone e eu pela tela do com-putador , achamos graa daquilo, rimos muito; com uma intimidade agradvel, percebemos que j tnhamos nos conquistado um ao outro. No mesmo dia, fui a casa dela, em carne e osso, para me apresentar a seus pais. Depois fomos dar uma volta e fzemos questo de parar no mesmo parque em que, horas antes, tnhamos feito nossos avatares se encontrarem. Sentamos no mesmo banco. Rimos. Nossos olhares con-tinhamumbrilhodecumplicidade,porquesabamosqueestvamos vivendo algo importante, um momento histrico. Sabamos que a cida-de virtual estava acontecendo, e que pessoas, talvez outros casais, po-deriam estar sentadas naquele mesmo banco naquele exato momento.Nossacidadetornou-seumlaboratrio.outrasexperincias at mais ousadas j so feitas em outros pases. Algo grande est para CAPTULO 26 262acontecer,umpassomuitomaislargodoqueeuimaginavaquando escreviaquelepoeminha,muitoalmdoqueminharecatadaimagi-nao e meus parcos conhecimentos no ramo das tecnologias podem sequer crer. Essa minha criana j anda com suas prprias pernas, por-que assim a rede: aqueles que a consomem tambm a fabricam. Todos contribuem. E eu, de atual idealizador e executivo, em breve passarei a mero espectador desse processo.o que nos guia hoje, ns da equipe cidadevirtual.com, a espe-rana de que nosso trabalho venha a contribuir para o advento de um futuro melhor para a humanidade; assim como tambm desejamos co-operar com o estabelecimento de critrios mais elevados de qualidade devidaecomosurgimentodeumacondiosocialmaisfavorvel realizao e satisfao pessoal de todos. Mas que motivos temos para alimentar tais esperanas?O que a cidade virtual?Existemperguntasquenoforamfeitasparaseremrespon-didas,porquantoservemapenasparanosalertardasconsequncias inerentesanossasescolhas:ofuturologoali.Hquemdigaquea tecnologiaacontinuaodaevoluodavidanoplaneta;evoluo estaque,apartirdestemilnio,terseusprocessosdefagradospela ao tecnolgica do homem. E eu no duvido disso. o que mais me empolga no trabalho que venho desenvolvendo ver que antiqussimos desejos da humanidade comeam a se realizar nestanovaeradeconectividadeglobal,equenssomospartedisso. Desde os primrdios, o ser humano luta para superar a si mesmo, luta CONFISSES DE AURLIO 263contra sua condio material caduca e miservel; e, nesse mesmo sen-tido,desdeosprimrdiosaspessoasbuscammaneirasdeseligareme cooperarem entre si; desejam acessar informaes, e vencer as barreiras da comunicao, e aprimorar a memria, e superar o abismo que separa as mentes e individualidades. Em suma, cada pessoa um universo, mas nenhum homem uma ilha. o fundamento das civilizaes depende de quo estreitas so as ligaes de seus membros entre si, e isso que as diferencia. A crer nesse raciocnio, no difcil concluir que, provavel-mente, o advento da Internet ser reconhecido no futuro como um dos maisnotveisfatostecnolgicosdetodaaHistria.Poucasinvenes tm potencial para mudar to drasticamente a vida dos povos. Ingnuos so aqueles que ainda teimam em remar contra a mar.Pensoquepodemosterfnofuturo,equepodemosesperar umamaiorproximidadeentreaspessoas,maisunio,maisseguran-a,eumaconsidervelreduodochamadomal-estarsocial.Certos antagonismostendemadesaparecer.Porexemplo:teremosmaisse-gurana,masestaremosmaisexpostos;perderemosaprivacidade, masseremosmaisrespeitadosemnossassingularidades;estaremos permanentemente conectados a um enorme nmero de pessoas, mas regularemosnossasrelaesntimasdemaneiraaltamenteseletiva; agiremos com muita liberdade, mas nos submeteremos a instncias ri-gorosas de controle e vigilncia; veremos o mercado de trabalho exigir profssionais com nveis cada vez mais elevados de especializao, mas precisaremossermaiscriativoseversteisparaobterdestaqueem nossasatividades.Agoraumahiptesemaisousada:engendraremos mais confitos, mas descobriremos solues pacfcas e conciliadoras.No entanto, por mais que eu creia na utilidade do servio que eu e minha equipe oferecemos a nossa cidade, tambm no posso deixar de CAPTULO 26 264considerarofatodequeacidadevirtual.comapenasmaisumproduto disponvelnomercadoe,sendoassim,corremosoriscodepassarpor cima de nossos valores para alcanar a meta principal que ter clientes. Quero manter meus olhos bem abertos para no cair nessa cilada.E ento...Venhomeditandointensamentesobreasincrveismudanas sociaisqueseanunciamnaentradadestenovomilnioenoconsigo deixar de considerar que h um profundo sentido espiritual permeando asinovaestecnolgicasquenoscercam.Faoumapergunta,dessas que no tm resposta: quais so os planos de Deus? oxal no seja preci-so recomear do zero, depois de uma trgica hecatombe planetria.Na flosofa escolstica, o termo virtual designava aquilo que existeempotnciaenoemato.Apalavraderivaetimologicamente de virtus, que signifca fora ou potncia. Por exemplo, a rvore existe virtualmente na semente. Para virtualizar uma semente, basta plantar e regar. A virtualizao de qualquer coisa no tem nada a ver com sua desrealizao. Virtualizar potencializar uma mutao.Assim, vejo a inveno da World Wide Web como a mais notvel epromissoradessasvirtualizaesindomveisquevmnosaproxi-mando, mais e mais, de um futurismo outrora distante. A conectivida-desegueumcrescendoavassalador.ocenriomaisoumenoseste: conexesultravelozes;umcontedoenormeaoalcancedequalquer cidado; as mentes colaborando cada vez mais umas com as outras; as barreirasdoespao-temposendovencidas;solues,ideiaseinven-es despontando de qualquer canto do planeta. E, diante desse cen-rio, a pergunta: qual o signifcado espiritual disso tudo? CONFISSES DE AURLIO 265Num futuro prximo, estaremos nos sentindo mais felizes e, comisso,maisunidos?Viveremosnummundomaispacfco?For-maremos cidados mais ticos? Seremos mais livres? Haver espao parareligies?osdogmatismossobrevivero,nummundoondea informao voar to rpido quanto o pensamento? ou nos elevare-mos a um grau de compreenso espiritual mais profunda e universal? Achodifcilimaginaraexistnciadedogmasfechadosnummundo ondecristos,judeus,mulumanos,espritas,budistas,hindus,ma-onseateusequemquerquesejaqueprofessealgumtipodef habitamamesmaaldeia,convivementresiecompartilhamseus universos simblicos mutuamente. ohomemmodifcaomundoeemcontrapartidatorna-seo homemdomundomodifcado.Aexistnciaprecedeaessncia,j diziaSartre.Habitantesdasforestas,habitantesdosdesertos,cida-dosurbanos,operriosdociberespao,sim,sotodoshumanose, sim, so todos completamente diferentes nos modos de agir, pensar e sentir. Quem ser esse homem que comea a habitar o mundo vir-tual? Que tipo de habilidades ele desenvolver? Atravs de quais mo-dalidades afetivas ele se ligar a seu prximo? Sob que perspectivas seusolhosredescobriroouniverso?Perguntandonospreparamos paraasmudanas,paraquenonostornemosprimatasneolticos aos olhos de nossos bisnetos.Talvez, o pensamento jamais tenha sido um processo fechado, limitadoaocrebrodecadapessoa.Eumesmonomecansodeten-tar entender os mistrios do pensamento. E so tantos! Porm, agora estamos bem mais perto de poder testemunhar o surgimento de uma mente supraindividual: uma supermente. At que ponto devo extrapo-lar essa esperana? o que haver daqui a alguns milnios? Apresso-me CAPTULO 26 266em dizer: ainda em surdina, mas de maneira absurdamente religiosa, estamos todos nos tornando Um.As massas despertam de um longo sono. Mas cedo, muito cedo. Somos todos habitantes da Aldeia global e queremos que o mun-do seja exatamente assim, como uma aldeia.Algo novo pode acontecer. Eis o virtual.267.27.No saias de ti, mas volta para dentro de ti mesmo, a Verdade habita no corao do homem.Santo Agostinho, A verdadeira religio (VI, XXXIX, 72)33Esteanoqueterminafoioanodeminhacrucifcao.33 anoscompletos.Amanh,sero34.Depoisdaressurreio,agente sai mais vivo. Pelo menos, assim espero. Ser que fao por merecer?Reconheo meu crescimento no trabalho e no amor. Meu co-raofcoumenosduro.Mascedoparacongratulaes.Averda-deira cruz est no fm deste tnel que atravesso dentro de mim: luz deesperananobreu.Quemderafosseparaj:pedrasremovidas, desertosatravessados,grilhesrompidos.ovaievemdaliberdade di. E por isso que a cruz fgura, no simbolismo espiritual, como a grande meta a se alcanar. CAPTULO 27 268Expectativa de que algo aconteaPacincia,Aurlio;antesdetudo,pacincia.impossvelto-marocudeassalto.Somossempretestadosdetodasasmaneiras possveis. Para sentir o prazer da cruz preciso, antes, superar o seu avesso: a dor da cruz. Este o sentido da labuta da vida: fazer o certo, mesmo a contragosto.Quandotudoparecerperdido,Aurlio,quandotitubearaes-perana, confesse. Volte atrs e veja se no havia algum velando en-quantovocdormia.osventossopravamcomdoura,omarparecia calmo: voc no estava preparado para o golpe. sempre assim. o sal-mista clama por indulgncia: Alegra-nos por tantos dias quantos nos temafigido,portantosanosquantossuportamosaadversidade(Sl 90, 15). Faa como ele, e aceite a vida como ela . Converse com Deus, pea favores, mas no renegue suas contas a pagar; pois, sob a luz do alto, tambm esto seus pecados ocultos.A tragdia me alcanou. Ela alcana a todos os que caminham por sobre esta terra e costuma chegar quando menos se espera. Comi-go no foi diferente. Fui pego justamente quando me cercava de gran-des alegrias e realizaes. Balancei. o corao tende a rejeitar a lgica do sofrimento.PelaconvivnciacomIara,euiapaulatinamenteperdendo meujeitogravedeser.Haviaumladobomnisso,comoumchamado ao equilbrio. Porm, era o pico da paixo. Eu fazia tudo o que faz um homemquandoseapaixonaporumamenina.E,talvez,naquelaem-briaguez, eu tivesse simplesmente adormecido, se a dor no viesse me sacudir, levantando poeira e derrubando estruturas. CONFISSES DE AURLIO 269Jamais duvidei de querer Iara como esposa. Mas ela era quase uma menina, compartilhando com sua gerao o fato de ser cheia de vitalidade e de sonhos que s encontram neste mundo o palco de suas realizaes: viver superfcialmente no aqui e no agora. Transcendncia no faz parte do vocabulrio. Mesmo sendo de uma famlia altamente espiritualizada,issonoalteravaofatodequeeutinhapassadodos trinta,enquantoelaaindaestavanosdezoito.osprogramasqueela curtia eram os shows de msica pop nas calouradas universitrias, ci-nema hollywoodiano, ir s compras, tomar sorvete e, para meu delrio, ir a motis malucos com luzes e banheiras enormes cheias de espuma. Nadaavercomigo,emboraeuestivessesemprel,deprontido,s para fcar ao lado dela.Seaqueleestadodecoisasseestendessepormaisunstantos meses, certamente eu voltaria a escutar do Alpio: Aurlio, voc est diferente. Furei com ele algumas vezes. E confesso que nem sempre o motivo era to louvvel como eu fazia crer. Sucedia at mesmo de, por exemplo, eu sair com Iara para tomar um sorvete de framboesa no sho-pping e esquecer-me do compromisso, ao rodar pelas lojas escolhendo essaouaquelaprenda,comoatalsandliarasteirinhaqueelatanto desejava. Jamais confessei isso ao meu amigo, que, no dia da sandlia, j estava de prontido em sua casa e teve de engolir minhas desculpas por um encontro desmarcado na ltima hora.Meusonoapaixonadoiafcandocadavezmaisprofundo. Comodespertardetodoceencanto,senoporumatragdia,uma dor irreparvel? CAPTULO 27 270A UDVSei que pode parecer que quero desconversar, que quero adiar a hora de falar dos meus momentos de dor; pode parecer que evito falar da descrena e do desespero; ou, que simplesmente no quero ver a realida-de para no sair ferido. Mas estou tranquilo e sei que sou compreendido para alm das aparncias. Quero somente falar das maiores alegrias que antecederam os dias de escurido. Depois disso, estarei pronto para en-carar o abismo. No foi para ludibriar-me que naquela memorvel noite me vi clamando em sonho: Pai, por que me abandonaste?.Iaranuncatevemuitapacinciaparaosassuntosflosfcos, menos ainda para leituras extenuantes. Ela me dizia sempre que acre-ditavaemDeusequetinhaaprendidocomseuspaisumamaneira de sentir essa f no corao. Nada mais do que isso; tambm se achava jovem demais para chegar compreenso do sentido e dos mistrios da vida, e preferia deixar que os mais velhos no caso, os mestres de sua religio indicassem o caminho.Meus sogros bebiam a ayahuasca numa religio chamada Unio do Vegetal, e disso eu j sabia, e sabia tambm que Iara tinha sido ba-tizada l; no entanto, evitei o assunto por um bom tempo. Em diversas ocasies, tive mesmo que desconversar para fugir das suas indiscretas provocaes: Aurlio, voc vai adorar a UDV ou Aurlio, tenho cer-tezaquevocvaiacabarvirandoumdens.Atque,umdia,meu sogro fnalmente me chamou para uma conversa e disse que tivera um sonho em que eu lhe dava netos batizados numa gua avermelhada. claro que entendi o que ele queria dizer, pelo que fquei um tantoinquieto,semsabercomointerromp-lo.Elenomedeixou escapar. Continuou dizendo que sabia que eu tinha uma busca espiritual CONFISSES DE AURLIO 271e que Iara me admirava pelos meus valores e ideais. Contou-me, ento, sem dizer aonde queria chegar, a histria de certo homem, que j em idade madura fora ao Tibete buscar respostas para os enigmas da vida. Lchegando,fcousabendodeumvelhomuitosbioquemoravano alto de uma colina e tinha vrios discpulos. o acesso pequena casa solitria era ngreme e sinuoso, o homem teve de ir a p, caminhando um dia inteiro at chegar ao plat, onde encontrou uma fgura muito simptica. Foi recebido com um sorriso singelo, logo tendo a impresso de que aquele sorriso j estava ali antes de ele chegar. o velhinho pre-parava o desjejum, a primeira refeio aps um longo dia de trabalho e meditao: um cozido de batatas, vagens e ervas de cheiro, tendo meia dzia de discpulos ao redor de si, todos inconfundivelmente nativos. No havia nenhum estrangeiro, notou o homem com ar de decepo.Achou melhor no fazer rodeios e disse ao sbio:Vimdemuitolonge,mestre,edesejoserrecebidoentreos seus discpulos.Masnoobteverespostasobreseupedido.ovelholhereco-mendou somente: Alimente-se bem, porque sua viagem de volta ser to longa quanto a de vinda.ohomemsesentoueesperou.Comeuepermaneceunaes-pera.Estavaconvencidodequeprecisavademonstrarperseverana. Mas o velho no mais lhe dirigiu a palavra. Por trs dias e trs noites, o homem fcou ali, espera de um sinal. Penou frio e fome, sem se deixar abalar, porque queria provar que seria um discpulo obediente.Apsoterceirodia,umdosdiscpulosdaqueleancioofere-ceu-lheoquecomer,avisando-oparairtercomomestrenumadas laterais do plat, de onde se podia desfrutar de uma vista ampla sobre toda a extenso do vale que se abria abaixo da colina. CAPTULO 27 272o velho o esperava totalmente imvel, em ltus, aparentando profundo estado meditativo. Ento, perguntou ao estrangeiro: Voc consegue sentir?Como o homem no soube responder, o velho continuou: Por milnios o rio da espiritualidade vem fuindo do oriente para o ocidente. V como dura minha vida aqui, com meus discpu-los? Todas as religies conhecidas nasceram dessa mesma forma, nos desertos,nasmontanhasglidas,nosimensoscamposdetrabalho. Aqui, precisamos jejuar, trabalhar sem descanso, dominar as dores do corpo em longas meditaes. As religies se inspiraram no trabalho es-piritual de homens como eu, e depois desceram pelos vales, semeando oscoraes,fazendobrotarfontesdevidanaspedrasdascidades.o corao espiritual do mundo batia no oriente.Fez uma pausa e perguntou novamente:Eagora,conseguesentir?Vocjejuouportrsdias,talvez tenha aprendido alguma coisa.Mas, percebendo o embarao do estrangeiro, prosseguiu: Veja, muito alm daquelas nuvens que parecem costurar os cuseaterranohorizonte,existealgumacoisapulsando.Eununca estivel,naverdadenuncafuialmdavilaqueseencontralogoali embaixo; nasci, cresci e envelheci aqui; ainda assim, posso afrmar com certeza que sinto algo pulsando vindo de l daquelas paragens. E onde est exatamente essa pulsao? perguntou, ento, o estrangeiro.o velho pediu que ele fechasse os olhos. E concluiu: A misria do mundo nos atinge. Atualmente, ela vem de todos oslados,daquiedali,smisria,guerras,egosmo,corrupo,uma buscainsanaporfelicidadenogozo,naspossesenoconsumo.Noen- CONFISSES DE AURLIO 273tanto,sevocprestarateno,vaisentirumacoisaboapulsando.Um corao. o novo corao espiritual do mundo est batendo e fca mais ou menos ali, veja disse o velho apontando o dedo para o sol poente. Ali onde? insistiu o estrangeiro. Voc brasileiro, no ? Que Deus te acompanhe.o velho se calou e desapareceu dentro de si mesmo em profun-da meditao.Terminadaahistria,meusogroapenassorriuemirou-meos olhos. Ficou assim, imvel, por um tempo que me pareceu demasiado lon-go,comoquemesperaareaodoouvinte,oucomoquemretomaseu prprio raciocnio para prosseguir na conversa. Ento me disse assim:Aurlio,umdiavocvaisecasarcomIara,eseuflhoser um brasileiro como ns. Desejo muito que voc conhea as riquezas da nossa terra, para que possa ensin-lo a beber da fonte.Sua inteno desde o incio, e para minha surpresa era uma s: fazer-me um convite. E eu, ligeiramente hesitante, aceitei. Uma re-cusademinhaparteseriadecertoinoportuna,jquesemmaisnem menos eu me tornava uma exceo entre udevistas. o homem me con-cediaumararssimaoportunidadeemecontou,naquelemesmodia, ahistriamticadaayahuasca.Bebemosochemsuaprpriacasa, noquartomaissilencioso,semsermosinterrompidosemtodanossa sesso particular. Portamo-nos de maneira descontrada, porm ritua-lizada, sendo ele o dirigente do ritual, responsvel por dar incio, meio e fm quela vivncia.Devo notar a nobreza de esprito daquele senhor. No me senti pressionadodenenhumamaneira.Nofuiincitadoemmomentoal-gumamefliarnareligio.Elemanteveatitudesneutrasemrelao a mim, embora eu percebesse a sinceridade de sua devoo. A histria CAPTULO 27 274que ouvi intercalada por trechos de uma gravao antiga na voz do fundadordaUDVmefezperceberqueanteseuhaviasubestimado oalcancedaayahuasca,provavelmentepelofatodequenapocado Daime eu era ainda muito jovem e no discernia o poderosssimo ins-trumento de transformao que ela .Meu sogro me preparou com algumas informaes prvias: Aurlio, no h registro histrico sobre a origem desse ch, que os incas chamavam de ayahuasca, e que ns aprendemos que ho-asca. Essa origem est inscrita na memria astral, e de l que se pode traz-la. Assimfez um homem, conhecido como mestregabriel, ms-tico fundador de nossa ordem religiosa. Ele traduziu em palavras uma histriaquepareceremontaraperodospr-diluvianos,nodeclnio dasantiqussimascivilizaesmatriarcais.Edigotraduziuporque, noplanoastral,amemrianoseapresentacomamesmalgicae linearidade da memria cerebral. Esse campo de conhecimento exige muitos e rigorosos estudos.No me assustei ao ouvir essas explicaes nem com o que vi, senti e compreendi no decurso de nossa sesso , no obstante, como notei um ar de receio nele, tpico de quem se arrepende do que acabou de falar, procurei tranquiliz-lo, quebrando o gelo: No me subestime, meu caro sogro, j li um bocado de lite-raturaesotrica.Noprecisafazeressacaradepudim!Issoquevoc falou no nada perto dos livros de teosofa.Brincadeirasparte,asessotevebomincioetranscorreu plena de luz. Ainda hoje examino a misteriosa origem desse ch.Para a histria ofcial, tal como me demostrou o pai de Iara na-quele dia, plausvel considerar seu uso entre os povos amerndios h pelo menos uns 3000 anos. Foram encontrados cacos de cermica da- CONFISSES DE AURLIO 275tados dessa poca com imagens gravadas de plantas e cips. Ayahuasca palavra oriunda do principal idioma do imprio inca, o quchua, com signifcado de cip das almas ou liana dos mortos. Em mais de se-tentapovosamerndios,ousodessechsagradoestincorporados tradies locais de maneira imemorial. Existem dezenas de nomes para ele, cada lngua tem o seu. Mas nenhum deles possui um saber objetivo sobre a origem, de modo que todos recorrem a lendas e mitos.o ch feito de plantas da foresta, o cip mariri e as folhas da chacrona. Essas plantas no tm nada de especial que as diferenciem facilmentedeoutrasplantas,cipsefolhasencontradasnamata.A chacrona, por exemplo, se ingerida isoladamente nem mesmo produz qualquer efeito. Ambas se espalham de tal forma por entre as milhares de espcies que seu reconhecimento se torna realmente muito difcil de ser feito. Somente mateiros bem treinados podem faz-lo.Tendoissoemconta,qualquerpessoasensataadmitiriao fato de que praticamente impossvel descobrir e unir essas plantas ao acaso. Existem milhares de plantas de todos os tipos na fantstica biodiversidade amaznica. A hiptese de que os povos antigos tives-sem o hbito de fcar recolhendo plantas, fazendo chs e combinando as plantas umas com as outras ao acaso remotssima e insana. Quan-tosmilharesdeanosteriamsidonecessriosparadarumdesfecho razovel a uma empreitada dessas? o que dizer de todas as combina-es possveis?Depoisdediscorreramplamentesobreoindigestoimbrglio queainvestigaodaorigemdaayahuascarepresentaparaacincia ofcial, meu sogro me advertiu com autoridade: V, Aurlio, aonde isso tudo nos leva? Preste bem ateno! Sendo j improvvel que um homem descubra uma receita dessas ao CAPTULO 27 276acaso, que dir da hiptese de que mais de um homem possa ter fei-to, tambm ao acaso, a mesma descoberta entre povos e pocas dis-tintos. Como pode ser que dezenas de povos conheam essa receita? povosdistantesgeogrfcaeculturalmente,povosquenemfalama mesma lngua?Eletinharazo.Somenteumingnuoadmitiriaexplicaes meramentecasuaisparaumfenmenocomoesse.forosoadmitir que,assimcomoahistriadaorigem,tambmaprpriadescoberta da receita da ayahuasca, na antiguidade, no pode ser satisfatoriamen-te entendida sem que se a veja como algo proveniente do plano espi-ritual.OchveiodohomemedeDeus:eisminhasoluoparadoxal.A decoco se faz com os compostos vegetais; no entanto, a origem est no homem e no mestre do homem: a origem a ligao com Deus. As plantas germinaram na terra, a vontade divina uniu.As verdades espirituais s podem ser contadas atravs de ale-gorias,metforaseimagens.Decertaforma,averdadeindizvel. Quandodigoolheparaalua,noreveloabelezadaLua,coisaque deveservistapelosolhos.Aspalavrasunicamenteorientamparaa verdade.Jesusfalavaporparbolas.Moisstransmitiuaalegoriado Gnesis para a humanidade. Da mesma forma, Mestre gabriel ensinou a origem da hoasca.No Brasil, o corao espiritual do mundoCom meu sogro, bebi o ch e vi, no tudo, mas vi muita coisa. onde?Namemria?Emalgumoutrolugar?Noseicomo,quando, onde,sseiquevi,nomistriodoesprito,nicaeexclusivamente devido infnita bondade de Deus. Vi e compreendi que a origem do CONFISSES DE AURLIO 277chnoseresumedescobertaaleatriadeduasespciesvegetais. Trago a convico de que a ayahuasca literalmente se origina da ligao espiritual do homem com Deus.QuemtrouxeluzsobreessahistriaencontrounaTerraum cenriopoucopropcio,facilitadoapenaspelopioneirismodeIrineu Serra,autordoDaime.Encontrouummundoemcrise,fragmentado, espiritualmenteenfraquecidopelomaterialismotecnicista,eencon-trou,apstantossculos,adoutrinadochdeverasenfraquecida, dispersaemdesconexosrituais.Porisso,acadavezquebebodessa sagrada fonte me vejo tomando parte num antiqussimo legado, e, pela responsabilidade que assim assumo, integro e fortaleo a nova onda de espiritualidade que corre o mundo.279.28.Setemandaquesejashumilde,nose manda que te faas besta. O que era Deus se fez homem; tu, homem, reconhece que s homem. Toda tua humildade consiste em que te conheas.Santo Agostinho, Sobre o evangelhode so Joo (25, 16)A curaAlpio assistia atnito a todo esse movimentar de placas por sob a geografa do meu destino. E o que mais o espantava era que, depois de tantosanos,pelaprimeiravezeudecidiacoisasimportantssimassem lhe pedir conselhos; eu demonstrava total segurana em meus atos. Aurlio, voc est diferente! Alpio deve ter me dito isso umas duzentasvezesnavida,atque,fnalmente,naducentsimaprimeira vez, o sentido mudou, ele s queria dizer que estava feliz em me ver mais frme, balanando menos com os ventos da inquietude do corao.o cordo umbilical fora cortado. Nossos encontros tornaram--se mais raros, embora sempre muito bem aproveitados pelo estudo b-blico que nos propusramos fazer desde Chardin. Ele s fcava sabendo CAPTULO 28 280poraltodemeusassuntosparticulares.Foisemcerimnianenhuma que anunciei, por exemplo, que decidira iniciar o projeto da cidadevir-tual.com. A mesma coisa a respeito de Iara. Eu simplesmente comenta-va os acontecimentos, de modo trivial, como quem joga conversa fora:Ah, Alpio! voc se lembra da Iara? Estamos namorando.ou ento: Amigo, conseguimos o apoio do Google! D c um abrao.A f comeava a mostrar seus efeitos em meu corao. ou me-lhor, eram os efeitos da convico, que quando a f realmente vem a mover montanhas. Constncia nos deveres e prtica fel: no h outro caminho, seno fazer o que se deve fazer. Sim, sim; no, no, tudo o que passar disso deve ser descartado. Meu interior se tornava um cristal.Conquantoningumpossamensurarseusprpriosmritos, para isso existem os amigos. Alpio alardeava os adventcios sinais: Mas se no o velho Aurlio! Cara, gosto da maneira como voc vem se portando no dia a dia, no trabalho, nos compromissos e, fundamentalmente, na palavra. Acho que por a mesmo: falar menos, ser mais verdadeiro, ser mais rigoroso e honesto no uso da palavra.Ao que eu completava: A palavra como a fecha disparada ao alvo.o alcance dessas transformaes pessoais jazia oculto de mim; mas era meu dever saber aonde queria chegar. Eu mirava nada menos que meu verdadeiro eu. Esperava a cura.Alpiochegouamequestionaralgumasvezessobreoqueeu entendia por essa ideia de cura, e nem sempre fui feliz na tentativa de dar uma resposta clara ao que ele queria saber. No entanto, houve um diaemquealcanamosumdilogomaisproveitoso.Estvamosass na casa dele. Na ocasio, respondi primeiramente assim: CONFISSES DE AURLIO 281olha,Alpio,noestoucertodepoderlherespondercom preciso,masachoimportantedaratenoaoqueagentesente.De uns tempos para c, venho sentindo mais estabilidade na vida afetiva, um corao mais limpo, uma clareza no campo mental. Parece que es-tou mais profundo.Ao que ele interpelou com genuno interesse: E isso tem a ver com a busca espiritual? Sim, claro continuei, agora bem mais motivado. E tem a ver tambm com nossa cruz pessoal, a gente precisa dela para isso. Que querdizerestarmoscrucifcadosnacruzdeCristo?Existegrandiosa sabedoria oculta nas cartas de Paulo. Disso ns sabemos, no mesmo?Alpio meneou a cabea positivamente: Tudo bem, Aurlio, entendo aonde voc quer chegar, mas es-tvamos falando da cura, lembra? Pode ser mais direto nessa questo?Uma interveno tpica do Alpio. Ele no abria mo de seu ri-gor acadmico. Mas eu tambm valorizava meus mtodos e sabia como fazer para o papo fuir melhor: Eu que te pergunto, meu amigo, como podemos fazer para integrar corpo, mente e esprito? Ento, voc est dizendo que precisamos de cura porque no temos essa integrao. Certo. Somos seres fragmentados? E no somos? Se no, o que que as pessoas fazem no consul-trio dos psicanalistas? No estou discordando de voc, Aurlio, fque tranquilo. Quero apenas que me d exemplos disso que voc chama de cura. Pode ser?Mas se no o velho Alpio! eu deveria ter dito. Alpio ser sempre Alpio. Uma pea. Discorde o quanto quiser! No conheo melhor adversrio que voc. CAPTULO 28 282oflsofolanouumdeseusolharesdesconfadoseapenas aguardou minha resposta. Quando estou com voc, Alpio, em nosso estudo bblico, por exemplo, eu estou ali e no em outro lugar. Estar integralmente. Isso no pouca coisa! A cura acontece quando o querer, o pensar e o sentir se unem num s ato. Voc no precisa concordar comigo. Isso o que eu venho buscando. Apenas examine para ver se lhe serve. Posso citar outros exemplos. No trabalho, procuro estar inteiro no meu lugar. Mi-nha memria, minha ateno, meu intelecto se colocam inteiramente aserviodeminhavontade.QuandoestoucomIara,noestoucom voc nem com Flora nem com minha me. Estar inteiro, fazer por in-teiro, pensar integralmente e querer integralmente.Meu amigo se levantou e foi at a janela em completo silncio. Tentei retomar a minha linha de raciocnio, mas ele fez sinal para eu esperar. Passados alguns minutos, retornou com seu veredicto: Isso que voc disse mesmo toda a cura?Alpio,vocumdoscarasmaisinteligentesqueconheo, diga logo em que est pensando deliberei.Eu sabia que ele faria a pergunta certa. Entendi o sentido psicolgico dessa integrao que voc fa-lou.Maseseasuainteno,notrabalho,porexemplo,form?Em outras palavras: um homem pode usar todo esse potencial tanto para o bem quanto para o mal? A mim, parece que est faltando alguma coisa.Minhafsionomiadenunciouquepordentroeuvibravacom sua perspiccia, porm, mantive a seriedade exigida pelo assunto:Eunoesperavamenosdevoc,Alpio.Estmesmofal-tandoalgumacoisa,porqueacuranosomentepsicolgica,mas fundamentalmente espiritual. CONFISSES DE AURLIO 283 E ento?Com um amigo assim no h caminho que se feche. A energia circula. Conclu clara e limpidamente: Para discernir os sentimentos, para ter bons pensamentos e para querer apenas o que convm querer, preciso limpar o corao. A cura espiritual no corao, porque ele determina o que somos. J era noite quando deixei a casa de Alpio. A caminho de casa, eu levava a impresso de ter lido recentemente algo conexo ao que tnhamos conversado.Vasculhavaamemria,mastalimprecisonoseresolvia. Apenas quando me recolhi entre meus livros, bem mais tarde, confrmei minha suspeita. Ao apanhar na estante um livro de poemas de Fernando Pessoa,acatandoasugestoaparentementecasualdaintuio,deparei com este poema de Ricardo Reis, um heternimo epicurista do poeta:Para ser grande, s inteiro: nadaTeu exagera ou exclui.S todo em cada coisa. Pe quanto sNo mnimo que fazes.Assim em cada lago a lua todaBrilha, porque alta vive.Eraisso.Meuesquecimentonotinhasidotoinvoluntrio assim. Eu no queria, de fato, revelar ao Alpio a fonte de minha mo-mentnea inspirao, j que ele dominava muito mais do que eu a obra desse grande poeta, to flosfco quanto mstico. Pensei em ligar para ele; mas, no. Fui dormir sabendo que no faria errata dessa omisso. CAPTULO 28 284O prazer da CruzVoltorecorrentementeaopoemadopoetaportuguse,par-tindodele,jmepusarefetirsobreassuntostodiversosquanto tica, magia, prosperidade, sade e evoluo. Sou assim. Em cada pen-samentoimprimoumpontodevistadrasticamentepessoal.Venho despendendo muitas e muitas horas em questes como: Deus amor? Como vive quem tem convico do amor de Deus?Acreditohojeque,jnaquelaocasiodaconversacomAlpio, eucomeavaadivisarumarealidadeflosofcamentefascinante,antes insuspeitada. Falo da paixo de Cristo e daquilo a que venho chamando o prazer da cruz. Por mais terrvel que possa parecer, creio que Jesus teve prazer em carregar sua cruz. Ningum foi mais autntico do que ele em toda a Histria. o Divino Mestre no poderia ter nos ensinado nada mais valioso, porque o homem jamais encontrar a felicidade seno na cruz.Ser autntico uma necessidade. Sou autntico quando carre-go minha cruz. Fao o que devo fazer. Sinto o que me surte sentir. Pen-sooquequeropensar.Querooqueamo.Souexatamenteaquiloque amo, procurando amar to s o que me convm. Ao que no convm chamomal,sendoeleaforadeumnadaqueresiste.Porissoquero minha cruz, porque no convm desejar o que no existe.A cruz no castigo. A cruz incio, meio e fm. o castigo nos pegasemprequeadeixamoscair.Religarequivaleacrucifcar,signifca estarpregadocomopartereintegradaaoTodo.Meucoraomedizque Jesus se crucifcou para mostrar-se ao mundo como ele realmente era, ou seja, como o Pai o queria. Por necessidade de impor uma defnio, digo que o castigo o sofrimento que nos atinge quando no somos o que verdadeiramente somos. CONFISSES DE AURLIO 285Pelo amor ou pela doro que fazer, ento, quando o castigo descer sobre mim? Agra-decer a Deus por me corrigir no caminho, revelando sua co-regncia.Sei que isso no fcil, ningum deseja ser corrigido. Aos jo-vens, principalmente, a ideia de agradecer a Deus pelo infortnio pode parecer aviltante e escandalosa. No mais das vezes, tendem a maldizer a vida quando o sofrimento lhes surpreende.L vou eu falar de Iara. E por que no, se tanto me apraz? s vezes caio no erro de querer ser seu tutor, mas isso quase nunca d certo, pois ela no cede, nem vai ceder to cedo, enquanto nela pre-dominaraquelaindocilidadedefmeajovem.Elamedomina,disso no tenho dvidas.Entretanto, na ocasio em que precisei trazer tona o assunto do castigo,elaestavainconsolveldevidoaumanotciaquerepercutiaem todos os meios de comunicao: uma jovem havia sido estuprada e morta ao voltar de uma balada na madrugada paulista. Meu sogro tambm estava por perto e me olhou capciosamente quando Iara levantou a bola: gente, isso um absurdo! A sociedade no pode assistir a es-sas barbaridades passivamente. Ser que Deus fca l em cima, parado, nahoraqueumapessoainocentesimplesmentearrancadadeseu carro e levada por psicopatas, sem a menor chance de se defender? Iara, as coisas no so bem assim... hesitei. mesmo, Aurlio?! e como que elas so, ento? Vai me di-zer que a culpa era da menina? Iara deu sinais de exaltao.Mas meu sogro veio em meu socorro: Minha flha, acho que voc est sendo arrogante.Ela disparou: CAPTULO 28 286 Mas, papai, voc sabe como o Aurlio ! Ele tenta complicar tudo com ideias flosfcas; tenho certeza de que ele ia comear a dizer que tem isso e aquilo e o escambau. No d! Simplesmente no justo, e pronto! E o senhor, o que acha?opaideIara,quenaverdadedeviaestarseperguntando Comoquemeugenrovaifazerparasesafardessa?,esquivou-se com um argumento paternal:oqueeuachoqueeunoiaquererverumaflhaminha andando por lugares ermos... Ah, ento a culpa dela! Iara esbaforiu.Ela parecia querer voar em cima de algum, como se projetas-se em ns a raiva que sentia dos homens, como se dentro dela tivesse sido despertado um antigo complexo de inferioridade, ou uma inveja fundamental, numa clara defesa da vitimizao do feminino. Mas eu a interrompi, e procurei orient-la da melhor maneira possvel:Parecequevocnoquerescutaraningum.Ento,vem frente, solte sua raiva. Pode me atacar primeiro, mas ao menos tente manter o respeito por seu pai.Ela baixou os olhos, e sua pele, antes avermelhada, recuperou a colorao normal. Ento continuei, ponderando mais ou menos assim:Deusfezomundoedescansou,Iara.Nofazsentidopen-sar que ele anda pelas madrugadas procurando quem precisa da ajuda dele,entende?Asociedadetemculpadafaltadeseguranapblica? Sim, claro, basta ver o que nossos polticos andam fazendo para con-cluir que tem muita coisa errada l fora. os criminosos tm culpa pelo que fzeram? Quanto a isso no h dvidas. Mas e a garota? o que va-mos dizer? Acho que o conceito de vtima s cabe no mbito jurdico. Na vida, somos autores, somos responsveis por nossas escolhas. o que CONFISSES DE AURLIO 287sabemos sobre essa pessoa, Iara? o que que ela andava atraindo para a vida dela? No sabemos. Mas sabemos que ela tinha ingerido lcool e, possivelmente, outras drogas na noite do crime. Sabemos tambm que ela andava sozinha na madrugada de numa cidade perigosa. E ento? Voc no est querendo dizer que ela merecia tudo aquilo... por favor?! seu tom de voz j estava mais manso. Consequncias, Iara, consequncias. s isso o que quero dizer. A gente comea a aprender quando entende que tudo tem consequncia. Mas como a gente faz para prever as consequncias de nossas atitudes?Agora ela tinha cedido, e isso raramente acontecia, ento, era a minha chance de pr fm quela controvrsia: Acho que seu pai vai concordar comigo, Iara. o caminho um s. Antes de tudo a gente tem de aprender a ouvir os mais velhos, nos-sos pais e avs. Se tivermos uma base slida, ser mais fcil aprender a sentir, sentir no corao aquilo que bom e separar daquilo que mal. E concordo mesmo meu sogro interveio, e no s com essa parte, mas com todo o resto. Voc falou muito bem. E tambm prefro apalavraconsequncia,quevocusou,palavracastigo,quetem mais a ver com a tradio catlica. Sim, senhor e agora eu j queria fechar aquele assunto, a palavra consequncia vai mais ao ponto mesmo. Toca onde tem que tocar. Mas no tenho problemas com a palavra castigo, no, no fundo elas podem ser usadas para dizer a mesma coisa. Penso que sem o cas-tigo eu no poderia distinguir o uso correto das coisas. Sem o castigo, eu desconheceria os limites da vida. Iara inacreditavelmente fez mais uma pergunta, no demons-trandomaisqualquersinalderecalcitrncia.Euhaviavencido.o amante capturava os olhos da amada: CAPTULO 28 288 Voc falou do corao, Aurlio, mas e para a flosofa, existe alguma regra para a gente saber agir bem?Agoraeupodiafalarcomtodaapompa.Efaleicomoquem lambe os beios:Sim,minhaquerida,esseumproblemamuitodiscutido pela flosofa. A resposta que mais me atende a seguinte: sofre o ho-mem que desconhece a diferena entre aquilo que deve ser usado para atingir uma meta e a meta em si. Usar e fruir, eis duas coisas que no convm confundir.A mulher da minha vidao pai de Iara parecia mais interessado em medir meu desem-penho do que em debater ideias. Ele conhecia a flha que tinha e devia estar curioso para ver a continuidade da conversa; tanto que, a partir do momento em que me propus a falar das palavras usar e fruir, ele se levantou e foi sentar-se numa poltrona na varanda, um pouco distan-te de ns. De l, ele fngia no nos escutar, fazendo as vezes de leitor compenetrado com um jornal que, pelo futuar errante de seus olhos, poderia estar de cabea para baixo que no faria a menor diferena. No me recordo de tudo o que falamos, mas nem por isso dei-xareidecumpriropropsitodestasconfsses.Ademais,aquelano foi uma noite qualquer, e fcou marcada para mim como uma data de grande importncia no meu relacionamento com Iara. Comecei por situ-la mais confortavelmente no problema flo-sfco. E citei assim um autor de nosso tempo cujo nome eu sabia que ela idolatrava. Foi uma boa estratgia para no perder sua ateno: CONFISSES DE AURLIO 289 Sigo mais ou menos a linha de um dos maiores sbios de nosso pas lancei a isca. Recomendo um livro dele de leitura muito agrad-vel,umbest-seller,noqual,emsuasimplicidadedeescritorsbio,ele aborda a distino entre usar e fruir. Quando o for ler, fque atenta para nodeixarescaparoverdadeirocortedalmina.obviopodedesve-lar as pedras preciosas da sabedoria, desde que se cuide de no deix-la ocultapelaindolnciadoolhar.oautor,nossotoqueridoRubemAl-ves, tratou de alertar seu leitor para o fato de que nem tudo o que til se resume ao aspecto prtico das ferramentas com que transformamos o mundo. E, solando suas melodiosas variaes, tambm anunciou que nem tudo o que gozo equivale doura dos sentidos. Por acaso foi nesse livro que voc viu aquela histria de pra-zer da cruz? Iara perguntou meio ressabiada. No, no, no vamos falar disso agora tratei logo de sepa-rarosassuntos,poissabiaqueaquiloaindaestavaentaladoemsua garganta. E continuei: Quando voc for ler Variaes sobre o prazer, do Rubem Alves, tenha em mente a seguinte pergunta: como a distino entre usar e fruir se aplica em nossas vidas? Est bem, assim fca melhor, porque pelo menos esse livro vai me servir para alguma coisa, ento. Iarapermaneceraimpassvel,eeunosoubeseelahaviare-almentemordidoaisca.Atodoinstante,apartirdali,eutinhadvi-das sobre se valia a pena insistir naquela conversa. Procurei desaf-la, tentei exercitar suas refexes, mas, ao fnal, permaneci sem resposta. ...talvezsirvahesiteiumpouco,simultaneamentega-nhando tempo e tentando adivinhar o que se passava na cabea dela. Voc costuma estimar o valor de um livro pela utilidade do contedo? Ah,Aurlio,nemsei!Sachoquenoprecisaflosofarde-mais ela respondeu na lata. CAPTULO 28 290Ao que eu contestei com candura: Mas voc perguntou sobre flosofa, lembra? Lembro!Masaflosofatambmdeveservirparaalguma coisa, no?Seeunotomasseafrente,odebatenoteriafm.Porisso tratei de ir direto ao ponto com um bate-rebate: Iara, me responda uma coisa: para que serve a beleza do mar? Para ver, eu acho... E voc por acaso fotgrafa profssional? No, mas eu gosto de ver. Voc gosta de ver uma coisa que no lhe serve para nada? ... gosto. E ento? Ai, nem acredito que deixei voc me fazer cair em contradi-o! Iara conteve o riso, como que fngindo impacincia. No se preocupe com a contradio. Apenas pense no porqu de voc gostar de ver o mar. Percebe? como contemplar a beleza por um espelho dentro de mim... ela havia hesitado alguns segundos antes de responder. olha! Minha mezinha das guas est virando poeta! Bobo.Ela baixou os olhos. A eu aproveitei para retomar a didtica: Existem dezenas de abordagens possveis em torno do tema que voc levantou. Podemos seguir Jesus e fazer do amor ao prximo aregraparaagirbem.oupodemospartirdoimperativocategrico kantianoeadotarregrasquensmesmosgostaramosquetodasas pessoastambmadotassem.Noentanto,hoje,euprefeririaqueno fssemos to longe, e que nos detivssemos somente na distino en-tre usar e fruir. Pode ser? CONFISSES DE AURLIO 291 Claro! Se voc trouxer informaes demais, vai acabar fcan-do tudo embolado na minha cabea, igual a um novelo de l ela falava com sinceridade, sem insinuar nada.Vamospuxarapontamaisacessveldessenoveloeverno que d propus. E respirei fundo antes de prosseguir: os utilitrios. Asferramentas.osinstrumentos.Meacompanhenesseraciocnio. Quase tudo o que til encaixa-se numa dessas categorias. o autom-vel deve me conduzir ao trabalho. o avio me despeja em outro cho. o liquidifcador produz vitamina de abacate. A lmina da navalha apa-ra minhas costeletas. o telefone celular encurta as distncias. A Web... ainda cedo para dizer.AWebserveparaasredessociais,ora!elasoltouumade suas deliciosas gargalhadas agudas e desajeitadas. J que voc est vontade com o assunto alfnetei, vamos dar mais um passo e difcultar um pouquinho as coisas. Veja bem: via-jar daqui para ali, falar com outra pessoa distncia, acessar o ciberes-pao,nadadissotemutilidadepredefnidaemminhavida.Essasfer-ramentaspossuemsomenteutilidadepotencial.Casoeunoatribua um valor especfco viagem que farei a Paris, no ser possvel pre-ver qualquer utilidade para ela, de modo que o avio oferecer muito menos utilidades do que simplesmente gastos, dispndio de recursos. Mas,de outra forma,se eu for a Paris para visitara biblioteca pesso-al de um ilustre cidado parisiense, e se essa visita for absolutamente necessriapararesolveralgumimpassequemepreocupeoesprito, ento, nesse caso, certamente o avio ser muitssimo til. No sei se peguei ideia. Me parece um pouco bvio que...Queautilidadesejaumfenmenodoolhar?completei, antecipando-mepropositadamenteaela,parainduzirseuraciocnio. CAPTULO 28 292Sim.Acontecealgosemelhanteaoolhardeumpaidiantededuas crianas parecidas, ambas com pele branca, cabelos loiros, olhos azuis. Somente a uma delas ele diz meu flho. Mas e se em vez de um pai ele for um sequestrador ou um pedflo? Exato. Este o ponto: a balana da utilidade o corao da prpria pessoa. bom nos perguntarmos sempre: estamos conscientes do que queremos? Voc acha que o mundo tem concerto, meu bem? lembro--me de que ela mudou repentinamente de tom. Existe tanto egosmo, crueldade, explorao... porque voc tem esse corao bom eu respondi sem he-sitar, olhando bem dentro dos olhos dela. E pela primeira vez no tive qualquer receio de dizer: Voc a mulher da minha vida.Depois de uns dois minutos de silncio ningum se atreveu a abrir a boca , ela apenas divagou: A vida tem que ser mais simples que isso... eu acho.E eu insisti no que julgava ser o essencial: A gente pode ensinar isso aos nossos flhos.Elasorriuefnalmenteserendeuaomomento,perguntando com simplicidade: De que jeito?Agoraeujpodiadizerqualquercoisa.Nossodestinoestava selado. Nem pensei, apenas deixei fuir:ora,mostrandoqueestamosaquiparaevoluirespiritual-mente, para que eles saibam discernir o que realmente tem valor. Isso mesmo... Iara parecia estar ali e em outro lugar, e seus olhos brilhavam como os de uma me que observa o bebezinho no bero. CONFISSES DE AURLIO 293 Eu quero que eles saibam fruir a beleza do mar, e um instante de flosofa, e um dia ao lado da pessoa amada, e a presena do sagrado dentro de si, e muitas coisas assim, que no servem para nada.Iara me abraou e, antes que eu continuasse falando, disse um desengonado Eu te amo. Depois sorriu e comentou que ns no ha-vamos concludo sobre a questo das palavras usar e fruir. Ela queria saber o porqu de eu ter dito que fruir no o mesmo que ter prazer. Achei aquilo lindo. Quase chorei. E, a meu ver, o fnal da conversa reve-lou nossa total sintonia: Vou fazer uma pergunta, e voc vai entender melhor: o que voc sente quando v a beleza do mar? Paz.Ao deleite de IaraAlimento o desejo de recordar absolutamente tudo. Entretan-to,nosouloucodemerevoltarcontraminhasprpriaslimitaes. Aquieto-me. E no silncio que a memria me surpreende. Neste exato momento, acabo de me lembrar de como fechamos a noite, eu, Iara e meu sogro, depois daquela verdadeira aventura dialtica que enfrentei portentarconduzirumajovemdedezoitoanosaregiesdopensa-mento onde o ar rarefeito. Retirei da estante o livro do Velho Sbio, Lao Ts, to antigo no tempo quanto atual nos seus ensinamentos, abri numa pgina qualquer e li: CAPTULO 28 294As cinco cores cegam os olhos do homem.As cinco notas o ensurdecem.Os cinco sabores viciam seu paladar.Correr e caar o tornam rude.Tesouros confundem o corao e difcultam o movimento.Por isso, o homem de vocao prefere o ventre aos olhos.Despreza os sentidos, prefere as entranhas.No me custa repetir que esse dia tem um signifcado especial emminhamemria.NospelodeleitedeIarameumaiormrito naquela conversa , mas porque foi a primeira vez que dormi em sua casa, no com o consentimento, e sim a convite de seus pais.295.29.Quando, no livro primeiro Sobre o retorno das almas, j quase no fim, Porfrio diz queaindanoencontrouseitaalguma quecontenhaasendauniversalpara alibertaodaalma,quenoachou semelhantesendanemnafilosofiamais verdadeira, nem nos costumes e doutrina dos indianos, nem na induo dos caldeus, nememqualqueroutrocaminho,enem tevenotciadetalcaminhopormeiodo conhecimentohistrico,estsemdvida confessandoexistiralgum,emboraainda no lhe tenha chegado ao conhecimento.Santo agostinho, A cidade de Deus (X, XXXII) o homem recalca o cho. Levanta quatro paredes. Cobre com telha de barro. Faz uma porta, duas janelas, e habita o espao que leva nome de casa. o homem no mais o homem. o habitante da casa e tem janelas para o mundo.s vezes fco pensando se eu seria o mesmo Aurlio se tivesse nascidoemoutrotempo,outromundo.Meujeitodesermeparece pouco suscetvel a infuncias externas como famlia, meio social e cul-tura. Ao menos, sinto assim. Sinto como se algumas tendncias fossem CAPTULO 29 296mesmo inatas. Minha ndole boa. Desde pequeno, sou um ser social, gostodefalar,perguntar,trocarideias,mastenhopoucatolerncia para imposies. Tive sempre uma opinio prpria sobre as coisas. Mi-nha natureza cosmopolita e expansiva; e minha mente, lcida, menos territorialista do que global. Sou um buscador.Aindanotenhoreligio.Maseseeutivessenascidoantes, bem antes, l nos tempos de um Constantino, o famoso imperador cris-to, aquele que fez de Roma uma igreja e da igreja, um imprio; teria sido eu um catlico? Teria sido padre? E bispo? No sei at que ponto o contexto histrico direciona as escolhas de uma pessoa.Nestesnossosdiasatuais,quasetudopareceperdido.Recebi uma herana espiritual em runas. Vi tanta gente vendendo verdades, tantosmestresautoproclamados,tantosguruseavataresmil,quej nemsei.Acrisemundial.Ningumsabeoquevemdepois.Parece--me completamente previsvel que, com tantas incertezas, um busca-dor espiritual rejeite o sacerdcio da igreja romana. No somos mais as criancinhas de Cristo. Sabemos demais. Ser esse o nosso crime?Pequena reflexo sobre amudana de paradigmasA nova vivncia com a ayahuasca veio para corrigir a impresso errada que eu mantivera dos tempos do Daime. Se eu pudesse retroce-der no tempo, diria a mim mesmo, nos tempos de juventude: Defnitivamente,aquestonosevocestounoest usando uma substncia psicoativa. o ch muito mais do que um sim-ples aditivo: uma chave espiritual legtima e poderosa. CONFISSES DE AURLIO 297Quanto s religies do ch, percebo em todas, cada qual com suaslimitaes,umimensopotencialtransformador.Elastrazema oportunidadehistoricamenteinditadefazersurgirumtipodereli-giosidademaisabrangente,porresgataremopassadoespiritualdos povosamaznicose,tambm,porseligaremaoutrastradiesreli-giosas e esotricas muito antigas. Acredito que, se o corao espiritual do planeta est batendo no Brasil, porque existe aqui um estado fa-vorvel de coisas capaz de promover a realizao de uma conscincia religiosa mais aberta. No Brasil, h um cenrio diferente, mais propcio ao sincretismo e abertura institucional.Anovaespiritualidadeayahuasqueiramuitojovem.Poren-quanto,bomcuidardelatalcomosecuidadeumbroto,parafaz--la forescer. Encarcer-la num dogma religioso seria como conter sua vitalidade,impedindoseucrescimento.precisopodarcomcuidado asplantasdessejardim.Anicapistaquetemosvemdopassado.E podemos aprender com ele. Historicamente, as plantas de poder ou plantasprofessorasforamsempreusadasdemaneiraxamnica,e isso signifca que elas precisam ser aplicadas por algum que tenha co-nhecimento e domnio, ou seja, precisam ser ministradas por um mes-tre educado pelo esprito da prpria planta. No h relatos de grandes instituies centralizadoras na histria do xamanismo. Cada xam tem uma linha, uma atuao e um foco de trabalho. Em outras palavras: o xam para todos, mas nem todos so para o xam.No mundo catlico, para se reunir milhares de pessoas numa mesma praa basta dizer: Habemus Papa!. Na realidade das atuais co-munidades evanglicas do Brasil, para se conseguir o mesmo efeito de unifcaoforosodizerHabemuslderes!.Existeumainfnidade de igrejas evanglicas, cada qual com seu lder, e, embora derivem de CAPTULO 29 298um mesmo tronco religioso, no seguem um padro de atuao e tm focos diversos de trabalho.No sou profeta. Apenas creio que algo semelhante acontecer com a expanso da espiritualidade ayahuasqueira. preciso haver um propsito para a descida de um avatar ao mundo. Pergunto: a que veio essa ayahuasca professora? Uma linha-gemdecientistasdeformaesvariadasconsideraumateoriaque supeousodesubstnciaspsicoativasnaorigemdahumanidade. Para essa teoria, os estados alterados de conscincia deram impulso humanizao das primeiras hordas selvagens. As substncias psico-ativas teriam sido importantes para a induo de mudanas na cons-cincia, na ateno e nos sentimentos. Atravs delas, eventualmente aconteciadeoselvagemexperimentarumareduodaadrenalina, simultaneamenteaumapotencializaodosefeitosdeoutrosati-vadores cerebrais, retirando-o do ciclo comportamental de ataque e fuga e produzindo uma boa-nova: o surgimento de estados mais refe-xivos e interiorizados de conscincia.Chamem-sedrogas,psicoativosouplantasdepoder,inde-pendentemente do nome que se queira usar, penso que h razo nes-sateoria,poisdeoutraformaseriamuitodifcilocorrerqueseres selvagens,tomadospelalutadiriadasobrevivncia,chegassema utilizar os potenciais latentes de seus crebros. A criatividade no inerenteaosanimais.Pelocontrrio:olharascoisaseveralmdas coisas um dom humano.Tive uma conversa sobre esse tema com um professor univer-sitrio, amigo de Alpio, que quase me execrou quando soube da teoria que eu estava defendendo. Tambm repudiou minha defesa das religi-es do ch. Era um catlico atuante, altamente conservador, e no se CONFISSES DE AURLIO 299dispunha a abrir precedentes. A certa altura da conversa, no podendo afrmar a falsidade ou veracidade da teoria do uso primitivo de psicoa-tivos, apelou para o discurso pastoral: Ainda que tudo isso fosse verdade, no mudaria nosso mun-do hoje. Sua teoria se refere aos primrdios da civilizao. Nenhuma planta pode nos dar a salvao. o povo no precisa de drogas; mas, de Jesus crucifcado.Primeiramente, limitei-me a contradiz-lo: Confesso que discordo completamente de voc. Acredito que hoje, talvez com maior intensidade do que outrora, precisamos muito de ajuda espiritual.Mas o sujeito quase perdeu a compostura, exasperando-se: Essa ajuda Jesus, Aurlio, Jesus!Eutinhatocadonaferida.Mascontinuei,porqueacreditava napossibilidadedeumasoluopacfca,ecomtodorespeitoevitei resvalar em humor sarcstico: Professor, no me leve a mal, mas estou falando de algo um pouco mais sutil. olhe o mundo como est! Precisamos de algo que nos ajude a sentir nossa existncia em profundidade, tamanha a crosta de superfcialidades sobre a qual caminhamos.Ele prosseguiu em seu ministrio infamado: Aurlio, Jesus quer ser seu amigo! s isso! A responsabilidade de aceit-lo de cada um. Por acaso voc acha que Jesus usou alguma droga para fazer os milagres que ele fez?Alpio,queapenasassistiaquelaconversa,decamarote, olhou-me sugestivamente, dando a impresso de que sabia que as di-vergncias entre mim e o professor estavam em vias de aumentar. As-sim, me senti vontade para falar com sinceridade: CAPTULO 29 300 No penso que Sidarta gautama, Lao Ts, Plato, Moiss, Je-sus de Nazar, contados entre os grandes espritos, tenham necessita-dodequalquersubstnciaparaalcanarelevao.Prefroconsiderar que a humanidade foi visitada por mestres que encarnaram aqui com a misso de conduzir os olhos dos homens para realidades mais altas. Ento, voc pensa que Jesus era um mestre, dentre outros? o tom de voz do professor no mais denotava qualquer afetao.Aquestoeralegtimaemuitograve.Tivedepesarminhas palavras: No, de maneira alguma. No estamos discutindo a encarna-o do Verbo. Mas penso que muitos mestres j desceram a este mundo, e os vejo como manifestaes da divindade na Terra. Cada qual trouxe a dose certa do remdio da alma; doses adequadas para tempos e culturas especfcas. Quanto a Jesus, falar dele historicamente uma possibilida-de que no ofende sua altssima representao na espiritualidade.Mas o professor no desejava chegar a um consenso, e insistia em distorcer meus argumentos: A Bblia no diz que Jesus receitou algum ch para seus disc-pulos. o que voc acha disso?Sendo assim, s me restava consentir em seu jogo: A Bblia no diz muitas coisas, meu caro amigo. Ela inclusive contm patentes contradies. Mas nem por isso deixa de ser a maior referncia espiritual e doutrinria para ns, do ocidente. Entende? Ali-s, ela no 100% confvel como fonte histrica. Para mim sentenciou ele com arrogncia.Seguiratofmnaqueledebateestrilcordialepaciente-mentejtinhaviradoquestodehonra.Porisso,retomeiemtom professoral: CONFISSES DE AURLIO 301 Voltando ao assunto do ch, concordo que Jesus no comete-ria uma insanidade dessas. Tudo tem seu tempo. Uma chave espiritu-al poderosa como a ayahuasca no deve ser difundida levianamente. A misso precpua dos mestres da antiguidade era elevar o estado civili-zacional dos povos, apartando-os da barbrie. Entende, agora? Eu no esperava sinceramente que ele entendesse. Voc fala bem, Aurlio, mas isso no o bastante. Est escri-to: creia nele e herdar a vida eterna. E voc, entende? Pode ser... suspirei antes de prosseguir. Mas, por via das dvidas,achomelhornofcarparadoesperandooprmionaoutra vida. Acho que foi Tiago quem disse que a f se conhece pelas obras. No foi? Umabravataparaencerraradiscussoeracompletamente previsvel. No deu outra:Novoudiscutirissocomvoc,Aurlio.Minhareligio atende aos meus anseios. Seja feliz. E aproveite bem essa vida, porque no haver outra.A j era demais. Fiz de tudo para no baixar o nvel, mas agora tinha direito a ao menos uma alfnetada: Vai l, meu caro, e se precisar pede para o padre mandar um recado para Deus.Ao que ele retrucou com inesperado bom humor:Pois,pelomenoseunoprecisodeumchparafalar com Deus.Deiumagargalhadatotalmenteespontneaeconstateique odebatetinhachegadoaumbomtermo.Fazeroqu?Senodara palavra fnal: CAPTULO 29 302 olha, eu no reclamaria se Deus enviasse uma ajudinha dos cus,aindaquefosseumaplantaparaeufazerumch.Acivilizao podeestarporumfo,meuamigo.Pensebem:comoqueapessoa vai fazer para sair de casa antes das sete, enfrentar o trnsito intenso, deixarosflhosnaescola,irparaotrabalho,aguentaromauhumor do patro, almoar s pressas, trabalhar a tarde inteira sorrindo para ochefemalhumorado,enfrentarmaisumengarrafamentoquilom-trico, pegar o flho na escola, chegar em casa e jantar mais uma vez s pressas, discutir as fnanas com o cnjuge, ajudar o flho com o dever de casa e, depois de dar uma lida numa apostila do curso de atualizao profssional que faz nas coxas, depois das vinte e trs horas, fechar os olhos e se elevar aos cus?A conversa estava deveras encerrada. Contudo, eu sigo medi-tando c commeusbotes. No preciso convencer ningumpara me fortalecer naquilo em que acredito. A meu ver, a pergunta legtima da lgica pastoral : como despertar as pessoas para a vida espiritual?queles que defendem seus dogmas, eu diria unicamente que preciso dar ouvidos aos anseios mais profundos da alma humana. Nos dias de hoje, aforam expresses de espiritualidade menos ortodoxas, fundadas mais na vivncia individual de cada um do que na massifca-o institucional, a ponto de milhares de pessoas poderem afrmar que acreditamemDeus, mesmosempertencer a nenhuma igreja. Deve haverumaprofundanecessidadeportrsdisso.Chegoacrerque,a olhos despertos, j se antecipam os sinais de uma nova era.Pode ser que, no auge de uma modernidade tardia, as pessoas estejamfnalmentepercebendooquoafastadasandavamdoverda-deiro eu. E, no que me cabe sonhar, aguardo o dia em que nos torna-remos maioria. CONFISSES DE AURLIO 303O novo paradigmaParadigma. Que palavrinha poderosa essa. Tem um pouco a ver com f e tambm move montanhas. No fosse o paradigma cartesiano--newtoniano, por exemplo, a cincia moderna no existiria, e o poeta maior do Brasil no teria chorado sua itabirana montanha de minrio de ferro, literalmente movida para alimentar a indstria siderrgica.Aprendiqueessapalavravemdogregoparadeigma(padro, exemplo, modelo), e de paradeiknynai (mostrar, representar). A etimo-logiasempreesclarecedora.Masnodparacompreenderopoder dos paradigmas sem considerar um dado fundamental: o crebro hu-mano precisa de certos fltros para funcionar. Algumas interpretaes prvias da realidade so necessrias para que nossos olhos vejam algu-ma coisa. Sem lentes, o mundo invisvel. Com lentes vermelhas, ele vermelho; com azuis, azul.Jsefalaemmudanadeparadigmashalgumasdcadas,e, ao menos em parte, o sucesso da indstria tecnolgica me parece ser responsvelporisso.Existeumacotadesofrimentoalimentadapelo espetculo trgico do forescer das tecnologias de destruio; e devi-do ao mal-estar e angstia que passamos a buscar alternativas.As populaes crescem, e a cada dia ns, os cidados comuns, nos sentimos mais alijados de nossa prpria voz. Eu, por exemplo, no passo de um latino-americano annimo, reduzido ao universo de seu prprio escritrio no instante em que se confessa. A sensao de que minha voz desaparece num abismo que comea logo ali, depois da linha que demarca as fronteiras desse territrio chamado casa, frustrante. CAPTULO 29 304E pior ainda saber que existem outros homens, apenas homens, im-perfeitoscomoeu,quetmemmosodestinodabombadomundo. No me contento com a tediosa funo de dar milho aos pombos. Se isso que querem de mim, esqueam! Hoje, falo comigo mesmo e com Deus; amanh ser o mundo. Ningumpodeconteromovimentodeideiasevontadesdagrande massa global conectada. Por ora, apenas me pergunto: como foi que eu tambm vim aportar nessa discusso de intelectuais? Ser excesso de digresso?Propriamentefalando,desdequemetorneiespiritualista, deixeideserintelectual.Portanto,parasuavizaresseefeitodees-tranhamento, em vez de falar dos livros que li, tomarei outra via para confessarminhafnonascituroparadigma.Querotrazeralgumas lembranas tona e ser menos abstrato.O relgio(primeira situao)Certo dia, saindo da casa do Alpio, fui ofcina de um antigo relojoeirodacidade:umsenhordemaisdenoventaanosque,desde tempos imemoriais, mantinha o mesmo ponto comercial no bairro. No meiodocomrciodamodaedastecnologias,sualojinhapareciaum enxerto fccional na realidade. Eu caminhava a p e levava um peque-no relgio de antiqurio comigo, comprado dias antes, uma pea linda que, contudo, precisava de alguns reparos.Eu me sentia estranhamente confuso. A enorme quantidade de barulhoserudosquetomavacontadasruasmedavaumasensao de desorientao no espao. No havia distino entre os sons que for- CONFISSES DE AURLIO 305mavam aquela massa compacta de vibraes. E assim sucumbi a uma espcie de afogamento sonoro. Suava frio e tinha sensao de morte. Via como estranhas as coisas que me deviam ser completamente fami-liares: pessoas e carros em movimento frentico, letreiros luminosos, homens de capacete transitando no alto de um edifcio em construo, vitrinesanunciandoqueimadeestoque,lojasdetelefoniaexigindoa compra imediata de seus imperdveis planos promocionais, carros do ano estrelando no balco do jornaleiro, o silncio neutro de um cida-do apressado que esbarrou em mim e seguiu sem olhar para trs.No entanto, quando entrei na relojoaria senti um alvio quase instantneo: da porta para dentro, uma coisa; da porta para fora, outra coisa. Algo parecido com o que acontece quando se vai a uma agncia bancria num dia quente. A mudana de ambiente me fzera bem, em-bora aquele senhor de cabelos brancos como nuvens no tivesse nem mesmo se dignado a levantar os olhos para me saudar. Fiquei parado esperando uma reao dele, e nada. Ento: Bom dia! falei em alto e bom tom.Ah,penseiquevocfossefcarparadoaodiatodosem dizer nada! - disse ele.o velho olhou de relance para mim e voltou a mexer concen-tradamentenumaminsculaengrenagemderelgiodepulsoqueti-nhaentreosdedos.Aproximei-me.Maltinhacolocadomeurelgio sobre o balco e ele j estava me enxotando dali: Deixe seu telefone anotado que eu te ligo quando estiver pronto.Perguntei em quanto tempo ele poderia entregar o servio, e ele respondeu: Acho que no passa de uns seis meses. CAPTULO 29 306Qualquer um fcaria insatisfeito com uma resposta dessas. En-to, questionei sobre o oramento. Ele se irritou: Meu Deus! o que que voc quer!? o que mais importante: o relgio, o tempo ou o preo do reparo?E continuou: Por que que as pessoas acham hoje em dia que tudo deve ser feito do jeito que elas querem, no tempo que elas querem e, ainda por cima, deve sair barato?!Medesculpe,senhorfqueiolhando,semjeitodedizer mais nada.Senti uma profunda simpatia por aquele homem. Apesar da re-cepo meio desajeitada e de seu aparente mau humor, eu estava com-pletamentevontadediantedaquelafguratoincomum.Altima coisaqueeuqueriaeravoltarparaoturbilhourbanodoqualtinha acabadodesair.Porisso,permaneciimvel,mesmocomoinsulto,e esbocei somente um leve sorriso. Claro que eu o havia desarmado, pois ele mudou de tom: Voc quer um copo dgua, flho? Senta ali que eu j vou dar uma olhada nessa belezura que voc trouxe para mim.Percebi que eu tinha sido aceito como cliente. Ento, fquei ain-da mais contente por estar ali com aquela pessoa. Que raridade! Ele esco-lhia seus clientes. Amava relgios antigos e os conhecia como ningum, sua vida pulsava naquela loja, sendo que, por isso mesmo no se dispu-nha a receber qualquer tipo que l entrasse. Eu presenciava um verda-deiro escndalo: um pinguim vivendo nas praias da Bahia, um tucano no Alaska, uma forma de vida rara apartada de seu habitat natural. A nica diferena que seu problema no era geogrfco, mas temporal. os anos tendiam a se acelerar desde a segunda metade do sculo XX, enquanto ele, nos lindes da inocncia, tinha decidido seguir seu prprio ritmo. CONFISSES DE AURLIO 307Conversamoslongamentenaquelenossoprimeiroencontro; ele, um velho nostlgico de tempos passados; eu, um jovem de trinta e poucos nostlgico de um tempo ainda por vir. o fato de que ramos duaspessoasvivendosimbolicamentedeslocadasnoinciodotercei-ro milnio nos aproximou. Cheguei a v-lo pouqussimas vezes, umas trs ou quatro, antes de ele deixar este mundo, no entanto, no receio dizerqueotenhocomoumamigoquerido.Quandoelemorreu,no chorei, apenas reconheci que ele merecia o descanso. Poucos homens so agraciados com uma velhice lcida e produtiva. A invalidez um dos males mais temveis. No sei ao certo a idade que ele tinha, mas sei que era muito, muito velho.Uma vez ele me disse assim: Aurlio, quando eu tinha vinte anos, eu pensava que o mun-do j tinha chegado ao pice da modernidade. Na verdade, todo mundo pensavaassim,agentenemtinhateleviso,masjviaoscarros,as indstrias,efcavapensandoqueaquiloeraomximo,queagente estava vivendo a era de ouro das tecnologias. Que grande piada!Meuamigorelojoeiro,quenogostavadelivrosdeflosofa, demonstrava ter, em sua serena sabedoria, lucidez sufciente para en-tender a crise mundial que se esconde por debaixo da falsa felicidade vendida pela sociedade de consumo. Em suas histrias, eu reconhecia exatamente o mesmo tema tratado pelos intelectuais: o esgotamento dos paradigmas vigentes.Quando ele aprendeu a consertar relgios, um crongrafo me-cnico Dubois-Dpraz era o que havia de mais avanado em termos de tecnologia relojoeira: bonito, barato e efcaz. Seu trabalho era fonte de orgulhopessoal.Eleescutavaomestrerelojoeirodizerqueorelgio merecia o ttulo de verdadeiro pai da cincia: CAPTULO 29 308Aartedamecnicarelojoeirafoipassadaparamimcomo um conhecimento esotrico. Eu no era um simples aluno: eu era um discpulo. Meu mestre era um homem grave. Dizia com orgulho que o universoumimensorelgio,eque,nele,tudocalculadocomona mais perfeita engrenagem.Meu amigo ainda se emocionava com suas velhas histrias:Agentepensavaque,talcomoinventaramorelgio,um diaoshomenstambminventariamummundojustoeperfeitopara todos:ummundo-relgio.Masotempoiapassandoeacinciano encontrava nunca a pea que faltava. A cada ano aparecia um relgio novo, um carro novo, um avio, uma metralhadora, uma bomba, uma frmula qumica, e o mundo nunca que fcava perfeito. Passei mais de trinta anos acreditando no mundo-relgio.Em meados da dcada de 60, meu velho amigo comeou a acor-dardaquelesonhoderelgio.Naverdade,comaditaduramilitar,o sonho virou pesadelo. E a partir de 1970, para piorar a confuso, passou a se perguntar: Que tipo de relgio o universo: mecnico ou digital?At que, por fm, concluiu que o mundo era mais complexo do que isso. Seu mestre estava morto, e ele j podia pensar por si mesmo. Confdenciou-me seus dilemas numa de nossas conversas:Eumeperguntavaporquehaviatantamisrianomundo, eporquetantasguerras,eosriospoludos,eafaltadeamorentre aspessoas;nadadissocombinavacomoidealdeummundoperfeito como um relgio mecnico.Um dia teve uma experincia quase mstica, inusitada. J era um homem maduro, com seus cinquenta e poucos anos, e foi tocado profun-damente por um rabo de lagartixa: CONFISSES DE AURLIO 309Meunetobrincavadeperseguiraslagartixasdacasacom um pote de vidro, coisa de criana. Uma vez quase conseguiu capturar uma, s que a borda do vidro pegou de raspo no bicho, que fugiu e dei-xou apenas o rabo. o moleque fcou feliz da vida, pois ver o rabo cortado se mexendo feito coisa viva era uma grande novidade para ele. Por dias, duranteanoite,euobservavaaquelalagartixasemrabopassearpelo teto da sala de jantar. Sempre gostei de lagartixas, pois, afnal, elas aju-davam a exterminar insetos indesejveis. o que aconteceu? obviamente voc j sabe, Aurlio. o rabo foi crescendo at fcar grande de novo. S que uma coisa me deixou intrigado. o rabo no cresceu tanto, fcou um pouco menor e mais grosso.Essaestranhapercepodesencadeouopontodemutao quealterouojeitodemeuvelhoamigoveromundo,vistoque,em suaantigaopinio,umanatureza-relgiodeveriafuncionardema-neira exata e previsvel:Seumapeafoiretirada,entoamquinadevesercon-sertada com a reposio de uma pea exatamente igual. Se as coisas fossemrealmenteassim,porqueorabodalagartixacresceriadife-rente? Ser que dava para prever esse fato, ou ser que era uma coisa imprevisvel?Eisaexperinciadelaboratrio:cortoorabodeuma lagartixaeobservo.Souumcientistaenoseidizerqualsersua forma fnal aps a regenerao. Meu amigo me contou que fez essas e outras tantas perguntas parasimesmo.Peloseurelato,suponhoqueeletenhafcadohoras remoendo o assunto: No dia em que notei que o rabo da lagartixa estava diferen-te explicou-me ele, meu mundo deu uma reviravolta. Imaginei um experimento um tanto quanto excntrico: e se algum pegasse todos CAPTULO 29 310os relgios do mundo e os ajustasse para marcar exatamente o mesmo horrio,comprecisodesegundos,porquantotempoelesseman-teriamemparelhados?Depoisdedezanos,qualseriaoresultado?o cientistaseriacapazdepreverquandoecomoumprimeirorelgio comearia a comer bananas?Eletinhamatadoacharada:ouniversonosimplesmente um relgio cartesiano-newtoniano. o universo uma teia de relaes muito complexa que guarda realidades insuspeitveis. Naquele dia, ele sentiuapresenadeDeus.Retirou-seemumcmododacasa,longe dosflhosedosnetos,echorou.Quantosrabosdelagartixateriam sido necessrios para fazer surgir a vida no planeta Terra? Duvidando do acaso, tanto quanto do puro mecanicismo, um homem maduro viu Deus e chorou. Eu tambm chorei durante a nossa conversa. Um velho de mais de noventa anos falando, com emoo, de como ele passara a ver tantas coisas lindas no mundo depois de ter presenciado o simples regenerar de um rabo de lagartixa. Isso no se v todos os dias.Meu amigo relojoeiro merece ser lembrado! Que Deus o tenha embomlugar.Muitasvezesmedesnorteavacompalavrasobscuras, lanava charadas, elaborava raciocnios obtusos: coisas de quem j pas-sou dos noventa. Quando eu chegar l, terei meus mistrios tambm. Mas ele pode estar certo se que a reverncia dos vivos importa aos mortosdequeaomenossuaparbolaprediletanoseperderno tempo. Essa eu guardo de memria. E fao de conta que compreendo. Brioso, ele a contava sempre do mesmo jeito, sem mudar uma vrgula: Era uma vez um sbio chins que um dia sonhou que era uma abelha do campo. Pela manh, resolveu plantar fores. A natureza en-trou em festa.Muito tempo se passou, e asfores do sbio cresceram CONFISSES DE AURLIO 311em vastas regies. Um marinheiro em viagem as viu, to delicadas, to perfumadas, e teve a ideia de presentear sua amada, que o esperava em um continente distante. L chegando com as mudas, plantou logo um canteiro, e foi recebido nos braos da mulher. Eles se casaram quando o canteiro foriu. Com aquelas fores, a noiva fez seu buqu. Porm, o beloarranjocaranasmosdeumamoapoucosonhadoraqueno desejava se casar, e que por isso mesmo se desfez logo da sorte inde-sejada, replantando-o num terreno baldio que era frequentemente vi-sitadoporabelhasoperriasembuscadenctar.odestinoquisque andasseporaquelasbandasumpequenoprodutorrural,apaixonado por apicultura. Ele no entendeu que fores eram aquelas que comea-ram a aparecer nas redondezas de seu stio, mas fcou zelando, porque percebeu que as abelhas gostavam muito delas. Esse homem prosperou e chegou a ser um importante produtor de mel. Ele era brasileiro. E foi assim que os brasileiros comearam a fcar mais sbios.Fim da histria.A conscincia planetria(apario de um kara)Tivemos apenas um brasileiro na comisso que elaborou a Car-ta da Terra, documento que procura elevar a conscincia ecolgica ao mesmo grau de valor da Declarao Universal dos Direitos Humanos. A car-ta foi concluda em 2000, o que mostra o quanto estamos atrasados.Poucacoisamudoudesdeento.Asociedaderesisteaparar tudo, colocando em sua porta a famosa plaquinha: Fechados para ba-lano. Abriremos amanh a partir do meio-dia. No entanto, nada to CAPTULO 29 312relevanteparaofuturoquantoodespertardaconscinciaecolgica. Estamos demorando demais para perceber que mudanas drsticas em nossoshbitoseatitudessefazemurgentes,eparaaceitarofatode que j cavamos boa parte de nossa prpria cova.H quase dois sculos, o sbio cacique Seattle profetizou o fu-turo trgico do homem branco. E ele no foi o primeiro. Chefe de duas tribos indgenas do territrio norte-americano, diante de uma propos-ta do governo para a compra das terras onde viviam, mandou dizer ao ento presidente Franklin Pierce: Mas como possvel comprar ou vender o cu, o calor da ter-ra? uma ideia estranha. No somos donos da pureza do ar e do brilho da gua. Como algum pode ento compr-los de ns? Decidimos apenas sobre coisas do nosso tempo. Toda esta terra sagrada para o meu povo.o cacique demonstrou a nobreza espiritual de seu povo; porm, foram precisos mais de cem anos para que o macho branco entendesse aquelas palavras. o chefe de Washington no foi capaz de corar a face e, obviamente, no chegou nem perto disso, tamanha era sua brutalidade de esprito. No tinha como ele se envergonhar, porque devia se sentir muito orgulhoso da superioridade de suas armas de fogo. Na verdade, ningumcorou.Paraoricomaomnorte-americanodosculoXIX, no fazia sentido dar ouvidos a um selvagem. Certamente, aqueles que de alguma forma se viram atingidos pelo discurso do pele-vermelha o presidente, senadores, empresrios, bispos, dentre outros escutaram somente as palavras idlicas de um pantesta que se sentia pertencente sua terra. o bispo altivo deve ter respondido: No, meu Deus no o mesmo que o seu.oburgusempreendedorprovavelmentepensoucomsua gravata: CONFISSES DE AURLIO 313 Esse ndio diz isso porque um preguioso, um acomodado que aceita as coisas como elas so. coitados, quo ingnuos foram ao tratar o cacique como um mero idiota representante de um povo vencido. Ele se identifca com a terra, ele pensa que flho da nature-za, ento vamos rir dele! disseram em surdina os aristocratas.No entenderam nada. Creio eu que o ndio no tinha a menor inteno de sensibilizar os brancos com sua viso mstica do universo; atporqueeleseriamuitoingnuoseprocurasseensinarespiritua-lidadepormeiodediscursos.ocaciqueagiucomoprofetaetalvez nem tivesse plena conscincia disso , no devia ter a menor preten-so de mudar as coisas. Antes de ver seu povo desaparecer da Histria, como juiz que escreve pelas leis do universo, por um ato de suprema inspirao anunciou a maldio do homem branco.Atualmente, j existe um nmero considervel de pessoas lu-tando para reverter essa maldio. Elas nadam contra a corrente, en-quantooutrasdiabolicamentepreferemrepetirosmesmoserros. Talvez seja tarde demais. Pode ser que em breve acontea de nosso lixo civilizacional ser varrido do planeta. E qual a origem dessa maldio? o progresso. Nas palavras do cacique, o homem branco aquele que deixa para trs o tmulo de seu pai e rouba a terra de seus flhos. Pelaleidaaoereao,ofuturodaraabrancaacabardepressa, porque, tambm disse o ndio, causar dano terra demonstrar des-prezopeloCriador.Fnebreconcluso:ohomembrancotambm vai desaparecer, talvez mais depressa que as outras raas. Continua su-jando sua prpria cama e h de morrer, uma noite, sufocado nos seus prprios dejetos. CAPTULO 29 314NoBrasil,umcasorecentedemonstraoquantooslderesoci-dentaisnoaprenderamnadacomaspalavrassbiasdaquelecacique Seattle. J no bastassem os desmatamentos insanos da foresta amaz-nica,ocerradotransformadoemcarvovegetal,apoluiodosriose mares, o trfco de animais silvestres, a pesca predatria, o superaqueci-mento global, e sabe-se l mais quantos crimes ambientais, os chefes de Braslia tambm resolveram comprar as terras onde habitavam vrias tribos indgenas para inund-las na criao de uma imensa hidreltrica. o rio Xingu vai se transformar num belo monte de dinheiro.osndiosqueseretirem!Ns,osbrancos,estamospouconos lixando. A gente passa por cima algum deve ter dito isso nos bastidores.Por acaso, eu estava de passagem por Braslia quando um grupo de representantes de aldeias afetadas pela barragem l se reunia para uma reivindicao frente ao Congresso Nacional. Assim, fui ao encon-tro deles, com intuito de fazer amizade, trocar ideias e, quem sabe, at deixar uma porta aberta para uma futura visita na aldeia. Sempre tive vontade de passar uma temporada com os ndios, para aprender com eles, viver como eles, ter contato com outra forma de ver a vida. Minha preferncia era pelos kaxinaw, yawanaw, shipibo, dentre outros, por seremayahuasqueirosdesdetemposancestrais;noentanto,parauma primeiraexperincia,euconsideravaapossibilidadedeaproximao a outras tribos tambm. Em Braslia, estavam os caiaps. E como eles tinhamfretadoumnibusdeexcurso,acheimelhorfcarporperto aguardando a sada.No momento oportuno, arrisquei: Cacique, com licena.Aproximei-medogrupo,quenomomentojsepreparava para partir. CONFISSES DE AURLIO 315 E voc precisa de licena pra qu? o ndio com cara de guer-reirorespondeu,mirandomeusolhosprimeiro,depoismepassando uma geral dos ps cabea.Senti-me um tanto constrangido, como se eu fosse um palha-o,porquetodososoutrosfcaramrindodemim.Rapidamenteele me reconfortou, mantendo sua dignidade de chefe: No se assuste, viemos aqui a trabalho, pra resolver proble-masimportantesdenossopovo,agoraosolnoestmaisnocu,a gente descansa, ento.Euquisdaraentenderquestinhaaintenodeconversar um pouco. Mas fui interrompido por outro ndio, nitidamente o mais velho do grupo: Curioso jovem branco tem bom corao. Mas nem sabe o que faz. No de povo caiap que voc precisa. Vai, vai logo! Ande por a.Notivetempodedizermaisnada.Quasetodosjestavam acomodadosemseuslugaresnointeriordonibus,quandoovelho ndio fez somente um tipo de beno sobre minha cabea e partiu.Comosoubeaquelepajquealgohaviadeacontecercomigo bem naquela noite? Isso ainda me parece coisa misteriosa. Talvez ele pudesse sentir os espritos rondando nossa volta. Talvez o vento so-prasse aos seus ouvidos.Eunopercebianadadiferente.Assimqueonibuspartiu, penseiemretornaraohotel,imaginandoquenodiaseguinteainda haveria algumas coisas a resolver antes de pegar o avio de volta para casa. Alm do mais, eu me sentia fraco, precisava urgentemente de co-mer alguma coisa, devido aos efeitos lancinantes de um jejum forado que j durava doze horas. CAPTULO 29 316Por algum motivo, comecei a me incomodar com a presena das pessoas transitando no local. Alguns eram turistas; outros, funcionrios encerrandoseuturnodetrabalho;qualquerumqueultrapassasseum raio mnimo de uns dez metros de distncia provocava um tipo de inter-ferncia que parecia me arrancar de um estranho transe. Eu contornava aobraprimadeNiemeyerpelapartedetrs,edevoterfcadoquase uma hora driblando pessoas enquanto, absorto, admirava a arquitetura. Fazia isso sem pensar em nada, s recebia as imagens que me chegavam aosolhos:asduastorres,acpulacncava,aoutraconvexa,agrama, as palmeiras imperiais enfleiradas. As palmeiras. Quando dei por mim, j estava no meio das fleiras, o nico lugar em que no havia ningum muito perto. Meio esgotado, sentei-me ao p de uma delas.o que confesso agora, Deus meu e dos meus ancestrais, somen-te tu o podes confrmar. Cheguei a acreditar que eu estivera alucinan-do em meio quela pequena foresta de palmeiras imperiais, provavel-mente devido ao cansao e fome. Contudo, por fm no pude evitar a constatao de que o acontecido fora inteiramente real. Confesso: tive contato direto com o esprito de um kara, um profeta e curandeiro do povo guarani, num encontro de mundos em que muito me foi revelado sobre a origem dos erros da civilizao ocidental.Eu estava de olhos fechados, com a cabea apoiada no tronco da rvore, quando escutei algum falar comigo: Aqui na casa de cacique branco no tem muita rvore, no mesmo?Abri os olhos e no vi ningum, ento chamei: Quem falou, aparea!No cheguei a fcar assustado, ao notar que a voz e o jeito de falar pareciam de ndio, s que, justamente por isso, fquei sem reao, CONFISSES DE AURLIO 317porque no havia a menor chance de encontrar um ndio perambulan-do por ali quela hora, cerca de nove da noite. Aurlio gosta de rvores? ao ouvir isso, vi um vulto surgir do meio das palmeiras.Sentou-seapoucosmetrosdemim.Eraumndioalto,mui-to belo, com o corpo todo pintado e completamente nu. Eu no o via muitobem,devidopenumbra,maspodiaescut-loperfeitamente, embora sua voz no parecesse vir de uma direo precisa. A voz vinha de todos e de nenhum lugar.Perguntei quem era ele e como sabia meu nome. A partir dessa perguntapormaisinverossmilqueissopossaparecer,tivemosa seguinte conversa: Quem fala kara ober. Se um sabe, todos sabem nome de Aurlio. Todos quem? perguntei com espanto.Ele apontou para o alto do prdio horizontal, onde se situam as duas cpulas, revelando-me uma cena extraordinria: centenas de ndios guardavam o contorno retangular da laje, e pareciam esttuas, imveis, velando por ns e por toda a grande rea em torno da Praa dos Trs Poderes. Foras do mundo espiritual. Proteo de irmos caiaps em luta. Ento fora diferente apareceu, bem forte, era voc. Kara v que Nhande-ru gosta de voc. Quando Nhanderu gosta de algum, ele passa misso.Na hora H a gente nunca sabe como agir. No consegui pensar em nada e apenas tentei parecer natural: Tenho a impresso de que, mesmo com esse exrcito, vocs noconseguiromudaracabeadospolticosquetrabalhamalina-quelas cpulas. CAPTULO 29 318o espectro me corrigiu: Nhanderu no deixa interferir no mundo material dessa maneira.Aoqueassentiprocurandoaomximonoferiramagiada-quele momento. Ento, o seu Deus tem uma misso poltica para mim, para eu ajudar o povo ndio?Mas fui corrigido outra vez:Cuidadoprafalardireito.DeusdekaraDeusdeAurlio tambm.Subiu-meumfrionaespinha.Contudo,respireifundoe,de olhos fechados, redobrei minha ateno, assumindo uma atitude con-trita e receptiva. o dilogo ento passou a fuir inteiramente dentro de mim, sem intervalos. Nhanderu no decide guerra de gente. Na terra nasce semen-te boa e semente ruim. Homem bom no precisa de ajuda. Homem mau precisa.Homemmautemquepagardvida,porquesenopagarele no melhora, no evolui. Tudo j vem pelas foras da natureza. Que so esses espritos que eu vejo? No vieram em auxlio dos caiaps que lutam contra a construo da usina? Sim. Proteo espiritual. Nhanderu falou pra limpar as for-as hoje. Limpar hoje? Ento assim? Hoje limpa, amanh no limpa? No tem nada ruim neste mundo. Tem plantio e tem co-lheita.Etemmilagre.Mastemqueterprovaotambm.Homem branconoinventouvacina?Nhanderutambmvacinaohomem bom, pra ele fcar ainda melhor e mais forte. o que as pessoas costumam chamar de injustia voc chama de vacina... CONFISSES DE AURLIO 319 Quem v maldade que pega. Voc um anjo? Kara ober esprito de kara, no anjo. Anjo nunca encar-na,porquejluz.oberbrilha,masnoluzpura.obercumpriu misso neste planeta h mais de quinhentos anos. Um dia ober volta com outro nome, outro povo, pra aprender mais. Eu aceito minha misso... Tempo de misso curto. Cacique branco toma muita deci-so errada. Medo de povo branco tem que acabar, porque se no acor-dar vai cair tudo junto. Nhanderu vai varrer esta terra. Mas... voc disse que Deus no interfere... Nhanderu manda luz pra quem pode ver. Seu povo precisa de profeta. Mas Nhanderu j falou tudo pra sempre. Se varre a terra por-que ela foi feita pra fcar limpa. Quero escutar a histria de sua ltima encarnao. Kara ober nasceu nesta terra pouco antes de homem bran-co chegar com suas caravelas e seus arcabuzes. ober era flho de kara e se tornou grande kara. gente guarani vivia em harmonia com a na-tureza, porque tinha seus kara pra guiar e no deixar perder ligao com mundo espiritual. gente gostava de andar no mato, de plantar e conhecer planta, de caar e pescar, de cantar e danar em volta da fo-gueira, de dormir com estrela. gente no conhecia trabalho. gente s vivia. Quando homem branco chegou, trouxe muito problema, porque homembrancosfaziatrabalharegenteguaraninoentendeu.Ho-mem branco derrubava foresta, erguia morada de branco, tirava ouro, mandava em tudo, e era isso que ele chamava trabalho. Trabalho era um jeito de viver, e era um jeito de fazer um lugar pra viver, como se Nhanderu j no tivesse posto tudo pronto pra gente. Homem branco CAPTULO 29 320tambm queria ter tudo de sobra: casa de sobra, terra de sobra, comi-da de sobra, utenslios e ferramentas de sobra. gente branca de sobra. ouro de sobra. Ento, por causa desse desencontro de pensamento, ka-ra ober viu seu povo ser dizimado pelos troves de fogo. Era tiro pra tudo quanto lado. E quando no era tiro era doena que matava. Eu conheo um pouco dessa histria... Sobrou pouca opo pra povo ndio. o jeito era fazer paz e trabalhar... ajoelhar em igreja... mas gente de esprito mais forte no aceitava essa situao, e como no queria morrer em luta, fugia cada vezmaispradentrodaforesta.Karaobereraguiaespiritualde uma parte grande desse povo que defendeu com bravura sua origem e sua liberdade. E qual foi o seu legado, kara? Nhanderu deu misso muito difcil pra kara ober. Ento, voc no cumpriu a misso...AmissojestcumpridaquandoNhanderudecidedara misso, porque vem da voz que comanda a natureza. Aquele que cum-pre misso que nunca sabe pra onde vai o pensamento de Nhanderu. Por isso entra na peia. Minha misso, ento, j est cumprida... Agora escute kara, s escute, a noite est fcando escura. Na hora certa, seu corao apresenta as ordens. Nhanderu manda explicar misso de kara ober, que foi quando Nhanderu mandou curar cora-o de guerreiro ndio, que estava muito sofrido e ia acabar morrendo. Sem corao um povo morre, a no fca nem histria. por isso que povondionodesapareceu,fcandoaindaumpouquinhodeespri-tonossoespalhadoaporessasmatas.Nhanderudeuvisoprakara emandourevelardiadedepoisdeamanh.Coraodendiofcava CONFISSES DE AURLIO 321curado porque via depois de amanh. E povo muito grande seguia kara ober, deixava colnia e ia pras matas escutar histria de Yvy Mar Ey, a Terra sem males, e depois de escutar no queria mais fcar perto de homem branco, porque no sobrava medo. Quem escutava histria de kara acreditava de novo na bondade de Nhanderu, no pensava mais que estava abandonado. E o que que ober mostrava no dia de amanh? o que tem a ver com essa Yvy Mar Ey? ober mostrava depois de amanh, dia de Nhanderu varrer a terra. Por isso acontecia cura, porque toda gente via que homem bran-conoconheciaDeusverdadeiro,queemnossalnguaNhanderu et, porque homem branco andava enganado por demnios. Mas kara ober mandava guardar segredo, e homem branco tinha que descobrir sozinho essa cilada de demnio. Assim o ndio contava uma histria di-ferente, histria da Terra sem males, que era uma maneira de amaldi-oar homem branco e aliviar um pouco da dor que se apegava na alma.omitodaTerrasemmales...osantroplogosfalamdisso at hoje e pensam que os ndios estavam deprimidos quando inven-taram essa histria; pensam que os ndios estavam falando do fm do mundo deles. Kara ober ensinou pra gente guarani mentira pra homem branco,ensinoupranoconfarnaamizadedebranco,porquesem-pre que ndio confava vinha traio. por isso que nos dias de hoje, quandochegaessetipoantroplogoemaldeiadendio,chovehist-ria... e vai tudo pro caderninho deles.Sim.Me diga, ento, qual era o sentido real do mitodaYvy Mar Ey?Cadaguerreiroquefugiacomkarajogavacruzdehomem branco fora, recebia beno de kara e recuperava nome guarani. De- CAPTULO 29 322pois disso, passava dias e dias cantando e danando. Boato que chega-va pros brancos era que tinha ndio fugindo pra buscar libertao na Terra sem males; que ndio cantava e danava esperando outro mundo, ummundoondeplantanascesemplantar,mandiocadfarinhasem moer e caa chega morta na mo do caador; um lugar onde ningum envelhece nem morre; onde no h sofrimento. Muitos faziam at pia-da de ndio, ignorando quem estava sendo amaldioado naquele ritual. NingumqueriaoutraterraquenofosseestadadaporNhanderu. Meu povo sempre cuidou pra manter ela do jeitinho que Nhanderu fez. Caar,pescar,construiraldeia,conhecerforestaefalarcomesprito de cada planta e cada bicho, tudo isso vida pro povo, no maldio. Maldizercoisadehomembranco.porissoquebrancotrabalha, porquenogostadanatureza,eporissotambmqueeledetesta trabalhar.Homembrancodizquecorponupecado,dizqueno parente dos bichos, diz que falta justia na criao e tem muito medo demorrer.AgoraAurlioentendequemquerealmentebuscaessa Yvy Mar Ey? Entende maldio de homem branco? Kara ober mos-trou depois de amanh, dia de ira, dia de Nhanderu descer pra ver se t tudo em ordem. Ento homem branco vai tremer. Arrepiei todo. Antes que eu pudesse dizer alguma coisa, perce-bi que o espectro havia desaparecido. olhei para o Congresso Nacional, eoexrcitodendiosnoestavamaisl.omonumentodesenhado porNiemeyerpermaneciaintacto.Sopravaumventocongelante,to-talmente inesperado tendo em conta o calor do dia. Era uma mudana climtica to brusca que, por um segundo, pensei que a Praa dos Trs Poderes fosse um deserto. olhando mais uma vez as duas cpulas, com astorrescentrais,impvidaseinsensveisaqualquerventania,senti meus ps como que descerem ao cho. Levantei-me. E me lembrei de CONFISSES DE AURLIO 323que na primeira vez que eu fora a Braslia acontecera um fato engra-ado: eu tinha pouco mais de dez anos de idade, minha imaginao ia a mil, ento cismei que aquelas cpulas pareciam muito com os pratos de uma balana. Patrcio no teve resposta quando perguntei: Papai, por que um dos pratos est virado de cabea para baixo?325.30.As almas dos mortos esto, pois, em lugar de onde nada veem do que se passa ou do que acontece aos homens aqui na terra.Santo Agostinho, O cuidado devido aos mortos (II, 13)Portanto,precisonoacreditarque todososdefuntos,semexceo,possam intervir nos problemas dos vivos pelo fato de, em certas circunstncias, os mrtires terem conseguido curas ou prestado outros socorros.precisocompreender,antes, que por efeito do poder divino que os mrtiresintervmemnossosinteresses. Poisosmortosnopossuemporsua prpria natureza tal poder.Santo Agostinho, O cuidado devido aos mortos (II, 16)O fio da espiritualidadeAsmaioressutilezasseconcatenamnosmeandrosdaalma humana. A existncia quase insustentvel. Precisamos refazer nossa morada todos os dias, pois como se habitssemos um castelo de areia amide inundado pelas ondas de um oceano desconhecido. CAPTULO 30 326Uma tragdia se aproximava em surdina, enquanto eu ing-nuo acreditava estar, a cada dia, mais distante dos tempos de tribula-o. Eu aceitava de bom grado os elogios de Alpio e at me exibia como umAurliodiferente,masparecianoverqueumaatitudeassim, exageradamenteautoconfante,quandosetratadavidaespiritual, costuma estar sujeita provao.Parans,humanos,nohnadamaisdifcildoquebendizer nossasdores.Semprepraguejamos.Semprelamentamosqueascoisas no tenham sido mais fceis. por isso que, enfm, me vejo em tempo de confessar que tambm sou um de ns: humanos demasiado humanos.Por longos anos ignorei os erros que me lanavam nas encruzi-lhadas da provao espiritual. Tantas e tantas vezes me queixei, chorei, lamentei, desisti. Enraiveci. Cometi todos os excessos. Houve sempre em meu corao, assim como em cada canto da casa do homem, a vaidade. No por nada que hoje estou aqui, nesta luta, fazendo destas confsses umaarmacontraoinimigo.Eletemmuitascabeaseomestredos disfarces;ardiloso,mutante,esoquenomudaseuplano,pois, seja qual for sua cara, a mordida busca interminavelmente o mesmo fm: subverter por seu prprio domnio a ordem vital emanada de Deus.Preparo meu corao para o que vem a seguir. o que estou pres-tes a confessar pe em prova a imagem que tenho de mim mesmo. No sei se sou quem penso que sou. De que me adianta dizer que o sofrimento a mola da evoluo espiritual? Vitria verdadeira no consentir com a insdia do inimigo: saber afastar todo dio, toda revolta, desesperana, descrena, censura, melindre, dentre outros tantos ardis.No entanto, falo ainda de antecedentes. CONFISSES DE AURLIO 327O dom de falar com os mortosMeu sogro, um esprita tarimbado, me explicou que a apario do kara fora obra do poder divino, e no da vontade do morto. Havia um propsito maior, a hoasca despertara minha sensibilidade: no mo-mento certo eu saberia o que fazer.Quandoumaportaespiritualseabre,nohretorno;voc no voltar a ser o mesmo advertiu-me.Anicapessoaquetambmsoubedoocorrido,almdopai deIara,foimame,quehseheinsenossassenhorasparte no demonstrou tanto interesse. Na verdade, ela andava meio estranha e parecia distante durante nossas conversas, embora se fzesse muito presente pelo afeto. Curiosamente me ligava quase todos os dias e in-sistia em que eu precisava visit-la com mais frequncia: tinha sauda-des, queria ter mais notcias, participar mais etc.Seria uma recada da crise dos cinquenta? Vontade de esconder o flho debaixo das asas? Algo me dizia que no era s isso... mas por que me preocuparia? Eu planejava tirar uma folga de pelo menos uns trs dias para fcar com ela. No tinha por que antecipar a visita, ain-da mais no ano mais produtivo da minha vida. Eu dormia cinco horas por dia. As outras dezenove restantes tinham de ser bem distribudas entre o trabalho com a cidadevirtual.com, Iara e os estudos. Jamais abri mo dos estudos. Deus testemunha de que pelo menos trs horas do meu dia so dedicadas quilo que chamo estudos: leituras, encontros com Alpio, palestras, pesquisas na web, refexes solitrias, meditao e prtica de exerccios espirituais.Certamente a carncia afetiva de mame podia esperar. Era o que eu pensava. Alm do mais, se eu no casse no erro de supri-la com minha CAPTULO 30 328presena, talvez ela acabasse encontrando algum. De um jeito bem sutil, eu tentava dar aquele recado que muitas mes detestam escutar: Mame, lembre-se de que seu flho foi criado para o mundo!Defnitivamente, eu no tinha tempo nem cabea para as ques-tes de Mnica. Eu mal comeava a elaborar o sentido de tudo aquilo que presenciara sentado ao p de uma das palmeiras imperiais do Con-gressoNacional.Karaober!Choreiquandodescobriquesetratava deumapersonagemhistrica.Comoeupoderiateradivinhadoesse nome, o nome do kara mais poderoso dos tempos iniciais da coloniza-o? Nem sonho nem fantasia, eu vi o kara ober: ele falou comigo e me fez entender a causa dos piores erros da histria do povo ocidental.Falei com o esprito de um homem morto h quinhentos anos. MeuDeus!issonoacontecetodososdias.Simplesmentenodava para eu me ocupar das questes afetivas de mame, no posso me cul-par por isso. o chamado era evidente demais para ser ignorado. A gente deve respeitar o mistrio, Aurlio. Somos instrumen-tos dele. Foi o mistrio que te trouxe aqui, e o mesmo mistrio me ins-pirou a dar o ch para voc. Agora que a porta se abriu, se prepare para seguir concluiu meu sogro.Foi justamente o que dissera o kara: quando Nhanderu d uma misso,amissojestcumprida.Notemjeitodefugir.Meusogro adiantou tambm que a pessoa sofre muito se tentar fugir ou se usar o dom recebido em benefcio prprio. Emprestou-me um flme chamado Biutiful, de mensagem clara e contundente. Belssimo. Entendi perfei-tamente o que ele queria me dizer.Mas eu no havia contado tudo ao pai de Iara, porque temia ser mal compreendido, mesmo sabendo que ele era um homem estudioso econhecedordasrealidadesinvisveisdouniverso.Somentedepois CONFISSES DE AURLIO 329de ter assistido ao flme, contei-lhe que minha cabea parecia um tur-bilhodevozes.Aquilomeatormentava,e,logicamente,meumaior medo era a esquizofrenia.Fui levado casa de uma senhora muito idosa e que era conhe-cida por ter o dom de falar com os mortos. Muitas pessoas a procura-vam em busca de contato com algum ente querido j falecido, motivo peloqualsuacasaestavasemprecheia.Lchegando,lembrei-medo seuZRezador:aportadafrenteencontrava-seaberta.Depareicom uma pessoa muito amvel, de olhos mansos e mos quentes. Recebeu--meintimamente,emvezdemeincluirnoatendimentogeral.No quarto,camarstica,espelhodeparede,tapetedecroch,mesape-quena,jarrodgua,Bbliadebolso,terodepedrascinzentaseum chumao de folhas e razes aromticas; nas paredes de cor azul claro, a cruz do Senhor, a imagem de Nossa Senhora e a foto envelhecida de uma menina. Nada mais, tudo muito simples.Aconversanodemoroumaisquemeiahora.Elamecontou que seu dom aparecera na infncia. Na poca, seus pais pensaram que era doena, porque ela ouvia vozes o tempo todo e parecia muito con-fusa. Talvez tivesse sido trancafada nalgum manicmio, no fosse a in-terveno de uma velha benzedeira da regio, que orientara a famlia e passara a tutorar a menina, ensinando-lhe um jeito de se proteger das vozes. A benzedeira repetia insistentemente: use seu dom para o bem.Eu me sentia apaziguado dentro do quarto dela, diferentemen-te da sala de visitas, onde havia me sentido como se eu fosse o prprio MurodasLamentaes.Elariudessacomparao.Etudooquepde fazer por mim foi me ensinar a afastar as vozes com oraes e a limpar os ambientes atravs de alguns rituais especfcos. Tambm me expli-couquenormalmenteosdonsgenunosaparecemnainfncia,eque CAPTULO 30 330em casos como o meu o dom costuma ser recebido com algum prop-sito. Quando o propsito se cumpre, assim como veio, o dom se vai. Siga em paz, meu flho! ela me abraou e no aceitou o di-nheiro que eu quis deixar sobre a mesa.O carma de vidas passadasSe eu no conseguir agradecer ao meu Deus pelo que irei con-fessarapartirdeagora,tereisucumbidonestavida.Pensoqueseja este o grande objetivo destas confsses: atingir o grau da mais profun-da gratido em meu corao. No bastaria somente me conhecer nem to s perdoar e ser perdoado, quando, na verdade, necessito me pu-rifcar. E por qu? Porque no posso fcar em cima do muro. o corao dos homens campo de uma batalha imemorial.Confesso que sei quem fui. Recordei vidas passadas. Confesso tambm que quase no suporto a dor desse conhecimento.Era uma noite fria. Novamente eu estava em jejum havia quase vinte e quatro horas. Uma tempestade aterrorizava a cidade, enquanto eu,sentadoemmeioaalmofadasespalhadaspelotapetedasalade estar, lia luz de velas o Evangelho de Joo. Sincronias ou coincidncias parte, eu desejava um xtase ou qualquer coisa que pudesse me fazer contemplaroamormsticodeJesus.Desejava,isto,noalcanava. Distante de qualquer contemplao, no plainar dos devaneios, eu ima-ginava coisas e flosofava: Teria o mestre dos mestres experimentado as vrias formas do amor? ou teria amado a todos com o amor divino que no distingue nemnomenemraanemsexo?ComodevetersidooamordeJesus por sua me nos seus tempos de criana? E o amor do discpulo amado CONFISSES DE AURLIO 331ao qual se refere o texto joanino? Seria um amor diferente do que ele tinha, por exemplo, por seus inimigos? Acudia-me apenas a resposta do eco que reverbera no silncio.No extremo das indagaes, eu procurava em mim o amor que o Mestre ensinou a Pedro, quando por trs vezes perguntou se o dis-cpulo o amava. Um amigo havia dito a mim e a Alpio que o Evange-lho, escrito em grego, no usa os mesmos verbos nas trs perguntas. E advertiu-nos tambm que, por uma vicissitude da lngua portuguesa, a traduo trai a boa-nova, ostentando apenas o mesmo verbo amar.o ltimo ensinamento do Mestre ao discpulo foi a respeito do amor: Pedro, tu me amas? eu meditava nesse ensino esotrico quando, repentinamente,algoatravessoumeupeitocomoumaseta,causan-do um aperto, uma angstia. Imediatamente pensei em mame e senti uma estranha preocupao. Se antes eu meditava concentrado, de um segundo para o outro fquei inquieto.oqueacreditoserumasincronia,paranodizerinterveno divina,temavercomaconjunturamgicadosfatoresquesealiaram para tornar aquele momento propcio. Se eu no estivesse ao menos um pouco guarnecido pela luz do amor de Jesus, provavelmente no supor-taria toda a carga de memrias, afetos, conhecimentos e responsabilida-des que me foi confada naquele dia. Imagino que teria me matado. No entanto, quando Deus d uma misso, a misso j est cumprida.Poisbem.Quandofuiinterrompidopelaangstiarepentina, euteciaoseguinteraciocnio:JesusensinaaPedroamaisaltameta da espiritualidade quando o faz responder por trs vezes se o ama. Em grego, de acordo com a explicao do meu amigo, gape o amor di-vino,daplenitudeedadoao,contrariamenteaEros,queoamor tpicodoplanodadualidade,equeparecederivardacondioexis- CAPTULO 30 332tencial faltosa e inacabada em que o ser humano se encontra. o Mestre pergunta por duas vezes: Pedro, tu me amas? utilizando aqui o verbo agapo, cor-respondente ao substantivo agpe.Ao que Pedro responde:Sim,euteamoempregandooverbophilo,correspon-dente ao substantivo phila, que o amor semelhante amizade, com uma denotao de apego.A mente de Pedro no consegue, ainda, compreender o sublime amor: o agpico. Por esse motivo, Jesus pergunta pela terceira vez, bus-cando adequar a questo ao grau do entendimento de seu discpulo: Pedro, tu me amas (ou seja: philo) mais do que tudo?Eu lia e procurava extrair o sentido espiritual do texto de Joo: depoisdaterceiraperguntaoapstoloseentristece,comoqueenfm compreendendoqueaindanoestpreparadoparaoamorcsmicoe transcendental de Jesus. Seu intelecto s alcana conceber o amor como afeto por alguma coisa ou pessoa. Mas no me parecia conveniente in-terpretar a atitude do Mestre como um tipo de teste. No. Eu enxergava adoutrinaoimportantssimaqueseescondeportrsdesseepisdio bblico aparentemente banal. Jesus no apenas perscruta a fdelidade do discpulo que fundar a Igreja na Terra, mas anuncia o cume da escarpa rochosa que todos os homens devem escalar: o verdadeiro amor de Deus. Com isso Pedro cai em si e vislumbra duas coisas: o quo longe se encon-tra de tal cume, e o caminho revelado por seu mestre. Nenhuma outra via para se elevar at gape, seno servir ao prximo com total devoo: Apascenta minhas ovelhas. No se trata de um pedido qualquer, mas um pedido repetido trs vezes pelo Filho de Deus. Ento,comoeuiadizendo,fuiinterrompido.Emqueponto? CONFISSES DE AURLIO 333No exato momento em que meditava sobre o sentido da vida humana neste planeta.Repentinamente comecei a me preocupar com mame. Achei aquilo muito estranho e at tentei afastar os pensamentos negativos, no ser muito supersticioso; contudo, a angstia aumentou, e o aperto no peito transformou-se numa dor aguda, semelhante a um corte ou amputao de ummembro.Decidi telefonar paraela assimque ama-nhecesseeadormeci,tomadopormemriasvvidas.Tiveumsonho lcido. Eu revivia momentos signifcativos de minha histria com M-nica, desde o comecinho.O padreNo sei por quanto tempo dormi. Tambm no sei se acordei realmente ou se estive simplesmente a sonhar. S sei que abri os olhos no meio da madrugada e vi um homem em p ao meu lado. Eu havia adormecidonotapetedasala,sobrealmofadas;otalhomempairava bem ao meu lado, olhando-me de cima para baixo. Tremi, embora no tenhaconseguidoesboarqualquerreaofsica;apenasnoteiquea fguratinhaumchapelo redondodeabaslargaseusavaumabatina depadre,adornadacomumcolarinhoengomado,umabatinanegra daquelas que hoje em dia s se v em flmes de poca.Depoisdaapariodokaraoberedosavisosdaquelam-dium caridosa, eu j esperava mesmo o prximo contato. Ento, logo que me senti mais consciente da situao, abri bem os olhos e encarei o espectro. Aguardei. A primeira coisa que ele disse foi: Me perdoe, meu flho, me perdoe... ele fazia o sinal da cruz enquanto balbuciava essas palavras. CAPTULO 30 334Ainda sem poder me mover, vi algo como uma tampa se fechar sobre mim. Um estampido seco. o breu.Em seguida uma cena se apresenta. Um caixo branco dentro de uma igreja, perto do altar. Pessoas em torno. Intuitivamente sei que algumas daquelas pessoas so meus pais e meus irmos, e sei tambm que, dentro do caixo, o cadver sou eu. Algum reza em latim. o pa-dre! Estou no ano de 1819, na comuna de Thann, regio da Alscia. A partir da, sigo como mero expectador das fragmentadas cenas de um estranho flme.Vejo o padre num confessionrio, mas ele quem se confessa. Reconheo pela indumentria que do outro lado da grelha se trata de um bispo. o padre tenta desesperadamente convenc-lo de que merece uma punio pblica. Ele se acusa, diz que culpado, que sempre este-ve consciente dos seus atos pecaminosos e que isso aumenta sua culpa. o bispo, por sua vez, parece querer amenizar a situao: Seria um escndalo para a Igreja, esquea isso! Voc deve re-tomar sua vocao com o propsito de no pecar novamente; e, alm do mais, somos todos pecadores, meu flho. No se lembra da doutrina do pecado original?o padre insiste em deixar o sacerdcio sendo punido publica-mente. o bispo fnalmente perde a pacincia:Eoquequevocquer?Afogueira?Nosejatolo!os tempos so outros!Agora o padre chora: Eu no sou digno da cruz do nosso senhor Jesus Cristo.E recebe mais demagogia eclesistica como resposta: Somos todos herdeiros do erro de Ado; para no pecarmos, devemos nos manter longe da tentao. E quem lhe garante que no CONFISSES DE AURLIO 335foi o garoto o provocador da concupiscncia? Eu mesmo nunca con-fei na vocao dele.opadrebaixaacabeaejnochoramais.adeixaqueo bispo parece desejar: Vamos pesar a mo na sua penitncia. Voc sair mais forte dessa tormenta. Quem sabe no seja o caso de usar o velho recurso do suplcio da carne... ainda temos guardados no poro da parquia...Apesar de entrar em desespero, o penitente que j no conse-gue impedir seus ossos de tremerem a esmo assente subalternamen-te sentena de seu superior.Acenaseguintefazumretornonotempo.Vejo-mecomdez anosdeidade.Estoucomopadredentrodeumasalaampla,ilumi-nada, uma sala muito bem mobiliada, e ele se incumbe de ensinar-me latim, porm, no est contente comigo, porque tenho difculdade com a pronncia das palavras. Comeo a chorar e peo que ele no desista de mim. Meus sentimentos so confusos, tenho vergonha e medo; suas opinies tm enorme peso para mim.Noseideondevemestainformao,quesurgecomolem-brana:souumacrianaprovenientedeumafamliapobreesonho com a realizao de minha vocao religiosa. o padre meu tutor espi-ritual e intelectual, costumo auxili-lo na parquia. Na verdade passo a maior parte do meu tempo lidando com as coisas da Igreja.Mais um corte de cena e agora estou de joelhos diante de um altar.Aoterminarapenitncia,souchamadoaosaposentosdomeu tutor. Sei que ele no est contente comigo, pois ao encontr-lo escuto uma forte reprimenda. Ele insinua que, se eu no me esforar mais nos estudos,sereidevolvidominhafamlia.Estoudecabeabaixacom os olhos cheios de lgrimas, no digo uma palavra, sinto um aperto no CAPTULO 30 336peito, uma mistura de pena e dio de mim mesmo. Tenho vontade de mepuniredigoissoaopadre:acuso-medeindolncia.Elefngeme acalentar dizendo: Deus sabe o que faz. Se voc no alcanar o sacerdcio, Ele haver de prover alguma forma de voc exercer sua vocao.ouvir isso pior do que receber uma facada no corao. Deses-pero-me s de imaginar as portas se fechando para meu maior sonho.Aquele que deveria ser meu tutor espiritual comea a se com-portardeumamaneiraestranha.Seurostoempalidece,esuasmos tremulam languidamente. Com uma voz titubeante, ele tenta me acal-mar dizendo que nem tudo est perdido, ao mesmo tempo em que me abraa e comea a acariciar meu corpo. Estou completamente confuso e minhas vistas se escurecem. Temo pelo que vai acontecer.Enquantocontinuoassistindoaopadretocandomeucorpo, agora me obrigando a tocar tambm em seu sexo, me recordo de que por muitas e muitas vezes ele fez a mesma coisa comigo. J conheo o desfecho do ato. E pior, me sinto culpado por isso. De modo que ainda procuro um ltimo recurso de salvao e pergunto, inutilmente: Padre, Deus no vai me castigar?Ele no para de me tocar e responde, agora sem titubear, com olhos de lobo e voz doce de cordeiro: Deus perdoar, lembre-se da doutrina do pecado original, a carne fraca...Notenhomaisnenhumalgrima,apenasmeentregocomo marionete morta.o flme continua. Vejo-me nu, adormecido sob a luz tnue do entardecer. Pareo exausto. Algum est se aproximando da porta pelo lado de fora, mas o padre no escuta, porque est ocupado no lavatrio CONFISSES DE AURLIO 337fazendo sua higiene ps-coito. o bispo entra sem bater porta e sur-preende uma beleza imberbe estendida lvida sobre uma cama desar-rumada. De pronto, esconjura aos berros: Ai, meu santo Atansio, protege meus olhos do demnio!Ao escutar o grito do bispo, o padre rapidamente se recompe e vem correndo do lavatrio: Monsenhor, louvado seja Deus que o trouxe aqui, o caso grave!Acordocomobarulhodasvozesefcoamedrontadoquando vejoobispo,pois,poralgummotivoobscuro,acreditoquecometium gravssimo crime. Minha mente infantil e sem discernimento; nenhu-mapalavrasaideminhaboca;somentemeusolhosmidosimploram pela interveno do bispo em meu favor. os dois esto calados. o padre parece ver sua prpria alma em chamas e tem os olhos vidrados tal qual presa entre os dentes da fera quando, estarrecido, observa seu superior sair do aposento sem dizer palavra. o bispo retorna em poucos minutos e traz consigo uma pequena urna de prata. Retira de dentro dela um mi-nsculo frasco de vidro cheio at a metade e serve numa colher algumas gotas do lquido esverdeado ali contido. Seu olhar frio e diligente, lgu-bre e repleto de ira; tenho a impresso de que sou odiado por ele, embora transparea que ele age como quem, diante de uma catstrofe iminente, cumpreonecessrio.Eledizqueprimeiramentedevosermedicado,e que depois do meu repouso conversar comigo. Bebo um lquido de gos-to amargo. Em poucos minutos, desapareo em espasmos.Novamente estou dentro do caixo branco e vejo minha fam-liachoraraperdadeseultimorebento,aquelequemaisorgulhava sua casa, por ter nascido com a mais alta das vocaes: num dia enso-larado de tanto sonho, aquele flho seria sacerdote da santssima Me, a Igreja. Sussurrando aos ouvidos do defunto, a voz do padre: CAPTULO 30 338 Me perdoe, meu flho, me perdoe...Squedessaveznoescutovozdehomem;ressoaumavoz feminina muito familiar. Ai, meu Deus... a voz de mame...339.31.Fechei os olhos, e uma tristeza infinita invadiu-me a alma. Santo Agostinho, Confisses (IX, 12)Elucidando o carmaAidensquevivemosnestemundotoapartadosdenosso Pai!Longoesinuosoopercursoquednooceanodaluz,dapaze do amor divinos. Aqui, no incio da estrada da eternidade, neste incio queparecenoterfm,sentimosadordecadaespinho,tropeamos emcadapedra,contorcemo-nospelosdesviosenosperdemosnum emaranhado de ns. No podemos fugir ao acerto de contas; todo ato se consome em si mesmo.Vi tudo. No tive escolha. Fui forado a isso, mesmo sem jamais terintentadorelembrarencarnaespassadas.Viosignifcadopro-fundo dos acontecimentos da minha vida, e os vi como oportunidades misericordiosas de aprender o no aprendido, de curar feridas abertas, de dissipar memrias acorrentadas, de prosseguir numa peregrinao interrompida.Comecei,sim,avislumbrarosentidoespiritualdemi-nha ligao afetiva com Mnica, inseparveis como sempre fomos, e o CAPTULO 31 340carter intempestivo e solitrio dessa minha interminvel busca, cal-cada numa substancial ambivalncia de sentimentos para com a Igreja; e, ainda, entrevi a dvida crmica que uma vocao interrompida injus-tamente tende a erguer.Vioquetinhadeservisto,mas,noobstanteapreciosidade daquelemomento,meupeitoaindaresfolegavaafito,ealgomedi-zia que no adiantava pensar muito, pelo menos no ali, ilhado entre almofadas e livros. Antes, eu precisava falar com Mnica. Mas... ai de mim, quando aquele mas assolou meus pensamentos, sa em dispa-rada,dispostoacortaramadrugadaamaisdecemquilmetrospor hora. Eu pressentia algo muito grave.osoldomeudiadespontavatriunfantequandoestacionei diante da casa de minha infan... hm-hm. Ai! Parece que tenho um n na garganta. No sei se tenho foras para continuar com isso. Nem sei se quero continuar...Deus me perdoe, uma vez que para me resguardar do erro es-conderei meus sentimentos e deixarei que jazam soterrados sob os es-combros de uma parte de mim que morreu ali naquele instante, quan-do entrei na casa materna; a casa onde a vida tomou forma para mim, onde a manh exalava o aroma do po do dia, onde o almoo em famlia temperava-sedesalefuturo,ondeanoitetraziamaisluzesdoque trevas, e onde meu sono era embalado pelo beijo daquela que, na der-radeira visita, encontrei morta. Minha razo, demasiado humana, no tem palavras para bendizer tamanha tragdia. A dor se traduz na mais pura contradio lgica.Aindanoestoupronto.Deminhasconfsses,levareipela vida afora a maior derrota destes trinta e poucos anos que carrego nas costas. Meus sentimentos presentes fcaro ocultos. No os confessa- CONFISSES DE AURLIO 341rei.Acolhiemmeusbraosocorpojsemvidadapessoaquemais amei neste mundo, e chorei. Para isso no h palavras.Morreumacriana,ergue-seumhomem;oflhodeixaacasa parafliar-seaouniverso.Assimchegueiaumaencruzilhada:revoltar ou acolher o carma? Recorrerei a alguma explicao racional? No, a ra-zo no compreende a vida. S quem pode vir a meu socorro o corao.A libertao do esprito de MnicaDias depois, o legista dava a causa do bito: cncer uterino. o recinto onde fora gerada a vida de seu flho tornou-se o esconderijo do anjo da morte. o homem se recusava a crer que algum pudesse chegar a um estgio to avanado da doena sem recorrer ajuda mdica. Ela sofreu, doutor?. Um tumor enorme. Hemorragias. obstrues intesti-nais. Sim, dores sobre-humanas. Ento, a pergunta que no quer calar: por que no se tratou? E por que escondeu isso de mim? Ningum se atreve. Mnica optara por carregar o hspede fnebre em seu ventre. o irmo que no tive, algoz maldito.Contudo, no momento em que a vi estirada na cama, olhos fun-dos,bocaplida,peleprpura,nopudecompreendercomoaquilo tinha acontecido, uma vez que no havia qualquer sinal de homicdio. o corpo estava coberto com um lenol perfeitamente estendido, dan-doaimpressodequemorreradormindo,semsofrimento.Suicdio? No, isso no, mame jamais faria isso. Eu devo ter fcado cinco ou dez minutos sem reao, com a mente confusa, tomado por uma forte ver-tigem, at que decidi chamar a polcia. CAPTULO 31 342Quandocomeceiadiscarosnmeros19...refreeiminhade-ciso.Chegueimaispertodoleitoemqueseucorpodormiaosono eterno, fquei de joelhos, apoiei os cotovelos sobre o colcho e fechei os olhos. Permaneci nessa posio por um longo tempo, at conseguir me acalmar e recuperar a lucidez. Eu no estava ali por acaso. E como j dizia Saint-Exupry, quando o mistrio muito impressionante, a gente no ousa desobedecer. Fiz o sinal da cruz e conclamei interior-mente: Tenha f. orei. orei profundamente, procurando no pensar emmaisnada.Quandoalcanceioestadodecompletaconcentrao mental, invoquei o esprito de Mnica e pedi a Deus que me conduzisse fronteira dos mundos.Um perfume de fores do campo invadiu o quarto, o ar tornou--sefrescoelevecomooardasmanhsdeprimavera.Bemdistante, como se viesse de lugar nenhum, desnudou-se uma voz lrica que can-tarolava alegre e piedosamente. Abri os olhos e no vi nada incomum: somenteosmveis,ascortinas,umrelgiodeparede,eumesmoeo corpo de Mnica. No entanto, a sensao de estar noutro lugar dividiu--me a conscincia, como se parte de mim voasse longe dali.Porumtempoquemepareceubastantelongo,permaneci naquele estado, em xtase. No cheguei a ver ou ouvir o esprito de Mnica.Perdimeueu,semelhanadeumagotaqueseperdeno oceano.Tudooquehaviaenquantoeuvoavanaquelegozosublime era o perfume, o ar, a cano e um sentimento profundo de amor, um amor que era simultaneamente um eterno repouso de paz e uma ex-ploso vibrante de luz paradoxalmente, estvamos ambos contidos neste indizvel: minha me comigo em perfeita comunho espiritual; o perfume, o ar, a cano, o amor, a paz e a luz eram a expresso mais pura de ns mesmos. Palavras so insufcientes para descrever a be-leza do momento. CONFISSES DE AURLIO 343Aofmdetudo,umajanelaseabriu,literalmente,edaquele transe desci a um degrau um pouco mais baixo para contemplar o uni-verso, a Criao. A percepo de mim mesmo manteve-se difusa, e eu aindavoavalongedemeucorpo,enquantoluzinefvelsobrepuse-ram-se formas e movimentos, coisas que podiam ser vistas e ditas.Atravesseiessajanelaeviajeipelouniversoprocuradeum lugarondefossepossvelfxaramoradafnaldoesprito.Acano inefvel que antes parecia vir de todo lugar e de lugar nenhum passou a emanar do ser das coisas, da essncia das criaturas, com palavras pro-nunciadas, cada qual em seu tom, cada qual com sua beleza.A janela revelou primeiramente os recantos do planeta Terra. Vi as plancies e as montanhas, os rios e as profundezas dos mares, as savanas, os desertos e as forestas. Vi os minerais e vi a gua, vi as ervas e as rvores frondosas, vi os peixes e os rpteis, vi os ratos e os elefan-tes, vi o macaco e vi o homem. Todos cantavam esta mesma cano:No fomos ns que nos fzemosontem no ramoshoje somos aquiamanh, acoldepois de amanhno nos pertence.Depois, a janela se voltou para o frmamento, revelando o po-der benevolente do Sol, a obedincia infalvel da Lua e a excelsa liber-dade do incontvel exrcito de estrelas. Por pouco no me deixei levar pela esplendorosa constncia e perfeio da arquitetura visvel do cos-mo. Contudo, o astro rei me alertou para no fundar erroneamente o alicerce da casa do esprito, pois no h um s astro nos cus que tenha CAPTULO 31 344sido capaz de traar sua prpria rota ou que tenha regulado por si a in-tensidade de seu prprio brilho. Da insondvel garganta das galxias, ecoou o refro:No fomos ns que nos fzemosontem no ramoshoje somos aquiamanh, acoldepois de amanhno nos pertence.Finalmente, a janela se fechou. Nenhuma imagem restou, nem cano nem perfume, somente a vastido de um universo vivo a pulsar. Nemespaonemtempo,nempalavranempensamento,nemjanela nemvoodealmas,oespritodeMnicaestavalivre;somenteeu,na presenaimutveldemimmesmo,contempleiminhavidainterior. Senti a vibrao de uma voz que no minha, uma voz que no fala por palavras, que no percorre slabas, mas que pronuncia eternamente a mesma verdade; e vi que a arquitetura invisvel do universo reverbera dentro de mim, como eco num vale de sombras.Vi sem nada ver, porque tudo o que vi foi uma luz tremeluzen-te. Luz cintilante no espelho dgua.Abri os olhos; o relgio na parede me trouxe realidade: aquele transe durara exatamente sete minutos. Eu jazia na mesma posio, de joelhos na cabeceira da cama, e minhas mos guardavam uma carta re-digida de prprio punho. No me lembrava de ter escrito coisa alguma. olhei com mais ateno e, para meu espanto, reconheci a letra de ma-me. Estarreci: eu psicografara uma mensagem do esprito de Mnica. CONFISSES DE AURLIO 345Confesso que tive medo de ler. Hesitei, esquivei os olhos, der-ramei lgrimas. Mas me contive. Primeiramente por me apoiar nas pa-lavras daquela bondosa senhora que me orientara a respeito da sensi-bilidade medinica: A mediunidade aparece j na infncia. Em casos como o seu, Aurlio, o dom costuma ser recebido com algum propsito. Quando o propsito se cumpre, assim como veio, o dom se vai.Fazer o que, seno aquiescer ao mistrio.Sem mover um membro sequer, de olhos midos e mente con-trita, li estas palavras:Aurlio, Deus me permita chamar-te flho por mais uma l-tima vez, pois o lao terreno ainda no se dissipou totalmente em mim, e eu voltaria a ser tua me por mil vezes se isso fosse preciso.Meperdoa.Meperdoa.Meperdoa.Ditoisso,termi-no minha misso. S por isso vim neste corpo com o nome de Mnica,sparaamar-te.Agoratusabesdadvidaquevim queimar.Escolhinascertuame?Oufostetuqueescolheste meuventreparagerar-te?Somentesendotuameeupode-riacurartuasferidas.Viviparati.Somentemeamandotu poderiasentraremharmoniacomaluzdivina.Fostetuque escolheste teu pior inimigo para ser tua me. Oh! como agra-deo tua generosidade. s um esprito iluminado. Agora podes seguir o caminho que fora interrompido. Milagroso nosso Pai que faz todos os caminhos se encontrarem no fm. Somente Deus conhece o peso de todos os coraes. CAPTULO 31 346Aquele esprito que desencarnava deixando inanimado no leito o corpo de minha me dizia-se liberto pelo meu amor. No entanto, a olho nu, calculado pela medida imperfeita de minha inteligncia, pesado com a desregulada balana de meu corao, o saldo fnal de nossas transaes meapontavacomoonicodevedor,onicopassveldeserperdoado. Como esquecer o amor incondicional de Mnica por seu flho? o perdo vem de Deus. Dele a fonte da misericrdia. Eu agra-deo; apenas isso. Nenhum erro cometido em vidas passadas maior que o amor de uma me. Lembro-me de cada dia que passei ao lado dela.Ainda sou o mesmo mido, correndo sua volta num domingo de sol, exibindo minhas habilidades de menino que j se sente grande. Meusorrisovemdaalma,expressaalegriapura,transbordaenergia viva. Sou iluminado por dois sis, um deles o amor. Sou a mesma crian-a que se aninha em seu colo numa tarde de chuva, amedrontado pelo estrondo dos troves. Ainda sinto o perfume da toalha de algodo, to macia, enxugando meu corpo depois de um banho revigorante. Deixo--me vestir e pentear por seus olhos benevolentes, agrada-me ser olhado, sinto-me inteiro. Sou o mesmo infante febril que se deixa cobrir por um cobertor que muito mais afeto do que l, o mesmo que engole o xarope amargo porque acredita que a cura vem da mo da pessoa que segura a colher, o mesmo que sorve a sopa de letrinhas, nutrindo-se no de letras de macarro, mas de palavras plenas de sentido. Enquanto eu viver nesta terra, quero continuar sendo esses e outros tantos Aurlios que fui; que sou. Amo minha me. Amo minha essncia.Sou incapaz de pagar por tudo isso. Minha dvida no pode ser calculada, porque os nmeros no podem calcular uma vida. Quo in-sondveis so os desgnios do meu Deus! Acredito que Mnica sofreu com as revelaes que teve no instante de sua morte. Mas pensar que seu ltimo desejo tenha sido meu perdo um contrassenso! CONFISSES DE AURLIO 347Queroserinteirogratido.Confesso-menapresenadeDeus para fazer lembrar o nome de Mnica em Seu altar. E prometo dedicar todos os meus dias memria de minha me. Por ela, farei de mim uma pessoa melhor do que sou.Nomeenvergonhodoslaosterrenos;eospilaresqueme mantm de p so, sim, unicamente os afetos construdos na travessia deste deserto que casmurramente insistimos em chamar de casa. Sou ainda muito pequeno e, provavelmente, voltarei a encarnar inmeras vezesnesteplaneta.Soudocorpo,soudaterra,soudaspessoasque amo. Sou de minha me: se no pertencesse a ela, o que seria de mim? Um dia pertencerei somente a Deus, e serei a imagem perfeita de sua face. Contudo, desconheo a medida do quanto me afasto ou me apro-ximo desse fm. Meu corao me conclama a confessar simplesmente que perteno minha me. Viajo pelo mundo inteiro s para ter o pra-zer redentor de dizer que nunca sa de casa. poeta maior, tu bem sabias que o homem, nesta terra, guia de asas cortadas. Ai, que catarse sem fm! como chorei! e ainda choro diante deste teu diamante, amigo Carlos:PARA SEMPRE(Carlos Drummond de Andrade)Por que Deus permiteque as mes vo-se embora?Me no tem limite, tempo sem hora,luz que no apagaquando sopra o ventoe chuva desaba, CAPTULO 31 348veludo escondidona pele enrugada,gua pura, ar puro,puro pensamento.Morrer acontececom o que breve e passasem deixar vestgio.Me, na sua graa, eternidade.Por que Deus se lembra mistrio profundo de tir-la um dia?Fosse eu Rei do Mundo,baixava uma lei:Me no morre nunca,me fcar semprejunto de seu flhoe ele, velho embora,ser pequeninofeito gro de milho.Sou grato, Mnica, por me libertar para amar-te sempre mais.349.32.O ttulo do salmo que acabamos de cantar e empreendemos comentar o seguinte: Para o fim, a Iditun, cntico de Davi. Aguardamos, ouvimosaspalavrasdealgumchamado Iditun. Se cada um de ns pode ser Iditun, encontre-se a si mesmo e oua a si mesmo nestecanto:verificarquemsechamava Iditun entre os homens da antiguidade. Ns, porm, ouamos o sentido deste nome, e na interpretao do nome busquemos entender arealidade.Pudemosencontraremnossa pesquisaentreosnomes,traduzidospara ns do hebraico para o latim por estudiosos dasdivinasLetras,queIditunsignifica: Aquele que atravessa por eles. Quem ento este que atravessa? Em meio de quem?Santo Agostinho, Comentrio aos salmos (salmo 38)o que eu responderia a Jesus se estivesse no lugar de Pedro: Aurlio, tu me amas? [...] CAPTULO 32 350Certamente,eureagiriacomsemelhanteembarao.Pedrose entristeceuporqueaperguntaderaumnemsuacabea.Jesususa-ra uma palavra cujo signifcado no encontra expediente entre os ho-mens: gape. Um pescador de bom corao no pde compreend-la, e da mesma forma no a compreenderia o maior dos eruditos, pois o amor divino est alm das sofsticaes intelectuais.O luto de um filhoExistem certas vivncias que no podem ser plenamente com-preendidas de imediato. Recebi as ltimas palavras psicografadas de ma-me.Recordeividaspassadas.Elucideiocarma.Fuilevadofronteira dos mundos, tangenciei, ainda que por um timo, a eternidade de Deus, e fru sete minutos do verdadeiro amor. No entanto, quando os sete mi-nutos se esgotaram, ca mais uma vez nas trevas da matria, no mundo da dualidade. No restaram seno resqucios: sementes que deverei cul-tivar em meu corao. Se, ao fm daqueles sete minutos, Jesus quisesse sabatinar meu aprendizado e fzesse a mesma pergunta que fez a Pedro, eu baixaria os olhos de vergonha, porque teria de responder:Mestre,meucoraodi,minhamenteconfusaeminha boca no sabe o que diz.Nofuicapazdevermamepartirsemsofrerodesalentoea dor da separao. E, contrariamente ao que se esperaria de um bom dis-cpulo do Mestre do divino amor, precisei de muitos e muitos dias para me restabelecer minimamente do baque inicial. Tive reaes parecidas com as de pessoas que perderam um membro, muitas vezes amputado pelas mos do cirurgio para salvar-lhes a vida: o membro retirado no CONFISSES DE AURLIO 351cessadedoer,suaimagemmentalpermaneceviva,comosehouvesse uma recusa do crebro em registrar a falta de algo com o qual j estava habituado. Por vrias vezes, durante a fase inicial do luto, eu me pegava com o telefone na mo, num gesto automtico de ligar para ela, ou abria a caixa de e-mails para ver se ela tinha enviado alguma mensagem.Por fm, sustentando uma recusa velada e obstinada, busquei maneiras de maquiar a instabilidade emocional que sucedeu a agonia desses primeiros dias. Confesso que afundei na lama do orgulho, esse dissimulado orgulho que faz com que a pessoa enlutada se isole e no queira repartir o afeto acorrentado pela perda do ente querido. Eu no queria ser consolado. Muita gente se oferecia para dar uma fora, fami-liares se dispunham a fazer companhia, mas nem mesmo Alpio e Iara conseguiam um horrio em minha agenda. Comecei a trabalhar com-pulsivamente. E assim inventei de antecipar um projeto de divulgao dacidadevirtual.comqueincluaviagensparaoutrascapitaisdopas. Eu viajava desacompanhado e minha bagagem era minha dor, uma dor desfgurada,encobertapelosmecanismoscompensatriosquenossa frgil natureza humana inventa.Dessa vez no foi Alpio, mas Iara quem trouxe a palavra certa. Eu estava num quarto de hotel e pretendia nutrir meu corpo com uma fatiadepizza,emborairrefetidamentealimentasseafomedemeus prprios monstros interiores, quando o identifcador de chamadas do celular mostrou o nome do alimento afetivo de que eu mais precisava: IARA. Ela j tinha me ligado inmeras vezes desde o dia anterior, e eu no atendia s chamadas. Atendi. Inusitadamente, iniciou assim a conversa: Aurlio, eu quero falar com sua me. Chame-a, por favor!Paralisei na hora; ao que ela emendou o recado: CAPTULO 32 352 Nem precisa dizer nada, pois eu sei que sua me est a, af-nal, ultimamente voc no tem outra companhia.Tentei reagir, mas tropecei em minhas prprias palavras: Iara, voc no est sendo justa...E ela nem deu ouvidos; seu tom de voz era pura determinao: Mesmo que voc passe a vida toda sozinho, guardando seus sentimentos como relquia, isso no vai mudar os fatos: ela no est maisentrens.Maseuestou.Euamovocequerovocpertode mim. E tem mais: voc no o nico que ama Mnica! Todos os que te amam amam sua me em voc; porque no corao do homem que amo que ela vive.Elegia aos poderosos deste mundoComoeudisse,existemcertasvivnciasquenopodemser plenamente compreendidas de imediato. Falo daquelas que balanam nossas estruturas e nos empurram para uma nova etapa existencial. A gente precisa fazer o esforo de morrer e nascer de novo para seguir em frente. Recordar viver; jogar o lixo fora, uma necessidade. Cum-pro minhas confsses como um ritual de passagem. E j estou perto de poder fnalmente dizer: E foi assim que cheguei at aqui. Fim.Mais uma vez, eu havia me fechado em meu mundinho, exa-tamentecomofznapocadoatropelamentodaquelemeuquerido estagirioqueDeusotenha!;trabalhavafeitoumloucoemprol do crescimento da empresa, viajando, conversando com pessoas im-portantes,tentandofecharnegcios,criandodefesasjurdicascon-tra possveis concorrentes ou sabotadores, e evitava obsessivamente CONFISSES DE AURLIO 353tocaremassuntospessoais.MesmonacompanhiadoAlpiooude Iara, o assunto no mudava, era sempre a empresa, a prxima cidade avisitar,ofuturo,astecnologias,alutacontraaconcorrncia.No fosseeutoamadoporessasduascriaturas,teriaperdidonums golpe o amigo e a namorada.Contudo, na intimidade, quando me recolhia entre quatro pa-redes, apagava as luzes e recostava a cabea no travesseiro, no tinha paz. A melancolia me assediava: De que vale viver num mundo to cheio de injustias?! E assediava: Mnica foi a nica pessoa que verdadeiramente te amou. E assediava: Acabe logo com todo esse sofrimento.E quando no era a melancolia, era a nostalgia que me devora-va as entranhas. Sentia meu peito oprimido e muitas vezes no podia conter o choro. Recordava os tempos de faculdade, as utopias, a espe-ranadequeseriafcil.Nessesmomentoseuouvia,repetidamente, acanodeBetoguedeseFernandoBrant,queeu,FloraeAlpio,j cansados de hipocrisia e corrupo, considervamos como nosso hino:O medo de amar o medo de terde a todo momento escolher com acerto e preciso, a melhor direo [...]O medo de amar no arriscar esperando que faam por ns o que nosso dever: recusar o poder.Essa labilidade durou um tempo, at que, por fm, o derradeiro mensageiro foi enviado em meu socorro. Era hora do resgate. CAPTULO 32 354Notemofalaremsinaisdivinos,anjosemensageiros.Falo disso o tempo todo nestas confsses. Falo de um Deus que estava l, desde o princpio, de um Deus que jamais nos desampara ou abandona. Falo de um Deus que tem seus meios para agir em nossas vidas. E por-quefalodesseDeus,reconheooquantojfuiamparadopormuitas emuitasmos:Mnicaesuafeldedicao,aprofessorinhaquepe-dia a seus alunos para escreverem seus prprios livros, o borracheiro que ofereceu trabalho ao adolescente que tinha uma dvida com o pai morto,amoinvisvelquefaziaoslivrosapareceremnahoracerta, o mecenas altrusta, o escritor generoso, o rezador que acreditava na corrente do bem, a ayahuasca professora, a mdium caridosa, o kara e, por que no dizer, o anjo que me trouxe Iara: no haveria uma divina sincronicidade por trs dos encontros e desencontros de uma vida? E aquelemendigodeolhosvermelhosqueumdiameperguntousobre flosofa? Por causa dele, um rapaz que desconhecia sua prpria sede deixoudecomprarCDsparacomprarumlivro.pelacrenadeque nada acontece por acaso que me lano neste ltimo relato.Eu estava numa cafeteria, aguardando o horrio do voo que me levaria de volta para casa, j cansado de tantas viagens, das portas fecha-das e da astcia dos homens de negcios; e, entre um e outro gole de caf, folheava uma revista velha sobre temas de ecologia e meio ambiente. Uma imagem capturou minha ateno e me embrulhou o estmago. o REI DE ESPANHA CAA ELEFANTES NA FRICA, dizia a chamada da reportagem em letras garrafais. Na foto, um belssimo elefante baleado agonizava para que os dois caadores, o rei e seu amigo, posassem triunfantes.Senti uma dor profunda. A palavra para o que sinto ao recordar--me disso indignao. Um rei septuagenrio caando elefantes a trinta mil euros por cabea, onde est a lgica nisso?! o que passa na cabea CONFISSES DE AURLIO 355de um homem de mais de setenta anos quando sai de sua casa, de seu pas, voa milhares de quilmetros, para descer na savana africana e dar tiros em animais? Como um tiro pode valer mais do que a beleza de um elefante? A natureza precisa de dois anos para concluir a gestao de um elefante, um animal pacfco que tem o extraordinrio comportamento de velar seus mortos, e bastam poucos minutos para que as balas de um rife desfaam toda essa magia, devolvendo terra o sangue de um flho amado. Isso me faz lembrar uma criana de cinco anos de idade que se levanta de sua mesa na escola, vai at a mesa do colega ao lado sem di-zer palavra e gratuitamente desfere um golpe. A professora pergunta o motivo da agresso, e a criana simplesmente no sabe responder. Um adulto no pode alegar inocncia por desconhecer a motivao de seu ato. Menos ainda um rei! Eu esperava que um rei fosse um ser moral. E, no meu ponto de vista, a essncia da moralidade reside na atribuio de signifcado s coisas, ao mundo e s relaes.Diante do sem sentido daquela situao reportada, sucumbi a uma nusea terrvel. Nusea a vontade de pr para fora, rejeitar, expe-lir, limpar, combater. A cortina das fantasias rasgada s claras, os olhos preferem no ver: nuseas. Carne crua pode causar nuseas; guerra pode causarnuseas;acrticadeoutrempodecausarnuseas;e,damesma forma, tudo aquilo que mostra o lado indesejvel da realidade.Voltei grande cesta de junco tranado, onde fcavam as revis-tas e jornais da cafeteria, com intuito de encontrar alguma coisa que pudesseapaziguarmeucorao.Eunoqueriamaispensaremele-fantes mortos. No podendo mudar o mundo, melhor seria mudar de assunto. Ento, de cada pgina, de cada revista, de cada jornal, surgiam mais crimes, mais tragdias, mais injustias, corrupo e insanidades. Eu sacudia as pginas, e delas caam textos dramticos em caixa alta: CAPTULO 32 356NDIoQUEIMADoVIVoPoRFILHINHoSDEPAPAI|PoLICIAIS FAZEMVISTASgRoSSASPARAPRoSTITUIoINFANTIL| HoMEMARMADoINVADEESCoLAATIRANDoEDEIXAMoRToSE FERIDoS|CRIANARECM-NASCIDAABANDoNADANoLIXo| PoLTICoS oU CRIMINoSoS PRoFISSIoNAIS: QUEM CULPADo PELA CoRRUPo No BRASIL? | SAIBA CoMo ACoNTECE A ESPIoNAgEM INTERNACIoNAL NA WEB | INoCENTES MoRToS EM gUERRA CIVIL No oRIENTE MDIo | NMERo DE ATENTADoS TERRoRISTAS VoLTA A AUMENTAR | TERRA SEM LEI NA AMAZNIA QUEM CoNTRA o DESMATAMENTo MoRREChega!!!E o preo da gasolina ainda vai subir!... Melhor seria se os jor-naisanunciassem:oMUNDoESTMALUCo!.ou,emvezdeaim-prensa brasileira dizer AVANTE RUMo CoPA, publicar de uma vez por todas: AVANTE RUMo Ao FIM DA CIVILIZAo.No vomitei o perfumado caf brasileiro, 100% arbica, que eu be-bia contente at ento. Vomitei minha alma, meu orgulho prprio, minha ignorncia, minha impotncia. Parem o mundo que eu quero descer!Comodiantedeumespelhoquerevelasseminhafacedefor-mada, perguntei a mim mesmo: o que estou fazendo da vida? Aonde quero chegar?Acordei num estalo. Um insight. Compreendi que estava come-tendo um erro e decidi parar de fugir. Mnica no gostaria de me ver sofrendo por ela. Nosso encontro mstico havia nos libertado de uma dvida crmica, e no era justo relegar a beleza daquele momento ao esquecimento. Pensei comigo: o que ela diria se estivesse aqui? CONFISSES DE AURLIO 357Foiengraadoperceberque,nofundo,eusabiaaresposta. Uma lgrima escorreu pelo meu rosto enquanto repeti, em voz baixa, deixando ressoar o tom suave de sua voz em minha memria: Aurlio, saiba quem voc !E assim me lembrei de seu ltimo desejo: ver-me realizando a vocao interrompida daquela pobre criana de Thann. Eu no desper-diaria mais uma encarnao. No. Era preciso voltar ao trabalho, aos amigos, aos estudos e Iara: com alegria!Paguei a conta e sa disposto a andar um pouco, sem pressa, j que o aeroporto fcava a menos de vinte minutos de onde eu me encon-trava. Ao cruzar a primeira esquina, escutei algum me chamando: Ei, espere um pouco! Voc no costuma saudar os amigos?Era um mendigo. Ele tinha a cor do cho, da cabea aos ps a mesma cor. Ser que pisei nele?, receei. Seu olhar era manso e ma-jestoso, singelo e iluminado; inspirava respeito. Que pessoa maltrapi-lha era aquela? Tive a forte impresso de que j o conhecia de algum lugar,masacheimelhornodizernada,porquantonoqueriaser incomodado logo num precioso momento de autorrevelao. Bastava-me fcar s, e andar, mas como fz meno de prosseguir ele interveio: E ento, garoto, j sabe o que a flosofa?O mendigo Dj vu? A estranheza da pergunta ecoou em minha memria. Havia qualquer coisa naquele mendigo. Meucrebrodevetergastounsvintesegundosvasculhando todas as gavetas, at responder ao enigma daquele rosto. De repente, CAPTULO 32 358um estalo: eu sabia quem era! Impossvel... defnitivamente, no podia ser. Ele percebeu que eu o tinha reconhecido e sorriu.Faziamaisdequinzeanosqueummendigoabelhudome perguntara: Voc sabe o que flosofa? pergunta essa que, pelo susto causado, acabou me levando ao encontro de um dos livros que marca-ram minha iniciao intelectual.Nopudeacreditaremtamanhacoincidncia.Napoca,eu tinhaperdidomeupaiecomeavaasairdoabismodoluto,quando, despropositadamente,decidiraandarumpoucopelasruasdacidade e deparara com o tal mendigo de olhos vermelhos: exatamente como fz ao sair daquela cafeteria andando sem rumo. S que, nessa segunda vez, meu espanto se justifcava tambm pelo fato de que minha cidade natal fcava a uns quinhentos quilmetros dali.Comojamaisacrediteiemcoincidncias,imediatamentetive acertezadequenosairiadafrentedaquelemendigosemumaex-plicaobemconvincente.Chegueiapensarquefosseumespectro, como o kara ober; contudo, no mesmo instante algum passou perto de ns e jogou uma moeda dentro da cuia dele. Se no era um esprito desencarnado, quem era? De onde vinha aquele olhar sereno e majes-toso?Comopodiaselembrardeumsimplesgarotoque,nopassado, fora vtima de uma folgana sua qualquer? Quando o mistrio muito impressionante... No sa mesmo da frente dele. E se a situao em si j era para ldeinusitada,odilogoquetivemosnemsefala.Haviaummestre escondidonadesesperanadaquelemendigo,e,talvez,essamesma desesperana fosse apenas parte do seu modo peculiar de denunciar a loucura do mundo. Espero que minha memria me auxilie agora. CONFISSES DE AURLIO 359 Quem voc? perguntei. Voc j teve muito tempo para estudar, agora quero que me retribua com uma aula de flosofa ele redarguiu de supeto.Entrei imediatamente na defensiva: Retribuir o qu? Ainda nem te conheo. Ah, mas como ingrato! Se no tem esmola para o mendigo, ento v embora. No quero voc aqui.Aquela conversa j superava em muito os limites do improv-vel. Insisti: Quem voc? Ser que voc leu mesmo aquele livro? ele se mantinha im-pvido e desafador.Mas a j era demais. Ele no podia saber do livro. Ento tentei ganhar tempo para ver se ele no estava jogando verde: De que livro voc est falando? ora, no se faa de bobo! Se no quiser conversar, v-se em-boraomendigogesticulavaafetadamente,procurandodemonstrar que minha presena j o irritava.Sua atuao era bem convincente. Passava confana. Por isso titubeei e cheguei a conjecturar comigo mesmo: Pode ser que, naque-ledia,eletenhamevistoatravsdavitrinedalivraria.Ademais,eu no tinha nada a perder. No me custava nada dar um pouco de corda quela fgura extica que se exibia diante de mim com tanta suntuosi-dade. Por que no entrar no jogo? Se o fato de ele se lembrar de mim depois de tantos anos j era fantstico, a possibilidade de ele se lem-brar do livro que eu comprara chegava a ser absurda. Ento, respondi ao que ele queria de modo premeditadamente submisso, como um alu-no fala ao professor: CAPTULO 32 360 Li, sim, e Sofa me ensinou que h sempre algo novo para se apren-der. Por isso os flsofos eram chamados amigos da sabedoria na antiguida-de. Existem muitos mistrios. A vida no bvia. Ns dois, por exemplo... Decifra-me ou te devoro! ele me interrompeu bruscamente e olhou dentro dos meus olhos, insinuando a iminncia de um ataque.Eu revidei sorrindo: o homem o enigma.Seus dentes apodrecidos ensaiaram uma tmida resposta, mas com a leveza de um arco-ris no fm de uma tarde cinzenta: Amigo! Meu querido, meu irmo, seja bem-vindo! Senta aqui comigo, tem um caixote timo para voc.Um caixote? Hesitei. Vi a rua cheia de pedestres. Fazer o qu? Seja o que Deus quiser, sentei-me logo, sem cerimnias. Meu corao desejava desatar ns, e no cultivar complexos. E agora, vai me dizer quem voc? Vou tentar seu tom de voz havia mudado completamente. No to fcil quanto parece. J faz muito tempo... Vi muitas vezes as guas subirem e tornarem a baixar, vi governantes se elevarem aos cus com o sol do meio-dia para desaparecerem nas profundezas dos abismos ao cair da tarde.Voc no parece to velho assim observei.Bola fora. Est certo, no vou discutir com voc. Se quiser se guiar pelo mun-do das aparncias, v em frente e pague o preo desdenhou o mendigo. No bem isso que eu...Cuidedesuaspalavras!Eleordenou.Umavezqueelas saem da sua boca, j no lhe pertencem. Isso flosofa!S eu mesmo. Sentado no cho, no meio da rua, a centenas de quilmetros de casa e, ainda por cima, acompanhado de um mendigo CONFISSES DE AURLIO 361quemetratavafeitocriana.Quemmaisdariaatenoaumhomem que assim se apresenta?Desdequedescarteimeunomedenascena,venho usandoalgunsoutrosdeminhapreferncia,taiscomo:VelhoSbio, No,Melquisedec,Salomo,Scrates,dentreoutros.umatima maneira de atrair esmolas. As pessoas se compadecem do pobre louco megalomanaco. Vez ou outra, digo que fui advogado, flho de famlia abastada,equedeixeitudoparatrs.Aelasfcamcommaispena ainda e acabam desembolsando mais alguns trocados.S eu mesmo: Voc foi advogado? Sim, senhor! e dos bons. Eu acreditava na justia dos homens. E por que virou mendigo? Teve problemas com alcoolismo?Por um instante receei t-lo ofendido com minha indiscrio. Mas ele no me pareceu melindrado ao responder:Paracomear,achominhavidaatualbastanteconfortvel. Em segundo lugar, voc no deve se preocupar comigo, pois eu que devo me preocupar com voc. Apenas cumpro minha misso. Alm do mais, tenho idade para ser seu bisav, ou mais do que isso. Voc parece ter uns cinquenta e poucos... arrisquei.Ele ignorou minha observao:Eudefendiaumacausacontraumgrandelatifundirio,um coronel,comosedizianapoca.Eleavisouqueeraparaeudeixaro caso, mas eu mandei o capanga dele dizer que ele ia ter de pagar uma enorme quantia em multa para o governo. Sabe o que aconteceu? Fui pego numa emboscada. Eu morava no Rio de Janeiro. Me levaram den-tro de um caminho at um matagal bem longe da cidade, e l me mos-traram os modos do coronel negociar com seus desafetos. Foi a malha- CAPTULO 32 362o do Judas, trituraram meus ossos sem d e, depois, me esfaquearam pormaisdeumadezenadevezes,antesdemedarempormorto.Fi-quei l, todo ensanguentado, beira de um riacho. No sei bem o que aconteceudepois.Passeimuitotempodesacordado.Anicacoisade que me lembro de vez ou outra abrir os olhos e ver uma mulher toda vestida de branco que vinha cuidar de mim. Tratava minhas feridas e me alimentava com uma gua doce. Depois de trs meses, fquei de p pela primeira vez. Eu estava timo, cheio de energia, com a memria totalmente preservada.Com isso, achei melhor deixar a questo da idade de lado e em-barcar logo na histria dele:Eporquenoretornouparasuacasaeacertouascontas com o coronel? A mulher de branco me ensinou a fazer a gua doce que cura e rejuvenesce. Depois sumiu. Nunca mais a vi. Vez ou outra eu escuto uma cantiga no burburinho das guas, a eu sei que ela est l.Ele parecia ignorar meu embarao, e me olhava como se esti-vesse falando do assunto mais normal do mundo. Sua verdadeira iden-tidadesemantinhadetalmaneiraimpenetrvel,quesoquepude fazerfoiinvestirmaisumpoucocontraaquiloquemeassinalavaa existncia de um ponto fraco encoberto: Eu no entendo: por que voc no fez justia?Mas ele j trazia as respostas na ponta da lngua:Recebiumamisso,amigo.Adoenadocoroneleramuito contagiosa. a mesma doena de todos os poderosos deste mundo. Se voc entra na briga, voc vira um deles.No havia sada. Fiz a pergunta que tinha de ser feita, e a con-versa rendeu. ou melhor, o monlogo. Ento, qual a sua misso? CONFISSES DE AURLIO 363Euandomuitopora,pormnoseengane,spareoum mendigo. Na verdade, tenho sempre direo, porque andar sem rumo coisadeSatans.VouaondeDeusquerqueeuv.Sigopora,ora abrindo os olhos de pessoas como voc, pessoas que s precisam de um empurrozinho em alguns trechos da estrada, ora fechando os olhos de pessoas como aquele coronel.E o que mais? claro que havia mais:Algumaspessoasrecebemumavisitinhaantesdamorte. isso que ns fazemos. Vamos ao leito de morte dos poderosos do mun-do para anunciar o futuro que os espera. Somos os Anjos da Morte. S quenocarregamosfoicenemusamosmaisocapuznegro,issoj coisa do imaginrio popular. Acontece que as paredes tm ouvidos, e muitasfamlias,comopassardossculos,acabaramescutandoseus moribundosfalandoaparentementesozinhosnavsperadachegada dosonoderradeiro.Logicamente,surgiramosboatos.oqueseriado populacho sem suas estrias e supersties?Sim, e o que mais?, Voc imortal, senhor Anjo da Morte?, Eu me tornarei um de vocs?, eu apenas alimentava o monlogo com alguns comentrios ingnuos e crdulos. No, no pense que sou anjo de verdade. Anjo outra coisa. Tenho somente, digamos, um crdito maior no banco da vida. Lembra a gua doce da mulher de branco? Voc no ia querer beber dela. Nem eu desejo esse fardo para voc. Como j disse, s vim abrir seus olhos e, tambm, dar um empurrozinho para que voc jogue fora o resto de lixoqueaindacarregaemseussonhos.Agora,mudandodeassunto, tenho uma pergunta: voc no quer saber o que digo aos moribundos quando os fao receber a ltima visita de suas existncias miserveis? Cada Anjo da Morte tem seu mtodo... CAPTULO 32 364Afrasefoicortadaaomeio.Donada,eleselevantouedisse queeuestavaatrasadoparaomeuvoo.Mas,antesdesairandando, presenteou-me com um carto no qual jazia escrito, com belssima ca-ligrafa, o seguinte poema:ELEgIA AoS PoDERoSoS DESTE MUNDoO Anjo da Morte desceu ao vale dos sofrimentospara bater porta da tua casa.Tua hora chegou.Tu te lembras de tudo o que fzeste?Conheces teu corao?Tens ao menos um irmo a teu favor?Tua carne pesa mais que tua alma, mas o Senhor no aceita teu pagamento.Ests sozinho no dia do teu juzoE no podes fugir de tua prpria conscincia:Nem mesmo a morte retirar-te- a existncia.As crianas enxergam tudo em nada, os homens no veem nada em Tudo. Quem disse isso devia estar saindo de uma cirurgia de miopia. A miopia espiritual coisa que se cura em etapas e, normalmente, com o auxlio de mos amigas. Esse o caminho de todo aquele que deseja ver um mundo melhor.omendigosedistanciava,arrastandopesadamentesuastra-lhas, e eu restava s, bem no meio da calada, entre empurres de tran-seuntes apressados. Na falta de uma explicao convincente para suas aparies em minha vida, lancei uma ltima pergunta: Ei! como fao para retribu-lo?Ele respondeu com um fraterno sorriso: CONFISSES DE AURLIO 365 Voc merece, irmo, no me pergunte por que, mas voc me-rece. J viu as costas do carto que te dei?Acenou com a cabea. Tive a impresso de que voltaria a v-lo um dia.Nas costas do carto havia uma imagem bem conhecida, uma imagem que naquele momento se iluminou plena de signifcados para mim. Ei-la: duas crianas atravessam uma pontezinha caindo aos peda-os. L embaixo avista-se um tenebroso vale de guas revoltosas. Uma delas um pouco maior e parece cuidar da menorzinha. Mas, sem que elas vejam, um anjo as acompanha, guardando cada passo.Amigos mesaDurante o voo de volta para casa, eu s pensava em encontrar Iara. Assim que pude, em uma escala, liguei para ela e pedi que convi-dasseseuspaisealgunsamigosparaumjantaraindanaquelanoite. Liguei para o Alpio tambm, meu eterno convidado de honra. Eu daria um banquete.Reunimo-nos em uma cantina italiana para comer, beber, con-versar,cantarenosalegrar.Muitosamigos,umasmesa.Meusogro mostrourazovelcondescendnciaaoapontar-me,comescancarado bomhumor,obordoesculpidoemmadeiranaentradadaadegado estabelecimento:Mesasemvinho,sermosemSantoAgostinho.Alpio fez as vezes de sommelier para atender aos que se aventuraram na bebi-da encarnada. Quanto a mim, havia uma ntida sensao de que aquele artifcio no era necessrio. Eu me sentia como que acolhido por todos numsabrao,eretribuaabraando-ostambmcomaalma.Eisa natureza da alegria, sentimento redentor: estar ali por eles e para eles. CAPTULO 32 366Meu alimento no vinha nem das massas nem dos caldos nem dascarnes:vinhadossorrisos.Aproladanoiteseformounaboca do Alpio. Adoro lembrar-me do caloroso discurso que ele fez em ho-menagem a todos ns. Foi como se, da areia do lcool, tivesse nascido umapequenaprola.Eu,quenormalmentenoacreditoeminspira-es concebidas sob o efeito da embriaguez, tive de aplaudir a irrupo potica do meu amigo flsofo.Nossa noite fechou com chave de ouro. Alpio nos pegou meio desurpresaportrazerumdiscursoquasesolenenummomentode pura farra e descontrao, s que, por isso mesmo, nos tocou profun-damente, porque nos fez levar dali uma ideia mais elevada a respeito do ato aparentemente banal de se estar sentado mesa com amigos. Se minha memria no me abandona agora, acho que ele comeou assim: Meus amigos, meus irmos, brindemos em nome desta em-briaguez.Estamostodosdentrodela.Atmesmovoc,Aurlio,que no bebeu. Seu sogro tambm. Viva o vinho! Porm, no o lcool que altera nossas conscincias: estamos brios de amor.Alpionuncaforadadoadiscursoscalorosose,porisso,teve receiodeserinoportuno.Paroudefalarporuminstanteeesperou nossa reao. No que Iara imediatamente ps fogo: Discurso! Discurso! Discurso!E ele prosseguiu: Existe um cu onde tudo sagrado, mas no aqui; existe um submundoondetudoimpuro,tambmnoaqui.Nestavidatudo depende de ns mesmos, do nosso corao, do jeito como enxergamos as coisas. Assim disse Paulo, o Apstolo: nada impuro por si mesmo. o pai primevo de Freud foi devorado pela horda dos flhos: assim nasceu a civilizao. Come-se a carne do pai tirano e imortaliza-se seu prprio CONFISSES DE AURLIO 367orgulho, sua sede de poder; esta a lgica da antropofagia e das refei-es totmicas: assimilar as caractersticas daquilo que se ingere. Mas essesanoescaparamdaculpa,porqueopodernoalimentode fcil digesto. Comer e beber, antropofagia: o alimento ingerido passa a compor o ser daquele que o comeu. A mesma coisa acontece com o Filho de Deus, o cordeiro imolado. Jesus no criou religio. o que fez foi pedir a seus discpulos que comessem do seu corpo e bebessem do seu sangue. Por que isso? Para que cada homem possa ressuscit-lo dentro de si mesmo. Sem dogma, sem lei. A religio de Jesus de Nazar ape-nas amor: a Deus e ao prximo. Hoje, para mim, foi um dia sagrado. Eu agradeo a todos vocs!Em seguida, brindamos com alegria.Chegandoemcasa,abraceiIara.Fizemosamor.Amamo-nos com uma intensidade avassaladora, com beijos ldicos e vorazes, car-cias tnues e pujantes, abraos ternos e sedentos, orgasmos msticos e selvagens. os olhos no enxergam o lado sublime do sexo, as palavras falham em circunscrev-lo. ramos dois corpos fundidos em um.Acredito que ela tambm teve sentimentos to sublimes quan-toosmeus,ouque,dealgumaforma,tenhasidoarrebatadaaoutro plano, pois, unidos como estvamos, um no poderia ir a lugar algum sem o outro. Era uma ligao espiritual, e no apenas carnal. Que ela tenhaounocompreendidoaexperincia,issopoucoimporta.Algo deve ter fcado gravado em seu esprito. Quanto a mim, por alguns ins-tantesexperimenteinovamenteumsentimentoocenico,umsenti-mento que paradoxalmente nunca se repete, porque consiste sempre na mais pura novidade. Uma gota que retorna ao oceano, eis a defni-odaquiloqueaalmaalcanaquandomergulhaparadentroevoa acima de si mesma. CAPTULO 32 368Comosempre,ovoonoduroumaisquealgunssegundos,ou minutos.Quandoquedeinadualidade,nadahaviamudado;oqueme restava da sublime visita ao cu era s um relaxamento muscular e uma silenciosa gratido. Tentei dizer Iara o quanto a amava, mas ela dormia profundamente, e seu corpo pairava radiante como se futuasse por so-bre os lenis, sem qualquer trao de cansao ou esgotamento.Levantei-me e andei um pouco pela casa. Minha sensao era decompletude,comoseminhavidainteira,comosetodasasambi-valnciaseatitudescontraditriasetodososfragmentossoltosde memriaseintegrassememmeuesprito.Homemnovo,novaetapa: caminho sempre. orei e pedi f, f inabalvel, e beno para seguir viagem. Entendi que fndava mais um dia. Deitei-me novamente.A ltima coisa de que me lembro de ouvir uma voz interior me aconselhando, entre o sono e a viglia: Lio nmero um: jamais baixar a guarda. Lio nmero dois: nunca subestime o inimigo. Lio nmero trs: no cante vitria antes do tempo. Quando me pus a abrir os olhos novamente, j penava aquela estranha sede.Acordei. Era cedo. Era muito cedo.369.33.Assim, esta confisso diante de ti , ao mesmo tempo, silenciosa e no silenciosa. Cala-se a voz, grita o corao.Santo Agostinho, Confisses (X, 2)Fez-se tarde e veio a manh: o novo dia. Deso novamente ao mundo,comasensaodequemeuexliodurousculos.Assimso os retiros espirituais, a gente se esquece de que o mundo l fora ainda existe. No entanto, c estou eu agora, na janela do meu apartamento, esperando Iara chegar. o sol brilha, e estou certo de que daqui a pouco a verei dobrar a primeira esquina ali em baixo, apertando o passo para chegar no horrio marcado. J posso v-la fazendo charminho, fngin-do cara de brava: Aurlio, eu exijo uma explicao! Voc passa todo esse tempo sumido e ainda tem coragem de marcar hora para eu chegar na sua casa!Hoje me permiti fcar na cama at um pouco mais tarde. De-cididarumatrguaaocorpo.Entreidebaixodochuveiroedeixeia gua quente cair nas minhas costas por longos minutos, fcando as-sim, imvel e de olhos fechados, enquanto sentia cada fbra de meus msculostesoscederemrelaxantemassagem.Vestiroupanova. Perfumei-me. Quase no me reconheci de barbas feitas e cabelos pen- CAPTULO 33 370teados.Bebiumagenerosaxcaradecafevimpararnestajanela, com ares de debutante.Esto entregues minhas confsses. gratido! Medespeodasvozesdopassado.Queelasretornemparao lugar de onde vieram. l que elas devem fcar. De l me guarnecem e iluminam. E a elas recorrerei sempre pela recordao, no de quem sou eu, mas de que Deus estava l. Sempre.Ah,nofalei!?Iaraestchegando.Pontualmentesnove,eu haviadito;eelaacabadeacessarosaguodomeuprdiocomdois minutos de folga. Deixo a porta aberta para que ela se sinta em casa. Enquanto isso, vou me posicionando estrategicamente nesta poltrona para v-la desflar do elevador at aqui. Quero reparar em tudo: a lar-gura dos passos, a postura, a primeira troca de olhares, e roupa, cabe-los, unhas, maquiagem. Quero sentir sua energia chegando.Escuto o barulho do elevador. Trs, dois, um: j! Vossa majestade no vem me receber no, ? S se voc fzer questo... Ai, ai, eu mereo. Meu namorado passa no sei quantos sculos sumido,dizqueestavaprecisandofazerumretiro,depoismarcahora para eu ir na casa dele e, ainda por cima, nem me recebe no elevador. Minha mezinha das guas... linda. Quando voc veio andan-do por esse corredor, tive a impresso de que cada passo seu ia colorin-do, gradualmente, o cenrio de um flme em preto e branco. Ah, sei. Agora s falta voc me beijar, porque um morador cinza, que parecetervindoldostemposdocinemamudo,nocombinacom toda essa tecnologia Full HD. Acho que voc vai ter que fazer melhor do que isso. CONFISSES DE AURLIO 371 ? Tipo te agarrar assim, ? Hummm! Eu estava com saudade disso.Agorasrio,Aurlio:quehistriaessadeencontrocom hora marcada? Por que toda essa formalidade? Quero que voc faa uma coisa por mim. Tipo o qu? Me entreviste. H? Como assim? Espera. Vamos por partes. Primeiro vem comigo ao meu es-critrio que eu quero te mostrar umas coisas.Aurlio!Quepapeladaessaespalhadaemcimadamesa? Voc escreveu um livro durante esse seu retiro? No, no. outra coisa, Iara. E por isso mesmo que te chamei aqui. Porque preciso de voc para terminar o que eu estava fazendo. No estou entendo nada! Achei que voc tinha me chamado aqui hoje porque... sei l, eu senti saudade, sabia? Voc veio com aquela histria de sumir por uns tempos, de subir ao monte de sua alma... Vamos com calma. Voc j vai entender. T, mas voc j voltou, ou ainda est l no seu, sei l, monte? Voltei. Ah, menos mal! D um tempo a que vou buscar alguma coisa para voc beber. CAPTULO 33 372 Parece um tipo de dirio ou autobiografa. isso mesmo? Mais ou menos. So minhas confsses. ou melhor, anotaes aleatrias que fz enquanto me confessava a Deus. Como assim, confessar a Deus? Confessar confessando, desde o comecinho... Nossa! Voc foi fundo nesse seu retiro, hein?!Eporissoqueeuprecisodevocagora.Queroterminar isso hoje! Mas eu no sei quase nada do seu passado... Voc o ponto de equilbrio do meu presente. isso que im-porta. o passado vai fcar guardado junto com essas folhas dentro da-quele ba logo ali. Ainda no sei se entendi... onde que entra a tal entrevista? Voc vai me ajudar a confessar o meu presente. Quem sou eu, entende? o passado se confessa com a pergunta: como vim parar aqui? J o aqui e agora nos abre para muitas outras questes: onde estou, o que penso, o que sinto, o que quero, o que vejo e por a vai. Sim, sim, peguei a ideia. Mas por que voc precisa de mim? Porque no quero fazer isso sozinho. Voc me completa. No aqui e agora, somos eu e voc! Eu te amo. Nossa histria comeou bem antes de a gente nascer...Tudobem,seissoimportanteparavoc,eutopofazera entrevista. Mas me diga uma coisa: para que confessar o presente, se Deus sabe mais de voc que voc mesmo? [risos] Sim, a gente pode rir um pouco disso. Mas importan-te para mim. Entenda como um ritual que preciso cumprir. Pode ser? CONFISSES DE AURLIO 373 No sei se consigo. Parece muito formal. Afnal, voc meu ma... namorado, n! Voc no precisa ser to formal. Seja voc mesma. Mas estranho... parece que tem algum olhando. E tem. [risos] Deus! [risos] Se no tem outro jeito... quantas perguntas eu tenho que fazer? o nmero no importa. Siga sua intuio. Preciso pensar um pouco. Podemos comear? Sim. Mas antes saia do meu colo e porte-se como uma entre-vistadora decente. [risos] [risos] Ai, ai, eu vou conseguir levar isso a srio! Agora sim.Muitobem,vejamos.Comececomdadosdeidentifcao: nome, idade, sexo, cor etc. Certo. Meu nome Aurlio. 34 anos. Sou brasileiro e tenho um pouco de ndio no sangue. Branco. Macho de nascena e por opo. [risos] Fale-me um pouco sobre voc.Essaumaboamaneiradecomearumaentrevista.Mas acho que no d para resumir isso em duas ou trs frases. Fique vontade. Afnal, temos o dia todo. CAPTULO 33 374 H em mim um presente sem fm. Sou hoje a soma do quanto merecordodaquiloqueverdadeiramentesouedoquantoaindame identifcocomabiografadessesujeitochamadoAurlio.Biografa o nome das coisas que o pequeno eu sabe de si mesmo, consiste numa fco relativamente importante, ainda que no baste para referenciar overdadeiroeu.Seurealvalorconsisteemapontarparaoquevem depois, mais adiante e mais acima. Sua resposta bem profunda...Poucoapouco,recordo-me.Ecreioqueevoluirrecordar. Abiografaparecesempremaisemaisdistante,comolembranade outra vida, como casulo que vai enrolando o corpo da lagarta e trans-formando sua existncia em pura expectativa de existncia. Borboleta do futuro. Para falar de si mesmo voc usou a palavra evoluir. Por qu? Isso mesmo. Voc est se saindo melhor do que eu esperava, Iara. Penso na recordao como um fazer positivo, no como mera reme-morao do passado. Recordando a gente eleva nosso grau espiritual. Isso evoluir? A evoluo o segundo dado mais fundamental que nossa mente percebe. o primeiro que estamos aqui e agora. Porm, onde estoagora?Jsefoi.Ento,ouvocacreditanaevoluooupede para morrer. Ainda estamos falando de voc, se quiser... Posso dizer que sou apenas uma pessoa que se ama. E amo. Estouempazcomigomesmo.Estou?[risos]Aomenosmeconformo comofatodequevoumelhorandoumpouquinhoacadadia.Para alm das dvidas metafsicas, a verdade simples e direta. Despertar um ato de amor. CONFISSES DE AURLIO 375Recentementevocperdeuumapessoamuitoimportante para voc...Vocquersabersejsupereiisso?Jamais.Nomerevolto, mas estou em paz com o fato de que essa dor vai comigo at o fm. Voc no est sendo contraditrio?Souimperfeito,sim,mas...eda?oserrosnosonada, senocegueira.Imagineseumapessoavaiverumabrasanochoe ainda assim decidir pisar nela. Jamais! Errar no saber. ou no estar pronto. Por isso no me culpo. Ficar atento me basta. Vejo a dor e digo: , dor, voc ainda est a. Minha obrigao estar consciente. Erro feiomesmoacomplacncia,esseeunoquerono.Feiotambm negar o passado. Amo o que fui. Somos responsveis por nossas esco-lhas. Parece que isso que a vida quer nos ensinar. Ento voc no se importa com seus erros e contradies? Quero apenas dizer sim vida. A vida muito curta para que algumpossasedaraoluxodeperderumaoportunidade.No,no, aindano,agorano,nodestavez,noparamim,nodestaouda-quela maneira; at quando? Resposta inevitvel: at morrer. E depois demorrer,edepoisdeumsculo,edepoisdeummilnio,edepois dequinhentosmilanos,apessoavaiseperguntar: Valeuapenater evitado aquele encontro? ter adiado aquela viagem dos meus sonhos? ter recuado naquele negcio que no saiu do papel? no ter tido tempo para brincar com meu flho? menos tempo ainda para os amigos?. Eu me importo com meus erros. Mas no quero ter medo deles. Entende? Ufa! Deixa eu respirar um pouco. [risos] CAPTULO 33 376ocafestsensacional;cafmacho,meumacho...[risos] Acho que podemos continuar. No fosse pela angstia que sinto quan-do olho para esse quadro na parede, diria que estou at gostando desta entrevista. [risos] a obra Prometeu sendo acorrentado por Vulcano, de Ba-buren. gosto de deix-la bem vista s para lembrar de que a vida nos pede coragem. A gente nunca escapa das consequncias. Agora quero perguntar sobre as razes desse seu retiro. Pode falar dele e de suas confsses? Voc deve ter notado como eu andava meio estranho h al-gumas semanas atrs. Lembra? Eu falava pouco, e voc me via bebendo gua quase o dia inteiro. Foi um perodo difcil para mim, e tudo come-ou depois de um sonho que tive. Foi um sonho altamente revelador, e que, de certa forma, tomei como um chamado. Eu teria medo de enlouquecer, se fosse comigo. Esse chamado era tipo assim um chamado de emergncia? [risos] Iara, a vida no espera. E nem sempre o trem retorna. Eu penso da seguinte maneira: em cada uma das escolhas que precisei fazernavida,setivesseoptadopelarecusa,setivesseditono,meu mundo teria desabado, e eu estaria perdido e deprimido diante do va-zio e da mais completa falta de sentido. Voc duvida disso? Veja o mun-do l fora. Qual a causa da epidemia de depresso que assola o planeta? No me arrisco a responder, mas sinto que tem alguma coisa errada. E penso que no ser com sonhos de consumo fugazes que resolveremos o problema. preciso ter frmeza para sobreviver. o ser humano, com o querer, pode tudo. D para entender, ento, o que acontece se a pes-soa for frvola? Certo. Entendi o seu ponto de vista. Mas o que voc ganhou CONFISSES DE AURLIO 377com isso? Voc parou a sua vida, passou dias isolado dentro de casa e correu o risco de prejudicar seu trabalho e sua vida afetiva. Quase perdi a namorada? [risos] [risos] No duvide disso. Concordo que assumi riscos. Veja a outra opo: como muitas pessoas fazem quando se sentem angustiadas, eu chegaria ao consult-rio de um psiquiatra e relataria minha angstia. Sobre aquela estranha sede que me atormentava seria melhor no dizer nada. Ao fnal da con-sulta, levaria para casa amostras grtis de fuoxetina, bromazepam, bu-propiona, ou coisa parecida. No h nada de complexidade existencial, no h chamado, no h crescimento espiritual. Tchau e at a prxima consulta. S que a prxima remessa da droga no ser grtis.Aurlio,recapitulando:vocafrmaqueonicosentidoda vida evoluir? Acho que eu no disse isso. Mas deu a entender... Voc sabe o que niilismo? Mais ou menos. A meu ver, a melhor coisa que Nietzsche fez na vida foi de-nunciar o niilismo do mundo ocidental. Explique isso.Niilismoquerdizerfaltadesentido,faltadeporque,ou, nas palavras de Nietzsche, signifca o fato de os valores supremos se desva-lorizarem. Esse flsofo viveu na Europa do sculo XIX, e foi muito sens-vel crise ideolgica que j comeava a abalar os alicerces daquela so- CAPTULO 33 378ciedade. Ele perpetuou a famosa frase Deus est morto, denunciando que o deus da igreja romana era falvel, um deus que, justamente por no ser infalvel, era ento levado bancarrota. VocachamesmoqueDeusestmorto,Aurlio?Achoque estou fcando meio confusa... Nietzsche, Iara, Nietzsche. Ele percebeu que os valores mais altos da sociedade em que vivia se baseavam em fatores invisveis. E ele no queria acreditar na existncia de uma inteligncia superior ou de foras invisveis regendo o universo. Afnal, as pessoas que ensinavam essas doutrinas para o povo no eram to confveis assim. Nietzsche era um cara inteligente e no queria ser passado para trs. Ele via que osargumentosreligiososeflosfcospregadoscomoverdadesabso-lutas acabavam sendo usados pelos mais poderosos como artifcios de dominao. Sim, sua resposta foi bem clara. Acho que voc j pode con-cluir sobre o que eu havia perguntado.Eujtinhaditoquenocreioqueonicosentidodavida evoluir. E por isso falei do niilismo. Agora vou ser bem sucinto. Em nosso pas vemos dois tipos correntes de niilismo: existem aquelas pessoas que no acreditam em nada e que s querem aproveitar a vida e os prazeres do mundo; e existem tambm pessoas de outro tipo, que depositam suas esperanas em outra vida, outro mundo. Para estas, o nico objetivo da vida a salvao. Entende? Elas tm medo da morte e, por causa disso, desistem da vida. Mas ambas se meteram num niilismo brabo. Uma no melhorqueaoutra.Paraescapardisso,precisoamaresteplaneta, amar os seres que aqui habitam, amar nosso corpo, e fazer jus ao tempo limitado que nos foi concedido para aqui permanecer. E a evoluo? CONFISSES DE AURLIO 379 A evoluo consequncia. Se fosse preciso escolher um ni-co sentido para a vida, eu preferiria dizer que o sentido da vida amar. Est bom assim? , se est. Pausa para respirar e vamos em frente. Em sua opinio, voc acha que vive bem? Essa uma boa pergunta! Que acha da nossa sintonia? No vale fazer duas perguntas seguidas, minha mezinha das guas. [risos] Ento se vire com a primeira que eu j fz. Sim, eu quero falar sobre isso. Esse assunto de extrema rele-vncia, at porque no fcil saber se realmente vivemos bem. As iluses podem nos pegar no meio do caminho. Voc sabe o que so as iluses? Imagino que sim. Mas no sou eu a entrevistada. As iluses so aquilo que mais se parece com a realidade, j dizia um sbio. Eu conheo esse sbio...Vejaoexemplodosjogosdeazar.Jviuqueosviciadosno jogo quase sempre acreditam que saem no lucro? Eles se iludem quan-to ao montante fnal das perdas e ganhos, porque perdem de pouco em pouco e ganham de uma s vez. o problema que a frequncia com que perdem imensamente maior do que a frequncia com que ganham. Continue. o que quero dizer que, para viver bem, penso eu, devemos comearpornosprecavercontraasiluses.Percebequenosaproxi- CAPTULO 33 380mamos do tema autoconhecimento? Neste exato momento me vejo lutandocontraasiluses.Respondoacadaumadesuasperguntas cuidando para que minhas palavras correspondam exatamente ao que penso ser verdadeiro.Deminhaparte,nenhumaobjeo.TomaraqueDeustam-bmaproveessascoisasquevocestdizendo.[risos]Eagoraconti-nue: ns tambm nos iludimos quanto ao conhecimento que temos de ns mesmos?Vejaoqueacabeidedizer:nesteexatomomentomevejo lutando contra as iluses. Quando digo neste exato momento, fco entre duas possibilidades. Existe um neste exato momento que um presentesemfm,eexiste,tambm,umnesteexatomomentoque termina antes mesmo de eu acabar a frase. o primeiro o tempo sem tempo do verdadeiro eu. o segundo o tempo da biografa, tempo do ego, que pode ser calculado e escrito. Existe um eu verdadeiro?Pensoquesim!Ecreioquedespertarparaesseeumaior seja a nica maneira de no transformar nossa biografa em uma cole-tnea de iluses. Voc ainda no disse se acha que vive bem. Mas emendo com outra pergunta: voc gostaria de ensinar outras pessoas a viverem bem?Gostaria,sim.Masnoposso.Vivoprogredindo,eprogrido vivendo.Pegou?oquesei,guardonocorao.Demestrenotenho nada. Na verdade, falta-me um. Eu no ousaria escrever livros de auto-ajuda, como se soubesse o que bom para os outros. obtive revelaes exclusivamentepessoais.Fuiagraciadocommomentosrarssimosde belezaecontemplao.E,talvez,atjtenhasentido,distncia,o perfumedapazedoamorocenico.Uniomstica?Nirvana?Ainda no. Apenas avanos e retrocessos. CONFISSES DE AURLIO 381 Que tal falar um pouco desses livros de autoajuda? Eles ven-dem bastante nas livrarias... Pois . Existe muita gente prometendo uma poro de coisas: vivernoagora,realizardesejos,superarlimitaes,conhecerasi mesmo, fazer magia etc. Mas ser que os leitores realmente alcanam os resultados prometidos? preciso ter cuidado com os vendedores de sonhos. Suas promessas so irresistveis. No tem nem um que salva? Ah, sim, tem alguns! Por este planeta j passaram muitos mes-tres, espritos admiravelmente evoludos. Procurando, a gente encontra. Quer citar algum?No,demaneiraalguma.Deussabequemelemandadescer aqui. Para quem est buscando, eu daria umas poucas recomendaes, e a primeira delas no acreditar em solues fceis. Eu tenho para mim que persistncia, disciplina e sacrifcio so chaves da espiritualidade. Mas isso no vende... [risos] E vai vender como? o cidado ps-moderno tem pres-sa,noaguentaalenga-lengadasantigastradies,preferebebera espiritualidade em comprimidos solveis instantneos. Alm dessa primeira recomendao, haveria outras? Iara, s se for para eu recomendar para voc, porque no sou nem pretendo ser mestre de ningum. Ficou claro? Vou fazer meu papel de provocadora, t? Responda apenas se quiser. Existe alguma chance de voc mudar de ideia quanto a escrever livros de autoajuda?[risos]Vouresumirminhaautoajudaemsuahomenagem: comece por amar a si mesma e reconcilie-se com seu corpo e sua bio-grafa. Ao corpo, d sade e movimento. biografa, d amor e com-preenso, isso vai ilumin-la. Um corao limpo e uma mente inteira: CAPTULO 33 382voc s precisa disso para seguir o seu caminho. o resto reservado a voc, ningum ter mais nada a dizer. Dito assim parece simples. Metade do mundo j deveria estar vivendo muitssimo bem, no acha? Parece. Mas eu no quero que ningum engula isso. Acho que voc quem est indo longe demais com essa insistncia em me trans-formar num escritor de autoajuda. Repito: eu no sou a pessoa certa. E digo mais: no caia na lbia de qualquer um. Voc disse que existem livros bons e que acredita que nosso planeta j recebeu espritos mais evoludos. Certo? Certo.Ento,notemjeitodeescapardestapergunta:quemso seus mestres? Mestres? Falta-me um. Palavra no faz curva. isso mesmo que voc pretende dizer a Deus? [risos] Ah, t bom, mas voc insistente demais! J fz minhas con-fsses e j falei de alguns dos meus mestres. Esse no o momento. Es-to todos mortos. Vivo, eu ainda no encontrei nenhum. E quer saber? Mestre mesmo Jesus. No pense que vou facilitar as coisas. Voc me chamou aqui: agora aguenta. Vamos voltar ao assunto anterior. Fale mais a respeito de quem voc realmente .Entendoaondevocquerchegar.Certamenteseriamais profcuomeconcentrarnestesujeitobiogrfcoquesou,aindaque CONFISSES DE AURLIO 383imperfeito.Tenhoumcorpo,umnome,umahistria.Souumespri-to encarnado. Sou um eu que atende pelo nome de Aurlio. Mas eu j haviaterminadoessapartedotrabalhoquandotechameiparaesta entrevista. oua o que eu perguntei: quem voc realmente . Sim, sim, agora entendi. Ento? Em parte, sou pura iluso; em parte, evoluo. Entende o que estou dizendo? Sendo mais direto: depois que eu morrer, uma enorme partedemimsimplesmentedesaparecer.Muitagentenosabedis-so, e acha que vai carregar o egozinho delas para o outro lado. Meu verdadeiro eu se esconde por detrs de um vu de dualidades. Por isso, recordar amanhecer. o que isso que voc chama de egozinho? Espero que voc goste de parbolas: Era uma vez um solitrio senhor que precisava atravessar uma ponte para sobreviver. No lado em que ele se encontrava, havia um poo de gua cristalina; no lado de l, um deserto. Ento, ele pensa em criar uma fonte. Enche suas mos em concha e corre para o outro lado, para depositar a gua num buraco que elemesmocavou.Noentanto,enquantoatravessa,aguaescorrepor entre seus dedos. Ele tenta fazer a mesma coisa milhares de vezes: pegar a gua de um pequeno poo que fcou para trs, para encher um buraco que fca noutro lugar. A histria termina quando ele se cansa e morre. Credo, Aurlio! Isso l parbola! CAPTULO 33 384 J estou fcando cansada. Ainda preciso fazer muitas perguntas? Tecnicamente, no. Podemos parar um pouco? Bateu a fome...Eutambmestoucansadoequeroacabarlogocomisso. Mas vou at o fm! V ver o que tem na geladeira, enquanto eu coloco uma msica para acalentar nosso corao. Quando lhe convier, reto-mamos. Pode ser? ok. s o tempo de um lanche mesmo. Adorei a msica. Linda de morrer. Que bom! o violino nos eleva s mais altas vibraes. No sei defnir bem o que senti, mas ela me trouxe conforto. Illumination, do Secret garden. Sinto a mesma coisa que voc, conforto, consolo, um apaziguamento das vozes do passado. J tenho uma pergunta. Dispare. o que o esprito? Aquilo que antes era escuro torna-se claro. uma xarada? No. [risos] s o que me veio imediatamente mente. Mas considere o fato de que o espetculo do universo veio acontecendo por bilhes e bilhes de anos no escuro, sem que houvesse um nico espec-tador para aplaudir o show, at que, um dia, Deus quis completar sua obra,revelando-aemtodoseuesplendor.Paraistoexisteoesprito: para ver tudo. CONFISSES DE AURLIO 385 Alma e esprito signifcam a mesma coisa? No sei te responder isso. Nos evangelhos, escritos em grego, alma traduz a palavra psykh, e esprito traduz pneuma. Mas esses ter-mos parecem se referir mesma coisa, que remete noo primeva de que uma vida invisvel penetra o corpo atravs da primeira respirao, como um hspede. No sei se compreendi... Estamos no mesmo barco, Iara. o esprito um mistrio para mim. Voc faz perguntas para l de elevadas! Uma coisa que posso di-zer isto: eu creio que ns no somos apenas matria. E a eu te per-gunto: ser que o universo cabe dentro de ns? Est bom assim. [risos] Mas agora espere um pouco. Acabei de perceber uma coisa e no posso deixar de te perguntar isso. At aqui est tudo muito bonito, tudomuitobom.Maseessenegciodevocfcarrepetindoatodo tempo essa palavra Deus? Deus, Deus para c, Deus para l. At parece queeleseuvizinhooualgummuitoprximoquesempreteliga, pergunta como voc est e manda cartes postais no Natal. Eu nunca vi Deus. E voc, Aurlio, j viu? Certo. [risos] Estou sendo interpelado por uma entrevistado-ra rigorosa e devo me haver com isso. De fato, estou no olho do furaco. Falo Deus, amo meu Deus, dedico minha vida a aproximar-me sempre mais dele. No entanto, de onde vem a ideia de Deus? o que amo quando o amo? De que falo quando falo dele? CAPTULO 33 386Epodeacrescentaroutraperguntatambm,quemeveio agora: podemos descobrir por nossa prpria conta que Deus existe, ou tudo no passa de coisa que colocaram em nossa cabea? ... eu defendo minha prpria crena. [risos] gosto de pensar que somos mais que homo sapiens: somos homo religiosus. Fomos feitos para procurar e encontrar Deus. Essa busca est em nossa natureza. Ento, na hora certa...Isso!Cadaser,cadabicho,cadaplantatemseuprprioci-clovitalecumpreumamissonestemundo.Comoqueumarvo-re sabe que precisa dar frutos? Como que uma abelha sabe que deve fabricar mel? Como que um passarinho sabe a hora certa de cantar? Entende? Para cada desdobramento existe um tempo certo. os gregosantigos,grandesobservadoresdanaturezaqueeram,chama-ramissodekairs,otempopropcio.Hoje,usamosapenasapalavra tempo, porm, algum nome ns podemos dar ao tempo que tempo de alguma coisa: tempo de plantar e tempo de colher, tempo de cuidar e tempodereceber,tempodeaprenderetempodeensinar,tempode lutar e tempo de se recolher. Pegou? Tempo de ter f e tempo de compreender... isso! Quer dizer ento que cada pessoa um dia acaba descobrindo que Deus existe? Imagineumaescadaemespiral,muitoalta,comdegrausa perder de vista: a f e a compreenso so irms e sobem de mos dadas. Quando uma fraqueja, a outra lidera.ok.Corrigindo:cadapessoa,aospoucos,acabadescobrindo que Deus existe. CONFISSES DE AURLIO 387Asestaessoquatro,masagenteacabavivendomuitas primaveras...talvezsejaprecisoatravessarvriasvidas...seexiste mesmocarma,agentedevefcaratento,porquecertasescolhasmal orientadaspodemcomprometertodaumaencarnao.Noadianta maldizerocarma.Vejavoccomoascoisasso.Vemumatragdia. Aparecem estranhos encostos na vida da pessoa. Insurge uma doena. Interpem-se empecilhos mil. Tudo d errado. Difcil a gente aceitar que, talvez, no fosse o tempo certo. Vou ilustrar isso com um exem-plo: imagine um jovem talentoso que sonha com sua vocao religiosa. o que voc vai pensar quando fcar sabendo que ele foi vtima de seu prprio preceptor, um padre pedflo? E se a histria terminar em tra-gdia, porque um bispo estouvado tentou abafar o caso? Vingana?Sublevao,dio,vingana,sim,mastambmmelancolia, sentimento de perda e incompreenso. Imagine a desolao do morto: Por que fui abandonado por algum que amei? onde esto meus pais? Sou culpado. Sou maldito. o esprito desse jovem precisa ser ampara-doerecordadodequemele,poiselefcapresonamemriadesua derradeira encarnao. Ele precisa saber que morreu. Mas por que Deus permite essas injustias? No consigo en-tender isso! oespritoevoluiquandoresgatasuasdvidascrmicas,Iara. Vejacomoviemosldebaixo,subindoatravsdossculos.Partimos de um estado de total barbrie. Comeamos a nos ligar afetivamente a nossasfamlias.Demosinciocivilizao.Fizemoslaosdeamizade, laos culturais. Aprendemos a amar em escala cada vez maior. Foi pre-ciso muitos milhares de anos para Jesus descer e nos ensinar a amar o prximo como a ns mesmos. De que adiantaria se ele viesse no tempo CAPTULO 33 388das cavernas e tentasse ensinar isso? Nosso cume o amor divino. Somos todos Um em Esprito, no isso? Junto com a gente, a civilizao evolui tambm,epassaaoferecermaisrecursosparareceberespritoscada vez mais graduados. As instituies religiosas tambm precisam evoluir. Veja a igreja catlica, por exemplo: ela tambm est em transformao. Desgraas como a daquele jovem de que lhe falei afetam o futuro da igre-ja como um todo, no apenas a vida de um ou outro sacerdote. Percebe como a teia complexa? Quando acontece de muitos espritos estarem preparados para subir um novo degrau da escada, ocorrem saltos civili-zacionais. Chamamos isso de mudana de era. Desculpe te interromper, mas... voc acredita que estamos no incio de uma nova era?Quemtemolhosqueveja.Ningumpodeescapardisso.s vezes,nobastatransformar:precisomorrer.observealagarta.Se ela no morre, a borboleta no nasce. No adianta maquiar, mudar de cara, fazer como andam fazendo governos e religies. Aurlio, podemos fcar um pouco em silncio? Voc est chorando? Me abraa. Acho que voc ainda quer falar de Deus... No sei, Iara. Talvez eu queira fcar mais em silncio. Deus amor, no mesmo? A gente sente no corao. Enquanto isso, nos livros de flosofa e teologia... Sim, preciso colocar rdeas na razo, seno ela dispara. CONFISSES DE AURLIO 389 [risos] Voc sabe que muito falatrio no me agrada. Mas a razo tambm importante, por isso falamos das duas irms.Crerparacompreender,compreenderparacrer.Aprendique elas andam de mos dadas, porque a gente tem que pensar nelas uni-das: duas crianas, um s corao. Tenho a impresso de j ter visto alguma representao ar-tstica disso...Ah,quebomquevoclembrou!Trata-sedeumaimagem, digamos,quasearquetpica:duascrianasdemosdadasatravessam uma perigosa ponte, mas existe um anjo que as protege. Belssima!Sim,eumelembro!Tinhaumquadrinhocomaoraodo anjodaguardapenduradonaparededomeuquartoquandoeuera criana, e tinha esse desenho nele. [risos] Eu tambm tive um quadrinho desses. Jura?! o seu tambm no era daqueles com uma criancinha de pijaminha? Defnitivamente. Acho que na vida deve ser assim: o maior d a mo ao menor. Sim, a presena do amor entre ns: quem compreende, ofe-rece compreenso; quem aprende, cr naquele que ensina. E no dan-do que se recebe? olha a o anjo... Pensei na orao de So Francisco. Voc gosta? gosto. Vamos cantar juntos? [em unssono] mestre, fazei que eu procure mais: consolar que ser consolado, compreender que ser compreendido, amar que ser amado, pois dando que se recebe, perdoando que se perdoado, e morrendo que se vive para a vida eterna. CAPTULO 33 390 Amm. Amm. [risos] Chega de trguas. Hora de apertar de novo: e Deus? Sim, senhora Entrevistadora! E Deus? o que Deus para mim? Tudo comea l atrs, na primeira infncia. Por favor, no venha com flosofa demais, viu? No, no. [risos] Serei breve. timo! J que sou um homo religiosus, a busca espiritual est em mi-nhanatureza.Vimaomundoporumarupturacomaorigem,isto, nasci. assim com todo mundo. Porm, eu j estava predestinado a um dia perguntar por essa origem esquecida: de onde vim? para onde vou? Com que idade j normal aparecerem essas perguntas? Bem cedo! Para os espritos que encarnam atualmente, a his-tria da cegonha no cola mais. A criana entra rapidinho num impasse existencial, porque, alm de querer saber de onde ela veio, precisa saber tambmdeondevieramseuspais,seusavs,seumundo.Acabecinha delascomeaaprocurarobstinadamenteumacausaparatudo.Quem nunca viu o aperto que os pais passam quando chegam os porqus? A, elas pegam emprestada uma palavrinha de uso corrente na cultura: Deus. Voc acabou de admitir que a ideia de Deus coisa que colo-cam na nossa cabea. R! A palavra, sim; as perguntas, no. E a ideia?medidaqueacrianacresce,elajrecebe,sim,alguma CONFISSES DE AURLIO 391doutrina religiosa, mas a sementinha daquelas perguntas fca guarda-da dentro dela esperando o tempo propcio para germinar. Nenhuma criana recebe os ensinos religiosos passivamente. Elas colocam a ima-ginao para trabalhar. Elas querem saber o que Deus. Ento, imagi-namumDeusparecidocomseuspaisecomseusavs.Nacabecinha delas brota uma imagem que mais ou menos assim: Ele um velho de barbas que me ama, que cuida de mim e que sabe de tudo, inclusive de onde vim e para onde vou. Mas isso iluso! Sim. Mas ser essa iluso que, como matriz, at por volta dos trinta anos, servir de consolo e impulso para a busca espiritual.Seumetido!Esqueceuqueeutenhoapenasdezenoveanos! Por acaso voc me considera uma criana? Pois saiba que voc est re-dondamente enganado, desde o primrio que j sei que Deus no um velho de barbas. [risos] Claro que no, Iara. Voc no uma criana. Eu disse comomatriz,porqueessabuscaporentenderaideiadeDeusvai sendo reeditada incontveis vezes com o passar dos anos.Deixeestar!Depois,quandoacabaressaentrevista,agente conversa. No quero que Deus veja o que vou fazer com voc.[risos]Calminhaa!nosebateemumhomemdetrintae quatro anos nem com uma rosa.Umarosa!?Nopoderiaserumcrisntemo,umlrioou um narciso? Narciso, no, por favor. [risos] Sabe o que metafsica? Seja breve. A msica do universo ressoa dentro de ns e nos transforma interiormente num templo de medidas perfeitas. Sorry, darling! J parei com o sarcasmo. CAPTULO 33 392 E ento, o que amo quando amo meu Deus? Amo o universo dentro de mim. Amo tambm as pessoas, os bichos, as plantas, os mi-nerais, o planeta, o Sol, a Lua e as estrelas, porque, quando os escuto cantar, percebo-os dentro de mim: somos uma mesma e nica luz. Ento voc um santo! No, no, longe disso! [risos] Nem sou narciso. Ai que afetado! Tambm no precisa sacudir as mos dessa maneira! [risos] Sabe como distinguir no cu as estrelas que esto mais longe? Mais ou menos, acho que j estudei isso na escola. Pois ento, quanto mais distantes, mais oscilam. Voc j deve ter visto aquelas bem pequenininhas, que fcam tremulando como vela que j vai se apagar. Quero encerrar, Aurlio. No sei se ainda tenho perguntas. Se quiser escolher algum tema, fque vontade. De jeito nenhum. Se quiser encerrar, encerre. A ternura que sintoporvocnestemomentonotemtamanho.Vocmeauxiliou bem demais! S ternura? Amor. E? Paixo. [risos][risos]Nofoifcilteacompanhar.Seupensamento parece que voa! CONFISSES DE AURLIO 393 A imagem que me vem cabea agora de ns dois viajando numa jangada. Eu no remo e voc retirando a gua para no deixar a gente afundar. Somos necessrios um ao outro. [risos] Uau! Agora empolguei. Deixe-me ver... no vou encer-rar ainda. Vamos ao ltimo tema: Jesus. Fale-me dele. Falar do Divino Mestre? ... no sei se tenho flego. Voc quer que eu entre em controvrsias? J sei que voc o chama de mestre, ento, diga o que quiser. Est bem, no tenho como fugir disso, confsso confsso. olha, na Bblia est escrito E o Verbo se fez carne, mas no basta que o Papa jure de joelhos que cr nisso, preciso que meu corao sinta, por-que acredito mais nele que no Papa. E o que seu corao est sentindo agora? Voc no d trguas, no mesmo? [risos] Sinto-me um inseto, um aneldeo, ou qualquer outra forma rasteira de vida. Jesus muito alto. Jesus Deus?Seiapenasoqueminhaintuiomediz.Percebe?Afrmar isto ou aquilo muita pretenso. Se eu dissesse simplesmente que sim, no seria um testemunho consciente. Sim? [risos] Creio que o avatar da era crist foi, no mnimo, um esp-rito muito evoludo que desceu entre judeus. Realizou prodgios e mi-lagres. Creio tambm que existiu certo Joo Batista, que o precedeu em doutrinaedeutestemunhodesualuz,quandooreconheceu.Entre-tanto,tudoparecemuitoincertoquandoabordamosJesushistorica-mente. Sabemos que os judeus daquela poca esperavam a vinda de um CAPTULO 33 394messias, sabemos que o imprio romano havia passado dos limites ao decretar a divindade do imperador, e sabemos que Jesus foi condenado crucifcao devido a um crime poltico contra Roma, a insurreio. Eram tempos instveis. E? E s. E Maria?Virgem.Me.ImaculadadaConceio.Emorao,eu digo sempre: roga por mim. Por qu?Porquequandoagentechamapelonomedela,osCus respondem.Fim.Vamoscombinardevocfazerumaconclusobem curtinha? [risos] Curtssima. opa! Como voc foi parar a? No percebi voc pulando da cadeira para o pufe. Isso j faz uns dez minutos. ou eu j queimei todos os meus neurnios ou voc fez mgica! Que nada, meu bem! Voc precisa ver que lindinha a carinha de concentrado que voc faz quando est falando. [risos] No me imite, por favor. No, de maneira alguma! Eu sou o Aurlio, muito srio, olha minhas sobrancelhas, . Sabe por que eu coloco a mo no queixo assim, ? porque uso uma miniatura do Pensador de Rodin como peso de se-gurar papel. [risos] CONFISSES DE AURLIO 395 [risos] Me aguarde, viu? [risos] Tenho sede, Aurlio. Que tal um suco de uva? Ento, acabou? Sim. E depois do suco, um beijo. E depois e depois e depois... o que vamos fazer agora? Tudo o que quisermos.AgradecimentosArealizaoindependentedestaobrateriasidoimprovvel sem a amizade e boa vontade destas pessoas, que, direta ou indireta-mente,contriburamparasuaconsecuo:comeopelabase,meus pais, pelo apoio sempre incondicional; minha esposa, pela pacincia ecompanheirismo;meuflho,pormeperguntar,comsuasinceri-dadedecriana,qualosentidodaartedeescrever;EmilleRochae FredBorges,peloincentivoesugestes;MaraMatos,AlbaValria, Vincius Rocha, pela crtica tcita; Lindomar R. Mota, meu orientador no mestrado, por me introduzir no pensamento agostiniano; Helton g. de Souza, por suas valiosas contribuies; Jaider Castro e Ademir Siqueira, pela representao de altos valores e abertura de horizon-tes; Tasa Siqueira, por sua sensibilidade e inteligncia, ao tornar-se alm de executar o projeto grfco tambm leitora e crtica; Artur Bicalho, pela generosidade e talento artstico. outros ainda merece-riam ter seus nomes citados aqui, seja pelo incentivo ou pelos eletr-nicos curtir que encorajaram este projeto: com a devida oportuni-dade, falaremos disso pessoalmente.Da AutoriaTudocomeouemjaneirode2011.Euestavanotrabalhoe simplesmentepercebiquehaviaalgumasfrasesencadeando-seem meuspensamentos.Semternadamelhorporperto,pegueilogoum pedao de papel e as anotei, a lpis, para no esquecer. Foi assim que escrevioprimeiropargrafodolivroConfssesdeAurlio.Aredao de ento se mantm ainda praticamente a mesma. Naquele momento, tive a subjetiva certeza de que eu escreveria um livro. Eujhaviaconstatado,duranteomestrado,queosestudos agostinianosmeforneciamumaboabaseparaumtrabalhoautoral, porm,notinhaamenorideiadoqueseriaessetrabalho.ofato mais signifcativo no que tange ao episdio dessa repentina escrita do primeiropargrafofoiterconcebido,paraalmdeumpunhadode frases, uma forma, um todo: em outras palavras, o vislumbre do livro queeudeveriaescrever.Noar.Eupressentia,masnovia.Eassim comecei a procurar.Nofoifcillidarcomaparadoxalsensaodeseconhecer totalmente um objeto e, ao mesmo tempo, jamais t-lo visto. Durante quatroanos,afastei-meeaproximei-medesseobjetopordiversas vezes, fz pesquisas, anotaes, escrevi e reescrevi o texto, fz inmeros cortes, at chegar a esta presente verso. Concedo-me, no mximo, o direitodedizerquesetratadeumaverso.E,tambm,arrogo-meo meritrio propsito de descrev-lo felmente, tal como o vi. Esta obra foi composta nas fontesgentium e Rutaban e impressa pela grfcaoLutadornopapelofset75g/memBeloHorizonte.Depois de muitas luas, a obra foi fnalizada de maneira independente e para pequena tiragem na lua cheia em julho de 2015 durante o inverno.Para entrar em contato com o autor:confssoesdeaurelio@gmail.com