Confissoes de Aurelio - Completo

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Romance filosfico-espiritualista publicado em 2015.Autor: Leonam Rocha

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<p>Leonam Rocha Leonam RochaIlustrao da CapaArtur BicalhoProduo EditorialTasa Siqueira taisasiq.blogspot.com.brRevisoHelton Gonalves de SouzaRocha, LeonamR672cConfsses de Aurlio / Leonam Rocha. Belo Horizonte: Do autor, 2015.395p.ISBN: 978-85-918894-0-21. Fico brasileira. I. Ttulo.CDU 869.0(81)-3FICHA CATALogRFICAElaborao: Helenice Rgo dos Santos Cunha CRB 1461Nota ao leitorRendemoshomenagemaAurlioAgostinho,maisconhecido comoSantoAgostinho,queviveuentre354e430d.C.Erahomemde notveis virtudes, um inquieto, um buscador espiritual, e por fm encon-trou na Igreja o recanto de seus anseios. Fez-se bispo de Hipona, na fri-ca romana. Suas obras correram o mundo, rendendo importantssimos frutos espiritualidade catlica. Escreveu suas famosas Confsses livro que fgura entre os mais editados do mundo ocidental em 397 d.C., e contribuiuenormementeparaconsolidaraautobiografacomogne-ro literrio legtimo e de profundidade introspectiva. Seu nome jamais ser apagado da Histria. Estudiosos o chamam de o ltimo homem da Antiguidade, aquele que, por seu exemplo de vida e legado intelectual, rematou a arquitetura do homem da ento nascente Era crist. Rendemos homenagem e pedimos: Santo Agostinho, rogai por ns. No mais que isso. Zelamos mormente pelos passos dos presentes caminhantese,maisainda,pelodestinodosvindouros,defnidosas-sim: os que tateiam e ainda tatearo no escuro, garimpando solues para os desafos dos novos tempos.Entre os homens susceptveis de serem acolhidos pelaFilosofia,creiodistinguircomoquetrs espcies de navegantes. A primeira daqueles que, tendo chegado idade em que a razo domina, afastam-se da terra, mas no demasiadamente. Com pequeno impulso e algumas remadas chegam a fixar-se em algum lugar de tranquilidade, de ondemanifestamsinaisluminosos,pormeio deobrasrealizadasnaintenodeatingiro maior nmero possvel de seus concidados, para estimul-los a virem ao seu encalo.Santo Agostinho, A vida feliz(Dedicatria a Mnlio Teodoro)9Acordei. Era cedo, era muito cedo. Tinha sede. Mal havia aber-to os olhos, mas sabia que tinha sede, uma sede fora do comum, inten-sa,tointensaqueeupareciadispostoabebervinagreouqualquer coisa que aliviasse. Saltei da cama num pulo e fui at a janela. Vendo a cidade espreguiar-se naquele fnal de madrugada, percebi que uma frase ressoava meio solta em meus pensamentos: Pai, por que me aban-donaste?Fiqueicomaimpressodequetinhaescutadoaquilonodia anterior; mas, no. Seriam os resqucios de um sonho?Imagensvvidasaforaramemminhamente.Vitudodeuma svez.Umlugardesconhecido.Umtipoderitolitrgico.Euvestia branco e era cercado por pessoas estranhas e taciturnas. Minha roupa pareciaummandriodebatismocomumapombabordadanopeito. Nodesfechodaordenao,recebiumacordaeumofcioescritoem letras de ouro, mas, subvertendo totalmente a santidade do momento, algoinesperadoaconteceu:fqueitodeslumbradocomabelezadas letras que no li o texto. Quando dei por mim, eu j havia me amarra-Prlogo10 PRLOGO do a um madeiro rstico que marcava o centro do enorme salo, e, ao tentar consultar novamente as instrues do ofcio, sentindo-me inse-guro quanto ao que estava por fazer, deparei com um papel em branco jogado a meus ps. Meu corpo todo tremeu, no mesmo instante em que a longa tnica branca tingiu-se de vermelho-sangue. J com as vistas embaralhadas e a mente turva, ouvi minha voz quebrantada repetir o enigmtico clamor de Jesus no glgota. Eli, Eli [...].Arecordaodaquelesonhonofezmuitosentidoparamim, at porque nem pude refetir sobre seu signifcado. Enquanto ainda ti-nha aquelas imagens na cabea, a sede terrvel que me consumia piorou, tornando-se insuportvel. Tentei primeiro a geladeira. Desci meio litro de gua gelada diretamente do gargalo. Foi como se no tivesse bebido nada.Continueisentindoamesmasecuranagarganta.Ummal-estar, uma nusea. Debruado sobre a mesa do caf, chupei um cubo de gelo; nada.Euestavadesesperadoenomeapercebiademeusgestosani-malescos. Por fm, lembrei-me de ouvir dizer que gua gelada no mata sede e fui ao fltro de barro. Dois, trs, quatro copos, e nada.Inquietude talvez seja uma boa palavra para defnir o quadro psicolgico que se instalou a partir de ento. Angstia, tambm. Minha face, terrivelmente sinistra, no espelho tremulava sem vida.Aquele dia, o primeiro de outros tantos, foi o pior. Meu deses-pero aumentava a cada instante. Como compreender tamanha aberra-o? Que sede era aquela? A sensao era repugnante. Confuso, eu ten-tava me convencer de que estava sob o efeito do sono, tal como num pesadelo, ou sob o efeito de algum tipo de droga que, provavelmente, tinham colocado em meu copo na noite anterior; mas, no: eu estava defnitivamente acordado. S me faltava compreender o prenncio da metamorfose. CONFISSES DE AURLIO 11Eracedo,eosraiossolaresmalhaviamrompidoabrumada madrugada.Porm,logoqueatineiparaasquestesprticasdodia que estava por nascer, o relgio passou a correr mais depressa. Como faria no trabalho? Ser que as pessoas notariam alguma diferena em mim? Ser que conseguiria chegar at o escritrio, ou me espatifaria noprimeiromeio-foqueselevantassediantedemeuspserradios? Invadiu-meumsentimentodeimpotncia.osentimentoevoluiuem pnico. Eu provavelmente enfartava. Era o fm. Minhas vistas escurece-ram. Um aperto no peito, um n na garganta, uma pontada. Um grito. No! No segundo seguinte, eu ainda estava ali, via os mveis, o quadro abstrato na parede e uma mulher adormecida em meio a edredons.Se no vai por bem, vai por mal. Assim, a semana passou, en-quanto eu me deixava levar como quem sobrevoa o palco da vida ou tangencia a superfcie de um oceano. Aquela estranha sede no deu trgua.Algumaspessoasperguntaramseestavatudobemcomigo; outras, se era ressaca. Tudo dentro dos bons costumes. os brasileiros so cordiais. Minha namorada tambm no tocou diretamente no as-sunto, nem no primeiro dia nem nos seguintes, manteve-se compre-ensiva,emboranotenhadeixadodemanifestaralgumasopinies maisimediatasdotipogostoquandovocfazabarbaouesque-ceu-se de pentear os cabelos?; isto , embora no tenha deixado de exigir, com delicadeza, seus direitos de namorada. Fora isso, meu si-lncio foi respeitado.Uma, duas, trs semanas, o estado mantinha-se inalterado, mi-nha mente vagava alhures, as pessoas pareciam distantes. Na verdade, eunoconseguiapensaremmuitacoisa.Sentiaumvaziotenebroso. E a sede, muita sede, insuportvel, indescritvel, me castigava; melhor seria estirar-me sob o sol escaldante de um deserto. PRLOGO 12Inquietude.Porfm,chegueiaomeulimite.Nopudeconti-nuar. Pedi licena ao pessoal do trabalho e me tranquei em casa. No joguei a chave fora. Joguei dentro. Mas o mais terrvel era, a despeito do recolhimento, no ter para onde correr, porque, aonde quer que eu fosse,levavaminhasedecomigo.Somentequandochegueiaoponto de entrega total quando e somente quando me dei por vencido , vi uma luz brilhar em meu corao. Era uma esperana, no fnalzinho da madrugada, mais ou menos mesma hora em que semanas antes tudo aquilo tinha comeado. Da janela do meu apartamento, vi brilhar, pou-co acima dos arranha-cus da cidade, a estrela da manh. Vi a magia daquela estrela que, tal como me piedosa, irradiava suas bnos para um novo dia.Foi como se eu ouvisse uma voz me aconselhando a ter pacin-cia; uma voz que tambm me dizia para crer que sou amado incondi-cionalmente. Ento, com os medos e mpetos suavizados manso e re-signado , comecei a compreender o que estava acontecendo comigo, a comear por entender que eu no tinha de lutar contra a sede, e que, naverdade,ocasoeramuitomenosdelutadoquedeautoconheci-mento. Se havia algo ou algum querendo me derrubar, logo, seria ne-cessrio estar mais atento e consciente para no cair, apensa isso. Pela primeira vez, aps tantos dias de desespero, no tive medo da sede, e at considerei a possibilidade de nunca mais me livrar dela.Clareou o pensamento. Eu podia enfm decifrar aquele sonho. No como quem decifra um enigma, mas como quem fnalmente cons-tata existir um adversrio oculto e decide cham-lo s claras.Quem estiver a, aparea!, lancei essas palavras no vasto deserto do meu co-rao. A voz que ouvi se disfarava entre meus pensamentos, tecendo seudomnio,eminhaconscinciaaignoravatantoquantoaluzno CONFISSES DE AURLIO 13toca a escurido. A voz era a do acusador que inferniza eternamente a vida dos coraes divididos, e o que ela dizia era: Aurlio, onde est o seu Deus?Eis o inimigo: voc chama e ele aparece. Mas depois se esconde outra vez. Se na noite daquele sonho eu me deitava imaginando erro-neamente poder me dar ao luxo de um descanso, agora, tendo penado semanas de desequilbrio, eu descobria o contrrio: a estrela da manh me revelou o tempo propcio para o combate. Hora de ver, ouvir, com-preender e seguir em frente. E foi isto que fz, comeando por procu-rar o esconderijo do hspede tinhoso: procurei-o conscientemente no lugarmaisbvioondeelepoderiaseocultar,ouseja,emmeuponto fraco. E l estava ele, com voz de falso conselheiro:Aurlio,ondeestavaseuDeusquandoelasefoi?Amulher que voc mais amou...15 15.1.[...] fizeste-nos para ti, e inquieto est o nosso corao, enquanto no repousa em ti.Santo Agostinho, Confisses (I, 1)Das confissesAcrianaquehabitaemmimadormeceuumsonodemorte, deixando acesa apenas uma centelha de esperana, como promessa de um tempo no qual as manhs lhe pertencero. Convices caram por terra,sonhosdesvaneceram.AcordouAurlio,umhomem.Maisum homem. Mais um que desperta para a batalha csmica imemorial que deu origem ao mundo. Mais um que compreende que, nessa batalha, a displicncia e a falta de iniciativa favorecem a campanha do mal. Mais um que procura fazer sua parte.Assim,subiaomontedeminhaalmaeaquipermaneo,em retiro, neste lugar onde me vejo mais perto de mim e de Deus. Meu ora-trio est aberto. Peo a guarnio divina para o trabalho que tenho a fazer. Hei de ir ao passado. Mas aprendi com os antigos que o passado terrarepletadearmadilhas,decujoshabitantesnosedistinguemfa- CAPTULO 1 16cilmente os atributos reais das iluses, sendo que, ao revisit-lo, bom no estarmos ss, pois corremos o risco de nos equivocarmos quanto a quem so nossos verdadeiros aliados. Por isso, estou aqui. Sei dos perigos que me aguardam. Ao ludbrio do vasto corao humano, concorrem as incontveis artimanhas do adversrio: pelo nome esconjurado, Satans. Dou incio s confsses de uma vida e quero que meu objetivo esteja bem claro. Por que confessar? Para encontrar Deus em cada ca-ptulo de minha histria. Para recolher, em meu oratrio, os santos de minha devoo.Mas por que no recorrer, por exemplo, ao div, que tambm um bom lugar para se fazer um balano biogrfco? Penso que se trata de uma imprescindvel questo de mtodo. Alguns preferem a psican-lise. outros, a introspeco. Quanto a mim, creio que o ato de confessar trazavantagemdenodarchanceaoengano.Aanlisepodesele-cionar o contedo da investigao. A introspeco pode ser ludibriada pela fantasia. Somente a confsso infalvel, porque a confsso ver-dadeira consiste no ato de no mentir nem omitir uma palavra sequer. Eu tambm poderia escrever uma autobiografa. Por que no? Primeiramente,nosouescritor.Ademais,noescrevoaleitoresim-plcitos: falo! S quem me escuta Deus.Vou me confessar, para que no reste pedra sobre pedra, para que eu me veja fora da tenda, a cu aberto. Assim, talvez, direi amanh quemeconheomelhordoqueontem,semasmculasdavaidade, sem neuroses. Mas, se tudo vaidade debaixo deste sol,... quem sou eu? Sublime insignifcncia.Tal como a tartaruga marinha, que depois de trinta anos retor-na mesma praia onde nasceu para sua primeira desova; como o ele-fante, que jamais se esquece da fonte que um dia saciou sua sede; como CONFISSES DE AURLIO 17aninfa,quesabeahoracertadesairdasprofundezasdaterra,para no alto das rvores morrer como ninfa e renascer no canto da cigarra; comoocondor,quenodescansaenquantonoencontraocumeda mais alta montanha para fazer seu ninho; e como todo e qualquer ser vivo que cumpre seu papel natural, eu tambm sou guiado pela nature-za. Meus instintos me fazem buscar Deus. Sou como a tartaruga mari-nha realizando a viagem de retorno; sou como o elefante caminhando rumo fonte para matar a sede; sou como a cigarra saindo de dentro da casca; sou como o condor andino procurando um lugar nas alturas.ofereo minhas confsses ao meu Deus e a mais ningum. Ne-nhumjuizdestemundomejulgar.Acadavezqueeufalaromeu Deus, haver uma grande parcela de mentira em minha lngua, por-quanto estou infnitamente distante de conhecer o Deus do universo, o Inefvel, e me manteria muito mais prximo da verdade se perma-necesse calado. Mas preciso falar ainda um tanto antes de alcanar o silncio verdadeiro. Sigo falando por necessidade. Preciso de palavras edifcantes. Preciso das palavras que fazem andar. Preciso dar uma fa-xina em minha casa. At que chegue o tempo do silncio, as palavras ainda valero mais que ouro.MuitagenteseincomodacomessejeitodesereferiraDeus comoomeuDeus.Masnadadireisobreisso.opiniesnomeaba-lam. No creio que os incomodados conheam o juzo Dele. Sigo minha intuio, e ela me diz que estou a marchar numa boa direo.Vejo-mecomopartedeumacontecimentohistrico;somos muitos, somos os portadores de uma nova conscincia religiosa. Dize-mos acredito no meu Deus simplesmente para marcar esta diferena: no aceitamos o deus de um povo, de uma religio, de uma instituio. Etambmacrescentamosessepronomepossessivoparaindicarque CAPTULO 1 18vivemosnossafnointeriordensmesmos.Visamosaumaexperi-ncia universal do divino, nada mais; queremos sentir o sagrado como a intimidade de algo do qual fazemos parte ou como a intimidade do irmo que sorri e fala de amor.No subverto, no transgrido; procuro minha verdade na srie de manifestaes da nica verdade que no cessa de se transmitir. Tra-dio aquilo que fala aos coraes, a qualquer tempo.Confessarei o que fui para compreender o que sou: luz e tre-vas. Algumas batalhas perdi, de outras sa vencedor. Quando chegar l na frente, quero estar pronto para dizer que combati o bom com-bate. No alimento iluses. Sou responsvel por todos os meus erros. A luz vem de Deus.Minhacasaprecisadereformaparatornar-semaioremais bela.Porisso,continuoacaminho,avanandoapassoslentos.olho para trs e vejo as pegadas que deixei. Comecei por uma rua que foi dar no meu corao. Da em diante, s encontrei ladeira para subir.19.2.[...] eu que sou p e cinza [...] Que pretendo dizer,SenhormeuDeus,senoqueno sei de onde vim para c, para esta vida mortal, ou antes, para esta morte vital? Santo Agostinho, Confisses (I, 6) Do desejo dos pais de Aurlio Meu nome Aurlio. Tenho 33 anos. Sou brasileiro. Nasci no final de um sculo problemtico, em tempos de grandes incertezas etransformaes.Minhamequisquemeupartofossenormale ignorouaorientaodoobstetraquealertavaparaofatodeque sua pelve no dava passagem suficiente ao beb. Ela havia sonhado trsvezescomonascimentodeumfilhohomemeestavamuito seguradequetudocorreriabem.Nossonhosnohaviamdico, era ela quem dava luz por si mesma. Histrias contadas pela fam-liaatestamquefoiprecisofazertantaforanahoradopartoque, esgotada,aparturienteapagouantesmesmodeacriancinhasair completamente de seu ventre. CAPTULO 2 20Meu pai, por sua vez, tinha l sua...</p>