ANDRADE, Aurelio l - Avaete

Download ANDRADE, Aurelio l - Avaete

Post on 25-Jul-2015

80 views

Category:

Documents

6 download

TRANSCRIPT

2

Avaet

Um

3

1Eu jamais imaginaria que uma animensagem pudesse me inquietar tanto. Ainda mais aquela. Para qualquer outro professor universitrio, aquilo no teria nenhum significado extraordinrio. Mas no para mim. Pelo menos no naquele momento. Passava discretamente pelo rodap da tela. Capturei-a rapidamente com o olhar. Ela veio para o foco central. Participe do IV Colquio Mundial da GBuNGO Inovao e sustentabilidade atravs dos negcios, cincia, artes e religio 17 a 20 Janeiro El Calafate, Patagnia Focalize aqui para inscrever-se. Fosse apenas pela chamada em si, no me atrairia. Mais um congresso na carreira com direito a turismo? Encontrar gurus grandiloqentes? J bastava. Mas, e quanto chance de encontrar algum realmente interessante pelos corredores? Bom, a estava algo que valia a pena. Mas no era s isso. Tinha algo a ver comigo. Um transtorno. Uma angstia. Uma sensao de que algo mais radical precisava ser feito. Comigo? Com o mundo? Sei l. Volta e meia voc faz um balano geral. s vezes faz o balano e o deixa de lado. Outras vezes muda completamente o rumo. Ou sobe um degrau. Conquistei muita coisa na vida nos ltimos anos. Tornei-me um catedrtico respeitado. Fui convidado inmeras vezes para ministrar palestras. Eu prprio me tornei um aspirante a guru. Escritor de livros sobre negcios sustentveis. Os alunos me adoram. A maioria. Bem, uma parte deles. Oriento dezenas de trabalhos acadmicos. Sou consultado por empresas e governos. Viajo pelo mundo todo. Amo o que fao. Tenho uma vida equilibrada. Jogo tnis. Isto sagrado. Dou o mximo para ser respeitado como um bom ecoengenheiro. Voc sabe, quando se professor de ecoengenharia, voc muito cobrado. Os alunos no perdem a oportunidade de se vingar. Imagine se descobrem que voc gasta 5,2 megawatts de energia por ano. Ou que descarta 7.200 litros de lixo. a sua morte.

4

, mas aquela mensagem mexia com alguma coisa mais do fundo. como pressentir que coisas importantes esto por acontecer. Algo maior que tudo isto. Como estar para descobrir uma chave. Uma chave que resolve todos os conflitos. Uma chave que dissolve as ansiedades. Uma chave que mostra o caminho. , uma chave ajudaria. Poderia ajudar o mundo. Ajudar a salvar o mundo. definitivamente do que o mundo precisa: uma chave salvadora. No caminho de desesperana que tudo vai, s algo salvador. Uma chave oracular, divina. Algum para quem perguntar: Mestre, abandonemos a tecnologia e vivamos uma vida de simplicidade voluntria ou nos entreguemos com toda energia ao poder tecnolgico que temos nas mos? Criemos uma sociedade sistemtica e eficiente ou livre e diversa? Ofereamos a outra face violncia ou a atacamos com fria? Perdi-me em pensamentos divagantes sobre os conflitos mais profundos que a civilizao vive, at que sa daquele torpor com um tapa na cara. Mas que besteira! pensei. Uma chave mgica? No era exatamente o que meus clientes e alunos sempre pediam? E o que eu respondia? No existe uma soluo mgica para seu problema, meu caro. Ele foi gerado em um processo, a soluo s ocorrer atravs de um processo. com aquele ar de sbio. Ok, que no haja uma chave salvadora. Mas algo importante vai acontecer por l e eu no posso estar fora dessa. Nunca perdi a oportunidade de fazer a coisa certa. Zoom.

2A escolha de El Calafate no inadvertida. bvio, muita gente aproveita para passear. El Calafate encontra-se na regio da Patagnia, s margens do Lago Argentino, este nascido de inmeras geleiras. O lago de um turquesa leitoso esplndido e os tours levam os interessados por um mar de tmpanos, ilhas de gelo que se desprendem de glaciais outrora fenomenais, como o Perito Moreno. O fato que os glaciais esto mirrados. Por todos os motivos que todos sabem e por muitos outros que ningum imagina. Bem, uma coisa falar do assunto, outra ver aquela coisa magnfica desaparecer. Por isso, aquele era o lugar.

5

Analisei todos os detalhes. O perodo era de frias, mas havia muitos trabalhos em andamento. Pelo menos trs projetos de pesquisa estavam pegando. Todos envolviam a academia, algumas empresas patrocinadoras, governos e comunidades locais. Eram projetos de que me orgulhava. No poderia deix-los assim. Mas no poderia haver escolha. Contei com a ajuda dos meus assistentes ngelo e Mrjorie. Gosto deles. Crianas com quem vale a pena trabalhar. E que se pode confiar. Bela escolha a minha. Incluindo o fato de terem nomes proparoxtonos. Tratei dos trmites burocrticos, atropelei fluxos de sistemas de informao, coletei eu prprio vistos eletrnicos. Avisei quem precisava, convidei quem merecia e toquei para casa fazer as malas. Escolhi um pequeno bando de livros, empacotei meu note, separei roupas multiuso, teis para os auditrios e para uma eventual caminhada, e p na estrada. Algumas horas de trem da cidade universitria at o aeroporto mais prximo, outras poucas horas num vo com destino final a Rio Gallegos, e depois at El Calafate em um aerobus bacana. Os aerobus estavam em experimentao em algumas regies mais desrticas do globo, por isso tnhamos disposio um transporte moderno at aquela regio turstica. No foi possvel passar irreconhecvel pelos trechos. Quanto mais perto do destino, mais gente da tribo vai se encontrando. A maioria dos livros ficou intocada. Sem problemas, a volta normalmente mais longa. A chegada ao local do evento foi sem surpresas. Avisos virtuais de Reduza, Reuse, Recicle, caf orgnico, nada de descartveis, camisetas e mochilas feitas de embalagens diversas reutilizadas. Procedimentos j comuns aos congressos. No havia mais novidade nestes detalhes. Aproveitei que era fim de tarde, deixei minhas coisas no quarto e fui dar uma volta na cidade. A gente da tribo teve a mesma idia e encontrei alguns parceiros tambm pelas ruas e pelos bares. O clima era um pouco nostlgico, pois estive aqui vrios anos atrs conhecendo a regio. Era diferente porque parte da beleza natural dissipou-se, mas recompensador por ver novamente aquele maravilhoso e potente deserto. A cidade estava maior, no pelo crescimento da populao local, mas pelo aumento do nmero de negcios diversos que europeus rodavam. Eram bem cuidados e

6

traziam um ar cosmopolita a esta regio por eles descoberta no Sc. XIX. Entre alguns Ol! e Como vai voc?, pus-me a imaginar que ainda estaria cedo para comear velhas conversas sobre green business, liderana e inovao nos negcios, liga dos cientistas para o desenvolvimento, etc. Por isso, optei por ficar caminhando pela rua mesmo, at chegar a um local um pouco mais afastado e alto da cidade para contemplar o movimento. Fui e voltei pela Av. Del Libertador e depois peguei o rumo sudeste at os limites do povoado. Buscar instintivamente lugares altos algo que aprendi com o passar do tempo. Uma viso mais ampla. Perspectiva. Mirei o pr do sol, aquele laranja-acinzentado maravilhoso, deixando que a paisagem tomasse posse do que era seu. A grande expirao comeava a tomar vulto e uma predisposio de esprito calmante surgia. Estrelas, uma a uma, reapareciam para a negra travessia. Em nmero muito, muito superior ao que posso assistir do meu apart. Da minha casa, s sou capaz de observar algumas poucas estrelas. Isto acontece, em parte, porque s vejo o que est minha volta e mesmo acima pelas frestas de prdios. De resto, a iluminao da cidade compete de maneira implacvel com o brilho da noite. S as mais potentes vencem a batalha. Aqui ainda no h tal presso. Vejo pontos brilhantes aos milhares. algo que ajuda a diminuir a sensao de solido. Como uma demonstrao diria, porm pouco vista, de magnitude, de propsito, de realizao, pelo simples fato de estar vivo. No toa que as estrelas nos trazem imagens de orientao, de norte, de direo do movimento do universo. Iluminaram os ensejos de tantos povos e viajantes. Ser que sero capazes de iluminar o caminho destes milhares de cegos-surdos-no-mudos aqui reunidos?

3Fora uma noite tranqila de sono. De volta ao hotel, um lanche leve, uma cama confortvel, um pouco de diverso barata na tela, um ch quente e nada de pesadelos. Apesar da ausncia de sobressaltos, notei a calma subitamente transformar-se numa ponta de expectativa sensvel na parte superior do estmago. Isto ocorreu

7

diante do espelho fazendo a barba. Havia alguns anos que no sentia mais esta excitao prvia a um evento. Com o passar dos anos voc passa a sentir-se mais seguro de si, autoconfiante, senhor das situaes. Desaparecem as incertezas, as expectativas e as surpresas. O corao quase no dispara mais. Mas aquela sensao era esquisita, no porque no a esperava, mas porque j no estava mais acostumado e ela. Voil, sigamos em frente. Com o motor em aumento de giro, agi inconscientemente precipitando aes e pensamentos. Tomei um caf da manh sem propriamente degust-lo e parti rapidamente para as providncias iniciais do dia. A primeira coisa a fazer era o check-in do evento. Ao chegar grande ante-sala de onde se adentrava aos locais dos trabalhos, garotas o atendiam com polidez e distanciamento. Uma vez recebidas as orientaes e o crach, fui orientado a dirigir-me sala Agassiz, uma das maiores do centro de convenes do hotel. Cinco cafs-colquio ocorriam simultaneamente nas diferentes salas com nomes de geleiras. Todos contavam com figuras importantes. A idia era uma manh de debates sobre grandes temas, com a meta de tratar de propostas objetivas para problemas mundiais. O caf-colquio que escolhi reunia quatro expoentes e um mediador. Havia uma motivao para estar ali, pois vislumbrei naqueles convidados maior potencial para um debate produtivo. Estvamos diante de um tablado circular mais alto que a platia, em que figuravam o presidente da maior empresa de multienergia do mundo, um artista rupestre vanguardista, um dos grandes neurocientistas nobelistas da dcada e o bispo-mor da Igreja Messinica Mundial. O mediador d a deixa para iniciar os debates. - Caros participantes deste IV Colquio, sejam muito bemvindos. Como todos sabem, vivemos enormes conflitos em vrias esferas no globo terrestre. Infelizmente, estamos diante de um desafio que urge por uma escolha de caminhos que nos permita prosperar e salvar o planeta ao mesmo tempo. Para catalisar nosso dilogo, gostaria de colocar a seguinte questo aos nossos ilustres convidados: H uma maneira de reconciliar humanidade e planeta nos nossos tempos atuais? H, senhores, tempo de salvar o planeta e a raa humana? Pagaremos pelo que viemos fazendo nos ltimos sculos?

8

Achei a pergunta genrica demais, para dizer o mnimo. Imaginei algum falando alguma frase de efeito logo a seguir, mas o pessoal ainda no estava aquecido o suficiente. Um que outro movimento de cadeiras dos mais inquietos, mas nenhuma manifestao mais efusiva. Resolvi dar uma vasculhada na audincia para ver se encontrava algum outro inquieto como eu. Havia cerca de setenta pessoas na sala, dispostas em mesas de cinco a oito cabeas cada uma. O que eu podia notar era uma saudvel diversidade, porm uma injusta maioria pertencente cincia e aos negcios. Isto era esperado. Os artistas esto morrendo de fome. Os religiosos missionrios esto preocupados demais combatendo demnios que se avizinham. A cincia manda no mundo. E os negcios mandam na cincia. As manifestaes do palco foram dentro do esperado. A primeira fala foi da cincia. Os neurocientistas no mundo inteiro alcanaram uma supremacia tal, que todos os que podem ler jornal ou revistas de pop-science neste mundo sabem das suas teses bsicas. - H algumas idias presentes no imaginrio popular que dificultam a nossa capacidade de dar respostas aos desafios mais fundamentais com os quais nos defrontamos. A primeira destas idias nefastas, secularmente defendida pela pub-psychology e apoiada pelo senso comum, defende que o ser humano s mau porque ensinado. Ela sugere o ser humano como dotado de uma memria computacional limpa pronta para receber os mais variados programas desde cedo e executar estes programas de maneira mais ou menos inconsciente. Softwares como nazismo, democratismo, revolucionarismo, salvacionismo, machismo se desenvolvem em algumas mquinas-mestras e instalam-se nos demais computadores da rede como se fossem vrus. Esta tese denomina-se "RAM", em referncia aos chips de memrias de rpida e livre gravao. J a segunda idia... O mediador, jornalista de renome precocemente nervoso, aproveitou um momento de hesitao do neurocientista e interrompeu: - Voc poderia justificar por que essa seria uma idia nefasta, se me permite usar suas prprias palavras?

9

- Em seguida, meu caro. Deixe-me primeiro enunciar as trs teses bsicas mais danosas para a humanidade. Em seguida, as justificarei. A segunda diz respeito a... No me contive a fazer uma careta e coar a cabea. Comentei com meu vizinho, um bilogo indiano que se remexia na cadeira: - Que tal? Samos daqui hoje, ou o evento deveria chamar-se solilquio? Meu companheiro de mesa piscou o olho e manteve-se impassvel. Uma maneira discreta de dizer: Fica frio que a coisa vai longe. Ok, vamos em frente. A interveno do nosso amigo estudioso das entranhas cerebrais durou mais de trinta minutos. Quase to longa quanto discurso de ditador. E ainda havia mais trs respeitveis senhores por manifestar-se! Que batalha para nosso mediador. A platia, j quelas alturas, tinha um misto de parcial enfadamento com total aborrecimento. O segundo foi o presidente da McSquare Energy Corp. Apesar de mostrar-se um sujeito muito mais direto, fui confirmando minha profecia particular de que estas manifestaes no levariam a nada. No caso do nosso amigo executivo, o tom motivacional para uma mudana do mundo atravs dos negcios causou na platia circundante aquele comportamento tpico das massas alienadas, um isso a, isso a. Sua frase mais ovacionada foi: Temos todos os instrumentos necessrios para uma mudana fundamental neste planeta. Tudo o que nos falta o comprometimento com uma viso comum que somente um planejamento estratgico mundial pode nos dar!. Palmas pensei. Acho que todo mundo pensou isto. Ningum o fez por uma questo de moral esquerdo-intelectualide: no entregar a mente (a liberdade) ao capital estrangeiro. Pelo menos no em pblico. Minha inquietude foi dando lugar a uma resignada desesperana. Naquele estado de torpor, passou batido para mim a obra que nosso artista litfilo preparou para o colquio. Ele a apresentou num tom de suspense, inicialmente coberta por um pano. Assim que ele silenciosamente obteve a ateno da platia, sacou rapidamente a coberta, provocando um Oh! coletivo. No falou palavra. Deixou que a obra falasse por si. Pensando em retrospectiva,

10

passei a gostar deste: pelo menos nos poupou vrios minutos de linguajar oco. O grand finale ficou para o bispo messinico, que surpreendentemente (ou no) ressoou as idias do executivo empresarial, evitando citar versculos de quaisquer escrituras. - Bem, j temos um incio de consenso: a igreja concorda com os negcios ressaltei. - Se voc ainda no tinha prestado bem a ateno, pelo menos h uns trs sculos! cochichou o vizinho bilogo. Uma manh pouco produtiva at ento. Ser que todas as minhas expect...