processo executivo

52
DIREITO PROCESSUAL CIVIL III DIREITO EXECUTIVO PROF. LUÍS BONIFÁCIO RAMOS Faculdade de Direito de Lisboa DISCLAIMER Estes apontamentos não dispensam o estudo dos manuais recomendados pelo Professor Regente e Assistente.

Upload: lara-geraldes

Post on 28-Jun-2015

13.238 views

Category:

Documents


7 download

DESCRIPTION

Direito Processual Civil III: Processo Executivo - Faculdade de Direito de Lisboa, ano lectivo 2008/2009.Professor regente: Prof. Luis Bonifácio Ramos.Autoria: Lara Geraldes.DISCLAIMER: estes apontamentos não dispensam o estudo dos manuais recomendados pelo professor regente e assistente.

TRANSCRIPT

Page 1: Processo Executivo

DIREITO PROCESSUAL CIVIL

III

DIREITO EXECUTIVO

PROF. LUÍS BONIFÁCIO RAMOS

Faculdade de Direito de Lisboa

DISCLAIMER

Estes apontamentos não dispensam o estudo dos manuais recomendados pelo Professor Regente e Assistente.

Page 2: Processo Executivo

Direito Processual Civil III: Direito Executivo – Lara Geraldes @ FDL

PARTE GERAL

1. INTRODUÇÃO

§1: NOÇÃO

Tipos de acções:

Declarativa:

o De simples apreciação

o De condenação

o Constitutiva

Executiva: tem por finalidade a reparação efectiva de um direito

violado, e não a declaração da existência de direitos (art. 45º, nº 2).

o Pagamento de quantia certa:

O exequente/credor pretende obter o cumprimento de

uma obrigação pecuniária, através da execução do

património do executado/devedor (art. 817º CC).

Pretende-se obter um resultado idêntico ao da

realização da própria prestação.

PAULA COSTA E SILVA identifica três fases na acção

executiva de pagamento de quantia certa:

1. Fase liminar

2. Fase da penhora

3. Fase de pagamento

o Entrega de coisa certa:

O exequente é titular do direito à prestação de uma

coisa determinada e pretende que o tribunal apreenda

essa coisa ao devedor e lha entregue de seguida (art.

827º CC).

Pretende-se obter um resultado idêntico ao da

realização da própria prestação ou, se tal não for

possível, a liquidação do valor da coisa não encontrada

e dos prejuízos resultantes da falta da sua entrega (art.

931º).

o Prestação de um facto:

Facto positivo:

Facto fungível: o exequente pode requerer que

o facto seja prestado por outrem à custa do

devedor (art. 828º CC), pelo que serão

apreendidos e vendidos os bens que forem

1

Page 3: Processo Executivo

Direito Processual Civil III: Direito Executivo – Lara Geraldes @ FDL

necessários ao pagamento do custo da

prestação.

Facto infungível: o facto não pode ser prestado

por outrem que não o devedor, pelo que se

deve proceder à apreensão e venda dos bens

suficientes para indemnizar o exequente do

dano sofrido com o incumprimento.

Facto negativo (dever de omissão) – art. 941º:

As prestações de facto negativo são, por sua

natureza, infungíveis.

Exemplo: caso da chaminé de Colmar (acto

emulativo). O exequente pedirá a demolição da

obra que tenha sido efectuada pelo devedor, à

custa deste, assim como a indemnização do

prejuízo sofrido (art. 829º CC).

Em qualquer caso, pretende-se obter um resultado

idêntico ao da realização da própria prestação ou, se

tal não for possível, um seu equivalente.

§2: FUNÇÃO

Desta primeira abordagem, conclui-se:

A acção executiva pressupõe o dever de realização de uma

prestação.

A acção executiva visa reparar um direito efectivamente violado, pelo

que não pode ter lugar perante a simples previsão de violação do

mesmo.

A acção executiva visa a obtenção de um resultado idêntico ao da

realização da própria prestação devida (execução específica), por

meio directo (apreensão/entrega da coisa ou da quantia devida) ou

por meio indirecto (apreensão e venda dos bens e subsequente

pagamento); se tal não for possível, a execução diz-se por

equivalente.

O tipo de execução é sempre determinado em face do título

executivo:

o Se do título executivo constar:

Obrigação pecuniária: acção de pagamento de quantia

certa.

Obrigação de prestação de coisa: acção de entrega de

coisa.

2

Page 4: Processo Executivo

Direito Processual Civil III: Direito Executivo – Lara Geraldes @ FDL

Obrigação de prestação de facto: a acção de prestação

de facto.

A satisfação do credor é conseguida mediante a apreensão de bens

pelo tribunal para que, em substituição do devedor, possa pagar ao

credor.

§3: DECLARAÇÃO OU ACERTAMENTO

Ocorrendo num momento posterior à acção declarativa, o ponto de partida

da acção executiva coincide, precisamente, com o ponto de chegada da primeira: a

declaração ou acertamento de um direito ou de uma situação jurídica.

Entre os dois processos (declarativo e executivo) assiste-se, geralmente, a

uma coordenação funcional, ainda que sejam estruturalmente autónomos. Esta

coordenação funcional cessa quando o título executivo não é uma sentença, em

termos que veremos infra.

Ainda assim, os princípios da igualdade das partes e do contraditório não

assumem, no processo executivo, igual dimensão do que no processo declarativo:

com efeito, o executado não goza de uma posição jurídica paritária à do exequente

(em termos materiais) e o seu direito à contradição é fundamentalmente

assegurando ex post, por via da oposição à execução (acção declarativa autónoma

relativamente ao processo executivo).

§4: O JUIZ E O AGENTE DE EXECUÇÃO

Antes da reforma da acção executiva de 2003, cabia ao juiz a direcção de

todo o processo executivo, sem restrições (art. 265º, nº 1), mediante o

proferimento de inúmeros despachos judiciais.

A reforma surgiu da discussão entre dois modelos alternativos ao status quo

vigente:

O primeiro, mais radical, defendia a retirada dos processos de

execução da esfera dos tribunais, sem mais. A execução ficaria

entregue a entidades de natureza administrativa (modelo sueco) –

desjudicialização.

O segundo, mais moderado, defendia a manutenção do processo

executivo na esfera dos tribunais (de natureza especializada) e

impunha ao exequente um maior grau de empenhamento no sucesso

da acção executiva (modelo francês: hussiers de justice) –

3

Page 5: Processo Executivo

Direito Processual Civil III: Direito Executivo – Lara Geraldes @ FDL

desjurisdicionalização. Foi este modelo que foi acolhido pelo

legislador nacional.

Com a reforma, optou-se por um modelo no qual o juiz exerce funções de

tutela (art. 809º, nº 1 b), c) e d)) e de controlo (proferindo despacho liminar em

determinados casos, arts. 809º, nº 1 a), 812º e 812º-A). Deixou, portanto, de ter a

seu cargo a promoção das diligências executivas: não lhe cabe, em regra, ordenar a

penhora, a venda e o pagamento, extinguir a instância executiva ou o desempenho

de actos instrumentais como a citação, as notificações ou as publicações.

Quando a lei não determine diversamente, a realização da maior parte das

diligências do processo cabe ao agente de execução, figura introduzida com a

reforma (art. 808º, nº 1 e 6). O agente de execução pode ser um solicitador de

execução (profissional liberal escolhido pelo exequente no requerimento executivo,

art. 810º, nº 3 e)) ou, quando não haja solicitador no círculo, um funcionário judicial

(oficial de justiça que desempenha, em princípio, as mesmas funções que o

solicitador de execução). As despesas com o agente de execução são imputadas às

custas.

O facto de a competência para a realização das diligências supra atribuída

ao agente de execução, não prejudica o poder geral de controlo do juiz (que pode

proceder à avocação oficiosa de processos) nem a possibilidade de oficiosamente

ordenar as actuações que julgue adequadas. Para mais, certos actos (vg tutela de

direitos fundamentais) impõem a necessária intervenção do juiz, bem como actos

para os quais vigora um princípio de reserva de jurisdição quanto a todos os

incidentes de natureza declarativa (despacho liminar, oposição à execução,

oposição à penhora, etc.). Por outro lado, o juiz pode destituir o agente de execução

ao abrigo do art. 808º, nº 4 (com alterações com a Reforma a vigorar em 2009).

Estas razões levam a que LEBRE DE FREITAS refute, contra TEIXEIRA DE

SOUSA, a existência de qualquer relação de “quase-mandato” entre o agente de

execução e o exequente, uma vez que o último não dá ordens ao primeiro.

Ainda assim, a criação desta figura implica uma larga desjurisdicialização do

processo executivo, envolvendo uma menor intervenção do juiz (e da secretaria)

nos actos processuais. Por outro lado, poder-se-á assistir a um recurso abusivo à

acção executiva em situações em que falte ou seja insuficiente o título executivo

(maxime com o alargamento dos títulos executivos à generalidade dos documentos

particulares, com a reforma de 1996), caso em que a reduzida intervenção do juiz

dificultará a percepção de falhas materiais ou processuais.

Todavia, a menor intervenção do juiz em actos puramente instrumentais,

como consequência da introdução da reforma, é de louvar, uma vez que promove a

desburocratização e a celeridade processuais.

2. PRESSUPOSTOS DA ACÇÃO EXECUTIVA

4

Page 6: Processo Executivo

Direito Processual Civil III: Direito Executivo – Lara Geraldes @ FDL

§1: PRESSUPOSTOS ESPECÍFICOS

A exequibilidade do direito à prestação depende de duas condições:

Título executivo: o dever de prestar deve constar de título

executivo – pressuposto de exequibilidade extrínseca do direito à

prestação.

o Sob pena de: recusa do requerimento executivo pela

secretaria.

Certeza, exigibilidade e liquidez: a prestação deve ser certa,

exigível e líquida – pressuposto de exequibilidade intrínseca do direito

à prestação.

o Sob pena de: não realização coactiva da prestação.

São pressupostos processuais da acção executiva, sem a verificação dos

quais esta não é admissível.

§2: PRESSUPOSTOS GERAIS

Para além dos pressupostos específicos da acção executiva, cabe verificação

dos pressupostos do processo civil, nos termos gerais:

Competência

Legitimidade

Patrocínio judiciário

E, eventualmente:

Litisconsórcio e coligação

Cumulação de pedidos

3. O TÍTULO EXECUTIVO

§1: NOÇÃO

Toda a acção executiva tem por base um título, através do qual se

determinam o fim e os limites da primeira (art. 45º, nº 1):

O tipo de acção em causa (pagamento de quantia certa, entrega de

quantia certa ou prestação de facto)

O objecto da acção

As legitimidades activa e passiva (art. 55º, nº 1)

Esta afirmação preliminar não prejudica que o título seja complementado,

maxime se a obrigação não for certa, exigível ou líquida (arts. 802º a 805º).

A importância do título executivo resulta no patamar de segurança mínima

que oferece quanto à existência do direito de crédito que se pretende ver

executado.

5

Page 7: Processo Executivo

Direito Processual Civil III: Direito Executivo – Lara Geraldes @ FDL

§2: TIPOS DE TÍTULO EXECUTIVO

O título executivo pode ser: (o que equivale a dizer “à execução apenas

pode servir de base…”, cfr. art. 46º, nº 1)

Sentença condenatória:

Documento exarado ou autenticado por notário

Escrito particular assinado pelo devedor

Título executivo por força de disposição especial (residualmente)

§2.1: SENTENÇA CONDENATÓRIA

A expressão “sentença condenatória” é infeliz: a sua noção aponta para um

entendimento lato sensu, uma vez que pode ser proferida em processo civil, penal,

etc. Pretendeu-se, originariamente, delimitar a ténue fronteira com a “sentença de

condenação” (sentença proferida em acção declarativa de condenação, apenas – no

âmbito do processo civil).

Precise-se: das sentenças judiciais, apenas a sentença de condenação

constitui título executivo (LEBRE DE FREITAS). A sentença proferida em acção

declarativa constitutiva produz, automaticamente, efeito constitutivo, nada mais

restando para executar. Já quando a acção seja declarativa de simples apreciação,

a sentença apenas reconhece a existência de um direito, nada mais acrescentando.

Para que a sentença seja exequível, é necessário que tenha transitado em

julgado (art. 47º, nº 1), ie, que seja insusceptível de recurso ordinário ou de

reclamação (art. 677º). Todavia, se o recurso interposto contra essa sentença tiver

efeito meramente devolutivo (e não suspensivo), entende-se que a sentença não

constitui título executivo, mesmo depois do trânsito em julgado (art. 47º, nº 1, in

fine). Cumpre apreciar:

Os recursos podem ter os seguintes efeitos sobre a sentença

condenatória:

o Suspensivo: os efeitos da sentença da 1ª instância ficam

suspensos até apreciação do recurso, pelo tribunal superior.

o Meramente devolutivo: é possível executar a decisão

recorrida na pendência do recurso (a decisão recorrida já

constitui título executivo, enfim). A sentença da primeira

instância é devolvida ao tribunal e os efeitos totais estão

condicionados à decisão do tribunal superior. É a regra nos

recursos de apelação (para as Relações, art. 692º, nº 1 – com

a reserva das excepções que este art. enuncia, por vezes de

verificação mais frequente do que a regra) e de revista (para o

STJ, art. 723º).

Com efeito, se a acção executiva tiver sido instaurada na pendência de

recurso com efeito meramente devolutivo, a execução será necessariamente

6

Page 8: Processo Executivo

Direito Processual Civil III: Direito Executivo – Lara Geraldes @ FDL

provisória, uma vez que é susceptível de sofrer alterações em face da decisão que a

causa tenha nas instâncias superiores. Quando a causa for definitivamente julgada,

a decisão proferida nas instâncias superiores terá o efeito de (art. 47º, nº 2):

Extinguir a execução, absolvendo o réu/executado; ou

Modificar a execução, no seu todo ou em parte, mantendo a execução

(parcial) do réu.

Se for proferida uma sentença de condenação genérica (sentença proferida

sem que haja elementos para fixar o objecto ou a quantidade, art. 661º), e se a

liquidação da obrigação pecuniária não depender de simples cálculo aritmético, a

sentença só constitui título executivo depois do incidente de liquidação (em

processo declarativo - é reaberta a sentença declarativa), segundo os arts. 47º, nº 5

e 378º, nº 2. Por outras palavras, a sentença de condenação genérica é

quantitativamente indeterminada e só se torna exequível com a sentença de

liquidação. A quantia a executar diz-se ilíquida quando o montante dos danos não

foi ainda apurado, vg. Compreende-se porque constitui a sentença de liquidação

condição de exequibilidade da sentença de condenação: com efeito, a primeira

complementa a segunda e, juntas, formam o necessário título executivo. Esta

afirmação não prejudica a imediata exequibilidade da parte da sentença de

condenação que seja desde logo líquida (art. 661º, nº 2).

A sentença proferida por tribunal estrangeiro é exequível após revisão e

confirmação pelo tribunal da Relação competente (revisão formal + revisão de

mérito, à luz dos princípios do Estado da recepção), nos termos dos arts. 49º e

1095º. Só assim a sentença produz efeitos em Portugal, salvo tratado, convenção,

regulamento comunitário ou lei especial em contrário (vg Convenção de Lugano,

Convenção de NY, Regulamentos nº 44/2001 (BRUX I), 1346/2000 e 805/2004 -

Título Executivo Europeu).

A confirmação depende da verificação dos seguintes requisitos (art. 1096º):

Trânsito em julgado da sentença, segundo a lei do país em que foi

proferida.

A sentença estrangeira não pode versar sobre matéria da exclusiva

competência internacional dos tribunais portugueses, nos termos do

art. 65º-A

A sentença estrangeira não pode provir de tribunal estrangeiro cuja

competência tenha sido provocada em fraude à lei.

Não invocação da excepção de litispendência ou de caso julgado.

Respeito pelo direito de defesa e observância dos princípios do

contraditório e da igualdade das partes.

A decisão não pode contrariar a ordem pública internacional

portuguesa.

7

Page 9: Processo Executivo

Direito Processual Civil III: Direito Executivo – Lara Geraldes @ FDL

Não se verificando um destes requisitos cumulativos, proíbe-se a concessão

de exequatur (ie, a concessão de título executivo).

Como supra foi indiciado, a aplicação das regras de revisão e confirmação de

sentenças estrangeiras (arts. 1094º ss) está limitada pela vigência do BRUX-I e da

Convenção de Lugano, nos quais encontra consagração o princípio do

reconhecimento automático das sentenças proferidas noutro

Estado-membro/contratante, sem necessidade de exequatur (concessão de

executoriedade à decisão segundo os pressupostos formais). Com efeito, as

decisões proferidas num Estado-membro/contratante são reconhecidas em

qualquer Estado onde sejam invocadas, mesmo que a título incidental (para

resolver uma questão prévia de que dependa a decisão ou para a dedução da

excepção de caso julgado). Diferentemente, se a decisão estrangeira for invocada a

título principal e houver impugnação (ie, não for aceite), o reconhecimento pode ser

pedido em acção de simples apreciação dirigida ao tribunal de comarca do domicílio

da parte contra a qual a pretenda fazer valer ou ao do lugar da execução – arts. 33º

e 39º BRUX-I.

Ao credor cabe escolher qual dos regimes prefere (uma vez que o primeiro

não foi revogado pelo segundo):

Regulamento nº 44/2001: BRUX-I

o A matéria que regula é mais ampla.

Regulamento nº 805/2004: Título Executivo Europeu

o Respeita apenas aos créditos não contestados.

o É mais célere.

o É mais oneroso.

Em qualquer dos casos o processo de revisão e de confirmação de sentenças

estrangeiras foi simplificado: ao contrário do regime constante do Código de

Processo Civil, estes Regulamentos não prevêem revisão de mérito da sentença.

O termo “sentença condenatória” (art. 46º, nº 1 a)) abrange:

Acórdãos (art. 156º, nº 3)

Sentenças estrangeiras (revistas e confirmadas)

Despachos e outras decisões ou actos de autoridade judicial que

condenem no cumprimento de uma obrigação, em termos

equiparáveis (art. 48º, nº 1):

o Exemplo: despacho que impõe uma multa às partes ou às

testemunhas.

Decisões dos tribunais arbitrais (art. 48º, nº 2), inclusive as decisões

de tribunais arbitrais proferidas no estrangeiro, depois de revisão e

confirmação nos termos gerais.

Sentenças homologatórias:

8

Page 10: Processo Executivo

Direito Processual Civil III: Direito Executivo – Lara Geraldes @ FDL

o Exemplo: sentença homologatória de transacção ou confissão

do pedido (art. 300º, nº 3) – o juiz limita-se a verificar a sua

validade enquanto negócio jurídico.

o LEBRE DE FREITAS não concorda com a sua qualificação

enquanto títulos executivos impróprios ou parajudiciais, uma

vez que constituem sentenças de condenação como as

restantes.

§2.2: DOCUMENTO EXARADO OU AUTENTICADO POR NOTÁRIO

Os documentos exarados ou autenticados por notário (art. 46º, nº 1 b)) são

títulos executivos extrajudiciais ou negociais, uma vez que não se produzem em

juízo e emergem de um negócio jurídico celebrado extrajudicialmente. Constituem

exemplos (art. 50º):

Documentos autênticos, exarados por notário:

o Testamento público

o Escritura pública

Documentos autenticados, levados ao notário para que ateste a

conformidade da vontade dos seus autores com o respectivo

conteúdo:

o Testamento cerrado (art. 2206º, nº 4 CC) – escrito e assinado

pelo testador ou por pessoa a seu rogo (art. 2208º CC).

Nota: o testamento não constitui título executivo quando dele apenas se

transmitem bens do testador; já o será se o testador nele confessar uma dívida ou

constituir uma dívida que é imposta ao sucessor, casos em que a herança carece de

aceitação pelo sucessor. De qualquer forma, o reconhecimento da dívida não tem,

em princípio, efeitos sucessórios, mas é válido se o testamento for inválido (a

invalidade do testamento não afecta a confissão ou o reconhecimento inerente).

Os documentos autênticos e autenticados constituem título executivo

quando:

Formalizam o acto de constituição de uma obrigação.

Deles consta o reconhecimento, pelo devedor, de uma obrigação

preexistente (confissão do acto e reconhecimento de dívida, cfr. arts.

352º, 358º nº 2, 364º e 458º CC).

A prova da obrigação pode ser feita através do documento original ou de

uma certidão ou cópia autenticada (arts. 383º ss CC).

O art. 50º oferece dúvidas interpretativas que devem ser analisadas em

particular:

Na sua anterior redacção, o art. 50º, nº 2 dispunha: “as escrituras

públicas nas quais se convencionem prestações futuras podem servir

de base à execução [de título executivo, enfim], desde que se prove,

9

Page 11: Processo Executivo

Direito Processual Civil III: Direito Executivo – Lara Geraldes @ FDL

por documento passado em conformidade com as cláusulas da

escritura, ou revestido de força executiva, que alguma prestação foi

realizada em cumprimento do negócio” – dir-se-ia abranger os

contratos de abertura de crédito, fornecimento, empreitada e outros

contratos de execução continuada. A entidade financiadora (vg

banco), o fornecedor, o empreiteiro ou outro credor que, segundo o

título executivo, tivesse que efectuar prestações futuras (posteriores

à emissão do título executivo), deveria provar tê-las efectuado por

um documento complementar (uma vez que as prestações futuras

não constavam do título executivo).

Esta redacção colidia com o disposto no art. 804º, nº 2, o qual

admitia já, para os contratos de execução instantânea ou continuada,

meios de prova mais alargados, no âmbito da prova complementar

do título executivo (a expressão é de LEBRE DE FREITAS).

Contrapondo as duas normas, o regime da primeira é mais apertado

do que o da segunda, pelo que a compatibilização entre os dois

preceitos passou pela restrição da expressão “prestação futura” (art.

50º, nº 2, versão anterior), fazendo-a coincidir com prestação

constitutiva de um direito real (quoad constitutionem). Só neste caso

seria exigida a prova complementar do título executivo. Feita esta

interpretação, de entre o contrato de abertura de crédito,

fornecimento e empreitada, apenas o primeiro caberia seguramente

na previsão da norma, exigindo-se a prova documental do

empréstimo mesmo quando esta fosse dispensada (art. 396º CCom).

Para os outros contratos, caberia aplicação do art. 804º.

A nova redacção do art. 50º não clarificou esta questão na totalidade:

“Os documentos exarados ou autenticados por notário em que:

1. Se convencionem prestações futuras; ou que

2. Se preveja a constituição de obrigações futuras,

podem servir de base à execução [de título executivo, enfim], desde que se prove,

por documento passado em conformidade com as cláusulas dele constantes ou,

sendo aqueles omissos, revestido de força executiva própria, que:

1. Alguma prestação foi realizada para conclusão do negócio;

ou que

2. Alguma obrigação foi constituída na sequência da previsão das

partes”.

Na primeira das situações aqui previstas (1. Prestações futuras),

substituiu-se a expressão “em cumprimento do negócio” pela expressão “para

conclusão do negócio”, pelo que aqui subjaz a ideia de exigência de prova

complementar da realização da prestação constitutiva de um contrato real

10

Page 12: Processo Executivo

Direito Processual Civil III: Direito Executivo – Lara Geraldes @ FDL

prometido por documento autêntico ou autenticado. Aqui se abrangemos contratos

de abertura de crédito, de mútuo, fornecimento, comodato, depósito ou locação.

A segunda situação agora prevista (2. Constituição de obrigações futuras)

abrange os casos em que as partes não se tenham vinculado à celebração de um

negócio jurídico, mas tenham previsto apenas, em documento autêntico ou

autenticado, a possibilidade dessa celebração, maxime se constituíram logo

garantia (vg hipoteca).

§2.3: DOCUMENTO PARTICULAR ASSINADO PELO DEVEDOR

Os documentos particulares assinados pelo devedor, que importem a

constituição ou o reconhecimento de obrigações pecuniárias (art. 46º, nº 1 c)), são

títulos executivos extrajudiciais ou negociais, uma vez que também eles não se

produzem em juízo e emergem de um negócio jurídico celebrado

extrajudicialmente.

A exequibilidade dos documentos particulares foi progressivamente

generalizada com a evolução do processo executivo: dispensou-se o

reconhecimento notarial da assinatura do devedor nas letras, cheques e livranças,

de qualquer montante, e estendeu-se a exequibilidade dos documentos dos quais

conste a obrigação de entrega de coisa imóvel (com efeito, essa obrigação pode

validamente constar de documento particular, maxime quando respeite a direito

pessoal de gozo).

Para que constituam títulos executivos, impõe-se:

Um requisito de fundo: deles deve constar a obrigação de

pagamento de quantia determinada ou determinável por simples

cálculo aritmético, de entrega de coisa ou de prestação de facto (art.

46º, nº 1 c)).

o Uma vez mais, a formalização da constituição da obrigação ou

o reconhecimento de dívida são provados nos termos dos arts.

386º e 387º CC.

Um requisito de forma: quando se trate de documento assinado a

rogo, a assinatura do rogado deve ser presencialmente reconhecida

por notário (art. 51º). Documento assinado a rogo é aquele que é

assinado por outrem que não o seu autor, se este não souber ou não

puder assinar (art. 373º, nº 1 CC).

o Apesar de o reconhecimento, pelo notário, da assinatura do

devedor não constituir hoje requisito de exequibilidade do

documento particular, este desempenha um papel

fundamental quando o documento haja sido assinado a rogo.

o Nestes termos, o termo de reconhecimento presencial da

assinatura do rogado deve conter (art. 373º CC):

11

Page 13: Processo Executivo

Direito Processual Civil III: Direito Executivo – Lara Geraldes @ FDL

A menção de que o rogante declarou não saber ou não

poder assinar o documento.

A menção de que o documento lhe foi lido.

A menção de que o rogo lhe foi dado ou confirmado

perante o notário.

Os cheques, as letras e livranças merecem apreciação individualizada:

Os cheques, as letras e as livranças constituem títulos executivos segundo a

acepção aqui em apreço: são documentos particulares assinados pelo devedor, que

importam a constituição de uma obrigação ou o reconhecimento de uma dívida (cfr.

art. 46º, nº 1 c)). Estes títulos de crédito não são, em processo executivo,

substituíveis por uma cópia, ainda que dotada da força probatória do original (arts.

383º ss CC), uma vez que neles está incorporada a obrigação cambiária.

Diferenciaremos, pois, cada um destes títulos de crédito:

Cheque: ordem de pagamento, dirigida a um banqueiro, em cujo

estabelecimento deve existir um fundo depositado. Caso contrário, o

cheque diz-se sem provisão, e cabe recurso à acção cambiária, nos

termos dos arts. 29º e 40º LUCh.

o Sacado: quem deve pagar – a instituição bancária.

o Sacador: quem passa o cheque, o qual pode ser endossado a

terceiro.

o Portador: à ordem de quem o cheque é passado.

Letra: promessa de que o aceitante pagará a quantia subjacente.

Livrança: promessa de pagamento.

Num caso em que uma obrigação seja cumprida através da emissão de um

cheque, letra ou livrança, cumpre distinguir:

A obrigação subjacente (vg a conta de supermercado que foi

liquidada pelo cheque, letra ou livrança).

A obrigação cartular constante do cheque, letra ou livrança (relação

cambiária).

Neste âmbito vigora o princípio da abstracção: a validade da relação

cambiária não depende da validade da relação subjacente.

Questiona-se se, uma vez prescrita a obrigação cartular constante de um

cheque (prazo de prescrição: 6 meses, art. 52º LUCh), letra ou livrança (cfr. prazos

de prescrição na respectiva Lei Uniforme, depois de devidamente invocada ao

abrigo do art. 303º CC, em sede de oposição à execução - art. 814º g)), o título de

crédito poderá continuar a valer como título executivo, desta vez enquanto escrito

particular que consubstancia a obrigação subjacente (a conta do supermercado,

vg). Distinguiremos dois cenários:

12

Page 14: Processo Executivo

Direito Processual Civil III: Direito Executivo – Lara Geraldes @ FDL

O título de crédito prescrito menciona a causa da relação jurídica

subjacente:

o Neste caso, não se justifica qualquer distinção entre o título

prescrito e outro documento particular, uma vez que ambos

consubstanciam a obrigação subjacente.

Do título de crédito prescrito não consta a causa da obrigação: pode o

cheque, a letra ou a livrança funcionar como quirógrafo (ie,

documento)?

o Neste caso, LEBRE DE FREITAS distingue:

Se a obrigação subjacente emerge de um negócio

jurídico formal, e uma vez que a causa do negócio

jurídico é um elemento essencial deste, o documento

não constitui título executivo (arts. 221º, nº 1 e 223º,

nº 3 CC).

Se a obrigação subjacente não emerge de um negócio

jurídico formal (a causa da obrigação não tem que

constar do documento), e uma vez que o título

executivo é autónomo face à obrigação exequenda, o

documento pode ser admitido como título executivo,

maxime como reconhecimento de dívida (art. 458º, nº

1 CC). Em qualquer caso, a causa da obrigação deve

ser invocada no requerimento executivo, e pode ser

impugnada pelo executado, nos termos gerais (art.

816º) – a conversão do cheque, letra ou livrança em

promessa de cumprimento ou reconhecimento de

dívida constitui uma presunção legal que inverte o

ónus da prova mas não dispensa o ónus de alegação

da causa da obrigação, no requerimento executivo

(arts. 344º, nº 1 CC e 810º, nº 3 b)).

A isto se opõe ABRANTES GERALDES, para

quem a inversão do ónus da prova (art. 458º

CC) implica necessariamente a inversão do ónus

de alegação.

Negando a exequibilidade do cheque, em qualquer caso, pronunciou-se certa

jurisprudência minoritária, para tal argumentando que este, mera ordem de

pagamento, não constitui nem reconhece qualquer obrigação. Este argumento não

procede: o seu preenchimento à ordem ou a entrega ao portador tem implícita a

constituição ou o reconhecimento de uma dívida, a satisfazer através da cobrança

de um direito de crédito, contra a instituição bancária (LEBRE DE FREITAS).

13

Page 15: Processo Executivo

Direito Processual Civil III: Direito Executivo – Lara Geraldes @ FDL

Nota: os documentos exarados em país estrangeiro, sejam eles autênticos

ou particulares, não carecem de revisão para serem exequíveis em Portugal, mas

devem ser objecto de legalização (art. 49º, nº 2). A legalização consiste no

reconhecimento da assinatura do oficial público que os emitiu ou autenticou pelo

agente diplomático ou consular português no Estado respectivo, nos termos do art.

540º.

§2.4: TÍTULO EXECUTIVO POR FORÇA DE DISPOSIÇÃO ESPECIAL

Os títulos executivos por força de disposição especial (art. 46º, nº 1 d))

podem ser:

Títulos judiciais impróprios:

o As contas apresentadas pelo réu no âmbito de um processo

de prestação de contas.

o O requerimento da injunção do devedor no âmbito de um

processo de injunção.

Títulos administrativos:

o Títulos de cobrança de tributos

o Coimas

o Dívidas determinadas por acto administrativo

Títulos particulares:

o Acta de reunião da assembleia de condóminos, assinada pelo

condómino devedor.

o Extracto de conta passado por uma sociedade com sede em

Portugal.

§3: NATUREZA E FUNÇÃO DO TÍTULO EXECUTIVO

O título executivo é, nos casos das alíneas b), c) e d) do art. 46º, nº 1, um

documento que constitui prova legal para fins executivos.

Todavia, no caso da sentença condenatória (art. 46º, nº 1 a)), o aspecto

dinâmico da injunção ao réu para que realize uma prestação devida sobrepõe-se à

sentença enquanto documento. A sentença condenatória, enquanto paradigma do

título executivo, constitui mais um acto jurídico do que propriamente um

documento.

Para LEBRE DE FREITAS, o título executivo é um documento e, no caso da

sentença condenatória, constituem título executivo as próprias folhas do processo

em que é exarada.

Tradicionalmente concebeu-se o título executivo como condição necessária e

suficiente da acção executiva: condição necessária, porque não há execução sem

título, e condição suficiente, porque se dispensa qualquer indagação prévia sobre a

14

Page 16: Processo Executivo

Direito Processual Civil III: Direito Executivo – Lara Geraldes @ FDL

real existência ou subsistência do direito a que se refere. LEBRE DE FREITAS

defende que o carácter necessário do título executivo não oferece dúvidas, embora

apresente algumas reservas face à sua pretensa suficiência. Com efeito, a

desconformidade manifesta entre o título e o direito que se pretende fazer valer,

seja no campo da validade formal ou substancial, impede a realização dos actos

executivos. O mesmo se diga se factos modificativos ou extintivos posteriores à

constituição do título impenderem sobre a obrigação exequenda.

Nestes termos, toda a desconformidade entre o título e a realidade

substantiva pode e deve ser conhecida pelo juiz, desde que a sua causa seja de

conhecimento oficioso e resulte do próprio título, do requerimento inicial, da acção

de oposição à execução ou de facto notório ou conhecido pelo juiz. Esta indagação

oficiosa pelo juiz deve ser ponderada, uma vez que a existência da obrigação

exequenda, conforme consta do título, se presume.

Por outro lado, o título executivo é por vezes configurado como causa de

pedir na acção executiva, e não o facto jurídico de que resulta a pretensão do

exequente (art. 498º, nº 4). Uma vez mais, esta concepção não procede face à

afirmação supra (o título executivo é um documento - é pressuposto extrínseco da

acção executiva! - e não um acto ou facto jurídico, art. 810º nº 4) e face à

impossibilidade de deduzir a excepção de litispendência (diversas causas de pedir)

quando um mesmo crédito fosse representado por dois títulos executivos (vg

escritura pública e sentença condenatória).

§4: CONSEQUÊNCIAS DA FALTA DE APRESENTAÇÃO DO TÍTULO

EXECUTIVO

O título executivo constitui um pressuposto formal da acção executiva, pelo

que deve acompanhar o requerimento inicial de execução (art. 810º, nº 4). Dois

cenários podem ser concebidos neste âmbito:

Caso em que o requerimento executivo esteja desacompanhado do

título que lhe serve de base.

Caso em que o requerimento executivo esteja acompanhado de um

outro título, em nada relacionado com a execução instaurada.

Ao abrigo da anterior redacção do Código, ALBERTO DOS REIS defendeu

que o juiz deveria proferir despacho de indeferimento liminar.

Todavia, por imposição do princípio da economia processual, deve preferir-

se a solução que sustenta o despacho de aperfeiçoamento, conforme proposta por

CASTRO MENDES e que hoje encontra consagração nos arts. 812º, nº 4 e 812º-A,

nº 3 b)). Cumpre apreciar:

Falta ou insuficiência manifesta do título:

o Recusa do requerimento executivo pela secretaria (art. 811º,

nº 1 b)); ou

15

Page 17: Processo Executivo

Direito Processual Civil III: Direito Executivo – Lara Geraldes @ FDL

o Indeferimento pelo juiz (art. 812º, nº 2 a))

Falta ou insuficiência do título, não manifesta:

o O juiz deve convidar o exequente a suprir a irregularidade

(art. 812º, nº 4):

Seja mediante apresentação do título em falta

Seja mediante correcção do requerimento inicial, por

menção de título errado

Nos casos de dispensa do despacho liminar (arts. 812º, nº 7 e 812º-

A), cabe ao funcionário judicial suscitar a intervenção do juiz para

este efeito (art. 812º-A, nº 3 b)).

O aperfeiçoamento do requerimento executivo também terá lugar nos casos

em que, formulando-se vários pedidos, nem todos constarem do título. Caso esse

aperfeiçoamento não seja feito, o juiz deve indeferir o requerimento inicial quanto

aos pedidos a descoberto, segundo CASTRO MENDES.

Diferentemente se, constando do título uma obrigação de pagamento de

2.500€, vg, o exequente pedir um montante mais elevado do que esse, o

requerimento executivo deve ser parcialmente indeferido (e não totalmente

indeferido, por força do princípio da economia processual): esta foi a solução

defendida por LEBRE DE FREITAS, já antes da actual redacção do art. 812º, nº 3.

Em qualquer caso, devendo o requerimento inicial ter sido recusado,

indeferido ou mandado aperfeiçoar, e não o tendo sido feito, o executado pode

deduzir oposição à execução, nos termos do art. 814º a), no prazo de 20 dias (art.

813º, nº 1).

§5: FALTA DE INTERESSE PROCESSUAL

O art. 449º, nº 2 c) prevê uma situação de falta de interesse processual, em

termos implícitos: sempre que o título de que o autor disponha tenha manifesta

força executiva, sem necessidade do processo declarativo, este pagará as

respectivas custas e o réu não dará causa à acção executiva. Com uma reserva:

tratando-se de obrigação plural, e se o credor tiver título executivo contra um

devedor, mas não contra o outro (vg dívidas dos cônjuges), há justificação para o

credor instaurar acção declarativa contra ambos, sem que, com isso, incorra em

custas.

É com base nesta norma que TEIXEIRA DE SOUSA, contra CASTRO

MENDES e PAULA COSTA E SILVA, sustenta qualificação do interesse processual

enquanto pressuposto processual, uma vez que falta, ao autor do caso previsto no

art. 449º, nº 2 c), interesse em agir (interesse sério no recurso à heterotutela dos

tribunais, enfim). Esse autor seria parte legítima ao abrigo do art. 26º, nº 1 (teria

interesse na tutela favorável), mas faltar-lhe-ia o interesse consagrado no art. 26º,

nº 2 (o interesse útil em agir).

16

Page 18: Processo Executivo

Direito Processual Civil III: Direito Executivo – Lara Geraldes @ FDL

LUÍS BONIFÁCIO RAMOS discorda deste entendimento, partindo da base

legal em causa (art. 449º. nº 2 c)): o legislador não recusa a interposição da acção,

por falta de um pressuposto processual, mas apenas condena o autor nas custas. O

interesse em agir encontra-se, pois, na disponibilidade das partes.

4. CERTEZA, EXIGIBILIDADE E LIQUIDEZ DA OBRIGAÇÃO

§1: CONCEITO

A existência da obrigação exequenda não é pressuposto da execução, uma

vez que esta se presume pelo título executivo e dela não há necessidade de fazer

prova. Ainda assim, o juiz pode, dentro dos limites supra, julgar oficiosamente da

validade formal e substancial da obrigação exequenda.

O incumprimento da obrigação exequenda pode não resultar do título

quando a prestação é incerta, inexigível ou ilíquida. Cumpre, pois, torná-la certa,

exigível ou líquida, sendo que só assim poderá a execução prosseguir (art. 802º).

Apreciaremos cada uma das características da obrigação exequenda

separadamente.

§2: CERTEZA

É certa a obrigação cuja prestação se encontra qualitativamente

determinada, ie, determinada mediante escolha de entre a pluralidade de

prestações a realizar (art. 400º CC).

Exemplo:

o Obrigação alternativa: o devedor obriga-se a efectuar uma

de duas ou mais prestações, segundo escolha da prestação a

efectuar (art. 543º CC). A escolha pode incumbir ao credor, ao

devedor ou a terceiro:

Escolha pelo credor: deve fazê-la no requerimento

inicial (art. 810º, nº 3 c), in fine), tornando-se certa a

obrigação.

Escolha pelo devedor: este é notificado para, no

prazo de 10 dias, declarar por qual das prestações opta

(art. 803º, nº 1 e 2). A notificação dá-se já dentro da

execução, mas não constitui uma citação, uma vez que

é anterior ao próprio requerimento executivo.

Escolha por terceiro: se este não a tiver efectuado,

há lugar à sua notificação, na fase liminar do processo

executivo (art. 803º, nº 3). Em último lugar, a escolha

será feita pelo tribunal (art. 400º, nº 2 CC).

17

Page 19: Processo Executivo

Direito Processual Civil III: Direito Executivo – Lara Geraldes @ FDL

§3: EXIGIBILIDADE

A prestação é exigível quando a obrigação se encontra vencida de acordo

com estipulação expressa (obrigações a prazo: obrigações com prazo certo) ou com

simples interpelação ao devedor (art. 777º, nº 1 CC), no caso das obrigações puras

(sem prazo certo estipulado). Por interpelação entende-se a intimação dirigida pelo

credor ao devedor para que este lhe pague (art. 805º, nº 1 CC).

A prestação não é exigível quando:

o Se tratar de obrigação de prazo certo e este ainda não tiver

decorrido (art. 779º CC) – até ao dia do vencimento do prazo,

a prestação é inexigível. Volvido o prazo, fica o devedor

imediatamente constituído em mora (art. 805º, nº 2 a) CC).

o O prazo for incerto, a fixar pelo tribunal (art. 777º, nº 2 CC).

o A constituição da obrigação for sujeita a condição suspensiva,

ainda não verificada (arts. 270º CC e 804º, nº 1), uma vez que

até à verificação da condição todos os efeitos ficam

suspensos. Naturalmente, a questão não se coloca no caso de

condição resolutiva, uma vez que a obrigação produz todos os

seus efeitos e ao executado caberá, em sede de oposição à

execução, provar que a condição se verificou posteriormente,

com consequente extinção ex tunc da obrigação (art. 814º g)).

o Se tratar de obrigação sinalagmática, e o credor ainda não

tiver satisfeito a contraprestação (art. 428º CC), caso em que

a lei equipara essa falta de realização da prestação às

situações de pura inexigibilidade (art. 804º, nº 1). Não se

trata, proprio sensu, de um caso de inexigibilidade, ainda que

lhe seja dado tratamento semelhante.

O conceito de exigibilidade não se confunde com:

Vencimento: uma obrigação pura (sem prazo) cujo devedor não

tenha sido ainda interpelado considera-se não vencida, ainda que a

prestação seja já exigível (art. 777º, nº 1 CC). Neste âmbito, o art.

662º, nº 2 b) é directamente aplicável aos casos de obrigação pura

em que não tenha havido interpelação ou quando esta tenha tido

lugar fora do local do cumprimento, e é aplicável por analogia aos

casos de obrigação a prazo em que o credor deva proceder à

cobrança no domicílio do devedor. Não utiliza, portanto, o termo

inexigibilidade no seu sentido técnico, mas como sinónimo de não

vencimento.

Mora do devedor: a prestação pode ser exigível e a obrigação

vencida mas não existir qualquer mora do devedor, como quando,

18

Page 20: Processo Executivo

Direito Processual Civil III: Direito Executivo – Lara Geraldes @ FDL

por exemplo, há mora do credor (art. 813º CC – por não aceitação da

prestação realizada, vg).

Neste âmbito releva a questão da admissibilidade do pactum de non

exequendo ad tempus, ie, o pacto pelo qual o credor e o devedor acordam em que

a obrigação, já vencida, não será sujeita a execução durante determinado prazo,

ficando sujeita ao regime das obrigações a prazo. Cumpre reter os seguintes

argumentos:

Contra: representa uma renúncia ao direito de acção, por natureza

irrenunciável. É ilícito enquanto modalidade do pactum de non

petendo (CASTRO MENDES e LEBRE DE FREITAS).

A favor: o direito é disponível e, como tal, há espaço para o credor se

vincular a retardar a execução da obrigação. Se for entendido como

estipulação de novo prazo de cumprimento da obrigação, o pactum

deve ser considerado válido (LEBRE DE FREITAS).

A prova da exigibilidade, quando feita mediante a apresentação de

documentos (prova documental), tem que ser apresentada ao agente de execução,

nos termos dos arts. 804º nº 2, 809º nº 1 c) e 812º-A nº 2 b). Se outros meios de

prova forem apresentados (vg prova testemunhal), estes têm que o ser ante o juiz

de execução (segundo TEIXEIRA DE SOUSA e RUI PINTO).

Nota: quer a certeza, quer a exigibilidade, têm de se verificar antes de

serem ordenadas as providências executivas. Como tal, quando não resultem do

próprio título nem de diligências anteriores à propositura da acção executiva, é

aberta uma fase liminar do processo executivo que visa tornar certa ou exigível a

obrigação que ainda não o seja.

Contudo, quando a certeza e a exigibilidade não resultarem do título, mas

sim de diligências anteriores à propositura da acção executiva, cumpre provar, no

processo executivo, essa certeza e essa exigibilidade. Uma vez mais, é aberta uma

fase liminar anterior ao início do processo executivo, para este efeito.

Num caso ou noutro, LEBRE DE FREITAS apelida esta actividade de prova

de “prova complementar do título”, nos termos do art. 804º, nº 1 e 2. Assim:

Quando não haja lugar a despacho liminar (art. 812º-A, nº 1), a

certeza e a exigibilidade da obrigação exequenda são verificadas

pelo agente de execução, sem intervenção do juiz.

o Quando ao agente de execução sejam suscitadas dúvidas

quanto à verificação destes pressupostos, cabe-lhe suscitar a

intervenção do juiz, e do seu inerente poder de decisão (art.

809º, nº 1 d)).

Pelo contrário, quando haja lugar a despacho liminar (art. 812º, nº

1), cabe ao juiz verificar se a obrigação exequenda é certa e

19

Page 21: Processo Executivo

Direito Processual Civil III: Direito Executivo – Lara Geraldes @ FDL

exigível, em face do título executivo e da prova documental

complementar.

O executado pode contestar em sede de oposição à execução, mediante

invocação do fundamento de incerteza ou inexigibilidade da obrigação exequenda

(art. 814º e)). Não se inverte o ónus da prova dos factos: ao exequente continua a

incumbir esse ónus.

Faltando, em todo o caso, a certeza e a exigibilidade, cabe aperfeiçoamento

do requerimento executivo, nos termos gerais já enunciados (art. 812º, nº 4). Não

sendo o requerimento aperfeiçoado pelo requerente, há lugar ao indeferimento do

requerimento executivo (art. 812º, nº 5). Quando a lei dispense o despacho liminar

(arts. 812º, nº 7 e 812º-A), cabe ao funcionário judicial suscitar a intervenção do juiz

para esse efeito, nos termos do art. 812º-A, nº 3 b).

§4: LIQUIDEZ

A obrigação é ilíquida quando tem por objecto uma prestação cujo

quantitativo não está ainda apurado. Exemplos: do acidente de viação resulta, para

a vítima, a perda de vencimentos durante um período de doença a determinar; uma

sentença condena o réu a pagar determinada quantia, acrescida de juros legais.

Não se confunda com obrigação genérica (arts. 539º ss CC): esta

pode ter objecto quantitativamente determinado (vg entrega de 200

kg de maçãs golden). Neste caso, a concretização do objecto

depende do acto de individualização das maçãs a colher, para

perfazer os ditos 200 kg – será, pois, uma obrigação líquida. Se a

espécie de maçãs a colher não for determinada, a obrigação é incerta

e tem aplicação o regime supra §2 (obrigações alternativas).

No âmbito de uma acção executiva pode ser feito um pedido genérico, ie,

um pedido cujo objecto consiste numa prestação indeterminada e ilíquida,

concretizável em prestação determinada mediante o incidente de liquidação (arts.

378º ss). O pedido genérico admite-se nos seguintes casos (art. 471º, nº 1):

Universalidade de facto (vg biblioteca) ou de direito (vg herança

indivisa).

Indeterminação das consequências do facto ilícito (vg acidente de

viação).

Fixação do quantitativo dependente de prestação de contas.

O incidente de liquidação pode ser deduzido depois de proferida sentença de

condenação genérica (ie, depois da sentença no âmbito de acção declarativa),

renovando-se a instância declarativa (art. 378º, nº 2) – na fase liminar do processo

executivo, portanto. Sentença de condenação genérica é aquela que é proferida

pelo tribunal quando não haja elementos para fixar o objecto ou a quantidade: o

tribunal condena a parte ilíquida em termos genéricos, no que vier a ser liquidado

20

Page 22: Processo Executivo

Direito Processual Civil III: Direito Executivo – Lara Geraldes @ FDL

posteriormente em incidente de liquidação, sem prejuízo de condenação imediata

na parte que já seja líquida (art. 661º, nº 2).

Com efeito, a reforma da acção executiva introduziu a novidade de o

incidente de liquidação da obrigação ter hoje sempre lugar na acção declarativa,

renovando-se a instância. Com uma ressalva: excepto nos casos em que a

liquidação dependa de simples cálculo aritmético.

Cumpre apreciar:

Liquidação dependente de simples cálculo aritmético (para TEIXEIRA

DE SOUSA, liquidação liminar):

o Obrigação pecuniária ilíquida: o exequente deve

especificar os valores que considera compreendidos na

prestação devida (art. 805º, nº 1). Exemplos: obrigação de

pagamento de um preço a determinar de acordo com

determinada cotação (vg moeda estrangeira).

Tratando-se de obrigação de pagamento de juros

(cabe aplicação do art. 559º, nº 1 CC,

supletivamente):

Juros que se venceram até ao requerimento

inicial (juros vencidos): a liquidação é feita

pelo exequente, nos termos do nº 1, no

requerimento inicial.

Juros que se continuem a vencer-se na

pendência do processo executivo (juros

vincendos): a liquidação é feita pela

secretaria, nos termos do nº 2. Deve, pois,

ser deduzido um pedido ilíquido.

o Obrigação de entrega de uma universalidade: a

liquidação deve ser feita mediante incidente de liquidação,

na acção executiva (art. 805º, nº 6).

Liquidação não dependente de simples cálculo aritmético (para

TEIXEIRA DE SOUSA, liquidação deferida):

o O exequente especificará, no próprio requerimento

executivo, os valores que considera compreendidos na

prestação devida e concluirá por um pedido líquido (art.

805º, nº 1).

o O executado é logo citado para pagar ou contestar a

liquidação (com a reforma de 2003), em oposição à

execução (art. 805º, nº 4 e 812º, nº 7 b)) – constitui um

caso em que a citação prévia tem sempre lugar, sem

dependência de despacho liminar. Advirta-se que, na falta

21

Page 23: Processo Executivo

Direito Processual Civil III: Direito Executivo – Lara Geraldes @ FDL

de contestação, e não se verificando nenhum dos casos

previstos no art. 485º (excepções ao efeito cominatório da

revelia), a obrigação considera-se liquidada nos termos

constantes do requerimento executivo (efeito cominatório

pleno).

o Exemplos: acidente de viação com prejuízos

controvertidos; juros moratórios convencionais.

A liquidação por árbitros (art. 805º, nº 5) tem lugar quando uma lei especial

o determine ou quando as partes o hajam estipulado e realiza-se nos termos do art.

380º-A, quando não dependa de simples cálculo aritmético.

Nota 1: como aferir se a liquidação depende ou não de simples cálculo

aritmético?

Três critérios orientadores devem ser considerados neste âmbito:

É necessário apurar factos que não constam do título executivo?

Esses factos são de conhecimento notório? - cfr. art. 514º.

o Factos de conhecimento notório: factos que não carecem de

prova nem de alegação. São factos do conhecimento geral e

são de conhecimento oficioso.

Exemplos: taxa Euribor (taxa de juros interbancária -

empréstimos entre bancos), decurso do tempo, etc.

Factos como o spread (no âmbito dos empréstimos aos

bancos) constam geralmente do título executivo.

Os valores e montantes resultam logo do próprio título executivo?

O apuramento dos valores em falta é indispensável à quantificação

da obrigação exequenda?

Nota 2:o incidente de liquidação culminará com a decisão de mérito

favorável eventualmente proferida, decisão essa que quantifica ou especifica o

objecto da obrigação e que complementa o título executivo mediante o

acertamento de um aspecto do seu objecto. Nestes termos, a sentença de

liquidação da obrigação exequenda faz caso julgado e obsta a que, em nova

execução fundada no mesmo título, se volte a discutir da liquidez da mesma

obrigação.

Se não for requerida a liquidação da obrigação ilíquida, deve o juiz, nos

termos supra, proferir despacho de aperfeiçoamento e, no caso de o requerimento

executivo não vir a ser aperfeiçoado, indeferi-lo. Se não o fizer, pode haver

oposição à execução (art. 814º e)).

5. COMPETÊNCIA DO TRIBUNAL

22

Page 24: Processo Executivo

Direito Processual Civil III: Direito Executivo – Lara Geraldes @ FDL

§1: COMPETÊNCIA INTERNACIONAL

Se a situação jurídica em apreço for plurilocalizada, ie, se incidir sobre mais

do que uma ordem jurídica, cumpre considerar as regras de competência

internacional.

Tradicionalmente sustentava-se a aplicação directa das normas do art. 65º à

acção executiva. Contra, defendeu-se a inaplicabilidade dessas normas:

Considerando que os tribunais portugueses apenas teriam

competência internacional para a acção executiva quando a

execução devesse correr sobre bens sitos em Portugal, nos termos do

art. 94º, nº 3 (ANSELMO DE CASTRO) – se o executado não tivesse

bens em Portugal, qual o objectivo de se propor uma acção executiva

nos tribunais portugueses?; ou

Considerando que os tribunais portugueses só teriam competência

para se ocuparem das execuções para as quais resultassem já

competentes por aplicação das normas de competência territorial

(TEIXEIRA DE SOUSA, na esteira de ALBERTO DOS REIS, para

quem os critérios dos arts. 65º ss também se aplicariam à acção

executiva).

LEBRE DE FREITAS refuta a primeira tese, por falta de base legal.

Influenciada pela primeira tese (ANSELMO DE CASTRO), a reforma da

acção executiva introduziu a alínea e) ao art. 65º-A, nos termos da qual, “sem

prejuízo do que se ache estabelecido em tratados, convenções, regulamentos

comunitários e leis especiais, os tribunais portugueses têm competência exclusiva

para (…) e) as execuções sobre bens existentes em território português”. LEBRE

DE FREITAS entende que esta alínea não afasta, ainda assim, as normas de

competência não exclusiva do art. 65º. Assim, sempre que se pretenda penhorar

coisa (móvel ou imóvel) sita em território português (à data da propositura da

execução), a execução deve ser proposta em tribunal nacional, sem que outro

possa ser reconhecido como competente (ver também, a este respeito, o disposto

no art. 94º, nº 4).

A previsão desta norma oferece, contudo, limitações a esta competência

exclusiva, já que o BRUX-I e LUGANO se sobrepõem às normas internas sobre

competência internacional dos tribunais portugueses. Cumpre distinguir:

Execução de decisão proferida noutro Estado-membro/contratante:

são exclusivamente competentes os tribunais do Estado do lugar da

execução (em cujo território se situem os bens a apreender, enfim),

qualquer que seja o domicílio (art. 22º, nº 5 BRUX-I).

Execução de um título extrajudicial: aplicam-se as normas de

competência gerais e especiais do BRUX-I e LUGANO.

23

Page 25: Processo Executivo

Direito Processual Civil III: Direito Executivo – Lara Geraldes @ FDL

§2: COMPETÊNCIA INTERNA

Para aferir qual o tribunal internamente competente para a causa, cumpre

atender às regras de competência em razão da matéria, hierarquia, valor e

território.

§2.1: COMPETÊNCIA EM RAZÃO DA MATÉRIA

A competência em razão da matéria determina-se com recurso a um duplo

critério:

Critério de atribuição positiva:

o Cabem na competência dos tribunais todas as acções

executivas baseadas na não realização de uma prestação

segundo as normas de direito privado.

Critério de competência residual:

o Os tribunais judiciais são também competentes para as acções

executivas que não caibam no âmbito da competência

atribuída aos tribunais de outra ordem jurisdicional (arts. 18º,

nº 1 LOFTJ e 66º).

Tribunais de competência genérica (art. 77º, nº 1 a)

LOFTJ).

Juízo de competência especializada cível (art. 94º

LOFTJ).

§2.2: COMPETÊNCIA EM RAZÃO DA HIERARQUIA

Apenas os tribunais da 1ª instância têm competência executiva (art. 90º). No

âmbito da acção executiva, os tribunais superiores podem funcionar como 1ª

instância nos casos (especiais) de indemnização contra magistrados ou de revisão

de sentenças estrangeiras, pelo que a execução dessas sentenças também é da

competência dos tribunais da 1ª instância (art. 91º).

§2.3: COMPETÊNCIA EM RAZÃO DO VALOR

Têm competência específica em razão do valor os juízos de execução (arts.

96º, nº 1 g) e 102º-A LOFTJ). Nas comarcas em que não os haja, a execução de

decisão proferida por um tribunal de competência específica tem lugar no tribunal

em que tenha corrido a acção declarativa (art. 103º LOFTJ).

§2.4: COMPETÊNCIA EM RAZÃO DO TERRITÓRIO

A competência para a acção executiva em razão do território encontra-se

estabelecida nos arts. 90º a 95º. No caso de cumulação de pedidos, cumpre atender

ao disposto nos arts. 53º e 58º, nº 3. Estabeleceremos a seguinte distinção:

24

Page 26: Processo Executivo

Direito Processual Civil III: Direito Executivo – Lara Geraldes @ FDL

Execução baseada em decisão condenatória:

o De um tribunal judicial:

Acção proposta num tribunal de 1ª instância:

É competente para a execução o tribunal do

lugar onde a causa foi julgada em 1ª instância

(art. 90º, nº 1).

Acção proposta num tribunal de 2ª instância,

directamente, funcionando como tribunal de 1ª

instância (vg indemnizações contra magistrados ou

revisão de sentenças estrangeiras)

É competente para a execução o tribunal de 1ª

instância do domicílio do executado (art. 91º).

Se este não tiver domicílio em Portugal mas

aqui tiver bens, é competente o tribunal de 1ª

instância da situação desses bens (art. 94º, nº

3).

Quanto à execução de sentenças estrangeiras

(art. 95º), esta funda-se na sentença de

confirmação e não na sentença confirmada,

pelo que é competente o tribunal da comarca

do domicílio do executado (nos termos do art.

91º) e, na falta dele, o tribunal da situação dos

bens penhoráveis.

o De um tribunal arbitral: é competente o tribunal do lugar do

funcionamento da arbitragem (art. 90º, nº 2).

Execução baseada noutro título:

o Execução para entrega de coisa certa ou por dívida com

garantia real: é competente o tribunal do lugar em que a

coisa se encontre ou situe (art. 94º, nº 2).

o Execução por dívida pecuniária ou de prestação de facto, sem

garantia real: é competente o tribunal do lugar onde a

obrigação devia ser cumprida (art. 94º, nº 1).

§3: CONSEQUÊNCIAS DA INCOMPETÊNCIA

Em processo declarativo, temos:

Infracção das normas de competência internacional e em razão da

matéria e da hierarquia: incompetência absoluta (art. 101º).

Infracção das normas de competência em razão do valor e do

território: incompetência relativa (arts. 100º, nº 1 e 108º).

25

Page 27: Processo Executivo

Direito Processual Civil III: Direito Executivo – Lara Geraldes @ FDL

Antes da reforma executiva, a doutrina aplicava estes artigos à acção

executiva.

ANSELMO DE CASTRO sustentou, neste âmbito, a imperatividade das

normas de competência em razão do território na acção executiva (que não

poderiam ser afastadas por um pacto de competência), pelo que seriam

susceptíveis de gerar incompetência absoluta do tribunal. Subjacente está o

entendimento que, na acção executiva, não está em causa o interesse particular

das partes, mas sim o interesse público.

Com a revisão do Código, acentuou-se a subordinação do regime da

incompetência na acção executiva ao regime geral da incompetência na acção

declarativa, maxime através do enquadramento dessas disposições na parte geral

do Código. Nestes termos, as disposições relativas à competência dos tribunais

aplicam-se directamente à acção executiva.

Assim, as partes podem celebrar, nos termos gerais do art. 99º, pactos de

jurisdição, bem como pactos de competência dentro do âmbito prescrito no art.

110º, nº 1 a) (ex vi art. 100º, nº 1, in fine).

Nota: o critério de atribuição da competência, constante do art. 102º-A

LOFTJ, é em razão da matéria, e não do valor ou da forma. Por isso, a

incompetência daqui resultante é absoluta, e não relativa, com consequente

absolvição do réu da instância.

6. LEGITIMIDADE DAS PARTES

§1: REGIME-REGRA

Na acção executiva, não há que averiguar a titularidade real da situação

jurídica material invocada pelo autor: têm legitimidade como exequente e

executado, respectivamente, quem, no título executivo, figura como credor e como

devedor (art. 55º, nº 1).

§2: ADAPTAÇÕES AO REGIME-REGRA

Este regime-regra carece, contudo, de adaptações:

Sucessão mortis causa e inter vivos (vg cessão de créditos, sub-

rogação, etc):

o A execução deve ser promovida por ou contra os sucessores

da pessoa que, como credor ou devedor, figura no título

executivo. O exequente deverá, para tal, alegar os factos

26

Page 28: Processo Executivo

Direito Processual Civil III: Direito Executivo – Lara Geraldes @ FDL

constitutivos da sucessão no próprio requerimento executivo

(art. 56º, nº 1).

o Cumpre distinguir:

Se o título executivo for extrajudicial: a sucessão

ocorre entre o momento da sua formação e o da

propositura da acção executiva.

Se o título executivo for judicial (sentença): a sucessão

pode ter ocorrido na pendência da acção declarativa

(ie, antes da interposição da acção executiva), caso em

que a sentença produz efeito de caso julgado perante o

adquirente (ou o autor teria que propor nova acção

contra o adquirente) – art. 57º e 271º, nº 3. Está em

causa o princípio da economia processual: não há

necessidade de previamente propor nova acção

declarativa, que estaria, ademais, sujeita à invocação

da excepção de caso julgado. Diferentemente, se a

sucessão tiver ocorrido na pendência do processo

executivo, o incidente de habilitação é o meio

processual adequado (arts. 371º ss).

Título ao portador (vg cheques):

o Se o nome do credor não constar do título executivo, a

execução é promovida pelo portador (art. 55º, nº2). O

exequente é o portador.

§3: DESVIOS E EXCEPÇÕES AO REGIME-REGRA

A regra geral supra enunciada admite desvios e excepções:

Desvio quanto à legitimidade passiva:

o Execução por dívida provida de garantia real que incida sobre

bens que sejam da propriedade de terceiro (art. 56º, nº 2 e

3):

Caso: a garantia real de um crédito incide sobre bens

de terceiro, seja porque já assim tenha sido

constituída, ou porque o devedor, cujo bem foi

onerado, o tenha alienado depois da propositura da

acção executiva.

Problema: não é possível a penhora de bens

pertencentes a pessoa que não tenha a posição de

executado. Logo, a acção executiva tem que ser

proposta contra o proprietário do bem.

27

Page 29: Processo Executivo

Direito Processual Civil III: Direito Executivo – Lara Geraldes @ FDL

Fora dos casos previstos na lei, o exequente não pode,

sob pena de ilegitimidade, deixar de propor a acção

executiva contra o proprietário dos bens, quando

pretenda fazer valer o direito real de garantia. Os casos

de renúncia do credor à garantia real são:

Hipoteca ou consignação de rendimentos:

expressamente (arts. 660º e 704º ss CC).

Penhor: expressamente (art. 677º CC).

Neste sentido, dispõem as normas do art. 56º, nº 2 e 3:

Quando os bens dados em garantia pertençam a

terceiro, o exequente que queira fazer valer a

garantia pode optar entre:

o Propor a acção executiva contra o

terceiro e, mais tarde, chamar o devedor

à acção (se os bens forem insuficientes),

que poderá opor-se à execução.

o Propor a acção executiva, desde logo,

contra o terceiro e o devedor, em

litisconsórcio voluntário.

Nota: se o título executivo for uma sentença, a

propositura da acção executiva contra o proprietário

dos bens onerados pressupõe que contra ele também

tenha sido proposta acção declarativa de condenação.

o Execução por dívida provida de garantia real que incida sobre

bens que estejam na posse de terceiro (art. 56º, nº 4):

O devedor é o proprietário pleno dos bens dados em

garantia, mas estes estão na posse de terceiro: o

credor pode livremente escolher entre propor a acção

executiva só contra o devedor ou contra este e o

possuidor.

A penhora dos bens é possível em qualquer um dos

casos.

Excepções:

o Alargamento a terceiros abrangidos pela eficácia do caso

julgado (art. 57º):

Quando o título executivo é uma sentença, a

legitimidade passiva para a acção executiva é alargada

às pessoas que, não tendo sido por ela condenadas,

são porém abrangidas pelo caso julgado. Neste caso, o

28

Page 30: Processo Executivo

Direito Processual Civil III: Direito Executivo – Lara Geraldes @ FDL

âmbito subjectivo da eficácia executiva do título

executivo coincide com o âmbito da eficácia subjectiva

do caso julgado. Para LEBRE DE FREITAS, a extensão

da eficácia subjectiva passiva do título executivo é de

carácter excepcional (contra, TEIXEIRA DE SOUSA e

REMÉDIO MARQUES). Não abrange, por isso, o caso

de transmissão da situação jurídica do réu por acto

entre vivos (caso em que se aplica o art. 56º, nº 1).

Neste sentido dispõe o art. 57º: norma excepcional,

não aplicável analogicamente ao terceiro credor que

beneficie do caso julgado, vg. Aplicar-se-á, sim, aos

casos de chamamento à intervenção principal de

terceiro titular de situação susceptível de gerar

litisconsórcio voluntário passivo (art. 27º, nº 2 e 325º,

nº 1). A sentença que vier a ser proferida constituirá

caso julgado perante o chamado não interveniente (art.

328º, nº 2). No caso de litisconsórcio voluntário

passivo, embora o chamado não figure no título

executivo, a acção executiva pode ser movida contra

ele ao abrigo do art. 57º. Cfr. também arts. 271º, nº 3,

1ª parte e 55º, nº 2. Segundo LOPES CARDOSO, este

artigo aplica-se somente à acção para entrega de coisa

certa.

Já na intervenção acessória, ao interveniente,

provocado ou espontâneo, não lhe é conferida

legitimidade para a acção executiva, ainda que seja

abrangido pelo caso julgado (arts. 330º e 335º) – razão:

é um mero auxiliar da parte principal, para LEBRE DE

FREITAS. Contra, LUÍS BONIFÁCIO RAMOS considera

que a intervenção acessória também pode configurar

um desvio à regra da legitimidade na acção executiva.

§4: CONSEQUÊNCIAS DA ILEGITIMIDADE DAS PARTES

A ilegitimidade constitui uma excepção dilatória de conhecimento oficioso

(arts. 494º e) e 495º). Quando insanável, e se houver lugar a despacho liminar,

cabe ao juiz indeferir liminarmente a petição inicial (o requerimento executivo,

aqui), ao abrigo do art. 812º, nº 2 b) e 5. Se for sanável, cabe ao juiz proferir

despacho de aperfeiçoamento (arts. 265º, nº 2 e 812º, nº 4). Se não for sanada, o

juiz deve indeferir o requerimento executivo (art. 812º, nº 5).

29

Page 31: Processo Executivo

Direito Processual Civil III: Direito Executivo – Lara Geraldes @ FDL

Se não houver despacho liminar, cabe aplicar o disposto nos arts. 812º-A, nº

3 b) e 820º.

Se o executado for citado, não obstante uma ilegitimidade insanável, pode

opor-se à execução por embargos, nos termos do art. 814º.

7. PLURALIDADE DE SUJEITOS E PLURALIDADE DE PEDIDOS

§1: LITISCONSÓRCIO

O litisconsórcio pode ser:

Voluntário (art. 27º): o pedido pode ser formulado apenas por um

autor ou apenas contra um réu, mas foi deduzido por vários autores

ou contra vários réus.

o Obrigação conjunta

o Garantia por bens de terceiro

o Pluralidade de credores

o Cfr. arts. 56º nº 2, 825º nº 2 e 3 e 828º nº 5.

Necessário (art. 28º): a lei, o negócio jurídico ou a própria natureza

da prestação a efectuar impõem a intervenção de todos os

interessados na relação controvertida.

o Entrega de coisa certa que pertença a mais do que uma

pessoa

o Na falta de litisconsórcio, quando necessário, a parte

considera-se ilegítima. Havendo despacho liminar, o juiz deve

convidar o exequente a requerer a intervenção principal do

terceiro (art. 265º, nº 2 e 812º, nº 4). Deverá indeferir

liminarmente o requerimento executivo no caso de o

exequente não suprir a ilegitimidade (art. 812º, nº 5). Não

havendo despacho liminar, cabe aplicação dos arts. 812º-A, nº

3 b) e 820º. Veja-se também o regime do chamamento da

pessoa em falta, art. 269º (litisconsórcio necessário

sucessivo). O executado pode opor-se à execução, nos termos

do art. 814º c).

o Cfr. arts. 28º-A e 825º.

§2: COLIGAÇÃO (E CUMULAÇÃO SIMPLES DE PEDIDOS)

A coligação é admitida, em processo executivo, quando se verifiquem os

seguintes pressupostos cumulativamente (art. 58º) – cfr. também as circunstâncias

impeditivas da cumulação inicial (art. 53º):

A espécie de acção executiva decorrente de cada um dos pedidos

deve ser a mesma (art. 53º, nº 1 b)).

30

Page 32: Processo Executivo

Direito Processual Civil III: Direito Executivo – Lara Geraldes @ FDL

Se a execução tiver por fim o pagamento de quantia certa, as várias

obrigações devem ser líquidas ou liquidáveis por simples cálculo

aritmético (art. 58º, nº 2).

O tribunal deve ser competente internacionalmente e em razão da

matéria e da hierarquia (art. 53º, nº 2 a)).

Cada um dos pedidos deve ter sido apreciado em processo executivo

comum (art. 53º, nº 2 c)).

No caso da coligação passiva, a execução tem que ter por base,

quanto a todos os pedidos, um mesmo título (art. 58º, nº 1 b)).

No caso de coligação ilegal, por não verificação de um destes pressupostos,

o juiz profere despacho de aperfeiçoamento, convidando o exequente a que escolha

o pedido relativamente ao qual pretende que o processo prossiga. No caso deste

não o fazer, o executado é absolvido da instância (arts. 31º-A e 812º, nº 4 e 5). O

indeferimento pode ser parcial, nos termos do art. 812º, nº 3. O executado pode

opor-se à execução, nos termos do art. 814º c).

31

Page 33: Processo Executivo

Direito Processual Civil III: Direito Executivo – Lara Geraldes @ FDL

PARTE II

O PROCESSO DE EXECUÇÃO COMUM

PARA PAGAMENTO DE QUANTIA CERTA

1. FASE INICIAL

§1: INTRODUÇÃO

Cumpre tecer algumas considerações preliminares, neste âmbito:

Só os títulos dos quais conste uma obrigação pecuniária podem dar

lugar a processo executivo para pagamento de quantia certa.

o Obrigação pecuniária: obrigação de quantidade cujo objecto é

um certo valor expresso em moeda que tenha curso legal em

Portugal (art. 550º CC).

o A obrigação de moeda específica dá sempre lugar à execução

para pagamento de quantia certa, enquanto que a obrigação

em moeda com curso legal apenas no estrangeiro se executa

através do processo para entrega de coisa certa.

PAULA COSTA E SILVA identifica três fases na acção executiva de

pagamento de quantia certa:

o 1. Fase liminar

o 2. Fase da penhora

o 3. Fase de pagamento

§2: REQUERIMENTO EXECUTIVO

O requerimento executivo deve designar o tribunal em que a acção é

proposta, identificar as partes, indicar o domicílio profissional do mandatário

judicial, espécie de execução, forma do processo, formular o pedido e declarar o

valor da causa (art. 810º).

Uma vez que a execução tem sempre por base um título executivo (art. 45º,

nº 1), só há que indicar a causa de pedir quando esta não conste do título (art.

810º, nº 3 b)).

O requerimento executivo deve ainda indicar os seguintes factos, quando

seja esse o caso:

A obrigação precisa de ser liquidada, uma vez que não depende de

simples cálculo aritmético (art. 805º, nº 4).

O título carece de prova complementar, seja porque (art. 804º):

o A certeza e a exigibilidade dele não resultam

32

Page 34: Processo Executivo

Direito Processual Civil III: Direito Executivo – Lara Geraldes @ FDL

o Houve sucessão no crédito ou no débito

O não pagamento das custas deixou de constituir impedimento à propositura

da acção executiva. A taxa de justiça inicial, por seu lado, tem que ser previamente

paga, nos termos gerais.

O requerimento executivo pode ser recusado pela secretaria, cabendo

reclamação para o juiz, nos seguintes casos (art. 811º):

Omissão de um requisito do requerimento executivo

Não apresentação de título executivo ou manifesta insuficiência do

título apresentado

A remissão para o art. 810º, nº 3, operada pelo art. 811º, nº 1 a) é, para RUI

PINTO e PAULA COSTA E SILVA, de constitucionalidade duvidosa, uma vez que

implica o exercício do poder jurisdicional em termos desconformes ao disposto no

art. 202º CRP.

RUI PINTO designa três níveis de controlo pela secretaria:

Requisitos externos da pretensão executiva:

o Tribunal

o Partes…

Pressupostos processuais: art. 812º-A, nº 3 b)

Condições da pretensão executiva:

o Pedido

o Causa de pedir…

§3: DESPACHO LIMINAR

O despacho liminar é estatisticamente uma excepção, na acção executiva.

Neste âmbito vigora o princípio da coincidência entre despacho liminar e citação

prévia, princípio esse que admite excepções (art. 812º-B). Por regra, havendo lugar

a despacho liminar, cabe citação prévia do executado.

Há dispensa de despacho liminar quando:

A execução se funda em decisão judicial ou arbitral (art. 812º-A, nº 1

a)) ou em requerimento de injunção.

A execução se baseia em documento exarado ou autenticado por

notário, ou em documento particular com reconhecimento presencial

da assinatura do devedor, desde que (art. 812º-A, nº 1 c)):

o O montante da dívida não exceda a alçada da Relação (<

30.000€)

Excedendo o montante da dívida esse valor, há ainda

dispensa de despacho liminar se o exequente mostrar

ter exigido o cumprimento por notificação judicial

avulsa.

33

Page 35: Processo Executivo

Direito Processual Civil III: Direito Executivo – Lara Geraldes @ FDL

o Seja apresentado documento comprovativo da interpelação do

devedor, antes de instaurada a acção executiva.

Mesmo que a interpelação do devedor seja frustrada

por actos do próprio devedor (negando-se a recebê-la,

vg), embora a obrigação se considere vencida (art.

805º, nº 2 c) CC), a falta de escrito que prove estes

factos não permite, ainda assim, dispensar o despacho

liminar.

Se o credor mover logo a execução, sem interpelação,

só a citação valerá como interpelação e deve ser

precedida de despacho liminar.

Independentemente da espécie de título executivo, se execute uma

obrigação pecuniária vencida (com interpelação do devedor) de valor

que não exceda a alçada da Relação (< 30.000€) – só se a penhora

não incidir sobre bem imóvel, estabelecimento comercial ou direito

real menor ou quinhão (art. 812º-A, nº 1 d)).

Note-se, porém, que a dispensa legal de despacho liminar não afasta

inteiramente a possibilidade de ele vir a ser proferido, nos termos do art. 812º-A, nº

3:

Suspeita da ocorrência de um fundamento de indeferimento liminar:

o Insuficiência do título executivo

o Necessidade de interpelação do devedor

o Insuficiência ou invalidada da interpelação ou da notificação

judicial avulsa

o Excepção dilatória de conhecimento oficioso

o Irregularidade do requerimento executivo

o Manifesta inviabilidade da execução

o Insusceptibilidade de sujeição do litígio a decisão arbitral

Há ainda casos em que o despacho liminar é, em geral, dispensado, mas

ainda assim tem lugar (garantia de despacho liminar) – art. 812º-A, nº 2 (sem

citação prévia - excepção ao princípio da coincidência, art. 812º-B):

Execução movida apenas contra devedor subsidiário (normalmente

com citação prévia deste), em que tenha sido requerida dispensa da

sua citação prévia (art. 812º, nº 7 a)).

Prova complementar do título a produzir perante o juiz, nos termos

do art. 804º, nº 2.

Havendo despacho liminar, este pode ser:

Despacho de aperfeiçoamento:

34

Page 36: Processo Executivo

Direito Processual Civil III: Direito Executivo – Lara Geraldes @ FDL

o Quando haja despacho liminar, o juiz deve convidar o

exequente a suprir a falta de pressupostos processuais e

outras irregularidades, desde que sanáveis (art. 812º, nº 4).

Despacho de indeferimento:

o Há lugar a despacho de indeferimento quando o exequente,

tendo sido convidado nos termos supra para suprir a falta de

pressupostos e irregularidades sanáveis, não o fizer (art. 812º,

nº 5).

o Há, porém, lugar a indeferimento liminar imediato quando seja

manifesta a falta insuprível de pressuposto processual de

conhecimento oficioso, e não tendo a secretaria recusado o

requerimento executivo (art. 812º, nº 2).

o Com a revisão passou a admitir-se o indeferimento liminar

parcial (art. 812º, nº 3).

Despacho de citação:

o O executado é citado para, no prazo de 20 dias (art. 812º, nº

6):

Pagar; ou

Opor-se à execução

§4: CITAÇÃO DO EXECUTADO

Proferido o despacho de citação, o executado é citado para, no prazo de 20

dias, para ou opor-se à execução (art. 812º, nº 6).

Fora dos casos infra, a penhora é efectuada sem citação prévia do

executado quando não há lugar a despacho liminar (art. 812º-B, nº 1 - a dispensa

ocorre ope legis, vs nº 2 mesmo art.). O princípio que aqui subjaz é o princípio da

coincidência (se há despacho liminar, há citação prévia).

Há lugar à citação do executado antes da fase da penhora (citação prévia

à penhora), sem necessidade de despacho liminar (art. 812º, nº 7 - excepção ao

princípio da coincidência, art. 812º-B), nos seguintes casos:

Execução movida apenas contra o devedor subsidiário, na qual não

tenha sido pedida a dispensa da citação prévia

Execução de obrigação ilíquida cuja liquidação não dependa de

simples cálculo aritmético

Execução fundada em título extrajudicial de empréstimo para

habitação própria, quando o prédio por ele adquirido é objecto de

hipoteca

A citação prévia à penhora é uma salvaguarda do executado: nas alíneas a)

e b) do art. 812º, nº 7 o título executivo é extrajudicial, pelo que o executado

encontra-se em desvantagem por nunca ter sido ouvido pelo tribunal.

35

Page 37: Processo Executivo

Direito Processual Civil III: Direito Executivo – Lara Geraldes @ FDL

A dispensa da citação prévia do executado pode ser requerida pelo

exequente quando, justificadamente, receie perder a garantia patrimonial do

crédito (art. 812º-B, nº 2 - vs nº 1 mesmo art.). Trata-se como que do enxerto de

uma providência cautelar na fase liminar da acção executiva: o credor serve-se da

própria execução para conseguir o efeito de acautelamento do seu direito

(obstando à dissipação do património com a citação do devedor). Há periculum in

mora, ainda que a prova do fumus boni juris seja dispensada.

Não havendo lugar à citação prévia do executado, entra-se imediatamente

na fase da penhora (art. 812º-B, nº 1) e só no próprio acto da penhora é que o

executado é citado (art. 864º, nº 2). O executado é citado para pagar, indicar os

bens à penhora ou opor-se à execução, nos termos do art. 833º, nº 5.

Ocorrendo cumulação sucessiva, o executado não é de novo citado, mas

apenas notificado para pagar ou opor-se à execução do segundo título (art. 864º, nº

7).

2. OPOSIÇÃO À EXECUÇÃO

§1: MEIO DE OPOSIÇÃO À EXECUÇÃO

O exequente pode opor-se à execução, nos termos do art. 813º, uma vez

citado ou notificado conforme exposto supra. A oposição à execução

(tradicionalmente, “embargos de executado”) consiste no corolário do princípio do

contraditório na acção executiva.

A oposição do executado visa a extinção da execução, mediante o

reconhecimento da actual inexistência do direito exequendo ou da falta de um

pressuposto, específico ou geral, da acção executiva.

A oposição à execução constitui uma verdadeira acção declarativa, que

corre por apenso ao processo de execução: inicia-se com a petição inicial, que

deverá ser articulada, o juiz profere despacho liminar e, não contestando o

exequente, consideram-se admitidos os factos, nos termos gerais. A acção

declarativa em causa é de simples apreciação, segundo a qual se pretende concluir

pela existência ou não do direito.

§2: FUNDAMENTOS À EXECUÇÃO

Os fundamentos de oposição à execução baseada em sentença são (art.

814º):

Inexistência ou inexequibilidade do título

Falsidade (falsidade do processo declarativo, translado,

cópia/certidão e sentença) – art. 372º, nº 2 CC.

Infidelidade (só para situações na acção declarativa)

Falta de pressuposto processual geral

36

Page 38: Processo Executivo

Direito Processual Civil III: Direito Executivo – Lara Geraldes @ FDL

Falta ou nulidade da citação (preterição de formalidade exigida por

lei, art. 198º - na acção declarativa, uma vez que na acção executiva

se aplica o disposto no art. 921º)

Incerteza, inexigibilidade ou iliquidez da obrigação exequenda

(pressupostos específicos)

Caso julgado

Facto extintivo ou modificativo da obrigação (vg prescrição ou

compensação, arts. 837º ss CC - só quando verificado posteriormente

ao encerramento da discussão na acção declarativa; LEBRE DE

FREITAS inclui a usucapião neste âmbito.

Os fundamentos à execução baseada à sentença são mais restritos do que

os fundamentos à execução baseada em título extrajudicial.

§3: PROCEDIMENTO

A oposição à execução deve ser deduzida no prazo de 20 dias a contar da

citação/notificação do executado (art. 813º, nº 1).

Há a possibilidade de embargos supervenientes quando o facto que os

fundamenta ocorrer depois da citação do executado ou quando este só tiver

conhecimento do facto depois da citação (art. 813º, nº 3).

Não tem aplicação o art. 486º, nº 2, a respeito do aproveitamento, pelos

restantes réus, do prazo para contestar daquele que foi citado em último lugar (cfr.

art. 813º, nº 4).

A omissão de oposição à execução não conduz à revelia (não tem o efeito do

art. 484º, nº 1).

Deduzida a oposição:

E havendo lugar a citação prévia:

o A execução é suspensa: através da prestação de caução (arts.

988º e 990º) pelo opoente ou da alegação de que a assinatura

não é genuína, no caso de acção fundada em título particular

sem a assinatura reconhecida (art. 818º, nº 1).

o A execução não é suspensa: é a regra geral (art. 818º, nº 1).

E não havendo lugar a citação prévia:

o A execução é suspensa com a dedução da oposição, posterior

à penhora (art. 818º, nº 2).

o Se a execução for julgada procedente, o exequente responde

pelos danos decorrentes, nos termos gerais da

responsabilidade civil.

Com a decisão definitiva sobre a oposição, a execução extingue-se, quando

a oposição proceda (art. 817º, nº 4).

Quanto ao efeito de caso julgado da oposição à execução:

37

Page 39: Processo Executivo

Direito Processual Civil III: Direito Executivo – Lara Geraldes @ FDL

A favor: CASTRO MENDES

Contra: LEBRE DE FREITAS e LUÍS BONIFÁCIO RAMOS (art. 817º,

nº 2)

3. A FASE DA PENHORA

§1: OBJECTO DA PENHORA

A apreensão dos bens do executado permite que lhe seja paralisada ou

suspensa a possibilidade de dissipação do seu património. O executado fica,

consequentemente, impedido de exercer plenamente os poderes que integram os

direitos de que sobre eles é titular, e os seus bens ficam especificamente afectados

à realização dos fins da execução: a satisfação do direito do exequente através da

transmissão de direitos do executado.

Neste âmbito, a penhora traduz-se na apreensão judicial de bens do

executado, e consiste na manifestação do poder coercivo do tribunal (vs penhor:

garantia do património que depende da vontade das partes). É, pois, o acto

executivo por excelência, visando acautelar a viabilidade da venda executiva.

A penhora deve respeitar os princípios de celeridade, adequação e

proporcionalidade (art. 821º, nº 3), princípios esses que, segundo RUI PINTO,

limitam a actuação do agente de execução. Note-se a excepção constante do art.

834º, nº 2, com consequente favorecimento do credor.

A garantia das obrigações é, com efeito, constituída por todos os bens que

integram o património do devedor, nos termos gerais. A sua responsabilidade é,

pois, patrimonial. Esta regra não comporta excepções, embora se possam observar

desvios quanto à penhorabilidade subsidiária.

Os bens de terceiro que não o devedor só podem ser objecto de execução

nos seguintes casos:

Quando sobre eles incida direito real constituído para garantia do

crédito do exequendo.

Quando tenha sido julgada procedente impugnação pauliana de que

resulte para o terceiro a obrigação de restituição dos bens ao credor

(arts. 610º ss CC).

§2: BENS IMPENHORÁVEIS

São bens impenhoráveis, entre outros (art. 822º):

Bens do domínio público

o LUÍS BONIFÁCIO RAMOS questiona a impenhorabilidade

destes bens, uma vez que pode ser posta em causa através da

usucapião ou por mero acto administrativo.

Bens inalienáveis do domínio privado (vg direito a alimentos)

38

Page 40: Processo Executivo

Direito Processual Civil III: Direito Executivo – Lara Geraldes @ FDL

Bens cuja impenhorabilidade tenha sido convencionada pelas partes

(arts. 602º e 833º CC) – impenhorabilidade convencional.

§3: PENHORABILIDADE SUBSIDIÁRIA

Determinados bens, ou todo um património, só podem ser penhorados

depois de outros bens, ou todo um outro património, se terem revelado

insuficientes para a realização do fim da execução. Eis alguns exemplos:

Responsabilidade dos cônjuges (art. 825º)

Benefício da excussão prévia

Garantia real (arts. 828º, nº 7 e 835º)

Bens que respondem em último lugar

§4: ACTOS PREPARATÓRIOS À PENHORA

No requerimento executivo é dada indicação dos bens do executado que o

exequente conheça (art. 810º, nº 3 d)), na medida do possível, e sem vincular o

agente de execução a penhorar os bens indicados. Todavia, o agente de execução

não deve proceder à penhora se o exequente expressamente se opuser a isso (art.

812º-A, nº 1 d)).

Eis os actos preparatórios à penhora:

Descoberta dos bens (consulta do registo informático de execuções,

art. 832º)

Autorização da penhora de certos bens, precedida de despacho

judicial:

o Penhora de depósito bancário (sigilo bancário, art. 861º-A)

Penhora de outros bens, em substituição dos inicialmente penhorados

(art. 834º, nº 3):

o Por requerimento do executado

o Manifesta insuficiência

o Situação de oneração dos bens penhorados

o Embargos de terceiro contra a penhora

o Oposição à penhora com prestação de caução

o Desistência da penhora

o Invocação do benefício da excussão prévia, pelo devedor

subsidiário não previamente citado

§5: ACTO DA PENHORA

A penhora de direitos tem lugar quando não está em causa o direito de

propriedade plena e exclusiva do executado sobre coisa corpórea nem um direito

real menor que possa acarretar a posse efectiva e exclusiva de coisa corpórea

móvel ou imóvel.

39

Page 41: Processo Executivo

Direito Processual Civil III: Direito Executivo – Lara Geraldes @ FDL

A lei distingue entre:

Penhora de bens imóveis (arts. 838º ss):

o Por comunicação à conservatória do registo predial

competente

o Transferência de posse meramente jurídica

o Feitura do auto da penhora

o Afixação de um edital na porta do imóvel

o O depositário é o solicitador de execução (art. 839º: direito

pessoal de gozo)

o Inscrição da penhora no registo

Penhora de bens móveis (arts. 848º ss)

o Sujeitos a registo (art. 851º):

Por comunicação à conservatória do registo automóvel

competente

Imobilização do automóvel

Notificação às autoridades do controlo do navio ou

aeronave

O depositário é o solicitador de execução

o Não sujeitos a registo (art. 849º):

Tradição material da coisa (apreensão efectiva)

A coisa é removida para um depósito público ou não

Lavrar-se-á auto da diligência

O depositário é o agente de execução que efectue a

diligência

Os depositários têm o dever de guarda da coisa, respondendo pelo seu

perecimento nos termos gerais do contrato de depósito civil.

A penhora do direito de crédito merece referência autónoma (arts. 856º ss):

O devedor é notificado para que, no prazo de 10 dias:

o Impugne a existência do crédito

o Invoque excepção de não cumprimento de obrigação recíproca

o Reconheça a existência do crédito

o Faça qualquer outra declaração com interesse

o Se nada fizer: a inércia tem efeito cominatório que equivale ao

reconhecimento do crédito (art. 856º, nº 3)

A penhora de direitos pode respeitar a:

Títulos de crédito (art. 857º)

Frutos civis (art. 861º)

§6: EFEITOS DA PENHORA

40

Page 42: Processo Executivo

Direito Processual Civil III: Direito Executivo – Lara Geraldes @ FDL

A penhora tem como efeitos:

A transferência, para o tribunal, dos poderes de gozo que integram o

direito do executado

A ineficácia relativa dos actos dispositivos do direito subsequentes (a

eficácia não pode ser oposta à execução)

A constituição de preferência a favor do exequente (direito real de

garantia) – cfr. privilégios creditórios (gerais/especiais e

mobiliários/imobiliários).

41