capelas rurais paulistas dos séculos xvii e xviii

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  • * O original deste artigo de julho de 2013; revisado agora em junho de 2015 para

    ser publicado pela Associao Brasileira de Pesquisadores de Histria e

    Genealogia, a quem agradecemos na pessoa de seu presidente o Professor Marcelo

    Meira Amaral Bogaciovas, Mestre em Histria Social pela Universidade de So

    Paulo, que gentilmente acolheu-me entre seus associados.

    CAPELAS RURAIS PAULISTAS DOS SCULOS XVII E XVIII *

    Carlos Gutierrez Cerqueira IPHAN / SP

    Resumo: Estudo histrico das capelas rurais paulistas dos sculos XVII e XVIII,

    tratadas na obra de Pedro Taques de Almeida Pais Leme (Nobiliarquia Paulistana

    Histrica e Genealgica), e em outras bases de pesquisa.

    Abstract: Historical study of So Paulo rural chapels of the seventeenth and

    eighteenth centuries, treated in the work of Pedro Taques de Almeida Pais Leme

    (Nobiliarquia Paulistana Histrica e Genealgica), and other research bases.

    Prlogo

    A historiografia nos convida a imaginar a vida humana na extensa

    circunvizinhana da Vila de So Paulo de Piratininga dos primeiros sculos de

    sua histria como a pintura de uma paisagem predominantemente rural, os

    morros cobertos por matas virgens, com aberturas onde se cultivam os vveres

    indispensveis subsistncia das famlias espalhadas por este vasto e buclico

    cenrio, em suas moradias, sempre rodeadas por ndios trabalhando, cingindo a

    terra, conduzindo o gado, transportando coisas. Uma dessas moradas se destaca

    sobremaneira j pelo portal de entrada, todo em madeira lavrada, onde se

    encontram postados uns poucos ndios montando guarda, aps o que,

    propriedade adentro, vem-se num cercado tosco cavalos defronte a cocheiras

    bem aparelhadas; dali prossegue um caminho adornado por fileiras de roseiras e

    marmeleiros de lado a lado at encontrar um ptio largo onde se dispem

    diversas benfeitorias. O observador atento logo se apercebe da rara presena de

    mulher branca, apenas assinalada numa figura postada ao lado de um homem

    barbudo que parece dar ordens, a partir da varanda de uma casa larga e

    atarracada, a um grupo de ndios que se dirige a uma capela alpendrada

    posicionada a pouca distncia. Bem ao lado da capela outros ndios se ocupam

    em fincar um pau comprido encimado por uma bandeira, prenunciando alguma

    festividade. Outro grupo, este s de ndias, se concentra em torno de umas

    choas, no muito distantes da mencionada casa, onde preparam comidas em

    abundncia. A normalidade cotidiana parece algo alterada diante de tanta

  • Capelas Rurais Paulistas dos sculos XVII e XVIII 22

    atividade. Alheio a to grande agitao, um padre, provavelmente da Companhia

    de Jesus, catequiza um grupo de indiozinhos que parecem entonar cnticos

    religiosos.

    Bem mais adiante, aps ultrapassar um trigal conexo e bem

    proporcionado, surge um panorama no muito diverso, exceto em relao

    escala dos elementos antes mencionados, que se dispe em unidades ao longo de

    um caminho plano, umas de tamanho mdio, outras menores, demarcadas por

    valas e arvoredos de espinho, retratando vida mais modesta de seus moradores

    que, todavia, dispem igualmente de alguns ndios para o trato de suas lavouras e

    criaes. O caminho prossegue e mais adiante ainda se v um grupo de ndios

    transportando sabe-se l o qu em grades feitas de cip por sua vez atravessadas

    por paus que se apoiam sobre seus ombros. Outro pequeno grupo segue mais

    adiante conduzindo algumas cabeas de gado. frente dos dois grupos vai um

    cavaleiro acompanhado por trs outros ndios caminhando a p, portando arcos e

    flechas. O destino parece ser um plat onde, no alto, se v um casario

    descontnuo pontilhado por algumas torres de igrejas que se erguem a pouca

    altura sobre os telhados dos demais edifcios. Para alm desse elevado, no

    prosseguimento do caminho, pode-se ainda observar, vindo em direo contrria

    e tendo frente homens encimando bandeiras, outros agitando suas espadas,

    seguidos por um grupo de pessoas armadas, atrs das quais seguem centenas de

    ndios, muitos dos quais acorrentados e cercados por outros ndios que, com

    lanas em punho ou porretes mo, os conduzem em fila. Apesar da distncia,

    percebe-se o grande nmero de mulheres e crianas, algumas de colo, que,

    abraadas ou de mos dadas, seguem enfileiradas. E, por fim, no lado oposto e

    meia altura do quadro, num claro da mata, se v uma capela com um edifcio

    anexo tendo vrios casebres no entorno de uma larga praa assim formada, com

    inmeros ndios prximos figura de um padre a gesticular e apontar para o cu!

    Embora a paisagem quase toda nos induza a uma ambgua sensao de

    tristeza e mansido, h nela um dinamismo que deriva do movimento dos ndios;

    onde quer que se encontrem, esto sempre em atividade. Alis, a presena do

    indgena de uma constncia que parece refletir uma preocupao ou uma

    inteno mal dissimulada do pintor. Mas, no. Disse-nos que procurou to

    somente retratar o que at hoje os historiadores, num escrever e reescrever que

    prprio do ofcio, nos transmitem como imagem daquela poca. Assim, injustos

    seramos se quisssemos apontar como contradio concepo geral do quadro,

    imputando-lhe, por uma razo aparente, exagero dramtico condio de

    completa sujeio a que esto submetidos os ndios apresados, representados na

    cena descrita. Da mesma forma incorreramos em erro imperdovel se no

    retornssemos a uma cena descrita para assinalar a figura de um negro, vestido

    maneira de pajem, enublado sob a penumbra da varanda da casa mencionada,

  • Revista da ASBRAP n. 22 23

    postado a uns passos atrs do casal retratado. Temos de ser cuidadosos para no

    deixar escapar nenhum detalhe, pois de certo so carregados de simbolismo.

    Reparada a desateno da primeira leitura, voltemos ao quadro.

    H nele trs ou quatro planos onde esto representadas cinco unidades

    distintas que, todavia, formam uma s totalidade aparentemente harmoniosa mas

    plena de contrastes: num primeiro plano que podemos chamar de fazenda, uma

    grande propriedade rural cheia de gente, atividades e benfeitorias, que se estende

    pelo vasto campo verde-amarelado do trigal; depois, no segundo plano, direita,

    as unidades menores, ocupando terrenos de dimenses variadas e que poca

    eram denominadas datas, com moradas bem modestas algumas, outras

    melhores todas porm tomadas por lavouras de gneros diversos e criatrio de

    pequenos animais cuidados por ndias; vendo-se numa ou noutra tambm um

    gado mido de que se ocupavam uns poucos ndios e, esquerda do quadro, a

    ltima unidade descrita acima uma imagem singular, algo simplificada do que

    seria um aldeamento jesutico, cujo isolamento e beleza parecem contrariar a

    concepo geral da obra; j no plano mais elevado, na descida duma montanha, a

    cena de maior efeito dramtico, a dita expedio no seu retorno do serto, pois

    que bem sucedida, trazendo grande quantidade de nativos capturados no serto;

    e, finalmente, no centro alto do quadro, o povoado, a vila, que, nesta

    representao, por ocupar menor espao pictrico, lhe confere uma significao

    tambm menor, assim configurada pelo pintor talvez em vista das dificuldades

    ainda existentes de desvendar as funes que desempenhava e especialmente de

    penetrar no seu ambiente e nas atividades do seu cotidiano, embora confesse a si

    prprio no a ter caracterizado suficientemente e desconfie que no ficou bem

    figurar assim a pequenina urbe e servir apenas como pano de fundo para uma

    pintura que se prope histrica.

    Mas v l! Havia coisas que gostaria de representar, mas no dispondo

    de informaes seguras caso dos alojamentos dos indgenas nas unidades

    descritas ou as relativas s concepes mentais da poca no encontrou ainda

    maneira de realizar! Assim dedicou-se o mais que pode a chamar a nossa ateno

    sobre tudo unidade do primeiro plano, fazenda, sobre cujo proprietrio, soube

    que poca era chamado por um seu parente muito ilustre de grande

    potentado, vivendo no fausto, com fartura e requinte, a quem tambm

    reconheceu virtudes e modo de viver nobre; qualidades que no entender do

    artista se anulavam face aos expedientes de que ele se valia para obter proveito

    do trabalho forado dos ndios e de como dispunha das ndias moas para saciar

    seu apetite sexual, de que resultava uma prole mestia qual chamavam

    mameluca uma gente diferenciada sobre tudo pela ndole guerreira de que ela

    prpria se orgulhava e da qual tambm se valia o genitor para aumentar-lhe a

    autoridade e o poder. Mesmo assim, confessa o pintor, chegou a ter admirao

  • Capelas Rurais Paulistas dos sculos XVII e XVIII 24

    por esse poderoso senhor, ou d no sabe bem ao certo, em vista das aflies

    que soube que lhe acometeram quando prximo de se defrontar com a justia

    divina. Piedoso, logo revelou outro nobre atributo que o fez distinguir-se ainda

    mais dentre os seus pares: julgando acanhado e de pouco lustro o oratrio que

    tinha num cmodo entrada de sua morada, mandou edificar a citada capela e

    ornament-la ricamente, com altar dourado (vale dizer, revestido em ouro) e

    pinturas que recobriam suas paredes e tetos, complementado por altares laterais,

    imagens, plpito e demais paramentos, inclusive um coro abalaustrado no alto da

    entrada da capela. E nela passou a realizar suas oraes dirias, e as missas em

    louvor a Deus e aos santos de sua devoo, bem como