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  • HABITAES ECONMICAS PAULISTAS:anlise dos projetos das unidades dos atuais programas habitacionais

    Rosana Rita Folz

  • UNIVERSIDADE DE SO PAULOEscola de Engenharia de So Carlos

    Departamento de Arquitetura e UrbanismoPROGRAMA DE PS-GRADUAO - DOUTORADO

    aluna:Rosana Rita Folz

    n USP 317959-0

    disciplina SAP-5846

    habitao metrpoles modos.de.vida

    professorProf. Assoc. Marcelo Tramontano

    data:dezembro/2004

  • 1

    Para atender a um dficit habitacional urbano crescente tem surgido ao longo dosculo XX os mais variados programas, principalmente de iniciativa pblica. Segun-do o Ministrio das Cidades1, 91, 6% deste dficit do pas (5,3 milhes) compostopela demanda por moradia de famlias com renda at cinco salrios mnimos.

    No Estado de So Paulo foi quantificado pela Fundao Joo Pinheiro, no ano de2000, uma carncia habitacional total estimada de 1.161.757 unidades (COELHO,2002; 87). A Companhia de Habitao e Desenvolvimento Urbano CDHU e a CaixaEconmica Federal possuem Programas que buscam atender s famlias de baixarenda.

    Conhecendo alguns projetos que esto sendo financiados por estes Programasidentifica-se claramente uma reduo extrema da rea habitvel por conta, princi-palmente, do custo do metro quadrado da construo. Fica evidente uma preocu-pao do atendimento quantitativo da demanda sem existir uma discusso sobre aqualidade do espao domstico que estes projetos produzem.

    Para ilustrar esta realidade, so analisados alguns projetos de habitao econmi-ca que esto sendo financiados por estes rgos pblicos e construdos nesteincio do sculo XXI. Como parmetro histrico foram escolhidos exemplos do ha-bitar para a populao de baixa renda realizados atravs das diferentes iniciativasempreendidas pelo Estado a partir da dcada de 1930. Isto possibilita uma breveverificao se o habitar mnimo proposto atualmente reflete uma continuidade datrajetria traada por estas iniciativas com reas reduzidas e compartimentadas outem perdido ao longo do tempo caractersticas essenciais para a viabilidade destehabitar.

    Portanto, o foco principal desta pesquisa o interior da unidade habitacional, soos espaos de uso privado produzidos e difundidos desta rea mnima oferecidacomo morada para a populao de baixa renda.

    introduo

    1 Dadosapresentados pelo

    Ministrio dasCidades -

    Seminrio Nacionalde Habitao,

    Saneamento eDesenvolvimentoUrbano - 22- 24 /set./ 2004 - 20FEHAB So

    Paulo - SP

  • 2

  • 3produo da habitao econmicade iniciativa pblica

    A atuao do Estado na produo de habitaes econmicas para a populao debaixa renda no Brasil s foi se efetivar a partir da dcada de 1930. At ento estasaes se restringiram atuao da iniciativa privada, perodo cuja participao doEstado limitava-se legislao sobre esta produo.

    Em 1930 criaram-se as Carteiras Imobilirias das Caixas de Aposentadoria e Pen-ses possibilitando a aplicao de seus fundos na construo de casas para ope-rrios e funcionrios da Unio (FINEP-GAP, 1985; 41-2).

    Em 1933 surgiram os Institutos de Aposentadoria e Penses(IAPs), organizaesde mbito nacional, que substituram em parte as Caixas e que poderiam aplicarparte de suas receitas na construo de casas para seus associados. Este IAPs seorganizavam conforme as categorias profissionais. At 1938 haviam sido criadosseis destes Institutos: IAPM (martimos), IAPB (bancrios), IAPC (comercirios), IAPI(industririos), IAPETEC (condutores de veculos e empregados de empresas depetrleo) e IAPE (estivadores) (BONDUKI, 1998;102).

    Neste perodo existiram algumas iniciativas emblemticas de conjuntos residenciaisempreendidas por estes Institutos onde foram incorporadas muitas propostas domovimento modernista. Embora alguns destes conjuntos no poderiam serconsiderados habitaes para a populao de baixa renda, mas sim para umaclasse trabalhadora de rendas diferentes, cabe aqui uma anlise de suascaractersticas como padro difundido na poca com novos elementos espaciais esociais principalmente na estrutura do conjunto. Como influncia da arquiteturamodernista consolidaram-se propostas que atriburam grande importncia aosambientes de sociabilidade os espaos de transio entre a unidade de habitaoe a cidade.

    Como exemplos paulistas tem-se o Conjunto Residencial Vrzea do Carmo, Con-junto Residencial da Mooca e Vila Guiomar construdos pelo IAPI (Industririos).

  • 4 difundido ento o conjunto residencial composto por prdios e no somente porcasas individuais.Infelizmente no foi encontrado na bibliografia consultada as plantas detalhadas dasunidades destes conjuntos. Percebeu-se que o material bibliogrfico que trata des-ta produo dispensa uma ateno muito maior para a implantao do conjunto, ascaractersticas arquitetnicas externas e o destaque sobre os espaos de uso co-letivo (muitos deles no construdos), do que sobre a unidade habitacional. ApenasBRUNA (1998) expe algumas plantas das unidades, mas de uma forma difcil deprecisar as dimenses dos cmodos. Por isto esto aqui expostas de formaesquemtica para demonstrar que a distribuio no diferente das implantadasem diferentes habitaes econmicas com a clssica repartio da sala, cozinha,rea de servio, banheiro e dormitrios.

    O Conjunto Residencial Vrzea do Carmo, composto por blocos lineares de quatropavimentos, possui apartamentos de 3 e 2 dormitrios, sala, banheiro e cozinhacom servio. Estava previsto a construo de blocos laminares de 12 pavimentossobre pilotis compostos por apartamentos de 2, 3 e 4 dormitrios atendendo aoperfil da famlia mdia de So Paulo na poca, segundo dados estatsticospesquisados (FRASSON, 2000; 165).

    No Conjunto Residencial da Moca os apartamentos possuem de 1, 2 ou 4 dormi-trios. O pouco que se conhece sobre as unidades percebe-se que este Conjuntodiferencia-se dos demais por apresentar apartamento duplex de 4 dormitrios, sala,duas varandas (muitas delas posteriormente fechadas com esquadrias de janela),cozinha, banheiro e rea de servio.

    O Conjunto Residencial Vila Guiomar apresenta uma implantao de ruas sinuosascomposta por casas trreas geminadas duas a duas, casas trreas isoladas no lotee blocos de quatro pavimentos. As casas trreas geminadas possuem 2 dormitri-os, sala, cozinha, banheiro, varanda e rea de servio, totalizando 49,42 m2. Ascasas trreas isoladas no lote diferenciam-se das geminadas por possurem 3dormitrios com reas totais de 47,72 m2 e 55,00 m2. Os blocos so compostos porapartamentos de 1, 2 ou 3 dormitrios (reas de 27, 85 m2; 41,44 m2 e 51, 29 m2,respectivamente) alm da sala, cozinha, banheiro e rea de servio. Existe tam-bm blocos de apartamentos de 3 dormitrios com 62, 90 m2 de rea til.

  • 5Conjunto Residencial Vrzea do Carmo Mooca Vila GuiomarAutoria do projeto Attlio Corra Lima e equipe Paulo Antunes Ribeiro Carlos Frederico

    Ferreira

    Data do projeto 1942 1946 1940

    Data do trmino da obra 1953 1950 1944-53

    Localizao Vrzea do Glicrio So Paulo Alto da Moca So Paulo Santo Andr

    N de habitaes 520 (22 blocos) 576 1.724construdas

    Tipologia habitacional Blocos laminares de 4 pavimentos 17 blocos laminares de 4 Casas trreas / blocose 5 pavimentos de 4 pavimentos

    Dados: FRASSON, 2000;160-162

    CONJUNTO RESIDENCIAL VRZEA DOCARMO - Unidade de dois dormitrios(planta esquemtica baseado emBRUNA, 1998)

    Implantao realizada. Os blocos laminares de 12 pavimentosno foram construdos (BONDUKI, 1998; 184)

  • 6

    CONJUNTO RESIDENCIAL DA MOOCA - Planta esquemtica da unidade habitacional de doisdormitrios (baseado em BRUNA, 1998) e a implantao modernista contrastando com a malhaurbana tradicional (BONDUKI, 1998; 187)

    Planta esquemtica dascasas com doisdormitrios (baseado emBRUNA, 1998)

    Implantao das casas unifamiliares (BONDUKI, 1998; 191)

    CONJUNTO RESIDENCIALVILA GUIOMAR - Setor deblocos laminares sobre pilotis(BONDUKI, 1998; 190)

  • 7Fazendo-se um parnteses, est se dando um enfoque para as unidadeshabitacionais de dois dormitrios principalmente por ser este o padro contrudopara famlias de mais baixa renda nos atuais Programas Habitacionais. Com istopode-se acompanhar este tipo de soluo ao longo das iniciativas de carter pbli-co desde os tempos dos IAPs.

    Em 1946 foi criada a Fundao da Casa Popular que buscava centralizar as ativida-des no campo da habitao destinada s populaes de baixa renda. Todas asoperaes imobilirias e o financiamento das carteiras prediais dos Institutos ouCaixas de Aposentadoria e Penses estariam subordinados a esta nova instituio.Foi a primeira iniciativa frustrada de criao de uma poltica nacional de habitaoque por falta de recursos e pelas regras de financiamentos estabelecidas ficourestrito a alguns estados da federao e com uma produo pouco significativa deunidades (SECRETARIA NACIONAL DE HABITAO, 2004).

    Em 1964, junto com o Banco Nacional da Habitao - BNH, organizou-se o SistemaFinanceiro da Habitao como interveno governamental no campo habitacional,que deveria atender principalmente a demanda de mais baixa renda. Este Sistemapassou a atuar atravs dos INOCOOPS Institutos de Orientao a CooperativasHabitacionais, se desdobrando a nvel estadual em Companhias de Habitao COHABs, anteriormente denominadas de Companhias de Habitao Popular.

    Aps treze anos de atuao como rgo executor da poltica habitacional do Go-verno Federal, o BNH publicou uma amostra do que tinha sido realizado em vriosEstados do Pas no mbito dos Programas de Natureza Social apresentando al-guns aspectos e detalhes tcnicos quanto construo de moradias prprias (BNH,1979; 5). Percebe-se aqui a modificao do carter de posse das habitaes. OsIAPs empreendiam a maioria dos seus Conjuntos para serem alugados. Isto pro-porcionava, de uma certa forma, a garantia de preservao de sua arquitetura. Apartir do BNH, o foco era a produo de moradias para venda, esticando-se osfinanciamentos dcadas.

    I