fuligem: terrores paulistas (o buraco)

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Degustação de FULIGEM: TERRORES PAULISTAS, livro de estréia do roteirista Tiago Teixeira. A publicação, que está disponível em formato digital nas melhores livrarias online do Brasil, a partir de março, reúne contos de terror que tem como personagem principal e pano de fundo a cidade de São Paulo. Press Release: http://goo.gl/tRSzb6 AMAZON: http://goo.gl/hFqcsk ITUNES: http://goo.gl/oM8OFi Website: www.fuligem.com

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  • Tiago Teixeira

    Fuligem: terrores paulistas

    1 Edio

    SoPaulo

    Time Machine

    2015

  • Publicado por Time Machine

    Copyright 2015 por Tiago Teixeira

    Todos os direitos reservados

    ISBN 978-85-918800-0-3

    Esta uma obra de fico. Qualquer semelhana com fatos ou

    pessoas reais mera coincidncia

  • O Buraco

    Engoli o orgulho e entrei na sala, pronto pra ouvir. O Lino estava derretido em cima da cadeira: O senhor do seu castelo de dois por trs e paredes de compensado. Fechei a porta, as paredes tremeram.

    Em frente ao Lino estava um velho metido num terno azul escuro de concirge. Os olhos pretos e pequenos como tachinhas estavam fixas em Lino, espera da resposta para uma pergunta

    que no cheguei a ouvir. Sentei-me a seu lado.

    Ns dois aqui temos a soluo para o seu problema. Lino disse.

    Concordei com a cabea. Solues eram boas. O velho ao meu lado continuava olhando para Lino, como se estivessem sozinhos na sala. Talvez tivesse tido um derrame. Talvez estivesse apaixonado.

    E de que problema estamos falando? eu disse.

    Voc sabe, Lino teria esticado as pernas por cima da mesa se tivesse espao, mas se limitou a se espreguiar como um gato velho e efeminado, Na Consolao.

    Ento, eu tinha razo, era o meu na reta. Falei cuidadosamente, como se me dirigisse a uma criana retardada

  • segurando uma AR-15.

    Lino, voc sabe que eu j fiz tudo que era possvel. A d.

    Polnia no quer sair. Eu sei que j tem quatro

    Seis.

    Seis, porra, seis meses, que seja, eu desabotoei meu colarinho, Eu s queria deixar claro que eu fiz o que eu podia.

    Lino olhou a caixa de arquivo morto em cima de uma estante. Era l onde ele guardava as fichas dos empregados. Tinha

    chegado a hora? Calculei mentalmente meu FGTS. Com a penso alimentcia e o financiamento do carro, acho que dava pra viver

    uns quatro meses. Daria mais se no estivesse ainda pagando o apartamento que a Viviane me tomou.

    Ele se desinteressou da caixa e botou uma caneta esferogrfica

    na boca, mordendo a carga durante um longo minuto.

    Essa cidade devia ser a cidade do futuro, dos empreendimentos, do amanh. o motor do Brasil. Lino disse apertando a carga da caneta com os dentes, Quem se importa tanto em derrubar uma casinha no motor do Brasil? ele levantou a caneta no ar, dando nfase a si mesmo e exibindo os dentes, o rolo compressor do Brasil.

    Tinha esquecido do velho ao meu lado. Ele virou a cabea para mim, dando-se conta da minha presena pela primeira vez.

  • Como o Senhor Lino disse, ns temos a soluo para o seu problema. disse o velho.

    O velho tinha um colar de feira hippie escondido embaixo da camisa social bege. Pedrinhas coloridas em um cip fino. Onde eu

    j havia visto aquilo?

    Voc vai demolir a casa por engano, o velho terminou.

    Lino sorria com tanta fora que achei que a pele retesada sobre suas bochechas ia se rasgar como um tomate maduro.

    Voc vai levar o pessoal l e demolir a casa, ele torceu a carga da Bic entre os dedos, Quando a polcia chegar, se chegar, voc

    diz que foi por engano. A responsabilidade no vai cair sobre voc, mas sobre a demolidora.

    E a d. Polnia?

    Provavelmente vai processar a demolidora e vai receber da gente uma indenizao de trezentos mil.

    A casa vale pelo menos o triplo.

    bastante pra uma velhinha.

    O juiz vai arrancar o nosso coro, Lino.

    No vai. Eu conversei com ele sobre o assunto no aniversrio da Cludia semana passada. Tamos juntos.

    Meu olhar flutuou pela sala. Uma ideia to genial e cruel que

  • s poderia ser gerida em uma construtora. Fixei-me na caixa de plstico amarela.

    Lino martelou a caneta na mesa com fora, mas sem nervosismo.

    Eu no vou fazer isso, eu disse.

    Lino levantou a Bic no ar mais uma vez. Seu olhar passeou pela sala, circulando sem rumo, at parar sobre a caixa de arquivo morto amarela para onde eu tambm olhava.

    A d. Polnia no sai de casa, eu disse.

    O velho girou a cadeira, Essa noite ela vai sair. Uma

    emergncia na famlia. Ela volta pela manh.

    Ela tem famlia?

    O velho girou a cadeira de volta para a direo de Lino.

    E quem o senhor mesmo? eu disse.

    Algum que quer que isso tudo acabe.

    *

    Vai dar merda.

    A Paulista estava parada. Peguei a So Carlos do Pinhal

  • ignorando a sinalizao, cortei a Augusta, cheguei Consolao.

    Vai dar merda.

    Sa do carro na frente do terreno. Um retngulo enorme

    de terra cor de rim, com uma casinha perdida bem no meio da calada. Toda a vila em volta j tinha sido vendida para a construtora e demolida, com indenizaes considerveis. Menos a casa da d. Polnia. Andei at l sujando minha cala cqui de terra.

    Era s mais uma casa sem personalidade nem valor arquitetnico, como quase todas em So Paulo. Um quadrado

    funcional de dois andares feito pra voc comer, dormir, cagar. Nisso o Lino tinha razo, quem se importava com aquela porra?

    Bati porque a campainha no funcionava. D. Polnia se arrastou at a porta.

    Era uma velha incolor de olhos quase invisveis perdido em

    bolsas de pele. O cabelo continuava preto e liso. Devia estar perto dos 90, talvez 100. E me recebeu com um sorriso, mesmo sabendo por que eu estava ali.

    Como todas as outras vezes em que estive na casa, ela me levou at a sala entulhada de lembranas, quadros, lixos variados que deviam valer pouca coisa. Uma vida inteira em forma

    de quinquilharia. Sentamos nas poltronas no meio do tapete redondo de sisal.

  • Ela falava sem pressa. Conversamos sobre o tempo, o trnsito,

    as eleies. Precisava sempre de pelo menos dez minutos de conversa mole pra tocar em algum assunto importante com ela. Sou pssimo de conversa mole, mas com ela no me importava. Acabamos por esgotar os assuntos inofensivos.

    A senhora j pensou sobre a oferta da construtora?

    Dona Polnia sorriu um sorriso de velhinha.

    Quantas vezes voc j me perguntou isso?

    Trezentas, respondi em uma aproximao razovel.

    E o que eu sempre te respondi?

    Os olhos pequenos apertados pelas bochechas grandes me observavam com a superioridade sincera de algum que no ia ser movido. Ou empurrado. Dona Polnia j havia resistido por quase um ano ali, mesmo quando derrubaram tudo em volta, quando deixaram os motores ligados de noite durante uma semana de propsito, quando a remoo dos restos mortais da sua ex-vizinhana cobriu sua casa de terra vermelha por semanas. A velha era uma muralha. No, no uma muralha. Uma muralha

    podia ser derrubada pelo Lino.

    A senhora concorda que a gente tem um impasse aqui, certo? O que acontece que isso tudo, esse problema todo, t caindo todinho em cima de mim.

  • Ela continuou em silncio.

    Eu entendo que a senhora no quer sair. De verdade. Essa a sua casa. Mas isso j foi decidido, por foras maiores que eu ou a senhora, a gente no nada nesse processo, sabe, formiguinhas. Podemos gritar, espernear, e vamos continuar sendo insetinhos. A construtora vai pisar na gente do mesmo jeito, aproximei o indicador do polegar esmagando um ser invisvel, formiguinhas.

    E ela l, sorrindo.

    Eu estou implorando pra senhora, segurei suas mos ossudas. Eu preciso deste emprego, sussurrei sem querer.

    Era verdade. Dona Polnia deixou as mos ali e olhou pra mim durante um longo instante com seus globos oculares do tamanho de bolinhas de pebolim.

    Essa pode ser a ltima vez que eu venho aqui, a senhora entende? A construtora no tem tanta pacincia.

    A velha ajeitou algo no pescoo. Olhou em volta e tensionou os braos, ainda musculosos para sua idade, que me lembraram dos pedreiros que trabalhavam comigo todos os dias. Verificou

    o ltimo boto da camisa. Ajeitou os cabelos ainda negros. Preparava-se para dizer algo difcil.

    a primeira vez que voc est sendo sincero comigo.

  • No fala assim, d. Polnia.

    Ento eu vou ser sincera com o senhor.

    Ela observou a sala pensativa. Depois olhou para o tapete.

    Essa casa no pode sair daqui.

    A casa?

    Sim.

    A casa no pode sair daqui?

    A velha retirou as mos das minhas e se reclinou na cadeira, olhando em volta.

    Eu tomo conta da casa. Sempre houve uma casa aqui.

    Nesse endereo?

    Desde que existe gente.

    Reclinei-me na cadeira, tomando uma distncia segura, como

    se a senilidade fosse um vazamento de butano perigoso, pronto a explodir minha cabea.

    A senhora est aqui desde sempre?

    Claro que no.

    Levantei-me.

    Ento essa casa aqui, est aqui desde sempre?

  • No esta casa. Houve outras antes. Mas sempre teve uma casa, aqui, nesse lugar. importante que tenha uma casa aqui. Senta.

    Era uma ordem e eu obedeci.

    Minha me morou aqui. E a me dela. Quando Isaias Pederneiras chegou, j encontrou uma casa. Era um bandeirante que atravessou o pacfico com Manuel Preto. Ele matou os que

    moravam aqui, menos uma. Ela mostrou a ele a importncia da

    casa. E os dois continuaram no mesmo lugar. Tem tido uma casa aqui desde essa poca e tem tido sempre algum guardando a casa. Quando meu tempo acabar, meu filho tomar meu lugar. E

    o filho dele. E assim por diante.

    A senhora no pode sair daqui?

    Eu nem sei se possvel. A casa no deixaria. Ela tem um

    propsito, e perigosa quando precisa ser.

    Eu tambm terminaria assim? Sozinho e senil, pegando uma penso absurda com uma filha que me odeia? Eu no conseguia

    dizer mais nada. Aquilo era s triste.

    A velha se levantou. Com um aceno de mo, pediu que eu a imitasse e obedeci. Andou at a ponta da sala, abaixou-se dobrando em noventa graus na altura da cintura e puxou a ponta do tapete redondo sem esforo, derrubando duas cadeiras forradas de palhinha.