história das bandeiras paulistas

Download História das Bandeiras Paulistas

Post on 08-Jan-2017

219 views

Category:

Documents

2 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

  • 1

    AFONSO DESCRAGNOLLE TAUNAY

    HISTRIA DAS BANDEIRAS

    PAULISTAS

    LEITURA BSICA

    Seleo e introduo de Antonio Paim

    CENTRO DE DOCUMENTAO DO

    PENSAMENTO BRASILEIRO (CDPB)

    2012

  • 2

    NDICE

    Introduo Antnio Paim.......................................................3

    TEXTOS DO VOLUME I

    Cap. I A expanso bandeirante, captulo original dos

    fastos brasileiros....................................................10

    Cap. III A linha tordesilhana e seus deslocamentos.

    Entradas quinhentistas............................................19

    Cap. IV O sculo XVII, a grande era das bandeiras

    de So Paulo.............................. ............................26

    Cap. V A questo servil e as bandeiras...............................36

    Cap. VI D. Lus Cspedes Xeria e sua estada em

    So Paulo...............................................................46

    Cap. VII Destruio das grandes redues jesuticas

    do Guair ..............................................................51

    Cap. VIII A deposio de D. Lus de Cspedes e seu processo

    de residncia..........................................................61

    Cap. IX Prossecuo da expanso bandeirante......................73

    Cap. X As grandes bandeiras de Antonio Rapozo Tavares....80

    Cap. XII A restaurao da independncia portuguesa.

    O episdio de Amador Bueno.................................95

    Cap. XV Sertanistas notveis do sculo XVII.......................103

    TEXTOS DO VOLUME II

    - O Tiet instrumento mximo de penetrao do Brasil

    Sul Ocidental............ ...............................................113

    - Conspecto geral do movimento bandeirante............................121

    TEXTO DO VOLUME III

    - Notcia de viagem de So Paulo a Cuiab ocorrida no

    ano de 1726....................................................................217

  • 3

    INTRODUO

    No esquema que produziu das bandeiras, Capistrano de

    Abreu (1853/1927) destacou a relevncia das paulistas. De

    fato, alm de pioneiras, no se limitaram a desbravar os

    caminhos --e, assim, abrir espao ao povoamento-- do Sul, que

    era a regio mais prxima, mas penetraram na direo do

    Centro-Oeste e at no Nordeste. Os cursos dgua eram

    naturalmente o meio de transporte acessvel. Contudo, como

    no se interligavam, em pontos tomados aleatoriamente

    abriam-se picadas, at o encontro de nova via fluvial. Graas

    circunstncia, a maneira de apresent-los justamente esta.

    Afonso de Taunay ( 1876/1958), autor do registro das

    bandeiras paulistas, destaca desde logo o papel dos rios. A

    propsito da ligao que se estabeleceu entre paulistas e

    paraguaios, no prprio incio dessa grande epopia, escreve: o

    Paran e o Tiet devem ter sido o liame seguidamente utilizado

    para a aproximao dos dois ncleos.

    Subsidiariamente, organizaram-se bandeiras na Bahia

    que se valeram do So Francisco para alcanar o ponto a partir

    do qual, acabaram chegando s margens do Parnaba. Valeram-

    se do mesmo rio para alcanar Minas Gerais e estabelecer

    acesso terrestre ao Tocantins. Seu registro esteve a cargo de

    Urbino de Souza Viana (1870/1945), no livro Bandeiras e

    sertanistas bahianos (So Paulo: Companhia Editora

    Nacional, 1935; Brasiliana, vol. XLVIII).

    Existiram outras bandeiras partindo de Pernambuco e do

    Maranho mas no tiveram a mesma importncia das

    precedentes.

    A obra de Taunay intitulou-se Histria das bandeiras

    paulistas. Iniciou sua publicao em 1924, completando-a em

    1936, verso em sete volumes. A Editora Melhoramentos, que

    a editou, reeditou-a em 1961, em trs volumes, como parte das

    comemoraes do IV Centenrio da Cidade de So Paulo.

  • 4

    Afonso dEscragnolle Taunay formou-se em engenharia

    civil na Escola Politcnica do Rio de Janeiro. Fez carreira em

    So Paulo, tendo sido catedrtico da Politcnica paulista.

    Ocupou diversos cargos na administrao estadual. Pertenceu

    Academia Brasileira de Letras e ao Instituto Histrico de So

    Paulo. Produziu expressiva obra dedicada historiografia

    nacional, entre as quais destaca-se, alm da referida, uma

    histria do caf.

    Teria oportunidade de indicar que, em diversas ocasies,

    foi instado a oferecer ao pblico, como diz, uma obra de

    manuseio, permitindo aos leitores que considerassem a outra

    como fonte de consulta, mas no se animou a faz-lo.

    O bandeirantismo corresponde a um feito notvel. O

    prprio Taunay o compara ocupao da Sibria pelos russos e

    incorporao do Oeste, pelos norte-americanos. Cabe-lhe,

    inquestionavelmente, um lugar de honra entre os textos de

    nossa historiografia que selecionamos para instigar um pblico

    mais amplo a uma primeira aproximao, que, embora deva

    conter imperfeies, certamente facultar, dos eventos

    considerados, melhor idia que as simplificaes

    insistentemente divulgadas no perodo recente.

    No movimento em prol da ocupao da parte Sul e

    Centro-Oeste que passou a corresponder ao territrio brasileiro,

    ao arrepio dos limites fixados pelo Tratado de Tordesilhas, a

    cargo das bandeiras paulistas, mescla-se a questo das Misses

    Jesuticas envolvendo o Paraguai e parte do Brasil. Valendo-se

    da juno dos dois Reinos, no chamado perodo filipino, os

    paulistas obtiveram a conivncia de parte da elite espanhola

    radicada no Paraguai. Na primeira metade do sculo XVII

    intensificam-se grandemente as incurses naquela direo, cuja

    descrio ocupa vrios captulos do primeiro volume da obra

    de Taunay. Como escreve, ali se erguia o baluarte contra a

    expanso portuguesa, muito embora os inacianos enfrentassem

    a maior animosidade dos colonos espanhis da regio.

  • 5

    Taunay cita a denncia encaminhada, em 1632, a Felipe

    IV dos riscos de perda completa do Paraguai, pelo Provincial

    da Ordem. Segundo essa denncia, a ameaa era de que se

    estabelecessem, no corao da Amrica Meridional, judios

    encapotados, hombres muy danosos al bien espiritual e

    temporal y seguridad destos Reinos. Sugere que seja a

    Inquisio instada a voltar-se contra eles.

    O conflito ento iniciado pelos bandeiras teria

    desdobramentos. Os aldeamentos mantidos pelos jesutas

    abrangiam parte do territrio do Paraguai e o Nordeste do

    futuro Rio Grande do Sul. O direito do Brasil mencionada

    parcela seria consagrado pelo Tratado de Madrid (1750).

    Apesar da resistncia dos padres, o domnio portugus seria

    assegurado, completando-se com a sua expulso de Portugal,

    logo adiante.

    Conforme Taunay estabelece neste primeiro volume, o

    impulso inicial dos bandeirantes era, como se dizia, a presa de

    ndios, na expectativa de escraviz-los. Ao que se afirma, no

    teriam se adaptado a essa condio, razo pela qual recorreu-se

    importao de africanos, que j admitiriam tal condio.

    Tenha-se presente que, a existncia da escravido era tolerada

    desde o mundo antigo. Passou a ser considerada incompatvel

    com a civilizao ocidental ao longo do sculo XVIII, a

    comear da Inglaterra.

    Em relao aos indgenas, o curioso que os jesutas

    conseguiram incorpor-los ao trabalho nas suas fazendas. Por

    essa razo, os colonizadores portugueses consideravam-nos

    concorrentes desleais, assunto que daria origem a sucessivos

    conflitos em diversas partes do pas e que culminariam com a

    expulso da Ordem de Portugal e colnias.

    Quanto ao dimensionamento dos efetivos indgenas

    presos pelos bandeirantes, com vistas a escraviz-los, Taunay

    os considera exagerados. Pelas descries dos primeiros

    visitantes estrangeiros que o fizeram, v-se que as aldeias

  • 6

    indgenas abrigavam contingentes muito reduzidos de

    habitantes. Sendo nmades, vivendo de caa e pesca, podiam

    submeter parcelas reduzidas dos territrios, mesmo porque, em

    muitas circunstncias, deparavam-se com tribos rivais.

    No sculo XVI, progressivamente, o bandeirantismo

    passa a ocupar-se da busca de jazidas de metais preciosos.

    Essa reorientao reflete-se claramente na estrutura dos

    trs volumes ordenados pelo editor (a Melhoramentos). O

    primeiro ocupa-se do povoamento do Planalto paulista --ao

    contrrio do estilo litorneo do povoamento patrocinado pelos

    portugueses-- e de como se voltaram para o Serto. Trata-se do

    que chamou de entradas quinhentistas, sem descurar dos

    problemas e conflitos que ocuparam os prprios paulistanos.

    Como foi referido, Taunay destaca o papel do Tiet na

    extenso das conquistas dos bandeirantes. Embora entremeado

    de corredeiras e outros obstculos navegao, conduz a uma

    bacia hidrogrfica situada em torno do esturio do Prata, por

    sua vez formado pelos rios Paraguai e Uruguai. Desemboca

    diretamente onde se situa atualmente o estado de Mato Grosso

    do Sul. Dali pode descer ao Paran, ao Rio Grande e ao

    Paraguai.

    Nesta Leitura bsica, deste primeiro volume nos

    limitaremos a transcrever alguns dos captulos que

    proporcionam uma idia de como desbravaram a mencionada

    parcela do atual territri