biodiversidade conservacao e uso sustentavel

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  • 7/23/2019 Biodiversidade Conservacao e Uso Sustentavel

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    Av. N2 Anexo E do Senado Federal

    CEP: 70165-900 Braslia DF

    Telefones: +55 (61) 3303.5879 / 5880

    E-mail: conlegestudos@senado.gov.br

    Os boletins do Legislativo esto disponveis em:www.senado.gov.br/senado/conleg/boletim_do_legislativo.html

    BIODIVERSIDADE CONSERVAO E USO SUSTENTVEL

    Carmen Rachel Scavazzini Marcondes Faria1

    O principal instrumento jurdico internacional para a conservao e o uso

    sustentvel da biodiversidade resultou da Conferncia das Naes Unidas sobre Meio

    Ambiente e Desenvolvimento (CNUMAD) ocorrida em junho de 1992, tambm denominada

    Rio 92 ou Eco 92.

    A Conveno sobre Diversidade Biolgica (CDB) estabelece normas e princpios

    que devem reger o uso e a proteo da biodiversidade em cada pas signatrio e tem como

    objetivos a conservao da diversidade biolgica, a utilizao sustentvel de seus

    componentes e a repartio justa e equitativa dos benefcios derivados da utilizao dos

    recursos genticos.

    A CDB afirmou a soberania dos pases sobre seus recursos genticos, rompendo

    paradigma ento vigente, de que tais recursos constituam patrimnio comum da humanidade,e prope-se a tutelar a diversidade entre espcies, entre indivduos de uma mesma espcie e

    entre ecossistemas. Esse tratado tambm reconhece a importncia do conhecimento

    tradicional associado para a conservao da biodiversidade, estabelece a necessidade de

    consentimento dos detentores desses conhecimentos para o acesso e a exigncia da repartio

    dos benefcios advindos do seu uso.

    A partir da vigncia da Conveno, diversos pases, entre os quais o Brasil2,

    editaram leis nacionais relacionadas ao acesso e repartio de benefcios, as quais se

    mostraram insuficientes, no entanto, para disciplinar, no plano internacional, as relaes entre

    1 Biloga (USP), Mestre em Ecologia (UnB). Lecionou no Ensino Mdio; foi professora e pesquisadora noInstituto de Cincias Biolgicas (UnB). Consultora Legislativa do Senado Federal.

    2 A gesto do acesso biodiversidade e ao conhecimento tradicional associado disciplinada pela MedidaProvisria (MPV) n 2.186-16, editada em primeira verso em 2000. O Congresso Nacional aguarda, j halgum tempo, o envio pelo Poder Executivo Federal de projeto de lei sobre o tema que, segundo fontesgovernamentais, estaria em fase final de ajustes.

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    detentores e usurios dos recursos da biodiversidade. Nesse contexto, o art. 15 da CDB exigiu

    a aprovao, em 2010, do Protocolo de Nagoya, de modo a assegurar que os benefcios

    monetrios ou no resultantes da utilizao dos recursos genticos e do conhecimento

    tradicional associado a esses recursos e aos benefcios decorrentes do uso desses

    conhecimentos sejam repartidos de modo justo e equitativo com o pas provedor dos recursos.

    Tambm no mbito da CDB vige o Protocolo de Cartagena3sobre biossegurana,

    acordo que visa a salvaguardar a biodiversidade dos possveis riscos relacionados ao

    movimento transfronteirio de organismos vivos modificados4.

    Passados vinte anos, a CDB no logrou avanos significativos na consecuo de

    seus propsitos.

    Em 2002, a Conveno adotou, como objetivo a ser alcanado at 20105, reduzir

    de forma significativa a taxa de perda da biodiversidade nos nveis global, regional e nacional.

    Tal meta, no entanto, no foi cumprida, conforme apontam os ndices do ltimo relatrio que

    traa o Panorama da Biodiversidade Global.

    Tambm o Brasil no cumpriu as metas s quais se props, embora venha se

    empenhando, at o momento, para implementar os compromissos assumidos perante a CDB

    com sucesso em algumas misses, como, por exemplo, a reduo de 75% do desmatamento

    na regio Amaznica.

    Isso demonstra que determinados setores governamentais, empresariais e boa

    parte da classe poltica no se comprometeram com a efetiva execuo da CDB e no

    compreenderam, ainda, a importncia dos fatores associados perda de biodiversidade, o que

    afetar, de algum modo, a todos. Como se sabe, os ecossistemas nativos garantem serviosambientais imprescindveis para a vida, como a produo de alimentos, o abastecimento

    quantitativo e qualitativo de gua, a manuteno da qualidade dos solos e a conteno da

    3 Aprovado pelo Congresso Nacional por meio do Decreto Legislativo n 908, de 21 de novembro de 2003 epromulgado pelo Decreto n 5.705, de 16 de fevereiro de 2006.

    4 A Lei de Biossegurana de 2005 estabelece regras para as atividades que envolvam organismos geneticamentemodificados e est em consonncia com o Protocolo de Cartagena.

    5 Declarado pela Assembleia Geral das Naes Unidas como o Ano Internacional da Biodiversidade.

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    eroso, o sequestro de carbono, a disperso de plen e de sementes, o controle biolgico de

    pragas, a ciclagem de nutrientes, a estabilizao de encostas e o controle de secas e enchentes.

    A conservao da biodiversidade no tema afeito apenas aos rgos oficiais demeio ambiente e s entidades ambientalistas e, por certo, deve ser considerada em todas as

    instncias decisrias do Pas e pelo conjunto da sociedade, de modo a construir uma poltica

    de Estado e no de Governo.

    O Brasil tambm precisa liderar os estudos relativos ao valor econmico da

    biodiversidade, de modo a melhor conhecer e quantificar a dimenso do custo da perda desse

    patrimnio para a economia nacional e mundial, assim como avaliar as oportunidades

    econmicas quando se investe na preservao e na conservao dos recursos genticos.

    Aps duas dcadas, o Brasil sediar, neste ms de junho, a Conferncia das

    Naes Unidas sobre Desenvolvimento Sustentvel a Rio+20. Ainda que a CDB no conste

    da agenda da Conferncia por ter a Conveno frum prprio de debate e negociao , no

    h como afastar das discusses do evento questes relacionadas conservao da

    biodiversidade, uma vez que o desenvolvimento sustentvel engloba trs dimenses de igual

    relevncia: a responsabilidade ambiental, a justia social e a viabilidade econmica.

    Um tema importante a ser debatido na Rio+20, conforme o Rascunho Zero da

    Conferncia, centra-se na questo da governana ambiental mundial com vistas ao

    fortalecimento das aes dos rgos das Naes Unidas, a qual se mostra fundamental para

    implementar os acordos internacionais existentes, entre eles as Convenes sobre Mudana do

    Clima e de Combate Desertificao, que guardam claro vnculo com a CDB.

    O Brasil como signatrio da CDB6e detentor da maior biodiversidade mundial

    deve desempenhar papel central nesses debates, em razo da importncia estratgica desse

    imenso capital natural para o desenvolvimento econmico e social do Pas.

    6 O texto da Conveno foi aprovado pelo Congresso Nacional por meio do Decreto Legislativo n 2, de 3 defevereiro de 1994, e promulgado pelo Decreto n 2.519, de 16 de maro de 1998.

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    O ordenamento jurdico ptrio registra um expressivo quadro legal no que se

    refere proteo da biodiversidade, com destaque para as Leis de Fauna, do Sistema Nacional

    de Unidades de Conservao, de Gesto de Florestas Pblicas, de Proteo Mata Atlntica e

    de Crimes Ambientais. Sem esquecer que a Constituio Federal de 1988, mesmo antes da

    CDB, j reconhecia a importncia desse tema, tanto que h previso a respeito da matria no

    seu art. 225, inciso II, nos seguintes termos: incumbe ao poder pblico preservar a

    diversidade e a integridade do patrimnio gentico do Pas e (...).

    A legislao ambiental ptria, no entanto, sofreu lamentvel revs com a recente

    aprovao do novo Cdigo Florestal7 se que assim pode ser chamado. A lei reduz

    consideravelmente o grau de proteo da vegetao nativa em reas cruciais como margens derios, nascentes, encostas, topos de morros, veredas, mangues e restingas as denominadas

    reas de Preservao Permanente (APP) , essenciais para a conservao da biodiversidade e

    para a prestao de servios ambientais. Fragiliza, igualmente, o instituto da Reserva Legal

    (RL) rea florestada vinculada propriedade rural, submetida a regime especial de uso, e

    que foi concebida com o intuito de consolidar uma malha de cobertura vegetal natural capaz

    de garantir o equilbrio ecolgico dos diversos ecossistemas nacionais.

    A lei, como aprovada pela Cmara dos Deputados, abre a possibilidade presente efutura de desmatamento, autoriza a impunidade daqueles que desmataram ilegalmente,

    regulariza ocupaes em reas desflorestadas em desacordo com as normas legais vigentes;

    elimina a necessidade de recomposio vegetal, contradiz os princpios da CDB e dos demais

    preceitos constitucionais e legais de proteo dos nossos recursos naturais e contraria os

    avanos construdos at agora.

    s vsperas da R