A Guerra Do Paraguai

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www2.fsanet.com.br/revista Revista FSA, Teresina, v. 10, n. 2, art. 11, pp. 178-194, Abr./Jun. 2013 ISSN Impresso: 1806-6356 ISSN Eletrnico: 2317-2983 http://dx.doi.org/10.12819/2013.10.2.11 A GUERRA DO PARAGUAI NA HISTORIOGRAFIA NACIONAL E REGIONAL: UM PARADIGMA DE PESQUISA HISTRICA NO PIAU THE WAR WITH PARAGUAY IN NATIONAL AND REGIONAL HISTORIOGRAPHY: A PARADIGM OF HISTORICAL RESEARCH IN PIAU Johny Santana Arajo* Doutor em Histria Social/Universidade Federal Fluminense Professor da Universidade Federal do Piau E-mail: johny@oi.com.br Picos, Piau, Brasil *Endereo: Johny Santana Arajo Universidade Federal do Piau, Campus Senador Helvdio Nunes de Barros. Rua Cicero Eduardo, S/N, Junco, CEP: 64600-000, Picos/PI, Brasil. Editora-chefe: Dra. Marlene Arajo de Carvalho Artigo recebido em 10/02/2013. ltima verso recebida em 01/03/2013. Aprovado em 02/03/2013. Avaliado pelo sistema Triple Review: a) Desk Review pela Editora-Chefe; e b) Double Blind Review (avaliao cega por dois avaliadores da rea). J. S. Arajo 179 Revista FSA, Teresina, v. 10, n. 2, art. 11, pp. 178-194, Abr./Jun. 2013 www2.fsanet.com.br/revista RESUMO O presente estudo tem como objetivo analisar a historiografia sobre a Guerra do Paraguai a partir da interlocuo da historiografia nacional e regional (entende-se a historiografia piauiense). Pretendemos dessa maneira, de forma concisa, expor as diferentes perspectivas abordadas sobre o conflito, mostrar como foi interpretada pelo conhecimento histrico em diferentes perodos. Num primeiro momento, a leitura sobre a guerra d-se a partir de uma perspectiva positivista; em seguida, o vis revisionista e ento os novos afluxos oriundos da nova histria poltica e militar. Finalmente ser mostrado como a historiografia piauiense trabalhou o tema no passado recente. Palavras-chave: Piau; guerra do Paraguai; historiografia. ABSTRACT The present study aims to analyze the historiography of the War of Paraguay from the dialogue of national historiography and regional (means historiography Piau). We intend this manner, concisely exposing addressed deferent perspectives on the conflict, showing how it has been interpreted by the historical knowledge in different periods. At first, reading about war from a positivist perspective, then the bias revisionist and then from new inflows arising from the new political and military history. Finally we will show how the historiography piauiense worked the theme in the recent past. Key words: Piau; war of Paraguay; historiography. A GUERRA DO PARAGUAI NA HISTORIOGRAFIA NACIONAL E REGIONAL 180 Revista FSA, Teresina, v. 10, n. 2, art. 11, pp. 178-194, Abr./Jun. 2013 www2.fsanet.com.br/revista INTRODUO Em 1999, quando cursava Histria1, algo nos inquietava: compreender o que significavam os Corpos de Voluntrios da Ptria, como se deu sua formao, que condicionantes havia para fazer aqueles homens voluntrios, se eram mesmo voluntrios e se existia uma ideia de voluntariado em um Estado Nacional, cuja sociedade admitia a escravido como legtima e, por fim, qual a atuao deles na Guerra do Paraguai. 2 No que tange produo historiogrfica do conflito, muitos trabalhos foram escritos a respeito da Guerra da Trplice Aliana, ou Guerra do Paraguai. Fazia pouco tempo que dentro da academia, especialmente nos grandes centros urbanos, comearam a surgir novas pesquisas que colocaram abaixo antigas teorias sobre o conflito. Porm, a produo historiogrfica sobre a guerra do Paraguai no nova e muitos trabalhos foram elaborados a partir das mais diferentes perspectivas. Dentre eles, narrativas construdas por contemporneos da guerra.3 Alm de serem trabalhos de carter poltico, diplomtico e militar, produzidos entre a dcada de 20 e 60 do sculo XX, estes em grande parte compunham uma historiografia oficial com a predominncia do positivismo como anlise.4 No Brasil, a partir da dcada de 60 at fins da dcada de 70, passou a predominar uma historiografia revisionista, cuja tese principal apontava a influncia do capital da Inglaterra na conjuntura da guerra. So os principais defensores dessa tese os pesquisadores, Jlio Jos Chiavenatto e Leon Pomer, 5 que esvaziaram a discusso da formao dos estados nacionais como um processo prprio dos pases envolvidos no conflito. Tal verso de certa maneira tornou reducionista a problemtica, o que de certa forma prejudicou qualquer outra interpretao da guerra que no fosse a premissa do envolvimento ingls. De uma maneira geral, os centros de pesquisa na dcada de 60 do sculo XX revelaram-se centros de resistncia poltica ao governo militar, tendo como cerne de teoria as discusses 1 Histria Bacharelado na Universidade Federal do Maranho (UFMA). 2 ARAJO, Johny S. A nao em armas: Os corpos de voluntrios da ptria do Maranho na guerra do Paraguai. 1865 1870. Rio de Janeiro: Sotese. 2005. p. 36. 3 CERQUEIRA, Dionsio. Reminiscncias da Campanha do Paraguai (1865-1870). Rio de Janeiro: Biblioteca do Exrcito, 1980. TAUNAY, Alfredo D. Memrias. So Paulo: Edies Melhoramento, 1946. 4 FRAGOSO, Augusto T. Histria da Guerra entre a Trplice Aliana e o Paraguai. 2 ed., Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1956, v. 1-5 5 CHIAVENATTO, Jlio J. Genocdio Americano: A guerra do Paraguai. 23 ed., So Paulo: Brasiliense, 1998; POMER, Leon. A Guerra do Paraguai. A grande tragdia rioplatense, So Paulo: Global., 1980. J. S. Arajo 181 Revista FSA, Teresina, v. 10, n. 2, art. 11, pp. 178-194, Abr./Jun. 2013 www2.fsanet.com.br/revista centradas no Marxismo. A maioria dos modelos de anlise subverteu a teoria, empobrecendo a discusso, tornado-a panfletria e, por conseqncia, arma de crtica ao regime.6 No incio da dcada de 90 houve uma modificao no paradigma de anlise do processo de pesquisa, cuja leitura e acesso a novas fontes e a releitura de outras proporcionaram o surgimento de uma historiografia renovada sobre o tema. A partir da discusso levantada por Francisco Doratioto, autor de O Conflito do Paraguai: A grande guerra do Brasil, e a obra mais completa j escrita sobre o conflito, o livro: Maldita Guerra, do mesmo autor, tm possibilitado uma abordagem ampliada sobre a guerra, analisando questes diplomticas, polticas, sociais e econmicas.7 Dentre as discusses historiogrficas sobre o conflito, possvel destacar ainda a importante pesquisa do historiador Jorge Prata de Sousa sobre o recrutamento para a guerra do Paraguai. O trabalho de Jorge Prata tambm caracterizado pela intensa crtica historiografia tradicional sobre a guerra, pois o autor procurou analisar como havia ocorrido o processo de recrutamento, na Provncia do Rio de Janeiro e na Corte, concentrando seus estudos a partir da ideia do recrutamento de escravos e libertos, segundo uma de suas afirmaes: A classe dirigente tinha conscincia de que o passo seguinte seria a promoo de escravos a libertos, alm dos possveis alistamentos de escravos sem o consentimento dos proprietrios.8 Outro referencial de grande importncia tem sido Ricardo Salles, autor de Guerra do Paraguai: escravido e cidadania na formao do Exrcito, 9 cuja leitura permite compreender como se deu o processo de formao dos voluntrios da ptria, numa abordagem atravs da histria vista de baixo.10 O seu trabalho em muito desconstri o mito lanado pela corrente revisionista de que os voluntrios eram escravos forados a lutar na Guerra, mito do qual Chiavenatto trabalhou para se tornar verdade velada. E finalmente o trabalho de Vitor Izecksohn, O cerne da discrdia: a Guerra do Paraguai e o ncleo profissional do Exrcito, publicado em meados de 2002, trabalho em que traa o 6 ARAJO, Johny Santana de; LIMA, Frederico Osanan Amorim (Orgs.). Histria: entre fontes, metodologias e pesquisa. Teresina, PI: EDUFPI; Imperatriz, MA: tica, 2011. p 28. 7 DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Maldita Guerra: Nova Histria Da Guerra Do Paraguai. So Paulo: Companhia Das Letras, 2002. ______, O Conflito do Paraguai: A grande guerra do Brasil. So Paulo: tica, 1996. 8 SOUSA, Jorge Prata de. Escravido ou Morte: os escravos brasileiros na guerra do Paraguai. Rio de Janeiro. Mauad. ADESA. 1996. p. 47. 9 SALLES, Ricardo. Escravido e Cidadania na Guerra do Paraguai. So Paulo: Paz e Terra, 1998. 10 Perspectiva de compreender a histria a partir dos considerados marginalizados emblemtica nos trabalhos de E. P. Thompson, George Rude e Raymond Williams. A GUERRA DO PARAGUAI NA HISTORIOGRAFIA NACIONAL E REGIONAL 182 Revista FSA, Teresina, v. 10, n. 2, art. 11, pp. 178-194, Abr./Jun. 2013 www2.fsanet.com.br/revista perfil do ncleo de oficiais brasileiros para alm dos problemas ligados construo do prprio Exrcito para a campanha contra o Paraguai. 11PARA UMA PESQUISA MAIS PROFUNDA Uma etapa seguinte que destacamos se constitui numa breve observao sobre o corpo documental, referente ao conflito, que para surpresa tem sido pouco utilizado, encontrando-se por vezes somente higienizado nos nossos arquivos pblicos estaduais ou no Arquivo Nacional. Muitas vezes sem nunca haver sido tocado, um comentrio que consideramos de suma importncia, refere-se possibilidade de trabalhar com fontes hemerogrficas que se encontram micro-filmadas em alguns dos mais importantes centros de documentao e bibliotecas como a Biblioteca Nacional. Atualmente no Piau h um srio problema quanto disponibilidade da documentao hemerogrfica que infelizmente se encontra indisponvel para pesquisa, nesse caso trata-se dos documentos fsicos, exceo feita documentao microfilmada e digitalizada que est em processo de disponibilizao. Existe tambm uma rica documentao oficial disponvel nos arquivos eletrnicos, localizados na Internet, sobretudo a que foi digitalizada pela Universidade de Chicago, em parceria com a Fundao Andrew W. Mellon, dando origem ao projeto denominado: Brazilian Government Document Digitilization Project. No Brasil j possvel ter acesso a um conjunto muito maior de fontes, como os documentos disponibilizados pela Cmara dos Deputados e pelo Senado Federal, alm das Colees de Leis do Imprio, tambm disponveis no site do Congresso Nacional. No Arquivo do Senado Federal de igual forma possvel a consulta on-line aos Anais e Dirios do perodo da guerra, alm das Atas do Conselho de Estado Pleno. As referidas atas so documentos de grande importncia, pois nos mostram como foram formuladas as discusses e as deliberaes por parte dos conselheiros no perodo do Imprio, e muitas decises a respeito do conflito foram tomadas em reunies do Conselho de Estado Pleno, que atuava como um rgo de consultoria ao imperador e, via de regra, considerado imparcial e livre das disputas poltico-partidrias inerentes s duas cmaras. 11 IZECKSOHN, Vitor. O cerne da discrdia: a Guerra do Paraguai e o ncleo profissional do Exrcito. Rio de janeiro: E-papers, 2002. J. S. Arajo 183 Revista FSA, Teresina, v. 10, n. 2, art. 11, pp. 178-194, Abr./Jun. 2013 www2.fsanet.com.br/revista No mesmo arquivo do Senado Federal possvel ainda encontrar os Anais do Senado, cujas discusses a respeito da guerra tambm fizeram parte do universo de debates daquela casa, todas as discusses relativas ao assunto podem ser encontradas on line. No arquivo da Cmara dos Deputados, foi disponibilizado o acervo referente ao Imprio, que inclui os Anais e Dirios da Cmara dos Deputados. E, finalmente, a Coleo de Leis Brasileiras do perodo do Imprio, ndice dos Atos do Poder Executivo, Leis e Decretos, todos com possibilidade de consulta on line. Destacamos igualmente as bibliotecas do Senado, a Brasiliana da USP e a Brasiliana da UFRJ, que juntas disponibilizam uma srie de publicaes que podem ser baixadas ou consultadas, nesse caso via suporte on line da UFRJ. Existe ainda o vasto acervo disponibilizado pelo governo Federal atravs do site Domnio Pblico, onde se encontram inclusive imagens. Por fim, apresentamos como referncia o acervo on line da Biblioteca Nacional, o acervo on line da Fundao Joaquim Nabuco, em Pernambuco; do Instituto Histrico e Geogrfico Brasileiro (IHGB) e do Instituto do Cear, os dois institutos disponibilizaram todos os volumes para consulta de suas revistas, no caso do IHGB algumas revistas so do perodo da guerra. PARA UMA REFLEXO SOBRE A CONSTRUO DE UMA HISTRIA Dentro de uma perspectiva mais especfica, procuraremos agora nos centrar em outro aspecto, os estudos sobre a Guerra do Paraguai, tomando resumidamente como modelo as diferentes abordagens ao longo das dcadas e a partir de diferentes perspectivas historiogrficas. Historiadores como Jos Murilo de Carvalho acreditam que A Guerra do Paraguai foi o fator mais importante na construo da identidade brasileira no sculo XIX. Superou at mesmo as proclamaes da Independncia e da Repblica.. 12 Para polticos, escritores e historiadores da poca, muitos deles ligados ao Instituto Histrico e Geogrfico Brasileiro - IHGB -, a guerra teve uma importncia decisiva para o destino do Brasil. Segundo as palavras de Joaquim Nabuco, ela pode ser vista naquele momento como um [...] divisor de guas da histria contempornea.13 12 CARVALHO, Jos Murilo de. Brasileiros, Uni-vos In: Pontos e bordados. Escritos de Histria e Poltica. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998. p. 332. 13 NABUCO, Joaquim. Um estadista do Imprio. Rio de Janeiro: Topbooks, 1997. A GUERRA DO PARAGUAI NA HISTORIOGRAFIA NACIONAL E REGIONAL 184 Revista FSA, Teresina, v. 10, n. 2, art. 11, pp. 178-194, Abr./Jun. 2013 www2.fsanet.com.br/revista Slvio Romero procurou fazer uma sntese da guerra como fator de despertar da nao ao afirmar que, A gente ousada, produzida por mundo virgem, acordava, ao som da guerra, para enorme banquete de ferro e fogo !... E fomos e avanamos e vencemos, Era a primeira vez que atrairamos sobre ns a ateno do mundo, ferindo batalhas e praticando feitos que podem ser constatados como os mais brilhantes do sculo XIX.14Rui Barbosa, em um de seus discursos, destacou o aspecto fundador da guerra do Paraguai para o Exrcito brasileiro, e que este seria um marco de referncia fundamental para as futuras geraes de oficiais.15Para um dos participantes do conflito, o oficial prussiano Max von Versen, que atuando como observador ao lado dos paraguaios, indicou [...] a declarao de guerra, assim como a notcia de invaso do Mato Grosso acordaram pela primeira vez os brasileiros do letrgico materialismo e despertaram-lhes sentimentos patriticos.16 Para os que vivenciaram o conflito na linha de frente e nas cidades atravs dos jornais, ou que a representaram atravs de escritos, o evento pode ter tomado um significado de ruptura. Assim pode ter acontecido para os homens que conviveram na poca: polticos, homens de letras, artistas, e toda uma gerao que se referiu guerra do Paraguai como um marco de suas vidas. Nessa perspectiva, a guerra ento pode ser vista como um evento em si mesmo e como um acontecimento fundador. O primeiro define a ruptura pelo que ela representa no prprio instante em que vivida. Nas palavras de Michel Vovelle [...] no que ela suscita, nas linguagens, no gestual que ela inventa para si heranas e antecipaes misturadas, mas tambm expresso efmera, mas no menos significativa por essa razo.. 17 O segundo recorta o evento em termos de incio, como ponto de partida, sem passado, mas com a perspectiva de um longo futuro. Compreender a guerra seria ento uma seara de possibilidades, que inclui entender a construo da nacionalidade, a participao regional nessa construo, entender as microrrelaes sociais, as instituies que dela tomaram parte, as contradies do Estado nacional brasileiro, o papel dos mais diversos atores sociais: polticos, escritores, militares, trabalhadores envolvidos. 14 ROMERO, Silvio. Histria da literatura brasileira. v. 4. Rio de Janeiro. Jos Olympio. 1949. 15 BARBOSA, Rui. Rui Barbosa e o Exrcito: Conferncia s classe armadas. Rio de Janeiro: Casa de Rui Barbosa, 1949 n/p 16 VERSEN, Max von. Histria da guerra do Paraguai. So Paulo: EDUSP. 1976, p. 77 17 VOVELLE, Michel. Ideologias e mentalidades. So Paulo: Brasiliense. 1987, p. 408 J. S. Arajo 185 Revista FSA, Teresina, v. 10, n. 2, art. 11, pp. 178-194, Abr./Jun. 2013 www2.fsanet.com.br/revista A complexidade maior para quem estuda a historiografia seria ento compreender sob que tica tais atores foram vistos e com que propsito suas histrias foram apropriadas. Nesse aspecto, a grande lio deixada pelo mestre Michel de Certeau, sobre o lugar social de quem fala. Toda pesquisa historiogrfica se articula com um lugar de produo scio-econmico, poltico e cultural. Implica um meio de elaborao que circunscrito por determinaes prprias: uma profisso liberal, um posto de observao ou de ensino, uma categoria de letrados, etc. Ela est, pois, submetida a imposies, ligada a privilgios, enraizada em uma particularidade. em funo deste lugar que se instauram os mtodos, que se delineia uma topografia de interesses, que os documentos e as questes, que lhes sero propostas, se organizam (CERTEAU, 1982, p.57).18Tais apropriaes demonstram o nvel de envolvimento dos pesquisadores e seu comprometimento com aquilo que comumente tambm chamamos na pesquisa de interesse, em outras palavras aquilo que nos angustia e nos compele para a investigao. Essa mesma reflexo nos permite ainda tentar compreender as razes que motivaram ao longo de dcadas os historiadores em diferentes pocas a buscarem explicar o conflito luz de uma teoria que presumivelmente acreditavam ser a mais adequada. A HISTORIOGRAFIA PIAUIENSE E O CONFLITO No que se refere aos trabalhos escritos em dcadas passadas sobre a participao do Piau na guerra do Paraguai, possvel observar, que tais estudos so referncias ricas em fontes documentais. Nessa perspectiva, ser plausvel a utilizao da historiografia piauiense como apoio investigao proposta por qualquer projeto de pesquisa que pretenda trilhar pelos caminhos do conflito, uma vez que os trs pesquisadores19 que escreveram produes a respeito do assunto em pocas relativamente distintas se utilizaram amplamente dos mais diversos documentos em suas abordagens. E ainda que a relao destes com o objeto: Piau na Guerra do Paraguai mostre como se deu em diferentes pocas a construo de uma narrativa sobre um conflito, cuja histria de suma importncia para o entendimento da formao do Piau de meados do sculo XIX, buscar a compreenso e as razes da participao do Piau no conflito bastante significativo, na medida em que possibilita o entendimento das representaes, das prticas de poder difundido na poca da guerra advindas do governo imperial e provincial, assim como a 18 CERTEAU, Michel de. A escrita da Histria. Rio de Janeiro: Forense Universitria, 1982, p. 57. 19 Ansio Brito, Odilon Nunes, Joaquim Chaves. A GUERRA DO PARAGUAI NA HISTORIOGRAFIA NACIONAL E REGIONAL 186 Revista FSA, Teresina, v. 10, n. 2, art. 11, pp. 178-194, Abr./Jun. 2013 www2.fsanet.com.br/revista utilizao de fontes bibliogrficas regionais torna-se de fundamental importncia para a compreenso dessas prticas. Nesses termos, os autores clssicos piauienses tambm so tomados como fontes documentais, o ltimo historiador que havia produzido um texto sobre o conflito foi Monsenhor Joaquim Chaves, ainda na dcada de 70 do sculo XX.20FRANCISCO AUGUSTO PEREIRA DA COSTA E A CRONOLOGIA HISTRICA DA GUERRA DO PARAGUAI Dentre os autores que a partir do Piau retrataram a participao da Provncia na guerra do Paraguai, possvel destacar o trabalho de Francisco Augusto Pereira da Costa21Pernambucano, nasceu no dia 16 de dezembro de 1851 em Recife. Em 1875, aos 24 anos de idade, iniciou pesquisas histricas no Instituto Arqueolgico, Histrico e Geogrfico Pernambucano. J em 1876 foi eleito scio correspondente pela mesma instituio. Em 1883, tornou-se scio correspondente do Instituto Histrico e Geogrfico Brasileiro. No ano de 1884, viajou a Teresina onde assumiu o cargo comissionado da Secretaria da provncia do Piau, permanecendo at o ano seguinte. Escreveu dois livros Notcia Sobre as Comarcas da Provncia do Piau e Cronologia Histrica do Estado do Piau. Sua obra de maior relevncia sobre o Piau Cronologia Histrica do Estado do Piau22, nele o pesquisador traa cronologicamente os fatos mais marcantes da histria do Piau, desde sua origem at fins do sculo XIX. A primeira edio desta obra foi escrita em Recife, Pernambuco, no ano de 1909. Publicada sob os auspcios do Estado do Piau, na primeira edio Pereira da Costa incluiu uma nota sobre o trabalho referente proposta abordada e o perodo estudado: "Desde os seus primitivos tempos at a proclamao da Repblica em 1889". Na obra de Pereira da Costa incluem-se diversas fontes provenientes de muitos lugares, almanaques, anais histricos diversos, quase todos resultado de pesquisas suas realizadas em 20 Desde ento o tema somente foi apropriado no ano de 2006 pelo historiador Johny Santana de Arajo como uma pesquisa Doutoral junto UFF, tendo concludo o texto em 2009 e publicado como livro em 2011, outra pesquisa sobre a guerra tambm foi desenvolvida pelo historiador Teotnio Oliveira Filho, como trabalho de mestrado orientado pelo Professor Johny Santana de Arajo no Programa de Ps Graduao em Histria do Brasil da UFPI. 21 Ver: BASTOS, Cludio Albuquerque. Dicionrio Histrico e Geogrfico do estado do Piau. Teresina. FCMC. 1994. 22 COSTA, F. A. Pereira da. Cronologia Histrica do Estado do Piau: Desde os seus tempos primitivos at a proclamao da Repblica. 2 edio. II volume. Artenova. Rio de Janeiro. 1975. J. S. Arajo 187 Revista FSA, Teresina, v. 10, n. 2, art. 11, pp. 178-194, Abr./Jun. 2013 www2.fsanet.com.br/revista bibliotecas como a de Belm do Par, e em So Lus do Maranho. Houve tambm preocupao em consultar os chamados dicionrios histricos, um gnero literrio muito comum em fins do sculo XIX e incio do sculo XX. Ensaios, documentos primrios, jornais, memrias, notas e relatrios, tambm compem sua pesquisa constituindo um importante acervo para pesquisa histrica. A preocupao de Pereira da Costa foi, sobretudo, registrar cronologicamente os desenlaces do conflito na ento Provncia do Piau, apreciaes sobre a partida das primeiras tropas piauienses guerra foram uma constante no seu trabalho. 10 de maro de 1865. Embarca em Teresina o corpo de guarnio, com destino campanha do Paraguai, em virtude de ordem terminante do governo imperial para fazer marchar com toda brevidade o referido corpo. Com seu estado efetivo quase completo, isto , levando 20 oficiais e 310 praas, afora 3 mdicos e 1 farmacutico do corpo de sade do exrcito, e sob o comando do coronel Manuel Rolemberg de Almeida, embarcou o corpo da guarnio, conduzindo, reunidamente, os primeiros voluntrios da ptria que marcharam do Piau, em nmero de 3523. Na obra de Pereira da Costa, possvel encontrar, por exemplo, informaes sobre o engajamento da jovem Jovita Alves Feitosa como voluntria, sobre a intensa mobilizao da sociedade, sobre a constituio e engajamento das tropas da provncia do Piau no conflito, assim como informaes sobre o regresso dos batalhes piauienses que combateram no Paraguai. ANSIO BRITO E A CONTRIBUIO DO PIAU GUERRA DO PARAGUAI Ansio Brito de Melo nasceu em Piracuruca em 1886, chegou a Teresina, vindo de sua terra natal, no incio do sculo XX. Pretendia tentar a vida na Capital e, ao chegar, encontrou um ambiente de efervescncia de ideias e de renovao intelectual, do qual fazia parte intelectuais, como Higino Cunha, Clodoaldo Freitas, Ansio de Abreu e Abdias Neves. Ansio Brito, apesar da formao em odontologia, tornou-se um destacado autor cuja pesquisa no campo da histria poltica e militar foi sintetizada em vrios trabalhos. Sua obra Contribuio do Piau Guerra do Paraguai constitui-se numa verdadeira raridade, tornou- 23 Ibid; p. 493. A GUERRA DO PARAGUAI NA HISTORIOGRAFIA NACIONAL E REGIONAL 188 Revista FSA, Teresina, v. 10, n. 2, art. 11, pp. 178-194, Abr./Jun. 2013 www2.fsanet.com.br/revista se documento tanto pelo fato de sua quase indisponibilidade como pelo tempo em que foi escrita em 1931, sem nenhuma reedio.24Ansio Brito escreveu ainda: Adeso do Piau Confederao do Equador, Independncia do Piau, Os Balaios no Piau. Obras em sua maior parte centradas numa perspectiva poltica. Para esse autor, a guerra do Paraguai teria empolgado sobremaneira os piauienses, atingindo a todos, inclusive os poetas. preciso convir que a luta no empolgou somente o esprito dos que marchavam para o campo da honra inspirou tambm os nossos poetas populares, [do Piau] lendo-se nos peridicos da poca produes alusivas aos feitos de nosso exrcito no Paraguai.25 Segundo Ansio Brito, at o esprito da intelectualidade havia sido tocado em face dos acontecimentos no sul, fazendo com que despertasse nos estudantes piauienses a vontade de servir ao pas. Por toda parte, a guerra, as atrocidades do ditador paraguaio despertavam as energias do povo, confiante nos seus dirigentes. Associada a toda a classe acadmica, os estudantes piauienses no Recife compareceram ao palcio da presidncia, solidarizando-se com o Governo, e oferecendo seus servios [...].26Os escritos de Ansio Brito so produes da primeira metade do sculo XX, o que acaba por enquadr-lo numa historiografia tpica de carter poltico, diplomtico, militar e positivista, alm de enaltecedora. De certa maneira, tambm pode ser tido como o introdutor do positivismo no Piau, se levarmos em conta a sua preocupao excessiva com o documento, no que se refere a questes como a fidelidade 27 e a relevncia destes, para a pesquisa. Sua preocupao em dar o tratamento, a organizao, a coleta e a catalogao adequada s fontes, sempre amealhando e compilando documentos, aliado ao seu esmero com elas o levou a dirigir o Arquivo Pblico do Estado do Piau, que na atualidade merecidamente leva o seu nome. A perspectiva da preocupao com a educao e a apropriao da histria como um elemento fomentador da nacionalidade o definem indiscutivelmente como um historiador 24 Segundo observao feita pelo Historiador Teotnio Oliveira Filho, quando realizava pesquisa junto ao Arquivo Pblico do Estado do Piau, um artigo completo do jornal Dirio Oficial, do Estado do Piau, do ano de 1932, h referencias ao texto. 25 BRITO, Ansio. Contribuio do Piau a guerra do Paraguai. Teresina: Ed. [?], 1931, p. 11. 26 Ibid. 27 A fidelidade ou fidedignidade do documento so preocupaes caras aos historiadores positivistas. J. S. Arajo 189 Revista FSA, Teresina, v. 10, n. 2, art. 11, pp. 178-194, Abr./Jun. 2013 www2.fsanet.com.br/revista positivista muito semelhante ao que havia sido Gabriel Monod, e Ernest Lavisse, 28na Frana do fim do sculo XIX. ODILON NUNES E OS APONTAMENTOS PARA A HISTRIA DO PIAU NA GUERRA DO PARAGUAI Odilon Jos Nunes nasceu em Amarante, a 10 de outubro de 1899, e faleceu em Teresina em 22 de agosto de 1989, e, tal como Ansio Brito, foi um historiador de vocao, tornou-se tambm membro da Academia Piauiense de Letras. Segundo Teresinha Queiroz, Odilon foi [...] professor e diretor da Escola Normal Oficial do Estado e do Liceu Piauiense, duas tradicionais escolas.29 Odilon Nunes no tinha formao universitria, mas tinha formao secundarista de professor, segundo Erasmo Celestino, [...] dedicou-se ao magistrio como um sacerdcio, cuja profisso havia abraado por toda a vida.30 Odilon Nunes foi autor de: O Piau na Histria; Smula de Histria do Piau; Pesquisas para a Histria do Piau, (4 volumes); Apontamentos Histricos; Piau Colonial; Geografia e Histria do Piau; Os Primeiros Currais; Devassamento e Conquista do Piau; O Piau: seu Povoamento e seu Desenvolvimento; Estudos da Histria do Piau; A Origem das Fazendas Estaduais; Domingos Jorge Velho e o Assentamento das Bases Econmicas do Piau; Um Desafio da Historiografia do Brasil e Razes do Terceiro Mundo. Segundo o historiador Antonio Fonseca Neto, Odilon pode ser compreendido como um Apaixonado pela historiografia, dedicou-se com afinco e denodo pesquisa histrica, legando uma obra de repercusso nacional. Foi sempre, na medida do possvel, s fontes primrias, elucidando passagens at ento obscuras de nossa histria. Era um pesquisador criterioso, um analista profundo, um sbio exegeta que sabia prestigiar a fonte documental cotejando-a com outros dados de pesquisa. Por essa razo, sua obra altamente credenciada e um divisor de guas na historiografia piauiense (FONSECA NETO, 2009). 31 28 Os dois Historiadores franceses acreditavam na histria como uma disciplina formadora de uma conscincia nacional, para tanto elaboraram os chamados manuais escolares, que narrava uma histria da Frana repleta de heris. 29 QUEIROZ, Teresinha. Odilon Nunes: histria e erudio. In: NUNES, Odilon. Pesquisas para a histria do Piau. Vol. I. Teresina: FUNDAPI/Fundao Cultural Monsenhor Chaves, 2007. 30 CELESTINO, Erasmo. Odilon Nunes: historiador e educador. Teresina: Instituto Dom Barreto, 1996. 31 FONSECA NETO, Antnio. Odilon, cem anos de presena. In: Revista Presena. N. 44. Teresina: 2009. A GUERRA DO PARAGUAI NA HISTORIOGRAFIA NACIONAL E REGIONAL 190 Revista FSA, Teresina, v. 10, n. 2, art. 11, pp. 178-194, Abr./Jun. 2013 www2.fsanet.com.br/revista A produo historiogrfica de Odilon Nunes sobre o conflito com o Paraguai encontra-se dispersa em vrios estudos, mas a partir de dois trabalhos em especial: O Piau na Histria e Pesquisas para a histria do Piau, possvel encontrar dois artigos sobre o tema. No captulo VI de Pesquisas para a histria do Piau, encontramos o texto A guerra do Paraguai onde se pode observar um trabalho ainda carregado de paixes, porm substancialmente mais analtico, escrito durante a dcada de 80 do sculo XX, em pleno perodo de predomnio da historiografia revisionista. Odilon procura explicar a participao do Piau na Guerra do Paraguai de forma muito retrica, ao referir-se, por exemplo, a dois polticos do Piau que tiveram destacada participao no contexto do conflito, atuando nos gabinetes ministeriais, 32 e aos soldados piauienses que foram guerra. Segundo Odilon, Foram esses os nossos heris que assomam nos anais brasileiros. Eles so bem dignos de monumentos em nossa terra. No nos esqueamos, entretanto, dos trs mil e tantos piauienses que acudiram ao primeiro chamado, e partiram para a campanha longnqua, donde poucos regressariam a seus lares.33No entanto, para se tomar essa anlise necessrio entender de igual forma o contexto histrico quando seus trabalhos foram escritos, Odilon de alguma maneira continuou o trabalho de Ansio Brito, se tomarmos a perspectiva de sua preocupao com a verdade histrica e a construo de uma histria enaltecedora dos valores da ptria carregada de simbologia e exaltao. O PIAU NA GUERRA DO PARAGUAI: UMA VISO A PARTIR DE MONSENHOR JOAQUIM CHAVES Joaquim Raimundo Ferreira Chaves, popularmente conhecido como Monsenhor Chaves, nasceu em Campo Maior, Piau, em 9 de maro de 1913, faleceu em Teresina em 8 de maio de 2007, foi sacerdote, educador, telogo, escritor, bigrafo e historiador. 32 O conselheiro Francisco Jos Furtado e o Joo da Cunha Lustosa Paranagu, o primeiro foi chefe do Gabinete ministerial em que foi criado o decreto 3.371, dos voluntrios da ptria e o segundo Ministro da guerra do gabinete ministerial de Zacarias de Ges e Vasconcelos. 33 NUNES, Odilon. A guerra do Paraguai. In: NUNES, Odilon. Pesquisa para a histria do Piau. 2 Ed. Teresina: Artenova, vol. IV.1972. p. 217. J. S. Arajo 191 Revista FSA, Teresina, v. 10, n. 2, art. 11, pp. 178-194, Abr./Jun. 2013 www2.fsanet.com.br/revista Monsenhor Joaquim Chaves de fato era Licenciado em Filosofia, possuindo cursos de Teologia, Escritura Sagrada e Direito Cannico, foi autor de: Teresina, Subsdios para a Histria do Piau; O ndio no Solo Piauiense; Campo Maior Lutas pela Independncia (Batalha do Jenipapo); A Escravido no Piau; O Piau na Guerra do Paraguai; O Piau nas Lutas da Independncia e Como Nasceu Teresina. Joaquim Chaves tem como principal suporte de investigao diferentes tipos de fontes que incluem desde documentos primrios, livros, jornais, artigos e almanaques. Sobre a participao do Piau na guerra do Paraguai, suas principais referncias esto embasadas em jornais do perodo, como A Imprensa, A Ptria, Liga e Progresso, O Amigo do Povo, O Piau, alm de diversas fontes primrias que incluem avulsos e cdices. Sua escrita procura nos levar ao contexto da guerra desde os primeiros momentos da hostilidade perpetrada pelo governo do Marechal Solano, com o aprisionamento do navio Marqus de Olinda at a resposta brasileira com a declarao de guerra. Em sua pesquisa, Chaves procurou registrar ainda sobre os decretos formulados no decorrer da guerra para a arregimentao das tropas, sobre os atos da presidncia da provncia e nos mostra os primeiros corpos arregimentados que seguiram para a guerra. Procurou ainda relatar os problemas ocorridos na arregimentao dos combatentes, indicando nomes e patentes dos piauienses que seguiram para os campos de batalha, muito preocupado inclusive em rastrear atravs dos documentos os locais onde os soldados da provncia combatiam, tomando como referncia os trs batalhes da provncia que seguiram para a guerra. Localizar os piauienses nos campos avanados de treinamento do Exrcito tarefa impossvel, pois proporo que se formavam para adestramento seguiam para as linhas de frente, onde morreram, aos milhares, de ferimentos recebidos na luta e tambm de doenas ali contradas. Combateram em todas as frentes, comeando pelos campos de Uruguaiana invadidos pelo inimigo, at a campanha das Cordilheiras34. Joaquim Chaves tambm autor dos cadernos histricos, trabalho em que procurou sintetizar diversos aspectos da histria do Piau. No entanto, em seu caderno nmero 4, dedicou-se exclusivamente a investigar sobre a participao do Piau no conflito. Autor de caractersticas positivistas, consciente ou inconsciente disso, afirma em seu trabalho que: 34 CHAVES, Monsenhor. Obra Completa. Prefcio de Teresinha Queirs. Teresina. FCMC. 1998. p. 227. A GUERRA DO PARAGUAI NA HISTORIOGRAFIA NACIONAL E REGIONAL 192 Revista FSA, Teresina, v. 10, n. 2, art. 11, pp. 178-194, Abr./Jun. 2013 www2.fsanet.com.br/revista Como j devem ter notado, nos meus Cadernos histricos eu prefiro sempre que falem os documentos..35 Assim, possvel observar que em sua narrativa prevalece a ideia da verdade dos fatos. Sua produo caracteriza-se pela disponibilizao completa do corpo documental, cujas pginas de um jornal ou de oficio, por exemplo, so transcritos integralmente. CONSIDERAES FINAIS Neste trabalho procuramos mostrar as diferentes perspectivas desenvolvidas pelos historiadores piauienses ao longo do sculo XX, os quais tomaram como principal aporte terico o positivismo e atentaram, indistintamente, para o processo histrico sobre a Guerra do Paraguai e tentaram de alguma forma inserir o Piau no cenrio histrico de construo do Estado Nacional Brasileiro e ao fazerem isso deram uma importante contribuio para a construo de uma historiografia local e regional sobre o conflito. Desse modo, podemos observar que o debate historiogrfico sobre o tema tambm ainda bastante recorrente e muito necessrio no mbito regional nos dias atuais. Do passado, historiadores como Ansio Brito, Odilon Nunes e Monsenhor Joaquim Chaves nos servem hoje de referncia para a tentativa de reconstruir o conflito atravs de um dilogo mais profundo com as novas teorias e novos mtodos, relendo, reinterpretando as vozes contidas nas fontes, ressaltamos que muitas delas nos chegam como fruto dos apontamentos deixados pelos emritos historiadores piauienses. A Guerra do Paraguai, depois de um sculo e meio, continuar sempre a inquietar a ns, os historiadores e acreditamos muito em uma ideia, a de no buscar o empirismo em si mesmo. Nos dias atuais, o mais importante lembrar que os debates em torno da Guerra do Paraguai, a partir de novos afluxos, podem nos possibilitar abrir novos campos de anlise, o que de certa maneira motivar os novos pesquisadores a outros tantos debates a respeito do tema no Piau e para alm-fronteiras. REFERNCIAS ARAJO, J. S. A nao em armas: Os corpos de voluntrios da ptria do Maranho na guerra do Paraguai. 1865 1870. Rio de Janeiro: Sotese. 2005. 35 CHAVES, Joaquim. O Piau na guerra do Paraguai. Cadernos Histricos n 4. Teresina: Academia Piauiense de Letras. 1971, p. 10. J. S. Arajo 193 Revista FSA, Teresina, v. 10, n. 2, art. 11, pp. 178-194, Abr./Jun. 2013 www2.fsanet.com.br/revista ARAJO, J. S. de; LIMA, F. O. A. (Orgs.) Histria: entre fontes, metodologias e pesquisa. Teresina, PI: EDUFPI; Imperatriz, MA: tica, 2011. BARBOSA, R.. Rui Barbosa e o Exrcito: Conferencia as classes armadas. Rio de Janeiro: Casa de Rui Barbosa, 1949. BRITO, A. Contribuio do Piau guerra do Paraguai. Teresina: Ed. [?], 1931 CARVALHO, J. M. de. Brasileiros, Uni-vos In: Pontos e bordados. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998. CELESTINO, E. Odilon Nunes: historiador e educador. Teresina: Instituto Dom Barreto, 1996. CERTEAU, M. de. A escrita da Histria. Rio de Janeiro: Forense Universitria, 1982. CERQUEIRA, D. Reminiscncias da Campanha do Paraguai (1865-1870). Rio de Janeiro: Biblioteca do Exrcito, 1980. CHAVES, M. 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