A Guerra do Paraguai em perspectiva histrica

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  • A Guerra do Paraguaiem perspectiva histricaENRIQUE AMAYO

    A GUERRA DO PARAGUAI ou da Trplice Aliana no pode ser entendida forado contexto mundial da poca. Obviamente no possvel reconstruirtodos e cada um dos elementos do passado. Temos de nos dar porsatisfeitos com os fatos essenciais e universais que, como grandes linhas -mes-tras, do sentido e explicitam os fenmenos que o historiador, como cientistasocial, estuda num momento determinado.

    Para os propsitos deste trabalho o contexto vai ser determinado pelareviso crtica do significado histrico da Pax Britannica, Free Trade (livre cm-bio, livre comrcio), e imperialismo.

    Pax Britannica

    O livro clssico de Imlah (1958) informa que Pax Britannica a denomi-nao do sculo transcorrido entre 1815, quando Napoleo derrotado emWaterloo, e 1914, incio da Primeira Guerra Mundial. Nesse perodo a GrBretanha, sendo a maior potncia, imps com habilidade as regras do jogopara manter a ordem mundial. Foi assim que nesse sculo, importante pormuitos fatos, destacou-se seu percurso relativamente pacfico, seguido de cresci-mento econmico. Na Europa, desde que apareceu o Estado-Nao, este foi operodo mais longo de sua histria sem guerras generalizadas. E verdade quenesse perodo da histria europia aconteceram diversos conflitos locais, al-guns at com a participao de grandes potncias; mas foram curtos no tempoe pequenos na abrangncia. Sempre de acordo com Imlah (1958), o mais pare-cido a uma guerra geral foi a da Crimia; mas no atingiu a escala das guerrasque abriram e fecharam essa era e tambm no foi semelhante s que caracte-rizaram os quatro sculos precedentes. O crescimento econmico europeu foiextremamente rpido, impelido pelas novas foras incorporadas produoatravs da mquina a vapor. E com isso cresceram tambm as aspiraes pol-ticas dos novos setores sociais incorporados ao processo produtivo, entre eles oproletariado. Esses fatos no foram conseqncia de uma circunstncia nicaou do trabalho de uma nao apenas. Nesse sentido, Imlah informa que se ascontribuies da Gr-Bretanha a essa era de paz e progresso foram importan-

  • tes, ao ponto de conseguir-lhe o nome de Pax Britannica, no foi porque essepas tivesse tido a capacidade de impor a paz seguindo a forma romana, pelafora policial. Mas porque a Gr-Bretanha foi capaz de, gradativamente, ir aoencontro do caminho que conduziu a polticas mais inteligentes, adaptadas aseus complexos interesses. Todo o poder militar da Gr-Bretanha foi usadopara derrotar Napoleo e assim tornar possvel o acerto pacfico que originouessa poca. Desde ento, esse poder desenvolveu seu papel na manuteno doequilbrio nas relaes interestatais. Segundo Imlah, o que realmente distin-guiu a Pax Britannica foi o poder de influncia da Gr-Bretanha nas polticas deoutros governos graas sua admirada poltica liberal.

    A Pax Britannica, que terminou definitivamente com a Primeira GuerraMundial, foi declinando aos poucos atravs de vrias dcadas. Exemplo dessedeclnio foi o programa militar de Bismarck, executado na Prssia em 1862. Oexrcito prussiano, surgido assim, entrou logo em ao. As trs curtas e vitorio-sas guerras que travou no questionaram apenas o equilbrio de poder e permi-tiram o aparecimento do Imprio Alemo, mas tambm outorgaram nova vida noo de que a guerra poderia ser instrumento til e de valor para a polticanacional. Por isto, segundo Imlah (1958) desenvolveu-se na Europa a idia deque no existiam plebiscitos para limitar ou validar as anexaes feitas pela for-a; o vitorioso era o soberano absoluto. Nos crticos anos 1860-70 a Gr-Bretanhano foi bem-sucedida na orientao do curso dos acontecimentos.

    Ou seja que, com o passar do tempo, a Pax Britannica foi sendo questiona-da. Isto porque o treinamento militar, desde os anos 1860, converteu-se na or-dem do dia. No continente europeu, as potncias desenvolveram grandes exrci-tos de conscritos que tinham o apoio de reservistas bem-treinados. Simultanea-mente, reapareceram limitaes ao comrcio, junto aos esforos dos governoseuropeus de promover os interesses de seus nacionais no exterior e tambm deobter territrios no ultramar. Por esses territrios era preciso lutar e a Gr-Bretanha, na primeira linha, conseguiu reas gigantescas. Foi assim que se de-senvolveu novamente a competio para construir imprios. Ento: "No meiodesse reviver do nacionalismo econmico e do imperialismo, a Gr-Bretanhaaderiu sua poltica de free trade e continuou como o grande centro comercial domundo... mas Londres no foi mais o centro de gravitao diplomtico... passoua ter um tipo de posio bipolar com Berlim... o prometedor concerto equilibra-do entre as potncias cedeu passo aos pactos de aliana e competio pelo po-der. A Europa e o mundo caminhavam para a primeira guerra geral do SculoXX..." (Imlah, 1958:19).

    Livros como o de Imlah definem a Pax Britannica como o perodo noqual a Europa, especificamente a Gr-Bretanha, era o centro do mundo; de-finida como a imposio da paz atravs do dilogo e coordenao para mantero equilbrio e resolver os problemas, essencialmente entre os Estados-Nao

  • europeus. O fiel da balana era a Gr-Bretanha. Ou seja, Pax Britannica significapaz na Europa e, por extenso, nos pases centrais; o que sucedia no resto domundo, na chamada periferia, quase no conta na definio. Ento a Pax Britannica,definida nesses termos, coincide claramente com uma viso eurocntrica.

    Pax Britannica, grande depresso e imperialismo

    Durante a Pax Britannica houve uma crise de longa durao (1873-96),co-nhecida como Grande Depresso, que determinou profundas mudanas no sna estrutura produtiva da Gr-Bretanha, como em toda a Europa. Chegou aoponto de mudar a hierarquia de poder dos estados nacionais europeus e, portan-to, do sistema capitalista em conjunto. Um importante pesquisador do ImprioBritnico disse: "Durante a Grande Depresso, a Gr Bretanha deixou de ser afbrica, do mundo, transformando-se em apenas um dos trs maiores poderesindustriais e, em alguns aspectos essenciais, no mais fraco deles..." (Hobsbawn,1969:104).

    Considerando todo o sistema capitalista, a Grande Depresso foi umfenmeno que marcou o fim de uma fase e o incio de outra, e no pode serexplicada apenas em termos britnicos, pois foi de desenvolvimento desigual.Ou seja, seus efeitos mudaram conforme o pas; para alguns (como EUA, Ale-manha e os recentemente chegados ao cenrio industrial, isto os pasesescandinavos), foi um perodo de grande avano e no de estancamente. En-to: "considerada em conjunto, a Grande Depresso marcou o fim de uma fasede desenvolvimento econmico - a primeira ou britnica, da industrializao -e o incio da industrializao, fora da Grande Bretanha, das principais economi-as avanadas e, simultaneamente, a abertura das reas de produo primria eagrcola at ento no exploradas..." (Hobsbawn, 1969:104).

    A Grande Depresso comeou em 1873 principalmente pela falncia daconstruo ferroviria (o setor industrial de ponta da poca) e tambm porquenumerosos pases, na sua maioria da periferia, deixaram de pagar suas dvidasexternas; os efeitos foram mundiais.

    A Gr-Bretanha solucionou sua crise impulsionando o imperialismo. Afalncia iniciada em 1873 no foi temporal. De maneira diferente de outrospases, que mudaram para o sistema de tarifas para proteger sua agricultura eindstria nacionais (Frana, Alemanha, EUA, entre outros), a Gr-Bretanha sefixou com firmeza no livre comrcio. Comprometida totalmente com atecnologia e organizao empresarial da primeira fase da industrializao, noentrou com fora nas novas tecnologias e no gerenciamento industrial impos-tos nos anos de 1890; "isso deixou a Gr Bretanha com uma nica sada impor-tante - tradicional para ela, mas que na poca foi adotada tambm pelos outroscompetidores - a conquista econmica (e crescentemente poltica) das reas do

  • mundo ainda sem explorao. Em outras palavras, imperialismo" (Hobsbawn,1969:107).

    A crise global do sistema capitalista solucionou-se atravs de diversas for-mas de imperialismo. Formas como o imperialismo semiformal dos consrciosnacionais ou internacionais que se apropriavam do gerenciamento financeiro dospases fracos (Egito, Turquia, China etc.); ou o imperialismo informal dos inves-timentos externos (Amrica Latina); ou, ainda, o imperialismo formalexemplificado pela Partilha da frica; ou seja, a virtual diviso do mundo entreum grupo de potncias da Europa ocidental, mais os Estados Unidos, nas lti-mas dcadas do sculo XIX. Mas, "o imperialismo no foi novidade para a Gr-Bretanha. O novo foi o fim do virtual monoplio britnico do mundo subdesen-volvido e a conseqente necessidade de estabelecer formalmente, contra os com-petidores potenciais, regies de influncia imperial..." (Hobsbawn, 1969:107).

    Ao terminar a crise (1896), a Gr-Bretanha ainda continuava como aprimeira potncia mundial; mas j era apenas primo interpares. E o pesquisadorbritnico mencionado tambm informa que a Grande Depresso no foi umafase do colapso do sistema capitalista; foi de reacomodamento, foi apenas uminterldio (Hobsbawn 1976:307-8). Assim, a era imperialista, sob hegemoniabritnica, solucionou o impasse com o crescente controle e explorao das re-as coloniais, neocoloniais e dependentes. Mas o processo trouxe mudanas: aGr-Bretanha passou a compartir o nvel de primeira potncia com a Alema-nha, a Frana e os EUA; com a Primeira Guerra Mundial o processo acelerou-se, favorecendo o ltimo dos pases mencionados.

    Depois do interldio, deu-se a franca exploso das contradies no interi-or do fenmeno imperialista, exploso manifestada desde o incio do SculoXX atravs de guerras mundiais e movimentos revolucionrios.

    Pax Britannica e explorao da periferia

    Desde a periferia, ou seja desde o ponto de vista no-eurocntrico, a PaxBritannica, at com relao aos pases centrais (especialmente europeus), foium perodo de "paz". Assim, com minsculas e aspas porque foi atingida porquatro guerras, alm da de Crimia (1854-56). Foram as guerras da Frana,Sabia e Itlia contra ustria (1858-59); Prssia e ustria contra Dinamarca(1864); Prssia e Itlia contra ustria (1866) e os Estados Alemes contra aFrana (1870-71); e no apenas isso. Nos EUA, por cinco anos (1861-65),travou-se uma violenta guerra civil que, em termos de vidas humanas e des-truio, foi "de longe, a maior guerra na qual participou, durante esse perodo,um pas desenvolvido, ainda que empalidece relativamente se a compararmoscom sua mais ou menos contempornea Guerra do Paraguai... e fica totalmen-

  • te superada comparada com a Revoluo Taiping da China (1850-56)"(Hobsbawn, 1976:142).

    Ou seja, desde a tica no-eurocntrica, se a Pax Britannica para a Europa(e os pases centrais) significou paz, para a periferia normalmente foi sinnimode guerra. E a mais suja, abusiva e injusta das guerras pois em quase todos oscasos enfrentaram-se oponentes muito desiguais. Num lado estavam os chefes,geralmente conservadores, dirigindo seus povos armados principalmente commoral, ou seja, com a vontade de no serem conquistados; alm disso tinhampoucos recursos materiais pois suas armas eram pedras, paus, flechas, lanas,espadas, fuzis de pederneira e, s vezes, pequenos canhes. Do outro lado seencontravam geralmente tropas profissionais, muito bem-treinadas e armadascom os maiores avanos da revoluo industrial aplicados produo militar:canhes de grande calibre, fuzis de repetio; metralhadoras, canhoneiras etc.E bom lembrar, por exemplo, que o grande sucesso militar de Kirtchetner naconquista do Sudo foi devido a que os soldados ingleses, com metralhadoras,lutaram com um povo armada principalmente de lanas. Apenas isso explicaporqu, nas cinco horas de batalha de Ombdurman, em 2 de setembro de 1898,onze mil sudaneses foram mortos contra 386 homens de Kirtchetner (Robinson& Gallagher, 1969:369).

    O significado real da Pax Britannica para a periferia far-se- evidentecom a anlise de algumas agresses notrias. Agresses feitas pelos pasescentrais, especialmente europeus (com a Gr-Bretanha geralmente em posiode destaque) contra diversas regies da periferia. No se pode fazer aqui essaanlise e, portanto, apenas sero mencionadas algumas da mais famosas. Porexemplo, as duas Guerra do pio (agresses da Gr-Bretanha para abrir omercado da China, 1839-42 e 1856-60); as violentas represses ao chamadoMotim ndio (Gr-Bretanha contra o emergente nacionalismo da ndia, 1857-58), ou Rebelio Argelina (Frana contra um fenmeno similar ao anterior,mas na Arglia, 1871); a Partilha da frica (entre 1880 e fins desse sculo, asgrandes potncias europias, com Gr-Bretanha na frente, "lutaram para seapropriar de nove dcimos do continente africano", Robinson & Gallagher,1969:39).

    E tambm ter-se-ia de dizer que, em outras partes da periferia, aspotncias europias assinaram acordos para recuperar suas colnias. Sob aproteo da Conveno de Londres, ou Tripartite (assinada pela Gr-Bretanha,Frana e Espanha), viabilizou-se o plano para que essas potncias tentassemrecolonizar a Amrica Hispana. Ali se encontra, por exemplo, o alicerce daagresso que especialmente a Frana e a Gr-Bretanha desenvolveram contra oMxico (1861-67). Alicerce tambm da intentona da Espanha para recuperarsuas colnias da Amrica do Sul atravs da agresso principalmente ao Peru(1863-66).

  • Igualmente, teramos de mencionar as violentas guerras nacionais, paraa expanso das fronteiras, realizadas entre pases perifricos ou entre um peri-frico e um central. Em todos esses casos os resultados beneficiaram espe-cialmente os pases centrais. As mais representativas dessas guerras se de-ram no continente americano. Por duas vezes o Mxico foi agredido pelosEUA; a primeira foi a Guerra pelo Texas (1835-36), que se transformou noalicerce da segunda, a Guerra pela Califrnia (1845-48). Dessa maneira oexpansionismo dos EUA tomou posse de mais da metade do territrio doMxico, ou seja, mais de dois milhes de km2. Em outra rea, na Amricado Sul, deu-se um dos conflitos que, pelo nvel de sua destruio, est entreos mais brutais da histria do sculo XIX. Foi a Guerra, do Paraguai (1864-70), que ser rapidamente estudada adiante. A Amrica do Sul tambmtestemunhou outra violenta luta. Foi a Guerra do Pacfico (1879-83) em queo Chile enfrentou o Peru e tambm a Bolvia (estes ltimos perderam,respectivamente, 180 mil km2 e 100 mil km2 que eram, ento, os de maiorvalor na Amrica do Sul). Nestas duas ltimas guerras, a Gr-Bretanhaconseguiu os maiores benefcios, como ficar evidente posteriormente.

    A abertura violenta de mercados, a partilha de um continente (nova-mente a violncia para converter povos atrasados, mas livres, em colnias),os acordos entre potncias para recuperar suas colnias, a represso (atravsde banhos de sangue) dos movimentos nacionalistas emergentes e as guerrasna periferia, tudo isso foi funcional expanso dos pases centrais,especialmente da Gr-Bretanha.

    Com uma viso no-eurocntrica poder-se-ia definir a Pax Britannica comoo perodo que, para a periferia, significou normalmente guerra injusta e de opres-so. E para os pases centrais, foi sinnimo de paz. Em outras palavras, os aconte-cimentos mencionados foram parte de uma totalidade maior e nica: a emergn-cia e expanso do fenmeno imperialista em nvel mundial. Apenas nesse contex-to que esses acontecimentos se tornam compreensveis.

    Pax Britannica e Free Trade

    O que foi dito anteriormente faz-se ainda mais evidente se considerar-mos o seguinte. No perodo da Pax Britannica, a doutrina do free trade foiaceita pela classe dirigente britnica e transformada no elemento essencial paraorganizar sua economia e sociedade e para projetar-se no mundo. No ambientecriado pela Pax Britannica, cresceu o free trade e sua expanso em nvel mun-dial justificou a tendncia a eliminar as barreiras que o limitavam, fossem elastarifas ou monoplios de Estados fracos e/ou isolacionismo ou tribos ou na-es etc. Nesse processo, a fora militar foi usada vontade, sempre que preci-so. Mas realmente importante para a Gr-Bretanha foi finalmente obter um

  • tratado diplomtico, assinado com o pas desejado, para abrir o mercado desteltimo em termos de igualdade (assim acabaram as Guerras do pio). Durante aPax Britannica, o free trade foi imposto ao mundo e, nesse processo, fizeram-senecessrios mercados como os da Amrica Latina: grandes e quase sem compe-

    . tidores. A abertura deles, num perodo chave, foi essencial para a realizao daproduo industrial, principalmente da Gr-Bretanha (Hobsbawn, 1971:98).

    Pax Britannica e Amrica Latina

    Na Amrica Latina, a Pax Britannica manifestou-se como no resto daperiferia, ou seja, atravs da agresso que beneficiou primeiro a Gr-Bretanhae depois os outros pases centrais. As formas de agresso na Amrica Latinacorresponderam normalmente a dois tipos: formais e informais.

    As primeiras so fceis de reconhecer pois as potncias agressoras, emdeterminado momento, ou assinaram um tratado vinculado diretamente agresso ou o Estado agressor a realizou com o apoio de seus poderes (Execu-tivo e/ou Legislativo) ou fez uma declarao de guerra. E o caso, por exemplo,das j mencionadas intervenes armadas contra o Peru e o Mxico resultan-tes da Conveno de Londres; nessa conveno a Gr-Bretanha foi o eixo. Etambm so agresses formais as dos EUA contra o Mxico (j menciona-das) e contra a Espanha pela posse de Cuba, Porto Rico e Filipinas (1898).

    Mas tambm existem as agresses informais. As de tal tipo esto relaciona-das diretamente com este trabalho, pois seus casos mais representativos so aGuerra do Paraguai e a Guerra do Pacfico. E so informais porque, por parte daspotncias centrais, ou no existe qualquer tipo de tratado ligado diretamente agresso ou seus poderes no a apoiaram. Nesses casos as mencionadas potnci-as, especialmente a Gr-Bretanha, afirmavam que no praticaram qualquer agres-so e oficialmente reconheceram apenas sua neutralidade. Negam sua participa-o e quando conseguem reconhecer que alguns de seus sditos ou empresasobtiveram grandes benefcios nessas guerras, simultaneamente afirmam que seusgovernos nunca se beneficiaram e jamais abandonaram a neutralidade. Ou seja,no reconhecem ter tomado partido a favor de um dos contendores.

    Mas a agresso foi uma realidade que pode ser detectada atravs de doisefeitos, inter-relacionados, produzidos nas sociedades que a sofreram. O pri-meiro o maior empobrecimento e fraqueza dos contendores. At mesmo osvitoriosos, no melhor dos casos, depois de um enriquecimento de curto prazotm tambm de enfrentar a pobreza a mdio prazo; quanto aos perdedores,seu futuro normal enfrentar a destruio e a runa. O segundo efeito queenriquece e aumenta ainda mais a hegemonia dos pases centrais; o grau dehegemonia destes pases sobre os contendores depender de seu nvel de parti-

  • cipao na agresso. Para os contendores, sua maior ou menor dependnciaestar relacionada diretamente ao fato de ter sido ganhador ou perdedor e,indiretamente, ao grau de problemas de sua economia e sociedade aps a guer-ra.

    Como no existem, por parte dos pases centrais, tratados ou apoio ex-presso de seus poderes ligando-os a este tipo de agresso, s estudosaprofundados provaro que a economia desses pases beneficiou-se com taisconflitos. E no apenas isso, pois esse tipo de estudos tambm provar que adeclarada neutralidade oficial dos governos centrais foi, normalmente, s neu-tralidade-, ou seja, de maneira sutil mas efetiva, tomaram partido. Na agressoinformal, no perodo em estudo, a Gr Bretanha desenvolveu um papel dedestaque; isto fica demonstrado pelo fato de ter sido ela a que conseguiu osmaiores benefcios.

    A Guerra do Paraguai

    E conhecida tambm com o nome de Guerra da Trplice Aliana (1864-70), porque confrontou os aliados Argentina, Brasil e Uruguai contra o Paraguai.A partir do exposto anteriormente poder-se-ia dizer que ela apenas parte deum conjunto de guerras que caracterizam a emergncia e desenvolvimento dafase imperialista. Faz parte das agresses que a periferia sofreu das potnciascentrais nesse perodo. Agora, deve-se esclarecer que no cabe a este trabalhofazer uma anlise aprofundada dessa guerra. Seu objetivo apenas contribuirpara provar que a Gr-Bretanha lucrou muito e no ficou neutra. Isto ser feitoobservando-se rapidamente alguns dados econmicos dos pases sul-america-nos participantes nessa guerra e o carter da poltica desenvolvida pela Gr-Bretanha.

    Alguns dados econmicos

    Anotemos de incio que o Paraguai, antes da guerra, tinha sido um casonico na Amrica Latina. Seu modelo econmico era a procura do desen-volvimento autnomo a partir de suas prprias foras. Por isso tinha pratica-do o isolamento e fechado seu mercado ao exterior. Em funo desse proce-dimento, por exemplo, no havia solicitado qualquer emprstimo ao exterior.Mas isso mudou radicalmente como conseqncia da guerra, ao ponto emque finalmente: "residentes da Gr-Bretanha fizeram seu primeiro grandeinvestimento no Paraguai [imediatamente aps a guerra] nos anos 1871 e1872, comprando duas emisses do Governo paraguaio por um total de1.505.400 libras esterlinas..." (Rippy, 1959:124).

  • Enquanto isso os pases aliados, todos de economia aberta, estavam jendividados desde antes da guerra. E, para poder sustentar seus gastos de guerra,tiveram que aumentar ainda mais o ritmo dos emprstimos. Os bancos ingle-ses, principalmente atravs de The Baring Brothers e The Rotschild Bank, fize-ram emprstimos de forma permanente. Depois do conflito, a dvida dos ven-cedores foi maior que nunca. Os dados a seguir quase no precisam de comen-trios.

    O Uruguai tinha feito um emprstimo que em 1864 chegava a um mi-lho de libras esterlinas. Assim que terminou a guerra, em 1871, negociou osegundo, por 3.500.000 libras esterlinas (Rippy, 1959:142). A Argentina, at1864, continuava acumulando seu primeiro emprstimo feito em 1824, no va-lor de um milho de libras esterlinas. Mas a partir de 1865 (segundo ano doconflito com o Paraguai) e at 1876, negociou oito emprstimos em um totalde 18.747.884 libras esterlinas (Pomer, 1968:357). O Brasil, entre 1824 e 1865,tinha acumulado emprstimos num montante de 18.138.120 libras esterlinas;desse total apenas o de 1865 foi de um tero, ou seja, de 6.363.613. Depois daguerra, em 1871, negociou um emprstimo de trs milhes de libras esterli-nas; em 1875, outro no valor de 5.301.200. Posteriormente, entre 1883 e 1889,endividou-se com mais quatro emprstimos num total de 37.202.900 librasesterlinas. Isso que dizer que em 18 anos (de 1871 a 1889), o Brasil conseguiuemprstimos de 45.500.000 libras esterlinas, ou seja, quase duas vezes e meiaa mais que nos 47 anos precedentes (Pomer, 1968:83 e 355). Foi essa uma dasmaneiras como o capital participou nessa guerra. Atravs desses emprstimos,britnicos especialmente, foi possvel, em grande parte, manter os exrcitosaliados. Simultaneamente, ao Paraguai se negou a possibilidade de conseguirqualquer emprstimo, apesar desse pas ter enviado agentes especiais para obt-lo no Mercado Monetrio de Londres (Fornos Pealba, 1979:116-117).

    A poltica britnica

    A poltica da Gr-Bretanha no clara nessa guerra. Oficialmente foineutra (Smith, 1969:226). Mas na verdade, a poltica da Gr-Bretanha foi neu-tra. Por exemplo, conhecido que o ministro britnico em Buenos Aires, EdwardThornton, participou ativamente no conflito a ponto de ter sido assessor doGoverno da Argentina. Foi tanta a sua importncia, que participava das reuni-es do Gabinete da Repblica Argentina, onde se decidia o curso da guerra. Alise sentava, como smbolo de confiana, junto ao presidente Mitre. Em outraspalavras, o ouvido do presidente ficava totalmente a seu alcance. Alm disso,participou ativamente do processo de organizao do acordo de aliana entreArgentina e Brasil contra o Paraguai (Galeano, 1973:210; Tras, 1975:18).Evidentemente, Thornton no teria assim atuado sem o apoio, pelo menosimplcito, do Foreign Office britnico (Pomer, 1968:68).

  • O nicaraguense Fornos Pealba, em sua tese de doutorado The fourthally. Great Britain and the War of The Triple Alliance, apresentada Universida-de da Califrnia, documenta bem a poltica britnica nessa guerra. E demons-tra que no apenas Thornton, mas a poltica britnica conjunta, trabalhou con-tra o Paraguai. O pas, mediterrneo, considerava vital o livre acesso ao maratravs do Uruguai. Mas a Gr-Bretanha no admitiu que a possvel absoroda Repblica do Uruguai pela Argentina ou pelo Brasil afetaria materialmentea vida do Paraguai, ou que seria uma ameaa livre navegao pelo sistema derios compartido por esses quatro pases sul-americanos. Fornos Pealba usanumerosas fontes primrias para provar suas afirmaes e, nas suas conclu-ses, diz: "A Gr Bretanha facilitou em muito o entendimento e aliana entreBuenos Aires e Rio de Janeiro. E essa aliana foi a chave para apoiar VenancioFlores [presidente do Uruguai, 1865-68] at que Montevidu fosse controladapor ele e para a subsequente destruio do Paraguai. A Gr Bretanha, em todasas etapas da mediao entre Brasil, Flores e Buenos Aires, atuou nas sombras,dando assistncia e apoiando os dois rivais tradicionais transformados em alia-dos. A Gr Bretanha apoiou o Brasil e Buenos Aires, primeiro contra o Uru-guai e depois contra o Paraguai" (Fornos Pealba, 1979:194).

    Os resultados so conhecidos. O Paraguai foi quase que totalmentedestrudo mas, finalmente, foi aberto ao free trade. Ento, os beneficiados fo-ram, primeiro, os interesses britnicos; estes, finalmente, conseguiram entrarno Paraguai e, simultaneamente, conseguiram tambm aumentar seu controleeconmico sobre os vitoriosos. Em segundo lugar, podemos citar os governosargentino e brasileiro; estes, alm de obterem grande parte do territrioparaguaio, deixaram de temer seu modelo que, como dissemos, antes da guer-ra era no-escravocrata, isolado e poderoso. O Uruguai de Flores foi o aliadomenor, que nada conseguiu (Galeano, 1973:212).

    Aqui importa destacar, como foi feito pelo ministro da Fazenda da Ar-gentina, que a guerra foi de especial importncia para a Gr-Bretanha poistrouxe grandes vantagens para o seu comrcio. "No ponto relacionado comseus prprios interesses, a Gr Bretanha, longe de estar preocupada com aguerra, aguarda com ansiedade o final dela, no pelos seus males, mas porqueespera lanar sua utilitria especulao sobre o Paraguai, fechado at agora aseus benefcios" (Memria. Ministro de Estado. Gonzales a Norberto de laRiestra. Confidencial. Buenos Aires. 28.3.1867; in Fornos Pealba, 1979:199).

    Nas aes contra o Paraguai coincidiam os interesses britnicos, argenti-nos e brasileiros; foi isso o que selou uma aliana informal. A agresso informal,que tambm caracteriza a Pax Britannica na periferia latino-americana, traba-lhava atravs desse tipo de alianas. Ou seja, a aliana de interesses (porcoincidncia deles) o que caracteriza a agresso informal. Isto ainda mais evi-

  • dente quando se estuda a poltica britnica na Guerra do Pacfico, o que feitoaprofundadamente no meu livro citado no incio deste trabalho.

    Concluso

    Do anterior, pode-se deduzir que a Guerra da Trplice Aliana trouxegrandes benefcios para a Gr-Bretanha. E no apenas do derrotado Paraguai,mas tambm dos vitoriosos Argentina, Brasil e Uruguai. E claro tambm queessa guerra foi parte de um conjunto de guerras que caracterizam a emergn-cia e o desenvolvimento do fenmeno imperialista sob hegemonia britnica.

    Igualmente, pode-se deduzir que a Pax Britannica no significou paz,mas a manuteno de uma ordem mundial em favor, primeiro e especifica-mente, da Gr-Bretanha e a seguir dos pases centrais. Em outras palavras: deuma ordem mundial em favor dos interesses da burguesia britnica, europia edos pases centrais em geral; isso, em detrimento de seu proletariado e deoutras classes subalternas, alm dos pases perifricos em geral. Estes ltimos,por agresso direta e/ou domnio econmico, foram transformados em colni-as, semi-colnias ou pases dependentes.

    Referncias bibliogrficas

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    Resumo

    A Guerra do Paraguai ou da Trplice Aliana no pode ser entendida fora do contextomundial da poca. Obviamente, no possvel reconstruir todos e cada um dos elemen-tos desse passado. Temos de nos dar por satisfeitos com os fatos essenciais e universaisque, como grandes linhas mestras, do sentido e explicitam os fenmenos que o histo-riador, como cientista social, estuda num momento determinado. Para os propsitosdeste trabalho, o contexto vai ser determinado pela reviso crtica do significado hist-rico da Pax Britannica, Free Trade (livre cmbio, livre comrcio) e imperialismo, sobhegemonia da Inglaterra.

    Abstract

    The Paraguayan War or The War of the Triple Alliance can not be properly understoodoutside the world context of its time. It is obvious that it is not possible to reconstructeach and every element from the past and, since it is impossible to do so, it makes notsense to try. The world context, however, it is crucial and has to be reconstructed, atlast, in its main and universal elements. Those will be the frame for the phenomena thatthe historian, as social scientist, studies in a given moment. For the purposes of thepresent work the context will be determined by a critical review of the historical meaningof Pax Britannica, Free Trade and imperialism under England's hegemony.

    Enrique Amayo, peruano, professor da rea de Historia Econmica do Departamentode Economia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), onde tambm exerce o cargode assessor da vice-reitoria. Foi professor visitante do IEA-USP nos anos de 1990 e1991.

    Este texto um resumo do captulo II do livro do autor La poltica britnica en la Guerradel Pacifico, 1876-1891. Lima, Editorial Horizonte, pp xxi + 288. Foi apresentado nocolquio Guerra do Paraguai -130 anos depois, realizado em 24 de novembro de 1994, noRio de Janeiro. O evento foi promovido pela Biblioteca Nacional, com o apoio da FundaoRoberto Marinho e do Banco Real.

    O autor agradece ao professor Carlos Guilherme Mota pela organizao do Colquio e aSandra Agulhare pela transcrio deste texto.

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