11ª Edição - O Espectro

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  • O ESPECTRO Ncleo de Cincia Poltica - ISCSP UL 11 EDIO - 09 de Junho de 2014

    O Caos Socialista Parece que um dos principais partidos pol ticos portugueses esta numa crise de liderana. O Partido Socialista, mesmo vencendo as eleio es europeias, na o conseguiu arrecadar nu meros

    exuberantes que convencessem grande parte dos seus quadros e militantes. Em grande parte porque o secreta rio-geral do partido, Anto nio Jose Seguro, considerou que foi uma

    grande vito ria eleitoral, sendo mesmo inequ voco o resultado de vencedor e que os vencidos foram os dois partidos que neste momento governam o pa s, isto e , o PSD e o CDS.

    PORTUGAL

    Posso chumbar

    estes juzes?

    Poltica Interna, 4

    ESPANHA

    Monarquia em

    causa, Repblica

    vista?

    Globo, 5

    IRAQUE

    Violncias entre

    xiitas e sunitas

    Globo, 6

    EUROPA

    A vacina contra o

    bola

    Globo, 7

    Releia as ltimas edies do jornal

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    CHUMBO

    CONSTITUCIONAL Poltica Interna, 3

  • 02 | 09 Junho 2014

    O ESPECTRO

    EDITORIAL

    Chegamos ao me s de Junho e muitos acontecimentos se deram desde a u ltima edia o (10 Edia o) dO Espectro. No passado me s, os Estados-Membros da Unia o Europeia foram a votos com o propo sito de elegerem os seus representantes no Parlamento Europeu. Ao n vel externo, a Europa po de constatar o que ja se temia: a ascensa o da extrema-direita com particular enfoque para a Frente Nacional de Marine Le Pen que atingiu mais um resultado surpreendente em Frana. Este epifeno meno sob a ine rcia de toda a Unia o Europeia e , de facto, algo que po e em causa 50 anos do projecto europeu e que ameaa destruir muitos dos seus valores como e o caso da solidariedade ou ate mesmo da paz. Por ca , e de realar o afastamento da populaa o que se traduziu nuns escandalosos 66% de abstena o mas, tambe m, o feno meno a que eu chamo Beppe Grillo Portugue s, mais conhecido por Marinho e Pinto, que conseguiu ser eleito para o Parlamento Europeu sem pronunciar quase uma u nica palavra sobre o seu projecto para a Europa. No entanto, a pol tica nacional tem causado grande alarido em toda a comunicaa o social. Primeiro, com o jogo pol tico, que muitos ja esperavam, de Anto nio Costa ao desejar tirar o tapete a Anto nio Jose Seguro numa tentativa clara de chegar a Primeiro-Ministro nas pro ximas eleio es legislativas. Depois, com mais um chumbo do Tribunal Constitucional a s medidas propostas pelo Governo PSD/CDS para este ano deixando, mais uma vez, o executivo liderado por Pedro Passos Coelho com poucas alternativas para salvaguardar o encaixe financeiro que contribuira para a regularizaa o oramental que Portugal tanto ambiciona, ha tre s anos. Ja no que toca a pol tica externa, a renu ncia ao trono espanhol por parte do Rei Juan Carlos merece um especial destaque nesta 11 Edia o. Apesar de Filipe estar preparado para suceder ao seu pai e liderar a corte real espanhola, esta renu ncia do Rei Juan Carlos trouxe muito mais do que uma sucessa o serena. O regime pol tico espanhol atravessa, tal como o portugue s, uma crise de legitimidade e de credibilidade resultante da insatisfaa o do povo espanhol que parece ambicionar cada vez mais uma Repu blica de Espanha em vez dos muitos milhares de euros despendidos na manutena o da Monarquia. Estes e muitos outros temas merecem a atena o de qualquer leitor. Espero que apreciem este trabalho que tanto gosto da a fazer aos seus intervenientes. De no s para vo s. Boa leitura.

    Joo Pedro Louro

    FICHA TCNICA

    Coordenao Adriana Correia Vice-Coordenao Joana Lemos Coordenador de Entrevistas e Reportagens Adriana Correia Reviso Adriana Correia e Cristina Santos Editor Isa Rafael Plataformas de Comunicao Andre Cabral, Jose Salvador, Joa o Martins e David Martins Cartaz Cultural Isa Rafael Redao Gonalo Serpa Isa Rafael Joa o Pedro Louro Joa o Pedro Rodrigues Rui Campos Rui Coelho Tiago Sousa Santos

    CONTACTOS Facebook: facebook.com/OEspectro Correio electrnico: jornaloespectro@gmail.com Twitter: twitter.com/O_Espectro

  • 09 Junho 2014 | 03

    O ESPECTRO

    POLI TICA INTERNA

    O P I N I O d e J O O P E D R O R O D R I G U E S

    I l a e s d o c h u m b o d o C o n s t i t u c i o n a l

    Mais do que a reprovaa o de medidas apresentadas pelo executivo, o chumbo do Tribunal Constitucional foi um derradeiro atestado de incompete ncia passado a coligaa o. As reaco es suscitadas so na o da o para gargalhar, porque infelizmente pecam por falta de originalidade e porque a seriedade da situaa o provavelmente afectara , uma vez mais, o peso da minha carteira. Como nos habituou nos u ltimos tre s anos, o Primeiro-Ministro fez questa o de demonstrar a magnifice ncia da sua ignora ncia, ao insinuar em Coimbra que os ju zes do Tribunal Constitucional foram mal escolhidos. Eu compreendo que seria muito mais pra tica a juna o definitiva do poder executivo com o judicial, ja os ilustres D. Joa o V e Lu s XIV de Frana tambe m o achavam. Por esta renovaa o ideolo gica vintage, criada pela sua clarividente figura de proa, quer-me a mim parecer que uma futura coligaa o entre os laranjas e o Partido Popular Mona rquico na o e um cena rio descabido. Quia , os pro prios obreiros da monarquia constitucionalista estivessem todos errados ha tre s se culos atra s. Quem sabe se o absolutismo na o sera a resposta para todos os nossos males. Pois bem Sr. Primeiro-Ministro, por agora na o e assim. Esquea Thomas Hobbes e Nicolau Maquiavel. Por agora o Sr. continua fragilizado pelas suas limitao es e pelas do seu partido, que ja todos adivinha vamos. Pore m ja dizia o outro, um homem sem a sua honra na o e nada. Porque na o demonstrar enta o alguma nobreza de cara cter e na o atirar as culpas da sua ingere ncia para

    terceiros? E que ja todos percebemos a sua estrate gia. Quando o Sr. e os seus comparsas na o sabem o que fazer, inventam qualquer coisa descabida para o Tribunal refutar, para depois dizerem: esta o a ver? A culpa e deles, agora sou obrigado a subir ainda mais os impostos. Admito, das primeiras vezes ate fui enganado e na o percebi que esta era uma estrate gia para legitimar politicamente as medidas que realmente quer implementar. Agora que me lembro, o meu irma o mais novo tambe m utilizava essa estrate gia para justificar em casa resultados menos conseguidos ou recados na caderneta, a culpa era do professor, na o dele. Nunca antes me tinha apercebido do seu potencial governativo. Mas mais que isto tudo, preocupa-me o peso na carteira. Por favor Sr. Primeiro-Ministro, ate aquele banqueiro de mau feitio, o Dr. Mira Amaral, ja afirmou que um aumento de impostos seria desastroso e que ja estamos num ponto em que mais impostos na o se traduzem em maior receita fiscal. Enta o agora que a economia estava a

    dar sinais de acordar do coma, induzido por si e pelos seus homo logos, o Sr. da -lhe mais uma paulada? Subir o IVA? A se rio? Na o sabe que essa e uma das medidas mais recessivas que se podem conceber? E a TSU? Que vai aumentar ainda mais os custos das empresas? Va Sr. Primeiro-Ministro, respire fundo, tambe m o seu amigo Oli Rehn ficou frustrado por na o se poder seguir o caminho mais fa cil, mas ainda assim reconheceu que os aumentos excessivos dos impostos tornam-se um fardo para o crescimento e recomendou cortes na despesa. Ja e altura de arrumar a casa e de parar de varrer a poeira para baixo do tapete, Sr. Primeiro-Ministro. Tente de uma vez por todas cumprir com alguma coisa das promessas eleitorais, renegoceie contratos ruinosos, examine de forma ex mia as Parcerias Pu blico-Privadas, extinga fundao es fantasma e utilize a folga oramental. A tem os seus milho es Sr. Primeiro-Ministro, esquea a obsessa o dos impostos, essa ideia ja era.

    CRTICA LITERRIA,

    por Rui Coelho

    Gender Trouble

    Butler

    As questo es de ge nero sa o marcadamente pol ticas e impactam de forma inega vel as nossas vive ncias e relao es quotidianas. Assim, e espantoso que elas possuam uma posia o ta o subalterna no pensamento e agenda pol tica. Deixando assentar a pole mica e os fait divers que rodeiam o assunto, gostaria de aproveitar a vito ria do Festival Eurovisa o da Cana o 2014 por parte de Conchita Wurst para rever Gender Trouble, da filo sofa feminista americana Judith Butler. Para Butler, o ge nero e uma construa o social contingente que restringe a identidade e liberdade de cada indiv duo. Esta fica o torna-se hegemo nica atrave s da produa o, por parte dos diversos no dulos de poder (fam lia, media, linguagem...), de um discurso cultural marcado pelo pensamento bina rio, pela dominaa o masculina e pela heteronormatividade. Interiorizando os tabus e fantasiando com a possibilidade de uma identidade cont nua, coerente e convencional, somos todos levados a adoptar atributos de ge nero (comportamentos e atitudes femininas ou masculinas) que, ao inve s de constitu rem a natural expressa o da nossa identidade, sa o os pro prios agentes da sua construa o. E nisso Conchita foi exemplar, trazendo a vista de todos a multiplicidade, complexidade e fluidez do ge nero, muito para ale m do dogma redutor da categorizaa o bina ria homem-mulher.

    COLUNA EX LIBRIS

    Ncleo de Cincia Poltica ISCSP UL Ncleo de Cincia Poltica ISCSP UL Ncleo de Cincia Poltica ISCSP UL

    http://www.ncp-iscsp.com/

    DR

  • POLI TICA INTERNA

    04 | 09 Junho 2014

    O ESPECTRO

    O P I N I O d e G O N A L O S E R PA

    O C a o s S o c i a l i s t a

    Parece que um dos principais partidos pol ticos portugueses esta numa crise de liderana. O Partido Socialista, mesmo vencendo as eleio es europeias, na o conseguiu arrecadar nu meros exuberantes que convencessem grande parte dos seus quadros e militantes. Em grande parte porque o secreta rio-geral do partido, Anto nio Jose Seguro, considerou que foi uma grande vito ria eleitoral, sendo mesmo inequ voco o resultado de vencedor e que os vencidos foram os dois partidos que neste momento governam o pa s, isto e , o PSD e o CDS. Estas declarao es ca ram mal ao PS e alguns nota veis como Ma rio Soares classificaram a vito ria como uma vito ria de Pirro. Estas afirmao es fizeram soar o alarme em algumas faco es contra a liderana de Seguro e mobilizaram Anto nio Costa, actual Presidente da Ca mara de Lisboa, a opor-se e fazer pressa o para suceder ao actual l der. Costa, aproveitando esta situaa o e a pouca consensualidade na capacidade que Seguro transmite aos cidada os e militantes do

    partido, apresentou-se como uma alternativa dentro do PS, procedendo aos habituais processos de candidatura ao cargo de secreta rio-geral. Neste momento, Costa e um nome que oferece maiores garantias de vito ria nas futuras eleio es legislativas e tem uma imagem mais cred vel que Seguro. No entanto, trata-se apenas de uma lavagem de cara uma vez que no que realmente interessa (efica cia, compete ncia, capacidade de trabalho e provas dadas) na o existem grandes diferenas entre um e outro. Apenas e alterada a pessoa que se assume como l der e candidata a liderana do Governo. Segundo resultados de uma sondagem realizada pelo Expresso, Costa e o favorito a vito ria nas eleio es internas do PS, com 56,2% das prefere ncias dos inquiridos, enquanto Seguro queda-se pelos 36%. Estas eleio es te m trazido uma descida significativa nas sondagens relativamente aos outros partidos. Seguro acusa Costa de ser o grande culpado desta situaa o, em que mesmo

    apo s vencerem as eleio es europeias esta o a regredir na percentagem de poss veis votantes, apelidando-o de irresponsa vel e criticando a ambia o pessoal do autarca de Lisboa. Costa, por sua vez, abste m-se de comentar e atacar o seu oponente, aproveitando por dar prioridade a divulgaa o das principais linhas programa ticas da sua candidatura a liderana do partido rosa. Muito sinceramente, o meu apreo por partidos pol ticos e reduzido e estas situao es apenas fazem com que essa diminuta simpatia se torne cada vez menor. Como se pode

    de repente apoiar uma pessoa que ainda algumas semanas atra s estava a ajudar na campanha de Francisco Assis, juntamente com o seu adversa rio, cuja qual na o observei qualquer atrito entre os dois candidatos? Existe uma enorme falta de unia o, lealdade e coere ncia dentro do PS. Factores estes que sa o preocupantes na o so para mim, mas para a maioria dos cidada os portugueses que ve em, assim, a principal alternativa pol tica completamente fragmentada e com um rumo bastante incerto, sobretudo no que toca a oposia o e sucessa o ao descredibilizado Governo.

    O P I N I O d e J O O P E D R O L O U R O

    P o s s o c h u m b a r e s t e s j u z e s ?

    O Governo PSD/CDS assistiu recentemente a mais uma declaraa o de inconstitucionalidade por parte do Tribunal Constitucional em relaa o a s medidas propostas para este ano. Desta vez, os ju zes do Pala cio Ratton decidiram chumbar a redua o salarial da Funa o Pu blica, bem como as reduo es nas penso es de sobrevive ncia e a aplicaa o de uma contribuia o social sobre os subs dios de desemprego e de doena. Tudo

    representaria um encaixe financeiro para os cofres do Estado de cerca de 1200 milho es de euros. Ora, e certo que o sacrif cio pedido aos portugueses nestes 3 anos de governaa o e elevado. Tambe m e claro que o facto do bom comportamento e sentido de responsabilidade deste Governo mas, principalmente, de todos os portugueses levaram Portugal a conseguir uma sa da limpa, ta o

    ambicionada, do Programa de Ajustamento Econo mico e Financeiro. No entanto, na o e menos verdade que os tempos sa o dif ceis e exigentes e que, apesar da sa da limpa, e imperativa a boa gesta o dos dinheiros pu blicos e a redua o oramental. Sem esta redua o oramental, estou convicto que estaremos a hipotecar o futuro de milhares de jovens, mas tambe m de Portugal na medida em que sera dificultada a tarefa de serem

    realizadas importantes reformas estruturais que conduzira o a construa o de uma sociedade mais democra tica, justa e livre. Quero com isto dizer que, sem a situaa o financeira portuguesa regulada, avizinhar-se-a o tempos ainda mais dif ceis. Basta olhar para o passado para percebermos da veracidade do que acabo de afirmar. No u ltimo pedido de resgate a Portugal, feito pelo Dr. Ma rio Soares em 1983, a d vida

    DR

  • 09 Junho 2014 | 05

    O ESPECTRO

    O P I N I O d e R U I C A M P O S

    M o n a r q u i a e m C a u s a , R e p b l i c a v i s t a ?

    GLOBO

    externa portuguesa representava cerca de 10% do PIB portugue s. Em 2011, quando o Engenheiro Jose So crates foi obrigado a recorrer

    a ajuda externa, a d vida portuguesa representava ja cerca de 50% do PIB portugue s. Estes dados ilustram bem o descontrolo das contas pu blicas portuguesas mas retractam tambe m a absoluta necessidade de uma boa gesta o dos dinheiros pu blicos e de uma profunda reforma em Portugal, para no futuro os portugueses

    na o serem novamente alvos das medidas impopulares (ou piores) que hoje o executivo liderado por Pedro Pas...