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    A revoluo russa

    Rosa Luxemburg

    I

    A Revoluo Russa , incontestavelmente, o fato mais considervel da guerra mundial.

    A maneira como explodiu, seu radicalismo sem exemplo, sua ao duradoura, tudo

    refuta admiravelmente o argumento sem o qual a social democracia alem tem se

    esforado, desde o incio, em justificar a campanha de conquista do imperialismo

    alemo, a saber, a misso reservada s baionetas alemes de derrubar o czarismo e

    libertar os povos por ele oprimidos. As propores formidveis atingidas pala

    revoluo na Rssia, a ao profunda pela qual subverteu todos os valores de classe,

    desenvolveu todos os problemas econmicos e sociais e passou, numa marcha

    conseqente, com a fatalidade de um processo lgico, por assim dizer, sdo primeiro

    estdio da repblica burguesa a estdios cada vez mais elevados no tendo sido a

    queda do czarismo neste processo mais do que um pequeno episdio, quase uma

    bagatela tudo demonstra de modo claro como o dia que a libertao da Rssia no

    foi obra da guerra e da derrota militar do czarismo, das baionetas alemes em punhos

    alemes, como dizia Kautsky, mas que ela possua razes profundas na prpria Rssia.

    No foi a aventura guerreira do imperialismo alemo, sob o escudo ideolgico da social

    democracia alem, que provocou a revoluo na Rssia. Ao contrrio, esta no fez

    seno interromp-la por algum tempo, em seu incio, depois da primeira vaga dos anos

    de 1911-1913, criando-lhe em seguida as mais difceis e anormais condies.

    Para todo observador que reflita, este curso das coisas mais um argumento contra toda

    a teoria defendida por Kautsky e todo o Partido Social Democrata Alemo, segundo a

    qual a Rssia, pas economicamente atrasado, agrcola em sua maior parte, no estaria

    ainda madura para a revoluo social. Esta teoria que no admite como possvel na

    Rssia seno uma revoluo burguesa, do que decorre, por conseguinte, para os

    socialistas deste pas, a necessidade de colaborar com o liberalismo burgus, tambm

    a da ala oportunista do movimento operrio russo dos mencheviques, dirigidos por Dan

    e Axelrod. Uns e outros, os oportunistas russos como os oportunistas alemes,

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    concordam inteiramente com os socialistas governamentais da Alemanha nesta maneira

    de compreender a Revoluo Russa. Segundo eles, a Revoluo russa no deveria ter

    ultrapassado o estdio que, na imaginao da social democracia, o imperialismo alemo

    estabeleceu como o fim nobre da guerra, a saber, a derrubada do czarismo. Se ela foi

    alm, se ela se imps como tarefa a ditadura do proletariado, tal aconteceu, segundo esta

    doutrina, por simples erro da ala radical do movimento operrio russo, dos

    bolcheviques, e todas as amarguras que em seguida a revoluo conheceu, todas as

    dificuldades que encontrou, no so mais do que as conseqncias desse erro.

    Teoricamente, esta doutrina, que o Vorwaerts apresenta como fruto do pensamento

    marxista, chega a esta original descoberta marxista de que a revoluo social, isto ,

    uma questo nacional , por assim dizer, domstica de cada Estado em particular. Na

    fumaa azul de seu esquema abstrato, Kautsky sabe naturalmente descrever com

    detalhes as relaes econmicas mundiais do capital, que fazem de todos os Estados

    modernos um organismo indivisvel. Mas a Revoluo Russa, fruto do entrelaamento

    das relaes internacionais e da questo agrria, no pode caber no quadro da sociedade

    burguesa. Praticamente, esta doutrina tende a ressalvar a responsabilidade do

    proletariado internacional e, em primeiro lugar, do proletariado alemo, no que

    concerne sorte da Revoluo Russa, a negar, numa palavra, as conexes internacionais

    desta revoluo. Na realidade, a guerra e a revoluo russa demonstraram no a falta de

    maturidade da Rssia, mas a incapacidade do proletariado alemo de preencher sua

    misso histrica. Ressaltar este fato com toda a nitidez desejvel o primeiro dever de

    um estudo crtico da Revoluo Russa. Contando com a revoluo mundial do

    proletariado, os bolcheviques deram precisamente o testemunho mais brilhante de sua

    inteligncia poltica, de sua fidelidade aos princpios e da audcia de sua poltica.

    nisto que se manifestam os progressos formidveis realizados pelo desenvolvimento

    capitalista no decurso da ltima dcada. A revoluo de 1905-1907 no encontrou

    seno um fraco eco na Europa. Isto porque ela no podia ser seno um comeo. A

    continuao e o fim estavam ligados ao desenvolvimento europeu.

    claro que s uma crtica aprofundada, e no uma apologia superficial, pode tirar de

    todos estes fatos o tesourode ensinamentos que ele comportam. Seria, com efeito, uma

    loucura crer que no primewiro ensaio de importncia mundial de ditadura do

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    proletariado, e isto nas condies mais difceis que se pode imaginar, em meioda

    desordem e do caos de uma conflagrao mundial, sob a constante ameaa de uma

    interveno militar por parte da potncia mais reacionria da Europa, e em face da

    carncia completa do proletariado internacional, seria uma loucura, digo, crer que nesta

    primeira experincia de ditadura do proletariado, realizada em condies to anormais,

    tudo que se faz ou no se faz na Rssia seja o cmulo da perfeio. Bem ao contrrio, a

    compreenso mais elementar da poltica socialista e de suas condies histricas

    necessrias obriga a admitir que, em condies to desfavorveis, o idealismo mais

    gigantesco e a energia revolucionria mais firme no podem realizar nem a democracia,

    nem o socialismo, mas apenas fracos rudimentos de um e de outro.

    Compreender bem este fato com todas as suas profundas conseqncias um dever

    elementar para os socialistas de todos os pases, pois no seno por uma to penosa

    compreenso que se pode medir toda a responsabilidade do proletariado internacional

    no que concerne sorte da Revoluo Russa.. Por outro lado, no seno desta

    maneira que aparece a importncia decisiva da ao internacional da revoluo

    proletria como uma condio essencial , sem a qual os maiores esforos e os mais

    sublimes sacrifcios do proletariado de um s pas devem inevitavelmente tombar num

    turbilho de contradies e de erros.

    No resta, alis, nenhuma dvida de que foi com as maiores hesitaes que Lnin e

    Trotsky, os crebros eminentes que dirigem a Revoluo Russa, deram mais de um

    passo decisivo em seu caminho espinhoso, semeado de ciladas por toda a parte, e nada

    estaria mais distante de seus espritos do que ver a Internacional aceitar como modelo

    supremo de poltica socialista, dando lugar apenas admirao beata e imitao servil,

    tudo que precisaram fazer ou deixar de fazer, constrangidos, dos acontecimentos.

    Seria um erro crer que um exame crtico das vias at aqui seguidas pela Revoluo

    Russa seja de natureza a abalar o prestgio do proletariado russo, cujo fascinante

    exemplo no poderia, por si s, vencer a inrcia das massas operrias alems. Nada

    mais falso. O despertar da combatividade revolucionrio do proletariado alemo no

    poderia ser provocado conforme o mtodo da social democracia alem por meio de

    sugesto coletiva, cegada pela f em alguma autoridade infalvel, seja a de suas prprias

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    instncias, seja a do exemplo russo. No criando um entusiasmo artificial, mas, ao

    contrrio, s fazendo o proletariado alemo compreender a terrvel gravidade e a

    complexidade das tarefas a cumprir, desenvolvendo sua maturidade poltica e sua

    capacidade de julgamento (que a social democracia esforou-se sistematicamente em

    abafar, por longos anos e sob os pretextos mais diversos), que ele poder elevar-se

    altura de preencher sua misso histrica. Entregar-se a um estudo crtico da revoluo,

    sob todos os seus aspectos, o melhor meio de educar a classe operria, tando alem

    como internacional, diante das tarefas que lhes impe a atual situao.

    II

    O Partido Bolchevique, fora motriz da revoluo Russa

    O primeiro perodo da Revoluo Russa, desde sua exploso em maro at o golpe de

    Estado em outubro, corresponde exatamente, em seu curso geral, ao esquema de

    desenvolvimento tanto da Revoluo Inglesa como da Revoluo Francesa. Esta a

    forma tpica do desenvolvimento de todo o grande primeiro choque das foras

    revolucionrias, criadas no seio da sociedade burguesa, contra as cadeias da velha

    sociedade. Seu desenvolvimento se processa naturalmente segundo uma linha

    ascendente, partindo de um comeo moderado at fins cada vez mais radicais e,

    paralelamente, da colaborao das classes e dos partidos dominao exclusiva do

    partido mais radical.

    No comeo, em maro de 1917, a revoluo foi dirigida pelos K.D., isto , pela

    burguesia liberal. A primeira vaga da onda revolucionria arrastou tudo. A quarta

    Duma, o produto mais reacionrio do mais reacionrio dos sistemas eleitorais, o das

    quatro classes, procedente do golpe de Estado, transformou-se de um dia para o outro

    em um rgo da revoluo. Todos os partidos burgueses, inclusive a direita

    nacionalista, formaram de repente um s bloco contra o absolutismo. Este se

    desmoronou ao primeiro choque, quase sem luta, como um rgo carcomido a que basta

    tocar com o dedo para faz-lo tombar. Do mesmo modo, foi quebrada em algumas

    horas a breve tentativa da burguesia liberal para salvar, pelo menos, a dinastia e o trono.

    A onda impetuosa dos acontecimentos submergiu, em alguns dias, territrios que a

    Revoluo Francesa levou dezenas de anos para con

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