Desenvolvimento Territorial e Agroecologia

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  • Desenvolvimento territorial e agroecologia

  • Desenvolvimento territorial e agroecologia

    Adilson FrAncelino AlvesBeAtriz rodrigues cArrijo

    luciAno zAnetti PessA cAndiotto[orgAnizAdores]

  • Copyright Grupo de Estudos Territoriais GETERR

    Reviso grfica Slvia Regina PereiraReviso de lngua portuguesa Silvana SpedoCapa Marcos CartumProjeto grfico e diagramao Maria Rosa Juliani

    Impresso Cromosete

    Tiragem

    Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro pode ser utilizada ou reproduzida sem a autorizao da editora.

    Editora Expresso Popular Ltda.Rua Abolio, 197 | Bela Vista | 01319-010 | So Paulo - SPTel [11] 3105 9500 | Fax [11] 3112 0941 | vendas@expressaopopular.com.br | www.expressaopopular.com.br

  • apresentao | 7

    reflexes sobre o Desenvolvimento luz Do enfoque territorial

    TerriTrio,TerriTorialidadeedesenvolvimenTo:diferenTesperspecTivasnonvelinTernacionalenoBrasil | 15marcos aurlio saquet | eliseu savrio sposito

    sisTemalocalTerriTorial(sloT):uminsTrumenTopararepresenTar,lereTransformaroTerriTrio | 33giuseppe Dematteis

    desenvolvimenToTerriTorial:algumasreflexesTerico-conceiTuaisderivadasdeesTudomonogrfico | 47luiz alexanDre gonalves cunha

    conhecimenTosconvencionaisesusTenTveis:umavisoderedesinTerconecTadas | 63aDilson francelino alves

    desafiosdageraoderendaempequenaspropriedadeseaquesTododesenvolvimenToruralsusTenTvelnoBrasil | 81antonio nivalDo hespanhol

    idenTidadeTerriTorialedesenvolvimenTo:aformulaodeumplanoTerriTorialdedesenvolvimenToruralsusTenTveldoTerriTriosudoesTedoparan | 95rosel alves Dos santos | Walter marschner

    perspectivas Da agroecologia e experincias no estaDo Do paran

    agroecologia:limiTeseperspecTivas | 117rosngela ap. De meDeiros hespanhol

    reflexessoBreaagroecologianoBrasil | 137aDriano arriel saquet

    ndice

  • agroecologia:desafiosparaumacondiodeinTeraoposiTivaeco-evoluohumanananaTureza | 155valDemar arl

    agroecologianoparan:evoluoedesafios | 169antonio carlos picinatto

    agroecologia:odesenvolvimenTonosudoesTedoparan | 185nilton luiz fritz

    aagroecologiaeasagrofloresTasnoconTexTodeumaagriculTurasusTenTvel | 213luciano zanetti pessa canDiotto | beatriz roDrigues carrijo | jackson alano De oliveira

    cenTrodeapoioaopequenoagriculTor:experinciasedesafiosemagroecologia | 233valDir luchman

    refernciasemagroecologia:umolharsoBrearendaeoscaminhosTrilhadospelaagriculTurafamiliardosudoesTedoparan | 243serinei csar grgolo

  • Emsuatrajetriadecincoanos,oGETERR(GrupodeEstudosTerritoriais)daUNIOESTE,campusFranciscoBeltro-PR,vemsepreocupandocomodebateemtornododesenvolvimento,apartirdeabordagensquepermitamavanarcomrelaoantigaeultrapassadaconcepoeconomicistadede-senvolvimento. Atravs da utilizao dos termos/conceitos de desenvolvi-mentodelocal,sustentveleterritorial,governos,rgospblicos,polticos,empresasecientistas,passamareconheceranecessidadedesebuscarumdesenvolvimentomultidimensional,queincorporeparaalmdadimensoeconmica,questessocioculturais,polticaseambientais.Apesardepossu-remobjetivosdistintos,essesatoresvmcontribuindocomodebateecons-truodereflexeseexperinciasempricasemtornodenovasperspectivasparaodesenvolvimento.Dentrodessecomplexocontextoterico,conceitualemetodolgico,aagroecologia,nosltimosanos,vemganhandoadeptosentrecientistasepesquisadores,bemcomoentreosmovimentossociaisdocampo,poisbuscaaglutinaraproduodealimentossemousodeagro-qumicos,oequilbriodeecossistemaspormeiodeaesdeconservaoambiental,aseguranaalimentar,areproduosocialdasfamliasrurais,apartirdeumaorganizaopolticaeideolgicadeagricultoresetcnicos,contrrialgicadedesenvolvimentoprodutivista.

    Nessesentido,aagroecologiaseapresentacomoumacinciaeummovimentopoltico,quetemsuasbasesemusosmaisracionaisdosrecur-sosnaturais,enaqualidadedevidadasfamliasquevivemedependemda

    APresentAo

  • desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA

    agriculturaedoespaorural.Noentanto,elatambmpossuiseuslimites,demodoquesurgemdiversosquestionamentosemtornodesuaviabilida-decomoalternativadedesenvolvimento.

    Estelivrotraztonaodebateemtornododesenvolvimentoterri-torial, tendocomofocoaagroecologiacomoumadasestratgiasdede-senvolvimento, sobretudo da agricultura familiar. A partir do III SEET(SeminrioEstadual deEstudosTerritoriais), promovidopeloGETERRemmaiode2007,organizamosestelivro,compostoporumacoletneadetextos,queapresentamresultadosdepesquisastericasedeexperinciasempricas realizadas por profissionais ligados aos temas agroecologia edesenvolvimento.Olivrofoidivididoemduaspartes,sendoqueaprimei-ra,tratadealgumasreflexessobreoDesenvolvimentoluzdoenfoqueterritorial, ea segunda,dasPerspectivasdaagroecologia,bemcomodeexperinciasnoestadodoParan,comdestaqueparaaregioSudoeste,ondeseconcentramimportantesinstituiesrepresentativasdaagricultu-rafamiliar.

    Noprimeirocaptulodolivro,denominadoTerritrio,territoriali-dadeedesenvolvimento:diferentesperspectivasnonvel internacionalenoBrasil,MarcosA.SaqueteEliseuS.Spsitofazemumareflexoemtornodosconceitosdeterritrio,territorialidadeedesenvolvimento,uti-lizandoobrasdeautoresfranceses,italianosebrasileiros,especialmentedageografia,dasociologiaedaeconomia.Elesrevelamalgunscaminhosconstrudosnosltimos30anos,direcionadosincorporaodaproble-mticadodesenvolvimentoedaquestoambientalnodebateacadmicoecientfico,subsidiandoaefetivaodeabordagensdeumaprxistransfor-madoradarealidadecentradanaconquistademelhorescondiesdevida,tantonocampocomonacidade.

    GiuseppeDematteis,professordaUniversidadedeTurimItliaere-fernciamundialnoestudodetemasrelativosaodesenvolvimentoterrito-rial,abordaaspectosdaaplicabilidadedoSistemaLocalTerritorial[SloT],desenvolvidodeformainterdisciplinarentrepesquisadores italianos.NotextoSistemaLocalTerritorial(SLoT):uminstrumentopararepresentar,leretransformaroterritrio,suapropostaapresentadadeformaclaraedidtica,ondepesquisadoreseestudantesencontraroumricoreferencialparaaprofundarasdiscussesrelativasaosestudosterritoriais.

    No texto Desenvolvimento Territorial: algumas reflexes teorico-conceituaisderivadasdeestudodecaso,LuizA.GonalvesCunhaapre-sentaumaconcepodedesenvolvimentoterritorial,inspiradanoestudodastrajetriasregionaisdedesenvolvimentoruralqueforamidentificadasnoEstadodoParan,comnfasenocasodoParanTradicional.Oautoriniciacomadiscussosobreoprpriosentidodanoodedesenvolvimen-to,ebuscadiscutircomoumdeterminadoconceitodeterritriobsiconacomposiodestanovaconcepodedesenvolvimento,inserindoum

  • PreFcio

    slidovisespacialnatentativaderenovaranlisesregionaisepropostasdecarterdesenvolvimentistas.

    AdilsonFrancelinoAlveslanaumolharmetodolgicosobreaques-todaformaoderedesdeconhecimento.Nessetexto,oautorproble-matizaaexistnciadeduasredesdeconhecimentoeaprendizagemquemoldamformasdecompreenderodesenvolvimentoterritorial:aredecon-vencional,densamentetcnicaqueexigedoagricultoraaplicaodepaco-testecnolgicosquerequerempoucoconhecimentosobreofazeragrcola;earedeagroecolgicaquenecessitadeumaintensificaodossaberesdosagricultores.Suaanliseapontaparaanecessidadedeaprofundarosestu-dosnoentrecruzamentodessesdoissistemasdeconhecimento.

    NotextoDesafiosdageraoderendaempequenaspropriedadeseaquestododesenvolvimentoruralsustentvelnoBrasilogegrafoAn-tonioNivaldoHespanholdiscuteatrajetriadaidiadedesenvolvimentoruralsustentvel,osproblemasdegeraoderendanaagriculturafami-liar,aheterogeneidadedocampoearevitalizaodorural,bemcomo,osdesafiosparaasustentabilidadenaagricultura.

    Partindodeumavisomultidimensionaldedesenvolvimento,Wal-terMarschnereRoselA.dosSantosquestionamaspolticaspblicasdedesenvolvimento territorial e suaaplicabilidadenoSudoestedoParan,protagonizadapeloMDA(MinistriodoDesenvolvimentoAgrrio)comoformadepromoverodesenvolvimento.NotextoIdentidadeterritorialedesenvolvimento:aformulaodeumplanoterritorialdedesenvolvimen-toruralsustentveldoTerritrioSudoestedoParan,osautoresrealizamumaleituracrticadaconstruodoPlanodeDesenvolvimentoTerritorialRuralSustentveldoSudoestedoParan,enfatizandoanecessidadederespeitarosritmosetemposdoterritrio,edesuperarumaabordagemestritamenteeconmicaesetorial.

    Iniciandoasegundapartedolivro,ocaptuloAgroecologia:limi-teseperspectivas,dagegrafaRosangelaHespanhol,abordaoprocessodeincorporaotecnolgicaocorridonaagriculturaaolongodahistriadahumanidade,destacandoadifusodaRevoluoVerdeesuasimplica-essocioambientais.Emseguida,discuteoprocessodeecologizaodaagriculturaeascorrentesdaAgriculturaAlternativa,comespecialatenoparaaAgroecologia;ediscorresobreasperspectivaseosdesafiosdossis-temasdeproduoconsideradossustentveis.

    EmseutextoReflexessobreaAgroecologianoBrasil,oagrno-moAdrianoSaquet,discutea situaoatualdaagriculturaorgnicanoBrasilenaAmricaLatina;fazumcomparativoentreosistemaconven-cionaleoorgnico,comfoconoltimo;eapresentaoqueconsideraseremosprincipaislimitesepotencialidadesdeumaagriculturafundamentadaemprincpiosecolgicos.Adrianoelaboraumtextodidtico,mostrandoosprincipaiselementosdaproduoorgnicadealimentos.

  • desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA

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    OagrnomoeconsultordaredeEcovidaedaSDT/MDA,ValdemarArl,apresentaumareflexosobreaagroecologiaenfocandosuadimensopoltica, e, a partir da constatao das conseqncias damodernizaoagrcolaedaRevoluoVerde,clamaporumareorientaodaagricultu-raembuscadasustentabilidade.Paraoautor,aagroecologiaconsisteemquatrograndesdesafiosquesodiscutidosnotexto,sendoumdesafioso-ciopolticoeeconmico;umdesafiocientfico;umdesafioeducacional;eumdesafioorganizacional.

    CombaseemsuaexperincianaformulaoeexecuodeprojetosemagriculturaorgnicaeagroecologiapeloInstitutoMaytenus,oagrno-moAntonioCarlosPicinattoapresentaemAgroecologianoParan:evolu-oedesafios,umpanoramadarealidadedaagriculturaorgnicaeagro-ecolgicanoEstadodoParan,passandopelaproduo,comercializaoeorganizaodeentidadeseprodutores,apontandoaindaalgunsdesafiosqueestopresentesnavidacotidianadeagricultoresfamiliaresdoSudo-estedoParan.

    O tcnico daEMATER e engenheiro agrnomoNilton Luiz FritzabordaemseutextoAgoecologiaodesenvolvimentonoSudoestedoPa-ran,opapeldaEMATERnoincentivoagriculturaorgnicaeagroeco-lgicanoSudoestedoParan.Traztambmdepoimentosdeagricultores,tcnicoseentidadessobreosimpactosdaRevoluoVerde,opapeldaex-tensoruraleasituaodaproduoedacomercializaodeorgnicoseagroecolgicosnoSudoestedoParan.

    Os gegrafos emembros doGETERR, LucianoZ. P. Candiotto eBeatrizR.Carrijo,juntamentecomJacksonA.deOliveira,procuramemAagroecologiaeasagroflorestasnocontextodeumaagriculturasusten-tveldiscorrersobreosfundamentostericosdaidiadeumaagriculturasustentvel,comdestaqueparaaagroecologiaeparaossistemasagroflo-restais.OsautorestambmapresentamalgunsresultadosdeumprojetosobreagroflorestasnoSudoestedoParan,indicandoosavanoseasdifi-culdadesencontradas.

    ValdirLuchmanntcnicoemagropecuriacomnfaseemagroe-cologia,eseutextoapresentaosprincpioseopapeldoCAPA(CentrodeApoioaoPequenoAgricultor),apartirdesuaexperinciaprofissionalnoncleodomunicpiodeVer-PR.NotextoCAPAexperinciasedesafiosemagroecologia,Valdirdiscutetambmaassessoriadadapelaentidadeparaosprodutoresorgnicoseagroecolgicos,tantonoquesereferestcnicasdeproduoemmanejocomosmetodologiaseequipamentosalternativosparaaagriculturafamiliar.

    Serinei Csar Grgolo, tcnico da ASSESOAR (Associao de Es-tudos,OrientaoeAssistnciaRural)e tambmengenheiroagrnomo,apresenta o textoproduzido apartir das reflexes feitas pela equipedaASSESOARapartirdeumestudodoDESER(DepartamentodeEstudos

  • PreFcio

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    Scio-econmicosrurais).OtextoRefernciasemAgroecologia:umolharsobrearendaeoscaminhostrilhadospelaAgriculturaFamiliarnoSudo-estedoParan,partedeumestudodarendaedoscaminhostrilhadospelaagriculturafamiliardoSudoestedoParan,trazendoreflexessobreousodaterra,otrabalho,oautoconsumo,oscustosdeproduo,entreoutrosindicadores,apartirdosdepoimentosdeumgrupodeprodutoressobresuasUPVFsUnidadesdeProduoeVidaFamiliares,noSudoestedoParan.

    Ressaltamosqueasreflexeseexperinciastratadasnesselivro,socompostaspordiferentesvivncias,formaeseformasdeatuaodosau-toresdoscaptulos,queapesardesetraduzirememtextosredigidoscomlinguagensheterogneas,demonstramadiversidadedeatoressociaisedeinstituiespreocupadoscomaquestodaagroecologiacomoestratgiadedesenvolvimentoparaterritrioscompresenadeagricultoresfamilia-res.Buscamosassim,modestamentecontribuirparaodesafiodediminuiraslacunasexistentesentreaacademiaeasexperinciasempricas,nosen-tidodepromoverodilogointerdisciplinaremtornodaagroecologia.

    Osorganizadores

  • parte i

    reflexes sobre o Desenvolvimento luz Do enfoque territorial

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    territrio, territoriAlidAde e desenvolvimento: diFerentes PersPectivAs no nvel internAcionAl e no BrAsil

    marcos aurlio saquetGegrafo,ProfessordoscursosdeGraduaoePs-graduaoemGeografiadaUNIOESTEFranciscoBeltro-PR,PesquisadordoCnpq|saquetmarcos@hotmail.com

    eliseu savrio spositoGegrafo,ProfessordoscursosdeGraduaoePs-GraduaoemGeografiadaFCT/UNESPPresidentePrudente-SP,PesquisadordoCnpq|essposito@prudenet.com.br

    Ascontrovrsias,osdebateseosestudossobreodesenvolvimentotmseacentuadobastanteapartirdosanos1990,emvirtudedevriosfatores,especialmentedoagravamentodadegradaoambiental.Oscilam-seentreumaperspectivamaisradical,quedefendeoretornoatcnicasprodutivasmaisrudimentares,compatamaresdeproduomaisreduzidosesimplifi-cadosevidenciandoolugareaintensidadedeaceleraoefortalecimentodaproduotipicamentecapitalista,centradanoavanotecnolgico,naprodutividade,naacumulaodecapital,noagravamentodadegradaoambientalenaeconomiacadavezmaisglobal.

    Aomesmo tempo, substantiva-se uma perspectiva de desenvolvi-mentonaqualtenta-seconciliaraproduodemercadoriascomarecu-peraoeapreservaodoambiente,valorizando-seolugar;pormnodemaneiradesarticuladadeprocessosmaisgeraiseamplosefetivadosemescalascomoanacionale/ouinternacional.Paratanto,aorganizaopo-lticaeoenvolvimentodossujeitos,aformao/educao,oplanejamentoegesto,asredesdecooperao,avalorizaodasidentidades,entreou-trosprocessos,sofundamentaisnaredefiniodaproduoedeoutrosaspectosdavidacotidiana,numaconcepodedesenvolvimentoqueen-volve,necessariamente,orearranjodasrelaesdepoder.

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    desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA

    nesse sentido emovimento que ganha centralidade, em pasescomoaFrana,aSuaeaItlia,apartirdosanos1970,adiscussosobreoterritrioeaterritorialidade,efetivando-seoqueseconvencionoudeno-minardeabordagemterritorial.umanovaformadeverecompreenderoespao,asociedadeeanatureza,ouadinmicasocioespacial,destacando-seasredesdecirculaoecomunicao,ascaractersticaseaimportnciadanaturezaexterioraohomem,asrelaesdepodereasidentidadeshis-toricamenteconstitudas.

    Essaconcepo,elaboradaporpesquisadoresdediferentesreasdoconhecimento,comodageografia,dasociologiaedaeconomia,incorporalentamenteumcarterpolticomuitofortee,simultaneamente,umapers-pectivadedesenvolvimentoemrede,emfavordousomaisapropriadodanatureza,depequenasemdiasempresas,dacooperao,das identida-deslocais,entreoutros,oquesubstantivaoqueestamosdenominandodedesenvolvimentoterritorial.

    Humaconcepo renovadado territrio,da territorialidadeedodesenvolvimento,reconhecendo-seascontradiessociais,omovimento,adialticasocioespacial,aprocessualidadehistrica,aimportnciadosluga-resedossujeitoslocais,danaturezaexterioraohomemeanecessidadedeorganizaoeatuaopoltica,numaespciedeprxisrevistaerenovadaapartirdeexperinciasefetivadas,sobretudoduranteosculoXX.H,su-cintamente,umafortetentativadesuperarasconcepesarealesetorialdeanlisedoterritrioedodesenvolvimento,combinando-searelaorea-redeourea-rede-lugar,tantonoqueserefereaosinstrumentaisdapesquisacientficaquantonaelaboraodepolticaseprojetosdedesenvolvimento.

    territrio e territoriAlidAde

    Parece-nosquenohdvidas,nomeioacadmico,sobreaimportnciadarenovaodecinciascomoageografia,asociologiaeaeconomia,naefe-tivaodenovosarranjosparaaprpriacinciae,aomesmotempo,paraacompreensodarelaosociedade-natureza.Humainteraoentreaproduodoconhecimentocientficoeavidaemsociedade(paraalmdes-saproduo)eissoestnabasedareelaboraodeconcepes,polticaseprojetos,apartirdosanos1960-70,empasescomoaFranaeaItlia.

    A incorporao,por exemplo, de aspectosdo ideriomarxista emcinciascomoasociologia,ageografiaeaeconomia,possibilitaodesven-damentodeprocessoseconflitosatentoescondidos,possibilitandono-vasleiturasdomundodavida.Humamaiorpreocupaoeconseqenteintensificaodosestudos,apartirdosanos1970,porpartedepesquisa-doresdenominadosmarxistasouanarquistasouaindademocrticos,comascondiesdanaturezaedasociedade,enfim,comascondiesdevidanoplanetae,demaneiraespecial,comosgrupossociaisexcludos,tendo

  • 1

    mArcos Aurlio sAquet | eliseu sAvrio sPosito

    comotemticacentralajustiasocialjuntamentecomprocessoscorrelatos,comoaatuaodoEstado,ofortalecimentodaeconomianonvelinterna-cional,ousocapitalistadoespao,ametropolizaoeassimpordiante.

    Aconjugaodefatoresmateriaiseimateriais,nomundodavida,condiciona a revisodasmetodologiasutilizadasnas cincias sociais, acompreensomaiscoerenteecompletadaatuaodoEstadoedosagen-tesdocapital,deprocessosidentitrios,dasredesdecirculaoecomuni-caoedadinmicadanatureza.Esseprocessoperpassa,aomesmotem-po,acinciaeafilosofia,aarte,apolticaeosmovimentossociais,comoresultadoecondiodenovosarranjoseredefiniessocietrias.

    nessesentidoquesesubstantivamasconcepespioneirasereno-vadasdoterritrioedaterritorialidade,naFrana,naItlia,naSuaenosEUA.Evidentemente,essesconceitosnosofundamentaisparatodosospesquisadoreseparatodasascincias,pormassumemcentralidadeemalgumasdelas,comoageografia,asociologiaeaeconomia.Destacam-se,inicialmente,autorescomoJeanGottmann,GillesDeleuze,FlixGuattari,ArnaldoBagnasco, Francesco Indovina, Donatella Calabi, GiuseppeDe-matteis,MassimoQuaini,ClaudeRaffestin,entreoutros,e,posteriormen-te,pesquisadorescomoRobertSack.

    Nestetexto,notemoscomopropsitotratardetodosessesautoresedesuasconcepes.Consideramosalgumasabordagensmaisdiretamen-tevinculadassperspectivasdodesenvolvimentoterritorial,elaboradasapartirdosanos1970-80.Evidenciamosduasperspectivasdistintas:umainerenteaopensamentoeaosestudosefetivadosporpesquisadoresdeln-guainglesae,outra,vinculadaescolafranco-italiana,comdestaqueparaClaudeRaffestin,naSuaeparaGiuseppeDematteis,naItlia.

    Nachamadaescolaanglo-saxnica,umdosestudosprincipaisodeSack(1986),quetemsidoamplamenteutilizadoemvriospases,in-clusivenoBrasil,sobretudoporsuaconcepodegeografiaedeterrito-rialidade humana,considerandoasrelaesdepoderqueocorremtantoemnvelpessoaledegrupoquantointernacional.Aterritorialidadecor-respondeaocontrolesobreumareaouespao;umaestratgiaparain-fluenciaroucontrolarrecursos,fenmenos,relaesepessoaseestinti-mamenterelacionadaaomodocomoaspessoasusamaterra,organizamoespaoedosignificadosaolugar.

    Aterritorialidadeumaexpressodopodersocial,conformandooterritrio.Esteentendidocomoumareacontroladaedelimitadaporal-gumaautoridade,resultadodeestratgiasdeinflunciasocial.Hcontrolesocial:algumaspessoasatuamcontrolandooutras.Aterritorialidadecon-sideradacomoumcomponentedepodersignificaumaformadecontroledoespao.ParaSack(1986),assim,oterritriocontmdemarcaes,cor-respondeaumareadecontroleeestdiretamenterelacionadoaoexer-cciodepoder.

  • 1

    desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA

    Elefazumaabordagemrelacionaldoterritrio,contribuindoparaoentendimentodasdimensessociaisdesuaconstituio,ouseja,deas-pectosdaeconomia,dapolticaedacultura,pormsubsidiaaelaboraodeumaconcepoconservadoradeterritorialidade,oqueGoverna(2005)denominade territorialidade passiva. Para esta autora, adefiniodeterritorialidadepropostaporRobertSackextremamentergida,poisin-dividuaerecorta,respectivamente,tendnciaseefeitos,limitandoaabor-dagemacertasreasdecontrole.Aterritorialidade,paraSack(1986),vistacomocapacidadedeseparareexcluir,queseexprimedeacordocomasestratgiasdecontrole,coeroeexercciodopoder.

    J na outra ponta da discusso, um autor considerado clssicopelaimportnciadesuaabordagememrelaoaoterritrioeterritoria-lidade,ClaudeRaffestin,quetemsededicadoaessatemticadesdeosanos1970,naSua,cujaobrabasilara Porumageografiadopoder,publicadaoriginalmenteem1980,naFrana.Suaatenotemseconcen-tradonaselaboraesterico-metodolgicas,pormcomdiferentesapli-caesempasescomoaSua,oBrasil,aItlia,dentreoutros.

    Raffestin(1993[1980]),comosabemos,destacaocarterpolticodoterritrio,destacando,aomesmotempo,aspectoseprocessoseconmicose simblicosemsuaconstituioena territorialidade,comfortenfaseparaas relaesdepodereparaas redesdecirculaoecomunicao.Eessanfaseumadesuasprincipaiscontribuies,subsidiandonovasabordagensdoterritrio,dasrelaessociaisedodesenvolvimento.

    Emsuaconcepo,oterritrioobjetivadoporrelaessociaiscon-cretaeabstratamente,relaesdepoderedominao,oqueimplicaacris-talizaodeumaterritorialidadeoudeterritorialidadesnoespao,apartirdasdiferentesatividadescotidianas.Isso,deacordocomRaffestin,assen-ta-senaconstruodemalhas,nseredes,delimitandocamposdeaes,depoder,nasprticasespaciaisqueconstituemoterritrio.

    Destaca tambm o que denomina de sistema territorial, resultadodasrelaesdepoderdoEstado,dasempresaseoutrasorganizaesedosindivduos.Essesatoresgeramastessituras,maisoumenosdelimitveiseasterritorialidadesqueseinscrevemnasdinmicaspolticas,econmi-caseculturais.Emboratratededelimitaes,Raffestin(1993)reconheceeindicaumatransposiodoslimitespolticoseadministrativosatravsdeatividadeseconmicasedeviasemeiosdecirculaoecomunicao.

    Sucintamente,fazumaabordagemmltipladoterritrioedaterri-torialidade,relacionalehistrica,simultaneamente.Issotemsidoconside-rado,nomeioacadmico,umainovaomuitoimportanteparaapoca,subsidiandomuitaspesquisas,debatese interpretaes,nosomentenageografia,mastambmemcinciascomoasociologia.

    Destacamosduas contribuiesdeClaudeRaffestin, que conside-ramosmais relevantesparanossa reflexo: a) a importnciadanature-

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    mArcos Aurlio sAquet | eliseu sAvrio sPosito

    za(recursosnaturais)comoelementopresentenoterritrio.Emboranoaprofundeoestudodessaquesto,enfatizaousoeatransformaodosrecursosnaturaiscomoinstrumentosdepoder;b)aimportnciaecentra-lidadeda territorialidadenavidacotidiana,comombitode tomadadedecisesedeorganizaopoltica,oqueinspirarconcepescomoadaterritorialidade ativa,descritaerefletidaporGoverna(2005),porexem-plo.ParaFrancescaGoverna,aposiodeC.Raffestincompreendeater-ritorialidadecomorelaessociaisefetivadasparaasatisfaodeneces-sidadescomoauxliodemediadores(mdiateurs),nointuitodeseobtermaiorautonomia possvel.

    AconcepodeRaffestin(1993[1980])sobreterritrioeterritoria-lidade processual, relacional emltipla, subsidiando a elaborao deidiasemfavordaorganizaopolticaedodesenvolvimento local.Deacordo comGoverna (2005), o que tambm fora observado por Saquet(2003[2001],2004e2006),aconcepodeClaudeRaffestinsobreopodersubstancialmentedistintadadeRobertSack,ouseja,paraRaffestin,asrelaesdepodersomultidimensionaiseefetivammalhas,nseredes.Aterritorialidade,nessesentido,significaacapacidadedevalorizaodosatoresedosrecursosdeumcertolugar,atravsdeaesdeinclusoenodeexcluso:Essaumaconcepoativadeterritorialidade,resultadodeumprocessodeconstruodasaesedoscomportamentosquedefinemasprticas(tambmdeconhecimento)doshomensemrelaorealidadematerial(GOVERNA,2005,p.57).

    Aomesmotempo,naItlia,GiuseppeDematteis,desdeosanos1970,argumentaemfavordoterritrioconstrudohistoricamenteporsujeitosso-ciais que se relacionamentre si.Essa compreenso tambm inovadora epioneiraaparecemaisdetalhadamenteemsuaobrade1985,posteriormenteratificadaemDematteis(2001),naqualoterritrioeaterritorialidadesocompreendidoscomoprodutosdoentrelaamentoentreossujeitosdecadalugar,dessessujeitoscomoambienteedessessujeitoscomindivduosdeoutroslugares,efetivandotramastransescalaresentrediferentesnveisterri-toriais.Oterritrioumaconstruocoletivaemultidimensional,comml-tiplas territorialidades interagidas (poderes, comportamentos, aes) quepodemserpotencializadasatravsdeestratgiasdedesenvolvimentolocal.

    Esta abordagem tem algumas similaridades quela de Raffestin(1993[1980]),quetambminspirouaelaboraodeconcepesrenovadasdoterritrio,daterritorialidadeedodesenvolvimento,subsidiandoade-finiodeplanoseprojetosdedesenvolvimento,comoocorreapartirdosanos1990e,sobretudo,apartirde2000,naItlia,atravsdaelaboraoterico-metodolgicadoSistema Local Territorial(Slot),oqualabordare-mosnoitemsobreodesenvolvimento territorial.Humaoperacionalidadedosconceitosdeterritrioeterritorialidade,oquevemocorrendonoBra-silapenasmaisrecentemente.

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    desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA

    desenvolvimento locAl

    Vamosacrescentarmaisalgunsargumentosparatornarmaisabrangenteestetexto.Primeiramente,apresentamosalgumasidiassobredesenvolvi-mento,partindodanovaordemqueseinstauranaescalamundiale,numsegundoplano,dasidiasdealgunsautoresqueabordaramotemadema-neirapositiva,paraposteriormentetrabalharmoscomodesenvolvimentolocalmaisespecificamente.

    Iniciamoscomaconstataodequeasatividadeseconmicasain-dasoproeminentesnaconstituiodanovaordemmundialque,porsuavez,rebate-senoslugarescomsuasformasdecentralizaodegestodocapital,resultadodacombinaodediferentesarranjosinstitucionaisedaforadedeterminadasreasgeogrficas, cujas formasdeapropriaoetransformaodanaturezasetornaramhegemnicas.

    Pelanovalgicaqueseinstauranosterritrios,nohuniformidadenadistribuiodasriquezasemesmodoacessosnovastecnologias,por-quea intensidadedecoordenaoserealizaemreasbemdemarcadasedefinidaspelaforadasatividadeseconmicas,gerandoreasexcludas.Odescompassoentreaexistnciadatecnologiaedoacessoaelapodesercon-siderado,agrossomodoesempretensesdesermosconclusivos,comoumestmuloaosmovimentosdepopulao,stensesentregrupossociais,disputapelacompetitividadee,enfim,pelodes-controledosterritrios.

    Continuandonestemomento, trabalharemos comas idias de al-gunsautoresquetrataramdanoodedesenvolvimento,comoAlainLi-pietz(1988),queprocuroucompreenderasdesigualdadesespaciaisdode-senvolvimento a partir da diviso social e territorial do trabalho, tendocomobaseanoodeformaoeconmico-socialdeKarlMarx.

    Paraexplicarsuanoodedesenvolvimento,eleenumeratrstiposderegies:

    1) regies fortes em tecnologialigadasaoscentrosdenegciose/oudeengenharia,aoscentrosdepesquisaeensinotecnolgicoecientfi-co,destacandocomoimportantesasrelaesentreosramosdeati-vidadeseovaloreaqualificaodamo-de-obra;

    2) regiesqueapresentamdensidade de mo-de-obra qualificada(tcni-coseoperriosqualificados)quetenhamcomobaseumatradioindustrial,ouseja,quecontamcomapresenadagrandeindstriaecomvalormdiodaforadetrabalho;

    3) regiescomreservademo-de-obracombaixa qualificaoebaixovalordeproduo, sendo, emalgunscasos,derivadasdodeclniodasindstrias.

    Essesdiferentestiposderegiesestariam,emtese,aptosaalavan-carodesenvolvimentoemdiferentesmagnitudes,dependendonosdes-

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    sascaractersticas,mas,tambm,desuacombinaocomoutrosfatores,conformandoaformaoeconmico-social.

    Outroautor,NeilSmith(1988),afirmaqueastendnciascontra-ditriasparaadiferenciaoeparaaigualizaodeterminamaprodu-odoespao.Emoutraspalavras,ascontradiesdovaivmdo capital,aose inscreveremnapaisagem,provocamodesenvolvimentodesigual,diferenciandoasreascomaltastaxasdelucro,deumlado,eosurgi-mento de reas que podem ser consideradas subdesenvolvidas porqueseapropriamdebaixastaxasdelucro.Odesenvolvimentoeosubdesen-volvimento,nessesentido,ocorrememtodasasescalasespaciais(dain-ternacionalurbana),eovaivmdocapitalprocurasempreasmaiorestaxasdelucronasdiferentesescalas,aproveitando-sedadesigualdadededesenvolvimento.

    Noqueserefereanlisedasescalas,oautorexemplificaequalifi-casuaargumentaoapartirdoexemplodasuburbanizaoquesecon-solidouapsaIIGuerraMundial,sobretudonosEstadosUnidos.Essefe-nmenoseexplicaporqueaclassemdiaprocurousedeslocardasreascentraisdascidadesparareasperifricasemaisdistantes(oschamadossubrbios),fazendocomqueasreascentraissetornassemdeterioradasetivessemdiminuiodopreodosolourbano.Comisso,asnovasreas,aquelas procuradas pelas pessoas para fixarem residncia, tornaram-se(metaforicamente) desenvolvidas, propiciando altas taxas de retorno decapitalporcausadosinvestimentosimobilirios.

    Porm,comadesvalorizaodosolourbanodessasreasapontodarendapotencialsetornarmaiordoquearendareal,tem-seumretor-nodocapitalaelas,ouseja,surgeumprocessoqueSmithchamade re-desenvolvimento.Assim,pode-seconcluirqueodesenvolvimentodesigualprodutododesenvolvimentocapitalista(nasmaisdiferentesescalas)e,aomesmotempo,premissaparaaexploraodasdesigualdadesgeogr-ficasparadeterminadosfinseconmicosesociais.Enfim,aacumulaodecapitale,porconseqncia,suaexpansogeogrfica,engendramumambienteconstrudoparaaproduoqueocorredemaneiradesiguales-pacialetemporalmente.

    Outroautor,EdwardSoja(1993),defendeaidiadequeoslucrosauferidospeloscapitalistassedevem,emprimeirainstncia,sdesigual-dadesregionaiseespaciais,elementosnevrlgicosparaasobrevivnciadocapitalismo.Astaxasdelucro,aprodutividadedotrabalho,osndicessa-lariaisso,dessemodo,distribudosdemaneirageograficamentedesigual.Ditodemaneiradiferente,apermannciaeametamorfosedocapitalismodevemserentendidas,acimadetudo,apartirdaproduoedaocupaodeumespaoque,fatalmente,levamexistnciadeespaosdesenvolvidose subdesenvolvidos. Isto , o desenvolvimento geograficamente desigualadvmdadinmicadediferenciaoeigualizaoespaciaisnoprocesso

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    desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA

    deinternacionalizao,jquenoprocessodeexpansouniformedocapi-talsetem,sincronicamente,umprocessodediferenciao.

    Frentepolarizaododebateentreoestruturalismoglobaleateo-riadasetapasdedesenvolvimento,surgeateoriadodesenvolvimentoen-dgenoafirmandoque,emprimeirainstncia,odesenvolvimentoeocres-cimentodasregies industriaissedevemaaspectos internos.As teoriasdodesenvolvimentoregionalendgenoedodesenvolvimentosustentvelsurgemnumcontextodecriseeconmicamundialnadcadade1980,mo-mentoemquehfortesmudanasnasregiesindustrializadas.Comode-clnioderegiesindustriaistradicionais,tem-seaemergnciaderegiesportadorasdenovosparadigmas(BENKO;LIPIETZ,1994).

    H semelhanas entre o desenvolvimento regional endgeno e odesenvolvimentolocal,sendoesteltimocompreendido,sobretudo,numcontexto de globalizao e descentralizao: o desenvolvimento localpode ser conceituado como um processo endgeno de mudana, quelevaaodinamismoeconmicoemelhoriadaqualidadedevidadapo-pulao empequenasunidades territoriais e agrupamentoshumanos.(BUARQUE,2002,p.25).

    Odesenvolvimento,nessalinhaderaciocnio,estligadotantoexploraodaspotencialidades locaisparaseualcancesocialquantoconservaodosrecursosnaturais.Porisso,pens-lorequer:a)valorizarosenraizamentos social, econmicoe culturalda sociedade local, indoalmdeanlisesestritamenteeconmicas;b)priorizarasinstituiesp-blicaslocais,aautonomiadasfinanaspblicaseoinvestimentodeex-cedentes emsetores sociais estratgicos.Emoutraspalavras,pensarodesenvolvimento local requernosomenteolharparaaeficinciaeco-nmica(agregaodevalor),mas,tambm,procurarcontribuirparaamelhoriadaqualidadedevidadaspessoas,diminuindoapobreza,porexemplo(BUARQUE,2002).

    Emresumo,osestudosacercadodesenvolvimentolocalpriorizama importncia dos agentes locais como as instituies especficas cujainterveno visa ao apoio s empresas (centros tecnolgicos, escolas deformao profissional etc.). Por isso, o desenvolvimento deriva de umacombinaode fatores favorveis a algumas atividades especficas numdeterminadotempoenumdeterminadoterritrio,ouseja,ossucessosal-canadosemumdeterminadoterritrionopodemserreproduzidospelaspolticasdedesenvolvimento.

    Juntamentecomaidiadedesenvolvimentolocal,tmsurgidotra-balhosdefendendoodesenvolvimentoapartirdaliberdade,daexpansodas capacidades humanas (SEN, 1993, 2000) e da autonomia (SOUZA,1997,2000,2003;CASTORIADIS,1983,1987).AmartyaSen(2000)defen-deaidiadedesenvolvimento associadoexpansodasliberdadesreaisdaspessoasaoassociarliberdadeecapacidadecomosendomeiosposterio-

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    ressnecessidades,isto,anecessidadealgoaparentementetemporrionaspessoaseascapacidades/liberdadesrepresentamoqueelaspodemviraser(estadoresultantedeumaefetivao).

    Emoutraspalavras,aefetivaoumaconquistadaspessoas.Aoes-tabelecerumaanlisehumanista,compreendeodesenvolvimentocomoumprocessodeexpansodasliberdadese,porisso,defendeaparticipaopol-ticaealiberdadedeexpresso,almdeoutrascapacidadesessenciaisparaodesenvolvimentosocial.Aomesmotempo,criticaavisodedesenvolvimen-toassociadariqueza,ouseja,aocrescimentodoPIBedarendaper capita,poisumapessoapodeserdemasiadorica,mas,aomesmotempo,privadadapossibilidadedeseexpressarlivrementeoudeparticipardedebatesede-cisespolticas.Emsuma:aliberdadenosomenteoobjetivoprimordialparasechegaraodesenvolvimento,mastambmoseuprincipalmeio.

    Outros dois pontos favorveis ao desenvolvimento com liberdademerecemdestaque:1)areduodamortalidadeeamelhoriadaqualidadedevidaque,naperspectivadoautor,seroatingidassomenteseoEstadopriorizarosgastoscomserviossociais,sadeeeducaobsica;2)aim-portnciadaseliteslocaisnapromoodosdireitosbsicosdecadacida-do(sadeeeducao)enadifusodoacessoaosaspectospositivosdodesenvolvimentoeconmico.

    Umoutroautor,Souza(2000,1997),defendequeodesenvolvimen-tosocioespacialdevesercompreendidoapartirdaautonomia individualecoletiva,envolvendoastomadasdedeciseseaparticipaoefetivadaspessoasnuma sociedademarcadapelaheteronomia, por sua vez, visvelnosLebenswelts urbanos (favelas, periferias etc.).O desenvolvimento seconcretizarcomaminimizaoda injustiasocialedasdesigualdadesnoacessoaoportunidadesaosmeiosdesatisfaodasnecessidades.Paratanto,necessriocompreenderoespaoemsuacomplexidadeparaevi-tarapriorismosereducionismos.

    Nestemomentodotexto,vamosconfrontardoispontosdevistaparacompletarnossaargumentaosobreodesenvolvimentolocal.Dopontodevistadomercadodetrabalhoedacapacidadeprodutivadasociedade,algumascaractersticasdevemserlevadasemconta:

    Incorporaotecnolgicaemsetoresdeponta;

    Aumentodonmerodeempresas;

    Variaodacapacidadeociosadasempresascomofatordedescom-pressodastensespolticasrelacionadasaomercadodetrabalho;

    Diminuio do tamanhomdio das empresas, considerando-se onmerodeempregados;

    Diminuiodonmerodeempregoscomcapacitaosofisticadaeaumentodonmerodeempregossemgrandesespecializaesouprecrios;

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    desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA

    Formaoderedesdearticulaoentrediferentessetores(empresasebancos,indstriaseserviosetc.);

    Localizaodasempresasemeixosdecirculaodepessoasedemercadoriasdefinidosporestruturaslogsticassofisticadas.

    Dopontodevistadomercadoconsumidore levando-seemcontaopapeldaredeurbana,deve-selevaremconsideraoosdeslocamentosparaaaquisiodebense servios tantomontante,quando se consi-deramascidadesmaiores(metrpoles,reasmetropolizadasougrandesaglomeraes),quanto jusante,quandosedestacaopapeldascidadesmdiasquedesempenhamopapeldeplosparaosquaismoradoresdeci-dadesmenoresedereasruraisestodispostosasedeslocarpararealizaroconsumodebenseserviosmaissofisticadosdoqueaquelesaquetmacessoemsuasreasderesidncia.

    Aproximidadetemrelevncia,mesmoconsiderando-sequeasdis-tnciasdedeslocamentopodemseampliaroudiminuir,dependendodasformas de transportes e da situao da rea de realizao do consumoemrelaoaosprincipaiseixosdecirculaodemercadoriasepessoas,almdeseconsideraremaspossibilidadesindividuaisecoletivas(dispo-nibilidade,freqncia,poderaquisitivoetc.)dedeslocamento.Nestecaso,osfluxosdefinem-senombitoterritorialmaisprximoesomarcadospelacontinuidadeterritorial,cujaconfigurao,emalgunscasos,deumarea e,emoutroscasos,deumeixo.

    Oeixo,entendidoaquicomoumparadigmacadavezmaismarcantenasdinmicasterritoriais,facilitaoconsumodebensdistncia,tornan-docomplexaarelaoentreascidadesdediferentesportesnaredeurba-na,relacionando-asnomaisdeformahierrquica,mascomumacombi-naohierrquico-horizontal,oquepermitequeosfluxosseestabeleamentreametrpoleeascidadespequenas,entreascidadesmdiaseasci-dadespequenas,ouentreascidadesmdiaseasmetrpoles,seconside-rarmosumterritrionacional.Issopode,noentanto,ultrapassarfrontei-ras,fazendocomqueosfluxosdepessoas,mercadoriaseinformaessefaamentrecidadesdediferentesportesecomdiferentesposiesnaredeurbana,consubstanciandoaquiloquejbemconhecidodosgegrafos,ouseja,anoodeglobalizao.

    Essadinmicaterritorialdefinidapelalgicadasredesquepodemsubverterarelaoordem-tamanhoeasrelaesmontanteoujusante,gerandorelaesdeconcorrnciaecomplementaridadeentrecidadesdemesmaimportncia.Enfim,aconfiguraoseestabeleceemformadere-deseconformadapeladescontinuidade territorial caracterizadapelafluidezepelavelocidadenasrespostasaosimpactosexternoseinternos.

    Asdinmicasterritoriaisdefinidasporessalgicadependemdain-fra-estruturaedasestratgiasespaciaisorganizadassegundoaspossibi-

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    lidades de localizao industrial e de servios, reforando as diferentespossibilidadesdedesenvolvimentolocalembasadonacombinaodaca-pacidadedearticulaointernadasforaslocais,dasuacapacidadederecebimento e de utilizao dos impactos externos e das combinaespossveisentreospadresdelocalizaodasatividadesemreaseeixos considerando-se, logicamente, os vrios aspectos dacontinuidade e dadescontinuidade territorial.

    Paracompletar,mesmoquenodeformadefinitiva,aexposiodosaspectosqueconsideramosfundamentaisparaacompreensodaspossi-bilidadesdeseconceberoconceitodedesenvolvimento,precisamoslevaremconsiderao,ainda,quehoutrascaractersticasdasdinmicasterri-toriais.Inicialmente,atendnciaampliaoterritorialdacompetitivida-depodeserconsideradacomoumacaractersticaatualecomoumaten-dncia,incorporadacomoleiuniversalecomoideologia.

    Poroutrolado,aseletividadedoslugaresprovocaosurgimentodeambientes especializados por causa de sua capacidade de competncia,criatividadeecompetitividade,associadaaoprivilegiamentodasativida-descomgrandecapacidadedecriaoeincorporaotecnolgica,prin-cipalmente aquelas exercidas pelas grandes empresas mundiais que secapilarizam para outros nveis de competio ao se colocarem na proadastransformaesterritoriaisprovocadaspelaincorporaotecnolgica.Essatendnciaseconsolidacomopapeldalogstica(quecongregaainfra-estruturaeasformasdegestodasprticasdedeslocamentodepessoasemercadoriasenatransmissodeinformaes)quetransformaanaturezaeacapacidadedosterritriossedefiniremporsuacapacidadededesen-volvimentolocal.

    No item seguinte, enfocaremos outra noo de desenvolvimento,tratandomaisespecificamentedoterritrioeseuscomponenteseproces-sosmateriais-imateriais.

    desenvolvimento territoriAl

    NaEuropa, desdeos anos 1970, deu-seum fortemovimentodireciona-doaoentendimentodosprocessosdedesenvolvimentolocalouregional,principalmenteempasescomoaFranaeaItlia.NaItlia,porexem-plo,hconcepeselaboradasporpesquisadorescomoCalgeroMusca-r,GiuseppeDematteis,GiacomoBecattini,GioachinoGarofoli,ArnaldoBagnasco,AlbertoMagnaghi,entreoutros,destacando-se,desdeosanos1960-70,aimportnciadolugaredoterritrioparaadefiniodeestrat-giasdedesenvolvimento.

    Humarelaomuitosignificativaentreodesenvolvimentoecon-micodoCentro-Norte-Nordesteitalianoeestudosfeitosporesseseoutrospesquisadores,queelaboramoqueosocilogoArnaldoBagnascodenomi-

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    desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA

    nou,nofinaldadcadade1970,deabordagemterritorial.NaItlia,defato,diferentementedoqueocorreunoBrasil,oconceitodeterritriotevecen-tralidadenomovimentoderenovaodecinciassociaiscomoasociologia,aeconomiaeageografia,inspirandoestudossobreaorganizaoeousodoterritrioeaconstruodepropostaseprojetosdedesenvolvimentolocal.

    Como no nosso propsito abordar todas as concepes elabo-radasnaItliaenaFrana,destacamosaspectosdaconstituiodoSlot(Sistema Local Territorial),pelochamadogrupodeTurimItlia.Ocoor-denadordessegrupodeestudosfoiepermaneceGiuseppeDematteis,en-volvendopesquisadoresimportantescomoSrgioConti,AnaSegre,Fran-cescaGoverna,EgidioDansero,CarloSalone,entreoutros,doPolitcnicoeUniversidadedeTurimedeoutrasuniversidades,comoVincenzoGuar-rasi,BrunoVecchioePaolaBonora.Evidenciamosessaexperincia,porsuaimportncianomeioacadmico,tantonaItliacomoempasescomoaEspanha,aFranaeoBrasil.

    Umadasobrasclssicasnesseprocesso,emboraoautornotenhaparticipadodiretamentedaconstruodoSlot,adeBagnasco(1977).emseuTrsItliasqueArnaldoBagnascoelaboraasbasesdeumateori-zaoquemarcouefetivamenteosestudosregionaisrealizadosemdife-rentespases,especialmentenaeconomia,nageografiaenasociologia.

    Bagnasco(1977)compreendeoterritriocomorea,comcaracte-rsticaseconmicas,polticaseculturaisespecficas,naqualseusagentessociaismantmrelaescomagentesdeoutrasreas.Essaconexoentrediferentesterritriosumacontribuiomuitoimportantedoautor,queadenominadearticulaoterritorial,ouseja,umacombinaoentredi-ferentesclassessociaisqueseterritorializam.Tratam-sederelaesqueocorremtantononvelinternocomoexternamenteacadapas,emvirtu-de,especialmente,dacirandamercantil.Oautor,coerentemente,tambmabordaelementospolticoseculturaisdaconstituiodosterritriosedassuasarticulaes,destacandoosprocessoseconmicosepolticos.

    Osterritrios,emsuaconcepopioneira,tmcaractersticasespe-cficasqueosdiferenciamunsdosoutros,comoprodutosdadinmicaso-cioeconmica,sendoqueelesestoemarticulaoeconexonomercadonoqualtambmexistemrelaespolticaseculturaisqueseefetivamnotempoenoespao.Essaarticulaoassumeumcartercentralnaabor-dagemdesseautor,apontodeserconsiderada,elamesma,umadasmlti-plasdeterminaesdeumarealidadeconcreta.

    Oterritrio,assim,almdereaeformasespaciais,significacone-xo,articulao,resultadoecondiodadinmicasocioespacial.Eode-senvolvimentomarcadopelaespecializao produtiva locale,aomesmotempo,pelaagregao territorial,pormudanas/inovaeseporpermann-ciassociaiseterritoriais.Ditodeoutramaneirah,noterritrio,umde-senvolvimentodesigualecombinado.

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    Posteriormente,emAconstruosocialdomercado,obrapublica-daem1988,ArnaldoBagnascoreforasuaabordagemmltipladodesen-volvimentoregional,ouseja,consideraaspectospolticos,econmicoseculturaisecontinuareconhecendodiferentesrecortesregionaiscomofor-maes sociaisdistintas,coexistentesearticuladasemtramassociais.Bag-nasco(1988)evidenciaquatromecanismosprincipaisderegulaoecon-mica,presentesnaterritorializao:a)areciprocidadeentreosindivduosouinstituies;b)omercado,criadorderelaeseaessociais;c)aor-ganizao,internaeexternaacadaempresa;d)asrelaespolticas,comoformadeintervenoetutelamentodeinteressesdedeterminadosgrupossociais.Essesmecanismosestosemprepresentes.Oquemudanoespaoenotempososuascombinaes.Ficaclaro,dessamaneira,suaaborda-gemprocessualerelacionaldeterritrioededesenvolvimentoeanfaseparaosfatoreseconmicosepolticos.

    NoqueserefereespecificamenteelaboraodoSlot,pelogrupodeTurim,ressaltamosumtextopublicadoporGiuseppeDematteisem2001,porresumirmuitobemsuaargumentaoparaoentendimentodo territrio e da territorialidade, atravs dos sistemas locais territo-riais.OSlot,paraesseautor,deveser,aomesmotempo,uminstrumen-to de poltica territorialeumaformaanalticae,porisso,construdoapartirdarealidade.

    Dessa forma, Dematteis (2001) prope os seguintes componentesanalticosparaoSlot:a)arede local de sujeitos,quecorrespondesinte-raesentreindivduosemumterritrio local,ondehrelaesdeproxi-midade ereciprocidadeentreossujeitosdolocaledeoutroslugares.Haconstruodeumator coletivo;b)omilieu local,entendidocomoumcon-juntodecondies ambientais locaisnasquaisoperamossujeitoscoletivaehistoricamente;c)ainteraodarede localcomomilieu localecomoecossistema,deformatantocognitiva(simblica)quantomaterial.Hin-teraesentreosdomniosdosocialedoambiente;d)arelao interativadarede localcomredes extralocais,emdistintasescalas:regional,nacionaleglobal.Hinflunciasmtuasentreolocaleoglobal.

    CadaSistema Local Territorial, dessamaneira, paraGiuseppeDe-matteis,temaspectosambientaiseumaconstruosocialhistrica,pro-cessualerelacional,naqualsedumaorganizaopolticanosentidodacoesoedaprojeodofuturo.E,comohpreocupaoeintencionali-dadecomaprojeoecomoplanejamento, importantequecadaSlottenhacapacidadedeseauto-representareseauto-projetar,sendooestudo(anlisee interpretao)ummeioparaaconquistadeautonomia, lem-brandoalgunsprincpiosdaargumentaodeAmartyaSen.Daoconcei-todeterritorialidade ativa,comoformadedesenvolvimentoeconquistadeautonomia.Istosignificaque,nessaconcepo,optarporumageografia da territorialidade implicaumamudanadeparadigmadeabordagemdos

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    desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA

    processosgeogrficosedeatuaonavidapoltica(paradetalhamentodaproposta,verotextodeG.Dematteis,publicadonestelivro).

    nessesentidoecontextoqueseelaboraoconceitodedesenvolvi-mento territorial, compreendido levando-se emconsideraoos compo-nentesde cada territrio, ou seja, tantoos econmicos, comopolticos,culturaiseambientais.Aterritorialidade,apartirdoconceito(ounoo)elaboradoporClaudeRaffestin,vistacomoumapossibilidadedemedia-oparaaconstruodenovosprojetosdedesenvolvimentoeaconquistademelhorescondiesdevida,comautonomia.

    Aautonomianosignifica,deformaalguma,umaespciedefecha-mentodolugarcomrelaoaorestantedomundo.Aocontrrio,signifi-caacapacidadedecontroleegestodedeterminadosprocessospolticos,econmicos,culturaiseambientais,demaneiraqueossujeitosenvolvidosdiretamenteemcadaprocessopossamdefinirosplanoseprojetosemcon-sonnciacomatoreseprocessosdeoutroslugares.Humarelaodeuni-dadenadiversidadequeprecisasergeridacomvistasaodesenvolvimentocommaisjustiasocial.

    EmconsonnciacomArnaldoBagnascoeGiuseppeDematteis,duasdasprincipaisrefernciasnombitointernacionalsobreasquestesdoter-ritrio e do desenvolvimento, podemos afirmar que as interpretaes doterritrioe/ouasiniciativasdedesenvolvimento territorialprecisamcon-siderar,necessariamente,osseguinteselementos/componenteseprocessos:

    Aarticulaodeclasseseaconstituioderedesetramaslocaiseextralocais,quesignificamrelaesdepoder,efetivadasemcadalu-gareentreoslugares,emvirtudedesuasdesigualdades,diferenaseespecificidades.

    Ocarter (i)material, conciliando-seos fatoreseelementoscultu-rais,polticos,econmicosenaturais,emunidade.

    Aproduodemercadorias(ouexcedentes),arecuperaoeapre-servaodanaturezaexterioraohomem.

    Avalorizaodaspequenasemdiasiniciativasprodutivas.

    Avalorizaodossabereslocaisedasidentidades.

    Aconsideraodoprocessohistricoedopatrimniodecadalugar.

    Aproduoecolgicadealimentos.

    Aorganizaopolticalocal,comvistasconquistadeautonomia.

    Adiminuiodasinjustiasedasdesigualdadessociais,dentreoutros.

    Esseselementossoconsiderados,porexemplo,noBrasil,emobrascomoasdeSaquet(2003[2001]e2006),naanlisedoterritrio,daterri-torialidadeedodesenvolvimento,nointuitodesubsidiareorientaraela-boraodeplanoseprojetosespecficosdedesenvolvimento,quevisem

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    conquistadeautonomia.Attulodeilustrao,podemosmencionarduasexperinciasconstrudasnoSudoestedoParan,apartirdosanos1990,comessainspirao.

    Asexperinciassoasseguintes:a)oProjeto Vida na Roa,pensadoeefetivadoatravsdaatuaoconjuntadevriasinstituies(pblicaseumaONG,aAssesoar),entreosanos1996e1998,considerandoaintera-odeaesvoltadasparaasatividadeseconmicas,polticaseculturaisdeumgrupodemaisde100famliasdeagricultoresfamiliareseprimandopelarecuperaoepreservaodoambientee,b)oProjeto Vida no Bairro,construdotambmemparceriaedeformaparticipativa,envolvendodi-ferentesinstituies.Nesseprojeto(SAQUET;PACFICO;FLVIO,2005)tambmtrabalhamoscommaisde100famliasmoradorasemumbair-roperifricodacidadedeFranciscoBeltro(PR).Nasuaelaboraoenaconcretizaodas aes, entre2001 e 2005, tentamos estabelecernovasrelaeseatividades,emtramasterritoriaiscentradasnaformao/edu-caodos sujeitosenvolvidos,naorganizaoeparticipaopolticanatomadadedecises,napreservaodoambiente,navalorizaodaidenti-dadejexistenteentreosmoradoresdobairro,enfim,tentamosviabilizaratividadesquepossibilitassemmelhoriasnascondiesdevidadaquelaspessoas,comumcertonveldeautonomiadiantedeprocessospolticosconservadoreseinerentesdominaosocial.

    Sucintamente, pensar, discutir e estabelecer aes de desenvolvi-mentoterritorialsignifica,numprimeiromomento,terumacompreensorenovadaecrticadoterritrio,daterritorialidadeedodesenvolvimento.Nobastasubstituiroconceitoderegiopelodeterritrio,comocomu-menteocorrenoBrasil.necessrioconhecer,comclareza,suasdiferen-tesabordagensassimcomoasdeterritorialidadeedesenvolvimento,comoorientaoinicialparaareuniodaspessoasquedesejamrearranjarsuaformadevida.

    Apartirda,fundamentalconsideraroselementosqueestopre-sentesemcadaterritrioquedescrevemosanteriormentee,acimadetudo,ossujeitosqueefetivamessesterritrios,suasnecessidades,seusvaloresepatrimnios,ascondiesdanaturezaexterioraohomem,enfim,suasrelaeseseuslugaresdevidacotidiana,historicamenteconstitudosdemaneiraimaterial-material.Emvezdecondicionaroslugaresstcnicasestecnologiasdochamadomundomoderno,necessrio,maisdoqueemoutrosmomentosdahistriadahumanidade,ajustarastcnicaseastecnologiasaoslugares,suasespecificidadeshistrico-geogrficas,ouseja,territoriais,nointuitodeconcretizaraesdedesenvolvimentoterritorialcomautonomia.Podemoscompreender,nessesentido,odesenvolvimentocomoaorganizaoealutapelaliberdade,pelajustiaepeloconhecimen-to.Quantomaisconhecimento,maiscondiesteremosparanossaorga-nizaopolticaelutapelaautonomia.

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    desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA

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    sistemA locAl territoriAl (slot): um instrumento PArA rePresentAr, ler e trAnsFormAr o territrio

    giuseppe DematteisGegrafo,ProfessordeGeografiadoPolitcnicoeUniversidadedeTurim-Itlia|giuseppe.dematteis@polito.it

    Seguidamente se faz um uso excessivamente retrico da palavra terri-trio, sugerindo-se visesparciais oudistorcidasda realidade.Parciaisquandoopensamoscomoumconjuntomaterialdecoisassematores,ouquandocremos,aocontrrio,queoagirpoltico,social,culturaleecon-micopossaserdesligadodesuamaterialidade.Ou,ainda,quandooter-ritriopensadocomosimplesreceptorpassivodeefeitosderivadosdeumagirsocial,econmicoepolticoqueoperariaemumaesferaautno-maedistintadarealidadematerialdoslugares.

    Sefosseassim,isto,seoterritriofossesomenteasuperfcieso-breaqualseprojetaalgumaatividade,noserianecessrioneleintervir:aspolticasterritoriaisnoprecisariamexistir,ouseja,bastariampolticaseconmicasesociaisque,regulandorelaesintersubjetivaseabstratas,regulariamosefeitoseosimpactossobreele,dando-lheaformaeaorga-nizaodesejada.

    Seria,certamente,umagrandefacilidade,pormessavisodesma-terializadadoagirhumanocontrastacomofatodequetodasascoisasquefazemos,comoindivduosecomosociedade,devemserefetivadasconsi-derandoosbenseosrecursosnaturaisprimrios,osequilbrioshidrogeo-

    1 Traduo:ProfessorDr.MarcosAurelioSaquet.

  • desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA

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    lgicoseecossistmicos,ossolosprpriosparaasedificaes,opatrim-niohistricoeartstico,ocapitalfixoexistente(infra-estruturas,edifcios,construesetc.).Sotodosesseselementos,solidamenteligadosaosoloedistribudosnoespaogeogrficodemaneiravariadaque,combinando-secomasnossasexignciasdeviver,habitar,produziresonhar,modelam,notempo,asociedadeeaeconomia.Podeacontecer,tambm,queoproces-soco-evolutivodelongaduraopassedesapercebidoeanossapercepoimediatasejaqueasociedademodelaoterritrio,semseconsiderar,tam-bm,queocontrrioocorre.

    Poressemotivo,qualquerpolticaeconmica,socialecultural,queobjetivasereficazdeveocupar-sedo territrio,vistonosomentecomoprodutodoagirhumano,mastambmesobretudo,comomeioematrizdeumfuturo,visandoproteodoconjuntodecondiesnecessriasvida.Issoequivaleadizerque,paramelhoraraqualidadedoambienteedasociedade,paraproduzirculturaedesenvolvimentoeconmico,preci-samosagirconsiderandoaterritorialidade,entendidacomoasrelaesdi-nmicasexistentesentreoscomponentessociais(economia,cultura,ins-tituies,poder)eoselementosmateriaiseimateriais,vivoseinertes,quesoprpriosdosterritriosondesehabita,seviveeseproduz.

    territoriAlidAde AtivA e PAssivA

    Parasecompreenderopapeldaterritorialidadenosprocessosdedesenvol-vimentonecessrioesclarecerosprincipaissignificadosassumidosporessetermoesuasdiferenasessenciais.

    Deacordocomalgunsautores,comoR.D.Sack,aterritorialidadepodeserdefinidacomoatentativadeumindivduooudeumgrupodeinfluenciaroucontrolaraspessoas,osfenmenoseasrelaes,delimitan-doeexercitandoumcontrolesobreumareageogrfica.Essareaserchamadaterritrio.

    Bemdiferenteaposiodeoutrosautoresque,juntamentecomC.Raffestin,definematerritorialidadecomoumconjuntoderelaesquenascememumsistematridimensionalsociedade-espao-tempo,comvis-tasmaiorconquistapossveldeautonomia,compatvelcomosrecursosdeumsistema.Eainda:conjuntoderelaesqueumasociedade,eporissoosindivduos,tmcomaexterioridadeecomaalteridadeparasatisfa-zerosprpriosdesejoscomaajudademediadores,naperspectivadeobteramaiorautonomiapossvel,tendoemcontaosrecursosdeumsistema.Nessecaso,aterritorialidadenooresultadodocomportamentohuma-nosobreoterritrio,masoprocessodeconstruodetaiscomportamen-tos,oconjuntodasprticasedosconhecimentosdoshomensemrelaorealidadematerial,asomadasrelaesestabelecidasporumsujeitocomoterritrio(aexterioridade)ecomosoutrossujeitos(aalteridade).

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    giusePPe demAtteis

    Essas duas abordagens, diferentes em relao territorialidade,indicamdoismodosdiversosde considerar o local e as relaes comoterritriodossujeitos.possvel,assim,distinguir-seuma territorialida-de passivaenegativaque,comestratgiasdecontroleecomosistemanormativoassociado,objetivaexcluirsujeitoserecursos,eumaterritoria-lidade ativaepositiva,quederivadasaescoletivasterritorializadaseterritorializantesdossujeitoslocaiseobjetivaaconstruodeestratgiasdeincluso.Nestesterritrios,vistoscomoativos,aterritorialidadecor-respondeamediaessimblicas,cognitivaseprticasentreamateriali-dadedoslugareseoagirsocialnosprocessosdetransformaoterritorialededesenvolvimentolocal.

    Cabedestacar queno sempre que a territorialidadepassiva serealiza comprticas de coero e comobjetivos negativos. Antes disso,ocontrole seexercita coma finalidadedobem.Este bem,porm,definidopelosdominadores,enquantoosdominadosnotmapossibili-dadeautnomadejuzoedeagirparafazervalerseusinteresses.Essaumaformadetratamentoedomododesatisfazerasnecessidadestpicadatradioadministrativaedoplanejamentoterritorial,entendidocomoregulao autoritria das decises e como estruturao hierrquica dosconflitos.Naconstruodasformaspassivasdaterritorialidade,defato,aossujeitos(locais)sotransferidoscomportamentospr-definidospelasestruturasdecontrole,deacordocomexpectativasexternas,semsepreverquepossamagirdemaneiraprpria,comaesautnomas.Jnaterrito-rialidadeativaossujeitoslocaisefetivampapiseaesconfigurando,des-semodo,estratgiasderesposta/resistnciacomrelaosimposiesdecontrole,contribuindopararealizarmudanaseinovaes.

    os sistemAs locAis territoriAis (slots)

    Paraqueaconcepoativaepositivadaterritorialidadepossaser,defato,operativanosprocessosdedesenvolvimento,precisamostraduzi-laemummodeloconceitual,quesirvaantesdequalquercoisa,analiseedescriodarealidadeedaspotencialidadessociaiseterritoriaisjexistentesparaseconstruir,apartirdisso,ossistemas,aomesmotempo,territoriaisesociais,destinadosaseconfigurarematoresdedesenvolvimentolocalnombitodaspolticasmunicipais,estaduaisenacionais.Pesquisasempricasapli-cadasaproblemasdedesenvolvimentolocaledeprojeointegradaporcontadeentidadespblicas(municpios,provncias,regies,ministrios),juntamentecomestudosdecasoecomreflexes terico-conceituais re-centementedesenvolvidasemumapesquisanacionalPRIN-MIUR,permi-tiramgerarummodelosimplificadodesistemalocalterritorial(SloT),aomesmotempo,analticoecomomeioparaoplanejamentoeconcretizaodeprojetosdedesenvolvimento.Umsistemalocalterritorialconstrudo

  • desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA

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    apartirdoquejexisteeissopodegarantiraeficciadeprojeodoqueseredificado.

    Comoinstrumentoanaltico,omodeloconceitualSloTcompostopelosseguinteselementos:

    i) A rede local de sujeitos:formadapeloconjuntoderelaeseintera-esentreossujeitos(individuaisecoletivos,pblicoseprivados,locaiseglobais),presentesouativveisemumcertoterritrio local.Aqui,porlocal,entende-seaescalageogrficaquepermiteintera-es tpicas de proximidade fsica: relaes baseadas no conheci-mentoenacomunicaodireta(face-to-face),naconfiana,nare-ciprocidade,naexperinciacomumeprticadeumcertocontextooumilieuterritorialetc.Porisso,considera-setantoadimensodeuma vila ou de um pequeno bairro como uma provncia italiananomuitogrande,quetambmadimensonormaldeumsistematerritorialurbanodetamanhomediano.Comea-seafalardoSloTquandoesseagregadodesujeitosagedealgummodoeemalgumaocasiocomoumatorcoletivo,isto,quandoseempenhanaelabo-raoenarealizaodeprojetoscomunsdetransformao,desen-volvimentoerequalificaodoprprioterritrio.

    ii) O milieu local:indicaoconjuntodecondiesfavorveisaodesen-volvimentoespecficodocontextoterritorialnoqualoperaumacer-taredelocaldesujeitos,da forma como estes percebem estas condi-es.Humreferimentoobjetivoaosrecursospotenciaisimveis(ocapitalterritorial)prpriosdoterritriolocal,isto,aoconjun-toderecursosmateriaiseimateriais,queestosedimentadoslocal-mente comoresultadodeum longoprocessoco-evolutivoentreasociedadelocaleoterritrio.Ocapitalterritorialnoconsiste,po-rm,simplesmentenoconjuntoobjetivoderecursos (assimcomoopoderiadescrevereavaliarumpesquisadorexterno).Eletemumladosubjetivoquecompreendeas representaeseasatribuiesdevalorefetivadaspelossujeitoslocais.Correspondeaoconjuntodepropriedadesquearedelocaldossujeitosconsideracomoprises(ex-pressodogegrafofrancsA.Berque)paratransformaremelhoraroseuambientedevida.

    iii) A relao de interao da rede local com o milieu e com os ecossiste-mas locais:consistenatraduodaspotencialidadesdomilieuemvaloresdo tipoambiental, cultural, esttico, social e econmico atravs de processos de transformao simblica ematerial doambiente.

    iv) A relao interativa da rede local com redes globais(redeslongas;tendencialmenteglobais):soasaesquemodificamtantoacom-posioda rede local, comoomilieu, as relaes cognitivas, sim-

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    giusePPe demAtteis

    blicasetecnolgicascomoambientelocaleosvaloresexgenos(cognitivos,culturais,sociais,econmicos).Humainteraoentreosvaloreslocaiseglobais.

    Essaformadedefinirossistemaslocaistemalgumasimplicaesrelevantes.Antesdetudo,aidentidadedoSloTdefinidanosomentecomrelaoaosentidodepertencimentoememriadopassado,mastam-bm,esobretudo,emtermosdeorganizao do sistema,isto,comocoe-soparaoplanejamentodofuturo.CadaSloT,pelofatodeterumaorgani-zaoespecficaeumdomnio cognitivoprprio,reconhecidocomosededeelaborao (tambmconflitual)de racionalidades locais que se expli-camatravsdeprincpioseregrasespecficasdeusoedeorganizaodoterritrio.Comoconseqncia,paracadaSloTseatribuiumacapacidade(maisoumenosexplcita)deauto-representaoedeauto-projeo;capa-cidadequeinteragecomaquelasanlogasdonvelglobalnasformasdecooperao,deconflitoedenegociao.

    Enfim,aauto-organizaodosistemalocalconsideradaumrecur-soendgenoqueaspolticasgeraisdedesenvolvimentodevemconhecer,orientaregovernar.Esserecursooverdadeiroobjetodeanliseparacadasistematerritoriallocal.Aindividualizaodossistemaslocais,dasredesedosambientescomoentidadesterritoriaissomenteuminstrumentoparasedescobriredescreverasformaslocaisdeterritorialidadeativa,ouseja,asmodalidadesdeorganizaolocal,comoobjetivodeativareorientarprocessosdedesenvolvimento.

    Cabedestacarque, referindo-seaentidades territoriais (comcon-tornosvariveis),onossosistemalocalterritorialsediferenciaconceitual-mentedacategoriasimilarutilizadaanteriormenteporgegrafos,plane-jadoreseoutrosestudiosos,comoopaysdageografiavidaliana,asregieshomogneasefuncionais,ossistemasurbanos,osdistritosindustriaisetc.Defato,nossosistemalocalterritorialnoumsistemajexistentequefuncionacomatorescoletivosterritoriais,masumasriedeindcios(atitu-des,experinciasetc.)edepr-condiessubjetivaseobjetivasque,comaintervenodeestmulosoportunosecomaesdegovernana,poderen-deraconstruo,emcertareageogrfica,deumsistematerritorialcapazdecontribuirautonomamenteparaodesenvolvimento.Enfim,osistematerritorialmaisapropriadoumterritrioondesejapossvel fazerboaspolticaseaeseficazesparaodesenvolvimento.

    ComoSloTseindicaumapotencialidaderealizvelnarelaoentrecertoscomponentesobjetivosesubjetivos,quesoanalisadoscasoacaso,comxitosomenteemparteprevisvel.AanliseSloTnodarjamaiscer-tezasabsolutassobrearealidadeenemsobreaprojeodofuturoedodesenvolvimento.Elaindica,porm,umapossvelarticulaodoterrit-rio,apartirdosindciosestudados,sendoqueagovernanadirecionadaao

  • desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA

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    desenvolvimentoterritorialsermaiseficazemrelaoaoutrosencami-nhamentosquenoconsideramadistribuioterritorialdascapacidadesauto-organizativasdossujeitoseassuasinteraescomocapitalterrito-riallocal.

    Concluindo,oSloTpermite:

    i) Delinearageografiadaprojeoedoagircoletivoemumterritrio(regional,nacional,transnacional)combasenasrelaessociaiseterritoriaisexistentes;

    ii) Individuaroestadoatualdestasrelaesque,normalmente,soin-completas;

    iii) Avaliarapossibilidadedeativarasrelaesquefaltameosproces-sosdedesenvolvimentoautocentrados;

    iv) Avaliaraexistnciaeascaractersticasdosvaloresterritoriaispro-duzidos;

    v) Sugeriraarquiteturamaisapropriadaparaconstruir,casoacaso,umsistemadegovernanaeficazparaaimplementaodepolticaseparaarealizaodeprogramaseprojetos;

    vi) Avaliarasustentabilidadeterritorialdodesenvolvimento,compreen-didacomocapacidadedereproduzireenriquecerocapitalterrito-riallocalsemempobrecerodeoutrosterritrios;

    vii)Oferecerumasustentaocognitivaparaplanosepolticasdevastasreasbaseadosnaarticulao,emrede,dossistemaslocaisterrito-riais.

    Alguns ProBlemAs

    AaplicaodomodeloSloTanlisedeumterritriodenotaalgunspro-blemasmetodolgicosquemerecemserilustradosbrevemente,tendopre-senteasexperinciasdepesquisadecamporealizadasnocursodenossosestudos.

    A individuAlizAo dos possveis sloTsnecessrioteremmentequeonossomodelonoserveparaestudarasubdivisoracionaldeumterritrioemunidadegeogrficadenvellocal,masparaexploraredescreverageografiareferenteaumrecursoparticu-lar,quecorrespondecapacidadedeauto-organizaolocaledeagrega-oterritorialvoluntria,vistacomointerfacenecessriaparaativar,eemumacertamedidatambmproduzirrecursosespecficosnosprocessosdedesenvolvimento.Diantedoprocessodefragmentaoeglobalizaoeco-nmica,essesrecursosnosodistribudosuniformementeetambmnoexistememtodososlugares.Ento,comopodemosindividualiz-los?

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    giusePPe demAtteis

    Tratando-se de recursos prprios das sociedades locais, amelhormaneiraparadescobri-lospareceseraquepartedeumaanlisedasagre-gaes territoriaisdesujeitosprivadosepblicos,quegeraramprojetoseaesdirecionadosaodesenvolvimentolocal(nosomenteeconmico,mastambmsocial,culturaletc.).Porexemplo:nasnossaspesquisasem-pricasforamanalisadasredescomoasdospactosterritoriais.Cadaagre-gaomaisoumenosvoluntriacorrespondeaumarededesujeitoslocais(eglobaiscomancoragenslocais)quepodesercartografada.Sobrepondoasvriasconfiguraesespaciaisderedesqueemergemdosadensamentosemcertasreas,podemosdefinirumaprimeirageografiadastendnciasauto-organizativas locais etc.Tais adensamentosdeprojeo e ao co-letivasoindciosdepossveisSloTs.Numsegundomomento,asuacor-respondnciaaomodeloeosseuslimitesaproximadospodemsermelhordefinidosexaminandoacomposiodasredes,opapelefetivodossujeitosparticipantes, os objetivos e os resultados esperados, a estabilidade dasagregaes,osmbitosterritoriaisdosprojetosedasaes,eadistribui-oespacialdocapitalterritorialativado.

    Nestafasedeanlise,umtemaparticularmenteimportanteodacongruncia da agregao territorial definida pelos projetos. Tal questorequer,deumlado,adefiniodosparmetrosque fazemcomqueumagregadodesujeitossecomportecomoumsistemalocal;dooutrolado,aindividualizaoedelimitaodombitoterritorialnoqualagemossu-jeitoslocais.Estesdoisaspectosestoestreitamentecoligados:emefeito,somentesee quandooagregadodesujeitossecomportareagircomoumsujeitocoletivo,osistemalocalterritorialpodersergeograficamentedelimitado.Noexisteumterritrioperfeitoeadimensotimaparaodesenvolvimentolocal,porm,existemterritriosparasereminterpreta-dosapartirdoscomponentesdecadamilieulocal.Osterritriosnosorigidamentepr-determinados,massodefinidosduranteoprocessodeconstruodoatorcoletivolocal,apartirdeumahipteseinicialdeagre-gaoterritorialdossujeitosparticipantes.

    Aspr-condiessubjetivassoconfrontadascomoutrasdetipoob-jetivo,nointuitodeseverificaraestabilidadeeafuncionalidadedasagrega-esprecedentes(envolvidasnosprojetos).Nestecaso,deve-seconsiderar:

    i) Asdivisesadministrativasatuais.

    ii) Aquelasque,nocursodahistria,podemtercontribudoparacriarreasdeparticularcoesocultural.

    iii) Asreasdecontenodosfluxoslocais(mobilidadeporserviosepelotrabalho,input-outputentreunidadesdossistemasprodutivoslocais).

    iv) Osfluxoscorrespondentes,rodovirioseferrovirios(inclusasasre-deslocaisdostransportes).

  • desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA

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    Asanlisesobjetivaspermitemtraaroslimites(comgeometriava-rivel)dohipotticoSloT.nessafasequeapareceoproblemadadimen-sogeogrficadosistemalocal.Essadimensopodevariarentreummxi-moeummnimo,aserdeterminadocasoacasoapartirdanossadefiniodomodelo.Adimensomximacompatvelcomtaldefiniorequerqueserespeitemascondiesnecessriasdeproximidadegeogrfica,porqueasredeslocaisdesujeitoscapazesdeaescoletivasseformamsobreabasederelaesqueimplicamconhecimentodireto,confiana,interessescomunseprojetosligadosaumcapitalterritorialtambmcomumequegarantaumalargaparticipao.

    Trata-sedembitosterritoriaiscorrespondentesaoraiodasrelaesedamobilidadecotidiana,comumadimensomximaquecertamentesub-regional.Adimensomnima,verificadapornsnombitourbano,aqueladeumbairronomuitogrande,mascapazdeelaborareexprimirprojetosautnomos.AfortediferenaentreestesdoisextremosfazcomqueonvellocalpossasearticularemumahierarquiadeSloT;hsistemasarticuladosunsnosoutros.Nadelimitaodenvelsuperiorserespeitam,normalmente,oslimitesdosmunicpios,noentantoosprovinciais,regio-naiseestaduaispodemsertranspostos.

    A vAlorizAo do cApiTAl TerriToriAl e o vAlor AgregAdo TerriToriAl como criTrio de AvAliAo do TerriTrioArelaoqueaterritorialidadeativainstituicomosrecursosespecficosincorporadosestavelmentenoespaolocaldaaocoletivaacondionecessriaparaquesepossafalardedesenvolvimentolocalterritorialemsentidoprprio,etambmomotivoparaoqualonvellocalconverge,reforadopelaglobalizao.Resumindo,podemosdizerqueodesenvol-vimentolocalocorrequandoasuper-mobilidadeemnvelglobalinterageecombinacomafixidezdonvellocal.Defato,olocal,comonveldeor-ganizaoautnoma,interessaaoglobalnamedidaemquesabeprodu-zirvaloresreferentesquiloqueprpriodeseuterritrio.Atualmente,aglobalizaoguiadaprincipalmenteporforaseporobjetivosecon-mico-financeiros,porisso,tendemosapensarestesvaloresemtermosdemercado,masestaumadistorohistricacontingentedeumprocessoquepodeedeveconsiderartambmoutrosgnerosdevalores(culturais,sociais,simblicos,estticos),capazestambmdederivardasespecificida-deslocaisedeassumirsignificadosefruiesuniversais.

    O valor que se obtm combinando aes coletivas autnomas,recursosimveislocaiseinteraesglobais,constitui-senovalor agre-gado territorial do desenvolvimento.oquesepodeobteralm,arespei-todeprocessosdevalorizaosimplesquenomobilizamnematoresnemrecursoslocais,masselimitamadesfrutardeexternalidadesedecertosrecursosterritoriais,comintervenesexgenasdiretas.

  • 41

    giusePPe demAtteis

    Oconjuntodosrecursosimveislocaispodeserconsideradocomoumcapital territorial quesetornageradordevaloresdeusoedemercadonasrelaesdeterritorialidadeativa.Ocapital territorialumconceitoaomesmotemporelacionalefuncional,quecompreendecoisasmuitodiver-sasentresi,masque tmemcomumascaractersticasquedestacamosaseguir:soestavelmente incorporadasaos lugares(soimveis);sodificilmenterepetveisemoutroslugarescomasmesmasqualidades(soespecficas);nosoproduzveisemespaoscurtosdetempo(sopatri-mnios).Podemosagrup-lasdaseguintemaneira:

    i) Condieserecursosdoambientenatural(renovveisenorenov-veis).

    ii) Patrimniohistricomaterialeimaterial(noreproduzvelenquan-total,masquepodeserincrementadonotempo).

    iii) Capitalfixoacumuladoeminfra-estruturaeconstrues(quepodeserincrementado,adaptado,porm,noconjunto,nopodeserpro-duzidonumperodobreveoumdio);

    iv) Bensrelacionais,emparte incorporadosnocapitalhumanolocal:capitalcognitivolocal,capitalsocial,heterogeneidadecultural,ca-pacidadeinstitucional(recursosrenovveisequepodemserincre-mentados,masquepodemserreproduzidossomenteemmdiooulongoprazos).

    Comosepercebenessarelaodecaractersticas,todastmdiferen-tesgrausdeestabilidade,temposdeformaoeacessibilidade.Osrecur-sosreferentesaostrsprimeirositensso,pelomenosemparte,conheci-doseacessveistambmporpartedeumatorexterno;osbensrelacionaisimplicam,necessariamente,namediaodaaocoletivalocaleemboaparteseformameseincrementamcomessamesmaao.

    Oconceitodevaloragregadoterritorial,sejareferenteaumproje-tosingular,aumaaocoletivaoumodalidadegeraldeplanejamentoedeaesdeumsistemalocal,temumcarterprticorelevante,enquantopodeserassumidocomocritriocrucialparaseentenderseestamosounonapresenadedesenvolvimentolocale,seafirmativamente,emquemedidaissoocorre.

    Trata-sedeavaliaronveldeativaodosrecursospotenciaisespe-cficosdoterritriolocal,oumesmoovaloragregadoterritorialemrela-otantoaovalorgeralproduzidonoprocessocomoaocapitalterritoriallocaldisponvel.Apartir,porexemplo,daindstrialocaltradicional,pode-seiniciarumprocessodereconversoprodutivaecompetitiva.Nestecaso,aspossibilidadessomaioresdoquenocasodatransformaodeativida-descomoasdemuseusoutursticas.Outroexemplo:sesemobilizaape-nasumadaspotencialidadesespecficasdoterritrio(comoopatrimnio

  • desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA

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    arqueolgico),hmenoschancesdeseobterumasoluoalternativaqueenvolvaoutrosrecursosinerentesaodesenvolvimento(comoopatrimniopaisagsticoouatividadesprodutivaslocaisouocapitalsocial).

    Essas avaliaes exigem um reconhecimento analtico do capitalterritoriallocaledassuasmodalidades.Paraalgunsdoscomponentesdes-critosanteriormente,bastaaanlisedeumobservador externo,porm,paraoutroselementoseemparticularparaosbensrelacionais,opontodevistadeveserinterno,oumelhor,dialgicointerno-externo.Tudoexige,aomesmotempo,mesmonocasomaissimplesdeavaliaodeumprojetosingular,arefernciaaumterritrio,quepossaserindividualizado/anali-sadocomomodeloSloT.

    vAlor AgregAdo TerriToriAl e susTenTAbilidAdeConsiderando-sequeodesenvolvimentolocalatingetodososrecursospo-tenciais de um territrio, a sustentabilidade no pode ser somente am-biental.Almdaconservaodocapital natural,necessrioconsiderarareproduoeoincrementodetodocapital territorial,inclusiveoscompo-nentesquenoapresentamcaractersticassustentveisemcurtoprazo.

    fundamentalqueseconsidereasustentabilidade territorialdode-senvolvimento,naqualsepodedistinguirosvriostiposdesustentabili-dade.Dentreelas,almdasustentabilidadeambiental,ganhaimportncia,parans,asustentabilidadepoltica,queA.Magnaghichamadeauto-sus-tentabilidade,porquecomportaprocessosauto-organizativosnossistemaslocais.Delapodederivarnosomenteacapacidadedereproduodocapi-talterritorial,mastambmesobretudo,aauto-reproduodosistemater-ritorialemsi,ouseja,acapacidadedeconservaodaprpriaidentidade(nosentidodeorganizaointerna)notempoatravsdeumatransforma-ocontnuaderivadadeinovaeslocais.

    Asustentabilidadeterritorialdodesenvolvimentopodeserdefinidacomoacapacidadeautnomadecriarvalor agregado territorial(vat)emumduplosentido:odatransformaodosrecursospotenciais(imveiseespe-cficos)deumterritrioemvalor(deusooudetroca)eodaincorporaoaoterritriodenovosvaloressobaformadeincrementodocapitalterrito-rial.Teramos,assim,auto-reproduosustentveldeumsistematerritorialquandooprocessodedesenvolvimentoauto-governadoetemcomoresul-tadofinaldemdiooulongoperodoumvatdeprimeirotipopositivoeumvatdesegundotipononegativo.Ouainda,quandooatorcoletivoterrito-rial,interagindocomonvelglobal,criavalormobilizandoopotencialderecursosespecficosdoprprioterritrio,semreduzirocapitalterritorial:nemolocal,nemodeoutrosterritriosexternosenvolvidosnoprocesso.

    Oclculodasustentabilidade territorialmaiscomplexoedifcilqueodasustentabilidadeambiental.Nosetrata,portanto,somentedeavaliarseoprojeto,osistemaouoprocessoreproduzemocapitalterrito-

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    giusePPe demAtteis

    riallocal,mastambmsenodestroemocapitalterritorialdeoutrossis-temaslocaisligadosporinteraesmateriaiseimateriaisaoqueestsen-doestudado.Oproblemasecomplicase,comoindicamosanteriormente,consideramosasustentabilidadee,porisso,acapacidadeauto-reproduti-vadosistemalocal.Nestecaso,asmedidassemprereferidasaumdeter-minadosistema,processoouprojetodedesenvolvimentodeveriamcon-siderar: i)ograu de autonomiadosistematerritorialeopesocognitivo,deplanejamento/projeo,dedeciso,definanciamentoedeatuaodossujeitoslocaisnointeriordoprocessooudoprojeto;ii)acapacidade de in-clusodoatorcoletivolocal(umauniorestritadeatoresfortesoudvozepoderaumamultiplicidadedeinteresses,redesdesujeitos,fracos,marginaiseconflituais?).Estaltima,ouseja,acapacidadedeincluso,tambmsignifica,indiretamente,acapacidadeinovativadosistemalocal,umavezquerequerumcertonveldediversificaoeconfronto.

    A diversificAo TerriToriAl como recursoDeumpontodevistanosomentelocal,mastambmuniversal,adiver-sificao do territrio por sistemas locais (cultural, social, institucional eprodutivo),comoresultadodeprocessosco-evolutivosde longaduraodassociedadeslocaiscomoseuterritrioeambiente,consideradacomoumariquezacoletivapordiversosmotivos.Dentreeles,omaisgeral,queasdiversidades,noseuconjunto,desenvolvemopapeldepoolgentico-cultural,cujatransmissoacresceacapacidadeinovativaeaautonomiadossistemasterritoriaisnasdiversasescalas.Nesseaspecto,onossopro-blemaapresentasemelhanacomodabiodiversidade.Defato,htambmosque,apropsitodaextinodelnguas,dialetosepatrimniocultural,falamdeconservarereproduzirabiodiversidadecultural.

    Outrosmotivosparaprotegerereproduziradiversidadeterritorialso:i)ofatodequeelaalimentaosistemaeconmicoglobalque,porsuavez,utilizaaspotencialidadesespecficaslocaiscomovantagenscompeti-tivas; ii)aescalalocalreproduzsaberescontextuaisambientaisqueper-manecemteisnoquesereferesformasprodutivaslocais;iii)tende-seamaximizarousodosrecursosnaturais,humanoseascapacidadesprodu-tivasglobais,diminuindo,aomesmotempo,asdesigualdades;iv)ofatodeacentuaronveldefechamentodoscircuitoslocais,reduzindoasmarcas/efeitosecolgicos;v)respondeaumademandadeusoseconsumosdiver-sificados(comodemonstraosucessodasproduestpicaslocais).

    Atualmente,ocarterprodutivodosrecursosculturaislocaisedosprprios sistemas locais comosistemas territorialmentediversificados umaquestoproblemtica.Demaneiraparticular,questiona-seseaindapossvelexistirrelaesco-evolutivasnaescalalocal.Comaafirmaopro-gressivadoconhecimentotcnico-cientfico,incorporadoemumprocessodeacumulaocapitalistatendencialmenteglobal,ainteraoco-evoluti-

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    vaentresociedadehumanaeambientefoitransferidagradualmentedon-vellocalparaoglobal.Diminuiuoprincipalmecanismoque,nopassado,gerouadiversificaoterritorialdassociedades,dasculturasedocapitalterritorialsedimentado.Permanecemsimulacrossobaformadefolcloreedepatrimniomuseificado,conservadosemfunodeumusotursticoespetacularsimilaraodosparquestemticos,oudousosimblico-identi-trioouainda,domarketingterritorial.Ondenohmudanasprodutivasabruptas,permaneceousoreprodutivodosbensrelacionaisacumuladosnopassado.H,aomesmotempo,umatendnciaperdagradualdessasespecificidades,comosepercebeemmuitosdistritosindustriaisesistemaslocaisagrcolasquepermanecemcompetitivos.

    Umsinalquevaicontraestatendnciaverificadoondehafirma-odeproduestpicasqueexigemareproduoinovativadetecnologiasapropriadasacertascondieseexperinciaslocais.Porm,perguntamos:atquepontoesteltimomodelopodesergeneralizadocomoperspectivadeconservaoereproduodadiversidadeterritorial,inovando,conside-rando-seosobjetivosanteriormenteindicados?

    Deumlado,essaperspectivanoumcontrasteemrelaoevoluodoconhecimentocientfico.Estepodesercombinadocomosconhecimentoscontextuais,permitindoaevoluodetecnologiaseadefiniodegestesapropriadasaosdiversosambienteslocais.Istocomportaria,tambm,efeitosderetornopositivosobreoconhecimentogeral.Defato,ahistriadasino-vaestecnolgicasnosensinaqueelasnascemcomoinovaeslocaisparadepoissedifundiremesegeneralizarememescalamundial.Deoutrolado,hoobstculoconstitudopelaseleoefetivadasobreambientesnaturaiseculturaisporumacompetioeconmicaglobalnoreguladaque,emvezdeadaptaraosambienteslocaisoconhecimentoeastcnicasdisponveis,tendeaadaptaroslugaresstcnicas,nivelando-osstecnologiasque,noatualsis-temademercadocapitalista,sorotuladasdemaisprodutivas.

    Narealidade,sabemosquese tratadeumaconcepomuitopar-cialdaprodutividade,entendidacomocapacidadedos investimentosdeaumentararendafinanceiraemcurtoprazo,mesmoquediminuamapro-dutividadedeenergia,decapitalnaturaledecapitalterritorial.Estmuitoclaroqueosinvestimentosfeitosnapesquisaseconcentramcadavezmaisnasreastecnolgicas,quegarantem,porsuavez,aplicaesuniversais,negligenciando-seosconhecimentosetecnologiasparaagestodiversifi-cadadosambientesedosrecursosterritoriaisporquegerariamenorretor-nofinanceiroe,sobretudo,umaestruturaprodutivamaisdistribudaede-mocrtica,capazdesecontraporaocontroleeaosprivilgiosdosgrandesgruposdepoderpoltico-financeiro.

    Nesseaspecto,omodeloSloTpode,tambm,resultaremummode-loderesistnciademocrticacontraasformasdistorcidasdaglobalizaoeconmicadominadapelonovototalitarismoeconmico-financeiro.

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    giusePPe demAtteis

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    desenvolvimento territoriAl: AlgumAs reFlexes terico-conceituAis derivAdAs de estudo monogrFico1

    luiz alexanDre gonalves cunhaGegrafo,ProfessorAdjuntodocursodeGeografiadaUniversidadeEstadualdePontaGrossa|cunhageo@uepg.br

    Oobjetivodestetextodiscutiraconcepodedesenvolvimentoterrito-rial,inspiradanoestudodastrajetriasregionaisdedesenvolvimentoru-ralqueforamidentificadasnoEstadodoParan,comnfasenocasodoParanTradicional(CUNHA,2003).Nessestermos,inicia-secomadiscus-sosobreoprpriosentidodanoodedesenvolvimento,noemtermosgerais,mas,principalmenteemrelaoaoquestionamentodoenfoqueho-mogeneizadorpresentenasconcepestradicionaisdedesenvolvimento.Emseguida,busca-sediscutircomoumdeterminadoconceitodeterritriobsiconacomposiodestanovaconcepodedesenvolvimento,inse-rindoumslidovisespacialnatentativaderenovaranlisesregionaisepropostasdecarterdesenvolvimentista.Aconcepodedesenvolvimentoterritorialinsere-senumquadronoqualtambmaparecemasconcepesde desenvolvimento local (CAMPANHOLA;SILVA, 1999) e socioespacial(SOUZA,1996), formandoumconjuntodiversodeconcepes,masqueapresentamumeixobalizadorcomum,quecorresponderevalorizaodoespaonasteoriassociais,comojhaviadestacadoSoja,oquepermiteresgataraGeografiacomocinciacentralnestasreflexeseacabacriando

    1 TextobaseadoempartedocaptuloIdatesededoutoramentodoautor,defendidaem2003,noCursodeDoutoradoemDesenvolvimento,AgriculturaeSociedade,daUFRRJ.

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    umsegmentonovonatemticadesenvolvimentista,oumesmonessadisci-plina,aoqualsepropeadenominaodegeodesenvolvimento.

    Noquadroterico-conceitualdestetexto,arejeiodefesadaho-mogeneizaosocialcomopressupostododesenvolvimentoumpontobsicodevidoaumadesconsideraocomqualquervisoetapistadode-senvolvimento.Assim,nosepretendetrabalharcomanoodesubde-senvolvimento,nosentidodequesetratadeumaetapaemdireoaou-tradedesenvolvimentopleno,muitoemboraotermopossaataparecernotexto,massemumaconotaoetapista.Essaobservao,decertafor-ma,relaciona-secomapreocupaodeMaluf,segundoaqual,rejeitaraperspectivadahomogeneizaonoimplicadesconhecerqueacriaodeespaosdesiguaiseapermanentegeraodepobrezatmdeterminantesprincipalmentegeraisnosentidodequesocomunscomoaquelesquederivamdanaturezadesigualdodesenvolvimentocapitalistaequeestesfenmenossoumaexpressodeinjustiasocial(MALUF,2000,p.77).Oimportante,ento,que,aoseabordarumaregio,[...]possveleneces-sriomensuraradesigualdadeeapobreza[...]valendo-sequasequesem-predeindicadorescomuns[...]semcomistoassociar-seaalgumconjuntodevaloresnicoeespecfico(MALUF,2000,p.77).Essepontofoicon-sideradoquandoseabordouoEstadodoParanapartirdaconsideraodasuaregionalizaomaistradicional(CUNHA,2003),quedivideoEsta-doemtrsgrandesregies(ParanTradicional;Norte;Sudoeste).Pde-severificarquepartedaprimeiraregioapresentaodiagnsticodequadroshistrico-econmicos de pobreza e desigualdade, que levaram-na a serclassificadacomosubdesenvolvida.Arejeioaotermoinclui,portanto,umadesaprovaoaoconceitocomoetapa,masnoimpededeconsiderarasrelaesquepossamexistirentreosproblemas relacionadospobre-za edesigualdadeeaquestoregional.Adiferenaqueessesproblemassovistoscomoinfluenciadosdecisivamenteporumprocessohistrico-geogrficoespecfico.Assim,apreocupaocentralnosearegioounosubdesenvolvida.Oqueimportaefetivamentequeelaapresenteumprocesso endgenodedesenvolvimentoquedeve ser compreendidonosseusaspectosdefinidores,paraqueaessociaisfuturasnocarreguemosmesmosvciosdasqueforamimplementadasnopassado.

    No,porm,objetivodestetextoaprofundaradiscussosobreasteoriasdosubdesenvolvimento,muitoemboraasituaosocialdoParanTradicional,inclusiveapsosmovimentosmodernizadoresdasestruturasprodutivasagropecuriasrecentementeocorridaseasdiferentesconjun-turasdeaceleraodaindustrializaoqueenvolveramaregio,indiquemumagravamentodadiferenciaosocialdosprodutoresruraiseaelevaodosnveisdedesigualdadesocial,contrariandoaquiloqueseriaumpres-suposto do desenvolvimento numa viso tradicional: a homogeneizaosocial.Asintervenesgovernamentais,territoriaisouno,diretasouindi-

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    luiz AlexAndre gonAlves cunhA

    retas,queatingiramoParanTradicionalparticiparam,ento,dosproces-sosquenolevaramhomogeneizaosocial,aindaquetenhamcausadoelevaononvelmdiodevida(MALUF,2000,p.58).Dessaforma,estaregioapresentadinmicassociaisqueatjustificariamumaabordagemvinculadasteoriasdosubdesenvolvimento,masnoseconsideradef-cilsoluousaranoodesubdesenvolvimentonumcontextoderejeiodosenfoqueslinearesemevoluosocial.EaquinecessriorepetirMalufquandoafirmaquesubdesenvolvimentoeatraso[...]pordefinio[...]su-peapossibilidade(ouapretenso)deconvergiraumacondiojulgadasuperior(2000,p.75).

    Asabordagensrenovadas,centradasemprocessosendgenos,bus-camescapardessaarmadilhaterica.Comonestetextooqueinteressaodesenvolvimentoregionalmenteconsiderado,avariantedarenovaoqueimportaaqueincorporaumaperspectivaespacialnessasconcepes.Aconcepoescolhidaparaajudaraformaroquadroterico-metodolgicodadiscussoadedesenvolvimentoterritorial.Porexemplo,essaconcep-ohojeabasedaspolticaspblicasqueemanamdaSecretariadeDe-senvolvimentoTerritorialdoMinistriodoDesenvolvimentoAgrriovolta-dasparaoespaoruraleaagriculturafamiliar.Veiga,porm,preocupa-secomesseusocadavezmaisfreqentedaexpressodesenvolvimento territo-rial.Oqueelequersaberseissorealmente[...]indicaumarevalorizaodadimensoespacialdaeconomia,ouse,aocontrrio,nopassademaisumprolongamentodainfindvelmaniadeacrescentaradjetivosaosubstantivodesenvolvimento(VEIGA,1999,p.1).

    Suapreocupaopodesersuperadaaoseconstatarqueaincorpo-raodeumvisespacialemconcepesdedesenvolvimentorelaciona-seaumaquestomaisampla,queareafirmaodeumaperspectivaes-pacialcrticanateoriaenaanlisesocialcontempornea(SOJA,1993,p.7).SegundoSoja,essareafirmaosurgedepoisdeumlongoperododesubmerso[...]doespaonopensamentosocialcrtico,perodonoqualprevaleceuumhistoricismodesespacializante, iniciadoapsaquedadaComunadeParis,equesapartirdofinaldadcadade1960comeouaserrevertido(SOJA,1993,p.10-11).Nesseperodo,asteoriassociaisnocon-sideravamoespaocomoumacategoriadecisiva,porquepartiamdeumaidiadeexistnciadealgumaordemespacialpr-existentenaqualope-ramprocessostemporaisouqueasbarreirasespaciaisforamreduzidasatalpontoquetornaramoespaoumaspectocontingente,emvezdefun-damental,daaohumana(HARVEY,1993,p.190).

    Arevisodesseposicionamento,percebidaporSoja,explicadaporCardoso como uma tomada de conscincia, pois o que teve demudarcomo tempo,ajustando-senovas realidades,decorreudanecessidadedelevaremcontaasmaiorescomplexidades,heterogeneidadeetalvezvolatilidadedasconstruesespaciaiseosseusrecortespossveisneste

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    fimdesculo,postoquenovosfatores,anteriormentemenosvisveiscomoelementosdecisivos,passaramaincidircommuitomaisforasnestaslti-masdcadas(CARDOSO,1998,p.22).Benko,porm,queexpeoqueestaria fundamentando tal tomadade conscincia, em termosde foraseconmicasobjetivas,aoafirmar,quandoanalisaocapitalismocontem-porneoeasuadinmicaespacial,queaexploraodoespaoestardenovonaorigemdeumafaseascendente[docapitalismo](1996,p.39).Ressaltaaindaessaimportnciadoespaoafirmandoqueamaterializa-odasatividades[econmicas]noespaoaprimeiraformaderegula-oeconmicanocapitalismo(BENKO,1996,p.59).

    NapesquisarealizadasobreoParanTradicional, tendoclarasaspossibilidadesadvindasdaconscinciacrescentesobreaimportnciadoespao, considerou-se indispensvel buscar incorporar uma perspectivaespacialnumenfoquededesenvolvimentoregional.Arefernciaregio,aoregionalouaoterritorialnogaranteadoodovisespacial,comosepretendediscutirnestetexto.Acredita-se,ento,quetalenfoquerenovadodoespacialpodesergarantidopelaviadaconcepodedesenvolvimentoterritorial.Ento, sustenta-seque,comoquadroconceitualdessaconcep-o,possvelconstruirumreferencialterico-metodolgicoecltico,quepermite umnovoenfoquesanlises regionais.Apartirdisso,preciso,antesdetudo,analisaressaconcepo.

    territrio e desenvolvimento

    Essatarefadevecomearpeloconceitodeterritrio,queopontodesus-tentaodaconcepodedesenvolvimentoterritorial.Paratal,pode-seco-mearcomAbramovay,quedefineterritriocomoumatramaderelaescomrazeshistricas,configuraespolticaseidentidades(1998,p.2).De-fini-locomoumatramasignificadizerqueeleoespaonoqualhumain-teraoentreaspectoshistricos,polticos,culturaiseeconmicos,e,acres-centa-se,tambmumainteraohomem/naturezaqueindispensvel,emespecialquandosetratadecomunidadesagrrias.Essainteraonotra-tadadiretamentepeloautor,mas,quandoelefazrefernciassrazeshis-tricas,considera-sequeessainteraohomem/naturezafaapartedessasrazes,eamelhorseriaafirmarqueelassohistrico-geogrficas.

    Esseumpontoimportanteporque,aoseabordaremprocessosen-dgenos,as razeshistrico-geogrficasafloramquasequenaturalmenteeainteraohomem/naturezaou,melhor,sociedade/natureza,ganhaemimportncia,noobstanteseresseumaspectonegligenciadonascinciashumanasesociais.Oquesedefende,porm,quesepretendesuperaressadesconsiderao,equeessapropostafoitestadaaoseabordaraformaoterritorialeoespaoruraldoParanTradicional(CUNHA,2003).Percebe-sedeimediatoqueasociedadedebaseagrriaformadanessaregiode-

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    pendiadoqueoambientenaturaltinhaaoferecer.assimqueoscamposnaturaisforamexploradospelacriaoeinvernagemdegado,easflorestaspeloextrativismodomateedamadeira,etambmdosseusfrutos,queali-mentavamnoapenasoshomens,mastambmogadocriadosolta.

    Ora,essainflunciadanaturezasobreumasociedadedebaseagr-rianonenhumanovidadeeexistiupraticamenteemtodoolugar.Oqueconsidera-semaisoriginalainserodessainteraocomoumsusten-tculoeumelementoamaisnumconceitodeterritriovistocomoumatramaderelaessocioculturaisinfluenciadaspelassuasrazeshistrico-geogrficas.Assim,nascomunidadesruraisainteraohomem/naturezaabaseprimordialdasrelaessociaisentrehomensculturalmentedis-tintos.assimqueaconteceunoParanTradicional,ondeapopulaoluso-brasileira (ou, quando sepensana influncia jesutica, talvez fossemelhorafirmaribero-brasileira),juntocomonegroafricano,interagiuso-cialmentecomindgenas locais,criandoumaculturaque,numsegundomomento,incorporouelementosculturaisdeumapopulaoeuropiadeorigensdiversascomoagermnica(alemes),mediterrnea(italianos)e,principalmente,nocasodoParanTradicional,aeslava(poloneses,rus-soseucranianos).Ateiadeinteraescontidasnoquesecostumadefinircomorelaessociedade/naturezaassumeumcarterespecficodoPara-nTradicional,muitoemboraelaseaproximedeoutrosquadrosregionaisobservadosnaregiosuldoBrasil.Noh,noentanto,identidadeabsolu-taentreessesquadros.nessefatoqueresideariquezaemresgatarcadaquadroespecfico, localizadosgeograficamente,comoprocessosendge-nosdedesenvolvimentoregional,entendendo-sequeesseregional,doin-ciodacolonizaodaregioatbemrecentemente,erabasicamenterural,mesmocomaformaodeumaredeurbanaincipienteocorridaaindanoperodocolonial,porquantoascidadesdapocaeramoriginalmenteinte-gradassociedadeagrrianaqualestavaminseridas.

    Ao se valorizar a interao homem/natureza nos processos hist-rico-regionais,comosebuscounaanliseterritorialpropostadoParanTradicional,pde-sesuperarlacunasidentificadasemoutrostrabalhosso-brearegio.ocasodapesquisarealizadaporSilva(2002),queestudaoprocessodeverticalizaodeGuarapuava,umacidadetradicionaleim-portantedessaregio,buscandosuperarasabordagensmeramenteeco-nmicasdesse fenmeno, substituindo-as por outra abordagemnaqualaspectos subjetivos tambmsejamconsiderados.Aexpansoverticaldacidadepassaaserexplicadatambmporsmboloseidentidades,quefor-mamrepresentaessociais,asquaisrespaldamaexpansodaverticaliza-oparaalmdosaspectosobjetivosemateriais.Comoessasrepresenta-essociaissoconstrudasapartirdereferenciaissocioculturaislocais,a autorabuscou reconstituiu-los relacionandoa sociedadeque lhesdeuorigem,nocaso,aCampeira,quenosguarapuavana,masregional.

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    Faltou-lhe, entretanto, a considerao da interao sociedade/natureza,quandoasrazeshistricasdasociedade lhespareceramdeterminantes,comoelaindicaaoafirmarqueaconstruodarealidadesocioespacialerguidasobreasprodues culturais passadas e atuais e,portanto,ossujeitosqueconstroemessarealidadedevemseranalisadosatravsdessaperspectivatemporal (semgrifosnooriginal)(SILVA,2002,p.276).Noapenastemporal,contudo,porquetudoisso localizadonumadetermi-nadafraodoespaogeogrfico;contmtambmumaperspectivaespa-cialquecomeaaserresgatada,justamentequandoseabordaasociedadecomoresultadodeumainteraoentreelementosfsicos,econmicos,cul-turaisepolticos.assimqueasrazeseosprocessoshistricossetrans-formamemhistrico-geogrficos,oquenoapenasumaquestosemn-tica,masdedesobstruoterico-metodolgica.

    Nocasoderegiesrelativamentejovensnasuaocupaoefetiva,comoadoParanTradicionalepraticamentetodoorestodoespaobra-sileiro,seocompararmosaoVelhoMundo,asrelaessociedade/naturezacriarampadresinterativosqueaindanosediluramcompletamenteemrelaessociaisdepadresdiferentes,muitomaisurbanosdoquerurais,muitomaisglobalizadasdoquelocais.EissoSilvarealmentecomprovouemGuarapuava,oquealevouaconcluirquetodaatransformaopelaqualpassouoespaourbanoguarapuavanoincorporaodepopulaoruralemudanasnoprocessoprodutivonoconseguiupromoverumarupturacomospadresculturaisrelacionadosestruturasocialcampei-ra.Nesse espaourbano, aindamuito interdependentedo espao rural,persistemvaloresecdigosdecomportamentosoriundosdopassadoequeserearranjamnamodernasociedadeeestruturameparticularizamacidadedeGuarapuava(SILVA,2002,p.62).ComooobjetodeestudodeSilvaacidade,suasconclusesacabamporparticularizarumfenmenoquenoapenasurbano,masruraltambm,dajustificar-seumaaborda-gemmuitomaisregionaldoquelocal(municipal).Considera-sequecadaumadasexperinciaslocaisinseridasnumdeterminadoterritrioregionalseexplicanassuaslinhasdefinidoraspelaestruturaterritorialnaqualestinserida.Dessaforma,oqueseprocuravalorizarumaescalameso,in-termediriaentreaestadualealocal,numcontextoemqueaescolhadeumdeterminadonvelescalar,emtermosamplos,podevariardoespaolocalaoplanetrio (CASTRO,1995,p.118).Assim,aescolhadaescaladeveconsiderarosobjetivosdepesquisas,projetosoupolticas,transfor-mandoaescolhadaescalaemumaoperaoterico-metodolgicaenomeramenteoperacional,buscandoconsideraradimensofenomenolgicaenomatemticadarealidadeconstrudaporprocessoshistrico-geogr-ficos.Oobjetivoabordaracomplexidadedorealasercaptadoatravsdaopoescalar,deformaqueelasejaamaispertinentepossvelaessarea-lidade(CASTRO,1994).

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    Noque se refere aoque consideradoneste texto como relaessociedade/naturezaeaimportnciaquesedaessaquesto,considera-seoesquematericopropostoporSantos,paraenquadraressasrelaes,questoque,emtodososespaoshabitados,evoluiupelasubstituiodomeionaturalporummeiotcnico,oqual,porsuavez,transformou-seemummeiotcnico-cientfico-informacional(SANTOS,1996,p.186).Quan-doomeioerabasicamentenatural,ohomemselecionavananaturezaosrecursosquesetornavamindispensveissuareproduo,valorizando-ossegundoasualocalizaoeacultura.Comisso,umatcnicaeradesen-volvidaporelemesmonessecontatocomanatureza,tcnicaessaquenotinhaumaexistnciaautnoma,porquantoeraabsolutamenteintegradaaomeionatural.Assim,acomunidade[...]era,aomesmotempo,cria-doradastcnicasutilizadas,comandantedostempossociaisedoslimitesdesuautilizao(SANTOS,1996,p.188).ParaSantos,oquesetinhaeraumaharmoniasocioespacial[...]respeitodanaturezaherdada,noproces-sodecriaodeumanovanatureza(1996,p.188).Aoproduziressanovanatureza,asociedadeterritorialproduziatambm,umasriedecompor-tamentos,cujarazoapreservaoeacontinuidadedomeiodevida(SANTOS,1996,p.188).Issoolevaaumaconclusonaqualseidentificaoargumentodecisivo, pararespaldaroposicionamentodefendidonestetextodeincluirasrelaeshomem/naturezanatramaformadoradoster-ritriosregionais,quandoafirmaqueexemplosdoscomportamentosso,entreoutros,opousio,a rotaode terras,aagricultura itinerante,queconstituem,aomesmotempo,regras sociais e regras territoriais (semgrifonooriginal),tendentesaconciliarousoeaconservaodanatureza:paraqueelapossaser,outravez,utilizada(SANTOS,1996,p.188).

    Essas regras socioterritoriais permanecemcomoumaherananaevoluo histrico-geogrfica de uma determinada estrutura territorial,ajudandoamoldaromeiotcnicoeposteriormenteomeiotcnico-cien-tfico-informacional,osquais,muitasvezes,noseimpemporcompletossociedadesnasquaisamodernidadeestmuitomaisancoradanumarepresentaosimblicadoquenumarealidadevivida.Oquemaisinteres-sa,contudo,considerarqueainteraohomem/naturezageracomporta-mentosprodutivosquesetraduzememregrassociaiseterritoriaisend-genas.NoParanTradicional,essasregrassociaiseterritoriaisseguirampadrescombinadosdetrsatividadeseconmicasespecficas:acriaodeanimaisnoscamposenasmatas;aagricultura,muitomaisnasmatasdoquenoscampos;eoextrativismonasmatas.Cadaumadelasconcreti-zava-seapartirderelaesambientais,detrabalhoeprodutivasquelheseramcaractersticas,asquais,nocasoespecficodaregioemtela,apa-reciam,quasesemprecombinadas,comonaSociedadeCampeira,comacriaonoscamposeaagriculturadesubsistncianoscapes,enoSiste-maFaxinal,comoextrativismodomateeacriaodesunosnasmatas

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    preservadaseaagriculturadesubsistncianascapoeiras.Naanlisepro-priamenteditadessaregio,mostrou-sequemuitosatoresenvolviam-sesimultaneamentenessasatividadesdeacordocomasconjunturasecon-micaseosciclossazonaisdefinidospelanatureza.Issodeuestruturater-ritorialdoParanTradicionalumacomplexidadeeumariquezaqueforne-cemaoprocessoendgenodedesenvolvimentoregionaldessaregioumcartersingular.Comessesargumentos,pretendeu-sejustificarainserodasrelaessociedade/naturezanoconceitode territriodefinidocomoumatrama.Almdisso,buscou-setambm,apartirdessainsero,consi-derarqueasrazeshistricaspresentesnatramaterritorialnosoapenashistricas,mastambmgeogrficas,oquejustificausaraexpressopro-cesso histrico-geogrficoemlugardeapenasprocessohistrico.Porlti-mo,defende-sequeoqueAbramovaychamadeconfiguraespolticaseidentidadessorealidadesqueseformamnosprocessoshistrico-geogr-ficosespecficosdedeterminadosterritrios,sendodessaformaelementosdassuasrazeshistrico-geogrficas.Assim,quandosefazrefernciassrazeshistrico-geogrficasdeumterritrioregional,busca-setrazereva-lorizarasrugosidades(heranassocioterritoriaisousociogeogrficas)dosprocessosnelaspresentes,asquais refletemas relaesentreelementosnaturais,econmicos,culturaisepolticos(SANTOS,1978,p.138).

    Naverdade,oquesequerdestacarqueasrazeshistrico-geogr-ficassofundamentaisquandoseanalisaumterritriocomosujeitododesenvolvimento.Apropostadeumconceitodeterritrioquesurgeapar-tirdanaturalmenteincorporaesseaspecto.PorissoAbramovaybuscanoconceitodecapitalsocialalgunselementosqueajudamarelacionaroseuconceitodeterritriocomaquestododesenvolvimentoregionalmentelo-calizado.Defato,oconceitodecapitalsocialtemsidoincorporadodeumaformaespecialnasdiscussesedebatessobreasdiferenasregionaisnosnveisdedesenvolvimento.Assim,torna-seindispensvelresgataralgunstemastratadosnessascontrovrsias;temasquesejammaispertinentessquestesabordadasnestetexto.

    Nessecaso,deve-sebuscarograndemarcodessesdebatesqueotrabalhodePutnam.Eledefinecapitalsocialcomoumconjuntode[...]ca-ractersticasdaorganizaosocial,comoconfiana,normasesistemas,quecontribuamparaaumentaraeficinciadasociedade,facilitandoasaescoordenadas(1996,p.177).Assim,associedadespodemapresentarmaisoumenos capital social de acordo coma sua trajetriahistrica (razeshistricas).EssaumadasconclusesdePutnam,queafirmaqueo[...]contextosocialeahistriacondicionamprofundamenteodesempenhodasinstituies.Almdisso,concluitambmquea[...]histriainstitucionalcostumaevoluirlentamente(1996,p.191-193).Comisso,asdinmicasre-gionaisapresentariamcertasubordinaotrajetria.Ditodeoutrafor-ma,ssepodechegaradeterminadoslugaresdependendodolugarondese

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    est.IssolevaPutnamaafirmarqueasubordinaotrajetriapodepro-duzirdiferenasduradourasentreodesempenhodeduassociedades,mes-moquandonelasexisteminstituiesformais,recursos,preosrelativoseprefernciasindividuaissemelhantes(PUTNAM,1996,p.188).

    Hmuitoaqui,justamente,dovelhodilemaquesequersuperar,oqualpodeserresumidodaseguinteforma:Comoseexplicaaexistnciaderegiesdesenvolvidasesubdesenvolvidas?Tudo indicaquePutnampre-tende transferira responsabilidadedaeconomiaparaa cultura,usandoumbemestruturadoesquematericoeanaltico.Acredita-se,porm,que,quandoseassumeumconceitodeterritrionoqualasrazeshistrico-geogrficas sodecisivas, no se deve objetivar apenas coloc-las comoacausaounodeumasituaodeatrasoousubdesenvolvimento.Maisimportanteconsideraressasrazescomoumelementoindispensveldoprocessoendgenodedesenvolvimentoregional.

    ParaAbu-el-Haj,asgrandesconclusesdePutnamcorroboramcer-toculturalismo,porqueaespecificidadeculturalpassaaservistacomoachaveparaexplicarasdiferenasnosnveisdecapitalsocialdecadaso-ciedade.Esseposicionamentoacabaporrecebercrticassistematizadasdeumgrupode estudiososdenominados neo-institucionalistas.Esse grupoacreditaqueastesesdePutnamsebaseiamnumexcessivodeterminismocultural(ABU-EL-HAJ,1999,p.70).

    Nestetexto,rejeita-sequalquerformadedeterminismo,tantocultu-ralquantoambiental.Otexto,aocontrrio,sealinhasabordagensqueacreditam que aes sociais bem formuladas e implementadas por umaparelhoestatalequipadoecompetentepodemfazerdiferena,noobs-tantenveisbaixosdecapitalsocial.Esseentendimentosedporqueain-daoEstadoquepossuiafunoreguladoradainteraosocial,comaqualpossvelpromoverumativismopoltico-institucionalmobilizadordocapitalscia,queteriaopoderdeincentivar[...]redescvicasador-mecidasouhistoricamentereprimidasaganharemumavidaautnoma(ABU-EL-HAJ,1999,p.72).Porisso,avalorizaodosprocessosendge-nosnoquertentarressaltardeterminismosculturais,mas,sim,entendercomoumaestruturaterritorialfoiconstrudaecomosepoderiaagirso-breelaparasuperarosseusproblemasligadospobrezaedesigualda-de,semutilizarreceitascomumpadronicoepr-determinado,ouseja,banidasdeumavisohomogeneizadora.Acredita-seque isso possvelatravsdoreferencialterico-conceitualdaconcepodedesenvolvimen-toterritorial,noapenasediretamente,poraquiloqueVeigaesperaquesejaamaiorcontribuiodessanovaconcepo,quetrazer[...]algoderealmentenovoparaumeventualdesenvolvimentodasregiessemdi-namismo econmico, que costumam ser chamadas perifricas e atrasa-das (1999,p.19).Comessaconcepo,pode-se,antesde tudo, reveraanlisedopesodeumaformaoterritorialnumadeterminadadinmica

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    regional.Emoutraspalavras,acredita-sequeoreferencialemquestotraznovaspossibilidadesdeanlisesdeprocessoshistrico-geogrficosdeter-ritriosregionais,antesdesertambmreferencialparapolticaspblicasdecarterregional.

    Essacrenaderiva,principalmente,deumpontocentralrelaciona-doconcepodedesenvolvimentoterritorial,destacadotambmnotextodeAbramovay,queoreconhecimentoexplcitodeumadimenso terri-torial de desenvolvimento contidanosterritrios, pelaqualnosevisaapenas[...]apontarvantagensouobstculosgeogrficosde localizaoesimdeestudaramontagemdasredes,dasconvenes, emsuma,dasinstituies quepermitemaescooperativas[...]capazesdeenriquecerotecidosocialdeumacertalocalidade(ABRAMONAY,1998,p.2-7).

    Aoseincluiressadimensonosterritrios,pode-seconsiderarqueseatendeuaumaespciedereivindicaodeBarvejillo,citadoporBoisier,quedefendehaverumanecessidadedereinvenodoterritrio, tendoemvistaque,comaglobalizao,osterritriosso[...]aomesmotem-poquestionadosereafirmadosenquantombitosesujeitosdodesenvolvi-mento(BOISIER,1999,p.320).Reconhecerumadimensoterritorialdodesenvolvimentosignifica,emoutrostermos,identificaroterritriocomosujeitododesenvolvimento.

    Vistaassimelepassaaterumpapeldeumator,noqualaproxi-midadeeaaglomeraopermitemadiminuiodaincerteza,que,porsuavez,numverdadeirocrculovirtuoso,favoreceaproximidadeeaaglome-raodos atores econmicos e sociais (empresas, produtores, entre ou-tros).Dessaforma,avisotradicionalneoclssica(emarxistatambm)deterritriocomoconseqnciasuperadapeloreconhecimentodaimpor-tnciaprimevaeseminaldoterritrioemprocessosdedesenvolvimentosregionais.Oquecolocadoemevidncianessecasosoosativosrelacio-naisecoordenacionaisenoapenasosrecursosnaturaisehumanoseosatributosdelocalizaoesetoriais.(STORPER,1997,p.27-28).

    Para Storper, com esse novo posicionamento est em construoumparadigma heterodoxo emoposioaoparadigma ortodoxonageo-grafiaeconmicaenaeconomiaregional,emespecialnosramosdessascinciasinteressadosemdesenvolvimentoregionalouterritorial.Nele,as-pectospresentesemdeterminadosterritrioserelacionadosproduo,produtividade,inovao,aotrabalho,entreoutros,queeramtratadoscomo material assetspelosortodoxos, sovistos entreosheterodoxoscomorelationalassets,envolvendoaholytrinitydessenovoparadig-ma:territrio;organizao;tecnologia(STORPER,1997,p.27-28).

    Oquesedevedestacarqueaproximidade social,nessenovopara-digma,assumeumvalorfundamental,porqueasrelaesentreosagentessociaissovistascomodefinidorasdocarterterritorial.Abramovayafir-maque,nosterritrios,sefazpresenteofenmenodaproximidade so-

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    cial quepermiteumaformadecoordenaoentreosatorescapazdevalo-rizaroconjuntodoambienteemqueatuame,portanto,deconvert-loembaseparaempreendimentos(ABRAMOVAY,1998,p.2-7).Santos,contu-do,ressaltamelhorovalordesseelemento,aodestacarqueaproximidadesocialumdoselementosfundamentaisdolugaredocotidiano,nosentidodequeela[...]noselimitaaumameradefiniodasdistncias;elatemquehaver coma contigidade fsica entre pessoasnuma extenso, nummesmoconjuntodepontoscontnuos,vivendocomaintensidadedesuasinter-relaes(SANTOS,1996,p.255);acrescentandoaindaque[...]nosoapenasasrelaeseconmicasquedevemserapreendidasnumaanli-sedasituaodevizinhana,masatotalidadedasrelaes(1996,p.255).

    Amaioriadosqueconsideramasquestes ligadasproximidadesocialestinteressadanosempreendimentosenaspossibilidadesdeinsta-laodecrculosvirtuososvisandoaofuturo.Emoutraspalavras,pensamnosmodelos de aoquepodem ser construdos. Importante, porm, tentaraproveitartambmaspossibilidadestericaseanalticasresultan-tesdessaposio,nosentidodeanalisareconfirmara importnciadosprocessosendgenosdedesenvolvimentoregionale,apartirdisso,cons-truirnovoconhecimentosobreumterritrioespecficoou,comoadafe-lizconceituaodeBoisier(1999),naformulaodemodelosmentaisoudiagnsticossobredeterminadarealidadesocioterritorial.

    Assim,comooterritriocomoumatramadeelementossociaiseambientais, possui umadimenso territorial de desenvolvimento, que otornaumatorousujeitodaspossibilidadesgeradaspelaproximidadeso-cialdosagentesinseridosnoseuespaogeogrficotemnoseuinterioroscomponentesdecisivosqueorientamoseufuturo,acredita-sequeosdoseupassadotambmforamdecisivosnoprocessohistrico-geogrficoqueinfluenciouaestruturaterritorialcontempornea,comtodaasuaendoge-nia,comtodasassuascaractersticas.Emoutraspalavras,comoaatualtramaterritorialcapazdeorientarosrumosqueseroseguidospeloter-ritrio,ascondiesinterativasquesesucederamnopassadotambmfo-ramimportantesparanortearocaminhoformadopeloprocessoendgenoqueseinteressacompreender.

    Seesseprocessofoibasicamenteodeumasociedadedebaseagr-ria, cabeumaadaptaodo referencial terico-conceitualdaconcepodedesenvolvimentoterritorialparaabordaraquestododesenvolvimentoregionalemsimesma.EssaoperaotentadaporAbramovay,masnosepodedizertenhasidototalmentebemsucedida.verdadequeele,comaperspectivaterritorialcontidanaconcepodedesenvolvimentoqueassu-me,assimcomooutrosestudiososdoassunto,buscasuperar,inicialmente,asvelhasdicotomiasqueopemourbanoaorural,acidadeaocampo,odesenvolvimentourbanoaodesenvolvimentorural.Segundooautor,essascategoriasouconceitossodenaturezaterritorialenosetorial(1999,

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    p.10).Baseadonisso,defendequeoruralumconceitoespacialemulti-setorial(1999,p.11).Porconseguinte,precisoreconsideraraunidade de anlise quenodeveser,segundoomesmoautor,nemossistemasagrriosnemossistemasalimentares,mas,sim,aseconomiasregionais(ABRAMOVAY,1999,p.11).

    Nesseargumentoverifica-seumproblema,porqueelepareceaban-donar os princpios considerados e defendidos em trabalho anteriordeondeextraiuoconceitodeterritrio(ABRAMOVAY,1998).Baseadonesseprimeirotrabalhoesperava-sequeeledefendesse,comoumaunidadedeanlisepassveldesuperaradicotomiadeumasetorializaoespacialin-devida,oterritrio emlugardaeconomia regional.Ora,seoterritrioumatramaenvolvendoaspectossociaiseambientais,enessesocialestoincludos elementos econmicos,polticos e culturais, troc-lopela eco-nomiaregional,comounidadedeanlise,empobrecerestaanlise,e,oquemaisimportante,significatambmabandonaraperspectivaespacialatualizadadeacordocomonovoparadigmaterritorialcitadoporStorpereassumidopeloprprioAbramovay(1998).

    Assim,suaargumentaosofreualgumasmodificaesentreotra-balhode1998eode1999.Naconcepodedesenvolvimentodefendidanoprimeiro,aunidadedeanliseoterritrio,enquantoque,paraosadep-tosdodesenvolvimentolocal,aeconomiaregionaloulocal.Issodeveserentendidoassimporque,justamente,aunidadedeanlisenaprimeiraoterritrio,enquantonasegundaaeconomiaregionaloulocal,pelome-nosparaumbomnmerodeadeptosdessaltimaconcepo.Issoficacla-roquandoserecorreaostrabalhosnosquaishargumentosdefendendoqueocorteurbano-ruraltemcedidoespaoparaoenfoquenaeconomialocal (CAMPANHOLA;SILVA,1999,p.2)ouquandoSarraceno lembraque[...]thelocaleconomy,whichhasbeenproposedasanalternativetothesemi-ruralorperi-urban[...](1994,p.471).

    Centraroenfoquenaeconomialocalouregional, transformando-anumpontodepartida,aceitvel,mastambmnopontodechegadaques-tionvel,poispoderiareavivarcertoeconomicismojtocriticadopelosquequestionaramaprprianoodedesenvolvimento(COWEN;SHENTON,1996;ABDEL-MALKI;COULERT, 1996).Comesse entendimento,no sequersustentarquenosejampossveisanlises importantescentradasnaeconomialocalouregional.Muitopelocontrrio, oquesedefendeapenas que,quandooqueimportaodesenvolvimentoregionalmenteconsiderado,oconceitodeterritrioanalisadopermiteumaabordagemmaisadequadaaotema,jqueaintegraodasdiversasdimensesqueformamumadeter-minadaestruturaterritorialcentralnesseconceito.

    Aose tocarnessaquestodaintegraodasdiversasdimensesnumarealidaderegionalespecficaquecorrespondeaumterritrio,per-cebe-seumaanalogiaoupontosdesemelhanaentredoisconceitos,ode

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    territrio(conformeconsideradonestetexto)eoderegio(conformecertatradiodacinciageogrfica).Nessestermos,naCinciaGeogrficatra-dicionalencontram-seelementosquenospermitemreconhecerqueques-tesimportantesemanlisesregionaisatualizadasenadefiniodepol-ticasdesenvolvimentistasterritoriaisjapareciamnatradioregionalistadageografiafrancesa lideradaporVidaldeLaBlache.Nosemrazoqueopensamentolablachianovemsendoreavaliadonumcontextomuitomaisfavorvelaoreconhecimentodasuariquezadoqueaquelenoqualfloresceuageografiaradicaloucrtica(GOMES,1996).Aatualidadedes-sas questes acabapor permitir o resgate da tradio lablachiana, commuitosdos temasmais inoportunosdeVidal [de laBlache]encadea-mentodefenmenos,conectividade,eassimpordiante[que]podemserinterpretadoscomotentativasdepermitirqueosingularocupeumlugarnacincia(THRIFT,1996,p.223).Relacionar,porm,oconceitodere-giogeogrficacomoselementosdadiscussopropostanestetextoumdesafioquesepretendeenfrentarnumaoutraocasio.

    reFernciAs

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    conhecimentos convencionais e sustentveis: uma viso De reDes interconectaDas

    aDilson francelino alvesSocilogo,ProfessorAdjuntodaUNIOESTEFranciscoBeltro-PR,membrodoGrupodeEstudosTerritoriaisGETERR|adilsonfalves@gmail.com

    possvelencontrar,na literaturaespecializada,umaamplaquantidadedetextoseartigosqueprocuramdarcontadoprocessodedesenvolvimen-tosobdoisngulosbsicos:odesenvolvimentoendgenoeodesenvolvi-mentoexgeno.Aabordagemdodesenvolvimentoexgeno,emqueentosepautavaaRevoluoVerde,confluaparaumapropostadearticulaosubordinadadasatividadesdesenvolvidasnoespaoruralpelasdesenvol-vidasnaseconomiasurbanas.Nessaviso,oaspectodinmicodaecono-mia(comdesenvolvimentodeprodutos,serviosepesquisas)ocorrerianoespaourbano.Aoruralcaberiaopapeldereceptculopassivodetecno-logiaeinsumosedefornecedordematrias-primasedealimentosparanutriramquinaprodutivaeaspopulaes.AsntesepropostaWardet. al.(2005)(Quadro1)apontaadistinoentreosmodelosdedesenvolvimentoexgenoeomodeloendgeno.

    Na rede de conhecimentos que se conecta ao desenvolvimentoexgeno,encontramos todooaparatoconstrudopelaRevoluoVer-de ao longo de aproximadamentemeio sculo. Assim, ao seguir esseprocesso,possvellocalizar,nacadeiadeacontecimentos,apaulatinaerosodoconhecimentolocalesuasubstituioporumconhecimentocientficoglobal.

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    Quadro 1 Modelos de desenvolvimento rural

    Caractersticas Desenvolvimento exgeno Desenvolvimento endgeno

    Princpio-chave Economia de escala e concentrao

    Arranjos locais (naturais, humanos e culturais).Recursos para o desenvolvimento sustentvel.

    Fora dinmica

    Plos de crescimento urbano. As reas rurais so concebidas como fonte de alimentos e de produtos primrios para a expanso das economias urbanas

    Empresas e iniciativas locais

    Funo das reas rurais

    Produo de alimentos e de produtos primrios para a expanso da economia urbana

    Diversificao das economias e dos servios

    Maiores problemas de desenvolvimento

    Baixa produtividade e marginalizaoLimitada capacidade de reas/grupos sociais de participar das atividades econmicas

    Foco do desenvolvimento rural

    Modernizao agrcola: estmulo mobilidade de capital e trabalho

    Construo de capacidades (habilidades, instituies e infra-estrutura)Superao da excluso social

    Fonte:AdaptadodeWardet alii (2005).

    Deste conhecimento global surgemnovas relaes entre naturezaesereshumanos,relaesnasquaisadiversidadedesistemasprodutivosruraissubstitudapormodelosconstrudosemlaboratrios.Asraciona-lidadescientficas,tecnolgicasefinanceiraspassaramaocuparboapartedosecossistemasmundiais,transformando-osprofundamente.ARevolu-oVerde,fundamentalmente,umsistemaaltamentedependentedein-sumosexternos,caracterizadospelaaltadensidadetcnicaecientficaepeloaltoinvestimentodecapitalqueconectamentresicomplexasredesmundiais.Almdisso,estesistemaprivilegiaamonoculturacomoformadepotencializarousodosrecursoseconmicos.Considerandoqueatecni-ficaoeadensidadecientficasocaractersticasfundantesdaRevoluoVerde,oscentrosdedecisoedepodertenderamapermanecerafastadosdolocaldeaplicaoepassaramagerarcomplexaselongasredesverti-caisdepoder.Namodernidadeavanada, essesprocessos so, contudo,ambivalentes.AracionalidadeprodutivistadaRevoluoVerdetrouxeumconjuntodeaparatostecnolgicoseconhecimentosquefizeramaumentarsignificativamenteaproduoalimentar.

    Contudo,sobopontodevistadaagricultura,apesardoaumentodadisponibilidadeglobaldealimentosproporcionadopelaRevoluoVerde,osimpactosgeradoscomusointensivodeinsumosexternoscausaramin-merosproblemas.Pretty(1995)citaalgunsdeles:distribuiodesigualde

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    Adilson FrAncelino Alves

    benefcios,deterioraodascondiessocioeconmicasdeagricultores(so-bretudocomoaumentodocustodeproduoecomaconseqentedimi-nuiodarenda),grandedeslocamentopopulacionalcomreflexosdemar-ginalizaoededegradaoambientalsignificativa,dentreoutrosaspectos.Taisproblemasfizeramaumentaromovimentoquequestionaodesempe-nhodaagriculturamoderna,umavezqueseusefeitoscolateraisnegativos,emdiversosaspectossuperamaspositividades.Dessemodo,oavanodaRevoluoVerdesobreterritriosesobresistemasprodutivostradicionaistrazconsigo,almdaevidnciadosucessodaracionalidadecientfica,ques-tionamentossobreosresultadosalcanados.Seusucessopodeseremparteexplicadopelaconstruodasredessociotcnicas,comopropeaanlisedaTeoriaAtor-Rede(TAR)desenvolvidaporCallon(1984)eLatour(2000),naqualoaspectocentraldosucessocientficotemavercomacapacidadedacinciaemconstruirredescapazesdeagirdistncia.

    Acinciapodefazerafirmaesuniversaisporquepodeserestandardiza-daemtecnologiasepodeatingiratravsdelasestabilidadeeutilidadeforadoscontextoslocaisnosquaisproduzida.Oscientistasatuamdistncia,atravsdeassociaesouredesquepossibilitamquedeterminadosatoreslocalizadosnumtempoe lugarespecficos tenhamcondiesdeestabele-cervnculoscomoutrosatoresemdiferentestemposelugares(GUIVANT,1997,p.17).

    Osmecanismosdestaconstruopassampordiversostiposdealian-as,quepermitemconstruircomplexossistemasqueconduzemparasuauniversalizao,ouseja,comoumconhecimentocientificamenteprodu-zidoevalidadoreproduzvelemtodaapartesemanecessidadedeumprofundoconhecimentoporquemexecutaotrabalhonoslocaisdeaplica-o.Emoutraspalavras,aconstruodarededecinciapermitequeestatenhaumaaodistncia,aocontrriodoconhecimentolocal,queseor-ganizaemredesmenoresemaisrestritas,oquelimitaadifusodessasex-perincias.Outroaspectofundamentaldasredescientficasrefere-seasuacapacidadedearticularredesdepoderecontrole.ParaGuivant(1997),asprticasdaatuaodistnciaenvolvemdiversostiposderelaesdepo-der.EsseentendimentoestemconsonnciacomoquepensamGiddens(2003),Callon(1984)eLong(2000),aoconstataremquesetornampode-rosososatoreshbeisosuficienteparaconvenceroutrosatoresaatuaremalinhadosspr-noeseaosenunciadosporelesdefendidos.Nocasoes-pecficodaRevoluoVerde,umadasregrascentraiscaracteriza-sepelacontinuaodatentativadaseparaoontolgicaentreomundonaturaleomundosocial.Trata-sedeumaseparaoemquehapredominnciadosegundosobreoprimeiro,mascujavisodonaturaldeumnaturalespe-cfico,identificadocomoprojetoocidentaldecincia,civilizaoepoder.

    Noqueserefereaopoder,nopossveldeterminarsualocalizaoexata,comoodemonstraNormanLong(2002),aodiscutirascomplexasre-

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    laesqueseestabelecemnasinterfacesdeprojetoseprocessosdedesenvol-vimentorural,oucomooafirmaMichaelCallon(1986),nasuacontribuioaoproblematizarasrelaesdepoderentreosatoresenvolvidosemredes.ParaGuivant(1997),opoderincluiumalongalistadeelementosnoso-ciais,comotecnologias,textoseentidadesnaturais,articulando-seemtor-nodiversosrecursoseconstruindoumalongarededeatuao.

    Dessemodo,podemosinferirque,quantomaislongaessalistadeelementosqueintegramopoderequantomaisrecursosestiveremenvol-vidos,maioreleser.Nessesentido,aproblematizaodaconexoentrecinciaeformasdepodernospermitevisualizarumadistinoexplicativaessencialentrecinciaeconhecimentolocal,ouseja,adistinodequeAcinciatemmaispoderporquepodeagirdistncia,porqueasexplica-escientficastmacapacidadedereduzirnumerososelementosnumalei universal e isto os colocano topodahierarquia explanatria (GUI-VANT,1997,p.17).

    Entretanto,comoapontaLong(2000),opodernopodeseracumu-ladoouestocadoparaserutilizadoemdeterminadassituaes.Eleprprioobedeceaosaspectossociais,culturaisenaturais,numcomplexoecont-nuoprocessodearticulao,estabilizaoecontestao.Assim,dadoqueaRevoluoVerdegerouumacrescentedependnciadeinsumosexternos,bem comoprovocou a eroso dos conhecimentos locais, de outro lado,contudo, issono seprocessademodopacficoeuniforme.Aextensorural,porexemplo,quesecomportoucomoumdosvetoresfundamentaisparaaadoodospacotestecnolgicosedosprocessosestandardizadosdeproduosofreresistnciaeessespacoteseprocessossoressignifica-dospelosagricultores.Outromovimentoderesistnciaocorredentrodaacademia,ondemuitospesquisadoresseposicionamparasecontraporaessegrandemovimentoglobal.Dentreascrticasapresentadas,osaspec-tosnegativosmaisrecorrentesfocamasproblemticasdasustentabilidadeambientalesocialedaerosodosconhecimentoslocais.

    Esses insistentesprocessosdequestionamentosbemcomoos im-pactosnegativosdaRevoluoVerdefizeramaparecerumgrandenmerodenovosatoressociais.Algunsdelesselanaramnaconstruododebatesobre:qualagriculturapossvel,qualsocialeecologicamentesusten-tvel,qualoferece,paraaspopulaes,padresdeseguranaalimentar,ambientalesocial?

    Almdestestemas,umasriedeoutrascontrovrsiastmfreqen-tadoas agendasdegrupos, governos e instituies ao redordomundo.Estesprocessosgeraramumasriedeexternalidadesnegativasqueper-mitiramaoscientistaseambientalistasformularalertassobreadeteriora-odaqualidadedosrecursosnaturais,como:solos,gua,perdadabio-diversidade,quedaabruptadasreservasflorestais,aquecimentoglobalemudanasnosregimespluviais.Noaspectodacapacidadedosgovernose

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    Adilson FrAncelino Alves

    doscientistasdegarantiraseguranadapopulao,apolmicadiscussosobreoMaldaVacaLoucaBovineSpongiformEncephalopaty(BSE),bemcomoaresistnciaadoodealimentostransgnicossoexemploscomunsdacrescentedesconfianasocialsobreaqualidadedosalimentosesobreacapacidadedossistemasperitosemfornecerpadresdeseguran-aaoconsumoalimentar.

    Estasquestesobrigatoriamentenosconduzemaoespaopolticoeassuasarenasdeembate,dentreasquaissepodecitar:asrelaescon-traditriaseaatuaoambguadoEstadonoenfrentamentodasquestesreferentesqualidadedosalimentos;passandoaooutroextremodasques-tessociaissurgidasdodeslocamentoprovocadopeloxodoruralempa-sesemdesenvolvimentocomooBrasil.Ouseja,asanlisesdosimpactosdaRevoluoVerdenosconectamredescadavezmaiscomplexasenosabrempossibilidadesdepesquisasfundamentaisparaenfrentarosdesa-fiosdecompreendersuasinterconexes.

    Ocorre,contudo,queaadoodelinhasdivisriasclarasenfrentaumobstculocentral,pois, senomundoconceitualnspodemos sepa-rarasquestestecnolgicasdasoutras,noespaoempricoamodernida-decomplexificouessatarefa(LATOUR,2000).Nohumaseparaotosimplesdessesuniversosproblemticos,eoquepercebemosumaintrin-cadateiaconceitualligandoquesteseconmicas,polticas,culturais,so-ciais,cientficasenaturais.Estesaspectosestofortementeentrelaadosaumprojetodecinciaecivilizaoedesafiamconstantementeacapacida-dedecompreensoeintervenonossistemas.

    Nas duas ltimas dcadas algumas concepes nascidas no am-bientalismoeemsetoresdapesquisacientficatmconseguidoconstruirpequenaseatuantesredesdecontraposioaopoderdasgrandesredescientficas.Taisexperinciastmarticulandocomunidadeslocais,atoresvinculadosONGs,gruposdepressoeconsumidorespreocupadoscomaqualidadedosprodutosalimentares.

    Morgan eMurdoch (2000), em Organic vsConventionalAgricul-ture:knowledge,powerandinnovationinthefoodchain,sepropemaanalisarcomoseprocessaaconstruodoconhecimentonascadeiasali-mentares da agricultura convencional e da agricultura orgnica atravsdoestudodedoistiposideaisderedes:asredesdeproduoalimentarindustrializadaeoqueelesdenominamderedestcitas,ondeseutilizamo(s)mtodo(s)orgnico(s)deproduo.

    Ambospartemdoprincpiodequeosetordeproduodealimentospassouporumaintensamodificaonoperododops-guerra,ondeumadasevidnciasmaismarcantesfoiaaplicaointensivadecincia,tecno-logiaelogstica.Assim,aaplicaodeconhecimento(nosentidoamplo)assumiucartercentral tambmnaagriculturaedeumaproposiodaeconomianeo-clssicaparacompreenderacentralidadedoconhecimento

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    para as atividades econmicas. Procuram inicialmente considerar o co-nhecimentoemsi.Utilizando-sedeLundvalleJohnson(1994),propemquatrotiposbsicosdeconhecimentosqueconsideramrelevantesparaaanlise:a)saberoque(know-what),conceitoestequeestariaprximoaoquensidentificamoscomoconhecimentoouconhecimentodosfatos;b)saberporque(know-why),conceitocorrespondenteaoconhecimentocientfico,aoconhecimentodosprincpiosedasproposiesdas leisdefuncionamentodanatureza.Esseprincpiofundamentalparaasmudan-astecnologias.Segundoosautores,areproduodoknow-whyorgani-zadaerealizadafreqentementeeminstituiesespecializadas,principal-menteemuniversidadeseempresas;c)conhecimento(know-how),quesereferehabilidadedefazeralgo.Essetipodeconhecimentonormalmen-teconstrudodentrodasempresaseguardadocuidadosamente,contudosuacrescentecomplexidadepodeconduziraumainteraoentreasorga-nizaes;ed)saber-quem(know-who),consideradocomoumtipoespec-ficodeconhecimentodeterminanteemfunodacrescenteimportnciaqueestevemassumindonaseconomiascontemporneas,e refere-sees-sencialmenteshabilidadessociais.Essetipodeconhecimento,parasereficaz,precisaenvolverosoutrostrstiposanteriores.

    SegundoMorganeMurdoch(2000),apesardesedutora,aaborda-gemneo-clssicadesconsideraacapacidadedesigualdosagentesecon-micosdeproduzir,acessar,adquiriremanipularconhecimentos.Nomo-delocontemporneo,aproduodoconhecimentosedembutidaemumamplorolderelaesdepodereenvolvetambmquestessociaisepolti-cas,quesodesconsideradasoutmumaimportnciamarginalnateoriaeconmicaneoclssica.Ouseja,naconfiguraorealdomercadonoseverificaumaperfeitadistribuiodoconhecimento.

    Narededodesenvolvimentoendgeno,emboraencontremosopro-dutodacontestaoedacrticaaomodeloanterior,bemcomoaapresenta-odealgumasalternativasparasuasuperaoesubstituio,oprocessocomplexoedesigual,e,emboranotenhamumatrajetriademonica,osprocessostcnicosecientficoscaractersticosdaglobalizaoedamoder-nidadepossuemumaforaincontestvel.Nessesentido,aglobalizaode-senvolve,emseumovimento,doisvetores:umprocessodehomogeneizaoeoutrodediferenciao(MARSDEN;CAVALCANTI,2001),ondediversasredesseentrecruzamnumprocessodereflexividade,avanoserecuos.

    necessrio, contudo, ressaltarqueoconhecimento localnodeveseridealizadocomomelhorousuperioraoconhecimentocientficoouvistocomoumconhecimentopuroprontoparaserresgatado(GUIVANT,1997),atporque,dopontodevistadosmodosdefazeragrcola,oprocessodaglobali-zaonaestandardizaodaagricultura,acincia,asempresas,osgovernoseaAterdesempenharamedesempenhamoseupapelpormaisdemeiosculo,alterandoeinfluenciandoprofundamenteossaberestradicionais.

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    A emergnciA dA sustentABilidAde: rede e conhecimento locAl

    Sedeumlado,ocontnuoavanodastecnologiastempropiciadonaagri-culturaumaprofundamentodosmecanismosdaglobalizaoedaestan-dardizaodosprocessosprodutivos,deoutro,umconjuntoexpressivodeexperinciaseatoresfocadosnolocaltmsurgido.

    Aglobalizaosistematicamentequestionadaereconfiguradape-los atores e instituies locais. SegundoMior (2004), seus aspectos sofragmentadosereinterpretadosemnvellocal.Emoutraspalavras,osfe-nmenosglobaisseriampermanentementemediadosereconfiguradospe-losdiversosagenteslocalizadosnasmltiplasescalasdavidasocialeeco-nmica, construindo complexos elos entre os atores locais e os globais.Umadasquestescentraisdessareconfiguraopassapelasustentabilida-de,nodeformaespecfica,masdiludaemredeslegaisedepesquisa.

    Nocampoespecficodoambientalismo,aquestodaglobalizaoendgena,eodeumduplomodo:oprimeironosentidodequeaquestoambientalemessnciaprodutodoprocessodeglobalizao,poisgrandepartedodiscursoambientalspossvelsearticuladasquestesnasci-dasdaglobalizao;deoutrolado,odiscursoinstitucionalecientficodoambientalismo tece suas teorias e consideraesnoapartirdoespaolocal,masdoglobal.Osimpactosdadegradaoambientalocorrem,namaioriadas vezes, no espao local,mas as conseqncias so globais eapresentadascomoteoriasglobais.

    Umadessasanlises,queparticularmentenosinteressaaqui,foirea-lizadaporButtel(1994),quefocaodebatenasociologiarural.Paraele,asociologiaruralofereceduasgrandesabordagensreferentesagricultura:umacentradanaglobalizaoenainternacionalizaoeaoutra,nare-lo-calizaoenadiversidadedaagricultura.Naprimeira,asagriculturasna-cionaiseseusprocessosdinmicos,organizativosereguladoresestavamsendosubstitudospelasestruturasglobais.

    Aabordagemdaglobalizaoestessencialmentebaseadanapressuposi-odequeaagriculturateriaperdidoseudinamismoeconmico, ideol-gicoepolticoequeaestruturaagrcolanomaisaforaeconmicaqueformataosistemaalimentareasociedaderural.Assim,atendnciadestaabordagemseria ignoraraestruturadaprpriaagriculturaeenfatizarasdinmicaseconmico-polticasdascadeiasdecommoditiesesistemasali-mentaresqueseriampensadoscomodeterminandoasestruturasagrcolas(MIOR,2004,p.26).

    Estaabordagemfocalizaainflunciadossistemaslocalizadosforadoespaorural,naformataoenadeterminaodasdecisesnaagri-cultura,doquedecorreumprocessocrescentededependncia,demargi-nalizaoedeminimizaodaimportnciasocialepolticadosespaosrurais.Noquesereferesegundaabordagem,oaspectocentralacrtica

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    dirigidaexcessivanfasenasqualidadeshomogeneizadorasdaglobaliza-o,ouseja,oquesepassaaquestionarseriamoslimitesdoalcancedoprocessodeestandardizaodaglobalizaosobreaagricultura.

    Em1992,ClarkeLowejhaviamsinalizadoparaoslimitesdealgu-masabordagenssociolgicaseeconmicasdaagricultura,quesedifeririadosprocessosprodutivospelassuascaractersticasintrnsecasdetrabalhofamiliarepelanaturezarefratriaemltipladosprocessosbiolgicos,osquaisexigematenoindividualdosagricultores.Oncleodessaanliseresidenocarterdiferenciadordassociedadesruraisemsuasmaisvaria-dasformas.

    Estascaractersticasdaagriculturaproduzemumaaproximaoen-treaagriculturafamiliareomovimentoquestionadordaglobalizao,fa-zendoemergirosaspectosrelativosagriculturasustentvele,conseqn-temente,relativosaumaconcepodedesenvolvimentoruralsustentvel.

    Box 1 Princpios da agricultura sustentvel

    1. A sustentabilidade no pode ser definida de forma precisa: um conceito altamente contestado e no representa um conjunto fechado de prticas ou tecnologias, nem um modelo a ser descrito ou imposto. A questo de definir o que estamos tratando de fazer parte do problema, devido a que cada indivduo tem valores diferentes. A agricultura sustentvel , desta maneira, no tanto uma estratgia, mas uma abordagem para apreender o mundo.

    2. Os problemas sempre esto abertos s interpretaes diferentes: como o conhecimento e o enten-dimento podem ser considerados como socialmente construdos, o que cada um de ns conhece e acredita est relacionado com o nosso contexto atual e nossa histria. No h, portanto, s uma interpretao correta. Dessa maneira, fundamental procurar entender as mltiplas perspectivas sobre um problema para assegurar um amplo envolvimento dos atores e grupos.

    3. A resoluo de um problema inevitavelmente leva produo de outro problema porque os proble-mas so endmicos. Sempre haver incertezas.

    4. A caracterstica-chave passa a ser a capacidade dos atores de aprenderem continuamente a partir dessas situaes em mudana, de forma a que possa agir rapidamente e transformar suas prticas. As incertezas devem passar a ser explcitas e reconhecidas como vlidas

    5. Os sistemas de aprendizagem e interao devem procurar as mltiplas perspectivas das diferentes partes interessadas e estimular o seu envolvimento. A participao e colaborao so componentes essenciais de qualquer sistema de pesquisa.

    Fonte:Pretty(1995),apudGuivant,2002.

    Aagriculturasustentvelparteintegrantedodesenvolvimentoru-ral sustentvel1 epodeserdefinidacomoumprocessodemudananossistemasruraisdeproduo,afetando-osdeformamultidimensional.En-volvediversasreasdasatividadesrurais,como:crescimentoeconmico,

    1 Emboranohajaumadefinionicaparadesenvolvimentosustentvel,esseconceitoomaisinstitucionalizadonaesferaestatal,bemcomonosmovimentossociais.

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    melhoramentodecondiessociais,conservaodevaloresnaturaiseva-loresculturais(PUGLIESE,2001),comotambmasdimensesdetraba-lho,tecnologia,saberes,polticasinstitucionais,enfim,fatoresqueseco-nectamdiversasdimensesdavidanocampoenosoestanqueseporissonoobedecempacificamenteaumaclassificaohomogneaoues-tandardizadade suasdefinies.Namaioriadas vezes estes fatores socomplementadospordemandasespecficaseporcaractersticashistricasdascomunidadesrurais.

    Oqueseobserva,nocenrioatual,quegradualmenteaatuaocrticadeatoressituadosnoespaoruraltempossibilitadoaconstruoderedesealternativaseconmicasparaascomunidadesrurais.Assim,deumfocoeminentementesetorialerestritodeproduoexclusivadealimen-tos,aperspectivadodesenvolvimentoruralsustentvelpodepossibilitaraarticulaodenovoselementose,comisso,conectaroruralaosespaosdecrticamodernidade(nosentidodeGIDDENS,1991).Emalgunsca-sos,essascrticassedirigemtambmsquestesambientais,embora,nocasobrasileiro,oeixocentral,devidosquestesdaformaohistricaemarginalizaodaagriculturafamiliar,tenhasidoodarecuperaodaseconomiasruraisedasustentabilidadesocial.

    Aredefiniodaagriculturanosmoldespropostospelaagriculturasustentvelimplicaaredefiniodopapeldosagricultoreseconsistenumapeloparaaaquisiodenovashabilidadesecompetncias,e,dentrees-sasredefinies,estaampliaodosconhecimentosdosagricultores.Adiversificaodasformasdeproduziredaeconomiarural(sejacomopro-cessodapluriatividadeagrcola,sejacomaredefiniodosespaosruraiseurbanosouadiscussoterritorial),temumpapelestratgicoimportante,poisprecisoreinventarparatransformarasfronteirasgeogrficasurba-no-ruraisemacoplamentosqueconectam,cadavezmais,lugares,saberes,tradieseinovaes.

    A atuao geogrfica dos atores necessita ser redimensionada,pois,naconfiguraododesenvolvimentosustentvel,noserestringesrelaesimediatasdalocalizaoespacialdapropriedade.Aanlisedoes-paorural,emsuaperspectivasustentvel,deveserolhadanocomoumespaodehomogeneidades,masdeespaoshbridosconstitudosdetem-poseterritriosdistintos,masquepodemcomporeconstituiromesmoespao, segundoSaquet (2003).ParaaTAR,as redesso fundamentais,poisatravsdelaspossvelobservarumconjuntoestvelderelaesouassociaes,pelasquaisomundoconstrudoeestratificado.ATARvosespaoscomoconstruesdentrodasredes,masnoapenasisso,poisosprpriostempossoforjadosnoseuinterior.

    UtilizandoostrabalhosdeCallon(1986),Latour(1997),ClarkeLowe(1992)eMurdoch(1998),podemosobservarmelhoroconceitoderede,quesosistemashbridos,compostosdemateriaisheterogneos,inclusivehu-

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    manos,no-humanos,textos,objetostcnicos,dinheiroetc.Emoutraspala-vras,umsistemacomplexoquereneosocial,apolticaeasredestcnicas,elementosnaturaiseinanimadoseoespaofsico.Assim,odesenvolvimen-toruralsustentvel,aoseranalisado,deveserpercebidocomooresultadodaco-evoluoedoentrelaamentodestessistemasderelaes.

    NaperspectivadaTAR,todososobjetostcnico-cientficos,inclusiveosprojetosdedesenvolvimento,soresultadosdamisturadeentidadeshu-manasenaturais,sendoqueestesltimostmacapacidadedeatuarsocial-mente,emfunodeestaremsituadosprecisamentenaarticulaoentreasdinmicassociaiseasleisnaturais.Estaconceituaodasredespossibilitaaobservaodosdiversoselementosinterconectadossemaatribuiodepa-pishierrquicosentreeles,oquepermiteacadaatorapossibilidadedesetornarfundamentaldentrodaconstruodarede(CALLON,1983).

    Sobreestepanodefundo,aaproximaodosatores,naperspectivadaTAR,podeserusadaparaentenderosprocessosdeincorporaodosagenteseatoresnasredesesuasinter-relaes,verificandocomoosatoresexercitamseuspoderessobreosoutrosatores,comoelesseutilizamdosmateriaisheterogneosasuadisposioparalutar,dominarouassociaroutros(MURDOCH,1994).Emoutraspalavras,aanlisedasredespermi-teseguirosprocessosdeconstruoeobservarcomoosatoresesistemasco-evoluem.Assim,nadiscussosobreaconstruoderedesdeconheci-mentoparaodesenvolvimentorural,importanteperceberqueos produtos locaisnosolocaisnosentidoestrito,massoespaos locaisconectadosaoglobalpelosagentes,pelastcnicas,pelaglobalizaodapoltica,pelaques-toambiental,dentreoutrosfatores.

    Dentrodessaperspectivapossvelestabelecerdiversosrecortesnaanlisedainterconexoentreasatividadesruraiseaproblemticadasus-tentabilidade.Umeixodereflexopossvelpensarasoitodimenses:a)sustentabilidadeecolgica;b)sustentabilidadeambiental;c)sustentabili-dadedemogrfica;d)sustentabilidadecultural;e)sustentabilidadesocial;f)sustentabilidadepoltica;g)sustentabilidadeinstitucionaleh)sustenta-bilidadetecnolgica.Estasdimensesdoquestododesenvolvimentosustentvelumamaiorabrangnciae,comoconseqncia,ampliamtam-bmsuacomplexidade.Umaoutraformadeconceberaproblemticaaadoodaagendapropostapelosmovimentossociaiscomofiocondutor.Brandenburg(2005),porexemplo,identificadoiseixosparaapropostadeintervenoeanlisedasaesecolgicasnoambienterural.Soeles:a)oeixodospreservacionistas:comapropostadeaesdeconservao,depreservaoedegestodoambientenatural,eb)oeixodostcnico-produ-tivos:cujasaespropostasrelacionam-secommudanadepadrotcni-codeproduo,eorespectivogrupodeprofissionaispropeasubstituiodasprticasedastcnicasagrcolasconvencionaisporprticasalternati-vaseecolgicasdeproduoeconsumo.

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    Todasasdimenseseeixoscitadosacimapossuemsuarelevnciaparaacomposiodeumquadroanaltico,entretanto,paraosfinsdesteartigo,propomosaadoodealgunsfatoresquepodemconstituiremumeixoparaainterconexoentreasquestesruraiseambientaisnoquadroanalticoetambmadiscissodaquestodainterconexoentreagricul-turafamiliaresustentabilidadeapartirdequatrofatoresbsicos:inova-o,conservao,participaoeintegrao.Estaestruturaoriginalmen-tepropostaporPugliese(2001),agregadacontribuiodeoutrosautores.Essesquatrofatorescongregamumagrandepartedaconvergnciaentreosaspectosdaagriculturaorgnicaedodesenvolvimentosustentvel.

    inovAo

    Ainovaoumelementoestratgicoparaodesenvolvimentodossiste-masagrcolaserurais.Oprocessodeinovaodentrodaperspectivadoruralambientalarticulaemtornodesiumacadeiadeelementoshetero-gneosquepodemsertraduzidosnoapenaspelaadoodenovastecno-logiasearranjosprodutivos,mas,tambmefundamentalmente,porumarevisodoprocessodedesenvolvimentovigente.Areflexosocialsobreosrumosdodesenvolvimentopodeconduzirpotencialmenteoespaoruralanovosarranjosearticulaesderedesdeproduo,consumoeconheci-mento.Nessesentido,pode-secitar,comoexemplodoprocessodeinova-o,aadoodepropostasedeprojetosdedesenvolvimentoterritorialeaconstruodecertificadorasdeprodutosorgnicos.Aprimeirainiciativa,porsis,umacomplexainterface,entretantotemaquiapenasointuitodemostrarcomoasdiscussesemtornodepropostasdedesenvolvimentoterritorialsustentvelintroduzemnapautadenegociaonoapenasele-mentosarticuladosesferaprodutiva,mastrazemtonadiversosoutroselementosdavidasocial.Umaexperincianessesentidoaquestodaconstruodecertificadorasdealimentosproduzidosorganicamente.Elasintroduzemnapautadediscussesaspectosdaconstruodesistemasdeconfianaquesearticulamnoapenascomasdimensesterritoriaisinter-nasaosespaosdaproduoevidasocialdosagricultores,masdialogamfundamentalmentecomosconsumidoresdeorgnicos,almdearticula-remumdiscursolegal,institucionalecientficocomasociedade.

    Istosinalizaparaofatodequeassoluesinovadorasnosoape-nasderivadasdoprogressotecnolgico,mastambm,produtodenovosmtodosdeorganizaoeadministraoenvolvendoprocessoseinforma-es.Estefluxoocorrepordentroeentresetoreseterritrios.Segundoaautora,Inovaotambm identificvelnareintroduodeelementos,espaosepessoasemposiesdiferentes,integradosemestratgiasrela-cionaisrenovadas(PUGLIESE,2000,p.118).Paraela,aagriculturaor-gnicapoderepresentarumelemento importantede inovaoemreas

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    rurais.Suaforainovadorasemanifestaemvriosaspectosdavida,tan-todentrodapropriedadecomonasrelaescomomercadoconsumidor.Agriculturaorgnicaumprocessodeinovaocomplexa,poisrequerumaltonveldeinformao,podendoexigiraomesmotempoumabaixaden-sidadetecnolgicaeumelevadoconhecimentodossistemasnaturais.As-pectosinovativostambmestorelacionadosadministraodaproprie-daderural,articulaocomconstruodeespaossociaisdenegociao,construodepolticaspublicasefrunsdedebate,dentrediversosoutrosaspectosqueexigemdosparticipantesaconstruodeesferasdeatuaoantesinexistentesouoredesenhodasjexistentes.

    conservAo

    Namesma linhade raciocnio, paraPugliese, odesenvolvimento ruralsustentvelpodeconciliarsimultaneamenteainterconexoentreomer-cadocomregulamentaesdesalvaguardadoequilbrioedaestabilidadedesistemasruraiseagrcolas.Dessemodo,nohaverianecessariamen-te umaoposio entre elementos de conservao e inovao. Segundoela,estratgiasconservacionistasadequadasnoagemnecessariamentecomoumobstculoparamudanaecrescimento,aocontrrio,elaspo-demajudaraevitaraerosodavantagemcomparativaruraleoslimitesdas transformaes no desejadas (PUGLIESE, 2000, p. 120). A con-servaodetraoscaractersticosdalocalidadenosprocessosdedesen-volvimentopode torn-los sustentveis em longoprazo.O conceito deconservao, no espao rural, a depender do grau de intensidade dastransformaes impostadaspelaRevoluoVerdepode trazer algumasarmadilhas.Existemexemplospossveisdearticulaoentreconserva-oeinovao,como:agroflorestas,manejosustentveldematas,reser-valegal,proteodefontes,utilizaodepastagensorgnicase,emmui-tasreasdefloresta,asexperinciasdeextrativismo,todasalternativasquetmmostradoumrelativosucessoemarticulargeraoderendaeconservaoambiental,oqueimplicaoaumentodoconhecimentosobreossistemaslocais.

    PArticiPAo

    Aatuaodosatoreslocais,nasarenasenosprocessosqueenvolvempro-jetosdedesenvolvimentolocal,desempenhaumpapelcentralnoparadig-madodesenvolvimentosustentvel.Acapacidadedeagnciadosatoresemsuainteraoearticulaocomosdiversosmundos(simblico,tcni-co,poltico,global)desloca-osdoeixodavitimizao.Essedeslocamentorecolocaemnovospapis,ouseja,tambmcomoagentesprotagonistasdoprocessoenomerosreceptculosvaziosesperadesolues.

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    Entretanto,necessrioconsiderarosconceitoscomodevidocui-dado.Guivant (1997), aoanalisar aspropostasdedesenvolvimento sus-tentvel,destaca, comosendoumadas tendnciasmais expressivasdosdefensoresdeprojetosdedesenvolvimentoruralendgeno,oqueelacha-madepopulismoparticipativo,quetememRobertChambers(1983,2002)umdosautoresmaisimportantes.Essapropostadedesenvolvimentoruraltemcomoeixocentralavalorizaodoconhecimentolocaleaparticipa-odosagricultoresemtodososprocessoscomoagentesprincipaisdode-senvolvimento,porm,decertaforma,desconsideraopoderdoprocessodeenraizamentodeprticaseconhecimentosexgenos,desconsideraoessaquepodesercriticada.OutracrticaChambersrefere-seaumaidea-lizao de que a agricultura praticada no TerceiroMundo preserva umsabermilenar construdo e passado por geraes emumprocesso qua-seautnomodeconhecimento.Resumidamente,acrticaendereadaidealizaodoconhecimentopopular,consideradomelhorousuperioraoconhecimentocientfico,oucomosendocapazde incorporarprticas etcnicastradicionaisacriticamente.

    Oconhecimentoproduzidoereproduzidonoespaoruralprodutodecomplexasinteraesentreosconhecimentostradicionaisdecaboclos,ndios,negrosecolonoseuropeus,mastambme,nosdiasatuais,funda-mentalmente,porredesdepesquisasdealtonvelqueproduzemconheci-mentoscientficos validadospelaacademia,polticasdedesenvolvimen-toruralcentralizadasemgabinetes,baixaformaoescolaretcnicadosagricultores,eaatuaodeumacompetenterededecomercializaodeinsumos.Talcenriospodeproduzirhbridosenotipospuros,comoqueremsugeriralgumasteorias.

    os eixos dA PArticiPAo PolticA

    Nopapeldesempenhadoatualmentepelascomunidadesrurais,quesepro-pemaimplementarprojetosdedesenvolvimentoendgeno,podemosen-contrarostrseixosatuandosimultaneamente,numacomplexateiacon-ceitualquasenuncapacfica.Nabuscadealternativasparaamanutenodeseumododevida2enatentativadeinseronocenriopolticoedeci-srio,estascomunidadesprocuramromperocrculoviciosoaqueestosubmetidas.Algumasdelasestoconstruindo,porconseguinte,umanovahistriadeorganizaoquenoobedecenecessariamente auma lgicaapenas,masdiversasformasorganizativasenfeixadasemumamploroldereinvindicaes.

    2 Estamudananaperspectivanomundo rural ummovimentomundial.EnriqueLeffdiscuteessaquestonotexto:Losnuevosactoresdelambientalismoemelmdioruralmexicano.

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    Asdiversasquestesemergentesqueaparecemnestascomunidades,heterogneasemsuaformao,podemsercaracterizadaspelatentativadeentenderederompercomamarginalizaocrescente,pobrezaeespoliaodosmeiosdeproduo.Istosednatentativadeencontrareconasocieda-deparaasoluodosproblemasdecorrentesdaestruturaagrriabrasileira,queseconstruiuprivilegiandoosgrandesprodutoresemdetrimentodape-quenapropriedade.ParaScherer-Warren(2002,p.246),nasltimasdcadasodebateemtornodasespecificidadesdoespaoruralcomeaatomarcor-po,agoracomumanovaticaqueprocuraincorporar,paraalmdasques-tesdeclasse,aspectosdomundocultural,relaessociaisdocotidianoedasidentidadescoletivasespecficasdecadamovimento.

    Aparticipaopolticanamodernidadetrazelementosnovosparaaanlisedaatuaodosatores.Dessemodo,aproblemticaambiental,associadasquestesdeempoderamentodeatoresligadosagriculturafamiliar,precisatambmserestudadaeobservada.Emboraosdesdobra-mentossociaisnoestejammuitoclaros,osreflexosdestastransformaesjsefazemsentiremdiversasesferasdaproduoeconsumodealimentosenoquestionamentodomodelopropostopelaRevoluoVerde,quenosconduzaumapossvelintegraoentreaagriculturaeasustentabilidade.Osquestionamentosecrticasdirigidosaoatualsistemadeproduoagr-cola,osimpactosambientaisdaagriculturaagroqumica,seualtocustoeacrescentedependnciadetecnologiasproduzidasemlaboratrio,aliadosaomal-estarcausadopelaquestodatransgeniaeoMaldaVacaLoucatmfortalecidoosdefensoresdeummodelodeagriculturamaislimpa.

    integrAo

    Opotencialprocessodeintegraoentreagriculturaesustentabilidadeapresentado,pordiversosmovimentossociaisoriundosdocampocomoumdosaspectoscentraisdoquestionamentodaRevoluoVerde.

    Vistosobongulodapolticaeuropia3doCommonEuropeanAgri-culturalandRuralPolicy,estapolticareconhecequeaagricultura,dentrodeumpacoteamplo,umdosfatoresqueafetamodesenvolvimentorural.

    3 necessriodizerquetalabordagemocorrefundamentalmentedentrodoprogramaLIE-DER,cujosprincpiosnorteadoressoosseguintes:a)multifuncionalidadedaagricultura,ouseja,asdiversasfunesquedesempenha,paraalmdaproduodealimentos.Istoim-plicaoreconhecimentodavastagamadeserviosprestadospelosagricultoreseoincenti-voaessasatividades;b)abordagemmultissetorialeintegradadaeconomiarural,afimdediversificarasatividades,criarnovasfontesderendimentoseempregoeprotegeropatri-mniorural;c)flexibilizaodosapoiosaodesenvolvimentorural,baseadanoprincpiodesubsidiariedadeedestinadaafavoreceradescentralizao,aconsultaescalaregionalelocaleofuncionamentoemassociao;e,d)transparncianaelaboraoegestodospro-gramas,apartirdeumalegislaosimplificadaemaisacessvel(Fonte:http://europa.eu.int/comm/agriculture/rur/index_pt.htm).

  • Adilson FrAncelino Alves

    Dessemodo,apontaparaanecessidadedeinclusodepolticasagrcolaseruraisemprogramasglobaisquecontribuamcomoumtodoparaocresci-mentodosistemalocal,apontandoparaoentendimentoconceitualdequeodesenvolvimentoruralmultidisciplinaremulti-setorialemsuaaplica-o, tendoumadimenso territorial explcitaondeo aspectoambientalsejaumadasdimenses.

    Estaestratgiadeintegraopermiteconceber,parareasrurais,apossibilidadedeconstruodesistemasdeproduobaseadosemmode-losflexveiseendgenosondehajaumpapelcentralparaaagriculturaemsuasatividadesrelacionadasaomeioambiente.Issoapontaparaumadi-versificaodaseconomiasruraisondeareorganizaodosetoragrcolaaltamenteimportante,poisteriaacapacidadedefornecerimpulsoedina-mismodentrodosistemalocal,quevariveldeacordocomosaspectosterritoriaisepermitiriaaarticulaocomoutrosterritrios.

    Neste cenrio, a agricultura orgnica poderia, segundo Pugliesi(2000,p.122):proporcionaroportunidadesinteressanteseumacapaci-dade intrnsecade integraodoterritrioecomoutrossetoresdaeco-nomia.Deumpontodevistaestritamenteagrcola,aagriculturaorgnicarepresentaumforteestmuloparaareorganizaodaspropriedadesru-rais.Almdisso,segundoela,noqueconcerneproduoorgnica,exis-teumapossibilidadeinteressanteparaaintegraohorizontaldoespaolocal.Comisso,umanovadinmicacomaarticulaoeaconstruodecadeiasdeconhecimentoedeproduo,podeseestabelecernaproprie-daderural.

    Obviamentetalprocessoexigiriaqueumanovabasetecnolgicaeumprofundoprocessode articulaoda ampla capacidadedepesquisafosseminstaladosemuniversidadesecentrosdepesquisasagropecuriascomasprticasagrcolassolidificadaspormaisde50anosdisseminadasporumacompetenteextensorural.

    Noaspectoinstitucional,apenasrecentementeaspropostasdepo-lticas pblicas adotadas pelo Ministrio do Desenvolvimento Agrrio(MDA)apontamnadireode incorporaralgunsconceitosoriundosdodebateambientalista.UmexemploacriaodaSecretariadaAgriculturaFamiliar(SAF),quetem,comoumdeseusobjetivosprincipaisatentativadepromover,noconjuntodaagriculturafamiliar,oconceitodedesenvol-vimentolocalsustentvel.

    Ofocododesenvolvimentosustentvel4,nocasodaSAF,refere-se,contudo,muitomaisaosaspectossociaisqueaosambientais.Nessesen-

    4 NodocumentodaPoltica Nacional de Ater(2004,p.23),odesenvolvimentosustentvelde-finidocomoprocessodemudanasocialeelevaodasoportunidadesdasociedade,com-patibilizando,notempoenoespao,ocrescimento,aconservaoambiental,aqualidadedevidaeaeqidadesocial,partindodeumclarocompromissocomofuturoeasolidarie-dadeentregeraes.

  • desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA

    tido,osaspectospolticosedevalorizaosocialdaagriculturafamiliaraparecemcomoobjetivo explcito, almdodesenvolvimento econmicocomotentativadeagregarvaloraosprodutosdaagriculturafamiliar,natentativadepossibilitaroacessodessesagricultoresdeformacompetitivaaomercadocadavezmaisrestritoeexigente.Almdisso,apropostadedesenvolvimentosustentvelnaagendadoMDAapontaparaanecessida-dedageraoderendaapartirdeatividadesnoagrcolas.

    OfocodavalorizaosocialeeconmicadaagriculturafamiliarbastantecompreensveldadasascondiesdaformaodoBrasilemsuavocaoparaoagronegcioexportador.Estefatopodesernotadoinclusivenapequenapresenadachamadaagriculturafamiliaremmo-vimentosdecunhoambiental.Aspreocupaesdosmovimentossociaisoriundosdocampogeralmentegiravamemtornodaprpriasobrevi-vnciaeconmica,oquetambmlegtimo.Essesetor,entretanto,pornocontarcomumabaseambientalcrtica,desenvolveueaindadesen-volve suaatividadeorientadapeloparadigmaprodutivistadaRevolu-oVerde.

    AquestodarecolocaoourelocaodaproblemticaambientalnaestruturadapesquisaagropecuriaeoquestionamentodosimpactosdaRevoluoVerdeporpartedosmovimentossociaisnosconduzemaosaspectosdaconstruodasredesdeconhecimentoqueseformamapartirdaadoodematrizestecnolgicasespecficas.Aconstruodeconheci-mentosedeinteressesdentrodaproduoagroalimentarmundialtorna-secadavezmaiscomplexa.Ainclusodepontosdevistadosnovosatoresoriundosdosmovimentosdecontestaoecolgicaedosmovimentosso-ciaiscolocaemxequeaatuaodosatoresqueatuavamdeformahegem-nicadentrodascadeiasprodutivas.

    Aincorporaodasquestesecolgicasdentrodatemticadaagri-culturatempossibilitadoaemergnciadenovasredesdeconhecimentoaindanototalmentedelineadasediagnosticadas,entretanto,suaatuaoeprticalocalizam-seemumterritrioamplamentedominadopelatcni-ca,peloconhecimentotecno-cientficoeporpoderososinteressesecon-micos.Oestudoparadetectarasemergnciaseofuncionamentodessasredesumatarefanecessriaquesecolocanaagenda.

    reFernciAs

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    desAFios dA gerAo de rendA em PequenAs ProPriedAdes e A questo do desenvolvimento rurAl sustentvel no BrAsil

    antonio nivalDo hespanholGegrafo,ProfessorAdjuntodaFCT/UNESPPresidentePrudente-SP|nivaldo@fct.unesp.br

    Atrajetriadaagriculturabrasileiranasltimasdcadasfoimarcadapelasuamodernizaoentre1965e1980;pelacriseeconmicadosanos1980econseqenteesgotamentodopadrodefinanciamentodamodernizaoepeloestabelecimentodoProgramaNacionaldeFortalecimentodaAgri-culturaFamiliar(PRONAF)noanode1996,apartirdoqualsepassouareconheceraimportnciadesta.

    Apesardasmudanasdeenfoquedapolticapblicaapartirdains-tituiodoPRONAFedorompimento,aindaqueparcial,comavisopro-dutivistaesetorial,osdesafiosdageraoderendaedareproduosocialdospequenosagricultorespersistemenohindicaesclarasdequetaisdesafiosserosuperadosacurtoemdioprazo.

    Hdiferentesperspectivasnoqueconcerneaodesenvolvimentoru-ralsustentvel.Paraalgunsaaplicaoracionaldetcnicasjdisponveisnaexploraodosrecursosnaturaissuficienteparaseatingirodesenvol-vimentoruralsustentvel,enquantoqueparaoutrosasuaconcretizaorequeralteraessignificativasnopadrodedesenvolvimentoexistente.

    dinmicA dA AgriculturA e renovAo do discurso AssociAdo Ao desenvolvimento rurAl

    Aspolticaspblicasvoltadasaodesenvolvimentoruralaindaserestrin-gem basicamente ao apoio produo, principalmente aos segmentos

  • desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA

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    vinculadosacomplexosagroindustriais1,voltadosexportaoeaofor-necimentodematrias-primasagroindustriais,tendo,portanto,carterse-torialecunhoessencialmenteprodutivista.

    Amodernizaodaagriculturadesencadeadanopasnosanos1950tornou-seexpressivaprincipalmenteapartirdainstituiodoSistemaNa-cionaldeCrditoRural(SNCR)noanode1965.Ogovernofederal,almde fornecer grande volume de crdito rural destinado ao investimento,comercializaoecusteiodassafras,construiuemodernizouarmazns,apoiouaexpansodocooperativismoempresarial,crioufacilidadesparaainstalaodeindstriasqumicasemecnicaseestimulouaimplantaoeexpansodeindstriasprocessadorasdematrias-primasprovenientesdocampo.

    Assim, o ritmo damodernizao da agropecuria foi acelerado esuaabrangnciaespacialampliadaemrazodaimplantaodeindstriasdebensdeproduoedeinsumosbsicosparaaagricultura,aomesmotempoemque

    [...]desenvolve-seoumoderniza-se,emescalanacional,ummercadoparaprodutosindustrializadosdeorigemagropecuria,dandoorigemforma-osimultneadeumsistemadeagroindstrias,empartedirigidoparaomercadointernoeempartevoltadoparaaexportao.(DELGADO,1985,p.34-35).

    Amodernizaodaagriculturaseprocessoudeformabastanterpi-da,especialmentenasRegiesSuleSudestedopas,pormeiodoestmuloalteraodabasetcnicadasexploraesagropecurias.

    Ocrditoruraloficial,principalinstrumentoutilizadoparapromo-veramodernizaodaagricultura,foialtamenteseletivo,poisasuaofertaserestringiuaosmdiosegrandesprodutoresrurais.Ospequenosarren-datrios,parceirosemeeiros,comreduzidoounenhumpatrimnio,notiveramacessoaeleemrazodenodisporemdasgarantiasexigidaspelosistemafinanceiro.

    Noinciodosanos1980,opadrodefinanciamentodaagriculturabrasileiraseesgotouemdecorrnciadoaprofundamentodacrisefiscaldoEstado.Apartirde1984,astaxasdejurosreaisdocrditoruraloficialsetornarampositivas.

    Operodoqueseestendede1980atoinciodosanos1990foimar-cadopelainstabilidademacroeconmica.OEstadosevoltouparaagestodacrise,nosendoestabelecidaspolticaspblicascomhorizontesdem-dioelongoprazo.

    1 ComplexoAgroindustrialpodeserdefinido[...]comooconjuntodeprocessostecno-econ-micosqueenvolvemaproduoagrcola,seubeneficiamentoetransformao,aproduodebensindustriaisparaaagriculturaeosserviosfinanceirosecomerciaiscorresponden-tes(MLLER,1982,p.48).

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    Antonio nivAldo hesPAnhol

    Noanode1994foilanadooPlanoReal,pormeiodoqualaecono-miafoiestabilizada,ainflaocontroladaeamoedasobrevalorizada.

    Nosanos1990 intensificaram-seosprocessosdedesregulamenta-oedeaberturadaeconomiacompetitividadeinternacional.Comisso,asmargensdelucroforamreduzidaseostermosdetrocaentreindstriaeagriculturacontinuaramdesfavorveisaesta.

    Acombinaodefatorescomobaixospreosagrcolas,sobrevalori-zaodamoedaereduzidosrendimentosdealgumaslavourasemdecor-rnciadecondiesatmosfricasdesfavorveisprovocaramaampliaodonveldeendividamentodosagricultores.

    Noanode1996,ogovernoFernandoHenriqueCardoso(FHC)ins-tituiu o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar(PRONAF),voltadoaoatendimentodeprodutoresruraiscomreasnosuperioresaquatromdulosfiscaisequepossuissematdoistrabalhado-rescontratados.Desdeentotaisprodutorespassaramausufruirdetra-tamentodiferenciado,tendoacessoaocrditooficialcomtaxasdejurosmenoresdoqueasvigentesparaosagricultorescomerciais.

    Nodecorrerdosanos1990tambmocorrerammudanasimportan-tesnamaneiradeseentenderocampo,poispassaramaserconsideradas,pelomenosemtese,asespecificidadeslocaisnaformulaodepolticaspblicas.Comistoseprocuroufavorecerarepresentaodosatoresso-ciaispormeiodassuasformasdeorganizaocoletivasnaelaboraoeimplementaodepolticasvoltadasaomeiorural.

    Os mecanismos de participao foram institudos principalmenteapsaPromulgaodaConstituioFederalde1988quandopassaramaserconstitudososConselhosMunicipaisdeDesenvolvimentoRural(CMDR),queapresentaramproblemasemseufuncionamentoquantoparticipaodosagricultoresemanipulaodetcnicoseprefeitos,quetiverampoucointeresseemseufuncionamentoefetivo(ABRAMOVAY,2001).

    Apesardasdificuldadesdedemocratizaodaspolticaspblicas,osdocumentosoficiaissobredesenvolvimentoruralromperamcomavisoprodutivistaesetorialepassaramaadotaraperspectivaterritorial.

    ASecretariadeDesenvolvimentoTerritorial,vinculadaaoMinist-riodoDesenvolvimentoAgrrio,foicriadacomaincumbnciadeestimu-larecoordenarprojetosdedesenvolvimentodeterritriosrurais,osquais,deacordocomosdocumentosoficiais,devemdirigir[...]ofocodaspol-ticasparaoterritrio,destacandoaimportnciadaspolticasdeordena-mentoterritorial,deautonomiaedeautogesto,comocomplementodaspolticasdedescentralizao(BRASIL,2003,p.30).

    Deacordocomomesmodocumento,

    Naabordagemterritorialofocodaspolticasoterritrio,poiselecombi-naaproximidadesocial,quefavoreceasolidariedadeeacooperao,comadiversidadedosatoressociais,melhorandoaarticulaodosserviosp-

  • desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA

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    blicos,organizandomelhoroacessoaomercadointerno,chegandoataocompartilhamentodeumaidentidadecultural,queforneceumaslidabasedecoesosocialeterritorial,verdadeirosalicercesdocapitalsocial(BRA-SIL,2003,p.30).

    Apesardaadoodetalperspectiva,asaesdogovernofederalnapromoododesenvolvimentodoschamadosterritriosruraisaindatmsidoinexpressivas.Naverdade,opasnodispedeumplanodedesenvolvimentoruralcomobjetivoseperododevignciapreviamenteestabelecidos,montanteefontederecursosdefinidosemetasdevida-mentetraadas.

    ASecretariadeDesenvolvimentoTerritorial vemdesenvolvendooProgramaNacionaldeDesenvolvimentoSustentveldeTerritriosRurais(PRONAT),masassuasaesatomomentosoinexpressivas.

    O Ministrio do Desenvolvimento Agrrio2 tem se incumbido daconduodapolticadeassentamentos rurais, inadequadamentecogno-minadadereformaagrria,edoProgramaNacionaldeFortalecimentodaAgriculturaFamiliar(PRONAF).Asmetasquantitativasequalitativases-tabelecidasparaosassentamentosnotmsidoatingidas.OPRONAF,porsuavez,permaneceestritamentevinculadoofertadecrditoruralcomsubvenesdiferenciadasdeacordocomadimensoeoperfildosbenefi-cirios,ouseja,serestringeaooferecimentodecrdito.

    OMinistriodaAgricultura,PecuriaeAbastecimento3estabeleceapolticadeapoioagriculturaempresarial,aqualserestringebasicamenteofertadecrditooficialamdiosegrandesprodutoresrurais,taxasdejurosinferioressvigentesnomercadofinanceiro.

    Noh,portanto,umplanodedesenvolvimentoruralqueextrapoleoapoioproduoeefetivamentevalorizeohomemdocampopormeiodoacessoaosserviospblicoseaumarendaquelhepropicieosuprimen-todassuasnecessidadesbsicas.

    Verifica-se, assim, que, noBrasil, hdoisministrios voltados aoatendimentodasdemandasdocampo:oMinistriodaAgricultura,Pecu-riaeAbastecimentoqueestincumbidodoestabelecimentodaspolticasvoltadasaoatendimentodaagriculturaempresarialeoMinistriodoDe-senvolvimentoAgrrioseencarregadoestabelecimentodaspolticasvolta-dasagriculturafamiliarepolticaagrria.Adivergnciadeinteresseseadubiedadedaspolticaspblicasvoltadasaomeioruralficamevidentesnaprpriamaneiracomoaadministraofederalseestruturaparaaten-dersdemandasdocampo.

    2 AmissooficialdoMinistriodoDesenvolvimentoAgrriocriaroportunidadesparaqueaspopulaesruraisalcancemplenacidadania.

    3 AmissooficialdoMinistriodaAgricultura,PecuriaeAbastecimentopromoveroDesenvol-vimentoSustentveleaCompetitividadedoAgronegcioemBenefciodaSociedadeBrasileira.

  • 5

    Antonio nivAldo hesPAnhol

    As limitAes do mercAdo e o desAFio dA gerAo de rendA em PequenAs ProPriedAdes rurAis

    Aagriculturavemperdendoimportnciarelativanoconjuntodaeconomiamundialebrasileira.Emvriospasesforaminstitudaspolticasdelibe-radasdetransfernciaderendadossetoresmaisdinmicosdaeconomiaparaaagriculturaeomeiorural.Ospasesdesenvolvidosnormalmentesubsidiamaagriculturaeaprotegemeconomicamente,prticaquecon-denadapormuitospasessubdesenvolvidos,inclusivepeloBrasil,masqueassocia-se diretamente segurana alimentar e assegura amanutenodeumaparceladapopulaonazonarural.APolticaAgrcolaComum(PAC)naUnioEuropiaeaFarm BillnosEUAseconstituemnosprinci-paisexemplosdeconcessodebenefciosaosprodutoresruraispormeiodaproteodosrespectivosmercadosinternos.

    OBrasilaltamentecompetitivonaproduodealgumascommodi-ties4agrcolase,juntamentecomoutrospasessubdesenvolvidosquetam-bmtmassuaseconomiasassentadasnaexportaodecommodites,temfeitogestesnaOrganizaoMundialdoComrcio(OMC)paraabrirosmercadosagrcolasdospasesdesenvolvidos,comointuitodeampliarasuainseronomercadointernacional.

    Oficialmenteopasdefendeacompetitividadedaagriculturaeado-taumaposturaaltamentefavorvelliberalizaodomercadodecommo-ditiesagrcolas.Internamenteaopas,entretanto,aagriculturacomercialtemacessolinhasdecrditotaxasdejurosbeminferioresquelasvi-gentesnomercadofinanceiroeachamadaagriculturafamiliartemacessolinhasdecrditotaxasdejurosmaisbaixasdoqueaquelaspraticadasnasoperaesrealizadascomaagriculturacomercial.

    Apesardestetratamentodiferenciadoporpartedaspolticasdecr-ditooficial,adota-senopasodiscursooficialdacobranaesistemticadaampliaodosnveisdeeficinciaecompetitividadeedeinseroaomer-cadoportodaaagricultura,independentementedasuaescala.

    Aagriculturaseconstituinumsetoressencialmenteconcorrencialdadoonmeroelevadodeprodutoresvinculadosaomesmosegmentopro-dutivo,noentanto,serelacionacomsetoresindustriaisaltamenteconcen-trados,nosquaispoucasempresasdecorteoligoplicodominamomer-cadodemquinaseinsumosqumicoseasgrandestradingsdominamossetoresdeprocessamentoecomercializaodecommoditiesagrcolas.

    Emrazodeseuperfilconcorrencialedocarteroligoplicodosse-toresindustriaisefinanceirosaeladiretaouindiretamentevinculados,se

    4 Commoditiessoprodutosin natura,cultivadosoudeextraomineral,quepodemseres-tocadosporcertotemposemperdasensveldassuasqualidades,comosoja,trigo,bauxita,prataououro.

  • desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA

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    faznecessriaaregulaodoEstadocomointuitodereduzirsuavulnera-bilidadefrenteaosdemaissetores.

    Neste contexto, a agricultura de grande escala, cognominada deagronegcio,emvirtudedoseupesonasexportaesedasuarepresenta-tividadepoltica,recebetratamentodiferenciadodopoderpblico.Aagri-culturafamiliar,emboratambmtenhaacessoaofinanciamentoabaixastaxasdejurospormeiodoPRONAF,continuaenfrentandomuitasdificul-dadesparasemanter,poisapenasoacessoaocrditooficialnosuficien-teparaviabiliz-la.

    A agricultura praticada pelos pequenos produtores rurais precisaserpensadaparaalmdomercado.Asimplesofertadecrditosbaixastaxasdejurosnosuficiente,poissefazemnecessriasadisponibiliza-odeserviosdeassistnciatcnicaeextensoruralpblicosdequalida-deeacriaodecanaispreferenciaisparaacomercializaodeprodutosgeradosportaisprodutores.

    Omercadodeprodutosagrcolasnotemoferecidoboasalterna-tivasderendaagriculturafamiliar.Ascadeiasprodutivasqueestoemexpansoatualmente,dadasascondiesfavorveisdomercadonacionale,principalmente,domercadointernacional,soasligadasaoscomplexosdasojaesucroalcooleiro,ondenohgrandeespaoparaaparticipaodaagriculturafamiliar,dadooelevadopadrotecnolgico.

    Aproduodesojatemseexpandidonaszonasdecerradodasma-crorregiesNorte,NordesteeCentro-Oestedopaserealizadaemgrandeescalacomintensoempregodemquinaseinsumosqumicos.

    Aproduodacana-de-acar,emvirtudedaatualconjunturafavo-rveldomercadointernacionaldeetanol,vemseexpandindoemdiversasreasdoCentro-Suldopas.Novasusinasestoemprocessodeimplanta-oemuitaszonasdepastagense,emmenorproporo,delavouras,estocedendoespaoaocultivodecana-de-acar.

    Asusinasnormalmentearrendamterrassituadasnasproximidadesdasplantasindustriaisetodooprocessoprodutivorealizadopelopr-priogrupodetentordasempresas,desdeapreparaodoterrenoeplantiodacana-de-acaratasuatransformaoemlcoole/ouacar.

    Assim,aagriculturafamiliartemcadavezmenosespaoparaparti-cipardaproduodecommoditiesagrcolas,tendocomomelhoralternati-vaadiversificaoprodutiva.

    Atividadesmaisexigentesemmo-de-obra(aexemplodaavicultu-raedafumiculturaintegradasagroindstrias;daproduodeleite;docultivodeprodutoshortifrutcolas;dasericicultura;daproduodemel;daextraodeltex,entreoutras),constituemalternativasimportantesdegeraoderendanaagriculturafamiliar.Aproduoorgnica,principal-mentedeolercolas,paraoatendimentodecertosnichosdemercadotam-bmconstituiimportantealternativa.

  • Antonio nivAldo hesPAnhol

    Aagregaodevaloraosprodutospormeiodaproduoartesanaldequeijos,requeijo,doces,compotasetc,tambmpodeconstituirimpor-tantealternativaagriculturafamiliar.Aexploraocomercialdecertosservios,dependendodalocalizaoedascondieslocais,podeserreali-zadaempropriedadesruraisnomuitodistantesdencleosurbanos.

    Aproduodemamona,degirassoledeoutrasoleaginosas,aexem-plodopinhomanso,temsidoapontadacomoalternativaparaaobtenoderendapelaagriculturafamiliar,emrazodoprogramaoficialdobiodie-sel.Apartirdoanode2008deveroseradicionados2%deleosvegetaisaoleodiesel,percentualquedeverserelevadoa5%noanode2013,con-formeestabeleceaLeiFederaln11.097/2005.

    Ascondiesmacroeconmicasnormalmentesoadversasagri-culturafamiliareaspolticaspblicasdeapoioproduosolimitadas.Diantedetalquadro,aviabilizaoeconmicadepequenasexploraesagrcolasnofcildeserobtida.Adiversificaoprodutiva,aagregaodevaloraosprodutoscultivadoseaorganizaodosprodutoresruraisemassociaes ou cooperativas contribuemparamelhorar as condies devidadosprodutoresrurais.

    A associao a outros pequenos produtores rurais, preferencial-mente queles que se dedicam aos mesmos segmentos produtivos, seconstituinumdoscaminhosimportantesparaasuperaodeproblemascomuns.Pormeiodeassociaes,elespodemconseguir:a)comprarin-sumosqumicosapreosmaisbaixos,emvirtudedaaquisiosedaremmaiorquantidade;b)fazerusotemporriodetratores,colheitadeiraseimplementosagrcolas,cujoscustosunitriossoelevados;c)teracessoassistnciatcnicaoficialouparticular;d)negociaremmelhorescon-diesaproduo,poisaofertaemmaiorquantidadedeprodutosreduzocustooperacionaldasempresaseeliminaaaodosatravessadores;e)teracessoamercadospreferenciais,principalmenteparaoatendimen-todedemandaspblicastaiscomooabastecimentodecreches,escolas,asilos,presdiosetc.

    Apesardehaveralgumasalternativasealgunspequenosprodutorespoderemconquistarespaonomercadoe,pormeiodele,obteremrendaparaviverdignamente,ofatoqueagrandepartemaoriaprecisaseraten-didaporpolticaspblicasdecunhodistributivo.

    Ocumprimentodalegislaoambientalseconstituinumoutrode-safioaospequenosproprietriosrurais,especialmentenoquedizrespeitoaocercamentoerestituiodavegetaonasreasdepreservaoper-manente(toposdemorro,nascentes,matasciliareseoutras)eaconstitui-oeaverbaode20%dareatotaldaspropriedadesque,porlei,devemserdestinadasreservalegal.

    Casoalegislaosejarealmentecumprida,(oqueumaincgnita)elaterefeitosmuitopositivossobreaqualidadedapaisagemrural,pois

  • desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA

    acarretarareduodasreasdisponveissexploraes,oqueterreper-cussonegativasobrearentabilidadedosagricultores.

    No caso das pequenas propriedades rurais, uma das alternativasparaseevitarareduodasuperfcieexploradacultivarrvoresquete-nhamvalorcomercialnasreasdereservalegalcomointuitodesereali-zaraexploraoagroflorestalsustentveldetaisreas,jqueistoper-mitidopelalegislaonaspropriedadescomreainferiora30hectares.Nestecaso,cabeaopoderpblicodisponibilizarrecursosfinanceirosparaestafinalidadeeorientarosserviosoficiaisdeassistnciatcnicaeexten-soruralaestimularemprojetosdestanatureza.

    O cumprimento da legislao ambiental vigente e omanejo ade-quadodosrecursosnaturaissodefundamentalimportnciatantoparaaagriculturadegrandeescalaquantoparaaagriculturafamiliar.Nocasodospequenosproprietriosruraisqueexercemaexploraodiretadater-ra,cabeaoEstadooferecerosrecursosfinanceirosnecessriosparaqueelesprocedamrecuperaodasreasdepreservaopermanenteecons-tituamasreasdereservalegal,compensando-osdaperdadopotencialdegeraoderendadecorrentedoatendimentolegislao,especialmentenoqueserefereconstituiodareservalegal.

    Ocuidadocomomeioambientepodeseconstituirnumaimportan-tecontrapartidadospequenosproprietriosruraisspolticaspblicasdecunhodistributivo,ouseja,oacessospolticasdistributivasdeveestarcondicionadoaoscuidadosqueopequenoproprietriodeveteremrela-oaosrecursosnaturaissoboseudomnio,acomearpeloplenocum-primentodalegislaoambiental.

    Emsuma,opequenoproprietrioruralmenosintegradoaomerca-doecombaixopadrotecnolgicoprecisadoacessopolticasdistribu-tivasquepropiciemaeleesuafamliaoatendimentodasnecessidadesbsicas.Aproduodesubsistnciaedeexcedentescomercializveiseaproduoempequenaescalaparaoatendimentodomercadopelosseg-mentosmais vulnerveis da chamadaagricultura familiarno tempro-piciadoarendanecessriaparasevivercomdignidade.CabeaoEstadoestabelecerpolticasdistributivasqueatendamatalparceladapopulao,poisnohalternativasparaainserodamesmapopulaonomercadodetrabalho,sejaeleurbanoourural.

    A heterogeneidAde do cAmPo e A revitAlizAo de esPAos rurAis

    Ocampobrasileirobastanteheterogneo.Nagrandemaioriadosmuni-cpiossituadosnointeriordopas,aagriculturaseconstituinaprincipalatividade econmica.Odinamismo econmicodas cidades interioranasdepende,essencialmente,dodesempenhodaagricultura.

  • Antonio nivAldo hesPAnhol

    Apesardamanutenoda importnciadaagricultura,os espaosruraistmapresentadomudanassignificativasnassuasdinmicas.Elestmsetornadocadavezmaisdiversificadoseoxodoruralperdeuforaapartirdosanos1980,chegandoahaveraretomadadocrescimentodapo-pulaoruralemalgumasregiesdopas.

    Estocadavezmaispresentesnocampoaschamadasatividadesru-raisnoagrcolas,comopesque-pagues,oturismodeaventuraeoturismorural.Estesempreendimentostmpropiciadomaiordinamismoeconmi-co,causadoalteraesnoperfileconmicoesocioculturaldeparcelasig-nificativadoshabitantesdazonaruralerequeridooacessodetalpopula-oaosservioseequipamentospblicos(GRAZIANODASILVA,1999).

    Aexpansodosnveisde instruodapopulaorural (sobretudodosjovens),abaixarentabilidadedasatividadesagrcolas,aexpansodaeletrificaoruraleasmaioresfacilidadesdelocomooedecomunicaoentreosespaosruraleurbanosofatoresquetmfeitocomqueumapar-celacadavezmaiordapopulaodocampodesenvolvaatividadesnacida-de,emborapermanearesidindonazonarural;aagriculturapart-timeeapluriatividadesocadavezmaisexpressivas.Aaposentadoriaruralpassouaseconstituirnumaimportantefontederendaparaboapartedapopula-oresidentenestasreas.Porfim,asegundaresidnciadasclassesdem-diaealtarendaumfenmenocomumenovoscondomniosresidenciaisdestinadosaestapopulaotmdadoorigemaenclavesurbanosemzonasrurais,especialmentenasproximidadesdemdiasegrandescidades.

    Amigraoderetornoaocampoporparte,principalmente,deapo-sentadosurbanosoutrofenmenoquetemprovocadoocrescimentodapopulaorural.

    Asreasruraisjreformadasporintermdiodaimplantaodeas-sentamentos rurais se tornaramdemograficamentemais densas e dina-mizarammuitasreasdopas,conformeenfatizamLeiteet al.(2004).Amanutenonazonaruraldapopulaoassentadaemprojetosdereformaagrriaumdesafioquedeveserenfrentadocompolticaspblicasefica-zesquevisemapropiciaroacessodetalpopulaoaosserviosbsicoseadaraelaascondiesnecessriasparaqueexploreaterraeseapropriedosresultadosdaexplorao.

    Apesardareduodoxodoruraleatoestancamentoouarever-sodessexodoterocorrindo,amaioriadasreasruraisdointeriordopascontinuaenfrentandodificuldadesdecorrentesdosbaixospreosdosprodutosagrcolas,dadegradaodosrecursosnaturaisedabaixacapaci-dadefinanceiradosmunicpiosparaapoiaremasatividadesrurais.

    Almdisto,emmuitasdestasreasapopulaoseencontraemida-deavanadaeasucessodoagricultorseconstituinumgrandeproble-ma.Apopulaojovempreferebuscaralternativasdeempregoerendanomeiourbanoapermanecernazonarural,dadoorelativoisolamentode

  • desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA

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    algumasreas,adificuldadedeacessoaosserviosbsicos,adesvaloriza-osocialdosagricultoreseafaltadealternativasderendasatisfatriaapartirdaexploraoagrcolaempequenaspropriedadesruraiscombaixopadrotecnolgico.

    os desAFios dA sustentABilidAde nA AgriculturA

    Anoodesustentabilidadenaagriculturaestdiretamenteassociadapossibilidadedesemanteraproduoaolongodotempo,conservandooumelhorandoabasedosrecursosprodutivos(HESPANHOL,2007).

    Apartirde tal concepohumagrandediferenciaonoenten-dimentodoquesejaagriculturasustentvel.Adespeitodealgunsaspec-toscomunsemrelaoaoentendimentodesta,Veiga(1992)salientaqueasempresasprodutorasdeinsumosesementesgeneticamentemodifica-dasentendemaagriculturasustentveldeumamaneiraeasorganizaesno-governamentaisaentendemdeumaoutraforma,ficandoevidentesosconflitosdeinteressespolticoseeconmicosentreasduasconcepes.

    As organizaes no-governamentais normalmente entendem poragricultura sustentveloque foi estabelecidopelaGlobal Actionnoanode1993:

    Ummodelosocialeeconmicobaseadonavisoeqitativaeparticipativadodesenvolvimentoedosrecursosnaturais,comofundamentosparaaati-vidadeeconmica.Aagriculturasustentvelquandoelaecologicamen-te bem fundada, economicamente vivel, socialmente justa, culturalmen-teapropriadaebaseadanaabordagemholstica.(GLOBALACTION,1993,apudALMEIDA,1997,p.48).

    ParaasempresasvinculadasaopacotetecnolgicodaRevoluoVerde,anoodeagriculturasustentvelcompatvelcomopadroconvencionaldemodernizao,pormpraticadacommaioreficinciaeracionalidade(HESPANHOL,1998,p.47-48).

    Areduodousodeinsumosindustriais(low input agriculture),aaplicaomaiseficienteoumesmoasubstituiodosagroqumicosporinsumosbio-lgicosoubiotecnolgicosseriamsuficientesparaaconsolidaodonovoparadigma(EHLERS,1995,p.16).

    ParaqueaagriculturasustentvelconcebidapelaGlobal Actionsematerializenecessrioquesejamfeitasreformulaesestruturaisnopa-radigmadedesenvolvimentoatualmenteexistente.

    Damaneiracomoconcebidapelasempresasvinculadasaopa-droconvencionaldeproduoelapodeseralcanadaapartirdoapri-moramentotcnico,pormeiodoavanodabiotecnologiaedasofistica-odossistemasdemanejodosrecursosnaturais,demaneiraagarantirasuaexploraoaolongodotempo,semmaiorespreocupaescomaeqidadesocial.

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    Antonio nivAldo hesPAnhol

    Nocontextobrasileirohumagrandeheterogeneidadedesituaes,sendoque, entendidaporqualquerumadasduasperspectivas, muitopoucoexpressiva.Tantonasgrandescomonasmdiasepequenasexplo-raespredominamsistemasdeproduoassentadosnastcnicasveicula-daspelopacotetecnolgicodarevoluoverdeouemsistemasdeprodu-oarcaicosedanososaomeioambiente.

    H,contudo,apreocupaodeumaparceladosmdiosegrandesprodutoresruraisemadotartcnicasdeproduoquesejammenosagres-sivas,assimcomoiniciativasligadasproduoorgnicaeagroecolgicaporpartedeumaparceladospequenosprodutoresrurais.

    Aindapredominamexploraesassentadasemtcnicasnocivasaomeioambiente,sejaemdecorrnciadautilizaoinadequadadetecnolo-giasemgrandes,mdiasepequenasexploraes,sejaemrazodocarterrudimentardossistemasdeproduotradicionaistambmpraticadosemexploraesdediferentesmagnitudes.

    Arecuperaoouamanutenodosrecursosnaturaisdecrucialimportnciaparaoresgatedaqualidadeambientalnocampoeparaame-lhoriadosnveisdevidadesuapopulaorural.

    A reconstituio dasmatas ciliares, a proteo das nascentes e aimplantaodereservaslegais,conformeestabelecealegislao,poderorevitalizaraspaisagensruraisefavoreceraexpansodeformasdeexplora-oambientalmentemenosagressivasequesejammaiscompatveiscomaspequenaspropriedadesrurais.

    Omanejointegradodosrecursosnaturaisnaescaladassub-baciashidrogrficas,conformerealizadonosprojetosdemicrobaciashidro-grficas,tecnicamenteumaboasoluo.Tantoostcnicosextensionis-tascomoospequenosprodutoresruraisprecisamdorespaldodapolticapblicaparaquesejamimplementadasformasdeexploraoquevalori-zemabiodiversidadeequesejamadequadasaoperfildospequenospro-dutoresrurais.

    considerAes FinAis

    Aspolticasestabelecidasdastrsescalasdaadministraopblica(fede-ral,estadualemunicipal)tendemaconsideraromeioruralbrasileiroape-nasnadimensodaproduoagrcola.

    Noperodoureodamodernizaodaagricultura,entreosanosde1965e1980,todaapolticapblicaestevevoltadaconcessodecrditoruralparaqueosmdiosegrandesprodutoresincorporassemtcnicasme-cnicasequmicasagriculturaeseconvertessemembonsconsumidoresdeprodutos industriaisegrandes fornecedoresdematrias-primasparaasagroindstrias,oqueviabilizouaconstituiodemodernoscomplexosagroindustriaisnopas.

  • desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA

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    Nadcadade1980,opadrodefinanciamentodaagriculturasees-gotouemdecorrnciadacrisefiscaldoEstadobrasileiro.Osagentesecon-micostiveramquebuscaralternativasparaofinanciamentodaproduo.Os agricultores commaior inseronomercadopassarama estabelecerparceriascomasindstriasdemquinaseinsumoseosseusdistribuidoresecomasagroindstriasprocessadorasdasmatrias-primasprovenientesdaagricultura.Aalternativaquesurgiufoiacomercializaoantecipadadassafras,pormeiodarealizaodeoperaesbolsasdevalores.

    Nadcadade1990,achamadaagriculturafamiliarcomeouare-cebertratamentodiferenciadoporpartedapolticapblica,pormeiodoestabelecimentodoProgramaNacionaldeFortalecimentodaAgriculturaFamiliar(PRONAF)noanode1996.Apesardoreconhecidoavanorepre-sentadoporestapolticapblica,aaodoprogramaserestringe,basica-mente,ofertadecrditoruralemcondiesfavorveis,oquenosufi-cienteparapromoverodesenvolvimentorural.

    Apobrezadapopulaoruralpermaneceelevadaenosomentepormeiodoestabelecimentodepolticasdefomentoproduoquetalquadroserrevertido.Faz-senecessriooestabelecimentodepolticasdecunhodistributivoquepropiciemoplenoacessodapopulaoaosserviospblicoseaosbensdeconsumobsicos.

    Aperspectivadodesenvolvimentoterritorial,devidamenteimpor-tadadaEuropa,estincorporadaaodiscursooficial.Cabeaopoderp-blicoconvertertaldiscursoemprticaefetiva.Paratantohaverneces-sidadedaalocaoderecursosparafazerfrenteaocumprimentodetalobjetivo, bem como a contratao de tcnicos ou de servios tcnicoscomestepropsito.

    Ageraoderendaempequenaspropriedadesruraisnosedarso-mentepormeiodainseronomercado.Parceladaspequenasproprieda-desmelhorsituadasgeograficamentepodertrilharporestecaminho,masamaiorpartedospequenosprodutoresruraisprecisadepolticaspblicasquelhespropiciemoacessorendaparafazeremfrenteaoatendimentodassuasnecessidadescotidianas.

    CabeaoEstadonosomentepropiciararenda,mas,aofaz-lo,exi-gircontrapartidas.Umadasmaneiraspossveiscondicionaroacessospolticasdistributivasaocumprimentodalegislaoambiental.

    reFernciAs

    ALMEIDA,Jalcione.Daideologiaidiadedesenvolvimento(rural)susten-tvel.In:ALMEIDA,Jalcione;NAVARRO,Zander(org.)Reconstruin-do a agricultura: Idias e ideais na perspectiva do desenvolvimento rural sustentvel.PortoAlegre:EditoradaUniversidade/UFRGS,1997.

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    Antonio nivAldo hesPAnhol

    BRAGAGNOLO,Nestor;Pan,Waldir.A experincia de programas de mane-jo e conservao dos recursos naturais em microbacias hidrogrficas:umacontribuioparaogerenciamentodosrecursoshdricos,Curi-tiba,IPARDES,2001.

    COORDENADORIADEASSISTNCIATCNICAINTEGRAL(CATI).Pro-grama Estadual de Microbacias Hidrogrficas. CATI:SoPaulo,2000.

    EHLERS,Eduardo.Agricultura sustentvel: origenseperspectivasdeumnovoparadigma.2.ed.Guaba:Agropecuria,1999.

    FREISCHFRESSER, Vanessa. Polticas pblicas e a formao de redesconservacionistas em microbacias hidrogrficas: o exemplo doParan Rural. Revista Paranaense de Desenvolvimento. Curitiba,n.95,jan/abr.1999,p.61-77.

    HESPANHOL,AntonioNivaldo.Agricultura,desenvolvimentoesustenta-bilidade.In:Abordagens terico-metodolgicas em geografia agrria.RiodeJaneiro:EditoraEDUERJ,2007,p.179-198.

    NAVARRO,Zander.Manejo de recursos naturais e desenvolvimento rural.PortoAlegre,2001,ProgramadePs-graduaoemDesenvolvimen-toRural.(Relatriopreliminar).

    SABANES,Leandro.Manejo scio-ambiental de recursos naturais e polti-cas pblicas: umestudocomparativodosProjetosParanRuraleMicrobacias.ProgramadePs-GraduaoemDesenvolvimentoRu-raldaUFRGS,2002.(DissertaodeMestrado)

    VEIGA, Jos Eli da. A transio para agricultura sustentvel no Brasil.Anais da 9 Conferncia da IFOAM,SoPaulo,1992.

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    identidAde territoriAl e desenvolvimento: A FormulAo de um PlAno territoriAl de desenvolvimento rurAl sustentvel do territrio sudoeste do PArAn

    rosel alves Dos santosGegrafa,ProfessoraAdjuntadocursodeGeografiadaUNIOESTEFranciscoBeltro-PR|roseliasantos@gmail.com

    Walter marschnerSocilogo,ProfessorAdjuntodaUniversidadeFederalGrandeDourados-MS|walmars@ufgd.edu.br

    Nos ltimos 40 anos, desenvolvimento sustentvel era tido como umconceitodecirculaoentremovimentospopulareseagnciasdecoope-raoeestavaassociadoutopiadaconstruodeumaoutrasociedade,maisjustaeefetivamenteigualitria.Naatualidade,odiscursodedesen-volvimentosustentveltemfeitopartedapautadediscussotantodeem-presasligadasaoramodosagroqumicos,comodeentidadesligadasaosmovimentospopulares.Trata-sedeumadomesticaodoconceito?Aim-plementao de um desenvolvimentomais eqitativo, nas condies devidadetodosossujeitosdasociedade,dependesemdvidadarevisodoqueentendemospordesenvolvimento.

    Nossoensaioquerabordaraperspectivadodesenvolvimento territo-rial,apartirdalgicadeseusprotagonistasagindonaconcretudedeseuespaosocial.Ocampo1vistoaquicomoumespaoemododevida,ouseja,umterritrioondeasdimenseseconmicas,polticas,culturaiseambientaissoconsideradasdeformaintegrada,compondoacomple-

    1 Entendemosocamponoapenascomoumlugargeogrficodistintodacidade,mascomoaextensodondesedaterritorializaodoexercciodeummododevidaderelativaauto-nomiadiantedasociedadeglobal(conformeWanderley,1996),mododevidabaseadonumaforteteiaderelaespessoais(sociedadedeinterconhecimento,segundoMendras(1976)ebaseadonumaeconomiaderelativaautarcia.

  • desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA

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    xidadedodesenvolvimentoterritorial,quesematerializanasustentabili-dadeenasoberaniaalimentar,enautilizaodeprticasagroecolgicas.Comosujeitosterritoriais,enfocamosaagriculturafamiliar2,entendendoassimasrelaeshumanasmaishorizontaisetransparentes,naparticipa-opopulartantonoprocessodeproduoquantonaescolhadetecnolo-giasagroecolgicasenodesenvolvimentoapartirdascondieslocais.

    Nossaanlisepartedeumestudodecaso.Oterritrioemquesto,SudoestedoParan,temumasingularhistriadeocupaoecelebra,noanode2007,50anosdarevoltadosposseiros,histriaestaquelegouaoter-ritrioumaidentidadebemdefinidadelutapelaautonomiadaagriculturafamiliar,representadaporumnumerosocorpodeorganizaessociais.OSudoestedoParanumdosterritriosondeoMinistriodeDesenvolvi-mentoAgrrio(MDA),atravsdaSecretariadeDesenvolvimentoTerritorial(SDT),implanta,comrelativoxito,suapolticadedesenvolvimentoterrito-rial,sendorecentementepublicadoumdosprimeirosplanostipoterritorialdedesenvolvimentoruralsustentvel(PTDRS)dopas.

    Oqueestemquestonesteartigoocarterendgenodapolticaterritorialdogoverno.Pergunta-seatquepontoapolticagovernamentaldedesenvolvimentoparaocampocapazdeabarcarosritmoseostem-posdosterritrios?Quaissoaspossibilidadesdeprocessosdeintegraoeconomiaglobal,talcomoapropostadedesenvolvimentodoMDA,fa-zeremaleituradarealidadeterritorialsemreduzi-lalinguagemecon-mica,masconsiderandoacomplexidadedasrelaessociaisqueoterri-trioabrange?Quaissoaspossibilidadesdodesenvolvimentoterritorialpromoveraesestruturantes,combaseemumaanliseestratgicaquepossibiliteasuperaodeumaabordagemsetorialdedesenvolvimentoefomenteumavisoampladeterritrio?

    A FormAo territoriAl: o cAso sudoeste do PArAn

    OSudoestedoParansedestacaporconservar,atosdiasdehoje,umadistribuiodemogrficaderelativoequilbrioentreespaoruraleurba-no3,oqueseexpressatambmnumdestacadoprotagonismodaagricultu-rafamiliar,quemaisdoqueumsistemaeconmico,umsistemaderela-essociaisespecficodentrodocenrioruralnacionalobjetivadoatravs

    2 Aadoodoconceitoagriculturafamiliaratendeaquiaocontextoespecficoaquenosreferi-mos.Agriculturafamiliar,segundoAbramovay(2005,p.7),umadefiniocorrentenoBrasil(enquantoquenaAmricaLatinafala-seemcampesinato),emespecialnaRegioSul,ondevigoraumafortepresenadamigraoeuropia,edaqualfazparteoSudoestedoParan.

    3 SegundodadosdoIBGE,apopulaoruraldoSudoestedoParannoanode2000erade189.582habitantes,cifraquerepresentava40,11%,enquantoqueapopulaourbanaeracompostapor283.044habitantes,oqueequivalea59,89%.Enquantoisso,apopulaour-bananototaldoEstadodoParanconsistia,noanode2000,em81%.

  • rosel Alves dos sAntos | WAlter mArschner

    deumconjuntodeentidadesderepresentao(comoanalisamAbramo-vay,2005,Schrder,2005,Magalhes2005).Entendemosqueoselementosparaacompreensodestaconfiguraoderelaestosingularestoemboapartenaformaodoterritrio.Muitoantesdeumterritriodecreta-do,oSudoestedoParanresultantedeidentidadeseinteraesentreato-ressociais,historicamenteforjadossobreumdadoespao.SegundoAlveset al.(2004,p.156)

    [...]oterritrioaexpressoconcreta/abstratadoespaoproduzidoapartirdamultidimensionalidadedeumaredederelaessociaisparametrizadasnotrabalhoemarcadaspelopoder.Nohterritriosemrelaesdepoder.Noterritrio,dessamaneira,produz-seumaterritorialidade,frutodasrela-esdirias,momentneas,queoshomensmantmentresiecomsuana-turezaexterior,evidentemente,nosnombitodaeconomiamastambmdasaespolticaseculturais.

    Assim,emumabreverevisohistrica,queremosdestacar,defor-mapontual,oselementosqueconsideramosdeterminantesparaexplicaraidentidadeterritorialqueseapresentanoSudoestedoParan.

    o sistemA de Posse, A lutA PelA terrA e A imPlAntAo dA PequenA ProPriedAde

    TomamoscomopontodepartidaoinciodosculoXX,pontoemque,se-gundoFeres(1990),oSudoestedoParanapresentavaumapopulaoin-feriora3.000habitantes,concentradosespecialmentenoscamposdePal-mas,emreasplanasabrangendoosmunicpiosdePalmaseClevelndia.A atividadepecuriada pocapressupunhaumsistemadeorganizaosocialdagrandepropriedaderuralcomsuaestruturadeagregados,querepresenta,paraalgunsautores,aorigemdapopulaocaboclanaregio4,e,apesardoreduzidonmerodepesquisas,importantedestacarqueha-viatambmapresenadendios.Aestapopulaorarefeitaacrescenta-se,nadcadade1920,oprocessodemigraoaleatrioquelevaapopulaoapraticamentedobrar(6.000habitantes).,porm,apartirdadcadade1940,comavindadriademigrantesdeorigemeuropia,queocresci-mentopopulacionalimpulsionadosignificativamente.

    Apoltica getulistade integraonacional, visando colonizaodereasestratgicasdo territrionacionalaassimchamadamarchaparaooeste,trouxegrandeslevasdeimigrantes.Eram,emsuamaioria,

    4 Almdosparaguaiosedosargentinosqueextraiamaerva-matedaregio,oinciodopro-cessodeocupaoteveligaocomoexcedentedemo-de-obradasfazendasdecriaodegadoederefugiadospolticosdaGuerradoContestado(FERES,s/d).Atadcadade1940,osmigrantes,chamadosporFeres(1990,p.494)eAbramovay(1981)decaboclos,sobrevi-viampormeiodacaaeprincipalmentedoextrativismodeerva-mateedacriaodeporcosemregimesemi-selvagem.

  • desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA

    excludospelafragmentaodapequenapropriedadenosEstadosdoRioGrandedoSuledeSantaCatarinaechegamaoSudoestedoParanembuscadeterraslivres,colonizandoespecialmenteasreasdematatropicallindeirajconsolidadacomoestruturadegrandepropriedadedoscamposdepastagem.OgegrafoalemoLeoWaibel(1984,p.33),aopesquisar,nadcadade1940,omovimentomigratrioteuto-brasileiro,detectaduasestruturasterritoriaisnoSudoeste:deumladooscamposdosfazendeiroseseusagregadose,deoutro,amatadoscolonosecaboclos.Tratava-sedeumaocupaodiferenciadadasterrasque,segundoAndrade(1995,p.63),eratpicadosuldoBrasil,ondeaocolonodeorigemeuropiacabiamasterrasmontanhosasecobertasdemata.

    Apesar desta delimitao espacial, segundo Abramovay (1982, p.54ss),aconteciamtrocasconstantesentrecaboclosecolonos; trocasemqueestesltimospassamaadquirirasterrasdoscaboclosapreossim-blicos.Negociadaseramprecisamenteasmelhoriasdoscaboclossobrea terra,asclareirasecaminhosabertos.Vigoravaacompradodireitoterra,oregimedaposse,umaformadeacessoterramediadaporumsistemadevaloresvigente,baseadonaeconomiadesubsistncia,ondeodireitoterradetrabalhotemprimaziasobrequalqueroutrarelaodepropriedade(WOORTMANNN,1997,p.151;MUSUMECI,1988,p.34).

    Nocomeoerammuitopoucagente.Nsficamosemquatrofamlias,equemnsencontramosmorandoaquieram[]comosediz[]brasileiros,n.Caboclos[]eaquelepovofoiseretirando.Elesforamvendendo,porqueelesmostravamparagente,extensesenormesdeterra[]nohavianemdivisa[]voccom-pravaassimmaisoumenossemmarcar[](TeclaTrigeri,Jacutinga,2004).

    Oscolonostambmassimilamomododeocupaocabocladaterravirgem,reproduzindopormuitotempoosistemadepousiorotativo,infor-maotambmconfirmadaporBonetti(1997,p.18ss).ParaFeres(1990,p. 495), a relaodeproduo sob as terras virgens obedecia relaomaisespaomenostrabalho,resultantedaocupao livredasterrasabundantesedabaixaconcentraodemogrfica.

    ParaMarschner(2005,p.133ss),osistemadeposseassimiladopeloscolonos era compatvel economiamercantil das colnias demigrantes,ondeaspropriedadesmantinhamumaeconomiaaindabastanteautrqui-ca,marcadamentedesubsistncia,queproduziaaindapequenosexcedentesparaomercado,majoritariamenteasuinocultura,comassafrasdeporcos5,comrciodemadeiraedemaisrelaesdetrocascomasbodegas.impor-tante destacar que a empreitada colonizatria noSudoeste doParan se

    5 ParaFeres(1990)eBonetti(1997),asuinoculturamanteve-secomoforteatividadeecon-mica,sendoresponsvelpelaampliaodasreasocupadaspelocultivodomilho,principalfontealimentardossunos.Assim,haviaumacoexistnciaentreasuinoculturaemregimesemi-selvagemeadesafra(1990,p.495).

  • rosel Alves dos sAntos | WAlter mArschner

    consolidaapartirderedesdecooperaoereciprocidadeoriundasdeseuslugaresdeorigem.Asnovascomunidadesseestruturamnogeralapartirderelaesvizinhanaeparentesco,agorareproduzidasnasnovasterras.

    Erasempagamento.Notinhaassim,negcionodinheiro.Especialmentecomosparentes.Porquenoqueriaqueoparentefossemaislonge.Ou,porexemplo,omeupai,ouopaidoBernardo,queerairmodele[]elesdiziam:vocsecolocaali,ficaali.Davinhamaisumconhecido,maisumparente:vamosrepartirumpedao,vocdmaisumpedao[],entoeraassimmaisnessejeito[]noeracomercial.(TeclaTrigeri,Jacutinga,2004).

    Taldinmicadeocupaoterritorialfavoreceuaconstruodere-laes horizontais relativamente homogneas, fatores decisivos para osucessodaempreitadacolonizatria.AColniaAgrcolaGeneralOsrio(CANGO),cominstalaodeconsidervelapoiologstico(serrarias,aten-dimentomdico,fornecimentodeferramentas,entreoutrasmedidas),de-sempenhoupapelcentralparaaconsolidaodeumaeconomiamercantildecolniaagrcola(LAZIER,1998,p.17;ABRAMOVAY,1981,p.41).

    Nesteaspecto,podemosobservarumaprogressivainterligaodosterritriosatravsdeatividadesdoscolonosarticuladascomumacrescen-tecadeiadeatoresdeumaeconomiamercantilflorescente.Juntocomosmigrantes,vinhaserviodemoinhos,ferreiros-artesos,transportadores,comerciantese,sobretudo,asbodegas,pontosdearticulaodeumaeco-nomiadepermutasfortementebaseadaemrelaespessoaisaindaquemarcadapelasignificativaexploraodosmigrantespelosbodegueiros.

    NenhumoutrofatohistricopoderiarevelarmelhoraimportnciaeovigordestesistemadecolniaagrcoladoquearevoltaarmadadosposseiroscontraascompanhiascolonizadorasCITLA,ComercialAgrcolaeCompanhiaApucaranaem1957.Aaocriminosadestascompanhiascolonizadoras,representantesdogovernoLupion,atravsdaviolnciadejagunos,visavaprfimnosistemadeposse.Oscolonoseramobrigadosapagarpelasterrasjocupadasouassinarpromissriasassumindoadvi-da.Comacoeroarmada,estavaameaadoumsistemaderelaeshori-zontais,deconfiana,derelativaharmonia,dereciprocidades,deredesdecooperaoetrocassimblicas.Essaameaaoscolonosdescreviamquaseapocalipticamente: Imperava o medo. No havia mais lei! Jaguno e polcia estavam de mos dadas, no havia mais baile, nem missa, as pessoas come-am a ir embora [](AvelinoCavaleri,Ver).

    Finalmenteareaoarmadadecolonos,caboclosecomerciantes,lograatomadadascidadesdePatoBranco,FranciscoBeltro,SantoAn-toniodoSudoesteeCapanema,bemcomoaexpulsodosjagunos,ades-truiodosescritriosdascolonizadorasetodasashipotecas,represen-tandoumdos rarosmomentosdahistriadaquestoagrriabrasileiraondeagricultoresvencemestruturasoligrquicas.UmregistroimportantedestacadoporBattisti(2006)consistenofatodoincentivoparaarevolta

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    tersidodesenvolvidoporlideresdoPTBedaUDNpreocupadosemconso-lidarapolticagetulistanaregioeemfortalecerumaoposioaogovernodeLupion.Tambmdestacamosqueoutraslutascomeamerecomeamapartirdessefatopoltico.

    Nopossvelfalardacapacidadedemobilizaosocialdaagricul-turafamiliardoSudoestedoParansemfazervnculoscomessaheranahistrica.AposterioraodoGrupoExecutivoparaasTerrasnoSudoestedoParan(GETSOP),noperodoJooGoulart,nadcadade1960,comaemissode32.256ttulosdelotesruraise24.661urbanos,ratificaumaes-truturafundirianoSudoestejefetivada.Seaemissodettulosdepro-priedadepodeserconsideradacomosmbolodavitriadalutapelaterra,estapoltica,poroutrolado,consolidaaimplantaodapropriedadepri-vadanaregio.Essainterveno,protagonizadapeloEstado,naquestofundiria, estabelecedefinitivamenteascondiesparaapenetraodocapitalnoespaorural.

    A seqnciadoorquestramentoestatalpermaneceapartirdad-cadade1970,quandooEstadoassumeopapeldefomentadordarevolu-o verde.Implanta-seomodelodedesenvolvimentoagropecurio,tendocomometaaacumulaoampliadadecapital,de formaaatender inte-ressesdo sistemacapitalistahegemnico, atravsde investimentos edacriaoeampliaodemercados.Osprincipaisinstrumentosdoavanodocapitalsobreaagriculturafamiliarpassamaserocrditoeasgrandescooperativas.

    desenvolvimento dA cAPAcidAde orgAnizAtivA e A deFesA dA AutonomiA dA AgriculturA FAmiliAr

    Nadcadade1960surgenoSudoestedoParanaAssociaodeEstudos,OrientaoeAssistnciaRural(ASSESOAR),napocaumaentidadevin-culadaIgrejaCatlica,seguindoosventosinovadoresdoConclioVati-canoII(1962-1964),atuandonaregionaperspectivadeorganizaraso-ciedadecivildentrodeumaperspectivareligiosaprogressista.AAssesoarinicialmenteorganizaasfamliasdeagricultoresemgruposdereflexoeao,quequestionamapolticaassistencialistaemvigorepassamarei-vindicarumsindicalismocombativo.empartedevidoaestespequenosgruposdebasequesurge,em1979,aComissoPastoraldaTerra(CPT)noParan.DaaoorganizativadaCPT,porsuavez,numaarticulaodemovimentoscamponesesdostrsEstadosdoSul,surge,porltimo,omovimentode trabalhadoresrurais semterra (MST).Dessasaesear-ticulaes,surge,nosindicalismo,umanovageraodedirigentes,comhistricodeformaonasCEBsepastorais,grupoquevaiposteriormentefundar,em2001,aFederaodosTrabalhadoresnaAgriculturaFamiliardaRegioSul(FETRAF-Sul).Noexageroafirmarqueestasentidades

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    noSudoestefizeramfermentarocaldodeculturadeumahistriadelu-tascontrao latifndio,protagonizadopelarevoltade1957.As lutasdasentidadesnasdcadasde1970emdiantevoltaram-se,sobretudo,paraadefesadaautonomiadaagriculturafamiliar,frenteaosavanosdafron-teiraagrcolaedarevoluoverdecomtodasassuasconseqncias,ex-pressasdeformageneralizadaemtodooBrasilpelafalnciadaspequenaspropriedadesepeloconseqenteesvaziamentodaspopulaesdocampo,frutonefastodeumpolticadedesenvolvimentovoltadaparaageraodedivisasapartirdomodeloagroexportador.Aomesmotempoqueseesbo-aumatenazresistnciaaomodeloagrcolaatravsdesuasentidadesderepresentao,aagriculturafamiliartemsidocriativaemconsolidarumvigorosarededepequenascooperativaseassociaesdeagricultoresfami-liares,dasquaissedestacamhojeasCooperativasdeLeitedaAgriculturaFamiliar(CLAFs)easCooperativasdeCrditoRuralcomIntegraoSoli-dria(CRESOIS).

    Opanoramabrevementeesboadofundamentalparaquesecom-preendaatensohistricaquesecolocaagriculturafamiliar,nasendaentreamanutenodeummododevidacomrelativaautonomiaecon-mica,devaloreseidentidades,eomovimentoprogressivodeincorporaodestesistemasocialsestruturasdocapitalagroindustrial.Nosetrataaquideperguntarpelaschancesdesobrevivnciadeumasociedadedeva-lorescomunitriosedeeconomiaautrquicaderelativaautonomiadiantedaeconomiademercado,masdeperceberqueaimagemdessasociedaderesistenaatualidade,expressando-senaformadeumafortememriaco-letiva(nosentidodeHalbwachs,1985),comoumasubjetividadelatente,certamentemotordaslutascontemporneaseespritopresentenasenti-dadessindicais,movimentossociaiseONGsqueatuamnoSudoestedoParan.Apartirdessamemriacoletivaentendemoscomoequivocadaacompreensodaagriculturafamiliar,comoumsujeitosocial,cujaespeci-ficidadesebaseianodilemahistricodeintegrar-seaocapital,aindaquedeformadiferenciadaoudesaparecer.

    Talleitura6doSudoestedoParanapartirdeumprocessohistricorestritoaapenasquatrodcadasconsistenumavisoreducionista.Emter-mosdememriasocial,apassagemdosistemadeposseparaaexperinciadapropriedadeprivadaeainserodocapitalagroindustrial,aindaque

    6 Sohegemnicasasleiturasdoqueorural,quemsooscamponesesouagricultoresfamiliarespartindodaperguntadopapelqueestesassumemdiantedoavanodaindustria-lizao.Sejaatravsdaassimilaodasinovaestecnolgicas(naperspectivadifusionista)ounaperspectivadasuaintegraoparcialaomercado(concepoapartirdeCHAYANOV)ounaintegraodocamponsemunidadescoletivasdeescalaagroindustrial(apartirdeKAUTSKY),ocamponoexprimenenhumarealidadeemsimesmo,masobservadomuitomaisapartirdesuafuncionalidade,dentrodoviseconmico.(vejaVILLELA,1999,p.26;MARSCHNER,2005,p.28).

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    impactante, recente, sendo apenasumcomponentedodevir histricodestegrupo,insuficienteparadefinirsuaidentidade.precisopartirdeumaabordagemmaisampla,entendendotudooquecompeoethos(nosentidodeBourdieu)doagricultorfamiliar:entenderomundoderelaes,valoreserepresentaesquecompeocampo,lugarvivencial,locusdeummododevidadistintodourbano.

    A histria do Sudoeste do Paran carrega, de forma dramtica esingular,acrisedapassagem,naspalavrasdeFerdinandTnnies(1991),decomunidade(Gemeinschaft)parasociedade(Gesellschaft).Entende-seaquioprocessodecomplexificaotpicodasrelaesdasociedademo-derna,ondeestemjogonosadespedidadeumaeconomiamercantilpara uma economia complexa demercado,mas amigrao gradual deumarededevaloresdereciprocidadeserelaespessoaisparaumsistemaabstratodecontrato social,ondevigoramrelaesannimasenvolvendoainteraocomsujeitosmuitasvezesausentes.Comaglobalizaoacon-tececadavezmaisodescolamento7doterritriodolugar,ouacisoentreolugarondeacontecemasprticassociaisespecficasquenosmolda-ram,ondenossasidentidadesseencontramligadasintimamenteeoes-paoindiferenciado,ondesedoasrelaesdistncia,protagonizadasporausentes(decisesdemultinacionais,acordosbilaterais, impactodapolticadaOMCetc.).Omeiorural,semdvida,oespaoondetalpro-cesso impactacommais intensidade, solapandosobremaneiraascondi-esdeformularumprojetodedesenvolvimentoprprio.Odilemacoloca-doagriculturafamiliaraconstruodeumprojetodedesenvolvimentoquedcontadegarantirarelativaautonomiadeseumododevidaecriarasinterfacescomeconomiaglobalizada.

    destaperspectivadeanlisequeinterpretamosaconstituioter-ritorialrecente.Trata-sedecompreendercomoumapolticadedesenvol-vimentoterritorial,protagonizadapeloEstado,impactaumterritriocomidentidadetodefinidacomocasodoSudoestedoParan.

    A ABordAgem do desenvolvimento territoriAl ProtAgonizAdA Pelo mdA

    Comoexpostoanteriormente,emsetratandodepolticaspblicas,ocam-pofoihistoricamentecaracterizadocomoumvazio,pelaausnciadepo-lticaspblicas,ausnciaeprecariedadedeinfra-estruturascomoescolas,reasdelazer,postosdesade,estradasadequadasetc.,e,aexemplodos

    7 AntonyGiddens(cf.GIDDENS,1991,p.9)caracterizaodesenvolvimentodamodernidadepeloqueelechamadedescolamento:ocrescenteimpactodaintervenodeatoresausen-tese,noraro,desconhecidosquepassamapautaroqueaconteceemnvellocal,causandooesvaziamentodasrelaesfaceafacenaconduodosprocessossociais.

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    conflitos sangrentosda revoltade57, tambmpelaausnciadeumEs-tadodeDireito.Poroutrolado,nasltimasdcadasoEstadoparticipouintensivamentenaimplantaodepacotestecnolgicosparaaproduoextensiva,nosmoldesdamodernizaoagrcola.Assim,asnovaspolticasdedesenvolvimentogovernamentais,aindaqueseguindoumanovaabor-dagem,estoirremediavelmentemarcadaspelacontradiodapassagemdeumEstadooutrorararefeitoedeaesfragmentadasparaumEstadoagoradescentralizado,mnimo,queatendeaosmtodosatuaisdedesen-volvimentodocapital.

    Talvezoquemelhorsimbolizeessapassagemsejaoprocessodeim-plantaodapropostadescentralizadadedesenvolvimentoterritorial,pro-tagonizadapelaSecretariadeDesenvolvimentoTerritorial (SDT)doMi-nistriodeDesenvolvimentoAgrrio(MDA).CriadonogovernoFernandoHenriqueCardoso,naperspectivadeformularpolticasagrcolasdiferen-ciadas(dasquaisamedidamaisimpactantefoiacriaodoPRONAF),oMDAassumearesponsabilidadenaconstituiodeumanovapolticadedesenvolvimentocentradanosaspectosdeinclusoeeqidadesocialdeformasustentvel.ComoreafirmaMontenegroGmez(2006),aidiadedesenvolvimentofunciona,porm,comoumaestratgiadecontrolesocialintermediadapeloEstadoe limitada realizaodo possvel.Assimsendo,alimitaodapolticadedesenvolvimentoterritorialedaaoes-tatalemtemposdeminimizao:

    [...]deverater-seslimitantesimpostaspelasrestriesoramentrias,fi-nanceirasehumanas,quereduzemacapacidadedeintervenoconvencio-nal, lanandomode estratgias de descentralizao, de participao dasociedade,deplanejamentoascendenteedevalorizaodosrecursoslocais,fatores que, combinados, obrigam reinvenodeprocessos de articula-o,ordenamentoeapoioaodesenvolvimentoedoprpriopapeldoEstado(MDA,2005,p.17).

    D-se,ento,umareleituradodesenvolvimentobrasileiro,assumin-dooenfoqueterritorial,visandoaumapolticadeatendimentosespecifici-dades,pormnadimensodadescentralizaoedaminimizaorequeridapeloEstadoatual.Noqueserefereaorural,nesseensejodedescentraliza-oevalorizaodosrecursoslocais,aagriculturafamiliareareformaagrriasoconsideradaspeloMDAcomo[...]elementoscapazesdeenfren-tararaizdapobrezaedaexclusosocialnocampo(2005,p.10).Comestaabordagemterritorialruralconsideradaaexistnciadeumanovarurali-dade,aqualenvolvemltiplasarticulaesintersetoriais,[...]garantindoaproduodealimentos,aintegridadeterritorial,apreservaodabiodiversi-dade,aconservaodosrecursosnaturais,avalorizaodaculturaeamul-tiplicaodeoportunidadesdeincluso(Ibid,p.10).Aocolocaraagricul-turafamiliareareformaagrriacomoelementoscentraisdodebate,assimcomoanecessidadedeincluso,oMDAreconheceasmazelashistricasda

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    modernizaodaagricultura8,comaadoodedinmicasindustriaisparagernciadoprocessoprodutivonocampoacarretandooaumentodapobre-zarural,paraleloaosrecordesdeproduoeprodutividade.NistoserefleteaprioridadedadapeloMDAreasdebaixoIDHparaconstituiodoster-ritriosruraiseaplicaodapolticadedesenvolvimentoruralsustentvel.Paraenfrentarapobrezarural,frutodasperspectivasdedesenvolvimentobaseadasnachamadarevoluo verde,oMDAprope:

    [...]banirafomeeamisriadoseiodonossopovo.Omaiordesafiosociallivrardapobrezadapopulao,estabelecendomecanismosdeestmulosuainclusodignanoprocessodedesenvolvimentodoBrasil.Frentegran-dezadessedesafio,nosepodeimaginarqueeleservencidopelarepetiodosmesmoserrosdopassado,queatenderaminsuficientementealgunsse-toresouregies.OBrasilnecessitaaproveitaroportunidadesdealterarefe-tivamenteosvelhosparadigmasorientadosparaaconcentraodosativosedarenda,parasuperexploraodosrecursosnaturaiseparaadiscrimina-odeoportunidades(2005,p.10).

    Aabordagemterritorialconsisteemumatentativadefomentarodi-logoeabuscadesoluesparaosproblemasdedeterminadoterritrio,oqualpodeserdelimitadoapartirdo jogodepoderqueseentrelaanoespao.Opensarterritorialentendidocomoumexerccioendgenoqueserealizapormeiodeconexolocal/globalequeexigeaconflunciadosinteressesdediferentesatoresdoterritrioparaatenderssuasnecessida-descentrais.Trata-sedeumatarefabastantedifcil,umavezqueenvolveatores sociais quehistoricamente trabalhamcomumenfoque fragmen-tado.Nestesentido,ograndeavanodestapolticaterritorialest justa-menteemfomentarodebateapartirdemltiplasdimensesdodesen-volvimentoeensaiaroexercciodeplanejamentoestratgico.Orisco,poroutrolado,estjustamentenainstitucionalizaodestaspolticasdentrodeumaagendadeEstadomnimo,limitando-seaopreviamentedefinidocomoaespossveis:teremosaentomaisumapolticaquenocon-tribuiparaorompimentodasfragmentaesedescontinuidadesqueathistoricamentemarcaramodesenvolvimentodorural.

    A construo do territrio oFiciAl sudoeste do PArAn e de um PlAno de desenvolvimento

    Paraoperacionalizarsuaspolticasdedesenvolvimentoterritoriaisdefor-macoerentecomavisodescentralizadoradasaesgovernamentaisedi-

    8 Nummovimentodeantagonismosecontradies,aRevoluoVerdepropsadotarnaagri-culturaosmesmosprocedimentosquevigoramnaindstriaeassimaumentaraproduodeali-mentosnomundo,propostaqueconferiuNormanBorlaug,em1970,oPrmioNobeldaPaz.Aequaofordista,noentanto,noseconfirmou:afomenodesapareceu,aocontrrio,temseampliado,eaevasodocamposetornouumproblemasocial.(cf.GRAZIANODASILVA,1981).

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    recionando-asspopulaesdocampo,oMDApropeconsolidarumago-vernana local,baseadanacapacidadedemobilizaosocialdeterritrios,priorizando,paraaimplementaodesuaspolticasterritoriais,ametodo-logiadeconstruo de territrios oficiaisnasreasconsideradasdemaiorpobrezaruraledemenorinseronomercado.Oterritrio,nacompreen-sodoMDA,muitomaisqueumespaofsico,sefazdefinirpelasrelaesqueabrigaepeloconjuntodedimensesqueocompe:

    umespaofsico,geograficamentedefinido,geralmentecontnuo,com-preendendocidadesecampos,caracterizadoporcritriosmultidimensio-nais,taiscomooambiente,aeconomia,asociedade,acultura,apolticaeasinstituies,eumapopulao,comgrupossociaisrelativamentedistin-tos,queserelacionaminternaeexternamentepormeiodeprocessosespec-ficos,ondesepodedistinguirumoumaiselementosqueindicamidentidadeecoesosocial,culturalepoltica(MDA,2005,p.28).

    Esteconceitodoterritrio,utilizadopeloMDAnainstitucionaliza-odaspolticaspblicas,destacacomoelementoscentraisacoesosocial,culturaleterritorialcomocondiesendgenas,propulsorasdodesenvol-vimentorural.ParaoMDA,aabordagemterritorialpodeserempregadaempraticamentequalquer realidade concreta, cabendoa ele articular aseleoeoordenamentodasmicrorregiesqueinicialmentereceberooapoiopretendido,segundosuaslimitaesderecursos.

    Apolticaterritorialprevaconstituiodeumgruporesponsvelpelagesto,formadodeformaparitriaporentidadesgovernamentaiseno-governamentais.Assimosgruposgestoresrepresentamanovapropos-tadesinergiaentrepoderpblicoesociedadecivil,exercitandodeformadescentralizadaaconduodaspolticaspblicasdedesenvolvimento.

    HojetemosnoBrasil118territriosconstitudos,amaioriacomgru-posgestores institudos.NoSudoestedoParan, foicriadoem2003seugrupoGestordoTerritriodoSudoestedoParan(GGESTEPA)9.Boapar-tedosgruposgestoresencontra-seemavanadoprocessodeplanejamen-toetemexercitadoessagovernanaterritorialatravsdoacessoegestoderecursospblicosparaimplantaodeprojetosestratgicosdedesen-

    9 AsorganizaesgovernamentaisquecompemogrupogestordoSudoestedoParanso:AssociaodasCmarasMunicipaisdoSudoestedoParan,AssociaodosMunicpiosdoSudoestedoParan,AssociaodosSecretriosMunicipaisdeAgriculturadoSudoestedoParan,Emater,EscolasAgropecurias,InstitutoAmbientaldoParan,InstitutoAgronmi-codoParan,SecretariadeAgriculturaeAbastecimento,UniversidadeEstadualdoOestedoParaneUniversidadeTecnolgicaFederaldoParan.Asorganizaesno-governamen-tais:SistemadeCooperativadeLeitedaAgriculturaFamiliar,AssociaodasAgroindstriasFamiliares do Sudoeste do Paran, Centro deApoio ao PequenoAgricultor, CooperativaIguaudePrestaodeServios,CooperativadeCrditocomIntegraoSolidria,Institu-toMaytenus,MovimentodosAtingidosporBarragens,CentroRegionaldeAssociaesdosPequenosAgricultores,MovimentodosSem-Terra,AssociaodeEstudos,OrientaoeAs-sistnciaRural,ACESI/FETRAFeAssociaodasCasasFamiliaresRurais.

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    volvimentoterritorial.AlgunsTerritrios,aexemplodoSudoestedoPara-n,concretizaramumplanodemetasdemdioprazo,objetivadopeloPla-noTerritorialdeDesenvolvimentoRuralSustentvel(PTDRS).Apartirde2004,ogrupogestordoterritriodoSudoestedoParancomeaaserorga-nizado,estabelecendoasprimeirasinteraescomaspolticasdoMDA.

    A identidadedo territrionoSudoestedoParanmarcadapelaagriculturafamiliar,emcujabasepermeiamdiferentesrelaesdepoder,manifestas em diferentes organizaes governamentais e no-governa-mentais,comoaASSESOAR,oMST,prefeituras,aEMATER,produtoresdefumo,integradosaviculturaetc.Humadiversidadedeinteressesquepodemseaproximarousedistanciar,masquetmnaagriculturafami-liarseupontodeconfluncia,quersejaparaseufortalecimentoouparasuasuperao.Natentativadeampliarodebateeaparticipaoefetivadosdiversos atores sociais sobre a abordagem territorial, oGGETESPApromoveu a realizao de oficinasmicrorregionais, nas quais levantou-seodiagnsticodarealidadeapartirdasinterpretaesdoscercade250participantes,almdedebatereferenteaopapeldaagriculturafamiliar,visodefuturoparaesteterritrioedefiniodeestratgiasparaatingirasmetaspropostasparaodesenvolvimentoterritorial.SegundoorientaodoMDAparaaconstruodeplanosterritoriaisdedesenvolvimentoruralsustentvel,compreendidacomo:

    [...]umconjuntoorganizadodediretrizes,estratgiasecompromissosre-lativossaesqueserorealizadasnofuturovisandoaodesenvolvimentosustentvelnosterritrios,resultante de consensos compartilhados dos atores sociais e o Estado, nasdecisestomadasnoprocessodinmicodeplanejamentoparticipativo.(MDA,2002,p.10,grifodoautor).

    OPTDRSconstrudonoSudoestedoParanreflete,semdvida,oavanodasentidadesdaagriculturafamiliarnoexercciodepensarestra-tegicamente,planejandoepriorizandoasaes,partindodeumexercciocoletivodediagnsticodarealidadeterritorial.Exigiuapactuaodein-teressesquecontemplemasheterogeneidadesdos territriose [...]queatendamsprincipaisdemandasdosatores sociais,pois somentedessaformaserpossvelaformaodealianaseparcerias,queconcretizemocapitalsocial,embenefciodotodo(MDA,2005,p.21).

    A construo do PTDRS do Sudoeste do Paran teve por base odiagnsticoeodebaterealizadodopapeldaagriculturafamiliarcomooelementodeidentidadeterritorial,almdeumareflexoterico-metodo-lgica10referenteaoconceitodeterritrioedautilizaodaabordagem

    10Aanlisetericaeasistematizaodasinformaesforamdesenvolvidaspelospesquisa-doresdoGrupodeEstudosTerritoriaisdaUniversidadeEstadualdoOestedoParan(GE-TERR)edoCentrodePesquisaeApoioaoDesenvolvimentoRegionaldaUniversidadeTec-nolgicadoParan(CEPAD).

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    territorialcomoformadesuperarumavisofragmentadadocampoedeavanarnaconstruodeumaoutraperspectivadedesenvolvimentomul-tidimensionalmentemaisequilibrado.

    Combasenasinformaesobtidasnasoficinasmicrorregionais,foiestabelecidaumaoficinageralcomdelegados/asescolhidos/aseosparti-cipantesdoGGETESPA,queavaliaramasestratgiaseestabeleceramosconsensoseasaescentraisparaodesenvolvimentodo territriocombasenosaspectosmultidimensionais.

    AmetodologiaparaaconstruodoPTDRS,combaseemumaanlisemultidimensional,resultouemsuaestruturaoemseiseixos:a) desenvolvimento humano e qualidade de vida; b) desenvolvimentoeconmico;c)recuperaoegestoambiental;d)educaodocampo;e) servios sociais e infra-estrutura; f)organizao e desenvolvimentopolticoinstitucional.

    Esteseixoscontemplaramosdebatesrealizadosaolongodoproces-sodeformaonasoficinasmicrorregionaiserefletiramasnfasesatribu-daspelosdiferentesatoressociaisquecompemoterritrio.Emcontra-partida,adefiniodasestratgiaseaesdefinidasemcadaumdoseixosexigeumplanejamentocomgestoparticipativa,reforandoaexistnciadogrupogestordoterritrio,assimcomodeumacoordenaopolticaetcnicaquefomenteodesenvolvimentoegarantaaarticulaoentreosdi-ferentesatoressociaisdoterritriodoSudoestedoParan,bemcomosuaarticulaocomoEstado.

    Anlise crticA

    Apresentamosalgunsquestionamentoseanlisessobreconceitosecatego-riaspresentesnodebatesobreasestratgiasdedesenvolvimentoruralsus-tentvelapresentadaspeloMDA.Aanlisepertinentejustamenteporqueaconstruodoprojetodedesenvolvimentoterritorialseencontraaindaemfasedeexperimentao,havendoassimodistanciamentocrticodosatores,condioparaquenoseinstitucionalizem,jdebero,visesli-mitadasdacomplexidadeterritorial.

    suPerAo do coorPorAtivismo e BuscA de AutonomiA Frente Ao estAdo

    Oterritrioo lugarondeocorremasdiferentes relaesdepoderqueextrapolamasfronteirasgeogrficas,dando-lheforma.Considerandoquesuaconstituiotemporbaseaidentidadedolugaredosdiferentesatoressociaisqueocompe,emumaperspectivamultidimensional,odesenvol-vimentoterritorialsemdvidaalgocomplexo,queexigearticulaesedomniosdeconflitoseconflitualidadesexplcitoseimplcitos.

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    Apesardodiagnsticoreforaraidentidadedaagriculturafamiliarcomoelodo territriodoSudoestedoParan, foi justamenteo carterdeorganizaoconsensual,umdosvetoresdetensionamentonaconstru-odoPTDRS.Compreendemosqueograndedesafiodeumplanejamen-toestratgicoest,semdvida,nasuperaodeposturascorporativistasdasorganizaespopulares,ondeseacabaapostandonasvelhasrelaesclientelistasondecadaumtentaaprovaroseuprojeto.Tambmim-portantedestacarqueanovarelaocomogoverno,poroutrolado,trazo risco de esvaziar o contedopoltico das entidades das organizaes,estreitandoseuraiodeao,limitando-seaexecutarpolticaspblicas.sintomticoquenoSudoestedoParanosurgimentodoGruporGestordoTerritriorelativizououtrosespaosdearticulaojexistentesdasenti-dades,taiscomoosFrunsmunicipaiseregionaisdeentidadesnogover-namentais,quedeixaramdesereunir,enfraquecendoodebatepoltico.Oriscodesedrenarasforasdasociedadecivilorganizadacanalizando-asparaagestodoterritrio,umespaoaindabastantemarcadopelaagen-daepeloritmodapolticadeumdeterminadogoverno,oqueaindanonecessariamenteomesmoquepolticapblica.

    o cAPitAl sociAl dA AgriculturA FAmiliAr?

    Em que pese o grande avano no pensar territorial, a avaliao daexperincia do Sudoeste do Paran, observando as nfases do prprioMDA,porum lado,eos reais interessesdasentidadesgovernamentaiseno-governamentaisdaagricultura familiarnaabordagem territorialdodesenvolvimento,poroutro,percebe-seumavisoaindamonolgicadedesenvolvimento,baseadanumaleituradarealidadedesdeumavisoeconomicistasecundadaporumapolticadeinvestimentosmajoritaria-mentedecunhotcnico-produtivo.

    Nessesentido, flagranteaadoododiscursoemtornodocon-ceitodecapitalsocial.Aadoodoenfoqueanalticodocapitalsocial,aindaqueprometasimplificarconsideravelmenteotrabalhodecientistassociais,depolticos,deinvestidoresedeagentesetcnicosdeagnciasdegoverno(ouno), representaumareduodacomplexidadederelaessociaisimbricadasnoterritriolinguagemeconmica,norarolimitan-doaanliseaosaspectostcnico-produtivos.

    SegundoAbramovay,capitalsocialumrecursoquepermitequeumdadoterritriopossamelhorutilizarseusativoseconmicos(2000,p.380),umareserva(stock)11reservaqueproduzumfluxodebenefciose

    11SegundoJamesColeman,socilogodaUniversidadedeChicago,eumdospaisfundadoresdateoriadocapitalsocial,ocapitalsocialcomooutrasformasdecapital,produtivo,tor-nandopossvelarealizaodecertosfinsquenoseriamatingveisnasuaausncia.Ao

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    rosel Alves dos sAntos | WAlter mArschner

    umaaocoletivamutuamentebenfica.Comooprocessodeintegraoterritorialeconomiaglobalizadaimplicarelaesabstrataseimpessoaiscadavezmaiscomplexas,passaafigurarcomofieldabalana,oquevaigarantirumacertaestruturasocialparaconstituirasinterfacesnecess-riasparasepensarodesenvolvimentolocalconservandoummnimodeautonomia.Ocapitalsocialdevegarantirumpoucodegovernana,dotan-doosterritrios,nosdifceisprocessosdeintegraoenodesenvolvimen-tonacionaleglobal,deumaredecapazderacionalmentediscutireplani-ficarosimpactoslocais.

    Oproblemadavisodecapitalsocialhegemonizadanapolticater-ritorialrevelaumaflagrantecolonizaoeconmicadasrelaessociais.D-seaquiumprocessoemqueestaspassamaserpensadascomoumaformadecapitalrevelandoumdeslocamentodomundodosnegciosedosexecutivosparaocampodaspesquisassociaissobreodesenvolvimen-to,nocampodasagnciasdegoverno,dosorganismosmultilateraisedasONGsque incorporamaseu trabalhooparadigmadocapital social12,soboqualsuacompreensodecapitalsocialfala-seemtermosderecur-sossociais,debenssocioemocionais.Asredesterritoriaisbaseadasemconfiana,reciprocidadeecooperaofatorestpicosdasociabilidadedaagriculturafamiliarsoentendidasagoracomorecursosassociativosqueconformamestenovotipodecapital.Aoincorporarasrelaessociaiseasestruturasorganizativascomoumcapitalaserexplorado,aSDTen-tranocampodasintersubjetividades,buscandoassimmaiorcapilaridadeparaasuapropostadedesenvolvimentoterritorialedeintegraodoter-ritrionaeconomiaglobal.

    Podeparecerqueaconcepodecapitalsocialexpresseumaformadevalorizaodaprotagonizaodosatoressociais,oqueefetivamen-te salutar enecessrio aodesenvolvimento territorial,mas efetivamentenosetratadeaspectossimilares.Porisso,acompreensodarelevnciado conceitode capital social est, semdvida, atrelada concepodedesenvolvimentoquedefatosequerutilizarnaconstruodasustentabi-lidadededeterminadoterritrio.Paraqueoconceitodedesenvolvimentocomumaabordagemterritorialpossaserempregadocomcertacoerncia

    mesmotempo,enfatizaanecessidadeconstantedeinvestimentosnele:igualqueocapitalhumanoecomocapitalfsico,ocapitalsocialdeprecia-se senorenovado.Cf.Coleman(1990,p.302,321).

    12Apartirdofinaldadcadade1990,asrelaessociaispassaramaserconsideradas,concre-tamente,comoumrecursoavaliadoemtermosdemercado.Comotal,podesercriado,nutrido,sustentadoemaximizado.AgnciasdedesenvolvimentocomoaCEPALpro-pemousodonovoparadigmadocapitalsocialcomoformadecombaterapobreza.ApartirdavriasONGs,emvriaspartesdomundo,passamaincluiresseconceitonosseusprogramasdeao.Assim,ocapitalsocialpassaaserumachavedeleituradosproblemassociais,econmicosepolticos.

  • desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA

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    precisoexplicitarondesepretendechegar.Istonosremeteaoutraques-to:atquepontoaabordagemterritorialestsendoconstrudaecomoelaefetivaumrompimentocomaformadedesenvolvimentogeradoradediferentesmazelasquesoapresentadas,peloprprioMDA,comofact-veisdeseremsuperadas?

    ABordAgem territoriAl ou setoriAlmente diFerenciAdA?

    Apropostadedesenvolvimento territorial no nenhumapolticaderadicalidade, e simde readequao lgicadomercado,apartirdascaractersticas locais.Naprtica,aspolticasestruturadasapartirdoEstadoapresentamlimitesevidentese,aindaqueproponhamadescen-tralizaodaspolticaseoempoderamentolocal,suasaesdenotamnovasestratgiasdecontroleeanexaodaseconomiaslocaispeloca-pitalglobalizado.

    Coerentecomumaleituraaindamonolgicadodesenvolvimento,apolticadeinvestimentosdaSDTrevela-sebastanteorientadaparaim-plantaode infra-estrutura, aquisiode equipamentos e tecnologias.Ainda que o diagnstico territorial do PTDRS do Sudoeste do Paranaponteparaanecessidadederompercoma lgicaprodutivistaparaocampo,caudatriadeumavisoultrapassadadeATERcomodifusionis-motecnolgico,apolticaoramentriadaSDTparaoterritrioem2005e2006destinou90%dosrecursosparainvestimentoseminfra-estrutura(aquisio demquinas, edificaes, comunicao, informatizao en-treoutros),eapenas10%parainvestimentoemcusteio(cursosdecapa-citao, profissionalizao, educao do campo), tendncia que repeteem2007(dadosdoPTDRS,2006edoCONDRAF,2007).Odiagnsticoapontatambmparaanecessidadedeaesestruturantes,comfortede-mandaparaformaoampladosagricultoreselideranas,nfasesparaeducaodocampo,entreoutras.Soaesquedemandamumalgicadiferentedearticulardesenvolvimentocomnecessidadedelinhasdein-vestimentodiferenciadaserecursosdecusteio,oqueaindaestforadasprioridadesoramentriasdaSDT.

    Assim,sobressaiaidiadocrescimentoeconmico,apesardodis-cursodasinter-relaesdimensionaiseemborasejaumapropostadede-senvolvimento territorial que se intitule como contraposio ao desen-volvimento estritamente econmico. A definio demetas e estratgiasconstrudasde formaconsensual entreosdiferentesatorese segmentosque compem o territrio um dos pontos fortes do desenvolvimentoterritorial. Como convergir interesses to distintos, quando omotor doprocessodedesenvolvimentoa integraoamercadosglobalizados?Acontradiolevaacrerque,aindaqueoMDAproponhaaabordagemter-ritorial,naprticaoqueseestabeleceavisosetorial.

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    rosel Alves dos sAntos | WAlter mArschner

    concluso: A necessidAde de Aes estruturAntes

    Paraquepolticaspblicasestejamemsintoniacomasdemandaspopula-resnecessrioumexercciopermanentedefortalecimentodasestruturasde representaodasociedadecivil, algoque,no regimededemocraciarepresentativa,aindaencontrapoucaressonncia.DiantedapropostadedesenvolvimentoterritorialintroduzidapeloMDA,asentidadesdasocie-dadecivildoSudoestedoParan,herdeirasdaslutasemdefesadaagri-culturafamiliar,tmcomodesafiodaraportesparaummodelodegover-nana localquepermitaumequilbrio entre integraoeautonomia.necessriocriarumainterfacecompolticaspblicasecomrelaesdemercadomaisamplas,semabrirmodesuaidentidade,expressanasre-desterritoriaisbaseadasemconfiana,reciprocidadeecooperaofato-restpicosdasociabilidadedaagriculturafamiliar.

    Construirumapolticadedesenvolvimentoapartirdeumaaborda-gemterritorialexigeumaanliseendgenadarealidade,aserrealizadapelosseusatoressociaisemarticulaocomoutrosatoressituadosforadoterritrio.fundamentalestudarecompreenderasdiferentesforasqueimpulsionamousoimpulsionadasnoterritrio,estabelecersuasarti-culaesdemodoaconstituirumarededeconhecimento,deinformaesedeprticassociaisquebalizamodesenvolvimentoterritorial.Nessester-mosqueentendemosanecessidadeurgentedeaesestruturantes,quedevemprecederaimplantaodetecnologiaseinfra-estruturas.Apsd-cadasdeausnciadepolticaspblicas,precisohojeinvestiremproces-sosdeformaoquepermitamformularumanovavisodocampo,supe-randoavisodorural,maiscalcadanadimensoprodutiva.Sassimsedaroresgatedeummododevidaespecfico,alegitimaodasidentida-desedoselementosdecoeso,comsabereselgicadiferenciada.

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  • parte ii

    perspectivas Da agroecologia e experincias no estaDo Do paran

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    AgroecologiA: limites e PersPectivAs

    rosngela ap. De meDeiros hespanholGegrafa,ProfessoradoscursosdeGraduaoePs-GraduaoemGeografiadaFCT/UNESPdePresidentePrudente-SP|LderdoGrupodeEstudosDinmicaRe-gionaleAgropecuria(GEDRA),cadastradonoCNPq|rosangel@fct.unesp.br

    Abuscaporumavidasaudvelpressupe,entreoutrascondies,ocon-sumodeprodutosdeboaqualidade.Essaconstatao,aliadaaumamaiorconscinciaecolgica,crescentedesconfiananossistemasdeproduodealimentosconvencionaisemdecorrnciadevriosproblemasocorridosrecentemente,comoadoenadavacalouca,acontaminaodealimen-tos,oressurgimentodafebreaftosa,aexpansodagripeaviriaeasmui-tasdvidasqueaindacercamosprodutostransgnicos,temlevadoaumacrescenteexpansodoconsumodealimentosproduzidossemoempregodeagrotxicos.

    Ocorreperguntar,afinal,oquediferenciaessesprodutosgenerica-menteidentificadoscomoorgnicos dosconvencionais?Serquetodasasformasdeproduoquenoseutilizamdeagrotxicospodemsercaracte-rizadascomosustentveisemmdioelongoprazo?QuaissooslimiteseperspectivasdaAgriculturaAlternativaedaAgroecologia?

    A partir dessas questes se procurou averiguar a importncia daproduoecolgicanoBrasilediscutirasvantagenseosproblemasdestetipodeproduorealizadaempequenaescala,bemcomoapontaralterna-tivasparaasuaexpanso.

    Opresentetextoestestruturadoemtrspartes,almdestaintro-duo,dasconsideraesfinaisedasreferncias.Naprimeiraseabordou

  • desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA

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    oprocessodeincorporaotecnolgicaocorridanaagriculturaaolongodahistriadahumanidadee,especialmente,daintensificaodessemo-vimento comadifusodopacotedaRevoluoVerdeapsa IIGuerraMundialesuasimplicaessocioambientais.Nasegundaparte,ofocodasdiscussesestevecentradonoprocessodeecologizaodaagriculturaeosdiferentes/divergentesinteressesnelerepresentados,bemcomoospressu-postosdaAgriculturaAlternativaedaAgroecologia.Naterceiraeltimapartesediscutemasperspectivaseosdesafiosdossistemasdeproduomaissustentveisnaagriculturadepequenaescala.

    incorPorAo tecnolgicA no cAmPo e imPlicAes socioAmBientAis

    Aolongodahistria,oHomemdesenvolveutcnicaseinstrumentoscomointuitodecontrolaredominaraNatureza.Emrelaoagricultura,hou-ve,desdeostemposmaisantigos,apreocupaoemdiminuiradependn-ciaemrelaoNatureza,especialmentenoquedizrespeitofertilidadedossolosescondiesclimticas,paraaumentaraproduo.

    Apesardaexperinciamilenardocultivoedadomesticaodeani-mais,odomniosobreastcnicaseramuitoprecrio,comprometendoaproduodegnerosalimentciosparaapopulao.DeacordocomEhlers(1999),durantemuitossculosoaumentodaproduovisandoaatendersnecessidadesdapopulaoconstituiu-senumdosmaioresdesafiosdaHumanidade,sendoafomeresponsvelpelamortedemilharesdepessoasemdiferentesmomentosdahistria.

    Aconstruodecanaisdeirrigao,aadubaodossolospormeiodautilizaodeestercoanimal,cascaserestosdealimentoseainven-odeequipamentos,comoaradosemoinhos,constituemexemplosdodesenvolvimentode tcnicas ede instrumentosque contriburamparadiminuiradependnciadaagriculturaemrelaonatureza,garantin-dooaumentoefetivodaproduodealimentos,semlevar,entretanto,erradicaodafome.

    Todavia,foisomentecomaagriculturamoderna,surgidanosscu-losXVIIIeXIX,emdiferentesregiesdaEuropa,quehouveaadoodesistemasdecultivoqueresultaramemsignificativosaumentosdaproduti-vidade.Umadessasinovaesfoiarotaodeculturasassociadacriaodeanimaisquesubstituiuprogressivamenteatcnicadopousio,naqualumamesmareaeracultivadaporvriosanosininterruptos,emseguidapermanecendoporumperodosemserutilizadaparaquepudesserecupe-rarasuafertilidadenatural.Essatcnica,noentanto,limitavaaproduo,jquereduziaareadecultivo.Assim,osprodutoresruraispassaramapraticararotaodeculturas,ouseja,acultivarplantasdiferentesnames-marea,tcnicaque,almdepropiciarareposiodosnutrientesextra-

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    rosngelA AP. de medeiros hesPAnhol

    dosdosolo,possibilitouautilizaodetodaareadisponvel.Arotaodeculturasassociadaatividadedecriaotornou-seprticacomum,sendoqueoestercoanimalpassouaseramplamenteutilizadonaadubaoor-gnicadosolo.

    ComaSegundaRevoluoIndustrialocorridanosEstadosUnidosnofinaldosculoXIXeinciodoXX,foramcriadasascondiesparaqueasdescobertascientficasetecnolgicas,queatentoseconcentravamnosetorindustrial,atingissemaagricultura.Entreestasinovaestecnolgi-casdestacaram-se:a)omelhoramentogenticodeespciesvegetaisedosrebanhos;b)autilizaodefertilizantesqumicos;ec)amecanizaodasatividadesagrcolas.

    Aintroduoeaexpansodessastecnologiaslevaramaoabandonoprogressivodosistemaderotaodeculturaseseparaoentreaprodu-ovegetaleanimal,aomesmotempoemquepossibilitaramaampliaodaescaladeproduo,aumentandoadisponibilidadedealimentosedematrias-primas.

    AsnovasinvenesquederamsustentaoSegundaRevoluoIn-dustrialrepercutiramfortementenaagricultura,especialmentenoquedizrespeitoaousodomotordecombustointernaeutilizaodotratoredoaradodetraomecnicaemsubstituiotraoanimal.

    Aadoodeinovaestecnolgicaspelaagriculturaprovocouoau-mentodasuadependnciaemrelaoaosetorindustrial,jqueelapassouademandarcrescentementemquinas,implementoseinsumosqumicos.

    Esseprocessodeincorporaotecnolgica,queinicialmenteesteveconcentradonospasesdesenvolvidos,foiexpandido,apartirdaIIGuer-raMundial,paravriospasessubdesenvolvidos,comadenominaodeRevoluoVerde.

    ParaMartine eGarcia (1987), opacote tecnolgicodaRevoluoVerdeeracompostodesementesmelhoradas,demecanizao,deinsumosqumicosebiolgicoseprometiaviabilizaramodernizaoagropecuriadequalquerpas,aumentandoasuaproduo,pormeiodesuapadroniza-oembasesindustriais.

    Segundoestesautores,paramuitospasessubdesenvolvidosaadoodessepacotetecnolgicorepresentavaapossibilidade,porumlado,dealcan-arrapidamenteaauto-suficinciaalimentare,poroutro,degeraraprodu-odeumexcedenteagrcolanegocivelnomercadoexterno,repercutindopositivamenteemtodosossetoresdaeconomia,emparticularnoindustrial.

    NoBrasil,aincorporaodopacotetecnolgicodaRevoluoVer-de,denominadodemodernizaodaagricultura,seintensificouapar-tirdemeadosdosanos1960,emplenoperododeditaduramilitar.Nessecontexto,os interessesda trplicealiana formadapeloEstado,grandesempresasdecapitalnacionaleinternacionalforamfundamentaisparaaconsolidaodesseprocesso.

  • desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA

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    OEstadobrasileirocriouumaparatoinstitucionalaltamentefavo-rvelmodernizaodaagricultura,destacando-seasuaatuaoemv-riasesferas,queimplicaram:

    a) acriaodoEstatutodosTrabalhadoresRurais(1963)edoEstatutodaTerra(1964);

    b) aconcessodecrditosubsidiadopormeiodoSistemaNacionaldeCrditoRural(1965);

    c) oinvestimentoempesquisaagronmicaeextensorural,favorecen-doadisseminaodomodeloprodutivista;

    d) apolticafundiria,valorizandoapropriedadeprivadaatreladaaomercadodeterrase,aomesmotempo,controlandoouintervindonosmovimentossociaisdetrabalhadoresrurais.

    Orpidoprocessodeadoodeinovaestecnolgicasnaagricul-turaeaintensificaodaconcentraofundiriaprovocaramoxododemilharesdecolonos,parceiros,arrendatriosepequenosproprietriosdeterras,osquaissedeslocaramtantoparaasnovasregiesdefronteiraagr-coladoCentro-OesteeNorte,quantoparaoscentrosurbanosmaisindus-trializados,principalmenteSoPauloeRiodeJaneiro.

    Odesencadeamentodessesprocessos,porsuavez,gerouumgrandecontingentedetrabalhadoresassalariadostemporriosemvirtudedame-canizaodasatividadesagrcolastersedadodemaneiraparcial,ouseja,concentrando-seemalgumasfasesdoprocessoprodutivo,especialmentenacolheita,quandohmaiornecessidadedemo-de-obra.

    Destaca-setambmqueparcelasignificativadessestrabalhadores,aonoserabsorvidapelomercadodetrabalhourbanoouficardesempre-gadaaosersubstitudapormquinasnasatividadesagrcolas,passouaseorganizaremmovimentossociais,comooMovimentodosTrabalhadoresRuraisSemTerra(MST),reivindicandooacessoterrapormeiodareali-zaodareformaagrria.

    Amodernizaodaagricultura,almdasimplicaessociaisnegativas,provocouoagravamentodosproblemasambientaisderivadosdacompacta-odossolosemrazodaintensamecanizaodasatividadesagropecuriasedautilizaoindiscriminadadeagrotxicos.Dessaforma,tornaram-sefre-qentes,apartirdosanos1970,oscasosdecontaminaodetrabalhadoresrurais,dosrecursoshdricos,dossolosedascadeiasalimentares,incluindoosanimais,osalimentoseoprpriohomem(EHLERS,1999,p.41).

    Apartirdosanos1980houveoesgotamentodopadrodemoderni-zaodaagriculturabrasileira.OEstadobrasileiro,grandefinanciadordetodooprocessodemodernizaopormeiodoestabelecimentodepolticasagrcolasedadisponibilizaoderecursosfinanceiros,passouaenfrentarumagravecrisefiscal,tornando-seincapazdecontinuarsubsidiandotodo

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    rosngelA AP. de medeiros hesPAnhol

    essemovimento.Aagriculturaconvencional,grandeabsorvedoradem-quinas,implementoseinsumosqumicos,comeouaserduramentecriti-cadapelosmovimentossociaiseambientalistas,osquaispassaramade-monstraranocividadedopacotetecnolgicodarevoluoverdeaosolo,gua,atmosfera,aosanimaiseprpriasadeebem-estardohomem.

    Tornam-se, ento,mais significativasalgumas formasalternativasdeproduoqueempregammenosinsumosexternoseque,emconseqn-cia,agridemmenosomeioambiente.Parceladosconsumidores,sobretu-doaquelesmaissensibilizadoscomosproblemasambientais,commaiorgraudeescolarizaoecommaiorpoderaquisitivo,passamavalorizarosprodutos genericamente denominados de orgnicos, surgindo novos ni-chosdemercadoquepassaramaseratendidosporprodutoresruraisquesubstituramou abandonaramo sistema convencional de produoporoutrosmenosagressivosaomeioambienteeaohomem1.

    Noobstanteessamudana,aindaemcurso,deve-seressaltarqueascommoditiesagrcolas,comoasoja,acana-de-acarealaranja,quesoproduzidasemlargaescala,continuamutilizandoamplamenteomo-deloconvencionaldeproduo,consubstanciadonaintensautilizaodemquinas,implementos,insumosqumicosedetodaaparafernliatecno-lgicacolocadadisposiodaagriculturapelasempresasmultinacionaisqueoperamemmbitoglobal.

    ecologizAo dA AgriculturA: diFerentes interesses envolvidos

    Buttel(1995),aoanalisarahistriadaagriculturaemnvelmundialnosltimoscemanos, identificoudoisprocessosdistintosqueamarcaram,denominando-osdetransiesagroecolgicas2:oprimeiromarcodessasmudanasfoiaRevoluoVerdeeosegundo,oatualprocessodeecologi-zaodaagricultura.

    OpacotetecnolgicodaRevoluoVerdefoidifundidoinicialmentenospasesdesenvolvidose,posteriormente,nossubdesenvolvidos.NocasodoBrasil,emparticular,ochamadoprocessodemodernizaoconserva-doradaagricultura,se,porumlado,levouaumaumentodaprodutivida-dedealgumaslavouras,sobretudodaquelasdestinadasexportao,aosetoragroindustriale/ouproduodebiocombustveis,poroutroresul-tounoagravamentodediversosproblemas,comoenfatizamMuller;Lova-toeMussoi(2003,p.103):

    1 Cabedestacar tambmnesseprocessoapresenados neorurais, isto, indivduosqueexercematividadesurbanas(comoautnomos,funcionriospblicos,empresriosetc.)queoptarampordedicar-seproduoecolgica.

    2 Atransioagroecolgicapodeserdefinidacomooprocessogradualdemudanaatravsdotemponasformasdemanejoegestodosagroecossistemas,tendocomoobjetivoapas-sagemdeumsistemadeproduoparaoutro.

  • desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA

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    Almdoaltocustoeconmicodesuamanuteno,aexploraoexcessivadabasedosrecursosnaturaislevouacrescentesnveisdedegradaoeesgota-mentodossolos,poluiodasguas,intoxicaesecontaminaesdeagri-cultoresporagrotxicos,almdeperdadebiodiversidade.Poroutrolado,aspolticasdedesenvolvimentoagrcolaqueviabilizaramaimplementaodestemodelotecnolgicoforamdirecionadasmodernizaodasgrandespropriedades,aprofundandoaindamaisasdesigualdadeseaexclusosocialnomeiorural,principalmenteemsetratandodosagricultoresfamiliares.

    Comoaprofundamentodosefeitossociaiseambientaisnosltimos30anos,intensificou-se,emescalamundial,oquestionamentoaomodelodeagriculturaprodutivista,dandoinciosegundatransioagroecolgi-ca,que,iniciadanofinaldosculoXXmarcadapelocrescentequestiona-mentosobreasustentabilidadedomodeloprodutivistapropugnadopelaRevoluoVerdee,atento,dominante,agravandosuacrise.Emconse-qncia,haintroduodevaloresambientaisnasprticasagrcolas,naopiniopblicaenaagendapoltica(BUTTEL,1995),aomesmotempoemqueseabreapossibilidadedeexpansodeformasdeproduoquetmcomoprincpiofundamentalumarelaoderespeitocomaNaturezaeque,portanto,seriammaissustentveisemmdioelongoprazos.

    Asprincipaisdiferenasentreaagriculturasustentveleaconven-cional,emtermostecnolgicos,socioeconmicoseecolgicos,podemservisualizadasnoQuadro1.

    Essecrescenteprocessodeincorporaodepreocupaesambien-taisemrelaoagriculturafomentouadiscussoelevouformulaodeperspectivasdeanliseedeintervenoantagnicaseconflitantesentresieque,emltimainstncia,refletemdiferentes interesseseposiciona-mentossobreosmodelosdedesenvolvimentodospasesesobreaprpriasustentabilidade.Nessesentido,procurou-seidentificarpelomenosduasdessasperspectivas:

    a)aqueaindaconcebeodesenvolvimentocientfico-tecnolgicocomoanicaviacapazderesolverosproblemasderivadosdaescassezdealimentosedoesgotamentodosrecursosnaturais;

    b)aquelasqueseopemaestaperspectivatecnolgicaepropemfor-masmaissustentveis,quepoderiamseragrupadassobadenomi-naodeAgriculturaAlternativa,comopormeiodaAgroecologia3quepropostacomoumenfoquecientficodestinadoaapoiaratransiodosatuaismodelosdedesenvolvimentoruraledeagricul-turaconvencionalparaestilosdedesenvolvimentoruraleagricultu-rasustentveis(CAPORAL;COSTABEBER,2002,p.71).

    3 Deve-sedestacarque,sobestaperspectiva,hatualmenteumimportantesegmentodapes-quisaedaexperimentaoemAgroecologiaqueaindaseconcentraemaspectosagronmi-cos,ouseja,vinculadosaosaspectostecnolgicosdaproduoagropecuria.

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    rosngelA AP. de medeiros hesPAnhol

    Quadro 1 Principais diferenas entre Agricultura Sustentvel e Convencional

    Agricultura Sustentvel Agricultura Convencional

    Aspectos Tecnolgicos

    1. Adapta-se s diversas condies regionais, aproveitando os recursos locais.2. Atua considerando o agrossistema como um todo, procurando antever as possveis conseqncias da adoo das tcnicas. O manejo do solo visa a sua movimentao mnima, conservando a fauna e a flora.3. As prticas adotadas visam a estimular a atividade biolgica do solo.

    1. Desconsideram-se as condies locais, impondo pacotes tecnolgicos.2. Atua diretamente sobre os indivduos produtivos, visando somente ao aumento da produo e da produtividade.3. O manejo do solo, com intensa movimentao, desconsidera sua atividade orgnica e biolgica.

    Aspectos Ecolgicos

    1. Grande diversificao. Policultura e/ou rotao.2. Integra, sustenta e intensifica as interaes biolgicas.3. Agrossistemas formados por indivduos de potencial produtivo alto ou mdio e com relativa resistncia s variaes das condies ambientais.

    1. Pouca diversificao. Predominncia de monoculturas.2. Reduz e simplifica as interaes biolgicas.3. Sistemas pouco estveis, com grandes possibilidades de desequilbrios.4. Formado por indivduos com alto potencial produtivo, que necessitam de condies especiais para produzir e so altamente suscetveis s variaes ambientais.

    Aspectos Socioeconmicos

    1. Retorno econmico em mdio e longo prazo, com elevado objetivo social.2. Relao capital/homem baixa.3. Alta eficincia energtica. Grande parte da energia introduzida produzida e reciclada.4. Alimentos de alto valor biolgico e sem resduos qumicos.

    1. Rpido retorno econmico, com objetivo social de classe.2. Maior relao capital/homem.3. Baixa eficincia energtica. A maior parte da energia gasta no processo produtivo introduzida e, , em grande parte, dissipada.4. Alimentos de menor valor biolgico e com resduos qumicos.

    Fonte:SistematizadoporCarmo(1998).

  • desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA

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    Emrelaoprimeiraperspectiva,tambmdenominadadedupla-menteverde,odesenvolvimentotecnolgicogarantiriaosatuaisnveisdeprodutividadeobtidosnaagriculturaconvencional,minimizandoosefei-tosambientaisdaRevoluoVerdepormeiodaadoodenovastecnolo-gias,comoporexemplo,abiotecnologiaeosprodutostransgnicos.Paraasempresastransnacionaisquetmseusinteresseseconmicosestrutu-radosnopadroprodutivistadaagricultura,essaperspectivaperfeita-mentecompatvelcomoatualmodelo,devendoapenasserpraticadacommaioreficinciaeracionalidadeemtermosambientais.

    DeacordocomEhlers(1995,p.16),essaperspectiva

    [...]refere-seaumconjuntodeprticasbemdefinidas,quepodemserjulga-dascomomaisoumenossustentveis,conformeasprevisessobreadura-bilidadedosrecursosnaturaisqueempregam.Areduodousodeinsumosindustriais (low input agriculture),aaplicaomaiseficienteoumesmoasubstituiodosagroqumicospor insumosbiolgicosoubiotecnolgicosseriamsuficientesparaaconsolidaodonovoparadigma(dasustentabi-lidade).Nessecaso,aagriculturasustentvelalgobemmaispalpvel,umobjetivodecurtoprazo.

    A ideologiasubjacenteaestaperspectivapoderiaserresumidadaseguinteforma:mudarasprticas(oupartedestas)parasemanteroatualpadroprodutivistadaagriculturae, sobretudo,o interessedasgrandescorporaestransnacionais.

    Paraas tendnciasdiscordantesdestaperspectiva tecnolgica, re-presentadas, sobretudo, pelas organizaes no-governamentais e pelosmovimentosambientalistas,anicaformadesegarantirasustentabilida-dedaagriculturapormeiodapromoode:

    [...] transformaes sociais, econmicas e ambientais em todo o sistemaagroalimentar.Aerradicaodafomeedamisria,apromoodemelho-riasnaqualidadedevidaparacentenasdemilhesdehabitantes,ademo-cratizaodousoda terraoumesmoaconsolidaodeumatica socialmais igualitriasoalgunsdosdesafioscontidosnanoodedesenvolvi-mentoedeagriculturasustentvel(EHLERS,1995,p.16).

    NessasperspectivasquetmcomofococentralasustentabilidadequepoderamosinserirachamadaAgriculturaAlternativaeaAgroecolo-gia,asquais,emboratenhamsurgidoinicialmentedeformamarginaleemcontraposioagriculturaconvencionalouprodutivista,apresentam-seemexpanso.

    Assim,apesardopredomniodopadroprodutivistadaagriculturanosEstadosUnidosenaEuropadesdeoinciodosculoXX,persistiramfocosderesistnciaadoodasinovaestecnolgicaspormeiodepes-quisadoresegruposdeprodutoresruraisqueutilizavamprticasdeculti-voquevalorizavamafertilizaoorgnicadossoloseopotencialbiolgicodosprocessosprodutivos(EHLERS,1999).

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    rosngelA AP. de medeiros hesPAnhol

    Durantevriasdcadas,essesgruposdefensoresdachamadaAgri-culturaAlternativapersistiramemalgunspontosdaEuropa,dosEstadosUnidosedo Japo, sendohostilizados tantopela comunidadecientficainternacionalcomopelosetorprodutivoagrcola,mantendo-se,porisso,margemnocenrioagrcolamundial(EHLERS,1999).

    Todavia, fatores como o agravamento dos problemas ambientais(erosodossolos),acrescentecontaminao(dosrecursoshdricos,dosalimentos,dohomemedosanimais),asperdasimpostasbiodiversidadegentica(dentreoutros),associadospressodaopiniopblica,manifes-tada,sobretudo,pormeiodamdiaedasorganizaesno-governamen-tais(ONGs),foraramadiscusso,emmbitomundial,denovosparme-trosparasepensarodesenvolvimento4edenovasformasdeseproduzirnocampo.

    Nesse contexto, abriram-senovasperspectivas em termosde ex-panso das formas alternativas de agricultura que, a partir dos anos1980, com o fortalecimento da noo de desenvolvimento sustentvel,passaramaseragrupadassobadenominaodeagriculturasustentvel(EHLERS,1999).

    NaopiniodePaschoal(1995),otermoagricultura alternativanoexpressariaumnovomodeloouumafilosofiadeagricultura,mastoso-menteumaterminologiatilparareunirtodososmodelosquetmidn-ticos propsitos e tcnicas semelhantes, que no se identificam comosintentospuramenteeconmicos,imediatistasepoucocientficosdaagri-culturaqumico-industrial(PASCHOAL,1995,p.14).

    Valeconsiderar,entretanto,que,emborainicialmenteosgruposde-fensoresepraticantesdaagriculturaalternativaestivessemmaiscentra-dosnapreservaodosrecursosnaturaisenaqualidadedosalimentosedavidahumana,houveprogressivamenteaincorporaoeaampliaodesuaspreocupaesemtermosdesustentabilidade,enfatizando,porexem-plo,aimportnciadosaspectossociaiseculturais.

    Osprotagonistaseosprincpiosnorteadoresdessasvrias formasdeproduoenglobadassobadenominaodeAgriculturaAlternativasoapresentadosnoQuadro2.

    4 UmmarcodessasdiscussesfoiarealizaodaPrimeiraConfernciaMundialsobreMeioAmbientequeocorreuemEstocolmonoanode1972.Nesseevento,aconcepodesen-volvimentistapassouasercombatida,cedendoespao,noplanodasdiscusses,aoeco-desenvolvimentoe,apartirdemeadosdosanos1980,aodesenvolvimentosustentvel(HESPANHOL,2006,p.01).

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    Quadro 2 Principais formas de Agricultura Alternativa: protagonistas e princpios bsicos

    Principais protagonistas e seguidores Princpios bsicos e alcance

    Agricultura Orgnica

    Albert Howard: desenvolve pesquisas na ndia (anos 1920); publica An agricultural testament na Inglaterra (1940). Tcnicas aprimoradas por L. E. Balfour (Mtodo Howard-Balfour). Introduzida nos EUA por J. I. Rodale (anos 1930). Outros: N. Lampkin (1990).

    Princpios: Uso de composto, plantas de razes profundas, atuao de micorrizas na sade dos cultivos. Difundida em vrios continentes. O IFOAM International Federation of Organic Agriculture Movements - atua na harmonizao de normas tcnicas, certificao de produtos e intercmbio de informaes e experincias.

    Agricultura Biodinmica

    Rudolf Steiner desenvolve uma srie de conferncias para agricultores na Alemanha (anos 1920) e estabelece os fundamentos bsicos da biodinmica. Pesquisas prticas realizadas nos EUA, Alemanha e Sua (p.e. PFEIFFER,1938; KOEPF, SHAUMANN; PETTERSON, 1974).

    Princpios: Antroposofia (cincia espiritual), preparados biodinmicos, calendrio astrolgico; possui marcas registradas (Demeter y Biodyn). Muito difundida na Europa. Presente no Brasil: Instituto Biodinmico de Desenvolvimento Rural, Estncia Demtria e Instituto Verde Vida.

    Agricultura Natural

    Mokiti Okada: Funda a Igreja Messinica e estabelece as bases da agricultura natural; M. Fukuoka: Mtodo semelhante, porm afastado do carter religioso (Japo, anos 1930). As idias de Fukuoka se difundiram na Austrlia como Permacultura, atravs de B. Mollison (1978).

    Princpios: Composto com vegetais (inoculados com microorganismos eficientes), valores religiosos e filosfico-ticos. Movimento organizado pela MOA-International e WSAA (EUA). Shiro Miyasaka dirige a atuao da MOA no Brasil.

    Agricultura Biolgica

    Inicia-se com o mtodo de Lemaire-Boucher (Frana, anos 1960). Grupo dissidente funda a Nature et Progrs. Grande influncia do investigador francs Claude Aubert, que critica o modelo convencional e apresenta os fundamentos bsicos de Lagriculture biologique (1974).

    Princpios: A sade dos cultivos e alimentos depende da sade dos solos; nfase no manejo de solos e na rotao de cultivos. Influenciada pelas idias de A. Voisin e pela Teoria da Trofobiose (Chaboussou, 1980). Difundida na Frana, Sua, Blgica e Itlia.

    Agricultura Ecolgica

    Surge nos EUA (anos 1970), estimulada pelo movimento ecolgico e influenciada por trabalhos de Rachel Carson, W.A. Albrecht, S.B. Hill, E.F. Schumacher. Na Alemanha recebeu importante contribuio terico-filosfica e prtica do professor H. Vogtmann (Universidade de Kassel): kologicshe Landbau (1992).

    Princpios: Conceito de agroecossistema, mtodos ecolgicos de anlise de sistemas; tecnologias suaves, fontes alternativas de energia. Est difundida em vrios pases. Sua introduo no Brasil est ligada a J.A. Lutzenberger, L.C. Pinheiro Machado, A.M. Primavesi, A.D. Paschoal e S. Pinheiro, dentre outros.

    Fonte:ElaboradoporCAPORAL(1998,p.47).

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    rosngelA AP. de medeiros hesPAnhol

    Apesardasdiferenasemtermosdeprincpiosealcance,halgu-masprticasquesocomunsnessasvriasformasdeproduo,podendo-sedestacar:

    a)reciclagemdosrecursosnaturaispresentesnapropriedadeagrcola,emqueosolosetornamaisfrtilpelaaobenficadosmicrorganismos[...]quedecompemamatriaorgnicae liberamnutrientesparaasplantas;b)compostagemetransformaoderesduosvegetaisemhmusnosolo;c)prefernciaaousoderochasmodas,semi-solubilizadasoutratadaster-micamente,combaixaconcentraodenutrientesprontamentehidrossol-veis,sendopermitidaacorreodaacidezdosolo[...];d)coberturavegetalmortaevivadosolo;e)diversificaoeintegraodeexploraesvegetais(incluindoasflorestas)eanimais;f)usodeestercoanimal;g)usodebio-fertilizantes; h) rotao e consorciao de culturas; i) adubao verde; j)controlebiolgicodepragasefitopatgenos,comexclusodousodeagro-txicos;k)usodecaldastradicionais(bordalesa,viosaesulfoclcica)nocontroledefitopatgenos;l)usodemtodosmecnicos,fsicosevegetativosedeextratosdeplantasnocontroledepragasefotopatgenos,apoiando-senosprincpiosdomanejointegrado;m)eliminaodousodereguladoresdecrescimentoeaditivossintticosnanutrioanimal;n)opogermoplas-masvegetaiseanimaisadequadosacadarealidadeecolgica;eo)usodequebra-ventos(CAMPANHOLA;VALARINI,2001,p.70).

    Assim,devidoaessasprticascomunse,sobretudo,aofundamentoqueasoriginaram,ouseja,omaiorrespeitonatureza,existe,deacordocomDulley(2003,p.98),

    [...]umentendimentoharmoniosoentreasdiversascorrentes,nosentidodequeofortalecimentodaideologiaedosetordependedaunioedotraba-lhoconjuntodeagricultores,consumidores,processadoresecomerciantes.Paraisso,soestabelecidosacordossobreoscritrioscomunsadotadosportodosossegmentos,comojocorre,porexemplo,nocasodeumreconhe-cimentoporpartedoEstado,deorganizaes/empresas certificadorasdeprodutosorgnicos.

    Dessa forma, o Estado brasileiro, ao regulamentar5 esse sistemade produo, adotou a denominao genrica de orgnico, tornando asdemais denominaes (biodinmica, natural, biolgicas, ecolgica etc.)comoequivalentes.Esseprocedimentotambmfoiadotadoporduasdasmaisimportantescertificadorasdeprodutosorgnicosdopas:oInstitu-toBiodinmicodeDesenvolvimento(IBD)eaCertificadoraMokitiOkada(DULLEY,2003).

    EmrelaoAgroecologia,estadefinidaporAltieri(1995a)comocinciaoudisciplinacientficaqueapresentaumasriedeprincpios,con-ceitosemetodologiasparaestudar,analisar,dirigireavaliar agroecossis-

    5 DeacordocomaInstruoNormativan7deMaiode1999doMinistriodaAgricultura,PecuriaeAbastecimentoeaLein10831de23deDezembrode2003.

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    temas,comoobjetivodefavoreceraimplantaoeodesenvolvimentodesistemas de produo commaiores nveis de sustentabilidade.Entendi-dadestaforma,aAgroecologiapoderiaproporcionarasbasescientficasparaseapoiaroprocessodetransioagroecolgicaparaoutrasformasdeagriculturasustentveis,taiscomo:aecolgica,aorgnica,abiodinmica,aregenerativa,adebaixosinsumosexternos,abiolgicaetc.

    ComoobservaAltieri(1995a),nosepodeconfundiraAgroecolo-gia, entendida comoumadisciplina cientfica ou cincia, comprticas,tecnologiasagrcolasousistemasdeproduoquepoderiamserengloba-dossobadenominaodeagriculturasalternativas,pois,comoenfatizamCostabebereCaporal(2001,p.20),combaseemAltieri(1989e1995b),emboraaAgroecologiaenfoqueaagriculturanumaperspectivaecolgica,elanoselimita:

    [...]aabordarosaspectosmeramenteecolgicosouagronmicosdaprodu-o,umavezquesuapreocupaofundamentalestorientadaacompreen-derosprocessosprodutivosdeumamaneiramaisampla.Isto,encaraosagroecossistemascomounidadefundamentaldeestudo,ondeosciclosmi-nerais,astransformaesenergticas,osprocessosbiolgicoseasrelaessocioeconmicassoinvestigadaseanalisadasemseuconjunto.Ditodeou-tromodo,apesquisaagroecolgicapreocupa-senocomamaximizaodaproduodeumaatividadeemparticular,massimcomaotimizaodoagroecossistemacomoumtodo,oqueimplicaumamaiornfasenoconhe-cimento,naanliseenainterpretaodascomplexasinteraesexistentesentreaspessoas,oscultivos,ossoloseosanimais.

    Nessa perspectiva, caberia Agroecologia, apreendida como umconjuntodeconhecimentos,contribuirtantoparaarealizaodeanlisescrticassobreaagriculturaprodutivistaquantopara[...]orientarocorre-toredesenhoeoadequadomanejodeagroecossistemas,naperspectivadasustentabilidade(CAPORAL;COSTABEBER,2002,p.16).

    Todavia,comoobservamMoreiraeCarmo(2004,p.55):

    Aconcretizaodaagroecologianosedarcomfacilidade,vistoqueelapressupeaconstruodeumanovacinciacomprometidacomosinteres-sessociaiseecolgicosdosmovimentospopularesecomaarticulaoen-trecinciassociaisenaturaisnacompreensodosproblemassocioambien-taisdaatualidade,buscandocadavezmaissoluesrealmentesustentveis.Pressupe,ainda,umenfrentamentopolticocomosinteresseseconmicosquedominaramodesenvolvimentodocapitalismoindustrialnaagriculturaduranteosltimos130anos.

    AlmdestasdificuldadesdecunhogeralrelacionadasAgroecolo-gia,houtrasquepoderiamserdestacadastambmemrelaosdiversasformasdeproduodaAgriculturaAlternativa.Noobstanteessasdificul-dadeshquesedestacaraimportnciadessasperspectivasemtermosdesustentabilidadesocioambiental,sobretudoparaaquelesquedesenvolvem

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    rosngelA AP. de medeiros hesPAnhol

    aagriculturaempequenaspropriedadesruraisoudepequenaescala,po-dendoseconstituirnolocusidealaodesenvolvimentodesistemasdepro-duomaissustentveis.

    agricultura sustentvel De pequena escala: perspectivas e Desafios

    Aadoodelegislaoespecficapelogovernobrasileirovisandoregula-mentaodaproduoorgnicaesuacertificaoocorreuemvirtudedoaumentodademandaporessesprodutosnomercadointerno.DeacordocomCampanholaeValarini(2001,p.72-73),pelomenoscincorazes6po-demserapontadasparaseentenderaampliaodomercadodeprodutosorgnicosnoBrasil:

    Aprimeira queesta tenhapartidodosprprios consumidores,preocu-padoscomasuasadeoucomoriscodaingestodealimentosquecon-tenham resduos de agrotxicos [...]. A segunda razo que a demandatenhaseoriginadodomovimentoambientalistaorganizado,representadoporvriasONGspreocupadascomaconservaodomeioambiente,tendoalgumasdelasatuadonacertificaoenaaberturadeespaosparaacomer-cializaodeprodutosorgnicospelosprpriosagricultores[...].Aterceiraseriaresultadodainflunciadeseitasreligiosas,comoaIgrejaMessinica,quedefendemoequilbrioespiritualdohomempormeiodaingestodeali-mentossaudveiseproduzidosemharmoniacomanatureza.Aquarta ra-zo[...]teriacomoorigemosgruposorganizadoscontrriosaodomniodaagriculturamodernaporgrandescorporaestransnacionais[...].Eoquin-tomotivoseriaresultadodautilizaodeferramentasdemarketingpelasgrandesredesdesupermercados,por influnciadospasesdesenvolvidos,que teriam induzidodemandasporprodutosorgnicos emdeterminadosgruposdeconsumidores(grifosnossos).

    Esseaumentodademandaporprodutosorgnicosnopasrefle-te,decertaforma,umprocessomaisgeralemtermosmundiaisasso-ciadopreocupaocomaqualidadedosalimentosconsumidosecomasade,decorrentedocrescimentodaconscinciaecolgicaaliadadesconfiana no sistema de produo e de distribuio de alimentosconvencionais.

    Assim,comoobservaramWillereYussefi(2001)apudCamargoet al.(2004),aconversodeunidadesprodutivasdosistemaconvencionalparaoorgnicoentreosanosde1986e1996foiampliadaem30,0%aoano.

    6 Segundoestesautores,difcilidentificarquaisdessascausasforammaisrelevantesnoaumentodomercadodeprodutosorgnicosnopase,portanto,maissensatosuporquehouveumacom-binaodelas,nosedescartando,porm,queemalgumaslocalidadesouregiespossaterhavidomaiorinflunciadeumasdoqueoutras(CAMPANHOLA;VALARINI,2001,p.73).

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    Areatotalcultivadacomprodutosorgnicosnomundoem2003erade23milhesdehectares,abarcandomaisde460milpropriedadesru-rais,oque,entretanto,representavapoucomenosde1%dototaldasterrascomlavourasepastagensdomundo.Essareaocupadanosistemaorg-nicoencontrava-seassimdistribuda:46,3%naOceania;22,6%naEuropa;20,8%naAmricaLatina;6,7%naAmricadoNorte;2,6%nasia;e,1,0%nafrica(WILLER;YUSSEFI,2004).

    Emtermosdepases,amaiorparceladasreasutilizadasnosis-temaorgnicoestavalocalizadanaAustrlia(10,5milhesdehectares),Argentina(3,2milhesdehectares)eItlia(cercade1,2milhodehec-tares)7.

    ApesardamaiorparticipaoemtermosdereadaOceania/Aus-trlia,aEuropasedestacouem2003pelomaiornmerodeprodutoresenvolvidosnosistemaorgnico,querepresentavam44,1%dototalmun-dial8,pelaimportnciadoseumercadoconsumidorepelagrandediver-sidade de seus produtos. Cabe ressaltar que essa expanso do sistemaorgnico em vrios pases europeus, como Itlia, Alemanha, Frana eReinoUnido,porexemplo,deveu-seconjugaodevriosfatores,taiscomo:oincentivofinanceiroconcedidoaosprodutoresruraispormeiodepolticaspblicas;adisponibilidadeeaeficinciadasinformaesaosprodutoreseaosconsumidores;oacessoeadisponibilidadedeprodutosorgnicos;opapeldomarketing(logomarca)esuaproteolegal;eaim-plementaodeumplanodedesenvolvimentoparaagriculturaorgnica.(DAROLT,2003).

    EmrelaoaoBrasil,estima-sequeem2001areautilizadacomosistemaorgnicoerade275,6milhectares(0,08%dototal),distribudosem15milpropriedadesrurais(DAROLT,2003).

    Noanode2006,oMinistriodaAgricultura,PecuriaeAbasteci-mento(MAPA)divulgouumdiagnsticodopas,noqualseconstatouque800milhectares9eramutilizadosnosistemaorgnico,envolvendocercade15milprodutores.Adistribuiodareaedonmerodeprodutoresor-gnicossegundoasregiesbrasileiraspodeserverificadanaTabela1.

    7 importantedestacarqueospasesquetmomaiorpercentualdereasobmanejoorg-nicoemrelaoreatotaldestinadaagricultura,computamtambmareadepastagem.Assim,porexemplo,empasescomoaAustrliaeArgentina,maisde90%dareadeprodu-oorgnicacorrespondemreasdepastagem.OmesmoacontecenospasesdaEuropa:naustria80%dareaorgnicareferem-sepastagem;naHolanda,56%;naItlia,47%,enoReinoUnido79%.(DAROLT,2003,p.01).

    8 Emtermosdaparticipaodeprodutoresnosistemaorgnico,adistribuioaseguinte:Europa,com44,1%,siacom15,1%,AmricaLatinacom19,0%,AmricadoNortecom11,3%,fricacom9,9%eOceaniacomapenas0,6%.

    9 Essetotalserefereapenassreascultivadascomlavouraseocupadaspelaspastagens,nosereferindosreasdeflorestas(nativasouplantadas).

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    rosngelA AP. de medeiros hesPAnhol

    Tabela 1 - Sistema Orgnico no Brasil: rea cultivada e nmero de produtores 2006

    Regiesrea

    (em ha)%

    Nmero de Produtores

    %rea Mdia

    (Em ha)

    Norte 8.000 1,0 600 4,0 13,3

    Nordeste 72.000 9,0 1.950 13,0 36,9

    Sudeste 80.000 10,0 1.500 10,0 53,3

    Sul 120.000 15,0 10.200 68,0 11,7

    Centro-Oeste 520.000 65,0 750 5,0 693,3

    TOTAL 800.000 100,0 15.000 100,0 53,3

    Fonte:MinistriodaAgricultura,PecuriaeAbastecimento2006.

    Nesta tabeladestaca-seaRegioCentro-Oesteemtermosdereacomosistemaorgnico,emboraonmerodeprodutoresenvolvidossejarelativamentepequenoeareamdiaocupadasejaelevada(693,3hecta-res),oquedenotaapresenadeproduoemlargaescala.Nessesentido,torna-sepertinentequestionar:serqueestetipodeproduocaracteri-zadocomoorgnicopeloreferidoestudopodeserconsideradocomosus-tentvelnaperspectivadaAgroecologia?Aproduorealizadaemlargaescala,combasenamonocultura,adotandoprticasalternativascomoomanejointegradodepragas,oplantiodiretoeoempregodematriaorg-nicaparaafertilizaodaslavouraspodemserefetivamentesustentveisemmdioelongoprazo?

    DeacordocomCaporaleCostabeber(2002),umaagriculturaver-dadeiramentedebase ecolgicanopode se restringir apenaspreo-cupao ambiental, sendo fundamental incorporar outras dimenses,comoasocial,aeconmica,acultural,apolticaeatica.Segundoes-sesautores,

    [...] enquantoacorrenteagroecolgicadefendeumaagriculturadebaseecolgica que se justifique pelos seusmritos intrnsecos ao incorporarsempreaidiadejustiasocialeproteoambiental,independentemen-tedortulocomercialdoprodutoquegeraoudonichodemercadoquevenha a conquistar, outraspropemuma agricultura ecologizada, queseorientaexclusivamentepelomercadoepelaexpectativadeumprmioeconmicoquepossaseralcanadonumdeterminadoperodohistrico,oquenogarantesuasustentabilidadenomdioelongoprazos(CAPORAL;COSTABEBER,2002,p.81).

    ARegioSul,porsuavez,comasegundamaiorreaocupadacomaproduoorgnicanopas,temomaisexpressivonmerodeproduto-reseamenorreamdiacultivada,oqueacaracterizacomodepequenaescaladeproduo.AimportnciaassumidapelaproduoorgnicanaRegioSuldeve-se,dentreoutrosfatores,aoapoioinstitucionalconcedidopormeiodassecretariasestaduaisdeagriculturaedasempresasoficiais

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    132

    deassistnciatcnicaeextensorural,almdapresenadeexperinciascoletivasexitosas,comoadaAssociaodeAgriculturaOrgnicadoPara-n(AOPA)edaCooperativaColmia(RS),porexemplo.

    Dessaforma,acredita-seque,emvirtudedassuasprpriascarac-tersticas quanto a organizaodaunidadeprodutiva, as formas sus-tentveisemtermosdeagriculturaencontramcondiesmaisfavor-veisdeexpansoempequenaspropriedadesruraisdoquenasmdiasegrandes.

    Assim, a adoo do sistema orgnico de produo por pequenosproprietriosruraisapresentacomoprincipaisvantagens:

    a) aescaladeproduo,que,porsermenor,favoreceaconversopro-dutivaepermiteaproduoempequenasreas;

    b) adiversificaoprodutivaque,emvirtudedaintegraodocultivode lavouras temporrias e/ou permanentes com a criao de ani-mais,podefacilitaraadoodosistemaorgnico,aomesmotempoemquegarantemaiorestabilidadeeconmica;

    c) omaiorenvolvimentodiretodoprodutoredosmembrosdafam-lia,favorecendotantoomaiorcontrolesobreoprocessoprodutivoquantoamaiorcapacidadedeabsorodestamo-de-obra;

    d) amenordependnciadeinsumosexternos,devidoaomelhorapro-veitamentodosrecursosdisponveisnapropriedade;

    e) apossibilidadedeeliminaodousodeagrotxicos,quecontribuiparaareduodoscustosdeproduo;e

    f) osmenorescustosenvolvidosnaproduo,resultandoemmelhoresrelaescusto/benefcioemaioresrendasefetivas.

    Dopontodevistadacomercializaodosprodutosorgnicos,h,emvirtudedamenorescaladeproduo,umamaiorvinculaoaoespa-olocal,quepodefavorecertantoaformaodemercadosregionais[...],possibilitandoa integraode interessesentreprodutores,comercianteseconsumidores(ASSIS,2003,p.93),quantoamaiorinteraocomosconsumidoreseamelhoradequaodosprodutosconformesuasexign-cias,fortalecendorelaesdeconfianaecredibilidadeentreaspartesen-volvidas(CAMPANHOLA;VALARINI,2001,p.76).

    Nessecontexto,ganhamcadavezmaisimportnciaformasdeco-mercializaonovarejoquegarantammaiorautonomiaaoprodutor,poiselepassaaseroresponsvelpeladistribuiodosprodutos,pormeiodavendadireta,quepodeserrealizada:a)viaentregaemdomicliodecestasdeprodutossobencomendaouquesoperiodicamentesolicitadas;b)emlojasdeprodutosnaturais, restaurantes, lanchonetesetc.;ec)emfeiraslivresouespaosespecializadosnestetipodeproduo(CAMPANHOLA;VALARINI,2001).

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    Nasvendasrealizadasnoatacado,emvirtudedapequenaescaladeproduo,asalternativasqueseapresentamcomointeressantesaospro-dutoressoasassociaese/oucooperativas,que,almdeconseguiremcongregarumvolumemaioremaisdiversificadodeprodutos,tmmaiorpoderdebarganhacomasredesvarejistas.Nosesubmeterintermedia-orealizadaporterceirosumaalternativaparaqueosprodutoresruraisalcancemasustentabilidadeeconmicaesocial.

    Apossibilidadedepreosdiferenciadosdosprodutosdevidosuamarcaecolgicaumfatorquetambmpodefavoreceraproduoempequena escala realizada por um grande e diversificado contingente deprodutoresrurais,resultandonaampliaodaofertaenareduonopre-odosprodutosorgnicosemrelaoaosconvencionais,ampliandoseuconsumo.

    Apesar desses vrios aspectos favorveis produoorgnica empequenaescala,htambminmerosdesafiosaseremenfrentados,taiscomo:

    a) opequenovolumeproduzido,amenordiversificaodeprodutoseairregularidadenaofertapodemdificultaroestabelecimentodecontratosdefornecimentomaisduradouroscomcompradoresquenecessitamdemaioresquantidadescomolojasespecializadas,res-taurantes,hospitais,escolasetc.eredesvarejistas;

    b) afaltadeassistnciatcnicaoficialedepreparoouformaoespe-cfica dos extensionistas para prestar assistncia tcnica emagri-cultura orgnica pode comprometer o processo de converso daagriculturaconvencionalparaeste tipo,bemcomogarantira suamanuteno;

    c) osproblemasdeacessosinformaessobreaproduoorgnica,astcnicaseasformasdemanejo,asalternativasdecomercializa-o,oacessoaocrdito,almdasdificuldadesdosprodutoresemseorganizaremcoletivamenteemassociaese/oucooperativas,po-dematrasarourestringiroprocessodeexpanso;

    d) asdificuldadesfinanceirasenfrentadasduranteoprocessodecon-versodaproduoconvencionalparaaorgnicapodemdesestimu-larosprodutoresquesobrevivemdaagricultura;

    e) osaltoscustosqueenvolvemacertificaoeoacompanhamentorigo-rosodoscritriosparamant-laimplicamanecessidadedeumsiste-maquesejaestruturadonumprocessoquesejaparticipativo,descen-tralizadoequegerecredibilidadeentreosvriosagentesenvolvidos10.

    10Umadascrticasmaisfreqentesaestaformadecertificaoorientadapelasempresasna-cionaiseinternacionaisdizrespeitoaoaltocustoecentralizaodopoderdedecisoso-breaconcessodoselo.

  • desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA

    134

    Osprodutoresquedesenvolvemaagriculturadepequenaescalaeque,pormotivosdiversos,ficarammargemdoprocessodemoderniza-odaagricultura,ouqueseviramobrigadosaabandonarosprocedimen-tos,prticase/ouinovaestecnolgicas,devemseconstituircomopriori-triosnaspolticaspblicasqueestimulemecriemascondiesobjetivasparaaexpansodesistemasprodutivosmaissustentveis.Nessesentidotambmdevemsercriadosprogramasquegarantampreosmnimosparaosprodutos,apoiointegralemtermosdeassistnciatcnicaeextensoru-ral,deinformaesaosprodutoreseaosconsumidoressobreosbenefciosdaagriculturaecolgicaetc.

    A participao de organizaes no-governamentais (ONGs) e deagricultores, atravs de suas associaes e entidades representativas, e,maisrecentemente,doapoiodergosoficiaisdepesquisaeextensoru-ral,nesseprocessode transio, fundamentalparagarantir suaconti-nuidadeeexpansoatodososprodutoresdepequenaescalaquedesejemadotarformasmaissustentveisdeagricultura.

    considerAes FinAis

    Podemosafirmarqueexisteconsensoentreosespecialistasdequeomo-deloprodutivistadeagriculturaderivadodaRevoluoVerdeestemcriseequenecessrio(urgente)mudaraformadeproduziredeserelacionarcomomeioambiente.Todavia,sabercomo,dequeformaeaquemessamudanabeneficiar efetivamente soquestes fundamentais equede-vemserdiscutidaspelasociedade.

    Devemosreconhecertambmquevivemosnumperododetransi-oeque,comotal,coexistetantoomodeloconvencionaldeagricultura,responsvelpelagrandeproduodecommodities,quantoofeitoporfor-masalternativasdeproduoqueseapresentaemexpanso.

    Apesar da existncia de experincias de agricultura alternativa nopas,aconfiguraofinaldoprocessodetransioagroecolgicavisandoaumaagriculturasustentvelaindanoestdeterminadaaacontecerdeumanicaforma,almdoqueaindanohgarantiasdequesuaimplementaosejarealizadadeformaampla,devidoaofatodessatransioterseapresen-tadocomoumprocessomuitocomplexo,tendoemvistaamultiplicidadedefatoresedevariveisaseremconsideradosparasuaefetivao.

    Nessecontexto,caberessaltaraimportnciadeseconsideraropa-pelativoaserdesempenhadopelossujeitosdesseprocessodetransio,ouseja,osprodutoresrurais.Noobstanteasinmerasvantagensapre-sentadaspela agriculturadepequena escala, eles (osprodutores rurais)consideramumconjuntodeaspectos(econmicos,sociais,culturaisetc.)comoorientadoresdesuasdecisesdemudana.Assim,noplanoindivi-dual,aconversoounoparasistemasmaissustentveisdependerno

  • 135

    rosngelA AP. de medeiros hesPAnhol

    apenasdaspossibilidadeselimitaesemtermosderecursos(econmi-cos, de acesso terra, de disponibilidade demo-de-obra familiar etc.)eapoioexterno(comodaextensorural)apresentadaspelosprodutores,comotambmdosprojetosealternativasadotadosparamanutenodopatrimniofamiliar.

    Portanto, seaconjunturapoltica, institucionaleeconmicarela-cionadaaosetoragropecurioseconstituinumfatorimportantenatoma-dadedecisespeloprodutor,asespecificidadesdadinmicasocial,polti-caeeconmicalocal/regionalbemcomoaprpriaformadeorganizaodaunidadeprodutivasoelementosquevoinfluenciarnaconversoounoparaaagriculturaalternativa.Nessecontexto,ganhamrelevnciaasexperinciasdeaescoletivasdeprodutoreseasassociaesecooperati-vas,quepodemcontribuirsignificativamenteparaaconsolidaodefor-masdeproduomaissustentveis.

    reFernciAs

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  • 13

    reFlexes soBre A AgroecologiA no BrAsil

    aDriano arriel saquetEngenheiroAgrnomo,DoutoremCinciasAgrrias(UniversittHohenheim,Alemanha,ProfessorAdjuntodoCentroFederaldeEducaoTecnolgicadeSoVicentedoSul-RS|adrianosaquet@hotmail.com

    Aagriculturaorgnica temsedesenvolvido rapidamentenomundonosltimosanoseestsendopraticadaatualmenteemaproximadamente120pases.Aperspectivadequeareacultivada,bemcomoonmerodepro-priedades,continueaumentando.Almdisso,desepresumirquemui-taspropriedadesno certificadas estejamproduzindo emmuitospases(WILLER;YUSSEFI,2006).Deacordocomessesautores,maisde30mi-lhesdehectaressocultivadosorganicamentepor,nomnimo,623.174propriedadesespalhadaspelomundo.Umaspectopositivoqueacomer-cializaodeprodutosorgnicostambmestacompanhandoessecresci-mentonaproduo,nosomentenaEuropaenaAmricadoNorte,quesoosmaioresmercadosconsumidores,mastambmemoutrospasesdaAmricaLatina,frica,siaeOceania.

    Atualmente, os pases commaior rea cultivadano sistemaor-gnicosoaAustrliacom12,1milhesdehectares,aChinacom3,5milhesdehectareseaArgentinacom2,8milhesdehectarescultiva-dos.Percebe-se,noentanto,aoseanalisarospercentuais,comrelaorea totalagricultveldospases,queosmaioresnmerosestonaEuropa.Nototal,aOceaniarespondepor39%dareacultivadaorga-nicamentenomundo,seguidapelaEuropacom21%eaAmricaLa-

  • desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA

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    tinacom20%,sendoqueestapossuiomaiornmerodepropriedadesruraiscomosistemadecultivoorgnico(WILLER;YUSSEFI,2006).desepresumir,comisso,queaAustrliapossuapropriedadesmaioresqueosoutrospases.

    situAo AtuAl dA AgriculturA orgnicA nA AmricA lAtinA

    NaAmricaLatinamuitospasestmmaisde100.000hectarescultiva-dosorganicamentecominciorecenteequeapresentamumcrescimen-toacelerado.Ototaldereacultivadaorganicamenteecertificadaestemtornode6,4milhesdehectarescomumadicionalde6milhesdehectaresdeflorestascertificadasereasnativas.QuasetodosospasesdaAmricaLatinapossuemumsetororgnico,emboraonveldedesen-volvimentovariebastante.Ospasescommaiorproporodereasor-gnicas so oUruguai, a CostaRica e a Argentina, que tem amaiorpartedeseus2,8milhesdehectarescultivadosorganicamentecobertaporpastagens.

    Emgeral,omovimentopelocultivoorgniconaAmricaLatinatemsedesenvolvidoporcontaprpriadosprodutores,poismuitoraroaexis-tnciade subsdiosgovernamentaisouajuda financeiradiretaparaestefim.AexceoentreospasesoBrasil,ondeogovernotemdirecionadoincentivosproduoorgnica,pesquisa,formaodeassociaes,mer-cadoegeraodeemprego.

    ACostaRicaealgunsoutrospasestmdisponibilizadosuportefinanceiroparapesquisaeensino.AArgentinaeoChilepossuemal-gumasagnciasoficiaisdeexportaoajudandoosprodutoresatenders exigncias internacionais de importao, elaborando catlogos deprodutos.

    AexportaoumadasprioridadesquetemacontecidonaAmricaLatina.DosgrosdecafebananasdaAmricaCentralaoacarnoPara-guaiecereaisecarnenaArgentina,omercadodeprodutosorgnicostemsidoorientadoparamercadosestrangeiros.

    comPArAtivo entre os sistemAs de cultivo orgnico e convencionAl

    OQuadro 1 apresenta algumasdiferenas bsicas entre o sistemadecultivoconvencionaleosistemadeproduoorgnico.Pode-seperce-berqueasdiferenasenvolvemnosomenteosmtodosetcnicasdecultivo,mastambmalgunsfatoressociaistaiscomoainclusosocialcomageraodeempregosnocampo,asadedoprodutoreconsumi-dores,almdasquestesrelacionadaspreservaodomeioambientecomoumtodo.

  • 13

    AdriAno Arriel sAquet

    Quadro 1 Breve comparativo entre os sistemas de cultivo orgnico e convencional

    Cultivo Convencional Cultivo Orgnico

    - Tecnologia de produtos (aquisio de insumos) - Tecnologia de processos (envolve a relao: planta, solo e ambiente).

    - Uso de pesticidas - Fertilizantes qumicos-sintticos - Baixo teor de matria orgnica no solo - Falta de manejo e cobertura do solo - Monocultura

    - Resistncia natural e alternativas - Fertilizantes orgnicos - Solo rico em matria orgnica - Mantm a cobertura do solo - Rotao de culturas e biodiversidade

    - Eroso do solo, empobrecimento da vida microbiana - Erradicao dos inimigos naturais - Desequilbrio mineral

    - Equilbrio do solo e meio ambiente - Aumento do hmus, microrganismos e insetos benficos - Equilbrio nutricional

    - gua e alimentos contaminados - Contaminao e deteriorao do ecossistema - Descapitalizao

    - gua e alimentos sadios - Ecossistema equilibrado e saudvel - Sistema auto-sustentvel - Gerao de emprego e fixao do homem no campo

    Tauscheret al.(2003)comentam,deformacomparativaeresumida,asprincipaisdiferenasentreosistemaconvencionaleoorgnico,comosegue:

    Osistemadeproduo convencional,namaioriadasvezes,carac-terizadoporumamenorbiodiversidadedeespcies,enfocandoasmono-culturas.Aspropriedadespodemserconduzidasougerenciadasdeformamaisliberada.Osmtodosetcnicasdeproduosousadoseampliadosatravsdeummaiorconsumodeinsumosagrcolaseenergia.Solosetra-balhososubstitudosporcapitaletecnologias.Aproduobiolgica,porm,commuitoempregodaqumicaetcnicasmecanizadas.Essesis-temacolocaovolumedeproduoemprimeiroplano,canalizando-aparagrandesmercados.umsistemadeproduomarcadopelasmonocultu-ras,comopreparoeusodosolodeformaintensiva,ondeosresduosdecolheitase/ouadubaoverdesotrabalhadoscomempregodealtaquan-tidadedeenergiaeimplementosagrcolas.

    Anutriomineraldasplantasrealizadaatravsdoempregodefertilizantessintticos,sendoousodereguladoresdecrescimentomuitocomum.Paraaproteodasplantascontrapragasedoenassousadosos

  • desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA

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    maisdiversosdefensivosagrcolas,emboranosejamobservadasasdoseseosperodosdecarnciadosprodutosutilizados.

    Comrelaoproteodomeioambienteeecologia,soutilizadososrecursosnaturaisexistentes,emuitasvezes,levadosemconta,algunsconceitosrelacionadosproteoderecursosbiticoseabiticos;entre-tantonamaioriadasvezesnosolevadosemcontaosprincpiosdepre-servaoambiental,priorizando-seaambioeconmicaemquesto.Oempregodeorganismosgeneticamentemodificadose/ououtrastcnicasdaengenhariagenticasopermitidos.

    Osistema de produo orgnicomaiscomplexoeorientado.Aor-ganizaodapropriedadegrandeeapresentaumaelevadabiodiversidadedeespcies.Empregamuitaadubaoverdecomespciesleguminosasparafinsdeproduoepreservaodesoloseambienteemgeral.Neleaconte-ceumapequenasubstituiodosoloedotrabalhoporcapitaleinsumos.Aproduototalmenteecolgicavisandoqualidadeelevadadosprodutos.

    A fertilidadenatural do solo preservada atravs do empregodemtodosconservativoscomousodeestercos,adubaoverdeerestosdecolheitas,oqueelevabastanteaatividademicrobianaemelhoraaestru-turafsicadossolos.

    Paraanutriomineraldasplantasocorreumaotimizaonosproces-sosdesimbioseentremicrorganismosevegetais,parafixaodenitrognioatmosfrico.Oempregodefertilizantessintticoscomocomplementosmui-tocontroladoeousodereguladoresdecrescimentototalmenteproibido.

    Ao invs de defensivos agrcolas sintticos so usadosmtodos etcnicasvisandoestabilizaodosistemanumtodo.Exemplossoousodocontrolebiolgicodepragasedoenasatravsdeinimigosnaturaiseoutrastcnicas.Aregulaodaocorrnciadeplantasinvasorasrealiza-damediantecontrolemecnico,trmicoeatravsdaconcorrncianaturaldasplantascultivadascomasinvasoras.Produtosqumicosnaturaissoempregados,masdeformalimitada.

    Hproteodomeioambiente.Recursosnorenovveissopou-pados.Amanutenoeapreservaodetodososelementoseprocessosenvolvidosnaestabilizaodosistemaagroecolgicopossuemumaimpor-tantefunoagronmica.Comissosevalorizaeenriqueceabiodiversida-deeapaisagem.Oempregodetcnicasqueenvolvemmanipulaogenti-cae/ouousodeorganismosgeneticamentemodificadosnopermitido.

    Argumentos em FAvor dA AgriculturA orgnicA

    Dentreos90argumentosemfavordaagriculturaorgnica,mencionadosporumgrupodepesquisadoressuosdoInstitutodePesquisasobreAgri-culturaOrgnica,emFrick,Sua,cabeaquimencionarecomentarresu-midamente30deles(SCHMUTZet al.,2006):

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    AdriAno Arriel sAquet

    1) O leite procedente de vacas criadas no sistema orgnico possuimaioresquantidadesdomega3.Sabe-sedaimportnciadesteci-dograxonaprevenodedoenascirculatriasedocncer.

    2) Frutasehortaliasorgnicascontmmaioresconcentraesdeele-mentosfuncionaistaiscomoflavonideseresveratrol,osquaissoantioxidantesmuitoeficientesqueretardamoprocessodeenvelhe-cimentoeprevinemdoenasdocorao.Almdisso,nocasoespec-ficodama,aorgnicapossuimaisfsforo,fibras,fenis,melhortexturaesabor.

    3) Batatas orgnicas possuem, tendencialmente, maiores concentra-es de vitamina C, que est envolvida em vrios processos me-tablicos no organismo e, dentre estes, tambm um excelenteantioxidante,agindodeformaeficientecontraosprocessosdeenve-lhecimentodostecidos.

    4) Saladasfolhosascontmmenoresconcentraesemnitratos,que,emexcesso,soprejudiciaisaoorganismo.

    5) Produtos orgnicos, de maneira geral, possuemmenos defensivosagrcolas,emmdia50a70%menosresduosdeprodutosqumicos.

    6) Alimentos orgnicos possuem somente produtos permitidos. Osprodutosorgnicossoproduzidosdeacordocomalegislaoes-pecfica.

    7) Asplantascultivadasnestesistemasopoupadasdosprodutosqu-micos.Comovistoanteriormente,sousadossomenteprodutosna-turaisepermitidospelalegislao.

    8) Osprodutoresnoprecisamusarherbicidasparaocontroledeplan-tasdaninhas.Sousadastcnicase/ouprodutosalternativosparaocombatedasplantasinvasoras.

    9) Pragasedoenassoeliminadasouafastadasatravsdousodepro-dutosnaturaispermitidospelalegislao.

    10)Aagriculturaorgnicanoutilizaorganismosgeneticamentemodi-ficados.Osprodutorestrabalhamnumsistemanatural,porissoproibidoousodeplantas,animaiseinsumosgeneticamentemodi-ficados.

    11)Animaiscriadosnosistemaalimentam-secompastagensorgnicas.

    12)Produtosorgnicossoprotegidosporlegislaoespecficaquecon-trolatodooprocesso.

    13)Propriedadesorgnicassobemcontroladas,poissoinspeciona-dasperiodicamente.

    14)Cadavacaparesuaprpriacria,tudoaonatural.Transfernciadeembriesproibido.

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    15)Hormniosououtrassubstnciasestimuladorasdocrescimentosoproibidasnaalimentaodosanimaisounaproduovegetal.

    16)Terneiroscriadosnosistemaorgnicobebemleiteorgnico.

    17)Animaisvivemaoarlivreenoconfinados,podendopegarsol,chu-vaevento.

    18)Animaisdoentessotratadoscomprodutosnaturais,atravsdem-todosetcnicasalternativas.

    19)Ospssarospreferemospomaresecamposorgnicos.Emexperi-mentosrealizados,foiconstatadoqueoscamposeasmargensdaslavourasorgnicastm25%maispssarosdoquenosistemacon-vencional.

    20)Os solos somais ricosemsua fauna.Emsolosorgnicos foramdetectadasmaiorespopulaesdepequenosanimaise,nocasodasminhocas,50%amaisdoquenosistemaconvencional.Almdisso,predadoresnaturaisvivememmaiorquantidadeneles.

    21)Asminhocas preferem solos orgnicos. Em funo dos teores dematriaorgnicamaiselevadosedemenoresconcentraesdepro-dutosqumicosvivemmelhorepormaistemponeles.

    22)Os solos somelhorconservados.Apresentammelhorestruturaeporosidade,retendo,pois,maisguadaschuvasediminuindooes-coamentosuperficial.

    23)Ossolospossuem40%maismicorrizasdoqueossolosdaproduointegrada.Micorrizassofungossimbiticosquefixamnitrognioatmosfricotornando-odisponvelaovegetalpois localizam-senosistemaradiculardasplantas.

    24)Aguadosubsolonocontaminada.Emconseqnciadostiposdeadubos,muitopouconitratoatingeoslenisfreticos.

    25)Aagriculturaorgnicapreservarioselagos,poisascontaminaesdosmananciaissomnimas.

    26)Aagriculturaorgnciaconsomemenosenergiaemfunodamenordependnciaexternadeinsumoseequipamentos.

    27)SolosorgnicosestabilizamoclimapoisohmusabsorveCO2.Aagriculturaorgnicareduzaemissodeamniaeofatodeusarme-nosnitrognioreduzaformaodeN2Onossolos.

    28)Aagriculturaorgnicaliberamenosdixidodecarbonopelofatodenousarfertilizantessintticosedefensivosagrcolas.

    29)Aagriculturaorgnicaabsorvemaisdixidodecarbonodoar.Issoacontecedevidoretenonohmuseatravsdafotossnteserea-lizadapelavegetao,aqualtemmaiordiversidade.

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    AdriAno Arriel sAquet

    30)Aagriculturaorgnicatemumcartermaissocial.Diminuioscus-toscomasadedapopulaoemgeral,porqueosalimentossomais saudveis.Promove incluso socialdaspessoasno campoemelhora a sade do produtor, o qual no se envolve diretamentecomprodutosqumicosperigosos.

    AgriculturA ecolgicA: limites e PersPectivAs

    A agroecologia nos faz lembrar de uma agriculturamenos agressiva aomeioambiente,quepromoveainclusosocial,proporcionamelhorescon-dieseconmicasparaosagricultores,aliadaseguranaalimentardosprpriosprodutoreseconsumidoresemgeral.Nessesentido,hofertadealimentosecolgicospraticamenteisentosderesduosqumicos,emopo-sioaosistemaconvencionalqueusaquantidadeselevadasdedefensivosagrcolasefertilizantessintticos,almdeoutrassubstnciascomohor-mniosouatmesmoorganismosgeneticamentemodificados.

    Aagroecologiatemsidoreafirmadacomoumacinciaoudisciplinacientfica,ouseja,umcampodoconhecimentodecartermultidisciplinarqueapresentaumasriedeprincpios,conceitosemetodologiasquenospermitem estudar, analisar, dirigir, desenhar e avaliar agroecossistemas(CAPORAL;COSTABEBER,2002),quesoconsideradoscomounidadesfundamentaisparaoestudoeplanejamentodasinterveneshumanasemfavordodesenvolvimentoruralsustentvel.

    Em essncia, o enfoque agroecolgico corresponde aplicao deconceitoseprincpiosdaEcologia,daAgronomia,daZootecnia,daVeteri-nria,daSociologia,daAntropologia,daCinciadaComunicaoeoutrasreasdeconhecimentonareestruturaoemanejodeagroecossistemasquedesejamosquesejammaissustentveisaolongodotempo.Trata-sedepre-tensesedimensesquevoalmdastcnicasdeagropecuria,incorporan-dovariveiseconmicas,sociais,ecolgicas,culturais,polticaseticas.

    AlgumAs perspectivAsOBrasilconsideradoumpas-continentepelasuaextenso territorial,suadiversificaonoclimaesoloesuagrandediversidadeemseusecos-sistemas.Os solos so profundos e frteis permitindo o cultivo de umagrandevariedadedeplantasanuaiseperenes.Aexistnciadeclimatro-picalesubtropical,aliadosboascondiesdesolo,permiteocultivodevriasespciesfrutferasehortalias.Vantagemestaqueexisteempoucospasesdomundo,oquetornaoBrasilumpasprivilegiado.

    Levandoemcontatodososaspectospositivosmencionadosanterior-mentequeaagriculturaorgnicaproporcionacomrelaoproduo,qua-lidadedosalimentos,valorizaodosprodutosagropecurios,sadedopro-dutorepopulaoemgeral,bemcomoacomercializaodosprodutos,os

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    quaisservemcomoincentivoparaumatransiodosistemaconvencionalparaosistemadecultivoorgnico,serodiscutidos,aseguir,algunsoutrosaspectosquefavorecemaimplantaodestesistemadecultivonopas.

    reA AgriculTvelOBrasilpossuireaagricultveldisponveldeaproximadamente152mi-lhesdehectares,oquecorrespondea17,9%dareatotaldoterritrionacional,masqueutilizaapenasemtornode62milhesdehectares(7,3%doterritrio)(MARQUES,2004).Apossibilidadedeexpansoagropecu-riainvejvelemrelaoaosdemaispasesdomundo,vistoquemuitospossuemreainfinitamentemenor,masmesmoassim,produzemmuitomaisprodutosorgnicos.

    DeacordocomWillereYussefi(2006)areacultivadacomagricul-turaorgnicanoBrasil,apesardoaumentosignificativonosltimosanos,deapenas0,34%sobreototaldereaagricultvel,valorqueficamuitoaqumquandocomparadocomototaldereaagricultveldisponvelquenossopaspossui.

    climA e soloConformemencionadoanteriormente,nossopasdispedeclimatropicalesubtropicalpermitindoocultivodefrutferasdasmaisvariadasespcies.Comashortaliasnodiferente,sendopossvelocultivodeumaquantida-demuitograndedeespciesecultivares.Aliadoaestefato,ossolosso,emsuagrandemaioria,profundosefrteisbastando,emmuitoscasosapenasacorreodaacidezparaquepossamserusadosnaagricultura.EmmuitospasesdaEuropaouAmricadoNorte,ondeoinvernorigoroso,opreparodosolosomentepossvelempocasespecficasduranteoanoemfunodocongelamento.NoBrasil,opreparodosoloecultivovegetalpossveloanotodo,sendodestaforma,umagrandevantagemparanossosprodutores.

    diversidAde de espciesOBrasilumdospasesmaisricosdomundoemdiversidadevegetaleanimal,pelo fatodepossuircondiesedafoclimticasmuito favorveisaliadoaossolosdeboaqualidade,oquefavorecemuitoocultivodevege-taise,consequentemente,acriaodeanimaisdomsticosesuasrespec-tivasfontesdealimentos.Muitospasesnoconseguemproduzirfrutasehortaliasemfunodasrestriesdeclimaesoloeomesmoacontececomosanimaisdomsticos,poisnohcondiesadequadasparacultivodepastagensedeoutrosalimentosnecessriosparasuanutrio.

    comerciAlizAo no mercAdo inTerno e exTernoAcrescentedemandaporprodutosorgnicosnoBrasilenomundo,con-formediscutidoanteriormente,colocaaagriculturaorgnicanumaposi-

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    AdriAno Arriel sAquet

    odedestaquenocenrioagropecurio.DeacordocomCampanholaeValarini(2001),estacrescentedemandaporalimentosproduzidosnosis-temaorgnicodeve-se,basicamenteacinco razes:a)Preocupaodosprpriosconsumidorescomsuasadeeriscoscomagrotxicoscontidosnosalimentos;b)Movimentosambientalistaspreocupadoscomapreser-vaodomeioambiente;c)Influnciadeseitasreligiosasquedefendemoequilbrioentreohomemeanatureza;d)Gruposorganizadoscontrriosaodomniodaagriculturamodernapor grandes corporaes transacio-nais;e)Marketingporpartedegrandesredesdesupermercados,porinflu-nciadepasesdesenvolvidos,queteriaminduzidodemandasporprodu-tosorgnicosemdeterminadosgruposdeconsumidores.

    Apartirdoexpostoumtantodifcildefinirquaisdestascausasti-veramouaindatmmaiorinfluncianoaumentodademandaporprodu-tosorgnicos.desepresumirqueexistaumacombinaodetodas,comalgumasparticularidadesnasdiferentesregiesdopas.Provavelmenteadifusodeinformaesjuntamentecomaopiniodoconsumidor,cientedaimportnciadeseadquiriralimentosmaissaudveis,levandoemcon-taapreservaodomeioambiente,tenhamsido,ouaindaestejamsendo,duasfortescausas.

    O mercado internacional de produtos orgnicos gera bilhes dedlares anualmente, tendo comomaiores consumidores a Alemanha, aHolanda,aFrana,aInglaterra,osEstadosUnidoseoJapo.Apesardocontnuocrescimentodaproduoagropecurianesteseoutrospases,omercadode importaocontinuacrescendo, tornado-seumaalternativavivelparaaexportaodeprodutosbrasileiros.

    Paraocomrcioexteriordeprodutosorgnicossonecessrioscer-tificadosexpedidosporcertificadorascredenciadasporrgosnormativosdeabrangnciainternacional,comoocasodaInternational Federation of Organic Agriculture Movements(IFOAM),cujaprincipalfunocoorde-naroconjuntodemovimentosdeagriculturaorgnicaemtodoomundo.

    Acertificaodeprodutosorgnicosvisaaconquistarmaiorcredi-bilidadedosconsumidoreseconferirmaiortransparnciasprticaseaosprincpiosutilizadosnaproduoorgnicaeoutorgadapordiferentesinstituiesnopas,asquaispossuemnormasespecficasparaaconcessodoseuselodegarantia.

    viAbilidAde de produo em pequenAs reAsOsistemadeproduoorgnicovivelempequenasreasepermiteproduoempequenaescala.Mesmoqueaquantidadeproduzidapeloagricultorsejapequena,acomercializaodealimentosorgnicosdire-tamentecomosconsumidorespossvel,quersejapormeiodadistribui-oemresidncias,quersejapelavendaemfeiraslivresespecializadas.Anecessidadedeaumentaraquantidadedisponibilizadaparacomercia-

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    lizaoemdeterminadospontosdevenda,bemcomodeincrementaravariedadedeprodutosexigequeospequenosagricultoresseorganizememassociaes.

    diversificAo dA produoAdiversificaodaproduofavorecidadevidoaocontatoestabelecidoentreprodutoreconsumidornasvendasdiretas. Incluindoa integraoentreproduovegetaleanimal,nomesmoestabelecimentorural,auxilianaadoodosprincpiosagroecolgicos,aomesmotempoemqueconfe-reaopequenoagricultormaiorestabilidadeeconmica,poisumapossvelquedanospreosdealgunsprodutospodesercompensadapelaaltadeoutros;fatoquefazcomquehajaumadiversificaonaturaldeprodutosnoespaoenotempo.

    gerAo de emprego e fixAo do homem no cAmpoAo contrrio do sistemade agricultura convencional, a agricultura or-gnicaprecisademaismo-de-obraporunidadederea.Gerandoumanovadinmicadeempregosparaacomunidaderuralquevivenoentor-nodasunidadesprodutivas.Outrapossibilidadeoaproveitamentodaprpriamo-de-obra familiar excedente, principalmentedasmulheres,quetmbuscadoocupaesdomsticasforadoestabelecimentoagrco-la,recebendosalriosque,emmdia,somenoresqueaquelesdostra-balhadoresagrcolasrurais.Ainda,oengajamentodemaismembrosdasfamliasruraisnaagriculturaorgnicapoderepresentarmaisumfatorde fixao familiar no campo, alm de diminuir os custos efetivos deproduo,reduzindoadependnciadeemprstimosbancrios(CAMPA-NHOLA;VALARINI,2001).

    mAior vAlor comerciAl do produToOprodutoorgnicopossui,atento,maiorvalorcomercialemrelaoaosproduzidosnosistemaconvencional.Atualmente,humdiferencialsignificativoemseuspreosquerepresentaumgrandeatrativotantoparaosagricultoresemgeralcomoparaasgrandescorporaesagropecurias.Porisso,asadaparaospequenosprodutorespareceserofortalecimentodaexploraodosnichosnomercadolocal.

    preservAo do meio AmbienTeConformecomentadoanteriormente,ofatodaagriculturaorgnicaapre-sentarmenordependnciadeinsumosexternos,abrirmodousodeagro-txicosefertilizantessintticos,nousarhormnioseoutrassubstnciasprejudiciais,fazcomqueapreservaodosecossistemassejamaiseficien-teequeelaseja,emfunodisso,umagrandecontribuioemfavordomeioambiente.

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    conservAo durAnTe o perodo ps-colheiTAExistem,atualmente,basicamentetrssistemasdearmazenamentousa-doscomercialmenteparaaconservaodefrutasehortalias,nomundotodo,inclusivenoBrasil,queso:emfrioconvencional,ematmosferamo-dificadaeematmosferacontrolada.Noprimeiro,controla-seatemperatu-raeaumidaderelativadoarnointeriordacmarafrigorfica.Nosegun-do,sousadosfilmesplsticosparaformarumaatmosferamodificadanointeriordasembalagens,sendoestas,acondicionadassobrefrigerao.Naatmosferacontrolada,almdatemperaturaedaumidaderelativadoar,controlam-setambmasconcentraesdeoxignioededixidodecarbo-nonointeriordascmarasfrigorficas.

    Ascmarasfrigorficasconvencionaistmcustomenor,entretanto,seuperododeconservaotambmmenorquenaatmosferacontrolada.Aatmosferamodificadatorna-se,muitasvezes,umaalternativaintermedi-riaemrelaoaoscustoseaoperododeconservao.Amanipulaodasconcentraesdosgasesnointeriordacmarafrigorficaaceitvelparaaconservaodeprodutosorgnicoscomofrutasehortalias,desdequenosejamusadosprodutosqumicostaiscomofungicidaseoutros.Mesmosemaadiodefungicidas,porexemplo,aatmosferacontroladaumatimaopoparaaconservaode frutasehortalias.Atualmente,a tendnciamundialdenopermitirousodefungicidasnoperododeps-colheita,mesmoemprodutosoriundosdosistemaconvencionalouintegrado.Destaforma,oempregodetcnicasalternativastaiscomootratamentotrmico,omanejodaumidaderelativadoar,ousodeantagonistasnaturaisouaeli-minaodoetileno,hormnioproduzidopeloprpriofrutoequeaceleraoprocessodeamadurecimentoesenescncia,porexemplo,nafasedeps-colheitadefrutasehortalias,emcombinaocomaatmosferacontroladasoalternativasviveisequejestosendorealizadasemvriospases.

    Alguns entrAves ou limites

    engenhAriA genTicA: TrAnsgnicos e subproduTosTodossabemosque,deacordocomasnormasparacultivodeplantasoucriaesdeanimaisnosistemaagroecolgico,terminantementeproibidoousodeorganismosgeneticamentemodificados(OGMs).Nareadetec-nologiadealimentosoprincpiovlidodamesmaforma,ouseja,nopermitidoousodequalquerprodutoouderivadodatransgeniaparaapro-duoe/ouprocessamentodealimentosaagroecologiaeatransgeniasoabertamentecontrastantesemprincpios,tcnicasevalorizaodavidaedoagroecossistema,ouseja,ondeumapreservaavida,assementes,ossa-beres,oconhecimentoeaparticipaosocial,aoutrageradependncia,erosogentica,manipulaoeconmicae social, colocandoemriscoaseguranaalimentareasoberanianaproduodealimentos.

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    sensibilizAo dos governosOGovernoFederalvemapresentandoprogramasinteressantesdeincenti-voagriculturafamiliare,comisso,agriculturaorgnica.OutrospasescomoaAlemanha,porexemplo,sopioneirosnareadaproduoalter-nativaedespertaramointeressepelapreservaodomeioambienteeho-memproduzindoalimentosmaissaudveishmuitomaistempoquens.Nonossocaso,pode-sedizerqueestamosavanando,pormfaltamuitoaindaparaconseguirmosatingirnveismaiselevadoscomrelaoaesseaspecto.

    importantesalientarque,nobastasomenteoGovernoFederalinvestir e incentivar algunsprogramas. fundamental que esse tipodeaosejaseguidoourealizadoemconjuntopelosGovernosEstaduaiseatmesmopelosMunicipaisatravsdesuasSecretariasdeAgriculturaePecuriaouporoutrasagnciasdeextensoruralcomoasEMATERs,Sin-dicatosRuraiseoutros.

    sensibilizAo dos produToresSensibilizarosprodutoresparacultivaralimentoscommenosagrotxicosumadastarefasmaisdifceisqueexistenomomento,assimcomoumadasfunesmaisdifceisnaAgropecuriaadoextensionistafrentere-sistnciadosprodutorescomrelaoaquisiodenovastcnicaseinfor-maes.Ocultivoconvencionalcomusointensivodedefensivosagrcolasefertilizantessintticosesttoincrustradonosistemaquedificilmenteseconseguealgumavanonestesentido.Asnovasgeraesfazempartedeumapea-chaveemtodoestecontexto,poisatravsdelas,juntamentecomumsistemadeensinointeligenteeconscienteemrelaoalimentaosaudvelepreservaodomeioambientepoderacontecerumavanonestesentido.

    sensibilizAo dos consumidoresMuitosconsumidoressodesinformadosetambmnofazemquestodeadquiririnformaessobremuitascoisas.Aquestoambientalumades-tasreasque,normalmentedeixadadeladopornosaberemounocon-seguiremimaginaroquantoimportanteparatodosnstermosumlocalsaudvelparaviveremharmoniaeequilbriocomanatureza.

    Comrelaoaosalimentosentoumcaos,poisumagrandepar-celadapopulaobrasileiranoseinteressaemsabercomoosalimentosforamproduzidoseoquefoiusadoparasuaproduoe/outransforma-o.Destaforma,acabamadquirindognerosalimentciosdosmaisva-riadostipos,nolevandoemcontaaseguranaalimentar.Comrelaoaesteaspecto,importanteconsiderarobaixopoderdecompradobrasi-leiro,levando-oaadquirirosprodutosdemenorpreo.sabidoqueosprodutosorgnicospossuemcustosmaiselevadosemfunodovolume

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    deproduoeprodutividademaisbaixoscomparadosaosconvencionais,porm,deveramoslevaremconta,primeiramenteaqualidadedoprodutoexpressapeloseuvalornutricionaleseguranaalimentaraosadquirirmososgnerosalimentcios.Aesgovernamentaisdeordemeconmica,comafinalidadedemelhorararendadosbrasileiros,bemcomooacessoedu-cao,somedidasfundamentaisparareverterestequadro.

    sensibilizAo nAs escolAs de ensino fundAmenTAl, mdio, Tcnico e superiorAlgoqueaindavemosmuitoemnossosestabelecimentosdeensinoumaresistncia,porpartedosnossosprofissionais,comrelaoproduoor-gnica.Referimo-nosaotermoprofissionaisporqueocompromissocomomeioambientenosomentedosdocentesmassimdetodosaquelesqueestoenvolvidoscomeducao.Comrelaoaosdocentes,estaresistnciadeve-seprovavelmenteaotipodeformaoquetiveramequeaindaper-maneceemseussistemasdeensino.

    Asescolasdenvel fundamentalnopossuemmuitasdisciplinasespecficasrelacionadasagropecuria,masasescolas tcnicas,as fa-culdades,asuniversidadeseoutrasinstituiesfederaisdeensinosupe-riorpossueme,lamentavelmente,dentrodestesestabelecimentosaindaexisteumagranderesistnciaparacomocultivoorgnicodealimentos,tantodeorigemvegetalquantodeorigemanimal.Sabendoquenorestodomundoesseprocessojbastantedifundido,surgeentoumques-tionamentoparadiscusso:porque,noBrasil,essetipodeidiaaindatorudimentar?

    Osprofessores,quesoconsideradospelosacadmicoscomosendorepresentantesdeumsupostosabereexemplodevida,carregamconsigoumamissomuitoimportanteedecisivacomrelaoformaodosalu-nos.Mesmoaquelesquenoso favorveisouquenoconseguemper-ceberosucessoeasvantagensdaagroecologia,deveriam,dentrodesuaspossibilidadesdeatuaoemsuasdisciplinaseatmesmoforadasaladeaula,pelomenoscomentarsobreaexistnciadesseprocessoprodutivoal-ternativoagroecolgico.

    grAnde dependnciA de ferTilizAnTes sinTTicos e AgroTxicosAindaexisteumainflunciamuitograndedasmultinacionaisfabrican-tesdedefensivosagrcolasefertilizantessintticosnoBrasil.Muitasdes-tasempresasvendemoucomercializamumaquantidademuitopequenadestesprodutosemseuspasesdeorigem,poissabemqueseusprodu-toreseconsumidoressomelhorinformadoscomrelaosconseqn-ciasquandoelessousadosexageradamenteedependendodoprodutoem questo, simplesmente proibida sua comercializao e ele acabasendocomercializadoemoutrospases,principalmentedafrica,Am-ricaLatinaesia.

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    cerTificAo, conTrole dA produo e produTosNoBrasil,infelizmente,aindaexisteumdescontrolecomrelaosnor-masdeproduoecomercializaodealimentosdemaneirageral.Ocon-sumidor,namaioriadasvezes,desconhecealegislao,ouainda,muitasvezes,elanoexiste.Nestesentidonecessriaumamelhoriasignificativadalegislaoemvigore,principalmente,dafiscalizao,aliadaeducaodapopulaosobreestatemtica,poisnobastaexistirumaboalegisla-osenohouverumaeficientefiscalizaojuntamentecomaeducaoesensibilizaodosprodutoreseconsumidorescomrelaofraudes,im-portnciadaseguranaalimentar,importnciadapreservaodomeioambienteebemestardapopulaoemgeral.Informaoumapalavra-chavenestecontexto,quepoderevolucionarmuitacoisaemnossopas.

    Aemergnciadaproduoedacomercializaodeprodutosorg-nicosnoBrasileprovvelexpansodonegciotmaumentadooriscodosurgimentodeatitudesoportunistas.Comapossibilidadedeobtenodepreosmaiselevadosneles,surgecadavezmaisprodutoresecomerciantesinteressados.Nocasodosprodutosorgnicos,ooportunismopodesecon-cretizaratravsdatentativadecomercializaodosconvencionaiscomosefossemorgnicos.Estaumaformadeobterodiferencialdepreoe,aomesmotempo,burlartodaumaestruturadecertificaoqueenvolveoacompanhamentoeocontroledaproduo,paragarantiraoconsumidorqueoqueadquiriufoidefatoproduzidodentrodasnormasdaproduoorgnica.Agrandedificuldadequeosatributosdequalidadedestespro-dutossoespecficosenoidentificveismediantesimplesobservaovi-sual,sejanumafeiraderuaouemumsupermercado.

    Oqueocorrenocasodosprodutosorgnicos,umaassimetriadeinformaes entre vendedores e compradores. Os agricultores e comer-ciantesdispemdasinformaessobreaquiloqueproduzeme/oucomer-cializam e, consequentemente, sabem tudo sobre sua origem, quando,comoeporquem foramproduzidos. Josconsumidores,quandocom-pramosprodutosorgnicos,quasenadasabemquantoprocednciaequalidadeintrnsecadoqueestoadquirindo.Surgeaanecessidadedacertificao.

    Estagrandediferenaentreograudeinformaodequemproduze/ouvende,emrelaoaoconsumidor,quepermiteoupodeinduziraumafortetentaoparaqueprodutosconvencionaissejamcomercializa-dos comoorgnicos.A importnciada certificao e a credibilidadedaagncia certificadora de produtos orgnicos para omonitoramento dasatividadesdosprodutoresecomerciantesdestes,decorredestapoucain-formaodoconsumidor.Comocomentadoanteriormente,informaoumapalavra-chaveparaodesenvolvimentodeumpovoenaoeadqui-ridaeminstituiesdeensinoeatravsdosmeiosdecomunicaocomojornais,revistas,rdio,televisoeoutros.

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    AdriAno Arriel sAquet

    Aprevenocontrao surgimentodooportunismopassaporumamaiorsensibilizaodosprodutores,comercianteseconsumidoressobreasvantagenseconmicas,polticas,moraiseticasdeseguirasnormasestabelecidasparaaproduoorgnica.Estasensibilizaopoderforta-lecerasconviceseosideaisdeumaproduoagrcoladebaixoimpac-toambientaleamelhoriadasadehumanaemgeral.Papelfundamentalnesteprocessoodosconsumidores,quedevemexigirqueosprodutoscomercializadoscomoorgnicossejamcertificadospororganizaesre-conhecidas,como formadeevitaro surgimentode fraudes.Estaumaformadeprotegeroprodutoridneoetambmoconsumidor,propiciandoassimumaexpansolcitadoagronegcio.

    embAlAgem, roTulAgem e idenTificAo dos produTos orgnicosDemaneirageral,temossriosproblemasdeembalagenscomagran-demaioria dos alimentos.Muitos deles sequer so embalados, sendoassim,fcildeimaginarqueoconsumidornoconsigaidentificarcor-retamente aquilo que vai adquirir, sem levar em conta as perdas, emdecorrnciadafaltadeembalagensoudousoinadequadodestas.De-pendendodotipodealimentonecessriaumaembalagemespecficae,muitasvezes,comonocasodasfrutasehortalias,sonecessriasembalagensindividuais,quedeveriamserconfeccionadascommaterialadequadoaoprodutoeterseusrtulosbemelaboradoscontendo,prin-cipalmente, as informaes necessrias sobre ele, tais como a proce-dncia,nome,composionutricional,setransgnicoouno,datadevalidadeeoutras.Umaspectoimportantecomrelaosembalagensestrelacionadoasuacomposio,vistoqueamaioriadelasnosore-ciclveis,retornveise/oubiodegradveis.Destaforma,aproduodelixomuitogrande,comovemosnodia-a-diadobrasileiro.Isto,alia-dofaltaoucarnciadeorganizaoparareciclagemgeraumimpactoambientalenormecontaminandorios, lagos,matas,entupindocanaisde esgotos e outros, alm da poluio visual das cidades originandoumamimpressodemaneirageral.

    limiTAes de ordem TcnicA (produo)Esteitemnoseraprofundadovistoqueoprincipalobjetivodestadis-cussorealizarumaanlisemaissocialdaAgroecologia,emboraalgunslimitesoudificuldadesenvolvemtambmacadeiaprodutivaagropecu-ria.Sabe-sequemuitodifcilcultivar,porexemplo,tomates,masoubatatas, semousodedefensivosagrcolasem funodaquantidadedepragasedoenasqueatacamasculturas.Ousodeprodutosoumtodosalternativosmuitasvezesmenoseficientequenosistemaconvencional,maspossvelproduziralimentosdetimaqualidadesemousomassivodeinsumosqumicos.

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    escAssez de pesquisA em AgriculTurA orgnicAAsinstituiespblicastmatuadopouconodesenvolvimentoe/ouvalida-odetecnologiasdeproduoorgnica,oqueacabaprejudicandomaisospequenosagricultoresque,geralmentenotmacessoinformaesque poderiam ser utilizadas de forma experimental em suas lavouras eatuamportentativasempricasqueresultamemerroseacertos.

    considerAes FinAis

    Aagriculturaecolgicaconstitui-senoelementomedianteoqualsepre-tendegerarestratgiasdedesenvolvimentosustentveleinclusosocial.Apartirdeseusprincpioselementarespossvel,umamenoragressoaomeioambiente,aproduodealimentosmaissaudveiserecursosparaaauto-sustentaodosprodutores,almdoauxlionoprocessodeindepen-dnciaderecursosexternos.Atualmente,muitospasesencontram-seemplenafasedeexpansocomaproduoecolgica,destacando-seaAlema-nha,aSua,aAustrliaeoutros.

    OBrasilsitua-seentreospasesqueaindaestomuitodependentesdosistemaconvencionaldeproduoagrcola,empregandoenormesquan-tidadesdeinsumosqumicosprovenientesdefontesexternas,causandoumagrandedependnciadetaisprodutoseempresas,almdaagressoaomeioambienteedacadeiaprodutivadealimentoscomaltosndicesdecontami-naodosecossistemasporagrotxicos.Percebe-se,entretanto,nopas,umacrescentesensibilizao,tantoporpartedepesquisadores,produtores,go-vernos,comodacomunidadeemgeral,sobreaimportnciadeseproduziralimentosmaissaudveisnoesquecendotambmdapreservaodomeioambienteedosecossistemasemgeral.Aagroecologiatorna-se,dessaforma,umaalternativaempotencialaosistematradicionaldeproduoagrcola.

    reFernciAs

    CAMPANHOLA,C.,VALARINI,P.J.Aagriculturaorgnicaeseupotencialparaopequenoprodutor.Cadernos de Cincia & Tecnologia,Braslia,v.18,n.03,p.69-101,2001.

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    SAQUET,A.et al.Agricultura ecolgica e ensino superior.FranciscoBeltro:Grafit,2005,87p.

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    AdriAno Arriel sAquet

    SCHMUTZ,R. et al.90 Argumente fr den Biolandbau.Forschungsinsti-tutfrbiologischenLandbau(FiBL),Ackerstrasse,CH-5070,Frick,Schweiz,2006,16p.

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    AgroecologiA: desAFios PArA umA condio de interAo PositivA e co-evoluo humAnA nA nAturezA

    valDemar arlEngenheiroAgrnomo,especialistaemAgroecologiaeDesenvolvimentoSusten-tveleAdministraoRural,MembrodaRededeConsultoresColaboradoresdoMDA/SDT(MinistriodeDesenvolvimentoAgrrio/SecretariadoDesenvolvimen-toTerritorial),ProfessordoCursodeDesenvolvimentoRuralSustentveleAgroe-cologiadaUnC/Concrdia-SC|valdemar@ecovida.org.br

    Diantedoenormepotencialautodestrutivodoatualsistema,consensoodesafiodoestabelecimentodeumanovacondio,capazdesatisfazerasnecessidadesdageraopresente,semcomprometerestapossibilidadeparaasgeraesfuturas.H,porm,namaioriadasabordagens,especial-mentejuntoaodebateoficialdodesenvolvimento,umfortetomdeconti-nusmosubjetivado.Estaafirmaopossvel,jque,majoritariamente,oparadigmadodesenvolvimentosustentvelfoiumconceitogerado,domesmomodoqueodedesenvolvimento,nocentrodo sistemamundialatual(RIBEIRO,1980).

    Desenvolvimento uma condio universalmente desejada, exa-tamenteemfunodasuaimpreciso,ouseja,depossvelambigidadediantedevisesdiferentesdesociedade.Destaforma,sustentvelmaisumrtuloouadjetivoafixadoaoconceitotradicionaldesenvolvimento,e que o deixa domesmomodo, polissmico (MONTIBELLERFILHO,2001).H, portanto, apropriaes diferenciadas sobre as referncias desustentabilidade.

    Osconceitosdedesenvolvimentoassumidosnaprticaaolongodahistriaexpressamdeterminadosinteresseseperspectivas,sempreresul-tantesdopensamentopolticohegemnicoemvigor.Assim,

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    [...] estudar o conceito de desenvolvimento conduz a anlises de diferen-tesaproximaestericasemquenosepodemnegarasconotaesideo-lgicas que so produtos de diversos interesses e percepes criados nadinmicadaconstruosocial.Essesconceitos tmsidoracionalizadoseapresentadosnoterrenoeconmico,polticoeideolgicoeassimconduzi-doprogramasepolticasconcretasassumidaseimpulsionadaspordistintosgovernos(PERACI,2000).

    Odebatedaagroecologiasednessecontextodiversodeperspec-tivas,masnaabordagemdestetextoassume-seapopularquevemsendoconstruda junto agricultura familiar/camponesa, onde a agroecologianovistaapenascomoumaalternativaouumatcnicadentrodomodelodedesenvolvimentoemvigor.Porisso,umprimeirograndedesafioares-significaoconceitualemoutrasbasescientficasaliceradasnumanovacompreensodomundo,dasrelaesedasociedadehumana.

    Nesta elaborao, abordam-se aspectos da trajetria histrica dodesenvolvimentonocampo,apontandoascontradiesecaracterizandoumanovacondio,cujabaseaagroecologia.Levantam-segrandesdesa-fiosparaodesenvolvimentonumaperspectivaagroecolgicaeanecess-riareconstruoe/oure-significaoconceitualparaumaefetivapossibi-lidadetransformadora,tendoaformaoeaorganizaocomoestratgiafundamental.

    A grAnde mudAnA de rumos

    SeguindoocaminhodosprincpiosdaqumicamodernaformuladosporLavoisieremmeadosdosculoXIX,surgeoquimismoapartirdeteoriassobreoscomportamentosdassubstnciasmineraisnossolosenasplantas,comoaformuladapeloqumicoalemoJustusVonLiebig,afirmandoqueanutriomineraldasplantassedessencialmentepelaabsorodesubs-tnciasqumicaspresentesnosolo.Eledesprezavatotalmenteopapeldamatriaorgnicaaodizerqueainsolubilidadedohmusotornavaintil.

    Liebigacreditavaqueoaumentodaproduoagrcolaseriapropor-cionalquantidadedesubstnciasqumicasincorporadasaosoloedefen-diaquearespostadasplantasdependiadaquantidademnimadisponveldecadaelementoqumiconecessrioaoseucrescimento,equeaausnciaoupresenaemquantidademuitoreduzidalimitariaocrescimentovegetal.EssateoriafoichamadadeLeidoMnimo.Liebigconsideradoopaidaagriculturaqumica,sendoumdosprincipaisprecursoresdaagroqumica.

    Suas idias causaram grandes impactos na poca por estarem seopondoTeoriaHmica,naqualpormilniosembasavamaproduoeasteoriasagronmicas,equesustentavaaidiadequeanutriovegetalsedatravsdasrazes,queabsorvemdosolopartculasinfinitamentepe-quenas,constitudas,emgrandeparte,pelomesmomaterialdasplantas.

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    vAldemAr Arl

    Emboratenhamencontradomuitosopositores,comoLouisPasteuresuasdescobertasnocampodamicrobiologia,asformulaesdeLiebigtornaram-sehegemnicasnodesenvolvimentodaagriculturamoderna.

    A modernizAo conservAdorA

    Emboragrandestransformaesjviessemocorrendonaagriculturaeu-ropianosculoXVIII,a modernizaodaagriculturaumprocessoqueseinstalaefetivamenteapartirdops-guerra.SurgeagoraumaSe-gundaRevoluoAgrcolaenestaseconstriumanovacompreensodeagricultura, intitulada Revoluo Verde, um padro agrcola qumico,motomecnicoegenticogestadonosEUAenaEuropa,quetransforma-doempacote,vaigradativamenteseespalhandoeseinstalandoemtodoomundo,criandoumanovaracionalidadeprodutiva.Ograndechavodestemodelo era: acabar coma fomenomundo.Preconizava-seque,comamodernizaotecnolgicaecomoconseqenteaumentodapro-dutividadeedaproduo,haveriaaumentodarendafamiliare,portanto,desenvolvimentorural.

    Quebra-searelativaautonomiadorural.Aindstriaaospoucosseaproprioudeatividadesrelacionadasproduoeaoprocessamento.Esseprocessofoichamadodeapropriacionismo.

    O apropriacionismo envolvia a produo de adubos qumicosparasubstituiroempregodamatriaorgnica,amotorizao e mecani-zaonasubstituiodatraoanimaletrabalhobraal,eaproduo de sementes melhoradas,atravsdaengenhariagenticaapartirdasdesco-bertasdeMendel,nasubstituiodaseleoeproduodesementes.

    Duranteasguerrasmundiaishouvegrandesinvestimentostecno-lgicosecientficosnodesenvolvimentodearmas,mquinasesubstn-ciasmortaisaseremusadasnoscombatesenoscamposdeextermnios.Passadasasguerras,muitodestearsenal(capacidadeindustrialdepro-duo)passouaseradaptadoereutilizadoemcampanhasdesadep-blicaeprincipalmentenaagricultura.EntreosexemplosmaisclssicosestooscasosdoDDTedoSchradan,adaptadosposteriormentecomoinseticidasagrcolas.

    A revoluo verde no BrAsil

    EmborajexistissemalgunsinstitutosdepesquisaeescolasdeagronomianoBrasil,estassofreramfortesmudanas,eoutrasnovasforamcriadasapartirdadcadade1960,cominflunciadecisivadosistemadepesquisaeeducaodosEUA,quesedeuviaconvniosdoMEC(MinistriodaEdu-caoeCulturadoBrasil)comaUSAID,aAlianaparaoProgresso,comaFundaoFord,aFundaoRockefellereoutrasdosEUA.Atravsdestes

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    convniosrealizavam-seintercmbios,vindadeassessoresnorte-america-nos,transfernciadeequipamentoscientficosedematerialbibliogrfico,erecursosfinanceiros.Asescolasdeagronomiabrasileirasconveniaram-secomasnorte-americanas.Oscurrculosforamtotalmentereformuladoseadaptadosaestaproposta.

    Inmerosforamosinstrumentosdeinterveno:leis,regulamentos,crditos,subsdios,instituiesdeensino,pesquisaeextensorural,meto-dologias,campanhasetc.

    ARevoluoVerde foioltimograndeprojetoparaodesenvolvi-mento ruralnopas.Forammaisde20anosde investimentospblicoseprivadosenvolvendovolumosassomasdecrditosubsidiadoevincula-docompradeinsumos(agrotxicos,sementes,mquinas,adubosetc.),pesquisaeextensorural,almdemilionriacampanhadepropagandaeconvencimento.

    Estemodelofacilitouotrabalhoepropiciouoaumentodaprodu-o,mastrouxeinmerasconseqncias.Aseguirabordaremospropositi-vamenteestaquesto,classificando-aemquatrodesafios:

    desafiosocial,polticoeeconmico;

    desafiocientfico;

    desafioeducacional;

    desafioorganizacional.

    um desAFio sociAl, Poltico e econmico

    Antesdosadubosqumicos,dassementescertificadas,dosagrotxicosedeoutrositenssimilares,aproduodependiadanatureza.Osagriculto-resbuscavamformasdeajud-laparapodercontinuarproduzindo,dei-xandoaterradescansar(pousio),aplicandomatriaorgnica,fazendorotaoetc.

    Assim,as famlias tinhamumaproduodiversificada,quasenodependiamdeinsumosexternoseproduziamprimeiroparaoautoconsu-mo.ComaRevoluoVerdeissotudoacabouvieramamonocultura,asmquinas,assementes,osadubosqumicoseosagrotxicoseosistemadeproduodaagriculturafamiliarfoidesestruturado,anaturezadescon-sideradaeafertilidadenaturaldestruda.

    Acabouaproduodebiomassa(matriaorgnica)realizadape-lasmatas e capoeiras, o hmus do solo se desgastou e comearamaaparecer as pragas, doenas e inos.A degradao e a contaminaoambientalseaceleram,avidadosolovaimorrendoeafertilidadena-turalseacaba.medidaqueistovaiacontecendo,aumentaanecessi-dadedeadubosqumicosedeagrotxicosparamanteromesmonveldeprodutividade.

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    vAldemAr Arl

    Essas transformaes no campo chamadas de RevoluoVerdefaziampartedeumprojetodedesenvolvimentoqueseaplicounoBrasilduranteasdcadasde1960e1970,cujaalavancafoiaindustrializao.Nesseperodohouvegrandecrescimentoeconmicopormconcentradonasmosdepoucos.Pregava-seaidiadequeprecisofazerobolocres-cerparadepoisrepartir.

    Noinciodadcadade1960,aproximadamente70%dapopulaovivianocampo.Diantedademandaurbana,houvegrandexodorurales-timulado,isto:aindstriaprecisavadegenteparatrabalhar,assimado-tou-seumasriedeprocedimentosparaforaramigraodepartedapo-pulaodocampoparaacidade:

    adaptou-seaeducaoparaprepararosjovensparatrabalharnaci-dade;

    osinvestimentossociaisemeducao,sade,lazer,habitaoesa-neamentobsicoforamrealizadosnacidade;

    sociologicamente associou-se o campoao atraso e ignorncia surgematalgunspersonagenspejorativoscomoojecatatu,paracaracterizaracondio;

    paraocampoplanejou-seamecanizao,aespecializaoeasmo-noculturas,eumarsenalqumicoegenticoparadarsustentaoaumacondioondemenospessoasproduzissemmaiorquantidade.

    Inicialmenteesseplanopareciadarcerto,mas,aospoucos,acidadejnoabsorviamaisoxodoruralquecontinuaocorrendo,nospeloes-tmulo,masagoratambmpelacrescenteinviabilizaodocampo,invia-bilizaoemfunodadestruiodafertilidadenaturaledadependnciaexterna,damonoculturaedofimdoscultivosparaoautoconsumo,fatoresquesoresponsveispelaprogressivaedrsticadiminuiodarenda.

    Essemodelodarevoluoverdegerouumciclovicioso,porqueoaduboqumicomantmaproduosemaumentarafertilidadedosolo,provocandooutrosdesequilbriosneleenaplanta,proporcionandoinos,pragasedoenas.Agorasonecessriostambmosagrotxicoseospro-blemassomultiplicadosmedidaqueaumentaadependnciadeinsu-mosexternos.

    Almdobemconhecido chavoda revoluo verde, de acabarcomafomenomundo,associou-seamodernizaomelhoriadascon-diesdevidaedebem-estarcomocondioautomticaeuniversal,almdeumstatus quosocialvalorizado.No,porm,oquesedeunaprti-ca,pois,almdadescapitalizaoedoempobrecimentodocampo,houveefeitosaindamaiscatastrficosnomeiourbano.

    Oxodoruraldadcadade1990paractemumsentidocadavezmaisproblemtico:primeiramenteporqueresultadodacrescenteinvia-

  • desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA

    160

    bilizaoambientaleeconmicadocampo;segundoporqueacidadenooferecemaismuitaspossibilidadesaocontrrioelatambmdemiteeex-pulsaparaamarginalidade.

    Re-pensarasustentabilidadeparaodesenvolvimentoograndede-safiodomomento.E,quandosefalaemsustentabilidade,noseestfa-lando somentededinheiro, de economia.Para se falardequalidadedevida ede sustentabilidade, outros aspectos so igualmente importantes,comooresgateeavalorizaocultural,aconservaodomeioambienteeainclusoeaigualdadesocial.

    claroquefalarsobrearendaumassuntomuitoimportantenomomento,jqueaagriculturafamiliarenfrentaumadesuasmaiorescri-ses,expressanadegradaoambientalecultural,enainsuficinciaderen-dadecorrentedomodelodarevoluoverde,embasadonamonocultura,nadependnciadeinsumosexternos(agrotxicos,adubos,sementes)enaintegraoagroindustrial.

    fundamentalareconstruodosistemadeproduodaagricul-tura familiar, porque o agricultor deixoude s-lo, e se tornouprodutordealgumacoisa:produtordefumo,produtordeponkan,produtordeleite, produtorde tomateetc.Seusistemadeproduo foidestrudo.Historicamente,ele seembasavanadiversificaoena integraocom-plementardeatividades,ondeoautoconsumoeraestratgiafundamentaltantonoquesereferequalidadedevida,quantoaoresultadoeconmico.Namaioriadasfamlias,ovalordoautoconsumofamiliardificilmenteficaabaixodeR$300,00mensais,podendoultrapassarosR$800,00.Asfam-liasagricultorassabemquenotodifcilproduzirparaoautoconsumo,porm,senootiveremgarantido,voprecisarobterumarendamensalsuficienteparacomprarosalimentosnecessrios.Umaunidadefamiliarcombomnveldeproduoparaoautoconsumo,mesmocommenosen-tradadedinheiro,temmaiscapacidadedeinvestimento.

    Apotencializaodafertilidadenaturaldossolosproporcionaumaindependnciaemrelaoaosinsumosexternos,diminuindooscustosdeproduo.

    Todasessascondiessomadasproporcionavamsegurana,estabili-dadeeumarelativaautonomiaeconmica,polticaesocialaocampo,quefoidestrudapelalgicadapropostaimplantadapelarevoluoverde,ehoje,diantedasdificuldades,atmesmoseusdefensoresadmitemqueestemodeloseesgotou,ouseja,noservemais.Oatualmomento,portanto,oportuni-dadeparaumatomadadedecisoquantopropostadofuturodesejado.

    Paralelamente, oportuno tambm o momento para repensar ocampoenquantoespaoeformadevida,jque,apartirdaimplantaodoatualmodelodedesenvolvimento,elepassouaservistobasicamentecomoespaodeproduo,atrasoeignorncia,dentreoutrosadjetivosnegativos.Acondiodesergentedacidadaniafoiassociadaaourbano.

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    vAldemAr Arl

    Osinvestimentosempolticassociaisedeinfra-estruturadelazer,sade,educaoeoutras,foramecontinuamsendodirecionadosaourba-no,mesmoemmunicpiosondeametadeouatmaisdametadedaspes-soasvivemnocampoeondemuitomaisfamliaspoderoviver.Porissonecessriotambmrepensaraspolticaspblicas,porqueoxodoruralnointeressaaocampoemuitomenosscidades.

    Fortaleceraagriculturafamiliarumaestratgiaimportanteparaodesenvolvimentosustentvel,comrepercussesparatodaasociedade,poisestatemumarelaodemultifuncionalidadequevaimuitoalmdaproduodealimentos,tendo:

    ocampocomoprodutordealimentosnumavisoestratgicaquan-toseguranaesoberaniaalimentar;

    ocampocomogeradordetrabalhoerenda;

    ocampocomoguardiodabiodiversidade;

    ocampocomoconservadordomeioambiente;

    enfim,ocampocomomodoeformadevida.

    um desAFio cientFico

    Acinciaresultadainterpretaohumanadascoisas,dosfenmenos,dosfatosedosoutrosobjetosdeseuestudorealizadoatravsdeuminstru-mentalmetodolgico,eporissonoinfalvel.Omaiordesafioreside,po-rm,naaplicaodeseusresultados,quandotransformadaemtecnologiaaserviodecorporaes,momentoemqueelaperdesuaneutralidade.

    Tambmprecisaincorporarnovasperspectivasevises.Ohumanodofuturoparecemotivadoporumarebeliocontraaexistnciahumanatalcomolhefoiatribuda[]eleadesejatrocarporalgoproduzidoporelemesmo(ARENDT,1958).E,namedidaemqueoafastamentodaexis-tnciahumanadanatureza se realiza, necessita-se aumentar onvel deartificializaoparapodercontinuarvivendo,afastando-secadavezmaisdacinciadavidaeexercendoumavidadominadapelacincia.Interrom-pem-seosciclosesegmenta-seateiadavida,egastam-sefortunascomtecnologiaseprodutosparasustentaravidanestanovacondio.

    Umexemploclssicodestalgicadacinciapodeserverificadojun-toaomodelodarevoluoverdeaplicadonaagricultura,onde,simplifi-candoaanlise,conclui-sequeosadubosaltamentesolveiseosagrotxi-cossorecursosquenospermitemproduziremambientescadavezmaisdegradados.

    Aagroecologiadesafiaafusodacincia,projetoeprocesso,pro-pondoumanovainseroerelaoecolgicanecessriaparaumarelaoprodutivasustentvel,e,aomesmotempo,partilhadenovascondiese

  • desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA

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    relaessociaiseeconmicasentreoshumanos,emumnovoprojetodesociedade.Trata-sedeumanovaidentidadebiolgicaqueinsereaespciehumanacomopartenanatureza(umanovaidentidadecomoespcie),as-sociadaaumanovaidentidadesociopoltica.

    Essafusodeprojetoeprocessoconfereagroecologiaumadimen-soestratgica,ouseja,muitomaisdoqueumaestratgiaderesistnciaesobrevivncia,elaumaimportantetarefadequebradeparadigmasnaconstruodeumanovaordemexistencial.

    Noatualcontextoconjuntural,assumidadestaforma,elatambmumalutapolticaquemostranaprticaquepossvelviverdeoutrafor-ma,sendoqueonovotambmocaminhoquepercorremosparaatingi-loumcaminhoqueseconstriaocaminhar.Portanto,maisdoqueumpontodechegada,essaformadecaminharnumcaminhoquesefazca-minhando,ondecadaavanodeveserassumidoeaplicadonaprtica.

    Aagroecologiaaquipropostapodeserentendidacomo:

    Processodeproduodealimentoseprodutosemconjuntocomanatureza,ondeos(as)agricultores(as)possamdesenvolversuasatividadessemagrediroambiente,tornando-seindependentesdospacotestecnolgicoscomseuscarosedegradantesinsumosindustriais,visandonosomenteassobrasfi-nanceiras,masprincipalmentequalidadedevida.abaseparaodesenvol-vimentosustentvelnosaspectossociais,ambientaiseeconmicos,envol-vendoasdimensespolticas,tcnicaseculturais,emprocessoseducativosemetodologicamenteadequados,ondeos(as)trabalhadores(as)assumemoprotagonismomaioreaumentamseupoderdeintervenonasociedade,deformaorganizada(CEPAGRI,1998).

    EstefoioconceitoassumidonafaseinicialdaorganizaoemRedeEcovidadeAgroecologiaepretendiasituarnocontexto,identificarapro-postaeexpressaracondiodemovimentoeprotagonismopopular.

    Quandosedefendeaagroecologiacomoumacincia,estsepro-pondomuitomaisdoquecondiodedisciplina juntoagronomia,ouseja,umacinciaelgicatransversal,queresultadainteraoentreoco-nhecimentoacadmicoeoconhecimentopopular,tradicionalehistrico.

    Umacinciaqueseestendeinclusivebiologiaesociologiahu-mana,reinserindo-nosdeformadefinitivacomopartenanatureza,poden-doserdefinidadaseguinteforma:Aagroecologiaumacinciafunda-mentadanaco-evoluodosseres,eminteraespositivas,decooperaocomplementaridadeeinterdependncia,quere-estabelecearelaohu-manananatureza.Resultadaecologiaaplicadaaohumanoessuasrela-esdeconvivncia,sobrevivnciaeprodutivananatureza(ARL,2007).umacinciaembasadaemumanovaconscincia,fundamentadanumavisosistmica,equere-estabelecearelaohumana,nanatureza. Istosignificaumarevisoere-significaoconceitualprofunda,proporcionan-doumaquebradeparadigmaseassumidoetraduzidonaprtica.

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    vAldemAr Arl

    Paraaprofundarumpoucomaisprecisoentendermelhoralgunsprincpiosdanaturezaondetudosecomplementaeumacoisadependedaoutra,sejamfenmenose/ouseresvivos.

    Noquesereferesespciesvivas,possvelafirmarquesobrevivemelhoroindivduoouaespciequemelhorserelacionacomosdemaisenoambiente.Estessoosmaisaptosemaisadaptados.Aissochama-sedeco-evoluoouevoluirjunto.Trata-sedeumarelaodecomplementa-ridade,decooperaoedeinterdependncia,porquenoexistemseresouespciesisoladas.

    Considerandoquesomospartenanatureza,seusprincpiostambmseaplicamsobrens, os sereshumanos, tantona relaonoambiente,quantonarelaoentrensmesmos.Aagroecologiasefundamentaeper-segueestainseroevolutiva.

    Sequisermoscontinuarexistindo,ecomqualidadedevida,preci-samosurgentementeaprenderainteragirdeformapositivananaturezaeentreosprpriossereshumanos.Acomearporumatransformaonosmeiosdeproduoedeconsumo,bemcomoemnossaorganizaosocialedenossasvidaspessoais.

    HbonsavanostericoseprticosemtodasasregiesdoBrasil.NoSul,hmaisde3.000unidadesfamiliaresdeproduocominiciativasprticassignificativas.

    um desAFio educAcionAl

    Criarumanovaculturanosignificaapenasfazerindividualmentedesco-bertasoriginais;significatambm,e,sobretudo,difundircriticamentever-dadesjdescobertas,socializ-lasporassimdizer;transform-las,portantoembasedeaesvitais,emelementodecoordenaoedeordemintelectualemoral.Ofatodequeumamultidodepessoassejalevadaapensarcoe-rentementeedemaneiraunitriaarealidadepresenteumfatofilosficobemmaisimportanteeoriginaldoqueadescoberta,porpartedeumg-nio,deumanovaverdadequepermaneacomopatrimniodepequenosgruposintelectuais(GRAMSCI).

    Avelhavisoantropocntricaquecolocaohomemcomocentrodetudoumadasprimeirasbarreirasaseremsuperadas.Esteumgrandedesafioporqueresultadeumaconstruohistricajuntohumanidade,tendoduasvertentescomplementares:

    a) Aviso teolgicaapartirdeinterpretaesequivocadasdoGnesescolaborounacomplicaodarelaohumanacomanatureza.Ex.OhomemcriadoimagemesemelhanadeDeus.Ohomemvis-tocomodominadorepossuidordaterra,quecontrolaanatureza,eesta,estparaservirohomem.Ohomemcomoltimosercriado,portantoobjetivofinaldacriao.Umainterpretaocorretaen-

  • desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA

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    tende,sim,queacondiodohumano,portadordeconscincia,ra-zo,espritoealma,noadeumserqualquer,masestacondioaumentaasuaresponsabilidadenarelaocomoconjuntodanatu-reza,porquelhepermitealteraredefinirosrumosfuturosdela.

    b) Aviso cientficanocolaboroumuitonamudananesteafasta-mentodohomemcomopartedanatureza,acentuandoaperspecti-vadaexploraodamesmaparaoseubenefcio.Anaturezavistacomofontederecursosparaaproduodebenseohomemcomodetentordamo-de-obracapazdegerarestesbens.Estavisore-sultante da concepo poltica do sistema capitalista sustentadopelateoriaeconmica,emostrou-seincapazdeexerceraconjuga-odaproduodebensegeraoderiquezaspreservao,re-cuperaoambientalemelhoriadascondiessocioeconmicas.Oclculoeconmicoamedidaparaodesenvolvimento.Ocresci-mentoeconmicoeoaumentodoPIB(produtointernobruto,queasomatriadasriquezasproduzidasduranteumano),estolongedesetraduzirtambmemdesenvolvimentosocialequalificaodarelaoambiental.Aconcentraodarendatemforteacentonaex-ploraodamais-valiadotrabalhoalheio,masd-setambmatra-vsdaapropriaodamaisvaliaambiental.

    Ambasas vises, teolgicae cientfica,percebemanaturezacomoalgoquenoexisteemsi,ouseja,sadquiresentidonamedidaemqueestemfunodoserhumano.Assim,estabeleceu-seumarelaoutilitarista.

    Emboraaspreocupaescomomeioambienteseuniversalizemepopularizemcrescentemente,sofortementeimpulsionadaspelasconse-qnciasepeloslimitesqueoesgotamentodosrecursosnaturaisimpe,ouseja,peloquepodemoschamardeterapiadomedoproporcionadope-lasprevisesdoaquecimentoglobal,efeitoestufa,escassezdagua,perdadabiodiversidadeetc.Asaeseasreaessodotipo:nofaaistopor-quevaiaconteceraquilo,como,porexemplo:noemitircloro-fluor-car-boneto,porqueadestruiodacamadadeozniopodernosafetar;nodesmatareprotegerasmargensderiosefontesporquenosfaltargua;nodesmatarporqueoseuefeitosobreatemperaturadescongelarosplos,esubironveldomareterrasfrteisseperdero.Estaecologia,nomnimo,necessria.

    Outrasvezessoasaespunitivasimpostas,emesmoaspressesdecorrentesdasexignciasdedeterminadosmercados,quecriamaneces-sidadedeselosquetraduzamcondiesambientais,levandoaeseaprogramasnestareaparagarantirasuacontinuidadenestemercado.Aecologiatambmestnamoda,ouseja,hojemodafalarnela.Estaaecologiadooportunismo.Estasformasattmefeitospositivos,masdifi-cilmenteevidenciamoverdadeiroproblema.

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    vAldemAr Arl

    necessrio,porm,construirumanovaconscincia,fundamenta-danumavisoecocntrica,ondeohumanosecolocacomopartealicera-danabiotica.Trata-sedeumavisosistmicacapazdeconectarolocalcomoglobal,oimediatocomofuturo,oconcretocomopoltico.

    Outrograndedesafioasersuperadorefere-seaofatodeque,namaioriadoscasos,assoluespropostasdiantedograndeconjuntodedificuldades socioambientais que se apresentam so paliativas, ouseja,noresolvemosproblemase,muitasvezes,sequersosuficientespara ameniz-los. A ineficincia se agrava quando as campanhas pu-blicitrias,emvezdeconscientizar,desviamasatenesdoverdadeiroproblema,porqueconveninciaseinteressesimpedemamudanaefe-tiva.Umexemploclssicosoascampanhasdetrplice lavagem,per-furamentoerecolhimentodasembalagensdeagrotxicosseminvesti-mentosnapesquisa,acompanhamentotcnicoparaasuperaodeles.Oproblemaaembalagemouoquehaviadentro?Outroexemploilus-trativo o recolhimento, a separaoea reciclagemdo lixo,que soresponsabilidadesfundamentais.Oproblemacentralparaasuperaodestedesafionoseresume,porm,nofatodolixoestarmisturadoounapoucareciclagem,mas,sim,nadiminuiodesuaproduoqueau-mentaacadadiasignificandomaisproblemasambientais,energticoseeconmicos.

    Almdas convenincias e dos interesses, estadificuldadedecorretambmdafaltadeformaoedeinformao,mesmojuntospopula-esenvolvidas,porquehlimitesquantoaocarterpedaggicoeeduca-tivodalutaemsi.Oestudoeaformaosofundamentaisparaacriaodaconscinciamaisefetivanasuperaodalgicacapitalistapresenteemnossasmenteseaes.Qualificarnossaprticasignificaobrigatoriamentequalificarnossoembasamentoterico.

    Aprticaograndebalizadordoalcancetransformadordaconcep-o terica jalcanada.Arelaoentre teoriaeprtica,especialmentequantoaoseucarter inseparveledapermanentedinmica interativa,garante-lheacondiodecritriodaverdade.

    Averdadedeumconhecimentooudeumateoriadeterminadanoporumaapreciaosubjetiva,massimpelosresultadosdaprticasocialobjeti-va.Ocritriodaverdadenopodeseroutrosenoaprticasocial.Somenteapraticasocialdoshomenspodeconstituirocritriodaverdadedosconhe-cimentosqueohomempossuidomundoexterior(TS-TUNG,1937).

    Adialticadascontradiesvaigerandoumanovaprticapropor-cionandonovasformulaes,re-elaboraeseaprofundamentostericos,evice-versa.Ocontraditrionoseiodecadafenmenoacausafunda-mentaldorespectivodesenvolvimento(TS-TUNG,1937).

    AformAO(processounitriodeinteraoentreformaoeor-ganizao),ouseja,interaoteoriaeprtica,aoereflexo,empro-

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    cessos onde o tcnico e o poltico so inseparveis, tem sido um dosinstrumentos fundamentaisnaconstruodosacmulosabordadosnaconstruo da agroecologia popular. Formao e organizao polticasopartesdeumamesmalgica,adalutapopular,cujossujeitoshistri-cossoostrabalhadores.

    um desAFio orgAnizAcionAl

    Todasasaesdevemconstituir-seemprocessosformativoseorganiza-tivosassumidospelapopulao,entendendootrabalhodebasecomoca-pazdereforareampliaraconstruodeumahegemoniapopularfun-damentalparasustentarecolocaremprticaaperspectivamaisampladetransformao.QualquerAOpodetornar-setransformadorasein-corporarasdimenses:formAOorganizAOmultiplicAOemcarterdesimultaneidadeedeinseparveis.Numaperspectivadialtica,formaoeorganizaopolticasovividascomoduasexpressesdeummesmofazertransformador;fazerqueampliaaconscincianasondagemdorealeque,nomesmoprocesso,organizaaprticasocialnatransfor-maodoreal(CEPIS,1996).

    UmprimeirodesafioorganizacionalnaconstruodaagroecologiaemsuadimensoestratgicanatransformaodocampoaampliaodoassumirdestabandeirapelosMovimentosSociaisdoCampo.Oavanodapropostadeumaagroecologiatransformadoraganhamuitaforacomaadesodestemovimentostratando-sedeavanostantonaselaboraese sistematizaes propositivas, como namultiplicao da agroecologia.Multiplicam-seasiniciativasprticas,osespaosdeformaoeasarticu-laes.Istoimpulsionarequalificara lutaporpolticaspblicasmaisabrangenteseefetivasparaaconversoagroecolgica.

    Umsegundodesafioorganizacionalaarticulaoeaorganizaodasprprias iniciativasde agroecologia e a confluncianacional destasiniciativasdosMovimentosSociaisenvolvidosedasRedes.Quantoaofor-matoorganizacional,aarticulaoemRedeumaestratgiaeficazporquepodeperpassarInstituieseMovimentos,sendoaorganizaodesocie-dadesarticuladasemredes,formasmuitoatuaiseefetivasdesustentaodeidentidadescoletivasembasadasempadrescomunsdecomportamen-to,valoreseperspectivas.

    Aorganizaoemredeoexercciodaprpriavida,aplicadotam-bmnaorganizaodosquelutamporestanovaformadepercebereexer-ceravida,ligadosentresidamesmaformacomotudonanaturezaestligado.Tudoumagranderede,assimcomoonossocorpoumarededergosefunes.Aarticulaoemredeumaformadeorganizaoquepodeseconectarplanetariamente,ultrapassandoolimitedasinstituieseinclusiveadivisadosEstadosnacionais.

  • 16

    vAldemAr Arl

    concluso

    Amudanadecomportamentode todaasociedadeograndedesa-fio, colocandoasquestesambientais e sociais comoprioritrias.Ocampopossuiumpapelestratgicoedegrandeinfluncia,masneces-sita deumanovaproposta para sua sustentabilidade e sua inserosustentvelnodesenvolvimentoterritorial,destacando-seosseguintesdesafios:

    aressignificaoconceitualdedesenvolvimentoere-significaodopapeldocampodaagriculturafamiliar/camponesanodesenvolvi-mento;

    a reconstruodos sistemasde produoda agricultura familiar/camponesaeaincorporaodaAgroecologianosprocessosdecons-truodasustentabilidadedodesenvolvimento;

    aconstruoconceitualdaprpriaagroecologia;

    aformaoeaorganizaoparaasnecessriastransformaesideo-lgicasesociopolticas.

    Estcadavezmaisevidenteeurgenteanecessidadedeconversoagroecolgicanoconjuntodaagriculturafamiliar/camponesa.Imagina-seumprocessoondetodospossamseincluireavanar,realizandorupturasgraduaiscomopacoteagroqumicoeindustrialdarevoluoverde,bemcomocomalgicadedesenvolvimentoemvigor,semacriaodeumnovopacoteagoramaisverde.

    reFernciAs

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    AgroecologiA no PArAn: evoluo e desAFios

    antonio carlos picinattoEngenheiroAgrnomo,MestrandoemGeografiapelaUNIOESTE,campusdeFra-ciscoBeltro-PR,InstitutoMaytenusparaDesenvolvimentodaAgriculturaSus-tentvel.Toledo-PR|picinatto@maytenus.org.br

    BuscAndo um modelo sustentvel PArA A AgriculturA FAmiliAr

    Aagriculturanosentidodeculturapraticadanocampo,abrangendoastcnicasdeproduovegetaleanimalestemcontnuaevoluodesdeasuaorigematopresente.Suafaseinicial,denominadaTradicional,foiatropeladapelaproduoconvencional,comefeitosnefastosparaasus-tentabilidadenoqueserefereaosaspectosambientais,econmicoseso-ciais.Primavesi(1992)resumeosefeitosnocivosdaproduoconvencio-nalcomasseguintesfrases:

    Atecnologiaagrcolaconvencional,nomundointeiro,levaosmdiosepeque-nosagricultoresfalncia.Semsubsdios,aagriculturanosobrevive,graastecnologiaatual.umaagriculturanosustentvel:osgovernosseendivi-dam,osagricultoresvofalindo,ossolosseestragam,tornando-seimprodu-tivos,eosconsumidoressofremgraasaumaalimentaopouconutritiva,biologicamentedeficiente.[...]Oquetornaaagriculturaatualinvivelsoospreosdosinsumos.Nosltimosseisanos,desde1986,aagriculturabrasilei-ratrabalhounovermelho.oresultadodatecnologiaaltamentequmico-me-canizadaimplantadapelaRevoluoVerde.Desdeentoparecequeodesti-nodospequenosagricultoressoasfavelasdasgrandescidades.Pormexisteumachanceparaoagricultoreestademudaroenfoqueeatecnologia.

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    Emoposioestalgicaconsumidoradosrecursosnaturais,v-riospensadoressededicaramadesenvolvermodelosmaissustentveisparaaagricultura,queforampropostosemconformidadecomascarac-tersticasdecadapas,gerandodiversas tecnologias.Dentreestespen-sadorespodemoscitarRudolfSteiner,filsofoAustracoqueapartirdocursoagrcolapromovidopelasociedadeAntroposficanoanode1924emKoberwitz, criouomodelobiodinmico, fundamentadono slogan:Solosaudvelplantasaudvelanimalsaudvelserhumanosaudvelefeliz.OBotnicoeAgrnomoinglsSirAlbertHowardem1930desen-volveuapartirdeobservaesdaspraticasagrcolasdosagricultoresin-dianosaAgriculturaOrgnica,aqualconsideraqueafertilidadedosoloofatorprincipaldanoocorrnciadedoenasnasplantaseanimaisequenoumaquestodequantidadedeelementosqumicos,massimdadinmicadosolo.OpolticosuoHansPeterMuller,em1930desenvol-veuosfundamentosdaAgriculturaBiolgicacomvriaspropostas,den-treelasossistemasdedistribuiodiretaaosconsumidores.Em1935,MokitiOkadaeMasanobuFukuokanoJapodesenvolveramasbasesdaAgriculturaNatural,enfatizandoaeconomiadaenergiahumanaeorien-tandoparaastecnologiasquenoatrapalhamosprocessosdanatureza.AAgriculturaAlternativasurgiuenquantomovimentoem1970nosEs-tadosUnidos,devidoacrisedopetrleo,buscandotcnicasdeproduoquenodependessemdaenergiadele,oqueestimulouosurgimentodegrupos de Agricultura Alternativa nas Universidades do Brasil, contri-buindocomaformaodosagrnomosqueapiamatualmenteospro-jetosAgroecolgicos.APermaculturacriadaporBillMollisoneDavidHolmgrennaAustrliaem1970epropesistemasagrcolasauto-susten-tveisepermanentes.NaPermaculturaaagriculturaaartedecolherosol.AAgroecologiasurgeem1980comoagrnomoMiguelAltierenaUniversidadedaCalifrnia,oqualdefinesuabasecientificaapartirdeestudosdosmtodosdaAgriculturaTradicionaldoPerueMxico.NoBrasilosagrnomosJosLutzenbergereAnaMariaPrimavesicriaramaAgriculturaEcolgicacomaclebrefrasenobastaserorgnico,temqueserecolgico.Todosestesfilsofoscontribuemparaodesenvolvi-mentodeummodeloagrcolamaissustentvelqueoconvencionalim-plantadonoParan.AagriculturadenominadaAgroecolgicoouOrgni-caoresultadodasomatriadastecnologiaseconceitospropostosporvriosmodelosprovenientesdeoutrospases,somadoaoconhecimentodoagricultorparanaensedasvriasregies.Pode-senotarnasproprieda-desagrcolasumacertatendnciadeaplicaodefilosofiaetecnologiadevriasdestascorrentes,noentantooqueestemdesenvolvimentonoEstadodoParanemtermosdeagriculturasustentvelalgonovoequefuturamentepoderterumanovadenominaoqueexpresseoquereal-menteestsendoconstrudo.

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    o Processo de converso no estAdo do PArAn

    OEstadodoParanapartirdasiniciativasdaregioSudoesteconsidera-dopioneironocultivoeexportaodasojaorgnica,processoqueseini-ciouhaproximadamentedozeanosatrs,empropriedadesagrcolasquemantiveramalgumascaractersticas tradicionais, comtrabalhosexecuta-dospelafamliaeorientadospelasabedoriadosantepassadosagricultores,noqueserefereaosmtodosprodutivosparavegetaiseanimais.Estaspro-priedadespreconizadorasdaatualAgriculturaOrgnicaaindanotinhamsidototalmenteabsorvidaspelastecnologiasdaproduoconvencional.

    Atualmentepode-seobservar todaumaorganizaonaproduo,estruturadearmazenamentoelogsticadecomercializao,quetmper-mitidoaosprodutoresorgnicosagregaremvalorsoja.AexperinciadaAPOPAssociaodosProdutoresOrgnicosdeProladoOestedemons-trouqueacomercializaodasojaorgnicaaconteceucomvalordeUS$22,00asacanasafra2006/2007.

    A referida estrutura tem sidodesenvolvidapela iniciativaprivadaeporinvestidoresestrangeiros,destacando-seasempresasqueintegramprodutoresdasojaorgnica,comoaTerraPreservada,Agrorgnica,To-zan,GebanaeGama.Aagregaodevalornotriaesatisfatria,noen-tantoavisoestratgicanoslevaabuscartecnologiasobjetivandoaredu-onocustodeproduoparacompetirmosemnvelmundial.

    Aindanoqueserefereagregaodevalor,devemosconsideraraagroindustrializaodeprodutosorgnicos,aoinvsdesimplesmenteco-mercializarmosamatria-prima.OBrasildevevenderprodutosorgnicostransformados,porquealmdeagregarvalor,tornartilocidadobra-sileiro,queparticipardoprocessode transformaodamatria-prima.UmadasiniciativasdaempresaJasmineComrciodeProdutosAlimen-tciosLtda.comsedeemCuritibaequetemumalinhadeprodutosorg-nicos,comooacarmascavo,bebidadesoja,cookiesintegrais,chmate,farinhas,sojaearrozintegral,eoutrainiciativadedestaqueaproduodeovosorgnicospelaGralhaAzulAvcola,deFranciscoBeltro-PR.

    Outrasiniciativasempresariaissereferemproduodeinsumos,ocasodafbricadafamliaPegoraronomunicpiodeBoaVistadaApare-cida-PR,queelaboraosadubosorgnicospeletizados,etambmdafbri-cadeadubosFertiplandePlanalto,queteveimportncianofornecimentode insumosorgnicos certificadospela empresa IMOControl doBra-sil,commatriznaSua,ataproximadamenteoanode2004.Nassafras2005/06e2006/07aempresaquedistribuiufertilizantescertificadosfoiaEcossuperdePranchita.

    Estaevoluodomercadodeprodutosorgnicosqueestaconte-cendonoEstadodoParanoresultadodeumaconjunturainternacional.EstudosdeYussefi(2006)relatamqueoMxicoopascommaiornme-

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    rodepropriedadesorgnicas,totalizando120.000eoBrasilodcimoter-ceiropascom14.003.Emtermosdeporcentagemdereaagrcolaorgni-caoprimeiropasLiechtenstein(26,40%),eoBrasiloqinquagsimooitavocom0,34%.AAustrliaocupao1lugarnorankingdamaiorreaagrcolaorgnicacom12.126.633hectareseoBrasilestclassificadoemsextolugar,com887.637hectares.Pode-seterafalsaidiadequeomerca-dodeorgnicosirsaturar,noentanto,oqueimportaconhecereaceitarasnovastecnologiasqueestosendodifundidasnomundo,equepoderoreduzirocustodeproduo,pornopoluremesatisfazeremconsumido-resexigentesemtermosdequalidadenutricionaldosalimentos.

    NaAmricaLatina,ocrescimentodestemercadoestligadodema-neiramaisfortesculturasdeexportao.NoBrasil,aproduovisatam-bmaoabastecimentodomercadointerno,principalmentecomlegumeseverduras,utilizandodiferentescanaisdecomercializao(feiras,hospi-tais,cestasemdomiclio,lojasdeprodutosnaturais,supermercados).Asexportaesestomaisrestritasscommodities:soja,caf,acar,leodepalmaededend,entreoutras(FONSECA,1999).

    OapoiogovernamentalnaEuropafoifundamentalnaconstruodomercadoorgnico.Apartirdejulhode1991aregulamentaodanor-maUE2092/91daComunidadeEconmicaEuropia,quetratadaprodu-oecomercializaodeprodutosorgnicosnospasesdaComunidade,alicerouasbaseslegaisepossibilitouumaexpansodestecomrcionosdiversospases(HAMM,1997).

    Nospasesque tiverammaior crescimentodestemercado, comoaDinamarcaeaustria,opapeldaspolticaspblicasfoivoltado,principal-mente,paraumplanodemarketingeesclarecimentoaoconsumidor(2/3dossubsdios),paraaconversodosagricultores,odesenvolvimentodepes-quisaseacapacitaodostcnicos(1/3dossubsdios)(FONSECA,1999).

    ASECEXSecretariadeComrcioExteriordoMinistriodoDesen-volvimento,IndstriaeComrcioExterior(MDIC)divulgaramqueoBrasilexportounoperododeagostode2006ajaneirode2007maisde5,5mi-lhesemorgnicos,sendoosprincipaisitensoacar,amanteiga,ocaf,ocacaueasfrutasfrescasesecas.OscompradoresforamosEUAcom41,2%eaHolandacom29,5%seguidosdoCanad,JapoeReinoUnido.

    Nasafra2001/02oDepartamentodeEconomiaRuralDERALeaEmpresaParanaensedeExtensoRuralEMATERidentificaram3.475produtorescultivando12.991hectares,comproduode47.958toneladas,noEstadodoParan.

    SegundooCoordenadordeAgriculturaOrgnicadaEmater-PR,Ha-merschmidt(2007),oEstadodoParanapresentou4.138produtorescommdiade3,0hectaresporfamliaeproduototalde75.900toneladasnasafra2004/05.Asojachegoua5.772toneladasnasafra2004/05sendoex-portada98%paraaEuropa,siaeEstadosUnidos.Outrosprodutosde

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    destaquesooacarmascavotambmexportadoparaaEuropa,ashor-taliasefrutasquenasuamaioriasoparaconsumointernoealcanaram22.000toneladastambmnasafra2004/05,omilho,feijo,caf,plantasmedicinais,arroz,mandiocaetrigo.Hamerschmidt(2007) citaalgunspro-jetosnoEstadodoParan,sendo: PlodeAgroecologiadolitoraldoPara-nabrangendo320agricultores;projetoCultivandoguaBoa,nasregiesde Cascavel e Toledo com 225 agricultores; projeto orgnico daRegioMetropolitana deCuritiba com551 produtores; ParceirosOrgnicos doNoroeste,incluindoasregiesdeMaring,CampoMouro,UmuaramaeParanavacom500agricultoresdistribudosem23municpios;projetodefrutas,hortaliasegrosorgnicosdaregiodeUniodaVitriacom75produtores;projetoorgnicodegroseacarmascavodoSudoestecom678produtores;projetoorgnicodeacarMascavoecafdeSantoAnt-niodaPlatinacom228produtores;projetodecaforgnicodeLondrinacom39produtores;projetoAPOLAssociaodosProdutoresOrgnicosdaRegiodeLondrinaeCornlioProcpio,com178produtoresproduzin-dofrutasehortalias;projetodeplantasmedicinaisegrosdaregiodeGuarapuava,PontaGrossaeIraticom620produtores.

    Atualmenteaidiadoprocessodeconversodaproduoconven-cional para a AgriculturaOrgnica est disseminada em praticamentetodooEstadodoParan,comexcelenteaceitaodapopulaoemgeralecomenvolvimentodamaioriadasinstituiesqueatuamnaagricultu-raepecuria.

    quem est se tornAndo orgnico no estAdo do PArAn?

    No Sudoeste do Paran, na regio do PROCAXIAS podemos ilustrar osgruposdeagricultoresemconversoconformedadosdeMaytenus(2003),apresentandoas caractersticasdaAAOSLAssociaodosAgricultoresOrgnicosdeSaltodoLontra,quetemcomoprincipaisatividadesagrcolasocultivodasoja,cana-de-acar,mel,banana,citrus,pssego,leite,frango,amendoim,farinhademandioca,sunos,ovos,eofabricoderapadura,a-carmascavoequeijo.AreamdiadaspropriedadesdaAAOSLde14,46hectares,sendoamaiorpropriedadede45,60hectareseamenorcom0,5hectare.Osomatriodareatotaldaspropriedadesde327,29hectares.

    Nesteanode2007,motivadapelaforteidiadaorganizaoterrito-rial,odestaqueaAPROSUDOESTE CentraldeAssociaesdeproduto-resOrgnicosdoSudoestedoParan,aqualfoiconstitudanoanode2006por5associaesdeagricultoresorgnicos,sendoaAPOPAssociaodeProdutoresOrgnicosdeProlaDoOeste,APROVIDAAssociaodePro-dutoresOrgnicosdePatoBranco,APROPALAssociaodeProdutoresOrgnicosdePalmas,ECOFLORAssociaodeProdutoresOrgnicosdeFlordaSerradoSuleAPROSANTOAssociaodeProdutoresOrgnicos

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    deSantoAntoniodoSudoeste.Cadaumadasassociaesdestaca-sepelosseusprodutos,sendo:ProladoOeste(soja);SantoAntoniodoSudoeste(hortalias,sojaeacarmascavo);Palmas(hortaliascomdestaqueparaomorango); ePatoBranco (hortalias, cachaa)eFlordaSerradoSul(plantasmedicinais,comdestaqueparacapim limo).OsdocumentosdecontroleinternodaAPROSUDOESTEparafinsdecertificaocomaEcocertapresentam71propriedadescommdiade9hectares,eprodu-ototalestimadade2.764,32toneladasparamercadonacionale inter-nacional, conforme as legislaes daComunidadeEconmicaEuropia(UE2092/91),EstadosUnidos(NOP)eJapo(JAS).AAPROSUDOESTEresultadodeumprojetorealizadopeloSEBRAEdePatoBranco,InstitutoMaytenus, Fruns deDesenvolvimentoLocal,Ministrio doDesenvolvi-mentoAgrrio(SAF)eSecretariasdeAgriculturadasprefeiturasdosmu-nicpios,dentreoutrosapoiadores.

    AsorganizaesdeagricultoresorgnicoseagroecolgicosnoSu-doestedoParanregrageralforampreconizadasporprojetos,dentreeles:1. Fortalecimento e Ampliao de aes emAgroecologia eDesenvolvi-mento local/regionalSustentvelnaregioSudoestedoParan(ASSES-SOAR/MDA);2.Apoioaprojetosde infra-estruturaemterritriosrurais(RedeEcovida/prefeituraItapejaradoOeste/MDA);3.Projetodecapaci-taodeagricultoresecolgicos(RedeEcovida/MDA);4.FortalecimentodoCapitalSocialdasAssociaesdeAgricultoresOrgnicosdoSudoestedoParan(InstitutoMaytenus/MDA);5.Agroindustrializaodeuvaagro-ecolgicaparasuco(GrupodetrabalhoagroindstriaterritrioSudoestedoParan/MDA);6.ProjetodeEstruturaodasOrganizaesSindicaisdeClasse(ProjetoTerritrioSudoeste/MDA);7.Projetoparaimplantaodeunidadederecepo,beneficiamentoearmazenagemdegrosorgni-cos(ProjetoTerritriodoSudoestedoParanCAMDUL/MDA);8.ProjetodeInclusoSocialeBiodiversidade(Cooperiguau/OngTriasdaBlgicaeMDA);9.ProjetoFOMEZEROCompraDiretaLocaldaAgriculturaFamiliar(AssociaesAgricultores/GovernoFederaleEstadual/Convnio058/2003MESA);10.ProgramadeAgriculturaOrgnica (SEBRAE-PRPatoBranco);11.AgrotransformaoecomercializaodeProdutosOr-gnicosnoProCaxias(SEBRAE-PRCascavel)etc.

    Outraevoluoimportantenoqueserefereaodesenvolvimentosus-tentvelapartirdaAgroecologiaosurgimentodesistemadecertificao,ocasodaRedeEcovida.

    Segundo Rebelatto (2005) o Ncleo Sudoeste da Rede Ecovida constitudopor15gruposeassociaes,totalizando150famlias.NoEsta-dodoParanso84gruposouassociaese741famlias.

    ConformeentrevistaRedeEcovidaemoutubrode2005onmerodefamliasassociadaserade166,sendoqueasltimasduasassociaesforamdosmunicpiosdeFlordaSerradoSuleClevelndia.

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    Considerandoos42municpiosdoSudoestedoParanoestudode-nominadoDiagnsticodasIniciativasdeAgriculturaOrgnicaeAgroeco-lgicanoSudoestedoParanidentificou31organizaesdeagricultoresdenominadasAssociaes,CooperativaseGruposinformaisdeagriculto-resorgnicoseagroecolgicos.Onmerodefamliasquefazempartedes-tasorganizaesequeestoreconhecidasporcertificadorasouquesolici-taramacertificaode284.Estasfamliasproduzemdiversasculturas,comalgumasinovaescomo,porexemplo,ocultivodeplantasmedici-naisemFlordaSerradoSul.

    A evoluoque est ocorrendonoSudoestedoParannoque sereferesorganizaesdeagricultoresfamiliares(incluindoosorgnicoseagroecolgicos)ocooperativismodaAgriculturaFamiliar,denomina-dodeCOOPAFISistemadeCooperativasdaAgriculturaFamiliar,oqualcontemplaacomercializaoapartirdepontosfixosdevendadosprodu-tosdaAgriculturaFamiliarOrgnicaeAgroecolgica.

    Algumas iniciativasdeprodutoresorgnicosqueno fazempartedeorganizaesdeagricultoresorgnicosouagroecolgicosforamidenti-ficadasnosmunicpiosdeChopinzinho,ClevelndiaePalmas,sendoquenomunicpiodeChopinzinhoaproduocertificadadeerva-mateenosdemaismunicpios,principalmentedesojaorgnicacertificada.AlgumasdestasiniciativasdeprodutoresindividuaissedestacamdevidoaocultivodecereaisorgnicosemreasmaioresqueAgricultoresFamiliaresvincu-ladosaoassociativismo.NoqueserefereproduodesojaorgnicanosmunicpiosdoSudoestedoParan,conformecomercializaoporempre-sasintegrantesdassafras2001a2005,identificou-se22comcomercializa-odesojaorgnicacertificadanesteperodo.Acontagemdonmerodeprodutoresrevelouquenasafrade2001/2002,407agricultorescomercia-lizaramsojaorgnicaporempresasintegradoras;nasafrade2002/2003,373;nasafrade2003/2004,333enasafrade2004/2005,263.Estareduonacomercializaodoprodutopossivelmentefoiemfunodeestiagem.

    Areadeproduodesojaorgnicadosagricultoresquecomerciali-zaramdeformaintegradacomasempresasdeexportaodoSudoestedoParan,nasafra2001/2002foide2.308hectares;nasafra2002/2003,2.318hectares;safra2003/2004de1.778nasafra2004/2005de1.988hectares.

    Ototalcomercializadonasafrade2001/2002foide4.110toneladas;nade2002/2003de4.612;nade2003/2004de3.042enasafra2004/2005de3.684toneladas.

    Quantosojaorgnicaaindaimportanteenfatizarqueonmerodeagricultores,areacultivadaeototaldeproduosereferemquelesagricultoresquecomercializaramcomasempresasintegradoras,logoes-tesnmeros,possivelmentesomaioresumavezqueexistemagricultoresquepodemtercomercializadosojaorgnica,poroutraslogsticasdeco-mercializao.

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    Identificou-seem13municpios14pontosdecomercializaodealimentosorgnicoseagroecolgicoscoordenados(oucomparticipao)poragricultoresfamiliaresnoSudoestedoParan,sendoqueemalgunscasossoexclusivamentedealimentosorgnicoseagroecolgicos.

    OcrditoruralparaaAgriculturaOrgnicaeAgroecolgicafoiiden-tificadoemduasorganizaes.ACRESOLBASERCooperativaCentraldeCrditoRuralcomInteraoSolidria,lanounoanode2005umali-nhadeCrditoRuralOrgnico/Agroecolgicoparacusteioeinvestimentoscomrecursos prprioseaempresaAgrorgnicaemparceriacomoIBDInstitutoBiodinmico,disponibilizouaosseusintegradosocrditoruralBancodoBrasilAgriculturaOrgnica.

    EstestiposdeagriculturaestoemexpansonoSudoestedoPara-n,fortementeapoiadospelosprincpiosdodesenvolvimentosustentvel,queporsuavezapoiadopelaSDT/MDASecretariadeDesenvolvimentoTerritorialdoMinistriodoDesenvolvimentoAgrrio.

    DevidoaestaevoluopodemosafirmarqueaAgriculturaFamiliarapartirdaAgroecologiaedaagriculturaOrgnicaopresenteeofuturodoSudoestedoParan.

    Na regioOestedo estado,nomunicpiodePalotina, o tamanhomdiodaspropriedadesdosassociadosdaAPOPAssociaodosProdu-toresOrgnicosdePalotinade37,77hectares,totalizando757hectaresdereaagrcola.Noentanto,amdianorepresentativadamaioria,poisumadaspropriedadespossui408,3hectaresenquantoamenor,apenas1,7hectares.Classificando-seporreaas21propriedadesdosassociadosdaAPOP,teremosodescritonoquadroaseguir:

    Quadro 1 Caractersticas gerais da APOP - Associao dos Produtores Orgnicos de Palotina-Pr - 2003

    Classes - hectares

    Tamanho das reas hectares Atividades

    0 -10 2,9; 7,4; 7,3; 1,7; 3,63; 4,8Hortalias, leite, milho, cana-de-acar(cachaa), mandioca

    10-20 12,8; 15,5; 12,1; 12,1 Soja, leite, cana-de-acar (melado e doces),

    20-30 24,2; 27,0; 20,5; 25,4; 25,5;24,2 Soja, milho, leite, sunos, aves, caf, trigo, pastagem,

    30-40 36,2; 37,5; 35,8 Soja, milho, pastagem, trigo, sunos, uva, mandioca

    Acima de 40 48,4; 408,3 Soja, milho, leite, ovos, peixes, hortalias, trigo

    AAssociaoSoJooBatistadomunicpiodeIracemadoOestecom14scios,temoseuprojetodirecionadoparaocaf,atividadeagrco-laondeamaioriaatua.Enquantoatividadestambmpodemoscitarasoja,milho,avicultura,hortalias,bovinosdecorte,vassoura,pastagensetrigo.Amdiadaspropriedadespossui20,64hectares,sendotrezepropriedades

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    menoresque30hectareseapenasumacom181,50hectares.Amenorpro-priedadeparaestaassociaode6,3hectares.

    OutraAssociaodescritaparacaracterizaropblicoqueest seconvertendoparaaAgriculturaOrgnicanoOesteparanaense,adeAssisChateaubriand,denominadaAPOACAssociaodeProdutoresOrgni-cosdeAssisChateaubriand,naqualestoassociados13agricultores,comreasentre2,50a29,04hectarestendocomoprincipaisatividadesagrco-las:soja,milho,arroz,batatadoce,bovinosdeleite,mandioca,caf,frutasctricas,caqui,frangos,cana-de-acarparacachaaehortalias.

    OsurgimentodosprojetosdeAgriculturaOrgnicanoOestedoPa-ran forammais evidentes apartir de2000, sendoquenoanode2007observou-seaorganizaoterritorialdaAPOMOPAssociaodosPro-dutoresOrgnicosdoMdioOestedoParan,abrangendoosmunicpiosdePalotina,AssisChateaubriand,FormosadoOeste,NovaAurora,Jesu-tas e IracemadoOeste.NaAPOMOP51agricultores soprodutoresdecaforgnicocertificadospeloIBDInstitutoBiodinmico.SuamarcaaORGANIVIDAeasuaestratgiaprincipalavendadiretaaoconsumi-dor,com15feiras.Acomercializaointernacionaltambmumobjetivo,sendoquenoanode2007participoudaFeiraBioFAchemNurenberguer,Alemanha.Almdocafestaassociaotambmproduzsojaorgnica.Aorganizaoterritorialpermiteoestabelecimentodeparcerias,sendoqueacooperativaCOPACOLestinseridanoprocesso.

    OutraatividadeemplenodesenvolvimentonoEstadodoParanaproduodealgodoorgnico.ApartirdaparceriaentreMAYTENUS,CoexisPesquisaeDesenvolvimento,Ematereprefeituras,desenvolveu-seatecnologiaeaconseqenteproduodoprodutonosmunicpiosdeCru-zeirodoOeste,Prola,Altnia,SoJorgedoPatrocnio,EsperanaNova,FranciscoAlves,SoJosdasPalmeiraseDiamantedoOeste.Ototaldehectarescultivadosde21,comparticipaode24famlias.Aprodutivi-dade,considerandotodasaspropriedades,estemtornode1.600kg/ha,sendoquemenornossolosdearenito.AcomercializaofoicontratadacomaempresaYDConfecescomsedenacidadedeSoPaulo,comva-lores30%acimadomaiorpreodemercadoouacimadopreomnimo,valendooquefossemaior.Atecnologiautilizadapropiciouacertificaoparaprodutosorgnicosdestinadosaomercadonacional,europeuenorte-americano,feitaatualmentepeloIBDInstitutoBiodinmico.

    NoNortedoParan,naregionaldeLondrina,considerandoosmu-nicpiosdeKalor,MarilndiadoSul,RosriodoIvaeBorrazpolis,fo-ramcadastradasparaefeitodecertificaonoanode2003peloInstitutoMaytenus,51propriedadestotalizando1.102,81hectares,dosquais434,56hectaresestoemprocessodeconverso.Paraestaregioamdiadaspro-priedadesdosparticipantesdosgruposdeagricultoresorgnicosficaem21,62hectares.AindanoNortedoestado,considerandoosmunicpiosde

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    Guapirama,ConselheiroMairinck, JundiadoSuleRibeirodoPinhal,foramcadastradasparaefeitodecertificao54propriedades,totalizando3.052,27hectares,dosquais1.383,80estoemprocessodeconverso.Des-taformaotamanhomdiodaspropriedadesdosgruposdeorgnicosparaaregioacimadescritade56,52hectares.

    ConsiderandoumaclassificaomaisdefinidametodologicamenteporDarolt(2002),ondeseusestudosdefiniramdoisgrandesgruposdis-tintos,pode-sedizerqueosagricultoresemprocessodeconversocorres-pondemaosgruposdenominadosdeAgricultorFamiliaremTransioeAgricultorFamiliarOrgnico.ConformeaclassificaodeDarolt(2003)oprimeirograndegrupoconstitudopelostiposdenominadosdeAgricul-torFamiliarOrgnicoeporAgricultorFamiliaremTransio,amboscomlgicasfamiliares,ecorrespondema90%dasamostras.Osegundogran-degrupotemlgicasempresariasedenominadodeEmpresrioAgrco-laOrgnicoeEmpresrioAgrcolaemTransio,ecorrespondeaapenas10%daamostra.

    Osmotivosquesomaisexplicitadosporestesagricultoresqueen-tramnomovimentodaAgriculturaOrgnicaouagroecolgicasoaintoxica-oporagrotxicoseainviabilidadeeconmicadaproduoconvencional.

    desAFios

    Promoveraevoluo doserhumanoparapropiciaroentendimentoquan-toaosmalefciosprovocadospelos insumosagrcolasconvencionaiseanecessidadedeutilizaoracionaldosrecursosnaturaisomaiordesafiodaagriculturaagroecolgica.AsassociaesvinculadasAPROSUDOES-TEpromovemjantaresorgnicostodososanosobjetivandoaformaodeconsumidores,sendodestaqueaAPROVIDAdePatoBranco,querecebeuaproximadamente500pessoasno jantarpromovidoem2006,duranteoeventodaExpopato.Quandoapopulaodescobreacontaminaoexis-tentenosseusalimentoscomeaaapoiaraAgroecologia.OrelatriodoProgramadeAnlisedeResduosdeAgrotxicosemAlimentosnoEsta-dodoParan,SecretariadeEstadodaSadedoanode2003apontaparaacontaminaodealimentosutilizadosdiariamente.Deumtotalde407amostras,55,3%apresentaramresduosdeagrotxicos,comdestaqueparatomate,maemorangoosatingindoopercentualde90%.Das225amos-trascontaminadas,118(65%)apresentaramagrotxicosnoautorizadosparaaculturae45%apresentaramresduosacimadosvalorespermitidospelalegislaovigente.Ototaldeprincpiosativosdetectadosfoide21.

    OrelatrioorientaparaocancelamentodoregistrodoEndossul-faneDicofolporquenaclassificaointernacional(IUPACInternationUnionofPureandAppliedChemistry)sodogrupoqumicodosorgano-clorados,osquaisforamproibidosnamaioriadospases,bemcomoorien-

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    taparaareavaliaodosditiocarbamatosdadasasincertezasquantoaosriscossadehumanaeambiental.

    ParaosagricultoresfamiliaresqueproduzemsojaorgnicanoSu-doestedoParan,segundodilogocomaAPOPAssociaodeProdu-toresOrgnicosdeProladoOeste-PR,odesafiomaioraestruturadearmazenamento,quepropiciariaarealizaodecomercializaodireta-mente comas empresasquedistribuemprodutosorgnicosnaEuropa.Atualmenteestacomercializaoacontecepormeiodeempresasqueinte-gramagricultores,ouqueestabelecemcontratosantecipados.

    Outrodesafioparapromoveraagregaodovaloratransformaodamatria-primaaquinoBrasil,preferencialmentecomagroindstriasnascomunidadesruraisecomgestorealizadapelosprpriosagricultoresfamiliares.Estedesafiogrande,umavez,quequandosecomparaatec-nologiabrasileiraemrelaoadospasesimportadores,evidenteane-cessidadedaimportaodestastecnologiasparaquepossamosapresentaroprodutoacabadoconformeaexignciadapopulaoconsumidora.

    Algumasatividadesagrcolasagroecolgicasaindanoforamreco-nhecidas.Umexemploaproduodo leiteagroecolgico,paraoqualnoh laticnios exclusivos que o processe e embale.Ento acontece amisturadoleiteconvencional,comoorgnico.Naspropriedadesorgni-cas,devidoaodesenvolvimentodeumsistemaapropriado,observa-sequeomanejodosanimais,aalimentao,eosmedicamentosutilizadoscor-respondemlegislaoparaorgnicos,sendoomotivadorparaaadoodesta tecnologia a reduono custodeproduo.SegundoKhatounian(2001)aspastagenssopulverizadaspelo2,4-D,principalprincpioativodoagente laranjae causadorda focomielia, anomaliaobservadaapsoataquedosEstadosUnidoscontraoVietn,nosfilhosdesoldadosnorte-americanosevietnamitas.

    Afaltadeproduodesementesconformeasnecessidadesdaagro-ecologiatemsedemonstradoumfatordereduodaeficciadosmtodosdeconversodepropriedadesconvencionaisparasistemasagrcolasagro-ecolgicos.Oscultivostmsidopraticadoscomsementesconvencionais,poisempocasdesecaosagricultoresnoconseguemproduzirsemen-tesorgnicasemquantidadesuficienteparafazeremnovoscultivos,bemcomoalgumasregiesnosopropciasproduodesementesdevidocondiesclimticas.

    Aspropriedadesagroecolgicassoconstantementevtimasdefato-resexternos,porexemplo,aderivadeagrotxicosdeoutraslavouras;emcasosmaisgravesatporpulverizaesareas,fatorqueobrigaaimplan-taodebarreirasvegetadas.Nestecasoodesafiomaiortornarobriga-triaapenalizaodaquelequeutilizaoagrotxico,logo,elequedeveimplantarbarreirasvegetadas,nosimplesmenteporcontaminaraprodu-oagroecolgica,massim,porcausarcontaminaesgeneralizadasno

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    ambiente.Pessoasquetrafegamnasrodoviasficamsubmetidasconstante-menteaosagrotxicos,bemcomoagrandemaioriadaspessoasqueestoprximasdereasprodutivasconvencionais.

    Assementestransgnicas,principalmenteasdesoja,tmprovoca-docontaminaoemlavourasorgnicas,oquecondenaosgroscolhidos,quetmquesercomercializadoscomclassificaodeconvencional,almdeprovocaremaumentonoscustosdeproduodevidoobrigatoriedadedeanliseparatransgenanassementesenosgroscolhidos.Apossibili-dadedemisturadegrostransgnicos,convencionaiscomosagroecolgi-costambmumaagravante,umavezqueasestruturasdearmazenamen-toaindasoescassas.

    Umaestruturaodesistemadecomercializaoquepermitaaven-dadiretaaosconsumidoresefluxodeprodutosentreregiespromoveracomercializao.Algocompoucaintensidadejexiste,porexemplo,ocaforgnicoproduzidoemJesutas-PR,quecomercializadonoSudoestedoParancomamarcaOrganividadaAPOMOPAssociaodosProdutoresOrgnicosdoMdioOestedoParan.

    Os sistemas agroecolgicos dependem do nitrognio atmosfrico,quefixadoporplantasdafamliadasleguminosasemsimbiosecombac-triasdogneroRhizobium,logo,adisponibilizaodesementesdeesp-cieseficazesparaafixaobiolgicadonitrognio,bemcomoaidentifica-odeespciesnativaseintroduodeespciesexticassofundamentaisemtodasasregiesdoParan.NestesentidooIAPARInstitutoAgron-micodoParanapoiadopororganizaesregionaisfazumtrabalhores-peitvel.

    Educaoparaoassociativismoecooperativismoenoparaacom-petio, umgrandedesafio, pois existe anecessidadede formaodeassociaesecooperativasdeconsumidores,deprodutores,detcnicos,dentreoutras formasdeorganizaoquecontribuiroparaasuperaodosobstculos.

    Fortaleceradistribuiode insumos, facilitandoa transioparaumanovabasetecnolgicacrucialedesafiador.Aevoluoqueestocor-rendonoSudoestedoParannoquesereferesorganizaesdeagricul-toresfamiliaresequeestincluindoosorgnicoseagroecolgicosoco-operativismodaAgriculturaFamiliar,denominadodeCOOPAFISistemadeCooperativasdaAgriculturaFamiliar,oqualcontemplaadistribuiodeinsumoseacomercializaoapartirdepontosfixosdevendadospro-dutosdaAgriculturaFamiliarOrgnicaeAgroecolgica.

    Produzirsemdestruirosrecursosnaturaisagrandequesto.Ade-pendnciadaproduoconvencionalemrelaoaopetrleoparaaprodu-odeinsumosumdosfatoresqueatornainsustentvel.

    Universidadesdesenvolvendopesquisase fundamentandocientifi-camenteastecnologiashojepraticadasnaspropriedadesagroecolgicas

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    Antonio cArlos PicinAtto

    indispensvelparaaevoluodaAgroecologia,poisdesenvolverumabasecientficaodesafiomaiorpropostoporAltieri(1989).

    Apreservaodaguaevitandoasuacontaminaoporagrotxicosessencial,umavezqueseissoacontece,aproduoorgnicainviabilizada.Linarth(2000)narevistadoCrea/PR,anunciouquenoanode1999foramuti-lizadasnoestado42.548toneladasdeagrotxicos,sendo62%herbicidas.

    Naspalavrascitadasnarevistatemos:

    Profissionaisdasadealertamsempreparaapossibilidadededoenasde-generativascrnicas,decorrentesdaabsorocontinuadadedosesdeagro-txicos,insuficientesparadeterminarintoxicaesagudas,mascapazesdecausar efeitos cumulativos, provocando inflamaes e afeces nos rins,doenasnervosasretardadas,problemasnofgado,tumoresmalignos.

    AcontaminaodosriosdoParaneaimportnciadosprojetosdeAgriculturaOrgnicaeAgroecolgicaficamaindamaisevidentesquandoseanalisaumestudo realizadopelaSUREHMASuperintendnciadosRecursosHdricoseMeioAmbientedoParancitadoporBull (1986)oqualrelataapresenadeBHC,DDT,ALDRINeHEPTACLOROnasba-ciasdosriosIguau,Piquiri,Iva,Tibagi,Cinza,ParanapanemaePirapora.Neleforamcoletadas1.825amostrasdosriosparanaensese84%delases-tavamcontaminadas,geralmenteporvriosprincpiosativos.78%depoisdetratadasaindacontinuaramapresentandoresduos.Esteestudomostraque,osriosdoestadodoParanestosendosucateados,representandoumgranderiscoparaaspopulaesurbanasquevoconsumindodosescumulativas,nosnasuacomida,mastambmnaguaquebebem.

    Andreoli(1998)divulgouestudosrelatandoqueoEstadodoParanutilizamaisde400 ingredientesativosdistribudosemaproximadamente700marcascomerciais,equeaportaria36/BsbdoMinistriodaSade,quevigoranoBrasil,estobsoleta,poisdentreos20ingredientesdefinidoscomoindicadores,somenteoEndosulfanencontra-seentreos5maisutilizadosnaagriculturaatualmente.Emresumo,alegislaoestorientandoparaaan-lisedaguaembuscadeingredientesativosquenomaissoutilizadosnaagriculturaenquantoosmaisaplicadoshojenosoprevistoporlei.

    Arecuperaodafloraregionalpropiciandoaproliferaodeami-gosnaturais,ouseja,aquelesseresvivosquecombatemasdenominadaspragasagrcolas,tambmumobjetivoaseralcanado.UmexemploogrupodosTrichogrammas,pequenasvespasqueparasitamovosdalagarta-do-cartuchodomilho.

    Osdesafiossomuitosesubmetemosagricultoresagroecolgicoseorgnicosseverasdificuldades.Quandoestesforementendidoscomodesafiosdetodaapopulao,suaspossibilidadesdesuperaoaumenta-ro.AAgriculturaAgroecolgicaouOrgnicasomenteestevoluindonamedidaemqueaspessoasemgeralaassumemenquantoumaestratgiadepromoveraqualidadedevidaeodesenvolvimentosustentvel.

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    reFernciAs

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    AgroecologiA: o desenvolvimento no sudoeste do PArAn

    nilton luiz fritzEngenheiroAgrnomo,InstitutoEmaterFranciscoBeltroPR|niltonfritz@emater.pr.gov.br

    ApresentaremosumrelatodasatividadesdesenvolvidaspeloInstitutoEmatereparcerias(aesqueforampossveisapurar),histricodeusodosolonare-gio,enfatizandoopreps-perodoconhecidocomorevoluoverde,comdepoimentosdeagricultoresetcnicosquevivenciaramesteperodo.

    Acreditamosseremoportunososdepoimentosdeagricultoreselide-ranasdaagriculturafamiliarapresentados,aosquaisagradecemospelaatenodisponibilizada, que, cremos,muito contribuiroparaodebatesobreodesenvolvimentodaproduoecolgicaporapresentaremsuaper-cepo,desafioseperspectivasparaoSudoesteeparaoParan.

    OagradecimentotambmseextendeaosgerentesregionaisdoInstitutoEmaterdeFranciscoBeltro(SimoFloreseanterioresSrgioCarnieleCarlosAlbertoWstdaSilva)edePatoBranco(IlrioCaglioni),quepossibilitaramocrescimentodogrupodediscussodostcnicosenvolvidosnaequipedeagri-culturaorgnicaeaoscolegasdoEmater,que,emseusmunicpiosdeatuao,buscaramreverahistriadaproduodesenvolvidavivenciandotambmestabuscadeumaagriculturamaissaudvelecomsustentabilidade.

    o sudoeste hoje

    AproduoecolgicatemnoSudoesteumsolofrtilparaseudesenvolvi-mento,considerandoquesuapopulaotemumaforteidentidadecomaagricultura.Oprocessodediversificaodasatividadesagrcolas,basea-

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    dasemmilho,soja,fruticultura,olericultura,agroindstria,criaodesu-nos,avesebovinosdeleite,caractersticasdesejvel,aliadoestruturafundiriacompostaporpequenaspropriedadescomsupremaciaabsolutadaagriculturafamiliar.

    As condies edafoclimticas (solo-clima), fauna e flora apresen-tam-seequilibradas,oquenecessrioparaodesenvolvimentodaprodu-oecolgica.Almdisso,oSudoeste,considerandodePalmasaCapane-ma,apresentagrandevariaodeclima,possibilitandoaproduodeumelevadonmerodeespciesdefrutas,olercolas,desdequesejampoten-cializadososmicroclimasexistentes.

    Presenciamostambmnaregio,umaquedadarendadaspeque-naspropriedadesnosltimosanos,motivadapelamaiorcompetiodomercadointernoeexterno,naproduoprincipalmentedegros,desesti-mulandoocultivotradicionaldeprodutos.Nesteaspectoapareceaprodu-oecolgicacomoumaalternativavivel,emfunodaampliaodes-sesdoismercados,possibilitandoumaproduoquenecessariamentesejaeconomicamentevivel,socialmentejustaeecologicamentecorreta.

    OSudoestedoParanapresentafortecomponentedemudanasparaatividadesqueagregammaisvalorequeresultamemmaiorincrementoderendaporreaproduzida,entreelasagroindstria,agroecologiaeleite.

    Neste item encontra-se a agroecologia, que tem apresentado umespaocrescenteentreasdiscussesdasopesdealternativaspossveisparaosagricultoresfamiliares.

    Aregiotemumamarcamuitofortedelutaedeconquistapelater-ra,datadade1957,conhecidacomoARevoltadosPosseiros,comosendoumespelhodaobstinaoedaperseveranapelaconquistadosdireitos.Oterritrioconstitui-sedeummovimentosindicalrural,quepossuiumaposturaemdefesadeumaagriculturasustentvelemenosdependentedeinsumosexternospropriedade.

    Estasnuanascaracterizamsolofrtilparaotrabalhocomagro-ecologia.

    AbramovayeoutrosconsideramqueoSudoesteparanaense,regiobrasileiradecolonizaoeuropiaolocalemquealutapelofortaleci-mentodaagriculturafamiliaradquirehoje,talvez,amaiordensidade,secomparadoaorestantedopas.aqueseoriginamnospartesignifica-tivadosquadrosdosmaisimportantesmovimentossociaisdomeioruralbrasileiro,mastambmasexperinciasmaisinovadorascomooSistemaCresol de crdito solidrio (BITTENCOURT; ABRAMOVAY, 2001; JUN-QUEIRA;ABRAMOVAY,2005;SCHRDER,2005)ouascooperativasdeleiteformadasmaisrecentemente(MAGALHES,2005).

    Paraquemviveerespiraconstantementenestecho,pode-seproje-tarumespaoque,embreve,deverserocupadopeloSistemaCOOPAFI(CooperativadaAgriculturaFamiliar)paraacomercializaodeprodutos

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    nilton luiz Fritz

    daagriculturafamiliar,comenfoqueespecialparaaquelesprodutosdeori-gemecolgica,lacunajpreenchidanosetordecrditoecomercializaodoleitedaagriculturafamiliar.

    A AtuAo do instituto emAter

    NaregioSudoeste,considerandoasregiesadministrativasdeFranciscoBel-troedePatoBranco,oEmaterpossui17tcnicos(maiode2007)comatua-o emagriculturaorgnicanosmunicpios comaumento considervel dereasedenovosagricultoresqueestooptandoporestesistemadeproduo.

    OInstitutoEmaterumaestruturadeextensoruralvinculada SEAB, desenvolve os programas do governo do estado do Paran edogovernofederal,bemcomointerageterritorialmentecomparcerias,para desenvolver projetos locais/regionais. Tambm presta trabalhos,considerandosuacapilaridadeporestarestruturadoemtodososmuni-cpios,contandocomoapoiodosagricultoresedesuasorganizaes,dasprefeiturasedasdemaisentidadesquepossuemtrabalhonosetor.Trata-sedetrabalhosparaviabilizaraagriculturafamiliardemaneirasustentvel,produzindoalimentosmaissaudveis,preservandoomeioambiente,semprearticuladoscomosdemaisprocessoseprogramasde-senvolvidosnaregio.

    Como objetivo geral,otrabalhodoInstitutoEmaterbuscaame-lhoriadaqualidadedevidadapopulaoruraleurbanaatravsdaofertadealimentosbiolgicossadios,acessveispopulao,isentosdeagentesprejudiciaisaoorganismohumano,visandoconservaoerecuperaodoambiente,comsustentabilidade(ambiental,social,culturaleeconmi-ca),tendocomobaseofortalecimentodaagriculturafamiliar.

    incio dA AgroecologiA nA regio

    Nadcadade1970,perodoemqueasgarrasdarevoluoverdesefize-ramsentirmuitofortesnaregio,estemodelocomeouaserquestionado,comproposiesdealternativasaele.Teveumpapelmuitoforteotraba-lhodaONGAssesoar,aindanadcadade1970.AAcarpa/Emater,nadca-dade1980,teveumtrabalhocomnfaseemadubaoverdeeadubaoorgnica,introduodeanimaisrsticos,produodesementesvariadasetrabalhodeextensoatravsdaorganizaodascomunidadespartindodesuarealidadeenecessidades.

    Em21e22de junhode1985ocorreuoIEncontrodeAlternati-vasparaaPequenaPropriedadeemFranciscoBeltro,numainiciativadaAssociaodosEngenheirosAgrnomoseparcerias.Naoportunidadeforam apresentadas tecnologias adequadas realidade da regio, assimcomoexperinciassustentveispelosagricultoreseapontadasaspolticas

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    quedeveriamnortearaagricultura.Nesteevento,quetevecunhoregional,reuniram-semaisde240tcnicoseagricultores.

    Nadcadade1990,ostrabalhosdeagriculturaorgnicaseintensifi-caramapartirde94/95,comproduodesojanaregiodeCapanema;noanode1997,comaolericulturaefruticulturaclimatemperadoemFrancis-coBeltroefruticulturatropicalemCapanemaeCruzeirodoIguau;apar-tirdoano2000comeouotrabalhoatravsdoprojetoPr-Caxias,envolven-doosmunicpiosdeNovaPratadoIguau,CruzeirodoIguau,SoJorgedoOesteeSaltodoLontra,naproduodeolericulturaefruticulturatropical.

    Atualmente so as seguintes entidades/empresas/associaes queatuamemagriculturaorgnica:Emater,Assesoar,SecretariasMunicipaisdeAgricultura,SindicatosdosTrabalhadoresRurais,Coopafi,Agrorgnica,Capa,TerraSolidria,RedeEcovida,Claf(Sisclaf),Cresol,InstitutoMayte-nus,Senar,Sebrae,ProjetoPr-Caxias,ProjetoVidanaRoa,CasasFamilia-resRurais,EmpresaGralhaAzul,Gebana,Tozan,ColgioAgrcola,UTFPR,Unioeste,IAPAR,EmbrapaevriasAssociaesdeAgricultoresEcolgicos.

    Asreasdeproduoorgnicagradativamenteestoocupandoes-paoemtodososmunicpiosdaregio,sendoumaperspectivaimportantequeajudarnodesenvolvimentodaagriculturafamiliar,compreocupaoemrelaosustentabilidadeambiental,social,culturaleeconmica.

    A colonizAo do sudoeste e A extenso rurAl

    o cenrio dA dcAdA de 1970 e A AgriculTurA A pArTir do depoimenTo de um AgriculTor

    Relatamos aqui, o depoimento deWilmarSalsioVandresen, agricultore atual presidente daCresol deFranciscoBeltro.Nascido em1952nomunicpiodeTubaro(SC),suafamliasemudounoreferidoanoparaacomunidadedeLinhaListon, interiordeFranciscoBeltro.Wilmartemconhecimentodamudanaqueocorreunaagricultura,pois,quando jo-vem,vivenciouoperodoanteriorrevoluoverdee,naseqncia,pas-soupelasmudanasqueonovomodelotecnolgicopropunha.

    Comrelaoaoanode1969,Wilmarrelataqueparticipoudetraba-lhosconduzidospelaAcarpa/Emater,formandooClube4S,nacomunida-deLinhaListon,do qual fui o primeiro presidente e foi realizado diversos cursos, de como fazer curvas de nvel, curso de liderana, como fazer uma reunio, experimento com uso de calcrio e outros.

    Noanode1975,afamliaVandresenpossua13alqueiresdeterras,sendo8comlavourasqueerampreparadascomarao,gradagemcomtraoanimaleposteriormenteerarealizadooplantiocommatraca.O controle de inos era feito com trao animal, passando o aradinho. Naquela poca tinha at 5 a 6 cavalos para fazer este servio e empregava at 20 pes-soas na poca da limpa.

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    nilton luiz Fritz

    AutilizaodoaduboqumiconapropriedadedosVandresencome-ouaocorrernoanode1972.Antesdestadatanohavianenhumtipodeadubodisponvelparaserutilizado,sejadeorigemmineralouorgnica.Em 13 de outubro de 1975,relataVilmarcompreciso,ocorreu a compra do primeiro trator da famlia. Era um trator de pequeno porte, mas ajudava muito. No ano de 1976 foi comprado um pulverizador e foi o incio de aplica-o de veneno para controlar o ino. O veneno era incorporado e a precisava fazer duas a trs gradagem, que deixava a terra bastante solta. Se desse uma chuva em cima dava a eroso e precisava preparar a terra e realizar o plantio novamente. Naquela poca era realizado muitos cursos sobre curva de nvel, que nos ajudou muito. Com o trator e uso do veneno ns tambm arrendava terra, derrubava capoeiro e mato virgem, queimava para fazer as lavouras. No primeiro ano fazia uma roa manual de milho e no segundo ano fazia a destoca, que tinha recursos no Banco para isso.

    AjornadanaquelapocaerapuxadaeWilmarlembraqueo almoo era feito na lavoura mesmo, nada de ir para casa. Algum da famlia se encar-regava das panelas. Inclusive, certa vez, ocorreu uma queda de uma panela com feijo. Pronto, ficamos sem o feijo naquele almoo.

    Nestapropriedade,atoanode1973,eracultivadomilhodavarie-dadepalharoxaoupiolin(quetambmeraconhecidacomocunha)eoamarelo.Oconsrcioerabempresente,queerarealizadocomfei-joearroz.Apsesteperodo,aospoucos,foiocorrendoasubstituiodomilhovariedadepormilhohbrido.Jasojateveoprimeiroplantionoanode1970,sempreemconsrciocommilhonesteperodo.Asojavariedadesantarosaeraaquelaquemaisseadaptavaaestesistema.Wilmarlembradotrabalhopenosodapoca,quenos primeiros anos a soja era cortada com foicinha e era beneficiada com trilhadeira.Jnoanode1977comearamaparecerascolheitadeirasautomotrizesesepagavaparacolher,todaviaafamliaadquiriuaprimeiracolheitadeirasomentenoanode1979.

    Noanode1978compraram5alqueiresdeterraenoanoseguintemais8s,oquepossibilitouqueWilmareseusoutrostrsirmospudessemseguirtrabalhandonaagricultura.

    WilmarVandresencomparaasdiferentespocaserelataqueat o incio da dcada de 70, tinha menos pragas. Depois, com o uso de veneno e adubo qumico, aumentou a quantidade de pragas e novas espcies de pra-gas apareceram. Foi preciso usar muito veneno para poder garantir a safra.Quantoaosganhoscomaagricultura,analisaquese for fazer os clculos naquela poca sobrava mais do que atualmente, se usava mais a mo-de-obra e esta era remunerada. Hoje se faz mais rea com mquina e veneno, o custo de produo mais alto e sobra menos.Destacatambmumapreo-cupaocomaatualfasedaagricultura,dizendoquehoje temos tambm novas doenas no feijo, na soja que na poca no tinha. Isto est preocu-

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    pando e como ser no futuro? Como controlar estas novas doenas, alm do custo elevado do controle?,finalizaele.

    cenrio dA dcAdA de 1970 e 1980 e A exTenso rurAl A pArTir do depoimenTo de TcnicosOtextoelaboradoporEroniBertglio,engenheiroagrnomoquetrabalhounoSudoesteporumperodode13anos,de1973at1986,mostraarealidadedaregionaqueleperododarevoluoverde.Eroniassessoroucooperati-vase,pordezanos,exerceuafunodeChefeRegionaldoInstitutoEMATER,almdeexercerafunodeprofessor,deatuaremrgosdedefesaambientaleestudarasquestespertinentesaosproblemasdomeiorural.

    Lembraque,na dcada de 70, a regio v a transformao de seus sistemas agrcolas diversificados, em sistemas de monoculturas, sob os efei-tos da revoluo verde, progresso tecnolgico pela via do avano gentico nos principais gros.ComrecursosdoProgramaCorredoresdeExportao(BID-256-SF-BR),existiramrecursosdecrditoruralemabundnciaparaconstruodesilosgraneleirosparaascooperativasrecm-constitudasoumaisantigas.Paraosagricultores,crditodeinvestimentoparadestoca,aquisio do equipamento paramecanizao agrcola e custeio para asatividadesdesoja,fomentadasporcontadeexcedentesexportveis,comdemandainternacional,paraequilibrarabalanadepagamentos,devidoimportaodepetrleo,duranteacrisedele.

    Essefenmeno,auxiliadoporsubsdioscomoreduode40%nocusto dos fertilizantes e em aquisio de calcrio,mais preos interna-cionaisdasoja favorveisnomercadointernacional,agregaramrendaamuitosprodutoresqueadquirirammaisterrasnaregioouforadoEsta-do,tendocomoconseqnciaomaiorxodoruraldahistriaparanaense,comaperdademaisdecemmilpropriedadesemdezanos.

    Eronianalisaaatuaodaextensoruraloficialnadcadaposte-rioreosrumosqueforamtomados.Consideraquenosanos80,aexten-so,apsrefletirsobresuaatuao,formataoModelo80,quetinhacomopremissasEducao,ParticipaoeRealidade,utilizandotambmcomoestratgiaavisodapropriedadecomoumtodoeinstrumentosdegestoagrcola.Atecnologiademanejodepragasdasoja,desenvolvidapelaEM-BRAPASoja,repassadaaosprodutoresdiminuindoocustodeproduoeacontaminaodomeioambiente.

    Tambmseiniciamasprimeiraspreocupaescomomodeloagro-qumicodarevoluoverde,atravsdediscussonaAssociaodosEn-genheirosAgrnomoseinstituiesdosagricultorescomoaASSESOAR,propondomodelosmaissustentveiseapropriadosparaumestratofundi-riopredominantede20a50ha(80%daspropriedades)ecomotimizaodorecursomaisabundante(mo-de-obra)emdetrimentoaoescasso(terraecapital),comofruticulturaeatividadeleiteira.

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    NessadcadaaconteceoplantiodofeijoDelfim,alusoaomi-nistrodaAgriculturaqueincentivouoplantiodefeijoforadapocare-comendadapelapesquisa,compromessa,nocumprida,decoberturadoPROAGRO.Emparalelo,ofrigorficoCOMABRAHEIZ,dePontaGrossa,absorvedordepartedaproduodesunos,nopagaaossuinocultoresenodevolveasNPRsendossadasporelesenegociadascomosbancos.Acrisetorna-setograndequeosmovimentossociaisesindicatosseorga-nizameprotestamempraapblicaenasrodovias.Essefato,ligadoaosexpulsospelasbarragensIguau,servemdebaseparaaconstituiodoMASTESeMASTRO(MovimentodosAgricultoresSemTerradoSudoes-teeOeste,respectivamente).No plo contraditrio surge o movimento do patronato, criando, em Marmeleiro, a Sociedade dos Amigos da Terra, que se armou para enfrentamento aos sem-terra, dando origem ao processo embrio-nrio da UDR, a quem forneceu lideranas,lembraEroni.

    Em1983 a extenso fazia nova reflexo e redirecionava suamis-so, incluindo comopblico sem-terra, arrendatrios e assalariados ru-rais,passandoafazerusodemetodologiasparticipativas.Tambmfazpar-tedaspropostasdegoverno,atuaoemabastecimentocomacriaodefeiraslivres(doprodutor)edeprodutosdepoca.

    Comorespostaaosprocessoserosivosocasionadospelamconser-vaodosoloe incentivadospelos recursosdoProgramaParanRural,nosmunicpiospropciosmecanizaointensiva,aextensoruralpassaausarcomounidadederefernciadetrabalhoasmicrobaciashidrogrfi-cas.Nas reas com solos de baixa aptido, foi difundido o uso de tecnolo-gias como o cultivo mnimo, com uso de adubos verdes e pouco revolvimento do solo,concluiEroni.

    depoimenTo de Joo srgio cAnTerleJooSrgioCanterle,engenheiroagrnomo,trabalhounoInstitutoEMATERde1975a1987,iniciandoseutrabalhoemArapongas,regiodeLondrina.AtualmenteresideemFranciscoBeltro,exercefunotcnicaemescritriodeplanejamentoagrcolaeatuatambmcomoprofessornoensinosuperior.Noinciodesuasatividades,em1975/76,participoudodesenvolvimentoedadifusodetecnologiaspioneirascomvistasaoequilbriodomeioambiente.Aolembrarasaesdapoca,relataqueeram realizadas 6 a 7pulverizaes de agrotxicos para controle de lagartas e percevejos da soja. Os produtos usa-dos eram principalmente os clorofosforados e organoclorados, estes hoje proibi-dos por apresentarem caracterstica de acumulao nos organismos. Assim que as primeiras lagartas surgiam, eram aplicados venenos, o que causava desequi-libro nas lavouras. At ento existiam poucos herbicidas de pr- e ps-emergn-cia, sendo os inseticidas os agrotxicos com maior utilizao.

    Destacaquefoi trabalhado com os agricultores de que a planta su-porta algum desfolhamento sem que isto afete a produo, alm de preservar

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    os inimigos naturais.Erafeitaabatidadepanosemanaleobservadoodesenvolvimentodaspragaseinimigosnaturais,difundindo-seessatecno-logiaentreosagricultores.Empoucotempoasaplicaescaramde6a7para1a2pulverizaesduranteociclodacultura.

    Atravsdaobservaoverificou-sequeocorriamortede lagartassemusodeinseticidas,emfunodeumaocorrncianaturaldevrus(ba-culovrus)naslavouras.

    NesteperodoaEmbrapapesquisouaslagartasatacadasporvruse,emparceriacomaextensorural,osagricultoresforamorientadosparaqueaspulverizassemaslagartasinfectadascomovrus,naproporode50lagartasinfectadasporha.Elesasguardavamemrefrigeraoparapul-verizao nos anos seguintes. Este trabalho inicial foi desenvolvido emparceria entreExtensoRural (Acarpana poca) eEmbrapa, na regioNortedoEstado.

    Apartirdaosistemademanejodepragas,incluindoocontrolebio-lgicodalagartadasoja,passouaserprioridadenasregiesprodutorasdesoja.Noanode1977JooSrgioveiotrabalharnaregiodeFranciscoBel-troeobservouqueaquitambmhaviamuitasaplicaesdevenenosnasla-vouras.Materialtcnicofoiproduzidoe,numaparceriacomascooperativasda regio (COAGRO,CAMDUL,COOPERSABADI,COMFRABEL), foramrealizadosencontrostcnicos,unidadesdemonstrativasediasdecampo.

    Canterleobservaquea mulher no queria que as lagartas fossem guar-dadas na geladeira, alegando falta de higiene, porm eram acondicionadas em recipientes de vidro.Ageladeiraeraumbemdeconsumoqueestavasepo-pularizandonas comunidades.Diminuindo as pulverizaes, os inimigosnaturaisforamsedesenvolvendo.Emmeadosdadcadade1980,obaculo-vruspassouaserproduzidoemlaboratrios,inicialmentepelaEmbrapaeOcepar,hojeCoodetec,enaseqnciatambmporoutrasempresas.

    Com a entrada do plantio direto e o aumento da utilizao dos herbi-cidas ps-emergentes, os agricultores passaram a aplicar o inseticida junta-mente com os herbicidas e os princpios de manejo integrado de pragas, in-cluindo o uso de baculovrus, foram um pouco esquecidos. Outro fator que tambm contribuiu para que essa prtica fosse relegada a segundo plano foi a elevao do preo da soja em alguns perodos,analisaJooSrgio.

    controle Biolgico do Pulgo do trigo

    Outratecnologiadecontrolebiolgicodifundidanaqueleperodo foi adis-seminaodevespinhas(microhimenopteros)paracontroledepulgesdotrigo.JooSrgioobservaquea origem de algumas espcies de vespinhas foi de pases da Europa, atravs de importaes realizadas pela Embrapa/Trigo de Passo Fundo. Foram introduzidas nas lavouras da regio do incio da dcada de 1980. Eram transportadas em caixas com plantas de trigo (ovos e vespinhas nascendo), e distribudas nas lavouras para o controle dos pulges. O pulgo

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    nilton luiz Fritz

    era uma praga muito prejudicial cultura do trigo, exigindo vrias aplica-es de inseticidas para o seu controle, caso contrrio corria-se o risco de no produzir. A partir do final da dcada de 1980, so raras as situaes em que h necessidade de aplicaes de inseticidas para o controle de pulgo apesar de sua ocorrncia, devendo-se esse fato ao controle biolgico da vespinha que vm atuando at nos dias atuais. Neste perodo, embora num contexto desfa-vorvel, essa tecnologia conseguiu mostrar sua eficincia. Tanto o manejo de pragas da soja com o uso de baculovrus, como a utilizao da vespinha para o controle de pulges, foi viabilizado dentro da agricultura convencional, ca-racterizada pela monocultura numa poca que se priorizava principalmente a viso econmica, sendo o enfoque ambiental pouco enfatizado,finaliza.

    TrAbAlho de AgroecologiA nos municpios

    Quadro 1 Tcnicos do instituto EMATER com atuao em agricultura orgnica no Sudoeste do Paran

    MUNICPIO TCNICO TELEFONE E-MAIL

    Capanema Gilmar Gobato (46)3552-1060 capanema@emater.pr.gov.br

    Cruzeiro do Iguau Marcos Bourscheid (46)3572-1284 cruzeirodoiguacu@emater.pr.gov.br

    Dois Vizinhos Valdir da Silva (46)3536-5884 doiszvizinhos@emater.pr.gov.br

    Enas Marques Adair Rech (46)3544-1395 eneasmarques@emater.pr.gov.br

    Francisco Beltro Nilton Luiz Fritz (46)3523-3821 niltonfritz@emater.pr.gov.br

    Marmeleiro Valdir Felberg e Sady D. A. Grisa (46)3525-2236 marmeleiro@emater.pr.gov.br

    Planalto Libanor Viesseli (46)3555-1303 planalto@emater.pr.gov.br

    Realeza Odir Basso (46)3543-1122 realeza@emater.pr.gov.br

    Renascena Leandro Molinetti (46)3550-1394 renascenca@emater.pr.gov.br

    Salto do Lontra Valdir Koch (46)3538-1468 saltodolontra@emater.pr.gov.br

    So Jorge do Oeste Jair Klein e Sidney Carneiro (46)3534-1855 saojorgedoeste@emater.pr.gov.br

    Ver Neuri Beche (46)3535-1396 vere@emater.pr.gov.br

    Emater Regional de Fco. Beltro Ericson Max (46)3524-2021 erfranciscobeltrao@emater.pr.gov.br

    Clevelndia Otto Bruno Becker (46)3252-2017 clevelandia@emater.pr.gov.br

    Saudades do Iguau Rosane Dalpiva Bragatto (46)3246-1169 saudadesdoiguacu@emater.pr.gov.br

    Fonte:dadosdecampo(maio/2007).Org.FRITZ,N.L.(2007).

    municPio de cAPAnemA

    DeacordocomGilmarGobato,tcnicoemagropecuriaeextensionistadoInstitutoEmater,aagriculturaorgnicanomunicpiodeCapanemaini-cioujuntocomacolonizao.Mesmosemsaber,oscolonizadoresadota-ramasprticasdeno-usodeagroqumicosnaagricultura,contudo,apsarevoluoverde,partedosagricultoresadotaramasnovastecnologiasetodosoroldealternativasdeinsumosparaaagricultura.Comooscoloni-

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    zadoresdomunicpionagrandemaioriaeramalemeseitalianos,tinhamcertaresistnciaaousodospacotestecnolgicosofertadosnapocaenoutilizaram agroqumicos por longo perodo, influenciados pela tradioherdadadospaisnosistemadeexploraoutilizado,ondeaagriculturaorgnicaeraumaprticamuitocomumentreosagricultores.

    No inciodosanos1990asentidadesde representaodosagri-cultores fortaleceram esta discusso focando um sistema diferente deagricultura,opondo-seaospacotestecnolgicosofertadospelomercado,incentivadospelaslinhasdecrditoparaaagricultura.

    Em1993/94asentidadesderepresentaodosagricultores,especi-ficamenteosindicatodostrabalhadoresencampouessetrabalhoejuntocomumaempresadecomercializaoiniciaramosprimeirostrabalhos,jcomvistaacomercializarosprodutoscomoprodutoorgnico,jcomcer-tificaoecompreodiferenciado,conseguindoosprimeirosresultadoscomaculturadasoja,quesemostroucommercadoparacomercializarecompossibilidadedecomercializaodestinandoaproduotodavoltadaparaomercadoexterno.

    Asorganizaesdosagricultoresforamseampliandonosmaisdife-rentessegmentosdaagricultura,semprevoltadasparaoprincpiodepro-duodiferenciadaquevalorizasseotrabalhodoagricultor,maspassaramadefenderumaindependnciamaiordosagricultoresnumabuscadedi-versificaraproduoedeixardeserdependentedeumaempresaquemo-nopolizavaacomercializao,pormnaseqnciaoutrasempresasapare-ceram.Ofocoerasomentenaproduodesoja.

    NestafaseoInstitutoEMATERteveparticipaopontualnestasati-vidades,apoiandoasiniciativas.

    Em2001teveincioumtrabalhoorientadopelaAssesoarnoramodadiversificaodaspropriedadescomproduodeolericulturaeinciodafeiraorgnicamunicipal.NestafasehouveumaparceriaentreSindi-cato,PrefeituraeagricultoreseoEMATERiniciouumacompanhamentomais sistemticodos agricultores envolvidosnesteprojetoorgnico.NoperodotambmfoicriadoumtrabalhocomlideranasdoSindicato,Cre-soleACECAPparaformaodeumgrupodeagentesdedesenvolvimentonomunicpio,comparticipaodasentidadesdosagricultoreseEMATER,tendocomofocoaproduodiferenciada,adiversificaoeoresgatedesementescrioulas.Em2002foirealizadaaprimeiraFeiraMunicipaldeSementesjuntoFeiradoMelado.

    ComrecursosdoParan12Mesesforamadquiridasestufasema-teriaisdestinadosproduoeorganizadosgruposdeagricultorescomprogramaodeproduo,melhorianaqualidadedosprodutosenaem-balagem.AFeira,queerarealizadaumavezporsemana,foiinsuficienteparaacomercializao.EmfunodissoaFeiraMunicipalfoitransfor-madaemumpontodevendadefinitivo,comparticipaodaACECAP(As-

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    nilton luiz Fritz

    sociaoCentral dosAgricultoresFamiliares deCapanema), e produtostambmdaagroindstria.Ovolumedeprodutoscomercializadosnoen-tanto,necessitavadeumalegalizaoquenoexistiaporpartedaCentraledestaformaentofoiconstitudaaCoperfac(CooperativadosAgriculto-resFamiliaresdeCapanema),quepassouacomercializarosprodutosdosagricultoresnopontodevendaatualmentedenominadoLojadoAgricul-tor.Estaexperinciainspirouodesenvolvimentodetrabalhossemelhantesemoutrosmunicpios,envolvendoumcircuitoregional,formandoentoaCoopafi,queatualmenteatuaemdiversosmunicpiosdaregiodandosu-porteparaoperacionalizarprogramasfederaisdecompradeprodutosdosagricultoresecomercializaodosprodutosdaagriculturafamiliar.

    Nestetrabalhofoipossvelampliaradiversidadedeprodutosorg-nicoscomagregaodevalor,diversificandoasunidadesdeproduoqueestavamconcentradasbasicamentenasoja.

    Asempresasparticularessempreexpressavamestapreocupaoenecessidadedediversificao,massomentenosltimosanosocorreuumainiciativamaiorporpartedelasaoseinseriremnasorganizaesdosagri-cultoreseteremladomaissocialecomunitrio,buscandosermaispar-ceirasedesenvolveraesplanejadas,discutindoaspropostasdetrabalho,buscandoalternativasdeagregaodevalorediversificaodosprodutos,principalmentenatransformaodaproduo.

    ParaCelso Prediger, agricultor e dirigente do SistemaCoopafi a agricultura orgnica ou agroecolgica em Capanema tem contribudo de for-ma significativa no desenvolvimento local, sendo pela produo e oferta de alimentos limpos populao, pela responsabilidade social e ambiental com que so produzidos estes alimentos, buscando a sustentabilidade nas uni-dades de produo, com equilbrio e resgatando os valores perdidos. A agri-cultura orgnica uma atividade percebida e reconhecida pela populao de Capanema, populao esta que est cada vez mais consciente da importncia deste tipo de alimento.

    municPio de cruzeiro do iguAu

    OInstitutoEMATER,emparceriacomaSecretariaMunicipaldaAgricul-tura,vmdesenvolvendotrabalhonosistemaorgnicodeproduodesdeoanode1997,comafundaodaASFRUCI(AssociaodeHortifruticul-toresdeCruzeirodoIguau).Nesselongopercursotiveramoutrosparcei-ros(PRO-CAXIAS,MAYTENUS,SEBRAEeCAPA),quesomaramesforosemalgunsmomentoseemdeterminadasatividades.Conscientizadosdanecessidade da diversificao de atividades na propriedade familiar, foiimplantadoumabatedourodiferenciadode frangocaipira,comregistronoSIP,em2002.Estaproduoencontra-se integradacomoutrasativi-

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    dades,comoafruticulturaeaolericulturaorgnica.Naatividadeleiteiratem-seprocuradoproduzirleiteequeijodeformamaisnatural,enquantoque,naproduodecereais,agricultoresreceberamequipamentosapro-priadossuarealidadeparaimplantarumaagriculturasaudvel.Busca-seumtrabalhointegradodentrodaspropriedades.Avisoholstica,agroeco-lgica,agroflorestaleorganizativa,levandoemcontasempreaformaointegraldoserhumano,temsidoabssolanorteadoradoPlanodeDesen-volvimentoRuralnomunicpiodeCruzeirodoIguau.

    ParaMarcosAntnioBourscheid,engenheiroagrnomoeextensio-nistadoInstitutoEMATER,emCruzeirodoIguauconstata-seumcresci-mentoabaixodamdianacional(cercade20%aoano),pormofatorele-vanteque,deformaconsistenteeconsciente,aproduoorgnicavemavanando,oqueseverificaemtodososaspectosdascadeiasprodutivas.Osgargalosdoprocessoprodutivo,comotransporteearmazenagem,estosendosuperados.Acomercializaovemsefortalecendo,principalmentecomaaquisiodeumcaminhoparaaASFRUCIeaCOOPAFI,aamplia-odasparceriaseaconstruodosistemaderedeCOOPAFI.Estepano-ramarefleteaboaperspectivadaproduoagroecolgicanomunicpio.

    DanielMeurer,secretriomunicipaldaAgriculturaeagricultor,con-sideraquesoboasasgarantiasdeumfuturomelhorparaaagriculturaorgnicaemCruzeirodoIguau:

    pelotrabalhoexistentehnoveanos,aestruturadequedispemasAssociaesASFRUCIeCOOPAFI,eoapoiodoEMATERedaPre-feituraMunicipalatravsdaSecretariaMunicipaldaAgricultura;

    pelarealidadedomercadoatual,emquesebuscaumalimentodemelhorqualidade;

    pelaconscinciadoagricultoreadiversificaonasatividadesagrcolas;

    pelapreservaodomeioambienteatravsdeumaagriculturalim-pa(orgnica);

    pelaestruturaregionalnaagriculturafamiliar.

    municPio de enAs mArques

    DeacordocomAdairRech, tcnicoemagropecuriae extensionistadoInstitutoEMATEReInoirTesser,secretriomunicipaldaAgricultura,noanode2004iniciou-seadiscussodeimplantaodeumaestruturaparaprocessamentoerecebimentodeprodutosorgnicospelo fatodeexistirumaunidadedetransformaodemilhoetrigoemfarinha,queestsen-doadministradaporumaassociaodeprodutores(ADCEMAssociaodeDesenvolvimentoComunitriodeEnasMarques).EssaestruturafoiamparadacomrecursosdoFUNDECenquantoumsecadordecereaispeloprojetoParan12Meses.

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    nilton luiz Fritz

    As estruturas j existentes fortaleceram a viabilizao do investi-mento financeiro doPRONATnum valor deR$ 252.400,00 (duzentos ecinqentaedoismilequatrocentosreais)paraaconstruodeumacen-tralderecebimentoedebeneficiamentodeprodutosorgnicos(soja,mi-lho,trigo,pipoca,feijo)produzidosemtodaregio.

    Atualmenteaobradocentroderecebimentodosprodutosorgni-cosestemfasedeconcluso.

    Ocomplexoseradministradoporuma instituiorepresentativadosagricultoresfamiliaresdosetordaagroecologiadaregio.

    DeacordocomOrleyJayrLopes,engenheiroagrnomodoEmaterRe-gional,aimplantaodeunidadederecepo,beneficiamentoearmazena-gemdegrosorgnicosecapacitaodeagricultores familiaresobtevere-cursosdoPRONAT ApoioInfra-EstruturaeServiosTerritoriaisem2005,RecursosPrprioseProjetoTerritrio/MDA,conformedescrioabaixo:

    1) Construodeumbarracoemalvenaria,pr-moldado,compiso,dimensesde40x15metros,destinadoaabrigarmquinaseequi-pamentosderecepoebeneficiamento.

    2) Construodeumamoegadedoismdulos,pararecepoedepsito.

    3) Promoodecursosdecapacitaoemproduoorgnica.

    4) Produodemateriaisdedivulgaoemarketing dosorgnicos.Valordoinvestimento:R$219.605,00(itens1e2).Valordocusteio:R$26.000,00(itens3e4).

    Oproponente,PrefeituraMunicipaldeEnasMarques,disponibili-zouareaparaainstalaodoempreendimentoemlocalcontguoaumsecadordegrosquedeverserutilizadoemcomodato.

    Nomomento,estemdiscussooprocessodegestodaUnidade,umavezqueasassociaesexistentesnopodemserhabilitadasparaopro-cessodecomercializao,ouseja,compraevendaeprestaodeservios.

    municPio de FrAncisco Beltro

    OtrabalhodeAgriculturaOrgnicaemFranciscoBeltroteveincioemmarode1997,ocasioemqueaSecretariaMunicipaldaAgricultura(en-genheiraagrnomaInsBurg)eEMATER(engenheiroagrnomoNiltonLuizFritz),discutiramapropostacomosfeirantesdomunicpio,almdeoutrosagricultores,queoptaramemaplicarosprincpiosdaAgroecologianapropriedadedeRosimarMarchiori.Apsestudotcnicodaatividade,foramaplicadososconhecimentosemolericulturaefruticultura.

    Posteriormente,em1998,oAssentamentoMissesiniciouotraba-lhodeAgroecologia,destacandoaproduodegros(soja,milhopipocaemilho).

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    Noanode1999,aFeiradoProdutor,quefuncionaatualmentenaPraaCentral,comatividadedesde1978,adotoucomoprincpioaprodu-oorgnicadealimentos.Apartirdaqueleano,osnovosfeirantes,paraseremaprovados,devemterproduosomenteorgnica.

    Noano2000foiiniciadaaFeiraEcologianoBairrodaCango,comagricultoresfamiliaresoriundosdoProjetoVidanaRoae,posteriormen-te,noBairroVilaNova.

    Noanode2003,oGrupoRenascertambminiciouaatividadeemgros,leite,olericulturaeovosorgnicosemparceriacomaEmpresaGra-lhaAzul.

    PorocasiodaXXIExposioFeiraIndustrial,ComercialeAgrcoladeFranciscoBeltro(Expobel),entreosdias6e14demarode2004,foirealizadaumaMostra de Produtos Orgnicos do Sudoeste, coordenadapeloInstitutoEmater emparceriacomdiversasorganizaes,comexposi-ode53produtosoriundosdaAgriculturaFamiliar.

    Noanode2005,oInstitutoEmatereparceriasrealizaramumSemi-nrioRegionaldeHomeopatiaAnimal.

    Atravsdaexperinciaadquiridanaregio,contriburamtambmemeventosnoEstado,taiscomo:a)apresentaodosistemadeproduodesojaorgnicadoSudoesteemPontaGrossa-PR,no10EncontroNa-cionalcomaSoja,em20/05/2004;b)XVIEncontrodeProdutoresdeSojadePaiandu-PR,nortedoEstado,em24dejunhode2005;ec)IParanOrgnica,de1a4dedezembrode2005.

    dePoimento de Agricultor ecolgico

    ValdirBuenoGomesesuaesposaCleodetesoagricultoresfamiliareseco-lgicos residentes na comunidadeOsvaldo Cruz, em Francisco Beltro.SoassentadospertencentesaoGrupoRenascerdoCrditoFundiriodes-de2003,emumareade5,0alqueires(11,92ha).

    Possuemproduodeleiteecolgico,utilizandoahomeopatiaani-malhquatroanos,nohavendonecessidadederecorreraoutrosmto-dosparapreservar a sanidadedosbovinos.Napropriedade j notadaumagrandepopulaodobesouro(Scarabeus sacer),querealizaaincor-poraodoaduboorgnico,contribuindoparaafertilizaodosolo,insetoestequesomentesobreviveemambientesequilibradosecologicamente.

    Essesagricultorestmtambmaproduodemilhoeumaviriode4.000avesdeposturacertificadoemparceriacomaempresaGralhaAzulAvcola.

    Aoserperguntadosobreoporqudetrabalharcomagroecologia,elefoicategrico:Eu acho que o melhor para a sade. A sade coisa mais importante que eu vejo. O custo de produo menor e sobra mais ren-da para a gente.

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    nilton luiz Fritz

    Valdircomentaqueantes de 2003 plantava utilizando agroqumi-cos, mas s trocava dinheiro, porque o que colhia s dava para pagar os insumos.

    Valdirtambmlembradeumfatoocorridonapocaemqueutili-zavaadubosaltamentesolveis.Ocorreuque,aoabrirumsacodeuria,sedeparoucomumfolhetoquealertava:este produto no pode ter contato com a pele que pode ser cancergeno. Imagina as pessoas consumirem isso ou dar para os animais? IndagouValdir,horrorizado.

    Tambmlembradeoutromomento,emqueassistiaaumdebatesobreasintoxicaes,emqueodebatedorrelatouquehoje as mulheres se intoxi-cam mais do que os homens, porque elas lavam as roupas dos maridos que apli-cam os venenos e assim recebem toda a carga txica que se encontra na roupa.

    dePoimento de entidAdes rePresentAtivAs dos Agricultores

    sTrefeTraf-sulPosioconjuntadadireodoSTR(SindicatodosTrabalhadoresRurais)deFranciscoBeltroedeLuizPerin,dadireodaFETRAF-Sul:Nosso ponto de vista sobre a importncia da produo agroecolgica no Brasil e no mundo se baseia sobre trs fundamentais aspectos, o primeiro aspecto o de buscar a sustentabilidade ambiental, econmica e social.Osegundoaspec-toabuscadaqualidadedevida,qualidadenaproduoeumalimentolimpo,garantindoassimumaboasadeatodasaspessoas.Emumter-ceiroaspecto,procura-seoganhoeconmicodeumsistemadeproduoagroecolgicasemagressoaomeioambiente.

    Por isso defendemos um modelo de produo baseado no desenvol-vimento sustentvel e solidrio, onde os instrumentos de polticas pblicas, tais como crdito educao/formao e ATER, estejam ao acesso de todos os agricultores e com isso fortalecer cada vez mais o desenvolvimento, o fortale-cimento da agricultura familiar.

    cresolACresol de Francisco Beltro decidiu,juntoaoseuquadrosocial,pri-vilegiaroscooperadosquepraticamaagroecologiaouaquelesagriculto-resquedesejamcompraraduboorgnicopararecuperaoda fertilida-dedosolo.WilmarVandresen,presidentedaCresoldeFranciscoBeltro,observaqueestamos operacionalizando emprstimos a juro mais barato, utilizando de recursos da prpria Cooperativa. Estamos tambm realizando ensaios de milho variedade em trs propriedades do municpio, com acom-panhamento tcnico, avaliando os experimentos e divulgando os resultados junto ao quadro de associados.

    LuizAdemirPossamai,vice-presidentedaCentral Cresol Baser,in-formaqueoSistemaCresoltemcomoorientaodadireoedaequipe

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    tcnicaquesejadadaprefernciaparaaproduoorgnicaoualternativa,paraqueoagricultornofiquenadependnciadosagroqumicos.Esta-mos incentivando, alm do resgate da adubao verde, o resgate de sementes de milho variedade e feijo. No Sudoeste e em todos os municpios onde tem unidade da Cresol, temos trabalho de campo com resgate de sementes. Temos tambm financiamento com juro diferenciado para recuperao do solo com adubo orgnico.

    coopafimunicipaldefranciscoBelTroAlmirCalegari,presidentedaCOOPAFIdeFranciscoBeltro,acreditaque,no contexto da agricultura familiar, a COOPAFI Municipal est para dar apoio comercializao dos produtos de subsistncia e tambm o excedente do consumo dos agricultores que no uma produo muito elevada, mas sim uma produo de suma importncia para as famlias da cidade e do campo.Eleanalisaqueos desafios so muitos na questo da logstica, na comercializao, j que no temos um transporte adequado. Tambm no temos local adequado para o armazenamento destes produtos. Como agricul-tores, ainda no temos o hbito da produo constante, continuada destes produtos, nem as estruturas montadas comportam uma produo de todos os meses do ano. Nossos agricultores familiares no tm as estruturas ideais para esta produo o ano todo. Por isso a COOPAFI Municipal est a servi-o para dar este suporte de comercializao, com o desafio de tambm fazer circular os produtos da agricultura familiar de um municpio para outro. Outro papel tambm na venda institucional dos produtos da agricultura familiar,completa.

    clafcooperaTivadeleiTedaagriculTurafamiliardefranciscoBelTroDeacordocomadireodaCLAF,existeumapreocupaomuitograndenaproduodeleitesemusodeprodutosqumicos.Comissoestamos fazendo um trabalho de acompanhamento tcnico com o propsito de orientao em produzir leite base de pasto. Tambm temos buscado alternativas e tcnicas naturais para a produo do leite. Isso pode se dar desde a recuperao do solo com MB4, com semente para cobertura do solo, produtos homeopticos, for-micidas naturais para controle das formigas, homeopticos para controle de mastite e parasitas, entre outras formas naturais para uma produo de leite mais saudvel. Com um manejo adequado com os animais, tambm se pode dispensar em grande parte o uso de produtos que agridem o meio ambiente. Na alimentao tambm se podem evitar gastos como o uso de MB4 para comple-mentao dos micronutrientes que faltam em nossos pastos.

    Comessasalternativas,osassociadosdaCLAFtmconseguidoseviabilizaremsuaspropriedades.Tivemos um crescimento em mais de 50% na produo de leite dos nossos associados. Esperamos fazer ainda mais para consolidar essa cadeia produtiva.

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    nilton luiz Fritz

    municpiodemarmeleiroConformeinformaesdeSadyGrisa,engenheiroagrnomoeextensionis-tadaEMATER,aproduocomercialdeprodutosorgnicosnomunicpiodeMarmeleiroteveincionoanode1998,comaempresaGAMA,aqualviabilizavaacertificao,atravsdoInstitutoBiodinmico,eacomerciali-zao.Estaproduocentradanaculturadasojae,hoje,comaempresaTOZAN,dezprodutores.

    Halgumasiniciativaspontuaiscomoutrasculturasnocertificadas,sendomaisintensasnaproduodeolercolasemilhodepipocaatravsdaCOOPAFI(CooperativadeProduodaAgriculturaFamiliarIntegrada).

    Anteriormente, conforme divulgado em jornal no ano de 1997,ocorreuocultivodesojaorgnicaatravsdaempresaAgrorgnica,daFamliaPerin.

    municpiodeplanalToConformeinformaesdosextensionistasetcnicosemagropecuriaLi-banorViesellieSrgioDelani,oEmaterdePlanaltoacompanhoucursorealizadonoanode2003peloInstitutoMaytenus,com16produtores,nalocalidadedeSantaTerezinha,municpiodePlanalto.Apsesteperodo,oenvolvimentocomaproduoorgnicaficouacargodasempresasAgror-gnica,Gebana,eTerraPreservada.

    municpiodeproladooesTeDeacordocomoextensionistadoInstitutoEmaterLibanorVieselli,noanode2002a2003,oInstitutoMaytenus,emconvniocomoSEBRAE,ini-ciouumcursoquetambmteveumapartedeacompanhamentodoEMA-TER.Em seguida inclumos o grupo de produtores orgnicos na microbacia Lajeado Grande. Aps este passo, houve cadastro de todos os produtores no programa Paran 12 Meses e a elaborao dos seguintes projetos:

    Calcrioparaumgrupode14famlias (LinhaVitria),aproxima-damente250toneladasaovalordeR$8.000,00sendopraticamente100%destevalorsubsidiado.

    Espalhadordecalcrioeaduboorgnico;comcapacidadede5to-neladas,foiviabilizadoumequipamento,viaprogramaParan12Meses,comsubsdiode70%,restandoparaogrupopagarapenasR$2.100,00eosrestantesR$7.900,00aserempagosviaprograma.

    Roadeirascostais;viaprogramaParan12Meses,foiviabilizadaaaquisiode14unidadescomsubsdiode100%,asquaiscusta-ramR$12.600,00,emreasdeproduodegrosorgnicos.

    Equipamentosparairrigao;viaprogramaParan12Meses,foiviabilizadaaaquisiodecanosedebombaparairrigaodeoler-colasorgnicasparaprodutoresfeirantes.

  • desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA

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    NomunicpiodeProladoOeste,ograndeenfoquedosorgnicosestnaproduodegros,eempequenaescalanaproduodeolercolas,sendoaassistnciatcnicafornecidapelaGebanaeTozan,deCapanema.

    municpioderealezaParaOdirBasso,tcnicoemagropecuriaeextensionistadoInstitutoEMA-TER,emjulhode2002foilanado,emRealeza,oprimeiroencontrosobreagriculturaorgnica,comapresenade103agricultoresfamiliaresinteres-sadosnocultivodeprodutosorgnicos,sendoque38destesseinscreveramparacursode12etapasemconjuntocomEmatereInstitutoMaytenus.

    Foi o incio da converso das propriedades para cultivo de org-nicos.Aprefeituradomunicpiodisponibilizouumareade45haparaplantiodesojaorgnicaeposteriormentetrigoemandioca.Nesseespaofoirealizadoo1EncontroRegionaldeGrosOrgnicosdoSudoestedoParan,comdiadecampo.

    Comaperspectivadebonspreosdasojaorgnica,26produtoresefetuaram,nesteperodoplantio,desoja,totalizandoumareade390ha,emandioca,comumareade76ha,almdefeijo,commais14hanosanosde2002,2003e2004.Ocorreu,porm,aquedadospreos,aestiagemnosltimosdoisanos(2004e2005),eaentradadasojatransgnicaquedesestimularamosagricultores.

    Nestes perodos foram efetuados vrios encontros com eles, comobjetivodefabricaodeprodutosorgnicos(biofertilizantes),ediasdecampoemnvelmunicipaleregional,comexcursesparaSoJorge,PatoBrancoemunicpiosvizinhos.

    Osprodutossocomercializadosemfeirasnomunicpio,compradiretaCONABeempresasdaregio.

    municpioderenascenaDeacordocominformaesdosextensionistas,otcnicoemagrope-

    curiaAlbertoNerciMuller(atualsecretriomunicipaldaAgricultura),atcnicasocialMariaHelenaFracasso,doInstitutoEMATER,eotcnicoemagropecuria LeandroMolinetti, do convnio PrefeituraMunicipal/EMA-TER,aAgriculturaOrgnicacertificadateveincionomunicpionadcadade1990,comaculturadasoja.Deinciofoiimpulsionadapelosaltospreospagosaosprodutoresorgnicos,quetivera,seunmerodeadooreduzidoposteriormenteemfunodeque,nomesmoperodo,osistemadeprodu-oconvencionalaumentouaprodutividadeconsideravelmente,bemcomovalordasojaaproduzida.Naagriculturaorgnicahouvediminuiodosvalorespagos,pelafaltadetecnologiaadequadaepelafaltadematuridadedestesagricultores,quemigraramparaosistemaconvencionalnoanode1999.Entosurgiuumnovopblico,oqual,semcondiesdeseadaptaraosistematradicional,optoupeloorgnico.Estepblicoestavaexcludodo

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    nilton luiz Fritz

    sistemaconvencionalpelafaltadecondiesdeordemeconmicaetcnica.NomomentocomestaagriculturaqueoInstitutoEMATERvemdesenvol-vendosuasaes.Soagricultoresdereasdeassentamentocujaagricul-turaorgnicaapresentacrescimentoemculturascomomandioca,batatadoce,hortaliasdiversasefrutas.Aculturadasojaestemdecrscimomui-tosignificativoemfunodoaumentodeocorrnciadedoenas,resultandonabaixaprodutividadeeinviabilizandoaatividade.AtualmenteaEMATERestatendendoaproximadamente20produtoresorgnicos.

    Algumas propriedades do municpio, paralelamente produoconvencionaldegros,trabalhamcomFruticulturaeOlericulturanosis-temadeproduoorgnica,utilizandoapenascaldasefertilizantesorg-nicosdebaixasolubilidade,pormnopossuemcertificao.Umapartedaproduocomercializadacomossupermercadosdomunicpio,masamaioriadelacomercializadacomaCONAB,quedestinaosprodutosparaamerendaescolaratravsdoprogramaFOMEZERO.Essesproduto-resconstituram,comoapoiodoEMATER,umaassociao(APARAsso-ciaodosProdutoresFamiliaresdeRenascena),queresponsvelpelaadministraodosrecursosenviadospelaCONAB,equenofuturodeverdesempenharoutrasaesemproldodesenvolvimentodosagricultoresfamiliares.Aassistnciatcnicaaessesprodutores,bemcomooauxlionaorganizaoecomercializao,prestadapeloInstitutoEMATER.

    Apropostadetrabalhonalinhadeagriculturaorgnicaparaesseano dar continuidade assistncia tcnica em todos os aspectos, aosprodutoresdaassociaoAPAR,ebuscarcativarnovosagricultoresparaaexploraodaatividade,quenomunicpio,comogeradoraderendaetra-balhoaindamuitorecente,carecendodemudanasnosaspectosnorma-tivos,biolgicoseeducativosedecapacitaodetcnicos,deprodutores,deconsumidoresedepesquisaparaquecresaaadoodeprodutoresquevenhamarealizaraconversodosistemaconvencionalparaoorgnicocommaissegurana.

    Eventosrealizadosnomunicpio:

    CursodeAgriculturaOrgnicaInstitutoMaytenos,com8mdulosparticipaode22agricultores(ano2000).

    SeminriodegrosrealizadopeloEMATERcomparticipaode200agricultorescompalestradomdicoTsutomuHigashinoano2003.CentroParoquial.

    Unidadedemonstrativadecultivodesojaorgnicanapropriedadedosr.JacirXavariz,realizaoEMATERPR,PrefeituraMunicipalemparceriacomEMBRAPA(ano2004).

    Unidadedemonstrativadecultivodetrigoorgniconapropriedadedosr.JacirXavariz,realizaoEMATER,PrefeituraMunicipalemparceriacomEMBRAPA(ano2005).

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    VriasreunieseparticipaoemexcursesatosmunicpiosdeCapanema,naFeiradoMeladoeProdutosOrgnicos,eemSoJor-ge,nasConfernciasdeAgriculturaOrgnicaeBiodinmica.

    municpiodesalTodolonTraDeacordocomValdirKoch,engenheiroagrnomoeextensionistadoEma-ter,noanode1997oConselhoMunicipaldeDesenvolvimentoRuraldeSal-todoLontra,atravsdoInstitutoEMATEReaSecretariaMunicipaldesen-volveramaesparainiciarasatividadescomproduoorgnica.NapocaaempresaTerraPreservada,deCapanema,foiaparceirados12produto-res,quecomumareade72hadesojainiciaramoprocessodeconversodaspropriedades.Estenmerodeprodutoresdesojasemanteveat2003,quando,nasafra2003/2004,caiupara8.Estesmesmosprodutoresamplia-ramaproduodeoutrasculturas,principalmentenaOlericultura.Apartirde1998,comoPr-Caxias,vriasaesforamdesenvolvidas,culminandonacriaodaAssociaodosProdutoresOrgnicosdeSaltodoLontra.

    Em2003,oPr-CaxiasdiminuiuostrabalhosnareaquandoaEMA-TERfezparceriacomaCAMDUL,intensificandootrabalhonaproduodesojaparasemente.Porduassafras,aCAMDULfezparceriacomprodutoresorgnicosparaproduziremsementedesojaorgnica,sendocultivados80ha.Nomesmoperodo foramrealizadoscursosde transformaode sojaorgnica em todasasunidadesdaCooperativa, trabalho coordenadopelanutricionistadoEMATERdeNovaPratadoIguau,MnicaMinosso.Destaparceriaresultouumprojetoderecepo,armazenagemebeneficiamentodaproduoorgnicaaserconstrudoemEnasMarques.Envolveram-seduasassociaesdeprodutores,queatualmentebuscamassumirasaesdesteprojeto.AAssociaodeProdutoresOrgnicosdeSaltodoLontrapossuiummercado,queatendetambmproduoconvencional,orientandoquantoasquesteslegaisparaimplantaodoprojetoFomeZeronomunicpio.

    municpiodesoJorgedoesTeJairKlein,engenheiroagrnomoeextensionistadoInstitutoEMA-

    TER, mestrando em Agroecossistemas/UFSC, relata que, ao fechar ascomportasdaUsinaHidreltricadeSaltoCaxias,aCOPELincentivouaformao de uma organizao territorial, o PRO-CAXIAS (Conselho deDesenvolvimentodosMunicpiosdoEntornodoLagodaUsinadeSaltoCaxias).Nasdiversaspropostasdetrabalho,optou-sepor incrementaraproduoorgnicanosnovemunicpiospertencentesreadeatuaodoPRO-CAXIAS.EmSoJorgeDOeste,comoapoiodoEMATER,foicriadaaAORSA(AssociaodosAgricultoresOrgnicosdeSoJorgeDOeste).Asassociaesnosnovemunicpiossearticularamparater,naregiodoPRO-CAXIAS,umGrupoGestor,ouseja,umgrupodecincoagricultoresquecoordenavamaproduodosprodutoresligadossassociaesden-

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    nilton luiz Fritz

    trodosprincpiosdaAgriculturaOrgnicaearticulavamacomercializa-odeseusprodutosnosmercadosdaregio.Osprodutoresorgnicosnoinciopassaramporumprocessodeformaocontinuada,participandodeumcursoem12etapasetambmdeintercmbios,diasdecampoedi-versasatividadesparaaprimorarsuaproduo.

    AorganizaodoMercadodoProdutoremSoJorgeDOestesur-giucomoumfatorfacilitadoraoprocessodecomercializao.OEmaterhaviaorganizado,em1989,umaFeiradoMelado,napraadamatriz,eestaexperincialevouseustcnicosaorganizarema2FeiradoMelado,em1999,comoobjetivodepopularizarolocaldestinadoaomercadodoprodutorepromoverprodutosdasagroindstriasqueestavamsurgindonomunicpio.Comosucessodestafeiraeocrescimentodadiscussoso-breaproduoorgnicasurgiu,em2001,aFeiradaProduoOrgnica2001,eventoestequeabrangiaa3FeiradoMelado,FeiradasAgroinds-trias,ArtesanatoeIndstriaeComrcio.TodootrabalhotinhaoobjetivodepopularizarotermoProduoOrgnica,conscientizarosconsumido-resecomestaspromoesangariar fundospara fortalecerasentidadesdosAgricultoresFamiliares.

    Em2003,aunidadeLocaldaEmaterdeSoJorgeDOesteorgani-zou,comapoiodoSENAR(ServioNacionaldeAprendizagemRural),15cursosdeAgriculturaOrgnica,ondeforamtreinados207agricultoreseagricultoras,aquemasreformasdemoradiaspeloProgramaParan12Mesesforamdestinadas.ComaarticulaodoGrupoGestornaregiodoPRO-CAXIASeenfrentandoproblemasdepoucaproduo,osagricultoresdeSoJorgeDOeste,melhorarticuladosnomunicpionaAORSAenaCA-JOR,resolveramcriarumacooperativaquepossibilitasseacomercializa-odeprodutosorgnicoseproduodeagroindstriasevisavaaatingirmercadosdaregioSudoeste.Surge,nofinaldoano2004einciode2005,aCOOTER(CooperativadosAgricultoresdaTerradosLagosdoIguau),que,noanode2006,passaachamar-se,atravsdeumaalteraonoses-tatutos,deCOOPAFI(CooperativadosAgricultoresFamiliaresIntegradosdeSoJorgeDOeste).ACOOPAFIdeSoJorgeDOestepassaaser,jun-tamentecomascooperativasdeCoronelVivida,MarmeleiroeCapanema,apioneiradeumnovosistemadecomercializao,comfoconaproduoorgnicaenaproduodeagroindstriasfamiliares.Em2005,osagricul-toresorgnicosdeSoJorgeDOesteassociadosAORSAefundadoresdaCOOPAFI, recebem,atravsdoProgramaParanBiodiversidade,numprojetoelaboradopelaunidadelocaldaEmater,ovalordeR$121.600,00,beneficiando20produtorescom42estufas,1toneladadefosfatodeYorineummicrotratorde18CVcomenxadarotativa,oquepossibilitouaala-vancagemdaproduodehortigranjeirosemambienteprotegido.

    Segundo JairKlein, de parecer que o Sudoeste do Paran, por possuir um nmero elevado de agricultores familiares, pode ser um grande

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    fornecedor de alimentos limpos, saudveis. Transformando estas unidades produtivas em clulas de produo baseadas nos princpios agroecolgicos, teremos segurana alimentar, preservao da paisagem e principalmente res-peito ao meio ambiente. O futuro promissor, basta que congreguemos esfor-os e tenhamos polticas pblicas.

    Arlindo Joo Scussiatto, agroecologista e diretor presidente daCOOPAFIdeSoJorgecomentaqueNossa vida mudou, hoje temos certe-za de estarmos produzindo alimentos que no envenenam os consumidores, e estamos com a conscincia tranqila de no arriscarmos a vida de nossa famlia e com isso ver o mundo a nossa volta com mais respeito.

    municpiodeverDeacordocomoCAPAecomoEMATER,nomunicpiodeVerasdiscus-sestiveramseuincioapartirdainstalaodoCentrodeApoioaoPeque-noAgricultor(CAPA)noanode1997.

    OCAPAumaONGquerealizaassessoriaparaagricultoresfami-liareshmaisde30anosnaRegioSuldoBrasil,tambmumdepar-tamentodaIgrejaEvanglicadeConfissoLuterananoBrasil(IECLB),fazendopartedeseucompromissodeIgrejadeJesusCristo,nosecon-formarcomasinjustiassociaiseaagressonatureza,colocando-sedisposiodosagricultoresfamiliarespara,emconjuntocomelesecombasenosprincpiosdaagroecologiaedacooperao,desenvolverexpe-rincias de produo, beneficiamento, industrializao e comercializa-o,deformaoecapacitao,edesadecomunitria,quesirvamdesinaisdequeomeioruralpodeserumespaodevidasaudvelerealiza-oeconmicaparatodos.

    ComaassessoriadestaONGnomunicpioecomoapoiodasenti-dadesparceirascomoEmater,algumasatividadescomearamaterdesta-que,comoaproduodesojaedehortifrutigranjeirosorgnicos.Apartirde2003,quandoasojaconvencionalobtevebonspreos,asojaorgnicadeixoudesertentadora.

    Napoca,almdosprodutoresdesojaorgnica,cincofamliasini-ciaramaproduodehortaliasorgnicas.Cadaumadelasproduziaumpoucoe,comotranscorrerdotempo,comearamterquantidadedepro-dutoeregularidadedeoferta,quenofoiabsorvidapelosconsumidoreslocais.Logoemseguidaosagricultoressentiramanecessidadedeseorga-nizarememumaassociao.

    Emagostode2001fundada,comoapoiodoCAPAedoEmater,aAPAVE(AssociaodeProdutoresAgroecolgicosdeVer),aqualtemopapeldeorganizarosagricultores,tantonoplanejamentodaproduoquantonacomercializao.HojenaregioacreditamosqueaAPAVE,quelevaamarcaVeredaEcolgica,jtemseuespao,contandocom75fa-mliasassociadas.

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    nilton luiz Fritz

    Osdesafiossomuitos,acaminhadalonga.Emtemposdeaque-cimentoglobal,nopodemosdeixardefazeranossaparte.Julgamosserelaabuscaeoincentivodaproduodealimentolivresdeagroqumicosecomresponsabilidadesocial.

    municpiodechopinzinhoOtrabalhofoiiniciadoem1998pelaPrefeituraMunicipalcom15produ-toresdesoja.Posteriormente,emparceriacomoInstitutoMaytenus,foicriadoumgrupode30produtoresquereceberamcapacitaoecertifica-odoInstitutoBiodinmico.Atualmenteexistemcercade15agricultorescertificados,trabalhandocomfruticulturaeolericultura,quecomerciali-zamaproduoembancasinstaladasnossupermercadosdomunicpio.

    municpiodeclevelndiaDeacordocomrelatodeOttoBrunoBecker,engenheiroagrnomoeexten-sionistadoEMATER,asatividadesdaAgriculturaOrgnicaemClevelndiainiciaram-senoanode1997/98comaproduodesojaorgnica,poragri-cultoresapoiadospelacooperativaCAMISCdeClevelndia, incentivadosprincipalmente pela colega engenheira agrnoma IdanirMenegotto, quetambmplantavaemreasarrendadas,masdesmotivou-senodecorrerdosanosdevidofaltadeapoioeinduzidaporoutraspropostasmaisconvin-centes.Era a viso somente de produto, e devido aos dlares adicionais produo. Tambm ocorreu uma reunio com a presena de tcnicos do IBD. Nesta ocasio foi convidada principalmente pela Sara. Maria Annibelli. Havia uma proposta da cooperativa dispor de uma moega para recepo especial de soja orgnica, fato que no ocorreu e deu-se incio, em 2000/01, ao incentivo e fomento para a soja transgnica. Certamente ocorreram propostas mais van-tajosas para as pessoas que tm o poder de deciso nas mos.

    EmClevelndiaocorreuoPrimeiroEncontroMunicipaldeAgricul-turaOrgnicaem25dejunhode2.001,com75produtoresparticipantes,frutodotrabalhodotcnicolocaldaEmaterque,porocasiodapartici-paonoConselhodeDesenvolvimentodeZelndia,coordenadopeloSE-BRAE,levantavaestabandeira;eporocasiodaescolhadeprioridades,otrabalhoemAgriculturaOrgnicafoieleitocomosendoumadasativi-dadesaseremapoiadasedesenvolvidasnomunicpio.Apartirdeento,juntamentecomoSEBRAE/InstitutoHipotenusa,foirealizadooprimeirocursodecapacitaodeagricultores,com20mdulos,duranteosanosde2001,2002e2003.Apartirda,salvoalgumasvisitasdesuperviso,ficouoEMATERcomaincumbnciadeassistirosprodutores.Noincioogru-po teveaparticipaomdiade35 famlias,massomente12chegaramao final, devido ao fato dos seus participantes estaremmuito dispersosnomunicpiotodoedependeremdetransportecoletivodaprefeitura.Eracompromissodomunicpiodisporde transporte,mass vezes issono

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    ocorria.Cabesalientarquesemprehaviaalgunsprodutoresquedemanda-vaminformaessobreprodutosalternativos,naturaisesemheroicidadeetambm,solicitavamcapacitaonesteassunto.Duranteoanode2006tambmfoiefetuadocursodecapacitaoemAgriculturaOrgnica,com12mdulosdeduraoeparticipaomdiade20famlias.importantesalientarque, semaparceria comSEBRAE/InstitutoHipotenusa/Prefei-turaMunicipal,poucoounadateriasidofeito.Duranteoterceiroanoal-gumasfamliasdogrupoestopresentesnafeiralivre,noincioumavezporsemanaeapartirde2007duasvezes,nasquartas-feirasenossbados,pelamanh.OapoioproduoOrgnica/AgroecolgicanaregiodePatoBrancomuitoinsignificante,tendoemvistaaparticipaodeapenasumtcnicodaEMATER,dolocaldeZelndia.Sabe-sedademandaedaexis-tnciadegruposemquasetodososoutrosmunicpiosdaregio,masquenosomotivados/estimuladosporopoedesconhecimentodos tcni-cosdecadalocal.Emtermosderecursosfinanceiros,poucofoigastocomAgriculturaOrgnica.Sopequenasproduesagrcolasdefrutasegros,absorvidosnoprpriomercadolocal.HouveapropostadeproduoparaademandadaalimentaoescolarOrgnica,masosprodutoresnoen-cararamodesafio.Ummaiormercadodependerdemaisseguranaega-rantianacomercializaodaproduo.

    municpiodecoronelvividaEmCoronelVivida,ondeforamalocadosrecursosparainstalalaodeumaagroindstriaviaPRONAFAgroindstria,umgrupodenoveprodu-toresassistidospelaEMATEReadministraomunicipaldesdeoanode2000, trabalha comestrangeirosorgnicos.Soagricultores familiaresque j participaramde eventos como: excurses, cursos, treinamentospela EMATER e atualmente esto organizados, trabalhando por contaprpria.

    municpiodesaudadesdoiguauNomunicpioexistememtornode30agricultoresproduzindonosistemaorgnico,semcertificao.OInstitutoEMATERestorganizandoumgru-podeagricultoresdeagriculturaorgnicacomointuitodecapacitaoedeorganizaoparacomercializao,deacordocomaengenheiraagrno-maRosneZaragatou,extensionistadoEMATER.

    municpiodeviTorinoNomunicpiodeVitorinohaviaquatroprodutoresqueplantavamsojaor-gnica,quedeixaramaatividade.Foiefetuadocursodepuericulturasor-gnicaspara15produtoresem2002/03,mas,devidodificuldadedeco-mercializaodosprodutoseapreosnocompensatrios,nenhumdelescultivaorgnicos.

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    nilton luiz Fritz

    agroindsTriaregionalAagroindstriatambmtemapresentadoevoluoconstanteemprodutosor-gnicos/diferenciados,transformados,segundodadosdoengenheiroagrno-moJooFranciscoMarchei,doInstitutoEMATER,conformequadroabaixo:

    Quadro 1 Agroindstrias de produtos orgnicos no Sudoeste do Paran

    Municpio Nome Produtos

    AmpreA.S.A. Frango diferenciado

    Burlando Bolachas e massas de soja orgnica

    Barraco Costa Curta Leite envase /linha homeopatia

    Cruzeiro do IguauAPAVEC Frango diferenciado SIP

    Associao de Horticultores Banana in natura

    Francisco BeltroQueijos rbita Queijos colonial

    Mel POLA Mel silvestre

    PlanaltoAMITRA Conservas-opino, cebola

    Inda. Com. Bom na Mesa Acar mascavo-masca

    Pranchita

    So Roque Cachaa orgnica

    Cachaa Irmos Atanazariam Cachaa orgnica

    Cachaa Pranchita Cachaa orgnica

    VerAprove Leite pasteurizado

    Asso. Horticultores /uva Suco e uva orgnica

    So Jorge DoesteMercado do produtor /produtos agroecolgicos

    Frutas e verduras

    Fonte:MARCHEI,J.F.(InstitutoEMATER).

    comerciAlizAo

    geBanaSegundoCsarColuso,daEmpresaAbanares:o nosso pequeno agricultor familiar, cada vez mais ter que procurar produtos diferenciados para conse-guir viabilizar sua propriedade, onde a agricultura orgnica, a agricultura para mercado justo e mesmo culturas alternativas que consigam uma boa agre-gao de valor venham a ser uma boa opo pensando no organismo agrcola, meio ambiente, qualidade de vida e sustentabilidade e tambm econmica.

    Aempresatrabalha:com:soja,milho,feijoadzuki,bananadesidra-tada,trigo,farelodetrigo,leodesoja,lecitinadesoja,farinhademilho,farinhadetrigo,sojatexturizada(PTS),abacaxidesidratadoecachaaejestproduzindoraoparacamaroeenviandoparaoRioGrandedoNorte,ondeusadanacriaodecamaresorgnicos.

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    BiorgnicaDeacordocomadireodaOrgnicaComrciodeProdutosOrgnicosLtda.,dePlanalto-PR:Estamos vivenciando a demanda crescente de produtos orgni-cos no mercado internacional e nacional, e com isso se facilita a comercializao interna de produtos orgnicos. Atualmente comercializamos soja, trigo e milho, e temos boas perspectivas para comercializao futura de feijo, arroz e centeio. A agricultura familiar pode ser um forte aliado na produo de alimentos orgni-cos, podendo ocupar esse espao que ainda est aberto no ramo, pois a agricultu-ra familiar disponibiliza de pequena rea, e mo-de-obra prpria, que so fatores fundamentais. Acreditamos que o manejo orgnico seja um dos meios de viabili-zar financeiramente o pequeno produtor no campo, com dignidade, responsabi-lidade social e ambiental, e, acima de tudo, com qualidade de vida.

    empresagralhaazulAlexandreAcoitaste,diretordaEmpresaGralhaAzulAvcola,trabalhandoaProduodeOvosOrgnicos emFranciscoBeltro,comentaque:aderi-ram ao projeto, 12 famlias de produtores, sendo que seis j esto certificadas para o sistema orgnico e as demais para produto colonial.

    Alexandrecomentaque aves sobre melhores condies de criao, ou seja, garantias de bem-estar para as aves, respondero com melhor desempe-nho, maior resistncia natural e melhor qualidade do ovo produzido.

    AGralhaAzuldprefernciaaospequenosprodutores,garantindoaelesagregaoderendasuapropriedade,consorciandodeformasusten-tvelcomoutrasfontesqueestafamliajpossui,comocriaodegadodeleite,queperfeitamenteseintegraproduodeovossemprejudicarnemumanemoutraatividade.Lembraqueosmanejoscomasvacasdeleiteocorrempelamanhenofinaldodia,enquantoosmanejoscomovosseconcentramnoperododamanheinciodatarde.

    Comoosprpriosconceitosdeproduoorgnicaprevem,fun-damental,parasecertificarumapropriedadecomoorgnica,queestares-peiteautilizaodosrecursosnaturais.

    Aquisedestacamanecessidadedemanterasreasdereservadapro-priedade,aproteodasfontesdegua,autilizaocorretadosolo,bemcomoacorretadestinaodequalquerresduogeradonapropriedade.

    Todososinsumosutilizadosparaaalimentaodasavessodeori-gemorgnica,devidamentecontrolados;tambmosovossorastreados,garantindoaoconsumidorqueelepossaidentificarexatamentequalpro-dutorproduziuoalimentoqueeleestejaadquirindo,bemcomooqueestaaveconsumiunesteperodo.

    Nenhuminsumoqumico,nemtratamentomedicamentosoconven-cionalsoaplicados.Os ovos so devidamente classificados e selecionados, garantindo que o consumidor receba somente ovos de excepcional qualida-de,concluiAlexandre.

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    nilton luiz Fritz

    coopafiParaJosCarlosFarias,presidentedoSistemaCoopafi(CooperativadeCo-mercializaodaAgriculturaFamiliar),a agricultura familiar da regio Su-doeste tem uma capacidade de produzir alimento dentro de uma diversidade de produtos que nossa regio produz.Noquedizrespeitoaprodutosorgni-cosetambmtodosostiposdealimentos,vivemos um limite no armazena-mento dos produtos assim como o beneficiamento dos mesmos. A regio tem necessidade de organizar uma ao no campo de beneficiamento e armazena-mento dos alimentos da agricultura familiar, pois estamos fora de todas as es-truturas em operao da regio, e sempre que demandamos servios nesta rea encontramos barreiras que impedem a nossa participao efetiva ou em pro-gramas institucionais do Estado ou para o prprio consumo dos produtos em nossas atividades da agricultura. Hoje no basta saber produzir. Ser preciso organiz-la de maneira que possamos atingir os mercados com uma identidade e um produto padro da agricultura familiar,concluiJosCarlos.

    insTiTuToemaTerregionalParaSimoFlores,GerenteRegionaldoEmater,a agroecologia no Sudoeste do Paran faz parte do desenvolvimento alucingeno da regio, importante no ponto de vista econmico, sustentabilidade e qualidade de vida.

    Aproduovegetalde1.410agricultoresfamiliaresrepresentaumareade3.891,5ha,comumaproduode18.892,4ha.OSudoestepossui29,94%darea,20,00%dovolumedeproduoe21,6%dosprodutoresdoEstado.

    OInstitutoEmaterpossuiumgrupode17tcnicostrabalhandodeformaprocessualcommetodologiaparticipativaextensivaa825famliasdeagricultoresfamiliares.

    Dentro do contexto de desenvolvimento territorial, trata-se de uma das prioridades que vm sendo contemplada com diversas aes da sociedade organizada, como o belo exemplo do curso de agroecologia da modalidade de educao do campo,conclui.

    cenTroparanaensederefernciaemagroecologia(cpra)Ocupandocercade1000hectaresdoentornodareadeProteoAmbien-taldaRepresadoIra,comsedenomunicpiodeApinhais,PR,oCentroParanaensedeRefernciaemAgroecologia(CPRA)umaautarquiavin-culadaSecretariadeEstadodaAgriculturaedoAbastecimento.

    Amisso institucionaldoCPRAadepromoverecooperarcomaesdecapacitao,pesquisa,extensoeensinonasreasdeagroecolo-gia,agriculturaorgnicaeeducaosocioambiental.

    A fimdeatingir seusobjetivosecumprir suamisso,oCPRAor-ganizadiasde campo, feiras, encontros tcnicos epalestras,bemcomodesenvolveexperimentos,emparceriacominstituiesgovernamentaisenogovernamentais.

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    Seus objetivos e diretrizes so: gerar conhecimentos cientficos etecnolgicos,pormeiodaelaboraodeprojetosdepesquisaevalidao,voltadosagropecuriaorgnica,atendendoprioritariamenteagricul-turafamiliar;aprimoraraformaodeestudanteseprofissionaisemcin-ciasagrrias,oferecendo-lhesoensinodeumaagropecuriaassentadaemnovosparadigmas;promoveraesdeextensoruralaotransferirconhe-cimentoapropriadoaprodutoresetcnicos;promovereducaosocioam-bientaledesenvolveraesdereinserosocial.

    Temcomopblicosprioritriososagricultoresfamiliareseseusde-pendentes,osintegrantesdecomunidadestradicionaiseosestudantesdoensinosuperior.

    reFernciAs

    ABRAMOVAY,Ricardo.Conselhosalmdoslimites.In: O futuro das regies rurais.PortoAlegre:EditoradaUFRGS,2003.

    ALTIERI,M.Agroecologia: adinmicaprodutivadaagriculturasustent-vel.3.ed.PortoAlegre:EditoradaUFRGS,2001.

    CAMBOTA.RevistaAssesoar.Diversasedies.

    CAPORAL,F.R.;COSTABEBER,J.A.Agroecologia: alguns conceitos e prin-cpios.Braslia-DF:MinistriodoDesenvolvimentoAgrrioSecre-tariadaAgriculturaFamiliarDATER:IICA,2004.

    DepoimentosdeTcnicoseAgricultores.

    FRITZ,Nilton Luiz.Avaliao econmico-financeira de uma propriedade rural de Francisco Beltro (Pr).1994.Monografia (Aperfeioamen-to/EspecializaoemAdministraoRural)UniversidadeFederaldeViosa.

    ______.OsrumosdaagriculturaTextoJornaldeBeltroeFolhadoSu-doeste,2001.

    MARTINS,RubensdaSilva. Entre jagunos e posseiros.Curitiba:EstdioGMP,1986.

  • 213

    a agroecologia e as agroflorestas no contexto de umA AgriculturA sustentvel

    luciano zanetti pessa canDiottoGegrafo,ProfessorAdjuntodocursodeGeografiadaUNIOESTEFranciscoBeltro-PR|MembrodoGETERR(GrupodeEstudosTerritoriais)|lucianocandiotto@yahoo.com.br

    beatriz roDrigues carrijoGegrafa,ProfessoraAssistentedocursodeGeografiadaUNIOESTEFranciscoBeltro-PR,MembrodoGETERR(GrupodeEstudosTerritoriais)|biacarrijo@gmail.com

    jackson alano De oliveiraGegrafograduadopelaUNIOESTEFranciscoBeltro-PR|emaildojackson@bol.com.br

    OdebateemtornodaRevoluo Verde,iniciadanadcadade1950etidacomoaprincipalrevoluodahistriadaagricultura,esobresuasconse-qncias,vemsendointensohdcadas,tantonoBrasilquantonomundo.Demodogeral,humtombastantecrticoparaessefenmeno,caracteri-zadopelatecnicizao1epelaindustrializaodosprocessosdeproduoedeprocessamentodeprodutosagropecurios.

    Como contraposio Revoluo Verde, diversos pesquisadoresvmsededicandoaoestudoeaodesenvolvimentodeprticasagrcolasquesejammaisadaptadasscaractersticasdosecossistemas,equenodependamdosinsumosedosmaquinrioscontroladospelasgrandesem-presasdetentorasdastecnologiasagropecurias.

    Nessesentido,pormeiodainiciativadeindivduosinteressadosempromoverumsistemadeproduoagrcolacapazdegerarmenosimpac-tosaomeioambienteesociedadecomoumtodo,duranteosculoXXdi-versasexperinciasagropecuriasalternativasforamdesenvolvidas.Comaexaltaododebateemtornodoaquecimentoglobaledanecessidadedaincorporaodenovasformasdeproduziredeviver,odebruarsobre

    1 Entendemostecnicizaocomosendoaincorporaoeaampliaodofenmenotcnico,ma-nifestadoportcnicasmateriaiseimateriais,conformeaperspectivadeMiltonSantos(1996).

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    tcnicas emtodos alternativos de produo agropecuria tambm temdestaquenesteinciodosculoXXI.

    Deformageral,osprincipaisobjetivosdessasculturasalternativasso:garantiraproduoalimentarparaasubsistnciadosagricultores;ofereceralimentosdequalidadeparaasociedade;propiciarformasdetra-balhoquepermitamaoagricultorvivercomsadeequalidadedevida;eutilizarosrecursosnaturaisrespeitandoadinmicadosecossistemaseabiodiversidade.

    Dentreestasculturasesto:aagriculturanatural,aagriculturabio-dinmica,aagriculturabiolgicaeaagriculturaorgnica,cujosconceitoseobjetivosseencontrambrevementeexpressosnestetrabalho.Dentrodaagriculturaorgnica,temosaagroecologiaeasagroflorestas,quesecons-tituemnosobjetoscentraisdesseensaio.

    Procuramosaquidiscorrersobreosfundamentosdaidiadeumaagriculturasustentvel,comdestaqueparaaagroecologiaeparaossis-temasagroflorestais,queseapresentamcomoatividades integradasquebuscamunireequilibrarinteressesdeconservaoambiental;qualidadedosalimentos;seguranaalimentardasfamliasagrcolasedasociedade;manutenodosagricultores familiaresnocampo;resgateevalorizaosociocultural;eretornoeconmicoparaasfamliasrurais.

    desenvolvimento sustentvel

    Entreofinaldosanos1960einciodadcadade1970,comearamasurgirpublicaesalertandoparaasconseqnciasambientaisdoritmoaceleradodaproduodemercadoriasedaexploraodosrecursosnaturais2.Desta-cam-se,nessecontexto,oRelatrioMeadows,produzidoem1972peloClu-bedeRoma,denominadoOsLimitesdoCrescimento,quealertavaparaocarterfinitodosrecursosnaturaiseparaosriscosdosdiferentestiposdepoluies,fatoscomprometedoresparaasobrevivnciadoplanetaedahumanidade(GONALVES,1992);eateoriadoecodesenvolvimento,deIgnacySachs,tambmdoinciodadcadade1970,clamandopornovosdi-recionamentosemrelaoprpriaconcepodedesenvolvimento.

    Noinciodadcadade1980,aidiadodesenvolvimentosustentvelcomeaaserdivulgadaatravsdapublicao,pelaUnioInternacionaldeConservaodaNatureza(UICN)3,daEstratgiadeConservaoMundial(WCS).TalestratgiafoipreparadaporinstituiescomoaUICN,UNEP(Programa de Educao Ambiental das Naes Unidas), WWF (World

    2 NaobraAhistriadoAmbientalismo,escritaporAugustoCarneiroem2003,humdeta-lhamentodasprincipaispublicaesdapocanestatemtica.

    3 Em1948,aUICNfoifundadasobapremissadequetantoanaturezaquantoseusrecursosdeveriamserprotegidosparaobenefciodasgeraesatuaisefuturas.

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    WildlifeFundation),FAO(FoodandAgricultureOrganization),eUNES-CO(OrganizaoEducacional,CientficaeCulturaldasNaesUnidas),comaparticipaodemaisde100pases(HALL;LEW,1998).

    Em1983,aassembliageraldaONUcriouumacomissoparabus-carharmonizarasquestesdemeioambienteedesenvolvimento,deno-minadaComisso Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento.Apsquatroanosdetrabalho,aComissoelaborou,em1987,orelatrioBrun-dtland,conhecidocomoNossoFuturoComum.Nelesurgiuoconceitodedesenvolvimento sustentvel,queseriaaquelequeatendeasnecessida-desdopresentesemcomprometeraspossibilidadesdasgeraesfuturasatenderemsuasprpriasnecessidades(PNUMA,1988,p.09).

    ApsapublicaodoRelatrioBrundtland,asegundaConfernciaMundialparadiscussosobredesenvolvimentoemeioambiente,realiza-daem1992nacidadedoRiodeJaneiro,constituiu-senoeventorespons-velpelainstitucionalizaoepelaafirmaomundialdodesenvolvimentosustentvel.

    Aampliaodasdiscussessobreodesenvolvimentosustentvelemvriasescalasespaciais(global,nacional,regionalelocal)apontaparaanecessidadedeumusoequilibradodosrecursosnaturais,paramelhordis-tribuiodosbenefcioseconmicoseparamaiorrespeitoevalorizaodeaspectossocioculturaisdasmaisvariadasetnias.Apreocupaocomasgeraesfuturasecomofuturodoplanetacompletamoquepoderiaservistocomofococentraldaidiadesustentabilidade.

    Assim,apartirdadcadade1990,ortulodesustentvelpassaaserutilizadoparaosmaisdiversossetoresdaeconomia,numareferncianecessidadedeprticasvinculadasspremissasdodesenvolvimentosus-tentvel,eatmesmoaomarketing deempresasqueafirmamsersusten-tveis,aoincorporaremalgumapreocupaoambientalemseuprocessoprodutivo.

    Damesmaformaquesefalaemcidadessustentveis,indstriassus-tentveis, empresas sustentveis,oespaoruraleaagricultura tambmpassamareceberortulodesustentvel.

    AgriculturA sustentvel

    ParaAlmeidaeNavarro(1997),aexpressodesenvolvimentoruralsus-tentvelenglobariaaspropostasqueprometemumnovopadroproduti-vo,alternativosformasdedesenvolvimentoconvencional,devidoaofatodeestasseremaltamentedispendiosas,tantonaproduoquantonarecu-peraodeimpactosambientaisjocorridos.

    AltierieMasera(1997) informamqueomovimentoambientalistafoiaprincipalforasocialqueimpulsionouodebatecrticosobreosim-pactosnomundo rural,questionandooatualmodelodeproduorural.

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    Almeidadiscute a idiadeprogresso ededesenvolvimento, enfo-candoodesenvolvimentoagrcolasustentvelcomoumanseioaumnovoparadigmatecnolgicoquenoagridaomeioambiente,servindoparaex-plicitarainsatisfaocomaagriculturaconvencional(ALMEIDA,1997,p.46).Oobjetivodaagriculturasustentvelamanutenodaprodutivi-dadeagrcola,minimizandoosimpactosambientaisepropiciandoretor-noeconmicoquepossibilitediminuirapobrezaeatenderaosanseiosdasociedade.(Op.cit.).

    SegundoEhlers (1999),emmeadosdadcadade1980quesur-gempreocupaesparacomosetoragrcolapredominante.Issosedeuapartirdasconstantespressespblicassobreaspolticasgovernamentaisdedesenvolvimentoquegeravamproblemassociaiseambientais,eprin-cipalmente do agravamento dos problemas ambientais provocados pelaagriculturamoderna,comoeroso,contaminaodasredesdedrenagem,destruiodafaunaedaflora.Porconseguinte,em1984,oConselhoNa-cionaldePesquisadosEstadosUnidos(NRC)iniciavaumcomitparaes-tudarosmtodosalternativosdeproduoeseupapeldiantedaagricultu-ramoderna(EHLERS,1999,p.100).

    Esteeoutrosprogramaseleisqueforamdesenvolvidosespalharam-serapidamentepelomundocomapoiodeentidadescomoaFAO(FoodandAgricultureOrganization),queaOrganizaodeAlimentoseAgri-culturadaONU(OrganizaodasNaesUnidas),eoBIRD(BancoMun-dial),contribuindoparaadivulgaoeaaceitaoemtodoomundodaidiadesistemassustentveisdeproduodealimentos,que,nadcadade1990,jestavamsendopensadosemmuitospases.(EHLERS,1999).

    Ocorre,noentanto,queaagriculturasustentvelpropostapelaFAOepeloBIRD,eoprprioconceitodedesenvolvimentosustentvelinstitu-cionalizadopelaONU,seencontramlimitadosquestesambientais,notendocomofocooquestionamentodaconcentraodariquezaeocresci-mentoeconmicosemlimites.

    NavisodeEhlers(1999),aconcepodesustentabilidadeagrco-lavemtonaparareduzirosproblemassociais,bemcomoadegradaodabiodiversidadeedosrecursosnaturaisdoplaneta,incluindo-se,nestecontexto,ossolos,agua,oar,afaunaeaflora,diantedaperplexibilidadeobservadanossistemasconvencionaisdeproduodealimentosquepro-vocamdanosirreversveisaomeioambienteeaohomem.

    Portanto,almdasquestesambientais,nosepodemdesconside-rarosproblemassociaisrelacionadosagricultura,comoaconcentraodeterras,oxodoruraleaexclusosocialdosagricultores,aexploraodotrabalhoagrcola,afaltaderegularizaofundiria,dentreoutros.

    Entende-se ser sustentvel aquele sistemaquemesmo cultivadoperpetuamentenocomprometaoecossistemafuturo,ouseja,quete-nhaacapacidadedeproduzirporlongasdcadassemdegradarcomple-

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    tamenteasbasesderecursosdasquaisanaturezadependepararegene-rar-se.Paraqueumsistemasejasustentvel,necessrioqueeletenhaefeitosmnimosnoambienteequepreserveafertilidadedosolo,bemcomopermitaamanutenodabiodiversidadeedaqualidadedasguasedoar.(DAROLT,2002).

    Issopossvelatravsdeumplanejamentoprviodoterrenoondeserinstaladooagroecosistema.SegundoDarolt(2002),deve-seternoodequealgunssistemaspodemserprodutivosportempoindeterminadoequeoutrospodem,mesmoemsistemastotalmenteorgnicos,seremde-gradadoscomotempo.Estessistemasquesetornamimprodutivoscomotemponosdoumanoodeseupanoramafuturo.Suacamadasuperfi-cialbiticapodeestarsendoerodidaoudegradadapelocultivo,esuadi-versidadeconseqentementeestaremdeclnio.

    Porisso,Darolt(2002)afirmasernecessrioque,aoidentificarumsistemacomosustentvel,efetue-seumapesquisaprviadareaedetodaabaciahidrogrficaafimdecomprovaratotalestabilidadedoambienteparaumagroecossistema confivel, pois os fatores determinantes destadegradaopodemocorrerdevidoinflunciasexternas.

    Geralmente,aproduoagrcoladependedas tcnicasconvencio-nais,demodoqueasprticasalternativasdeagriculturaacabamsendodesenvolvidasporalgunsagricultores familiares interessadosempreser-varoecossistema,mas tambmemgarantirasobrevivnciadesuas fa-mlias.Noobstante,essesagricultorespodemestarrodeadosdegrandesprodutoresinseridosnosmtodosconvencionaisdeproduoagrcoladealimentos,prejudicandoassimaqualidadeambientalenutricionaldesuaproduo.

    AtoinciodosculoXX,osmeiosdeproduoerammaisrudi-mentareseoauxlioqumicoagriculturapraticamenteneutro,porm,nosdiasatuais,omodeloconvencionaldeproduoutilizadoemgrandeescala,provocandograndesdanosaoecossistemaepopulaodetodaumaregiooubaciahidrogrfica.

    Senopassadoosprodutoresagrcolasnotinhamquesepreocuparcomasinflunciasexternasemsuapropriedade,poisosriscosdecontami-naopraticamenteeraminexistentes,hojeestesnotmcontrolesobreosprodutos txicosoriundosdaproduoconvencionalque fluemparasuapropriedadeatravsdagua (tanto superficialquanto subterrnea),bemcomopeloar,pondoemriscoanimaisesementesouplantaesdetodoumagroecossistemaalimentar.(TORRES,2003).

    Aocultivaralimentosagrcolasorgnicosemdeterminadoterrenolocalizadonaproximidadedecultivaresconvencionais,estesistema,porsuavez,noviraserumautnticosistemaorgnicodeproduo,ouseja,umsistemaquegarantaasustentabilidadenaproduo,poisasinflun-ciastxicasdaagriculturaconvencionalmuitoprximaseroinevitveis.

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    Seaagriculturadevetornar-sesustentvel,significaqueoprocessodeproduoagrcolaconvencionalquevemsendodesenvolvidobasedepoluentesqumicosdevecederespaoaumsistemadecultivoagrcolaquepossibiliteproduosatisfatriasempremriscotodooecossistema,ouseja,umsistemaagroecolgico,combasenaagriculturatradicional.

    Apsoextensoperodocaracterizadopelospousios,sucedidospelossiste-masrotacionaisemistosdaprimeirarevoluoagrcolaefinalmente,pelopadroprodutivodisseminadopelarevoluoverde,provvelqueaagri-culturasustentvelvenhaaserconsideradaumanovafasenahistriadadinmicadousodaterra.Nela,ousoabusivodeinsumosindustriaisedeenergiafssildeversersubstitudopeloempregoelevadodeconhecimentoecolgico(EHLERS,1999,p.147).

    nestecontextoque,apartirdadcadade1980,crescemaspreocu-paesparacomaqualidadedevidaeproblemasambientaisrelacionadospoluiomundialdetodososmeiosprodutivos,reforando-se,nosetoragrcola,aidiadeproduoalternativasustentvelcontraditriaaopa-droconvencionaldeproduodealimentos(EHLERS,1999).

    SegundoEhlers(1999),osmovimentospopularestmgrandeinflun-cianaimplantaodeculturasalternativasquebuscamsersustentveis.Aspreocupaesdasociedadecivilparacomodesenvolvimentodesorde-nadodetecnologiasparaaproduoagrcolapodemcontribuirparaquesejamcriadaspolticaspblicasqueincentivemeamparemodesenvolvi-mento sustentveldaagricultura,promovendo leisque regulamentemodesenvolvimentotecnoqumiconestaagricultura,bemcomocriandopro-gramasqueincentivemformassustentveisdeagricultura.

    Asustentabilidadeestemascendncia,pormraramenteviraseronicoesatisfatriomtododeproduoagrcola.Ehlers(1999)conside-raqueocultivoalternativo,visandosustentabilidade,,nosdiasdehoje,insuficienteparagarantiraproduodealimentosparatodasasnaes.

    Gliessman (2001) aponta que o acesso tecnologia desenvolvidaparaaagriculturaconvencional,emmuitospases,essencial,poisosoloassimcomotodaadiversidadejforamemgrandeescalaexplorados.Aler-ta,contudo,paraofatodequeestetipodeagriculturapassaanecessitardemaisrecursosqumicosparagarantiraproduodealimentosquesa-tisfaamasnecessidadeshumanasalimentares(GLIESSMAN,2001).

    Acreditamosqueasdiscussessobreaagriculturasustentvelde-vemvirparaoprodutoragrcolacomoformademanterascondiesam-bientais existentes, porm no desconsiderando aspectos econmicos esociais.Oquesebuscacomaproduoagrcolasustentvelnoumaproduoemgrandeescalaequevisealucros,isto,umaagriculturacon-vencionalmenosdestrutiva,mas,sim,buscam-seprticasalternativasdeproduodealimentosqueprimempelasadeepeloequilbriodosecos-sistemasedasfamliasruraisquevivemdaagricultura.

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    Destemodo,formasdeagriculturapotencialmentesustentveisde-vemserincentivadaseaplicadasemrelaoaagricultoresquepossuemvnculocomaterraecomosecossistemas.Acreditamosqueosagriculto-resfamiliarespossuemascondiesmaisadequadasparaapromoodeumaagriculturaquepossasersustentvel.SegundoAlmeida(1997,p.52),osucessodasiniciativasatuaisporumnovoediferentemododedesen-volvimentoestnofortalecimentodosprocessosorganizativosdaagricul-turafamiliarnassuasdiversasformasassociativas.

    Nasegundametadedadcadade1980,umreferencialtericoso-breagriculturasustentvelcomeaasertrabalhadoapartirdoconceitodeagroecologia, pensadoporpesquisadores comoGliessman (2001),Altieri(2000),Azevedo(2003),dentreoutros.Aagroecologiaestinseridanaagri-culturaorgnicaepossuiespecificidadesemrelaoaesta.Existem,noentanto,almdaagriculturaorgnica,outrosmtodosdeproduoagr-coladistintosdosmtodosconvencionais,queseapiamemprticasme-nosdegradantes.

    mtodos AlternAtivos de Produo AgrcolA

    Baseando-senocontextodequeaagriculturaconvencional,deformage-ral,umaameaabiodiversidadeeatmesmoaofuturodaproduoagr-cola,surgempelomundonovosmeiosdeproduoagrcolaquepodemga-rantirasustentabilidadedosistema,bemcomorendimentoseconmicos.

    Desenvolvem-se,ento,prticasagrcolasdiferenciadas,quesode-nominadas alternativas, pois rejeitamas tcnicas emtodosdo sistemaconvencionaldeproduo.Dentreessasalternativas,tm-se,segundoAze-vedo(2003),quatrocorrentesdaagricultura:abiodinmica,abiolgica,anaturaleaorgnica,sendoelasasprimeirasmanifestaesdeproduoagrcolacontrriaproduoconvencional.

    Caberessaltarque,desdeosurgimentodaagricultura,diversastc-nicasemtodosdecultivoagropecurioseguiamasleisdanaturezaesepautavamnoaproveitamentodosrecursosnaturaisprovenientesdosecos-sistemas locais. O diferencial dessas formas tradicionais de agriculturacomasformashojeconsideradasalternativasresidenofatodequeosm-todosalternativosforamdesenvolvidosapartirdaconstataodosimpac-tosdetcnicasemtodosconvencionais,ouseja,apartirdeumacontesta-odosrumosqueaagriculturatomouapartirdoinciodosculoXX.

    AgriculturA BiodinmicA

    Idealizadapelo filosofoaustracoRudolfSteiner, sugereoequilbrioeaharmoniaentreaterra,asplantaseosanimais,almdocosmoseoho-mem.SegundoRocha(2004),RudolfSteineralertavaparaaidiadeque

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    asaeshumanasnaagriculturadevemconcentrar-senamanutenoenarecuperaodosolo,pois,noscasosdequedadeproduo,noaplantaqueadoece,mas,sim,osolo.

    Aagriculturabiodinmicadefinidacomoumacinciaespiritualqueseutilizadebasesastrolgicasecompostosbiodinmicos,ouseja,sopreparadoscompostoslquidosbasedesubstnciasminerais,vegetaiseanimais,quesoaplicadosaosoloebaseadosemperspectivasenergticas,evisamproteoeconservaodomeioambiente.(DAROLT,2002).

    Essaformadeagriculturaconsideradaamaiscomplexadentreasformasdeagriculturaalternativa,poissefundamentaemumarelaodeinterdependnciaentreosseresvivoseocosmos.Naagriculturabiodin-mica,asfasesdaluaeoutrosfenmenosastronmicossoconsideradosnastcnicasemtodosdecultivo.

    AgriculturA BiolgicA

    Omaisimportantedaagriculturabiolgicaaintegraodosrecursosna-turaisdapropriedade,visandoaodesenvolvimentoemconjuntodaprodu-oedamanutenodosecossistemas.Seufocosednasadedaplantaedosolo,considerandoqueUmaplantabemnutrida,almdeficarmaisresistentedoenasepragas,forneceaohomemumalimentodemaiorvalorbiolgico(DAROLT,2002,p.9).

    Na agricultura biolgica, recomenda-se a incorporao de rochamodaaosolo,poisafertilizaodossolosnoexcluiaadubaomineral,massuabasedeveserorgnica.Apesardebuscaroaproveitamentodosrecursosdapropriedade,Ehlers(1999)alertaparaofatodequeamatriaorgnicautilizadanaproduopodeserdeprocednciaexterna,ouseja,aagriculturadevefazerusodevriasfontesdematriaorgnica,sejamestasdocampooudacidade(p.56).

    Quantoaomanejodosolodeve-se tercomometapropiciarcon-diesadequadasparaocrescimentoemanutenode suamicrobiota(EHLERS,1999,p.58),ouseja,dasdiversasformasdevidaquehabitamosolo.

    AgriculturA nAturAl

    Com gnese no Japo a partir de 1935, atravs dos estudos domestreMokitiOkada,aagriculturanaturaltevecomoprincpiorespeitarasleisnaturais,recomendandoaoprodutorrotaodeculturas,usodeadubosverdes,empregodecompostoseusodecoberturamortasobreosolo(EH-LERS,1999,p.64).

    Essemtodotemcomoprincipalobjetivoareduomximadoim-pactosobreoecossistema,respeitandoasleisdanatureza;porisso,no

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    soaceitas,nestesistemadeproduo,nemaremoodosoloenemauti-lizaodedejetosdeanimaiscomofertilizante.Opreparodosolofeitoatravsdoauxliodemicroorganismosecompostosorgnicosdeorigemvegetal(DAROLT,2002).

    Assim,aagriculturanatural,aocontrriodabiolgica,noutilizainsumosexternosspropriedadesrurais,nemincorporarejeitosdeoutrasatividades,comonocasodosdejetosdeanimaiscomoadubo.Seuprinc-piobsicoresidenamanutenodoequilbriodoecossistema,quesedpormeiodeummanejosimplesdosrecursosnaturais.

    AgriculturA orgnicA

    IdealizadaporSirAlbertHoward,entreosanosde1925e1930,nandia,resultavaemummeioalternativodeproduo.Opondo-seaomeiodepro-duoconvencionalqueseexpandiarapidamentepelomundo,emespe-cialnaEuropaenosEUA,aproduoagrcolaorgnicaressaltavaaim-portnciadamatriaorgnicanoprocessoprodutivo(EHLERS,1999).

    Desde1920,quandoosfertilizantesqumicoscomearamaserusadosco-mercialmenteemlargaescala,tmhavidodennciasdequeaagriculturaqumicaproduzcolheitasdealimentosmenos saudveis enutritivos.Emtornode1940,omovimentoorgnicoeuropeucomeouaganharforas,empartepelacrenadequealimentosorgnicoserammaissaudveis(AZEVE-DO,2003,p.44).

    Aproduoorgnicatodaaproduoagrcolaanimalouvegetalemqueseadotamtecnologiasqueprezempelosrecursosnaturais,respeitandoaintegridadedoscultivarescomoobjetivode,emharmoniacomoambien-tenatural,serauto-suficienteaohomem.Ano-utilizaoderecursosnorenovveis,bemcomoaeliminaodoempregodeagrotxicos(comofun-gicidas,herbicidas,inseticidasebactericidas)oudefertilizantessintticosedesementesgeneticamentemelhoradasemqualquerfasedoprocessodeproduo,armazenamento,distribuioeconsumodealimentosagrcolas,oquedefineaproduoagrcolaorgnica(AZEVEDO,2003).

    Aidiadeproduzirdeformaorgnicasurgecombasenosprimr-diosdaagriculturatradicional,ondeousodeinsumosedetcnicasagr-colaserareduzido,pois,antesdarevoluoverdenoexistiaminsumosqumicosnemmquinasagrcolas.

    ParaDarolt(2002,p.09),aproduoorgnicabaseadanamelho-riadafertilidadedosoloporumprocessobiolgiconatural,pelousodamatriaorgnica,oqueessencialsadedasplantas.

    Hmuitotempo,ohomemjpossua,portanto,conhecimentosdeagriculturaorgnica,masestesforampraticamenteignoradosapartirdadisseminaomundialdarevoluoverde.Foisomenteapsapercepodahumanidadesobreosimpactossocioambientaisdarevoluoverde,e

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    sobreanecessidadedeprticasagrcolasmaisautnomasemenosdegra-dantes,queaagriculturaorgnicaretornaaodebateacadmico.

    SegundoAzevedo(2003),aproduoagrcolaorgnicavisaofer-tadeprodutosmaisnutritivos e saudveis aohomemsemprejudicaroambiente,ampliandoepreservandoassimadiversidadedoecossistema,e, almdisso,promovendoa regionalizaodaproduoe consumodealimentosagrcolas,edandoincentivoparaaintegraoentreprodutoreconsumidor.Paraopesquisador,esteomtodoalternativoquemaisseaplicanoBrasil,eemespecialnaRegioSul,dandoenfoqueparaaagri-cultura familiar.Conseqentemente, estudar e compreender aproduoagrcolaorgnicatorna-seessencial,considerandoofatodequeomodis-mo orgnicovemconquistandoespaoacadadia.

    Aagriculturaorgnicaconsisteemumaprticacontrriautiliza-odeprodutosqumicosna lavoura,ecapazdesuprirasnecessidadesdopequenoagricultor,poisomtododestinadopequenapropriedaderural,naqualestejainseridooprocessodemo-de-obrafamiliar(AZEVE-DO,2003).Ocorre,contudo,queelapodeserevemsendoimplementadaedesenvolvidaporqualquertipodeagricultor,desdeumcamponsatumgrandeprodutorouempresadealimentosorgnicos.

    Nabuscadediferenciarumaagriculturaorgnicarealizadaporpe-quenosprodutoresfamiliares,onde,almdavarivelambiental,seprimeporbenefciosemelhoriassociais,deumaagriculturaorgnicarealizadacomomaisumnegciodeterminadopelalgicadomercado,surgeocon-ceitodeagroecologia.Esta,almdeserummeiodeproduoecologica-mentecorretoqueseopeaoatualmodeloagrcolaconvencionalpredo-minantenomundo,,sobretudo,umaformadeproduoquesatisfazevalorizaopequenoprodutor,integrando-oaoambienteesociedade.Nes-sesentido,aagroecologiaincorpora,aosobjetivosdeconservaoambien-talpresentesnaagriculturaorgnica,objetivossociais,ondeagricultoreseconsumidoresdevemservalorizadosebeneficiadosnoprocesso.

    Aagriculturaorgnicasefundamentanoabandonodousodeinsu-mosqumicosenasubstituiodestesporinsumosnaturaiseportecno-logiasadaptadasaosecossitemaseagroecossistemas.Seuobjetivoreside,portanto,emproduziralimentosdeformaecologicamentecorreta,nosepreocupandonecessariamentecomaconcentraoderiquezanasmosdosagricultoresmaiscapitalizadosecomasquestessociaiseculturaisqueenvolvemoespaorural.

    J a agroecologia incorpora os objetivos da agricultura orgnica,mastambmquestionaaconcentraoderiquezaeaexploraodaforadetrabalhodospequenosagricultores.Nela,almdoequilbrioambiental,prima-sepelaqualidadedevidaepelareduodadependnciadosagricul-toresemrelaoscorporaestransnacionaisvinculadasagricultura.Asadedafamliarural,oaproveitamentodosrecursosnaturaisdaproprie-

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    dade,apolicuturaeoextrativismo,aaproximaodiretacomoconsumi-dor,acriaodemercadosjustosfundamentadosnaeconomiasolidria,eapolitizaodosagricultores,paraqueestessejamprotagonistasdodesen-volvimentorurallocal,seapresentamcomoelementosfundamentais.

    Assim, poderamos dizer que ela uma das formas de agricultu-raorgnica,assimcomotodasasprticasagroecolgicasfazempartedaagriculturaorgnica,masquenemtodaaagriculturaorgnicaseconstituiemagroecologia.

    AgroecologiA

    Aagroecologiaumadasopesquevemsendodestacadasdentrodocon-textodeumaagriculturasustentvel,pois,almdeproduzirsemagrotxi-cos,encontra-sedestinadasubsistnciaequalidadedevidadopequenoprodutorruraledesuafamlia,nodeixandodeladosuainseroemummercadocadavezmaior,queodeprodutosagroecolgicos,masatuandonomercadocomrelaesmaissolidrias.

    SegundoGliessman(2001),aagroecologiaumafusodaagronomia(cinciaqueestudaespecificamenteosmtodosagrcolas)comaecologia(cinciaqueestudaossistemasnaturaisemtodooseumbito)eseconstituiemumacincia.Tevesuagnesenosanos1920,consumando-senops-IIGuerraMundial,quandocadavezmaisecologistasdomundointeiropassa-ramaanalisarecossistemasdeproduoafimdepromovermudanasnaproduoagrcola,possibilitandoasustentabilidadedoagroecossistema.Aagroecologiaproporcionaoconhecimentoeametodologianecessriosparadesenvolverumaagriculturaqueambientalmenteconsistente,altamenteprodutivaeeconomicamentevivel(GLIESSMAN,2001,p.54).

    Namesmalinhadeanlise,Altieri(2000,p.18)entendequeelacon-siste emuma nova abordagemque integra os princpios agronmicos,ecolgicosesocioeconmicoscompreensoeavaliaodoefeitodastec-nologiassobreossistemasagrcolaseasociedadecomoumtodo.

    ParaAzevedo(2003),aagroecologiaapresentaumasriedeprin-cpiosmetodolgicosquepermitemestudar, analisar,dirigir,desenhareavaliarecossistemas,contribuindoparaodesenvolvimentodeumaagri-culturasustentvelecomplexa,capazdegerarsatisfaoeconmicasocialeambiental.

    Gliessman(2001)tambmapontaparaseuduplopapel,comocin-ciaecomomovimentopoltico.

    [...]porumlado,aagroecologiaoestudodeprocessoseconmicosedeagroecossistemas,poroutro,umagenteparaasmudanassociaiseecol-gicascomplexasquetenhamnecessidadedeocorrernofuturoafimdele-varaagriculturaparaumabaseverdadeiramentesustentvel(GLIESSMAN,2001,p.56)

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    DamesmaformaqueaEcologiasefundamentanoconceitodeecos-sistema,aAgroecologiatemseufoconoconceitodeagroecossistema.Al-tieri(2000)eGliessman(2001)informamqueosagroecossistemassecons-tituemnaunidadedeestudodaagroecologia.ConformeafirmaGliessman(2001),umagroecossistemadefinidoporumconjuntocomplexoderela-esentreorganismosvivoseseumeio,delimitadoapartirdaconstataodesimilaridadebiticaeabiticaemdeterminadasreasagrcolas.

    Aagroecologiadeveserambientalmentesustentveleeconomica-menteprodutiva,ouseja,noconsisteto-somentenofatodeexonerarporcompletoasprticasconvencionaisdeproduo,mas,sim,emutilizartec-nologiasecologicamenteviveis,incorporando-asaumnovopadropro-dutivoquegarantaproduosatisfatria sempremrisco todoomeioambienteeaprpriasadehumana.(GLIESSMAN,2001).Maisdoquecombinarbenefciosecolgicoseeconmicos,aagroecologiaapresenta,contudo,amplaspreocupaessociais.

    Como afirma Azevedo (2003), a complexibilidade de um sistemaagroecolgicoestendesuaspreocupaestambmaosocioeconmico,ouseja,preservaodoambientenaturalvisandoaocultivoagrcolaper-manentededeterminadarea,estaatreladasatisfaohumana,tantonoqueserefereaodesenvolvimentoeconmicoquantoquestodeinclusosocialedivisodotrabalho(AZEVEDO2003).

    Cabeentoagroecologiapensarnaprodutividadeagrcolaapartirdadinmicadecadaecossistema,edesuatransformaoemagroecossis-temassustentveis,buscandocompatibilizarbenefciosambientais, eco-nmicosesociais,sobretudoparaosagricultoresfamiliaresenvolvidos.

    Altieri(2000)tececrticasquelesquerestringemaquedadepro-dutividadeagrcolafaltadetecnologiasadequadasemenosimpactantes.Apesarde reconhecera importnciade tcnicasdemanejoalternativas,haja vista que a agroecologia busca a dependnciamnimade insumosagroqumicoseenergticosexternos,opesquisadorentendequeasusten-tabilidadeagrcoladepende,sobretudo,demudanassocioeconmicas.

    Osenfoquesquepercebemoproblemadasustentabilidadesomentecomoumdesafiotecnolgicodaproduonoconseguemchegarsrazesfun-damentaisdano-sustentabilidadedossistemasagrcolas.Novosagroecos-sistemassustentveisnopodemserimplementadossemumamudananosdeterminantessocioeconmicosquegovernamoqueproduzido,comoproduzidoeparaquemproduzido(ALTIERI,2000,p.17).

    Guzmn tambm vincula a agroecologia com um projeto polti-co,decunhosocial.Aestratgiaagroecolgicaconstituirianomanejoecolgicodosrecursosnaturais,que,incorporandoumaaosocialco-letivadecarterparticipativo,permitaprojetarmtodosdedesenvolvi-mentosustentvel(GUZMN,1997,p.29).Paraopesquisador,aescalalocalteriaumpapelcentral,pois,atravsdaarticulaodoconhecimen-

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    tocamponscomocientfico,seriapossvelaimplantaodesistemasdeagriculturaalternativapotencializadoresdabiodiversidadeecolgicaesociocultural.

    Assim,aoimplantarumagroecossistemacombasenaagroecologia,aidiadepreservarcaractersticasdoecossistemanatural,assegurandoumaproduoagrcolasaudvelesatisfatriasocialeeconomicamente.

    Dentrodaestratgiaagroecolgicaexistemdiferentestcnicasem-todosagrcolasquesecombinam,comoapermacultura,oplantiodireto,adivisodereasparapermitirpousios rotacionados,a reutilizaodagua,ossistemasagroflorestaisetc.Procuramos,aseguir,apresentaralgu-masconsideraesarespeitodasagroflorestas.

    AgroFlorestAs

    DeacordocomWiersumapudGliessman(2001),otermoagroflorestas foidadoprticasqueintencionalmentemantmourecompemacoberturaflorestal,isto,herbceaearbrea,emterrasusadasparaagriculturaoupastoreio.

    Oprincpiodasagroflorestassebaseianasucessoecolgica,queconsistenodesenvolvimentodeestgiossucessivosderecuperaodoam-bienteflorestal,sendoque,emcadafasederecuperaoseprocurautilizarespciesnativasadequadasparadeterminadafinalidade.Temos,portan-to,nomanejoagroflorestal,aagrossilvicultura(manejodervorescomacultura);ossistemassilvopastoris,quecombinamflorestascomproduoanimal;eossistemasagrossilvopatoris,ondehcombinaodeagricultu-ra,florestaseproduoanimal.

    Quando um solo abandonado, a primeira vegetao que apare-ce so pequenas unidades rasteiras. Em seguida, comeam a apareceros capinsmais consolidados e s aps estes que aparecemasplantasherbceas. Juntamente comasplantasherbceas eosarbustos, surgemasespciesgramneas,e,apsalgumtempo,quevariadesoloparasolo,asgramneascedemlugarparaascapoeiras,compostastantoporplantasherbceascomoporarbustos,emvirtudedosombreamentoqueimpedeaproliferaodasgramneas.

    Apartirdoestgiodascapoeirasqueumaflorestainiciasuatraje-triaatchegarasuaestabilidadecomoaparecimentodervoresgrandesdafloranativadedeterminadaregio.

    Comoinciodaformaodosistemaagroflorestal,ossolosabando-nados,queanteserampraticamentenus,passamaterpelomenosquatrocamadasdeproteo:asrazes;asfolhaseosgalhoscadosnasuperfcie;avegetaointermediria;easrvoresmaiores.Acaractersticadestesoloagoraagrandequantidadedehmuseelementosmicrobiticos,almdapresenadeseresmaiores,comoasminhocas.

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    Quandomanejamosumaflorestaparaobtermosalgumaespciedebenefciosemdegrad-la,estamospraticandoumaatividadechamadadeextrativismo,muitodesenvolvidapelos ndios.Quandoiniciamosumare-cuperaodeumsolodegradadoeabandonado,tendoemvistaasucessonaturalcitadaacima,atchegarcaractersticasprximasdeumafloresta,pormimplantandoespciesdeinteresseagrcolajuntamentecomespciesnativas,estamosdesenvolvendoumaatividadechamadaagrofloresta.

    OpontoemcomumentreaAgroecologiaeossistemasagroflorestais que ambospretendemotimizar os efeitos benficos das interaes queocorrementreasrvores,oscultivosagrcolaseanimais,ouseja,obteramaiordiversidadedeprodutos,diminuiranecessidadede insumosexter-nosereduzirosimpactosambientaisnegativosdaagriculturaconvencional.Estaafinidadedeobjetivospossibilitaqueossistemasagroflorestais,inseri-dosnumcontextoagroecolgicodeproduo,contribuamsignificativamen-teparaodesenvolvimentoequilibrado,integradoeduradourotantodapai-sagemnaturalquantodascomunidadeshumanasquenelahabitam.

    Considerandoapertinnciadaimplementaoedadivulgaodeexperincias ligadas aos sistemas agroflorestais, procuramos, a seguir,apresentarbrevementeosfundamentoseosresultadosdeumprojetode-senvolvidonoSudoestedoParan,comapoiodoMinistriodoMeioAm-biente,atravsdoFundoNacionaldoMeioAmbiente.

    AgroFlorestAs no sudoeste do PArAn

    Oprojeto denominadoReferncias em Sistemas Agroflorestais foi imple-mentadopelaONGASSESOAR(AssociaodeEstudos,OrientaoeAs-sistncia Rural), que trabalha diretamente com agricultores familiaresdoSudoesteparanaense.OreferidoprojetotambmteveparticipaodaUnioeste(CampusFranciscoBeltro-PR),pormeiodeumsubprojetodeextenso,intituladoEducao Ambiental e Recomposio Florestal: aplica-o em Sistemas de Referncias Agroflorestais no Sudoeste do Paran,desen-volvidopelaprofessoraBeatrizR.Carrijo.

    OprojetodaASSESOARbuscouobteramelhoriadascondiesedosrecursosambientaisdomeioruralnaregioSudoestedoParan,especialmenteemrelaoguaeaocomponenteflorestal,atravsdaconstruoeda implementaode refernciasemsistemasagroflores-taisecolgicos.OobjetivoprincipaldoProjeto,desenvolvidoentre2004e2007,foicapacitaragricultoresfamiliaresnaimplementaodetcni-casdemanejoagroflorestal,aopontodesetornaremrefernciasemseusmunicpios, edivulgaremseus conhecimentosparaoutrosagricultoresfamiliaresinteressados.

    SegundoaASSESOAR(2005),esseprojetotevetambmosseguin-tesobjetivosespecficos:

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    a) Construir e implementar Unidades de Referncia em SistemasAgroflorestaisEcolgicos (SAFEs)emdezgruposdeagricultoresfamiliaresagroecolgicosdaregioSudoeste,recompondoreasdecapoeiraseoutrasreasprodutivasdegradadasnaspropriedades,atravsdautilizaodeespciesflorestaisnativas,espciesfrutfe-rasnativaseexticasadaptadas,eespciesmedicinais.

    b) Recompore/oureflorestarreasdematasciliareseoutrasreasdepreservaopermanente,nosgruposecomunidadesenvolvidasnoProjeto,equefazempartedemicrobaciasconsideradasprioritrias,comespciesflorestaisnativas,espciesfrutferasemedicinaisnati-vas,utilizando-se,paraisso,deaesdeeducaoambiental.

    c) Promoveracapacitaobsicadosagricultoresfamiliaresdosgru-pos,comotambmdetcnicosedelideranasenvolvidas,emtecno-logiasagroflorestaisecolgicasenarecuperaoeconservaodosrecursosnaturais;comcursosespecficoseatividadesdeintercm-bioetrocadeexperinciasparaagricultoresetcnicos.

    d) Sistematizar a experincia, elaborando e produzindo publicaesrelacionadascomasaesdoProjeto,comoformadedifundirosresultados,avanoseimpactospositivosalcanados;comotambmcomopropsitodesubsidiaracapacitaodosagricultores.

    e) Viabilizaralternativaseconmicasagroecolgicasesustentveisaosagricultoresfamiliares,buscandopropiciaroestabelecimentodeca-naisdecomercializaosolidria.

    ParticiparamdoprojetodezmunicpiosdoSudoestedoParan,sen-do:DoisVizinhos,Marmeleiro,SaltodoLontra,Capanema,SalgadoFilho,FranciscoBeltro,NovaPratadoIguau,SantaIsabeldoOeste,ProladoOesteeCoronelVivida,sendo15famliaspormunicpio,edeacordocomele, foramdefinidos, juntamente com as lideranas rurais, os seguintescritriosbsicosparaaseleodosgrupos:

    a) gruposdeagricultoresfamiliares;

    b) gruposquejestivessemdesenvolvendoaagroecologia(mesmocompropriedadesaindaemconverso);

    c) gruposdeagricultoresfamiliaresquetivessemprioridadenareposi-odereservasflorestaisematasciliares,tendoemvistaadegrada-oambiental(problemascomagua,desmatamentos,erosodossolosetc.)nasmicrobaciasondeestoinseridos;

    d) gruposlocalizadosnosdezmunicpiosjindicados;

    e) gruposquejmanifestaram,emoportunidadesanteriores,seuinteres-seedisposioemdesenvolverpropostasderecuperaoambiental.

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    Alm das reunies de capacitao sobremanejo agroflorestal, le-gislao ambiental e temas correlatos, o projeto tambm contemplou ofornecimentodemudasparaaconstituiodasagroflorestas,buscandorecomporasreascomespciesnativas,queposteriormentepodemsermanejadasparafinseconmicos.

    Para a constituio das agroflorestas foram feitas capacitaesquantoformaoeestruturaodasucessodasespcies,seguindooquadroabaixoquetratadasespciesnativasdivididasdeacordocomosestgioscorrespondentes,ouseja:a)asespciespioneiras,quesoaquelasqueiniciamedosuporteaoprocessodeformaodasagroflorestas;b)assecundrias,quesedesenvolvemnumestgiosucessivospioneiras;ec)asespciasdeclmax,quesedesenvolvemquandooambienteflorestalestbemconsolidado.Foramutilizadasaindasespciesmedicinaisnati-vas,cultivadastantoparafinsdeconsumoprpriodosprodutores,comotambmparafinsdecomercializao.

    Oprojetofoiiniciadoem2004ehojepossvelavaliaralgunspassosquejforamdados.Oprimeiroaspectoasalientarquantoabrangnciadainiciativaque,porcontemplarumareabemdiversaedistante,reque-reubastante tempo e dedicaopara todas as atividadesdesenvolvidas.Emcontrapartida, issopossibilitouumamaiordifusodaexperinciaedasreasderecuperaoambientalpropostasnoprojeto.

    Nafasedeplantiodemudasdestacamosalgunselementosquefo-ram fundamentais para o processode implantaodas agroflorestas.Operododeaquisioededistribuiodemudascoincidiucomumaestia-gemprolongadanaregio,exigindoaaquisiodeumanovaremessaeoreplantionasmesmasreas.Asdificuldadesnomanuseio,notransporteenotratocomasmudasdentrodaspropriedadestambmfoiumelementoquechamouaatenoemrelaonecessidadedoprocessodecapacita-odosagricultoresespecificamenteparaomanejodasagroflorestas.

    Outroelementomarcantefoiquantocapacitaonatemticarela-tivalegislaoambientalrelacionadasreasdereservalegalereasdepreservaopermanente.

    Comociclodeoficinassobrelegislaoambiental,foipossvelveri-ficarqueosagricultoresnotinhamconhecimentodosaspectoslegaisqueenvolvemaspropriedadesruraisnoqueserefereaomeioambiente.Dadecorreuadificuldadedeaplicarosprincpioslegais,oquenoimpedeoprocessoderecuperaodereasdegradadasedereasdemananciais.

    Comoamaioriadaspropriedadespossuimenosque30hectares,ficapraticamenteinvivelquesecumpramasprerrogativasbsicasdoSISLEG(SistemadeManuteno,RecuperaoeProteodaReservaFlorestalLe-galereasdePreservaoPermanente),deaverbaode20%davegetaonativacomoreservalegal;dedelimitaodasreasdepreservaoperma-nentecom,nomnimo,30metrosemcadamargemdoscanaisfluviais;ede

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    preservaodeumraiode50metrosemtornodasreasdenascentes.Notocanteaessesassuntos,asdiscussescomosagricultoresforampolmicaseacirradas,poismuitosdelesentendemquealegislaovemparaprejudi-carsuasobrevivncia,eque,enquantoohomemdocampotemdecumprirvriasleis,apopulaodascidadescontinuadegradandoomeioambiente.

    Osdebatesgiraramemtornodafunosocialdaterra,dadificul-dadedepermannciadopequenoagricultorfamiliarnocampoedaimpu-nidadeemrelaoaosgrandesprodutores.Como,noentanto,muitosdosagricultoressentiramdiretamenteosefeitosdaestiagem,comearamaseassociarparapreservarsuasmatasciliaresenascentescomogarantiaderecursohdricoparaofuturo.

    Almdosaspectoslegais,asdiscussesemtornodasagroflorestascomoalternativadedesenvolvimentoparaaspequenaspropriedades foiintensiva,umavezqueumadasbasesdoprojetoacomposiodessesSistemasdeRefernciasAgroflorestais.Ficouclarotambmque,demodogeral,hapredisposioemcumprirasnormativaslegais,masafaltadeconhecimentosobreoassuntoeadescapitalizaodoprodutordificultamessa adequao.Emalgunsmunicpios as discusses se encaminharamparaumquestionamentodoaspectolegal,fazendocomqueosgruposseorganizassemparaaprofundarodebatenatentativadediscutirumapos-svelrevisodaleiaplicadapequenapropriedade.

    Se,demodogeral,oprojetoencontroualgumasdificuldades,caberessaltarque,comcerteza,somenoresdoqueseestesagricultoresesti-vessemdentrodeumsistemaconvencional.Almdemelhoriasdaqualida-deambiental,daqualidadedevidadasfamliasedeumanovaperspectivadeganhoseconmicos,oProjetobuscoumostraraimportnciadoprota-gonismodosagricultoresemseuprocessodedesenvolvimento,bemcomoapossibilidadedeumacertaautonomia,comaadoodeprticasagroe-colgicaseagroflorestais.

    Sabe-sequeoretornofinanceirodossistemasagroflorestaislento,masgarantido,poissepautanadiferenciaoenaqualidadedaprodu-o,assimcomonosprincpiosdaagroecologia.Asagroflorestasseapre-sentam,portanto, comomaisumaalternativadecultivodentrodeumaamplaestratgiaagroecolgica,que,porsuavez,buscacontribuirparaasustentabilidadenaagriculturaenoespaorural.

    considerAes FinAis

    Comoprocuramosmostrarnessetexto,aagroecologiafazpartedeumadasprincipaiscorrentesqueobjetivamdesenvolverumaproduoagrcolaalternativaaomodeloconvencionalpredominantedesdemeadosdoscu-loXX.Essacorrenteaagriculturaorgnica,que,damesmaformaqueascorrentesdaagriculturabiodinmica,biolgicaenatural,tidacomo

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    formaalternativadeagriculturaquepodeconduzirsustentabilidade,todebatidanosdiasatuais.

    Altieri(2000)eGliessman(2001)indicamoduplocarterdaagroe-cologia,aqual,almdeserumacinciaquetemcomobaseainteraoen-treoselementosbiticoseabiticosdosecossistemas,possuifundamen-tosqueatornamumaforteestratgiapolticaeideolgica,cadavezmaisadotadaporcamponesesesuasinstituiesrepresentativas.Acreditamosqueosargumentosemtornodaagroecologiasoextremamenteplausveis,poisfortalecemaconcepoeascaractersticasdeautonomiadaagricul-tura familiar,garantindoa sobrevivnciadas famliascomqualidadedevida.preciso verificar, no entanto, as intencionalidadespresentesnosdiscursosenasprticasquesedenominamagroecolgicas,eosresultadoseconmicos,sociaiseambientaisdessasestratgias.

    Sabendodas limitaesdaagriculturaorgnica,econsiderandoaimportnciadaagriculturafamiliarnoBrasil,procuramosdemonstraramaiorcomplexidadedaagroecologiafrenteagriculturaorgnica,edis-cutiraagroecologiaeasagroflorestascomoestratgiasintegradasdepro-duoedevidaparaasfamliasrurais.

    Maisdoqueproduzirde formaecologicamentecorreta,precisodarcondiesparaqueosagricultoresfamiliarespermaneamnocampocomqualidadedevida,mantendo-secomoagricultoresereafirmandosuaidentidadecamponesa.Para tanto,nobasta incentivar somenteaagri-culturaorgnica,poisestapodeserconiventecomocontroledaproduoorgnicaporpartedeempresaselatifundirios.Apesardeminimizarosproblemasambientais, aagriculturaorgnicanobastapara reduzirasdesigualdadessociais.

    Assim,paraalmdela,urgeincentivaraagroecologiacomoestra-tgiaprodutivaededesenvolvimentorural.Porentendermosodesenvol-vimentoruralparaalmdoagrcolaedirecionado,sobretudosfamliasrurais,aagroecologiaeasagroflorestasseapresentamcomoestratgiaspotencialmentepromotorasdeumdesenvolvimentoque,mesmonosen-dototalmentesustentvel,temcomofocoaconservaoambiental,asa-dedapopulaoruraledosconsumidoresdascidades,eamelhoriadaqualidadedevidadosagricultoresfamiliares,todiscriminadosesubesti-madosnahistriadoBrasil.

    Aexperinciavivenciadanoprojetodesistemasagroflorestaisde-monstrou que o caminho para a expanso da agroecologia e das agro-florestas longo e rduo, pois tais estratgias de sobrevivncia vm seapresentandocomoformasderesistnciaaomodelodedesenvolvimentoprodutivistaemercantil.Poroutrolado,asdiversasaesligadasaessasestratgias,promovidaspormovimentossociais,porONGseporinstitui-espblicas, indicamquetaisalternativasvmsematerializandoega-nhandoforanodebatesobredesenvolvimento.

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    luciAno z. P. cAndiotto | BeAtriz r. cArrijo | jAckson A. de oliveirA

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    centro de APoio Ao Pequeno Agricultor*: exPerinciAs e desAFios em AgroecologiA**

    valDir luchmanTcnicodoCAPA(CentrodeApoioaoPequenoAgricultuor)Ver-PR|capasud@vere.com.br/capa-vere@capa.org.br

    OCentrodeApoioaoPequenoAgricultor(CAPA)umaorganizaono-governamental(ONG)ligadaIgrejaEvanglicadeConfissoLuterananoBrasil(IECLB),fazendopartedoseucompromissodeIgreja,quenoseconformacomasinjustiassociaiseaagressonatureza.

    ApropostadoCAPAapoiarofortalecimentodasfamliasdeagri-cultoresparaqueeles, juntocomoutrossegmentosdasociedade,parti-cipemnodesenvolvimentobaseadonosprincpios de agroecologia e decooperaoatravsdeexperinciascomproduo,beneficiamento,indus-trializaoe comercializao,que sirvamde sinaisdequeomeio ruralpodeserumespaodevidasaudvel,derealizaesedeviabilidadeeco-nmicaparatodos.

    Criadoem1978,surgiunomomentoemqueosagricultoresfamilia-reseramexpulsosdocampoporumnovomodeloeconmico,concentra-dorderendaedeterraquepassouadestruirasadedaspessoaseomeioambiente.Comele,aIECLBfirmouumgestoconcretoporjustiasocial,baseando-senoprincpiodequefevidadevemandarjuntas.

    * Colaboradoresda equipe tcnicadoCAPA:DcioAlceuCagnini (Tcnico emHorticultu-ra),MariaHelenaMari(EngenheiraAgrnoma),RomeSchneider(EngenheiraAgrnoma),ElaineZanetti(AssessoraAdministrativa).

    **Oautornoapresentourefernciasparaessetexto.

  • desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA

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    Hoje,aagriculturafamiliarcontinuaaenfrentardesafios.Viabili-zarapequenapropriedadeexigeorganizaoepreparo.Desdeoincio,oCAPAbuscoucontribuirparaaprticasocialedeserviojuntosfamliasdeagricultores,comoumaestratgiadedesenvolvimentosustentvel.

    AtendeosEstadosdoRioGrandedoSul,SantaCatarinaeParan,pormeiodecinconcleos:Erexim,PelotaseSantaCruz(RSeSC);Ma-rechalCndidoRondoneVer(PR).Sobeneficiadasemtornode5.400famlias,incluindoagricultoresfamiliares,indgenas,quilombolasepesca-doresprofissionaisartesanais.

    ONcleoVeriniciousuasatividadesemsetembrode1997,tendocomoreadeabrangnciaboapartedaregioSudoestedoParan.Hojeostrabalhosestomaisconcentradosemalgunsmunicpioscomativida-desdeassessoriadiretaaosprodutores,enquantoque,nosdemais,oapoiod-sedeformaindireta,atravsdeassociaesedecooperativas,princi-palmentenasatividadesdeconstruodaredesolidriadecomercializa-oedecertificaoparticipativa(RedeEcoVida).

    AgroecologiA: contexto regionAl

    hisTricoEm1997,quandooCAPANcleoVeriniciavaassuasatividades,jhaviavriasiniciativaseexperinciasnaproduoorgnicaimplantadasousen-dorealizadaspelasorganizaesdosagricultoreseentidades.

    AregioSudoestedoParantrazporherana,deumpassadodelu-taseconquistas,ofortalecimentodauniodosagricultoresexpressanasorganizaes sindicaiseoutrasentidadesdentrodeummovimentoquepoderiaserdenominadomaisderesistnciadoquepropriamenteagroe-colgico.

    Nestecontexto,oCAPAveioparasomarcomasdemaisentidadeseiniciativas.Oinciodasatividadesdeu-seatravsdoacompanhamentodegruposligadosounocitadaIgreja,poisotrabalhoecumnico,comagricultoresdispostosadiscutiralternativasdeorganizaoeproduo.

    Nas reunies, entreoutrosassuntos,pautava-se tambma impor-tnciadashortasedospomaresdomsticoseoresgatedasplantasmedi-cinaiscomointuitodemelhoriadaqualidadedevidadasfamlias.Confor-meaparticularidadedecadagrupo,asdiscussesforamsendoafuniladasparaasatividadesdeinteressedasfamlias.

    Diversasatividadesforamdesenvolvidase,independentedotempodecaminhadaemcadagrupo,omaisimportanteparaoCAPAfoiquese-mentesforamsemeadas,cumprindoassimasuamissodeserfermen-to,motivadorparanovasiniciativasealternativascombasesagroecol-gicas.ArealidadeeaconvivncianosgruposcontribuiunoprocessodeavanoedecrescimentodoCAPAnaregio.

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    Adifcilsituaofinanceirademuitasfamliaspossuidorasdepe-quenasreasdeterraaslevoualanar-seematividadesnotradicionais,apostando principalmente em hortalias ecolgicas. Devido ao fato dastradicionaisseremcultivadascomousodemuitosagrotxicos,houveummaiorsobrepreodasecolgicas.

    Paraatendercrescentedemandaporassessoriatcnica,apartirdoanode2000oCAPA intensificouasatividadesnareadaproduo,principalmenteemfruticulturaeolericultura.Essecenrioexigiumaiorespecializaotcnica,assessorianaorganizaodoplanejamentoeapoiocomercializao,paraqueaproduono ficassemercdosistemaconvencionaldecomercializao,quemuitasvezesnocondizcomarea-lidadedosagricultores.

    reAlidAde ATuAlApsdezanosdecaminhada, sendoamaiorpartedestesenvolvidosnaproduoatravsdeassessoriadiretamuitasfamlias,pode-sedestacarvriosaspectosnoprocessodefortalecimentodomovimentoagroecolgi-conaagriculturafamiliar.

    Porvezesflagramo-nosumtantoquantodesoladosdiantedaavalan-chequmicaqueinundacadavezmaisaagriculturafamiliar,comoquemquisesse sufocar a resistnciaagroecolgica.Quando,porm, refletimossobreatrajetrianosltimosanos,podemosverqueaagroecologiatevemuitosavanos,nosnaproduo,mastambmnaspolticaspblicasecomotemaimportantedentrodasinstituiesdeensinoepesquisa.

    E justamente nesse campo que ela difere das demais correntesouescolasdeagriculturaalternativa,comoaagriculturaorgnica,aeco-lgica,abiodinmicaeapermacultura,quetiveramsuaorigemempa-sescomseusproblemassociaismaisoumenosresolvidos.Aagroecologiavaimuitoalmdetecnologiaalternativadeproduo,permeandohojeasgrandesdiscussessociais,ambientaisedeseguranaalimentar,fazendoaindapartedasdiscussesdepolticapblicapropondoumdesenvolvi-mentosustentvel.

    Poroutrolado,aconvivnciadiretacomasfamliasdepequenosagricultorespermite-nosfazerumaanlisebemrealistaequegeralmenteficamuitodistantedasdiscussesque,porvezes,somerosdiscursosfilo-sficos,idealistasoupolticos.

    necessriofazerumainterpretaoapartirdarealidadedodia-a-diadasfamliasnosentidodapropriedadeparaforaenonosentidocontrrio.Aorganizaodegrandesdiscussesenvolvendointelectuaiseestudiososemagriculturaalternativa,exigindoamobilizaoeodesloca-mentodegrandesdistncias,parareunirem-seemsalascomarcondicio-nadoparadiscutireresolverosproblemasdospequenosagricultores,nemsempresurteresultadosaplicveisouviveis.

  • desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA

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    Queremos,contudo,ressaltaraimportnciadaemergnciadotemadentrodasuniversidades,oquehpoucotempoerarestritoapenasaalgu-masONGsoucomotemadesuporteparaquestespolticasesquerdistasdepequenosgrupos.Vivemosemumapocaemqueextremamenteim-portantequeasinstituiesdeensinoformemumnmerocadavezmaiordeindivduoscrticos,enoalienados,paradiscutiraagroecologiaemto-dososseusaspectosdeformarealista,aplicvelehumanitria.

    reAlidAdes e TendnciAsOstemasdefundo,comodoaquecimentoglobal,incendeiamacirradasdis-cussessobresustentabilidadeemtodosossetores,discussesqueocorremcomtantaintensidadeque,norarasvezes,ultrapassamdesuaimportnciacomotema,fugindoparaapenasumtermo demodismoabstrato.

    Dentrodaesfera,nodesconectadadaagriculturafamiliar,asus-tentabilidadenoapenasumtemadediscusso,masumaaodeso-brevivnciademuitas famlias,que,bemantesdoassunto tornar-se tofamoso,jviviamesentemathojeasconseqnciasdeumsistemain-sustentvel.

    Nessemeio,oCAPApautaaagroecologiacomoalternativadeorga-nizaoedeproduoentreasfamliasenvolvidasdeformarealista,dei-xandodeladoosextremismosdafilosofiautpicaeoradicalismosociopo-ltico.Oquesebuscaadiversificaodapropriedadeintegrandovriasatividadesquesecomplementamcomomnimodeaportedeinsumoseapromoodatrocadeexperinciasparaaprimorareaprofundarosconhe-cimentosemtecnologiasalternativasdeproduo.

    o envelhecimenTo dA AgriculTurA Agrandemaioriadosprodutoresenvolvidosnaproduoalternativanojovem,eporissopreocupanteofuturodaagriculturafamiliaragroecolgi-ca.Quemseroosfuturosprodutoresagroecolgicos?

    Aintroduodarevoluoverdecausouumchoquenosagricultoresqueatentopraticavamaagriculturatradicional,naqualoconhecimen-toerarepassadodepaiparafilho,assimcomoosesforosdotrabalhoti-nhamcomoobjetivoadquirirterraparaosfilhos,sucessivamente.Nonovomodelo,agoraorepassedeconhecimentovemdosprofissionaisaserviodetransnacionais,querapidamenteimplantaramummodelodependenteeexcludente,semespaoesemmotivaoparaosjovens.

    Nobastaapenasaplicarcursosdeformaoepalestrasparaaju-ventuderural.necessriotentarenvolv-lanumprocessodequebradeparadigmasedespert-laparaumanova realidade ruralondeos jovenspossamserprotagonistasdeumnovomundo,maisjustoesustentveltambmeconomicamente,enovenhamaserapenasmerasvtimasdoacaso.Essedespertarparaonovoexigenosvontadepolticaecrdito

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    vAldir luchmAn

    especfico,masoenvolvimentodetodasasinstituies,principalmenteasdeensino,paraquepossamprepararprotagonistasparaofuturo.

    A reAlidAde dA porTeirA pArA denTro Nesserecantomoraumsujeitocommaisde50anosdeidade,vivealiqua-seumavidatodacomsuaesposa.Possuiumareade15hectares(ha),in-cluindopastagem(potreiro),mato,fumoeumareade2haqueocupadapelasconstrues,umpequenopomarparaoautoconsumoeaproduode algumashortalias orgnicasque so vendidaspara a associaodaqualelefazparte.Amaiorpartedesuapropriedade,contudo,arrendadaparaumvizinho,quecultivasojaemilhoconvencional.

    Enquantoesperaansiosamenteporsuaaposentadoria,vaisobrevi-vendodoarrendamento,davendadehortaliasedavendadeumpoucodeleite.Aassociaodaqualfazparteopressionaparaqueaumenteadi-versidadeeovolumedeproduo.Almdisso,temoimpassecomopro-cessodecertificao,queforasuapropriedadetodaaentrarnumplanodeconverso,tendocomograndedificuldadeafaltademo-de-obra(no consigo tocar tudo sozinho).Outromotivodeaborrecimentoofinancia-mentodogalpodefumoqueelefezpensandoemusarmaistardeparaosanimais,masque,porora,parahonrarocompromisso,obriga-oaplantarfumopelomenosmaisumoudoisanosainda.

    Ostrsfilhosqueelesempremotivouaestudarparaseralgumnavidamoramnacidadehmuitosanoseovisitamesporadicamenteparafazerumrancho, levamfrutasehortalias,carne, leite,mandiocaetc.Seuparentequemoranacidadegrandesemprelhegarantequeelemoranumparaso.Elenodiscordaenoreclamadolugarondevive,masestpreocupadocomofinanciamentodogalpo,almdasdespesasdomsti-casincluindoaluzeosmedicamentos.Acreditanaagroecologia,masestsozinhoejumpoucolimitadopelaidade.

    Essebreverelatoconstituiapenasumailustrao,pormcondizen-tecomarealidadedemuitasfamliasdanossaregio.Encontramosaindasituaesdealgunsfilhosdeprodutoresquetrabalhamjuntamentecomseus pais e que so simpatizantes domovimento agroecolgico e estoabertosparaadiscussoeaprtica,massopodadosporseuspais,muitasvezesirredutveiseviciadosnosistemadeproduoqumica.Sotempodirseelesseroprodutoresecolgicosdaquiaalgunsanos,oumigraroparaacidadenorespondendoaumapropostaaparentementetentadora.

    perfil pArA umA novA reAlidAde Vrios foram,econtinuamsendo,osmotivosque levamosfilhosdeagri-cultoresamigraremparaacidade,dentreabuscaporumavidamelhoroumenospenosaqueavividaporseuspais.Aagriculturatidacomoumaati-vidadeinferiorevergonhosa,segundoumacertaconcepoquesecriouna

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    sociedade,principalmentefomentadaentreosmaisjovens,queusavamoter-mocolonodeformapejorativa,sendoqueosprpriospaisagricultorespar-ticipavamdessaidiaquandodiziameu quero que meu filho estude e trabalhe na cidade pra no sofrer como euou,ainda,quandoafirmavamques ficava na colnia aqueles mais cabea dura que no serviam para outra coisa.

    Aagroecologiasepropeajustamentemudaresseconceito.Feliz-mentejdespontampequenossinaisdissocomoaparecimentodealgu-masunidadesdeproduoalternativa,ondeosprodutorestmformaonareadecinciasagrriasousimplesmentesopessoasdacidadequeti-veramsuasrazesnaagriculturaeestoretornandoevendoocampocomooportunidadeparaoturismoruraloumesmoaproduo,objetivandoademandacadavezmaiorporalimentosorgnicoseartesanais.

    umretornoconscienteecomamentalidadedequeaagriculturapodeser,almdemaissaudvelparaviver,noumaatividadevergonhosa,maseconomicamenterentvel,ondeaexpressodacolnia,agoramo-dernapodeserestratgiademarketingparaacomercializaodeseuspro-dutosorgnicoseartesanais.

    Oredescobrimentodaagriculturapodecriarumrefluxodeatoresquevirocomumanovamentalidadeeprincipalmentecomapreocupa-oquantosustentabilidadeambientaleseguranaalimentar.Essesno-vosagricultores,pornoestaremviciadosoualienadosaosistemadepro-duoqumica,contrapondo-sedeformacrtica,buscaroapoioesuportenasinstituiesdeensino,bemcomodepesquisadoreseextencionistas,paradesenvolveralternativassustentveis.Talvezaindaessemovimento,juntamentecomosatuaisetradicionaisprodutoresagroecolgicos,possadespertarosdemaisagricultoresparaamudana,pormenorquesejanosentidodepraticaremumaagriculturamenospredatria.

    Querendoacreditarqueessasejaatendnciaparaofuturodaagro-ecologia,oCAPA,cientedeserumprocessolentoevarivel,tembuscadoatuaremparceriacomoutrasentidades,natentativadeprovocarasocieda-deatravsdealgumasaesquepoderoterefeitoouresultadonofuturo.

    A mAneirA do cAPA de trABAlhAr com os Agricultores nA orgAnizAo, Produo e comerciAlizAo AgroecolgicA

    Nombitodaassessoriaemergencialnareadeproduodehortaliasefrutferas,oCAPAtemacumuladomuitasexperinciasvivenciadasaoladodasfamliasacompanhadas.Muitasvezesflagradoemalucinantescorri-dasatrsdaenormedemandapelosagricultoresesuasnecessidadesime-diatistas,criandoumeloviciosodecarnciaeassessoriaassistencialista.Poroutrolado,essaaproximaoextremalheproporcionouumabagagemcarregadaderealidadecotidianadasfamliasruraisenvolvidas,caracteri-zando-senumdiferencialemrelaoaoutrasentidades.

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    Produo de hortAliAs

    formAo de produTores desumaimportnciareunirasfamliasinteressadasnaatividadeparaumaprimeiraexposiodeesclarecimento,paraqueelasconheammelhoraativi-dadegeralmentenadatradicionalparaelas.Naseqncia,inicia-seumcursobsicoquedivididoemvriasetapas,quesorealizadasemumaproprie-dadequetrabalhacomaproduodehortaliasparaconciliarembasamentotericocomatividadesprticas.Entreasetapas,sofeitasalgumasvisitasnaspropriedadesdecadaumadasfamliasparafazerumdiagnsticoeorienta-onaimplantaodaatividade.Depoisdevencidoocursobsico,afamliaintegradaaogrupoquerecebeaassessoriapermanente,comaexignciadequeparticipemdasreunieseprticasemformadediasdecampo.

    produo e incremenTo Tecnolgico Apesarde concordarmosqueousodaplasticultura fogedosprincpiosecolgicos,entendemosquesefaznecessriaautilizao,frenteaumce-nriodepressodomercadoconsumidordeumladoeporoutroaansie-dadederetornofinanceirodosprodutores.OCAPAdesenvolveuummo-delodeestufasimples,barato,pormmuitofuncionaleresistente,provadissoaaceitaoeadifusoporpartedosprodutores.Damesmaforma,motivouousodetelasdesombreamentoparaoscultivosdevero,quese-jamapropriadasparacadaculturaesistemasdeirrigaobastantediver-sos,conformeanecessidadeearealidadedecadapropriedade,lembrandoqueumsistemadeirrigaoparaproduoecolgicadiferedairrigaoconvencionalemalgunsaspectos.

    viveiro comuniTrioAiniciativadaconstruofoiumanecessidadefrentedificuldadedepro-duoemnveldepropriedade,principalmenteempequenaescala.Aqua-lidadebaixadasmudas,oquenoadmissvelnocultivocomercial,foiumdosfatoresquemotivouarealizaodeumviveiroqueoferecesseumaestruturamnimaparaaproduodemudasdequalidade.Umoutrofatormuitoimportantearegularidadedestaproduo,querefletenadapro-duofinal.Oviveirofoiinstaladonapropriedadedeumassociadoqueresponsvelpelaproduo,sendoqueaparteadministrativaficaporcontadaassociaodosprodutoresecolgicos,querepassaasmudasaosasso-ciadoscomcustovivel.AAssociaonovisalucronaproduodasmu-das,apenasrepassaseuscustos.

    plAneJAmenTo Oplanejamentotemdoisaspectosimportantes,sendoqueumaregula-ridadedeofertadeprodutosexigidapelomercadoconsumidor,que,em

  • desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA

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    grandeparte,foiconseguidacomoviveirocomunitrioqueregularizaasemeadura.Asdemaishortaliasdesemeaduradiretatambmobedecemaumcalendriodeprogramaoqueconstrudodecomumacordoentreprodutoreseequipetcnica.

    Ooutroaspecto,talvezomaisimportante,aconotaosocialden-trodoplanejamento,que,parasuaelaborao,permeiaanecessidadedediscussesassociativasecooperaomtua.Naprtica,asfamliasdiscu-temumplanejamentodeinteressecoletivoemprimeirolugarenoodeordempessoal.

    orgAnizAo de grupos e formAo de AssociAes DesdeoinciooCAPAentendiaquenobastavaapenasacompanharasfa-mliasnaproduo,poisascircunstnciasexigiamaorganizaodegru-posdistintosporatividadeeassociaesformalizadas.Fazpartedesuasmetasaorganizaodeagricultores,porumladopeloaspectosocialdamobilizaoediscussodefundamentoscooperativos,e,poroutropelofatoreconmicodocustodeassessoria,quemenorsecomparadocomasaesisoladas.

    Ocotidianodoprocessoexistencialdeumaassociaomuitoricoeexpressonasreuniesregulares,tendocontrastesentreindivduoscomidiasassociativaseosquestionamentosfortementeindividualistaseime-diatistas.Muitasvezesnecessrioseenvolver,maisdoqueodesejvelcomoentidade,principalmentenosprocessosiniciaisparasolidificaodebasesquepossibilitemprojetaremcommaissegurana.

    comerciAlizAo Como jdissemos,nobastaapenasproduzirecologicamente.neces-sriobuscaralternativasdecomercializaoqueatendamrealidadedoprodutoresexignciasdoconsumidor.VamosusaroexemplodaAPAVE(AssociaodeProdutoresAgroecolgicosdeVer),fundadacomapoiodoCAPAemagostode2001,quesurgiujustamentedanecessidadedeumes-paodecomercializaoparaoferecerosseusprodutossemagrotxicosdiretamenteaoconsumidor.

    AAPAVEhojemantmumalojaemVer,queatendediretamenteumgrandenmerodeconsumidoresconscientesqueparticipamnopro-cessodemelhorianorelacionamentocomosprodutores,pondoempr-ticaaessnciadaagroecologiaqueenvolveasociedadepreocupadacomseguranaalimentaresustentabilidadeambientalequecomeaaenten-derairregularidadedaofertadeprodutosemdeterminadaspocas.Aas-sociaotambmparticipadoProgramadeAquisiodeAlimentos(PAA),fornecendoalimentossaudveisparavriasentidadesbeneficiadas.OutrocanaldecomercializaooenviodehortaliasparaafeiraorgnicadeCuritiba.AAPAVEmontouumsistemadecomercializaoemsupermer-

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    vAldir luchmAn

    cadosdeVeremunicpiosvizinhos,combancasprpriasondeexpeseusprodutoscomospreosdefinidospelaprpriaassociao,sendoqueosu-permercadoapenaspraticaasuamargem,oqueumavanodentrodeestabelecimentos,quemuitasvezestratamosprodutoresisoladosdefor-mabrutaledesumana.Almdisso,outrasiniciativasforameestosendopraticadas,comoaparticipaoemfeirasdaregioecestasousacolasdeentregaemdomiclio.

    Ointercmbiodeprodutosentreassociaesregionais,estaduaiseinterestaduais,quehmuitovemsendoestimuladonosgrandesencontrosdeagroecologia,finalmentesaidopapelecomeaaserpraticado,opera-oqueajudaaescoaraproduoeproporcionamaiorvariabilidadedeofertaparaoconsumidor.

    Muitasdessasiniciativascitadasserepetememoutrosmunicpiosdaregio,como,porexemplo,aAORSA(AssociaodeProdutoresOrg-nicosdeSoJorgedOeste),que,juntamentecomaCOOPAFI(CooperativadaAgriculturaFamiliarIntegrada),realizasuacomercializaonosmes-mosmoldes.

    As constantes experincias e tentativas de ajuste so necessriaspara buscar o equilbrio entre reduodos custos de operacionalizaosemperderovnculoentreprodutoreconsumidor,oquefacilmentepodeocorreremterceirizaesvisandoabaixarcustos.

    considerAes FinAis

    Vamosusaroexemplodeumagrandeenchente,comaimagemdasguaslevandotudo,inclusiveascasas,e,nessecenrio,pessoasrapidamenteten-tandosalvaroquepossvele,ironicamente,nessasituao,possvelveroquelhesdemaiorvalor.

    Damesma forma, a inevitvel enchente da agricultura qumicavemdevastandooqueencontrapelafrente,e,assimcomooexemplousa-do,nopossvelevitarouquererbarr-laparanomorrerafogado.ne-cessrio,sim,salvaroquepossvel.Oqueserqueosagricultoresestosalvando?Queremos acreditar quemuitos estejampreocupados comassementes,comobemmaisvalioso.

    Quandofazemosalgumasanlisescrticas,queremos,contudo,nonosoporaprofundosestudosemanifestaessociaisdeoposiofrenteabsurdaenchentequmicadevastadoraeadesumananeglignciapolti-caemnossopas.

    OCAPAsolidrioaosmovimentosderesistncia,pormentendequetempodesalvar,resgatareguardaroquepossvelparapoderman-tererecomear.Salvarassementesimprescindvel,poisainconseqenteerosogenticaumprocessodeperdairreversveldosrecursosnaturais.Sobesseprisma,centraboapartedesuasatividadesemaesderealida-

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    despalpveisnocotidianodasfamliasassessoradas.rduaacaminhadacomosagricultoresondeosavanosparecempequenos,pormdegrandeimportncia.

    Iniciarasatividadesecolgicasporinteressesfinanceiros,porpro-blemasdesadeouaindaporconscientizao,soostrsgrandesmotivosquelevamosagricultoresaingressarnaatividade.Infelizmenteoingressoapenasvisualizandooretornofinanceirobastanteevidenteemrelaoaosdemais,proporcionandoassimgranderotatividadecomfamliasini-ciandoedesistindodaatividade.Esseretratoumreflexodasituaode-sesperadorademuitasfamlias,quebuscamalgumaluznorteadoraparaasuasituao,eque,pordespreparo,acabamqueimandoetapasedesperdi-andooportunidadesquepoderiamlhesserteis.

    Felizmente,algumasdelasnospraticam,masvivemaagroeco-logiaamplamente,ejuntamentecomelaspossvelcriarmosilhasprote-gidasdaenchente,enquantoque,comoutras,otrabalhodeassessoriamuitasvezesespecficonasatividadesprodutivas.Nasreunieseprti-casdecampo,entreosassuntosdeordemprticaetcnica,permeiamasabordagensdeconscientizaoedeprovocaoparadespertarlideranasquepossamquestionarosatuaisquadrospassivoseacomodados,levadosporumaondadedesnimoeconformismo.

    Apesardorelatodeexperinciassercrtico,orelatorealistadeumtrabalhodevivnciacomasfamlias.TemosaesperanaefemDeusqueaagroecologiapossacaminharcompassosfirmeseproporcionar,aospou-cos,vidadignaaospersonagensdomeiorural.

    Apartirdocentrovitaldaespiritualidadecristedaconfessionali-dadeluterana,oCAPAdesenvolveeparticipacoerentementedeaesquevisaminclusosolidriadospequenosagricultores,comoaelaboraoeaprovaodeprojetosjuntosesferaspblicas,coordenaemsuareadeaoprogramassociaiscomo:PAA(ProgramadeAquisiodeAlimentos),LeitedasCrianaseoutros.Participanadiscussoenofortalecimentodossegmentosdaagriculturafamiliarnosfrunslocais,regionaiseespaoter-ritorialparaodesenvolvimento,efirmaparceriaseconvnioscomuniver-sidadesparavalidaodepesquisa.

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    reFernciAs em AgroecologiA: um olhAr soBre A rendA e os cAminhos trilhAdos PelA AgriculturA FAmiliAr do sudoeste do PArAn*

    serinei csar grgoloEngenheiroAgrnomo,tcnicodaASSESOAR(AssociaodeEstudos,Orienta-oeAssistnciaRural)|serinei@assesoar.org.br

    AsPectos metodolgicos

    Estetextopartedeumestudodarendaedoscaminhostrilhadospelaagri-culturafamiliardoSudoestedoParan,trazendoreflexessobreousodaterra,trabalho,autoconsumo,custos,entreoutrosindicadores.

    Estesdadosforamobtidosdeumconjuntodefamliasqueestuda-ramsuasUPVF(UnidadedeProduoeVidaFamiliar)noSudoestedoPa-ran:38famliasdocursodeDesenvolvimentoeAgroecologia,realizadopelaAssesoarnosanosde2005e2006;70famliasparticipantesdoProjetoRededeAgricultoresGestoresdeReferncia,coordenadopeloDESER(DepartamentodeEstudosScio-EconmicosRurais),emparceriacomasentidadesdaAgriculturaFamiliarLocal,nosanosde2004/2005;e7fam-liasconsideradasaquihistricasnaagroecologia.Todasestaspesquisasusaramamesmametodologia.

    Os dados levantados sugerem uma caracterizao da agriculturaregional, identificadosaquipor4 caminhos: a) agricultura convencio-nalsemfumo;b)agriculturaintegradaaofumo;c)agriculturaorgnica;

    * Oautornoapresentourefernciasparaessetexto.

  • desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA

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    d)agriculturaecolgicahistrica.Como formadeestabelecer compara-eseaprofundaroestudo,faremosrefernciamdiadas70famliasdoProjetoRede.

    Adiferenciaoentreocaminhoceodsefaznecessria,poisaagriculturaorgnicacompreendida,nestetexto,comoumprocessoini-cialdeecologizao,baseadonasubstituiodeinsumos,dosquaisaindacontinuadependentee,portanto,diferenciando-sedaagriculturaecolgi-cahistrica,assimdenominadaaquiportratar-sedeUPVFsrefernciasnaregio,que,pelasualargaexperinciadeproduoecolgica,temsuaster-rasjrecuperadaseumabaixanecessidadedeimportaodeinsumos.

    Estabelecer comparaes entre estes caminhos importanteparapercebermosdiferenasentreasestratgias,paraodelineamentodenovasaeseparaaproposiodepolticaspblicasdaAgriculturaFamiliar.

    rendA e AgroecologiA

    Quala real importnciadarendanaagricultura familiar?Ascategoriaseconmicascomorenda,capitalelucro,soinerentesaumsistemabasea-donotrabalhoassalariado.Naagriculturafamiliarseria,portanto,impr-prioutilizardamesmaferramentaparaoestudodasuavidaeconmica.Feitaestaponderao,buscamosdarimportnciaaoutrascategoriaseco-nmicas,comoadoautoconsumo,eestabelecerrelaesentreascatego-riasvalordaproduo,renda,custos,trabalho,usodaterra,tendocomodesafiosuperaraabordagemeconomicistaderenda,gerandoindicadoresdesustentabilidade.

    AimportnciadarendaparaaAgriculturaFamiliarsedmedidaqueeladeixadeserapenasumindicadorquantitativoepassaatersigni-ficadosqualitativos.

    Aproduoecolgica,antesdeserumaopoeconmica,umaalternativadevidaede trabalho,contrapondo-seaosdesmatamentos,exaustodosrecursosnaturais,aoempregodamecanizaopesada,im-portaodeinsumoselgicadamonoculturaexportadora.

    Asestratgiasprodutivasorganizadasnaagriculturafamiliar,sejamorgnicasouconvencionais,aindanoconstruramumanova lgicademercado.OretornodefamliasproduoconvencionalperceptvelenosetemnotadoumcrescimentosignificativodeUPVFsagroecolgicas.Estasituaojnosrevelaafragilidadepresentenaagriculturaecolgica.Algumarazohdeseterequeremosnossomarnestabusca.

    A construo dA AgroecologiA nA regio

    AAssesoar (AssociaodeEstudos,Orientao eAssistnciaRural), foicriadaem1966por37jovens,agricultoreseagricultoras,quealmejavam

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    serinei csAr grgolo

    umavidacomjustiasocial,aorganizaodostrabalhadoreseapreserva-oambiental.Aslutasemobilizaesdosanos1980tambmbuscavamumaformadevivermelhoreumanovasociedade.

    AAssesoardenuncia,jnosanos1970,odramaecolgicodacha-madarevoluoverdeedefendeaagroecologiacomocondioparaaagriculturafamiliar.Criaofundodecrditorotativo,faztrabalhocomse-mentes,oficinas,formao,apoiandoalternativasecolgicasnaperspecti-vadodesenvolvimento.

    Nosltimosdezanos,aAssesoarpassaaassumiropapeldegerarreferncias e aprofunda conceitos dedesenvolvimento, autonomia e co-nhecimentoepropenovosmtodosderelaodasociedadecomosgo-vernos,ampliandoasdimensesdeseutrabalho.

    Suaaoguiadapelosfundamentosdaslutassociaisepopularescapazesderesistiraosprocessosdeexclusogeradospelomododevidacapitalista.Otrabalhododesenvolvimento,maiscomplexo,compreendeaagroecologiacomoumdoselementosdeumanovasociedade.

    Regionalmente,muitosetemtrabalhadonaproduoorgnicadegros,especialmentesoja.Empresasexportadorasaquiseinstalaramede-terminaramumitinerriotcnicoparaoscultivos,comprandoaproduopormeiodecontratos,classificando,embalando,certificando,enfim,co-mandandotodooprocesso.

    Nonosaprofundamosnasrazespelasquaisoutraimportanteati-vidadedoSudoeste,comoaproduodeleite,noganhoucontornoseco-lgicos,noentantoeisaumsignificativoesforoaserfeito.

    Asrefernciasemagroecologiaprecisam,portanto,sermelhores-tudadas.Este estudo revelaanecessidadedeumaproduoecolgicamaisdiversificadaparaquesepossafalaremresolverosproblemasdaproduo.

    Obviamente,outrasorganizaesdaagriculturafamiliaredoEsta-doincluramemsuasaes,aagroecologiaetambmderamsuacontri-buio.

    discusso dos indicAdores e cAminhos

    Oquadroaseguirtrazoscaminhosdenominadosdeorgnicos,integra-dosaofumo,convencionaissemfumo,agroecologiahistricaeumamdiaderedes.Essesdadosserocomparadosunsaosoutros,olhandoseusprocessosdiferenciadosdegestoedeopoprodutiva,afimdeca-racterizarmelhorcadacaminhosegundoalgunsindicadorespresentesnaprimeiracolunaedescritosnofinaldestequadro.

  • 246

    Quadro 1 Indicadores de renda e de uso da terra

    38 UPVF do curso de Desenvolvimento e Agroecologia ASSESOAR

    7 UPVF Referncia em Agroecologia DESER

    70 UPVF/ Sudoeste DESER

    Indicadores OrgnicosIntegrados ao Fumo

    Convencionais sem Fumo

    Agroecologia HistricaMdia Redes

    Sudoeste

    N de famlias 10 9 19 7 70

    Unidade de trabalho (UT) 3,01 2,78 2,94 3 3,16

    rea Total 19,44 16,72 20,47 22,61 12,8

    VBP (Valor Bruto da Produo comercializada)

    9.875,65 16.911,78 18.805,96 25.247,07 12.577,83

    Custos Variveis (%VBP) 30,07 38 49,31 20 36,43

    CMF 2.458,30 3.713,11 3.638,82 2.595,00 -

    CME 220,00 300,00 685,00 799,00 -

    Renda 3.858,08 5.683,94 4.216,11 16.774,00 4.152,85

    Autoconsumo monetarizado

    3261,65 2.545,74 3.236,05 4.238,00 1.894,34

    Autoconsumo (% sobre a renda)

    84,54 44,79 76,75 - -

    Renda (SM/UT) 0,28 0,45 0,32 - -

    Renda + Autoconsumo (SM/UT)

    0,52 0,65 0,56 - -

    Previdncia + servios 4.451,56 8.772,00 10.900,76 - 5.758,22

    VBP/ha de produo 641,36 1.248,1 880,00 - -

    Renda/ha de produo 250,56 419,48 197,28 - -

    Trabalho (ha trabalhado /ut).

    5,12 4,88 7,27 - -

    desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA

    UTUnidadedeTrabalho:nmerodepessoasnafamliamultiplicadopelotempoquecadaumsededicaaotrabalhonaUPVF.

    VBPValorBrutodaProduocomercializada.

    CustosVariveiscustosdeproduoquevariamdeacordocomaquantidadecultivada,comoinsumos,despesascommquinas.Nestecaso,transformamosem%doVBP.

    CMFCustosdeManutenoFamiliar:sooscustosqueumafamliatemparasemanter,ouseja,alimentos,sade,educao,vesturio,taxas

    CMECustosdeManutenodasEstruturascustoqueafamliatemparamanteraes-truturaprodutiva,comoconsertosdeinstalaesemquinas.Nodepreciao.

    Renda:oVBPsubtradodoscustosvariveis,doCMFedoCME.ovalordisponvelparainvestimentos.

    Autoconsumoaquantidadedealimentosqueafamliaconsome,daquiloquefoiporelaproduzido,multiplicandopelopreodestesalimentosnomercado.Servecomoumreferen-cialdeautoconsumomonetarizado.

  • 24

    serinei csAr grgolo

    Autoconsumo%sobrearenda:ovalordoautoconsumomonetarizadocomparadoaovalordarenda.

    Renda/SalrioMnimo/unidadedetrabalhoarendadivididapelasunidadesdetrabalho,divididapor13salriosanuaisecomparadoaovalordosalriomnimo.umdadoparacomparaescomaoportunidadedeganhodeumtrabalhadornacidade.Estedadodizoquantodeumsalriomnimoporpessoassobranocampo.

    Renda+Autoconsumo/Salriomnimo/unidadedetrabalhoasomadoautoconsumocomarenda.Temosentoumasobramaior,secompararmosquenacidadeoautoconsumosetornariaumcustoenocampoumarenda.

    Previdnciamaisserviosasomadasaposentadoriasedeoutrosserviosprestadosaal-gum.Serveparacompararcomarendaefazerreflexesseaagriculturafamiliarestconse-guindoviverdaproduo.

    VBP/readeproduocapacidadedeproduoporhectareocupadanaproduo,nocon-juntodasatividades,emvaloresmonetrios.

    Renda/readeproduoasobraporhectaregeradapeloconjuntodasatividadesepeloconjuntodecustosexistentes(nososdeproduo).

    ProdutividadedoTrabalhoaquantidadedereaqueumaUTconseguetrabalharnaUPVFnosdiferentescaminhosenascondiesatuais.

    Asfamliasqueparticipamdesteestudotem,emmdia,aproxima-damente3UT(UnidadesdeTrabalho)porUPVF(UnidadedeProduoeVidaFamiliar).AsUPVFspossuem,emmdia,19hectaresecultivam18,somandoosvrioscultivosporanonamesmarea.Asquecultivamfumotmamdiaporfamliade16,72hectares.Ficabemmarcadoqueofumoencontra-se,majoritariamente,nasmenoresUPVFs.

    Asreasdeproduotmintensidadedeusomaiordoqueumavezporano,somandooscultivosdeinvernoedevero,semcontarasreasutilizadasparaestradas,instalaes,reservalegalereasdepreservaopermanente.Valelembrarque,quantomaisvezesporanoamesmareaforutilizadaparaaproduocomercial,menossustentvelserosistemaprodutivoadotado.

    Aprodutividadedo trabalho,medidapelaquantidadedehectaresqueumtrabalhadoroutrabalhadoracapazdecuidar, ficaaoredordecinconoscultivosorgnicosenosintegradosaofumo,enquantoquenaagriculturaconvencionalsemfumoficaaoredorde7hectares/UT.

    Almdocasal,emmdia,temosotempodemaisumapessoaporUPVF,indicandoqueasfamliasestopequenasouosfilhosnoficammaisnaroa.Diantedessequadro,qualqueratividadeexigenteemmo-de-obraterpou-caschancesnaagriculturafamiliar,masatividadesqueapontamnadireocontrriapoderoserbemaceitas.Assim,aagriculturaconvencional,apesardetodososseusproblemas,continuatendomaisforaqueaagroecologia,dandoaentenderqueasfamliasaceitamsubmeter-seaumalgicademerca-doexploratria,desdequediminuaaquantidadeeapenosidadedotrabalho.

    QuantoaoValorBrutodeProduo,amenormdiaficoucomosorgnicos,aoredordeR$10.000,00/ano;amaiorficoucomosecolgicos

  • desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA

    24

    histricos,emtornodeR$25.000,00/ano;seguidodosconvencionaissemfumocomumamdiadeR$19.000,00/anoeosintegradosaofumocomR$17.000,00/ano.

    OsorgnicostmoVBPmaisbaixo,mastmomenorcustodepro-duo,emtornode30%doVBP.Osconvencionaissemfumotmcustosvariveisdeproduode50%eosintegradosaofumo,38%.Naagroecolo-giahistricaocustoficaem20%.

    Mesmocomproduomenor,osorgnicostmrendamuitoprxi-maadosconvencionais.Sua,amdiadeR$3.858,08;nosconvencionaissem fumo,deR$4.216,11enos integradosao fumo,deR$5.683,94.Amaiorrendadosagroecolgicoshistricos,commdiadeR$16.000,00.

    OcaminhodaagriculturaorgnicaproduzumVBPdeR$641,36porhectareocupado,menosqueocaminhoconvencionalsemfumo,deR$ 880,00/ha. No orgnico a renda de R$ 250,00/ha ocupado, contraR$200,00noconvencional.Aproduomaiornoconvencional,masarendamaiornoorgnico.

    Oimportantenestecasoaperspectivaqueistotraz.Nosprimei-rosanos,osqueoptampelocaminhoorgnicoencontramadesvantagemdossolosdesgastados,comreasemconversoqueoneramaproduo.Amonoculturadeixasuasamarras,mas,comopassardosanos,aconteceumaprofundamentodasprticasecolgicasdeproduo,dando-seare-cuperaodoambienteprodutivo.Nestescasospercebe-seumaumentodaproduo,equiparando-seaprodutividadeobtidapelaagriculturaconven-cionalaltamenteartificializada,ecomumdiferencial,odequeoscustostendemacair.Naagriculturaconvencionaloscustosrepresentam,emm-dia,50%daproduo,tendendoaaumentar;enaagroecolgicahistricaficamnafaixados20%,tendendoadiminuir,chegandoa12%emalgunscasos,aexemplodocasoapresentadonoQuadro2,abaixo.

    Arendatemrelaocomograudedependnciaexternadeinsumos,comoscustosdemanutenofamiliareosdemanutenodaestrutura.Porsuavez,osdemanutenofamiliarestodiretamenterelacionadosproduodoautoconsumo.

    Osdeproduoconvencionalcomesemfumotmosmaiorescus-tos demanuteno familiar, em torno deR$ 3.500,00/ano.Os de baseecolgicatmmenorescustosdemanutenofamiliar,emtornodeR$2.500,00/ano.

    Oautoconsumovemse tornandomuito importantepara explicarapermannciadasfamliasnocampo.Estedado,comparadocomaren-da obtida pela venda dos produtos comerciais, representa praticamen-teamesma importnciadevalor.Amdiada rendanosorgnicosdeR$3.858,08eoautoconsumomonetarizadodeR$3.261,65,alcanando84%dovalordarenda.Nocaminhoconvencionalsemfumo,arendadeR$4.216,11eoautoconsumodeR$3.236,05,ou76%.Nosintegradosao

  • 24

    serinei csAr grgolo

    fumo,istonoseverifica,ouseja,rendadeR$4.687,94eautoconsumodeR$2.545,74ou44%.Ofumocomprometeoautoconsumo.

    Nocostumededicaraoautoconsumoamesmaproporodetem-po,custos,terra,crditos,eatenoquededicadasatividadesderenda.

    Chamatambmaatenoquandocomparamosarendaeoautoconsu-mocomaoportunidadequeteriamaspessoasdebuscaremumempregodeumsalriomnimoaoinvsdeviverdaagricultura.Amedidadosalriomnimoadotadaaquiporserumarefernciaconhecidae,narealidade,seconstituinumaalternativamuitobuscadapelosfilhosefilhasdasfamliasagricultoras.

    Arendaobtidacomacomercializaodosprodutosagrcolascor-responde,emmdia,a0,28salriosmnimosmensaisporunidadedetra-balhonocaminhoorgnicoea0,32noconvencionalsemfumo.Nosinte-gradosaofumochegaa0,45.Sesomarmosoautoconsumomonetarizadoaestaconta,chegamosaumamdiade0,52salriosmnimosnosorgni-cos,0,56nosconvencionaise0,65nosintegradosaofumo.

    Paraquemvivecomestarenda,oautoconsumoprimordial,poismantmumamesarelativamentecheia,garantindoseguranaequalidadealimentarparatodaafamlia.Estesdadosindicamumabaixacapacidadedesobrafinanceira,ouumaltograudedependnciadeoutrasfontesderecurso.Senofosseele,estesvaloresseriamgastosnacompradealimen-tos,eliminandoopequenosaldodisponvel.

    Grossomodo,pode-seafirmarque,aproximadamente30%doqueas famlias aquimencionadas obtm para viver vem da renda, 25% doautoconsumoeosoutros45%debenefciosdaaposentadoria,rebatedoPRONAFedevendadeservios.Nessasfamlias,asoutrasrendasrepre-sentamemmdiaR$7.232,00/ano.Assim,chega-semarcadeaproxima-damenteumsalriomnimoporunidadedetrabalho.

    Esteumparmetroquenorespondesexpectativasdosjovens.Outrosfatores,comoapenosidadedotrabalho,osolquente,achuva,aes-tiagem,ospreosbaixoseanecessidadedenovosinvestimentos,tornamacidadeumforteatrativoeodestinodamaioriadosjovens,quesonhamga-nharmaisdoqueumsalriomnimo.Acredita-seserbemmaisfcilagre-garmeiosalrioemumempregonacidadedoquenocampo.Acompreen-sodequemeiosalriomnimonogaranteoscustosdealimentaonacidadeaindanotoevidenteparaosjovens.

    Osindicadoresderendaaquiexplicitadosrevelamumadificuldadeparaaagriculturafamiliar.Jpossvelafirmarquenelanopossvelfa-zergrandesreservasmonetrias.Nosdiferentescaminhos,arendaoriun-dadavendadaproduoalcana,emmdia,apenas1/3deumsalriom-nimoportrabalhador/ms.

    Nos ltimos anos, amaioria dos esforos adotama estratgia deinclusodaagriculturafamiliarnomercado.Afaltaderenda,noentan-to,nosedevefaltademercado,mas,sim,faltadeumnovomercadoe

  • desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA

    250

    outrosfatoresdavidanocampo.Asorganizaeseconmicasdocampoestofazendoomaioresforonestesentido,masduvidosoquepossamreverterestasituaosemalterarosproblemasestruturaisqueafetamavidanocampo:terra,pesquisa,ensino.

    Osdadostrazemumquestionamentosobrearealcapacidadedapro-duoorgnicaseampliarecomoelapodedefatoapresentar-secomoalter-nativaagriculturaconvencional,integraoeaostransgnicosemtermoseconmicos.Osresultadosnosalertamquefazeragroecologianecessaria-menteiralmdointeresseeconmico,atporqueistopodesercontradit-rio.AAgroecologiasefirmaporumaopoconscienteeporumavisodemundo,antesdeserapenasumaoportunidadedemelhoriaderenda.

    Pelaatuallgicademercado,aagriculturafamiliarnocapazdesesustentarsemsubvenesdoEstado.Novospapis,contudo,parecemcolocar-separaocampo,comoaproduodealimentoslimposdeagro-txicos,gualimpaearpuro.Isso,decertaforma,ajudariaajustificarassubvenesdoEstado.Casocontrrio,asustentaodaagriculturafami-liarpassaporreconstruirumanovalgicadeproduoemercadoondeasfamliasagricultorasexercem,efetivamente,ummaiorcontrolesobretodooprocesso,desdeaproduo,armazenamento,transformaoecomercia-lizao,apropriando-sedariquezaproduzida.

    Nomundotodoaagriculturasabidamentesubsidiada.NoBrasil,nonovidadeoEstadoperdoareprorrogardvidas.Constatamosestelimitenasnossaspropostasdeproduoorgnicaqueserevelaraminsu-ficientes, sejapelos seusaltoscustosdeproduoepeladiminuiodaprodutividade,ouporagregarmaistrabalhoepelafaltadelogsticadeco-mercializao.Noentanto,osagroecolgicoshistricosvmseapresen-tando,defato,comoumaalternativa.

    certoquenoestamossatisfeitoscomodesempenhoeconmicodosprocessosorgnicosenemdosconvencionais.Noentantoaagriculturaorgnicaseequipara,emtermosderenda,agriculturaconvencional,almdeprotegermelhoromeioambienteeestarproduzindoalimentoslimpos.Naagriculturaorgnica,aindaqueoscustossejamaltos,soadquiridosdeummercadolocalenodemultinacionais,considerandoaindaatendnciadadiminuiodoscustosdeproduo,pelarecuperaoecolgicadosso-los,pelaproduodesementeseaproduoendgenadeinsumos.

    Estasrazesseriamsuficientesparaadefesadaagroecologiacomoagriculturahegemnica.Sendoassim,noporfaltaderendaoudeargu-mentosqueelanoseamplia.Seuslimitessooutros,pressupondo-sequeoEstadotenhasuaresponsabilidadenasuperaodosmesmos,osquaisesperamospoder,nofinaldesteartigo,explicit-losmelhor.

    OsdadosdoQuadro2referem-seaumaUPVFereforamatesedequeaagroecologia,encaradacomopolticapblica,apresentacondiesdesubstituiraagriculturaconvencional.

  • 251

    serinei csAr grgolo

    Quadro 2 Indicadores de gesto de um agricultor familiar de caminho agroecologia histrica

    Indicadores Unidades Quantidades

    rea total ha 27

    rea de produo comercial ha 15,27

    Produtividade soja orgnica sc/ha 50

    Produtividade do leite litros/ha 1.325,83

    Produtividade do trigo orgnico sc/ha 20

    Produtividade do acar mascavo Kg/ha 2.906,25

    Produtividade do feijo sc/ha 18

    Produtividade da horta unidades/ha 50.000

    Preo atual da soja orgnica R$/sc 32,50

    Preo atual do leite em converso R$/litro 0,40

    Preo atual do trigo R$/sc 25,00

    Preo atual do acar mascavo orgnico R$/kg 1,5

    Preo atual do feijo orgnico R$/kg 65,00

    Preo das hortalias R$/unidade 0,90

    Preo do mel R$/kg 6,00

    Preo da carne suna R$/kg 1,2

    Produo anual de soja Sc 150

    Produo anual de leite Litros 7.955

    Produo anual de trigo Sc 15

    Produo anual de acar mascavo orgnico kg 2.325

    Produo anual de feijo orgnico Sc 16

    Produo anual de hortalias Unidades 3.500

    Produo anual de mel kg 250,00

    Produo anual de carne suna kg 3.150

    Valor da venda da produo R$/h 1.385,12

    Valor da venda da produo R$ 21.150,85

    Custos variveis (insumos) R$ 2.628,00

    Custos de manuteno da estrutura produtiva R$ 450,00

    Custos de manuteno da famlia R$ 2.785,00

    Renda familiar da agricultura R$ 15.287,85

    Outras Rendas R$ 0,00

    Autoconsumo anual monetarizado R$ 4.665,00

    Insumos para reposio da fertilidade kg/ha 98,23

    Fonte:RededeAgricultoresFamiliaresGestoresdeReferncias/Deser(2006).

  • desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA

    252

    Os custos da produo representam 12,42% do valor da venda da produo, sem considerar o autoconsumo como valor bruto da produo. Se assim considerarmos, os custos representam entorno de 10%.A produo de autoconsumo da famlia composta pelos seguintes itens com os respectivos valores: hortalias(R$ 576,00), frutas (R$ 600,50), milho pipoca (R$ 20,00), ovos (R$ 75,00), mandioca (R$ 328,50), feijo (R$ 105,00), carnes (R$ 1.314,00), amendoim (R$ 160,00), leite (511,00), queijo (R$ 360,00), farinha de milho (R$ 100,00), batata doce (R$ 80,00), batatinha (R$ 120,00), alho (R$ 75,00), mel (R$ 240,00).Os insumos para reposio da fertilidade so de origem orgnica.A rea total a rea de escritura da propriedade.A rea de produo o somatrio das produes do ano agrcola, incluindo safras de inverno, vero, safrinhas e produes permanentes.

    Fonte:RededeAgricultoresFamiliaresGestoresdeReferncias/Deser(2006).

    Este caso, do caminho agroecolgico histrico, se diferencia dequemestiniciandonaproduoorgnica.Constitui-seemumindicativoimportante por apresentar alta produtividade, diversidade de produo,baixocustodeproduo,elevadoautoconsumoebaixoimportedeinsu-mos,oquesignifica,naprtica,umrompimentocomomercadodestes.Oelevadoautoconsumopodesignificarboascondiesdevida.Comestarenda,afamlianoestdependentederendasexternasenemdefinan-ciamentodaproduo.

    O caminho da agricultura orgnica, quando comparado com ocasoacima,aindaapresentalimitescomo:a)baixaprodutividadeini-cial, b)pouca rentabilidadedo trabalho, c) alto custo inicial ed)he-rana cultural damonocultura com falta de alternativas emudanasprodutivas.Estesquatro limitesaindano forambemresolvidos,orapor faltadepesquisasoficiais,orapor faltadeequipamentos,merca-dosdiferenciados,tecnologia,novosconceitosdemundoedevida,umaformadiferentederelaocomanatureza,oacessoaumaformaodiferenciada, terra suficiente e domnio tecnolgico construdo comoconhecimento.

    Comopodemosver,asimplesopopeloorgniconoresolvenemmelhoraarenda.Amudananoestsimplesmentedoconvencionalparaoorgnico,massimemdiversificarmaisaproduo,irembuscadenovasopes.Estligadaaumaoutraorganizaodaproduo,comovemosnocasoacima,ondeadiversificaoestpresenteeaescaladeproduonoumlimitante.

    ocuPAo dA reA de terrA

    Aoanalisarmosaocupaodareadasfamliasestudadas,aindapodemosperceberdadosmaisreveladoresquantomudanasprodutivas.

  • 253

    serinei csAr grgolo

    Quadro 3 Ocupao da terra comparada ao VBP Valor Bruto da Produo

    Orgnico Integrados ao fumo Convencional sem fumo

    Ocupao% rea

    ocupada % VBP

    % rea ocupada

    % VBP% rea

    ocupada % VBP

    Soja 10,3 5,59 6,81 6,72 27,2 25,9

    Leite 21,24 39,06 49,92 21,09 45,94 59,96

    Milho 6,74 5,61 9,8 6,81 6,03 5,66

    Feijo 2,38 2,25 3,4 3,1 0,30 0,33

    Fumo 0 0 10,47 61,77 0 0

    Hortalias 3,8 14,77 0 0 0 0

    Outros 3,57 10,69 0 0 0 0

    Fonte:RededeAgricultoresFamiliaresGestoresdeReferncias/Deser(2006).

    OQuadro3nostrazoutrasquestesqueajudamaolharosdesafiosdaagroecologia.Dosorgnicos,somente5,59%doValorBrutodeProdu-oprovmdasoja,emborautilizem10%dareaparaestecultivo,oquerevelaabaixaprodutividadedasojaorgnicanestaregio.Naagriculturaconvencionalasojarepresenta,emmdia,26%doVBPeocupa27%darea.Quemcultivafumoutiliza,emmdia,7%dareacomsoja,eobtmaoredorde7%doVBP.

    Naagriculturaconvencional,91,52%doVBPvemdasoja,leiteemi-lho.Estescultivos,nocaminhoorgnico,soresponsveispor50,26%doVBP.Nosintegradosaofumo,estasculturas,maisofumo,sorespons-veispor96,39%doVBP.Ficaevidenteque,nocaminhoorgnico,asoja,oleiteeomilhodeixamdeteracentralidade.Outrasatividadescomeamaentrarnocenrio,oqueumbomindicadordesustentabilidade.

    Aopopelofumo,seporumladoapresentarendamaisalta,poroutro,limitaaprodutividadedoleite.Ocuidadoprioritrioficanos10%dapropriedadequesoocupadoscomofumo,deondevem62%doVBP,enquantoque50%dareaocupadacomleite,deondevememtornode21%VBP.Aproduodeleite,decertaforma,secundriaquandoocorreapresenadofumo.Osconvencionaissemfumofizeramclaramenteumaopomaisfortepelaproduodeleite.Manejam,emmdia,46%dareaeobtm60%doVBPcomele.

    OcaminhoorgnicotemamelhorrelaoVBP/readeproduo,poiscom21%dareaobtm40%doVBP.Provavelmenteumaboaprodu-ocombaixoscustosajudaaexplicarestebomindicador.

    considerAes FinAis

    Oestudonospermiteconcluirqueaopopelaproduoorgnicanomelhorouarendasecomparadaaoscultivosconvencionais.Ocaminho

  • desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA

    254

    agroecolgico histrico nos indica a possibilidade de timos resultadoseconmicose,porcontradio,nestescasos,osprincpiosdaagroecologiaocupamacentralidadedaspreocupaesenoarenda,ouseja,quantomaisecolgicaforaUPVF,melhoressoosresultadoseconmicos.

    Abaixarendaumindicadorquerevelaumproblemaquenoex-clusivodaagroecologia,masdaagriculturadeformageral.Olhandopelarenda,aproduoorgnicaseaproximadaconvencional,comindicativosdesuperao.Comesteindicadoreoutroselementoscomoodapreserva-odanaturezaedamelhoriadascondiesdevida,asrazesparaade-fesadaagroecologiaestariamdadas.

    Noestodadas,noentanto,ascondiesestruturantesapartirdepolticaspblicasparaaecologizao.AsfamliasquefizeramessaoponocontaramcomumaestratgiadeEstadoepagaramumpreoporestaconversoque,naturalmente,nemtodaselasestodispostasabancarso-zinhas.Assim,conclumosqueumapolticadeEstadodevaorientarapro-duonacionalnestesentido,criandoascondiesnecessrias.

    Outrodadofoiaexpressodaimportnciadoautoconsumoparaasustentabilidadedaagriculturafamiliar,interferindonarendaenacriaodealternativasparaalmdasoja,leiteemilho.

    Aagroecologia,portanto,umcaminhoqueserevelacapazdere-solvermuitosproblemasdaproduoagrcola,acontarcomtodososou-trosavanosquesoinquestionveisnestaprtica.Oproblemadapobre-za,daviolncia,doisolamento,dafaltadeestrutura,dafaltadeeducao,enfimdopoucodesenvolvimento,permanecermesmonaagriculturaeco-lgica,seolharmosocampospelaproduo.necessrio,portanto,darcontadetodasestasquestes,comousemaagroecologia.

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