Desenvolvimento Territorial e Agroecologia

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Desenvolvimento territorial e agroecologiaDesenvolvimento territorial e agroecologiaAdilson FrAncelino AlvesBeAtriz rodrigues cArrijoluciAno zAnetti PessA cAndiotto[orgAnizAdores]Copyright Grupo de Estudos Territoriais GETERRReviso grfica Slvia Regina PereiraReviso de lngua portuguesa Silvana SpedoCapa Marcos CartumProjeto grfico e diagramao Maria Rosa JulianiImpresso CromoseteTiragem Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro pode ser utilizada ou reproduzida sem a autorizao da editora.Editora Expresso Popular Ltda.Rua Abolio, 197 | Bela Vista | 01319-010 | So Paulo - SPTel [11] 3105 9500 | Fax [11] 3112 0941 | vendas@expressaopopular.com.br | www.expressaopopular.com.brapresentao | 7reflexes sobre o Desenvolvimento luz Do enfoque territorialTerriTrio,TerriTorialidadeedesenvolvimenTo:diferenTesperspecTivasnonvelinTernacionalenoBrasil | 15marcos aurlio saquet | eliseu savrio spositosisTemalocalTerriTorial(sloT):uminsTrumenTopararepresenTar,lereTransformaroTerriTrio | 33giuseppe DematteisdesenvolvimenToTerriTorial:algumasreflexesTerico-conceiTuaisderivadasdeesTudomonogrfico | 47luiz alexanDre gonalves cunhaconhecimenTosconvencionaisesusTenTveis:umavisoderedesinTerconecTadas | 63aDilson francelino alvesdesafiosdageraoderendaempequenaspropriedadeseaquesTododesenvolvimenToruralsusTenTvelnoBrasil | 81antonio nivalDo hespanholidenTidadeTerriTorialedesenvolvimenTo:aformulaodeumplanoTerriTorialdedesenvolvimenToruralsusTenTveldoTerriTriosudoesTedoparan | 95rosel alves Dos santos | Walter marschnerperspectivas Da agroecologia e experincias no estaDo Do paranagroecologia:limiTeseperspecTivas | 117rosngela ap. De meDeiros hespanholreflexessoBreaagroecologianoBrasil | 137aDriano arriel saquetndiceagroecologia:desafiosparaumacondiodeinTeraoposiTivaeco-evoluohumanananaTureza | 155valDemar arlagroecologianoparan:evoluoedesafios | 169antonio carlos picinattoagroecologia:odesenvolvimenTonosudoesTedoparan | 185nilton luiz fritzaagroecologiaeasagrofloresTasnoconTexTodeumaagriculTurasusTenTvel | 213luciano zanetti pessa canDiotto | beatriz roDrigues carrijo | jackson alano De oliveiracenTrodeapoioaopequenoagriculTor:experinciasedesafiosemagroecologia | 233valDir luchmanrefernciasemagroecologia:umolharsoBrearendaeoscaminhosTrilhadospelaagriculTurafamiliardosudoesTedoparan | 243serinei csar grgoloEmsuatrajetriadecincoanos,oGETERR(GrupodeEstudosTerritoriais)daUNIOESTE,campusFranciscoBeltro-PR,vemsepreocupandocomodebateemtornododesenvolvimento,apartirdeabordagensquepermitamavanarcomrelaoantigaeultrapassadaconcepoeconomicistadede-senvolvimento. Atravs da utilizao dos termos/conceitos de desenvolvi-mentodelocal,sustentveleterritorial,governos,rgospblicos,polticos,empresasecientistas,passamareconheceranecessidadedesebuscarumdesenvolvimentomultidimensional,queincorporeparaalmdadimensoeconmica,questessocioculturais,polticaseambientais.Apesardepossu-remobjetivosdistintos,essesatoresvmcontribuindocomodebateecons-truodereflexeseexperinciasempricasemtornodenovasperspectivasparaodesenvolvimento.Dentrodessecomplexocontextoterico,conceitualemetodolgico,aagroecologia,nosltimosanos,vemganhandoadeptosentrecientistasepesquisadores,bemcomoentreosmovimentossociaisdocampo,poisbuscaaglutinaraproduodealimentossemousodeagro-qumicos,oequilbriodeecossistemaspormeiodeaesdeconservaoambiental,aseguranaalimentar,areproduosocialdasfamliasrurais,apartirdeumaorganizaopolticaeideolgicadeagricultoresetcnicos,contrrialgicadedesenvolvimentoprodutivista.Nessesentido,aagroecologiaseapresentacomoumacinciaeummovimentopoltico,quetemsuasbasesemusosmaisracionaisdosrecur-sosnaturais,enaqualidadedevidadasfamliasquevivemedependemdaAPresentAodesenvolvimento territoriAl e AgroecologiAagriculturaedoespaorural.Noentanto,elatambmpossuiseuslimites,demodoquesurgemdiversosquestionamentosemtornodesuaviabilida-decomoalternativadedesenvolvimento.Estelivrotraztonaodebateemtornododesenvolvimentoterri-torial, tendocomofocoaagroecologiacomoumadasestratgiasdede-senvolvimento, sobretudo da agricultura familiar. A partir do III SEET(SeminrioEstadual deEstudosTerritoriais), promovidopeloGETERRemmaiode2007,organizamosestelivro,compostoporumacoletneadetextos,queapresentamresultadosdepesquisastericasedeexperinciasempricas realizadas por profissionais ligados aos temas agroecologia edesenvolvimento.Olivrofoidivididoemduaspartes,sendoqueaprimei-ra,tratadealgumasreflexessobreoDesenvolvimentoluzdoenfoqueterritorial, ea segunda,dasPerspectivasdaagroecologia,bemcomodeexperinciasnoestadodoParan,comdestaqueparaaregioSudoeste,ondeseconcentramimportantesinstituiesrepresentativasdaagricultu-rafamiliar.Noprimeirocaptulodolivro,denominadoTerritrio,territoriali-dadeedesenvolvimento:diferentesperspectivasnonvel internacionalenoBrasil,MarcosA.SaqueteEliseuS.Spsitofazemumareflexoemtornodosconceitosdeterritrio,territorialidadeedesenvolvimento,uti-lizandoobrasdeautoresfranceses,italianosebrasileiros,especialmentedageografia,dasociologiaedaeconomia.Elesrevelamalgunscaminhosconstrudosnosltimos30anos,direcionadosincorporaodaproble-mticadodesenvolvimentoedaquestoambientalnodebateacadmicoecientfico,subsidiandoaefetivaodeabordagensdeumaprxistransfor-madoradarealidadecentradanaconquistademelhorescondiesdevida,tantonocampocomonacidade.GiuseppeDematteis,professordaUniversidadedeTurimItliaere-fernciamundialnoestudodetemasrelativosaodesenvolvimentoterrito-rial,abordaaspectosdaaplicabilidadedoSistemaLocalTerritorial[SloT],desenvolvidodeformainterdisciplinarentrepesquisadores italianos.NotextoSistemaLocalTerritorial(SLoT):uminstrumentopararepresentar,leretransformaroterritrio,suapropostaapresentadadeformaclaraedidtica,ondepesquisadoreseestudantesencontraroumricoreferencialparaaprofundarasdiscussesrelativasaosestudosterritoriais.No texto Desenvolvimento Territorial: algumas reflexes teorico-conceituaisderivadasdeestudodecaso,LuizA.GonalvesCunhaapre-sentaumaconcepodedesenvolvimentoterritorial,inspiradanoestudodastrajetriasregionaisdedesenvolvimentoruralqueforamidentificadasnoEstadodoParan,comnfasenocasodoParanTradicional.Oautoriniciacomadiscussosobreoprpriosentidodanoodedesenvolvimen-to,ebuscadiscutircomoumdeterminadoconceitodeterritriobsiconacomposiodestanovaconcepodedesenvolvimento,inserindoumPreFcioslidovisespacialnatentativaderenovaranlisesregionaisepropostasdecarterdesenvolvimentistas.AdilsonFrancelinoAlveslanaumolharmetodolgicosobreaques-todaformaoderedesdeconhecimento.Nessetexto,oautorproble-matizaaexistnciadeduasredesdeconhecimentoeaprendizagemquemoldamformasdecompreenderodesenvolvimentoterritorial:aredecon-vencional,densamentetcnicaqueexigedoagricultoraaplicaodepaco-testecnolgicosquerequerempoucoconhecimentosobreofazeragrcola;earedeagroecolgicaquenecessitadeumaintensificaodossaberesdosagricultores.Suaanliseapontaparaanecessidadedeaprofundarosestu-dosnoentrecruzamentodessesdoissistemasdeconhecimento.NotextoDesafiosdageraoderendaempequenaspropriedadeseaquestododesenvolvimentoruralsustentvelnoBrasilogegrafoAn-tonioNivaldoHespanholdiscuteatrajetriadaidiadedesenvolvimentoruralsustentvel,osproblemasdegeraoderendanaagriculturafami-liar,aheterogeneidadedocampoearevitalizaodorural,bemcomo,osdesafiosparaasustentabilidadenaagricultura.Partindodeumavisomultidimensionaldedesenvolvimento,Wal-terMarschnereRoselA.dosSantosquestionamaspolticaspblicasdedesenvolvimento territorial e suaaplicabilidadenoSudoestedoParan,protagonizadapeloMDA(MinistriodoDesenvolvimentoAgrrio)comoformadepromoverodesenvolvimento.NotextoIdentidadeterritorialedesenvolvimento:aformulaodeumplanoterritorialdedesenvolvimen-toruralsustentveldoTerritrioSudoestedoParan,osautoresrealizamumaleituracrticadaconstruodoPlanodeDesenvolvimentoTerritorialRuralSustentveldoSudoestedoParan,enfatizandoanecessidadederespeitarosritmosetemposdoterritrio,edesuperarumaabordagemestritamenteeconmicaesetorial.Iniciandoasegundapartedolivro,ocaptuloAgroecologia:limi-teseperspectivas,dagegrafaRosangelaHespanhol,abordaoprocessodeincorporaotecnolgicaocorridonaagriculturaaolongodahistriadahumanidade,destacandoadifusodaRevoluoVerdeesuasimplica-essocioambientais.Emseguida,discuteoprocessodeecologizaodaagriculturaeascorrentesdaAgriculturaAlternativa,comespecialatenoparaaAgroecologia;ediscorresobreasperspectivaseosdesafiosdossis-temasdeproduoconsideradossustentveis.EmseutextoReflexessobreaAgroecologianoBrasil,oagrno-moAdrianoSaquet,discutea situaoatualdaagriculturaorgnicanoBrasilenaAmricaLatina;fazumcomparativoentreosistemaconven-cionaleoorgnico,comfoconoltimo;eapresentaoqueconsideraseremosprincipaislimitesepotencialidadesdeumaagriculturafundamentadaemprincpiosecolgicos.Adrianoelaboraumtextodidtico,mostrandoosprincipaiselementosdaproduoorgnicadealimentos.desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA10OagrnomoeconsultordaredeEcovidaedaSDT/MDA,ValdemarArl,apresentaumareflexosobreaagroecologiaenfocandosuadimensopoltica, e, a partir da constatao das conseqncias damodernizaoagrcolaedaRevoluoVerde,clamaporumareorientaodaagricultu-raembuscadasustentabilidade.Paraoautor,aagroecologiaconsisteemquatrograndesdesafiosquesodiscutidosnotexto,sendoumdesafioso-ciopolticoeeconmico;umdesafiocientfico;umdesafioeducacional;eumdesafioorganizacional.CombaseemsuaexperincianaformulaoeexecuodeprojetosemagriculturaorgnicaeagroecologiapeloInstitutoMaytenus,oagrno-moAntonioCarlosPicinattoapresentaemAgroecologianoParan:evolu-oedesafios,umpanoramadarealidadedaagriculturaorgnicaeagro-ecolgicanoEstadodoParan,passandopelaproduo,comercializaoeorganizaodeentidadeseprodutores,apontandoaindaalgunsdesafiosqueestopresentesnavidacotidianadeagricultoresfamiliaresdoSudo-estedoParan.O tcnico daEMATER e engenheiro agrnomoNilton Luiz FritzabordaemseutextoAgoecologiaodesenvolvimentonoSudoestedoPa-ran,opapeldaEMATERnoincentivoagriculturaorgnicaeagroeco-lgicanoSudoestedoParan.Traztambmdepoimentosdeagricultores,tcnicoseentidadessobreosimpactosdaRevoluoVerde,opapeldaex-tensoruraleasituaodaproduoedacomercializaodeorgnicoseagroecolgicosnoSudoestedoParan.Os gegrafos emembros doGETERR, LucianoZ. P. Candiotto eBeatrizR.Carrijo,juntamentecomJacksonA.deOliveira,procuramemAagroecologiaeasagroflorestasnocontextodeumaagriculturasusten-tveldiscorrersobreosfundamentostericosdaidiadeumaagriculturasustentvel,comdestaqueparaaagroecologiaeparaossistemasagroflo-restais.OsautorestambmapresentamalgunsresultadosdeumprojetosobreagroflorestasnoSudoestedoParan,indicandoosavanoseasdifi-culdadesencontradas.ValdirLuchmanntcnicoemagropecuriacomnfaseemagroe-cologia,eseutextoapresentaosprincpioseopapeldoCAPA(CentrodeApoioaoPequenoAgricultor),apartirdesuaexperinciaprofissionalnoncleodomunicpiodeVer-PR.NotextoCAPAexperinciasedesafiosemagroecologia,Valdirdiscutetambmaassessoriadadapelaentidadeparaosprodutoresorgnicoseagroecolgicos,tantonoquesereferestcnicasdeproduoemmanejocomosmetodologiaseequipamentosalternativosparaaagriculturafamiliar.Serinei Csar Grgolo, tcnico da ASSESOAR (Associao de Es-tudos,OrientaoeAssistnciaRural)e tambmengenheiroagrnomo,apresenta o textoproduzido apartir das reflexes feitas pela equipedaASSESOARapartirdeumestudodoDESER(DepartamentodeEstudosPreFcio11Scio-econmicosrurais).OtextoRefernciasemAgroecologia:umolharsobrearendaeoscaminhostrilhadospelaAgriculturaFamiliarnoSudo-estedoParan,partedeumestudodarendaedoscaminhostrilhadospelaagriculturafamiliardoSudoestedoParan,trazendoreflexessobreousodaterra,otrabalho,oautoconsumo,oscustosdeproduo,entreoutrosindicadores,apartirdosdepoimentosdeumgrupodeprodutoressobresuasUPVFsUnidadesdeProduoeVidaFamiliares,noSudoestedoParan.Ressaltamosqueasreflexeseexperinciastratadasnesselivro,socompostaspordiferentesvivncias,formaeseformasdeatuaodosau-toresdoscaptulos,queapesardesetraduzirememtextosredigidoscomlinguagensheterogneas,demonstramadiversidadedeatoressociaisedeinstituiespreocupadoscomaquestodaagroecologiacomoestratgiadedesenvolvimentoparaterritrioscompresenadeagricultoresfamilia-res.Buscamosassim,modestamentecontribuirparaodesafiodediminuiraslacunasexistentesentreaacademiaeasexperinciasempricas,nosen-tidodepromoverodilogointerdisciplinaremtornodaagroecologia.Osorganizadoresparte ireflexes sobre o Desenvolvimento luz Do enfoque territorial15territrio, territoriAlidAde e desenvolvimento: diFerentes PersPectivAs no nvel internAcionAl e no BrAsilmarcos aurlio saquetGegrafo,ProfessordoscursosdeGraduaoePs-graduaoemGeografiadaUNIOESTEFranciscoBeltro-PR,PesquisadordoCnpq|saquetmarcos@hotmail.comeliseu savrio spositoGegrafo,ProfessordoscursosdeGraduaoePs-GraduaoemGeografiadaFCT/UNESPPresidentePrudente-SP,PesquisadordoCnpq|essposito@prudenet.com.brAscontrovrsias,osdebateseosestudossobreodesenvolvimentotmseacentuadobastanteapartirdosanos1990,emvirtudedevriosfatores,especialmentedoagravamentodadegradaoambiental.Oscilam-seentreumaperspectivamaisradical,quedefendeoretornoatcnicasprodutivasmaisrudimentares,compatamaresdeproduomaisreduzidosesimplifi-cadosevidenciandoolugareaintensidadedeaceleraoefortalecimentodaproduotipicamentecapitalista,centradanoavanotecnolgico,naprodutividade,naacumulaodecapital,noagravamentodadegradaoambientalenaeconomiacadavezmaisglobal.Aomesmo tempo, substantiva-se uma perspectiva de desenvolvi-mentonaqualtenta-seconciliaraproduodemercadoriascomarecu-peraoeapreservaodoambiente,valorizando-seolugar;pormnodemaneiradesarticuladadeprocessosmaisgeraiseamplosefetivadosemescalascomoanacionale/ouinternacional.Paratanto,aorganizaopo-lticaeoenvolvimentodossujeitos,aformao/educao,oplanejamentoegesto,asredesdecooperao,avalorizaodasidentidades,entreou-trosprocessos,sofundamentaisnaredefiniodaproduoedeoutrosaspectosdavidacotidiana,numaconcepodedesenvolvimentoqueen-volve,necessariamente,orearranjodasrelaesdepoder.16desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA nesse sentido emovimento que ganha centralidade, em pasescomoaFrana,aSuaeaItlia,apartirdosanos1970,adiscussosobreoterritrioeaterritorialidade,efetivando-seoqueseconvencionoudeno-minardeabordagemterritorial.umanovaformadeverecompreenderoespao,asociedadeeanatureza,ouadinmicasocioespacial,destacando-seasredesdecirculaoecomunicao,ascaractersticaseaimportnciadanaturezaexterioraohomem,asrelaesdepodereasidentidadeshis-toricamenteconstitudas.Essaconcepo,elaboradaporpesquisadoresdediferentesreasdoconhecimento,comodageografia,dasociologiaedaeconomia,incorporalentamenteumcarterpolticomuitofortee,simultaneamente,umapers-pectivadedesenvolvimentoemrede,emfavordousomaisapropriadodanatureza,depequenasemdiasempresas,dacooperao,das identida-deslocais,entreoutros,oquesubstantivaoqueestamosdenominandodedesenvolvimentoterritorial.Humaconcepo renovadado territrio,da territorialidadeedodesenvolvimento,reconhecendo-seascontradiessociais,omovimento,adialticasocioespacial,aprocessualidadehistrica,aimportnciadosluga-resedossujeitoslocais,danaturezaexterioraohomemeanecessidadedeorganizaoeatuaopoltica,numaespciedeprxisrevistaerenovadaapartirdeexperinciasefetivadas,sobretudoduranteosculoXX.H,su-cintamente,umafortetentativadesuperarasconcepesarealesetorialdeanlisedoterritrioedodesenvolvimento,combinando-searelaorea-redeourea-rede-lugar,tantonoqueserefereaosinstrumentaisdapesquisacientficaquantonaelaboraodepolticaseprojetosdedesenvolvimento.territrio e territoriAlidAdeParece-nosquenohdvidas,nomeioacadmico,sobreaimportnciadarenovaodecinciascomoageografia,asociologiaeaeconomia,naefe-tivaodenovosarranjosparaaprpriacinciae,aomesmotempo,paraacompreensodarelaosociedade-natureza.Humainteraoentreaproduodoconhecimentocientficoeavidaemsociedade(paraalmdes-saproduo)eissoestnabasedareelaboraodeconcepes,polticaseprojetos,apartirdosanos1960-70,empasescomoaFranaeaItlia.A incorporao,por exemplo, de aspectosdo ideriomarxista emcinciascomoasociologia,ageografiaeaeconomia,possibilitaodesven-damentodeprocessoseconflitosatentoescondidos,possibilitandono-vasleiturasdomundodavida.Humamaiorpreocupaoeconseqenteintensificaodosestudos,apartirdosanos1970,porpartedepesquisa-doresdenominadosmarxistasouanarquistasouaindademocrticos,comascondiesdanaturezaedasociedade,enfim,comascondiesdevidanoplanetae,demaneiraespecial,comosgrupossociaisexcludos,tendo1mArcos Aurlio sAquet | eliseu sAvrio sPositocomotemticacentralajustiasocialjuntamentecomprocessoscorrelatos,comoaatuaodoEstado,ofortalecimentodaeconomianonvelinterna-cional,ousocapitalistadoespao,ametropolizaoeassimpordiante.Aconjugaodefatoresmateriaiseimateriais,nomundodavida,condiciona a revisodasmetodologiasutilizadasnas cincias sociais, acompreensomaiscoerenteecompletadaatuaodoEstadoedosagen-tesdocapital,deprocessosidentitrios,dasredesdecirculaoecomuni-caoedadinmicadanatureza.Esseprocessoperpassa,aomesmotem-po,acinciaeafilosofia,aarte,apolticaeosmovimentossociais,comoresultadoecondiodenovosarranjoseredefiniessocietrias.nessesentidoquesesubstantivamasconcepespioneirasereno-vadasdoterritrioedaterritorialidade,naFrana,naItlia,naSuaenosEUA.Evidentemente,essesconceitosnosofundamentaisparatodosospesquisadoreseparatodasascincias,pormassumemcentralidadeemalgumasdelas,comoageografia,asociologiaeaeconomia.Destacam-se,inicialmente,autorescomoJeanGottmann,GillesDeleuze,FlixGuattari,ArnaldoBagnasco, Francesco Indovina, Donatella Calabi, GiuseppeDe-matteis,MassimoQuaini,ClaudeRaffestin,entreoutros,e,posteriormen-te,pesquisadorescomoRobertSack.Nestetexto,notemoscomopropsitotratardetodosessesautoresedesuasconcepes.Consideramosalgumasabordagensmaisdiretamen-tevinculadassperspectivasdodesenvolvimentoterritorial,elaboradasapartirdosanos1970-80.Evidenciamosduasperspectivasdistintas:umainerenteaopensamentoeaosestudosefetivadosporpesquisadoresdeln-guainglesae,outra,vinculadaescolafranco-italiana,comdestaqueparaClaudeRaffestin,naSuaeparaGiuseppeDematteis,naItlia.Nachamadaescolaanglo-saxnica,umdosestudosprincipaisodeSack(1986),quetemsidoamplamenteutilizadoemvriospases,in-clusivenoBrasil,sobretudoporsuaconcepodegeografiaedeterrito-rialidade humana,considerandoasrelaesdepoderqueocorremtantoemnvelpessoaledegrupoquantointernacional.Aterritorialidadecor-respondeaocontrolesobreumareaouespao;umaestratgiaparain-fluenciaroucontrolarrecursos,fenmenos,relaesepessoaseestinti-mamenterelacionadaaomodocomoaspessoasusamaterra,organizamoespaoedosignificadosaolugar.Aterritorialidadeumaexpressodopodersocial,conformandooterritrio.Esteentendidocomoumareacontroladaedelimitadaporal-gumaautoridade,resultadodeestratgiasdeinflunciasocial.Hcontrolesocial:algumaspessoasatuamcontrolandooutras.Aterritorialidadecon-sideradacomoumcomponentedepodersignificaumaformadecontroledoespao.ParaSack(1986),assim,oterritriocontmdemarcaes,cor-respondeaumareadecontroleeestdiretamenterelacionadoaoexer-cciodepoder.1desenvolvimento territoriAl e AgroecologiAElefazumaabordagemrelacionaldoterritrio,contribuindoparaoentendimentodasdimensessociaisdesuaconstituio,ouseja,deas-pectosdaeconomia,dapolticaedacultura,pormsubsidiaaelaboraodeumaconcepoconservadoradeterritorialidade,oqueGoverna(2005)denominade territorialidade passiva. Para esta autora, adefiniodeterritorialidadepropostaporRobertSackextremamentergida,poisin-dividuaerecorta,respectivamente,tendnciaseefeitos,limitandoaabor-dagemacertasreasdecontrole.Aterritorialidade,paraSack(1986),vistacomocapacidadedeseparareexcluir,queseexprimedeacordocomasestratgiasdecontrole,coeroeexercciodopoder.J na outra ponta da discusso, um autor considerado clssicopelaimportnciadesuaabordagememrelaoaoterritrioeterritoria-lidade,ClaudeRaffestin,quetemsededicadoaessatemticadesdeosanos1970,naSua,cujaobrabasilara Porumageografiadopoder,publicadaoriginalmenteem1980,naFrana.Suaatenotemseconcen-tradonaselaboraesterico-metodolgicas,pormcomdiferentesapli-caesempasescomoaSua,oBrasil,aItlia,dentreoutros.Raffestin(1993[1980]),comosabemos,destacaocarterpolticodoterritrio,destacando,aomesmotempo,aspectoseprocessoseconmicose simblicosemsuaconstituioena territorialidade,comfortenfaseparaas relaesdepodereparaas redesdecirculaoecomunicao.Eessanfaseumadesuasprincipaiscontribuies,subsidiandonovasabordagensdoterritrio,dasrelaessociaisedodesenvolvimento.Emsuaconcepo,oterritrioobjetivadoporrelaessociaiscon-cretaeabstratamente,relaesdepoderedominao,oqueimplicaacris-talizaodeumaterritorialidadeoudeterritorialidadesnoespao,apartirdasdiferentesatividadescotidianas.Isso,deacordocomRaffestin,assen-ta-senaconstruodemalhas,nseredes,delimitandocamposdeaes,depoder,nasprticasespaciaisqueconstituemoterritrio.Destaca tambm o que denomina de sistema territorial, resultadodasrelaesdepoderdoEstado,dasempresaseoutrasorganizaesedosindivduos.Essesatoresgeramastessituras,maisoumenosdelimitveiseasterritorialidadesqueseinscrevemnasdinmicaspolticas,econmi-caseculturais.Emboratratededelimitaes,Raffestin(1993)reconheceeindicaumatransposiodoslimitespolticoseadministrativosatravsdeatividadeseconmicasedeviasemeiosdecirculaoecomunicao.Sucintamente,fazumaabordagemmltipladoterritrioedaterri-torialidade,relacionalehistrica,simultaneamente.Issotemsidoconside-rado,nomeioacadmico,umainovaomuitoimportanteparaapoca,subsidiandomuitaspesquisas,debatese interpretaes,nosomentenageografia,mastambmemcinciascomoasociologia.Destacamosduas contribuiesdeClaudeRaffestin, que conside-ramosmais relevantesparanossa reflexo: a) a importnciadanature-1mArcos Aurlio sAquet | eliseu sAvrio sPositoza(recursosnaturais)comoelementopresentenoterritrio.Emboranoaprofundeoestudodessaquesto,enfatizaousoeatransformaodosrecursosnaturaiscomoinstrumentosdepoder;b)aimportnciaecentra-lidadeda territorialidadenavidacotidiana,comombitode tomadadedecisesedeorganizaopoltica,oqueinspirarconcepescomoadaterritorialidade ativa,descritaerefletidaporGoverna(2005),porexem-plo.ParaFrancescaGoverna,aposiodeC.Raffestincompreendeater-ritorialidadecomorelaessociaisefetivadasparaasatisfaodeneces-sidadescomoauxliodemediadores(mdiateurs),nointuitodeseobtermaiorautonomia possvel.AconcepodeRaffestin(1993[1980])sobreterritrioeterritoria-lidade processual, relacional emltipla, subsidiando a elaborao deidiasemfavordaorganizaopolticaedodesenvolvimento local.Deacordo comGoverna (2005), o que tambm fora observado por Saquet(2003[2001],2004e2006),aconcepodeClaudeRaffestinsobreopodersubstancialmentedistintadadeRobertSack,ouseja,paraRaffestin,asrelaesdepodersomultidimensionaiseefetivammalhas,nseredes.Aterritorialidade,nessesentido,significaacapacidadedevalorizaodosatoresedosrecursosdeumcertolugar,atravsdeaesdeinclusoenodeexcluso:Essaumaconcepoativadeterritorialidade,resultadodeumprocessodeconstruodasaesedoscomportamentosquedefinemasprticas(tambmdeconhecimento)doshomensemrelaorealidadematerial(GOVERNA,2005,p.57).Aomesmotempo,naItlia,GiuseppeDematteis,desdeosanos1970,argumentaemfavordoterritrioconstrudohistoricamenteporsujeitosso-ciais que se relacionamentre si.Essa compreenso tambm inovadora epioneiraaparecemaisdetalhadamenteemsuaobrade1985,posteriormenteratificadaemDematteis(2001),naqualoterritrioeaterritorialidadesocompreendidoscomoprodutosdoentrelaamentoentreossujeitosdecadalugar,dessessujeitoscomoambienteedessessujeitoscomindivduosdeoutroslugares,efetivandotramastransescalaresentrediferentesnveisterri-toriais.Oterritrioumaconstruocoletivaemultidimensional,comml-tiplas territorialidades interagidas (poderes, comportamentos, aes) quepodemserpotencializadasatravsdeestratgiasdedesenvolvimentolocal.Esta abordagem tem algumas similaridades quela de Raffestin(1993[1980]),quetambminspirouaelaboraodeconcepesrenovadasdoterritrio,daterritorialidadeedodesenvolvimento,subsidiandoade-finiodeplanoseprojetosdedesenvolvimento,comoocorreapartirdosanos1990e,sobretudo,apartirde2000,naItlia,atravsdaelaboraoterico-metodolgicadoSistema Local Territorial(Slot),oqualabordare-mosnoitemsobreodesenvolvimento territorial.Humaoperacionalidadedosconceitosdeterritrioeterritorialidade,oquevemocorrendonoBra-silapenasmaisrecentemente.20desenvolvimento territoriAl e AgroecologiAdesenvolvimento locAlVamosacrescentarmaisalgunsargumentosparatornarmaisabrangenteestetexto.Primeiramente,apresentamosalgumasidiassobredesenvolvi-mento,partindodanovaordemqueseinstauranaescalamundiale,numsegundoplano,dasidiasdealgunsautoresqueabordaramotemadema-neirapositiva,paraposteriormentetrabalharmoscomodesenvolvimentolocalmaisespecificamente.Iniciamoscomaconstataodequeasatividadeseconmicasain-dasoproeminentesnaconstituiodanovaordemmundialque,porsuavez,rebate-senoslugarescomsuasformasdecentralizaodegestodocapital,resultadodacombinaodediferentesarranjosinstitucionaisedaforadedeterminadasreasgeogrficas, cujas formasdeapropriaoetransformaodanaturezasetornaramhegemnicas.Pelanovalgicaqueseinstauranosterritrios,nohuniformidadenadistribuiodasriquezasemesmodoacessosnovastecnologias,por-quea intensidadedecoordenaoserealizaemreasbemdemarcadasedefinidaspelaforadasatividadeseconmicas,gerandoreasexcludas.Odescompassoentreaexistnciadatecnologiaedoacessoaelapodesercon-siderado,agrossomodoesempretensesdesermosconclusivos,comoumestmuloaosmovimentosdepopulao,stensesentregrupossociais,disputapelacompetitividadee,enfim,pelodes-controledosterritrios.Continuandonestemomento, trabalharemos comas idias de al-gunsautoresquetrataramdanoodedesenvolvimento,comoAlainLi-pietz(1988),queprocuroucompreenderasdesigualdadesespaciaisdode-senvolvimento a partir da diviso social e territorial do trabalho, tendocomobaseanoodeformaoeconmico-socialdeKarlMarx.Paraexplicarsuanoodedesenvolvimento,eleenumeratrstiposderegies:1) regies fortes em tecnologialigadasaoscentrosdenegciose/oudeengenharia,aoscentrosdepesquisaeensinotecnolgicoecientfi-co,destacandocomoimportantesasrelaesentreosramosdeati-vidadeseovaloreaqualificaodamo-de-obra;2) regiesqueapresentamdensidade de mo-de-obra qualificada(tcni-coseoperriosqualificados)quetenhamcomobaseumatradioindustrial,ouseja,quecontamcomapresenadagrandeindstriaecomvalormdiodaforadetrabalho;3) regiescomreservademo-de-obracombaixa qualificaoebaixovalordeproduo, sendo, emalgunscasos,derivadasdodeclniodasindstrias.Essesdiferentestiposderegiesestariam,emtese,aptosaalavan-carodesenvolvimentoemdiferentesmagnitudes,dependendonosdes-21mArcos Aurlio sAquet | eliseu sAvrio sPositosascaractersticas,mas,tambm,desuacombinaocomoutrosfatores,conformandoaformaoeconmico-social.Outroautor,NeilSmith(1988),afirmaqueastendnciascontra-ditriasparaadiferenciaoeparaaigualizaodeterminamaprodu-odoespao.Emoutraspalavras,ascontradiesdovaivmdo capital,aose inscreveremnapaisagem,provocamodesenvolvimentodesigual,diferenciandoasreascomaltastaxasdelucro,deumlado,eosurgi-mento de reas que podem ser consideradas subdesenvolvidas porqueseapropriamdebaixastaxasdelucro.Odesenvolvimentoeosubdesen-volvimento,nessesentido,ocorrememtodasasescalasespaciais(dain-ternacionalurbana),eovaivmdocapitalprocurasempreasmaiorestaxasdelucronasdiferentesescalas,aproveitando-sedadesigualdadededesenvolvimento.Noqueserefereanlisedasescalas,oautorexemplificaequalifi-casuaargumentaoapartirdoexemplodasuburbanizaoquesecon-solidouapsaIIGuerraMundial,sobretudonosEstadosUnidos.Essefe-nmenoseexplicaporqueaclassemdiaprocurousedeslocardasreascentraisdascidadesparareasperifricasemaisdistantes(oschamadossubrbios),fazendocomqueasreascentraissetornassemdeterioradasetivessemdiminuiodopreodosolourbano.Comisso,asnovasreas,aquelas procuradas pelas pessoas para fixarem residncia, tornaram-se(metaforicamente) desenvolvidas, propiciando altas taxas de retorno decapitalporcausadosinvestimentosimobilirios.Porm,comadesvalorizaodosolourbanodessasreasapontodarendapotencialsetornarmaiordoquearendareal,tem-seumretor-nodocapitalaelas,ouseja,surgeumprocessoqueSmithchamade re-desenvolvimento.Assim,pode-seconcluirqueodesenvolvimentodesigualprodutododesenvolvimentocapitalista(nasmaisdiferentesescalas)e,aomesmotempo,premissaparaaexploraodasdesigualdadesgeogr-ficasparadeterminadosfinseconmicosesociais.Enfim,aacumulaodecapitale,porconseqncia,suaexpansogeogrfica,engendramumambienteconstrudoparaaproduoqueocorredemaneiradesiguales-pacialetemporalmente.Outroautor,EdwardSoja(1993),defendeaidiadequeoslucrosauferidospeloscapitalistassedevem,emprimeirainstncia,sdesigual-dadesregionaiseespaciais,elementosnevrlgicosparaasobrevivnciadocapitalismo.Astaxasdelucro,aprodutividadedotrabalho,osndicessa-lariaisso,dessemodo,distribudosdemaneirageograficamentedesigual.Ditodemaneiradiferente,apermannciaeametamorfosedocapitalismodevemserentendidas,acimadetudo,apartirdaproduoedaocupaodeumespaoque,fatalmente,levamexistnciadeespaosdesenvolvidose subdesenvolvidos. Isto , o desenvolvimento geograficamente desigualadvmdadinmicadediferenciaoeigualizaoespaciaisnoprocesso22desenvolvimento territoriAl e AgroecologiAdeinternacionalizao,jquenoprocessodeexpansouniformedocapi-talsetem,sincronicamente,umprocessodediferenciao.Frentepolarizaododebateentreoestruturalismoglobaleateo-riadasetapasdedesenvolvimento,surgeateoriadodesenvolvimentoen-dgenoafirmandoque,emprimeirainstncia,odesenvolvimentoeocres-cimentodasregies industriaissedevemaaspectos internos.As teoriasdodesenvolvimentoregionalendgenoedodesenvolvimentosustentvelsurgemnumcontextodecriseeconmicamundialnadcadade1980,mo-mentoemquehfortesmudanasnasregiesindustrializadas.Comode-clnioderegiesindustriaistradicionais,tem-seaemergnciaderegiesportadorasdenovosparadigmas(BENKO;LIPIETZ,1994).H semelhanas entre o desenvolvimento regional endgeno e odesenvolvimentolocal,sendoesteltimocompreendido,sobretudo,numcontexto de globalizao e descentralizao: o desenvolvimento localpode ser conceituado como um processo endgeno de mudana, quelevaaodinamismoeconmicoemelhoriadaqualidadedevidadapo-pulao empequenasunidades territoriais e agrupamentoshumanos.(BUARQUE,2002,p.25).Odesenvolvimento,nessalinhaderaciocnio,estligadotantoexploraodaspotencialidades locaisparaseualcancesocialquantoconservaodosrecursosnaturais.Porisso,pens-lorequer:a)valorizarosenraizamentos social, econmicoe culturalda sociedade local, indoalmdeanlisesestritamenteeconmicas;b)priorizarasinstituiesp-blicaslocais,aautonomiadasfinanaspblicaseoinvestimentodeex-cedentes emsetores sociais estratgicos.Emoutraspalavras,pensarodesenvolvimento local requernosomenteolharparaaeficinciaeco-nmica(agregaodevalor),mas,tambm,procurarcontribuirparaamelhoriadaqualidadedevidadaspessoas,diminuindoapobreza,porexemplo(BUARQUE,2002).Emresumo,osestudosacercadodesenvolvimentolocalpriorizama importncia dos agentes locais como as instituies especficas cujainterveno visa ao apoio s empresas (centros tecnolgicos, escolas deformao profissional etc.). Por isso, o desenvolvimento deriva de umacombinaode fatores favorveis a algumas atividades especficas numdeterminadotempoenumdeterminadoterritrio,ouseja,ossucessosal-canadosemumdeterminadoterritrionopodemserreproduzidospelaspolticasdedesenvolvimento.Juntamentecomaidiadedesenvolvimentolocal,tmsurgidotra-balhosdefendendoodesenvolvimentoapartirdaliberdade,daexpansodas capacidades humanas (SEN, 1993, 2000) e da autonomia (SOUZA,1997,2000,2003;CASTORIADIS,1983,1987).AmartyaSen(2000)defen-deaidiadedesenvolvimento associadoexpansodasliberdadesreaisdaspessoasaoassociarliberdadeecapacidadecomosendomeiosposterio-23mArcos Aurlio sAquet | eliseu sAvrio sPositoressnecessidades,isto,anecessidadealgoaparentementetemporrionaspessoaseascapacidades/liberdadesrepresentamoqueelaspodemviraser(estadoresultantedeumaefetivao).Emoutraspalavras,aefetivaoumaconquistadaspessoas.Aoes-tabelecerumaanlisehumanista,compreendeodesenvolvimentocomoumprocessodeexpansodasliberdadese,porisso,defendeaparticipaopol-ticaealiberdadedeexpresso,almdeoutrascapacidadesessenciaisparaodesenvolvimentosocial.Aomesmotempo,criticaavisodedesenvolvimen-toassociadariqueza,ouseja,aocrescimentodoPIBedarendaper capita,poisumapessoapodeserdemasiadorica,mas,aomesmotempo,privadadapossibilidadedeseexpressarlivrementeoudeparticipardedebatesede-cisespolticas.Emsuma:aliberdadenosomenteoobjetivoprimordialparasechegaraodesenvolvimento,mastambmoseuprincipalmeio.Outros dois pontos favorveis ao desenvolvimento com liberdademerecemdestaque:1)areduodamortalidadeeamelhoriadaqualidadedevidaque,naperspectivadoautor,seroatingidassomenteseoEstadopriorizarosgastoscomserviossociais,sadeeeducaobsica;2)aim-portnciadaseliteslocaisnapromoodosdireitosbsicosdecadacida-do(sadeeeducao)enadifusodoacessoaosaspectospositivosdodesenvolvimentoeconmico.Umoutroautor,Souza(2000,1997),defendequeodesenvolvimen-tosocioespacialdevesercompreendidoapartirdaautonomia individualecoletiva,envolvendoastomadasdedeciseseaparticipaoefetivadaspessoasnuma sociedademarcadapelaheteronomia, por sua vez, visvelnosLebenswelts urbanos (favelas, periferias etc.).O desenvolvimento seconcretizarcomaminimizaoda injustiasocialedasdesigualdadesnoacessoaoportunidadesaosmeiosdesatisfaodasnecessidades.Paratanto,necessriocompreenderoespaoemsuacomplexidadeparaevi-tarapriorismosereducionismos.Nestemomentodotexto,vamosconfrontardoispontosdevistaparacompletarnossaargumentaosobreodesenvolvimentolocal.Dopontodevistadomercadodetrabalhoedacapacidadeprodutivadasociedade,algumascaractersticasdevemserlevadasemconta: Incorporaotecnolgicaemsetoresdeponta; Aumentodonmerodeempresas; Variaodacapacidadeociosadasempresascomofatordedescom-pressodastensespolticasrelacionadasaomercadodetrabalho; Diminuio do tamanhomdio das empresas, considerando-se onmerodeempregados; Diminuiodonmerodeempregoscomcapacitaosofisticadaeaumentodonmerodeempregossemgrandesespecializaesouprecrios;24desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA Formaoderedesdearticulaoentrediferentessetores(empresasebancos,indstriaseserviosetc.); Localizaodasempresasemeixosdecirculaodepessoasedemercadoriasdefinidosporestruturaslogsticassofisticadas.Dopontodevistadomercadoconsumidore levando-seemcontaopapeldaredeurbana,deve-selevaremconsideraoosdeslocamentosparaaaquisiodebense servios tantomontante,quando se consi-deramascidadesmaiores(metrpoles,reasmetropolizadasougrandesaglomeraes),quanto jusante,quandosedestacaopapeldascidadesmdiasquedesempenhamopapeldeplosparaosquaismoradoresdeci-dadesmenoresedereasruraisestodispostosasedeslocarpararealizaroconsumodebenseserviosmaissofisticadosdoqueaquelesaquetmacessoemsuasreasderesidncia.Aproximidadetemrelevncia,mesmoconsiderando-sequeasdis-tnciasdedeslocamentopodemseampliaroudiminuir,dependendodasformas de transportes e da situao da rea de realizao do consumoemrelaoaosprincipaiseixosdecirculaodemercadoriasepessoas,almdeseconsideraremaspossibilidadesindividuaisecoletivas(dispo-nibilidade,freqncia,poderaquisitivoetc.)dedeslocamento.Nestecaso,osfluxosdefinem-senombitoterritorialmaisprximoesomarcadospelacontinuidadeterritorial,cujaconfigurao,emalgunscasos,deumarea e,emoutroscasos,deumeixo.Oeixo,entendidoaquicomoumparadigmacadavezmaismarcantenasdinmicasterritoriais,facilitaoconsumodebensdistncia,tornan-docomplexaarelaoentreascidadesdediferentesportesnaredeurba-na,relacionando-asnomaisdeformahierrquica,mascomumacombi-naohierrquico-horizontal,oquepermitequeosfluxosseestabeleamentreametrpoleeascidadespequenas,entreascidadesmdiaseasci-dadespequenas,ouentreascidadesmdiaseasmetrpoles,seconside-rarmosumterritrionacional.Issopode,noentanto,ultrapassarfrontei-ras,fazendocomqueosfluxosdepessoas,mercadoriaseinformaessefaamentrecidadesdediferentesportesecomdiferentesposiesnaredeurbana,consubstanciandoaquiloquejbemconhecidodosgegrafos,ouseja,anoodeglobalizao.Essadinmicaterritorialdefinidapelalgicadasredesquepodemsubverterarelaoordem-tamanhoeasrelaesmontanteoujusante,gerandorelaesdeconcorrnciaecomplementaridadeentrecidadesdemesmaimportncia.Enfim,aconfiguraoseestabeleceemformadere-deseconformadapeladescontinuidade territorial caracterizadapelafluidezepelavelocidadenasrespostasaosimpactosexternoseinternos.Asdinmicasterritoriaisdefinidasporessalgicadependemdain-fra-estruturaedasestratgiasespaciaisorganizadassegundoaspossibi-25mArcos Aurlio sAquet | eliseu sAvrio sPositolidades de localizao industrial e de servios, reforando as diferentespossibilidadesdedesenvolvimentolocalembasadonacombinaodaca-pacidadedearticulaointernadasforaslocais,dasuacapacidadederecebimento e de utilizao dos impactos externos e das combinaespossveisentreospadresdelocalizaodasatividadesemreaseeixos considerando-se, logicamente, os vrios aspectos dacontinuidade e dadescontinuidade territorial.Paracompletar,mesmoquenodeformadefinitiva,aexposiodosaspectosqueconsideramosfundamentaisparaacompreensodaspossi-bilidadesdeseconceberoconceitodedesenvolvimento,precisamoslevaremconsiderao,ainda,quehoutrascaractersticasdasdinmicasterri-toriais.Inicialmente,atendnciaampliaoterritorialdacompetitivida-depodeserconsideradacomoumacaractersticaatualecomoumaten-dncia,incorporadacomoleiuniversalecomoideologia.Poroutrolado,aseletividadedoslugaresprovocaosurgimentodeambientes especializados por causa de sua capacidade de competncia,criatividadeecompetitividade,associadaaoprivilegiamentodasativida-descomgrandecapacidadedecriaoeincorporaotecnolgica,prin-cipalmente aquelas exercidas pelas grandes empresas mundiais que secapilarizam para outros nveis de competio ao se colocarem na proadastransformaesterritoriaisprovocadaspelaincorporaotecnolgica.Essatendnciaseconsolidacomopapeldalogstica(quecongregaainfra-estruturaeasformasdegestodasprticasdedeslocamentodepessoasemercadoriasenatransmissodeinformaes)quetransformaanaturezaeacapacidadedosterritriossedefiniremporsuacapacidadededesen-volvimentolocal.No item seguinte, enfocaremos outra noo de desenvolvimento,tratandomaisespecificamentedoterritrioeseuscomponenteseproces-sosmateriais-imateriais.desenvolvimento territoriAlNaEuropa, desdeos anos 1970, deu-seum fortemovimentodireciona-doaoentendimentodosprocessosdedesenvolvimentolocalouregional,principalmenteempasescomoaFranaeaItlia.NaItlia,porexem-plo,hconcepeselaboradasporpesquisadorescomoCalgeroMusca-r,GiuseppeDematteis,GiacomoBecattini,GioachinoGarofoli,ArnaldoBagnasco,AlbertoMagnaghi,entreoutros,destacando-se,desdeosanos1960-70,aimportnciadolugaredoterritrioparaadefiniodeestrat-giasdedesenvolvimento.Humarelaomuitosignificativaentreodesenvolvimentoecon-micodoCentro-Norte-Nordesteitalianoeestudosfeitosporesseseoutrospesquisadores,queelaboramoqueosocilogoArnaldoBagnascodenomi-26desenvolvimento territoriAl e AgroecologiAnou,nofinaldadcadade1970,deabordagemterritorial.NaItlia,defato,diferentementedoqueocorreunoBrasil,oconceitodeterritriotevecen-tralidadenomovimentoderenovaodecinciassociaiscomoasociologia,aeconomiaeageografia,inspirandoestudossobreaorganizaoeousodoterritrioeaconstruodepropostaseprojetosdedesenvolvimentolocal.Como no nosso propsito abordar todas as concepes elabo-radasnaItliaenaFrana,destacamosaspectosdaconstituiodoSlot(Sistema Local Territorial),pelochamadogrupodeTurimItlia.Ocoor-denadordessegrupodeestudosfoiepermaneceGiuseppeDematteis,en-volvendopesquisadoresimportantescomoSrgioConti,AnaSegre,Fran-cescaGoverna,EgidioDansero,CarloSalone,entreoutros,doPolitcnicoeUniversidadedeTurimedeoutrasuniversidades,comoVincenzoGuar-rasi,BrunoVecchioePaolaBonora.Evidenciamosessaexperincia,porsuaimportncianomeioacadmico,tantonaItliacomoempasescomoaEspanha,aFranaeoBrasil.Umadasobrasclssicasnesseprocesso,emboraoautornotenhaparticipadodiretamentedaconstruodoSlot,adeBagnasco(1977).emseuTrsItliasqueArnaldoBagnascoelaboraasbasesdeumateori-zaoquemarcouefetivamenteosestudosregionaisrealizadosemdife-rentespases,especialmentenaeconomia,nageografiaenasociologia.Bagnasco(1977)compreendeoterritriocomorea,comcaracte-rsticaseconmicas,polticaseculturaisespecficas,naqualseusagentessociaismantmrelaescomagentesdeoutrasreas.Essaconexoentrediferentesterritriosumacontribuiomuitoimportantedoautor,queadenominadearticulaoterritorial,ouseja,umacombinaoentredi-ferentesclassessociaisqueseterritorializam.Tratam-sederelaesqueocorremtantononvelinternocomoexternamenteacadapas,emvirtu-de,especialmente,dacirandamercantil.Oautor,coerentemente,tambmabordaelementospolticoseculturaisdaconstituiodosterritriosedassuasarticulaes,destacandoosprocessoseconmicosepolticos.Osterritrios,emsuaconcepopioneira,tmcaractersticasespe-cficasqueosdiferenciamunsdosoutros,comoprodutosdadinmicaso-cioeconmica,sendoqueelesestoemarticulaoeconexonomercadonoqualtambmexistemrelaespolticaseculturaisqueseefetivamnotempoenoespao.Essaarticulaoassumeumcartercentralnaabor-dagemdesseautor,apontodeserconsiderada,elamesma,umadasmlti-plasdeterminaesdeumarealidadeconcreta.Oterritrio,assim,almdereaeformasespaciais,significacone-xo,articulao,resultadoecondiodadinmicasocioespacial.Eode-senvolvimentomarcadopelaespecializao produtiva locale,aomesmotempo,pelaagregao territorial,pormudanas/inovaeseporpermann-ciassociaiseterritoriais.Ditodeoutramaneirah,noterritrio,umde-senvolvimentodesigualecombinado.2mArcos Aurlio sAquet | eliseu sAvrio sPositoPosteriormente,emAconstruosocialdomercado,obrapublica-daem1988,ArnaldoBagnascoreforasuaabordagemmltipladodesen-volvimentoregional,ouseja,consideraaspectospolticos,econmicoseculturaisecontinuareconhecendodiferentesrecortesregionaiscomofor-maes sociaisdistintas,coexistentesearticuladasemtramassociais.Bag-nasco(1988)evidenciaquatromecanismosprincipaisderegulaoecon-mica,presentesnaterritorializao:a)areciprocidadeentreosindivduosouinstituies;b)omercado,criadorderelaeseaessociais;c)aor-ganizao,internaeexternaacadaempresa;d)asrelaespolticas,comoformadeintervenoetutelamentodeinteressesdedeterminadosgrupossociais.Essesmecanismosestosemprepresentes.Oquemudanoespaoenotempososuascombinaes.Ficaclaro,dessamaneira,suaaborda-gemprocessualerelacionaldeterritrioededesenvolvimentoeanfaseparaosfatoreseconmicosepolticos.NoqueserefereespecificamenteelaboraodoSlot,pelogrupodeTurim,ressaltamosumtextopublicadoporGiuseppeDematteisem2001,porresumirmuitobemsuaargumentaoparaoentendimentodo territrio e da territorialidade, atravs dos sistemas locais territo-riais.OSlot,paraesseautor,deveser,aomesmotempo,uminstrumen-to de poltica territorialeumaformaanalticae,porisso,construdoapartirdarealidade.Dessa forma, Dematteis (2001) prope os seguintes componentesanalticosparaoSlot:a)arede local de sujeitos,quecorrespondesinte-raesentreindivduosemumterritrio local,ondehrelaesdeproxi-midade ereciprocidadeentreossujeitosdolocaledeoutroslugares.Haconstruodeumator coletivo;b)omilieu local,entendidocomoumcon-juntodecondies ambientais locaisnasquaisoperamossujeitoscoletivaehistoricamente;c)ainteraodarede localcomomilieu localecomoecossistema,deformatantocognitiva(simblica)quantomaterial.Hin-teraesentreosdomniosdosocialedoambiente;d)arelao interativadarede localcomredes extralocais,emdistintasescalas:regional,nacionaleglobal.Hinflunciasmtuasentreolocaleoglobal.CadaSistema Local Territorial, dessamaneira, paraGiuseppeDe-matteis,temaspectosambientaiseumaconstruosocialhistrica,pro-cessualerelacional,naqualsedumaorganizaopolticanosentidodacoesoedaprojeodofuturo.E,comohpreocupaoeintencionali-dadecomaprojeoecomoplanejamento, importantequecadaSlottenhacapacidadedeseauto-representareseauto-projetar,sendooestudo(anlisee interpretao)ummeioparaaconquistadeautonomia, lem-brandoalgunsprincpiosdaargumentaodeAmartyaSen.Daoconcei-todeterritorialidade ativa,comoformadedesenvolvimentoeconquistadeautonomia.Istosignificaque,nessaconcepo,optarporumageografia da territorialidade implicaumamudanadeparadigmadeabordagemdos2desenvolvimento territoriAl e AgroecologiAprocessosgeogrficosedeatuaonavidapoltica(paradetalhamentodaproposta,verotextodeG.Dematteis,publicadonestelivro).nessesentidoecontextoqueseelaboraoconceitodedesenvolvi-mento territorial, compreendido levando-se emconsideraoos compo-nentesde cada territrio, ou seja, tantoos econmicos, comopolticos,culturaiseambientais.Aterritorialidade,apartirdoconceito(ounoo)elaboradoporClaudeRaffestin,vistacomoumapossibilidadedemedia-oparaaconstruodenovosprojetosdedesenvolvimentoeaconquistademelhorescondiesdevida,comautonomia.Aautonomianosignifica,deformaalguma,umaespciedefecha-mentodolugarcomrelaoaorestantedomundo.Aocontrrio,signifi-caacapacidadedecontroleegestodedeterminadosprocessospolticos,econmicos,culturaiseambientais,demaneiraqueossujeitosenvolvidosdiretamenteemcadaprocessopossamdefinirosplanoseprojetosemcon-sonnciacomatoreseprocessosdeoutroslugares.Humarelaodeuni-dadenadiversidadequeprecisasergeridacomvistasaodesenvolvimentocommaisjustiasocial.EmconsonnciacomArnaldoBagnascoeGiuseppeDematteis,duasdasprincipaisrefernciasnombitointernacionalsobreasquestesdoter-ritrio e do desenvolvimento, podemos afirmar que as interpretaes doterritrioe/ouasiniciativasdedesenvolvimento territorialprecisamcon-siderar,necessariamente,osseguinteselementos/componenteseprocessos: Aarticulaodeclasseseaconstituioderedesetramaslocaiseextralocais,quesignificamrelaesdepoder,efetivadasemcadalu-gareentreoslugares,emvirtudedesuasdesigualdades,diferenaseespecificidades. Ocarter (i)material, conciliando-seos fatoreseelementoscultu-rais,polticos,econmicosenaturais,emunidade. Aproduodemercadorias(ouexcedentes),arecuperaoeapre-servaodanaturezaexterioraohomem. Avalorizaodaspequenasemdiasiniciativasprodutivas. Avalorizaodossabereslocaisedasidentidades. Aconsideraodoprocessohistricoedopatrimniodecadalugar. Aproduoecolgicadealimentos. Aorganizaopolticalocal,comvistasconquistadeautonomia. Adiminuiodasinjustiasedasdesigualdadessociais,dentreoutros.Esseselementossoconsiderados,porexemplo,noBrasil,emobrascomoasdeSaquet(2003[2001]e2006),naanlisedoterritrio,daterri-torialidadeedodesenvolvimento,nointuitodesubsidiareorientaraela-boraodeplanoseprojetosespecficosdedesenvolvimento,quevisem2mArcos Aurlio sAquet | eliseu sAvrio sPositoconquistadeautonomia.Attulodeilustrao,podemosmencionarduasexperinciasconstrudasnoSudoestedoParan,apartirdosanos1990,comessainspirao.Asexperinciassoasseguintes:a)oProjeto Vida na Roa,pensadoeefetivadoatravsdaatuaoconjuntadevriasinstituies(pblicaseumaONG,aAssesoar),entreosanos1996e1998,considerandoaintera-odeaesvoltadasparaasatividadeseconmicas,polticaseculturaisdeumgrupodemaisde100famliasdeagricultoresfamiliareseprimandopelarecuperaoepreservaodoambientee,b)oProjeto Vida no Bairro,construdotambmemparceriaedeformaparticipativa,envolvendodi-ferentesinstituies.Nesseprojeto(SAQUET;PACFICO;FLVIO,2005)tambmtrabalhamoscommaisde100famliasmoradorasemumbair-roperifricodacidadedeFranciscoBeltro(PR).Nasuaelaboraoenaconcretizaodas aes, entre2001 e 2005, tentamos estabelecernovasrelaeseatividades,emtramasterritoriaiscentradasnaformao/edu-caodos sujeitosenvolvidos,naorganizaoeparticipaopolticanatomadadedecises,napreservaodoambiente,navalorizaodaidenti-dadejexistenteentreosmoradoresdobairro,enfim,tentamosviabilizaratividadesquepossibilitassemmelhoriasnascondiesdevidadaquelaspessoas,comumcertonveldeautonomiadiantedeprocessospolticosconservadoreseinerentesdominaosocial.Sucintamente, pensar, discutir e estabelecer aes de desenvolvi-mentoterritorialsignifica,numprimeiromomento,terumacompreensorenovadaecrticadoterritrio,daterritorialidadeedodesenvolvimento.Nobastasubstituiroconceitoderegiopelodeterritrio,comocomu-menteocorrenoBrasil.necessrioconhecer,comclareza,suasdiferen-tesabordagensassimcomoasdeterritorialidadeedesenvolvimento,comoorientaoinicialparaareuniodaspessoasquedesejamrearranjarsuaformadevida.Apartirda,fundamentalconsideraroselementosqueestopre-sentesemcadaterritrioquedescrevemosanteriormentee,acimadetudo,ossujeitosqueefetivamessesterritrios,suasnecessidades,seusvaloresepatrimnios,ascondiesdanaturezaexterioraohomem,enfim,suasrelaeseseuslugaresdevidacotidiana,historicamenteconstitudosdemaneiraimaterial-material.Emvezdecondicionaroslugaresstcnicasestecnologiasdochamadomundomoderno,necessrio,maisdoqueemoutrosmomentosdahistriadahumanidade,ajustarastcnicaseastecnologiasaoslugares,suasespecificidadeshistrico-geogrficas,ouseja,territoriais,nointuitodeconcretizaraesdedesenvolvimentoterritorialcomautonomia.Podemoscompreender,nessesentido,odesenvolvimentocomoaorganizaoealutapelaliberdade,pelajustiaepeloconhecimen-to.Quantomaisconhecimento,maiscondiesteremosparanossaorga-nizaopolticaelutapelaautonomia.30desenvolvimento territoriAl e AgroecologiAreFernciAsBAGNASCO,A.Tre Italie. 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conceitos e temas.RiodeJaneiro:BertrandBrasil,2003.33sistemA locAl territoriAl (slot): um instrumento PArA rePresentAr, ler e trAnsFormAr o territriogiuseppe DematteisGegrafo,ProfessordeGeografiadoPolitcnicoeUniversidadedeTurim-Itlia|giuseppe.dematteis@polito.itSeguidamente se faz um uso excessivamente retrico da palavra terri-trio, sugerindo-se visesparciais oudistorcidasda realidade.Parciaisquandoopensamoscomoumconjuntomaterialdecoisassematores,ouquandocremos,aocontrrio,queoagirpoltico,social,culturaleecon-micopossaserdesligadodesuamaterialidade.Ou,ainda,quandooter-ritriopensadocomosimplesreceptorpassivodeefeitosderivadosdeumagirsocial,econmicoepolticoqueoperariaemumaesferaautno-maedistintadarealidadematerialdoslugares.Sefosseassim,isto,seoterritriofossesomenteasuperfcieso-breaqualseprojetaalgumaatividade,noserianecessrioneleintervir:aspolticasterritoriaisnoprecisariamexistir,ouseja,bastariampolticaseconmicasesociaisque,regulandorelaesintersubjetivaseabstratas,regulariamosefeitoseosimpactossobreele,dando-lheaformaeaorga-nizaodesejada.Seria,certamente,umagrandefacilidade,pormessavisodesma-terializadadoagirhumanocontrastacomofatodequetodasascoisasquefazemos,comoindivduosecomosociedade,devemserefetivadasconsi-derandoosbenseosrecursosnaturaisprimrios,osequilbrioshidrogeo-1 Traduo:ProfessorDr.MarcosAurelioSaquet.desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA34lgicoseecossistmicos,ossolosprpriosparaasedificaes,opatrim-niohistricoeartstico,ocapitalfixoexistente(infra-estruturas,edifcios,construesetc.).Sotodosesseselementos,solidamenteligadosaosoloedistribudosnoespaogeogrficodemaneiravariadaque,combinando-secomasnossasexignciasdeviver,habitar,produziresonhar,modelam,notempo,asociedadeeaeconomia.Podeacontecer,tambm,queoproces-soco-evolutivodelongaduraopassedesapercebidoeanossapercepoimediatasejaqueasociedademodelaoterritrio,semseconsiderar,tam-bm,queocontrrioocorre.Poressemotivo,qualquerpolticaeconmica,socialecultural,queobjetivasereficazdeveocupar-sedo territrio,vistonosomentecomoprodutodoagirhumano,mastambmesobretudo,comomeioematrizdeumfuturo,visandoproteodoconjuntodecondiesnecessriasvida.Issoequivaleadizerque,paramelhoraraqualidadedoambienteedasociedade,paraproduzirculturaedesenvolvimentoeconmico,preci-samosagirconsiderandoaterritorialidade,entendidacomoasrelaesdi-nmicasexistentesentreoscomponentessociais(economia,cultura,ins-tituies,poder)eoselementosmateriaiseimateriais,vivoseinertes,quesoprpriosdosterritriosondesehabita,seviveeseproduz.territoriAlidAde AtivA e PAssivAParasecompreenderopapeldaterritorialidadenosprocessosdedesenvol-vimentonecessrioesclarecerosprincipaissignificadosassumidosporessetermoesuasdiferenasessenciais.Deacordocomalgunsautores,comoR.D.Sack,aterritorialidadepodeserdefinidacomoatentativadeumindivduooudeumgrupodeinfluenciaroucontrolaraspessoas,osfenmenoseasrelaes,delimitan-doeexercitandoumcontrolesobreumareageogrfica.Essareaserchamadaterritrio.Bemdiferenteaposiodeoutrosautoresque,juntamentecomC.Raffestin,definematerritorialidadecomoumconjuntoderelaesquenascememumsistematridimensionalsociedade-espao-tempo,comvis-tasmaiorconquistapossveldeautonomia,compatvelcomosrecursosdeumsistema.Eainda:conjuntoderelaesqueumasociedade,eporissoosindivduos,tmcomaexterioridadeecomaalteridadeparasatisfa-zerosprpriosdesejoscomaajudademediadores,naperspectivadeobteramaiorautonomiapossvel,tendoemcontaosrecursosdeumsistema.Nessecaso,aterritorialidadenooresultadodocomportamentohuma-nosobreoterritrio,masoprocessodeconstruodetaiscomportamen-tos,oconjuntodasprticasedosconhecimentosdoshomensemrelaorealidadematerial,asomadasrelaesestabelecidasporumsujeitocomoterritrio(aexterioridade)ecomosoutrossujeitos(aalteridade).35giusePPe demAtteisEssas duas abordagens, diferentes em relao territorialidade,indicamdoismodosdiversosde considerar o local e as relaes comoterritriodossujeitos.possvel,assim,distinguir-seuma territorialida-de passivaenegativaque,comestratgiasdecontroleecomosistemanormativoassociado,objetivaexcluirsujeitoserecursos,eumaterritoria-lidade ativaepositiva,quederivadasaescoletivasterritorializadaseterritorializantesdossujeitoslocaiseobjetivaaconstruodeestratgiasdeincluso.Nestesterritrios,vistoscomoativos,aterritorialidadecor-respondeamediaessimblicas,cognitivaseprticasentreamateriali-dadedoslugareseoagirsocialnosprocessosdetransformaoterritorialededesenvolvimentolocal.Cabedestacar queno sempre que a territorialidadepassiva serealiza comprticas de coero e comobjetivos negativos. Antes disso,ocontrole seexercita coma finalidadedobem.Este bem,porm,definidopelosdominadores,enquantoosdominadosnotmapossibili-dadeautnomadejuzoedeagirparafazervalerseusinteresses.Essaumaformadetratamentoedomododesatisfazerasnecessidadestpicadatradioadministrativaedoplanejamentoterritorial,entendidocomoregulao autoritria das decises e como estruturao hierrquica dosconflitos.Naconstruodasformaspassivasdaterritorialidade,defato,aossujeitos(locais)sotransferidoscomportamentospr-definidospelasestruturasdecontrole,deacordocomexpectativasexternas,semsepreverquepossamagirdemaneiraprpria,comaesautnomas.Jnaterrito-rialidadeativaossujeitoslocaisefetivampapiseaesconfigurando,des-semodo,estratgiasderesposta/resistnciacomrelaosimposiesdecontrole,contribuindopararealizarmudanaseinovaes.os sistemAs locAis territoriAis (slots)Paraqueaconcepoativaepositivadaterritorialidadepossaser,defato,operativanosprocessosdedesenvolvimento,precisamostraduzi-laemummodeloconceitual,quesirvaantesdequalquercoisa,analiseedescriodarealidadeedaspotencialidadessociaiseterritoriaisjexistentesparaseconstruir,apartirdisso,ossistemas,aomesmotempo,territoriaisesociais,destinadosaseconfigurarematoresdedesenvolvimentolocalnombitodaspolticasmunicipais,estaduaisenacionais.Pesquisasempricasapli-cadasaproblemasdedesenvolvimentolocaledeprojeointegradaporcontadeentidadespblicas(municpios,provncias,regies,ministrios),juntamentecomestudosdecasoecomreflexes terico-conceituais re-centementedesenvolvidasemumapesquisanacionalPRIN-MIUR,permi-tiramgerarummodelosimplificadodesistemalocalterritorial(SloT),aomesmotempo,analticoecomomeioparaoplanejamentoeconcretizaodeprojetosdedesenvolvimento.Umsistemalocalterritorialconstrudodesenvolvimento territoriAl e AgroecologiA36apartirdoquejexisteeissopodegarantiraeficciadeprojeodoqueseredificado.Comoinstrumentoanaltico,omodeloconceitualSloTcompostopelosseguinteselementos:i) A rede local de sujeitos:formadapeloconjuntoderelaeseintera-esentreossujeitos(individuaisecoletivos,pblicoseprivados,locaiseglobais),presentesouativveisemumcertoterritrio local.Aqui,porlocal,entende-seaescalageogrficaquepermiteintera-es tpicas de proximidade fsica: relaes baseadas no conheci-mentoenacomunicaodireta(face-to-face),naconfiana,nare-ciprocidade,naexperinciacomumeprticadeumcertocontextooumilieuterritorialetc.Porisso,considera-setantoadimensodeuma vila ou de um pequeno bairro como uma provncia italiananomuitogrande,quetambmadimensonormaldeumsistematerritorialurbanodetamanhomediano.Comea-seafalardoSloTquandoesseagregadodesujeitosagedealgummodoeemalgumaocasiocomoumatorcoletivo,isto,quandoseempenhanaelabo-raoenarealizaodeprojetoscomunsdetransformao,desen-volvimentoerequalificaodoprprioterritrio.ii) O milieu local:indicaoconjuntodecondiesfavorveisaodesen-volvimentoespecficodocontextoterritorialnoqualoperaumacer-taredelocaldesujeitos,da forma como estes percebem estas condi-es.Humreferimentoobjetivoaosrecursospotenciaisimveis(ocapitalterritorial)prpriosdoterritriolocal,isto,aoconjun-toderecursosmateriaiseimateriais,queestosedimentadoslocal-mente comoresultadodeum longoprocessoco-evolutivoentreasociedadelocaleoterritrio.Ocapitalterritorialnoconsiste,po-rm,simplesmentenoconjuntoobjetivoderecursos (assimcomoopoderiadescrevereavaliarumpesquisadorexterno).Eletemumladosubjetivoquecompreendeas representaeseasatribuiesdevalorefetivadaspelossujeitoslocais.Correspondeaoconjuntodepropriedadesquearedelocaldossujeitosconsideracomoprises(ex-pressodogegrafofrancsA.Berque)paratransformaremelhoraroseuambientedevida.iii) A relao de interao da rede local com o milieu e com os ecossiste-mas locais:consistenatraduodaspotencialidadesdomilieuemvaloresdo tipoambiental, cultural, esttico, social e econmico atravs de processos de transformao simblica ematerial doambiente.iv) A relao interativa da rede local com redes globais(redeslongas;tendencialmenteglobais):soasaesquemodificamtantoacom-posioda rede local, comoomilieu, as relaes cognitivas, sim-3giusePPe demAtteisblicasetecnolgicascomoambientelocaleosvaloresexgenos(cognitivos,culturais,sociais,econmicos).Humainteraoentreosvaloreslocaiseglobais.Essaformadedefinirossistemaslocaistemalgumasimplicaesrelevantes.Antesdetudo,aidentidadedoSloTdefinidanosomentecomrelaoaosentidodepertencimentoememriadopassado,mastam-bm,esobretudo,emtermosdeorganizao do sistema,isto,comocoe-soparaoplanejamentodofuturo.CadaSloT,pelofatodeterumaorgani-zaoespecficaeumdomnio cognitivoprprio,reconhecidocomosededeelaborao (tambmconflitual)de racionalidades locais que se expli-camatravsdeprincpioseregrasespecficasdeusoedeorganizaodoterritrio.Comoconseqncia,paracadaSloTseatribuiumacapacidade(maisoumenosexplcita)deauto-representaoedeauto-projeo;capa-cidadequeinteragecomaquelasanlogasdonvelglobalnasformasdecooperao,deconflitoedenegociao.Enfim,aauto-organizaodosistemalocalconsideradaumrecur-soendgenoqueaspolticasgeraisdedesenvolvimentodevemconhecer,orientaregovernar.Esserecursooverdadeiroobjetodeanliseparacadasistematerritoriallocal.Aindividualizaodossistemaslocais,dasredesedosambientescomoentidadesterritoriaissomenteuminstrumentoparasedescobriredescreverasformaslocaisdeterritorialidadeativa,ouseja,asmodalidadesdeorganizaolocal,comoobjetivodeativareorientarprocessosdedesenvolvimento.Cabedestacarque, referindo-seaentidades territoriais (comcon-tornosvariveis),onossosistemalocalterritorialsediferenciaconceitual-mentedacategoriasimilarutilizadaanteriormenteporgegrafos,plane-jadoreseoutrosestudiosos,comoopaysdageografiavidaliana,asregieshomogneasefuncionais,ossistemasurbanos,osdistritosindustriaisetc.Defato,nossosistemalocalterritorialnoumsistemajexistentequefuncionacomatorescoletivosterritoriais,masumasriedeindcios(atitu-des,experinciasetc.)edepr-condiessubjetivaseobjetivasque,comaintervenodeestmulosoportunosecomaesdegovernana,poderen-deraconstruo,emcertareageogrfica,deumsistematerritorialcapazdecontribuirautonomamenteparaodesenvolvimento.Enfim,osistematerritorialmaisapropriadoumterritrioondesejapossvel fazerboaspolticaseaeseficazesparaodesenvolvimento.ComoSloTseindicaumapotencialidaderealizvelnarelaoentrecertoscomponentesobjetivosesubjetivos,quesoanalisadoscasoacaso,comxitosomenteemparteprevisvel.AanliseSloTnodarjamaiscer-tezasabsolutassobrearealidadeenemsobreaprojeodofuturoedodesenvolvimento.Elaindica,porm,umapossvelarticulaodoterrit-rio,apartirdosindciosestudados,sendoqueagovernanadirecionadaaodesenvolvimento territoriAl e AgroecologiA3desenvolvimentoterritorialsermaiseficazemrelaoaoutrosencami-nhamentosquenoconsideramadistribuioterritorialdascapacidadesauto-organizativasdossujeitoseassuasinteraescomocapitalterrito-riallocal.Concluindo,oSloTpermite:i) Delinearageografiadaprojeoedoagircoletivoemumterritrio(regional,nacional,transnacional)combasenasrelaessociaiseterritoriaisexistentes;ii) Individuaroestadoatualdestasrelaesque,normalmente,soin-completas;iii) Avaliarapossibilidadedeativarasrelaesquefaltameosproces-sosdedesenvolvimentoautocentrados;iv) Avaliaraexistnciaeascaractersticasdosvaloresterritoriaispro-duzidos;v) Sugeriraarquiteturamaisapropriadaparaconstruir,casoacaso,umsistemadegovernanaeficazparaaimplementaodepolticaseparaarealizaodeprogramaseprojetos;vi) Avaliarasustentabilidadeterritorialdodesenvolvimento,compreen-didacomocapacidadedereproduzireenriquecerocapitalterrito-riallocalsemempobrecerodeoutrosterritrios;vii)Oferecerumasustentaocognitivaparaplanosepolticasdevastasreasbaseadosnaarticulao,emrede,dossistemaslocaisterrito-riais.Alguns ProBlemAsAaplicaodomodeloSloTanlisedeumterritriodenotaalgunspro-blemasmetodolgicosquemerecemserilustradosbrevemente,tendopre-senteasexperinciasdepesquisadecamporealizadasnocursodenossosestudos.A individuAlizAo dos possveis sloTsnecessrioteremmentequeonossomodelonoserveparaestudarasubdivisoracionaldeumterritrioemunidadegeogrficadenvellocal,masparaexploraredescreverageografiareferenteaumrecursoparticu-lar,quecorrespondecapacidadedeauto-organizaolocaledeagrega-oterritorialvoluntria,vistacomointerfacenecessriaparaativar,eemumacertamedidatambmproduzirrecursosespecficosnosprocessosdedesenvolvimento.Diantedoprocessodefragmentaoeglobalizaoeco-nmica,essesrecursosnosodistribudosuniformementeetambmnoexistememtodososlugares.Ento,comopodemosindividualiz-los?3giusePPe demAtteisTratando-se de recursos prprios das sociedades locais, amelhormaneiraparadescobri-lospareceseraquepartedeumaanlisedasagre-gaes territoriaisdesujeitosprivadosepblicos,quegeraramprojetoseaesdirecionadosaodesenvolvimentolocal(nosomenteeconmico,mastambmsocial,culturaletc.).Porexemplo:nasnossaspesquisasem-pricasforamanalisadasredescomoasdospactosterritoriais.Cadaagre-gaomaisoumenosvoluntriacorrespondeaumarededesujeitoslocais(eglobaiscomancoragenslocais)quepodesercartografada.Sobrepondoasvriasconfiguraesespaciaisderedesqueemergemdosadensamentosemcertasreas,podemosdefinirumaprimeirageografiadastendnciasauto-organizativas locais etc.Tais adensamentosdeprojeo e ao co-letivasoindciosdepossveisSloTs.Numsegundomomento,asuacor-respondnciaaomodeloeosseuslimitesaproximadospodemsermelhordefinidosexaminandoacomposiodasredes,opapelefetivodossujeitosparticipantes, os objetivos e os resultados esperados, a estabilidade dasagregaes,osmbitosterritoriaisdosprojetosedasaes,eadistribui-oespacialdocapitalterritorialativado.Nestafasedeanlise,umtemaparticularmenteimportanteodacongruncia da agregao territorial definida pelos projetos. Tal questorequer,deumlado,adefiniodosparmetrosque fazemcomqueumagregadodesujeitossecomportecomoumsistemalocal;dooutrolado,aindividualizaoedelimitaodombitoterritorialnoqualagemossu-jeitoslocais.Estesdoisaspectosestoestreitamentecoligados:emefeito,somentesee quandooagregadodesujeitossecomportareagircomoumsujeitocoletivo,osistemalocalterritorialpodersergeograficamentedelimitado.Noexisteumterritrioperfeitoeadimensotimaparaodesenvolvimentolocal,porm,existemterritriosparasereminterpreta-dosapartirdoscomponentesdecadamilieulocal.Osterritriosnosorigidamentepr-determinados,massodefinidosduranteoprocessodeconstruodoatorcoletivolocal,apartirdeumahipteseinicialdeagre-gaoterritorialdossujeitosparticipantes.Aspr-condiessubjetivassoconfrontadascomoutrasdetipoob-jetivo,nointuitodeseverificaraestabilidadeeafuncionalidadedasagrega-esprecedentes(envolvidasnosprojetos).Nestecaso,deve-seconsiderar:i) Asdivisesadministrativasatuais.ii) Aquelasque,nocursodahistria,podemtercontribudoparacriarreasdeparticularcoesocultural.iii) Asreasdecontenodosfluxoslocais(mobilidadeporserviosepelotrabalho,input-outputentreunidadesdossistemasprodutivoslocais).iv) Osfluxoscorrespondentes,rodovirioseferrovirios(inclusasasre-deslocaisdostransportes).desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA40Asanlisesobjetivaspermitemtraaroslimites(comgeometriava-rivel)dohipotticoSloT.nessafasequeapareceoproblemadadimen-sogeogrficadosistemalocal.Essadimensopodevariarentreummxi-moeummnimo,aserdeterminadocasoacasoapartirdanossadefiniodomodelo.Adimensomximacompatvelcomtaldefiniorequerqueserespeitemascondiesnecessriasdeproximidadegeogrfica,porqueasredeslocaisdesujeitoscapazesdeaescoletivasseformamsobreabasederelaesqueimplicamconhecimentodireto,confiana,interessescomunseprojetosligadosaumcapitalterritorialtambmcomumequegarantaumalargaparticipao.Trata-sedembitosterritoriaiscorrespondentesaoraiodasrelaesedamobilidadecotidiana,comumadimensomximaquecertamentesub-regional.Adimensomnima,verificadapornsnombitourbano,aqueladeumbairronomuitogrande,mascapazdeelaborareexprimirprojetosautnomos.AfortediferenaentreestesdoisextremosfazcomqueonvellocalpossasearticularemumahierarquiadeSloT;hsistemasarticuladosunsnosoutros.Nadelimitaodenvelsuperiorserespeitam,normalmente,oslimitesdosmunicpios,noentantoosprovinciais,regio-naiseestaduaispodemsertranspostos.A vAlorizAo do cApiTAl TerriToriAl e o vAlor AgregAdo TerriToriAl como criTrio de AvAliAo do TerriTrioArelaoqueaterritorialidadeativainstituicomosrecursosespecficosincorporadosestavelmentenoespaolocaldaaocoletivaacondionecessriaparaquesepossafalardedesenvolvimentolocalterritorialemsentidoprprio,etambmomotivoparaoqualonvellocalconverge,reforadopelaglobalizao.Resumindo,podemosdizerqueodesenvol-vimentolocalocorrequandoasuper-mobilidadeemnvelglobalinterageecombinacomafixidezdonvellocal.Defato,olocal,comonveldeor-ganizaoautnoma,interessaaoglobalnamedidaemquesabeprodu-zirvaloresreferentesquiloqueprpriodeseuterritrio.Atualmente,aglobalizaoguiadaprincipalmenteporforaseporobjetivosecon-mico-financeiros,porisso,tendemosapensarestesvaloresemtermosdemercado,masestaumadistorohistricacontingentedeumprocessoquepodeedeveconsiderartambmoutrosgnerosdevalores(culturais,sociais,simblicos,estticos),capazestambmdederivardasespecificida-deslocaisedeassumirsignificadosefruiesuniversais.O valor que se obtm combinando aes coletivas autnomas,recursosimveislocaiseinteraesglobais,constitui-senovalor agre-gado territorial do desenvolvimento.oquesepodeobteralm,arespei-todeprocessosdevalorizaosimplesquenomobilizamnematoresnemrecursoslocais,masselimitamadesfrutardeexternalidadesedecertosrecursosterritoriais,comintervenesexgenasdiretas.41giusePPe demAtteisOconjuntodosrecursosimveislocaispodeserconsideradocomoumcapital territorial quesetornageradordevaloresdeusoedemercadonasrelaesdeterritorialidadeativa.Ocapital territorialumconceitoaomesmotemporelacionalefuncional,quecompreendecoisasmuitodiver-sasentresi,masque tmemcomumascaractersticasquedestacamosaseguir:soestavelmente incorporadasaos lugares(soimveis);sodificilmenterepetveisemoutroslugarescomasmesmasqualidades(soespecficas);nosoproduzveisemespaoscurtosdetempo(sopatri-mnios).Podemosagrup-lasdaseguintemaneira:i) Condieserecursosdoambientenatural(renovveisenorenov-veis).ii) Patrimniohistricomaterialeimaterial(noreproduzvelenquan-total,masquepodeserincrementadonotempo).iii) Capitalfixoacumuladoeminfra-estruturaeconstrues(quepodeserincrementado,adaptado,porm,noconjunto,nopodeserpro-duzidonumperodobreveoumdio);iv) Bensrelacionais,emparte incorporadosnocapitalhumanolocal:capitalcognitivolocal,capitalsocial,heterogeneidadecultural,ca-pacidadeinstitucional(recursosrenovveisequepodemserincre-mentados,masquepodemserreproduzidossomenteemmdiooulongoprazos).Comosepercebenessarelaodecaractersticas,todastmdiferen-tesgrausdeestabilidade,temposdeformaoeacessibilidade.Osrecur-sosreferentesaostrsprimeirositensso,pelomenosemparte,conheci-doseacessveistambmporpartedeumatorexterno;osbensrelacionaisimplicam,necessariamente,namediaodaaocoletivalocaleemboaparteseformameseincrementamcomessamesmaao.Oconceitodevaloragregadoterritorial,sejareferenteaumproje-tosingular,aumaaocoletivaoumodalidadegeraldeplanejamentoedeaesdeumsistemalocal,temumcarterprticorelevante,enquantopodeserassumidocomocritriocrucialparaseentenderseestamosounonapresenadedesenvolvimentolocale,seafirmativamente,emquemedidaissoocorre.Trata-sedeavaliaronveldeativaodosrecursospotenciaisespe-cficosdoterritriolocal,oumesmoovaloragregadoterritorialemrela-otantoaovalorgeralproduzidonoprocessocomoaocapitalterritoriallocaldisponvel.Apartir,porexemplo,daindstrialocaltradicional,pode-seiniciarumprocessodereconversoprodutivaecompetitiva.Nestecaso,aspossibilidadessomaioresdoquenocasodatransformaodeativida-descomoasdemuseusoutursticas.Outroexemplo:sesemobilizaape-nasumadaspotencialidadesespecficasdoterritrio(comoopatrimniodesenvolvimento territoriAl e AgroecologiA42arqueolgico),hmenoschancesdeseobterumasoluoalternativaqueenvolvaoutrosrecursosinerentesaodesenvolvimento(comoopatrimniopaisagsticoouatividadesprodutivaslocaisouocapitalsocial).Essas avaliaes exigem um reconhecimento analtico do capitalterritoriallocaledassuasmodalidades.Paraalgunsdoscomponentesdes-critosanteriormente,bastaaanlisedeumobservador externo,porm,paraoutroselementoseemparticularparaosbensrelacionais,opontodevistadeveserinterno,oumelhor,dialgicointerno-externo.Tudoexige,aomesmotempo,mesmonocasomaissimplesdeavaliaodeumprojetosingular,arefernciaaumterritrio,quepossaserindividualizado/anali-sadocomomodeloSloT.vAlor AgregAdo TerriToriAl e susTenTAbilidAdeConsiderando-sequeodesenvolvimentolocalatingetodososrecursospo-tenciais de um territrio, a sustentabilidade no pode ser somente am-biental.Almdaconservaodocapital natural,necessrioconsiderarareproduoeoincrementodetodocapital territorial,inclusiveoscompo-nentesquenoapresentamcaractersticassustentveisemcurtoprazo.fundamentalqueseconsidereasustentabilidade territorialdode-senvolvimento,naqualsepodedistinguirosvriostiposdesustentabili-dade.Dentreelas,almdasustentabilidadeambiental,ganhaimportncia,parans,asustentabilidadepoltica,queA.Magnaghichamadeauto-sus-tentabilidade,porquecomportaprocessosauto-organizativosnossistemaslocais.Delapodederivarnosomenteacapacidadedereproduodocapi-talterritorial,mastambmesobretudo,aauto-reproduodosistemater-ritorialemsi,ouseja,acapacidadedeconservaodaprpriaidentidade(nosentidodeorganizaointerna)notempoatravsdeumatransforma-ocontnuaderivadadeinovaeslocais.Asustentabilidadeterritorialdodesenvolvimentopodeserdefinidacomoacapacidadeautnomadecriarvalor agregado territorial(vat)emumduplosentido:odatransformaodosrecursospotenciais(imveiseespe-cficos)deumterritrioemvalor(deusooudetroca)eodaincorporaoaoterritriodenovosvaloressobaformadeincrementodocapitalterrito-rial.Teramos,assim,auto-reproduosustentveldeumsistematerritorialquandooprocessodedesenvolvimentoauto-governadoetemcomoresul-tadofinaldemdiooulongoperodoumvatdeprimeirotipopositivoeumvatdesegundotipononegativo.Ouainda,quandooatorcoletivoterrito-rial,interagindocomonvelglobal,criavalormobilizandoopotencialderecursosespecficosdoprprioterritrio,semreduzirocapitalterritorial:nemolocal,nemodeoutrosterritriosexternosenvolvidosnoprocesso.Oclculodasustentabilidade territorialmaiscomplexoedifcilqueodasustentabilidadeambiental.Nosetrata,portanto,somentedeavaliarseoprojeto,osistemaouoprocessoreproduzemocapitalterrito-43giusePPe demAtteisriallocal,mastambmsenodestroemocapitalterritorialdeoutrossis-temaslocaisligadosporinteraesmateriaiseimateriaisaoqueestsen-doestudado.Oproblemasecomplicase,comoindicamosanteriormente,consideramosasustentabilidadee,porisso,acapacidadeauto-reproduti-vadosistemalocal.Nestecaso,asmedidassemprereferidasaumdeter-minadosistema,processoouprojetodedesenvolvimentodeveriamcon-siderar: i)ograu de autonomiadosistematerritorialeopesocognitivo,deplanejamento/projeo,dedeciso,definanciamentoedeatuaodossujeitoslocaisnointeriordoprocessooudoprojeto;ii)acapacidade de in-clusodoatorcoletivolocal(umauniorestritadeatoresfortesoudvozepoderaumamultiplicidadedeinteresses,redesdesujeitos,fracos,marginaiseconflituais?).Estaltima,ouseja,acapacidadedeincluso,tambmsignifica,indiretamente,acapacidadeinovativadosistemalocal,umavezquerequerumcertonveldediversificaoeconfronto.A diversificAo TerriToriAl como recursoDeumpontodevistanosomentelocal,mastambmuniversal,adiver-sificao do territrio por sistemas locais (cultural, social, institucional eprodutivo),comoresultadodeprocessosco-evolutivosde longaduraodassociedadeslocaiscomoseuterritrioeambiente,consideradacomoumariquezacoletivapordiversosmotivos.Dentreeles,omaisgeral,queasdiversidades,noseuconjunto,desenvolvemopapeldepoolgentico-cultural,cujatransmissoacresceacapacidadeinovativaeaautonomiadossistemasterritoriaisnasdiversasescalas.Nesseaspecto,onossopro-blemaapresentasemelhanacomodabiodiversidade.Defato,htambmosque,apropsitodaextinodelnguas,dialetosepatrimniocultural,falamdeconservarereproduzirabiodiversidadecultural.Outrosmotivosparaprotegerereproduziradiversidadeterritorialso:i)ofatodequeelaalimentaosistemaeconmicoglobalque,porsuavez,utilizaaspotencialidadesespecficaslocaiscomovantagenscompeti-tivas; ii)aescalalocalreproduzsaberescontextuaisambientaisqueper-manecemteisnoquesereferesformasprodutivaslocais;iii)tende-seamaximizarousodosrecursosnaturais,humanoseascapacidadesprodu-tivasglobais,diminuindo,aomesmotempo,asdesigualdades;iv)ofatodeacentuaronveldefechamentodoscircuitoslocais,reduzindoasmarcas/efeitosecolgicos;v)respondeaumademandadeusoseconsumosdiver-sificados(comodemonstraosucessodasproduestpicaslocais).Atualmente,ocarterprodutivodosrecursosculturaislocaisedosprprios sistemas locais comosistemas territorialmentediversificados umaquestoproblemtica.Demaneiraparticular,questiona-seseaindapossvelexistirrelaesco-evolutivasnaescalalocal.Comaafirmaopro-gressivadoconhecimentotcnico-cientfico,incorporadoemumprocessodeacumulaocapitalistatendencialmenteglobal,ainteraoco-evoluti-desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA44vaentresociedadehumanaeambientefoitransferidagradualmentedon-vellocalparaoglobal.Diminuiuoprincipalmecanismoque,nopassado,gerouadiversificaoterritorialdassociedades,dasculturasedocapitalterritorialsedimentado.Permanecemsimulacrossobaformadefolcloreedepatrimniomuseificado,conservadosemfunodeumusotursticoespetacularsimilaraodosparquestemticos,oudousosimblico-identi-trioouainda,domarketingterritorial.Ondenohmudanasprodutivasabruptas,permaneceousoreprodutivodosbensrelacionaisacumuladosnopassado.H,aomesmotempo,umatendnciaperdagradualdessasespecificidades,comosepercebeemmuitosdistritosindustriaisesistemaslocaisagrcolasquepermanecemcompetitivos.Umsinalquevaicontraestatendnciaverificadoondehafirma-odeproduestpicasqueexigemareproduoinovativadetecnologiasapropriadasacertascondieseexperinciaslocais.Porm,perguntamos:atquepontoesteltimomodelopodesergeneralizadocomoperspectivadeconservaoereproduodadiversidadeterritorial,inovando,conside-rando-seosobjetivosanteriormenteindicados?Deumlado,essaperspectivanoumcontrasteemrelaoevoluodoconhecimentocientfico.Estepodesercombinadocomosconhecimentoscontextuais,permitindoaevoluodetecnologiaseadefiniodegestesapropriadasaosdiversosambienteslocais.Istocomportaria,tambm,efeitosderetornopositivosobreoconhecimentogeral.Defato,ahistriadasino-vaestecnolgicasnosensinaqueelasnascemcomoinovaeslocaisparadepoissedifundiremesegeneralizarememescalamundial.Deoutrolado,hoobstculoconstitudopelaseleoefetivadasobreambientesnaturaiseculturaisporumacompetioeconmicaglobalnoreguladaque,emvezdeadaptaraosambienteslocaisoconhecimentoeastcnicasdisponveis,tendeaadaptaroslugaresstcnicas,nivelando-osstecnologiasque,noatualsis-temademercadocapitalista,sorotuladasdemaisprodutivas.Narealidade,sabemosquese tratadeumaconcepomuitopar-cialdaprodutividade,entendidacomocapacidadedos investimentosdeaumentararendafinanceiraemcurtoprazo,mesmoquediminuamapro-dutividadedeenergia,decapitalnaturaledecapitalterritorial.Estmuitoclaroqueosinvestimentosfeitosnapesquisaseconcentramcadavezmaisnasreastecnolgicas,quegarantem,porsuavez,aplicaesuniversais,negligenciando-seosconhecimentosetecnologiasparaagestodiversifi-cadadosambientesedosrecursosterritoriaisporquegerariamenorretor-nofinanceiroe,sobretudo,umaestruturaprodutivamaisdistribudaede-mocrtica,capazdesecontraporaocontroleeaosprivilgiosdosgrandesgruposdepoderpoltico-financeiro.Nesseaspecto,omodeloSloTpode,tambm,resultaremummode-loderesistnciademocrticacontraasformasdistorcidasdaglobalizaoeconmicadominadapelonovototalitarismoeconmico-financeiro.45giusePPe demAtteisreFernciAsBAGNASCO,A.Tracce di comunit.Bologna:IlMulino,1999.BECATTINI,G.;SFORZI,F.acuradi.Lezioni sullo sviluppo locale.Torino:Rosenberg&Sellier,2002.BECATTINI,G.;CONTI,S.;SFORZI,F.(Dir.).Sviluppo locale,rivistaeditadaRosenbergeSellier(Torino).BERTONCIN,M.;PASE,A. 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cunhaGegrafo,ProfessorAdjuntodocursodeGeografiadaUniversidadeEstadualdePontaGrossa|cunhageo@uepg.brOobjetivodestetextodiscutiraconcepodedesenvolvimentoterrito-rial,inspiradanoestudodastrajetriasregionaisdedesenvolvimentoru-ralqueforamidentificadasnoEstadodoParan,comnfasenocasodoParanTradicional(CUNHA,2003).Nessestermos,inicia-secomadiscus-sosobreoprpriosentidodanoodedesenvolvimento,noemtermosgerais,mas,principalmenteemrelaoaoquestionamentodoenfoqueho-mogeneizadorpresentenasconcepestradicionaisdedesenvolvimento.Emseguida,busca-sediscutircomoumdeterminadoconceitodeterritriobsiconacomposiodestanovaconcepodedesenvolvimento,inse-rindoumslidovisespacialnatentativaderenovaranlisesregionaisepropostasdecarterdesenvolvimentista.Aconcepodedesenvolvimentoterritorialinsere-senumquadronoqualtambmaparecemasconcepesde desenvolvimento local (CAMPANHOLA;SILVA, 1999) e socioespacial(SOUZA,1996), formandoumconjuntodiversodeconcepes,masqueapresentamumeixobalizadorcomum,quecorresponderevalorizaodoespaonasteoriassociais,comojhaviadestacadoSoja,oquepermiteresgataraGeografiacomocinciacentralnestasreflexeseacabacriando1 TextobaseadoempartedocaptuloIdatesededoutoramentodoautor,defendidaem2003,noCursodeDoutoradoemDesenvolvimento,AgriculturaeSociedade,daUFRRJ.desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA4umsegmentonovonatemticadesenvolvimentista,oumesmonessadisci-plina,aoqualsepropeadenominaodegeodesenvolvimento.Noquadroterico-conceitualdestetexto,arejeiodefesadaho-mogeneizaosocialcomopressupostododesenvolvimentoumpontobsicodevidoaumadesconsideraocomqualquervisoetapistadode-senvolvimento.Assim,nosepretendetrabalharcomanoodesubde-senvolvimento,nosentidodequesetratadeumaetapaemdireoaou-tradedesenvolvimentopleno,muitoemboraotermopossaataparecernotexto,massemumaconotaoetapista.Essaobservao,decertafor-ma,relaciona-secomapreocupaodeMaluf,segundoaqual,rejeitaraperspectivadahomogeneizaonoimplicadesconhecerqueacriaodeespaosdesiguaiseapermanentegeraodepobrezatmdeterminantesprincipalmentegeraisnosentidodequesocomunscomoaquelesquederivamdanaturezadesigualdodesenvolvimentocapitalistaequeestesfenmenossoumaexpressodeinjustiasocial(MALUF,2000,p.77).Oimportante,ento,que,aoseabordarumaregio,[...]possveleneces-sriomensuraradesigualdadeeapobreza[...]valendo-sequasequesem-predeindicadorescomuns[...]semcomistoassociar-seaalgumconjuntodevaloresnicoeespecfico(MALUF,2000,p.77).Essepontofoicon-sideradoquandoseabordouoEstadodoParanapartirdaconsideraodasuaregionalizaomaistradicional(CUNHA,2003),quedivideoEsta-doemtrsgrandesregies(ParanTradicional;Norte;Sudoeste).Pde-severificarquepartedaprimeiraregioapresentaodiagnsticodequadroshistrico-econmicos de pobreza e desigualdade, que levaram-na a serclassificadacomosubdesenvolvida.Arejeioaotermoinclui,portanto,umadesaprovaoaoconceitocomoetapa,masnoimpededeconsiderarasrelaesquepossamexistirentreosproblemas relacionadospobre-za edesigualdadeeaquestoregional.Adiferenaqueessesproblemassovistoscomoinfluenciadosdecisivamenteporumprocessohistrico-geogrficoespecfico.Assim,apreocupaocentralnosearegioounosubdesenvolvida.Oqueimportaefetivamentequeelaapresenteumprocesso endgenodedesenvolvimentoquedeve ser compreendidonosseusaspectosdefinidores,paraqueaessociaisfuturasnocarreguemosmesmosvciosdasqueforamimplementadasnopassado.No,porm,objetivodestetextoaprofundaradiscussosobreasteoriasdosubdesenvolvimento,muitoemboraasituaosocialdoParanTradicional,inclusiveapsosmovimentosmodernizadoresdasestruturasprodutivasagropecuriasrecentementeocorridaseasdiferentesconjun-turasdeaceleraodaindustrializaoqueenvolveramaregio,indiquemumagravamentodadiferenciaosocialdosprodutoresruraiseaelevaodosnveisdedesigualdadesocial,contrariandoaquiloqueseriaumpres-suposto do desenvolvimento numa viso tradicional: a homogeneizaosocial.Asintervenesgovernamentais,territoriaisouno,diretasouindi-4luiz AlexAndre gonAlves cunhAretas,queatingiramoParanTradicionalparticiparam,ento,dosproces-sosquenolevaramhomogeneizaosocial,aindaquetenhamcausadoelevaononvelmdiodevida(MALUF,2000,p.58).Dessaforma,estaregioapresentadinmicassociaisqueatjustificariamumaabordagemvinculadasteoriasdosubdesenvolvimento,masnoseconsideradef-cilsoluousaranoodesubdesenvolvimentonumcontextoderejeiodosenfoqueslinearesemevoluosocial.EaquinecessriorepetirMalufquandoafirmaquesubdesenvolvimentoeatraso[...]pordefinio[...]su-peapossibilidade(ouapretenso)deconvergiraumacondiojulgadasuperior(2000,p.75).Asabordagensrenovadas,centradasemprocessosendgenos,bus-camescapardessaarmadilhaterica.Comonestetextooqueinteressaodesenvolvimentoregionalmenteconsiderado,avariantedarenovaoqueimportaaqueincorporaumaperspectivaespacialnessasconcepes.Aconcepoescolhidaparaajudaraformaroquadroterico-metodolgicodadiscussoadedesenvolvimentoterritorial.Porexemplo,essaconcep-ohojeabasedaspolticaspblicasqueemanamdaSecretariadeDe-senvolvimentoTerritorialdoMinistriodoDesenvolvimentoAgrriovolta-dasparaoespaoruraleaagriculturafamiliar.Veiga,porm,preocupa-secomesseusocadavezmaisfreqentedaexpressodesenvolvimento territo-rial.Oqueelequersaberseissorealmente[...]indicaumarevalorizaodadimensoespacialdaeconomia,ouse,aocontrrio,nopassademaisumprolongamentodainfindvelmaniadeacrescentaradjetivosaosubstantivodesenvolvimento(VEIGA,1999,p.1).Suapreocupaopodesersuperadaaoseconstatarqueaincorpo-raodeumvisespacialemconcepesdedesenvolvimentorelaciona-seaumaquestomaisampla,queareafirmaodeumaperspectivaes-pacialcrticanateoriaenaanlisesocialcontempornea(SOJA,1993,p.7).SegundoSoja,essareafirmaosurgedepoisdeumlongoperododesubmerso[...]doespaonopensamentosocialcrtico,perodonoqualprevaleceuumhistoricismodesespacializante, iniciadoapsaquedadaComunadeParis,equesapartirdofinaldadcadade1960comeouaserrevertido(SOJA,1993,p.10-11).Nesseperodo,asteoriassociaisnocon-sideravamoespaocomoumacategoriadecisiva,porquepartiamdeumaidiadeexistnciadealgumaordemespacialpr-existentenaqualope-ramprocessostemporaisouqueasbarreirasespaciaisforamreduzidasatalpontoquetornaramoespaoumaspectocontingente,emvezdefun-damental,daaohumana(HARVEY,1993,p.190).Arevisodesseposicionamento,percebidaporSoja,explicadaporCardoso como uma tomada de conscincia, pois o que teve demudarcomo tempo,ajustando-senovas realidades,decorreudanecessidadedelevaremcontaasmaiorescomplexidades,heterogeneidadeetalvezvolatilidadedasconstruesespaciaiseosseusrecortespossveisnestedesenvolvimento territoriAl e AgroecologiA50fimdesculo,postoquenovosfatores,anteriormentemenosvisveiscomoelementosdecisivos,passaramaincidircommuitomaisforasnestaslti-masdcadas(CARDOSO,1998,p.22).Benko,porm,queexpeoqueestaria fundamentando tal tomadade conscincia, em termosde foraseconmicasobjetivas,aoafirmar,quandoanalisaocapitalismocontem-porneoeasuadinmicaespacial,queaexploraodoespaoestardenovonaorigemdeumafaseascendente[docapitalismo](1996,p.39).Ressaltaaindaessaimportnciadoespaoafirmandoqueamaterializa-odasatividades[econmicas]noespaoaprimeiraformaderegula-oeconmicanocapitalismo(BENKO,1996,p.59).NapesquisarealizadasobreoParanTradicional, tendoclarasaspossibilidadesadvindasdaconscinciacrescentesobreaimportnciadoespao, considerou-se indispensvel buscar incorporar uma perspectivaespacialnumenfoquededesenvolvimentoregional.Arefernciaregio,aoregionalouaoterritorialnogaranteadoodovisespacial,comosepretendediscutirnestetexto.Acredita-se,ento,quetalenfoquerenovadodoespacialpodesergarantidopelaviadaconcepodedesenvolvimentoterritorial.Ento, sustenta-seque,comoquadroconceitualdessaconcep-o,possvelconstruirumreferencialterico-metodolgicoecltico,quepermite umnovoenfoquesanlises regionais.Apartirdisso,preciso,antesdetudo,analisaressaconcepo.territrio e desenvolvimentoEssatarefadevecomearpeloconceitodeterritrio,queopontodesus-tentaodaconcepodedesenvolvimentoterritorial.Paratal,pode-seco-mearcomAbramovay,quedefineterritriocomoumatramaderelaescomrazeshistricas,configuraespolticaseidentidades(1998,p.2).De-fini-locomoumatramasignificadizerqueeleoespaonoqualhumain-teraoentreaspectoshistricos,polticos,culturaiseeconmicos,e,acres-centa-se,tambmumainteraohomem/naturezaqueindispensvel,emespecialquandosetratadecomunidadesagrrias.Essainteraonotra-tadadiretamentepeloautor,mas,quandoelefazrefernciassrazeshis-tricas,considera-sequeessainteraohomem/naturezafaapartedessasrazes,eamelhorseriaafirmarqueelassohistrico-geogrficas.Esseumpontoimportanteporque,aoseabordaremprocessosen-dgenos,as razeshistrico-geogrficasafloramquasequenaturalmenteeainteraohomem/naturezaou,melhor,sociedade/natureza,ganhaemimportncia,noobstanteseresseumaspectonegligenciadonascinciashumanasesociais.Oquesedefende,porm,quesepretendesuperaressadesconsiderao,equeessapropostafoitestadaaoseabordaraformaoterritorialeoespaoruraldoParanTradicional(CUNHA,2003).Percebe-sedeimediatoqueasociedadedebaseagrriaformadanessaregiode-51luiz AlexAndre gonAlves cunhApendiadoqueoambientenaturaltinhaaoferecer.assimqueoscamposnaturaisforamexploradospelacriaoeinvernagemdegado,easflorestaspeloextrativismodomateedamadeira,etambmdosseusfrutos,queali-mentavamnoapenasoshomens,mastambmogadocriadosolta.Ora,essainflunciadanaturezasobreumasociedadedebaseagr-rianonenhumanovidadeeexistiupraticamenteemtodoolugar.Oqueconsidera-semaisoriginalainserodessainteraocomoumsusten-tculoeumelementoamaisnumconceitodeterritriovistocomoumatramaderelaessocioculturaisinfluenciadaspelassuasrazeshistrico-geogrficas.Assim,nascomunidadesruraisainteraohomem/naturezaabaseprimordialdasrelaessociaisentrehomensculturalmentedis-tintos.assimqueaconteceunoParanTradicional,ondeapopulaoluso-brasileira (ou, quando sepensana influncia jesutica, talvez fossemelhorafirmaribero-brasileira),juntocomonegroafricano,interagiuso-cialmentecomindgenas locais,criandoumaculturaque,numsegundomomento,incorporouelementosculturaisdeumapopulaoeuropiadeorigensdiversascomoagermnica(alemes),mediterrnea(italianos)e,principalmente,nocasodoParanTradicional,aeslava(poloneses,rus-soseucranianos).Ateiadeinteraescontidasnoquesecostumadefinircomorelaessociedade/naturezaassumeumcarterespecficodoPara-nTradicional,muitoemboraelaseaproximedeoutrosquadrosregionaisobservadosnaregiosuldoBrasil.Noh,noentanto,identidadeabsolu-taentreessesquadros.nessefatoqueresideariquezaemresgatarcadaquadroespecfico, localizadosgeograficamente,comoprocessosendge-nosdedesenvolvimentoregional,entendendo-sequeesseregional,doin-ciodacolonizaodaregioatbemrecentemente,erabasicamenterural,mesmocomaformaodeumaredeurbanaincipienteocorridaaindanoperodocolonial,porquantoascidadesdapocaeramoriginalmenteinte-gradassociedadeagrrianaqualestavaminseridas.Ao se valorizar a interao homem/natureza nos processos hist-rico-regionais,comosebuscounaanliseterritorialpropostadoParanTradicional,pde-sesuperarlacunasidentificadasemoutrostrabalhosso-brearegio.ocasodapesquisarealizadaporSilva(2002),queestudaoprocessodeverticalizaodeGuarapuava,umacidadetradicionaleim-portantedessaregio,buscandosuperarasabordagensmeramenteeco-nmicasdesse fenmeno, substituindo-as por outra abordagemnaqualaspectos subjetivos tambmsejamconsiderados.Aexpansoverticaldacidadepassaaserexplicadatambmporsmboloseidentidades,quefor-mamrepresentaessociais,asquaisrespaldamaexpansodaverticaliza-oparaalmdosaspectosobjetivosemateriais.Comoessasrepresenta-essociaissoconstrudasapartirdereferenciaissocioculturaislocais,a autorabuscou reconstituiu-los relacionandoa sociedadeque lhesdeuorigem,nocaso,aCampeira,quenosguarapuavana,masregional.desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA52Faltou-lhe, entretanto, a considerao da interao sociedade/natureza,quandoasrazeshistricasdasociedade lhespareceramdeterminantes,comoelaindicaaoafirmarqueaconstruodarealidadesocioespacialerguidasobreasprodues culturais passadas e atuais e,portanto,ossujeitosqueconstroemessarealidadedevemseranalisadosatravsdessaperspectivatemporal (semgrifosnooriginal)(SILVA,2002,p.276).Noapenastemporal,contudo,porquetudoisso localizadonumadetermi-nadafraodoespaogeogrfico;contmtambmumaperspectivaespa-cialquecomeaaserresgatada,justamentequandoseabordaasociedadecomoresultadodeumainteraoentreelementosfsicos,econmicos,cul-turaisepolticos.assimqueasrazeseosprocessoshistricossetrans-formamemhistrico-geogrficos,oquenoapenasumaquestosemn-tica,masdedesobstruoterico-metodolgica.Nocasoderegiesrelativamentejovensnasuaocupaoefetiva,comoadoParanTradicionalepraticamentetodoorestodoespaobra-sileiro,seocompararmosaoVelhoMundo,asrelaessociedade/naturezacriarampadresinterativosqueaindanosediluramcompletamenteemrelaessociaisdepadresdiferentes,muitomaisurbanosdoquerurais,muitomaisglobalizadasdoquelocais.EissoSilvarealmentecomprovouemGuarapuava,oquealevouaconcluirquetodaatransformaopelaqualpassouoespaourbanoguarapuavanoincorporaodepopulaoruralemudanasnoprocessoprodutivonoconseguiupromoverumarupturacomospadresculturaisrelacionadosestruturasocialcampei-ra.Nesse espaourbano, aindamuito interdependentedo espao rural,persistemvaloresecdigosdecomportamentosoriundosdopassadoequeserearranjamnamodernasociedadeeestruturameparticularizamacidadedeGuarapuava(SILVA,2002,p.62).ComooobjetodeestudodeSilvaacidade,suasconclusesacabamporparticularizarumfenmenoquenoapenasurbano,masruraltambm,dajustificar-seumaaborda-gemmuitomaisregionaldoquelocal(municipal).Considera-sequecadaumadasexperinciaslocaisinseridasnumdeterminadoterritrioregionalseexplicanassuaslinhasdefinidoraspelaestruturaterritorialnaqualestinserida.Dessaforma,oqueseprocuravalorizarumaescalameso,in-termediriaentreaestadualealocal,numcontextoemqueaescolhadeumdeterminadonvelescalar,emtermosamplos,podevariardoespaolocalaoplanetrio (CASTRO,1995,p.118).Assim,aescolhadaescaladeveconsiderarosobjetivosdepesquisas,projetosoupolticas,transfor-mandoaescolhadaescalaemumaoperaoterico-metodolgicaenomeramenteoperacional,buscandoconsideraradimensofenomenolgicaenomatemticadarealidadeconstrudaporprocessoshistrico-geogr-ficos.Oobjetivoabordaracomplexidadedorealasercaptadoatravsdaopoescalar,deformaqueelasejaamaispertinentepossvelaessarea-lidade(CASTRO,1994).53luiz AlexAndre gonAlves cunhANoque se refere aoque consideradoneste texto como relaessociedade/naturezaeaimportnciaquesedaessaquesto,considera-seoesquematericopropostoporSantos,paraenquadraressasrelaes,questoque,emtodososespaoshabitados,evoluiupelasubstituiodomeionaturalporummeiotcnico,oqual,porsuavez,transformou-seemummeiotcnico-cientfico-informacional(SANTOS,1996,p.186).Quan-doomeioerabasicamentenatural,ohomemselecionavananaturezaosrecursosquesetornavamindispensveissuareproduo,valorizando-ossegundoasualocalizaoeacultura.Comisso,umatcnicaeradesen-volvidaporelemesmonessecontatocomanatureza,tcnicaessaquenotinhaumaexistnciaautnoma,porquantoeraabsolutamenteintegradaaomeionatural.Assim,acomunidade[...]era,aomesmotempo,cria-doradastcnicasutilizadas,comandantedostempossociaisedoslimitesdesuautilizao(SANTOS,1996,p.188).ParaSantos,oquesetinhaeraumaharmoniasocioespacial[...]respeitodanaturezaherdada,noproces-sodecriaodeumanovanatureza(1996,p.188).Aoproduziressanovanatureza,asociedadeterritorialproduziatambm,umasriedecompor-tamentos,cujarazoapreservaoeacontinuidadedomeiodevida(SANTOS,1996,p.188).Issoolevaaumaconclusonaqualseidentificaoargumentodecisivo, pararespaldaroposicionamentodefendidonestetextodeincluirasrelaeshomem/naturezanatramaformadoradoster-ritriosregionais,quandoafirmaqueexemplosdoscomportamentosso,entreoutros,opousio,a rotaode terras,aagricultura itinerante,queconstituem,aomesmotempo,regras sociais e regras territoriais (semgrifonooriginal),tendentesaconciliarousoeaconservaodanatureza:paraqueelapossaser,outravez,utilizada(SANTOS,1996,p.188).Essas regras socioterritoriais permanecemcomoumaherananaevoluo histrico-geogrfica de uma determinada estrutura territorial,ajudandoamoldaromeiotcnicoeposteriormenteomeiotcnico-cien-tfico-informacional,osquais,muitasvezes,noseimpemporcompletossociedadesnasquaisamodernidadeestmuitomaisancoradanumarepresentaosimblicadoquenumarealidadevivida.Oquemaisinteres-sa,contudo,considerarqueainteraohomem/naturezageracomporta-mentosprodutivosquesetraduzememregrassociaiseterritoriaisend-genas.NoParanTradicional,essasregrassociaiseterritoriaisseguirampadrescombinadosdetrsatividadeseconmicasespecficas:acriaodeanimaisnoscamposenasmatas;aagricultura,muitomaisnasmatasdoquenoscampos;eoextrativismonasmatas.Cadaumadelasconcreti-zava-seapartirderelaesambientais,detrabalhoeprodutivasquelheseramcaractersticas,asquais,nocasoespecficodaregioemtela,apa-reciam,quasesemprecombinadas,comonaSociedadeCampeira,comacriaonoscamposeaagriculturadesubsistncianoscapes,enoSiste-maFaxinal,comoextrativismodomateeacriaodesunosnasmatasdesenvolvimento territoriAl e AgroecologiA54preservadaseaagriculturadesubsistncianascapoeiras.Naanlisepro-priamenteditadessaregio,mostrou-sequemuitosatoresenvolviam-sesimultaneamentenessasatividadesdeacordocomasconjunturasecon-micaseosciclossazonaisdefinidospelanatureza.Issodeuestruturater-ritorialdoParanTradicionalumacomplexidadeeumariquezaqueforne-cemaoprocessoendgenodedesenvolvimentoregionaldessaregioumcartersingular.Comessesargumentos,pretendeu-sejustificarainserodasrelaessociedade/naturezanoconceitode territriodefinidocomoumatrama.Almdisso,buscou-setambm,apartirdessainsero,consi-derarqueasrazeshistricaspresentesnatramaterritorialnosoapenashistricas,mastambmgeogrficas,oquejustificausaraexpressopro-cesso histrico-geogrficoemlugardeapenasprocessohistrico.Porlti-mo,defende-sequeoqueAbramovaychamadeconfiguraespolticaseidentidadessorealidadesqueseformamnosprocessoshistrico-geogr-ficosespecficosdedeterminadosterritrios,sendodessaformaelementosdassuasrazeshistrico-geogrficas.Assim,quandosefazrefernciassrazeshistrico-geogrficasdeumterritrioregional,busca-setrazereva-lorizarasrugosidades(heranassocioterritoriaisousociogeogrficas)dosprocessosnelaspresentes,asquais refletemas relaesentreelementosnaturais,econmicos,culturaisepolticos(SANTOS,1978,p.138).Naverdade,oquesequerdestacarqueasrazeshistrico-geogr-ficassofundamentaisquandoseanalisaumterritriocomosujeitododesenvolvimento.Apropostadeumconceitodeterritrioquesurgeapar-tirdanaturalmenteincorporaesseaspecto.PorissoAbramovaybuscanoconceitodecapitalsocialalgunselementosqueajudamarelacionaroseuconceitodeterritriocomaquestododesenvolvimentoregionalmentelo-calizado.Defato,oconceitodecapitalsocialtemsidoincorporadodeumaformaespecialnasdiscussesedebatessobreasdiferenasregionaisnosnveisdedesenvolvimento.Assim,torna-seindispensvelresgataralgunstemastratadosnessascontrovrsias;temasquesejammaispertinentessquestesabordadasnestetexto.Nessecaso,deve-sebuscarograndemarcodessesdebatesqueotrabalhodePutnam.Eledefinecapitalsocialcomoumconjuntode[...]ca-ractersticasdaorganizaosocial,comoconfiana,normasesistemas,quecontribuamparaaumentaraeficinciadasociedade,facilitandoasaescoordenadas(1996,p.177).Assim,associedadespodemapresentarmaisoumenos capital social de acordo coma sua trajetriahistrica (razeshistricas).EssaumadasconclusesdePutnam,queafirmaqueo[...]contextosocialeahistriacondicionamprofundamenteodesempenhodasinstituies.Almdisso,concluitambmquea[...]histriainstitucionalcostumaevoluirlentamente(1996,p.191-193).Comisso,asdinmicasre-gionaisapresentariamcertasubordinaotrajetria.Ditodeoutrafor-ma,ssepodechegaradeterminadoslugaresdependendodolugarondese55luiz AlexAndre gonAlves cunhAest.IssolevaPutnamaafirmarqueasubordinaotrajetriapodepro-duzirdiferenasduradourasentreodesempenhodeduassociedades,mes-moquandonelasexisteminstituiesformais,recursos,preosrelativoseprefernciasindividuaissemelhantes(PUTNAM,1996,p.188).Hmuitoaqui,justamente,dovelhodilemaquesequersuperar,oqualpodeserresumidodaseguinteforma:Comoseexplicaaexistnciaderegiesdesenvolvidasesubdesenvolvidas?Tudo indicaquePutnampre-tende transferira responsabilidadedaeconomiaparaa cultura,usandoumbemestruturadoesquematericoeanaltico.Acredita-se,porm,que,quandoseassumeumconceitodeterritrionoqualasrazeshistrico-geogrficas sodecisivas, no se deve objetivar apenas coloc-las comoacausaounodeumasituaodeatrasoousubdesenvolvimento.Maisimportanteconsideraressasrazescomoumelementoindispensveldoprocessoendgenodedesenvolvimentoregional.ParaAbu-el-Haj,asgrandesconclusesdePutnamcorroboramcer-toculturalismo,porqueaespecificidadeculturalpassaaservistacomoachaveparaexplicarasdiferenasnosnveisdecapitalsocialdecadaso-ciedade.Esseposicionamentoacabaporrecebercrticassistematizadasdeumgrupode estudiososdenominados neo-institucionalistas.Esse grupoacreditaqueastesesdePutnamsebaseiamnumexcessivodeterminismocultural(ABU-EL-HAJ,1999,p.70).Nestetexto,rejeita-sequalquerformadedeterminismo,tantocultu-ralquantoambiental.Otexto,aocontrrio,sealinhasabordagensqueacreditam que aes sociais bem formuladas e implementadas por umaparelhoestatalequipadoecompetentepodemfazerdiferena,noobs-tantenveisbaixosdecapitalsocial.Esseentendimentosedporqueain-daoEstadoquepossuiafunoreguladoradainteraosocial,comaqualpossvelpromoverumativismopoltico-institucionalmobilizadordocapitalscia,queteriaopoderdeincentivar[...]redescvicasador-mecidasouhistoricamentereprimidasaganharemumavidaautnoma(ABU-EL-HAJ,1999,p.72).Porisso,avalorizaodosprocessosendge-nosnoquertentarressaltardeterminismosculturais,mas,sim,entendercomoumaestruturaterritorialfoiconstrudaecomosepoderiaagirso-breelaparasuperarosseusproblemasligadospobrezaedesigualda-de,semutilizarreceitascomumpadronicoepr-determinado,ouseja,banidasdeumavisohomogeneizadora.Acredita-seque isso possvelatravsdoreferencialterico-conceitualdaconcepodedesenvolvimen-toterritorial,noapenasediretamente,poraquiloqueVeigaesperaquesejaamaiorcontribuiodessanovaconcepo,quetrazer[...]algoderealmentenovoparaumeventualdesenvolvimentodasregiessemdi-namismo econmico, que costumam ser chamadas perifricas e atrasa-das (1999,p.19).Comessaconcepo,pode-se,antesde tudo, reveraanlisedopesodeumaformaoterritorialnumadeterminadadinmicadesenvolvimento territoriAl e AgroecologiA56regional.Emoutraspalavras,acredita-sequeoreferencialemquestotraznovaspossibilidadesdeanlisesdeprocessoshistrico-geogrficosdeter-ritriosregionais,antesdesertambmreferencialparapolticaspblicasdecarterregional.Essacrenaderiva,principalmente,deumpontocentralrelaciona-doconcepodedesenvolvimentoterritorial,destacadotambmnotextodeAbramovay,queoreconhecimentoexplcitodeumadimenso terri-torial de desenvolvimento contidanosterritrios, pelaqualnosevisaapenas[...]apontarvantagensouobstculosgeogrficosde localizaoesimdeestudaramontagemdasredes,dasconvenes, emsuma,dasinstituies quepermitemaescooperativas[...]capazesdeenriquecerotecidosocialdeumacertalocalidade(ABRAMONAY,1998,p.2-7).Aoseincluiressadimensonosterritrios,pode-seconsiderarqueseatendeuaumaespciedereivindicaodeBarvejillo,citadoporBoisier,quedefendehaverumanecessidadedereinvenodoterritrio, tendoemvistaque,comaglobalizao,osterritriosso[...]aomesmotem-poquestionadosereafirmadosenquantombitosesujeitosdodesenvolvi-mento(BOISIER,1999,p.320).Reconhecerumadimensoterritorialdodesenvolvimentosignifica,emoutrostermos,identificaroterritriocomosujeitododesenvolvimento.Vistaassimelepassaaterumpapeldeumator,noqualaproxi-midadeeaaglomeraopermitemadiminuiodaincerteza,que,porsuavez,numverdadeirocrculovirtuoso,favoreceaproximidadeeaaglome-raodos atores econmicos e sociais (empresas, produtores, entre ou-tros).Dessaforma,avisotradicionalneoclssica(emarxistatambm)deterritriocomoconseqnciasuperadapeloreconhecimentodaimpor-tnciaprimevaeseminaldoterritrioemprocessosdedesenvolvimentosregionais.Oquecolocadoemevidncianessecasosoosativosrelacio-naisecoordenacionaisenoapenasosrecursosnaturaisehumanoseosatributosdelocalizaoesetoriais.(STORPER,1997,p.27-28).Para Storper, com esse novo posicionamento est em construoumparadigma heterodoxo emoposioaoparadigma ortodoxonageo-grafiaeconmicaenaeconomiaregional,emespecialnosramosdessascinciasinteressadosemdesenvolvimentoregionalouterritorial.Nele,as-pectospresentesemdeterminadosterritrioserelacionadosproduo,produtividade,inovao,aotrabalho,entreoutros,queeramtratadoscomo material assetspelosortodoxos, sovistos entreosheterodoxoscomorelationalassets,envolvendoaholytrinitydessenovoparadig-ma:territrio;organizao;tecnologia(STORPER,1997,p.27-28).Oquesedevedestacarqueaproximidade social,nessenovopara-digma,assumeumvalorfundamental,porqueasrelaesentreosagentessociaissovistascomodefinidorasdocarterterritorial.Abramovayafir-maque,nosterritrios,sefazpresenteofenmenodaproximidade so-5luiz AlexAndre gonAlves cunhAcial quepermiteumaformadecoordenaoentreosatorescapazdevalo-rizaroconjuntodoambienteemqueatuame,portanto,deconvert-loembaseparaempreendimentos(ABRAMOVAY,1998,p.2-7).Santos,contu-do,ressaltamelhorovalordesseelemento,aodestacarqueaproximidadesocialumdoselementosfundamentaisdolugaredocotidiano,nosentidodequeela[...]noselimitaaumameradefiniodasdistncias;elatemquehaver coma contigidade fsica entre pessoasnuma extenso, nummesmoconjuntodepontoscontnuos,vivendocomaintensidadedesuasinter-relaes(SANTOS,1996,p.255);acrescentandoaindaque[...]nosoapenasasrelaeseconmicasquedevemserapreendidasnumaanli-sedasituaodevizinhana,masatotalidadedasrelaes(1996,p.255).Amaioriadosqueconsideramasquestes ligadasproximidadesocialestinteressadanosempreendimentosenaspossibilidadesdeinsta-laodecrculosvirtuososvisandoaofuturo.Emoutraspalavras,pensamnosmodelos de aoquepodem ser construdos. Importante, porm, tentaraproveitartambmaspossibilidadestericaseanalticasresultan-tesdessaposio,nosentidodeanalisareconfirmara importnciadosprocessosendgenosdedesenvolvimentoregionale,apartirdisso,cons-truirnovoconhecimentosobreumterritrioespecficoou,comoadafe-lizconceituaodeBoisier(1999),naformulaodemodelosmentaisoudiagnsticossobredeterminadarealidadesocioterritorial.Assim,comooterritriocomoumatramadeelementossociaiseambientais, possui umadimenso territorial de desenvolvimento, que otornaumatorousujeitodaspossibilidadesgeradaspelaproximidadeso-cialdosagentesinseridosnoseuespaogeogrficotemnoseuinterioroscomponentesdecisivosqueorientamoseufuturo,acredita-sequeosdoseupassadotambmforamdecisivosnoprocessohistrico-geogrficoqueinfluenciouaestruturaterritorialcontempornea,comtodaasuaendoge-nia,comtodasassuascaractersticas.Emoutraspalavras,comoaatualtramaterritorialcapazdeorientarosrumosqueseroseguidospeloter-ritrio,ascondiesinterativasquesesucederamnopassadotambmfo-ramimportantesparanortearocaminhoformadopeloprocessoendgenoqueseinteressacompreender.Seesseprocessofoibasicamenteodeumasociedadedebaseagr-ria, cabeumaadaptaodo referencial terico-conceitualdaconcepodedesenvolvimentoterritorialparaabordaraquestododesenvolvimentoregionalemsimesma.EssaoperaotentadaporAbramovay,masnosepodedizertenhasidototalmentebemsucedida.verdadequeele,comaperspectivaterritorialcontidanaconcepodedesenvolvimentoqueassu-me,assimcomooutrosestudiososdoassunto,buscasuperar,inicialmente,asvelhasdicotomiasqueopemourbanoaorural,acidadeaocampo,odesenvolvimentourbanoaodesenvolvimentorural.Segundooautor,essascategoriasouconceitossodenaturezaterritorialenosetorial(1999,desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA5p.10).Baseadonisso,defendequeoruralumconceitoespacialemulti-setorial(1999,p.11).Porconseguinte,precisoreconsideraraunidade de anlise quenodeveser,segundoomesmoautor,nemossistemasagrriosnemossistemasalimentares,mas,sim,aseconomiasregionais(ABRAMOVAY,1999,p.11).Nesseargumentoverifica-seumproblema,porqueelepareceaban-donar os princpios considerados e defendidos em trabalho anteriordeondeextraiuoconceitodeterritrio(ABRAMOVAY,1998).Baseadonesseprimeirotrabalhoesperava-sequeeledefendesse,comoumaunidadedeanlisepassveldesuperaradicotomiadeumasetorializaoespacialin-devida,oterritrio emlugardaeconomia regional.Ora,seoterritrioumatramaenvolvendoaspectossociaiseambientais,enessesocialestoincludos elementos econmicos,polticos e culturais, troc-lopela eco-nomiaregional,comounidadedeanlise,empobrecerestaanlise,e,oquemaisimportante,significatambmabandonaraperspectivaespacialatualizadadeacordocomonovoparadigmaterritorialcitadoporStorpereassumidopeloprprioAbramovay(1998).Assim,suaargumentaosofreualgumasmodificaesentreotra-balhode1998eode1999.Naconcepodedesenvolvimentodefendidanoprimeiro,aunidadedeanliseoterritrio,enquantoque,paraosadep-tosdodesenvolvimentolocal,aeconomiaregionaloulocal.Issodeveserentendidoassimporque,justamente,aunidadedeanlisenaprimeiraoterritrio,enquantonasegundaaeconomiaregionaloulocal,pelome-nosparaumbomnmerodeadeptosdessaltimaconcepo.Issoficacla-roquandoserecorreaostrabalhosnosquaishargumentosdefendendoqueocorteurbano-ruraltemcedidoespaoparaoenfoquenaeconomialocal (CAMPANHOLA;SILVA,1999,p.2)ouquandoSarraceno lembraque[...]thelocaleconomy,whichhasbeenproposedasanalternativetothesemi-ruralorperi-urban[...](1994,p.471).Centraroenfoquenaeconomialocalouregional, transformando-anumpontodepartida,aceitvel,mastambmnopontodechegadaques-tionvel,poispoderiareavivarcertoeconomicismojtocriticadopelosquequestionaramaprprianoodedesenvolvimento(COWEN;SHENTON,1996;ABDEL-MALKI;COULERT, 1996).Comesse entendimento,no sequersustentarquenosejampossveisanlises importantescentradasnaeconomialocalouregional.Muitopelocontrrio, oquesedefendeapenas que,quandooqueimportaodesenvolvimentoregionalmenteconsiderado,oconceitodeterritrioanalisadopermiteumaabordagemmaisadequadaaotema,jqueaintegraodasdiversasdimensesqueformamumadeter-minadaestruturaterritorialcentralnesseconceito. Aose tocarnessaquestodaintegraodasdiversasdimensesnumarealidaderegionalespecficaquecorrespondeaumterritrio,per-cebe-seumaanalogiaoupontosdesemelhanaentredoisconceitos,ode5luiz AlexAndre gonAlves cunhAterritrio(conformeconsideradonestetexto)eoderegio(conformecertatradiodacinciageogrfica).Nessestermos,naCinciaGeogrficatra-dicionalencontram-seelementosquenospermitemreconhecerqueques-tesimportantesemanlisesregionaisatualizadasenadefiniodepol-ticasdesenvolvimentistasterritoriaisjapareciamnatradioregionalistadageografiafrancesa lideradaporVidaldeLaBlache.Nosemrazoqueopensamentolablachianovemsendoreavaliadonumcontextomuitomaisfavorvelaoreconhecimentodasuariquezadoqueaquelenoqualfloresceuageografiaradicaloucrtica(GOMES,1996).Aatualidadedes-sas questes acabapor permitir o resgate da tradio lablachiana, commuitosdos temasmais inoportunosdeVidal [de laBlache]encadea-mentodefenmenos,conectividade,eassimpordiante[que]podemserinterpretadoscomotentativasdepermitirqueosingularocupeumlugarnacincia(THRIFT,1996,p.223).Relacionar,porm,oconceitodere-giogeogrficacomoselementosdadiscussopropostanestetextoumdesafioquesepretendeenfrentarnumaoutraocasio.reFernciAsABDEL-MALKI,L.;COULERT,C.(Org.).Les Nouvelles logiques du dvelop-pement. Paris:LHarmathan,1996.ABRAMOVAY,R.Do setor ao territrio: funesemedidasdaruralidadenodesenvolvimentocontemporneo.RiodeJaneiro: IPEA/ProjetoBRA/97013,1999.______.O capital social dos territrios: repensandoodesenvolvimentoru-ral.Fortaleza:MinistriodePolticaFundiria/GovernodoCear,1998.ABU-EL-HAJ,J.Odebateemtornodocapitalsocial:umarevisocritica.Revista Brasileira de Informao Bibliogrfica em Cincias Sociais BIB, RiodeJaneiro,n.47,p.65-79,1srie,1999.BARVEJILLO,F.Reinvencin del territrio. Umdesafioparaciudadonosyplanificadores agentesdeldesarrallo.DocumentoapresentadonoForoLatino-americanoydelCaribe sobreDesarralloRegionalSantafdeBogot,dez,1997.BENKO,G.Economia, espao e globalizao na aurora do sculo XXI.SoPaulo:Hucitec,1996.BOISIER,S.Post-scriptum sobredesenvolvimentoregional:modelosreaisemodelosmentais.Planejamento e polticas pblicas. 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Assim, ao seguir esseprocesso,possvellocalizar,nacadeiadeacontecimentos,apaulatinaerosodoconhecimentolocalesuasubstituioporumconhecimentocientficoglobal.desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA64Quadro 1 Modelos de desenvolvimento ruralCaractersticas Desenvolvimento exgeno Desenvolvimento endgenoPrincpio-chave Economia de escala e concentraoArranjos locais (naturais, humanos e culturais).Recursos para o desenvolvimento sustentvel.Fora dinmicaPlos de crescimento urbano. As reas rurais so concebidas como fonte de alimentos e de produtos primrios para a expanso das economias urbanasEmpresas e iniciativas locaisFuno das reas ruraisProduo de alimentos e de produtos primrios para a expanso da economia urbanaDiversificao das economias e dos serviosMaiores problemas de desenvolvimentoBaixa produtividade e marginalizaoLimitada capacidade de reas/grupos sociais de participar das atividades econmicasFoco do desenvolvimento rural Modernizao agrcola: estmulo mobilidade de capital e trabalhoConstruo de capacidades (habilidades, instituies e infra-estrutura)Superao da excluso socialFonte:AdaptadodeWardet alii (2005).Deste conhecimento global surgemnovas relaes entre naturezaesereshumanos,relaesnasquaisadiversidadedesistemasprodutivosruraissubstitudapormodelosconstrudosemlaboratrios.Asraciona-lidadescientficas,tecnolgicasefinanceiraspassaramaocuparboapartedosecossistemasmundiais,transformando-osprofundamente.ARevolu-oVerde,fundamentalmente,umsistemaaltamentedependentedein-sumosexternos,caracterizadospelaaltadensidadetcnicaecientficaepeloaltoinvestimentodecapitalqueconectamentresicomplexasredesmundiais.Almdisso,estesistemaprivilegiaamonoculturacomoformadepotencializarousodosrecursoseconmicos.Considerandoqueatecni-ficaoeadensidadecientficasocaractersticasfundantesdaRevoluoVerde,oscentrosdedecisoedepodertenderamapermanecerafastadosdolocaldeaplicaoepassaramagerarcomplexaselongasredesverti-caisdepoder.Namodernidadeavanada, essesprocessos so, contudo,ambivalentes.AracionalidadeprodutivistadaRevoluoVerdetrouxeumconjuntodeaparatostecnolgicoseconhecimentosquefizeramaumentarsignificativamenteaproduoalimentar.Contudo,sobopontodevistadaagricultura,apesardoaumentodadisponibilidadeglobaldealimentosproporcionadopelaRevoluoVerde,osimpactosgeradoscomusointensivodeinsumosexternoscausaramin-merosproblemas.Pretty(1995)citaalgunsdeles:distribuiodesigualde65Adilson FrAncelino Alvesbenefcios,deterioraodascondiessocioeconmicasdeagricultores(so-bretudocomoaumentodocustodeproduoecomaconseqentedimi-nuiodarenda),grandedeslocamentopopulacionalcomreflexosdemar-ginalizaoededegradaoambientalsignificativa,dentreoutrosaspectos.Taisproblemasfizeramaumentaromovimentoquequestionaodesempe-nhodaagriculturamoderna,umavezqueseusefeitoscolateraisnegativos,emdiversosaspectossuperamaspositividades.Dessemodo,oavanodaRevoluoVerdesobreterritriosesobresistemasprodutivostradicionaistrazconsigo,almdaevidnciadosucessodaracionalidadecientfica,ques-tionamentossobreosresultadosalcanados.Seusucessopodeseremparteexplicadopelaconstruodasredessociotcnicas,comopropeaanlisedaTeoriaAtor-Rede(TAR)desenvolvidaporCallon(1984)eLatour(2000),naqualoaspectocentraldosucessocientficotemavercomacapacidadedacinciaemconstruirredescapazesdeagirdistncia.Acinciapodefazerafirmaesuniversaisporquepodeserestandardiza-daemtecnologiasepodeatingiratravsdelasestabilidadeeutilidadeforadoscontextoslocaisnosquaisproduzida.Oscientistasatuamdistncia,atravsdeassociaesouredesquepossibilitamquedeterminadosatoreslocalizadosnumtempoe lugarespecficos tenhamcondiesdeestabele-cervnculoscomoutrosatoresemdiferentestemposelugares(GUIVANT,1997,p.17).Osmecanismosdestaconstruopassampordiversostiposdealian-as,quepermitemconstruircomplexossistemasqueconduzemparasuauniversalizao,ouseja,comoumconhecimentocientificamenteprodu-zidoevalidadoreproduzvelemtodaapartesemanecessidadedeumprofundoconhecimentoporquemexecutaotrabalhonoslocaisdeaplica-o.Emoutraspalavras,aconstruodarededecinciapermitequeestatenhaumaaodistncia,aocontrriodoconhecimentolocal,queseor-ganizaemredesmenoresemaisrestritas,oquelimitaadifusodessasex-perincias.Outroaspectofundamentaldasredescientficasrefere-seasuacapacidadedearticularredesdepoderecontrole.ParaGuivant(1997),asprticasdaatuaodistnciaenvolvemdiversostiposderelaesdepo-der.EsseentendimentoestemconsonnciacomoquepensamGiddens(2003),Callon(1984)eLong(2000),aoconstataremquesetornampode-rosososatoreshbeisosuficienteparaconvenceroutrosatoresaatuaremalinhadosspr-noeseaosenunciadosporelesdefendidos.Nocasoes-pecficodaRevoluoVerde,umadasregrascentraiscaracteriza-sepelacontinuaodatentativadaseparaoontolgicaentreomundonaturaleomundosocial.Trata-sedeumaseparaoemquehapredominnciadosegundosobreoprimeiro,mascujavisodonaturaldeumnaturalespe-cfico,identificadocomoprojetoocidentaldecincia,civilizaoepoder.Noqueserefereaopoder,nopossveldeterminarsualocalizaoexata,comoodemonstraNormanLong(2002),aodiscutirascomplexasre-desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA66laesqueseestabelecemnasinterfacesdeprojetoseprocessosdedesenvol-vimentorural,oucomooafirmaMichaelCallon(1986),nasuacontribuioaoproblematizarasrelaesdepoderentreosatoresenvolvidosemredes.ParaGuivant(1997),opoderincluiumalongalistadeelementosnoso-ciais,comotecnologias,textoseentidadesnaturais,articulando-seemtor-nodiversosrecursoseconstruindoumalongarededeatuao.Dessemodo,podemosinferirque,quantomaislongaessalistadeelementosqueintegramopoderequantomaisrecursosestiveremenvol-vidos,maioreleser.Nessesentido,aproblematizaodaconexoentrecinciaeformasdepodernospermitevisualizarumadistinoexplicativaessencialentrecinciaeconhecimentolocal,ouseja,adistinodequeAcinciatemmaispoderporquepodeagirdistncia,porqueasexplica-escientficastmacapacidadedereduzirnumerososelementosnumalei universal e isto os colocano topodahierarquia explanatria (GUI-VANT,1997,p.17).Entretanto,comoapontaLong(2000),opodernopodeseracumu-ladoouestocadoparaserutilizadoemdeterminadassituaes.Eleprprioobedeceaosaspectossociais,culturaisenaturais,numcomplexoecont-nuoprocessodearticulao,estabilizaoecontestao.Assim,dadoqueaRevoluoVerdegerouumacrescentedependnciadeinsumosexternos,bem comoprovocou a eroso dos conhecimentos locais, de outro lado,contudo, issono seprocessademodopacficoeuniforme.Aextensorural,porexemplo,quesecomportoucomoumdosvetoresfundamentaisparaaadoodospacotestecnolgicosedosprocessosestandardizadosdeproduosofreresistnciaeessespacoteseprocessossoressignifica-dospelosagricultores.Outromovimentoderesistnciaocorredentrodaacademia,ondemuitospesquisadoresseposicionamparasecontraporaessegrandemovimentoglobal.Dentreascrticasapresentadas,osaspec-tosnegativosmaisrecorrentesfocamasproblemticasdasustentabilidadeambientalesocialedaerosodosconhecimentoslocais.Esses insistentesprocessosdequestionamentosbemcomoos im-pactosnegativosdaRevoluoVerdefizeramaparecerumgrandenmerodenovosatoressociais.Algunsdelesselanaramnaconstruododebatesobre:qualagriculturapossvel,qualsocialeecologicamentesusten-tvel,qualoferece,paraaspopulaes,padresdeseguranaalimentar,ambientalesocial?Almdestestemas,umasriedeoutrascontrovrsiastmfreqen-tadoas agendasdegrupos, governos e instituies ao redordomundo.Estesprocessosgeraramumasriedeexternalidadesnegativasqueper-mitiramaoscientistaseambientalistasformularalertassobreadeteriora-odaqualidadedosrecursosnaturais,como:solos,gua,perdadabio-diversidade,quedaabruptadasreservasflorestais,aquecimentoglobalemudanasnosregimespluviais.Noaspectodacapacidadedosgovernose6Adilson FrAncelino Alvesdoscientistasdegarantiraseguranadapopulao,apolmicadiscussosobreoMaldaVacaLoucaBovineSpongiformEncephalopaty(BSE),bemcomoaresistnciaadoodealimentostransgnicossoexemploscomunsdacrescentedesconfianasocialsobreaqualidadedosalimentosesobreacapacidadedossistemasperitosemfornecerpadresdeseguran-aaoconsumoalimentar.Estasquestesobrigatoriamentenosconduzemaoespaopolticoeassuasarenasdeembate,dentreasquaissepodecitar:asrelaescon-traditriaseaatuaoambguadoEstadonoenfrentamentodasquestesreferentesqualidadedosalimentos;passandoaooutroextremodasques-tessociaissurgidasdodeslocamentoprovocadopeloxodoruralempa-sesemdesenvolvimentocomooBrasil.Ouseja,asanlisesdosimpactosdaRevoluoVerdenosconectamredescadavezmaiscomplexasenosabrempossibilidadesdepesquisasfundamentaisparaenfrentarosdesa-fiosdecompreendersuasinterconexes.Ocorre,contudo,queaadoodelinhasdivisriasclarasenfrentaumobstculocentral,pois, senomundoconceitualnspodemos sepa-rarasquestestecnolgicasdasoutras,noespaoempricoamodernida-decomplexificouessatarefa(LATOUR,2000).Nohumaseparaotosimplesdessesuniversosproblemticos,eoquepercebemosumaintrin-cadateiaconceitualligandoquesteseconmicas,polticas,culturais,so-ciais,cientficasenaturais.Estesaspectosestofortementeentrelaadosaumprojetodecinciaecivilizaoedesafiamconstantementeacapacida-dedecompreensoeintervenonossistemas.Nas duas ltimas dcadas algumas concepes nascidas no am-bientalismoeemsetoresdapesquisacientficatmconseguidoconstruirpequenaseatuantesredesdecontraposioaopoderdasgrandesredescientficas.Taisexperinciastmarticulandocomunidadeslocais,atoresvinculadosONGs,gruposdepressoeconsumidorespreocupadoscomaqualidadedosprodutosalimentares.Morgan eMurdoch (2000), em Organic vsConventionalAgricul-ture:knowledge,powerandinnovationinthefoodchain,sepropemaanalisarcomoseprocessaaconstruodoconhecimentonascadeiasali-mentares da agricultura convencional e da agricultura orgnica atravsdoestudodedoistiposideaisderedes:asredesdeproduoalimentarindustrializadaeoqueelesdenominamderedestcitas,ondeseutilizamo(s)mtodo(s)orgnico(s)deproduo.Ambospartemdoprincpiodequeosetordeproduodealimentospassouporumaintensamodificaonoperododops-guerra,ondeumadasevidnciasmaismarcantesfoiaaplicaointensivadecincia,tecno-logiaelogstica.Assim,aaplicaodeconhecimento(nosentidoamplo)assumiucartercentral tambmnaagriculturaedeumaproposiodaeconomianeo-clssicaparacompreenderacentralidadedoconhecimentodesenvolvimento territoriAl e AgroecologiA6para as atividades econmicas. Procuram inicialmente considerar o co-nhecimentoemsi.Utilizando-sedeLundvalleJohnson(1994),propemquatrotiposbsicosdeconhecimentosqueconsideramrelevantesparaaanlise:a)saberoque(know-what),conceitoestequeestariaprximoaoquensidentificamoscomoconhecimentoouconhecimentodosfatos;b)saberporque(know-why),conceitocorrespondenteaoconhecimentocientfico,aoconhecimentodosprincpiosedasproposiesdas leisdefuncionamentodanatureza.Esseprincpiofundamentalparaasmudan-astecnologias.Segundoosautores,areproduodoknow-whyorgani-zadaerealizadafreqentementeeminstituiesespecializadas,principal-menteemuniversidadeseempresas;c)conhecimento(know-how),quesereferehabilidadedefazeralgo.Essetipodeconhecimentonormalmen-teconstrudodentrodasempresaseguardadocuidadosamente,contudosuacrescentecomplexidadepodeconduziraumainteraoentreasorga-nizaes;ed)saber-quem(know-who),consideradocomoumtipoespec-ficodeconhecimentodeterminanteemfunodacrescenteimportnciaqueestevemassumindonaseconomiascontemporneas,e refere-sees-sencialmenteshabilidadessociais.Essetipodeconhecimento,parasereficaz,precisaenvolverosoutrostrstiposanteriores.SegundoMorganeMurdoch(2000),apesardesedutora,aaborda-gemneo-clssicadesconsideraacapacidadedesigualdosagentesecon-micosdeproduzir,acessar,adquiriremanipularconhecimentos.Nomo-delocontemporneo,aproduodoconhecimentosedembutidaemumamplorolderelaesdepodereenvolvetambmquestessociaisepolti-cas,quesodesconsideradasoutmumaimportnciamarginalnateoriaeconmicaneoclssica.Ouseja,naconfiguraorealdomercadonoseverificaumaperfeitadistribuiodoconhecimento.Narededodesenvolvimentoendgeno,emboraencontremosopro-dutodacontestaoedacrticaaomodeloanterior,bemcomoaapresenta-odealgumasalternativasparasuasuperaoesubstituio,oprocessocomplexoedesigual,e,emboranotenhamumatrajetriademonica,osprocessostcnicosecientficoscaractersticosdaglobalizaoedamoder-nidadepossuemumaforaincontestvel.Nessesentido,aglobalizaode-senvolve,emseumovimento,doisvetores:umprocessodehomogeneizaoeoutrodediferenciao(MARSDEN;CAVALCANTI,2001),ondediversasredesseentrecruzamnumprocessodereflexividade,avanoserecuos.necessrio, contudo, ressaltarqueoconhecimento localnodeveseridealizadocomomelhorousuperioraoconhecimentocientficoouvistocomoumconhecimentopuroprontoparaserresgatado(GUIVANT,1997),atporque,dopontodevistadosmodosdefazeragrcola,oprocessodaglobali-zaonaestandardizaodaagricultura,acincia,asempresas,osgovernoseaAterdesempenharamedesempenhamoseupapelpormaisdemeiosculo,alterandoeinfluenciandoprofundamenteossaberestradicionais.6Adilson FrAncelino AlvesA emergnciA dA sustentABilidAde: rede e conhecimento locAl Sedeumlado,ocontnuoavanodastecnologiastempropiciadonaagri-culturaumaprofundamentodosmecanismosdaglobalizaoedaestan-dardizaodosprocessosprodutivos,deoutro,umconjuntoexpressivodeexperinciaseatoresfocadosnolocaltmsurgido.Aglobalizaosistematicamentequestionadaereconfiguradape-los atores e instituies locais. SegundoMior (2004), seus aspectos sofragmentadosereinterpretadosemnvellocal.Emoutraspalavras,osfe-nmenosglobaisseriampermanentementemediadosereconfiguradospe-losdiversosagenteslocalizadosnasmltiplasescalasdavidasocialeeco-nmica, construindo complexos elos entre os atores locais e os globais.Umadasquestescentraisdessareconfiguraopassapelasustentabilida-de,nodeformaespecfica,masdiludaemredeslegaisedepesquisa.Nocampoespecficodoambientalismo,aquestodaglobalizaoendgena,eodeumduplomodo:oprimeironosentidodequeaquestoambientalemessnciaprodutodoprocessodeglobalizao,poisgrandepartedodiscursoambientalspossvelsearticuladasquestesnasci-dasdaglobalizao;deoutrolado,odiscursoinstitucionalecientficodoambientalismo tece suas teorias e consideraesnoapartirdoespaolocal,masdoglobal.Osimpactosdadegradaoambientalocorrem,namaioriadas vezes, no espao local,mas as conseqncias so globais eapresentadascomoteoriasglobais.Umadessasanlises,queparticularmentenosinteressaaqui,foirea-lizadaporButtel(1994),quefocaodebatenasociologiarural.Paraele,asociologiaruralofereceduasgrandesabordagensreferentesagricultura:umacentradanaglobalizaoenainternacionalizaoeaoutra,nare-lo-calizaoenadiversidadedaagricultura.Naprimeira,asagriculturasna-cionaiseseusprocessosdinmicos,organizativosereguladoresestavamsendosubstitudospelasestruturasglobais.Aabordagemdaglobalizaoestessencialmentebaseadanapressuposi-odequeaagriculturateriaperdidoseudinamismoeconmico, ideol-gicoepolticoequeaestruturaagrcolanomaisaforaeconmicaqueformataosistemaalimentareasociedaderural.Assim,atendnciadestaabordagemseria ignoraraestruturadaprpriaagriculturaeenfatizarasdinmicaseconmico-polticasdascadeiasdecommoditiesesistemasali-mentaresqueseriampensadoscomodeterminandoasestruturasagrcolas(MIOR,2004,p.26).Estaabordagemfocalizaainflunciadossistemaslocalizadosforadoespaorural,naformataoenadeterminaodasdecisesnaagri-cultura,doquedecorreumprocessocrescentededependncia,demargi-nalizaoedeminimizaodaimportnciasocialepolticadosespaosrurais.Noquesereferesegundaabordagem,oaspectocentralacrticadesenvolvimento territoriAl e AgroecologiA0dirigidaexcessivanfasenasqualidadeshomogeneizadorasdaglobaliza-o,ouseja,oquesepassaaquestionarseriamoslimitesdoalcancedoprocessodeestandardizaodaglobalizaosobreaagricultura.Em1992,ClarkeLowejhaviamsinalizadoparaoslimitesdealgu-masabordagenssociolgicaseeconmicasdaagricultura,quesedifeririadosprocessosprodutivospelassuascaractersticasintrnsecasdetrabalhofamiliarepelanaturezarefratriaemltipladosprocessosbiolgicos,osquaisexigematenoindividualdosagricultores.Oncleodessaanliseresidenocarterdiferenciadordassociedadesruraisemsuasmaisvaria-dasformas.Estascaractersticasdaagriculturaproduzemumaaproximaoen-treaagriculturafamiliareomovimentoquestionadordaglobalizao,fa-zendoemergirosaspectosrelativosagriculturasustentvele,conseqn-temente,relativosaumaconcepodedesenvolvimentoruralsustentvel.Box 1 Princpios da agricultura sustentvel1. A sustentabilidade no pode ser definida de forma precisa: um conceito altamente contestado e no representa um conjunto fechado de prticas ou tecnologias, nem um modelo a ser descrito ou imposto. A questo de definir o que estamos tratando de fazer parte do problema, devido a que cada indivduo tem valores diferentes. A agricultura sustentvel , desta maneira, no tanto uma estratgia, mas uma abordagem para apreender o mundo.2. Os problemas sempre esto abertos s interpretaes diferentes: como o conhecimento e o enten-dimento podem ser considerados como socialmente construdos, o que cada um de ns conhece e acredita est relacionado com o nosso contexto atual e nossa histria. No h, portanto, s uma interpretao correta. Dessa maneira, fundamental procurar entender as mltiplas perspectivas sobre um problema para assegurar um amplo envolvimento dos atores e grupos.3. A resoluo de um problema inevitavelmente leva produo de outro problema porque os proble-mas so endmicos. Sempre haver incertezas.4. A caracterstica-chave passa a ser a capacidade dos atores de aprenderem continuamente a partir dessas situaes em mudana, de forma a que possa agir rapidamente e transformar suas prticas. As incertezas devem passar a ser explcitas e reconhecidas como vlidas5. Os sistemas de aprendizagem e interao devem procurar as mltiplas perspectivas das diferentes partes interessadas e estimular o seu envolvimento. A participao e colaborao so componentes essenciais de qualquer sistema de pesquisa.Fonte:Pretty(1995),apudGuivant,2002.Aagriculturasustentvelparteintegrantedodesenvolvimentoru-ral sustentvel1 epodeserdefinidacomoumprocessodemudananossistemasruraisdeproduo,afetando-osdeformamultidimensional.En-volvediversasreasdasatividadesrurais,como:crescimentoeconmico,1 Emboranohajaumadefinionicaparadesenvolvimentosustentvel,esseconceitoomaisinstitucionalizadonaesferaestatal,bemcomonosmovimentossociais.1Adilson FrAncelino Alvesmelhoramentodecondiessociais,conservaodevaloresnaturaiseva-loresculturais(PUGLIESE,2001),comotambmasdimensesdetraba-lho,tecnologia,saberes,polticasinstitucionais,enfim,fatoresqueseco-nectamdiversasdimensesdavidanocampoenosoestanqueseporissonoobedecempacificamenteaumaclassificaohomogneaoues-tandardizadade suasdefinies.Namaioriadas vezes estes fatores socomplementadospordemandasespecficaseporcaractersticashistricasdascomunidadesrurais.Oqueseobserva,nocenrioatual,quegradualmenteaatuaocrticadeatoressituadosnoespaoruraltempossibilitadoaconstruoderedesealternativaseconmicasparaascomunidadesrurais.Assim,deumfocoeminentementesetorialerestritodeproduoexclusivadealimen-tos,aperspectivadodesenvolvimentoruralsustentvelpodepossibilitaraarticulaodenovoselementose,comisso,conectaroruralaosespaosdecrticamodernidade(nosentidodeGIDDENS,1991).Emalgunsca-sos,essascrticassedirigemtambmsquestesambientais,embora,nocasobrasileiro,oeixocentral,devidosquestesdaformaohistricaemarginalizaodaagriculturafamiliar,tenhasidoodarecuperaodaseconomiasruraisedasustentabilidadesocial.Aredefiniodaagriculturanosmoldespropostospelaagriculturasustentvelimplicaaredefiniodopapeldosagricultoreseconsistenumapeloparaaaquisiodenovashabilidadesecompetncias,e,dentrees-sasredefinies,estaampliaodosconhecimentosdosagricultores.Adiversificaodasformasdeproduziredaeconomiarural(sejacomopro-cessodapluriatividadeagrcola,sejacomaredefiniodosespaosruraiseurbanosouadiscussoterritorial),temumpapelestratgicoimportante,poisprecisoreinventarparatransformarasfronteirasgeogrficasurba-no-ruraisemacoplamentosqueconectam,cadavezmais,lugares,saberes,tradieseinovaes.A atuao geogrfica dos atores necessita ser redimensionada,pois,naconfiguraododesenvolvimentosustentvel,noserestringesrelaesimediatasdalocalizaoespacialdapropriedade.Aanlisedoes-paorural,emsuaperspectivasustentvel,deveserolhadanocomoumespaodehomogeneidades,masdeespaoshbridosconstitudosdetem-poseterritriosdistintos,masquepodemcomporeconstituiromesmoespao, segundoSaquet (2003).ParaaTAR,as redesso fundamentais,poisatravsdelaspossvelobservarumconjuntoestvelderelaesouassociaes,pelasquaisomundoconstrudoeestratificado.ATARvosespaoscomoconstruesdentrodasredes,masnoapenasisso,poisosprpriostempossoforjadosnoseuinterior.UtilizandoostrabalhosdeCallon(1986),Latour(1997),ClarkeLowe(1992)eMurdoch(1998),podemosobservarmelhoroconceitoderede,quesosistemashbridos,compostosdemateriaisheterogneos,inclusivehu-desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA2manos,no-humanos,textos,objetostcnicos,dinheiroetc.Emoutraspala-vras,umsistemacomplexoquereneosocial,apolticaeasredestcnicas,elementosnaturaiseinanimadoseoespaofsico.Assim,odesenvolvimen-toruralsustentvel,aoseranalisado,deveserpercebidocomooresultadodaco-evoluoedoentrelaamentodestessistemasderelaes.NaperspectivadaTAR,todososobjetostcnico-cientficos,inclusiveosprojetosdedesenvolvimento,soresultadosdamisturadeentidadeshu-manasenaturais,sendoqueestesltimostmacapacidadedeatuarsocial-mente,emfunodeestaremsituadosprecisamentenaarticulaoentreasdinmicassociaiseasleisnaturais.Estaconceituaodasredespossibilitaaobservaodosdiversoselementosinterconectadossemaatribuiodepa-pishierrquicosentreeles,oquepermiteacadaatorapossibilidadedesetornarfundamentaldentrodaconstruodarede(CALLON,1983).Sobreestepanodefundo,aaproximaodosatores,naperspectivadaTAR,podeserusadaparaentenderosprocessosdeincorporaodosagenteseatoresnasredesesuasinter-relaes,verificandocomoosatoresexercitamseuspoderessobreosoutrosatores,comoelesseutilizamdosmateriaisheterogneosasuadisposioparalutar,dominarouassociaroutros(MURDOCH,1994).Emoutraspalavras,aanlisedasredespermi-teseguirosprocessosdeconstruoeobservarcomoosatoresesistemasco-evoluem.Assim,nadiscussosobreaconstruoderedesdeconheci-mentoparaodesenvolvimentorural,importanteperceberqueos produtos locaisnosolocaisnosentidoestrito,massoespaos locaisconectadosaoglobalpelosagentes,pelastcnicas,pelaglobalizaodapoltica,pelaques-toambiental,dentreoutrosfatores.Dentrodessaperspectivapossvelestabelecerdiversosrecortesnaanlisedainterconexoentreasatividadesruraiseaproblemticadasus-tentabilidade.Umeixodereflexopossvelpensarasoitodimenses:a)sustentabilidadeecolgica;b)sustentabilidadeambiental;c)sustentabili-dadedemogrfica;d)sustentabilidadecultural;e)sustentabilidadesocial;f)sustentabilidadepoltica;g)sustentabilidadeinstitucionaleh)sustenta-bilidadetecnolgica.Estasdimensesdoquestododesenvolvimentosustentvelumamaiorabrangnciae,comoconseqncia,ampliamtam-bmsuacomplexidade.Umaoutraformadeconceberaproblemticaaadoodaagendapropostapelosmovimentossociaiscomofiocondutor.Brandenburg(2005),porexemplo,identificadoiseixosparaapropostadeintervenoeanlisedasaesecolgicasnoambienterural.Soeles:a)oeixodospreservacionistas:comapropostadeaesdeconservao,depreservaoedegestodoambientenatural,eb)oeixodostcnico-produ-tivos:cujasaespropostasrelacionam-secommudanadepadrotcni-codeproduo,eorespectivogrupodeprofissionaispropeasubstituiodasprticasedastcnicasagrcolasconvencionaisporprticasalternati-vaseecolgicasdeproduoeconsumo.3Adilson FrAncelino AlvesTodasasdimenseseeixoscitadosacimapossuemsuarelevnciaparaacomposiodeumquadroanaltico,entretanto,paraosfinsdesteartigo,propomosaadoodealgunsfatoresquepodemconstituiremumeixoparaainterconexoentreasquestesruraiseambientaisnoquadroanalticoetambmadiscissodaquestodainterconexoentreagricul-turafamiliaresustentabilidadeapartirdequatrofatoresbsicos:inova-o,conservao,participaoeintegrao.Estaestruturaoriginalmen-tepropostaporPugliese(2001),agregadacontribuiodeoutrosautores.Essesquatrofatorescongregamumagrandepartedaconvergnciaentreosaspectosdaagriculturaorgnicaedodesenvolvimentosustentvel.inovAoAinovaoumelementoestratgicoparaodesenvolvimentodossiste-masagrcolaserurais.Oprocessodeinovaodentrodaperspectivadoruralambientalarticulaemtornodesiumacadeiadeelementoshetero-gneosquepodemsertraduzidosnoapenaspelaadoodenovastecno-logiasearranjosprodutivos,mas,tambmefundamentalmente,porumarevisodoprocessodedesenvolvimentovigente.Areflexosocialsobreosrumosdodesenvolvimentopodeconduzirpotencialmenteoespaoruralanovosarranjosearticulaesderedesdeproduo,consumoeconheci-mento.Nessesentido,pode-secitar,comoexemplodoprocessodeinova-o,aadoodepropostasedeprojetosdedesenvolvimentoterritorialeaconstruodecertificadorasdeprodutosorgnicos.Aprimeirainiciativa,porsis,umacomplexainterface,entretantotemaquiapenasointuitodemostrarcomoasdiscussesemtornodepropostasdedesenvolvimentoterritorialsustentvelintroduzemnapautadenegociaonoapenasele-mentosarticuladosesferaprodutiva,mastrazemtonadiversosoutroselementosdavidasocial.Umaexperincianessesentidoaquestodaconstruodecertificadorasdealimentosproduzidosorganicamente.Elasintroduzemnapautadediscussesaspectosdaconstruodesistemasdeconfianaquesearticulamnoapenascomasdimensesterritoriaisinter-nasaosespaosdaproduoevidasocialdosagricultores,masdialogamfundamentalmentecomosconsumidoresdeorgnicos,almdearticula-remumdiscursolegal,institucionalecientficocomasociedade.Istosinalizaparaofatodequeassoluesinovadorasnosoape-nasderivadasdoprogressotecnolgico,mastambm,produtodenovosmtodosdeorganizaoeadministraoenvolvendoprocessoseinforma-es.Estefluxoocorrepordentroeentresetoreseterritrios.Segundoaautora,Inovaotambm identificvelnareintroduodeelementos,espaosepessoasemposiesdiferentes,integradosemestratgiasrela-cionaisrenovadas(PUGLIESE,2000,p.118).Paraela,aagriculturaor-gnicapoderepresentarumelemento importantede inovaoemreasdesenvolvimento territoriAl e AgroecologiA4rurais.Suaforainovadorasemanifestaemvriosaspectosdavida,tan-todentrodapropriedadecomonasrelaescomomercadoconsumidor.Agriculturaorgnicaumprocessodeinovaocomplexa,poisrequerumaltonveldeinformao,podendoexigiraomesmotempoumabaixaden-sidadetecnolgicaeumelevadoconhecimentodossistemasnaturais.As-pectosinovativostambmestorelacionadosadministraodaproprie-daderural,articulaocomconstruodeespaossociaisdenegociao,construodepolticaspublicasefrunsdedebate,dentrediversosoutrosaspectosqueexigemdosparticipantesaconstruodeesferasdeatuaoantesinexistentesouoredesenhodasjexistentes.conservAoNamesma linhade raciocnio, paraPugliese, odesenvolvimento ruralsustentvelpodeconciliarsimultaneamenteainterconexoentreomer-cadocomregulamentaesdesalvaguardadoequilbrioedaestabilidadedesistemasruraiseagrcolas.Dessemodo,nohaverianecessariamen-te umaoposio entre elementos de conservao e inovao. Segundoela,estratgiasconservacionistasadequadasnoagemnecessariamentecomoumobstculoparamudanaecrescimento,aocontrrio,elaspo-demajudaraevitaraerosodavantagemcomparativaruraleoslimitesdas transformaes no desejadas (PUGLIESE, 2000, p. 120). A con-servaodetraoscaractersticosdalocalidadenosprocessosdedesen-volvimentopode torn-los sustentveis em longoprazo.O conceito deconservao, no espao rural, a depender do grau de intensidade dastransformaes impostadaspelaRevoluoVerdepode trazer algumasarmadilhas.Existemexemplospossveisdearticulaoentreconserva-oeinovao,como:agroflorestas,manejosustentveldematas,reser-valegal,proteodefontes,utilizaodepastagensorgnicase,emmui-tasreasdefloresta,asexperinciasdeextrativismo,todasalternativasquetmmostradoumrelativosucessoemarticulargeraoderendaeconservaoambiental,oqueimplicaoaumentodoconhecimentosobreossistemaslocais.PArticiPAoAatuaodosatoreslocais,nasarenasenosprocessosqueenvolvempro-jetosdedesenvolvimentolocal,desempenhaumpapelcentralnoparadig-madodesenvolvimentosustentvel.Acapacidadedeagnciadosatoresemsuainteraoearticulaocomosdiversosmundos(simblico,tcni-co,poltico,global)desloca-osdoeixodavitimizao.Essedeslocamentorecolocaemnovospapis,ouseja,tambmcomoagentesprotagonistasdoprocessoenomerosreceptculosvaziosesperadesolues.5Adilson FrAncelino AlvesEntretanto,necessrioconsiderarosconceitoscomodevidocui-dado.Guivant (1997), aoanalisar aspropostasdedesenvolvimento sus-tentvel,destaca, comosendoumadas tendnciasmais expressivasdosdefensoresdeprojetosdedesenvolvimentoruralendgeno,oqueelacha-madepopulismoparticipativo,quetememRobertChambers(1983,2002)umdosautoresmaisimportantes.Essapropostadedesenvolvimentoruraltemcomoeixocentralavalorizaodoconhecimentolocaleaparticipa-odosagricultoresemtodososprocessoscomoagentesprincipaisdode-senvolvimento,porm,decertaforma,desconsideraopoderdoprocessodeenraizamentodeprticaseconhecimentosexgenos,desconsideraoessaquepodesercriticada.OutracrticaChambersrefere-seaumaidea-lizao de que a agricultura praticada no TerceiroMundo preserva umsabermilenar construdo e passado por geraes emumprocesso qua-seautnomodeconhecimento.Resumidamente,acrticaendereadaidealizaodoconhecimentopopular,consideradomelhorousuperioraoconhecimentocientfico,oucomosendocapazde incorporarprticas etcnicastradicionaisacriticamente.Oconhecimentoproduzidoereproduzidonoespaoruralprodutodecomplexasinteraesentreosconhecimentostradicionaisdecaboclos,ndios,negrosecolonoseuropeus,mastambme,nosdiasatuais,funda-mentalmente,porredesdepesquisasdealtonvelqueproduzemconheci-mentoscientficos validadospelaacademia,polticasdedesenvolvimen-toruralcentralizadasemgabinetes,baixaformaoescolaretcnicadosagricultores,eaatuaodeumacompetenterededecomercializaodeinsumos.Talcenriospodeproduzirhbridosenotipospuros,comoqueremsugeriralgumasteorias.os eixos dA PArticiPAo PolticANopapeldesempenhadoatualmentepelascomunidadesrurais,quesepro-pemaimplementarprojetosdedesenvolvimentoendgeno,podemosen-contrarostrseixosatuandosimultaneamente,numacomplexateiacon-ceitualquasenuncapacfica.Nabuscadealternativasparaamanutenodeseumododevida2enatentativadeinseronocenriopolticoedeci-srio,estascomunidadesprocuramromperocrculoviciosoaqueestosubmetidas.Algumasdelasestoconstruindo,porconseguinte,umanovahistriadeorganizaoquenoobedecenecessariamente auma lgicaapenas,masdiversasformasorganizativasenfeixadasemumamploroldereinvindicaes.2 Estamudananaperspectivanomundo rural ummovimentomundial.EnriqueLeffdiscuteessaquestonotexto:Losnuevosactoresdelambientalismoemelmdioruralmexicano.desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA6Asdiversasquestesemergentesqueaparecemnestascomunidades,heterogneasemsuaformao,podemsercaracterizadaspelatentativadeentenderederompercomamarginalizaocrescente,pobrezaeespoliaodosmeiosdeproduo.Istosednatentativadeencontrareconasocieda-deparaasoluodosproblemasdecorrentesdaestruturaagrriabrasileira,queseconstruiuprivilegiandoosgrandesprodutoresemdetrimentodape-quenapropriedade.ParaScherer-Warren(2002,p.246),nasltimasdcadasodebateemtornodasespecificidadesdoespaoruralcomeaatomarcor-po,agoracomumanovaticaqueprocuraincorporar,paraalmdasques-tesdeclasse,aspectosdomundocultural,relaessociaisdocotidianoedasidentidadescoletivasespecficasdecadamovimento.Aparticipaopolticanamodernidadetrazelementosnovosparaaanlisedaatuaodosatores.Dessemodo,aproblemticaambiental,associadasquestesdeempoderamentodeatoresligadosagriculturafamiliar,precisatambmserestudadaeobservada.Emboraosdesdobra-mentossociaisnoestejammuitoclaros,osreflexosdestastransformaesjsefazemsentiremdiversasesferasdaproduoeconsumodealimentosenoquestionamentodomodelopropostopelaRevoluoVerde,quenosconduzaumapossvelintegraoentreaagriculturaeasustentabilidade.Osquestionamentosecrticasdirigidosaoatualsistemadeproduoagr-cola,osimpactosambientaisdaagriculturaagroqumica,seualtocustoeacrescentedependnciadetecnologiasproduzidasemlaboratrio,aliadosaomal-estarcausadopelaquestodatransgeniaeoMaldaVacaLoucatmfortalecidoosdefensoresdeummodelodeagriculturamaislimpa.integrAo Opotencialprocessodeintegraoentreagriculturaesustentabilidadeapresentado,pordiversosmovimentossociaisoriundosdocampocomoumdosaspectoscentraisdoquestionamentodaRevoluoVerde.Vistosobongulodapolticaeuropia3doCommonEuropeanAgri-culturalandRuralPolicy,estapolticareconhecequeaagricultura,dentrodeumpacoteamplo,umdosfatoresqueafetamodesenvolvimentorural.3 necessriodizerquetalabordagemocorrefundamentalmentedentrodoprogramaLIE-DER,cujosprincpiosnorteadoressoosseguintes:a)multifuncionalidadedaagricultura,ouseja,asdiversasfunesquedesempenha,paraalmdaproduodealimentos.Istoim-plicaoreconhecimentodavastagamadeserviosprestadospelosagricultoreseoincenti-voaessasatividades;b)abordagemmultissetorialeintegradadaeconomiarural,afimdediversificarasatividades,criarnovasfontesderendimentoseempregoeprotegeropatri-mniorural;c)flexibilizaodosapoiosaodesenvolvimentorural,baseadanoprincpiodesubsidiariedadeedestinadaafavoreceradescentralizao,aconsultaescalaregionalelocaleofuncionamentoemassociao;e,d)transparncianaelaboraoegestodospro-gramas,apartirdeumalegislaosimplificadaemaisacessvel(Fonte:http://europa.eu.int/comm/agriculture/rur/index_pt.htm).Adilson FrAncelino AlvesDessemodo,apontaparaanecessidadedeinclusodepolticasagrcolaseruraisemprogramasglobaisquecontribuamcomoumtodoparaocresci-mentodosistemalocal,apontandoparaoentendimentoconceitualdequeodesenvolvimentoruralmultidisciplinaremulti-setorialemsuaaplica-o, tendoumadimenso territorial explcitaondeo aspectoambientalsejaumadasdimenses.Estaestratgiadeintegraopermiteconceber,parareasrurais,apossibilidadedeconstruodesistemasdeproduobaseadosemmode-losflexveiseendgenosondehajaumpapelcentralparaaagriculturaemsuasatividadesrelacionadasaomeioambiente.Issoapontaparaumadi-versificaodaseconomiasruraisondeareorganizaodosetoragrcolaaltamenteimportante,poisteriaacapacidadedefornecerimpulsoedina-mismodentrodosistemalocal,quevariveldeacordocomosaspectosterritoriaisepermitiriaaarticulaocomoutrosterritrios.Neste cenrio, a agricultura orgnica poderia, segundo Pugliesi(2000,p.122):proporcionaroportunidadesinteressanteseumacapaci-dade intrnsecade integraodoterritrioecomoutrossetoresdaeco-nomia.Deumpontodevistaestritamenteagrcola,aagriculturaorgnicarepresentaumforteestmuloparaareorganizaodaspropriedadesru-rais.Almdisso,segundoela,noqueconcerneproduoorgnica,exis-teumapossibilidadeinteressanteparaaintegraohorizontaldoespaolocal.Comisso,umanovadinmicacomaarticulaoeaconstruodecadeiasdeconhecimentoedeproduo,podeseestabelecernaproprie-daderural.Obviamentetalprocessoexigiriaqueumanovabasetecnolgicaeumprofundoprocessode articulaoda ampla capacidadedepesquisafosseminstaladosemuniversidadesecentrosdepesquisasagropecuriascomasprticasagrcolassolidificadaspormaisde50anosdisseminadasporumacompetenteextensorural.Noaspectoinstitucional,apenasrecentementeaspropostasdepo-lticas pblicas adotadas pelo Ministrio do Desenvolvimento Agrrio(MDA)apontamnadireode incorporaralgunsconceitosoriundosdodebateambientalista.UmexemploacriaodaSecretariadaAgriculturaFamiliar(SAF),quetem,comoumdeseusobjetivosprincipaisatentativadepromover,noconjuntodaagriculturafamiliar,oconceitodedesenvol-vimentolocalsustentvel.Ofocododesenvolvimentosustentvel4,nocasodaSAF,refere-se,contudo,muitomaisaosaspectossociaisqueaosambientais.Nessesen-4 NodocumentodaPoltica Nacional de Ater(2004,p.23),odesenvolvimentosustentvelde-finidocomoprocessodemudanasocialeelevaodasoportunidadesdasociedade,com-patibilizando,notempoenoespao,ocrescimento,aconservaoambiental,aqualidadedevidaeaeqidadesocial,partindodeumclarocompromissocomofuturoeasolidarie-dadeentregeraes.desenvolvimento territoriAl e AgroecologiAtido,osaspectospolticosedevalorizaosocialdaagriculturafamiliaraparecemcomoobjetivo explcito, almdodesenvolvimento econmicocomotentativadeagregarvaloraosprodutosdaagriculturafamiliar,natentativadepossibilitaroacessodessesagricultoresdeformacompetitivaaomercadocadavezmaisrestritoeexigente.Almdisso,apropostadedesenvolvimentosustentvelnaagendadoMDAapontaparaanecessida-dedageraoderendaapartirdeatividadesnoagrcolas.OfocodavalorizaosocialeeconmicadaagriculturafamiliarbastantecompreensveldadasascondiesdaformaodoBrasilemsuavocaoparaoagronegcioexportador.Estefatopodesernotadoinclusivenapequenapresenadachamadaagriculturafamiliaremmo-vimentosdecunhoambiental.Aspreocupaesdosmovimentossociaisoriundosdocampogeralmentegiravamemtornodaprpriasobrevi-vnciaeconmica,oquetambmlegtimo.Essesetor,entretanto,pornocontarcomumabaseambientalcrtica,desenvolveueaindadesen-volve suaatividadeorientadapeloparadigmaprodutivistadaRevolu-oVerde.AquestodarecolocaoourelocaodaproblemticaambientalnaestruturadapesquisaagropecuriaeoquestionamentodosimpactosdaRevoluoVerdeporpartedosmovimentossociaisnosconduzemaosaspectosdaconstruodasredesdeconhecimentoqueseformamapartirdaadoodematrizestecnolgicasespecficas.Aconstruodeconheci-mentosedeinteressesdentrodaproduoagroalimentarmundialtorna-secadavezmaiscomplexa.Ainclusodepontosdevistadosnovosatoresoriundosdosmovimentosdecontestaoecolgicaedosmovimentosso-ciaiscolocaemxequeaatuaodosatoresqueatuavamdeformahegem-nicadentrodascadeiasprodutivas.Aincorporaodasquestesecolgicasdentrodatemticadaagri-culturatempossibilitadoaemergnciadenovasredesdeconhecimentoaindanototalmentedelineadasediagnosticadas,entretanto,suaatuaoeprticalocalizam-seemumterritrioamplamentedominadopelatcni-ca,peloconhecimentotecno-cientficoeporpoderososinteressesecon-micos.Oestudoparadetectarasemergnciaseofuncionamentodessasredesumatarefanecessriaquesecolocanaagenda.reFernciAsALVES,AdilsonF.Anlisedepropostasdedesenvolvimento,naperspecti-vadeNormanLong.In:ALVES,AdilsonFrancelino;FLVIO,LuizCarlos;SANTOS,RoselAlvesdos(Org.).Espao e territrio:inter-pretaes e perspectivas do desenvolvimento. Francisco Beltro:EditoradaUNIOESTE,2005,p.96-106.Adilson FrAncelino Alves______.ImpactosdaagroindstriaintegradoranaagriculturafamiliardoSudoestedoParan.In:ALVES,AdilsonFrancelino;FLVIO,LuizCarlos eSANTOS,RoselAlves dos (Org.).Espao e territrio: in-terpretaeseperspectivasdodesenvolvimento.FranciscoBeltro:EditoradaUNIOESTE,2005.p.141-164.ABRAMOVAY,Ricardo.O tortuoso caminho da sustentabilidade: tendn-ciasrecentesdaagriculturanaRegioSul.AgriculturaSustentvel-AGENDA21.SoPaulo,1999.BECK,U. (1992).Risk society: towardsanewmodernity.Londres:SagePublications.BRANDENBURG,Alfio.Socioambientalismo e novos atores na agricultu-ra.IXCongressoBrasileirodeSociologia.PortoAlegre;UFRGS,30ago.a3set.1999.CALLON,Michel.Some elements of a sociology of translation:domesticationofthescallopsandthefishermenofStBrieucBay.FirstpublishedinJ.Law:Power,actionandbelief:anewsociologyofknowledge?London, Routledge, 1986. p. 196-223. 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Identity, network, and space new dimensions inthestudyofsmall-scaleenterpriseandcommoditization.In:Long,NormaneLong,Ann.Butterfields of knowledge:theinterlockingoftheory and practice in social research and development. London:Routleged,1992.1desAFios dA gerAo de rendA em PequenAs ProPriedAdes e A questo do desenvolvimento rurAl sustentvel no BrAsilantonio nivalDo hespanholGegrafo,ProfessorAdjuntodaFCT/UNESPPresidentePrudente-SP|nivaldo@fct.unesp.brAtrajetriadaagriculturabrasileiranasltimasdcadasfoimarcadapelasuamodernizaoentre1965e1980;pelacriseeconmicadosanos1980econseqenteesgotamentodopadrodefinanciamentodamodernizaoepeloestabelecimentodoProgramaNacionaldeFortalecimentodaAgri-culturaFamiliar(PRONAF)noanode1996,apartirdoqualsepassouareconheceraimportnciadesta.Apesardasmudanasdeenfoquedapolticapblicaapartirdains-tituiodoPRONAFedorompimento,aindaqueparcial,comavisopro-dutivistaesetorial,osdesafiosdageraoderendaedareproduosocialdospequenosagricultorespersistemenohindicaesclarasdequetaisdesafiosserosuperadosacurtoemdioprazo.Hdiferentesperspectivasnoqueconcerneaodesenvolvimentoru-ralsustentvel.Paraalgunsaaplicaoracionaldetcnicasjdisponveisnaexploraodosrecursosnaturaissuficienteparaseatingirodesenvol-vimentoruralsustentvel,enquantoqueparaoutrosasuaconcretizaorequeralteraessignificativasnopadrodedesenvolvimentoexistente.dinmicA dA AgriculturA e renovAo do discurso AssociAdo Ao desenvolvimento rurAlAspolticaspblicasvoltadasaodesenvolvimentoruralaindaserestrin-gem basicamente ao apoio produo, principalmente aos segmentosdesenvolvimento territoriAl e AgroecologiA2vinculadosacomplexosagroindustriais1,voltadosexportaoeaofor-necimentodematrias-primasagroindustriais,tendo,portanto,carterse-torialecunhoessencialmenteprodutivista.Amodernizaodaagriculturadesencadeadanopasnosanos1950tornou-seexpressivaprincipalmenteapartirdainstituiodoSistemaNa-cionaldeCrditoRural(SNCR)noanode1965.Ogovernofederal,almde fornecer grande volume de crdito rural destinado ao investimento,comercializaoecusteiodassafras,construiuemodernizouarmazns,apoiouaexpansodocooperativismoempresarial,crioufacilidadesparaainstalaodeindstriasqumicasemecnicaseestimulouaimplantaoeexpansodeindstriasprocessadorasdematrias-primasprovenientesdocampo.Assim, o ritmo damodernizao da agropecuria foi acelerado esuaabrangnciaespacialampliadaemrazodaimplantaodeindstriasdebensdeproduoedeinsumosbsicosparaaagricultura,aomesmotempoemque[...]desenvolve-seoumoderniza-se,emescalanacional,ummercadoparaprodutosindustrializadosdeorigemagropecuria,dandoorigemforma-osimultneadeumsistemadeagroindstrias,empartedirigidoparaomercadointernoeempartevoltadoparaaexportao.(DELGADO,1985,p.34-35).Amodernizaodaagriculturaseprocessoudeformabastanterpi-da,especialmentenasRegiesSuleSudestedopas,pormeiodoestmuloalteraodabasetcnicadasexploraesagropecurias.Ocrditoruraloficial,principalinstrumentoutilizadoparapromo-veramodernizaodaagricultura,foialtamenteseletivo,poisasuaofertaserestringiuaosmdiosegrandesprodutoresrurais.Ospequenosarren-datrios,parceirosemeeiros,comreduzidoounenhumpatrimnio,notiveramacessoaeleemrazodenodisporemdasgarantiasexigidaspelosistemafinanceiro.Noinciodosanos1980,opadrodefinanciamentodaagriculturabrasileiraseesgotouemdecorrnciadoaprofundamentodacrisefiscaldoEstado.Apartirde1984,astaxasdejurosreaisdocrditoruraloficialsetornarampositivas.Operodoqueseestendede1980atoinciodosanos1990foimar-cadopelainstabilidademacroeconmica.OEstadosevoltouparaagestodacrise,nosendoestabelecidaspolticaspblicascomhorizontesdem-dioelongoprazo.1 ComplexoAgroindustrialpodeserdefinido[...]comooconjuntodeprocessostecno-econ-micosqueenvolvemaproduoagrcola,seubeneficiamentoetransformao,aproduodebensindustriaisparaaagriculturaeosserviosfinanceirosecomerciaiscorresponden-tes(MLLER,1982,p.48).3Antonio nivAldo hesPAnholNoanode1994foilanadooPlanoReal,pormeiodoqualaecono-miafoiestabilizada,ainflaocontroladaeamoedasobrevalorizada.Nosanos1990 intensificaram-seosprocessosdedesregulamenta-oedeaberturadaeconomiacompetitividadeinternacional.Comisso,asmargensdelucroforamreduzidaseostermosdetrocaentreindstriaeagriculturacontinuaramdesfavorveisaesta.Acombinaodefatorescomobaixospreosagrcolas,sobrevalori-zaodamoedaereduzidosrendimentosdealgumaslavourasemdecor-rnciadecondiesatmosfricasdesfavorveisprovocaramaampliaodonveldeendividamentodosagricultores.Noanode1996,ogovernoFernandoHenriqueCardoso(FHC)ins-tituiu o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar(PRONAF),voltadoaoatendimentodeprodutoresruraiscomreasnosuperioresaquatromdulosfiscaisequepossuissematdoistrabalhado-rescontratados.Desdeentotaisprodutorespassaramausufruirdetra-tamentodiferenciado,tendoacessoaocrditooficialcomtaxasdejurosmenoresdoqueasvigentesparaosagricultorescomerciais.Nodecorrerdosanos1990tambmocorrerammudanasimportan-tesnamaneiradeseentenderocampo,poispassaramaserconsideradas,pelomenosemtese,asespecificidadeslocaisnaformulaodepolticaspblicas.Comistoseprocuroufavorecerarepresentaodosatoresso-ciaispormeiodassuasformasdeorganizaocoletivasnaelaboraoeimplementaodepolticasvoltadasaomeiorural.Os mecanismos de participao foram institudos principalmenteapsaPromulgaodaConstituioFederalde1988quandopassaramaserconstitudososConselhosMunicipaisdeDesenvolvimentoRural(CMDR),queapresentaramproblemasemseufuncionamentoquantoparticipaodosagricultoresemanipulaodetcnicoseprefeitos,quetiverampoucointeresseemseufuncionamentoefetivo(ABRAMOVAY,2001).Apesardasdificuldadesdedemocratizaodaspolticaspblicas,osdocumentosoficiaissobredesenvolvimentoruralromperamcomavisoprodutivistaesetorialepassaramaadotaraperspectivaterritorial.ASecretariadeDesenvolvimentoTerritorial,vinculadaaoMinist-riodoDesenvolvimentoAgrrio,foicriadacomaincumbnciadeestimu-larecoordenarprojetosdedesenvolvimentodeterritriosrurais,osquais,deacordocomosdocumentosoficiais,devemdirigir[...]ofocodaspol-ticasparaoterritrio,destacandoaimportnciadaspolticasdeordena-mentoterritorial,deautonomiaedeautogesto,comocomplementodaspolticasdedescentralizao(BRASIL,2003,p.30).Deacordocomomesmodocumento,Naabordagemterritorialofocodaspolticasoterritrio,poiselecombi-naaproximidadesocial,quefavoreceasolidariedadeeacooperao,comadiversidadedosatoressociais,melhorandoaarticulaodosserviosp-desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA4blicos,organizandomelhoroacessoaomercadointerno,chegandoataocompartilhamentodeumaidentidadecultural,queforneceumaslidabasedecoesosocialeterritorial,verdadeirosalicercesdocapitalsocial(BRA-SIL,2003,p.30).Apesardaadoodetalperspectiva,asaesdogovernofederalnapromoododesenvolvimentodoschamadosterritriosruraisaindatmsidoinexpressivas.Naverdade,opasnodispedeumplanodedesenvolvimentoruralcomobjetivoseperododevignciapreviamenteestabelecidos,montanteefontederecursosdefinidosemetasdevida-mentetraadas.ASecretariadeDesenvolvimentoTerritorial vemdesenvolvendooProgramaNacionaldeDesenvolvimentoSustentveldeTerritriosRurais(PRONAT),masassuasaesatomomentosoinexpressivas.O Ministrio do Desenvolvimento Agrrio2 tem se incumbido daconduodapolticadeassentamentos rurais, inadequadamentecogno-minadadereformaagrria,edoProgramaNacionaldeFortalecimentodaAgriculturaFamiliar(PRONAF).Asmetasquantitativasequalitativases-tabelecidasparaosassentamentosnotmsidoatingidas.OPRONAF,porsuavez,permaneceestritamentevinculadoofertadecrditoruralcomsubvenesdiferenciadasdeacordocomadimensoeoperfildosbenefi-cirios,ouseja,serestringeaooferecimentodecrdito.OMinistriodaAgricultura,PecuriaeAbastecimento3estabeleceapolticadeapoioagriculturaempresarial,aqualserestringebasicamenteofertadecrditooficialamdiosegrandesprodutoresrurais,taxasdejurosinferioressvigentesnomercadofinanceiro.Noh,portanto,umplanodedesenvolvimentoruralqueextrapoleoapoioproduoeefetivamentevalorizeohomemdocampopormeiodoacessoaosserviospblicoseaumarendaquelhepropicieosuprimen-todassuasnecessidadesbsicas.Verifica-se, assim, que, noBrasil, hdoisministrios voltados aoatendimentodasdemandasdocampo:oMinistriodaAgricultura,Pecu-riaeAbastecimentoqueestincumbidodoestabelecimentodaspolticasvoltadasaoatendimentodaagriculturaempresarialeoMinistriodoDe-senvolvimentoAgrrioseencarregadoestabelecimentodaspolticasvolta-dasagriculturafamiliarepolticaagrria.Adivergnciadeinteresseseadubiedadedaspolticaspblicasvoltadasaomeioruralficamevidentesnaprpriamaneiracomoaadministraofederalseestruturaparaaten-dersdemandasdocampo.2 AmissooficialdoMinistriodoDesenvolvimentoAgrriocriaroportunidadesparaqueaspopulaesruraisalcancemplenacidadania.3 AmissooficialdoMinistriodaAgricultura,PecuriaeAbastecimentopromoveroDesenvol-vimentoSustentveleaCompetitividadedoAgronegcioemBenefciodaSociedadeBrasileira.5Antonio nivAldo hesPAnholAs limitAes do mercAdo e o desAFio dA gerAo de rendA em PequenAs ProPriedAdes rurAisAagriculturavemperdendoimportnciarelativanoconjuntodaeconomiamundialebrasileira.Emvriospasesforaminstitudaspolticasdelibe-radasdetransfernciaderendadossetoresmaisdinmicosdaeconomiaparaaagriculturaeomeiorural.Ospasesdesenvolvidosnormalmentesubsidiamaagriculturaeaprotegemeconomicamente,prticaquecon-denadapormuitospasessubdesenvolvidos,inclusivepeloBrasil,masqueassocia-se diretamente segurana alimentar e assegura amanutenodeumaparceladapopulaonazonarural.APolticaAgrcolaComum(PAC)naUnioEuropiaeaFarm BillnosEUAseconstituemnosprinci-paisexemplosdeconcessodebenefciosaosprodutoresruraispormeiodaproteodosrespectivosmercadosinternos.OBrasilaltamentecompetitivonaproduodealgumascommodi-ties4agrcolase,juntamentecomoutrospasessubdesenvolvidosquetam-bmtmassuaseconomiasassentadasnaexportaodecommodites,temfeitogestesnaOrganizaoMundialdoComrcio(OMC)paraabrirosmercadosagrcolasdospasesdesenvolvidos,comointuitodeampliarasuainseronomercadointernacional.Oficialmenteopasdefendeacompetitividadedaagriculturaeado-taumaposturaaltamentefavorvelliberalizaodomercadodecommo-ditiesagrcolas.Internamenteaopas,entretanto,aagriculturacomercialtemacessolinhasdecrditotaxasdejurosbeminferioresquelasvi-gentesnomercadofinanceiroeachamadaagriculturafamiliartemacessolinhasdecrditotaxasdejurosmaisbaixasdoqueaquelaspraticadasnasoperaesrealizadascomaagriculturacomercial.Apesardestetratamentodiferenciadoporpartedaspolticasdecr-ditooficial,adota-senopasodiscursooficialdacobranaesistemticadaampliaodosnveisdeeficinciaecompetitividadeedeinseroaomer-cadoportodaaagricultura,independentementedasuaescala.Aagriculturaseconstituinumsetoressencialmenteconcorrencialdadoonmeroelevadodeprodutoresvinculadosaomesmosegmentopro-dutivo,noentanto,serelacionacomsetoresindustriaisaltamenteconcen-trados,nosquaispoucasempresasdecorteoligoplicodominamomer-cadodemquinaseinsumosqumicoseasgrandestradingsdominamossetoresdeprocessamentoecomercializaodecommoditiesagrcolas.Emrazodeseuperfilconcorrencialedocarteroligoplicodosse-toresindustriaisefinanceirosaeladiretaouindiretamentevinculados,se4 Commoditiessoprodutosin natura,cultivadosoudeextraomineral,quepodemseres-tocadosporcertotemposemperdasensveldassuasqualidades,comosoja,trigo,bauxita,prataououro.desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA6faznecessriaaregulaodoEstadocomointuitodereduzirsuavulnera-bilidadefrenteaosdemaissetores.Neste contexto, a agricultura de grande escala, cognominada deagronegcio,emvirtudedoseupesonasexportaesedasuarepresenta-tividadepoltica,recebetratamentodiferenciadodopoderpblico.Aagri-culturafamiliar,emboratambmtenhaacessoaofinanciamentoabaixastaxasdejurospormeiodoPRONAF,continuaenfrentandomuitasdificul-dadesparasemanter,poisapenasoacessoaocrditooficialnosuficien-teparaviabiliz-la.A agricultura praticada pelos pequenos produtores rurais precisaserpensadaparaalmdomercado.Asimplesofertadecrditosbaixastaxasdejurosnosuficiente,poissefazemnecessriasadisponibiliza-odeserviosdeassistnciatcnicaeextensoruralpblicosdequalida-deeacriaodecanaispreferenciaisparaacomercializaodeprodutosgeradosportaisprodutores.Omercadodeprodutosagrcolasnotemoferecidoboasalterna-tivasderendaagriculturafamiliar.Ascadeiasprodutivasqueestoemexpansoatualmente,dadasascondiesfavorveisdomercadonacionale,principalmente,domercadointernacional,soasligadasaoscomplexosdasojaesucroalcooleiro,ondenohgrandeespaoparaaparticipaodaagriculturafamiliar,dadooelevadopadrotecnolgico.Aproduodesojatemseexpandidonaszonasdecerradodasma-crorregiesNorte,NordesteeCentro-Oestedopaserealizadaemgrandeescalacomintensoempregodemquinaseinsumosqumicos.Aproduodacana-de-acar,emvirtudedaatualconjunturafavo-rveldomercadointernacionaldeetanol,vemseexpandindoemdiversasreasdoCentro-Suldopas.Novasusinasestoemprocessodeimplanta-oemuitaszonasdepastagense,emmenorproporo,delavouras,estocedendoespaoaocultivodecana-de-acar.Asusinasnormalmentearrendamterrassituadasnasproximidadesdasplantasindustriaisetodooprocessoprodutivorealizadopelopr-priogrupodetentordasempresas,desdeapreparaodoterrenoeplantiodacana-de-acaratasuatransformaoemlcoole/ouacar.Assim,aagriculturafamiliartemcadavezmenosespaoparaparti-cipardaproduodecommoditiesagrcolas,tendocomomelhoralternati-vaadiversificaoprodutiva.Atividadesmaisexigentesemmo-de-obra(aexemplodaavicultu-raedafumiculturaintegradasagroindstrias;daproduodeleite;docultivodeprodutoshortifrutcolas;dasericicultura;daproduodemel;daextraodeltex,entreoutras),constituemalternativasimportantesdegeraoderendanaagriculturafamiliar.Aproduoorgnica,principal-mentedeolercolas,paraoatendimentodecertosnichosdemercadotam-bmconstituiimportantealternativa.Antonio nivAldo hesPAnholAagregaodevaloraosprodutospormeiodaproduoartesanaldequeijos,requeijo,doces,compotasetc,tambmpodeconstituirimpor-tantealternativaagriculturafamiliar.Aexploraocomercialdecertosservios,dependendodalocalizaoedascondieslocais,podeserreali-zadaempropriedadesruraisnomuitodistantesdencleosurbanos.Aproduodemamona,degirassoledeoutrasoleaginosas,aexem-plodopinhomanso,temsidoapontadacomoalternativaparaaobtenoderendapelaagriculturafamiliar,emrazodoprogramaoficialdobiodie-sel.Apartirdoanode2008deveroseradicionados2%deleosvegetaisaoleodiesel,percentualquedeverserelevadoa5%noanode2013,con-formeestabeleceaLeiFederaln11.097/2005.Ascondiesmacroeconmicasnormalmentesoadversasagri-culturafamiliareaspolticaspblicasdeapoioproduosolimitadas.Diantedetalquadro,aviabilizaoeconmicadepequenasexploraesagrcolasnofcildeserobtida.Adiversificaoprodutiva,aagregaodevaloraosprodutoscultivadoseaorganizaodosprodutoresruraisemassociaes ou cooperativas contribuemparamelhorar as condies devidadosprodutoresrurais.A associao a outros pequenos produtores rurais, preferencial-mente queles que se dedicam aos mesmos segmentos produtivos, seconstituinumdoscaminhosimportantesparaasuperaodeproblemascomuns.Pormeiodeassociaes,elespodemconseguir:a)comprarin-sumosqumicosapreosmaisbaixos,emvirtudedaaquisiosedaremmaiorquantidade;b)fazerusotemporriodetratores,colheitadeiraseimplementosagrcolas,cujoscustosunitriossoelevados;c)teracessoassistnciatcnicaoficialouparticular;d)negociaremmelhorescon-diesaproduo,poisaofertaemmaiorquantidadedeprodutosreduzocustooperacionaldasempresaseeliminaaaodosatravessadores;e)teracessoamercadospreferenciais,principalmenteparaoatendimen-todedemandaspblicastaiscomooabastecimentodecreches,escolas,asilos,presdiosetc.Apesardehaveralgumasalternativasealgunspequenosprodutorespoderemconquistarespaonomercadoe,pormeiodele,obteremrendaparaviverdignamente,ofatoqueagrandepartemaoriaprecisaseraten-didaporpolticaspblicasdecunhodistributivo.Ocumprimentodalegislaoambientalseconstituinumoutrode-safioaospequenosproprietriosrurais,especialmentenoquedizrespeitoaocercamentoerestituiodavegetaonasreasdepreservaoper-manente(toposdemorro,nascentes,matasciliareseoutras)eaconstitui-oeaverbaode20%dareatotaldaspropriedadesque,porlei,devemserdestinadasreservalegal.Casoalegislaosejarealmentecumprida,(oqueumaincgnita)elaterefeitosmuitopositivossobreaqualidadedapaisagemrural,poisdesenvolvimento territoriAl e AgroecologiAacarretarareduodasreasdisponveissexploraes,oqueterreper-cussonegativasobrearentabilidadedosagricultores.No caso das pequenas propriedades rurais, uma das alternativasparaseevitarareduodasuperfcieexploradacultivarrvoresquete-nhamvalorcomercialnasreasdereservalegalcomointuitodesereali-zaraexploraoagroflorestalsustentveldetaisreas,jqueistoper-mitidopelalegislaonaspropriedadescomreainferiora30hectares.Nestecaso,cabeaopoderpblicodisponibilizarrecursosfinanceirosparaestafinalidadeeorientarosserviosoficiaisdeassistnciatcnicaeexten-soruralaestimularemprojetosdestanatureza.O cumprimento da legislao ambiental vigente e omanejo ade-quadodosrecursosnaturaissodefundamentalimportnciatantoparaaagriculturadegrandeescalaquantoparaaagriculturafamiliar.Nocasodospequenosproprietriosruraisqueexercemaexploraodiretadater-ra,cabeaoEstadooferecerosrecursosfinanceirosnecessriosparaqueelesprocedamrecuperaodasreasdepreservaopermanenteecons-tituamasreasdereservalegal,compensando-osdaperdadopotencialdegeraoderendadecorrentedoatendimentolegislao,especialmentenoqueserefereconstituiodareservalegal.Ocuidadocomomeioambientepodeseconstituirnumaimportan-tecontrapartidadospequenosproprietriosruraisspolticaspblicasdecunhodistributivo,ouseja,oacessospolticasdistributivasdeveestarcondicionadoaoscuidadosqueopequenoproprietriodeveteremrela-oaosrecursosnaturaissoboseudomnio,acomearpeloplenocum-primentodalegislaoambiental.Emsuma,opequenoproprietrioruralmenosintegradoaomerca-doecombaixopadrotecnolgicoprecisadoacessopolticasdistribu-tivasquepropiciemaeleesuafamliaoatendimentodasnecessidadesbsicas.Aproduodesubsistnciaedeexcedentescomercializveiseaproduoempequenaescalaparaoatendimentodomercadopelosseg-mentosmais vulnerveis da chamadaagricultura familiarno tempro-piciadoarendanecessriaparasevivercomdignidade.CabeaoEstadoestabelecerpolticasdistributivasqueatendamatalparceladapopulao,poisnohalternativasparaainserodamesmapopulaonomercadodetrabalho,sejaeleurbanoourural.A heterogeneidAde do cAmPo e A revitAlizAo de esPAos rurAisOcampobrasileirobastanteheterogneo.Nagrandemaioriadosmuni-cpiossituadosnointeriordopas,aagriculturaseconstituinaprincipalatividade econmica.Odinamismo econmicodas cidades interioranasdepende,essencialmente,dodesempenhodaagricultura.Antonio nivAldo hesPAnholApesardamanutenoda importnciadaagricultura,os espaosruraistmapresentadomudanassignificativasnassuasdinmicas.Elestmsetornadocadavezmaisdiversificadoseoxodoruralperdeuforaapartirdosanos1980,chegandoahaveraretomadadocrescimentodapo-pulaoruralemalgumasregiesdopas.Estocadavezmaispresentesnocampoaschamadasatividadesru-raisnoagrcolas,comopesque-pagues,oturismodeaventuraeoturismorural.Estesempreendimentostmpropiciadomaiordinamismoeconmi-co,causadoalteraesnoperfileconmicoesocioculturaldeparcelasig-nificativadoshabitantesdazonaruralerequeridooacessodetalpopula-oaosservioseequipamentospblicos(GRAZIANODASILVA,1999).Aexpansodosnveisde instruodapopulaorural (sobretudodosjovens),abaixarentabilidadedasatividadesagrcolas,aexpansodaeletrificaoruraleasmaioresfacilidadesdelocomooedecomunicaoentreosespaosruraleurbanosofatoresquetmfeitocomqueumapar-celacadavezmaiordapopulaodocampodesenvolvaatividadesnacida-de,emborapermanearesidindonazonarural;aagriculturapart-timeeapluriatividadesocadavezmaisexpressivas.Aaposentadoriaruralpassouaseconstituirnumaimportantefontederendaparaboapartedapopula-oresidentenestasreas.Porfim,asegundaresidnciadasclassesdem-diaealtarendaumfenmenocomumenovoscondomniosresidenciaisdestinadosaestapopulaotmdadoorigemaenclavesurbanosemzonasrurais,especialmentenasproximidadesdemdiasegrandescidades.Amigraoderetornoaocampoporparte,principalmente,deapo-sentadosurbanosoutrofenmenoquetemprovocadoocrescimentodapopulaorural.Asreasruraisjreformadasporintermdiodaimplantaodeas-sentamentos rurais se tornaramdemograficamentemais densas e dina-mizarammuitasreasdopas,conformeenfatizamLeiteet al.(2004).Amanutenonazonaruraldapopulaoassentadaemprojetosdereformaagrriaumdesafioquedeveserenfrentadocompolticaspblicasefica-zesquevisemapropiciaroacessodetalpopulaoaosserviosbsicoseadaraelaascondiesnecessriasparaqueexploreaterraeseapropriedosresultadosdaexplorao.Apesardareduodoxodoruraleatoestancamentoouarever-sodessexodoterocorrindo,amaioriadasreasruraisdointeriordopascontinuaenfrentandodificuldadesdecorrentesdosbaixospreosdosprodutosagrcolas,dadegradaodosrecursosnaturaisedabaixacapaci-dadefinanceiradosmunicpiosparaapoiaremasatividadesrurais.Almdisto,emmuitasdestasreasapopulaoseencontraemida-deavanadaeasucessodoagricultorseconstituinumgrandeproble-ma.Apopulaojovempreferebuscaralternativasdeempregoerendanomeiourbanoapermanecernazonarural,dadoorelativoisolamentodedesenvolvimento territoriAl e AgroecologiA0algumasreas,adificuldadedeacessoaosserviosbsicos,adesvaloriza-osocialdosagricultoreseafaltadealternativasderendasatisfatriaapartirdaexploraoagrcolaempequenaspropriedadesruraiscombaixopadrotecnolgico.os desAFios dA sustentABilidAde nA AgriculturA Anoodesustentabilidadenaagriculturaestdiretamenteassociadapossibilidadedesemanteraproduoaolongodotempo,conservandooumelhorandoabasedosrecursosprodutivos(HESPANHOL,2007).Apartirde tal concepohumagrandediferenciaonoenten-dimentodoquesejaagriculturasustentvel.Adespeitodealgunsaspec-toscomunsemrelaoaoentendimentodesta,Veiga(1992)salientaqueasempresasprodutorasdeinsumosesementesgeneticamentemodifica-dasentendemaagriculturasustentveldeumamaneiraeasorganizaesno-governamentaisaentendemdeumaoutraforma,ficandoevidentesosconflitosdeinteressespolticoseeconmicosentreasduasconcepes.As organizaes no-governamentais normalmente entendem poragricultura sustentveloque foi estabelecidopelaGlobal Actionnoanode1993:Ummodelosocialeeconmicobaseadonavisoeqitativaeparticipativadodesenvolvimentoedosrecursosnaturais,comofundamentosparaaati-vidadeeconmica.Aagriculturasustentvelquandoelaecologicamen-te bem fundada, economicamente vivel, socialmente justa, culturalmen-teapropriadaebaseadanaabordagemholstica.(GLOBALACTION,1993,apudALMEIDA,1997,p.48).ParaasempresasvinculadasaopacotetecnolgicodaRevoluoVerde,anoodeagriculturasustentvelcompatvelcomopadroconvencionaldemodernizao,pormpraticadacommaioreficinciaeracionalidade(HESPANHOL,1998,p.47-48).Areduodousodeinsumosindustriais(low input agriculture),aaplicaomaiseficienteoumesmoasubstituiodosagroqumicosporinsumosbio-lgicosoubiotecnolgicosseriamsuficientesparaaconsolidaodonovoparadigma(EHLERS,1995,p.16).ParaqueaagriculturasustentvelconcebidapelaGlobal Actionsematerializenecessrioquesejamfeitasreformulaesestruturaisnopa-radigmadedesenvolvimentoatualmenteexistente.Damaneiracomoconcebidapelasempresasvinculadasaopa-droconvencionaldeproduoelapodeseralcanadaapartirdoapri-moramentotcnico,pormeiodoavanodabiotecnologiaedasofistica-odossistemasdemanejodosrecursosnaturais,demaneiraagarantirasuaexploraoaolongodotempo,semmaiorespreocupaescomaeqidadesocial.1Antonio nivAldo hesPAnholNocontextobrasileirohumagrandeheterogeneidadedesituaes,sendoque, entendidaporqualquerumadasduasperspectivas, muitopoucoexpressiva.Tantonasgrandescomonasmdiasepequenasexplo-raespredominamsistemasdeproduoassentadosnastcnicasveicula-daspelopacotetecnolgicodarevoluoverdeouemsistemasdeprodu-oarcaicosedanososaomeioambiente.H,contudo,apreocupaodeumaparceladosmdiosegrandesprodutoresruraisemadotartcnicasdeproduoquesejammenosagres-sivas,assimcomoiniciativasligadasproduoorgnicaeagroecolgicaporpartedeumaparceladospequenosprodutoresrurais.Aindapredominamexploraesassentadasemtcnicasnocivasaomeioambiente,sejaemdecorrnciadautilizaoinadequadadetecnolo-giasemgrandes,mdiasepequenasexploraes,sejaemrazodocarterrudimentardossistemasdeproduotradicionaistambmpraticadosemexploraesdediferentesmagnitudes.Arecuperaoouamanutenodosrecursosnaturaisdecrucialimportnciaparaoresgatedaqualidadeambientalnocampoeparaame-lhoriadosnveisdevidadesuapopulaorural.A reconstituio dasmatas ciliares, a proteo das nascentes e aimplantaodereservaslegais,conformeestabelecealegislao,poderorevitalizaraspaisagensruraisefavoreceraexpansodeformasdeexplora-oambientalmentemenosagressivasequesejammaiscompatveiscomaspequenaspropriedadesrurais.Omanejointegradodosrecursosnaturaisnaescaladassub-baciashidrogrficas,conformerealizadonosprojetosdemicrobaciashidro-grficas,tecnicamenteumaboasoluo.Tantoostcnicosextensionis-tascomoospequenosprodutoresruraisprecisamdorespaldodapolticapblicaparaquesejamimplementadasformasdeexploraoquevalori-zemabiodiversidadeequesejamadequadasaoperfildospequenospro-dutoresrurais.considerAes FinAisAspolticasestabelecidasdastrsescalasdaadministraopblica(fede-ral,estadualemunicipal)tendemaconsideraromeioruralbrasileiroape-nasnadimensodaproduoagrcola.Noperodoureodamodernizaodaagricultura,entreosanosde1965e1980,todaapolticapblicaestevevoltadaconcessodecrditoruralparaqueosmdiosegrandesprodutoresincorporassemtcnicasme-cnicasequmicasagriculturaeseconvertessemembonsconsumidoresdeprodutos industriaisegrandes fornecedoresdematrias-primasparaasagroindstrias,oqueviabilizouaconstituiodemodernoscomplexosagroindustriaisnopas.desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA2Nadcadade1980,opadrodefinanciamentodaagriculturasees-gotouemdecorrnciadacrisefiscaldoEstadobrasileiro.Osagentesecon-micostiveramquebuscaralternativasparaofinanciamentodaproduo.Os agricultores commaior inseronomercadopassarama estabelecerparceriascomasindstriasdemquinaseinsumoseosseusdistribuidoresecomasagroindstriasprocessadorasdasmatrias-primasprovenientesdaagricultura.Aalternativaquesurgiufoiacomercializaoantecipadadassafras,pormeiodarealizaodeoperaesbolsasdevalores.Nadcadade1990,achamadaagriculturafamiliarcomeouare-cebertratamentodiferenciadoporpartedapolticapblica,pormeiodoestabelecimentodoProgramaNacionaldeFortalecimentodaAgriculturaFamiliar(PRONAF)noanode1996.Apesardoreconhecidoavanorepre-sentadoporestapolticapblica,aaodoprogramaserestringe,basica-mente,ofertadecrditoruralemcondiesfavorveis,oquenosufi-cienteparapromoverodesenvolvimentorural.Apobrezadapopulaoruralpermaneceelevadaenosomentepormeiodoestabelecimentodepolticasdefomentoproduoquetalquadroserrevertido.Faz-senecessriooestabelecimentodepolticasdecunhodistributivoquepropiciemoplenoacessodapopulaoaosserviospblicoseaosbensdeconsumobsicos.Aperspectivadodesenvolvimentoterritorial,devidamenteimpor-tadadaEuropa,estincorporadaaodiscursooficial.Cabeaopoderp-blicoconvertertaldiscursoemprticaefetiva.Paratantohaverneces-sidadedaalocaoderecursosparafazerfrenteaocumprimentodetalobjetivo, bem como a contratao de tcnicos ou de servios tcnicoscomestepropsito.Ageraoderendaempequenaspropriedadesruraisnosedarso-mentepormeiodainseronomercado.Parceladaspequenasproprieda-desmelhorsituadasgeograficamentepodertrilharporestecaminho,masamaiorpartedospequenosprodutoresruraisprecisadepolticaspblicasquelhespropiciemoacessorendaparafazeremfrenteaoatendimentodassuasnecessidadescotidianas.CabeaoEstadonosomentepropiciararenda,mas,aofaz-lo,exi-gircontrapartidas.Umadasmaneiraspossveiscondicionaroacessospolticasdistributivasaocumprimentodalegislaoambiental.reFernciAsALMEIDA,Jalcione.Daideologiaidiadedesenvolvimento(rural)susten-tvel.In:ALMEIDA,Jalcione;NAVARRO,Zander(org.)Reconstruin-do a agricultura: Idias e ideais na perspectiva do desenvolvimento rural sustentvel.PortoAlegre:EditoradaUniversidade/UFRGS,1997.3Antonio nivAldo hesPAnholBRAGAGNOLO,Nestor;Pan,Waldir.A experincia de programas de mane-jo e conservao dos recursos naturais em microbacias hidrogrficas:umacontribuioparaogerenciamentodosrecursoshdricos,Curi-tiba,IPARDES,2001.COORDENADORIADEASSISTNCIATCNICAINTEGRAL(CATI).Pro-grama Estadual de Microbacias Hidrogrficas. CATI:SoPaulo,2000.EHLERS,Eduardo.Agricultura sustentvel: origenseperspectivasdeumnovoparadigma.2.ed.Guaba:Agropecuria,1999.FREISCHFRESSER, Vanessa. Polticas pblicas e a formao de redesconservacionistas em microbacias hidrogrficas: o exemplo doParan Rural. Revista Paranaense de Desenvolvimento. Curitiba,n.95,jan/abr.1999,p.61-77.HESPANHOL,AntonioNivaldo.Agricultura,desenvolvimentoesustenta-bilidade.In:Abordagens terico-metodolgicas em geografia agrria.RiodeJaneiro:EditoraEDUERJ,2007,p.179-198.NAVARRO,Zander.Manejo de recursos naturais e desenvolvimento rural.PortoAlegre,2001,ProgramadePs-graduaoemDesenvolvimen-toRural.(Relatriopreliminar).SABANES,Leandro.Manejo scio-ambiental de recursos naturais e polti-cas pblicas: umestudocomparativodosProjetosParanRuraleMicrobacias.ProgramadePs-GraduaoemDesenvolvimentoRu-raldaUFRGS,2002.(DissertaodeMestrado)VEIGA, Jos Eli da. A transio para agricultura sustentvel no Brasil.Anais da 9 Conferncia da IFOAM,SoPaulo,1992.5identidAde territoriAl e desenvolvimento: A FormulAo de um PlAno territoriAl de desenvolvimento rurAl sustentvel do territrio sudoeste do PArAnrosel alves Dos santosGegrafa,ProfessoraAdjuntadocursodeGeografiadaUNIOESTEFranciscoBeltro-PR|roseliasantos@gmail.comWalter marschnerSocilogo,ProfessorAdjuntodaUniversidadeFederalGrandeDourados-MS|walmars@ufgd.edu.brNos ltimos 40 anos, desenvolvimento sustentvel era tido como umconceitodecirculaoentremovimentospopulareseagnciasdecoope-raoeestavaassociadoutopiadaconstruodeumaoutrasociedade,maisjustaeefetivamenteigualitria.Naatualidade,odiscursodedesen-volvimentosustentveltemfeitopartedapautadediscussotantodeem-presasligadasaoramodosagroqumicos,comodeentidadesligadasaosmovimentospopulares.Trata-sedeumadomesticaodoconceito?Aim-plementao de um desenvolvimentomais eqitativo, nas condies devidadetodosossujeitosdasociedade,dependesemdvidadarevisodoqueentendemospordesenvolvimento.Nossoensaioquerabordaraperspectivadodesenvolvimento territo-rial,apartirdalgicadeseusprotagonistasagindonaconcretudedeseuespaosocial.Ocampo1vistoaquicomoumespaoemododevida,ouseja,umterritrioondeasdimenseseconmicas,polticas,culturaiseambientaissoconsideradasdeformaintegrada,compondoacomple-1 Entendemosocamponoapenascomoumlugargeogrficodistintodacidade,mascomoaextensodondesedaterritorializaodoexercciodeummododevidaderelativaauto-nomiadiantedasociedadeglobal(conformeWanderley,1996),mododevidabaseadonumaforteteiaderelaespessoais(sociedadedeinterconhecimento,segundoMendras(1976)ebaseadonumaeconomiaderelativaautarcia.desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA6xidadedodesenvolvimentoterritorial,quesematerializanasustentabili-dadeenasoberaniaalimentar,enautilizaodeprticasagroecolgicas.Comosujeitosterritoriais,enfocamosaagriculturafamiliar2,entendendoassimasrelaeshumanasmaishorizontaisetransparentes,naparticipa-opopulartantonoprocessodeproduoquantonaescolhadetecnolo-giasagroecolgicasenodesenvolvimentoapartirdascondieslocais.Nossaanlisepartedeumestudodecaso.Oterritrioemquesto,SudoestedoParan,temumasingularhistriadeocupaoecelebra,noanode2007,50anosdarevoltadosposseiros,histriaestaquelegouaoter-ritrioumaidentidadebemdefinidadelutapelaautonomiadaagriculturafamiliar,representadaporumnumerosocorpodeorganizaessociais.OSudoestedoParanumdosterritriosondeoMinistriodeDesenvolvi-mentoAgrrio(MDA),atravsdaSecretariadeDesenvolvimentoTerritorial(SDT),implanta,comrelativoxito,suapolticadedesenvolvimentoterrito-rial,sendorecentementepublicadoumdosprimeirosplanostipoterritorialdedesenvolvimentoruralsustentvel(PTDRS)dopas.Oqueestemquestonesteartigoocarterendgenodapolticaterritorialdogoverno.Pergunta-seatquepontoapolticagovernamentaldedesenvolvimentoparaocampocapazdeabarcarosritmoseostem-posdosterritrios?Quaissoaspossibilidadesdeprocessosdeintegraoeconomiaglobal,talcomoapropostadedesenvolvimentodoMDA,fa-zeremaleituradarealidadeterritorialsemreduzi-lalinguagemecon-mica,masconsiderandoacomplexidadedasrelaessociaisqueoterri-trioabrange?Quaissoaspossibilidadesdodesenvolvimentoterritorialpromoveraesestruturantes,combaseemumaanliseestratgicaquepossibiliteasuperaodeumaabordagemsetorialdedesenvolvimentoefomenteumavisoampladeterritrio?A FormAo territoriAl: o cAso sudoeste do PArAn OSudoestedoParansedestacaporconservar,atosdiasdehoje,umadistribuiodemogrficaderelativoequilbrioentreespaoruraleurba-no3,oqueseexpressatambmnumdestacadoprotagonismodaagricultu-rafamiliar,quemaisdoqueumsistemaeconmico,umsistemaderela-essociaisespecficodentrodocenrioruralnacionalobjetivadoatravs2 Aadoodoconceitoagriculturafamiliaratendeaquiaocontextoespecficoaquenosreferi-mos.Agriculturafamiliar,segundoAbramovay(2005,p.7),umadefiniocorrentenoBrasil(enquantoquenaAmricaLatinafala-seemcampesinato),emespecialnaRegioSul,ondevigoraumafortepresenadamigraoeuropia,edaqualfazparteoSudoestedoParan.3 SegundodadosdoIBGE,apopulaoruraldoSudoestedoParannoanode2000erade189.582habitantes,cifraquerepresentava40,11%,enquantoqueapopulaourbanaeracompostapor283.044habitantes,oqueequivalea59,89%.Enquantoisso,apopulaour-bananototaldoEstadodoParanconsistia,noanode2000,em81%.rosel Alves dos sAntos | WAlter mArschnerdeumconjuntodeentidadesderepresentao(comoanalisamAbramo-vay,2005,Schrder,2005,Magalhes2005).Entendemosqueoselementosparaacompreensodestaconfiguraoderelaestosingularestoemboapartenaformaodoterritrio.Muitoantesdeumterritriodecreta-do,oSudoestedoParanresultantedeidentidadeseinteraesentreato-ressociais,historicamenteforjadossobreumdadoespao.SegundoAlveset al.(2004,p.156)[...]oterritrioaexpressoconcreta/abstratadoespaoproduzidoapartirdamultidimensionalidadedeumaredederelaessociaisparametrizadasnotrabalhoemarcadaspelopoder.Nohterritriosemrelaesdepoder.Noterritrio,dessamaneira,produz-seumaterritorialidade,frutodasrela-esdirias,momentneas,queoshomensmantmentresiecomsuana-turezaexterior,evidentemente,nosnombitodaeconomiamastambmdasaespolticaseculturais.Assim,emumabreverevisohistrica,queremosdestacar,defor-mapontual,oselementosqueconsideramosdeterminantesparaexplicaraidentidadeterritorialqueseapresentanoSudoestedoParan.o sistemA de Posse, A lutA PelA terrA e A imPlAntAo dA PequenA ProPriedAde TomamoscomopontodepartidaoinciodosculoXX,pontoemque,se-gundoFeres(1990),oSudoestedoParanapresentavaumapopulaoin-feriora3.000habitantes,concentradosespecialmentenoscamposdePal-mas,emreasplanasabrangendoosmunicpiosdePalmaseClevelndia.A atividadepecuriada pocapressupunhaumsistemadeorganizaosocialdagrandepropriedaderuralcomsuaestruturadeagregados,querepresenta,paraalgunsautores,aorigemdapopulaocaboclanaregio4,e,apesardoreduzidonmerodepesquisas,importantedestacarqueha-viatambmapresenadendios.Aestapopulaorarefeitaacrescenta-se,nadcadade1920,oprocessodemigraoaleatrioquelevaapopulaoapraticamentedobrar(6.000habitantes).,porm,apartirdadcadade1940,comavindadriademigrantesdeorigemeuropia,queocresci-mentopopulacionalimpulsionadosignificativamente.Apoltica getulistade integraonacional, visando colonizaodereasestratgicasdo territrionacionalaassimchamadamarchaparaooeste,trouxegrandeslevasdeimigrantes.Eram,emsuamaioria,4 Almdosparaguaiosedosargentinosqueextraiamaerva-matedaregio,oinciodopro-cessodeocupaoteveligaocomoexcedentedemo-de-obradasfazendasdecriaodegadoederefugiadospolticosdaGuerradoContestado(FERES,s/d).Atadcadade1940,osmigrantes,chamadosporFeres(1990,p.494)eAbramovay(1981)decaboclos,sobrevi-viampormeiodacaaeprincipalmentedoextrativismodeerva-mateedacriaodeporcosemregimesemi-selvagem.desenvolvimento territoriAl e AgroecologiAexcludospelafragmentaodapequenapropriedadenosEstadosdoRioGrandedoSuledeSantaCatarinaechegamaoSudoestedoParanembuscadeterraslivres,colonizandoespecialmenteasreasdematatropicallindeirajconsolidadacomoestruturadegrandepropriedadedoscamposdepastagem.OgegrafoalemoLeoWaibel(1984,p.33),aopesquisar,nadcadade1940,omovimentomigratrioteuto-brasileiro,detectaduasestruturasterritoriaisnoSudoeste:deumladooscamposdosfazendeiroseseusagregadose,deoutro,amatadoscolonosecaboclos.Tratava-sedeumaocupaodiferenciadadasterrasque,segundoAndrade(1995,p.63),eratpicadosuldoBrasil,ondeaocolonodeorigemeuropiacabiamasterrasmontanhosasecobertasdemata.Apesar desta delimitao espacial, segundo Abramovay (1982, p.54ss),aconteciamtrocasconstantesentrecaboclosecolonos; trocasemqueestesltimospassamaadquirirasterrasdoscaboclosapreossim-blicos.Negociadaseramprecisamenteasmelhoriasdoscaboclossobrea terra,asclareirasecaminhosabertos.Vigoravaacompradodireitoterra,oregimedaposse,umaformadeacessoterramediadaporumsistemadevaloresvigente,baseadonaeconomiadesubsistncia,ondeodireitoterradetrabalhotemprimaziasobrequalqueroutrarelaodepropriedade(WOORTMANNN,1997,p.151;MUSUMECI,1988,p.34).Nocomeoerammuitopoucagente.Nsficamosemquatrofamlias,equemnsencontramosmorandoaquieram[]comosediz[]brasileiros,n.Caboclos[]eaquelepovofoiseretirando.Elesforamvendendo,porqueelesmostravamparagente,extensesenormesdeterra[]nohavianemdivisa[]voccom-pravaassimmaisoumenossemmarcar[](TeclaTrigeri,Jacutinga,2004).Oscolonostambmassimilamomododeocupaocabocladaterravirgem,reproduzindopormuitotempoosistemadepousiorotativo,infor-maotambmconfirmadaporBonetti(1997,p.18ss).ParaFeres(1990,p. 495), a relaodeproduo sob as terras virgens obedecia relaomaisespaomenostrabalho,resultantedaocupao livredasterrasabundantesedabaixaconcentraodemogrfica.ParaMarschner(2005,p.133ss),osistemadeposseassimiladopeloscolonos era compatvel economiamercantil das colnias demigrantes,ondeaspropriedadesmantinhamumaeconomiaaindabastanteautrqui-ca,marcadamentedesubsistncia,queproduziaaindapequenosexcedentesparaomercado,majoritariamenteasuinocultura,comassafrasdeporcos5,comrciodemadeiraedemaisrelaesdetrocascomasbodegas.impor-tante destacar que a empreitada colonizatria noSudoeste doParan se5 ParaFeres(1990)eBonetti(1997),asuinoculturamanteve-secomoforteatividadeecon-mica,sendoresponsvelpelaampliaodasreasocupadaspelocultivodomilho,principalfontealimentardossunos.Assim,haviaumacoexistnciaentreasuinoculturaemregimesemi-selvagemeadesafra(1990,p.495).rosel Alves dos sAntos | WAlter mArschnerconsolidaapartirderedesdecooperaoereciprocidadeoriundasdeseuslugaresdeorigem.Asnovascomunidadesseestruturamnogeralapartirderelaesvizinhanaeparentesco,agorareproduzidasnasnovasterras.Erasempagamento.Notinhaassim,negcionodinheiro.Especialmentecomosparentes.Porquenoqueriaqueoparentefossemaislonge.Ou,porexemplo,omeupai,ouopaidoBernardo,queerairmodele[]elesdiziam:vocsecolocaali,ficaali.Davinhamaisumconhecido,maisumparente:vamosrepartirumpedao,vocdmaisumpedao[],entoeraassimmaisnessejeito[]noeracomercial.(TeclaTrigeri,Jacutinga,2004).Taldinmicadeocupaoterritorialfavoreceuaconstruodere-laes horizontais relativamente homogneas, fatores decisivos para osucessodaempreitadacolonizatria.AColniaAgrcolaGeneralOsrio(CANGO),cominstalaodeconsidervelapoiologstico(serrarias,aten-dimentomdico,fornecimentodeferramentas,entreoutrasmedidas),de-sempenhoupapelcentralparaaconsolidaodeumaeconomiamercantildecolniaagrcola(LAZIER,1998,p.17;ABRAMOVAY,1981,p.41).Nesteaspecto,podemosobservarumaprogressivainterligaodosterritriosatravsdeatividadesdoscolonosarticuladascomumacrescen-tecadeiadeatoresdeumaeconomiamercantilflorescente.Juntocomosmigrantes,vinhaserviodemoinhos,ferreiros-artesos,transportadores,comerciantese,sobretudo,asbodegas,pontosdearticulaodeumaeco-nomiadepermutasfortementebaseadaemrelaespessoaisaindaquemarcadapelasignificativaexploraodosmigrantespelosbodegueiros.NenhumoutrofatohistricopoderiarevelarmelhoraimportnciaeovigordestesistemadecolniaagrcoladoquearevoltaarmadadosposseiroscontraascompanhiascolonizadorasCITLA,ComercialAgrcolaeCompanhiaApucaranaem1957.Aaocriminosadestascompanhiascolonizadoras,representantesdogovernoLupion,atravsdaviolnciadejagunos,visavaprfimnosistemadeposse.Oscolonoseramobrigadosapagarpelasterrasjocupadasouassinarpromissriasassumindoadvi-da.Comacoeroarmada,estavaameaadoumsistemaderelaeshori-zontais,deconfiana,derelativaharmonia,dereciprocidades,deredesdecooperaoetrocassimblicas.Essaameaaoscolonosdescreviamquaseapocalipticamente: Imperava o medo. No havia mais lei! Jaguno e polcia estavam de mos dadas, no havia mais baile, nem missa, as pessoas come-am a ir embora [](AvelinoCavaleri,Ver).Finalmenteareaoarmadadecolonos,caboclosecomerciantes,lograatomadadascidadesdePatoBranco,FranciscoBeltro,SantoAn-toniodoSudoesteeCapanema,bemcomoaexpulsodosjagunos,ades-truiodosescritriosdascolonizadorasetodasashipotecas,represen-tandoumdos rarosmomentosdahistriadaquestoagrriabrasileiraondeagricultoresvencemestruturasoligrquicas.UmregistroimportantedestacadoporBattisti(2006)consistenofatodoincentivoparaarevoltadesenvolvimento territoriAl e AgroecologiA100tersidodesenvolvidoporlideresdoPTBedaUDNpreocupadosemconso-lidarapolticagetulistanaregioeemfortalecerumaoposioaogovernodeLupion.Tambmdestacamosqueoutraslutascomeamerecomeamapartirdessefatopoltico.Nopossvelfalardacapacidadedemobilizaosocialdaagricul-turafamiliardoSudoestedoParansemfazervnculoscomessaheranahistrica.AposterioraodoGrupoExecutivoparaasTerrasnoSudoestedoParan(GETSOP),noperodoJooGoulart,nadcadade1960,comaemissode32.256ttulosdelotesruraise24.661urbanos,ratificaumaes-truturafundirianoSudoestejefetivada.Seaemissodettulosdepro-priedadepodeserconsideradacomosmbolodavitriadalutapelaterra,estapoltica,poroutrolado,consolidaaimplantaodapropriedadepri-vadanaregio.Essainterveno,protagonizadapeloEstado,naquestofundiria, estabelecedefinitivamenteascondiesparaapenetraodocapitalnoespaorural.A seqnciadoorquestramentoestatalpermaneceapartirdad-cadade1970,quandooEstadoassumeopapeldefomentadordarevolu-o verde.Implanta-seomodelodedesenvolvimentoagropecurio,tendocomometaaacumulaoampliadadecapital,de formaaatender inte-ressesdo sistemacapitalistahegemnico, atravsde investimentos edacriaoeampliaodemercados.Osprincipaisinstrumentosdoavanodocapitalsobreaagriculturafamiliarpassamaserocrditoeasgrandescooperativas.desenvolvimento dA cAPAcidAde orgAnizAtivA e A deFesA dA AutonomiA dA AgriculturA FAmiliAr Nadcadade1960surgenoSudoestedoParanaAssociaodeEstudos,OrientaoeAssistnciaRural(ASSESOAR),napocaumaentidadevin-culadaIgrejaCatlica,seguindoosventosinovadoresdoConclioVati-canoII(1962-1964),atuandonaregionaperspectivadeorganizaraso-ciedadecivildentrodeumaperspectivareligiosaprogressista.AAssesoarinicialmenteorganizaasfamliasdeagricultoresemgruposdereflexoeao,quequestionamapolticaassistencialistaemvigorepassamarei-vindicarumsindicalismocombativo.empartedevidoaestespequenosgruposdebasequesurge,em1979,aComissoPastoraldaTerra(CPT)noParan.DaaoorganizativadaCPT,porsuavez,numaarticulaodemovimentoscamponesesdostrsEstadosdoSul,surge,porltimo,omovimentode trabalhadoresrurais semterra (MST).Dessasaesear-ticulaes,surge,nosindicalismo,umanovageraodedirigentes,comhistricodeformaonasCEBsepastorais,grupoquevaiposteriormentefundar,em2001,aFederaodosTrabalhadoresnaAgriculturaFamiliardaRegioSul(FETRAF-Sul).Noexageroafirmarqueestasentidades101rosel Alves dos sAntos | WAlter mArschnernoSudoestefizeramfermentarocaldodeculturadeumahistriadelu-tascontrao latifndio,protagonizadopelarevoltade1957.As lutasdasentidadesnasdcadasde1970emdiantevoltaram-se,sobretudo,paraadefesadaautonomiadaagriculturafamiliar,frenteaosavanosdafron-teiraagrcolaedarevoluoverdecomtodasassuasconseqncias,ex-pressasdeformageneralizadaemtodooBrasilpelafalnciadaspequenaspropriedadesepeloconseqenteesvaziamentodaspopulaesdocampo,frutonefastodeumpolticadedesenvolvimentovoltadaparaageraodedivisasapartirdomodeloagroexportador.Aomesmotempoqueseesbo-aumatenazresistnciaaomodeloagrcolaatravsdesuasentidadesderepresentao,aagriculturafamiliartemsidocriativaemconsolidarumvigorosarededepequenascooperativaseassociaesdeagricultoresfami-liares,dasquaissedestacamhojeasCooperativasdeLeitedaAgriculturaFamiliar(CLAFs)easCooperativasdeCrditoRuralcomIntegraoSoli-dria(CRESOIS).Opanoramabrevementeesboadofundamentalparaquesecom-preendaatensohistricaquesecolocaagriculturafamiliar,nasendaentreamanutenodeummododevidacomrelativaautonomiaecon-mica,devaloreseidentidades,eomovimentoprogressivodeincorporaodestesistemasocialsestruturasdocapitalagroindustrial.Nosetrataaquideperguntarpelaschancesdesobrevivnciadeumasociedadedeva-lorescomunitriosedeeconomiaautrquicaderelativaautonomiadiantedaeconomiademercado,masdeperceberqueaimagemdessasociedaderesistenaatualidade,expressando-senaformadeumafortememriaco-letiva(nosentidodeHalbwachs,1985),comoumasubjetividadelatente,certamentemotordaslutascontemporneaseespritopresentenasenti-dadessindicais,movimentossociaiseONGsqueatuamnoSudoestedoParan.Apartirdessamemriacoletivaentendemoscomoequivocadaacompreensodaagriculturafamiliar,comoumsujeitosocial,cujaespeci-ficidadesebaseianodilemahistricodeintegrar-seaocapital,aindaquedeformadiferenciadaoudesaparecer.Talleitura6doSudoestedoParanapartirdeumprocessohistricorestritoaapenasquatrodcadasconsistenumavisoreducionista.Emter-mosdememriasocial,apassagemdosistemadeposseparaaexperinciadapropriedadeprivadaeainserodocapitalagroindustrial,aindaque6 Sohegemnicasasleiturasdoqueorural,quemsooscamponesesouagricultoresfamiliarespartindodaperguntadopapelqueestesassumemdiantedoavanodaindustria-lizao.Sejaatravsdaassimilaodasinovaestecnolgicas(naperspectivadifusionista)ounaperspectivadasuaintegraoparcialaomercado(concepoapartirdeCHAYANOV)ounaintegraodocamponsemunidadescoletivasdeescalaagroindustrial(apartirdeKAUTSKY),ocamponoexprimenenhumarealidadeemsimesmo,masobservadomuitomaisapartirdesuafuncionalidade,dentrodoviseconmico.(vejaVILLELA,1999,p.26;MARSCHNER,2005,p.28).desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA102impactante, recente, sendo apenasumcomponentedodevir histricodestegrupo,insuficienteparadefinirsuaidentidade.precisopartirdeumaabordagemmaisampla,entendendotudooquecompeoethos(nosentidodeBourdieu)doagricultorfamiliar:entenderomundoderelaes,valoreserepresentaesquecompeocampo,lugarvivencial,locusdeummododevidadistintodourbano.A histria do Sudoeste do Paran carrega, de forma dramtica esingular,acrisedapassagem,naspalavrasdeFerdinandTnnies(1991),decomunidade(Gemeinschaft)parasociedade(Gesellschaft).Entende-seaquioprocessodecomplexificaotpicodasrelaesdasociedademo-derna,ondeestemjogonosadespedidadeumaeconomiamercantilpara uma economia complexa demercado,mas amigrao gradual deumarededevaloresdereciprocidadeserelaespessoaisparaumsistemaabstratodecontrato social,ondevigoramrelaesannimasenvolvendoainteraocomsujeitosmuitasvezesausentes.Comaglobalizaoacon-tececadavezmaisodescolamento7doterritriodolugar,ouacisoentreolugarondeacontecemasprticassociaisespecficasquenosmolda-ram,ondenossasidentidadesseencontramligadasintimamenteeoes-paoindiferenciado,ondesedoasrelaesdistncia,protagonizadasporausentes(decisesdemultinacionais,acordosbilaterais, impactodapolticadaOMCetc.).Omeiorural,semdvida,oespaoondetalpro-cesso impactacommais intensidade, solapandosobremaneiraascondi-esdeformularumprojetodedesenvolvimentoprprio.Odilemacoloca-doagriculturafamiliaraconstruodeumprojetodedesenvolvimentoquedcontadegarantirarelativaautonomiadeseumododevidaecriarasinterfacescomeconomiaglobalizada.destaperspectivadeanlisequeinterpretamosaconstituioter-ritorialrecente.Trata-sedecompreendercomoumapolticadedesenvol-vimentoterritorial,protagonizadapeloEstado,impactaumterritriocomidentidadetodefinidacomocasodoSudoestedoParan.A ABordAgem do desenvolvimento territoriAl ProtAgonizAdA Pelo mdA Comoexpostoanteriormente,emsetratandodepolticaspblicas,ocam-pofoihistoricamentecaracterizadocomoumvazio,pelaausnciadepo-lticaspblicas,ausnciaeprecariedadedeinfra-estruturascomoescolas,reasdelazer,postosdesade,estradasadequadasetc.,e,aexemplodos7 AntonyGiddens(cf.GIDDENS,1991,p.9)caracterizaodesenvolvimentodamodernidadepeloqueelechamadedescolamento:ocrescenteimpactodaintervenodeatoresausen-tese,noraro,desconhecidosquepassamapautaroqueaconteceemnvellocal,causandooesvaziamentodasrelaesfaceafacenaconduodosprocessossociais.103rosel Alves dos sAntos | WAlter mArschnerconflitos sangrentosda revoltade57, tambmpelaausnciadeumEs-tadodeDireito.Poroutrolado,nasltimasdcadasoEstadoparticipouintensivamentenaimplantaodepacotestecnolgicosparaaproduoextensiva,nosmoldesdamodernizaoagrcola.Assim,asnovaspolticasdedesenvolvimentogovernamentais,aindaqueseguindoumanovaabor-dagem,estoirremediavelmentemarcadaspelacontradiodapassagemdeumEstadooutrorararefeitoedeaesfragmentadasparaumEstadoagoradescentralizado,mnimo,queatendeaosmtodosatuaisdedesen-volvimentodocapital.Talvezoquemelhorsimbolizeessapassagemsejaoprocessodeim-plantaodapropostadescentralizadadedesenvolvimentoterritorial,pro-tagonizadapelaSecretariadeDesenvolvimentoTerritorial (SDT)doMi-nistriodeDesenvolvimentoAgrrio(MDA).CriadonogovernoFernandoHenriqueCardoso,naperspectivadeformularpolticasagrcolasdiferen-ciadas(dasquaisamedidamaisimpactantefoiacriaodoPRONAF),oMDAassumearesponsabilidadenaconstituiodeumanovapolticadedesenvolvimentocentradanosaspectosdeinclusoeeqidadesocialdeformasustentvel.ComoreafirmaMontenegroGmez(2006),aidiadedesenvolvimentofunciona,porm,comoumaestratgiadecontrolesocialintermediadapeloEstadoe limitada realizaodo possvel.Assimsendo,alimitaodapolticadedesenvolvimentoterritorialedaaoes-tatalemtemposdeminimizao:[...]deverater-seslimitantesimpostaspelasrestriesoramentrias,fi-nanceirasehumanas,quereduzemacapacidadedeintervenoconvencio-nal, lanandomode estratgias de descentralizao, de participao dasociedade,deplanejamentoascendenteedevalorizaodosrecursoslocais,fatores que, combinados, obrigam reinvenodeprocessos de articula-o,ordenamentoeapoioaodesenvolvimentoedoprpriopapeldoEstado(MDA,2005,p.17).D-se,ento,umareleituradodesenvolvimentobrasileiro,assumin-dooenfoqueterritorial,visandoaumapolticadeatendimentosespecifici-dades,pormnadimensodadescentralizaoedaminimizaorequeridapeloEstadoatual.Noqueserefereaorural,nesseensejodedescentraliza-oevalorizaodosrecursoslocais,aagriculturafamiliareareformaagrriasoconsideradaspeloMDAcomo[...]elementoscapazesdeenfren-tararaizdapobrezaedaexclusosocialnocampo(2005,p.10).Comestaabordagemterritorialruralconsideradaaexistnciadeumanovarurali-dade,aqualenvolvemltiplasarticulaesintersetoriais,[...]garantindoaproduodealimentos,aintegridadeterritorial,apreservaodabiodiversi-dade,aconservaodosrecursosnaturais,avalorizaodaculturaeamul-tiplicaodeoportunidadesdeincluso(Ibid,p.10).Aocolocaraagricul-turafamiliareareformaagrriacomoelementoscentraisdodebate,assimcomoanecessidadedeincluso,oMDAreconheceasmazelashistricasdadesenvolvimento territoriAl e AgroecologiA104modernizaodaagricultura8,comaadoodedinmicasindustriaisparagernciadoprocessoprodutivonocampoacarretandooaumentodapobre-zarural,paraleloaosrecordesdeproduoeprodutividade.NistoserefleteaprioridadedadapeloMDAreasdebaixoIDHparaconstituiodoster-ritriosruraiseaplicaodapolticadedesenvolvimentoruralsustentvel.Paraenfrentarapobrezarural,frutodasperspectivasdedesenvolvimentobaseadasnachamadarevoluo verde,oMDAprope:[...]banirafomeeamisriadoseiodonossopovo.Omaiordesafiosociallivrardapobrezadapopulao,estabelecendomecanismosdeestmulosuainclusodignanoprocessodedesenvolvimentodoBrasil.Frentegran-dezadessedesafio,nosepodeimaginarqueeleservencidopelarepetiodosmesmoserrosdopassado,queatenderaminsuficientementealgunsse-toresouregies.OBrasilnecessitaaproveitaroportunidadesdealterarefe-tivamenteosvelhosparadigmasorientadosparaaconcentraodosativosedarenda,parasuperexploraodosrecursosnaturaiseparaadiscrimina-odeoportunidades(2005,p.10).Aabordagemterritorialconsisteemumatentativadefomentarodi-logoeabuscadesoluesparaosproblemasdedeterminadoterritrio,oqualpodeserdelimitadoapartirdo jogodepoderqueseentrelaanoespao.Opensarterritorialentendidocomoumexerccioendgenoqueserealizapormeiodeconexolocal/globalequeexigeaconflunciadosinteressesdediferentesatoresdoterritrioparaatenderssuasnecessida-descentrais.Trata-sedeumatarefabastantedifcil,umavezqueenvolveatores sociais quehistoricamente trabalhamcomumenfoque fragmen-tado.Nestesentido,ograndeavanodestapolticaterritorialest justa-menteemfomentarodebateapartirdemltiplasdimensesdodesen-volvimentoeensaiaroexercciodeplanejamentoestratgico.Orisco,poroutrolado,estjustamentenainstitucionalizaodestaspolticasdentrodeumaagendadeEstadomnimo,limitando-seaopreviamentedefinidocomoaespossveis:teremosaentomaisumapolticaquenocon-tribuiparaorompimentodasfragmentaesedescontinuidadesqueathistoricamentemarcaramodesenvolvimentodorural.A construo do territrio oFiciAl sudoeste do PArAn e de um PlAno de desenvolvimento Paraoperacionalizarsuaspolticasdedesenvolvimentoterritoriaisdefor-macoerentecomavisodescentralizadoradasaesgovernamentaisedi-8 Nummovimentodeantagonismosecontradies,aRevoluoVerdepropsadotarnaagri-culturaosmesmosprocedimentosquevigoramnaindstriaeassimaumentaraproduodeali-mentosnomundo,propostaqueconferiuNormanBorlaug,em1970,oPrmioNobeldaPaz.Aequaofordista,noentanto,noseconfirmou:afomenodesapareceu,aocontrrio,temseampliado,eaevasodocamposetornouumproblemasocial.(cf.GRAZIANODASILVA,1981).105rosel Alves dos sAntos | WAlter mArschnerrecionando-asspopulaesdocampo,oMDApropeconsolidarumago-vernana local,baseadanacapacidadedemobilizaosocialdeterritrios,priorizando,paraaimplementaodesuaspolticasterritoriais,ametodo-logiadeconstruo de territrios oficiaisnasreasconsideradasdemaiorpobrezaruraledemenorinseronomercado.Oterritrio,nacompreen-sodoMDA,muitomaisqueumespaofsico,sefazdefinirpelasrelaesqueabrigaepeloconjuntodedimensesqueocompe:umespaofsico,geograficamentedefinido,geralmentecontnuo,com-preendendocidadesecampos,caracterizadoporcritriosmultidimensio-nais,taiscomooambiente,aeconomia,asociedade,acultura,apolticaeasinstituies,eumapopulao,comgrupossociaisrelativamentedistin-tos,queserelacionaminternaeexternamentepormeiodeprocessosespec-ficos,ondesepodedistinguirumoumaiselementosqueindicamidentidadeecoesosocial,culturalepoltica(MDA,2005,p.28).Esteconceitodoterritrio,utilizadopeloMDAnainstitucionaliza-odaspolticaspblicas,destacacomoelementoscentraisacoesosocial,culturaleterritorialcomocondiesendgenas,propulsorasdodesenvol-vimentorural.ParaoMDA,aabordagemterritorialpodeserempregadaempraticamentequalquer realidade concreta, cabendoa ele articular aseleoeoordenamentodasmicrorregiesqueinicialmentereceberooapoiopretendido,segundosuaslimitaesderecursos.Apolticaterritorialprevaconstituiodeumgruporesponsvelpelagesto,formadodeformaparitriaporentidadesgovernamentaiseno-governamentais.Assimosgruposgestoresrepresentamanovapropos-tadesinergiaentrepoderpblicoesociedadecivil,exercitandodeformadescentralizadaaconduodaspolticaspblicasdedesenvolvimento.HojetemosnoBrasil118territriosconstitudos,amaioriacomgru-posgestores institudos.NoSudoestedoParan, foicriadoem2003seugrupoGestordoTerritriodoSudoestedoParan(GGESTEPA)9.Boapar-tedosgruposgestoresencontra-seemavanadoprocessodeplanejamen-toetemexercitadoessagovernanaterritorialatravsdoacessoegestoderecursospblicosparaimplantaodeprojetosestratgicosdedesen-9 AsorganizaesgovernamentaisquecompemogrupogestordoSudoestedoParanso:AssociaodasCmarasMunicipaisdoSudoestedoParan,AssociaodosMunicpiosdoSudoestedoParan,AssociaodosSecretriosMunicipaisdeAgriculturadoSudoestedoParan,Emater,EscolasAgropecurias,InstitutoAmbientaldoParan,InstitutoAgronmi-codoParan,SecretariadeAgriculturaeAbastecimento,UniversidadeEstadualdoOestedoParaneUniversidadeTecnolgicaFederaldoParan.Asorganizaesno-governamen-tais:SistemadeCooperativadeLeitedaAgriculturaFamiliar,AssociaodasAgroindstriasFamiliares do Sudoeste do Paran, Centro deApoio ao PequenoAgricultor, CooperativaIguaudePrestaodeServios,CooperativadeCrditocomIntegraoSolidria,Institu-toMaytenus,MovimentodosAtingidosporBarragens,CentroRegionaldeAssociaesdosPequenosAgricultores,MovimentodosSem-Terra,AssociaodeEstudos,OrientaoeAs-sistnciaRural,ACESI/FETRAFeAssociaodasCasasFamiliaresRurais.desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA106volvimentoterritorial.AlgunsTerritrios,aexemplodoSudoestedoPara-n,concretizaramumplanodemetasdemdioprazo,objetivadopeloPla-noTerritorialdeDesenvolvimentoRuralSustentvel(PTDRS).Apartirde2004,ogrupogestordoterritriodoSudoestedoParancomeaaserorga-nizado,estabelecendoasprimeirasinteraescomaspolticasdoMDA.A identidadedo territrionoSudoestedoParanmarcadapelaagriculturafamiliar,emcujabasepermeiamdiferentesrelaesdepoder,manifestas em diferentes organizaes governamentais e no-governa-mentais,comoaASSESOAR,oMST,prefeituras,aEMATER,produtoresdefumo,integradosaviculturaetc.Humadiversidadedeinteressesquepodemseaproximarousedistanciar,masquetmnaagriculturafami-liarseupontodeconfluncia,quersejaparaseufortalecimentoouparasuasuperao.Natentativadeampliarodebateeaparticipaoefetivadosdiversos atores sociais sobre a abordagem territorial, oGGETESPApromoveu a realizao de oficinasmicrorregionais, nas quais levantou-seodiagnsticodarealidadeapartirdasinterpretaesdoscercade250participantes,almdedebatereferenteaopapeldaagriculturafamiliar,visodefuturoparaesteterritrioedefiniodeestratgiasparaatingirasmetaspropostasparaodesenvolvimentoterritorial.SegundoorientaodoMDAparaaconstruodeplanosterritoriaisdedesenvolvimentoruralsustentvel,compreendidacomo:[...]umconjuntoorganizadodediretrizes,estratgiasecompromissosre-lativossaesqueserorealizadasnofuturovisandoaodesenvolvimentosustentvelnosterritrios,resultante de consensos compartilhados dos atores sociais e o Estado, nasdecisestomadasnoprocessodinmicodeplanejamentoparticipativo.(MDA,2002,p.10,grifodoautor).OPTDRSconstrudonoSudoestedoParanreflete,semdvida,oavanodasentidadesdaagriculturafamiliarnoexercciodepensarestra-tegicamente,planejandoepriorizandoasaes,partindodeumexercciocoletivodediagnsticodarealidadeterritorial.Exigiuapactuaodein-teressesquecontemplemasheterogeneidadesdos territriose [...]queatendamsprincipaisdemandasdosatores sociais,pois somentedessaformaserpossvelaformaodealianaseparcerias,queconcretizemocapitalsocial,embenefciodotodo(MDA,2005,p.21).A construo do PTDRS do Sudoeste do Paran teve por base odiagnsticoeodebaterealizadodopapeldaagriculturafamiliarcomooelementodeidentidadeterritorial,almdeumareflexoterico-metodo-lgica10referenteaoconceitodeterritrioedautilizaodaabordagem10Aanlisetericaeasistematizaodasinformaesforamdesenvolvidaspelospesquisa-doresdoGrupodeEstudosTerritoriaisdaUniversidadeEstadualdoOestedoParan(GE-TERR)edoCentrodePesquisaeApoioaoDesenvolvimentoRegionaldaUniversidadeTec-nolgicadoParan(CEPAD).10rosel Alves dos sAntos | WAlter mArschnerterritorialcomoformadesuperarumavisofragmentadadocampoedeavanarnaconstruodeumaoutraperspectivadedesenvolvimentomul-tidimensionalmentemaisequilibrado.Combasenasinformaesobtidasnasoficinasmicrorregionais,foiestabelecidaumaoficinageralcomdelegados/asescolhidos/aseosparti-cipantesdoGGETESPA,queavaliaramasestratgiaseestabeleceramosconsensoseasaescentraisparaodesenvolvimentodo territriocombasenosaspectosmultidimensionais.AmetodologiaparaaconstruodoPTDRS,combaseemumaanlisemultidimensional,resultouemsuaestruturaoemseiseixos:a) desenvolvimento humano e qualidade de vida; b) desenvolvimentoeconmico;c)recuperaoegestoambiental;d)educaodocampo;e) servios sociais e infra-estrutura; f)organizao e desenvolvimentopolticoinstitucional.Esteseixoscontemplaramosdebatesrealizadosaolongodoproces-sodeformaonasoficinasmicrorregionaiserefletiramasnfasesatribu-daspelosdiferentesatoressociaisquecompemoterritrio.Emcontra-partida,adefiniodasestratgiaseaesdefinidasemcadaumdoseixosexigeumplanejamentocomgestoparticipativa,reforandoaexistnciadogrupogestordoterritrio,assimcomodeumacoordenaopolticaetcnicaquefomenteodesenvolvimentoegarantaaarticulaoentreosdi-ferentesatoressociaisdoterritriodoSudoestedoParan,bemcomosuaarticulaocomoEstado.Anlise crticAApresentamosalgunsquestionamentoseanlisessobreconceitosecatego-riaspresentesnodebatesobreasestratgiasdedesenvolvimentoruralsus-tentvelapresentadaspeloMDA.Aanlisepertinentejustamenteporqueaconstruodoprojetodedesenvolvimentoterritorialseencontraaindaemfasedeexperimentao,havendoassimodistanciamentocrticodosatores,condioparaquenoseinstitucionalizem,jdebero,visesli-mitadasdacomplexidadeterritorial.suPerAo do coorPorAtivismo e BuscA de AutonomiA Frente Ao estAdoOterritrioo lugarondeocorremasdiferentes relaesdepoderqueextrapolamasfronteirasgeogrficas,dando-lheforma.Considerandoquesuaconstituiotemporbaseaidentidadedolugaredosdiferentesatoressociaisqueocompe,emumaperspectivamultidimensional,odesenvol-vimentoterritorialsemdvidaalgocomplexo,queexigearticulaesedomniosdeconflitoseconflitualidadesexplcitoseimplcitos.desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA10Apesardodiagnsticoreforaraidentidadedaagriculturafamiliarcomoelodo territriodoSudoestedoParan, foi justamenteo carterdeorganizaoconsensual,umdosvetoresdetensionamentonaconstru-odoPTDRS.Compreendemosqueograndedesafiodeumplanejamen-toestratgicoest,semdvida,nasuperaodeposturascorporativistasdasorganizaespopulares,ondeseacabaapostandonasvelhasrelaesclientelistasondecadaumtentaaprovaroseuprojeto.Tambmim-portantedestacarqueanovarelaocomogoverno,poroutrolado,trazo risco de esvaziar o contedopoltico das entidades das organizaes,estreitandoseuraiodeao,limitando-seaexecutarpolticaspblicas.sintomticoquenoSudoestedoParanosurgimentodoGruporGestordoTerritriorelativizououtrosespaosdearticulaojexistentesdasenti-dades,taiscomoosFrunsmunicipaiseregionaisdeentidadesnogover-namentais,quedeixaramdesereunir,enfraquecendoodebatepoltico.Oriscodesedrenarasforasdasociedadecivilorganizadacanalizando-asparaagestodoterritrio,umespaoaindabastantemarcadopelaagen-daepeloritmodapolticadeumdeterminadogoverno,oqueaindanonecessariamenteomesmoquepolticapblica.o cAPitAl sociAl dA AgriculturA FAmiliAr?Em que pese o grande avano no pensar territorial, a avaliao daexperincia do Sudoeste do Paran, observando as nfases do prprioMDA,porum lado,eos reais interessesdasentidadesgovernamentaiseno-governamentaisdaagricultura familiarnaabordagem territorialdodesenvolvimento,poroutro,percebe-seumavisoaindamonolgicadedesenvolvimento,baseadanumaleituradarealidadedesdeumavisoeconomicistasecundadaporumapolticadeinvestimentosmajoritaria-mentedecunhotcnico-produtivo.Nessesentido, flagranteaadoododiscursoemtornodocon-ceitodecapitalsocial.Aadoodoenfoqueanalticodocapitalsocial,aindaqueprometasimplificarconsideravelmenteotrabalhodecientistassociais,depolticos,deinvestidoresedeagentesetcnicosdeagnciasdegoverno(ouno), representaumareduodacomplexidadederelaessociaisimbricadasnoterritriolinguagemeconmica,norarolimitan-doaanliseaosaspectostcnico-produtivos.SegundoAbramovay,capitalsocialumrecursoquepermitequeumdadoterritriopossamelhorutilizarseusativoseconmicos(2000,p.380),umareserva(stock)11reservaqueproduzumfluxodebenefciose11SegundoJamesColeman,socilogodaUniversidadedeChicago,eumdospaisfundadoresdateoriadocapitalsocial,ocapitalsocialcomooutrasformasdecapital,produtivo,tor-nandopossvelarealizaodecertosfinsquenoseriamatingveisnasuaausncia.Ao10rosel Alves dos sAntos | WAlter mArschnerumaaocoletivamutuamentebenfica.Comooprocessodeintegraoterritorialeconomiaglobalizadaimplicarelaesabstrataseimpessoaiscadavezmaiscomplexas,passaafigurarcomofieldabalana,oquevaigarantirumacertaestruturasocialparaconstituirasinterfacesnecess-riasparasepensarodesenvolvimentolocalconservandoummnimodeautonomia.Ocapitalsocialdevegarantirumpoucodegovernana,dotan-doosterritrios,nosdifceisprocessosdeintegraoenodesenvolvimen-tonacionaleglobal,deumaredecapazderacionalmentediscutireplani-ficarosimpactoslocais.Oproblemadavisodecapitalsocialhegemonizadanapolticater-ritorialrevelaumaflagrantecolonizaoeconmicadasrelaessociais.D-seaquiumprocessoemqueestaspassamaserpensadascomoumaformadecapitalrevelandoumdeslocamentodomundodosnegciosedosexecutivosparaocampodaspesquisassociaissobreodesenvolvimen-to,nocampodasagnciasdegoverno,dosorganismosmultilateraisedasONGsque incorporamaseu trabalhooparadigmadocapital social12,soboqualsuacompreensodecapitalsocialfala-seemtermosderecur-sossociais,debenssocioemocionais.Asredesterritoriaisbaseadasemconfiana,reciprocidadeecooperaofatorestpicosdasociabilidadedaagriculturafamiliarsoentendidasagoracomorecursosassociativosqueconformamestenovotipodecapital.Aoincorporarasrelaessociaiseasestruturasorganizativascomoumcapitalaserexplorado,aSDTen-tranocampodasintersubjetividades,buscandoassimmaiorcapilaridadeparaasuapropostadedesenvolvimentoterritorialedeintegraodoter-ritrionaeconomiaglobal.Podeparecerqueaconcepodecapitalsocialexpresseumaformadevalorizaodaprotagonizaodosatoressociais,oqueefetivamen-te salutar enecessrio aodesenvolvimento territorial,mas efetivamentenosetratadeaspectossimilares.Porisso,acompreensodarelevnciado conceitode capital social est, semdvida, atrelada concepodedesenvolvimentoquedefatosequerutilizarnaconstruodasustentabi-lidadededeterminadoterritrio.Paraqueoconceitodedesenvolvimentocomumaabordagemterritorialpossaserempregadocomcertacoernciamesmotempo,enfatizaanecessidadeconstantedeinvestimentosnele:igualqueocapitalhumanoecomocapitalfsico,ocapitalsocialdeprecia-se senorenovado.Cf.Coleman(1990,p.302,321).12Apartirdofinaldadcadade1990,asrelaessociaispassaramaserconsideradas,concre-tamente,comoumrecursoavaliadoemtermosdemercado.Comotal,podesercriado,nutrido,sustentadoemaximizado.AgnciasdedesenvolvimentocomoaCEPALpro-pemousodonovoparadigmadocapitalsocialcomoformadecombaterapobreza.ApartirdavriasONGs,emvriaspartesdomundo,passamaincluiresseconceitonosseusprogramasdeao.Assim,ocapitalsocialpassaaserumachavedeleituradosproblemassociais,econmicosepolticos.desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA110precisoexplicitarondesepretendechegar.Istonosremeteaoutraques-to:atquepontoaabordagemterritorialestsendoconstrudaecomoelaefetivaumrompimentocomaformadedesenvolvimentogeradoradediferentesmazelasquesoapresentadas,peloprprioMDA,comofact-veisdeseremsuperadas?ABordAgem territoriAl ou setoriAlmente diFerenciAdA?Apropostadedesenvolvimento territorial no nenhumapolticaderadicalidade, e simde readequao lgicadomercado,apartirdascaractersticas locais.Naprtica,aspolticasestruturadasapartirdoEstadoapresentamlimitesevidentese,aindaqueproponhamadescen-tralizaodaspolticaseoempoderamentolocal,suasaesdenotamnovasestratgiasdecontroleeanexaodaseconomiaslocaispeloca-pitalglobalizado.Coerentecomumaleituraaindamonolgicadodesenvolvimento,apolticadeinvestimentosdaSDTrevela-sebastanteorientadaparaim-plantaode infra-estrutura, aquisiode equipamentos e tecnologias.Ainda que o diagnstico territorial do PTDRS do Sudoeste do Paranaponteparaanecessidadederompercoma lgicaprodutivistaparaocampo,caudatriadeumavisoultrapassadadeATERcomodifusionis-motecnolgico,apolticaoramentriadaSDTparaoterritrioem2005e2006destinou90%dosrecursosparainvestimentoseminfra-estrutura(aquisio demquinas, edificaes, comunicao, informatizao en-treoutros),eapenas10%parainvestimentoemcusteio(cursosdecapa-citao, profissionalizao, educao do campo), tendncia que repeteem2007(dadosdoPTDRS,2006edoCONDRAF,2007).Odiagnsticoapontatambmparaanecessidadedeaesestruturantes,comfortede-mandaparaformaoampladosagricultoreselideranas,nfasesparaeducaodocampo,entreoutras.Soaesquedemandamumalgicadiferentedearticulardesenvolvimentocomnecessidadedelinhasdein-vestimentodiferenciadaserecursosdecusteio,oqueaindaestforadasprioridadesoramentriasdaSDT.Assim,sobressaiaidiadocrescimentoeconmico,apesardodis-cursodasinter-relaesdimensionaiseemborasejaumapropostadede-senvolvimento territorial que se intitule como contraposio ao desen-volvimento estritamente econmico. A definio demetas e estratgiasconstrudasde formaconsensual entreosdiferentesatorese segmentosque compem o territrio um dos pontos fortes do desenvolvimentoterritorial. Como convergir interesses to distintos, quando omotor doprocessodedesenvolvimentoa integraoamercadosglobalizados?Acontradiolevaacrerque,aindaqueoMDAproponhaaabordagemter-ritorial,naprticaoqueseestabeleceavisosetorial.111rosel Alves dos sAntos | WAlter mArschnerconcluso: A necessidAde de Aes estruturAntesParaquepolticaspblicasestejamemsintoniacomasdemandaspopula-resnecessrioumexercciopermanentedefortalecimentodasestruturasde representaodasociedadecivil, algoque,no regimededemocraciarepresentativa,aindaencontrapoucaressonncia.DiantedapropostadedesenvolvimentoterritorialintroduzidapeloMDA,asentidadesdasocie-dadecivildoSudoestedoParan,herdeirasdaslutasemdefesadaagri-culturafamiliar,tmcomodesafiodaraportesparaummodelodegover-nana localquepermitaumequilbrio entre integraoeautonomia.necessriocriarumainterfacecompolticaspblicasecomrelaesdemercadomaisamplas,semabrirmodesuaidentidade,expressanasre-desterritoriaisbaseadasemconfiana,reciprocidadeecooperaofato-restpicosdasociabilidadedaagriculturafamiliar.Construirumapolticadedesenvolvimentoapartirdeumaaborda-gemterritorialexigeumaanliseendgenadarealidade,aserrealizadapelosseusatoressociaisemarticulaocomoutrosatoressituadosforadoterritrio.fundamentalestudarecompreenderasdiferentesforasqueimpulsionamousoimpulsionadasnoterritrio,estabelecersuasarti-culaesdemodoaconstituirumarededeconhecimento,deinformaesedeprticassociaisquebalizamodesenvolvimentoterritorial.Nessester-mosqueentendemosanecessidadeurgentedeaesestruturantes,quedevemprecederaimplantaodetecnologiaseinfra-estruturas.Apsd-cadasdeausnciadepolticaspblicas,precisohojeinvestiremproces-sosdeformaoquepermitamformularumanovavisodocampo,supe-randoavisodorural,maiscalcadanadimensoprodutiva.Sassimsedaroresgatedeummododevidaespecfico,alegitimaodasidentida-desedoselementosdecoeso,comsabereselgicadiferenciada.reFernciAs ABRAMOVAY,Ricardo.Transformaes na vida camponesa: osudoestepa-ranaense.(Tesedemestrado).SoPaulo,UniversidadedeSoPau-lo:1981.______.A Agricultura Familiar entre setor e o territrio. SoPaulo, 2005. Disponvelem:.Acessoem:jun.2006.ALVES,AdilsonF.et al.SudoesteParanaense:Colonizao,estruturafun-diriaeindicadoresdamodernizaoAgrcola. In:SAQUET,Mar-cos;SPOSITO,E.S.;RIBAS,A.D.(Org.).Territrio e desenvolvimen-to: diferentesabordagens.FranciscoBeltro:UNIOESTE,2004.desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA112ANDRADE,ManuelC.A.A questo do territrio no Brasil.SoPaulo:Hucitec,1995.BATTISTI,Elir.AsdisputaspelaterranosudoestedoParan:osconflitosfundiriosdosanos50e80dosculoXX. In:CAMPO-TERRIT-RIO: Revista de geografia agrria,v.1,n.2,p.65-91,ago.2006.BONETTI,LindomarW.A excluso social dos caboclos do sudoeste do Paran. (Manuscritonopublicado),FranciscoBeltro,ASSE-SOAR,1997.http://www.greenpeace.org.br/transgenicos/?conteudo_id=3207&sub_campanha=0.Acessoem:abr.2007.COLEMAN,James. Foundations of Social theory. Cambridge,LondresTheBelknapPressofHarvardUniversityPress, 1990.DUARTE,Valdir.Desenvolvimento Territorial: ainda uma inteno. 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De meDeiros hespanholGegrafa,ProfessoradoscursosdeGraduaoePs-GraduaoemGeografiadaFCT/UNESPdePresidentePrudente-SP|LderdoGrupodeEstudosDinmicaRe-gionaleAgropecuria(GEDRA),cadastradonoCNPq|rosangel@fct.unesp.brAbuscaporumavidasaudvelpressupe,entreoutrascondies,ocon-sumodeprodutosdeboaqualidade.Essaconstatao,aliadaaumamaiorconscinciaecolgica,crescentedesconfiananossistemasdeproduodealimentosconvencionaisemdecorrnciadevriosproblemasocorridosrecentemente,comoadoenadavacalouca,acontaminaodealimen-tos,oressurgimentodafebreaftosa,aexpansodagripeaviriaeasmui-tasdvidasqueaindacercamosprodutostransgnicos,temlevadoaumacrescenteexpansodoconsumodealimentosproduzidossemoempregodeagrotxicos.Ocorreperguntar,afinal,oquediferenciaessesprodutosgenerica-menteidentificadoscomoorgnicos dosconvencionais?Serquetodasasformasdeproduoquenoseutilizamdeagrotxicospodemsercaracte-rizadascomosustentveisemmdioelongoprazo?QuaissooslimiteseperspectivasdaAgriculturaAlternativaedaAgroecologia?A partir dessas questes se procurou averiguar a importncia daproduoecolgicanoBrasilediscutirasvantagenseosproblemasdestetipodeproduorealizadaempequenaescala,bemcomoapontaralterna-tivasparaasuaexpanso.Opresentetextoestestruturadoemtrspartes,almdestaintro-duo,dasconsideraesfinaisedasreferncias.Naprimeiraseabordoudesenvolvimento territoriAl e AgroecologiA11oprocessodeincorporaotecnolgicaocorridanaagriculturaaolongodahistriadahumanidadee,especialmente,daintensificaodessemo-vimento comadifusodopacotedaRevoluoVerdeapsa IIGuerraMundialesuasimplicaessocioambientais.Nasegundaparte,ofocodasdiscussesestevecentradonoprocessodeecologizaodaagriculturaeosdiferentes/divergentesinteressesnelerepresentados,bemcomoospressu-postosdaAgriculturaAlternativaedaAgroecologia.Naterceiraeltimapartesediscutemasperspectivaseosdesafiosdossistemasdeproduomaissustentveisnaagriculturadepequenaescala.incorPorAo tecnolgicA no cAmPo e imPlicAes socioAmBientAisAolongodahistria,oHomemdesenvolveutcnicaseinstrumentoscomointuitodecontrolaredominaraNatureza.Emrelaoagricultura,hou-ve,desdeostemposmaisantigos,apreocupaoemdiminuiradependn-ciaemrelaoNatureza,especialmentenoquedizrespeitofertilidadedossolosescondiesclimticas,paraaumentaraproduo.Apesardaexperinciamilenardocultivoedadomesticaodeani-mais,odomniosobreastcnicaseramuitoprecrio,comprometendoaproduodegnerosalimentciosparaapopulao.DeacordocomEhlers(1999),durantemuitossculosoaumentodaproduovisandoaatendersnecessidadesdapopulaoconstituiu-senumdosmaioresdesafiosdaHumanidade,sendoafomeresponsvelpelamortedemilharesdepessoasemdiferentesmomentosdahistria.Aconstruodecanaisdeirrigao,aadubaodossolospormeiodautilizaodeestercoanimal,cascaserestosdealimentoseainven-odeequipamentos,comoaradosemoinhos,constituemexemplosdodesenvolvimentode tcnicas ede instrumentosque contriburamparadiminuiradependnciadaagriculturaemrelaonatureza,garantin-dooaumentoefetivodaproduodealimentos,semlevar,entretanto,erradicaodafome.Todavia,foisomentecomaagriculturamoderna,surgidanosscu-losXVIIIeXIX,emdiferentesregiesdaEuropa,quehouveaadoodesistemasdecultivoqueresultaramemsignificativosaumentosdaproduti-vidade.Umadessasinovaesfoiarotaodeculturasassociadacriaodeanimaisquesubstituiuprogressivamenteatcnicadopousio,naqualumamesmareaeracultivadaporvriosanosininterruptos,emseguidapermanecendoporumperodosemserutilizadaparaquepudesserecupe-rarasuafertilidadenatural.Essatcnica,noentanto,limitavaaproduo,jquereduziaareadecultivo.Assim,osprodutoresruraispassaramapraticararotaodeculturas,ouseja,acultivarplantasdiferentesnames-marea,tcnicaque,almdepropiciarareposiodosnutrientesextra-11rosngelA AP. de medeiros hesPAnholdosdosolo,possibilitouautilizaodetodaareadisponvel.Arotaodeculturasassociadaatividadedecriaotornou-seprticacomum,sendoqueoestercoanimalpassouaseramplamenteutilizadonaadubaoor-gnicadosolo.ComaSegundaRevoluoIndustrialocorridanosEstadosUnidosnofinaldosculoXIXeinciodoXX,foramcriadasascondiesparaqueasdescobertascientficasetecnolgicas,queatentoseconcentravamnosetorindustrial,atingissemaagricultura.Entreestasinovaestecnolgi-casdestacaram-se:a)omelhoramentogenticodeespciesvegetaisedosrebanhos;b)autilizaodefertilizantesqumicos;ec)amecanizaodasatividadesagrcolas.Aintroduoeaexpansodessastecnologiaslevaramaoabandonoprogressivodosistemaderotaodeculturaseseparaoentreaprodu-ovegetaleanimal,aomesmotempoemquepossibilitaramaampliaodaescaladeproduo,aumentandoadisponibilidadedealimentosedematrias-primas.AsnovasinvenesquederamsustentaoSegundaRevoluoIn-dustrialrepercutiramfortementenaagricultura,especialmentenoquedizrespeitoaousodomotordecombustointernaeutilizaodotratoredoaradodetraomecnicaemsubstituiotraoanimal.Aadoodeinovaestecnolgicaspelaagriculturaprovocouoau-mentodasuadependnciaemrelaoaosetorindustrial,jqueelapassouademandarcrescentementemquinas,implementoseinsumosqumicos.Esseprocessodeincorporaotecnolgica,queinicialmenteesteveconcentradonospasesdesenvolvidos,foiexpandido,apartirdaIIGuer-raMundial,paravriospasessubdesenvolvidos,comadenominaodeRevoluoVerde.ParaMartine eGarcia (1987), opacote tecnolgicodaRevoluoVerdeeracompostodesementesmelhoradas,demecanizao,deinsumosqumicosebiolgicoseprometiaviabilizaramodernizaoagropecuriadequalquerpas,aumentandoasuaproduo,pormeiodesuapadroniza-oembasesindustriais.Segundoestesautores,paramuitospasessubdesenvolvidosaadoodessepacotetecnolgicorepresentavaapossibilidade,porumlado,dealcan-arrapidamenteaauto-suficinciaalimentare,poroutro,degeraraprodu-odeumexcedenteagrcolanegocivelnomercadoexterno,repercutindopositivamenteemtodosossetoresdaeconomia,emparticularnoindustrial.NoBrasil,aincorporaodopacotetecnolgicodaRevoluoVer-de,denominadodemodernizaodaagricultura,seintensificouapar-tirdemeadosdosanos1960,emplenoperododeditaduramilitar.Nessecontexto,os interessesda trplicealiana formadapeloEstado,grandesempresasdecapitalnacionaleinternacionalforamfundamentaisparaaconsolidaodesseprocesso.desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA120OEstadobrasileirocriouumaparatoinstitucionalaltamentefavo-rvelmodernizaodaagricultura,destacando-seasuaatuaoemv-riasesferas,queimplicaram:a) acriaodoEstatutodosTrabalhadoresRurais(1963)edoEstatutodaTerra(1964);b) aconcessodecrditosubsidiadopormeiodoSistemaNacionaldeCrditoRural(1965);c) oinvestimentoempesquisaagronmicaeextensorural,favorecen-doadisseminaodomodeloprodutivista;d) apolticafundiria,valorizandoapropriedadeprivadaatreladaaomercadodeterrase,aomesmotempo,controlandoouintervindonosmovimentossociaisdetrabalhadoresrurais.Orpidoprocessodeadoodeinovaestecnolgicasnaagricul-turaeaintensificaodaconcentraofundiriaprovocaramoxododemilharesdecolonos,parceiros,arrendatriosepequenosproprietriosdeterras,osquaissedeslocaramtantoparaasnovasregiesdefronteiraagr-coladoCentro-OesteeNorte,quantoparaoscentrosurbanosmaisindus-trializados,principalmenteSoPauloeRiodeJaneiro.Odesencadeamentodessesprocessos,porsuavez,gerouumgrandecontingentedetrabalhadoresassalariadostemporriosemvirtudedame-canizaodasatividadesagrcolastersedadodemaneiraparcial,ouseja,concentrando-seemalgumasfasesdoprocessoprodutivo,especialmentenacolheita,quandohmaiornecessidadedemo-de-obra.Destaca-setambmqueparcelasignificativadessestrabalhadores,aonoserabsorvidapelomercadodetrabalhourbanoouficardesempre-gadaaosersubstitudapormquinasnasatividadesagrcolas,passouaseorganizaremmovimentossociais,comooMovimentodosTrabalhadoresRuraisSemTerra(MST),reivindicandooacessoterrapormeiodareali-zaodareformaagrria.Amodernizaodaagricultura,almdasimplicaessociaisnegativas,provocouoagravamentodosproblemasambientaisderivadosdacompacta-odossolosemrazodaintensamecanizaodasatividadesagropecuriasedautilizaoindiscriminadadeagrotxicos.Dessaforma,tornaram-sefre-qentes,apartirdosanos1970,oscasosdecontaminaodetrabalhadoresrurais,dosrecursoshdricos,dossolosedascadeiasalimentares,incluindoosanimais,osalimentoseoprpriohomem(EHLERS,1999,p.41).Apartirdosanos1980houveoesgotamentodopadrodemoderni-zaodaagriculturabrasileira.OEstadobrasileiro,grandefinanciadordetodooprocessodemodernizaopormeiodoestabelecimentodepolticasagrcolasedadisponibilizaoderecursosfinanceiros,passouaenfrentarumagravecrisefiscal,tornando-seincapazdecontinuarsubsidiandotodo121rosngelA AP. de medeiros hesPAnholessemovimento.Aagriculturaconvencional,grandeabsorvedoradem-quinas,implementoseinsumosqumicos,comeouaserduramentecriti-cadapelosmovimentossociaiseambientalistas,osquaispassaramade-monstraranocividadedopacotetecnolgicodarevoluoverdeaosolo,gua,atmosfera,aosanimaiseprpriasadeebem-estardohomem.Tornam-se, ento,mais significativasalgumas formasalternativasdeproduoqueempregammenosinsumosexternoseque,emconseqn-cia,agridemmenosomeioambiente.Parceladosconsumidores,sobretu-doaquelesmaissensibilizadoscomosproblemasambientais,commaiorgraudeescolarizaoecommaiorpoderaquisitivo,passamavalorizarosprodutos genericamente denominados de orgnicos, surgindo novos ni-chosdemercadoquepassaramaseratendidosporprodutoresruraisquesubstituramou abandonaramo sistema convencional de produoporoutrosmenosagressivosaomeioambienteeaohomem1.Noobstanteessamudana,aindaemcurso,deve-seressaltarqueascommoditiesagrcolas,comoasoja,acana-de-acarealaranja,quesoproduzidasemlargaescala,continuamutilizandoamplamenteomo-deloconvencionaldeproduo,consubstanciadonaintensautilizaodemquinas,implementos,insumosqumicosedetodaaparafernliatecno-lgicacolocadadisposiodaagriculturapelasempresasmultinacionaisqueoperamemmbitoglobal.ecologizAo dA AgriculturA: diFerentes interesses envolvidosButtel(1995),aoanalisarahistriadaagriculturaemnvelmundialnosltimoscemanos, identificoudoisprocessosdistintosqueamarcaram,denominando-osdetransiesagroecolgicas2:oprimeiromarcodessasmudanasfoiaRevoluoVerdeeosegundo,oatualprocessodeecologi-zaodaagricultura.OpacotetecnolgicodaRevoluoVerdefoidifundidoinicialmentenospasesdesenvolvidose,posteriormente,nossubdesenvolvidos.NocasodoBrasil,emparticular,ochamadoprocessodemodernizaoconserva-doradaagricultura,se,porumlado,levouaumaumentodaprodutivida-dedealgumaslavouras,sobretudodaquelasdestinadasexportao,aosetoragroindustriale/ouproduodebiocombustveis,poroutroresul-tounoagravamentodediversosproblemas,comoenfatizamMuller;Lova-toeMussoi(2003,p.103):1 Cabedestacar tambmnesseprocessoapresenados neorurais, isto, indivduosqueexercematividadesurbanas(comoautnomos,funcionriospblicos,empresriosetc.)queoptarampordedicar-seproduoecolgica.2 Atransioagroecolgicapodeserdefinidacomooprocessogradualdemudanaatravsdotemponasformasdemanejoegestodosagroecossistemas,tendocomoobjetivoapas-sagemdeumsistemadeproduoparaoutro.desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA122Almdoaltocustoeconmicodesuamanuteno,aexploraoexcessivadabasedosrecursosnaturaislevouacrescentesnveisdedegradaoeesgota-mentodossolos,poluiodasguas,intoxicaesecontaminaesdeagri-cultoresporagrotxicos,almdeperdadebiodiversidade.Poroutrolado,aspolticasdedesenvolvimentoagrcolaqueviabilizaramaimplementaodestemodelotecnolgicoforamdirecionadasmodernizaodasgrandespropriedades,aprofundandoaindamaisasdesigualdadeseaexclusosocialnomeiorural,principalmenteemsetratandodosagricultoresfamiliares.Comoaprofundamentodosefeitossociaiseambientaisnosltimos30anos,intensificou-se,emescalamundial,oquestionamentoaomodelodeagriculturaprodutivista,dandoinciosegundatransioagroecolgi-ca,que,iniciadanofinaldosculoXXmarcadapelocrescentequestiona-mentosobreasustentabilidadedomodeloprodutivistapropugnadopelaRevoluoVerdee,atento,dominante,agravandosuacrise.Emconse-qncia,haintroduodevaloresambientaisnasprticasagrcolas,naopiniopblicaenaagendapoltica(BUTTEL,1995),aomesmotempoemqueseabreapossibilidadedeexpansodeformasdeproduoquetmcomoprincpiofundamentalumarelaoderespeitocomaNaturezaeque,portanto,seriammaissustentveisemmdioelongoprazos.Asprincipaisdiferenasentreaagriculturasustentveleaconven-cional,emtermostecnolgicos,socioeconmicoseecolgicos,podemservisualizadasnoQuadro1.Essecrescenteprocessodeincorporaodepreocupaesambien-taisemrelaoagriculturafomentouadiscussoelevouformulaodeperspectivasdeanliseedeintervenoantagnicaseconflitantesentresieque,emltimainstncia,refletemdiferentes interesseseposiciona-mentossobreosmodelosdedesenvolvimentodospasesesobreaprpriasustentabilidade.Nessesentido,procurou-seidentificarpelomenosduasdessasperspectivas:a)aqueaindaconcebeodesenvolvimentocientfico-tecnolgicocomoanicaviacapazderesolverosproblemasderivadosdaescassezdealimentosedoesgotamentodosrecursosnaturais;b)aquelasqueseopemaestaperspectivatecnolgicaepropemfor-masmaissustentveis,quepoderiamseragrupadassobadenomi-naodeAgriculturaAlternativa,comopormeiodaAgroecologia3quepropostacomoumenfoquecientficodestinadoaapoiaratransiodosatuaismodelosdedesenvolvimentoruraledeagricul-turaconvencionalparaestilosdedesenvolvimentoruraleagricultu-rasustentveis(CAPORAL;COSTABEBER,2002,p.71).3 Deve-sedestacarque,sobestaperspectiva,hatualmenteumimportantesegmentodapes-quisaedaexperimentaoemAgroecologiaqueaindaseconcentraemaspectosagronmi-cos,ouseja,vinculadosaosaspectostecnolgicosdaproduoagropecuria.123rosngelA AP. de medeiros hesPAnholQuadro 1 Principais diferenas entre Agricultura Sustentvel e ConvencionalAgricultura Sustentvel Agricultura ConvencionalAspectos Tecnolgicos1. Adapta-se s diversas condies regionais, aproveitando os recursos locais.2. Atua considerando o agrossistema como um todo, procurando antever as possveis conseqncias da adoo das tcnicas. O manejo do solo visa a sua movimentao mnima, conservando a fauna e a flora.3. As prticas adotadas visam a estimular a atividade biolgica do solo.1. Desconsideram-se as condies locais, impondo pacotes tecnolgicos.2. Atua diretamente sobre os indivduos produtivos, visando somente ao aumento da produo e da produtividade.3. O manejo do solo, com intensa movimentao, desconsidera sua atividade orgnica e biolgica.Aspectos Ecolgicos1. Grande diversificao. Policultura e/ou rotao.2. Integra, sustenta e intensifica as interaes biolgicas.3. Agrossistemas formados por indivduos de potencial produtivo alto ou mdio e com relativa resistncia s variaes das condies ambientais.1. Pouca diversificao. Predominncia de monoculturas.2. Reduz e simplifica as interaes biolgicas.3. Sistemas pouco estveis, com grandes possibilidades de desequilbrios.4. Formado por indivduos com alto potencial produtivo, que necessitam de condies especiais para produzir e so altamente suscetveis s variaes ambientais.Aspectos Socioeconmicos1. Retorno econmico em mdio e longo prazo, com elevado objetivo social.2. Relao capital/homem baixa.3. Alta eficincia energtica. Grande parte da energia introduzida produzida e reciclada.4. Alimentos de alto valor biolgico e sem resduos qumicos.1. Rpido retorno econmico, com objetivo social de classe.2. Maior relao capital/homem.3. Baixa eficincia energtica. A maior parte da energia gasta no processo produtivo introduzida e, , em grande parte, dissipada.4. Alimentos de menor valor biolgico e com resduos qumicos.Fonte:SistematizadoporCarmo(1998).desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA124Emrelaoprimeiraperspectiva,tambmdenominadadedupla-menteverde,odesenvolvimentotecnolgicogarantiriaosatuaisnveisdeprodutividadeobtidosnaagriculturaconvencional,minimizandoosefei-tosambientaisdaRevoluoVerdepormeiodaadoodenovastecnolo-gias,comoporexemplo,abiotecnologiaeosprodutostransgnicos.Paraasempresastransnacionaisquetmseusinteresseseconmicosestrutu-radosnopadroprodutivistadaagricultura,essaperspectivaperfeita-mentecompatvelcomoatualmodelo,devendoapenasserpraticadacommaioreficinciaeracionalidadeemtermosambientais.DeacordocomEhlers(1995,p.16),essaperspectiva[...]refere-seaumconjuntodeprticasbemdefinidas,quepodemserjulga-dascomomaisoumenossustentveis,conformeasprevisessobreadura-bilidadedosrecursosnaturaisqueempregam.Areduodousodeinsumosindustriais (low input agriculture),aaplicaomaiseficienteoumesmoasubstituiodosagroqumicospor insumosbiolgicosoubiotecnolgicosseriamsuficientesparaaconsolidaodonovoparadigma(dasustentabi-lidade).Nessecaso,aagriculturasustentvelalgobemmaispalpvel,umobjetivodecurtoprazo.A ideologiasubjacenteaestaperspectivapoderiaserresumidadaseguinteforma:mudarasprticas(oupartedestas)parasemanteroatualpadroprodutivistadaagriculturae, sobretudo,o interessedasgrandescorporaestransnacionais.Paraas tendnciasdiscordantesdestaperspectiva tecnolgica, re-presentadas, sobretudo, pelas organizaes no-governamentais e pelosmovimentosambientalistas,anicaformadesegarantirasustentabilida-dedaagriculturapormeiodapromoode:[...] transformaes sociais, econmicas e ambientais em todo o sistemaagroalimentar.Aerradicaodafomeedamisria,apromoodemelho-riasnaqualidadedevidaparacentenasdemilhesdehabitantes,ademo-cratizaodousoda terraoumesmoaconsolidaodeumatica socialmais igualitriasoalgunsdosdesafioscontidosnanoodedesenvolvi-mentoedeagriculturasustentvel(EHLERS,1995,p.16).NessasperspectivasquetmcomofococentralasustentabilidadequepoderamosinserirachamadaAgriculturaAlternativaeaAgroecolo-gia,asquais,emboratenhamsurgidoinicialmentedeformamarginaleemcontraposioagriculturaconvencionalouprodutivista,apresentam-seemexpanso.Assim,apesardopredomniodopadroprodutivistadaagriculturanosEstadosUnidosenaEuropadesdeoinciodosculoXX,persistiramfocosderesistnciaadoodasinovaestecnolgicaspormeiodepes-quisadoresegruposdeprodutoresruraisqueutilizavamprticasdeculti-voquevalorizavamafertilizaoorgnicadossoloseopotencialbiolgicodosprocessosprodutivos(EHLERS,1999).125rosngelA AP. de medeiros hesPAnholDurantevriasdcadas,essesgruposdefensoresdachamadaAgri-culturaAlternativapersistiramemalgunspontosdaEuropa,dosEstadosUnidosedo Japo, sendohostilizados tantopela comunidadecientficainternacionalcomopelosetorprodutivoagrcola,mantendo-se,porisso,margemnocenrioagrcolamundial(EHLERS,1999).Todavia, fatores como o agravamento dos problemas ambientais(erosodossolos),acrescentecontaminao(dosrecursoshdricos,dosalimentos,dohomemedosanimais),asperdasimpostasbiodiversidadegentica(dentreoutros),associadospressodaopiniopblica,manifes-tada,sobretudo,pormeiodamdiaedasorganizaesno-governamen-tais(ONGs),foraramadiscusso,emmbitomundial,denovosparme-trosparasepensarodesenvolvimento4edenovasformasdeseproduzirnocampo.Nesse contexto, abriram-senovasperspectivas em termosde ex-panso das formas alternativas de agricultura que, a partir dos anos1980, com o fortalecimento da noo de desenvolvimento sustentvel,passaramaseragrupadassobadenominaodeagriculturasustentvel(EHLERS,1999).NaopiniodePaschoal(1995),otermoagricultura alternativanoexpressariaumnovomodeloouumafilosofiadeagricultura,mastoso-menteumaterminologiatilparareunirtodososmodelosquetmidn-ticos propsitos e tcnicas semelhantes, que no se identificam comosintentospuramenteeconmicos,imediatistasepoucocientficosdaagri-culturaqumico-industrial(PASCHOAL,1995,p.14).Valeconsiderar,entretanto,que,emborainicialmenteosgruposde-fensoresepraticantesdaagriculturaalternativaestivessemmaiscentra-dosnapreservaodosrecursosnaturaisenaqualidadedosalimentosedavidahumana,houveprogressivamenteaincorporaoeaampliaodesuaspreocupaesemtermosdesustentabilidade,enfatizando,porexem-plo,aimportnciadosaspectossociaiseculturais.Osprotagonistaseosprincpiosnorteadoresdessasvrias formasdeproduoenglobadassobadenominaodeAgriculturaAlternativasoapresentadosnoQuadro2.4 UmmarcodessasdiscussesfoiarealizaodaPrimeiraConfernciaMundialsobreMeioAmbientequeocorreuemEstocolmonoanode1972.Nesseevento,aconcepodesen-volvimentistapassouasercombatida,cedendoespao,noplanodasdiscusses,aoeco-desenvolvimentoe,apartirdemeadosdosanos1980,aodesenvolvimentosustentvel(HESPANHOL,2006,p.01).desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA126Quadro 2 Principais formas de Agricultura Alternativa: protagonistas e princpios bsicos Principais protagonistas e seguidores Princpios bsicos e alcance Agricultura Orgnica Albert Howard: desenvolve pesquisas na ndia (anos 1920); publica An agricultural testament na Inglaterra (1940). Tcnicas aprimoradas por L. E. Balfour (Mtodo Howard-Balfour). Introduzida nos EUA por J. I. Rodale (anos 1930). Outros: N. Lampkin (1990). Princpios: Uso de composto, plantas de razes profundas, atuao de micorrizas na sade dos cultivos. Difundida em vrios continentes. O IFOAM International Federation of Organic Agriculture Movements - atua na harmonizao de normas tcnicas, certificao de produtos e intercmbio de informaes e experincias. Agricultura Biodinmica Rudolf Steiner desenvolve uma srie de conferncias para agricultores na Alemanha (anos 1920) e estabelece os fundamentos bsicos da biodinmica. Pesquisas prticas realizadas nos EUA, Alemanha e Sua (p.e. PFEIFFER,1938; KOEPF, SHAUMANN; PETTERSON, 1974). Princpios: Antroposofia (cincia espiritual), preparados biodinmicos, calendrio astrolgico; possui marcas registradas (Demeter y Biodyn). Muito difundida na Europa. Presente no Brasil: Instituto Biodinmico de Desenvolvimento Rural, Estncia Demtria e Instituto Verde Vida. Agricultura Natural Mokiti Okada: Funda a Igreja Messinica e estabelece as bases da agricultura natural; M. Fukuoka: Mtodo semelhante, porm afastado do carter religioso (Japo, anos 1930). As idias de Fukuoka se difundiram na Austrlia como Permacultura, atravs de B. Mollison (1978). Princpios: Composto com vegetais (inoculados com microorganismos eficientes), valores religiosos e filosfico-ticos. Movimento organizado pela MOA-International e WSAA (EUA). Shiro Miyasaka dirige a atuao da MOA no Brasil. Agricultura Biolgica Inicia-se com o mtodo de Lemaire-Boucher (Frana, anos 1960). Grupo dissidente funda a Nature et Progrs. Grande influncia do investigador francs Claude Aubert, que critica o modelo convencional e apresenta os fundamentos bsicos de Lagriculture biologique (1974). Princpios: A sade dos cultivos e alimentos depende da sade dos solos; nfase no manejo de solos e na rotao de cultivos. Influenciada pelas idias de A. Voisin e pela Teoria da Trofobiose (Chaboussou, 1980). Difundida na Frana, Sua, Blgica e Itlia. Agricultura Ecolgica Surge nos EUA (anos 1970), estimulada pelo movimento ecolgico e influenciada por trabalhos de Rachel Carson, W.A. Albrecht, S.B. Hill, E.F. Schumacher. Na Alemanha recebeu importante contribuio terico-filosfica e prtica do professor H. Vogtmann (Universidade de Kassel): kologicshe Landbau (1992). Princpios: Conceito de agroecossistema, mtodos ecolgicos de anlise de sistemas; tecnologias suaves, fontes alternativas de energia. Est difundida em vrios pases. Sua introduo no Brasil est ligada a J.A. Lutzenberger, L.C. Pinheiro Machado, A.M. Primavesi, A.D. Paschoal e S. Pinheiro, dentre outros. Fonte:ElaboradoporCAPORAL(1998,p.47).12rosngelA AP. de medeiros hesPAnholApesardasdiferenasemtermosdeprincpiosealcance,halgu-masprticasquesocomunsnessasvriasformasdeproduo,podendo-sedestacar:a)reciclagemdosrecursosnaturaispresentesnapropriedadeagrcola,emqueosolosetornamaisfrtilpelaaobenficadosmicrorganismos[...]quedecompemamatriaorgnicae liberamnutrientesparaasplantas;b)compostagemetransformaoderesduosvegetaisemhmusnosolo;c)prefernciaaousoderochasmodas,semi-solubilizadasoutratadaster-micamente,combaixaconcentraodenutrientesprontamentehidrossol-veis,sendopermitidaacorreodaacidezdosolo[...];d)coberturavegetalmortaevivadosolo;e)diversificaoeintegraodeexploraesvegetais(incluindoasflorestas)eanimais;f)usodeestercoanimal;g)usodebio-fertilizantes; h) rotao e consorciao de culturas; i) adubao verde; j)controlebiolgicodepragasefitopatgenos,comexclusodousodeagro-txicos;k)usodecaldastradicionais(bordalesa,viosaesulfoclcica)nocontroledefitopatgenos;l)usodemtodosmecnicos,fsicosevegetativosedeextratosdeplantasnocontroledepragasefotopatgenos,apoiando-senosprincpiosdomanejointegrado;m)eliminaodousodereguladoresdecrescimentoeaditivossintticosnanutrioanimal;n)opogermoplas-masvegetaiseanimaisadequadosacadarealidadeecolgica;eo)usodequebra-ventos(CAMPANHOLA;VALARINI,2001,p.70).Assim,devidoaessasprticascomunse,sobretudo,aofundamentoqueasoriginaram,ouseja,omaiorrespeitonatureza,existe,deacordocomDulley(2003,p.98),[...]umentendimentoharmoniosoentreasdiversascorrentes,nosentidodequeofortalecimentodaideologiaedosetordependedaunioedotraba-lhoconjuntodeagricultores,consumidores,processadoresecomerciantes.Paraisso,soestabelecidosacordossobreoscritrioscomunsadotadosportodosossegmentos,comojocorre,porexemplo,nocasodeumreconhe-cimentoporpartedoEstado,deorganizaes/empresas certificadorasdeprodutosorgnicos.Dessa forma, o Estado brasileiro, ao regulamentar5 esse sistemade produo, adotou a denominao genrica de orgnico, tornando asdemais denominaes (biodinmica, natural, biolgicas, ecolgica etc.)comoequivalentes.Esseprocedimentotambmfoiadotadoporduasdasmaisimportantescertificadorasdeprodutosorgnicosdopas:oInstitu-toBiodinmicodeDesenvolvimento(IBD)eaCertificadoraMokitiOkada(DULLEY,2003).EmrelaoAgroecologia,estadefinidaporAltieri(1995a)comocinciaoudisciplinacientficaqueapresentaumasriedeprincpios,con-ceitosemetodologiasparaestudar,analisar,dirigireavaliar agroecossis-5 DeacordocomaInstruoNormativan7deMaiode1999doMinistriodaAgricultura,PecuriaeAbastecimentoeaLein10831de23deDezembrode2003.desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA12temas,comoobjetivodefavoreceraimplantaoeodesenvolvimentodesistemas de produo commaiores nveis de sustentabilidade.Entendi-dadestaforma,aAgroecologiapoderiaproporcionarasbasescientficasparaseapoiaroprocessodetransioagroecolgicaparaoutrasformasdeagriculturasustentveis,taiscomo:aecolgica,aorgnica,abiodinmica,aregenerativa,adebaixosinsumosexternos,abiolgicaetc.ComoobservaAltieri(1995a),nosepodeconfundiraAgroecolo-gia, entendida comoumadisciplina cientfica ou cincia, comprticas,tecnologiasagrcolasousistemasdeproduoquepoderiamserengloba-dossobadenominaodeagriculturasalternativas,pois,comoenfatizamCostabebereCaporal(2001,p.20),combaseemAltieri(1989e1995b),emboraaAgroecologiaenfoqueaagriculturanumaperspectivaecolgica,elanoselimita:[...]aabordarosaspectosmeramenteecolgicosouagronmicosdaprodu-o,umavezquesuapreocupaofundamentalestorientadaacompreen-derosprocessosprodutivosdeumamaneiramaisampla.Isto,encaraosagroecossistemascomounidadefundamentaldeestudo,ondeosciclosmi-nerais,astransformaesenergticas,osprocessosbiolgicoseasrelaessocioeconmicassoinvestigadaseanalisadasemseuconjunto.Ditodeou-tromodo,apesquisaagroecolgicapreocupa-senocomamaximizaodaproduodeumaatividadeemparticular,massimcomaotimizaodoagroecossistemacomoumtodo,oqueimplicaumamaiornfasenoconhe-cimento,naanliseenainterpretaodascomplexasinteraesexistentesentreaspessoas,oscultivos,ossoloseosanimais.Nessa perspectiva, caberia Agroecologia, apreendida como umconjuntodeconhecimentos,contribuirtantoparaarealizaodeanlisescrticassobreaagriculturaprodutivistaquantopara[...]orientarocorre-toredesenhoeoadequadomanejodeagroecossistemas,naperspectivadasustentabilidade(CAPORAL;COSTABEBER,2002,p.16).Todavia,comoobservamMoreiraeCarmo(2004,p.55):Aconcretizaodaagroecologianosedarcomfacilidade,vistoqueelapressupeaconstruodeumanovacinciacomprometidacomosinteres-sessociaiseecolgicosdosmovimentospopularesecomaarticulaoen-trecinciassociaisenaturaisnacompreensodosproblemassocioambien-taisdaatualidade,buscandocadavezmaissoluesrealmentesustentveis.Pressupe,ainda,umenfrentamentopolticocomosinteresseseconmicosquedominaramodesenvolvimentodocapitalismoindustrialnaagriculturaduranteosltimos130anos.AlmdestasdificuldadesdecunhogeralrelacionadasAgroecolo-gia,houtrasquepoderiamserdestacadastambmemrelaosdiversasformasdeproduodaAgriculturaAlternativa.Noobstanteessasdificul-dadeshquesedestacaraimportnciadessasperspectivasemtermosdesustentabilidadesocioambiental,sobretudoparaaquelesquedesenvolvem12rosngelA AP. de medeiros hesPAnholaagriculturaempequenaspropriedadesruraisoudepequenaescala,po-dendoseconstituirnolocusidealaodesenvolvimentodesistemasdepro-duomaissustentveis.agricultura sustentvel De pequena escala: perspectivas e Desafios Aadoodelegislaoespecficapelogovernobrasileirovisandoregula-mentaodaproduoorgnicaesuacertificaoocorreuemvirtudedoaumentodademandaporessesprodutosnomercadointerno.DeacordocomCampanholaeValarini(2001,p.72-73),pelomenoscincorazes6po-demserapontadasparaseentenderaampliaodomercadodeprodutosorgnicosnoBrasil:Aprimeira queesta tenhapartidodosprprios consumidores,preocu-padoscomasuasadeoucomoriscodaingestodealimentosquecon-tenham resduos de agrotxicos [...]. A segunda razo que a demandatenhaseoriginadodomovimentoambientalistaorganizado,representadoporvriasONGspreocupadascomaconservaodomeioambiente,tendoalgumasdelasatuadonacertificaoenaaberturadeespaosparaacomer-cializaodeprodutosorgnicospelosprpriosagricultores[...].Aterceiraseriaresultadodainflunciadeseitasreligiosas,comoaIgrejaMessinica,quedefendemoequilbrioespiritualdohomempormeiodaingestodeali-mentossaudveiseproduzidosemharmoniacomanatureza.Aquarta ra-zo[...]teriacomoorigemosgruposorganizadoscontrriosaodomniodaagriculturamodernaporgrandescorporaestransnacionais[...].Eoquin-tomotivoseriaresultadodautilizaodeferramentasdemarketingpelasgrandesredesdesupermercados,por influnciadospasesdesenvolvidos,que teriam induzidodemandasporprodutosorgnicos emdeterminadosgruposdeconsumidores(grifosnossos).Esseaumentodademandaporprodutosorgnicosnopasrefle-te,decertaforma,umprocessomaisgeralemtermosmundiaisasso-ciadopreocupaocomaqualidadedosalimentosconsumidosecomasade,decorrentedocrescimentodaconscinciaecolgicaaliadadesconfiana no sistema de produo e de distribuio de alimentosconvencionais.Assim,comoobservaramWillereYussefi(2001)apudCamargoet al.(2004),aconversodeunidadesprodutivasdosistemaconvencionalparaoorgnicoentreosanosde1986e1996foiampliadaem30,0%aoano.6 Segundoestesautores,difcilidentificarquaisdessascausasforammaisrelevantesnoaumentodomercadodeprodutosorgnicosnopase,portanto,maissensatosuporquehouveumacom-binaodelas,nosedescartando,porm,queemalgumaslocalidadesouregiespossaterhavidomaiorinflunciadeumasdoqueoutras(CAMPANHOLA;VALARINI,2001,p.73).desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA130Areatotalcultivadacomprodutosorgnicosnomundoem2003erade23milhesdehectares,abarcandomaisde460milpropriedadesru-rais,oque,entretanto,representavapoucomenosde1%dototaldasterrascomlavourasepastagensdomundo.Essareaocupadanosistemaorg-nicoencontrava-seassimdistribuda:46,3%naOceania;22,6%naEuropa;20,8%naAmricaLatina;6,7%naAmricadoNorte;2,6%nasia;e,1,0%nafrica(WILLER;YUSSEFI,2004).Emtermosdepases,amaiorparceladasreasutilizadasnosis-temaorgnicoestavalocalizadanaAustrlia(10,5milhesdehectares),Argentina(3,2milhesdehectares)eItlia(cercade1,2milhodehec-tares)7.ApesardamaiorparticipaoemtermosdereadaOceania/Aus-trlia,aEuropasedestacouem2003pelomaiornmerodeprodutoresenvolvidosnosistemaorgnico,querepresentavam44,1%dototalmun-dial8,pelaimportnciadoseumercadoconsumidorepelagrandediver-sidade de seus produtos. Cabe ressaltar que essa expanso do sistemaorgnico em vrios pases europeus, como Itlia, Alemanha, Frana eReinoUnido,porexemplo,deveu-seconjugaodevriosfatores,taiscomo:oincentivofinanceiroconcedidoaosprodutoresruraispormeiodepolticaspblicas;adisponibilidadeeaeficinciadasinformaesaosprodutoreseaosconsumidores;oacessoeadisponibilidadedeprodutosorgnicos;opapeldomarketing(logomarca)esuaproteolegal;eaim-plementaodeumplanodedesenvolvimentoparaagriculturaorgnica.(DAROLT,2003).EmrelaoaoBrasil,estima-sequeem2001areautilizadacomosistemaorgnicoerade275,6milhectares(0,08%dototal),distribudosem15milpropriedadesrurais(DAROLT,2003).Noanode2006,oMinistriodaAgricultura,PecuriaeAbasteci-mento(MAPA)divulgouumdiagnsticodopas,noqualseconstatouque800milhectares9eramutilizadosnosistemaorgnico,envolvendocercade15milprodutores.Adistribuiodareaedonmerodeprodutoresor-gnicossegundoasregiesbrasileiraspodeserverificadanaTabela1.7 importantedestacarqueospasesquetmomaiorpercentualdereasobmanejoorg-nicoemrelaoreatotaldestinadaagricultura,computamtambmareadepastagem.Assim,porexemplo,empasescomoaAustrliaeArgentina,maisde90%dareadeprodu-oorgnicacorrespondemreasdepastagem.OmesmoacontecenospasesdaEuropa:naustria80%dareaorgnicareferem-sepastagem;naHolanda,56%;naItlia,47%,enoReinoUnido79%.(DAROLT,2003,p.01).8 Emtermosdaparticipaodeprodutoresnosistemaorgnico,adistribuioaseguinte:Europa,com44,1%,siacom15,1%,AmricaLatinacom19,0%,AmricadoNortecom11,3%,fricacom9,9%eOceaniacomapenas0,6%.9 Essetotalserefereapenassreascultivadascomlavouraseocupadaspelaspastagens,nosereferindosreasdeflorestas(nativasouplantadas).131rosngelA AP. de medeiros hesPAnholTabela 1 - Sistema Orgnico no Brasil: rea cultivada e nmero de produtores 2006Regiesrea (em ha)%Nmero de Produtores%rea Mdia(Em ha)Norte 8.000 1,0 600 4,0 13,3Nordeste 72.000 9,0 1.950 13,0 36,9Sudeste 80.000 10,0 1.500 10,0 53,3Sul 120.000 15,0 10.200 68,0 11,7Centro-Oeste 520.000 65,0 750 5,0 693,3TOTAL 800.000 100,0 15.000 100,0 53,3Fonte:MinistriodaAgricultura,PecuriaeAbastecimento2006.Nesta tabeladestaca-seaRegioCentro-Oesteemtermosdereacomosistemaorgnico,emboraonmerodeprodutoresenvolvidossejarelativamentepequenoeareamdiaocupadasejaelevada(693,3hecta-res),oquedenotaapresenadeproduoemlargaescala.Nessesentido,torna-sepertinentequestionar:serqueestetipodeproduocaracteri-zadocomoorgnicopeloreferidoestudopodeserconsideradocomosus-tentvelnaperspectivadaAgroecologia?Aproduorealizadaemlargaescala,combasenamonocultura,adotandoprticasalternativascomoomanejointegradodepragas,oplantiodiretoeoempregodematriaorg-nicaparaafertilizaodaslavouraspodemserefetivamentesustentveisemmdioelongoprazo?DeacordocomCaporaleCostabeber(2002),umaagriculturaver-dadeiramentedebase ecolgicanopode se restringir apenaspreo-cupao ambiental, sendo fundamental incorporar outras dimenses,comoasocial,aeconmica,acultural,apolticaeatica.Segundoes-sesautores,[...] enquantoacorrenteagroecolgicadefendeumaagriculturadebaseecolgica que se justifique pelos seusmritos intrnsecos ao incorporarsempreaidiadejustiasocialeproteoambiental,independentemen-tedortulocomercialdoprodutoquegeraoudonichodemercadoquevenha a conquistar, outraspropemuma agricultura ecologizada, queseorientaexclusivamentepelomercadoepelaexpectativadeumprmioeconmicoquepossaseralcanadonumdeterminadoperodohistrico,oquenogarantesuasustentabilidadenomdioelongoprazos(CAPORAL;COSTABEBER,2002,p.81).ARegioSul,porsuavez,comasegundamaiorreaocupadacomaproduoorgnicanopas,temomaisexpressivonmerodeproduto-reseamenorreamdiacultivada,oqueacaracterizacomodepequenaescaladeproduo.AimportnciaassumidapelaproduoorgnicanaRegioSuldeve-se,dentreoutrosfatores,aoapoioinstitucionalconcedidopormeiodassecretariasestaduaisdeagriculturaedasempresasoficiaisdesenvolvimento territoriAl e AgroecologiA132deassistnciatcnicaeextensorural,almdapresenadeexperinciascoletivasexitosas,comoadaAssociaodeAgriculturaOrgnicadoPara-n(AOPA)edaCooperativaColmia(RS),porexemplo.Dessaforma,acredita-seque,emvirtudedassuasprpriascarac-tersticas quanto a organizaodaunidadeprodutiva, as formas sus-tentveisemtermosdeagriculturaencontramcondiesmaisfavor-veisdeexpansoempequenaspropriedadesruraisdoquenasmdiasegrandes.Assim, a adoo do sistema orgnico de produo por pequenosproprietriosruraisapresentacomoprincipaisvantagens:a) aescaladeproduo,que,porsermenor,favoreceaconversopro-dutivaepermiteaproduoempequenasreas;b) adiversificaoprodutivaque,emvirtudedaintegraodocultivode lavouras temporrias e/ou permanentes com a criao de ani-mais,podefacilitaraadoodosistemaorgnico,aomesmotempoemquegarantemaiorestabilidadeeconmica;c) omaiorenvolvimentodiretodoprodutoredosmembrosdafam-lia,favorecendotantoomaiorcontrolesobreoprocessoprodutivoquantoamaiorcapacidadedeabsorodestamo-de-obra;d) amenordependnciadeinsumosexternos,devidoaomelhorapro-veitamentodosrecursosdisponveisnapropriedade;e) apossibilidadedeeliminaodousodeagrotxicos,quecontribuiparaareduodoscustosdeproduo;ef) osmenorescustosenvolvidosnaproduo,resultandoemmelhoresrelaescusto/benefcioemaioresrendasefetivas.Dopontodevistadacomercializaodosprodutosorgnicos,h,emvirtudedamenorescaladeproduo,umamaiorvinculaoaoespa-olocal,quepodefavorecertantoaformaodemercadosregionais[...],possibilitandoa integraode interessesentreprodutores,comercianteseconsumidores(ASSIS,2003,p.93),quantoamaiorinteraocomosconsumidoreseamelhoradequaodosprodutosconformesuasexign-cias,fortalecendorelaesdeconfianaecredibilidadeentreaspartesen-volvidas(CAMPANHOLA;VALARINI,2001,p.76).Nessecontexto,ganhamcadavezmaisimportnciaformasdeco-mercializaonovarejoquegarantammaiorautonomiaaoprodutor,poiselepassaaseroresponsvelpeladistribuiodosprodutos,pormeiodavendadireta,quepodeserrealizada:a)viaentregaemdomicliodecestasdeprodutossobencomendaouquesoperiodicamentesolicitadas;b)emlojasdeprodutosnaturais, restaurantes, lanchonetesetc.;ec)emfeiraslivresouespaosespecializadosnestetipodeproduo(CAMPANHOLA;VALARINI,2001).133rosngelA AP. de medeiros hesPAnholNasvendasrealizadasnoatacado,emvirtudedapequenaescaladeproduo,asalternativasqueseapresentamcomointeressantesaospro-dutoressoasassociaese/oucooperativas,que,almdeconseguiremcongregarumvolumemaioremaisdiversificadodeprodutos,tmmaiorpoderdebarganhacomasredesvarejistas.Nosesubmeterintermedia-orealizadaporterceirosumaalternativaparaqueosprodutoresruraisalcancemasustentabilidadeeconmicaesocial.Apossibilidadedepreosdiferenciadosdosprodutosdevidosuamarcaecolgicaumfatorquetambmpodefavoreceraproduoempequena escala realizada por um grande e diversificado contingente deprodutoresrurais,resultandonaampliaodaofertaenareduonopre-odosprodutosorgnicosemrelaoaosconvencionais,ampliandoseuconsumo.Apesar desses vrios aspectos favorveis produoorgnica empequenaescala,htambminmerosdesafiosaseremenfrentados,taiscomo:a) opequenovolumeproduzido,amenordiversificaodeprodutoseairregularidadenaofertapodemdificultaroestabelecimentodecontratosdefornecimentomaisduradouroscomcompradoresquenecessitamdemaioresquantidadescomolojasespecializadas,res-taurantes,hospitais,escolasetc.eredesvarejistas;b) afaltadeassistnciatcnicaoficialedepreparoouformaoespe-cfica dos extensionistas para prestar assistncia tcnica emagri-cultura orgnica pode comprometer o processo de converso daagriculturaconvencionalparaeste tipo,bemcomogarantira suamanuteno;c) osproblemasdeacessosinformaessobreaproduoorgnica,astcnicaseasformasdemanejo,asalternativasdecomercializa-o,oacessoaocrdito,almdasdificuldadesdosprodutoresemseorganizaremcoletivamenteemassociaese/oucooperativas,po-dematrasarourestringiroprocessodeexpanso;d) asdificuldadesfinanceirasenfrentadasduranteoprocessodecon-versodaproduoconvencionalparaaorgnicapodemdesestimu-larosprodutoresquesobrevivemdaagricultura;e) osaltoscustosqueenvolvemacertificaoeoacompanhamentorigo-rosodoscritriosparamant-laimplicamanecessidadedeumsiste-maquesejaestruturadonumprocessoquesejaparticipativo,descen-tralizadoequegerecredibilidadeentreosvriosagentesenvolvidos10.10Umadascrticasmaisfreqentesaestaformadecertificaoorientadapelasempresasna-cionaiseinternacionaisdizrespeitoaoaltocustoecentralizaodopoderdedecisoso-breaconcessodoselo.desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA134Osprodutoresquedesenvolvemaagriculturadepequenaescalaeque,pormotivosdiversos,ficarammargemdoprocessodemoderniza-odaagricultura,ouqueseviramobrigadosaabandonarosprocedimen-tos,prticase/ouinovaestecnolgicas,devemseconstituircomopriori-triosnaspolticaspblicasqueestimulemecriemascondiesobjetivasparaaexpansodesistemasprodutivosmaissustentveis.Nessesentidotambmdevemsercriadosprogramasquegarantampreosmnimosparaosprodutos,apoiointegralemtermosdeassistnciatcnicaeextensoru-ral,deinformaesaosprodutoreseaosconsumidoressobreosbenefciosdaagriculturaecolgicaetc.A participao de organizaes no-governamentais (ONGs) e deagricultores, atravs de suas associaes e entidades representativas, e,maisrecentemente,doapoiodergosoficiaisdepesquisaeextensoru-ral,nesseprocessode transio, fundamentalparagarantir suaconti-nuidadeeexpansoatodososprodutoresdepequenaescalaquedesejemadotarformasmaissustentveisdeagricultura.considerAes FinAisPodemosafirmarqueexisteconsensoentreosespecialistasdequeomo-deloprodutivistadeagriculturaderivadodaRevoluoVerdeestemcriseequenecessrio(urgente)mudaraformadeproduziredeserelacionarcomomeioambiente.Todavia,sabercomo,dequeformaeaquemessamudanabeneficiar efetivamente soquestes fundamentais equede-vemserdiscutidaspelasociedade.Devemosreconhecertambmquevivemosnumperododetransi-oeque,comotal,coexistetantoomodeloconvencionaldeagricultura,responsvelpelagrandeproduodecommodities,quantoofeitoporfor-masalternativasdeproduoqueseapresentaemexpanso.Apesar da existncia de experincias de agricultura alternativa nopas,aconfiguraofinaldoprocessodetransioagroecolgicavisandoaumaagriculturasustentvelaindanoestdeterminadaaacontecerdeumanicaforma,almdoqueaindanohgarantiasdequesuaimplementaosejarealizadadeformaampla,devidoaofatodessatransioterseapresen-tadocomoumprocessomuitocomplexo,tendoemvistaamultiplicidadedefatoresedevariveisaseremconsideradosparasuaefetivao.Nessecontexto,caberessaltaraimportnciadeseconsideraropa-pelativoaserdesempenhadopelossujeitosdesseprocessodetransio,ouseja,osprodutoresrurais.Noobstanteasinmerasvantagensapre-sentadaspela agriculturadepequena escala, eles (osprodutores rurais)consideramumconjuntodeaspectos(econmicos,sociais,culturaisetc.)comoorientadoresdesuasdecisesdemudana.Assim,noplanoindivi-dual,aconversoounoparasistemasmaissustentveisdependerno135rosngelA AP. de medeiros hesPAnholapenasdaspossibilidadeselimitaesemtermosderecursos(econmi-cos, de acesso terra, de disponibilidade demo-de-obra familiar etc.)eapoioexterno(comodaextensorural)apresentadaspelosprodutores,comotambmdosprojetosealternativasadotadosparamanutenodopatrimniofamiliar.Portanto, seaconjunturapoltica, institucionaleeconmicarela-cionadaaosetoragropecurioseconstituinumfatorimportantenatoma-dadedecisespeloprodutor,asespecificidadesdadinmicasocial,polti-caeeconmicalocal/regionalbemcomoaprpriaformadeorganizaodaunidadeprodutivasoelementosquevoinfluenciarnaconversoounoparaaagriculturaalternativa.Nessecontexto,ganhamrelevnciaasexperinciasdeaescoletivasdeprodutoreseasassociaesecooperati-vas,quepodemcontribuirsignificativamenteparaaconsolidaodefor-masdeproduomaissustentveis.reFernciAsALTIERI,M.A.Agroecologia: asbasescientficasdaagriculturaalternati-va.RiodeJaneiro:PTA/FASE,1989.______.Elestadodelartedelaagroecologaysucontribucinaldesar-rolloruralenAmricaLatina.In:CADENASMARN,A.(Ed.).Agri-cultura y desarrollo sostenible.Madrid:MAPA,1995a.p.151-203(Se-rieEstudios).______.Entrevista.Agricultura Sustentvel,Jaguarina,v.2,n.2,p.5-11,jul./dez.1995b.ASSIS, R. L. Globalizao, desenvolvimento sustentvel e ao local: ocasodaagriculturaorgnica.Cadernos de Cincia e Tecnologia,Bra-slia,v.20,n01,p.79-96,Jan./Abr.2003.BRASILMinistriodaAgricultura,PecuriaeAbastecimento Programa de Desenvolvimento da Agricultura Orgnica - PRO-ORGNICO. Bra-slia:MAPA,Plano2004/2007.BUTTEL,F.H.TransicionesagroecolgicasenelsigloXX:anlisisprelimi-nar.Agricultura y Sociedad, n74,Jan./mar,1995.CAMARGO,A.M.M.P.;CAMARGOFILHO,W.P;CAMARGO,F.P.;ALVES,H.S.Produoemagropecuriaorgnica:consideraessobreoqua-droatual.Informaes Econmicas,SoPaulo,v.34,n07,Jul.2004.CAMPANHOLA,C.;VALARINI,P.J.Aagriculturaorgnicaeseupotencialparaopequenoagricultor.Cadernos de Cincia e Tecnologia,Braslia,v.18,n03,p.69-101,Set./Dez.2001.desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA136CAPORAL,F.R.La extensin agraria del sector pblico ante los desafos del desarrollo sostenible:elcasodeRioGrandedoSul,Brasil.Crdoba,1998.517p.(TesedeDoutorado).CAPORAL,F.R;COSTABEBER,J.A. Agroecologiaedesenvolvimentoruralsustentvel.PerspectivasparaumanovaExtensoRural.In:Etges,VirgniaElisabeta(Org.).Desenvolvimento rural: potencialidades em questo.SantaCruzdoSul:EDUSC,2001;p.19-52.______. A. Agroecologia. Enfoque cientfico e estratgico.Agroecologia e Desenvolvimento Rural Sustentvel,PortoAlegre,v.03,n02,p.13-16,2002.CARMO,M.S.Aproduofamiliarcomolocusidealdaagriculturasustent-vel.Agricultura em So Paulo,SoPaulo,v.45,n01,p.01-15,1998.DAROLT,M.R.Situao da agricultura orgnica em 2003.Disponvelem:.Acessoem:jan.2007.DULLEY,R.D.Agriculturaorgnica,biodinmica,natural,agroecolgicaouecolgica?Informaes Econmicas,SoPaulo,v.33,n10,p.96-99,2003.EHLERS,E.Agricultura sustentvel: origenseperspectivasdeumnovopa-radigma.2.ed.Guaba:Agropecuria,1999.157p.______.Possveisveredasdatransioagriculturasustentvel.Agricultura Sustentvel,CNPMA/EMBRAPA,v.02,n02,p.12-22,Jul/Dez.1995.HESPANHOL, A. N. Agricultura, desenvolvimento e sustentabilidade. 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The World of Organic Agriculture: StatisticsandFutureProspects. 5threvisededition[s.l.]:IFOAMPu-blication,Feb.2003,130p.13reFlexes soBre A AgroecologiA no BrAsilaDriano arriel saquetEngenheiroAgrnomo,DoutoremCinciasAgrrias(UniversittHohenheim,Alemanha,ProfessorAdjuntodoCentroFederaldeEducaoTecnolgicadeSoVicentedoSul-RS|adrianosaquet@hotmail.comAagriculturaorgnica temsedesenvolvido rapidamentenomundonosltimosanoseestsendopraticadaatualmenteemaproximadamente120pases.Aperspectivadequeareacultivada,bemcomoonmerodepro-priedades,continueaumentando.Almdisso,desepresumirquemui-taspropriedadesno certificadas estejamproduzindo emmuitospases(WILLER;YUSSEFI,2006).Deacordocomessesautores,maisde30mi-lhesdehectaressocultivadosorganicamentepor,nomnimo,623.174propriedadesespalhadaspelomundo.Umaspectopositivoqueacomer-cializaodeprodutosorgnicostambmestacompanhandoessecresci-mentonaproduo,nosomentenaEuropaenaAmricadoNorte,quesoosmaioresmercadosconsumidores,mastambmemoutrospasesdaAmricaLatina,frica,siaeOceania.Atualmente, os pases commaior rea cultivadano sistemaor-gnicosoaAustrliacom12,1milhesdehectares,aChinacom3,5milhesdehectareseaArgentinacom2,8milhesdehectarescultiva-dos.Percebe-se,noentanto,aoseanalisarospercentuais,comrelaorea totalagricultveldospases,queosmaioresnmerosestonaEuropa.Nototal,aOceaniarespondepor39%dareacultivadaorga-nicamentenomundo,seguidapelaEuropacom21%eaAmricaLa-desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA13tinacom20%,sendoqueestapossuiomaiornmerodepropriedadesruraiscomosistemadecultivoorgnico(WILLER;YUSSEFI,2006).desepresumir,comisso,queaAustrliapossuapropriedadesmaioresqueosoutrospases.situAo AtuAl dA AgriculturA orgnicA nA AmricA lAtinANaAmricaLatinamuitospasestmmaisde100.000hectarescultiva-dosorganicamentecominciorecenteequeapresentamumcrescimen-toacelerado.Ototaldereacultivadaorganicamenteecertificadaestemtornode6,4milhesdehectarescomumadicionalde6milhesdehectaresdeflorestascertificadasereasnativas.QuasetodosospasesdaAmricaLatinapossuemumsetororgnico,emboraonveldedesen-volvimentovariebastante.Ospasescommaiorproporodereasor-gnicas so oUruguai, a CostaRica e a Argentina, que tem amaiorpartedeseus2,8milhesdehectarescultivadosorganicamentecobertaporpastagens.Emgeral,omovimentopelocultivoorgniconaAmricaLatinatemsedesenvolvidoporcontaprpriadosprodutores,poismuitoraroaexis-tnciade subsdiosgovernamentaisouajuda financeiradiretaparaestefim.AexceoentreospasesoBrasil,ondeogovernotemdirecionadoincentivosproduoorgnica,pesquisa,formaodeassociaes,mer-cadoegeraodeemprego.ACostaRicaealgunsoutrospasestmdisponibilizadosuportefinanceiroparapesquisaeensino.AArgentinaeoChilepossuemal-gumasagnciasoficiaisdeexportaoajudandoosprodutoresatenders exigncias internacionais de importao, elaborando catlogos deprodutos.AexportaoumadasprioridadesquetemacontecidonaAmricaLatina.DosgrosdecafebananasdaAmricaCentralaoacarnoPara-guaiecereaisecarnenaArgentina,omercadodeprodutosorgnicostemsidoorientadoparamercadosestrangeiros.comPArAtivo entre os sistemAs de cultivo orgnico e convencionAlOQuadro 1 apresenta algumasdiferenas bsicas entre o sistemadecultivoconvencionaleosistemadeproduoorgnico.Pode-seperce-berqueasdiferenasenvolvemnosomenteosmtodosetcnicasdecultivo,mastambmalgunsfatoressociaistaiscomoainclusosocialcomageraodeempregosnocampo,asadedoprodutoreconsumi-dores,almdasquestesrelacionadaspreservaodomeioambientecomoumtodo.13AdriAno Arriel sAquetQuadro 1 Breve comparativo entre os sistemas de cultivo orgnico e convencional Cultivo Convencional Cultivo Orgnico- Tecnologia de produtos (aquisio de insumos) - Tecnologia de processos (envolve a relao: planta, solo e ambiente).- Uso de pesticidas - Fertilizantes qumicos-sintticos - Baixo teor de matria orgnica no solo - Falta de manejo e cobertura do solo - Monocultura- Resistncia natural e alternativas - Fertilizantes orgnicos - Solo rico em matria orgnica - Mantm a cobertura do solo - Rotao de culturas e biodiversidade- Eroso do solo, empobrecimento da vida microbiana - Erradicao dos inimigos naturais - Desequilbrio mineral- Equilbrio do solo e meio ambiente - Aumento do hmus, microrganismos e insetos benficos - Equilbrio nutricional- gua e alimentos contaminados - Contaminao e deteriorao do ecossistema - Descapitalizao- gua e alimentos sadios - Ecossistema equilibrado e saudvel - Sistema auto-sustentvel - Gerao de emprego e fixao do homem no campoTauscheret al.(2003)comentam,deformacomparativaeresumida,asprincipaisdiferenasentreosistemaconvencionaleoorgnico,comosegue:Osistemadeproduo convencional,namaioriadasvezes,carac-terizadoporumamenorbiodiversidadedeespcies,enfocandoasmono-culturas.Aspropriedadespodemserconduzidasougerenciadasdeformamaisliberada.Osmtodosetcnicasdeproduosousadoseampliadosatravsdeummaiorconsumodeinsumosagrcolaseenergia.Solosetra-balhososubstitudosporcapitaletecnologias.Aproduobiolgica,porm,commuitoempregodaqumicaetcnicasmecanizadas.Essesis-temacolocaovolumedeproduoemprimeiroplano,canalizando-aparagrandesmercados.umsistemadeproduomarcadopelasmonocultu-ras,comopreparoeusodosolodeformaintensiva,ondeosresduosdecolheitase/ouadubaoverdesotrabalhadoscomempregodealtaquan-tidadedeenergiaeimplementosagrcolas.Anutriomineraldasplantasrealizadaatravsdoempregodefertilizantessintticos,sendoousodereguladoresdecrescimentomuitocomum.Paraaproteodasplantascontrapragasedoenassousadososdesenvolvimento territoriAl e AgroecologiA140maisdiversosdefensivosagrcolas,emboranosejamobservadasasdoseseosperodosdecarnciadosprodutosutilizados.Comrelaoproteodomeioambienteeecologia,soutilizadososrecursosnaturaisexistentes,emuitasvezes,levadosemconta,algunsconceitosrelacionadosproteoderecursosbiticoseabiticos;entre-tantonamaioriadasvezesnosolevadosemcontaosprincpiosdepre-servaoambiental,priorizando-seaambioeconmicaemquesto.Oempregodeorganismosgeneticamentemodificadose/ououtrastcnicasdaengenhariagenticasopermitidos.Osistema de produo orgnicomaiscomplexoeorientado.Aor-ganizaodapropriedadegrandeeapresentaumaelevadabiodiversidadedeespcies.Empregamuitaadubaoverdecomespciesleguminosasparafinsdeproduoepreservaodesoloseambienteemgeral.Neleaconte-ceumapequenasubstituiodosoloedotrabalhoporcapitaleinsumos.Aproduototalmenteecolgicavisandoqualidadeelevadadosprodutos.A fertilidadenatural do solo preservada atravs do empregodemtodosconservativoscomousodeestercos,adubaoverdeerestosdecolheitas,oqueelevabastanteaatividademicrobianaemelhoraaestru-turafsicadossolos.Paraanutriomineraldasplantasocorreumaotimizaonosproces-sosdesimbioseentremicrorganismosevegetais,parafixaodenitrognioatmosfrico.Oempregodefertilizantessintticoscomocomplementosmui-tocontroladoeousodereguladoresdecrescimentototalmenteproibido.Ao invs de defensivos agrcolas sintticos so usadosmtodos etcnicasvisandoestabilizaodosistemanumtodo.Exemplossoousodocontrolebiolgicodepragasedoenasatravsdeinimigosnaturaiseoutrastcnicas.Aregulaodaocorrnciadeplantasinvasorasrealiza-damediantecontrolemecnico,trmicoeatravsdaconcorrncianaturaldasplantascultivadascomasinvasoras.Produtosqumicosnaturaissoempregados,masdeformalimitada.Hproteodomeioambiente.Recursosnorenovveissopou-pados.Amanutenoeapreservaodetodososelementoseprocessosenvolvidosnaestabilizaodosistemaagroecolgicopossuemumaimpor-tantefunoagronmica.Comissosevalorizaeenriqueceabiodiversida-deeapaisagem.Oempregodetcnicasqueenvolvemmanipulaogenti-cae/ouousodeorganismosgeneticamentemodificadosnopermitido.Argumentos em FAvor dA AgriculturA orgnicADentreos90argumentosemfavordaagriculturaorgnica,mencionadosporumgrupodepesquisadoressuosdoInstitutodePesquisasobreAgri-culturaOrgnica,emFrick,Sua,cabeaquimencionarecomentarresu-midamente30deles(SCHMUTZet al.,2006):141AdriAno Arriel sAquet1) O leite procedente de vacas criadas no sistema orgnico possuimaioresquantidadesdomega3.Sabe-sedaimportnciadesteci-dograxonaprevenodedoenascirculatriasedocncer.2) Frutasehortaliasorgnicascontmmaioresconcentraesdeele-mentosfuncionaistaiscomoflavonideseresveratrol,osquaissoantioxidantesmuitoeficientesqueretardamoprocessodeenvelhe-cimentoeprevinemdoenasdocorao.Almdisso,nocasoespec-ficodama,aorgnicapossuimaisfsforo,fibras,fenis,melhortexturaesabor.3) Batatas orgnicas possuem, tendencialmente, maiores concentra-es de vitamina C, que est envolvida em vrios processos me-tablicos no organismo e, dentre estes, tambm um excelenteantioxidante,agindodeformaeficientecontraosprocessosdeenve-lhecimentodostecidos.4) Saladasfolhosascontmmenoresconcentraesemnitratos,que,emexcesso,soprejudiciaisaoorganismo.5) Produtos orgnicos, de maneira geral, possuemmenos defensivosagrcolas,emmdia50a70%menosresduosdeprodutosqumicos.6) Alimentos orgnicos possuem somente produtos permitidos. Osprodutosorgnicossoproduzidosdeacordocomalegislaoes-pecfica.7) Asplantascultivadasnestesistemasopoupadasdosprodutosqu-micos.Comovistoanteriormente,sousadossomenteprodutosna-turaisepermitidospelalegislao.8) Osprodutoresnoprecisamusarherbicidasparaocontroledeplan-tasdaninhas.Sousadastcnicase/ouprodutosalternativosparaocombatedasplantasinvasoras.9) Pragasedoenassoeliminadasouafastadasatravsdousodepro-dutosnaturaispermitidospelalegislao.10)Aagriculturaorgnicanoutilizaorganismosgeneticamentemodi-ficados.Osprodutorestrabalhamnumsistemanatural,porissoproibidoousodeplantas,animaiseinsumosgeneticamentemodi-ficados.11)Animaiscriadosnosistemaalimentam-secompastagensorgnicas.12)Produtosorgnicossoprotegidosporlegislaoespecficaquecon-trolatodooprocesso.13)Propriedadesorgnicassobemcontroladas,poissoinspeciona-dasperiodicamente.14)Cadavacaparesuaprpriacria,tudoaonatural.Transfernciadeembriesproibido.desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA14215)Hormniosououtrassubstnciasestimuladorasdocrescimentosoproibidasnaalimentaodosanimaisounaproduovegetal.16)Terneiroscriadosnosistemaorgnicobebemleiteorgnico.17)Animaisvivemaoarlivreenoconfinados,podendopegarsol,chu-vaevento.18)Animaisdoentessotratadoscomprodutosnaturais,atravsdem-todosetcnicasalternativas.19)Ospssarospreferemospomaresecamposorgnicos.Emexperi-mentosrealizados,foiconstatadoqueoscamposeasmargensdaslavourasorgnicastm25%maispssarosdoquenosistemacon-vencional.20)Os solos somais ricosemsua fauna.Emsolosorgnicos foramdetectadasmaiorespopulaesdepequenosanimaise,nocasodasminhocas,50%amaisdoquenosistemaconvencional.Almdisso,predadoresnaturaisvivememmaiorquantidadeneles.21)Asminhocas preferem solos orgnicos. Em funo dos teores dematriaorgnicamaiselevadosedemenoresconcentraesdepro-dutosqumicosvivemmelhorepormaistemponeles.22)Os solos somelhorconservados.Apresentammelhorestruturaeporosidade,retendo,pois,maisguadaschuvasediminuindooes-coamentosuperficial.23)Ossolospossuem40%maismicorrizasdoqueossolosdaproduointegrada.Micorrizassofungossimbiticosquefixamnitrognioatmosfricotornando-odisponvelaovegetalpois localizam-senosistemaradiculardasplantas.24)Aguadosubsolonocontaminada.Emconseqnciadostiposdeadubos,muitopouconitratoatingeoslenisfreticos.25)Aagriculturaorgnicapreservarioselagos,poisascontaminaesdosmananciaissomnimas.26)Aagriculturaorgnciaconsomemenosenergiaemfunodamenordependnciaexternadeinsumoseequipamentos.27)SolosorgnicosestabilizamoclimapoisohmusabsorveCO2.Aagriculturaorgnicareduzaemissodeamniaeofatodeusarme-nosnitrognioreduzaformaodeN2Onossolos.28)Aagriculturaorgnicaliberamenosdixidodecarbonopelofatodenousarfertilizantessintticosedefensivosagrcolas.29)Aagriculturaorgnicaabsorvemaisdixidodecarbonodoar.Issoacontecedevidoretenonohmuseatravsdafotossnteserea-lizadapelavegetao,aqualtemmaiordiversidade.143AdriAno Arriel sAquet30)Aagriculturaorgnicatemumcartermaissocial.Diminuioscus-toscomasadedapopulaoemgeral,porqueosalimentossomais saudveis.Promove incluso socialdaspessoasno campoemelhora a sade do produtor, o qual no se envolve diretamentecomprodutosqumicosperigosos.AgriculturA ecolgicA: limites e PersPectivAs A agroecologia nos faz lembrar de uma agriculturamenos agressiva aomeioambiente,quepromoveainclusosocial,proporcionamelhorescon-dieseconmicasparaosagricultores,aliadaseguranaalimentardosprpriosprodutoreseconsumidoresemgeral.Nessesentido,hofertadealimentosecolgicospraticamenteisentosderesduosqumicos,emopo-sioaosistemaconvencionalqueusaquantidadeselevadasdedefensivosagrcolasefertilizantessintticos,almdeoutrassubstnciascomohor-mniosouatmesmoorganismosgeneticamentemodificados.Aagroecologiatemsidoreafirmadacomoumacinciaoudisciplinacientfica,ouseja,umcampodoconhecimentodecartermultidisciplinarqueapresentaumasriedeprincpios,conceitosemetodologiasquenospermitem estudar, analisar, dirigir, desenhar e avaliar agroecossistemas(CAPORAL;COSTABEBER,2002),quesoconsideradoscomounidadesfundamentaisparaoestudoeplanejamentodasinterveneshumanasemfavordodesenvolvimentoruralsustentvel.Em essncia, o enfoque agroecolgico corresponde aplicao deconceitoseprincpiosdaEcologia,daAgronomia,daZootecnia,daVeteri-nria,daSociologia,daAntropologia,daCinciadaComunicaoeoutrasreasdeconhecimentonareestruturaoemanejodeagroecossistemasquedesejamosquesejammaissustentveisaolongodotempo.Trata-sedepre-tensesedimensesquevoalmdastcnicasdeagropecuria,incorporan-dovariveiseconmicas,sociais,ecolgicas,culturais,polticaseticas.AlgumAs perspectivAsOBrasilconsideradoumpas-continentepelasuaextenso territorial,suadiversificaonoclimaesoloesuagrandediversidadeemseusecos-sistemas.Os solos so profundos e frteis permitindo o cultivo de umagrandevariedadedeplantasanuaiseperenes.Aexistnciadeclimatro-picalesubtropical,aliadosboascondiesdesolo,permiteocultivodevriasespciesfrutferasehortalias.Vantagemestaqueexisteempoucospasesdomundo,oquetornaoBrasilumpasprivilegiado.Levandoemcontatodososaspectospositivosmencionadosanterior-mentequeaagriculturaorgnicaproporcionacomrelaoproduo,qua-lidadedosalimentos,valorizaodosprodutosagropecurios,sadedopro-dutorepopulaoemgeral,bemcomoacomercializaodosprodutos,osdesenvolvimento territoriAl e AgroecologiA144quaisservemcomoincentivoparaumatransiodosistemaconvencionalparaosistemadecultivoorgnico,serodiscutidos,aseguir,algunsoutrosaspectosquefavorecemaimplantaodestesistemadecultivonopas.reA AgriculTvelOBrasilpossuireaagricultveldisponveldeaproximadamente152mi-lhesdehectares,oquecorrespondea17,9%dareatotaldoterritrionacional,masqueutilizaapenasemtornode62milhesdehectares(7,3%doterritrio)(MARQUES,2004).Apossibilidadedeexpansoagropecu-riainvejvelemrelaoaosdemaispasesdomundo,vistoquemuitospossuemreainfinitamentemenor,masmesmoassim,produzemmuitomaisprodutosorgnicos.DeacordocomWillereYussefi(2006)areacultivadacomagricul-turaorgnicanoBrasil,apesardoaumentosignificativonosltimosanos,deapenas0,34%sobreototaldereaagricultvel,valorqueficamuitoaqumquandocomparadocomototaldereaagricultveldisponvelquenossopaspossui.climA e soloConformemencionadoanteriormente,nossopasdispedeclimatropicalesubtropicalpermitindoocultivodefrutferasdasmaisvariadasespcies.Comashortaliasnodiferente,sendopossvelocultivodeumaquantida-demuitograndedeespciesecultivares.Aliadoaestefato,ossolosso,emsuagrandemaioria,profundosefrteisbastando,emmuitoscasosapenasacorreodaacidezparaquepossamserusadosnaagricultura.EmmuitospasesdaEuropaouAmricadoNorte,ondeoinvernorigoroso,opreparodosolosomentepossvelempocasespecficasduranteoanoemfunodocongelamento.NoBrasil,opreparodosoloecultivovegetalpossveloanotodo,sendodestaforma,umagrandevantagemparanossosprodutores.diversidAde de espciesOBrasilumdospasesmaisricosdomundoemdiversidadevegetaleanimal,pelo fatodepossuircondiesedafoclimticasmuito favorveisaliadoaossolosdeboaqualidade,oquefavorecemuitoocultivodevege-taise,consequentemente,acriaodeanimaisdomsticosesuasrespec-tivasfontesdealimentos.Muitospasesnoconseguemproduzirfrutasehortaliasemfunodasrestriesdeclimaesoloeomesmoacontececomosanimaisdomsticos,poisnohcondiesadequadasparacultivodepastagensedeoutrosalimentosnecessriosparasuanutrio.comerciAlizAo no mercAdo inTerno e exTernoAcrescentedemandaporprodutosorgnicosnoBrasilenomundo,con-formediscutidoanteriormente,colocaaagriculturaorgnicanumaposi-145AdriAno Arriel sAquetodedestaquenocenrioagropecurio.DeacordocomCampanholaeValarini(2001),estacrescentedemandaporalimentosproduzidosnosis-temaorgnicodeve-se,basicamenteacinco razes:a)Preocupaodosprpriosconsumidorescomsuasadeeriscoscomagrotxicoscontidosnosalimentos;b)Movimentosambientalistaspreocupadoscomapreser-vaodomeioambiente;c)Influnciadeseitasreligiosasquedefendemoequilbrioentreohomemeanatureza;d)Gruposorganizadoscontrriosaodomniodaagriculturamodernapor grandes corporaes transacio-nais;e)Marketingporpartedegrandesredesdesupermercados,porinflu-nciadepasesdesenvolvidos,queteriaminduzidodemandasporprodu-tosorgnicosemdeterminadosgruposdeconsumidores.Apartirdoexpostoumtantodifcildefinirquaisdestascausasti-veramouaindatmmaiorinfluncianoaumentodademandaporprodu-tosorgnicos.desepresumirqueexistaumacombinaodetodas,comalgumasparticularidadesnasdiferentesregiesdopas.Provavelmenteadifusodeinformaesjuntamentecomaopiniodoconsumidor,cientedaimportnciadeseadquiriralimentosmaissaudveis,levandoemcon-taapreservaodomeioambiente,tenhamsido,ouaindaestejamsendo,duasfortescausas.O mercado internacional de produtos orgnicos gera bilhes dedlares anualmente, tendo comomaiores consumidores a Alemanha, aHolanda,aFrana,aInglaterra,osEstadosUnidoseoJapo.Apesardocontnuocrescimentodaproduoagropecurianesteseoutrospases,omercadode importaocontinuacrescendo, tornado-seumaalternativavivelparaaexportaodeprodutosbrasileiros.Paraocomrcioexteriordeprodutosorgnicossonecessrioscer-tificadosexpedidosporcertificadorascredenciadasporrgosnormativosdeabrangnciainternacional,comoocasodaInternational Federation of Organic Agriculture Movements(IFOAM),cujaprincipalfunocoorde-naroconjuntodemovimentosdeagriculturaorgnicaemtodoomundo.Acertificaodeprodutosorgnicosvisaaconquistarmaiorcredi-bilidadedosconsumidoreseconferirmaiortransparnciasprticaseaosprincpiosutilizadosnaproduoorgnicaeoutorgadapordiferentesinstituiesnopas,asquaispossuemnormasespecficasparaaconcessodoseuselodegarantia.viAbilidAde de produo em pequenAs reAsOsistemadeproduoorgnicovivelempequenasreasepermiteproduoempequenaescala.Mesmoqueaquantidadeproduzidapeloagricultorsejapequena,acomercializaodealimentosorgnicosdire-tamentecomosconsumidorespossvel,quersejapormeiodadistribui-oemresidncias,quersejapelavendaemfeiraslivresespecializadas.Anecessidadedeaumentaraquantidadedisponibilizadaparacomercia-desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA146lizaoemdeterminadospontosdevenda,bemcomodeincrementaravariedadedeprodutosexigequeospequenosagricultoresseorganizememassociaes.diversificAo dA produoAdiversificaodaproduofavorecidadevidoaocontatoestabelecidoentreprodutoreconsumidornasvendasdiretas. Incluindoa integraoentreproduovegetaleanimal,nomesmoestabelecimentorural,auxilianaadoodosprincpiosagroecolgicos,aomesmotempoemqueconfe-reaopequenoagricultormaiorestabilidadeeconmica,poisumapossvelquedanospreosdealgunsprodutospodesercompensadapelaaltadeoutros;fatoquefazcomquehajaumadiversificaonaturaldeprodutosnoespaoenotempo.gerAo de emprego e fixAo do homem no cAmpoAo contrrio do sistemade agricultura convencional, a agricultura or-gnicaprecisademaismo-de-obraporunidadederea.Gerandoumanovadinmicadeempregosparaacomunidaderuralquevivenoentor-nodasunidadesprodutivas.Outrapossibilidadeoaproveitamentodaprpriamo-de-obra familiar excedente, principalmentedasmulheres,quetmbuscadoocupaesdomsticasforadoestabelecimentoagrco-la,recebendosalriosque,emmdia,somenoresqueaquelesdostra-balhadoresagrcolasrurais.Ainda,oengajamentodemaismembrosdasfamliasruraisnaagriculturaorgnicapoderepresentarmaisumfatorde fixao familiar no campo, alm de diminuir os custos efetivos deproduo,reduzindoadependnciadeemprstimosbancrios(CAMPA-NHOLA;VALARINI,2001).mAior vAlor comerciAl do produToOprodutoorgnicopossui,atento,maiorvalorcomercialemrelaoaosproduzidosnosistemaconvencional.Atualmente,humdiferencialsignificativoemseuspreosquerepresentaumgrandeatrativotantoparaosagricultoresemgeralcomoparaasgrandescorporaesagropecurias.Porisso,asadaparaospequenosprodutorespareceserofortalecimentodaexploraodosnichosnomercadolocal.preservAo do meio AmbienTeConformecomentadoanteriormente,ofatodaagriculturaorgnicaapre-sentarmenordependnciadeinsumosexternos,abrirmodousodeagro-txicosefertilizantessintticos,nousarhormnioseoutrassubstnciasprejudiciais,fazcomqueapreservaodosecossistemassejamaiseficien-teequeelaseja,emfunodisso,umagrandecontribuioemfavordomeioambiente.14AdriAno Arriel sAquetconservAo durAnTe o perodo ps-colheiTAExistem,atualmente,basicamentetrssistemasdearmazenamentousa-doscomercialmenteparaaconservaodefrutasehortalias,nomundotodo,inclusivenoBrasil,queso:emfrioconvencional,ematmosferamo-dificadaeematmosferacontrolada.Noprimeiro,controla-seatemperatu-raeaumidaderelativadoarnointeriordacmarafrigorfica.Nosegun-do,sousadosfilmesplsticosparaformarumaatmosferamodificadanointeriordasembalagens,sendoestas,acondicionadassobrefrigerao.Naatmosferacontrolada,almdatemperaturaedaumidaderelativadoar,controlam-setambmasconcentraesdeoxignioededixidodecarbo-nonointeriordascmarasfrigorficas.Ascmarasfrigorficasconvencionaistmcustomenor,entretanto,seuperododeconservaotambmmenorquenaatmosferacontrolada.Aatmosferamodificadatorna-se,muitasvezes,umaalternativaintermedi-riaemrelaoaoscustoseaoperododeconservao.Amanipulaodasconcentraesdosgasesnointeriordacmarafrigorficaaceitvelparaaconservaodeprodutosorgnicoscomofrutasehortalias,desdequenosejamusadosprodutosqumicostaiscomofungicidaseoutros.Mesmosemaadiodefungicidas,porexemplo,aatmosferacontroladaumatimaopoparaaconservaode frutasehortalias.Atualmente,a tendnciamundialdenopermitirousodefungicidasnoperododeps-colheita,mesmoemprodutosoriundosdosistemaconvencionalouintegrado.Destaforma,oempregodetcnicasalternativastaiscomootratamentotrmico,omanejodaumidaderelativadoar,ousodeantagonistasnaturaisouaeli-minaodoetileno,hormnioproduzidopeloprpriofrutoequeaceleraoprocessodeamadurecimentoesenescncia,porexemplo,nafasedeps-colheitadefrutasehortalias,emcombinaocomaatmosferacontroladasoalternativasviveisequejestosendorealizadasemvriospases.Alguns entrAves ou limitesengenhAriA genTicA: TrAnsgnicos e subproduTosTodossabemosque,deacordocomasnormasparacultivodeplantasoucriaesdeanimaisnosistemaagroecolgico,terminantementeproibidoousodeorganismosgeneticamentemodificados(OGMs).Nareadetec-nologiadealimentosoprincpiovlidodamesmaforma,ouseja,nopermitidoousodequalquerprodutoouderivadodatransgeniaparaapro-duoe/ouprocessamentodealimentosaagroecologiaeatransgeniasoabertamentecontrastantesemprincpios,tcnicasevalorizaodavidaedoagroecossistema,ouseja,ondeumapreservaavida,assementes,ossa-beres,oconhecimentoeaparticipaosocial,aoutrageradependncia,erosogentica,manipulaoeconmicae social, colocandoemriscoaseguranaalimentareasoberanianaproduodealimentos.desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA14sensibilizAo dos governosOGovernoFederalvemapresentandoprogramasinteressantesdeincenti-voagriculturafamiliare,comisso,agriculturaorgnica.OutrospasescomoaAlemanha,porexemplo,sopioneirosnareadaproduoalter-nativaedespertaramointeressepelapreservaodomeioambienteeho-memproduzindoalimentosmaissaudveishmuitomaistempoquens.Nonossocaso,pode-sedizerqueestamosavanando,pormfaltamuitoaindaparaconseguirmosatingirnveismaiselevadoscomrelaoaesseaspecto.importantesalientarque,nobastasomenteoGovernoFederalinvestir e incentivar algunsprogramas. fundamental que esse tipodeaosejaseguidoourealizadoemconjuntopelosGovernosEstaduaiseatmesmopelosMunicipaisatravsdesuasSecretariasdeAgriculturaePecuriaouporoutrasagnciasdeextensoruralcomoasEMATERs,Sin-dicatosRuraiseoutros.sensibilizAo dos produToresSensibilizarosprodutoresparacultivaralimentoscommenosagrotxicosumadastarefasmaisdifceisqueexistenomomento,assimcomoumadasfunesmaisdifceisnaAgropecuriaadoextensionistafrentere-sistnciadosprodutorescomrelaoaquisiodenovastcnicaseinfor-maes.Ocultivoconvencionalcomusointensivodedefensivosagrcolasefertilizantessintticosesttoincrustradonosistemaquedificilmenteseconseguealgumavanonestesentido.Asnovasgeraesfazempartedeumapea-chaveemtodoestecontexto,poisatravsdelas,juntamentecomumsistemadeensinointeligenteeconscienteemrelaoalimentaosaudvelepreservaodomeioambientepoderacontecerumavanonestesentido.sensibilizAo dos consumidoresMuitosconsumidoressodesinformadosetambmnofazemquestodeadquiririnformaessobremuitascoisas.Aquestoambientalumades-tasreasque,normalmentedeixadadeladopornosaberemounocon-seguiremimaginaroquantoimportanteparatodosnstermosumlocalsaudvelparaviveremharmoniaeequilbriocomanatureza.Comrelaoaosalimentosentoumcaos,poisumagrandepar-celadapopulaobrasileiranoseinteressaemsabercomoosalimentosforamproduzidoseoquefoiusadoparasuaproduoe/outransforma-o.Destaforma,acabamadquirindognerosalimentciosdosmaisva-riadostipos,nolevandoemcontaaseguranaalimentar.Comrelaoaesteaspecto,importanteconsiderarobaixopoderdecompradobrasi-leiro,levando-oaadquirirosprodutosdemenorpreo.sabidoqueosprodutosorgnicospossuemcustosmaiselevadosemfunodovolume14AdriAno Arriel sAquetdeproduoeprodutividademaisbaixoscomparadosaosconvencionais,porm,deveramoslevaremconta,primeiramenteaqualidadedoprodutoexpressapeloseuvalornutricionaleseguranaalimentaraosadquirirmososgnerosalimentcios.Aesgovernamentaisdeordemeconmica,comafinalidadedemelhorararendadosbrasileiros,bemcomooacessoedu-cao,somedidasfundamentaisparareverterestequadro.sensibilizAo nAs escolAs de ensino fundAmenTAl, mdio, Tcnico e superiorAlgoqueaindavemosmuitoemnossosestabelecimentosdeensinoumaresistncia,porpartedosnossosprofissionais,comrelaoproduoor-gnica.Referimo-nosaotermoprofissionaisporqueocompromissocomomeioambientenosomentedosdocentesmassimdetodosaquelesqueestoenvolvidoscomeducao.Comrelaoaosdocentes,estaresistnciadeve-seprovavelmenteaotipodeformaoquetiveramequeaindaper-maneceemseussistemasdeensino.Asescolasdenvel fundamentalnopossuemmuitasdisciplinasespecficasrelacionadasagropecuria,masasescolas tcnicas,as fa-culdades,asuniversidadeseoutrasinstituiesfederaisdeensinosupe-riorpossueme,lamentavelmente,dentrodestesestabelecimentosaindaexisteumagranderesistnciaparacomocultivoorgnicodealimentos,tantodeorigemvegetalquantodeorigemanimal.Sabendoquenorestodomundoesseprocessojbastantedifundido,surgeentoumques-tionamentoparadiscusso:porque,noBrasil,essetipodeidiaaindatorudimentar?Osprofessores,quesoconsideradospelosacadmicoscomosendorepresentantesdeumsupostosabereexemplodevida,carregamconsigoumamissomuitoimportanteedecisivacomrelaoformaodosalu-nos.Mesmoaquelesquenoso favorveisouquenoconseguemper-ceberosucessoeasvantagensdaagroecologia,deveriam,dentrodesuaspossibilidadesdeatuaoemsuasdisciplinaseatmesmoforadasaladeaula,pelomenoscomentarsobreaexistnciadesseprocessoprodutivoal-ternativoagroecolgico.grAnde dependnciA de ferTilizAnTes sinTTicos e AgroTxicosAindaexisteumainflunciamuitograndedasmultinacionaisfabrican-tesdedefensivosagrcolasefertilizantessintticosnoBrasil.Muitasdes-tasempresasvendemoucomercializamumaquantidademuitopequenadestesprodutosemseuspasesdeorigem,poissabemqueseusprodu-toreseconsumidoressomelhorinformadoscomrelaosconseqn-ciasquandoelessousadosexageradamenteedependendodoprodutoem questo, simplesmente proibida sua comercializao e ele acabasendocomercializadoemoutrospases,principalmentedafrica,Am-ricaLatinaesia.desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA150cerTificAo, conTrole dA produo e produTosNoBrasil,infelizmente,aindaexisteumdescontrolecomrelaosnor-masdeproduoecomercializaodealimentosdemaneirageral.Ocon-sumidor,namaioriadasvezes,desconhecealegislao,ouainda,muitasvezes,elanoexiste.Nestesentidonecessriaumamelhoriasignificativadalegislaoemvigore,principalmente,dafiscalizao,aliadaeducaodapopulaosobreestatemtica,poisnobastaexistirumaboalegisla-osenohouverumaeficientefiscalizaojuntamentecomaeducaoesensibilizaodosprodutoreseconsumidorescomrelaofraudes,im-portnciadaseguranaalimentar,importnciadapreservaodomeioambienteebemestardapopulaoemgeral.Informaoumapalavra-chavenestecontexto,quepoderevolucionarmuitacoisaemnossopas.Aemergnciadaproduoedacomercializaodeprodutosorg-nicosnoBrasileprovvelexpansodonegciotmaumentadooriscodosurgimentodeatitudesoportunistas.Comapossibilidadedeobtenodepreosmaiselevadosneles,surgecadavezmaisprodutoresecomerciantesinteressados.Nocasodosprodutosorgnicos,ooportunismopodesecon-cretizaratravsdatentativadecomercializaodosconvencionaiscomosefossemorgnicos.Estaumaformadeobterodiferencialdepreoe,aomesmotempo,burlartodaumaestruturadecertificaoqueenvolveoacompanhamentoeocontroledaproduo,paragarantiraoconsumidorqueoqueadquiriufoidefatoproduzidodentrodasnormasdaproduoorgnica.Agrandedificuldadequeosatributosdequalidadedestespro-dutossoespecficosenoidentificveismediantesimplesobservaovi-sual,sejanumafeiraderuaouemumsupermercado.Oqueocorrenocasodosprodutosorgnicos,umaassimetriadeinformaes entre vendedores e compradores. Os agricultores e comer-ciantesdispemdasinformaessobreaquiloqueproduzeme/oucomer-cializam e, consequentemente, sabem tudo sobre sua origem, quando,comoeporquem foramproduzidos. Josconsumidores,quandocom-pramosprodutosorgnicos,quasenadasabemquantoprocednciaequalidadeintrnsecadoqueestoadquirindo.Surgeaanecessidadedacertificao.Estagrandediferenaentreograudeinformaodequemproduze/ouvende,emrelaoaoconsumidor,quepermiteoupodeinduziraumafortetentaoparaqueprodutosconvencionaissejamcomercializa-dos comoorgnicos.A importnciada certificao e a credibilidadedaagncia certificadora de produtos orgnicos para omonitoramento dasatividadesdosprodutoresecomerciantesdestes,decorredestapoucain-formaodoconsumidor.Comocomentadoanteriormente,informaoumapalavra-chaveparaodesenvolvimentodeumpovoenaoeadqui-ridaeminstituiesdeensinoeatravsdosmeiosdecomunicaocomojornais,revistas,rdio,televisoeoutros.151AdriAno Arriel sAquetAprevenocontrao surgimentodooportunismopassaporumamaiorsensibilizaodosprodutores,comercianteseconsumidoressobreasvantagenseconmicas,polticas,moraiseticasdeseguirasnormasestabelecidasparaaproduoorgnica.Estasensibilizaopoderforta-lecerasconviceseosideaisdeumaproduoagrcoladebaixoimpac-toambientaleamelhoriadasadehumanaemgeral.Papelfundamentalnesteprocessoodosconsumidores,quedevemexigirqueosprodutoscomercializadoscomoorgnicossejamcertificadospororganizaesre-conhecidas,como formadeevitaro surgimentode fraudes.Estaumaformadeprotegeroprodutoridneoetambmoconsumidor,propiciandoassimumaexpansolcitadoagronegcio.embAlAgem, roTulAgem e idenTificAo dos produTos orgnicosDemaneirageral,temossriosproblemasdeembalagenscomagran-demaioria dos alimentos.Muitos deles sequer so embalados, sendoassim,fcildeimaginarqueoconsumidornoconsigaidentificarcor-retamente aquilo que vai adquirir, sem levar em conta as perdas, emdecorrnciadafaltadeembalagensoudousoinadequadodestas.De-pendendodotipodealimentonecessriaumaembalagemespecficae,muitasvezes,comonocasodasfrutasehortalias,sonecessriasembalagensindividuais,quedeveriamserconfeccionadascommaterialadequadoaoprodutoeterseusrtulosbemelaboradoscontendo,prin-cipalmente, as informaes necessrias sobre ele, tais como a proce-dncia,nome,composionutricional,setransgnicoouno,datadevalidadeeoutras.Umaspectoimportantecomrelaosembalagensestrelacionadoasuacomposio,vistoqueamaioriadelasnosore-ciclveis,retornveise/oubiodegradveis.Destaforma,aproduodelixomuitogrande,comovemosnodia-a-diadobrasileiro.Isto,alia-dofaltaoucarnciadeorganizaoparareciclagemgeraumimpactoambientalenormecontaminandorios, lagos,matas,entupindocanaisde esgotos e outros, alm da poluio visual das cidades originandoumamimpressodemaneirageral.limiTAes de ordem TcnicA (produo)Esteitemnoseraprofundadovistoqueoprincipalobjetivodestadis-cussorealizarumaanlisemaissocialdaAgroecologia,emboraalgunslimitesoudificuldadesenvolvemtambmacadeiaprodutivaagropecu-ria.Sabe-sequemuitodifcilcultivar,porexemplo,tomates,masoubatatas, semousodedefensivosagrcolasem funodaquantidadedepragasedoenasqueatacamasculturas.Ousodeprodutosoumtodosalternativosmuitasvezesmenoseficientequenosistemaconvencional,maspossvelproduziralimentosdetimaqualidadesemousomassivodeinsumosqumicos.desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA152escAssez de pesquisA em AgriculTurA orgnicAAsinstituiespblicastmatuadopouconodesenvolvimentoe/ouvalida-odetecnologiasdeproduoorgnica,oqueacabaprejudicandomaisospequenosagricultoresque,geralmentenotmacessoinformaesque poderiam ser utilizadas de forma experimental em suas lavouras eatuamportentativasempricasqueresultamemerroseacertos.considerAes FinAisAagriculturaecolgicaconstitui-senoelementomedianteoqualsepre-tendegerarestratgiasdedesenvolvimentosustentveleinclusosocial.Apartirdeseusprincpioselementarespossvel,umamenoragressoaomeioambiente,aproduodealimentosmaissaudveiserecursosparaaauto-sustentaodosprodutores,almdoauxlionoprocessodeindepen-dnciaderecursosexternos.Atualmente,muitospasesencontram-seemplenafasedeexpansocomaproduoecolgica,destacando-seaAlema-nha,aSua,aAustrliaeoutros.OBrasilsitua-seentreospasesqueaindaestomuitodependentesdosistemaconvencionaldeproduoagrcola,empregandoenormesquan-tidadesdeinsumosqumicosprovenientesdefontesexternas,causandoumagrandedependnciadetaisprodutoseempresas,almdaagressoaomeioambienteedacadeiaprodutivadealimentoscomaltosndicesdecontami-naodosecossistemasporagrotxicos.Percebe-se,entretanto,nopas,umacrescentesensibilizao,tantoporpartedepesquisadores,produtores,go-vernos,comodacomunidadeemgeral,sobreaimportnciadeseproduziralimentosmaissaudveisnoesquecendotambmdapreservaodomeioambienteedosecossistemasemgeral.Aagroecologiatorna-se,dessaforma,umaalternativaempotencialaosistematradicionaldeproduoagrcola.reFernciAsCAMPANHOLA,C.,VALARINI,P.J.Aagriculturaorgnicaeseupotencialparaopequenoprodutor.Cadernos de Cincia & Tecnologia,Braslia,v.18,n.03,p.69-101,2001.CAPORAL, F.R., COSTABEBER, J.A. Agroecologia. Enfoque cientfico eestratgico.Agroecologia e Desenvolvimento Rural Sustentvel,PortoAlegre,v.3,n.2,p.13-16,2002.MARQUES,E.S.O estado da arte da agricultura brasileira.MinistriodaAgricultura,PecuriaeAbastecimento,2004,17p.SAQUET,A.et al.Agricultura ecolgica e ensino superior.FranciscoBeltro:Grafit,2005,87p.153AdriAno Arriel sAquetSCHMUTZ,R. et al.90 Argumente fr den Biolandbau.Forschungsinsti-tutfrbiologischenLandbau(FiBL),Ackerstrasse,CH-5070,Frick,Schweiz,2006,16p.TAUSCHER,B.et al.Bewertung von Lebensmitteln verschiedener Produkti-onsverfahren.StatusBericht2003,SenatarbeitsgruppeQualitativeBewertungvonLebensmittelnausalternativerundkonventionellerProduktion. Senat der Bundesforschungsanstalten, Deutschland,2003,101p.WILLER,H.;YUSSEFI,M.The World of Organic Agriculture. Statistics and Emerging Trends 2006. InternationalFederationofOrganicAgricul-tureMovements(IFOAM),BonnGermany&ResearchInstituteofOrganicAgricultureFiBL,Frick,Switzerland,2006.155AgroecologiA: desAFios PArA umA condio de interAo PositivA e co-evoluo humAnA nA nAturezAvalDemar arlEngenheiroAgrnomo,especialistaemAgroecologiaeDesenvolvimentoSusten-tveleAdministraoRural,MembrodaRededeConsultoresColaboradoresdoMDA/SDT(MinistriodeDesenvolvimentoAgrrio/SecretariadoDesenvolvimen-toTerritorial),ProfessordoCursodeDesenvolvimentoRuralSustentveleAgroe-cologiadaUnC/Concrdia-SC|valdemar@ecovida.org.brDiantedoenormepotencialautodestrutivodoatualsistema,consensoodesafiodoestabelecimentodeumanovacondio,capazdesatisfazerasnecessidadesdageraopresente,semcomprometerestapossibilidadeparaasgeraesfuturas.H,porm,namaioriadasabordagens,especial-mentejuntoaodebateoficialdodesenvolvimento,umfortetomdeconti-nusmosubjetivado.Estaafirmaopossvel,jque,majoritariamente,oparadigmadodesenvolvimentosustentvelfoiumconceitogerado,domesmomodoqueodedesenvolvimento,nocentrodo sistemamundialatual(RIBEIRO,1980).Desenvolvimento uma condio universalmente desejada, exa-tamenteemfunodasuaimpreciso,ouseja,depossvelambigidadediantedevisesdiferentesdesociedade.Destaforma,sustentvelmaisumrtuloouadjetivoafixadoaoconceitotradicionaldesenvolvimento,e que o deixa domesmomodo, polissmico (MONTIBELLERFILHO,2001).H, portanto, apropriaes diferenciadas sobre as referncias desustentabilidade.Osconceitosdedesenvolvimentoassumidosnaprticaaolongodahistriaexpressamdeterminadosinteresseseperspectivas,sempreresul-tantesdopensamentopolticohegemnicoemvigor.Assim,desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA156[...] estudar o conceito de desenvolvimento conduz a anlises de diferen-tesaproximaestericasemquenosepodemnegarasconotaesideo-lgicas que so produtos de diversos interesses e percepes criados nadinmicadaconstruosocial.Essesconceitos tmsidoracionalizadoseapresentadosnoterrenoeconmico,polticoeideolgicoeassimconduzi-doprogramasepolticasconcretasassumidaseimpulsionadaspordistintosgovernos(PERACI,2000).Odebatedaagroecologiasednessecontextodiversodeperspec-tivas,masnaabordagemdestetextoassume-seapopularquevemsendoconstruda junto agricultura familiar/camponesa, onde a agroecologianovistaapenascomoumaalternativaouumatcnicadentrodomodelodedesenvolvimentoemvigor.Porisso,umprimeirograndedesafioares-significaoconceitualemoutrasbasescientficasaliceradasnumanovacompreensodomundo,dasrelaesedasociedadehumana.Nesta elaborao, abordam-se aspectos da trajetria histrica dodesenvolvimentonocampo,apontandoascontradiesecaracterizandoumanovacondio,cujabaseaagroecologia.Levantam-segrandesdesa-fiosparaodesenvolvimentonumaperspectivaagroecolgicaeanecess-riareconstruoe/oure-significaoconceitualparaumaefetivapossibi-lidadetransformadora,tendoaformaoeaorganizaocomoestratgiafundamental.A grAnde mudAnA de rumosSeguindoocaminhodosprincpiosdaqumicamodernaformuladosporLavoisieremmeadosdosculoXIX,surgeoquimismoapartirdeteoriassobreoscomportamentosdassubstnciasmineraisnossolosenasplantas,comoaformuladapeloqumicoalemoJustusVonLiebig,afirmandoqueanutriomineraldasplantassedessencialmentepelaabsorodesubs-tnciasqumicaspresentesnosolo.Eledesprezavatotalmenteopapeldamatriaorgnicaaodizerqueainsolubilidadedohmusotornavaintil.Liebigacreditavaqueoaumentodaproduoagrcolaseriapropor-cionalquantidadedesubstnciasqumicasincorporadasaosoloedefen-diaquearespostadasplantasdependiadaquantidademnimadisponveldecadaelementoqumiconecessrioaoseucrescimento,equeaausnciaoupresenaemquantidademuitoreduzidalimitariaocrescimentovegetal.EssateoriafoichamadadeLeidoMnimo.Liebigconsideradoopaidaagriculturaqumica,sendoumdosprincipaisprecursoresdaagroqumica.Suas idias causaram grandes impactos na poca por estarem seopondoTeoriaHmica,naqualpormilniosembasavamaproduoeasteoriasagronmicas,equesustentavaaidiadequeanutriovegetalsedatravsdasrazes,queabsorvemdosolopartculasinfinitamentepe-quenas,constitudas,emgrandeparte,pelomesmomaterialdasplantas.15vAldemAr ArlEmboratenhamencontradomuitosopositores,comoLouisPasteuresuasdescobertasnocampodamicrobiologia,asformulaesdeLiebigtornaram-sehegemnicasnodesenvolvimentodaagriculturamoderna.A modernizAo conservAdorAEmboragrandestransformaesjviessemocorrendonaagriculturaeu-ropianosculoXVIII,a modernizaodaagriculturaumprocessoqueseinstalaefetivamenteapartirdops-guerra.SurgeagoraumaSe-gundaRevoluoAgrcolaenestaseconstriumanovacompreensodeagricultura, intitulada Revoluo Verde, um padro agrcola qumico,motomecnicoegenticogestadonosEUAenaEuropa,quetransforma-doempacote,vaigradativamenteseespalhandoeseinstalandoemtodoomundo,criandoumanovaracionalidadeprodutiva.Ograndechavodestemodelo era: acabar coma fomenomundo.Preconizava-seque,comamodernizaotecnolgicaecomoconseqenteaumentodapro-dutividadeedaproduo,haveriaaumentodarendafamiliare,portanto,desenvolvimentorural.Quebra-searelativaautonomiadorural.Aindstriaaospoucosseaproprioudeatividadesrelacionadasproduoeaoprocessamento.Esseprocessofoichamadodeapropriacionismo.O apropriacionismo envolvia a produo de adubos qumicosparasubstituiroempregodamatriaorgnica,amotorizao e mecani-zaonasubstituiodatraoanimaletrabalhobraal,eaproduo de sementes melhoradas,atravsdaengenhariagenticaapartirdasdesco-bertasdeMendel,nasubstituiodaseleoeproduodesementes.Duranteasguerrasmundiaishouvegrandesinvestimentostecno-lgicosecientficosnodesenvolvimentodearmas,mquinasesubstn-ciasmortaisaseremusadasnoscombatesenoscamposdeextermnios.Passadasasguerras,muitodestearsenal(capacidadeindustrialdepro-duo)passouaseradaptadoereutilizadoemcampanhasdesadep-blicaeprincipalmentenaagricultura.EntreosexemplosmaisclssicosestooscasosdoDDTedoSchradan,adaptadosposteriormentecomoinseticidasagrcolas.A revoluo verde no BrAsilEmborajexistissemalgunsinstitutosdepesquisaeescolasdeagronomianoBrasil,estassofreramfortesmudanas,eoutrasnovasforamcriadasapartirdadcadade1960,cominflunciadecisivadosistemadepesquisaeeducaodosEUA,quesedeuviaconvniosdoMEC(MinistriodaEdu-caoeCulturadoBrasil)comaUSAID,aAlianaparaoProgresso,comaFundaoFord,aFundaoRockefellereoutrasdosEUA.Atravsdestesdesenvolvimento territoriAl e AgroecologiA15convniosrealizavam-seintercmbios,vindadeassessoresnorte-america-nos,transfernciadeequipamentoscientficosedematerialbibliogrfico,erecursosfinanceiros.Asescolasdeagronomiabrasileirasconveniaram-secomasnorte-americanas.Oscurrculosforamtotalmentereformuladoseadaptadosaestaproposta.Inmerosforamosinstrumentosdeinterveno:leis,regulamentos,crditos,subsdios,instituiesdeensino,pesquisaeextensorural,meto-dologias,campanhasetc.ARevoluoVerde foioltimograndeprojetoparaodesenvolvi-mento ruralnopas.Forammaisde20anosde investimentospblicoseprivadosenvolvendovolumosassomasdecrditosubsidiadoevincula-docompradeinsumos(agrotxicos,sementes,mquinas,adubosetc.),pesquisaeextensorural,almdemilionriacampanhadepropagandaeconvencimento.Estemodelofacilitouotrabalhoepropiciouoaumentodaprodu-o,mastrouxeinmerasconseqncias.Aseguirabordaremospropositi-vamenteestaquesto,classificando-aemquatrodesafios: desafiosocial,polticoeeconmico; desafiocientfico; desafioeducacional; desafioorganizacional.um desAFio sociAl, Poltico e econmicoAntesdosadubosqumicos,dassementescertificadas,dosagrotxicosedeoutrositenssimilares,aproduodependiadanatureza.Osagriculto-resbuscavamformasdeajud-laparapodercontinuarproduzindo,dei-xandoaterradescansar(pousio),aplicandomatriaorgnica,fazendorotaoetc.Assim,as famlias tinhamumaproduodiversificada,quasenodependiamdeinsumosexternoseproduziamprimeiroparaoautoconsu-mo.ComaRevoluoVerdeissotudoacabouvieramamonocultura,asmquinas,assementes,osadubosqumicoseosagrotxicoseosistemadeproduodaagriculturafamiliarfoidesestruturado,anaturezadescon-sideradaeafertilidadenaturaldestruda.Acabouaproduodebiomassa(matriaorgnica)realizadape-lasmatas e capoeiras, o hmus do solo se desgastou e comearamaaparecer as pragas, doenas e inos.A degradao e a contaminaoambientalseaceleram,avidadosolovaimorrendoeafertilidadena-turalseacaba.medidaqueistovaiacontecendo,aumentaanecessi-dadedeadubosqumicosedeagrotxicosparamanteromesmonveldeprodutividade.15vAldemAr ArlEssas transformaes no campo chamadas de RevoluoVerdefaziampartedeumprojetodedesenvolvimentoqueseaplicounoBrasilduranteasdcadasde1960e1970,cujaalavancafoiaindustrializao.Nesseperodohouvegrandecrescimentoeconmicopormconcentradonasmosdepoucos.Pregava-seaidiadequeprecisofazerobolocres-cerparadepoisrepartir.Noinciodadcadade1960,aproximadamente70%dapopulaovivianocampo.Diantedademandaurbana,houvegrandexodorurales-timulado,isto:aindstriaprecisavadegenteparatrabalhar,assimado-tou-seumasriedeprocedimentosparaforaramigraodepartedapo-pulaodocampoparaacidade: adaptou-seaeducaoparaprepararosjovensparatrabalharnaci-dade; osinvestimentossociaisemeducao,sade,lazer,habitaoesa-neamentobsicoforamrealizadosnacidade; sociologicamente associou-se o campoao atraso e ignorncia surgematalgunspersonagenspejorativoscomoojecatatu,paracaracterizaracondio; paraocampoplanejou-seamecanizao,aespecializaoeasmo-noculturas,eumarsenalqumicoegenticoparadarsustentaoaumacondioondemenospessoasproduzissemmaiorquantidade.Inicialmenteesseplanopareciadarcerto,mas,aospoucos,acidadejnoabsorviamaisoxodoruralquecontinuaocorrendo,nospeloes-tmulo,masagoratambmpelacrescenteinviabilizaodocampo,invia-bilizaoemfunodadestruiodafertilidadenaturaledadependnciaexterna,damonoculturaedofimdoscultivosparaoautoconsumo,fatoresquesoresponsveispelaprogressivaedrsticadiminuiodarenda.Essemodelodarevoluoverdegerouumciclovicioso,porqueoaduboqumicomantmaproduosemaumentarafertilidadedosolo,provocandooutrosdesequilbriosneleenaplanta,proporcionandoinos,pragasedoenas.Agorasonecessriostambmosagrotxicoseospro-blemassomultiplicadosmedidaqueaumentaadependnciadeinsu-mosexternos.Almdobemconhecido chavoda revoluo verde, de acabarcomafomenomundo,associou-seamodernizaomelhoriadascon-diesdevidaedebem-estarcomocondioautomticaeuniversal,almdeumstatus quosocialvalorizado.No,porm,oquesedeunaprti-ca,pois,almdadescapitalizaoedoempobrecimentodocampo,houveefeitosaindamaiscatastrficosnomeiourbano.Oxodoruraldadcadade1990paractemumsentidocadavezmaisproblemtico:primeiramenteporqueresultadodacrescenteinvia-desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA160bilizaoambientaleeconmicadocampo;segundoporqueacidadenooferecemaismuitaspossibilidadesaocontrrioelatambmdemiteeex-pulsaparaamarginalidade.Re-pensarasustentabilidadeparaodesenvolvimentoograndede-safiodomomento.E,quandosefalaemsustentabilidade,noseestfa-lando somentededinheiro, de economia.Para se falardequalidadedevida ede sustentabilidade, outros aspectos so igualmente importantes,comooresgateeavalorizaocultural,aconservaodomeioambienteeainclusoeaigualdadesocial.claroquefalarsobrearendaumassuntomuitoimportantenomomento,jqueaagriculturafamiliarenfrentaumadesuasmaiorescri-ses,expressanadegradaoambientalecultural,enainsuficinciaderen-dadecorrentedomodelodarevoluoverde,embasadonamonocultura,nadependnciadeinsumosexternos(agrotxicos,adubos,sementes)enaintegraoagroindustrial.fundamentalareconstruodosistemadeproduodaagricul-tura familiar, porque o agricultor deixoude s-lo, e se tornouprodutordealgumacoisa:produtordefumo,produtordeponkan,produtordeleite, produtorde tomateetc.Seusistemadeproduo foidestrudo.Historicamente,ele seembasavanadiversificaoena integraocom-plementardeatividades,ondeoautoconsumoeraestratgiafundamentaltantonoquesereferequalidadedevida,quantoaoresultadoeconmico.Namaioriadasfamlias,ovalordoautoconsumofamiliardificilmenteficaabaixodeR$300,00mensais,podendoultrapassarosR$800,00.Asfam-liasagricultorassabemquenotodifcilproduzirparaoautoconsumo,porm,senootiveremgarantido,voprecisarobterumarendamensalsuficienteparacomprarosalimentosnecessrios.Umaunidadefamiliarcombomnveldeproduoparaoautoconsumo,mesmocommenosen-tradadedinheiro,temmaiscapacidadedeinvestimento.Apotencializaodafertilidadenaturaldossolosproporcionaumaindependnciaemrelaoaosinsumosexternos,diminuindooscustosdeproduo.Todasessascondiessomadasproporcionavamsegurana,estabili-dadeeumarelativaautonomiaeconmica,polticaesocialaocampo,quefoidestrudapelalgicadapropostaimplantadapelarevoluoverde,ehoje,diantedasdificuldades,atmesmoseusdefensoresadmitemqueestemodeloseesgotou,ouseja,noservemais.Oatualmomento,portanto,oportuni-dadeparaumatomadadedecisoquantopropostadofuturodesejado.Paralelamente, oportuno tambm o momento para repensar ocampoenquantoespaoeformadevida,jque,apartirdaimplantaodoatualmodelodedesenvolvimento,elepassouaservistobasicamentecomoespaodeproduo,atrasoeignorncia,dentreoutrosadjetivosnegativos.Acondiodesergentedacidadaniafoiassociadaaourbano.161vAldemAr ArlOsinvestimentosempolticassociaisedeinfra-estruturadelazer,sade,educaoeoutras,foramecontinuamsendodirecionadosaourba-no,mesmoemmunicpiosondeametadeouatmaisdametadedaspes-soasvivemnocampoeondemuitomaisfamliaspoderoviver.Porissonecessriotambmrepensaraspolticaspblicas,porqueoxodoruralnointeressaaocampoemuitomenosscidades.Fortaleceraagriculturafamiliarumaestratgiaimportanteparaodesenvolvimentosustentvel,comrepercussesparatodaasociedade,poisestatemumarelaodemultifuncionalidadequevaimuitoalmdaproduodealimentos,tendo: ocampocomoprodutordealimentosnumavisoestratgicaquan-toseguranaesoberaniaalimentar; ocampocomogeradordetrabalhoerenda; ocampocomoguardiodabiodiversidade; ocampocomoconservadordomeioambiente; enfim,ocampocomomodoeformadevida.um desAFio cientFicoAcinciaresultadainterpretaohumanadascoisas,dosfenmenos,dosfatosedosoutrosobjetosdeseuestudorealizadoatravsdeuminstru-mentalmetodolgico,eporissonoinfalvel.Omaiordesafioreside,po-rm,naaplicaodeseusresultados,quandotransformadaemtecnologiaaserviodecorporaes,momentoemqueelaperdesuaneutralidade.Tambmprecisaincorporarnovasperspectivasevises.Ohumanodofuturoparecemotivadoporumarebeliocontraaexistnciahumanatalcomolhefoiatribuda[]eleadesejatrocarporalgoproduzidoporelemesmo(ARENDT,1958).E,namedidaemqueoafastamentodaexis-tnciahumanadanatureza se realiza, necessita-se aumentar onvel deartificializaoparapodercontinuarvivendo,afastando-secadavezmaisdacinciadavidaeexercendoumavidadominadapelacincia.Interrom-pem-seosciclosesegmenta-seateiadavida,egastam-sefortunascomtecnologiaseprodutosparasustentaravidanestanovacondio.Umexemploclssicodestalgicadacinciapodeserverificadojun-toaomodelodarevoluoverdeaplicadonaagricultura,onde,simplifi-candoaanlise,conclui-sequeosadubosaltamentesolveiseosagrotxi-cossorecursosquenospermitemproduziremambientescadavezmaisdegradados.Aagroecologiadesafiaafusodacincia,projetoeprocesso,pro-pondoumanovainseroerelaoecolgicanecessriaparaumarelaoprodutivasustentvel,e,aomesmotempo,partilhadenovascondiesedesenvolvimento territoriAl e AgroecologiA162relaessociaiseeconmicasentreoshumanos,emumnovoprojetodesociedade.Trata-sedeumanovaidentidadebiolgicaqueinsereaespciehumanacomopartenanatureza(umanovaidentidadecomoespcie),as-sociadaaumanovaidentidadesociopoltica.Essafusodeprojetoeprocessoconfereagroecologiaumadimen-soestratgica,ouseja,muitomaisdoqueumaestratgiaderesistnciaesobrevivncia,elaumaimportantetarefadequebradeparadigmasnaconstruodeumanovaordemexistencial.Noatualcontextoconjuntural,assumidadestaforma,elatambmumalutapolticaquemostranaprticaquepossvelviverdeoutrafor-ma,sendoqueonovotambmocaminhoquepercorremosparaatingi-loumcaminhoqueseconstriaocaminhar.Portanto,maisdoqueumpontodechegada,essaformadecaminharnumcaminhoquesefazca-minhando,ondecadaavanodeveserassumidoeaplicadonaprtica.Aagroecologiaaquipropostapodeserentendidacomo:Processodeproduodealimentoseprodutosemconjuntocomanatureza,ondeos(as)agricultores(as)possamdesenvolversuasatividadessemagrediroambiente,tornando-seindependentesdospacotestecnolgicoscomseuscarosedegradantesinsumosindustriais,visandonosomenteassobrasfi-nanceiras,masprincipalmentequalidadedevida.abaseparaodesenvol-vimentosustentvelnosaspectossociais,ambientaiseeconmicos,envol-vendoasdimensespolticas,tcnicaseculturais,emprocessoseducativosemetodologicamenteadequados,ondeos(as)trabalhadores(as)assumemoprotagonismomaioreaumentamseupoderdeintervenonasociedade,deformaorganizada(CEPAGRI,1998).EstefoioconceitoassumidonafaseinicialdaorganizaoemRedeEcovidadeAgroecologiaepretendiasituarnocontexto,identificarapro-postaeexpressaracondiodemovimentoeprotagonismopopular.Quandosedefendeaagroecologiacomoumacincia,estsepro-pondomuitomaisdoquecondiodedisciplina juntoagronomia,ouseja,umacinciaelgicatransversal,queresultadainteraoentreoco-nhecimentoacadmicoeoconhecimentopopular,tradicionalehistrico.Umacinciaqueseestendeinclusivebiologiaesociologiahu-mana,reinserindo-nosdeformadefinitivacomopartenanatureza,poden-doserdefinidadaseguinteforma:Aagroecologiaumacinciafunda-mentadanaco-evoluodosseres,eminteraespositivas,decooperaocomplementaridadeeinterdependncia,quere-estabelecearelaohu-manananatureza.Resultadaecologiaaplicadaaohumanoessuasrela-esdeconvivncia,sobrevivnciaeprodutivananatureza(ARL,2007).umacinciaembasadaemumanovaconscincia,fundamentadanumavisosistmica,equere-estabelecearelaohumana,nanatureza. Istosignificaumarevisoere-significaoconceitualprofunda,proporcionan-doumaquebradeparadigmaseassumidoetraduzidonaprtica.163vAldemAr ArlParaaprofundarumpoucomaisprecisoentendermelhoralgunsprincpiosdanaturezaondetudosecomplementaeumacoisadependedaoutra,sejamfenmenose/ouseresvivos.Noquesereferesespciesvivas,possvelafirmarquesobrevivemelhoroindivduoouaespciequemelhorserelacionacomosdemaisenoambiente.Estessoosmaisaptosemaisadaptados.Aissochama-sedeco-evoluoouevoluirjunto.Trata-sedeumarelaodecomplementa-ridade,decooperaoedeinterdependncia,porquenoexistemseresouespciesisoladas.Considerandoquesomospartenanatureza,seusprincpiostambmseaplicamsobrens, os sereshumanos, tantona relaonoambiente,quantonarelaoentrensmesmos.Aagroecologiasefundamentaeper-segueestainseroevolutiva.Sequisermoscontinuarexistindo,ecomqualidadedevida,preci-samosurgentementeaprenderainteragirdeformapositivananaturezaeentreosprpriossereshumanos.Acomearporumatransformaonosmeiosdeproduoedeconsumo,bemcomoemnossaorganizaosocialedenossasvidaspessoais.HbonsavanostericoseprticosemtodasasregiesdoBrasil.NoSul,hmaisde3.000unidadesfamiliaresdeproduocominiciativasprticassignificativas.um desAFio educAcionAlCriarumanovaculturanosignificaapenasfazerindividualmentedesco-bertasoriginais;significatambm,e,sobretudo,difundircriticamentever-dadesjdescobertas,socializ-lasporassimdizer;transform-las,portantoembasedeaesvitais,emelementodecoordenaoedeordemintelectualemoral.Ofatodequeumamultidodepessoassejalevadaapensarcoe-rentementeedemaneiraunitriaarealidadepresenteumfatofilosficobemmaisimportanteeoriginaldoqueadescoberta,porpartedeumg-nio,deumanovaverdadequepermaneacomopatrimniodepequenosgruposintelectuais(GRAMSCI).Avelhavisoantropocntricaquecolocaohomemcomocentrodetudoumadasprimeirasbarreirasaseremsuperadas.Esteumgrandedesafioporqueresultadeumaconstruohistricajuntohumanidade,tendoduasvertentescomplementares:a) Aviso teolgicaapartirdeinterpretaesequivocadasdoGnesescolaborounacomplicaodarelaohumanacomanatureza.Ex.OhomemcriadoimagemesemelhanadeDeus.Ohomemvis-tocomodominadorepossuidordaterra,quecontrolaanatureza,eesta,estparaservirohomem.Ohomemcomoltimosercriado,portantoobjetivofinaldacriao.Umainterpretaocorretaen-desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA164tende,sim,queacondiodohumano,portadordeconscincia,ra-zo,espritoealma,noadeumserqualquer,masestacondioaumentaasuaresponsabilidadenarelaocomoconjuntodanatu-reza,porquelhepermitealteraredefinirosrumosfuturosdela.b) Aviso cientficanocolaboroumuitonamudananesteafasta-mentodohomemcomopartedanatureza,acentuandoaperspecti-vadaexploraodamesmaparaoseubenefcio.Anaturezavistacomofontederecursosparaaproduodebenseohomemcomodetentordamo-de-obracapazdegerarestesbens.Estavisore-sultante da concepo poltica do sistema capitalista sustentadopelateoriaeconmica,emostrou-seincapazdeexerceraconjuga-odaproduodebensegeraoderiquezaspreservao,re-cuperaoambientalemelhoriadascondiessocioeconmicas.Oclculoeconmicoamedidaparaodesenvolvimento.Ocresci-mentoeconmicoeoaumentodoPIB(produtointernobruto,queasomatriadasriquezasproduzidasduranteumano),estolongedesetraduzirtambmemdesenvolvimentosocialequalificaodarelaoambiental.Aconcentraodarendatemforteacentonaex-ploraodamais-valiadotrabalhoalheio,masd-setambmatra-vsdaapropriaodamaisvaliaambiental.Ambasas vises, teolgicae cientfica,percebemanaturezacomoalgoquenoexisteemsi,ouseja,sadquiresentidonamedidaemqueestemfunodoserhumano.Assim,estabeleceu-seumarelaoutilitarista.Emboraaspreocupaescomomeioambienteseuniversalizemepopularizemcrescentemente,sofortementeimpulsionadaspelasconse-qnciasepeloslimitesqueoesgotamentodosrecursosnaturaisimpe,ouseja,peloquepodemoschamardeterapiadomedoproporcionadope-lasprevisesdoaquecimentoglobal,efeitoestufa,escassezdagua,perdadabiodiversidadeetc.Asaeseasreaessodotipo:nofaaistopor-quevaiaconteceraquilo,como,porexemplo:noemitircloro-fluor-car-boneto,porqueadestruiodacamadadeozniopodernosafetar;nodesmatareprotegerasmargensderiosefontesporquenosfaltargua;nodesmatarporqueoseuefeitosobreatemperaturadescongelarosplos,esubironveldomareterrasfrteisseperdero.Estaecologia,nomnimo,necessria.Outrasvezessoasaespunitivasimpostas,emesmoaspressesdecorrentesdasexignciasdedeterminadosmercados,quecriamaneces-sidadedeselosquetraduzamcondiesambientais,levandoaeseaprogramasnestareaparagarantirasuacontinuidadenestemercado.Aecologiatambmestnamoda,ouseja,hojemodafalarnela.Estaaecologiadooportunismo.Estasformasattmefeitospositivos,masdifi-cilmenteevidenciamoverdadeiroproblema.165vAldemAr Arlnecessrio,porm,construirumanovaconscincia,fundamenta-danumavisoecocntrica,ondeohumanosecolocacomopartealicera-danabiotica.Trata-sedeumavisosistmicacapazdeconectarolocalcomoglobal,oimediatocomofuturo,oconcretocomopoltico.Outrograndedesafioasersuperadorefere-seaofatodeque,namaioriadoscasos,assoluespropostasdiantedograndeconjuntodedificuldades socioambientais que se apresentam so paliativas, ouseja,noresolvemosproblemase,muitasvezes,sequersosuficientespara ameniz-los. A ineficincia se agrava quando as campanhas pu-blicitrias,emvezdeconscientizar,desviamasatenesdoverdadeiroproblema,porqueconveninciaseinteressesimpedemamudanaefe-tiva.Umexemploclssicosoascampanhasdetrplice lavagem,per-furamentoerecolhimentodasembalagensdeagrotxicosseminvesti-mentosnapesquisa,acompanhamentotcnicoparaasuperaodeles.Oproblemaaembalagemouoquehaviadentro?Outroexemploilus-trativo o recolhimento, a separaoea reciclagemdo lixo,que soresponsabilidadesfundamentais.Oproblemacentralparaasuperaodestedesafionoseresume,porm,nofatodolixoestarmisturadoounapoucareciclagem,mas,sim,nadiminuiodesuaproduoqueau-mentaacadadiasignificandomaisproblemasambientais,energticoseeconmicos.Almdas convenincias e dos interesses, estadificuldadedecorretambmdafaltadeformaoedeinformao,mesmojuntospopula-esenvolvidas,porquehlimitesquantoaocarterpedaggicoeeduca-tivodalutaemsi.Oestudoeaformaosofundamentaisparaacriaodaconscinciamaisefetivanasuperaodalgicacapitalistapresenteemnossasmenteseaes.Qualificarnossaprticasignificaobrigatoriamentequalificarnossoembasamentoterico.Aprticaograndebalizadordoalcancetransformadordaconcep-o terica jalcanada.Arelaoentre teoriaeprtica,especialmentequantoaoseucarter inseparveledapermanentedinmica interativa,garante-lheacondiodecritriodaverdade.Averdadedeumconhecimentooudeumateoriadeterminadanoporumaapreciaosubjetiva,massimpelosresultadosdaprticasocialobjeti-va.Ocritriodaverdadenopodeseroutrosenoaprticasocial.Somenteapraticasocialdoshomenspodeconstituirocritriodaverdadedosconhe-cimentosqueohomempossuidomundoexterior(TS-TUNG,1937).Adialticadascontradiesvaigerandoumanovaprticapropor-cionandonovasformulaes,re-elaboraeseaprofundamentostericos,evice-versa.Ocontraditrionoseiodecadafenmenoacausafunda-mentaldorespectivodesenvolvimento(TS-TUNG,1937).AformAO(processounitriodeinteraoentreformaoeor-ganizao),ouseja,interaoteoriaeprtica,aoereflexo,empro-desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA166cessos onde o tcnico e o poltico so inseparveis, tem sido um dosinstrumentos fundamentaisnaconstruodosacmulosabordadosnaconstruo da agroecologia popular. Formao e organizao polticasopartesdeumamesmalgica,adalutapopular,cujossujeitoshistri-cossoostrabalhadores.um desAFio orgAnizAcionAlTodasasaesdevemconstituir-seemprocessosformativoseorganiza-tivosassumidospelapopulao,entendendootrabalhodebasecomoca-pazdereforareampliaraconstruodeumahegemoniapopularfun-damentalparasustentarecolocaremprticaaperspectivamaisampladetransformao.QualquerAOpodetornar-setransformadorasein-corporarasdimenses:formAOorganizAOmultiplicAOemcarterdesimultaneidadeedeinseparveis.Numaperspectivadialtica,formaoeorganizaopolticasovividascomoduasexpressesdeummesmofazertransformador;fazerqueampliaaconscincianasondagemdorealeque,nomesmoprocesso,organizaaprticasocialnatransfor-maodoreal(CEPIS,1996).UmprimeirodesafioorganizacionalnaconstruodaagroecologiaemsuadimensoestratgicanatransformaodocampoaampliaodoassumirdestabandeirapelosMovimentosSociaisdoCampo.Oavanodapropostadeumaagroecologiatransformadoraganhamuitaforacomaadesodestemovimentostratando-sedeavanostantonaselaboraese sistematizaes propositivas, como namultiplicao da agroecologia.Multiplicam-seasiniciativasprticas,osespaosdeformaoeasarticu-laes.Istoimpulsionarequalificara lutaporpolticaspblicasmaisabrangenteseefetivasparaaconversoagroecolgica.Umsegundodesafioorganizacionalaarticulaoeaorganizaodasprprias iniciativasde agroecologia e a confluncianacional destasiniciativasdosMovimentosSociaisenvolvidosedasRedes.Quantoaofor-matoorganizacional,aarticulaoemRedeumaestratgiaeficazporquepodeperpassarInstituieseMovimentos,sendoaorganizaodesocie-dadesarticuladasemredes,formasmuitoatuaiseefetivasdesustentaodeidentidadescoletivasembasadasempadrescomunsdecomportamen-to,valoreseperspectivas.Aorganizaoemredeoexercciodaprpriavida,aplicadotam-bmnaorganizaodosquelutamporestanovaformadepercebereexer-ceravida,ligadosentresidamesmaformacomotudonanaturezaestligado.Tudoumagranderede,assimcomoonossocorpoumarededergosefunes.Aarticulaoemredeumaformadeorganizaoquepodeseconectarplanetariamente,ultrapassandoolimitedasinstituieseinclusiveadivisadosEstadosnacionais.16vAldemAr Arlconcluso Amudanadecomportamentode todaasociedadeograndedesa-fio, colocandoasquestesambientais e sociais comoprioritrias.Ocampopossuiumpapelestratgicoedegrandeinfluncia,masneces-sita deumanovaproposta para sua sustentabilidade e sua inserosustentvelnodesenvolvimentoterritorial,destacando-seosseguintesdesafios: aressignificaoconceitualdedesenvolvimentoere-significaodopapeldocampodaagriculturafamiliar/camponesanodesenvolvi-mento; a reconstruodos sistemasde produoda agricultura familiar/camponesaeaincorporaodaAgroecologianosprocessosdecons-truodasustentabilidadedodesenvolvimento; aconstruoconceitualdaprpriaagroecologia; aformaoeaorganizaoparaasnecessriastransformaesideo-lgicasesociopolticas.Estcadavezmaisevidenteeurgenteanecessidadedeconversoagroecolgicanoconjuntodaagriculturafamiliar/camponesa.Imagina-seumprocessoondetodospossamseincluireavanar,realizandorupturasgraduaiscomopacoteagroqumicoeindustrialdarevoluoverde,bemcomocomalgicadedesenvolvimentoemvigor,semacriaodeumnovopacoteagoramaisverde.reFernciAsALMEIDA, Jalcione; NAVARRO, Zander. Reconstruindo a Agricultura: idiaseideaisnaperspectivadodesenvolvimentoruralsustentvel.PortoAlegre:EditoradaUFRGS,1997.ALTIERI,Miguel.Agroecologia: Basescientficasparaumaagriculturasus-tentvel.Guaba-RS:LivrariaeEditoraAgropecuriaLtda,2002.ARENDT,Ana.A Condio Humana.RiodeJaneiro:EditoraForenseUni-versitria,2005.ARL,Valdemar.Reconstruo e re-significao do campo: umdesafioscio-poltico,cientficoeeducacional.MinistriodoDesenvolvimewntoAgrrioMDA/UniversidadeFederaldoParanUFPR,2007.______. Introduo Agroecologia. Universidade doContestado. Concr-dia-SC.UnC/NEAD,2005.desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA16______.Agroecologia: Umaimportantecontribuionaconstruodeumanovaordem.Monografiadeespecializaoemagroecologiaedesen-volvimentosustentvel.Florianpolis/SC:UFSC,2002.ARL,Valdemar;RHINKLIN,Hansjrg.Livro Verde 2 - Agroecologia.Cepa-grieTerraNova.Caador-SC.3.ed.Revisada,2001.BONILLA,JosA.Fundamentos da Agricultura Ecolgica: sobrevivnciaequalidadedevida.SoPaulo:Nobel,1992.CAPRA,Fritjof.Conexes ocultas: cinciaparaumavidasustentvel.SoPaulo:Cultrix,2002.______.A Teia da Vida: umanovacompreensocientficadossistemasvi-vos.SoPaulo:Cultrix,1996.CASTELLS,Manuel.O Poder da Identidade.SoPaulo:EditoraPazeTer-ra,1999.CEPIS-A Concepo Metodolgica Dialtica,1996.CEPIS-Reflexes sobre a educao popular,1996.MONTIBELLER-FILHO,Gilberto. O mito do Desenvolvimento Sustent-vel: Meioambienteecustossociaisnomodernosistemaprodutordemercadorias.Florianpolis:Ed.UFSC,2001.PERACI,AdoniranSanches.Agricultura Familiar e Scioeconomia Solid-ria.Florianpolis-SC:TerraSolidria/Cut.EscolaSuldaCUT,2000.RIBEIRO, Gustavo Lins. Ambientalismo e desenvolvimento sustentado: novaideologia/utopiadodesenvolvimento.Revistadeantropologia.USP-SoPaulo,1992.TS-TUNG,Mao.Sobre a Prtica e a contradio.SoPaulo:ExpressoPopularLtda,1999.16AgroecologiA no PArAn: evoluo e desAFios antonio carlos picinattoEngenheiroAgrnomo,MestrandoemGeografiapelaUNIOESTE,campusdeFra-ciscoBeltro-PR,InstitutoMaytenusparaDesenvolvimentodaAgriculturaSus-tentvel.Toledo-PR|picinatto@maytenus.org.brBuscAndo um modelo sustentvel PArA A AgriculturA FAmiliArAagriculturanosentidodeculturapraticadanocampo,abrangendoastcnicasdeproduovegetaleanimalestemcontnuaevoluodesdeasuaorigematopresente.Suafaseinicial,denominadaTradicional,foiatropeladapelaproduoconvencional,comefeitosnefastosparaasus-tentabilidadenoqueserefereaosaspectosambientais,econmicoseso-ciais.Primavesi(1992)resumeosefeitosnocivosdaproduoconvencio-nalcomasseguintesfrases:Atecnologiaagrcolaconvencional,nomundointeiro,levaosmdiosepeque-nosagricultoresfalncia.Semsubsdios,aagriculturanosobrevive,graastecnologiaatual.umaagriculturanosustentvel:osgovernosseendivi-dam,osagricultoresvofalindo,ossolosseestragam,tornando-seimprodu-tivos,eosconsumidoressofremgraasaumaalimentaopouconutritiva,biologicamentedeficiente.[...]Oquetornaaagriculturaatualinvivelsoospreosdosinsumos.Nosltimosseisanos,desde1986,aagriculturabrasilei-ratrabalhounovermelho.oresultadodatecnologiaaltamentequmico-me-canizadaimplantadapelaRevoluoVerde.Desdeentoparecequeodesti-nodospequenosagricultoressoasfavelasdasgrandescidades.Pormexisteumachanceparaoagricultoreestademudaroenfoqueeatecnologia.desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA10Emoposioestalgicaconsumidoradosrecursosnaturais,v-riospensadoressededicaramadesenvolvermodelosmaissustentveisparaaagricultura,queforampropostosemconformidadecomascarac-tersticasdecadapas,gerandodiversas tecnologias.Dentreestespen-sadorespodemoscitarRudolfSteiner,filsofoAustracoqueapartirdocursoagrcolapromovidopelasociedadeAntroposficanoanode1924emKoberwitz, criouomodelobiodinmico, fundamentadono slogan:Solosaudvelplantasaudvelanimalsaudvelserhumanosaudvelefeliz.OBotnicoeAgrnomoinglsSirAlbertHowardem1930desen-volveuapartirdeobservaesdaspraticasagrcolasdosagricultoresin-dianosaAgriculturaOrgnica,aqualconsideraqueafertilidadedosoloofatorprincipaldanoocorrnciadedoenasnasplantaseanimaisequenoumaquestodequantidadedeelementosqumicos,massimdadinmicadosolo.OpolticosuoHansPeterMuller,em1930desenvol-veuosfundamentosdaAgriculturaBiolgicacomvriaspropostas,den-treelasossistemasdedistribuiodiretaaosconsumidores.Em1935,MokitiOkadaeMasanobuFukuokanoJapodesenvolveramasbasesdaAgriculturaNatural,enfatizandoaeconomiadaenergiahumanaeorien-tandoparaastecnologiasquenoatrapalhamosprocessosdanatureza.AAgriculturaAlternativasurgiuenquantomovimentoem1970nosEs-tadosUnidos,devidoacrisedopetrleo,buscandotcnicasdeproduoquenodependessemdaenergiadele,oqueestimulouosurgimentodegrupos de Agricultura Alternativa nas Universidades do Brasil, contri-buindocomaformaodosagrnomosqueapiamatualmenteospro-jetosAgroecolgicos.APermaculturacriadaporBillMollisoneDavidHolmgrennaAustrliaem1970epropesistemasagrcolasauto-susten-tveisepermanentes.NaPermaculturaaagriculturaaartedecolherosol.AAgroecologiasurgeem1980comoagrnomoMiguelAltierenaUniversidadedaCalifrnia,oqualdefinesuabasecientificaapartirdeestudosdosmtodosdaAgriculturaTradicionaldoPerueMxico.NoBrasilosagrnomosJosLutzenbergereAnaMariaPrimavesicriaramaAgriculturaEcolgicacomaclebrefrasenobastaserorgnico,temqueserecolgico.Todosestesfilsofoscontribuemparaodesenvolvi-mentodeummodeloagrcolamaissustentvelqueoconvencionalim-plantadonoParan.AagriculturadenominadaAgroecolgicoouOrgni-caoresultadodasomatriadastecnologiaseconceitospropostosporvriosmodelosprovenientesdeoutrospases,somadoaoconhecimentodoagricultorparanaensedasvriasregies.Pode-senotarnasproprieda-desagrcolasumacertatendnciadeaplicaodefilosofiaetecnologiadevriasdestascorrentes,noentantooqueestemdesenvolvimentonoEstadodoParanemtermosdeagriculturasustentvelalgonovoequefuturamentepoderterumanovadenominaoqueexpresseoquereal-menteestsendoconstrudo.11Antonio cArlos PicinAttoo Processo de converso no estAdo do PArAnOEstadodoParanapartirdasiniciativasdaregioSudoesteconsidera-dopioneironocultivoeexportaodasojaorgnica,processoqueseini-ciouhaproximadamentedozeanosatrs,empropriedadesagrcolasquemantiveramalgumascaractersticas tradicionais, comtrabalhosexecuta-dospelafamliaeorientadospelasabedoriadosantepassadosagricultores,noqueserefereaosmtodosprodutivosparavegetaiseanimais.Estaspro-priedadespreconizadorasdaatualAgriculturaOrgnicaaindanotinhamsidototalmenteabsorvidaspelastecnologiasdaproduoconvencional.Atualmentepode-seobservar todaumaorganizaonaproduo,estruturadearmazenamentoelogsticadecomercializao,quetmper-mitidoaosprodutoresorgnicosagregaremvalorsoja.AexperinciadaAPOPAssociaodosProdutoresOrgnicosdeProladoOestedemons-trouqueacomercializaodasojaorgnicaaconteceucomvalordeUS$22,00asacanasafra2006/2007.A referida estrutura tem sidodesenvolvidapela iniciativaprivadaeporinvestidoresestrangeiros,destacando-seasempresasqueintegramprodutoresdasojaorgnica,comoaTerraPreservada,Agrorgnica,To-zan,GebanaeGama.Aagregaodevalornotriaesatisfatria,noen-tantoavisoestratgicanoslevaabuscartecnologiasobjetivandoaredu-onocustodeproduoparacompetirmosemnvelmundial.Aindanoqueserefereagregaodevalor,devemosconsideraraagroindustrializaodeprodutosorgnicos,aoinvsdesimplesmenteco-mercializarmosamatria-prima.OBrasildevevenderprodutosorgnicostransformados,porquealmdeagregarvalor,tornartilocidadobra-sileiro,queparticipardoprocessode transformaodamatria-prima.UmadasiniciativasdaempresaJasmineComrciodeProdutosAlimen-tciosLtda.comsedeemCuritibaequetemumalinhadeprodutosorg-nicos,comooacarmascavo,bebidadesoja,cookiesintegrais,chmate,farinhas,sojaearrozintegral,eoutrainiciativadedestaqueaproduodeovosorgnicospelaGralhaAzulAvcola,deFranciscoBeltro-PR.Outrasiniciativasempresariaissereferemproduodeinsumos,ocasodafbricadafamliaPegoraronomunicpiodeBoaVistadaApare-cida-PR,queelaboraosadubosorgnicospeletizados,etambmdafbri-cadeadubosFertiplandePlanalto,queteveimportncianofornecimentode insumosorgnicos certificadospela empresa IMOControl doBra-sil,commatriznaSua,ataproximadamenteoanode2004.Nassafras2005/06e2006/07aempresaquedistribuiufertilizantescertificadosfoiaEcossuperdePranchita.Estaevoluodomercadodeprodutosorgnicosqueestaconte-cendonoEstadodoParanoresultadodeumaconjunturainternacional.EstudosdeYussefi(2006)relatamqueoMxicoopascommaiornme-desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA12rodepropriedadesorgnicas,totalizando120.000eoBrasilodcimoter-ceiropascom14.003.Emtermosdeporcentagemdereaagrcolaorgni-caoprimeiropasLiechtenstein(26,40%),eoBrasiloqinquagsimooitavocom0,34%.AAustrliaocupao1lugarnorankingdamaiorreaagrcolaorgnicacom12.126.633hectareseoBrasilestclassificadoemsextolugar,com887.637hectares.Pode-seterafalsaidiadequeomerca-dodeorgnicosirsaturar,noentanto,oqueimportaconhecereaceitarasnovastecnologiasqueestosendodifundidasnomundo,equepoderoreduzirocustodeproduo,pornopoluremesatisfazeremconsumido-resexigentesemtermosdequalidadenutricionaldosalimentos.NaAmricaLatina,ocrescimentodestemercadoestligadodema-neiramaisfortesculturasdeexportao.NoBrasil,aproduovisatam-bmaoabastecimentodomercadointerno,principalmentecomlegumeseverduras,utilizandodiferentescanaisdecomercializao(feiras,hospi-tais,cestasemdomiclio,lojasdeprodutosnaturais,supermercados).Asexportaesestomaisrestritasscommodities:soja,caf,acar,leodepalmaededend,entreoutras(FONSECA,1999).OapoiogovernamentalnaEuropafoifundamentalnaconstruodomercadoorgnico.Apartirdejulhode1991aregulamentaodanor-maUE2092/91daComunidadeEconmicaEuropia,quetratadaprodu-oecomercializaodeprodutosorgnicosnospasesdaComunidade,alicerouasbaseslegaisepossibilitouumaexpansodestecomrcionosdiversospases(HAMM,1997).Nospasesque tiverammaior crescimentodestemercado, comoaDinamarcaeaustria,opapeldaspolticaspblicasfoivoltado,principal-mente,paraumplanodemarketingeesclarecimentoaoconsumidor(2/3dossubsdios),paraaconversodosagricultores,odesenvolvimentodepes-quisaseacapacitaodostcnicos(1/3dossubsdios)(FONSECA,1999).ASECEXSecretariadeComrcioExteriordoMinistriodoDesen-volvimento,IndstriaeComrcioExterior(MDIC)divulgaramqueoBrasilexportounoperododeagostode2006ajaneirode2007maisde5,5mi-lhesemorgnicos,sendoosprincipaisitensoacar,amanteiga,ocaf,ocacaueasfrutasfrescasesecas.OscompradoresforamosEUAcom41,2%eaHolandacom29,5%seguidosdoCanad,JapoeReinoUnido.Nasafra2001/02oDepartamentodeEconomiaRuralDERALeaEmpresaParanaensedeExtensoRuralEMATERidentificaram3.475produtorescultivando12.991hectares,comproduode47.958toneladas,noEstadodoParan.SegundooCoordenadordeAgriculturaOrgnicadaEmater-PR,Ha-merschmidt(2007),oEstadodoParanapresentou4.138produtorescommdiade3,0hectaresporfamliaeproduototalde75.900toneladasnasafra2004/05.Asojachegoua5.772toneladasnasafra2004/05sendoex-portada98%paraaEuropa,siaeEstadosUnidos.Outrosprodutosde13Antonio cArlos PicinAttodestaquesooacarmascavotambmexportadoparaaEuropa,ashor-taliasefrutasquenasuamaioriasoparaconsumointernoealcanaram22.000toneladastambmnasafra2004/05,omilho,feijo,caf,plantasmedicinais,arroz,mandiocaetrigo.Hamerschmidt(2007) citaalgunspro-jetosnoEstadodoParan,sendo: PlodeAgroecologiadolitoraldoPara-nabrangendo320agricultores;projetoCultivandoguaBoa,nasregiesde Cascavel e Toledo com 225 agricultores; projeto orgnico daRegioMetropolitana deCuritiba com551 produtores; ParceirosOrgnicos doNoroeste,incluindoasregiesdeMaring,CampoMouro,UmuaramaeParanavacom500agricultoresdistribudosem23municpios;projetodefrutas,hortaliasegrosorgnicosdaregiodeUniodaVitriacom75produtores;projetoorgnicodegroseacarmascavodoSudoestecom678produtores;projetoorgnicodeacarMascavoecafdeSantoAnt-niodaPlatinacom228produtores;projetodecaforgnicodeLondrinacom39produtores;projetoAPOLAssociaodosProdutoresOrgnicosdaRegiodeLondrinaeCornlioProcpio,com178produtoresproduzin-dofrutasehortalias;projetodeplantasmedicinaisegrosdaregiodeGuarapuava,PontaGrossaeIraticom620produtores.Atualmenteaidiadoprocessodeconversodaproduoconven-cional para a AgriculturaOrgnica est disseminada em praticamentetodooEstadodoParan,comexcelenteaceitaodapopulaoemgeralecomenvolvimentodamaioriadasinstituiesqueatuamnaagricultu-raepecuria.quem est se tornAndo orgnico no estAdo do PArAn?No Sudoeste do Paran, na regio do PROCAXIAS podemos ilustrar osgruposdeagricultoresemconversoconformedadosdeMaytenus(2003),apresentandoas caractersticasdaAAOSLAssociaodosAgricultoresOrgnicosdeSaltodoLontra,quetemcomoprincipaisatividadesagrcolasocultivodasoja,cana-de-acar,mel,banana,citrus,pssego,leite,frango,amendoim,farinhademandioca,sunos,ovos,eofabricoderapadura,a-carmascavoequeijo.AreamdiadaspropriedadesdaAAOSLde14,46hectares,sendoamaiorpropriedadede45,60hectareseamenorcom0,5hectare.Osomatriodareatotaldaspropriedadesde327,29hectares.Nesteanode2007,motivadapelaforteidiadaorganizaoterrito-rial,odestaqueaAPROSUDOESTE CentraldeAssociaesdeproduto-resOrgnicosdoSudoestedoParan,aqualfoiconstitudanoanode2006por5associaesdeagricultoresorgnicos,sendoaAPOPAssociaodeProdutoresOrgnicosdeProlaDoOeste,APROVIDAAssociaodePro-dutoresOrgnicosdePatoBranco,APROPALAssociaodeProdutoresOrgnicosdePalmas,ECOFLORAssociaodeProdutoresOrgnicosdeFlordaSerradoSuleAPROSANTOAssociaodeProdutoresOrgnicosdesenvolvimento territoriAl e AgroecologiA14deSantoAntoniodoSudoeste.Cadaumadasassociaesdestaca-sepelosseusprodutos,sendo:ProladoOeste(soja);SantoAntoniodoSudoeste(hortalias,sojaeacarmascavo);Palmas(hortaliascomdestaqueparaomorango); ePatoBranco (hortalias, cachaa)eFlordaSerradoSul(plantasmedicinais,comdestaqueparacapim limo).OsdocumentosdecontroleinternodaAPROSUDOESTEparafinsdecertificaocomaEcocertapresentam71propriedadescommdiade9hectares,eprodu-ototalestimadade2.764,32toneladasparamercadonacionale inter-nacional, conforme as legislaes daComunidadeEconmicaEuropia(UE2092/91),EstadosUnidos(NOP)eJapo(JAS).AAPROSUDOESTEresultadodeumprojetorealizadopeloSEBRAEdePatoBranco,InstitutoMaytenus, Fruns deDesenvolvimentoLocal,Ministrio doDesenvolvi-mentoAgrrio(SAF)eSecretariasdeAgriculturadasprefeiturasdosmu-nicpios,dentreoutrosapoiadores.AsorganizaesdeagricultoresorgnicoseagroecolgicosnoSu-doestedoParanregrageralforampreconizadasporprojetos,dentreeles:1. Fortalecimento e Ampliao de aes emAgroecologia eDesenvolvi-mento local/regionalSustentvelnaregioSudoestedoParan(ASSES-SOAR/MDA);2.Apoioaprojetosde infra-estruturaemterritriosrurais(RedeEcovida/prefeituraItapejaradoOeste/MDA);3.Projetodecapaci-taodeagricultoresecolgicos(RedeEcovida/MDA);4.FortalecimentodoCapitalSocialdasAssociaesdeAgricultoresOrgnicosdoSudoestedoParan(InstitutoMaytenus/MDA);5.Agroindustrializaodeuvaagro-ecolgicaparasuco(GrupodetrabalhoagroindstriaterritrioSudoestedoParan/MDA);6.ProjetodeEstruturaodasOrganizaesSindicaisdeClasse(ProjetoTerritrioSudoeste/MDA);7.Projetoparaimplantaodeunidadederecepo,beneficiamentoearmazenagemdegrosorgni-cos(ProjetoTerritriodoSudoestedoParanCAMDUL/MDA);8.ProjetodeInclusoSocialeBiodiversidade(Cooperiguau/OngTriasdaBlgicaeMDA);9.ProjetoFOMEZEROCompraDiretaLocaldaAgriculturaFamiliar(AssociaesAgricultores/GovernoFederaleEstadual/Convnio058/2003MESA);10.ProgramadeAgriculturaOrgnica (SEBRAE-PRPatoBranco);11.AgrotransformaoecomercializaodeProdutosOr-gnicosnoProCaxias(SEBRAE-PRCascavel)etc.Outraevoluoimportantenoqueserefereaodesenvolvimentosus-tentvelapartirdaAgroecologiaosurgimentodesistemadecertificao,ocasodaRedeEcovida.Segundo Rebelatto (2005) o Ncleo Sudoeste da Rede Ecovida constitudopor15gruposeassociaes,totalizando150famlias.NoEsta-dodoParanso84gruposouassociaese741famlias.ConformeentrevistaRedeEcovidaemoutubrode2005onmerodefamliasassociadaserade166,sendoqueasltimasduasassociaesforamdosmunicpiosdeFlordaSerradoSuleClevelndia.15Antonio cArlos PicinAttoConsiderandoos42municpiosdoSudoestedoParanoestudode-nominadoDiagnsticodasIniciativasdeAgriculturaOrgnicaeAgroeco-lgicanoSudoestedoParanidentificou31organizaesdeagricultoresdenominadasAssociaes,CooperativaseGruposinformaisdeagriculto-resorgnicoseagroecolgicos.Onmerodefamliasquefazempartedes-tasorganizaesequeestoreconhecidasporcertificadorasouquesolici-taramacertificaode284.Estasfamliasproduzemdiversasculturas,comalgumasinovaescomo,porexemplo,ocultivodeplantasmedici-naisemFlordaSerradoSul.A evoluoque est ocorrendonoSudoestedoParannoque sereferesorganizaesdeagricultoresfamiliares(incluindoosorgnicoseagroecolgicos)ocooperativismodaAgriculturaFamiliar,denomina-dodeCOOPAFISistemadeCooperativasdaAgriculturaFamiliar,oqualcontemplaacomercializaoapartirdepontosfixosdevendadosprodu-tosdaAgriculturaFamiliarOrgnicaeAgroecolgica.Algumas iniciativasdeprodutoresorgnicosqueno fazempartedeorganizaesdeagricultoresorgnicosouagroecolgicosforamidenti-ficadasnosmunicpiosdeChopinzinho,ClevelndiaePalmas,sendoquenomunicpiodeChopinzinhoaproduocertificadadeerva-mateenosdemaismunicpios,principalmentedesojaorgnicacertificada.AlgumasdestasiniciativasdeprodutoresindividuaissedestacamdevidoaocultivodecereaisorgnicosemreasmaioresqueAgricultoresFamiliaresvincu-ladosaoassociativismo.NoqueserefereproduodesojaorgnicanosmunicpiosdoSudoestedoParan,conformecomercializaoporempre-sasintegrantesdassafras2001a2005,identificou-se22comcomercializa-odesojaorgnicacertificadanesteperodo.Acontagemdonmerodeprodutoresrevelouquenasafrade2001/2002,407agricultorescomercia-lizaramsojaorgnicaporempresasintegradoras;nasafrade2002/2003,373;nasafrade2003/2004,333enasafrade2004/2005,263.Estareduonacomercializaodoprodutopossivelmentefoiemfunodeestiagem.Areadeproduodesojaorgnicadosagricultoresquecomerciali-zaramdeformaintegradacomasempresasdeexportaodoSudoestedoParan,nasafra2001/2002foide2.308hectares;nasafra2002/2003,2.318hectares;safra2003/2004de1.778nasafra2004/2005de1.988hectares.Ototalcomercializadonasafrade2001/2002foide4.110toneladas;nade2002/2003de4.612;nade2003/2004de3.042enasafra2004/2005de3.684toneladas.Quantosojaorgnicaaindaimportanteenfatizarqueonmerodeagricultores,areacultivadaeototaldeproduosereferemquelesagricultoresquecomercializaramcomasempresasintegradoras,logoes-tesnmeros,possivelmentesomaioresumavezqueexistemagricultoresquepodemtercomercializadosojaorgnica,poroutraslogsticasdeco-mercializao.desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA16Identificou-seem13municpios14pontosdecomercializaodealimentosorgnicoseagroecolgicoscoordenados(oucomparticipao)poragricultoresfamiliaresnoSudoestedoParan,sendoqueemalgunscasossoexclusivamentedealimentosorgnicoseagroecolgicos.OcrditoruralparaaAgriculturaOrgnicaeAgroecolgicafoiiden-tificadoemduasorganizaes.ACRESOLBASERCooperativaCentraldeCrditoRuralcomInteraoSolidria,lanounoanode2005umali-nhadeCrditoRuralOrgnico/Agroecolgicoparacusteioeinvestimentoscomrecursos prprioseaempresaAgrorgnicaemparceriacomoIBDInstitutoBiodinmico,disponibilizouaosseusintegradosocrditoruralBancodoBrasilAgriculturaOrgnica.EstestiposdeagriculturaestoemexpansonoSudoestedoPara-n,fortementeapoiadospelosprincpiosdodesenvolvimentosustentvel,queporsuavezapoiadopelaSDT/MDASecretariadeDesenvolvimentoTerritorialdoMinistriodoDesenvolvimentoAgrrio.DevidoaestaevoluopodemosafirmarqueaAgriculturaFamiliarapartirdaAgroecologiaedaagriculturaOrgnicaopresenteeofuturodoSudoestedoParan.Na regioOestedo estado,nomunicpiodePalotina, o tamanhomdiodaspropriedadesdosassociadosdaAPOPAssociaodosProdu-toresOrgnicosdePalotinade37,77hectares,totalizando757hectaresdereaagrcola.Noentanto,amdianorepresentativadamaioria,poisumadaspropriedadespossui408,3hectaresenquantoamenor,apenas1,7hectares.Classificando-seporreaas21propriedadesdosassociadosdaAPOP,teremosodescritonoquadroaseguir:Quadro 1 Caractersticas gerais da APOP - Associao dos Produtores Orgnicos de Palotina-Pr - 2003Classes - hectaresTamanho das reas hectares Atividades0 -10 2,9; 7,4; 7,3; 1,7; 3,63; 4,8Hortalias, leite, milho, cana-de-acar(cachaa), mandioca10-20 12,8; 15,5; 12,1; 12,1 Soja, leite, cana-de-acar (melado e doces), 20-30 24,2; 27,0; 20,5; 25,4; 25,5;24,2 Soja, milho, leite, sunos, aves, caf, trigo, pastagem, 30-40 36,2; 37,5; 35,8 Soja, milho, pastagem, trigo, sunos, uva, mandiocaAcima de 40 48,4; 408,3 Soja, milho, leite, ovos, peixes, hortalias, trigoAAssociaoSoJooBatistadomunicpiodeIracemadoOestecom14scios,temoseuprojetodirecionadoparaocaf,atividadeagrco-laondeamaioriaatua.Enquantoatividadestambmpodemoscitarasoja,milho,avicultura,hortalias,bovinosdecorte,vassoura,pastagensetrigo.Amdiadaspropriedadespossui20,64hectares,sendotrezepropriedades1Antonio cArlos PicinAttomenoresque30hectareseapenasumacom181,50hectares.Amenorpro-priedadeparaestaassociaode6,3hectares.OutraAssociaodescritaparacaracterizaropblicoqueest seconvertendoparaaAgriculturaOrgnicanoOesteparanaense,adeAssisChateaubriand,denominadaAPOACAssociaodeProdutoresOrgni-cosdeAssisChateaubriand,naqualestoassociados13agricultores,comreasentre2,50a29,04hectarestendocomoprincipaisatividadesagrco-las:soja,milho,arroz,batatadoce,bovinosdeleite,mandioca,caf,frutasctricas,caqui,frangos,cana-de-acarparacachaaehortalias.OsurgimentodosprojetosdeAgriculturaOrgnicanoOestedoPa-ran forammais evidentes apartir de2000, sendoquenoanode2007observou-seaorganizaoterritorialdaAPOMOPAssociaodosPro-dutoresOrgnicosdoMdioOestedoParan,abrangendoosmunicpiosdePalotina,AssisChateaubriand,FormosadoOeste,NovaAurora,Jesu-tas e IracemadoOeste.NaAPOMOP51agricultores soprodutoresdecaforgnicocertificadospeloIBDInstitutoBiodinmico.SuamarcaaORGANIVIDAeasuaestratgiaprincipalavendadiretaaoconsumi-dor,com15feiras.Acomercializaointernacionaltambmumobjetivo,sendoquenoanode2007participoudaFeiraBioFAchemNurenberguer,Alemanha.Almdocafestaassociaotambmproduzsojaorgnica.Aorganizaoterritorialpermiteoestabelecimentodeparcerias,sendoqueacooperativaCOPACOLestinseridanoprocesso.OutraatividadeemplenodesenvolvimentonoEstadodoParanaproduodealgodoorgnico.ApartirdaparceriaentreMAYTENUS,CoexisPesquisaeDesenvolvimento,Ematereprefeituras,desenvolveu-seatecnologiaeaconseqenteproduodoprodutonosmunicpiosdeCru-zeirodoOeste,Prola,Altnia,SoJorgedoPatrocnio,EsperanaNova,FranciscoAlves,SoJosdasPalmeiraseDiamantedoOeste.Ototaldehectarescultivadosde21,comparticipaode24famlias.Aprodutivi-dade,considerandotodasaspropriedades,estemtornode1.600kg/ha,sendoquemenornossolosdearenito.AcomercializaofoicontratadacomaempresaYDConfecescomsedenacidadedeSoPaulo,comva-lores30%acimadomaiorpreodemercadoouacimadopreomnimo,valendooquefossemaior.Atecnologiautilizadapropiciouacertificaoparaprodutosorgnicosdestinadosaomercadonacional,europeuenorte-americano,feitaatualmentepeloIBDInstitutoBiodinmico.NoNortedoParan,naregionaldeLondrina,considerandoosmu-nicpiosdeKalor,MarilndiadoSul,RosriodoIvaeBorrazpolis,fo-ramcadastradasparaefeitodecertificaonoanode2003peloInstitutoMaytenus,51propriedadestotalizando1.102,81hectares,dosquais434,56hectaresestoemprocessodeconverso.Paraestaregioamdiadaspro-priedadesdosparticipantesdosgruposdeagricultoresorgnicosficaem21,62hectares.AindanoNortedoestado,considerandoosmunicpiosdedesenvolvimento territoriAl e AgroecologiA1Guapirama,ConselheiroMairinck, JundiadoSuleRibeirodoPinhal,foramcadastradasparaefeitodecertificao54propriedades,totalizando3.052,27hectares,dosquais1.383,80estoemprocessodeconverso.Des-taformaotamanhomdiodaspropriedadesdosgruposdeorgnicosparaaregioacimadescritade56,52hectares.ConsiderandoumaclassificaomaisdefinidametodologicamenteporDarolt(2002),ondeseusestudosdefiniramdoisgrandesgruposdis-tintos,pode-sedizerqueosagricultoresemprocessodeconversocorres-pondemaosgruposdenominadosdeAgricultorFamiliaremTransioeAgricultorFamiliarOrgnico.ConformeaclassificaodeDarolt(2003)oprimeirograndegrupoconstitudopelostiposdenominadosdeAgricul-torFamiliarOrgnicoeporAgricultorFamiliaremTransio,amboscomlgicasfamiliares,ecorrespondema90%dasamostras.Osegundogran-degrupotemlgicasempresariasedenominadodeEmpresrioAgrco-laOrgnicoeEmpresrioAgrcolaemTransio,ecorrespondeaapenas10%daamostra.Osmotivosquesomaisexplicitadosporestesagricultoresqueen-tramnomovimentodaAgriculturaOrgnicaouagroecolgicasoaintoxica-oporagrotxicoseainviabilidadeeconmicadaproduoconvencional.desAFios Promoveraevoluo doserhumanoparapropiciaroentendimentoquan-toaosmalefciosprovocadospelos insumosagrcolasconvencionaiseanecessidadedeutilizaoracionaldosrecursosnaturaisomaiordesafiodaagriculturaagroecolgica.AsassociaesvinculadasAPROSUDOES-TEpromovemjantaresorgnicostodososanosobjetivandoaformaodeconsumidores,sendodestaqueaAPROVIDAdePatoBranco,querecebeuaproximadamente500pessoasno jantarpromovidoem2006,duranteoeventodaExpopato.Quandoapopulaodescobreacontaminaoexis-tentenosseusalimentoscomeaaapoiaraAgroecologia.OrelatriodoProgramadeAnlisedeResduosdeAgrotxicosemAlimentosnoEsta-dodoParan,SecretariadeEstadodaSadedoanode2003apontaparaacontaminaodealimentosutilizadosdiariamente.Deumtotalde407amostras,55,3%apresentaramresduosdeagrotxicos,comdestaqueparatomate,maemorangoosatingindoopercentualde90%.Das225amos-trascontaminadas,118(65%)apresentaramagrotxicosnoautorizadosparaaculturae45%apresentaramresduosacimadosvalorespermitidospelalegislaovigente.Ototaldeprincpiosativosdetectadosfoide21.OrelatrioorientaparaocancelamentodoregistrodoEndossul-faneDicofolporquenaclassificaointernacional(IUPACInternationUnionofPureandAppliedChemistry)sodogrupoqumicodosorgano-clorados,osquaisforamproibidosnamaioriadospases,bemcomoorien-1Antonio cArlos PicinAttotaparaareavaliaodosditiocarbamatosdadasasincertezasquantoaosriscossadehumanaeambiental.ParaosagricultoresfamiliaresqueproduzemsojaorgnicanoSu-doestedoParan,segundodilogocomaAPOPAssociaodeProdu-toresOrgnicosdeProladoOeste-PR,odesafiomaioraestruturadearmazenamento,quepropiciariaarealizaodecomercializaodireta-mente comas empresasquedistribuemprodutosorgnicosnaEuropa.Atualmenteestacomercializaoacontecepormeiodeempresasqueinte-gramagricultores,ouqueestabelecemcontratosantecipados.Outrodesafioparapromoveraagregaodovaloratransformaodamatria-primaaquinoBrasil,preferencialmentecomagroindstriasnascomunidadesruraisecomgestorealizadapelosprpriosagricultoresfamiliares.Estedesafiogrande,umavez,quequandosecomparaatec-nologiabrasileiraemrelaoadospasesimportadores,evidenteane-cessidadedaimportaodestastecnologiasparaquepossamosapresentaroprodutoacabadoconformeaexignciadapopulaoconsumidora.Algumasatividadesagrcolasagroecolgicasaindanoforamreco-nhecidas.Umexemploaproduodo leiteagroecolgico,paraoqualnoh laticnios exclusivos que o processe e embale.Ento acontece amisturadoleiteconvencional,comoorgnico.Naspropriedadesorgni-cas,devidoaodesenvolvimentodeumsistemaapropriado,observa-sequeomanejodosanimais,aalimentao,eosmedicamentosutilizadoscor-respondemlegislaoparaorgnicos,sendoomotivadorparaaadoodesta tecnologia a reduono custodeproduo.SegundoKhatounian(2001)aspastagenssopulverizadaspelo2,4-D,principalprincpioativodoagente laranjae causadorda focomielia, anomaliaobservadaapsoataquedosEstadosUnidoscontraoVietn,nosfilhosdesoldadosnorte-americanosevietnamitas.Afaltadeproduodesementesconformeasnecessidadesdaagro-ecologiatemsedemonstradoumfatordereduodaeficciadosmtodosdeconversodepropriedadesconvencionaisparasistemasagrcolasagro-ecolgicos.Oscultivostmsidopraticadoscomsementesconvencionais,poisempocasdesecaosagricultoresnoconseguemproduzirsemen-tesorgnicasemquantidadesuficienteparafazeremnovoscultivos,bemcomoalgumasregiesnosopropciasproduodesementesdevidocondiesclimticas.Aspropriedadesagroecolgicassoconstantementevtimasdefato-resexternos,porexemplo,aderivadeagrotxicosdeoutraslavouras;emcasosmaisgravesatporpulverizaesareas,fatorqueobrigaaimplan-taodebarreirasvegetadas.Nestecasoodesafiomaiortornarobriga-triaapenalizaodaquelequeutilizaoagrotxico,logo,elequedeveimplantarbarreirasvegetadas,nosimplesmenteporcontaminaraprodu-oagroecolgica,massim,porcausarcontaminaesgeneralizadasnodesenvolvimento territoriAl e AgroecologiA10ambiente.Pessoasquetrafegamnasrodoviasficamsubmetidasconstante-menteaosagrotxicos,bemcomoagrandemaioriadaspessoasqueestoprximasdereasprodutivasconvencionais.Assementestransgnicas,principalmenteasdesoja,tmprovoca-docontaminaoemlavourasorgnicas,oquecondenaosgroscolhidos,quetmquesercomercializadoscomclassificaodeconvencional,almdeprovocaremaumentonoscustosdeproduodevidoobrigatoriedadedeanliseparatransgenanassementesenosgroscolhidos.Apossibili-dadedemisturadegrostransgnicos,convencionaiscomosagroecolgi-costambmumaagravante,umavezqueasestruturasdearmazenamen-toaindasoescassas.Umaestruturaodesistemadecomercializaoquepermitaaven-dadiretaaosconsumidoresefluxodeprodutosentreregiespromoveracomercializao.Algocompoucaintensidadejexiste,porexemplo,ocaforgnicoproduzidoemJesutas-PR,quecomercializadonoSudoestedoParancomamarcaOrganividadaAPOMOPAssociaodosProdutoresOrgnicosdoMdioOestedoParan.Os sistemas agroecolgicos dependem do nitrognio atmosfrico,quefixadoporplantasdafamliadasleguminosasemsimbiosecombac-triasdogneroRhizobium,logo,adisponibilizaodesementesdeesp-cieseficazesparaafixaobiolgicadonitrognio,bemcomoaidentifica-odeespciesnativaseintroduodeespciesexticassofundamentaisemtodasasregiesdoParan.NestesentidooIAPARInstitutoAgron-micodoParanapoiadopororganizaesregionaisfazumtrabalhores-peitvel.Educaoparaoassociativismoecooperativismoenoparaacom-petio, umgrandedesafio, pois existe anecessidadede formaodeassociaesecooperativasdeconsumidores,deprodutores,detcnicos,dentreoutras formasdeorganizaoquecontribuiroparaasuperaodosobstculos.Fortaleceradistribuiode insumos, facilitandoa transioparaumanovabasetecnolgicacrucialedesafiador.Aevoluoqueestocor-rendonoSudoestedoParannoquesereferesorganizaesdeagricul-toresfamiliaresequeestincluindoosorgnicoseagroecolgicosoco-operativismodaAgriculturaFamiliar,denominadodeCOOPAFISistemadeCooperativasdaAgriculturaFamiliar,oqualcontemplaadistribuiodeinsumoseacomercializaoapartirdepontosfixosdevendadospro-dutosdaAgriculturaFamiliarOrgnicaeAgroecolgica.Produzirsemdestruirosrecursosnaturaisagrandequesto.Ade-pendnciadaproduoconvencionalemrelaoaopetrleoparaaprodu-odeinsumosumdosfatoresqueatornainsustentvel.Universidadesdesenvolvendopesquisase fundamentandocientifi-camenteastecnologiashojepraticadasnaspropriedadesagroecolgicas11Antonio cArlos PicinAttoindispensvelparaaevoluodaAgroecologia,poisdesenvolverumabasecientficaodesafiomaiorpropostoporAltieri(1989).Apreservaodaguaevitandoasuacontaminaoporagrotxicosessencial,umavezqueseissoacontece,aproduoorgnicainviabilizada.Linarth(2000)narevistadoCrea/PR,anunciouquenoanode1999foramuti-lizadasnoestado42.548toneladasdeagrotxicos,sendo62%herbicidas.Naspalavrascitadasnarevistatemos:Profissionaisdasadealertamsempreparaapossibilidadededoenasde-generativascrnicas,decorrentesdaabsorocontinuadadedosesdeagro-txicos,insuficientesparadeterminarintoxicaesagudas,mascapazesdecausar efeitos cumulativos, provocando inflamaes e afeces nos rins,doenasnervosasretardadas,problemasnofgado,tumoresmalignos.AcontaminaodosriosdoParaneaimportnciadosprojetosdeAgriculturaOrgnicaeAgroecolgicaficamaindamaisevidentesquandoseanalisaumestudo realizadopelaSUREHMASuperintendnciadosRecursosHdricoseMeioAmbientedoParancitadoporBull (1986)oqualrelataapresenadeBHC,DDT,ALDRINeHEPTACLOROnasba-ciasdosriosIguau,Piquiri,Iva,Tibagi,Cinza,ParanapanemaePirapora.Neleforamcoletadas1.825amostrasdosriosparanaensese84%delases-tavamcontaminadas,geralmenteporvriosprincpiosativos.78%depoisdetratadasaindacontinuaramapresentandoresduos.Esteestudomostraque,osriosdoestadodoParanestosendosucateados,representandoumgranderiscoparaaspopulaesurbanasquevoconsumindodosescumulativas,nosnasuacomida,mastambmnaguaquebebem.Andreoli(1998)divulgouestudosrelatandoqueoEstadodoParanutilizamaisde400 ingredientesativosdistribudosemaproximadamente700marcascomerciais,equeaportaria36/BsbdoMinistriodaSade,quevigoranoBrasil,estobsoleta,poisdentreos20ingredientesdefinidoscomoindicadores,somenteoEndosulfanencontra-seentreos5maisutilizadosnaagriculturaatualmente.Emresumo,alegislaoestorientandoparaaan-lisedaguaembuscadeingredientesativosquenomaissoutilizadosnaagriculturaenquantoosmaisaplicadoshojenosoprevistoporlei.Arecuperaodafloraregionalpropiciandoaproliferaodeami-gosnaturais,ouseja,aquelesseresvivosquecombatemasdenominadaspragasagrcolas,tambmumobjetivoaseralcanado.UmexemploogrupodosTrichogrammas,pequenasvespasqueparasitamovosdalagarta-do-cartuchodomilho.Osdesafiossomuitosesubmetemosagricultoresagroecolgicoseorgnicosseverasdificuldades.Quandoestesforementendidoscomodesafiosdetodaapopulao,suaspossibilidadesdesuperaoaumenta-ro.AAgriculturaAgroecolgicaouOrgnicasomenteestevoluindonamedidaemqueaspessoasemgeralaassumemenquantoumaestratgiadepromoveraqualidadedevidaeodesenvolvimentosustentvel.desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA12reFernciAsANDREOLI,C.V.Levantamentoquantitativode agrotxicos comobaseparaadefiniodeindicadoresdemonitoramentodeimpactoam-biental na gua. SANARE, Revista tcnica da Sanepar. SANARE/CompanhiadeSaneamentodoParan.Curitiba,v.10,n10,p.30-38,jul/dez.1998ALTIERI,M.A.Agroecologia: asbasescientficasdaagriculturaalternati-va.RiodeJaneiro:PTA/FASE,1989,240p.BRASIL - MINISTRIO DA AGRICULTURA E DO ABASTECIMENTO.Instruo normativa n. 7, de 17 de maio de 1999. Dispe sobre nor-mas para a produo de produtos orgnicos vegetais e animais. BULL,D.;HATHAWAY,D.Pragas e venenos: agrotxicosnoBrasilenoTer-ceiromundo.OXFAM/FASE.Petrpolis-RJ:Vozes,1986.233p.DAROLT,M.Agricultura Orgnica: inventandoofuturo.Londrina:IAPAR,2002.FONSECA,M.F.deA.C.;FELICONIO,AE.G.Arededeproduoeco-mercializaodealimentosorgnicosinnaturanoBrasil:avanoseretrocessos.AnaisdoXXXVIIICongressoBrasileirodeEconomiaeSociologiaRuraleXCongressoMundialdeSociologiaeEconomiaRural.RiodeJaneiro,2000.FUKUOKA,M.Agricultura natural: teoriaeprticadafilosofiaverde.SoPaulo:Nobel,1995.300p.GLIESSMAN,S.R.Agroecologia: processosecolgicosemagriculturasus-tentvel.PortoAlegre:Ed.Universidade/UFRGS,2000.656p.HAMERSCHMIDT,I.Panorama da Agricultura Orgnica no Paran.Dis-ponvelem.Acessoem:3abr.2007.HAMM,Ulrich.Organic trade: the potential for growth. In: 5th IFOAMInternationalConferenceonTradeinOrganicProducts.The future agenda for organic trade.ChristChurchCollege ,Oxford,England24th-27th september 1997. Proceedings. England: Tania Maxted-Frost,1997,p.18-21KHATOUNIAN,C.A.Areconstruoecolgicadaagricultura. Agroecol-gica,Botucatu,2001.LINARTH,C.A.Mais agrotxicos receita saudvel.RevistadoCreaConse-lhoRegionaldeEngenharia,ArquiteturaeAgronomiadoEstadodoParan.Curitiba,ano3,n.11,p.25-27,novembro/dezembro,2000.13Antonio cArlos PicinAttoLUTZENBERGER, J.Do jardim ao poder. 11. ed. Porto Alegre: L&PM,1992,50p.PARAN.SecretariadeEstadodaSade.Relatrio do Programa de Anlise de Resduos de Agrotxicos em Alimentos no Estado do Paran,junhode2001ajunhode2002/SecretariadeEstadodaSade.Curitiba:SESA,2003,p.55.PICINATTOA.C.;LAGOSF.S.;ULTRAMARIS.Diagnstico das iniciativas de Agricultura Orgnica e Agroecolgica no Sudoeste do Paran. SE-BRAEPATOBRANCO/INSTITUTOMAYTENUS.FranciscoBeltro-PR.Novembrode2005.NoPrelo.PICINATTOA.C.Relatrio de Atividades do Instituto Maytenus ano de 2003.InstitutoMaytenusparaDesenvolvimentodaAgriculturaSustent-vel.Toledo,2003.PRIMAVESI,M.A agricultura sustentvel.SoPaulo:Nobel,1992,142p.REBELATTO,L.C.Certificao participativa em rede: umprocessodecer-tificaoadequadoagricultura familiaragroecolgicanoSuldoBrasil. Relatrio Tcnico Final junho de 2005/ CNPQ/CEPAGRO/REDEECOVIDA.SCHUMAKER,E.F.O negcio ser pequeno: umestudodeeconomiaquelevaemcontaaspessoas. RiodeJaneiro:Zahar,1977.STEINER,R.Fundamentos da agricultura biodinmica: vida nova para a terra.SoPaulo-SP:Antroposfica,2000.235p.YUSSEFI,M.et al.The Word of Organic Agriculture Statistics and Emerging Trends 2006. International FederationofOrganicAgricultureMo-vements(IFOAM).BonnGermany&ResearchinstituteofOrganicagricultureFiBL,Frick,Switzerland,2006,24p.15AgroecologiA: o desenvolvimento no sudoeste do PArAnnilton luiz fritzEngenheiroAgrnomo,InstitutoEmaterFranciscoBeltroPR|niltonfritz@emater.pr.gov.brApresentaremosumrelatodasatividadesdesenvolvidaspeloInstitutoEmatereparcerias(aesqueforampossveisapurar),histricodeusodosolonare-gio,enfatizandoopreps-perodoconhecidocomorevoluoverde,comdepoimentosdeagricultoresetcnicosquevivenciaramesteperodo.Acreditamosseremoportunososdepoimentosdeagricultoreselide-ranasdaagriculturafamiliarapresentados,aosquaisagradecemospelaatenodisponibilizada, que, cremos,muito contribuiroparaodebatesobreodesenvolvimentodaproduoecolgicaporapresentaremsuaper-cepo,desafioseperspectivasparaoSudoesteeparaoParan.OagradecimentotambmseextendeaosgerentesregionaisdoInstitutoEmaterdeFranciscoBeltro(SimoFloreseanterioresSrgioCarnieleCarlosAlbertoWstdaSilva)edePatoBranco(IlrioCaglioni),quepossibilitaramocrescimentodogrupodediscussodostcnicosenvolvidosnaequipedeagri-culturaorgnicaeaoscolegasdoEmater,que,emseusmunicpiosdeatuao,buscaramreverahistriadaproduodesenvolvidavivenciandotambmestabuscadeumaagriculturamaissaudvelecomsustentabilidade.o sudoeste hojeAproduoecolgicatemnoSudoesteumsolofrtilparaseudesenvolvi-mento,considerandoquesuapopulaotemumaforteidentidadecomaagricultura.Oprocessodediversificaodasatividadesagrcolas,basea-desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA16dasemmilho,soja,fruticultura,olericultura,agroindstria,criaodesu-nos,avesebovinosdeleite,caractersticasdesejvel,aliadoestruturafundiriacompostaporpequenaspropriedadescomsupremaciaabsolutadaagriculturafamiliar.As condies edafoclimticas (solo-clima), fauna e flora apresen-tam-seequilibradas,oquenecessrioparaodesenvolvimentodaprodu-oecolgica.Almdisso,oSudoeste,considerandodePalmasaCapane-ma,apresentagrandevariaodeclima,possibilitandoaproduodeumelevadonmerodeespciesdefrutas,olercolas,desdequesejampoten-cializadososmicroclimasexistentes.Presenciamostambmnaregio,umaquedadarendadaspeque-naspropriedadesnosltimosanos,motivadapelamaiorcompetiodomercadointernoeexterno,naproduoprincipalmentedegros,desesti-mulandoocultivotradicionaldeprodutos.Nesteaspectoapareceaprodu-oecolgicacomoumaalternativavivel,emfunodaampliaodes-sesdoismercados,possibilitandoumaproduoquenecessariamentesejaeconomicamentevivel,socialmentejustaeecologicamentecorreta.OSudoestedoParanapresentafortecomponentedemudanasparaatividadesqueagregammaisvalorequeresultamemmaiorincrementoderendaporreaproduzida,entreelasagroindstria,agroecologiaeleite.Neste item encontra-se a agroecologia, que tem apresentado umespaocrescenteentreasdiscussesdasopesdealternativaspossveisparaosagricultoresfamiliares.Aregiotemumamarcamuitofortedelutaedeconquistapelater-ra,datadade1957,conhecidacomoARevoltadosPosseiros,comosendoumespelhodaobstinaoedaperseveranapelaconquistadosdireitos.Oterritrioconstitui-sedeummovimentosindicalrural,quepossuiumaposturaemdefesadeumaagriculturasustentvelemenosdependentedeinsumosexternospropriedade.Estasnuanascaracterizamsolofrtilparaotrabalhocomagro-ecologia.AbramovayeoutrosconsideramqueoSudoesteparanaense,regiobrasileiradecolonizaoeuropiaolocalemquealutapelofortaleci-mentodaagriculturafamiliaradquirehoje,talvez,amaiordensidade,secomparadoaorestantedopas.aqueseoriginamnospartesignifica-tivadosquadrosdosmaisimportantesmovimentossociaisdomeioruralbrasileiro,mastambmasexperinciasmaisinovadorascomooSistemaCresol de crdito solidrio (BITTENCOURT; ABRAMOVAY, 2001; JUN-QUEIRA;ABRAMOVAY,2005;SCHRDER,2005)ouascooperativasdeleiteformadasmaisrecentemente(MAGALHES,2005).Paraquemviveerespiraconstantementenestecho,pode-seproje-tarumespaoque,embreve,deverserocupadopeloSistemaCOOPAFI(CooperativadaAgriculturaFamiliar)paraacomercializaodeprodutos1nilton luiz Fritzdaagriculturafamiliar,comenfoqueespecialparaaquelesprodutosdeori-gemecolgica,lacunajpreenchidanosetordecrditoecomercializaodoleitedaagriculturafamiliar.A AtuAo do instituto emAterNaregioSudoeste,considerandoasregiesadministrativasdeFranciscoBel-troedePatoBranco,oEmaterpossui17tcnicos(maiode2007)comatua-o emagriculturaorgnicanosmunicpios comaumento considervel dereasedenovosagricultoresqueestooptandoporestesistemadeproduo.OInstitutoEmaterumaestruturadeextensoruralvinculada SEAB, desenvolve os programas do governo do estado do Paran edogovernofederal,bemcomointerageterritorialmentecomparcerias,para desenvolver projetos locais/regionais. Tambm presta trabalhos,considerandosuacapilaridadeporestarestruturadoemtodososmuni-cpios,contandocomoapoiodosagricultoresedesuasorganizaes,dasprefeiturasedasdemaisentidadesquepossuemtrabalhonosetor.Trata-sedetrabalhosparaviabilizaraagriculturafamiliardemaneirasustentvel,produzindoalimentosmaissaudveis,preservandoomeioambiente,semprearticuladoscomosdemaisprocessoseprogramasde-senvolvidosnaregio.Como objetivo geral,otrabalhodoInstitutoEmaterbuscaame-lhoriadaqualidadedevidadapopulaoruraleurbanaatravsdaofertadealimentosbiolgicossadios,acessveispopulao,isentosdeagentesprejudiciaisaoorganismohumano,visandoconservaoerecuperaodoambiente,comsustentabilidade(ambiental,social,culturaleeconmi-ca),tendocomobaseofortalecimentodaagriculturafamiliar.incio dA AgroecologiA nA regioNadcadade1970,perodoemqueasgarrasdarevoluoverdesefize-ramsentirmuitofortesnaregio,estemodelocomeouaserquestionado,comproposiesdealternativasaele.Teveumpapelmuitoforteotraba-lhodaONGAssesoar,aindanadcadade1970.AAcarpa/Emater,nadca-dade1980,teveumtrabalhocomnfaseemadubaoverdeeadubaoorgnica,introduodeanimaisrsticos,produodesementesvariadasetrabalhodeextensoatravsdaorganizaodascomunidadespartindodesuarealidadeenecessidades.Em21e22de junhode1985ocorreuoIEncontrodeAlternati-vasparaaPequenaPropriedadeemFranciscoBeltro,numainiciativadaAssociaodosEngenheirosAgrnomoseparcerias.Naoportunidadeforam apresentadas tecnologias adequadas realidade da regio, assimcomoexperinciassustentveispelosagricultoreseapontadasaspolticasdesenvolvimento territoriAl e AgroecologiA1quedeveriamnortearaagricultura.Nesteevento,quetevecunhoregional,reuniram-semaisde240tcnicoseagricultores.Nadcadade1990,ostrabalhosdeagriculturaorgnicaseintensifi-caramapartirde94/95,comproduodesojanaregiodeCapanema;noanode1997,comaolericulturaefruticulturaclimatemperadoemFrancis-coBeltroefruticulturatropicalemCapanemaeCruzeirodoIguau;apar-tirdoano2000comeouotrabalhoatravsdoprojetoPr-Caxias,envolven-doosmunicpiosdeNovaPratadoIguau,CruzeirodoIguau,SoJorgedoOesteeSaltodoLontra,naproduodeolericulturaefruticulturatropical.Atualmente so as seguintes entidades/empresas/associaes queatuamemagriculturaorgnica:Emater,Assesoar,SecretariasMunicipaisdeAgricultura,SindicatosdosTrabalhadoresRurais,Coopafi,Agrorgnica,Capa,TerraSolidria,RedeEcovida,Claf(Sisclaf),Cresol,InstitutoMayte-nus,Senar,Sebrae,ProjetoPr-Caxias,ProjetoVidanaRoa,CasasFamilia-resRurais,EmpresaGralhaAzul,Gebana,Tozan,ColgioAgrcola,UTFPR,Unioeste,IAPAR,EmbrapaevriasAssociaesdeAgricultoresEcolgicos.Asreasdeproduoorgnicagradativamenteestoocupandoes-paoemtodososmunicpiosdaregio,sendoumaperspectivaimportantequeajudarnodesenvolvimentodaagriculturafamiliar,compreocupaoemrelaosustentabilidadeambiental,social,culturaleeconmica.A colonizAo do sudoeste e A extenso rurAlo cenrio dA dcAdA de 1970 e A AgriculTurA A pArTir do depoimenTo de um AgriculTorRelatamos aqui, o depoimento deWilmarSalsioVandresen, agricultore atual presidente daCresol deFranciscoBeltro.Nascido em1952nomunicpiodeTubaro(SC),suafamliasemudounoreferidoanoparaacomunidadedeLinhaListon, interiordeFranciscoBeltro.Wilmartemconhecimentodamudanaqueocorreunaagricultura,pois,quando jo-vem,vivenciouoperodoanteriorrevoluoverdee,naseqncia,pas-soupelasmudanasqueonovomodelotecnolgicopropunha.Comrelaoaoanode1969,Wilmarrelataqueparticipoudetraba-lhosconduzidospelaAcarpa/Emater,formandooClube4S,nacomunida-deLinhaListon,do qual fui o primeiro presidente e foi realizado diversos cursos, de como fazer curvas de nvel, curso de liderana, como fazer uma reunio, experimento com uso de calcrio e outros.Noanode1975,afamliaVandresenpossua13alqueiresdeterras,sendo8comlavourasqueerampreparadascomarao,gradagemcomtraoanimaleposteriormenteerarealizadooplantiocommatraca.O controle de inos era feito com trao animal, passando o aradinho. Naquela poca tinha at 5 a 6 cavalos para fazer este servio e empregava at 20 pes-soas na poca da limpa.1nilton luiz FritzAutilizaodoaduboqumiconapropriedadedosVandresencome-ouaocorrernoanode1972.Antesdestadatanohavianenhumtipodeadubodisponvelparaserutilizado,sejadeorigemmineralouorgnica.Em 13 de outubro de 1975,relataVilmarcompreciso,ocorreu a compra do primeiro trator da famlia. Era um trator de pequeno porte, mas ajudava muito. No ano de 1976 foi comprado um pulverizador e foi o incio de aplica-o de veneno para controlar o ino. O veneno era incorporado e a precisava fazer duas a trs gradagem, que deixava a terra bastante solta. Se desse uma chuva em cima dava a eroso e precisava preparar a terra e realizar o plantio novamente. Naquela poca era realizado muitos cursos sobre curva de nvel, que nos ajudou muito. Com o trator e uso do veneno ns tambm arrendava terra, derrubava capoeiro e mato virgem, queimava para fazer as lavouras. No primeiro ano fazia uma roa manual de milho e no segundo ano fazia a destoca, que tinha recursos no Banco para isso.AjornadanaquelapocaerapuxadaeWilmarlembraqueo almoo era feito na lavoura mesmo, nada de ir para casa. Algum da famlia se encar-regava das panelas. Inclusive, certa vez, ocorreu uma queda de uma panela com feijo. Pronto, ficamos sem o feijo naquele almoo.Nestapropriedade,atoanode1973,eracultivadomilhodavarie-dadepalharoxaoupiolin(quetambmeraconhecidacomocunha)eoamarelo.Oconsrcioerabempresente,queerarealizadocomfei-joearroz.Apsesteperodo,aospoucos,foiocorrendoasubstituiodomilhovariedadepormilhohbrido.Jasojateveoprimeiroplantionoanode1970,sempreemconsrciocommilhonesteperodo.Asojavariedadesantarosaeraaquelaquemaisseadaptavaaestesistema.Wilmarlembradotrabalhopenosodapoca,quenos primeiros anos a soja era cortada com foicinha e era beneficiada com trilhadeira.Jnoanode1977comearamaparecerascolheitadeirasautomotrizesesepagavaparacolher,todaviaafamliaadquiriuaprimeiracolheitadeirasomentenoanode1979.Noanode1978compraram5alqueiresdeterraenoanoseguintemais8s,oquepossibilitouqueWilmareseusoutrostrsirmospudessemseguirtrabalhandonaagricultura.WilmarVandresencomparaasdiferentespocaserelataqueat o incio da dcada de 70, tinha menos pragas. Depois, com o uso de veneno e adubo qumico, aumentou a quantidade de pragas e novas espcies de pra-gas apareceram. Foi preciso usar muito veneno para poder garantir a safra.Quantoaosganhoscomaagricultura,analisaquese for fazer os clculos naquela poca sobrava mais do que atualmente, se usava mais a mo-de-obra e esta era remunerada. Hoje se faz mais rea com mquina e veneno, o custo de produo mais alto e sobra menos.Destacatambmumapreo-cupaocomaatualfasedaagricultura,dizendoquehoje temos tambm novas doenas no feijo, na soja que na poca no tinha. Isto est preocu-desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA10pando e como ser no futuro? Como controlar estas novas doenas, alm do custo elevado do controle?,finalizaele.cenrio dA dcAdA de 1970 e 1980 e A exTenso rurAl A pArTir do depoimenTo de TcnicosOtextoelaboradoporEroniBertglio,engenheiroagrnomoquetrabalhounoSudoesteporumperodode13anos,de1973at1986,mostraarealidadedaregionaqueleperododarevoluoverde.Eroniassessoroucooperati-vase,pordezanos,exerceuafunodeChefeRegionaldoInstitutoEMATER,almdeexercerafunodeprofessor,deatuaremrgosdedefesaambientaleestudarasquestespertinentesaosproblemasdomeiorural.Lembraque,na dcada de 70, a regio v a transformao de seus sistemas agrcolas diversificados, em sistemas de monoculturas, sob os efei-tos da revoluo verde, progresso tecnolgico pela via do avano gentico nos principais gros.ComrecursosdoProgramaCorredoresdeExportao(BID-256-SF-BR),existiramrecursosdecrditoruralemabundnciaparaconstruodesilosgraneleirosparaascooperativasrecm-constitudasoumaisantigas.Paraosagricultores,crditodeinvestimentoparadestoca,aquisio do equipamento paramecanizao agrcola e custeio para asatividadesdesoja,fomentadasporcontadeexcedentesexportveis,comdemandainternacional,paraequilibrarabalanadepagamentos,devidoimportaodepetrleo,duranteacrisedele.Essefenmeno,auxiliadoporsubsdioscomoreduode40%nocusto dos fertilizantes e em aquisio de calcrio,mais preos interna-cionaisdasoja favorveisnomercadointernacional,agregaramrendaamuitosprodutoresqueadquirirammaisterrasnaregioouforadoEsta-do,tendocomoconseqnciaomaiorxodoruraldahistriaparanaense,comaperdademaisdecemmilpropriedadesemdezanos.Eronianalisaaatuaodaextensoruraloficialnadcadaposte-rioreosrumosqueforamtomados.Consideraquenosanos80,aexten-so,apsrefletirsobresuaatuao,formataoModelo80,quetinhacomopremissasEducao,ParticipaoeRealidade,utilizandotambmcomoestratgiaavisodapropriedadecomoumtodoeinstrumentosdegestoagrcola.Atecnologiademanejodepragasdasoja,desenvolvidapelaEM-BRAPASoja,repassadaaosprodutoresdiminuindoocustodeproduoeacontaminaodomeioambiente.Tambmseiniciamasprimeiraspreocupaescomomodeloagro-qumicodarevoluoverde,atravsdediscussonaAssociaodosEn-genheirosAgrnomoseinstituiesdosagricultorescomoaASSESOAR,propondomodelosmaissustentveiseapropriadosparaumestratofundi-riopredominantede20a50ha(80%daspropriedades)ecomotimizaodorecursomaisabundante(mo-de-obra)emdetrimentoaoescasso(terraecapital),comofruticulturaeatividadeleiteira.11nilton luiz FritzNessadcadaaconteceoplantiodofeijoDelfim,alusoaomi-nistrodaAgriculturaqueincentivouoplantiodefeijoforadapocare-comendadapelapesquisa,compromessa,nocumprida,decoberturadoPROAGRO.Emparalelo,ofrigorficoCOMABRAHEIZ,dePontaGrossa,absorvedordepartedaproduodesunos,nopagaaossuinocultoresenodevolveasNPRsendossadasporelesenegociadascomosbancos.Acrisetorna-setograndequeosmovimentossociaisesindicatosseorga-nizameprotestamempraapblicaenasrodovias.Essefato,ligadoaosexpulsospelasbarragensIguau,servemdebaseparaaconstituiodoMASTESeMASTRO(MovimentodosAgricultoresSemTerradoSudoes-teeOeste,respectivamente).No plo contraditrio surge o movimento do patronato, criando, em Marmeleiro, a Sociedade dos Amigos da Terra, que se armou para enfrentamento aos sem-terra, dando origem ao processo embrio-nrio da UDR, a quem forneceu lideranas,lembraEroni.Em1983 a extenso fazia nova reflexo e redirecionava suamis-so, incluindo comopblico sem-terra, arrendatrios e assalariados ru-rais,passandoafazerusodemetodologiasparticipativas.Tambmfazpar-tedaspropostasdegoverno,atuaoemabastecimentocomacriaodefeiraslivres(doprodutor)edeprodutosdepoca.Comorespostaaosprocessoserosivosocasionadospelamconser-vaodosoloe incentivadospelos recursosdoProgramaParanRural,nosmunicpiospropciosmecanizaointensiva,aextensoruralpassaausarcomounidadederefernciadetrabalhoasmicrobaciashidrogrfi-cas.Nas reas com solos de baixa aptido, foi difundido o uso de tecnolo-gias como o cultivo mnimo, com uso de adubos verdes e pouco revolvimento do solo,concluiEroni.depoimenTo de Joo srgio cAnTerleJooSrgioCanterle,engenheiroagrnomo,trabalhounoInstitutoEMATERde1975a1987,iniciandoseutrabalhoemArapongas,regiodeLondrina.AtualmenteresideemFranciscoBeltro,exercefunotcnicaemescritriodeplanejamentoagrcolaeatuatambmcomoprofessornoensinosuperior.Noinciodesuasatividades,em1975/76,participoudodesenvolvimentoedadifusodetecnologiaspioneirascomvistasaoequilbriodomeioambiente.Aolembrarasaesdapoca,relataqueeram realizadas 6 a 7pulverizaes de agrotxicos para controle de lagartas e percevejos da soja. Os produtos usa-dos eram principalmente os clorofosforados e organoclorados, estes hoje proibi-dos por apresentarem caracterstica de acumulao nos organismos. Assim que as primeiras lagartas surgiam, eram aplicados venenos, o que causava desequi-libro nas lavouras. At ento existiam poucos herbicidas de pr- e ps-emergn-cia, sendo os inseticidas os agrotxicos com maior utilizao. Destacaquefoi trabalhado com os agricultores de que a planta su-porta algum desfolhamento sem que isto afete a produo, alm de preservar desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA12os inimigos naturais.Erafeitaabatidadepanosemanaleobservadoodesenvolvimentodaspragaseinimigosnaturais,difundindo-seessatecno-logiaentreosagricultores.Empoucotempoasaplicaescaramde6a7para1a2pulverizaesduranteociclodacultura.Atravsdaobservaoverificou-sequeocorriamortede lagartassemusodeinseticidas,emfunodeumaocorrncianaturaldevrus(ba-culovrus)naslavouras.NesteperodoaEmbrapapesquisouaslagartasatacadasporvruse,emparceriacomaextensorural,osagricultoresforamorientadosparaqueaspulverizassemaslagartasinfectadascomovrus,naproporode50lagartasinfectadasporha.Elesasguardavamemrefrigeraoparapul-verizao nos anos seguintes. Este trabalho inicial foi desenvolvido emparceria entreExtensoRural (Acarpana poca) eEmbrapa, na regioNortedoEstado.Apartirdaosistemademanejodepragas,incluindoocontrolebio-lgicodalagartadasoja,passouaserprioridadenasregiesprodutorasdesoja.Noanode1977JooSrgioveiotrabalharnaregiodeFranciscoBel-troeobservouqueaquitambmhaviamuitasaplicaesdevenenosnasla-vouras.Materialtcnicofoiproduzidoe,numaparceriacomascooperativasda regio (COAGRO,CAMDUL,COOPERSABADI,COMFRABEL), foramrealizadosencontrostcnicos,unidadesdemonstrativasediasdecampo.Canterleobservaquea mulher no queria que as lagartas fossem guar-dadas na geladeira, alegando falta de higiene, porm eram acondicionadas em recipientes de vidro.Ageladeiraeraumbemdeconsumoqueestavasepo-pularizandonas comunidades.Diminuindo as pulverizaes, os inimigosnaturaisforamsedesenvolvendo.Emmeadosdadcadade1980,obaculo-vruspassouaserproduzidoemlaboratrios,inicialmentepelaEmbrapaeOcepar,hojeCoodetec,enaseqnciatambmporoutrasempresas.Com a entrada do plantio direto e o aumento da utilizao dos herbi-cidas ps-emergentes, os agricultores passaram a aplicar o inseticida junta-mente com os herbicidas e os princpios de manejo integrado de pragas, in-cluindo o uso de baculovrus, foram um pouco esquecidos. Outro fator que tambm contribuiu para que essa prtica fosse relegada a segundo plano foi a elevao do preo da soja em alguns perodos,analisaJooSrgio.controle Biolgico do Pulgo do trigoOutratecnologiadecontrolebiolgicodifundidanaqueleperodo foi adis-seminaodevespinhas(microhimenopteros)paracontroledepulgesdotrigo.JooSrgioobservaquea origem de algumas espcies de vespinhas foi de pases da Europa, atravs de importaes realizadas pela Embrapa/Trigo de Passo Fundo. Foram introduzidas nas lavouras da regio do incio da dcada de 1980. Eram transportadas em caixas com plantas de trigo (ovos e vespinhas nascendo), e distribudas nas lavouras para o controle dos pulges. O pulgo 13nilton luiz Fritzera uma praga muito prejudicial cultura do trigo, exigindo vrias aplica-es de inseticidas para o seu controle, caso contrrio corria-se o risco de no produzir. A partir do final da dcada de 1980, so raras as situaes em que h necessidade de aplicaes de inseticidas para o controle de pulgo apesar de sua ocorrncia, devendo-se esse fato ao controle biolgico da vespinha que vm atuando at nos dias atuais. Neste perodo, embora num contexto desfa-vorvel, essa tecnologia conseguiu mostrar sua eficincia. Tanto o manejo de pragas da soja com o uso de baculovrus, como a utilizao da vespinha para o controle de pulges, foi viabilizado dentro da agricultura convencional, ca-racterizada pela monocultura numa poca que se priorizava principalmente a viso econmica, sendo o enfoque ambiental pouco enfatizado,finaliza.TrAbAlho de AgroecologiA nos municpiosQuadro 1 Tcnicos do instituto EMATER com atuao em agricultura orgnica no Sudoeste do ParanMUNICPIO TCNICO TELEFONE E-MAILCapanema Gilmar Gobato (46)3552-1060 capanema@emater.pr.gov.brCruzeiro do Iguau Marcos Bourscheid (46)3572-1284 cruzeirodoiguacu@emater.pr.gov.brDois Vizinhos Valdir da Silva (46)3536-5884 doiszvizinhos@emater.pr.gov.brEnas Marques Adair Rech (46)3544-1395 eneasmarques@emater.pr.gov.brFrancisco Beltro Nilton Luiz Fritz (46)3523-3821 niltonfritz@emater.pr.gov.brMarmeleiro Valdir Felberg e Sady D. A. Grisa (46)3525-2236 marmeleiro@emater.pr.gov.brPlanalto Libanor Viesseli (46)3555-1303 planalto@emater.pr.gov.brRealeza Odir Basso (46)3543-1122 realeza@emater.pr.gov.brRenascena Leandro Molinetti (46)3550-1394 renascenca@emater.pr.gov.brSalto do Lontra Valdir Koch (46)3538-1468 saltodolontra@emater.pr.gov.brSo Jorge do Oeste Jair Klein e Sidney Carneiro (46)3534-1855 saojorgedoeste@emater.pr.gov.brVer Neuri Beche (46)3535-1396 vere@emater.pr.gov.brEmater Regional de Fco. Beltro Ericson Max (46)3524-2021 erfranciscobeltrao@emater.pr.gov.brClevelndia Otto Bruno Becker (46)3252-2017 clevelandia@emater.pr.gov.brSaudades do Iguau Rosane Dalpiva Bragatto (46)3246-1169 saudadesdoiguacu@emater.pr.gov.brFonte:dadosdecampo(maio/2007).Org.FRITZ,N.L.(2007).municPio de cAPAnemADeacordocomGilmarGobato,tcnicoemagropecuriaeextensionistadoInstitutoEmater,aagriculturaorgnicanomunicpiodeCapanemaini-cioujuntocomacolonizao.Mesmosemsaber,oscolonizadoresadota-ramasprticasdeno-usodeagroqumicosnaagricultura,contudo,apsarevoluoverde,partedosagricultoresadotaramasnovastecnologiasetodosoroldealternativasdeinsumosparaaagricultura.Comooscoloni-desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA14zadoresdomunicpionagrandemaioriaeramalemeseitalianos,tinhamcertaresistnciaaousodospacotestecnolgicosofertadosnapocaenoutilizaram agroqumicos por longo perodo, influenciados pela tradioherdadadospaisnosistemadeexploraoutilizado,ondeaagriculturaorgnicaeraumaprticamuitocomumentreosagricultores.No inciodosanos1990asentidadesde representaodosagri-cultores fortaleceram esta discusso focando um sistema diferente deagricultura,opondo-seaospacotestecnolgicosofertadospelomercado,incentivadospelaslinhasdecrditoparaaagricultura.Em1993/94asentidadesderepresentaodosagricultores,especi-ficamenteosindicatodostrabalhadoresencampouessetrabalhoejuntocomumaempresadecomercializaoiniciaramosprimeirostrabalhos,jcomvistaacomercializarosprodutoscomoprodutoorgnico,jcomcer-tificaoecompreodiferenciado,conseguindoosprimeirosresultadoscomaculturadasoja,quesemostroucommercadoparacomercializarecompossibilidadedecomercializaodestinandoaproduotodavoltadaparaomercadoexterno.Asorganizaesdosagricultoresforamseampliandonosmaisdife-rentessegmentosdaagricultura,semprevoltadasparaoprincpiodepro-duodiferenciadaquevalorizasseotrabalhodoagricultor,maspassaramadefenderumaindependnciamaiordosagricultoresnumabuscadedi-versificaraproduoedeixardeserdependentedeumaempresaquemo-nopolizavaacomercializao,pormnaseqnciaoutrasempresasapare-ceram.Ofocoerasomentenaproduodesoja.NestafaseoInstitutoEMATERteveparticipaopontualnestasati-vidades,apoiandoasiniciativas.Em2001teveincioumtrabalhoorientadopelaAssesoarnoramodadiversificaodaspropriedadescomproduodeolericulturaeinciodafeiraorgnicamunicipal.NestafasehouveumaparceriaentreSindi-cato,PrefeituraeagricultoreseoEMATERiniciouumacompanhamentomais sistemticodos agricultores envolvidosnesteprojetoorgnico.NoperodotambmfoicriadoumtrabalhocomlideranasdoSindicato,Cre-soleACECAPparaformaodeumgrupodeagentesdedesenvolvimentonomunicpio,comparticipaodasentidadesdosagricultoreseEMATER,tendocomofocoaproduodiferenciada,adiversificaoeoresgatedesementescrioulas.Em2002foirealizadaaprimeiraFeiraMunicipaldeSementesjuntoFeiradoMelado.ComrecursosdoParan12Mesesforamadquiridasestufasema-teriaisdestinadosproduoeorganizadosgruposdeagricultorescomprogramaodeproduo,melhorianaqualidadedosprodutosenaem-balagem.AFeira,queerarealizadaumavezporsemana,foiinsuficienteparaacomercializao.EmfunodissoaFeiraMunicipalfoitransfor-madaemumpontodevendadefinitivo,comparticipaodaACECAP(As-15nilton luiz FritzsociaoCentral dosAgricultoresFamiliares deCapanema), e produtostambmdaagroindstria.Ovolumedeprodutoscomercializadosnoen-tanto,necessitavadeumalegalizaoquenoexistiaporpartedaCentraledestaformaentofoiconstitudaaCoperfac(CooperativadosAgriculto-resFamiliaresdeCapanema),quepassouacomercializarosprodutosdosagricultoresnopontodevendaatualmentedenominadoLojadoAgricul-tor.Estaexperinciainspirouodesenvolvimentodetrabalhossemelhantesemoutrosmunicpios,envolvendoumcircuitoregional,formandoentoaCoopafi,queatualmenteatuaemdiversosmunicpiosdaregiodandosu-porteparaoperacionalizarprogramasfederaisdecompradeprodutosdosagricultoresecomercializaodosprodutosdaagriculturafamiliar.Nestetrabalhofoipossvelampliaradiversidadedeprodutosorg-nicoscomagregaodevalor,diversificandoasunidadesdeproduoqueestavamconcentradasbasicamentenasoja.Asempresasparticularessempreexpressavamestapreocupaoenecessidadedediversificao,massomentenosltimosanosocorreuumainiciativamaiorporpartedelasaoseinseriremnasorganizaesdosagri-cultoreseteremladomaissocialecomunitrio,buscandosermaispar-ceirasedesenvolveraesplanejadas,discutindoaspropostasdetrabalho,buscandoalternativasdeagregaodevalorediversificaodosprodutos,principalmentenatransformaodaproduo.ParaCelso Prediger, agricultor e dirigente do SistemaCoopafi a agricultura orgnica ou agroecolgica em Capanema tem contribudo de for-ma significativa no desenvolvimento local, sendo pela produo e oferta de alimentos limpos populao, pela responsabilidade social e ambiental com que so produzidos estes alimentos, buscando a sustentabilidade nas uni-dades de produo, com equilbrio e resgatando os valores perdidos. A agri-cultura orgnica uma atividade percebida e reconhecida pela populao de Capanema, populao esta que est cada vez mais consciente da importncia deste tipo de alimento.municPio de cruzeiro do iguAuOInstitutoEMATER,emparceriacomaSecretariaMunicipaldaAgricul-tura,vmdesenvolvendotrabalhonosistemaorgnicodeproduodesdeoanode1997,comafundaodaASFRUCI(AssociaodeHortifruticul-toresdeCruzeirodoIguau).Nesselongopercursotiveramoutrosparcei-ros(PRO-CAXIAS,MAYTENUS,SEBRAEeCAPA),quesomaramesforosemalgunsmomentoseemdeterminadasatividades.Conscientizadosdanecessidade da diversificao de atividades na propriedade familiar, foiimplantadoumabatedourodiferenciadode frangocaipira,comregistronoSIP,em2002.Estaproduoencontra-se integradacomoutrasativi-desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA16dades,comoafruticulturaeaolericulturaorgnica.Naatividadeleiteiratem-seprocuradoproduzirleiteequeijodeformamaisnatural,enquantoque,naproduodecereais,agricultoresreceberamequipamentosapro-priadossuarealidadeparaimplantarumaagriculturasaudvel.Busca-seumtrabalhointegradodentrodaspropriedades.Avisoholstica,agroeco-lgica,agroflorestaleorganizativa,levandoemcontasempreaformaointegraldoserhumano,temsidoabssolanorteadoradoPlanodeDesen-volvimentoRuralnomunicpiodeCruzeirodoIguau.ParaMarcosAntnioBourscheid,engenheiroagrnomoeextensio-nistadoInstitutoEMATER,emCruzeirodoIguauconstata-seumcresci-mentoabaixodamdianacional(cercade20%aoano),pormofatorele-vanteque,deformaconsistenteeconsciente,aproduoorgnicavemavanando,oqueseverificaemtodososaspectosdascadeiasprodutivas.Osgargalosdoprocessoprodutivo,comotransporteearmazenagem,estosendosuperados.Acomercializaovemsefortalecendo,principalmentecomaaquisiodeumcaminhoparaaASFRUCIeaCOOPAFI,aamplia-odasparceriaseaconstruodosistemaderedeCOOPAFI.Estepano-ramarefleteaboaperspectivadaproduoagroecolgicanomunicpio.DanielMeurer,secretriomunicipaldaAgriculturaeagricultor,con-sideraquesoboasasgarantiasdeumfuturomelhorparaaagriculturaorgnicaemCruzeirodoIguau: pelotrabalhoexistentehnoveanos,aestruturadequedispemasAssociaesASFRUCIeCOOPAFI,eoapoiodoEMATERedaPre-feituraMunicipalatravsdaSecretariaMunicipaldaAgricultura; pelarealidadedomercadoatual,emquesebuscaumalimentodemelhorqualidade; pelaconscinciadoagricultoreadiversificaonasatividadesagrcolas; pelapreservaodomeioambienteatravsdeumaagriculturalim-pa(orgnica); pelaestruturaregionalnaagriculturafamiliar.municPio de enAs mArques DeacordocomAdairRech, tcnicoemagropecuriae extensionistadoInstitutoEMATEReInoirTesser,secretriomunicipaldaAgricultura,noanode2004iniciou-seadiscussodeimplantaodeumaestruturaparaprocessamentoerecebimentodeprodutosorgnicospelo fatodeexistirumaunidadedetransformaodemilhoetrigoemfarinha,queestsen-doadministradaporumaassociaodeprodutores(ADCEMAssociaodeDesenvolvimentoComunitriodeEnasMarques).EssaestruturafoiamparadacomrecursosdoFUNDECenquantoumsecadordecereaispeloprojetoParan12Meses.1nilton luiz FritzAs estruturas j existentes fortaleceram a viabilizao do investi-mento financeiro doPRONATnum valor deR$ 252.400,00 (duzentos ecinqentaedoismilequatrocentosreais)paraaconstruodeumacen-tralderecebimentoedebeneficiamentodeprodutosorgnicos(soja,mi-lho,trigo,pipoca,feijo)produzidosemtodaregio.Atualmenteaobradocentroderecebimentodosprodutosorgni-cosestemfasedeconcluso.Ocomplexoseradministradoporuma instituiorepresentativadosagricultoresfamiliaresdosetordaagroecologiadaregio.DeacordocomOrleyJayrLopes,engenheiroagrnomodoEmaterRe-gional,aimplantaodeunidadederecepo,beneficiamentoearmazena-gemdegrosorgnicosecapacitaodeagricultores familiaresobtevere-cursosdoPRONAT ApoioInfra-EstruturaeServiosTerritoriaisem2005,RecursosPrprioseProjetoTerritrio/MDA,conformedescrioabaixo:1) Construodeumbarracoemalvenaria,pr-moldado,compiso,dimensesde40x15metros,destinadoaabrigarmquinaseequi-pamentosderecepoebeneficiamento.2) Construodeumamoegadedoismdulos,pararecepoedepsito.3) Promoodecursosdecapacitaoemproduoorgnica.4) Produodemateriaisdedivulgaoemarketing dosorgnicos.Valordoinvestimento:R$219.605,00(itens1e2).Valordocusteio:R$26.000,00(itens3e4).Oproponente,PrefeituraMunicipaldeEnasMarques,disponibili-zouareaparaainstalaodoempreendimentoemlocalcontguoaumsecadordegrosquedeverserutilizadoemcomodato.Nomomento,estemdiscussooprocessodegestodaUnidade,umavezqueasassociaesexistentesnopodemserhabilitadasparaopro-cessodecomercializao,ouseja,compraevendaeprestaodeservios.municPio de FrAncisco BeltroOtrabalhodeAgriculturaOrgnicaemFranciscoBeltroteveincioemmarode1997,ocasioemqueaSecretariaMunicipaldaAgricultura(en-genheiraagrnomaInsBurg)eEMATER(engenheiroagrnomoNiltonLuizFritz),discutiramapropostacomosfeirantesdomunicpio,almdeoutrosagricultores,queoptaramemaplicarosprincpiosdaAgroecologianapropriedadedeRosimarMarchiori.Apsestudotcnicodaatividade,foramaplicadososconhecimentosemolericulturaefruticultura.Posteriormente,em1998,oAssentamentoMissesiniciouotraba-lhodeAgroecologia,destacandoaproduodegros(soja,milhopipocaemilho).desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA1Noanode1999,aFeiradoProdutor,quefuncionaatualmentenaPraaCentral,comatividadedesde1978,adotoucomoprincpioaprodu-oorgnicadealimentos.Apartirdaqueleano,osnovosfeirantes,paraseremaprovados,devemterproduosomenteorgnica.Noano2000foiiniciadaaFeiraEcologianoBairrodaCango,comagricultoresfamiliaresoriundosdoProjetoVidanaRoae,posteriormen-te,noBairroVilaNova.Noanode2003,oGrupoRenascertambminiciouaatividadeemgros,leite,olericulturaeovosorgnicosemparceriacomaEmpresaGra-lhaAzul.PorocasiodaXXIExposioFeiraIndustrial,ComercialeAgrcoladeFranciscoBeltro(Expobel),entreosdias6e14demarode2004,foirealizadaumaMostra de Produtos Orgnicos do Sudoeste, coordenadapeloInstitutoEmater emparceriacomdiversasorganizaes,comexposi-ode53produtosoriundosdaAgriculturaFamiliar.Noanode2005,oInstitutoEmatereparceriasrealizaramumSemi-nrioRegionaldeHomeopatiaAnimal.Atravsdaexperinciaadquiridanaregio,contriburamtambmemeventosnoEstado,taiscomo:a)apresentaodosistemadeproduodesojaorgnicadoSudoesteemPontaGrossa-PR,no10EncontroNa-cionalcomaSoja,em20/05/2004;b)XVIEncontrodeProdutoresdeSojadePaiandu-PR,nortedoEstado,em24dejunhode2005;ec)IParanOrgnica,de1a4dedezembrode2005.dePoimento de Agricultor ecolgicoValdirBuenoGomesesuaesposaCleodetesoagricultoresfamiliareseco-lgicos residentes na comunidadeOsvaldo Cruz, em Francisco Beltro.SoassentadospertencentesaoGrupoRenascerdoCrditoFundiriodes-de2003,emumareade5,0alqueires(11,92ha).Possuemproduodeleiteecolgico,utilizandoahomeopatiaani-malhquatroanos,nohavendonecessidadederecorreraoutrosmto-dosparapreservar a sanidadedosbovinos.Napropriedade j notadaumagrandepopulaodobesouro(Scarabeus sacer),querealizaaincor-poraodoaduboorgnico,contribuindoparaafertilizaodosolo,insetoestequesomentesobreviveemambientesequilibradosecologicamente.Essesagricultorestmtambmaproduodemilhoeumaviriode4.000avesdeposturacertificadoemparceriacomaempresaGralhaAzulAvcola.Aoserperguntadosobreoporqudetrabalharcomagroecologia,elefoicategrico:Eu acho que o melhor para a sade. A sade coisa mais importante que eu vejo. O custo de produo menor e sobra mais ren-da para a gente. 1nilton luiz FritzValdircomentaqueantes de 2003 plantava utilizando agroqumi-cos, mas s trocava dinheiro, porque o que colhia s dava para pagar os insumos.Valdirtambmlembradeumfatoocorridonapocaemqueutili-zavaadubosaltamentesolveis.Ocorreuque,aoabrirumsacodeuria,sedeparoucomumfolhetoquealertava:este produto no pode ter contato com a pele que pode ser cancergeno. Imagina as pessoas consumirem isso ou dar para os animais? IndagouValdir,horrorizado.Tambmlembradeoutromomento,emqueassistiaaumdebatesobreasintoxicaes,emqueodebatedorrelatouquehoje as mulheres se intoxi-cam mais do que os homens, porque elas lavam as roupas dos maridos que apli-cam os venenos e assim recebem toda a carga txica que se encontra na roupa.dePoimento de entidAdes rePresentAtivAs dos Agricultores sTrefeTraf-sulPosioconjuntadadireodoSTR(SindicatodosTrabalhadoresRurais)deFranciscoBeltroedeLuizPerin,dadireodaFETRAF-Sul:Nosso ponto de vista sobre a importncia da produo agroecolgica no Brasil e no mundo se baseia sobre trs fundamentais aspectos, o primeiro aspecto o de buscar a sustentabilidade ambiental, econmica e social.Osegundoaspec-toabuscadaqualidadedevida,qualidadenaproduoeumalimentolimpo,garantindoassimumaboasadeatodasaspessoas.Emumter-ceiroaspecto,procura-seoganhoeconmicodeumsistemadeproduoagroecolgicasemagressoaomeioambiente.Por isso defendemos um modelo de produo baseado no desenvol-vimento sustentvel e solidrio, onde os instrumentos de polticas pblicas, tais como crdito educao/formao e ATER, estejam ao acesso de todos os agricultores e com isso fortalecer cada vez mais o desenvolvimento, o fortale-cimento da agricultura familiar.cresolACresol de Francisco Beltro decidiu,juntoaoseuquadrosocial,pri-vilegiaroscooperadosquepraticamaagroecologiaouaquelesagriculto-resquedesejamcompraraduboorgnicopararecuperaoda fertilida-dedosolo.WilmarVandresen,presidentedaCresoldeFranciscoBeltro,observaqueestamos operacionalizando emprstimos a juro mais barato, utilizando de recursos da prpria Cooperativa. Estamos tambm realizando ensaios de milho variedade em trs propriedades do municpio, com acom-panhamento tcnico, avaliando os experimentos e divulgando os resultados junto ao quadro de associados. LuizAdemirPossamai,vice-presidentedaCentral Cresol Baser,in-formaqueoSistemaCresoltemcomoorientaodadireoedaequipedesenvolvimento territoriAl e AgroecologiA200tcnicaquesejadadaprefernciaparaaproduoorgnicaoualternativa,paraqueoagricultornofiquenadependnciadosagroqumicos.Esta-mos incentivando, alm do resgate da adubao verde, o resgate de sementes de milho variedade e feijo. No Sudoeste e em todos os municpios onde tem unidade da Cresol, temos trabalho de campo com resgate de sementes. Temos tambm financiamento com juro diferenciado para recuperao do solo com adubo orgnico.coopafimunicipaldefranciscoBelTroAlmirCalegari,presidentedaCOOPAFIdeFranciscoBeltro,acreditaque,no contexto da agricultura familiar, a COOPAFI Municipal est para dar apoio comercializao dos produtos de subsistncia e tambm o excedente do consumo dos agricultores que no uma produo muito elevada, mas sim uma produo de suma importncia para as famlias da cidade e do campo.Eleanalisaqueos desafios so muitos na questo da logstica, na comercializao, j que no temos um transporte adequado. Tambm no temos local adequado para o armazenamento destes produtos. Como agricul-tores, ainda no temos o hbito da produo constante, continuada destes produtos, nem as estruturas montadas comportam uma produo de todos os meses do ano. Nossos agricultores familiares no tm as estruturas ideais para esta produo o ano todo. Por isso a COOPAFI Municipal est a servi-o para dar este suporte de comercializao, com o desafio de tambm fazer circular os produtos da agricultura familiar de um municpio para outro. Outro papel tambm na venda institucional dos produtos da agricultura familiar,completa.clafcooperaTivadeleiTedaagriculTurafamiliardefranciscoBelTroDeacordocomadireodaCLAF,existeumapreocupaomuitograndenaproduodeleitesemusodeprodutosqumicos.Comissoestamos fazendo um trabalho de acompanhamento tcnico com o propsito de orientao em produzir leite base de pasto. Tambm temos buscado alternativas e tcnicas naturais para a produo do leite. Isso pode se dar desde a recuperao do solo com MB4, com semente para cobertura do solo, produtos homeopticos, for-micidas naturais para controle das formigas, homeopticos para controle de mastite e parasitas, entre outras formas naturais para uma produo de leite mais saudvel. Com um manejo adequado com os animais, tambm se pode dispensar em grande parte o uso de produtos que agridem o meio ambiente. Na alimentao tambm se podem evitar gastos como o uso de MB4 para comple-mentao dos micronutrientes que faltam em nossos pastos.Comessasalternativas,osassociadosdaCLAFtmconseguidoseviabilizaremsuaspropriedades.Tivemos um crescimento em mais de 50% na produo de leite dos nossos associados. Esperamos fazer ainda mais para consolidar essa cadeia produtiva.201nilton luiz FritzmunicpiodemarmeleiroConformeinformaesdeSadyGrisa,engenheiroagrnomoeextensionis-tadaEMATER,aproduocomercialdeprodutosorgnicosnomunicpiodeMarmeleiroteveincionoanode1998,comaempresaGAMA,aqualviabilizavaacertificao,atravsdoInstitutoBiodinmico,eacomerciali-zao.Estaproduocentradanaculturadasojae,hoje,comaempresaTOZAN,dezprodutores.Halgumasiniciativaspontuaiscomoutrasculturasnocertificadas,sendomaisintensasnaproduodeolercolasemilhodepipocaatravsdaCOOPAFI(CooperativadeProduodaAgriculturaFamiliarIntegrada).Anteriormente, conforme divulgado em jornal no ano de 1997,ocorreuocultivodesojaorgnicaatravsdaempresaAgrorgnica,daFamliaPerin.municpiodeplanalToConformeinformaesdosextensionistasetcnicosemagropecuriaLi-banorViesellieSrgioDelani,oEmaterdePlanaltoacompanhoucursorealizadonoanode2003peloInstitutoMaytenus,com16produtores,nalocalidadedeSantaTerezinha,municpiodePlanalto.Apsesteperodo,oenvolvimentocomaproduoorgnicaficouacargodasempresasAgror-gnica,Gebana,eTerraPreservada.municpiodeproladooesTeDeacordocomoextensionistadoInstitutoEmaterLibanorVieselli,noanode2002a2003,oInstitutoMaytenus,emconvniocomoSEBRAE,ini-ciouumcursoquetambmteveumapartedeacompanhamentodoEMA-TER.Em seguida inclumos o grupo de produtores orgnicos na microbacia Lajeado Grande. Aps este passo, houve cadastro de todos os produtores no programa Paran 12 Meses e a elaborao dos seguintes projetos: Calcrioparaumgrupode14famlias (LinhaVitria),aproxima-damente250toneladasaovalordeR$8.000,00sendopraticamente100%destevalorsubsidiado. Espalhadordecalcrioeaduboorgnico;comcapacidadede5to-neladas,foiviabilizadoumequipamento,viaprogramaParan12Meses,comsubsdiode70%,restandoparaogrupopagarapenasR$2.100,00eosrestantesR$7.900,00aserempagosviaprograma. Roadeirascostais;viaprogramaParan12Meses,foiviabilizadaaaquisiode14unidadescomsubsdiode100%,asquaiscusta-ramR$12.600,00,emreasdeproduodegrosorgnicos. Equipamentosparairrigao;viaprogramaParan12Meses,foiviabilizadaaaquisiodecanosedebombaparairrigaodeoler-colasorgnicasparaprodutoresfeirantes.desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA202NomunicpiodeProladoOeste,ograndeenfoquedosorgnicosestnaproduodegros,eempequenaescalanaproduodeolercolas,sendoaassistnciatcnicafornecidapelaGebanaeTozan,deCapanema.municpioderealezaParaOdirBasso,tcnicoemagropecuriaeextensionistadoInstitutoEMA-TER,emjulhode2002foilanado,emRealeza,oprimeiroencontrosobreagriculturaorgnica,comapresenade103agricultoresfamiliaresinteres-sadosnocultivodeprodutosorgnicos,sendoque38destesseinscreveramparacursode12etapasemconjuntocomEmatereInstitutoMaytenus.Foi o incio da converso das propriedades para cultivo de org-nicos.Aprefeituradomunicpiodisponibilizouumareade45haparaplantiodesojaorgnicaeposteriormentetrigoemandioca.Nesseespaofoirealizadoo1EncontroRegionaldeGrosOrgnicosdoSudoestedoParan,comdiadecampo.Comaperspectivadebonspreosdasojaorgnica,26produtoresefetuaram,nesteperodoplantio,desoja,totalizandoumareade390ha,emandioca,comumareade76ha,almdefeijo,commais14hanosanosde2002,2003e2004.Ocorreu,porm,aquedadospreos,aestiagemnosltimosdoisanos(2004e2005),eaentradadasojatransgnicaquedesestimularamosagricultores.Nestes perodos foram efetuados vrios encontros com eles, comobjetivodefabricaodeprodutosorgnicos(biofertilizantes),ediasdecampoemnvelmunicipaleregional,comexcursesparaSoJorge,PatoBrancoemunicpiosvizinhos.Osprodutossocomercializadosemfeirasnomunicpio,compradiretaCONABeempresasdaregio.municpioderenascenaDeacordocominformaesdosextensionistas,otcnicoemagrope-curiaAlbertoNerciMuller(atualsecretriomunicipaldaAgricultura),atcnicasocialMariaHelenaFracasso,doInstitutoEMATER,eotcnicoemagropecuria LeandroMolinetti, do convnio PrefeituraMunicipal/EMA-TER,aAgriculturaOrgnicacertificadateveincionomunicpionadcadade1990,comaculturadasoja.Deinciofoiimpulsionadapelosaltospreospagosaosprodutoresorgnicos,quetivera,seunmerodeadooreduzidoposteriormenteemfunodeque,nomesmoperodo,osistemadeprodu-oconvencionalaumentouaprodutividadeconsideravelmente,bemcomovalordasojaaproduzida.Naagriculturaorgnicahouvediminuiodosvalorespagos,pelafaltadetecnologiaadequadaepelafaltadematuridadedestesagricultores,quemigraramparaosistemaconvencionalnoanode1999.Entosurgiuumnovopblico,oqual,semcondiesdeseadaptaraosistematradicional,optoupeloorgnico.Estepblicoestavaexcludodo203nilton luiz Fritzsistemaconvencionalpelafaltadecondiesdeordemeconmicaetcnica.NomomentocomestaagriculturaqueoInstitutoEMATERvemdesenvol-vendosuasaes.Soagricultoresdereasdeassentamentocujaagricul-turaorgnicaapresentacrescimentoemculturascomomandioca,batatadoce,hortaliasdiversasefrutas.Aculturadasojaestemdecrscimomui-tosignificativoemfunodoaumentodeocorrnciadedoenas,resultandonabaixaprodutividadeeinviabilizandoaatividade.AtualmenteaEMATERestatendendoaproximadamente20produtoresorgnicos.Algumas propriedades do municpio, paralelamente produoconvencionaldegros,trabalhamcomFruticulturaeOlericulturanosis-temadeproduoorgnica,utilizandoapenascaldasefertilizantesorg-nicosdebaixasolubilidade,pormnopossuemcertificao.Umapartedaproduocomercializadacomossupermercadosdomunicpio,masamaioriadelacomercializadacomaCONAB,quedestinaosprodutosparaamerendaescolaratravsdoprogramaFOMEZERO.Essesproduto-resconstituram,comoapoiodoEMATER,umaassociao(APARAsso-ciaodosProdutoresFamiliaresdeRenascena),queresponsvelpelaadministraodosrecursosenviadospelaCONAB,equenofuturodeverdesempenharoutrasaesemproldodesenvolvimentodosagricultoresfamiliares.Aassistnciatcnicaaessesprodutores,bemcomooauxlionaorganizaoecomercializao,prestadapeloInstitutoEMATER.Apropostadetrabalhonalinhadeagriculturaorgnicaparaesseano dar continuidade assistncia tcnica em todos os aspectos, aosprodutoresdaassociaoAPAR,ebuscarcativarnovosagricultoresparaaexploraodaatividade,quenomunicpio,comogeradoraderendaetra-balhoaindamuitorecente,carecendodemudanasnosaspectosnorma-tivos,biolgicoseeducativosedecapacitaodetcnicos,deprodutores,deconsumidoresedepesquisaparaquecresaaadoodeprodutoresquevenhamarealizaraconversodosistemaconvencionalparaoorgnicocommaissegurana.Eventosrealizadosnomunicpio: CursodeAgriculturaOrgnicaInstitutoMaytenos,com8mdulosparticipaode22agricultores(ano2000). SeminriodegrosrealizadopeloEMATERcomparticipaode200agricultorescompalestradomdicoTsutomuHigashinoano2003.CentroParoquial. Unidadedemonstrativadecultivodesojaorgnicanapropriedadedosr.JacirXavariz,realizaoEMATERPR,PrefeituraMunicipalemparceriacomEMBRAPA(ano2004). Unidadedemonstrativadecultivodetrigoorgniconapropriedadedosr.JacirXavariz,realizaoEMATER,PrefeituraMunicipalemparceriacomEMBRAPA(ano2005).desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA204 VriasreunieseparticipaoemexcursesatosmunicpiosdeCapanema,naFeiradoMeladoeProdutosOrgnicos,eemSoJor-ge,nasConfernciasdeAgriculturaOrgnicaeBiodinmica.municpiodesalTodolonTraDeacordocomValdirKoch,engenheiroagrnomoeextensionistadoEma-ter,noanode1997oConselhoMunicipaldeDesenvolvimentoRuraldeSal-todoLontra,atravsdoInstitutoEMATEReaSecretariaMunicipaldesen-volveramaesparainiciarasatividadescomproduoorgnica.NapocaaempresaTerraPreservada,deCapanema,foiaparceirados12produto-res,quecomumareade72hadesojainiciaramoprocessodeconversodaspropriedades.Estenmerodeprodutoresdesojasemanteveat2003,quando,nasafra2003/2004,caiupara8.Estesmesmosprodutoresamplia-ramaproduodeoutrasculturas,principalmentenaOlericultura.Apartirde1998,comoPr-Caxias,vriasaesforamdesenvolvidas,culminandonacriaodaAssociaodosProdutoresOrgnicosdeSaltodoLontra.Em2003,oPr-CaxiasdiminuiuostrabalhosnareaquandoaEMA-TERfezparceriacomaCAMDUL,intensificandootrabalhonaproduodesojaparasemente.Porduassafras,aCAMDULfezparceriacomprodutoresorgnicosparaproduziremsementedesojaorgnica,sendocultivados80ha.Nomesmoperodo foramrealizadoscursosde transformaode sojaorgnica em todasasunidadesdaCooperativa, trabalho coordenadopelanutricionistadoEMATERdeNovaPratadoIguau,MnicaMinosso.Destaparceriaresultouumprojetoderecepo,armazenagemebeneficiamentodaproduoorgnicaaserconstrudoemEnasMarques.Envolveram-seduasassociaesdeprodutores,queatualmentebuscamassumirasaesdesteprojeto.AAssociaodeProdutoresOrgnicosdeSaltodoLontrapossuiummercado,queatendetambmproduoconvencional,orientandoquantoasquesteslegaisparaimplantaodoprojetoFomeZeronomunicpio.municpiodesoJorgedoesTeJairKlein,engenheiroagrnomoeextensionistadoInstitutoEMA-TER, mestrando em Agroecossistemas/UFSC, relata que, ao fechar ascomportasdaUsinaHidreltricadeSaltoCaxias,aCOPELincentivouaformao de uma organizao territorial, o PRO-CAXIAS (Conselho deDesenvolvimentodosMunicpiosdoEntornodoLagodaUsinadeSaltoCaxias).Nasdiversaspropostasdetrabalho,optou-sepor incrementaraproduoorgnicanosnovemunicpiospertencentesreadeatuaodoPRO-CAXIAS.EmSoJorgeDOeste,comoapoiodoEMATER,foicriadaaAORSA(AssociaodosAgricultoresOrgnicosdeSoJorgeDOeste).Asassociaesnosnovemunicpiossearticularamparater,naregiodoPRO-CAXIAS,umGrupoGestor,ouseja,umgrupodecincoagricultoresquecoordenavamaproduodosprodutoresligadossassociaesden-205nilton luiz FritztrodosprincpiosdaAgriculturaOrgnicaearticulavamacomercializa-odeseusprodutosnosmercadosdaregio.Osprodutoresorgnicosnoinciopassaramporumprocessodeformaocontinuada,participandodeumcursoem12etapasetambmdeintercmbios,diasdecampoedi-versasatividadesparaaprimorarsuaproduo.AorganizaodoMercadodoProdutoremSoJorgeDOestesur-giucomoumfatorfacilitadoraoprocessodecomercializao.OEmaterhaviaorganizado,em1989,umaFeiradoMelado,napraadamatriz,eestaexperincialevouseustcnicosaorganizarema2FeiradoMelado,em1999,comoobjetivodepopularizarolocaldestinadoaomercadodoprodutorepromoverprodutosdasagroindstriasqueestavamsurgindonomunicpio.Comosucessodestafeiraeocrescimentodadiscussoso-breaproduoorgnicasurgiu,em2001,aFeiradaProduoOrgnica2001,eventoestequeabrangiaa3FeiradoMelado,FeiradasAgroinds-trias,ArtesanatoeIndstriaeComrcio.TodootrabalhotinhaoobjetivodepopularizarotermoProduoOrgnica,conscientizarosconsumido-resecomestaspromoesangariar fundospara fortalecerasentidadesdosAgricultoresFamiliares.Em2003,aunidadeLocaldaEmaterdeSoJorgeDOesteorgani-zou,comapoiodoSENAR(ServioNacionaldeAprendizagemRural),15cursosdeAgriculturaOrgnica,ondeforamtreinados207agricultoreseagricultoras,aquemasreformasdemoradiaspeloProgramaParan12Mesesforamdestinadas.ComaarticulaodoGrupoGestornaregiodoPRO-CAXIASeenfrentandoproblemasdepoucaproduo,osagricultoresdeSoJorgeDOeste,melhorarticuladosnomunicpionaAORSAenaCA-JOR,resolveramcriarumacooperativaquepossibilitasseacomercializa-odeprodutosorgnicoseproduodeagroindstriasevisavaaatingirmercadosdaregioSudoeste.Surge,nofinaldoano2004einciode2005,aCOOTER(CooperativadosAgricultoresdaTerradosLagosdoIguau),que,noanode2006,passaachamar-se,atravsdeumaalteraonoses-tatutos,deCOOPAFI(CooperativadosAgricultoresFamiliaresIntegradosdeSoJorgeDOeste).ACOOPAFIdeSoJorgeDOestepassaaser,jun-tamentecomascooperativasdeCoronelVivida,MarmeleiroeCapanema,apioneiradeumnovosistemadecomercializao,comfoconaproduoorgnicaenaproduodeagroindstriasfamiliares.Em2005,osagricul-toresorgnicosdeSoJorgeDOesteassociadosAORSAefundadoresdaCOOPAFI, recebem,atravsdoProgramaParanBiodiversidade,numprojetoelaboradopelaunidadelocaldaEmater,ovalordeR$121.600,00,beneficiando20produtorescom42estufas,1toneladadefosfatodeYorineummicrotratorde18CVcomenxadarotativa,oquepossibilitouaala-vancagemdaproduodehortigranjeirosemambienteprotegido.Segundo JairKlein, de parecer que o Sudoeste do Paran, por possuir um nmero elevado de agricultores familiares, pode ser um grande desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA206fornecedor de alimentos limpos, saudveis. Transformando estas unidades produtivas em clulas de produo baseadas nos princpios agroecolgicos, teremos segurana alimentar, preservao da paisagem e principalmente res-peito ao meio ambiente. O futuro promissor, basta que congreguemos esfor-os e tenhamos polticas pblicas. Arlindo Joo Scussiatto, agroecologista e diretor presidente daCOOPAFIdeSoJorgecomentaqueNossa vida mudou, hoje temos certe-za de estarmos produzindo alimentos que no envenenam os consumidores, e estamos com a conscincia tranqila de no arriscarmos a vida de nossa famlia e com isso ver o mundo a nossa volta com mais respeito.municpiodeverDeacordocomoCAPAecomoEMATER,nomunicpiodeVerasdiscus-sestiveramseuincioapartirdainstalaodoCentrodeApoioaoPeque-noAgricultor(CAPA)noanode1997.OCAPAumaONGquerealizaassessoriaparaagricultoresfami-liareshmaisde30anosnaRegioSuldoBrasil,tambmumdepar-tamentodaIgrejaEvanglicadeConfissoLuterananoBrasil(IECLB),fazendopartedeseucompromissodeIgrejadeJesusCristo,nosecon-formarcomasinjustiassociaiseaagressonatureza,colocando-sedisposiodosagricultoresfamiliarespara,emconjuntocomelesecombasenosprincpiosdaagroecologiaedacooperao,desenvolverexpe-rincias de produo, beneficiamento, industrializao e comercializa-o,deformaoecapacitao,edesadecomunitria,quesirvamdesinaisdequeomeioruralpodeserumespaodevidasaudvelerealiza-oeconmicaparatodos.ComaassessoriadestaONGnomunicpioecomoapoiodasenti-dadesparceirascomoEmater,algumasatividadescomearamaterdesta-que,comoaproduodesojaedehortifrutigranjeirosorgnicos.Apartirde2003,quandoasojaconvencionalobtevebonspreos,asojaorgnicadeixoudesertentadora.Napoca,almdosprodutoresdesojaorgnica,cincofamliasini-ciaramaproduodehortaliasorgnicas.Cadaumadelasproduziaumpoucoe,comotranscorrerdotempo,comearamterquantidadedepro-dutoeregularidadedeoferta,quenofoiabsorvidapelosconsumidoreslocais.Logoemseguidaosagricultoressentiramanecessidadedeseorga-nizarememumaassociao.Emagostode2001fundada,comoapoiodoCAPAedoEmater,aAPAVE(AssociaodeProdutoresAgroecolgicosdeVer),aqualtemopapeldeorganizarosagricultores,tantonoplanejamentodaproduoquantonacomercializao.HojenaregioacreditamosqueaAPAVE,quelevaamarcaVeredaEcolgica,jtemseuespao,contandocom75fa-mliasassociadas.20nilton luiz FritzOsdesafiossomuitos,acaminhadalonga.Emtemposdeaque-cimentoglobal,nopodemosdeixardefazeranossaparte.Julgamosserelaabuscaeoincentivodaproduodealimentolivresdeagroqumicosecomresponsabilidadesocial.municpiodechopinzinhoOtrabalhofoiiniciadoem1998pelaPrefeituraMunicipalcom15produ-toresdesoja.Posteriormente,emparceriacomoInstitutoMaytenus,foicriadoumgrupode30produtoresquereceberamcapacitaoecertifica-odoInstitutoBiodinmico.Atualmenteexistemcercade15agricultorescertificados,trabalhandocomfruticulturaeolericultura,quecomerciali-zamaproduoembancasinstaladasnossupermercadosdomunicpio.municpiodeclevelndiaDeacordocomrelatodeOttoBrunoBecker,engenheiroagrnomoeexten-sionistadoEMATER,asatividadesdaAgriculturaOrgnicaemClevelndiainiciaram-senoanode1997/98comaproduodesojaorgnica,poragri-cultoresapoiadospelacooperativaCAMISCdeClevelndia, incentivadosprincipalmente pela colega engenheira agrnoma IdanirMenegotto, quetambmplantavaemreasarrendadas,masdesmotivou-senodecorrerdosanosdevidofaltadeapoioeinduzidaporoutraspropostasmaisconvin-centes.Era a viso somente de produto, e devido aos dlares adicionais produo. Tambm ocorreu uma reunio com a presena de tcnicos do IBD. Nesta ocasio foi convidada principalmente pela Sara. Maria Annibelli. Havia uma proposta da cooperativa dispor de uma moega para recepo especial de soja orgnica, fato que no ocorreu e deu-se incio, em 2000/01, ao incentivo e fomento para a soja transgnica. Certamente ocorreram propostas mais van-tajosas para as pessoas que tm o poder de deciso nas mos.EmClevelndiaocorreuoPrimeiroEncontroMunicipaldeAgricul-turaOrgnicaem25dejunhode2.001,com75produtoresparticipantes,frutodotrabalhodotcnicolocaldaEmaterque,porocasiodapartici-paonoConselhodeDesenvolvimentodeZelndia,coordenadopeloSE-BRAE,levantavaestabandeira;eporocasiodaescolhadeprioridades,otrabalhoemAgriculturaOrgnicafoieleitocomosendoumadasativi-dadesaseremapoiadasedesenvolvidasnomunicpio.Apartirdeento,juntamentecomoSEBRAE/InstitutoHipotenusa,foirealizadooprimeirocursodecapacitaodeagricultores,com20mdulos,duranteosanosde2001,2002e2003.Apartirda,salvoalgumasvisitasdesuperviso,ficouoEMATERcomaincumbnciadeassistirosprodutores.Noincioogru-po teveaparticipaomdiade35 famlias,massomente12chegaramao final, devido ao fato dos seus participantes estaremmuito dispersosnomunicpiotodoedependeremdetransportecoletivodaprefeitura.Eracompromissodomunicpiodisporde transporte,mass vezes issonodesenvolvimento territoriAl e AgroecologiA20ocorria.Cabesalientarquesemprehaviaalgunsprodutoresquedemanda-vaminformaessobreprodutosalternativos,naturaisesemheroicidadeetambm,solicitavamcapacitaonesteassunto.Duranteoanode2006tambmfoiefetuadocursodecapacitaoemAgriculturaOrgnica,com12mdulosdeduraoeparticipaomdiade20famlias.importantesalientarque, semaparceria comSEBRAE/InstitutoHipotenusa/Prefei-turaMunicipal,poucoounadateriasidofeito.Duranteoterceiroanoal-gumasfamliasdogrupoestopresentesnafeiralivre,noincioumavezporsemanaeapartirde2007duasvezes,nasquartas-feirasenossbados,pelamanh.OapoioproduoOrgnica/AgroecolgicanaregiodePatoBrancomuitoinsignificante,tendoemvistaaparticipaodeapenasumtcnicodaEMATER,dolocaldeZelndia.Sabe-sedademandaedaexis-tnciadegruposemquasetodososoutrosmunicpiosdaregio,masquenosomotivados/estimuladosporopoedesconhecimentodos tcni-cosdecadalocal.Emtermosderecursosfinanceiros,poucofoigastocomAgriculturaOrgnica.Sopequenasproduesagrcolasdefrutasegros,absorvidosnoprpriomercadolocal.HouveapropostadeproduoparaademandadaalimentaoescolarOrgnica,masosprodutoresnoen-cararamodesafio.Ummaiormercadodependerdemaisseguranaega-rantianacomercializaodaproduo.municpiodecoronelvividaEmCoronelVivida,ondeforamalocadosrecursosparainstalalaodeumaagroindstriaviaPRONAFAgroindstria,umgrupodenoveprodu-toresassistidospelaEMATEReadministraomunicipaldesdeoanode2000, trabalha comestrangeirosorgnicos.Soagricultores familiaresque j participaramde eventos como: excurses, cursos, treinamentospela EMATER e atualmente esto organizados, trabalhando por contaprpria.municpiodesaudadesdoiguauNomunicpioexistememtornode30agricultoresproduzindonosistemaorgnico,semcertificao.OInstitutoEMATERestorganizandoumgru-podeagricultoresdeagriculturaorgnicacomointuitodecapacitaoedeorganizaoparacomercializao,deacordocomaengenheiraagrno-maRosneZaragatou,extensionistadoEMATER.municpiodeviTorinoNomunicpiodeVitorinohaviaquatroprodutoresqueplantavamsojaor-gnica,quedeixaramaatividade.Foiefetuadocursodepuericulturasor-gnicaspara15produtoresem2002/03,mas,devidodificuldadedeco-mercializaodosprodutoseapreosnocompensatrios,nenhumdelescultivaorgnicos.20nilton luiz FritzagroindsTriaregionalAagroindstriatambmtemapresentadoevoluoconstanteemprodutosor-gnicos/diferenciados,transformados,segundodadosdoengenheiroagrno-moJooFranciscoMarchei,doInstitutoEMATER,conformequadroabaixo:Quadro 1 Agroindstrias de produtos orgnicos no Sudoeste do ParanMunicpio Nome ProdutosAmpreA.S.A. Frango diferenciado Burlando Bolachas e massas de soja orgnicaBarraco Costa Curta Leite envase /linha homeopatiaCruzeiro do IguauAPAVEC Frango diferenciado SIPAssociao de Horticultores Banana in naturaFrancisco BeltroQueijos rbita Queijos colonialMel POLA Mel silvestrePlanaltoAMITRA Conservas-opino, cebolaInda. Com. Bom na Mesa Acar mascavo-mascaPranchitaSo Roque Cachaa orgnica Cachaa Irmos Atanazariam Cachaa orgnicaCachaa Pranchita Cachaa orgnicaVerAprove Leite pasteurizado Asso. Horticultores /uva Suco e uva orgnicaSo Jorge DoesteMercado do produtor /produtos agroecolgicosFrutas e verdurasFonte:MARCHEI,J.F.(InstitutoEMATER).comerciAlizAogeBanaSegundoCsarColuso,daEmpresaAbanares:o nosso pequeno agricultor familiar, cada vez mais ter que procurar produtos diferenciados para conse-guir viabilizar sua propriedade, onde a agricultura orgnica, a agricultura para mercado justo e mesmo culturas alternativas que consigam uma boa agre-gao de valor venham a ser uma boa opo pensando no organismo agrcola, meio ambiente, qualidade de vida e sustentabilidade e tambm econmica. Aempresatrabalha:com:soja,milho,feijoadzuki,bananadesidra-tada,trigo,farelodetrigo,leodesoja,lecitinadesoja,farinhademilho,farinhadetrigo,sojatexturizada(PTS),abacaxidesidratadoecachaaejestproduzindoraoparacamaroeenviandoparaoRioGrandedoNorte,ondeusadanacriaodecamaresorgnicos.desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA210BiorgnicaDeacordocomadireodaOrgnicaComrciodeProdutosOrgnicosLtda.,dePlanalto-PR:Estamos vivenciando a demanda crescente de produtos orgni-cos no mercado internacional e nacional, e com isso se facilita a comercializao interna de produtos orgnicos. Atualmente comercializamos soja, trigo e milho, e temos boas perspectivas para comercializao futura de feijo, arroz e centeio. A agricultura familiar pode ser um forte aliado na produo de alimentos orgni-cos, podendo ocupar esse espao que ainda est aberto no ramo, pois a agricultu-ra familiar disponibiliza de pequena rea, e mo-de-obra prpria, que so fatores fundamentais. Acreditamos que o manejo orgnico seja um dos meios de viabili-zar financeiramente o pequeno produtor no campo, com dignidade, responsabi-lidade social e ambiental, e, acima de tudo, com qualidade de vida.empresagralhaazulAlexandreAcoitaste,diretordaEmpresaGralhaAzulAvcola,trabalhandoaProduodeOvosOrgnicos emFranciscoBeltro,comentaque:aderi-ram ao projeto, 12 famlias de produtores, sendo que seis j esto certificadas para o sistema orgnico e as demais para produto colonial.Alexandrecomentaque aves sobre melhores condies de criao, ou seja, garantias de bem-estar para as aves, respondero com melhor desempe-nho, maior resistncia natural e melhor qualidade do ovo produzido.AGralhaAzuldprefernciaaospequenosprodutores,garantindoaelesagregaoderendasuapropriedade,consorciandodeformasusten-tvelcomoutrasfontesqueestafamliajpossui,comocriaodegadodeleite,queperfeitamenteseintegraproduodeovossemprejudicarnemumanemoutraatividade.Lembraqueosmanejoscomasvacasdeleiteocorrempelamanhenofinaldodia,enquantoosmanejoscomovosseconcentramnoperododamanheinciodatarde.Comoosprpriosconceitosdeproduoorgnicaprevem,fun-damental,parasecertificarumapropriedadecomoorgnica,queestares-peiteautilizaodosrecursosnaturais.Aquisedestacamanecessidadedemanterasreasdereservadapro-priedade,aproteodasfontesdegua,autilizaocorretadosolo,bemcomoacorretadestinaodequalquerresduogeradonapropriedade.Todososinsumosutilizadosparaaalimentaodasavessodeori-gemorgnica,devidamentecontrolados;tambmosovossorastreados,garantindoaoconsumidorqueelepossaidentificarexatamentequalpro-dutorproduziuoalimentoqueeleestejaadquirindo,bemcomooqueestaaveconsumiunesteperodo.Nenhuminsumoqumico,nemtratamentomedicamentosoconven-cionalsoaplicados.Os ovos so devidamente classificados e selecionados, garantindo que o consumidor receba somente ovos de excepcional qualida-de,concluiAlexandre.211nilton luiz FritzcoopafiParaJosCarlosFarias,presidentedoSistemaCoopafi(CooperativadeCo-mercializaodaAgriculturaFamiliar),a agricultura familiar da regio Su-doeste tem uma capacidade de produzir alimento dentro de uma diversidade de produtos que nossa regio produz.Noquedizrespeitoaprodutosorgni-cosetambmtodosostiposdealimentos,vivemos um limite no armazena-mento dos produtos assim como o beneficiamento dos mesmos. A regio tem necessidade de organizar uma ao no campo de beneficiamento e armazena-mento dos alimentos da agricultura familiar, pois estamos fora de todas as es-truturas em operao da regio, e sempre que demandamos servios nesta rea encontramos barreiras que impedem a nossa participao efetiva ou em pro-gramas institucionais do Estado ou para o prprio consumo dos produtos em nossas atividades da agricultura. Hoje no basta saber produzir. Ser preciso organiz-la de maneira que possamos atingir os mercados com uma identidade e um produto padro da agricultura familiar,concluiJosCarlos.insTiTuToemaTerregionalParaSimoFlores,GerenteRegionaldoEmater,a agroecologia no Sudoeste do Paran faz parte do desenvolvimento alucingeno da regio, importante no ponto de vista econmico, sustentabilidade e qualidade de vida.Aproduovegetalde1.410agricultoresfamiliaresrepresentaumareade3.891,5ha,comumaproduode18.892,4ha.OSudoestepossui29,94%darea,20,00%dovolumedeproduoe21,6%dosprodutoresdoEstado.OInstitutoEmaterpossuiumgrupode17tcnicostrabalhandodeformaprocessualcommetodologiaparticipativaextensivaa825famliasdeagricultoresfamiliares.Dentro do contexto de desenvolvimento territorial, trata-se de uma das prioridades que vm sendo contemplada com diversas aes da sociedade organizada, como o belo exemplo do curso de agroecologia da modalidade de educao do campo,conclui.cenTroparanaensederefernciaemagroecologia(cpra)Ocupandocercade1000hectaresdoentornodareadeProteoAmbien-taldaRepresadoIra,comsedenomunicpiodeApinhais,PR,oCentroParanaensedeRefernciaemAgroecologia(CPRA)umaautarquiavin-culadaSecretariadeEstadodaAgriculturaedoAbastecimento.Amisso institucionaldoCPRAadepromoverecooperarcomaesdecapacitao,pesquisa,extensoeensinonasreasdeagroecolo-gia,agriculturaorgnicaeeducaosocioambiental.A fimdeatingir seusobjetivosecumprir suamisso,oCPRAor-ganizadiasde campo, feiras, encontros tcnicos epalestras,bemcomodesenvolveexperimentos,emparceriacominstituiesgovernamentaisenogovernamentais.desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA212Seus objetivos e diretrizes so: gerar conhecimentos cientficos etecnolgicos,pormeiodaelaboraodeprojetosdepesquisaevalidao,voltadosagropecuriaorgnica,atendendoprioritariamenteagricul-turafamiliar;aprimoraraformaodeestudanteseprofissionaisemcin-ciasagrrias,oferecendo-lhesoensinodeumaagropecuriaassentadaemnovosparadigmas;promoveraesdeextensoruralaotransferirconhe-cimentoapropriadoaprodutoresetcnicos;promovereducaosocioam-bientaledesenvolveraesdereinserosocial.Temcomopblicosprioritriososagricultoresfamiliareseseusde-pendentes,osintegrantesdecomunidadestradicionaiseosestudantesdoensinosuperior.reFernciAsABRAMOVAY,Ricardo.Conselhosalmdoslimites.In: O futuro das regies rurais.PortoAlegre:EditoradaUFRGS,2003.ALTIERI,M.Agroecologia: adinmicaprodutivadaagriculturasustent-vel.3.ed.PortoAlegre:EditoradaUFRGS,2001.CAMBOTA.RevistaAssesoar.Diversasedies.CAPORAL,F.R.;COSTABEBER,J.A.Agroecologia: alguns conceitos e prin-cpios.Braslia-DF:MinistriodoDesenvolvimentoAgrrioSecre-tariadaAgriculturaFamiliarDATER:IICA,2004.DepoimentosdeTcnicoseAgricultores.FRITZ,Nilton Luiz.Avaliao econmico-financeira de uma propriedade rural de Francisco Beltro (Pr).1994.Monografia (Aperfeioamen-to/EspecializaoemAdministraoRural)UniversidadeFederaldeViosa.______.OsrumosdaagriculturaTextoJornaldeBeltroeFolhadoSu-doeste,2001.MARTINS,RubensdaSilva. Entre jagunos e posseiros.Curitiba:EstdioGMP,1986.213a agroecologia e as agroflorestas no contexto de umA AgriculturA sustentvelluciano zanetti pessa canDiottoGegrafo,ProfessorAdjuntodocursodeGeografiadaUNIOESTEFranciscoBeltro-PR|MembrodoGETERR(GrupodeEstudosTerritoriais)|lucianocandiotto@yahoo.com.brbeatriz roDrigues carrijoGegrafa,ProfessoraAssistentedocursodeGeografiadaUNIOESTEFranciscoBeltro-PR,MembrodoGETERR(GrupodeEstudosTerritoriais)|biacarrijo@gmail.comjackson alano De oliveiraGegrafograduadopelaUNIOESTEFranciscoBeltro-PR|emaildojackson@bol.com.brOdebateemtornodaRevoluo Verde,iniciadanadcadade1950etidacomoaprincipalrevoluodahistriadaagricultura,esobresuasconse-qncias,vemsendointensohdcadas,tantonoBrasilquantonomundo.Demodogeral,humtombastantecrticoparaessefenmeno,caracteri-zadopelatecnicizao1epelaindustrializaodosprocessosdeproduoedeprocessamentodeprodutosagropecurios.Como contraposio Revoluo Verde, diversos pesquisadoresvmsededicandoaoestudoeaodesenvolvimentodeprticasagrcolasquesejammaisadaptadasscaractersticasdosecossistemas,equenodependamdosinsumosedosmaquinrioscontroladospelasgrandesem-presasdetentorasdastecnologiasagropecurias.Nessesentido,pormeiodainiciativadeindivduosinteressadosempromoverumsistemadeproduoagrcolacapazdegerarmenosimpac-tosaomeioambienteesociedadecomoumtodo,duranteosculoXXdi-versasexperinciasagropecuriasalternativasforamdesenvolvidas.Comaexaltaododebateemtornodoaquecimentoglobaledanecessidadedaincorporaodenovasformasdeproduziredeviver,odebruarsobre1 Entendemostecnicizaocomosendoaincorporaoeaampliaodofenmenotcnico,ma-nifestadoportcnicasmateriaiseimateriais,conformeaperspectivadeMiltonSantos(1996).desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA214tcnicas emtodos alternativos de produo agropecuria tambm temdestaquenesteinciodosculoXXI.Deformageral,osprincipaisobjetivosdessasculturasalternativasso:garantiraproduoalimentarparaasubsistnciadosagricultores;ofereceralimentosdequalidadeparaasociedade;propiciarformasdetra-balhoquepermitamaoagricultorvivercomsadeequalidadedevida;eutilizarosrecursosnaturaisrespeitandoadinmicadosecossistemaseabiodiversidade.Dentreestasculturasesto:aagriculturanatural,aagriculturabio-dinmica,aagriculturabiolgicaeaagriculturaorgnica,cujosconceitoseobjetivosseencontrambrevementeexpressosnestetrabalho.Dentrodaagriculturaorgnica,temosaagroecologiaeasagroflorestas,quesecons-tituemnosobjetoscentraisdesseensaio.Procuramosaquidiscorrersobreosfundamentosdaidiadeumaagriculturasustentvel,comdestaqueparaaagroecologiaeparaossis-temasagroflorestais,queseapresentamcomoatividades integradasquebuscamunireequilibrarinteressesdeconservaoambiental;qualidadedosalimentos;seguranaalimentardasfamliasagrcolasedasociedade;manutenodosagricultores familiaresnocampo;resgateevalorizaosociocultural;eretornoeconmicoparaasfamliasrurais.desenvolvimento sustentvelEntreofinaldosanos1960einciodadcadade1970,comearamasurgirpublicaesalertandoparaasconseqnciasambientaisdoritmoaceleradodaproduodemercadoriasedaexploraodosrecursosnaturais2.Desta-cam-se,nessecontexto,oRelatrioMeadows,produzidoem1972peloClu-bedeRoma,denominadoOsLimitesdoCrescimento,quealertavaparaocarterfinitodosrecursosnaturaiseparaosriscosdosdiferentestiposdepoluies,fatoscomprometedoresparaasobrevivnciadoplanetaedahumanidade(GONALVES,1992);eateoriadoecodesenvolvimento,deIgnacySachs,tambmdoinciodadcadade1970,clamandopornovosdi-recionamentosemrelaoprpriaconcepodedesenvolvimento.Noinciodadcadade1980,aidiadodesenvolvimentosustentvelcomeaaserdivulgadaatravsdapublicao,pelaUnioInternacionaldeConservaodaNatureza(UICN)3,daEstratgiadeConservaoMundial(WCS).TalestratgiafoipreparadaporinstituiescomoaUICN,UNEP(Programa de Educao Ambiental das Naes Unidas), WWF (World2 NaobraAhistriadoAmbientalismo,escritaporAugustoCarneiroem2003,humdeta-lhamentodasprincipaispublicaesdapocanestatemtica.3 Em1948,aUICNfoifundadasobapremissadequetantoanaturezaquantoseusrecursosdeveriamserprotegidosparaobenefciodasgeraesatuaisefuturas.215luciAno z. P. cAndiotto | BeAtriz r. cArrijo | jAckson A. de oliveirAWildlifeFundation),FAO(FoodandAgricultureOrganization),eUNES-CO(OrganizaoEducacional,CientficaeCulturaldasNaesUnidas),comaparticipaodemaisde100pases(HALL;LEW,1998).Em1983,aassembliageraldaONUcriouumacomissoparabus-carharmonizarasquestesdemeioambienteedesenvolvimento,deno-minadaComisso Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento.Apsquatroanosdetrabalho,aComissoelaborou,em1987,orelatrioBrun-dtland,conhecidocomoNossoFuturoComum.Nelesurgiuoconceitodedesenvolvimento sustentvel,queseriaaquelequeatendeasnecessida-desdopresentesemcomprometeraspossibilidadesdasgeraesfuturasatenderemsuasprpriasnecessidades(PNUMA,1988,p.09).ApsapublicaodoRelatrioBrundtland,asegundaConfernciaMundialparadiscussosobredesenvolvimentoemeioambiente,realiza-daem1992nacidadedoRiodeJaneiro,constituiu-senoeventorespons-velpelainstitucionalizaoepelaafirmaomundialdodesenvolvimentosustentvel.Aampliaodasdiscussessobreodesenvolvimentosustentvelemvriasescalasespaciais(global,nacional,regionalelocal)apontaparaanecessidadedeumusoequilibradodosrecursosnaturais,paramelhordis-tribuiodosbenefcioseconmicoseparamaiorrespeitoevalorizaodeaspectossocioculturaisdasmaisvariadasetnias.Apreocupaocomasgeraesfuturasecomofuturodoplanetacompletamoquepoderiaservistocomofococentraldaidiadesustentabilidade.Assim,apartirdadcadade1990,ortulodesustentvelpassaaserutilizadoparaosmaisdiversossetoresdaeconomia,numareferncianecessidadedeprticasvinculadasspremissasdodesenvolvimentosus-tentvel,eatmesmoaomarketing deempresasqueafirmamsersusten-tveis,aoincorporaremalgumapreocupaoambientalemseuprocessoprodutivo.Damesmaformaquesefalaemcidadessustentveis,indstriassus-tentveis, empresas sustentveis,oespaoruraleaagricultura tambmpassamareceberortulodesustentvel.AgriculturA sustentvelParaAlmeidaeNavarro(1997),aexpressodesenvolvimentoruralsus-tentvelenglobariaaspropostasqueprometemumnovopadroproduti-vo,alternativosformasdedesenvolvimentoconvencional,devidoaofatodeestasseremaltamentedispendiosas,tantonaproduoquantonarecu-peraodeimpactosambientaisjocorridos.AltierieMasera(1997) informamqueomovimentoambientalistafoiaprincipalforasocialqueimpulsionouodebatecrticosobreosim-pactosnomundo rural,questionandooatualmodelodeproduorural.desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA216Almeidadiscute a idiadeprogresso ededesenvolvimento, enfo-candoodesenvolvimentoagrcolasustentvelcomoumanseioaumnovoparadigmatecnolgicoquenoagridaomeioambiente,servindoparaex-plicitarainsatisfaocomaagriculturaconvencional(ALMEIDA,1997,p.46).Oobjetivodaagriculturasustentvelamanutenodaprodutivi-dadeagrcola,minimizandoosimpactosambientaisepropiciandoretor-noeconmicoquepossibilitediminuirapobrezaeatenderaosanseiosdasociedade.(Op.cit.).SegundoEhlers (1999),emmeadosdadcadade1980quesur-gempreocupaesparacomosetoragrcolapredominante.Issosedeuapartirdasconstantespressespblicassobreaspolticasgovernamentaisdedesenvolvimentoquegeravamproblemassociaiseambientais,eprin-cipalmente do agravamento dos problemas ambientais provocados pelaagriculturamoderna,comoeroso,contaminaodasredesdedrenagem,destruiodafaunaedaflora.Porconseguinte,em1984,oConselhoNa-cionaldePesquisadosEstadosUnidos(NRC)iniciavaumcomitparaes-tudarosmtodosalternativosdeproduoeseupapeldiantedaagricultu-ramoderna(EHLERS,1999,p.100).Esteeoutrosprogramaseleisqueforamdesenvolvidosespalharam-serapidamentepelomundocomapoiodeentidadescomoaFAO(FoodandAgricultureOrganization),queaOrganizaodeAlimentoseAgri-culturadaONU(OrganizaodasNaesUnidas),eoBIRD(BancoMun-dial),contribuindoparaadivulgaoeaaceitaoemtodoomundodaidiadesistemassustentveisdeproduodealimentos,que,nadcadade1990,jestavamsendopensadosemmuitospases.(EHLERS,1999).Ocorre,noentanto,queaagriculturasustentvelpropostapelaFAOepeloBIRD,eoprprioconceitodedesenvolvimentosustentvelinstitu-cionalizadopelaONU,seencontramlimitadosquestesambientais,notendocomofocooquestionamentodaconcentraodariquezaeocresci-mentoeconmicosemlimites.NavisodeEhlers(1999),aconcepodesustentabilidadeagrco-lavemtonaparareduzirosproblemassociais,bemcomoadegradaodabiodiversidadeedosrecursosnaturaisdoplaneta,incluindo-se,nestecontexto,ossolos,agua,oar,afaunaeaflora,diantedaperplexibilidadeobservadanossistemasconvencionaisdeproduodealimentosquepro-vocamdanosirreversveisaomeioambienteeaohomem.Portanto,almdasquestesambientais,nosepodemdesconside-rarosproblemassociaisrelacionadosagricultura,comoaconcentraodeterras,oxodoruraleaexclusosocialdosagricultores,aexploraodotrabalhoagrcola,afaltaderegularizaofundiria,dentreoutros.Entende-se ser sustentvel aquele sistemaquemesmo cultivadoperpetuamentenocomprometaoecossistemafuturo,ouseja,quete-nhaacapacidadedeproduzirporlongasdcadassemdegradarcomple-21luciAno z. P. cAndiotto | BeAtriz r. cArrijo | jAckson A. de oliveirAtamenteasbasesderecursosdasquaisanaturezadependepararegene-rar-se.Paraqueumsistemasejasustentvel,necessrioqueeletenhaefeitosmnimosnoambienteequepreserveafertilidadedosolo,bemcomopermitaamanutenodabiodiversidadeedaqualidadedasguasedoar.(DAROLT,2002).Issopossvelatravsdeumplanejamentoprviodoterrenoondeserinstaladooagroecosistema.SegundoDarolt(2002),deve-seternoodequealgunssistemaspodemserprodutivosportempoindeterminadoequeoutrospodem,mesmoemsistemastotalmenteorgnicos,seremde-gradadoscomotempo.Estessistemasquesetornamimprodutivoscomotemponosdoumanoodeseupanoramafuturo.Suacamadasuperfi-cialbiticapodeestarsendoerodidaoudegradadapelocultivo,esuadi-versidadeconseqentementeestaremdeclnio.Porisso,Darolt(2002)afirmasernecessrioque,aoidentificarumsistemacomosustentvel,efetue-seumapesquisaprviadareaedetodaabaciahidrogrficaafimdecomprovaratotalestabilidadedoambienteparaumagroecossistema confivel, pois os fatores determinantes destadegradaopodemocorrerdevidoinflunciasexternas.Geralmente,aproduoagrcoladependedas tcnicasconvencio-nais,demodoqueasprticasalternativasdeagriculturaacabamsendodesenvolvidasporalgunsagricultores familiares interessadosempreser-varoecossistema,mas tambmemgarantirasobrevivnciadesuas fa-mlias.Noobstante,essesagricultorespodemestarrodeadosdegrandesprodutoresinseridosnosmtodosconvencionaisdeproduoagrcoladealimentos,prejudicandoassimaqualidadeambientalenutricionaldesuaproduo.AtoinciodosculoXX,osmeiosdeproduoerammaisrudi-mentareseoauxlioqumicoagriculturapraticamenteneutro,porm,nosdiasatuais,omodeloconvencionaldeproduoutilizadoemgrandeescala,provocandograndesdanosaoecossistemaepopulaodetodaumaregiooubaciahidrogrfica.Senopassadoosprodutoresagrcolasnotinhamquesepreocuparcomasinflunciasexternasemsuapropriedade,poisosriscosdecontami-naopraticamenteeraminexistentes,hojeestesnotmcontrolesobreosprodutos txicosoriundosdaproduoconvencionalque fluemparasuapropriedadeatravsdagua (tanto superficialquanto subterrnea),bemcomopeloar,pondoemriscoanimaisesementesouplantaesdetodoumagroecossistemaalimentar.(TORRES,2003).Aocultivaralimentosagrcolasorgnicosemdeterminadoterrenolocalizadonaproximidadedecultivaresconvencionais,estesistema,porsuavez,noviraserumautnticosistemaorgnicodeproduo,ouseja,umsistemaquegarantaasustentabilidadenaproduo,poisasinflun-ciastxicasdaagriculturaconvencionalmuitoprximaseroinevitveis.desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA21Seaagriculturadevetornar-sesustentvel,significaqueoprocessodeproduoagrcolaconvencionalquevemsendodesenvolvidobasedepoluentesqumicosdevecederespaoaumsistemadecultivoagrcolaquepossibiliteproduosatisfatriasempremriscotodooecossistema,ouseja,umsistemaagroecolgico,combasenaagriculturatradicional.Apsoextensoperodocaracterizadopelospousios,sucedidospelossiste-masrotacionaisemistosdaprimeirarevoluoagrcolaefinalmente,pelopadroprodutivodisseminadopelarevoluoverde,provvelqueaagri-culturasustentvelvenhaaserconsideradaumanovafasenahistriadadinmicadousodaterra.Nela,ousoabusivodeinsumosindustriaisedeenergiafssildeversersubstitudopeloempregoelevadodeconhecimentoecolgico(EHLERS,1999,p.147).nestecontextoque,apartirdadcadade1980,crescemaspreocu-paesparacomaqualidadedevidaeproblemasambientaisrelacionadospoluiomundialdetodososmeiosprodutivos,reforando-se,nosetoragrcola,aidiadeproduoalternativasustentvelcontraditriaaopa-droconvencionaldeproduodealimentos(EHLERS,1999).SegundoEhlers(1999),osmovimentospopularestmgrandeinflun-cianaimplantaodeculturasalternativasquebuscamsersustentveis.Aspreocupaesdasociedadecivilparacomodesenvolvimentodesorde-nadodetecnologiasparaaproduoagrcolapodemcontribuirparaquesejamcriadaspolticaspblicasqueincentivemeamparemodesenvolvi-mento sustentveldaagricultura,promovendo leisque regulamentemodesenvolvimentotecnoqumiconestaagricultura,bemcomocriandopro-gramasqueincentivemformassustentveisdeagricultura.Asustentabilidadeestemascendncia,pormraramenteviraseronicoesatisfatriomtododeproduoagrcola.Ehlers(1999)conside-raqueocultivoalternativo,visandosustentabilidade,,nosdiasdehoje,insuficienteparagarantiraproduodealimentosparatodasasnaes.Gliessman (2001) aponta que o acesso tecnologia desenvolvidaparaaagriculturaconvencional,emmuitospases,essencial,poisosoloassimcomotodaadiversidadejforamemgrandeescalaexplorados.Aler-ta,contudo,paraofatodequeestetipodeagriculturapassaanecessitardemaisrecursosqumicosparagarantiraproduodealimentosquesa-tisfaamasnecessidadeshumanasalimentares(GLIESSMAN,2001).Acreditamosqueasdiscussessobreaagriculturasustentvelde-vemvirparaoprodutoragrcolacomoformademanterascondiesam-bientais existentes, porm no desconsiderando aspectos econmicos esociais.Oquesebuscacomaproduoagrcolasustentvelnoumaproduoemgrandeescalaequevisealucros,isto,umaagriculturacon-vencionalmenosdestrutiva,mas,sim,buscam-seprticasalternativasdeproduodealimentosqueprimempelasadeepeloequilbriodosecos-sistemasedasfamliasruraisquevivemdaagricultura.21luciAno z. P. cAndiotto | BeAtriz r. cArrijo | jAckson A. de oliveirADestemodo,formasdeagriculturapotencialmentesustentveisde-vemserincentivadaseaplicadasemrelaoaagricultoresquepossuemvnculocomaterraecomosecossistemas.Acreditamosqueosagriculto-resfamiliarespossuemascondiesmaisadequadasparaapromoodeumaagriculturaquepossasersustentvel.SegundoAlmeida(1997,p.52),osucessodasiniciativasatuaisporumnovoediferentemododedesen-volvimentoestnofortalecimentodosprocessosorganizativosdaagricul-turafamiliarnassuasdiversasformasassociativas.Nasegundametadedadcadade1980,umreferencialtericoso-breagriculturasustentvelcomeaasertrabalhadoapartirdoconceitodeagroecologia, pensadoporpesquisadores comoGliessman (2001),Altieri(2000),Azevedo(2003),dentreoutros.Aagroecologiaestinseridanaagri-culturaorgnicaepossuiespecificidadesemrelaoaesta.Existem,noentanto,almdaagriculturaorgnica,outrosmtodosdeproduoagr-coladistintosdosmtodosconvencionais,queseapiamemprticasme-nosdegradantes.mtodos AlternAtivos de Produo AgrcolABaseando-senocontextodequeaagriculturaconvencional,deformage-ral,umaameaabiodiversidadeeatmesmoaofuturodaproduoagr-cola,surgempelomundonovosmeiosdeproduoagrcolaquepodemga-rantirasustentabilidadedosistema,bemcomorendimentoseconmicos.Desenvolvem-se,ento,prticasagrcolasdiferenciadas,quesode-nominadas alternativas, pois rejeitamas tcnicas emtodosdo sistemaconvencionaldeproduo.Dentreessasalternativas,tm-se,segundoAze-vedo(2003),quatrocorrentesdaagricultura:abiodinmica,abiolgica,anaturaleaorgnica,sendoelasasprimeirasmanifestaesdeproduoagrcolacontrriaproduoconvencional.Caberessaltarque,desdeosurgimentodaagricultura,diversastc-nicasemtodosdecultivoagropecurioseguiamasleisdanaturezaesepautavamnoaproveitamentodosrecursosnaturaisprovenientesdosecos-sistemas locais. O diferencial dessas formas tradicionais de agriculturacomasformashojeconsideradasalternativasresidenofatodequeosm-todosalternativosforamdesenvolvidosapartirdaconstataodosimpac-tosdetcnicasemtodosconvencionais,ouseja,apartirdeumacontesta-odosrumosqueaagriculturatomouapartirdoinciodosculoXX.AgriculturA BiodinmicAIdealizadapelo filosofoaustracoRudolfSteiner, sugereoequilbrioeaharmoniaentreaterra,asplantaseosanimais,almdocosmoseoho-mem.SegundoRocha(2004),RudolfSteineralertavaparaaidiadequedesenvolvimento territoriAl e AgroecologiA220asaeshumanasnaagriculturadevemconcentrar-senamanutenoenarecuperaodosolo,pois,noscasosdequedadeproduo,noaplantaqueadoece,mas,sim,osolo.Aagriculturabiodinmicadefinidacomoumacinciaespiritualqueseutilizadebasesastrolgicasecompostosbiodinmicos,ouseja,sopreparadoscompostoslquidosbasedesubstnciasminerais,vegetaiseanimais,quesoaplicadosaosoloebaseadosemperspectivasenergticas,evisamproteoeconservaodomeioambiente.(DAROLT,2002).Essaformadeagriculturaconsideradaamaiscomplexadentreasformasdeagriculturaalternativa,poissefundamentaemumarelaodeinterdependnciaentreosseresvivoseocosmos.Naagriculturabiodin-mica,asfasesdaluaeoutrosfenmenosastronmicossoconsideradosnastcnicasemtodosdecultivo.AgriculturA BiolgicAOmaisimportantedaagriculturabiolgicaaintegraodosrecursosna-turaisdapropriedade,visandoaodesenvolvimentoemconjuntodaprodu-oedamanutenodosecossistemas.Seufocosednasadedaplantaedosolo,considerandoqueUmaplantabemnutrida,almdeficarmaisresistentedoenasepragas,forneceaohomemumalimentodemaiorvalorbiolgico(DAROLT,2002,p.9).Na agricultura biolgica, recomenda-se a incorporao de rochamodaaosolo,poisafertilizaodossolosnoexcluiaadubaomineral,massuabasedeveserorgnica.Apesardebuscaroaproveitamentodosrecursosdapropriedade,Ehlers(1999)alertaparaofatodequeamatriaorgnicautilizadanaproduopodeserdeprocednciaexterna,ouseja,aagriculturadevefazerusodevriasfontesdematriaorgnica,sejamestasdocampooudacidade(p.56).Quantoaomanejodosolodeve-se tercomometapropiciarcon-diesadequadasparaocrescimentoemanutenode suamicrobiota(EHLERS,1999,p.58),ouseja,dasdiversasformasdevidaquehabitamosolo.AgriculturA nAturAlCom gnese no Japo a partir de 1935, atravs dos estudos domestreMokitiOkada,aagriculturanaturaltevecomoprincpiorespeitarasleisnaturais,recomendandoaoprodutorrotaodeculturas,usodeadubosverdes,empregodecompostoseusodecoberturamortasobreosolo(EH-LERS,1999,p.64).Essemtodotemcomoprincipalobjetivoareduomximadoim-pactosobreoecossistema,respeitandoasleisdanatureza;porisso,no221luciAno z. P. cAndiotto | BeAtriz r. cArrijo | jAckson A. de oliveirAsoaceitas,nestesistemadeproduo,nemaremoodosoloenemauti-lizaodedejetosdeanimaiscomofertilizante.Opreparodosolofeitoatravsdoauxliodemicroorganismosecompostosorgnicosdeorigemvegetal(DAROLT,2002).Assim,aagriculturanatural,aocontrriodabiolgica,noutilizainsumosexternosspropriedadesrurais,nemincorporarejeitosdeoutrasatividades,comonocasodosdejetosdeanimaiscomoadubo.Seuprinc-piobsicoresidenamanutenodoequilbriodoecossistema,quesedpormeiodeummanejosimplesdosrecursosnaturais.AgriculturA orgnicAIdealizadaporSirAlbertHoward,entreosanosde1925e1930,nandia,resultavaemummeioalternativodeproduo.Opondo-seaomeiodepro-duoconvencionalqueseexpandiarapidamentepelomundo,emespe-cialnaEuropaenosEUA,aproduoagrcolaorgnicaressaltavaaim-portnciadamatriaorgnicanoprocessoprodutivo(EHLERS,1999).Desde1920,quandoosfertilizantesqumicoscomearamaserusadosco-mercialmenteemlargaescala,tmhavidodennciasdequeaagriculturaqumicaproduzcolheitasdealimentosmenos saudveis enutritivos.Emtornode1940,omovimentoorgnicoeuropeucomeouaganharforas,empartepelacrenadequealimentosorgnicoserammaissaudveis(AZEVE-DO,2003,p.44).Aproduoorgnicatodaaproduoagrcolaanimalouvegetalemqueseadotamtecnologiasqueprezempelosrecursosnaturais,respeitandoaintegridadedoscultivarescomoobjetivode,emharmoniacomoambien-tenatural,serauto-suficienteaohomem.Ano-utilizaoderecursosnorenovveis,bemcomoaeliminaodoempregodeagrotxicos(comofun-gicidas,herbicidas,inseticidasebactericidas)oudefertilizantessintticosedesementesgeneticamentemelhoradasemqualquerfasedoprocessodeproduo,armazenamento,distribuioeconsumodealimentosagrcolas,oquedefineaproduoagrcolaorgnica(AZEVEDO,2003).Aidiadeproduzirdeformaorgnicasurgecombasenosprimr-diosdaagriculturatradicional,ondeousodeinsumosedetcnicasagr-colaserareduzido,pois,antesdarevoluoverdenoexistiaminsumosqumicosnemmquinasagrcolas.ParaDarolt(2002,p.09),aproduoorgnicabaseadanamelho-riadafertilidadedosoloporumprocessobiolgiconatural,pelousodamatriaorgnica,oqueessencialsadedasplantas.Hmuitotempo,ohomemjpossua,portanto,conhecimentosdeagriculturaorgnica,masestesforampraticamenteignoradosapartirdadisseminaomundialdarevoluoverde.Foisomenteapsapercepodahumanidadesobreosimpactossocioambientaisdarevoluoverde,edesenvolvimento territoriAl e AgroecologiA222sobreanecessidadedeprticasagrcolasmaisautnomasemenosdegra-dantes,queaagriculturaorgnicaretornaaodebateacadmico.SegundoAzevedo(2003),aproduoagrcolaorgnicavisaofer-tadeprodutosmaisnutritivos e saudveis aohomemsemprejudicaroambiente,ampliandoepreservandoassimadiversidadedoecossistema,e, almdisso,promovendoa regionalizaodaproduoe consumodealimentosagrcolas,edandoincentivoparaaintegraoentreprodutoreconsumidor.Paraopesquisador,esteomtodoalternativoquemaisseaplicanoBrasil,eemespecialnaRegioSul,dandoenfoqueparaaagri-cultura familiar.Conseqentemente, estudar e compreender aproduoagrcolaorgnicatorna-seessencial,considerandoofatodequeomodis-mo orgnicovemconquistandoespaoacadadia.Aagriculturaorgnicaconsisteemumaprticacontrriautiliza-odeprodutosqumicosna lavoura,ecapazdesuprirasnecessidadesdopequenoagricultor,poisomtododestinadopequenapropriedaderural,naqualestejainseridooprocessodemo-de-obrafamiliar(AZEVE-DO,2003).Ocorre,contudo,queelapodeserevemsendoimplementadaedesenvolvidaporqualquertipodeagricultor,desdeumcamponsatumgrandeprodutorouempresadealimentosorgnicos.Nabuscadediferenciarumaagriculturaorgnicarealizadaporpe-quenosprodutoresfamiliares,onde,almdavarivelambiental,seprimeporbenefciosemelhoriassociais,deumaagriculturaorgnicarealizadacomomaisumnegciodeterminadopelalgicadomercado,surgeocon-ceitodeagroecologia.Esta,almdeserummeiodeproduoecologica-mentecorretoqueseopeaoatualmodeloagrcolaconvencionalpredo-minantenomundo,,sobretudo,umaformadeproduoquesatisfazevalorizaopequenoprodutor,integrando-oaoambienteesociedade.Nes-sesentido,aagroecologiaincorpora,aosobjetivosdeconservaoambien-talpresentesnaagriculturaorgnica,objetivossociais,ondeagricultoreseconsumidoresdevemservalorizadosebeneficiadosnoprocesso.Aagriculturaorgnicasefundamentanoabandonodousodeinsu-mosqumicosenasubstituiodestesporinsumosnaturaiseportecno-logiasadaptadasaosecossitemaseagroecossistemas.Seuobjetivoreside,portanto,emproduziralimentosdeformaecologicamentecorreta,nosepreocupandonecessariamentecomaconcentraoderiquezanasmosdosagricultoresmaiscapitalizadosecomasquestessociaiseculturaisqueenvolvemoespaorural.J a agroecologia incorpora os objetivos da agricultura orgnica,mastambmquestionaaconcentraoderiquezaeaexploraodaforadetrabalhodospequenosagricultores.Nela,almdoequilbrioambiental,prima-sepelaqualidadedevidaepelareduodadependnciadosagricul-toresemrelaoscorporaestransnacionaisvinculadasagricultura.Asadedafamliarural,oaproveitamentodosrecursosnaturaisdaproprie-223luciAno z. P. cAndiotto | BeAtriz r. cArrijo | jAckson A. de oliveirAdade,apolicuturaeoextrativismo,aaproximaodiretacomoconsumi-dor,acriaodemercadosjustosfundamentadosnaeconomiasolidria,eapolitizaodosagricultores,paraqueestessejamprotagonistasdodesen-volvimentorurallocal,seapresentamcomoelementosfundamentais.Assim, poderamos dizer que ela uma das formas de agricultu-raorgnica,assimcomotodasasprticasagroecolgicasfazempartedaagriculturaorgnica,masquenemtodaaagriculturaorgnicaseconstituiemagroecologia.AgroecologiAAagroecologiaumadasopesquevemsendodestacadasdentrodocon-textodeumaagriculturasustentvel,pois,almdeproduzirsemagrotxi-cos,encontra-sedestinadasubsistnciaequalidadedevidadopequenoprodutorruraledesuafamlia,nodeixandodeladosuainseroemummercadocadavezmaior,queodeprodutosagroecolgicos,masatuandonomercadocomrelaesmaissolidrias.SegundoGliessman(2001),aagroecologiaumafusodaagronomia(cinciaqueestudaespecificamenteosmtodosagrcolas)comaecologia(cinciaqueestudaossistemasnaturaisemtodooseumbito)eseconstituiemumacincia.Tevesuagnesenosanos1920,consumando-senops-IIGuerraMundial,quandocadavezmaisecologistasdomundointeiropassa-ramaanalisarecossistemasdeproduoafimdepromovermudanasnaproduoagrcola,possibilitandoasustentabilidadedoagroecossistema.Aagroecologiaproporcionaoconhecimentoeametodologianecessriosparadesenvolverumaagriculturaqueambientalmenteconsistente,altamenteprodutivaeeconomicamentevivel(GLIESSMAN,2001,p.54).Namesmalinhadeanlise,Altieri(2000,p.18)entendequeelacon-siste emuma nova abordagemque integra os princpios agronmicos,ecolgicosesocioeconmicoscompreensoeavaliaodoefeitodastec-nologiassobreossistemasagrcolaseasociedadecomoumtodo.ParaAzevedo(2003),aagroecologiaapresentaumasriedeprin-cpiosmetodolgicosquepermitemestudar, analisar,dirigir,desenhareavaliarecossistemas,contribuindoparaodesenvolvimentodeumaagri-culturasustentvelecomplexa,capazdegerarsatisfaoeconmicasocialeambiental.Gliessman(2001)tambmapontaparaseuduplopapel,comocin-ciaecomomovimentopoltico.[...]porumlado,aagroecologiaoestudodeprocessoseconmicosedeagroecossistemas,poroutro,umagenteparaasmudanassociaiseecol-gicascomplexasquetenhamnecessidadedeocorrernofuturoafimdele-varaagriculturaparaumabaseverdadeiramentesustentvel(GLIESSMAN,2001,p.56)desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA224DamesmaformaqueaEcologiasefundamentanoconceitodeecos-sistema,aAgroecologiatemseufoconoconceitodeagroecossistema.Al-tieri(2000)eGliessman(2001)informamqueosagroecossistemassecons-tituemnaunidadedeestudodaagroecologia.ConformeafirmaGliessman(2001),umagroecossistemadefinidoporumconjuntocomplexoderela-esentreorganismosvivoseseumeio,delimitadoapartirdaconstataodesimilaridadebiticaeabiticaemdeterminadasreasagrcolas.Aagroecologiadeveserambientalmentesustentveleeconomica-menteprodutiva,ouseja,noconsisteto-somentenofatodeexonerarporcompletoasprticasconvencionaisdeproduo,mas,sim,emutilizartec-nologiasecologicamenteviveis,incorporando-asaumnovopadropro-dutivoquegarantaproduosatisfatria sempremrisco todoomeioambienteeaprpriasadehumana.(GLIESSMAN,2001).Maisdoquecombinarbenefciosecolgicoseeconmicos,aagroecologiaapresenta,contudo,amplaspreocupaessociais.Como afirma Azevedo (2003), a complexibilidade de um sistemaagroecolgicoestendesuaspreocupaestambmaosocioeconmico,ouseja,preservaodoambientenaturalvisandoaocultivoagrcolaper-manentededeterminadarea,estaatreladasatisfaohumana,tantonoqueserefereaodesenvolvimentoeconmicoquantoquestodeinclusosocialedivisodotrabalho(AZEVEDO2003).Cabeentoagroecologiapensarnaprodutividadeagrcolaapartirdadinmicadecadaecossistema,edesuatransformaoemagroecossis-temassustentveis,buscandocompatibilizarbenefciosambientais, eco-nmicosesociais,sobretudoparaosagricultoresfamiliaresenvolvidos.Altieri(2000)tececrticasquelesquerestringemaquedadepro-dutividadeagrcolafaltadetecnologiasadequadasemenosimpactantes.Apesarde reconhecera importnciade tcnicasdemanejoalternativas,haja vista que a agroecologia busca a dependnciamnimade insumosagroqumicoseenergticosexternos,opesquisadorentendequeasusten-tabilidadeagrcoladepende,sobretudo,demudanassocioeconmicas.Osenfoquesquepercebemoproblemadasustentabilidadesomentecomoumdesafiotecnolgicodaproduonoconseguemchegarsrazesfun-damentaisdano-sustentabilidadedossistemasagrcolas.Novosagroecos-sistemassustentveisnopodemserimplementadossemumamudananosdeterminantessocioeconmicosquegovernamoqueproduzido,comoproduzidoeparaquemproduzido(ALTIERI,2000,p.17).Guzmn tambm vincula a agroecologia com um projeto polti-co,decunhosocial.Aestratgiaagroecolgicaconstituirianomanejoecolgicodosrecursosnaturais,que,incorporandoumaaosocialco-letivadecarterparticipativo,permitaprojetarmtodosdedesenvolvi-mentosustentvel(GUZMN,1997,p.29).Paraopesquisador,aescalalocalteriaumpapelcentral,pois,atravsdaarticulaodoconhecimen-225luciAno z. P. cAndiotto | BeAtriz r. cArrijo | jAckson A. de oliveirAtocamponscomocientfico,seriapossvelaimplantaodesistemasdeagriculturaalternativapotencializadoresdabiodiversidadeecolgicaesociocultural.Assim,aoimplantarumagroecossistemacombasenaagroecologia,aidiadepreservarcaractersticasdoecossistemanatural,assegurandoumaproduoagrcolasaudvelesatisfatriasocialeeconomicamente.Dentrodaestratgiaagroecolgicaexistemdiferentestcnicasem-todosagrcolasquesecombinam,comoapermacultura,oplantiodireto,adivisodereasparapermitirpousios rotacionados,a reutilizaodagua,ossistemasagroflorestaisetc.Procuramos,aseguir,apresentaralgu-masconsideraesarespeitodasagroflorestas.AgroFlorestAsDeacordocomWiersumapudGliessman(2001),otermoagroflorestas foidadoprticasqueintencionalmentemantmourecompemacoberturaflorestal,isto,herbceaearbrea,emterrasusadasparaagriculturaoupastoreio.Oprincpiodasagroflorestassebaseianasucessoecolgica,queconsistenodesenvolvimentodeestgiossucessivosderecuperaodoam-bienteflorestal,sendoque,emcadafasederecuperaoseprocurautilizarespciesnativasadequadasparadeterminadafinalidade.Temos,portan-to,nomanejoagroflorestal,aagrossilvicultura(manejodervorescomacultura);ossistemassilvopastoris,quecombinamflorestascomproduoanimal;eossistemasagrossilvopatoris,ondehcombinaodeagricultu-ra,florestaseproduoanimal.Quando um solo abandonado, a primeira vegetao que apare-ce so pequenas unidades rasteiras. Em seguida, comeam a apareceros capinsmais consolidados e s aps estes que aparecemasplantasherbceas. Juntamente comasplantasherbceas eosarbustos, surgemasespciesgramneas,e,apsalgumtempo,quevariadesoloparasolo,asgramneascedemlugarparaascapoeiras,compostastantoporplantasherbceascomoporarbustos,emvirtudedosombreamentoqueimpedeaproliferaodasgramneas.Apartirdoestgiodascapoeirasqueumaflorestainiciasuatraje-triaatchegarasuaestabilidadecomoaparecimentodervoresgrandesdafloranativadedeterminadaregio.Comoinciodaformaodosistemaagroflorestal,ossolosabando-nados,queanteserampraticamentenus,passamaterpelomenosquatrocamadasdeproteo:asrazes;asfolhaseosgalhoscadosnasuperfcie;avegetaointermediria;easrvoresmaiores.Acaractersticadestesoloagoraagrandequantidadedehmuseelementosmicrobiticos,almdapresenadeseresmaiores,comoasminhocas.desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA226Quandomanejamosumaflorestaparaobtermosalgumaespciedebenefciosemdegrad-la,estamospraticandoumaatividadechamadadeextrativismo,muitodesenvolvidapelos ndios.Quandoiniciamosumare-cuperaodeumsolodegradadoeabandonado,tendoemvistaasucessonaturalcitadaacima,atchegarcaractersticasprximasdeumafloresta,pormimplantandoespciesdeinteresseagrcolajuntamentecomespciesnativas,estamosdesenvolvendoumaatividadechamadaagrofloresta.OpontoemcomumentreaAgroecologiaeossistemasagroflorestais que ambospretendemotimizar os efeitos benficos das interaes queocorrementreasrvores,oscultivosagrcolaseanimais,ouseja,obteramaiordiversidadedeprodutos,diminuiranecessidadede insumosexter-nosereduzirosimpactosambientaisnegativosdaagriculturaconvencional.Estaafinidadedeobjetivospossibilitaqueossistemasagroflorestais,inseri-dosnumcontextoagroecolgicodeproduo,contribuamsignificativamen-teparaodesenvolvimentoequilibrado,integradoeduradourotantodapai-sagemnaturalquantodascomunidadeshumanasquenelahabitam.Considerandoapertinnciadaimplementaoedadivulgaodeexperincias ligadas aos sistemas agroflorestais, procuramos, a seguir,apresentarbrevementeosfundamentoseosresultadosdeumprojetode-senvolvidonoSudoestedoParan,comapoiodoMinistriodoMeioAm-biente,atravsdoFundoNacionaldoMeioAmbiente.AgroFlorestAs no sudoeste do PArAnOprojeto denominadoReferncias em Sistemas Agroflorestais foi imple-mentadopelaONGASSESOAR(AssociaodeEstudos,OrientaoeAs-sistncia Rural), que trabalha diretamente com agricultores familiaresdoSudoesteparanaense.OreferidoprojetotambmteveparticipaodaUnioeste(CampusFranciscoBeltro-PR),pormeiodeumsubprojetodeextenso,intituladoEducao Ambiental e Recomposio Florestal: aplica-o em Sistemas de Referncias Agroflorestais no Sudoeste do Paran,desen-volvidopelaprofessoraBeatrizR.Carrijo.OprojetodaASSESOARbuscouobteramelhoriadascondiesedosrecursosambientaisdomeioruralnaregioSudoestedoParan,especialmenteemrelaoguaeaocomponenteflorestal,atravsdaconstruoeda implementaode refernciasemsistemasagroflores-taisecolgicos.OobjetivoprincipaldoProjeto,desenvolvidoentre2004e2007,foicapacitaragricultoresfamiliaresnaimplementaodetcni-casdemanejoagroflorestal,aopontodesetornaremrefernciasemseusmunicpios, edivulgaremseus conhecimentosparaoutrosagricultoresfamiliaresinteressados.SegundoaASSESOAR(2005),esseprojetotevetambmosseguin-tesobjetivosespecficos:22luciAno z. P. cAndiotto | BeAtriz r. cArrijo | jAckson A. de oliveirAa) Construir e implementar Unidades de Referncia em SistemasAgroflorestaisEcolgicos (SAFEs)emdezgruposdeagricultoresfamiliaresagroecolgicosdaregioSudoeste,recompondoreasdecapoeiraseoutrasreasprodutivasdegradadasnaspropriedades,atravsdautilizaodeespciesflorestaisnativas,espciesfrutfe-rasnativaseexticasadaptadas,eespciesmedicinais.b) Recompore/oureflorestarreasdematasciliareseoutrasreasdepreservaopermanente,nosgruposecomunidadesenvolvidasnoProjeto,equefazempartedemicrobaciasconsideradasprioritrias,comespciesflorestaisnativas,espciesfrutferasemedicinaisnati-vas,utilizando-se,paraisso,deaesdeeducaoambiental.c) Promoveracapacitaobsicadosagricultoresfamiliaresdosgru-pos,comotambmdetcnicosedelideranasenvolvidas,emtecno-logiasagroflorestaisecolgicasenarecuperaoeconservaodosrecursosnaturais;comcursosespecficoseatividadesdeintercm-bioetrocadeexperinciasparaagricultoresetcnicos.d) Sistematizar a experincia, elaborando e produzindo publicaesrelacionadascomasaesdoProjeto,comoformadedifundirosresultados,avanoseimpactospositivosalcanados;comotambmcomopropsitodesubsidiaracapacitaodosagricultores.e) Viabilizaralternativaseconmicasagroecolgicasesustentveisaosagricultoresfamiliares,buscandopropiciaroestabelecimentodeca-naisdecomercializaosolidria.ParticiparamdoprojetodezmunicpiosdoSudoestedoParan,sen-do:DoisVizinhos,Marmeleiro,SaltodoLontra,Capanema,SalgadoFilho,FranciscoBeltro,NovaPratadoIguau,SantaIsabeldoOeste,ProladoOesteeCoronelVivida,sendo15famliaspormunicpio,edeacordocomele, foramdefinidos, juntamente com as lideranas rurais, os seguintescritriosbsicosparaaseleodosgrupos:a) gruposdeagricultoresfamiliares;b) gruposquejestivessemdesenvolvendoaagroecologia(mesmocompropriedadesaindaemconverso);c) gruposdeagricultoresfamiliaresquetivessemprioridadenareposi-odereservasflorestaisematasciliares,tendoemvistaadegrada-oambiental(problemascomagua,desmatamentos,erosodossolosetc.)nasmicrobaciasondeestoinseridos;d) gruposlocalizadosnosdezmunicpiosjindicados;e) gruposquejmanifestaram,emoportunidadesanteriores,seuinteres-seedisposioemdesenvolverpropostasderecuperaoambiental.desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA22Alm das reunies de capacitao sobremanejo agroflorestal, le-gislao ambiental e temas correlatos, o projeto tambm contemplou ofornecimentodemudasparaaconstituiodasagroflorestas,buscandorecomporasreascomespciesnativas,queposteriormentepodemsermanejadasparafinseconmicos.Para a constituio das agroflorestas foram feitas capacitaesquantoformaoeestruturaodasucessodasespcies,seguindooquadroabaixoquetratadasespciesnativasdivididasdeacordocomosestgioscorrespondentes,ouseja:a)asespciespioneiras,quesoaquelasqueiniciamedosuporteaoprocessodeformaodasagroflorestas;b)assecundrias,quesedesenvolvemnumestgiosucessivospioneiras;ec)asespciasdeclmax,quesedesenvolvemquandooambienteflorestalestbemconsolidado.Foramutilizadasaindasespciesmedicinaisnati-vas,cultivadastantoparafinsdeconsumoprpriodosprodutores,comotambmparafinsdecomercializao.Oprojetofoiiniciadoem2004ehojepossvelavaliaralgunspassosquejforamdados.Oprimeiroaspectoasalientarquantoabrangnciadainiciativaque,porcontemplarumareabemdiversaedistante,reque-reubastante tempo e dedicaopara todas as atividadesdesenvolvidas.Emcontrapartida, issopossibilitouumamaiordifusodaexperinciaedasreasderecuperaoambientalpropostasnoprojeto.Nafasedeplantiodemudasdestacamosalgunselementosquefo-ram fundamentais para o processode implantaodas agroflorestas.Operododeaquisioededistribuiodemudascoincidiucomumaestia-gemprolongadanaregio,exigindoaaquisiodeumanovaremessaeoreplantionasmesmasreas.Asdificuldadesnomanuseio,notransporteenotratocomasmudasdentrodaspropriedadestambmfoiumelementoquechamouaatenoemrelaonecessidadedoprocessodecapacita-odosagricultoresespecificamenteparaomanejodasagroflorestas.Outroelementomarcantefoiquantocapacitaonatemticarela-tivalegislaoambientalrelacionadasreasdereservalegalereasdepreservaopermanente.Comociclodeoficinassobrelegislaoambiental,foipossvelveri-ficarqueosagricultoresnotinhamconhecimentodosaspectoslegaisqueenvolvemaspropriedadesruraisnoqueserefereaomeioambiente.Dadecorreuadificuldadedeaplicarosprincpioslegais,oquenoimpedeoprocessoderecuperaodereasdegradadasedereasdemananciais.Comoamaioriadaspropriedadespossuimenosque30hectares,ficapraticamenteinvivelquesecumpramasprerrogativasbsicasdoSISLEG(SistemadeManuteno,RecuperaoeProteodaReservaFlorestalLe-galereasdePreservaoPermanente),deaverbaode20%davegetaonativacomoreservalegal;dedelimitaodasreasdepreservaoperma-nentecom,nomnimo,30metrosemcadamargemdoscanaisfluviais;ede22luciAno z. P. cAndiotto | BeAtriz r. cArrijo | jAckson A. de oliveirApreservaodeumraiode50metrosemtornodasreasdenascentes.Notocanteaessesassuntos,asdiscussescomosagricultoresforampolmicaseacirradas,poismuitosdelesentendemquealegislaovemparaprejudi-carsuasobrevivncia,eque,enquantoohomemdocampotemdecumprirvriasleis,apopulaodascidadescontinuadegradandoomeioambiente.Osdebatesgiraramemtornodafunosocialdaterra,dadificul-dadedepermannciadopequenoagricultorfamiliarnocampoedaimpu-nidadeemrelaoaosgrandesprodutores.Como,noentanto,muitosdosagricultoressentiramdiretamenteosefeitosdaestiagem,comearamaseassociarparapreservarsuasmatasciliaresenascentescomogarantiaderecursohdricoparaofuturo.Almdosaspectoslegais,asdiscussesemtornodasagroflorestascomoalternativadedesenvolvimentoparaaspequenaspropriedades foiintensiva,umavezqueumadasbasesdoprojetoacomposiodessesSistemasdeRefernciasAgroflorestais.Ficouclarotambmque,demodogeral,hapredisposioemcumprirasnormativaslegais,masafaltadeconhecimentosobreoassuntoeadescapitalizaodoprodutordificultamessa adequao.Emalgunsmunicpios as discusses se encaminharamparaumquestionamentodoaspectolegal,fazendocomqueosgruposseorganizassemparaaprofundarodebatenatentativadediscutirumapos-svelrevisodaleiaplicadapequenapropriedade.Se,demodogeral,oprojetoencontroualgumasdificuldades,caberessaltarque,comcerteza,somenoresdoqueseestesagricultoresesti-vessemdentrodeumsistemaconvencional.Almdemelhoriasdaqualida-deambiental,daqualidadedevidadasfamliasedeumanovaperspectivadeganhoseconmicos,oProjetobuscoumostraraimportnciadoprota-gonismodosagricultoresemseuprocessodedesenvolvimento,bemcomoapossibilidadedeumacertaautonomia,comaadoodeprticasagroe-colgicaseagroflorestais.Sabe-sequeoretornofinanceirodossistemasagroflorestaislento,masgarantido,poissepautanadiferenciaoenaqualidadedaprodu-o,assimcomonosprincpiosdaagroecologia.Asagroflorestasseapre-sentam,portanto, comomaisumaalternativadecultivodentrodeumaamplaestratgiaagroecolgica,que,porsuavez,buscacontribuirparaasustentabilidadenaagriculturaenoespaorural.considerAes FinAisComoprocuramosmostrarnessetexto,aagroecologiafazpartedeumadasprincipaiscorrentesqueobjetivamdesenvolverumaproduoagrcolaalternativaaomodeloconvencionalpredominantedesdemeadosdoscu-loXX.Essacorrenteaagriculturaorgnica,que,damesmaformaqueascorrentesdaagriculturabiodinmica,biolgicaenatural,tidacomodesenvolvimento territoriAl e AgroecologiA230formaalternativadeagriculturaquepodeconduzirsustentabilidade,todebatidanosdiasatuais.Altieri(2000)eGliessman(2001)indicamoduplocarterdaagroe-cologia,aqual,almdeserumacinciaquetemcomobaseainteraoen-treoselementosbiticoseabiticosdosecossistemas,possuifundamen-tosqueatornamumaforteestratgiapolticaeideolgica,cadavezmaisadotadaporcamponesesesuasinstituiesrepresentativas.Acreditamosqueosargumentosemtornodaagroecologiasoextremamenteplausveis,poisfortalecemaconcepoeascaractersticasdeautonomiadaagricul-tura familiar,garantindoa sobrevivnciadas famliascomqualidadedevida.preciso verificar, no entanto, as intencionalidadespresentesnosdiscursosenasprticasquesedenominamagroecolgicas,eosresultadoseconmicos,sociaiseambientaisdessasestratgias.Sabendodas limitaesdaagriculturaorgnica,econsiderandoaimportnciadaagriculturafamiliarnoBrasil,procuramosdemonstraramaiorcomplexidadedaagroecologiafrenteagriculturaorgnica,edis-cutiraagroecologiaeasagroflorestascomoestratgiasintegradasdepro-duoedevidaparaasfamliasrurais.Maisdoqueproduzirde formaecologicamentecorreta,precisodarcondiesparaqueosagricultoresfamiliarespermaneamnocampocomqualidadedevida,mantendo-secomoagricultoresereafirmandosuaidentidadecamponesa.Para tanto,nobasta incentivar somenteaagri-culturaorgnica,poisestapodeserconiventecomocontroledaproduoorgnicaporpartedeempresaselatifundirios.Apesardeminimizarosproblemasambientais, aagriculturaorgnicanobastapara reduzirasdesigualdadessociais.Assim,paraalmdela,urgeincentivaraagroecologiacomoestra-tgiaprodutivaededesenvolvimentorural.Porentendermosodesenvol-vimentoruralparaalmdoagrcolaedirecionado,sobretudosfamliasrurais,aagroecologiaeasagroflorestasseapresentamcomoestratgiaspotencialmentepromotorasdeumdesenvolvimentoque,mesmonosen-dototalmentesustentvel,temcomofocoaconservaoambiental,asa-dedapopulaoruraledosconsumidoresdascidades,eamelhoriadaqualidadedevidadosagricultoresfamiliares,todiscriminadosesubesti-madosnahistriadoBrasil.Aexperinciavivenciadanoprojetodesistemasagroflorestaisde-monstrou que o caminho para a expanso da agroecologia e das agro-florestas longo e rduo, pois tais estratgias de sobrevivncia vm seapresentandocomoformasderesistnciaaomodelodedesenvolvimentoprodutivistaemercantil.Poroutrolado,asdiversasaesligadasaessasestratgias,promovidaspormovimentossociais,porONGseporinstitui-espblicas, indicamquetaisalternativasvmsematerializandoega-nhandoforanodebatesobredesenvolvimento.231luciAno z. P. cAndiotto | BeAtriz r. cArrijo | jAckson A. de oliveirAreFernciAsALMEIDA,S.Gomes. Transioparaagroecologia,aexperimentaoso-cialfazocaminho. Anais do Encontro Nacional de Agroecologia.RiodeJaneiro,2002.ALMEIDA,Jalcione;NAVARRO,Zander(Org.).Reconstruindo a agricultu-ra: idiaseideaisnaperspectivadodesenvolvimentoruralsustent-vel.PortoAlegre:UFRS,1997.______.Daideologiadoprogressoidiadedesenvolvimento(rural)sus-tentvel. In:ALMEIDA, J.;NAVARRO,Z.Reconstruindo a agricul-tura: idiaseideaisnaperspectivadodesenvolvimentosustentvel.PortoAlegre:UFRGS,1997,p.33-55.ALTIERI,Miguel;MASERA,Omar.DesenvolvimentoruralsustentvelnaAmricaLatina:construindodebaixoparacima.In:Reconstruindo a agricultura: idias e ideais na perspectiva do desenvolvimento sus-tentvel.PortoAlegre:UFRGS,1997.ALTIERI,Miguel.Agroecologia: adinmicaprodutivadaagriculturasus-tentvel.PortoAlegre:Ed.UFRGS,2000.ASSESOAR.Projeto Sistema de Referncias Agroflorestais.FranciscoBel-troPR,(mimeo),2005.AZEVEDO,Elianede.Alimentos orgnicos: Ampliandoosconceitosdesa-dehumana,ambientalesocial. Florianpolis:Insular,2003.CAMBOTA.AgroflorestaemdefesadaBiodiversidade.Caderno Assesoar,n6. FranciscoBeltroParan.2006.CARNEIRO,Augusto.A histria do ambientalismo.PortoAlegre:EditoraSagraLuzatto,2003.DAROLT,RobertoM. Guia do produtor orgnico, como produzir em harmo-nia com a natureza. Londrina:IAPAR,2002.______.Alimentos orgnicos, um guia para o consumidor inteligente. Lon-drina:IAPAR/ACOPA,2002a.EHLERS,Eduardo.Agricultura sustentvel: origenseperspectivasdeumnovoparadigma.Guaiba:Agropecuria,1999.GLIESSMAN,SttephenR.Agroecologia, processos ecolgicos em agricultu-ra sustentvel.PortoAlegre:UFRGS,2001.GONALVES,Carlos.W.P.Geografiapolticaedesenvolvimentosus-tentvel.Terra Livre, SoPaulo:AGB,n.11-12,ago92/ago93,p.9-76.desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA232GUZMN,EduardoS.Origem,evoluoeperspectivasdodesenvolvimentosustentvel.In:Reconstruindo a agricultura: idias e ideais na perspectiva do desenvolvimento sustentvel.PortoAlegre:UFRGS,1997,p.19-32.HALL,Michael;LEW,A.(Org.).Sustainable tourism: ageographicalanali-sys.U.K.,1998.PROGRAMADASNAESUNIDASSOBREMEIOAMBIENTE(PNUMA).1987,Bruxelas.Nosso Futuro Comum.RiodeJaneiro:FGV,1988.ROCHA,MarcondesP. Alimentos orgnicos, um estudo sobre a percepo dos consumidores. MonografiaUNIOESTE-FBE,2004.SANTOS,Milton.A natureza do espao.SoPaulo:Hucitec,1996.TORRES,PatrciaL.Uma leitura para os temas transversais. Curitiba:SE-NAR-PR/EditoraEletrnica,2003.233centro de APoio Ao Pequeno Agricultor*: exPerinciAs e desAFios em AgroecologiA**valDir luchmanTcnicodoCAPA(CentrodeApoioaoPequenoAgricultuor)Ver-PR|capasud@vere.com.br/capa-vere@capa.org.brOCentrodeApoioaoPequenoAgricultor(CAPA)umaorganizaono-governamental(ONG)ligadaIgrejaEvanglicadeConfissoLuterananoBrasil(IECLB),fazendopartedoseucompromissodeIgreja,quenoseconformacomasinjustiassociaiseaagressonatureza.ApropostadoCAPAapoiarofortalecimentodasfamliasdeagri-cultoresparaqueeles, juntocomoutrossegmentosdasociedade,parti-cipemnodesenvolvimentobaseadonosprincpios de agroecologia e decooperaoatravsdeexperinciascomproduo,beneficiamento,indus-trializaoe comercializao,que sirvamde sinaisdequeomeio ruralpodeserumespaodevidasaudvel,derealizaesedeviabilidadeeco-nmicaparatodos.Criadoem1978,surgiunomomentoemqueosagricultoresfamilia-reseramexpulsosdocampoporumnovomodeloeconmico,concentra-dorderendaedeterraquepassouadestruirasadedaspessoaseomeioambiente.Comele,aIECLBfirmouumgestoconcretoporjustiasocial,baseando-senoprincpiodequefevidadevemandarjuntas.* Colaboradoresda equipe tcnicadoCAPA:DcioAlceuCagnini (Tcnico emHorticultu-ra),MariaHelenaMari(EngenheiraAgrnoma),RomeSchneider(EngenheiraAgrnoma),ElaineZanetti(AssessoraAdministrativa).**Oautornoapresentourefernciasparaessetexto.desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA234Hoje,aagriculturafamiliarcontinuaaenfrentardesafios.Viabili-zarapequenapropriedadeexigeorganizaoepreparo.Desdeoincio,oCAPAbuscoucontribuirparaaprticasocialedeserviojuntosfamliasdeagricultores,comoumaestratgiadedesenvolvimentosustentvel.AtendeosEstadosdoRioGrandedoSul,SantaCatarinaeParan,pormeiodecinconcleos:Erexim,PelotaseSantaCruz(RSeSC);Ma-rechalCndidoRondoneVer(PR).Sobeneficiadasemtornode5.400famlias,incluindoagricultoresfamiliares,indgenas,quilombolasepesca-doresprofissionaisartesanais.ONcleoVeriniciousuasatividadesemsetembrode1997,tendocomoreadeabrangnciaboapartedaregioSudoestedoParan.Hojeostrabalhosestomaisconcentradosemalgunsmunicpioscomativida-desdeassessoriadiretaaosprodutores,enquantoque,nosdemais,oapoiod-sedeformaindireta,atravsdeassociaesedecooperativas,princi-palmentenasatividadesdeconstruodaredesolidriadecomercializa-oedecertificaoparticipativa(RedeEcoVida).AgroecologiA: contexto regionAlhisTricoEm1997,quandooCAPANcleoVeriniciavaassuasatividades,jhaviavriasiniciativaseexperinciasnaproduoorgnicaimplantadasousen-dorealizadaspelasorganizaesdosagricultoreseentidades.AregioSudoestedoParantrazporherana,deumpassadodelu-taseconquistas,ofortalecimentodauniodosagricultoresexpressanasorganizaes sindicaiseoutrasentidadesdentrodeummovimentoquepoderiaserdenominadomaisderesistnciadoquepropriamenteagroe-colgico.Nestecontexto,oCAPAveioparasomarcomasdemaisentidadeseiniciativas.Oinciodasatividadesdeu-seatravsdoacompanhamentodegruposligadosounocitadaIgreja,poisotrabalhoecumnico,comagricultoresdispostosadiscutiralternativasdeorganizaoeproduo.Nas reunies, entreoutrosassuntos,pautava-se tambma impor-tnciadashortasedospomaresdomsticoseoresgatedasplantasmedi-cinaiscomointuitodemelhoriadaqualidadedevidadasfamlias.Confor-meaparticularidadedecadagrupo,asdiscussesforamsendoafuniladasparaasatividadesdeinteressedasfamlias.Diversasatividadesforamdesenvolvidase,independentedotempodecaminhadaemcadagrupo,omaisimportanteparaoCAPAfoiquese-mentesforamsemeadas,cumprindoassimasuamissodeserfermen-to,motivadorparanovasiniciativasealternativascombasesagroecol-gicas.ArealidadeeaconvivncianosgruposcontribuiunoprocessodeavanoedecrescimentodoCAPAnaregio.235vAldir luchmAnAdifcilsituaofinanceirademuitasfamliaspossuidorasdepe-quenasreasdeterraaslevoualanar-seematividadesnotradicionais,apostando principalmente em hortalias ecolgicas. Devido ao fato dastradicionaisseremcultivadascomousodemuitosagrotxicos,houveummaiorsobrepreodasecolgicas.Paraatendercrescentedemandaporassessoriatcnica,apartirdoanode2000oCAPA intensificouasatividadesnareadaproduo,principalmenteemfruticulturaeolericultura.Essecenrioexigiumaiorespecializaotcnica,assessorianaorganizaodoplanejamentoeapoiocomercializao,paraqueaproduono ficassemercdosistemaconvencionaldecomercializao,quemuitasvezesnocondizcomarea-lidadedosagricultores.reAlidAde ATuAlApsdezanosdecaminhada, sendoamaiorpartedestesenvolvidosnaproduoatravsdeassessoriadiretamuitasfamlias,pode-sedestacarvriosaspectosnoprocessodefortalecimentodomovimentoagroecolgi-conaagriculturafamiliar.Porvezesflagramo-nosumtantoquantodesoladosdiantedaavalan-chequmicaqueinundacadavezmaisaagriculturafamiliar,comoquemquisesse sufocar a resistnciaagroecolgica.Quando,porm, refletimossobreatrajetrianosltimosanos,podemosverqueaagroecologiatevemuitosavanos,nosnaproduo,mastambmnaspolticaspblicasecomotemaimportantedentrodasinstituiesdeensinoepesquisa.E justamente nesse campo que ela difere das demais correntesouescolasdeagriculturaalternativa,comoaagriculturaorgnica,aeco-lgica,abiodinmicaeapermacultura,quetiveramsuaorigemempa-sescomseusproblemassociaismaisoumenosresolvidos.Aagroecologiavaimuitoalmdetecnologiaalternativadeproduo,permeandohojeasgrandesdiscussessociais,ambientaisedeseguranaalimentar,fazendoaindapartedasdiscussesdepolticapblicapropondoumdesenvolvi-mentosustentvel.Poroutrolado,aconvivnciadiretacomasfamliasdepequenosagricultorespermite-nosfazerumaanlisebemrealistaequegeralmenteficamuitodistantedasdiscussesque,porvezes,somerosdiscursosfilo-sficos,idealistasoupolticos.necessriofazerumainterpretaoapartirdarealidadedodia-a-diadasfamliasnosentidodapropriedadeparaforaenonosentidocontrrio.Aorganizaodegrandesdiscussesenvolvendointelectuaiseestudiososemagriculturaalternativa,exigindoamobilizaoeodesloca-mentodegrandesdistncias,parareunirem-seemsalascomarcondicio-nadoparadiscutireresolverosproblemasdospequenosagricultores,nemsempresurteresultadosaplicveisouviveis.desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA236Queremos,contudo,ressaltaraimportnciadaemergnciadotemadentrodasuniversidades,oquehpoucotempoerarestritoapenasaalgu-masONGsoucomotemadesuporteparaquestespolticasesquerdistasdepequenosgrupos.Vivemosemumapocaemqueextremamenteim-portantequeasinstituiesdeensinoformemumnmerocadavezmaiordeindivduoscrticos,enoalienados,paradiscutiraagroecologiaemto-dososseusaspectosdeformarealista,aplicvelehumanitria.reAlidAdes e TendnciAsOstemasdefundo,comodoaquecimentoglobal,incendeiamacirradasdis-cussessobresustentabilidadeemtodosossetores,discussesqueocorremcomtantaintensidadeque,norarasvezes,ultrapassamdesuaimportnciacomotema,fugindoparaapenasumtermo demodismoabstrato.Dentrodaesfera,nodesconectadadaagriculturafamiliar,asus-tentabilidadenoapenasumtemadediscusso,masumaaodeso-brevivnciademuitas famlias,que,bemantesdoassunto tornar-se tofamoso,jviviamesentemathojeasconseqnciasdeumsistemain-sustentvel.Nessemeio,oCAPApautaaagroecologiacomoalternativadeorga-nizaoedeproduoentreasfamliasenvolvidasdeformarealista,dei-xandodeladoosextremismosdafilosofiautpicaeoradicalismosociopo-ltico.Oquesebuscaadiversificaodapropriedadeintegrandovriasatividadesquesecomplementamcomomnimodeaportedeinsumoseapromoodatrocadeexperinciasparaaprimorareaprofundarosconhe-cimentosemtecnologiasalternativasdeproduo.o envelhecimenTo dA AgriculTurA Agrandemaioriadosprodutoresenvolvidosnaproduoalternativanojovem,eporissopreocupanteofuturodaagriculturafamiliaragroecolgi-ca.Quemseroosfuturosprodutoresagroecolgicos?Aintroduodarevoluoverdecausouumchoquenosagricultoresqueatentopraticavamaagriculturatradicional,naqualoconhecimen-toerarepassadodepaiparafilho,assimcomoosesforosdotrabalhoti-nhamcomoobjetivoadquirirterraparaosfilhos,sucessivamente.Nonovomodelo,agoraorepassedeconhecimentovemdosprofissionaisaserviodetransnacionais,querapidamenteimplantaramummodelodependenteeexcludente,semespaoesemmotivaoparaosjovens.Nobastaapenasaplicarcursosdeformaoepalestrasparaaju-ventuderural.necessriotentarenvolv-lanumprocessodequebradeparadigmasedespert-laparaumanova realidade ruralondeos jovenspossamserprotagonistasdeumnovomundo,maisjustoesustentveltambmeconomicamente,enovenhamaserapenasmerasvtimasdoacaso.Essedespertarparaonovoexigenosvontadepolticaecrdito23vAldir luchmAnespecfico,masoenvolvimentodetodasasinstituies,principalmenteasdeensino,paraquepossamprepararprotagonistasparaofuturo.A reAlidAde dA porTeirA pArA denTro Nesserecantomoraumsujeitocommaisde50anosdeidade,vivealiqua-seumavidatodacomsuaesposa.Possuiumareade15hectares(ha),in-cluindopastagem(potreiro),mato,fumoeumareade2haqueocupadapelasconstrues,umpequenopomarparaoautoconsumoeaproduode algumashortalias orgnicasque so vendidaspara a associaodaqualelefazparte.Amaiorpartedesuapropriedade,contudo,arrendadaparaumvizinho,quecultivasojaemilhoconvencional.Enquantoesperaansiosamenteporsuaaposentadoria,vaisobrevi-vendodoarrendamento,davendadehortaliasedavendadeumpoucodeleite.Aassociaodaqualfazparteopressionaparaqueaumenteadi-versidadeeovolumedeproduo.Almdisso,temoimpassecomopro-cessodecertificao,queforasuapropriedadetodaaentrarnumplanodeconverso,tendocomograndedificuldadeafaltademo-de-obra(no consigo tocar tudo sozinho).Outromotivodeaborrecimentoofinancia-mentodogalpodefumoqueelefezpensandoemusarmaistardeparaosanimais,masque,porora,parahonrarocompromisso,obriga-oaplantarfumopelomenosmaisumoudoisanosainda.Ostrsfilhosqueelesempremotivouaestudarparaseralgumnavidamoramnacidadehmuitosanoseovisitamesporadicamenteparafazerumrancho, levamfrutasehortalias,carne, leite,mandiocaetc.Seuparentequemoranacidadegrandesemprelhegarantequeelemoranumparaso.Elenodiscordaenoreclamadolugarondevive,masestpreocupadocomofinanciamentodogalpo,almdasdespesasdomsti-casincluindoaluzeosmedicamentos.Acreditanaagroecologia,masestsozinhoejumpoucolimitadopelaidade.Essebreverelatoconstituiapenasumailustrao,pormcondizen-tecomarealidadedemuitasfamliasdanossaregio.Encontramosaindasituaesdealgunsfilhosdeprodutoresquetrabalhamjuntamentecomseus pais e que so simpatizantes domovimento agroecolgico e estoabertosparaadiscussoeaprtica,massopodadosporseuspais,muitasvezesirredutveiseviciadosnosistemadeproduoqumica.Sotempodirseelesseroprodutoresecolgicosdaquiaalgunsanos,oumigraroparaacidadenorespondendoaumapropostaaparentementetentadora.perfil pArA umA novA reAlidAde Vrios foram,econtinuamsendo,osmotivosque levamosfilhosdeagri-cultoresamigraremparaacidade,dentreabuscaporumavidamelhoroumenospenosaqueavividaporseuspais.Aagriculturatidacomoumaati-vidadeinferiorevergonhosa,segundoumacertaconcepoquesecriounadesenvolvimento territoriAl e AgroecologiA23sociedade,principalmentefomentadaentreosmaisjovens,queusavamoter-mocolonodeformapejorativa,sendoqueosprpriospaisagricultorespar-ticipavamdessaidiaquandodiziameu quero que meu filho estude e trabalhe na cidade pra no sofrer como euou,ainda,quandoafirmavamques ficava na colnia aqueles mais cabea dura que no serviam para outra coisa.Aagroecologiasepropeajustamentemudaresseconceito.Feliz-mentejdespontampequenossinaisdissocomoaparecimentodealgu-masunidadesdeproduoalternativa,ondeosprodutorestmformaonareadecinciasagrriasousimplesmentesopessoasdacidadequeti-veramsuasrazesnaagriculturaeestoretornandoevendoocampocomooportunidadeparaoturismoruraloumesmoaproduo,objetivandoademandacadavezmaiorporalimentosorgnicoseartesanais.umretornoconscienteecomamentalidadedequeaagriculturapodeser,almdemaissaudvelparaviver,noumaatividadevergonhosa,maseconomicamenterentvel,ondeaexpressodacolnia,agoramo-dernapodeserestratgiademarketingparaacomercializaodeseuspro-dutosorgnicoseartesanais.Oredescobrimentodaagriculturapodecriarumrefluxodeatoresquevirocomumanovamentalidadeeprincipalmentecomapreocupa-oquantosustentabilidadeambientaleseguranaalimentar.Essesno-vosagricultores,pornoestaremviciadosoualienadosaosistemadepro-duoqumica,contrapondo-sedeformacrtica,buscaroapoioesuportenasinstituiesdeensino,bemcomodepesquisadoreseextencionistas,paradesenvolveralternativassustentveis.Talvezaindaessemovimento,juntamentecomosatuaisetradicionaisprodutoresagroecolgicos,possadespertarosdemaisagricultoresparaamudana,pormenorquesejanosentidodepraticaremumaagriculturamenospredatria.Querendoacreditarqueessasejaatendnciaparaofuturodaagro-ecologia,oCAPA,cientedeserumprocessolentoevarivel,tembuscadoatuaremparceriacomoutrasentidades,natentativadeprovocarasocieda-deatravsdealgumasaesquepoderoterefeitoouresultadonofuturo.A mAneirA do cAPA de trABAlhAr com os Agricultores nA orgAnizAo, Produo e comerciAlizAo AgroecolgicANombitodaassessoriaemergencialnareadeproduodehortaliasefrutferas,oCAPAtemacumuladomuitasexperinciasvivenciadasaoladodasfamliasacompanhadas.Muitasvezesflagradoemalucinantescorri-dasatrsdaenormedemandapelosagricultoresesuasnecessidadesime-diatistas,criandoumeloviciosodecarnciaeassessoriaassistencialista.Poroutrolado,essaaproximaoextremalheproporcionouumabagagemcarregadaderealidadecotidianadasfamliasruraisenvolvidas,caracteri-zando-senumdiferencialemrelaoaoutrasentidades.23vAldir luchmAnProduo de hortAliAs formAo de produTores desumaimportnciareunirasfamliasinteressadasnaatividadeparaumaprimeiraexposiodeesclarecimento,paraqueelasconheammelhoraativi-dadegeralmentenadatradicionalparaelas.Naseqncia,inicia-seumcursobsicoquedivididoemvriasetapas,quesorealizadasemumaproprie-dadequetrabalhacomaproduodehortaliasparaconciliarembasamentotericocomatividadesprticas.Entreasetapas,sofeitasalgumasvisitasnaspropriedadesdecadaumadasfamliasparafazerumdiagnsticoeorienta-onaimplantaodaatividade.Depoisdevencidoocursobsico,afamliaintegradaaogrupoquerecebeaassessoriapermanente,comaexignciadequeparticipemdasreunieseprticasemformadediasdecampo.produo e incremenTo Tecnolgico Apesarde concordarmosqueousodaplasticultura fogedosprincpiosecolgicos,entendemosquesefaznecessriaautilizao,frenteaumce-nriodepressodomercadoconsumidordeumladoeporoutroaansie-dadederetornofinanceirodosprodutores.OCAPAdesenvolveuummo-delodeestufasimples,barato,pormmuitofuncionaleresistente,provadissoaaceitaoeadifusoporpartedosprodutores.Damesmaforma,motivouousodetelasdesombreamentoparaoscultivosdevero,quese-jamapropriadasparacadaculturaesistemasdeirrigaobastantediver-sos,conformeanecessidadeearealidadedecadapropriedade,lembrandoqueumsistemadeirrigaoparaproduoecolgicadiferedairrigaoconvencionalemalgunsaspectos.viveiro comuniTrioAiniciativadaconstruofoiumanecessidadefrentedificuldadedepro-duoemnveldepropriedade,principalmenteempequenaescala.Aqua-lidadebaixadasmudas,oquenoadmissvelnocultivocomercial,foiumdosfatoresquemotivouarealizaodeumviveiroqueoferecesseumaestruturamnimaparaaproduodemudasdequalidade.Umoutrofatormuitoimportantearegularidadedestaproduo,querefletenadapro-duofinal.Oviveirofoiinstaladonapropriedadedeumassociadoqueresponsvelpelaproduo,sendoqueaparteadministrativaficaporcontadaassociaodosprodutoresecolgicos,querepassaasmudasaosasso-ciadoscomcustovivel.AAssociaonovisalucronaproduodasmu-das,apenasrepassaseuscustos.plAneJAmenTo Oplanejamentotemdoisaspectosimportantes,sendoqueumaregula-ridadedeofertadeprodutosexigidapelomercadoconsumidor,que,emdesenvolvimento territoriAl e AgroecologiA240grandeparte,foiconseguidacomoviveirocomunitrioqueregularizaasemeadura.Asdemaishortaliasdesemeaduradiretatambmobedecemaumcalendriodeprogramaoqueconstrudodecomumacordoentreprodutoreseequipetcnica.Ooutroaspecto,talvezomaisimportante,aconotaosocialden-trodoplanejamento,que,parasuaelaborao,permeiaanecessidadedediscussesassociativasecooperaomtua.Naprtica,asfamliasdiscu-temumplanejamentodeinteressecoletivoemprimeirolugarenoodeordempessoal.orgAnizAo de grupos e formAo de AssociAes DesdeoinciooCAPAentendiaquenobastavaapenasacompanharasfa-mliasnaproduo,poisascircunstnciasexigiamaorganizaodegru-posdistintosporatividadeeassociaesformalizadas.Fazpartedesuasmetasaorganizaodeagricultores,porumladopeloaspectosocialdamobilizaoediscussodefundamentoscooperativos,e,poroutropelofatoreconmicodocustodeassessoria,quemenorsecomparadocomasaesisoladas.Ocotidianodoprocessoexistencialdeumaassociaomuitoricoeexpressonasreuniesregulares,tendocontrastesentreindivduoscomidiasassociativaseosquestionamentosfortementeindividualistaseime-diatistas.Muitasvezesnecessrioseenvolver,maisdoqueodesejvelcomoentidade,principalmentenosprocessosiniciaisparasolidificaodebasesquepossibilitemprojetaremcommaissegurana.comerciAlizAo Como jdissemos,nobastaapenasproduzirecologicamente.neces-sriobuscaralternativasdecomercializaoqueatendamrealidadedoprodutoresexignciasdoconsumidor.VamosusaroexemplodaAPAVE(AssociaodeProdutoresAgroecolgicosdeVer),fundadacomapoiodoCAPAemagostode2001,quesurgiujustamentedanecessidadedeumes-paodecomercializaoparaoferecerosseusprodutossemagrotxicosdiretamenteaoconsumidor.AAPAVEhojemantmumalojaemVer,queatendediretamenteumgrandenmerodeconsumidoresconscientesqueparticipamnopro-cessodemelhorianorelacionamentocomosprodutores,pondoempr-ticaaessnciadaagroecologiaqueenvolveasociedadepreocupadacomseguranaalimentaresustentabilidadeambientalequecomeaaenten-derairregularidadedaofertadeprodutosemdeterminadaspocas.Aas-sociaotambmparticipadoProgramadeAquisiodeAlimentos(PAA),fornecendoalimentossaudveisparavriasentidadesbeneficiadas.OutrocanaldecomercializaooenviodehortaliasparaafeiraorgnicadeCuritiba.AAPAVEmontouumsistemadecomercializaoemsupermer-241vAldir luchmAncadosdeVeremunicpiosvizinhos,combancasprpriasondeexpeseusprodutoscomospreosdefinidospelaprpriaassociao,sendoqueosu-permercadoapenaspraticaasuamargem,oqueumavanodentrodeestabelecimentos,quemuitasvezestratamosprodutoresisoladosdefor-mabrutaledesumana.Almdisso,outrasiniciativasforameestosendopraticadas,comoaparticipaoemfeirasdaregioecestasousacolasdeentregaemdomiclio.Ointercmbiodeprodutosentreassociaesregionais,estaduaiseinterestaduais,quehmuitovemsendoestimuladonosgrandesencontrosdeagroecologia,finalmentesaidopapelecomeaaserpraticado,opera-oqueajudaaescoaraproduoeproporcionamaiorvariabilidadedeofertaparaoconsumidor.Muitasdessasiniciativascitadasserepetememoutrosmunicpiosdaregio,como,porexemplo,aAORSA(AssociaodeProdutoresOrg-nicosdeSoJorgedOeste),que,juntamentecomaCOOPAFI(CooperativadaAgriculturaFamiliarIntegrada),realizasuacomercializaonosmes-mosmoldes.As constantes experincias e tentativas de ajuste so necessriaspara buscar o equilbrio entre reduodos custos de operacionalizaosemperderovnculoentreprodutoreconsumidor,oquefacilmentepodeocorreremterceirizaesvisandoabaixarcustos.considerAes FinAis Vamosusaroexemplodeumagrandeenchente,comaimagemdasguaslevandotudo,inclusiveascasas,e,nessecenrio,pessoasrapidamenteten-tandosalvaroquepossvele,ironicamente,nessasituao,possvelveroquelhesdemaiorvalor.Damesma forma, a inevitvel enchente da agricultura qumicavemdevastandooqueencontrapelafrente,e,assimcomooexemplousa-do,nopossvelevitarouquererbarr-laparanomorrerafogado.ne-cessrio,sim,salvaroquepossvel.Oqueserqueosagricultoresestosalvando?Queremos acreditar quemuitos estejampreocupados comassementes,comobemmaisvalioso.Quandofazemosalgumasanlisescrticas,queremos,contudo,nonosoporaprofundosestudosemanifestaessociaisdeoposiofrenteabsurdaenchentequmicadevastadoraeadesumananeglignciapolti-caemnossopas.OCAPAsolidrioaosmovimentosderesistncia,pormentendequetempodesalvar,resgatareguardaroquepossvelparapoderman-tererecomear.Salvarassementesimprescindvel,poisainconseqenteerosogenticaumprocessodeperdairreversveldosrecursosnaturais.Sobesseprisma,centraboapartedesuasatividadesemaesderealida-desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA242despalpveisnocotidianodasfamliasassessoradas.rduaacaminhadacomosagricultoresondeosavanosparecempequenos,pormdegrandeimportncia.Iniciarasatividadesecolgicasporinteressesfinanceiros,porpro-blemasdesadeouaindaporconscientizao,soostrsgrandesmotivosquelevamosagricultoresaingressarnaatividade.Infelizmenteoingressoapenasvisualizandooretornofinanceirobastanteevidenteemrelaoaosdemais,proporcionandoassimgranderotatividadecomfamliasini-ciandoedesistindodaatividade.Esseretratoumreflexodasituaode-sesperadorademuitasfamlias,quebuscamalgumaluznorteadoraparaasuasituao,eque,pordespreparo,acabamqueimandoetapasedesperdi-andooportunidadesquepoderiamlhesserteis.Felizmente,algumasdelasnospraticam,masvivemaagroeco-logiaamplamente,ejuntamentecomelaspossvelcriarmosilhasprote-gidasdaenchente,enquantoque,comoutras,otrabalhodeassessoriamuitasvezesespecficonasatividadesprodutivas.Nasreunieseprti-casdecampo,entreosassuntosdeordemprticaetcnica,permeiamasabordagensdeconscientizaoedeprovocaoparadespertarlideranasquepossamquestionarosatuaisquadrospassivoseacomodados,levadosporumaondadedesnimoeconformismo.Apesardorelatodeexperinciassercrtico,orelatorealistadeumtrabalhodevivnciacomasfamlias.TemosaesperanaefemDeusqueaagroecologiapossacaminharcompassosfirmeseproporcionar,aospou-cos,vidadignaaospersonagensdomeiorural.Apartirdocentrovitaldaespiritualidadecristedaconfessionali-dadeluterana,oCAPAdesenvolveeparticipacoerentementedeaesquevisaminclusosolidriadospequenosagricultores,comoaelaboraoeaprovaodeprojetosjuntosesferaspblicas,coordenaemsuareadeaoprogramassociaiscomo:PAA(ProgramadeAquisiodeAlimentos),LeitedasCrianaseoutros.Participanadiscussoenofortalecimentodossegmentosdaagriculturafamiliarnosfrunslocais,regionaiseespaoter-ritorialparaodesenvolvimento,efirmaparceriaseconvnioscomuniver-sidadesparavalidaodepesquisa.243reFernciAs em AgroecologiA: um olhAr soBre A rendA e os cAminhos trilhAdos PelA AgriculturA FAmiliAr do sudoeste do PArAn*serinei csar grgoloEngenheiroAgrnomo,tcnicodaASSESOAR(AssociaodeEstudos,Orienta-oeAssistnciaRural)|serinei@assesoar.org.brAsPectos metodolgicosEstetextopartedeumestudodarendaedoscaminhostrilhadospelaagri-culturafamiliardoSudoestedoParan,trazendoreflexessobreousodaterra,trabalho,autoconsumo,custos,entreoutrosindicadores.Estesdadosforamobtidosdeumconjuntodefamliasqueestuda-ramsuasUPVF(UnidadedeProduoeVidaFamiliar)noSudoestedoPa-ran:38famliasdocursodeDesenvolvimentoeAgroecologia,realizadopelaAssesoarnosanosde2005e2006;70famliasparticipantesdoProjetoRededeAgricultoresGestoresdeReferncia,coordenadopeloDESER(DepartamentodeEstudosScio-EconmicosRurais),emparceriacomasentidadesdaAgriculturaFamiliarLocal,nosanosde2004/2005;e7fam-liasconsideradasaquihistricasnaagroecologia.Todasestaspesquisasusaramamesmametodologia.Os dados levantados sugerem uma caracterizao da agriculturaregional, identificadosaquipor4 caminhos: a) agricultura convencio-nalsemfumo;b)agriculturaintegradaaofumo;c)agriculturaorgnica;* Oautornoapresentourefernciasparaessetexto.desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA244d)agriculturaecolgicahistrica.Como formadeestabelecer compara-eseaprofundaroestudo,faremosrefernciamdiadas70famliasdoProjetoRede.Adiferenciaoentreocaminhoceodsefaznecessria,poisaagriculturaorgnicacompreendida,nestetexto,comoumprocessoini-cialdeecologizao,baseadonasubstituiodeinsumos,dosquaisaindacontinuadependentee,portanto,diferenciando-sedaagriculturaecolgi-cahistrica,assimdenominadaaquiportratar-sedeUPVFsrefernciasnaregio,que,pelasualargaexperinciadeproduoecolgica,temsuaster-rasjrecuperadaseumabaixanecessidadedeimportaodeinsumos.Estabelecer comparaes entre estes caminhos importanteparapercebermosdiferenasentreasestratgias,paraodelineamentodenovasaeseparaaproposiodepolticaspblicasdaAgriculturaFamiliar.rendA e AgroecologiAQuala real importnciadarendanaagricultura familiar?Ascategoriaseconmicascomorenda,capitalelucro,soinerentesaumsistemabasea-donotrabalhoassalariado.Naagriculturafamiliarseria,portanto,impr-prioutilizardamesmaferramentaparaoestudodasuavidaeconmica.Feitaestaponderao,buscamosdarimportnciaaoutrascategoriaseco-nmicas,comoadoautoconsumo,eestabelecerrelaesentreascatego-riasvalordaproduo,renda,custos,trabalho,usodaterra,tendocomodesafiosuperaraabordagemeconomicistaderenda,gerandoindicadoresdesustentabilidade.AimportnciadarendaparaaAgriculturaFamiliarsedmedidaqueeladeixadeserapenasumindicadorquantitativoepassaatersigni-ficadosqualitativos.Aproduoecolgica,antesdeserumaopoeconmica,umaalternativadevidaede trabalho,contrapondo-seaosdesmatamentos,exaustodosrecursosnaturais,aoempregodamecanizaopesada,im-portaodeinsumoselgicadamonoculturaexportadora.Asestratgiasprodutivasorganizadasnaagriculturafamiliar,sejamorgnicasouconvencionais,aindanoconstruramumanova lgicademercado.OretornodefamliasproduoconvencionalperceptvelenosetemnotadoumcrescimentosignificativodeUPVFsagroecolgicas.Estasituaojnosrevelaafragilidadepresentenaagriculturaecolgica.Algumarazohdeseterequeremosnossomarnestabusca.A construo dA AgroecologiA nA regioAAssesoar (AssociaodeEstudos,Orientao eAssistnciaRural), foicriadaem1966por37jovens,agricultoreseagricultoras,quealmejavam245serinei csAr grgoloumavidacomjustiasocial,aorganizaodostrabalhadoreseapreserva-oambiental.Aslutasemobilizaesdosanos1980tambmbuscavamumaformadevivermelhoreumanovasociedade.AAssesoardenuncia,jnosanos1970,odramaecolgicodacha-madarevoluoverdeedefendeaagroecologiacomocondioparaaagriculturafamiliar.Criaofundodecrditorotativo,faztrabalhocomse-mentes,oficinas,formao,apoiandoalternativasecolgicasnaperspecti-vadodesenvolvimento.Nosltimosdezanos,aAssesoarpassaaassumiropapeldegerarreferncias e aprofunda conceitos dedesenvolvimento, autonomia e co-nhecimentoepropenovosmtodosderelaodasociedadecomosgo-vernos,ampliandoasdimensesdeseutrabalho.Suaaoguiadapelosfundamentosdaslutassociaisepopularescapazesderesistiraosprocessosdeexclusogeradospelomododevidacapitalista.Otrabalhododesenvolvimento,maiscomplexo,compreendeaagroecologiacomoumdoselementosdeumanovasociedade.Regionalmente,muitosetemtrabalhadonaproduoorgnicadegros,especialmentesoja.Empresasexportadorasaquiseinstalaramede-terminaramumitinerriotcnicoparaoscultivos,comprandoaproduopormeiodecontratos,classificando,embalando,certificando,enfim,co-mandandotodooprocesso.Nonosaprofundamosnasrazespelasquaisoutraimportanteati-vidadedoSudoeste,comoaproduodeleite,noganhoucontornoseco-lgicos,noentantoeisaumsignificativoesforoaserfeito.Asrefernciasemagroecologiaprecisam,portanto,sermelhores-tudadas.Este estudo revelaanecessidadedeumaproduoecolgicamaisdiversificadaparaquesepossafalaremresolverosproblemasdaproduo.Obviamente,outrasorganizaesdaagriculturafamiliaredoEsta-doincluramemsuasaes,aagroecologiaetambmderamsuacontri-buio.discusso dos indicAdores e cAminhosOquadroaseguirtrazoscaminhosdenominadosdeorgnicos,integra-dosaofumo,convencionaissemfumo,agroecologiahistricaeumamdiaderedes.Essesdadosserocomparadosunsaosoutros,olhandoseusprocessosdiferenciadosdegestoedeopoprodutiva,afimdeca-racterizarmelhorcadacaminhosegundoalgunsindicadorespresentesnaprimeiracolunaedescritosnofinaldestequadro.246Quadro 1 Indicadores de renda e de uso da terra38 UPVF do curso de Desenvolvimento e Agroecologia ASSESOAR7 UPVF Referncia em Agroecologia DESER70 UPVF/ Sudoeste DESERIndicadores OrgnicosIntegrados ao FumoConvencionais sem FumoAgroecologia HistricaMdia Redes SudoesteN de famlias 10 9 19 7 70Unidade de trabalho (UT) 3,01 2,78 2,94 3 3,16rea Total 19,44 16,72 20,47 22,61 12,8VBP (Valor Bruto da Produo comercializada)9.875,65 16.911,78 18.805,96 25.247,07 12.577,83Custos Variveis (%VBP) 30,07 38 49,31 20 36,43CMF 2.458,30 3.713,11 3.638,82 2.595,00 -CME 220,00 300,00 685,00 799,00 -Renda 3.858,08 5.683,94 4.216,11 16.774,00 4.152,85Autoconsumo monetarizado3261,65 2.545,74 3.236,05 4.238,00 1.894,34Autoconsumo (% sobre a renda)84,54 44,79 76,75 - -Renda (SM/UT) 0,28 0,45 0,32 - -Renda + Autoconsumo (SM/UT)0,52 0,65 0,56 - -Previdncia + servios 4.451,56 8.772,00 10.900,76 - 5.758,22VBP/ha de produo 641,36 1.248,1 880,00 - -Renda/ha de produo 250,56 419,48 197,28 - -Trabalho (ha trabalhado /ut).5,12 4,88 7,27 - -desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA UTUnidadedeTrabalho:nmerodepessoasnafamliamultiplicadopelotempoquecadaumsededicaaotrabalhonaUPVF. VBPValorBrutodaProduocomercializada. CustosVariveiscustosdeproduoquevariamdeacordocomaquantidadecultivada,comoinsumos,despesascommquinas.Nestecaso,transformamosem%doVBP. CMFCustosdeManutenoFamiliar:sooscustosqueumafamliatemparasemanter,ouseja,alimentos,sade,educao,vesturio,taxas CMECustosdeManutenodasEstruturascustoqueafamliatemparamanteraes-truturaprodutiva,comoconsertosdeinstalaesemquinas.Nodepreciao. Renda:oVBPsubtradodoscustosvariveis,doCMFedoCME.ovalordisponvelparainvestimentos. Autoconsumoaquantidadedealimentosqueafamliaconsome,daquiloquefoiporelaproduzido,multiplicandopelopreodestesalimentosnomercado.Servecomoumreferen-cialdeautoconsumomonetarizado.24serinei csAr grgolo Autoconsumo%sobrearenda:ovalordoautoconsumomonetarizadocomparadoaovalordarenda. Renda/SalrioMnimo/unidadedetrabalhoarendadivididapelasunidadesdetrabalho,divididapor13salriosanuaisecomparadoaovalordosalriomnimo.umdadoparacomparaescomaoportunidadedeganhodeumtrabalhadornacidade.Estedadodizoquantodeumsalriomnimoporpessoassobranocampo. Renda+Autoconsumo/Salriomnimo/unidadedetrabalhoasomadoautoconsumocomarenda.Temosentoumasobramaior,secompararmosquenacidadeoautoconsumosetornariaumcustoenocampoumarenda. Previdnciamaisserviosasomadasaposentadoriasedeoutrosserviosprestadosaal-gum.Serveparacompararcomarendaefazerreflexesseaagriculturafamiliarestconse-guindoviverdaproduo. VBP/readeproduocapacidadedeproduoporhectareocupadanaproduo,nocon-juntodasatividades,emvaloresmonetrios. Renda/readeproduoasobraporhectaregeradapeloconjuntodasatividadesepeloconjuntodecustosexistentes(nososdeproduo). ProdutividadedoTrabalhoaquantidadedereaqueumaUTconseguetrabalharnaUPVFnosdiferentescaminhosenascondiesatuais.Asfamliasqueparticipamdesteestudotem,emmdia,aproxima-damente3UT(UnidadesdeTrabalho)porUPVF(UnidadedeProduoeVidaFamiliar).AsUPVFspossuem,emmdia,19hectaresecultivam18,somandoosvrioscultivosporanonamesmarea.Asquecultivamfumotmamdiaporfamliade16,72hectares.Ficabemmarcadoqueofumoencontra-se,majoritariamente,nasmenoresUPVFs.Asreasdeproduotmintensidadedeusomaiordoqueumavezporano,somandooscultivosdeinvernoedevero,semcontarasreasutilizadasparaestradas,instalaes,reservalegalereasdepreservaopermanente.Valelembrarque,quantomaisvezesporanoamesmareaforutilizadaparaaproduocomercial,menossustentvelserosistemaprodutivoadotado.Aprodutividadedo trabalho,medidapelaquantidadedehectaresqueumtrabalhadoroutrabalhadoracapazdecuidar, ficaaoredordecinconoscultivosorgnicosenosintegradosaofumo,enquantoquenaagriculturaconvencionalsemfumoficaaoredorde7hectares/UT.Almdocasal,emmdia,temosotempodemaisumapessoaporUPVF,indicandoqueasfamliasestopequenasouosfilhosnoficammaisnaroa.Diantedessequadro,qualqueratividadeexigenteemmo-de-obraterpou-caschancesnaagriculturafamiliar,masatividadesqueapontamnadireocontrriapoderoserbemaceitas.Assim,aagriculturaconvencional,apesardetodososseusproblemas,continuatendomaisforaqueaagroecologia,dandoaentenderqueasfamliasaceitamsubmeter-seaumalgicademerca-doexploratria,desdequediminuaaquantidadeeapenosidadedotrabalho.QuantoaoValorBrutodeProduo,amenormdiaficoucomosorgnicos,aoredordeR$10.000,00/ano;amaiorficoucomosecolgicosdesenvolvimento territoriAl e AgroecologiA24histricos,emtornodeR$25.000,00/ano;seguidodosconvencionaissemfumocomumamdiadeR$19.000,00/anoeosintegradosaofumocomR$17.000,00/ano.OsorgnicostmoVBPmaisbaixo,mastmomenorcustodepro-duo,emtornode30%doVBP.Osconvencionaissemfumotmcustosvariveisdeproduode50%eosintegradosaofumo,38%.Naagroecolo-giahistricaocustoficaem20%.Mesmocomproduomenor,osorgnicostmrendamuitoprxi-maadosconvencionais.Sua,amdiadeR$3.858,08;nosconvencionaissem fumo,deR$4.216,11enos integradosao fumo,deR$5.683,94.Amaiorrendadosagroecolgicoshistricos,commdiadeR$16.000,00.OcaminhodaagriculturaorgnicaproduzumVBPdeR$641,36porhectareocupado,menosqueocaminhoconvencionalsemfumo,deR$ 880,00/ha. No orgnico a renda de R$ 250,00/ha ocupado, contraR$200,00noconvencional.Aproduomaiornoconvencional,masarendamaiornoorgnico.Oimportantenestecasoaperspectivaqueistotraz.Nosprimei-rosanos,osqueoptampelocaminhoorgnicoencontramadesvantagemdossolosdesgastados,comreasemconversoqueoneramaproduo.Amonoculturadeixasuasamarras,mas,comopassardosanos,aconteceumaprofundamentodasprticasecolgicasdeproduo,dando-seare-cuperaodoambienteprodutivo.Nestescasospercebe-seumaumentodaproduo,equiparando-seaprodutividadeobtidapelaagriculturaconven-cionalaltamenteartificializada,ecomumdiferencial,odequeoscustostendemacair.Naagriculturaconvencionaloscustosrepresentam,emm-dia,50%daproduo,tendendoaaumentar;enaagroecolgicahistricaficamnafaixados20%,tendendoadiminuir,chegandoa12%emalgunscasos,aexemplodocasoapresentadonoQuadro2,abaixo.Arendatemrelaocomograudedependnciaexternadeinsumos,comoscustosdemanutenofamiliareosdemanutenodaestrutura.Porsuavez,osdemanutenofamiliarestodiretamenterelacionadosproduodoautoconsumo.Osdeproduoconvencionalcomesemfumotmosmaiorescus-tos demanuteno familiar, em torno deR$ 3.500,00/ano.Os de baseecolgicatmmenorescustosdemanutenofamiliar,emtornodeR$2.500,00/ano.Oautoconsumovemse tornandomuito importantepara explicarapermannciadasfamliasnocampo.Estedado,comparadocomaren-da obtida pela venda dos produtos comerciais, representa praticamen-teamesma importnciadevalor.Amdiada rendanosorgnicosdeR$3.858,08eoautoconsumomonetarizadodeR$3.261,65,alcanando84%dovalordarenda.Nocaminhoconvencionalsemfumo,arendadeR$4.216,11eoautoconsumodeR$3.236,05,ou76%.Nosintegradosao24serinei csAr grgolofumo,istonoseverifica,ouseja,rendadeR$4.687,94eautoconsumodeR$2.545,74ou44%.Ofumocomprometeoautoconsumo.Nocostumededicaraoautoconsumoamesmaproporodetem-po,custos,terra,crditos,eatenoquededicadasatividadesderenda.Chamatambmaatenoquandocomparamosarendaeoautoconsu-mocomaoportunidadequeteriamaspessoasdebuscaremumempregodeumsalriomnimoaoinvsdeviverdaagricultura.Amedidadosalriomnimoadotadaaquiporserumarefernciaconhecidae,narealidade,seconstituinumaalternativamuitobuscadapelosfilhosefilhasdasfamliasagricultoras.Arendaobtidacomacomercializaodosprodutosagrcolascor-responde,emmdia,a0,28salriosmnimosmensaisporunidadedetra-balhonocaminhoorgnicoea0,32noconvencionalsemfumo.Nosinte-gradosaofumochegaa0,45.Sesomarmosoautoconsumomonetarizadoaestaconta,chegamosaumamdiade0,52salriosmnimosnosorgni-cos,0,56nosconvencionaise0,65nosintegradosaofumo.Paraquemvivecomestarenda,oautoconsumoprimordial,poismantmumamesarelativamentecheia,garantindoseguranaequalidadealimentarparatodaafamlia.Estesdadosindicamumabaixacapacidadedesobrafinanceira,ouumaltograudedependnciadeoutrasfontesderecurso.Senofosseele,estesvaloresseriamgastosnacompradealimen-tos,eliminandoopequenosaldodisponvel.Grossomodo,pode-seafirmarque,aproximadamente30%doqueas famlias aquimencionadas obtm para viver vem da renda, 25% doautoconsumoeosoutros45%debenefciosdaaposentadoria,rebatedoPRONAFedevendadeservios.Nessasfamlias,asoutrasrendasrepre-sentamemmdiaR$7.232,00/ano.Assim,chega-semarcadeaproxima-damenteumsalriomnimoporunidadedetrabalho.Esteumparmetroquenorespondesexpectativasdosjovens.Outrosfatores,comoapenosidadedotrabalho,osolquente,achuva,aes-tiagem,ospreosbaixoseanecessidadedenovosinvestimentos,tornamacidadeumforteatrativoeodestinodamaioriadosjovens,quesonhamga-nharmaisdoqueumsalriomnimo.Acredita-seserbemmaisfcilagre-garmeiosalrioemumempregonacidadedoquenocampo.Acompreen-sodequemeiosalriomnimonogaranteoscustosdealimentaonacidadeaindanotoevidenteparaosjovens.Osindicadoresderendaaquiexplicitadosrevelamumadificuldadeparaaagriculturafamiliar.Jpossvelafirmarquenelanopossvelfa-zergrandesreservasmonetrias.Nosdiferentescaminhos,arendaoriun-dadavendadaproduoalcana,emmdia,apenas1/3deumsalriom-nimoportrabalhador/ms.Nos ltimos anos, amaioria dos esforos adotama estratgia deinclusodaagriculturafamiliarnomercado.Afaltaderenda,noentan-to,nosedevefaltademercado,mas,sim,faltadeumnovomercadoedesenvolvimento territoriAl e AgroecologiA250outrosfatoresdavidanocampo.Asorganizaeseconmicasdocampoestofazendoomaioresforonestesentido,masduvidosoquepossamreverterestasituaosemalterarosproblemasestruturaisqueafetamavidanocampo:terra,pesquisa,ensino.Osdadostrazemumquestionamentosobrearealcapacidadedapro-duoorgnicaseampliarecomoelapodedefatoapresentar-secomoalter-nativaagriculturaconvencional,integraoeaostransgnicosemtermoseconmicos.Osresultadosnosalertamquefazeragroecologianecessaria-menteiralmdointeresseeconmico,atporqueistopodesercontradit-rio.AAgroecologiasefirmaporumaopoconscienteeporumavisodemundo,antesdeserapenasumaoportunidadedemelhoriaderenda.Pelaatuallgicademercado,aagriculturafamiliarnocapazdesesustentarsemsubvenesdoEstado.Novospapis,contudo,parecemcolocar-separaocampo,comoaproduodealimentoslimposdeagro-txicos,gualimpaearpuro.Isso,decertaforma,ajudariaajustificarassubvenesdoEstado.Casocontrrio,asustentaodaagriculturafami-liarpassaporreconstruirumanovalgicadeproduoemercadoondeasfamliasagricultorasexercem,efetivamente,ummaiorcontrolesobretodooprocesso,desdeaproduo,armazenamento,transformaoecomercia-lizao,apropriando-sedariquezaproduzida.Nomundotodoaagriculturasabidamentesubsidiada.NoBrasil,nonovidadeoEstadoperdoareprorrogardvidas.Constatamosestelimitenasnossaspropostasdeproduoorgnicaqueserevelaraminsu-ficientes, sejapelos seusaltoscustosdeproduoepeladiminuiodaprodutividade,ouporagregarmaistrabalhoepelafaltadelogsticadeco-mercializao.Noentanto,osagroecolgicoshistricosvmseapresen-tando,defato,comoumaalternativa.certoquenoestamossatisfeitoscomodesempenhoeconmicodosprocessosorgnicosenemdosconvencionais.Noentantoaagriculturaorgnicaseequipara,emtermosderenda,agriculturaconvencional,almdeprotegermelhoromeioambienteeestarproduzindoalimentoslimpos.Naagriculturaorgnica,aindaqueoscustossejamaltos,soadquiridosdeummercadolocalenodemultinacionais,considerandoaindaatendnciadadiminuiodoscustosdeproduo,pelarecuperaoecolgicadosso-los,pelaproduodesementeseaproduoendgenadeinsumos.Estasrazesseriamsuficientesparaadefesadaagroecologiacomoagriculturahegemnica.Sendoassim,noporfaltaderendaoudeargu-mentosqueelanoseamplia.Seuslimitessooutros,pressupondo-sequeoEstadotenhasuaresponsabilidadenasuperaodosmesmos,osquaisesperamospoder,nofinaldesteartigo,explicit-losmelhor.OsdadosdoQuadro2referem-seaumaUPVFereforamatesedequeaagroecologia,encaradacomopolticapblica,apresentacondiesdesubstituiraagriculturaconvencional.251serinei csAr grgoloQuadro 2 Indicadores de gesto de um agricultor familiar de caminho agroecologia histricaIndicadores Unidades Quantidadesrea total ha 27rea de produo comercial ha 15,27Produtividade soja orgnica sc/ha 50Produtividade do leite litros/ha 1.325,83Produtividade do trigo orgnico sc/ha 20Produtividade do acar mascavo Kg/ha 2.906,25Produtividade do feijo sc/ha 18Produtividade da horta unidades/ha 50.000Preo atual da soja orgnica R$/sc 32,50Preo atual do leite em converso R$/litro 0,40Preo atual do trigo R$/sc 25,00Preo atual do acar mascavo orgnico R$/kg 1,5Preo atual do feijo orgnico R$/kg 65,00Preo das hortalias R$/unidade 0,90Preo do mel R$/kg 6,00Preo da carne suna R$/kg 1,2Produo anual de soja Sc 150Produo anual de leite Litros 7.955Produo anual de trigo Sc 15Produo anual de acar mascavo orgnico kg 2.325Produo anual de feijo orgnico Sc 16Produo anual de hortalias Unidades 3.500Produo anual de mel kg 250,00Produo anual de carne suna kg 3.150Valor da venda da produo R$/h 1.385,12Valor da venda da produo R$ 21.150,85Custos variveis (insumos) R$ 2.628,00Custos de manuteno da estrutura produtiva R$ 450,00Custos de manuteno da famlia R$ 2.785,00Renda familiar da agricultura R$ 15.287,85Outras Rendas R$ 0,00Autoconsumo anual monetarizado R$ 4.665,00Insumos para reposio da fertilidade kg/ha 98,23Fonte:RededeAgricultoresFamiliaresGestoresdeReferncias/Deser(2006).desenvolvimento territoriAl e AgroecologiA252Os custos da produo representam 12,42% do valor da venda da produo, sem considerar o autoconsumo como valor bruto da produo. Se assim considerarmos, os custos representam entorno de 10%.A produo de autoconsumo da famlia composta pelos seguintes itens com os respectivos valores: hortalias(R$ 576,00), frutas (R$ 600,50), milho pipoca (R$ 20,00), ovos (R$ 75,00), mandioca (R$ 328,50), feijo (R$ 105,00), carnes (R$ 1.314,00), amendoim (R$ 160,00), leite (511,00), queijo (R$ 360,00), farinha de milho (R$ 100,00), batata doce (R$ 80,00), batatinha (R$ 120,00), alho (R$ 75,00), mel (R$ 240,00).Os insumos para reposio da fertilidade so de origem orgnica.A rea total a rea de escritura da propriedade.A rea de produo o somatrio das produes do ano agrcola, incluindo safras de inverno, vero, safrinhas e produes permanentes.Fonte:RededeAgricultoresFamiliaresGestoresdeReferncias/Deser(2006).Este caso, do caminho agroecolgico histrico, se diferencia dequemestiniciandonaproduoorgnica.Constitui-seemumindicativoimportante por apresentar alta produtividade, diversidade de produo,baixocustodeproduo,elevadoautoconsumoebaixoimportedeinsu-mos,oquesignifica,naprtica,umrompimentocomomercadodestes.Oelevadoautoconsumopodesignificarboascondiesdevida.Comestarenda,afamlianoestdependentederendasexternasenemdefinan-ciamentodaproduo.O caminho da agricultura orgnica, quando comparado com ocasoacima,aindaapresentalimitescomo:a)baixaprodutividadeini-cial, b)pouca rentabilidadedo trabalho, c) alto custo inicial ed)he-rana cultural damonocultura com falta de alternativas emudanasprodutivas.Estesquatro limitesaindano forambemresolvidos,orapor faltadepesquisasoficiais,orapor faltadeequipamentos,merca-dosdiferenciados,tecnologia,novosconceitosdemundoedevida,umaformadiferentederelaocomanatureza,oacessoaumaformaodiferenciada, terra suficiente e domnio tecnolgico construdo comoconhecimento.Comopodemosver,asimplesopopeloorgniconoresolvenemmelhoraarenda.Amudananoestsimplesmentedoconvencionalparaoorgnico,massimemdiversificarmaisaproduo,irembuscadenovasopes.Estligadaaumaoutraorganizaodaproduo,comovemosnocasoacima,ondeadiversificaoestpresenteeaescaladeproduonoumlimitante.ocuPAo dA reA de terrAAoanalisarmosaocupaodareadasfamliasestudadas,aindapodemosperceberdadosmaisreveladoresquantomudanasprodutivas.253serinei csAr grgoloQuadro 3 Ocupao da terra comparada ao VBP Valor Bruto da ProduoOrgnico Integrados ao fumo Convencional sem fumoOcupao% rea ocupada % VBP % rea ocupada % VBP% rea ocupada % VBPSoja 10,3 5,59 6,81 6,72 27,2 25,9Leite 21,24 39,06 49,92 21,09 45,94 59,96Milho 6,74 5,61 9,8 6,81 6,03 5,66Feijo 2,38 2,25 3,4 3,1 0,30 0,33Fumo 0 0 10,47 61,77 0 0Hortalias 3,8 14,77 0 0 0 0Outros 3,57 10,69 0 0 0 0Fonte:RededeAgricultoresFamiliaresGestoresdeReferncias/Deser(2006).OQuadro3nostrazoutrasquestesqueajudamaolharosdesafiosdaagroecologia.Dosorgnicos,somente5,59%doValorBrutodeProdu-oprovmdasoja,emborautilizem10%dareaparaestecultivo,oquerevelaabaixaprodutividadedasojaorgnicanestaregio.Naagriculturaconvencionalasojarepresenta,emmdia,26%doVBPeocupa27%darea.Quemcultivafumoutiliza,emmdia,7%dareacomsoja,eobtmaoredorde7%doVBP.Naagriculturaconvencional,91,52%doVBPvemdasoja,leiteemi-lho.Estescultivos,nocaminhoorgnico,soresponsveispor50,26%doVBP.Nosintegradosaofumo,estasculturas,maisofumo,sorespons-veispor96,39%doVBP.Ficaevidenteque,nocaminhoorgnico,asoja,oleiteeomilhodeixamdeteracentralidade.Outrasatividadescomeamaentrarnocenrio,oqueumbomindicadordesustentabilidade.Aopopelofumo,seporumladoapresentarendamaisalta,poroutro,limitaaprodutividadedoleite.Ocuidadoprioritrioficanos10%dapropriedadequesoocupadoscomofumo,deondevem62%doVBP,enquantoque50%dareaocupadacomleite,deondevememtornode21%VBP.Aproduodeleite,decertaforma,secundriaquandoocorreapresenadofumo.Osconvencionaissemfumofizeramclaramenteumaopomaisfortepelaproduodeleite.Manejam,emmdia,46%dareaeobtm60%doVBPcomele.OcaminhoorgnicotemamelhorrelaoVBP/readeproduo,poiscom21%dareaobtm40%doVBP.Provavelmenteumaboaprodu-ocombaixoscustosajudaaexplicarestebomindicador.considerAes FinAisOestudonospermiteconcluirqueaopopelaproduoorgnicanomelhorouarendasecomparadaaoscultivosconvencionais.Ocaminhodesenvolvimento territoriAl e AgroecologiA254agroecolgico histrico nos indica a possibilidade de timos resultadoseconmicose,porcontradio,nestescasos,osprincpiosdaagroecologiaocupamacentralidadedaspreocupaesenoarenda,ouseja,quantomaisecolgicaforaUPVF,melhoressoosresultadoseconmicos.Abaixarendaumindicadorquerevelaumproblemaquenoex-clusivodaagroecologia,masdaagriculturadeformageral.Olhandopelarenda,aproduoorgnicaseaproximadaconvencional,comindicativosdesuperao.Comesteindicadoreoutroselementoscomoodapreserva-odanaturezaedamelhoriadascondiesdevida,asrazesparaade-fesadaagroecologiaestariamdadas.Noestodadas,noentanto,ascondiesestruturantesapartirdepolticaspblicasparaaecologizao.AsfamliasquefizeramessaoponocontaramcomumaestratgiadeEstadoepagaramumpreoporestaconversoque,naturalmente,nemtodaselasestodispostasabancarso-zinhas.Assim,conclumosqueumapolticadeEstadodevaorientarapro-duonacionalnestesentido,criandoascondiesnecessrias.Outrodadofoiaexpressodaimportnciadoautoconsumoparaasustentabilidadedaagriculturafamiliar,interferindonarendaenacriaodealternativasparaalmdasoja,leiteemilho.Aagroecologia,portanto,umcaminhoqueserevelacapazdere-solvermuitosproblemasdaproduoagrcola,acontarcomtodososou-trosavanosquesoinquestionveisnestaprtica.Oproblemadapobre-za,daviolncia,doisolamento,dafaltadeestrutura,dafaltadeeducao,enfimdopoucodesenvolvimento,permanecermesmonaagriculturaeco-lgica,seolharmosocampospelaproduo.necessrio,portanto,darcontadetodasestasquestes,comousemaagroecologia.

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