Redes, tecnologia e desenvolvimento territorial

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    Redes, tecnologia e desenvolvimento territorial

    Autor: MARIA DO CU LOPES Escola Superior de Tecnologia do Instituto Politcnico de Viseu Campus Politcnico de Repeses 3504-510 Viseu Portugal Telefone +351 - 232425152 ou 964619936 e-mail: mceulopes@di.estv.ipv.pt

    Resumo

    Face ao carcter dinmico inerente capacidade de adquirir informao, no mbito de

    um processo de aprendizagem permanente, o desempenho empresarial condicionado

    pela insero em redes indutoras de mudana tecnolgica, complementaridade e

    interaco. Mas a capacidade de interaco das empresas influenciada pelas

    caractersticas dos territrios em que se localizam e o desenvolvimento destes depende

    do desempenho empresarial: gera-se um efeito de simbiose econmica e territorial.

    Apresentam-se resultados de investigao emprica, evidenciando algumas

    caractersticas tecnolgicas e geogrficas das redes de contactos das empresas sediadas

    no territrio constitudo pelas NUT III Do-Lafes e Serra da Estrela, localizado na

    regio Centro de Portugal.

    1. Introduo

    A capacidade de obter a informao adequada e de a utilizar convenientemente constitui

    uma condio necessria sustentabilidade da actividade empresarial, um factor vital

    para a gerao de conhecimento acerca do mercado, determinante na construo de

    respostas oportunas s suas necessidades explcitas ou latentes.

    As capacidades organizacionais, acumuladas pelas empresas ao longo do seu percurso,

    contribuem para enriquecer o seu repositrio de conhecimento e as suas competncias.

    Mas os processos de aprendizagem so intrinsecamente sociais e colectivos.

    Interagindo, as empresas tm a possibilidade de aprender no s com a sua experincia

    mas tambm com a dos outros, complementando e aperfeioando a sua destreza

    cognitiva e a sua competncia tcnica.

    Tanto ao nvel da sua estrutura interna como na sua interaco com o exterior, para

    competirem as empresas necessitam de actuar de forma sistmica, semelhana dos

    organismos vivos. Se possurem capacidade de adquirir conhecimento de diversas

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    fontes, podem aprender e inovar. Sobretudo por parte das pequenas empresas, essa

    capacidade pode ser melhorada atravs da insero em sistemas de relaes que

    potenciem a transferncia de conhecimento.

    Mediante utilizao das crescentes potencialidades das tecnologias de informao e

    comunicao (TIC), o estabelecimento de redes facilitado, tornando-se menos

    dependente da proximidade geogrfica. No entanto, o factor distncia no deixou de ter

    influncia no efeito da interdependncia entre empresas ligadas em rede.

    O factor proximidade no influencia apenas a efectividade de externalidades que se

    geram no mbito das redes em que as empresas formalmente se integram. Determina

    tambm a existncia de redes informais, constitudas em funo das relaes de

    proximidade entre os agentes econmicos. Consequentemente as caractersticas dos

    territrios em que as empresas se localizam exercem influncia sobre a capacidade de

    interaco das mesmas e so por ela influenciadas: estabelece-se entre o

    desenvolvimento do territrio e o desempenho das respectivas empresas um processo

    simbitico com benefcios recprocos.

    Nos resultados empricos que apresentamos, relativos interaco e ao desempenho

    empresarial no territrio abrangido pelas NUT III Do-Lafes e Serra da Estrela

    (DLSE), na regio Centro de Portugal, procuramos evidenciar algumas das

    caractersticas desse processo.

    1. Competitividade, interaco e confiana Boa parte do conhecimento tecnolgico e de mercado adquirido fazendo, usando e

    interagindo com clientes, fornecedores e empresas de sectores relacionados

    desenvolvendo relaes que ultrapassam o mero mbito negocial. A transferncia e

    incorporao desse conhecimento so actualmente favorecidas pelo facto de a maioria

    das actividades econmicas nos sectores mais importantes ser organizada em diferentes

    tipos de redes, nomeadamente de fornecedores, de produtores, de clientes e de

    cooperao tecnolgica. Este facto pode explicar que a taxa de introduo de inovaes

    por parte de uma empresa seja cada vez mais influenciada pela respectiva capacidade de

    cooperar com outras empresas (Acs et al, 2000).

    Entre os motivos que levam as empresas a organizar-se em redes, destacam-se

    habitualmente:

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    - A dependncia de recursos, j que as empresas raramente so auto-suficientes,

    sendo por isso levadas a formar alianas ou conexes com outras empresas das quais

    regularmente dependem para os obter (Pfeffer J, 1998);

    - A necessidade de alianas estratgicas derivada da natureza mutvel dos

    mercados e da procura dos consumidores (Piore e Sabel, 1984);

    - O desejo de extrair mais rendimento que o conseguido isoladamente numa

    economia competitiva.

    Tal como a teoria dos custos de transaco explica a existncia de empresas, tambm os

    motivos apontados explicam a conexo das empresas e a formao de redes, tendo em

    vista a obteno de melhores resultados econmicos (Granovetter, 1998).

    Atravs das relaes econmicas e sociais na rede, muita informao obtida sem

    expensas, em parte porque a confiana recproca opera como um mecanismo que facilita

    a comunicao e a cooperao entre empresas e ajuda a filtrar os fluxos de informao

    externa que circulam pelos mais variados canais. Simultaneamente, esse mecanismo

    permite difundir com eficcia a informao prpria, seleccionando destinatrios e

    optimizando percursos de comunicao. Consequentemente, um clima de lealdade e

    confiana torna-se um factor decisivo para uma eficiente transferncia de conhecimento

    tecnolgico e de mercado, ao incentivar a integrao empresarial em redes de negcios

    e de cooperao.

    Existe actualmente a percepo de que "a cooperao selectiva a nova ferramenta

    pivot para que os agentes econmicos internalizem externalidades (Acs et al, 2000) e

    em parte a tentativa de apropriao de externalidades que leva as empresas integrao

    voluntria em redes. Antonelli (1992) destaca alguns resultados associados gerao e

    apropriao de externalidades, observados geralmente nos processos de crescimento e

    mudana tecnolgica:

    - A taxa de introduo de inovaes por uma empresa parece ser cada vez mais

    influenciada pela sua capacidade de cooperar com outras empresas;

    - Sectores chave fornecem externalidades, mediante uma srie de ligaes e

    interdependncias no negociadas;

    - A proximidade uma forte condio necessria para tirar partido de

    externalidades geradas por outros.

    Os avanos registados nas tecnologias de informao e comunicao permitiram que

    surgissem processos flexveis de gesto, produo e distribuio totalmente interactivos,

    envolvendo cooperao simultnea entre diferentes empresas e unidades. Para absorver

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    os benefcios da flexibilidade das redes, a prpria empresa teve que tornar-se uma rede e

    dinamizar cada elemento da sua estrutura interna. Graas ao uso das TIC, o

    estabelecimento de redes facilitado, tornando-se menos dependente da proximidade

    geogrfica. No entanto, o factor distncia no deixou de ter influncia no efeito rede.

    2. Redes e capacidade tecnolgica Antonelli (1995) define rede dinmica como um conjunto de unidades de produo

    tecnologicamente diferenciadas, complementares na criao e adopo de novas

    tecnologias, em que se admite a possibilidade de mudana de tecnologia e a ateno se

    centra na complementaridade de diferentes empresas na gerao e adopo de novas e

    superiores tecnologias. No contexto de tal rede dinmica, consideram-se externalidades

    tecnolgicas os efeitos directos no mediados pelo mercado na capacidade

    tecnolgica de cada empresa, produzidos por actividades complementares e inter-

    relacionadas de pesquisa e desenvolvimento e pela aprendizagem tecnolgica das outras

    empresas da rede.

    As externalidades tecnolgicas procedem, sobretudo, de complementaridade e inter-

    relao entre empresas na gerao de novas tecnologias, quando essa gerao beneficia

    de um sistemtico trabalho em rede, na presena de diferente know-how incorporado na

    variedade de elementos da rede. Quando existem estas externalidades tecnolgicas, o

    nvel geral de eficincia de cada empresa aumentado pela interaco com outras

    empresas com competncias e experincias complementares na gerao de nova

    tecnologia (Antonelli, 1995).

    Em termos da difuso de novas tecnologias, a complementaridade dos membros da rede

    reflecte-se em externalidades de adopo que surgem quando a vantagem de adopo

    de um novo produto aumentada por via do nmero de adoptantes anteriores.

    Como resultado do efeito externalidade, a interaco, num contexto de

    interdependncia, complementaridade e mudana tecnolgica, reflecte-se em eficincia

    produtiva.

    No obstante a diferena de valor relativo dos membros de uma rede, o seu valor global

    cresce com o nmero dos seus elementos (Capello, 1994) e, na presena de

    externalidades, ser de esperar que um elemento da rede obtenha o mesmo nvel de

    produo com menores quantidades de capital e trabalho envolvidas no processo de

    produo. Isto porque a informao obtida atravs da rede pode substituir factores de

    produo tradicionais e o capital e o trabalho podem tornar-se mais produtivos na

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    presena de mais conhecimento (designadamente, sabendo o que fazer e como fazer).

    de esperar ainda que os custos de produo sejam mais baixos quanto maior for o

    nmero de membros da rede, pois os custos de obteno de conhecimento so

    distribudos por um maior nmero de intervenientes.

    Quando as redes se difundem, o seu crescimento torna-se exponencial, bem como os

    benefcios de se estar ligado, ao passo que o custo cresce linearmente; a penalizao de

    se estar de fora aumenta com o crescimento da rede, pelo nmero de oportunidades

    perdidas de atingir outros elementos (Castells, 2000).

    3. Capacidade tecnolgica e condicionantes territoriais O interesse crescente no territrio como elemento influenciador do desenvolvimento de

    novas tecnologias consequncia da ideia de que o desenvolvimento tecnolgico se

    tornou fundamental para a explicao das disparidades regionais de crescimento

    econmico. A produtividade, a inovao contnua e os avanos tecnolgicos passaram a

    ser olhados desde os anos 1980 como as foras motrizes do desenvolvimento

    econmico regional (Nijkamp, 1987).

    Paralelamente constatao de que os territrios mais desenvolvidos so mais propcios

    ao desenvolvimento tecnolgico, -se levado a inferir que o surgimento de mudana

    tecnolgica origine desenvolvimento regional, admitindo que a adopo de novas

    tecnologias permite melhor desempenho econmico atravs da maior produtividade dos

    factores. Espera-se, com efeito, que os processos de inovao actuem sobre os custos de

    trabalho e de outros meios de produo, pela racionalizao do seu uso, provocando

    acrscimo de valor e decrscimo de custos de mo-de-obra, ou seja, aumento de

    produtividade. Assim, a explicao do crescimento econmico e das disparidades

    regionais tem actualmente como ponto de partida indispensvel a gerao, difuso e

    efeitos espaciais de novas tecnologias. A produtividade, a inovao contnua e a

    mudana tecnolgica so consideradas como os principais catalisadores locais do

    desenvolvimento econmico regional.

    A importncia determinante da tecnologia na performance regional leva a que o uso de

    tecnologias avanadas deva ser impulsionado mesmo nas regies menos favorecidas

    (Camagni e Rabellotti, 1990). No entanto, se as razes para promoo do seu uso so

    algo evidentes, j o modo de conseguir promov-lo menos bvio: cada regio deve ser

    considerada como uma realidade diversificada, tanto em termos da sua dotao de

    recursos como das suas necessidades.

  • 1000

    A capacidade tecnolgica de um territrio pode promover-se segundo trs vertentes:

    produo de tecnologia prpria, utilizao de tecnologia externa e introduo local de

    inovao na tecnologia externa. Nas regies mais perifricas, dificilmente capazes de

    chegar produo de novas tecnologias, fundamental fazer com que cheguem quanto

    antes sua utilizao. No tanto a uma utilizao passiva, de meros consumidores, mas

    antes a um uso criativo de tecnologia, conforme o modelo de Castro et al (2000):

    adaptando inovaes radicais atravs de um processo de inovao incremental, num

    esforo adaptativo orientado a maximizar a adequao entre as caractersticas de

    produto e as necessidades do mercado, bem como entre tecnologias de produto e de

    processo.

    Capacidade tecnolgica e desenvolvimento regional influenciam-se reciprocamente: a

    um padro elevado espacial de adopo de novas tecnologias ser de esperar que

    correspondam novas actividades inovadoras, originando novas estruturas territoriais,

    atravs da instalao de empresas mais avanadas ou da reestruturao das existentes,

    mais eficientes e competitivas. Por sua vez, um tecido produtivo regional mais eficiente

    e um melhor desempenho territorial estimulam novas mudanas tecnolgicas, com

    maiores potencialidades de inovao.

    4. O reforo da localidade O carcter fortemente local da mudana tecnolgica (Antonelli, 1995), no certamente

    alheio ao facto de as conversas dos que criam conhecimento s poderem emergir

    quando h confiana e proximidade (Acs et al, 2000). Por isso, o territrio proporciona

    a formao de redes que levam convergncia em torno de objectivos unificadores,

    mobilizando membros independentes atravs de laos voluntrios, em torno de

    mltiplos lderes e nveis de sobreposio. Explica-se assim a enorme importncia das

    culturas de interesses regionais bem como o relativo potencial das redes de pequenas e

    mdias empresas na gerao de novas ideias (Lipnack e Stamps, 1994).

    Embora as TIC tenham reduzido a frico da distncia obstculo ao estabelecimento

    de contactos e interaco entre pessoas, instituies e lugares o espao de fluxos

    no se substitui em absoluto ao espao de lugares: articulam-se num processo

    complexo em que se sustentam reciprocamente os mecanismos globais e as

    especificidades locais (Antonelli, 2001).

    Ao proporcionarem reduo nos custos das transaces, as novas tecnologias de

    informao e comunicao ajudam a esbater os problemas associados localizao, mas

  • 1001

    isso no significa que a geografia deixe de ter significado. Pelo contrrio, a utilizao

    dessas tecnologias origina um reforo da localidade. Efectivamente, o seu uso inovador

    possibilita a aquisio de conhecimento global; este, se devidamente incorporado em

    produtos maduros resultantes de caractersticas locais especficas, de difcil reproduo

    noutros territrios, pode levar respectiva valorizao econmica; seguidamente, a

    utilizao das TIC permite complementar essa actuao local inovadora com uma

    actuao global, ao potenciar a entrada de tais produtos nos mercados globais. Esta

    perspectiva traduzida pelo conceito de localizao global introduzido por Cooke et al

    (1992) para sublinhar a crescente relevncia do local e da especializao no processo de

    globalizao.

    A partir da confiana resultante da proximidade, o alargamento das redes locais a nveis

    geogrficos e tecnolgicos sucessivamente alargados, mediante uma crescente

    interaco global-local apoiada pelo uso das TIC, permitir implementar uma

    cooperao selectiva, que permitir aos agentes econmicos internalizar externalidades

    (Acs et al, 2000).

    5. Interaco e desempenho das empresas no territrio DLSE 5.1. Consideraes prvias Os resultados empricos apresentados neste trabalho inscrevem-se num mbito mais

    vasto que visou analisar a incidncia do uso das tecnologias de informao comunicao

    no desenvolvimento local (Lopes, 2005), estudando fundamentalmente a relao entre o

    desempenho das empresas e o seu o nvel de interactividade, expressa na combinao do

    seu sistema de contactos com o conjunto de redes e servios baseados em tecnologias

    de informao e comunicao. Nesse estudo pressupunha-se que a interaco das

    empresas somente produz efeitos positivos no seu desempenho quando veicula trocas de

    informao e conhecimento tecnolgico e est associada gerao e apropriao de

    sinergias. Pressupunha-se ainda que a interactividade condicionada por um conjunto

    de factores/contributos, originados nas capacidades das empresas e tambm nas

    caractersticas dos respectivos territrios. Neste trabalho analisamos, especificamente,

    algumas caractersticas tecnolgicas e geogrficas das redes de contactos das empresas

    do territrio constitudo pelas NUT III Do-Lafes e Serra da Estrela (DLSE).

    No desenho da amostra foi utilizada a tcnica do Quadrado Latino. A populao alvo,

    constituda por todas as empresas do sector privado com sede no territrio DLSE, foi

    distribuda por classes actividade, classes dimenso e classes geogrficas,

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    possibilitando assim a anlise da diferenciao de comportamento consoante o sector de

    actividade, a dimenso da empresa e a respectiva localizao geogrfica. Na tabela 1

    apresenta-se a composio de cada uma dessas classes.

    Dimenso Nmero de trabalhadores D1 1 a 5 D2 6 a 12 D3 13 a 25 D4 26 a 50 D5 51 a 100 D6 101 a 250 D7 superior a 250

    Geografia Concelho(s) G1 Viseu G2 Gouveia e Seia G3 Mortgua, Santa Comba Do e Tondela G4 Castro Daire, Sto e Vila Nova de Paiva G5 Oliveira de Frades, S. Pedro do Sul e Vouzela G6 Carregal do Sal, Mangualde e Nelas G7 Aguiar da Beira, Fornos de Algodres e Penalva do Castelo

    Actividade Actividades

    A1

    Agricultura, silvicultura, caa e pesca Indstria alimentar, bebidas e tabaco Indstria extractiva Produo e distribuio de gua, gs e electricidade Construo e obras pblicas

    A2 Indstria txtil, vesturio e couro

    A3

    Indstria de madeira e cortia; Indstria de papel e artes grficas; Indstrias qumicas e do petrleo, carvo, borracha e plsticos; Indstria de produo de minerais no metlicos, excepto derivados de petrleo e carvo; Outras indstrias transformadoras

    A4 Indstria bsica do ferro e do ao; Indstria de produo metalrgica e mquinas A5 Comrcio por grosso e retalho, restaurantes e hotis; A6 Transportes e telecomunicaes

    A7 Instituies financeiras Servios colectividade, sociais e pessoais

    Tabela 1 Descrio das Classes Dimenso, Geografia e Actividade

    Com vista caracterizao geogrfica e tecnolgica das redes de contactos, foram

    definidos 6 nveis de localizao geogrfica dos interlocutores e outros tantos meios de

    comunicao, descritos na tabela 2.

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    Caracterstica da comunicao Hipteses consideradas

    mbito geogrfico

    A - local B - regional C - nacional D - da Unio Europeia E - da CPLP F - doutro(s) pas(es)

    Principais meios de contacto

    A- Telefone B- Telemvel C- Fax D- Internet E- Correio F- Presencial

    Tabela 2 Nveis geogrficos da comunicao e modos de relacionamento

    Importa frisar que, no tocante aos mbitos geogrficos, entendemos por local o

    mbito concelhio, regional o da regio supra concelhia envolvente, num raio de cerca

    de 50 km e nacional o mbito supra regional dentro do pas. A sigla CPLP designa

    pases estrangeiros de lngua portuguesa e a sigla UE os pases da Unio Europeia antes

    do alargamento de 2004.

    6.2 Caractersticas geogrficas da interaco 6.2.1 Localizao dos interlocutores Tirando partido do modo como foi desenhada a amostra - estratificada, usando a tcnica

    do Quadrado Latino procurmos identificar a existncia de perfis geogrficos na

    interaco empresarial do territrio, analisando o mbito geogrfico dos interlocutores

    em funo da dimenso das empresas, do seu sector de actividade e da sua localizao

    geogrfica.

    Na tabela 3a pode observar-se a relao entre a dimenso das empresas e a geografia

    dos respectivos contactos com clientes1. Globalmente, predominam os nveis regional e

    local mais de 80% dos inquiridos tinham clientes desses nveis seguindo-se o nvel

    nacional com 67% e o da UE, onde 35% das empresas inquiridas tinham clientes.

    % de casos classes dimenso mbito D1 D2 D3 D4 D5 D6 D7 Total

    Local 93 92 89 83 74 61 27 81 Regional 85 88 85 89 83 78 18 82 Nacional 59 61 65 69 70 83 73 67

    1 Nesta tabela, tal como na tabela 3.b, na ltima coluna encontra-se a percentagem de casos da amostra

    pertencentes ao mbito da linha correspondente. Dado que uma empresa pode ter interlocutores de vrias

    localizaes geogrficas, o total da coluna pode ser superior a 100.

  • 1004

    UE 26 24 35 28 26 74 64 35 CPLP 11 6 17 11 9 26 18 13 Outros pases 11 8 15 6 4 35 27 13

    Tabela 3a Nveis de localizao de clientes, segundo classes dimenso

    Nas empresas com menos de 50 trabalhadores a percentagem de casos com clientes

    locais ultrapassa os 80%, chegando aos 93% nas que tm menos de 5 trabalhadores. Os

    clientes internacionais pertencem, na maioria dos casos, UE e correspondem

    sobretudo a empresas com mais de 150 trabalhadores. Os casos de exportao para

    pases da CPLP so em mdia tantos como para outros pases, correspondendo classe

    D6 a percentagem mais elevada (26% de casos). Evidencia-se a importncia da lngua e

    da cultura no nmero relativamente significativo de empresas com clientes em pases

    estrangeiros de lngua portuguesa: 13% (idntico ao observado com outros pases).

    A distribuio geogrfica dos fornecedores pode observar-se na ltima coluna da tabela

    3b. Evidencia-se que so maioritariamente nacionais, cabendo ao mbito nacional

    supra-regional a maior percentagem mdia (77% dos casos); 62% das empresas tm

    fornecedores ao nvel regional e s 40% ao nvel local. Apenas 33% das empresas

    apresentam fornecedores na UE, somente 1,4% em pases da CPLP e 8,8% noutros

    pases.

    % de casos classes dimenso mbito D1 D2 D3 D4 D5 D6 D7 Total

    Local 30 43 48 50 35 26 18 40 Regional 59 65 65 67 70 57 27 62 Nacional 70 65 76 81 91 87 82 77 UE 19 22 35 28 35 57 73 33 CPLP 4 0 4 0 0 0 0 1 Outros pases 4 2 7 3 30 13 27 9

    Tabela 3b Nveis de localizao de fornecedores, segundo classes dimenso

    A percentagem de empresas com fornecedores da UE varia quase linearmente com a

    dimenso respectiva, sendo de 19% nas mais pequenas e de 73% nas maiores.

    Praticamente s empresas com mais de 50 trabalhadores tm fornecedores de outros

    pases. Pode ainda observar-se que, tendencialmente, o mbito geogrfico dos

    fornecedores est na razo inversa da dimenso da empresa, embora se registem

    algumas peculiaridades: a grande maioria (81%) das empresas com mais de 25

    trabalhadores tem fornecedores de mbito nacional; o fornecimento de mbito regional

    ocorre em mais de metade das empresas em todas as classes dimenso, excepto nas que

    tm mais de 250 trabalhadores.

  • 1005

    O perfil da geografia dos clientes das empresas tem alguma relao com o territrio

    onde estas se localizam, como pode observar-se na tabela 4a. Evidencia-se antes de tudo

    a grande importncia dos clientes locais e regionais em todas as classes geogrficas

    (assinalados em mais de 72% dos casos). Em termos de empresas com clientes na UE,

    embora possa parecer estranho que as perifricas zonas G7 e G4 se encontrem no

    conjunto de nvel superior, os resultados revelam a actividade econmica desenvolvida

    por empresrios ex-emigrantes em pases europeus, que a criaram relaes de negcio e

    para l exportam os seus produtos.

    No tocante a empresas com clientes fora da UE, regista-se uma distribuio quase ex

    aequo entre pases da CPLP e outros em todos os grupos geogrficos. Contudo, G3

    (Tondela, Santa Comba Do, Mortgua) destaca-se, com cerca de 24% de casos com

    esses destinos de exportao, logo seguido de G1 (Viseu), com cerca de 18%. No de

    estranhar esta maior internacionalizao nos dois agrupamentos geogrficos com maior

    centralidade.

    % de casos classes geografia mbito G1 G2 G3 G4 G5 G6 G7

    Local 88 85 73 82 73 89 80 Regional 83 85 85 86 73 78 87 Nacional 67 58 70 68 67 73 60 UE 29 27 43 41 27 38 47 CPLP 17 8 25 9 3 14 7 Outros pases 19 8 23 9 6 11 7

    Tabela 4a Nveis de localizao de clientes, segundo classes geografia

    Tambm a geografia de fornecedores varia com a localizao das empresas, como pode

    observar-se na tabela 4b. O fornecimento de mbito local sobretudo caracterstico das

    empresas das classes G7, G1 e G3: a primeira a zona mais perifrica do territrio

    DLSE e as outras duas so as mais centrais e desenvolvidas. No primeiro caso, o

    recurso a fornecedores locais pode em parte explicar-se pela interioridade, pelo

    isolamento; nos outros dois, pela oferta local existente nos principais centros urbanos do

    territrio.

    % de casos classes geografia mbito G1 G2 G3 G4 G5 G6 G7

    Local 52 31 40 32 30 32 67 Regional 52 54 65 68 61 68 80 Nacional 76 77 83 82 73 76 67 UE 26 38 45 18 36 35 20 CPLP 5 0 3 0 0 0 0 Outros pases 5 19 20 5 3 5 0

    Tabela 4b Nveis de localizao de fornecedores, segundo classes geografia

  • 1006

    Em todos os agrupamentos geogrficos mais de metade das empresas tm fornecedores

    regionais, mas a importao de mbito nacional a mais assinalada. Em todos os

    agrupamentos h fornecedores da UE, registando-se o mximo no agrupamento G3

    (45% dos casos), relativamente mais industrializado.

    A variao do perfil da geografia dos clientes consoante os sectores de actividade

    evidencia-se na tabela 5a.

    % de casos classes actividade mbito A1 A2 A3 A4 A5 A6 A7

    Local 87 40 80 50 92 64 100 Regional 84 55 90 50 96 64 88 Nacional 64 75 90 79 64 82 48 UE 27 75 60 50 32 36 9 CPLP 13 10 30 7 16 0 6 Outros pases 10 25 10 36 12 0 9

    Tabela 5a Nveis de localizao de clientes, segundo classes actividade

    De notar que no sector dos servios todas as empresas inquiridas tm clientes locais; no

    da indstria metalomecnica somente metade e no sector txtil apenas 40%.

    semelhante o que se passa relativamente a empresas com clientes regionais. A classe A3

    (indstria da madeira e cermica) tem a mesma representao em termos nacionais e

    regionais, mas destaca-se tambm ao nvel da UE, onde apenas suplantada pelo sector

    txtil. Tambm se destaca ao nvel dos pases estrangeiros de lngua portuguesa (30%

    dos casos). A indstria metalomecnica (A4) evidencia-se no tocante a clientes de

    outros pases.

    Tambm o tipo de actividade das empresas influencia a distribuio geogrfica dos seus

    fornecedores, como pode observar-se na tabela 5b.

    O fornecimento de mbito nacional regista-se em mais de 78% dos casos em todos os

    sectores de actividade, excepto no dos servios, onde de apenas 58%. O nvel regional

    % de casos classes actividade mbito A1 A2 A3 A4 A5 A6 A7

    Local 39 10 20 43 38 45 70 Regional 69 30 60 50 68 64 67 Nacional 79 80 80 79 80 91 58 UE 33 55 35 36 36 45 9 CPLP 1 0 0 0 2 9 0 Outros pases 6 30 10 21 6 9 0

    Tabela 5b Nveis de localizao de fornecedores, segundo classes actividade

  • 1007

    superior a 50% em todos os sectores, excepto no txtil e calado. Este sector, alis, o

    que evidencia mais importao: 80% das suas empresas compram a nvel nacional, 55%

    na UE e 30% noutros pases. O sector dos servios tem fornecedores quase

    exclusivamente do pas, com maior incidncia a nvel local e regional. A comunicao

    com fornecedores de pases estrangeiros de lngua portuguesa quase no tem expresso,

    ao passo que a importao de outros pases bem visvel no sector txtil e, embora

    menos, no da metalomecnica.

    6.2.2 Geografia da intensidade de comunicao O elevado nmero de variveis envolvidas na caracterizao da interactividade das

    empresas sugere a existncia de padres nas diversas facetas de que se compem tais

    variveis. Para identificao desses eventuais padres, efectumos anlise factorial, o

    permite tambm reduzir o nmero de variveis associadas aos itens envolvidos, sem

    grande perda de informao, e simplificar a anlise e interpretao dos resultados

    (Pestana e Gageiro, 2003).

    Em todas as anlises apresentadas, a varincia total explicada pelos factores extrados

    foi superior a 60%. Para no sobrecarregarmos excessivamente a exposio, s

    pontualmente referimos os valores concretos observados. Tendo em vista evitar a

    introduo de erros de transcrio, mantemos o formato dos valores numricos obtidos

    por aplicao do SPSS, e omitimos os loadings de valor absoluto inferior a 0,3 para

    facilitar a interpretao dos factores seleccionados.

    A aplicao de anlise factorial mtodo das componentes principais s variveis

    correspondentes geografia da intensidade de relacionamento (quantificada pela

    frequncia dos contactos estabelecidos) com clientes e com fornecedores, para os seis

    nveis considerados, extraiu os factores cujos pesos constam da tabela 6a. A sua leitura

    possvel constatar a existncia de distintos padres geogrficos de relacionamento com

    clientes e com fornecedores:

    - No relacionamento com clientes observa-se um padro internacional, com maior

    peso dos pases fora da UE (designadamente com pases de lngua portuguesa), e um

    outro padro nacional, predominantemente regional e local.

    - Na comunicao com fornecedores tem-se um padro supra regional, com

    elevado peso de pases da UE e outros pases e um outro padro essencialmente

    regional e local.

  • 1008

    - No que se refere intensidade de comunicao com clientes, evidencia-se a

    influncia do factor cultural e lingustico, face ao peso relativo do relacionamento com

    pases estrangeiros de lngua portuguesa.

    Clientes Fornecedores Factores Localizao dos interlocutores

    CC1 CC2 CF1 CF2 Local ,860 ,922 Regional ,920 ,932 Nacional ,524 ,780 UE ,668 ,977 CPLP ,942 Outros pases ,901 ,956

    Tabela 6a Geografia da intensidade de relacionamento

    Apresenta-se na tabela 6b a designao dos factores extrados, de acordo com a

    interpretao que lhes atribumos.

    CC1 Intensidade de comunicao com clientes internacionais Clientes

    CC2 Intensidade de com. com clientes no pas, sobretudo reg. e locais

    CF1 Intensidade de com. com fornecedores fora da regio (no LP) Fornecedores

    CF2 Intensidade de comunicao com fornecedores regio

    Tabela 6b Factores relativos geografia da intensidade de relacionamento

    6.3 Geografia do relacionamento e meios de comunicao 6.3.1 Modos de comunicao Para analisarmos a utilizao dos diferentes modos de comunicao considerados

    (telefone, fax, Internet, correio e presencial) no relacionamento das empresas com

    clientes e com fornecedores, procurmos identificar padres de meios de contacto com

    esses destinatrios, em funo da respectiva geografia.

    Efectumos anlise factorial a dois conjuntos de variveis, correspondentes

    intensidade de relacionamento com clientes e com fornecedores, respectivamente, pelos

    cinco meios de comunicao considerados e aos seis nveis geogrficos definidos.

    No tocante comunicao com clientes, foram extrados seis factores cujos pesos

    constam da tabela 7a.

  • 1009

    Factores

    Variveis _Comunicao

    1 2 3 4 5 6 telefone clientes locais ,571 ,781 telefone clientes regionais ,317 ,886 telefone clientes nacionais ,987 telefone clientes UE ,310 ,922 telefone clientes LP ,885 telefone clientes outros pases ,979 fax clientes locais ,929 fax clientes regionais ,850 ,447 fax clientes nacionais ,987 fax clientes UE ,882 fax clientes LP ,936 fax clientes outros pases ,983 Internet clientes regionais ,978 Internet clientes nacionais ,987 Internet clientes UE ,772 Internet clientes LP ,930 Internet clientes outros pases ,934 correio clientes regionais ,842 correio clientes nacionais ,971 correio clientes UE ,995 correio clientes LP ,995 presencial clientes locais ,753 ,469 presencial clientes regionais ,980 presencial clientes-indivduos locais ,810presencial clientes-indivduos regionais ,811

    Tabela 7a Geografia dos modos de comunicao com clientes

    Analogamente, foram extrados cinco factores relativos comunicao com

    fornecedores. Os respectivos loadings de valor absoluto superior a 0,3 apresentam-se na

    tabela 7b.

  • 1010

    Factores

    Variveis _Comunicao

    1 2 3 4 5 telefone fornecedores locais ,909 telefone fornecedores regionais ,859 ,369 telefone fornecedores nacionais ,534 ,776 telefone fornecedores UE ,973 telefone fornecedores outros pases ,996 fax fornecedores locais ,893 fax fornecedores regionais ,854 fax fornecedores nacionais ,918 fax fornecedores UE ,385 ,646 fax fornecedores outros pases ,623 Internet fornecedores locais ,954 Internet fornecedores regionais ,943 Internet fornecedores nacionais ,700 ,660 Internet fornecedores UE ,992 Internet fornecedores outros pases ,995 correio fornecedores locais ,975 correio fornecedores regionais ,976 presencial fornecedores locais ,378 ,583 presencial fornecedores regionais ,876 presencial fornecedores nacionais ,776

    Tabela 7b Geografia dos modos de comunicao com fornecedores

    Apresenta-se na tabela 8 a designao dos dois conjuntos de factores extrados, de

    acordo com a interpretao que deles fazemos.

    GMC1 Comunicao com clientes internacionais via TC

    GMC2 Comunicao com clientes portugueses no locais via TC

    GMC3 Comunicao com clientes via correio

    GMC4 Comunicao directa com clientes locais/regionais

    GMC5 Comunicao com clientes locais via tf e fax

    Clientes

    GMC6 Comunicao presencial com clientes indivduos locais/regionais

    GMF1 Comunicao com fornecedores locais/regionais via TC

    GMF2 Comunicao com fornecedores intern. e nac. via TC no fax

    GMF3 Comunicao com fornecedores nac. via TC e intern. via fax

    GMF4 Comunicao com fornecedores locais/regionais via correio

    Fornecedores

    GMF5 Comunicao presencial com fornecedores no pas

    Tabela 8 Factores relativos geografia dos modos de comunicao

    Na designao apresentada entendemos como directa a comunicao presencial ou

    telefnica e representamos por TC tecnologias de comunicao indiferenciadas.

  • 1011

    Da composio dos dois grupos de factores correspondentes comunicao com

    clientes e comunicao com fornecedores, pode inferir-se o seguinte:

    Comunicao com clientes

    H um padro de intensidade de comunicao com clientes internacionais, associada

    principalmente a uso de Internet, fax e telefone, que corresponde a 28.5% da varincia

    explicada; um perfil de comunicao com clientes nacionais e regionais via Internet, fax

    e telefone que explica 20.3% da varincia; segue-se-lhe o contacto com clientes

    nacionais, da UE e LP por correio (e da UE tambm telefonicamente), correspondendo a

    15% de variao explicada. O perfil comunicao local/regional directa corresponde a

    13.7% da varincia explicada; o do contacto local por telefone e fax explica apenas 6%

    da varincia e o da comunicao presencial com clientes indivduos locais e regionais

    5%.

    Comunicao com fornecedores

    O primeiro perfil de comunicao com fornecedores (31% da varincia explicada)

    corresponde comunicao local/regional atravs de telecomunicaes, seguindo-se

    (22%) o da comunicao com fornecedores de mbito internacional (no de pases LP)

    (e nacional, mas com menor peso) por Internet e telefone. A comunicao por fax no

    local/regional e telefnica de mbito supra-regional no pas corresponde a 12% da

    varincia explicada. A comunicao local/regional por correio explica 10% da varincia

    e a presencial de mbito nacional supra local a 8%.

    6.3.2 Geografia da comunicao mediante TIC Tendo em vista a identificao de eventuais padres geogrficos associados

    intensidade de interaco mediada por tecnologias de comunicao, efectumos anlise

    factorial das variveis associadas ao volume de utilizao dos principais servios.

    Foram extrados trs factores, cuja composio consta da tabela 9a:

  • 1012

    Factores Intensidade de comunicao GC1 GC2 GC3

    Telefone e fax local ,718Telefone e fax regional ,414 ,748Telefone e fax nacional ,769Telefone e fax internacional ,810Telefone rede fixa para servios mveis ,820Nacional telemvel ,949Internacional telemvel ,976Internet ,791

    Tabela 9a - Intensidade de comunicao mediante TIC padres geogrficos

    Atribumos aos factores extrados a designao apresentada na tabela 9b, decorrente da

    interpretao que lhes atribumos.

    GC1 TC Internet e rede fixa supra-regional

    GC2 TC mvel

    GC3 TC rede fixa local, regional e para servios mveis

    Tabela 9b Factores associados geografia da comunicao mediante TIC

    A composio dos factores extrados permite concluir que:

    - O uso de tecnologia mais avanada (Internet) est associado a comunicao de

    nvel supra local;

    - H um padro de comunicao mvel;

    - A comunicao de mbito menos alargado, predominantemente regional e local,

    est associada a tecnologias mais tradicionais (contacto a partir da rede telefnica fixa

    para a rede mvel).

    6.4 Territrio, comunicao e desempenho empresarial Principalmente atravs da anlise descritiva, os resultados obtidos mostram que existe

    alguma diferenciao das vrias componentes da interactividade em funo do

    territrio. Esta diferenciao observa-se numa internacionalizao relativamente maior

    dos agrupamentos geogrficos G1 (concelho de Viseu) e G3 (Tondela Santa Comba

    Do Mortgua). Esse destaque verificou-se tambm no tocante ao nmero de clientes

    de mbito local e regional (Lopes, 2005, p.344) em G1, confirmando a funo

  • 1013

    distribuidora do maior centro urbano do territrio DLSE, em consequncia da sua

    centralidade. O agrupamento territorial G3, onde se encontra a segunda maior cidade do

    territrio, destaca-se tambm em termos do nmero de clientes e fornecedores de

    mbito supra-regional.

    No tocante produtividade do trabalho, os resultados da anlise descritiva permitiram

    identificar alguma diferenciao relativamente ao territrio, no se obtendo, no entanto,

    uma relao estatisticamente significativa entre a centralidade geogrfica e o

    correspondente desempenho empresarial.

    A anlise de correlao bivariada entre a produtividade do trabalho e factores

    associados comunicao forneceu alguns coeficientes estatisticamente significativos,

    que apresentamos na tabela 10.

    Factores associados intensidade de comunicao Produtividade do trabalho Com clientes de mbito internacional ,181(**) Com fornecedores de mbito supra-regionais ,289(**) Atravs da Internet e por telefone fixo supra-regional ,229(**)

    Tabela 10 Correlao entre produtividade do trabalho e comunicao

    Estes resultados mostram que a produtividade do trabalho se correlaciona positivamente

    com a amplitude do mbito geogrfico da comunicao, com a intensidade dessa

    comunicao e com a utilizao de tecnologias de comunicao mais avanadas.

    7. Concluses

    Os resultados empricos apresentados, referentes ao territrio abrangido pelas NUT III

    Do-Lafes e Serra da Estrela, localizado na regio Centro de Portugal, evidenciam a

    existncia de uma relao directa entre a produtividade do trabalho e um conjunto de

    factores associados s caractersticas geogrficas e tecnolgicas da interaco

    empresarial no mbito das relaes de negcio.

    A pesquisa confirmou a existncia de algumas vantagens dos territrios centrais sobre

    os perifricos. Todavia, tambm alguns perifricos se destacam nalgumas vertentes de

    desempenho, confirmando que, embora a centralidade do territrio seja uma condio

    favorvel ao desenvolvimento, podem criar-se condies para bons nveis de

    desempenho mesmo em territrios perifricos. Na criao dessas condies os centros

    urbanos de mdia dimenso podem desempenhar um papel determinante,

    designadamente ao desenvolverem externalidades de proximidade, de variedade e de

    acessibilidade.

  • 1014

    As cidades de mdia dimenso dotadas de centralidade geogrfica podem desempenhar

    uma funo estratgica no desenvolvimento dos territrios circundantes. Para tal,

    necessitam de se tornar tambm centros de difuso de conhecimento e capacidade

    tecnolgica, onde as empresas possam contar com um ambiente institucional de apoio,

    dispor de recursos necessrios inovao, de parcerias para colaborar e interagir, de

    locais de encontro e de comunicao com o exterior.

    Uma das vertentes da sua funo coordenadora consistir na promoo do uso inovador

    das tecnologias de informao e comunicao. A sua centralidade territorial confere-

    lhes a possibilidade de se constiturem em interface atravs do qual as TIC facilmente

    penetrem e se propaguem s zonas mais perifricas. Essas tecnologias, por sua vez,

    podem tornar-se um instrumento facilitador do exerccio de tal coordenao, ao

    facultarem o estabelecimento de contactos e a interaco entre pessoas, instituies,

    empresas e lugares, potenciando a articulao entre o espao de fluxos e o espao de

    lugares, de modo que os mecanismos globais e as especificidades locais se sustentem

    reciprocamente.

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