Empreendedorismo e Desenvolvimento Territorial

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Desenvolvimento Territrial

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    1 Frum International Territrio, Desenvolvimento Rural e Democracia

    Banco do Nordeste, IICA, Ministrio do Desenvolvimento Agrrio, Ministrio da Integrao Nacional, EMBRAPA, SEBRAE, Banco Mundial e Governo do Estado do

    Cear/Secretaria de Desenvolvimento Local e Regional

    Desenvolver os territrios fortalecendo o empreendedorismo de pequeno porte

    Ricardo Abramovay

    Professor Titular do Departamento de Economia da FEA e do Programa de Ps-Graduao em Cincia Ambiental da USP Pesquisador do CNPq

    Grupo de Pesquisa: As instituies do desenvolvimento territorial www.econ.fea.usp.br/abramovay/

    Relatrio final

    Fortaleza, 16 a 19 de novembro de 2003

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    Desenvolver os territrios fortalecendo o empreendedorismo de pequeno porte

    Ricardo Abramovay*

    1. Apresentao nos territrios urbanos ou rurais que podem ser implantadas polticas voltadas a mobilizar as energias necessrias a que a pobreza seja significativamente reduzida, por meio do fortalecimento do empreendedorismo de pequeno porte. A vitria sobre a pobreza depende, antes de tudo, do aumento das capacidades produtivas e da insero em mercados dinmicos e competitivos dos milhes de famlias cuja reproduo social se origina em seu trabalho por conta prpria. O alargamento dos horizontes contidos nesta proposio s pode vir de uma poltica nacional que estimule a ampliao dos vnculos sociais localizados dos que hoje esto em situao de pobreza e este o sentido maior da noo de desenvolvimento territorial.

    A primeira parte deste texto, logo aps a apresentao, procura expor, de maneira resumida, seu argumento central: o combate pobreza s ter sucesso se forem criados ambientes locais que favoream a ampliao dos investimentos produtivos das famlias vivendo hoje em situao de pobreza. Em seguida, (parte 3), o trabalho apresenta, as mais importantes correntes de opinio sobre a luta contra a pobreza, no Brasil. Existem basicamente duas vertentes a respeito do tema. Por um lado, esto os que acreditam que o crescimento econmico sempre que apoiado em inovaes tcnicas que representem aumento de produtividade acaba-se difundindo e provocando elevao nos salrios dos mais pobres. O territrio entendido como expresso de formas localizadas de interao social, cujo fundamento no se encontra apenas em relaes de mercado desempenhar um papel secundrio para esta corrente de idias. Uma segunda corrente cujas opinies so cada vez mais apoiadas pelas organizaes internacionais de desenvolvimento enfatiza o fato de o crescimento econmico ser muito lento na reduo da pobreza e insiste, conseqentemente, em polticas explcitas de distribuio de renda. Os territrios a so decisivos no apenas como forma de controle social sobre a transferncia de renda, mas porque formam a base sem a qual impossvel fazer com que a distribuio de ativos (terra, crdito, educao, assistncia tcnica) aos mais pobres traduza-se em ampliao de suas capacidades produtivas e de sua insero em mercados dinmicos.

    A parte quatro expe as razes principais que fazem dos territrios os locais privilegiados de concepo e execuo de polticas economicamente consistentes de combate pobreza. Ela contm tambm proposies quanto ao formato organizacional de uma

    * Professor Titular do Departamento de Economia da FEA e do Programa de Cincia Ambiental da USP Pesquisador do CNPq Grupo de Pesquisa: As Instituies do Desenvolvimento Territorial Autor de O Futuro das Regies Rurais (UFRGS Editora, 2003).

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    poltica de luta contra as desigualdades regionais que se apie no fortalecimento dos territrios. Na parte cinco esto as concluses do trabalho.

    2. Aumentar a capacidade de investimento dos mais pobres O eixo da luta contra a pobreza no Brasil est no fortalecimento do empreendedorismo de pequeno porte (ver box 1). Um tero daqueles que mal conseguem preencher suas necessidades bsicas cotidianas vivam eles nas regies metropolitanas ou no interior do Pas so classificados, nas estatsticas, como trabalhadores por conta prpria. Isoladamente, os por conta-prpria representam o mais importante contingente social entre os pobres, mais numerosos que os empregados informais, os empregados formais e os inativos (tabela 1). So famlias pluriativas, cuja reproduo social depende da relao com mercados na maior parte das vezes imperfeitos e incompletos (Ellis, 1988; Abramovay, 1992/1998) onde compram o que necessitam para organizar suas atividades e vendem os produtos de seu trabalho.

    Tabela 1 Porcentagem do total da populao vivendo abaixo da linha de pobreza, segundo condio de trabalho - Brasil 1996

    Inativos 16,96

    Desempregado 4,36

    Empregado formal 17,82

    Empregado informal 19,01

    Por conta-prpria 31,45

    Empregador 1,43

    Servidor pblico 5,20

    No remunerado 3,70

    Outros/no especificado 0,07

    Total 100

    Fonte: Ferreira et al. (2001), com base em dados da PNAD.

    Melhorar as capacidades produtivas e as condies de acesso aos mercados dos empreendedores de pequeno porte o mais importante desafio das polticas de desenvolvimento territorial, cujo objetivo bsico estimular um ambiente em que a cooperao social localizada abra caminho para inovaes tecnolgicas e organizacionais que ampliem o poder competitivo dos que hoje se encontram em situao de pobreza (Schejtman e Berdegu, 2002).

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    primeira vista, parece uma contradio nos termos. De fato, inovao e competitividade so expresses que no pertencem ao vocabulrio brasileiro corrente, quando se trata do combate pobreza. Nossa histria recente e o prprio debate atual mostra imensa preocupao em se acertar o alvo na transferncia de renda a determinados segmentos sociais (1). Mas sem aumentar a capacidade de investimento dos mais pobres, no possvel superar a precariedade que marca suas vidas. E este aumento s trar resultados importantes se estiver apoiado em um conjunto de fatores que reduzam os riscos de iniciativas que possam conduzir melhoria dos resultados econmicos de seus empreendimentos e a sua melhor insero em mercados aos quais tm hoje acesso precrio.

    1 Bolsa-Famlia tem alcance restrito, o ttulo da matria publicada na Folha de So Paulo (10/11/03, p. A 4), mostrando que dos 4.396 municpios integrados ao Bolsa-Famlia em outubro, 1.106 tinham no mximo dez beneficiados cada um. O debate pblico sobre a transferncia de renda pauta-se por saber quantos e quais foram os beneficiados pelas polticas pblicas. Documento recm divulgado pelo Ministrio da Fazenda revela apreciao crtica sobre a capacidade de os programas de transferncia de renda reduzirem, de fato, a pobreza. A declarao do prof. Scheinkman ao Globo (15/11/03, p. 12) resume o diagnstico do documento: No resto do mundo os pases conseguem, com impostos e transferncia de renda diminuir o nvel de desigualdade. No Brasil isso no feito. Na verdade, no se trata de uma idiossincrasia brasileira, mas de um trao de sociedades muito desiguais, conforme ser visto mais abaixo no Box 2.

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    Box 1

    Empreendedorismo de pequeno porte: uma contradio nos termos?

    Pode parecer estranho o uso da expresso empreendedorismo para caracterizar atividades de populaes vivendo prximo linha de pobreza. A principal tradio a este respeito, no interior da cincia econmica, formada a partir da obra de Joseph Schumpeter, certamente no aprovaria este emprego. Mesmo que, como bem mostra Swedberg (2000), o ponto de vista de Schumpeter a respeito do tema tenha mudado ao longo de sua vida, o que permanece a idia do empreendedor como algum cuja iniciativa rompe o equilbrio existente e promove, por isso mesmo, o desenvolvimento econmico. Na primeira edio da Teoria do Desenvolvimento Econmico, em 1911, Schumpeter sustenta a idia de que toda mudana verdadeiramente importante na economia vem da iniciativa dos empreendedores. E isso no ocorre apenas no domnio econmico, mas tambm na arte ou na poltica: o empreendedorismo o contrrio das atividades rotineiras com as quais os indivduos esto habituados na gesto de suas vidas e seus negcios. Criatividade e intuio so componentes decisivos, nesta primeira teorizao de Schumpeter. Na segunda edio de seu livro, em 1926 Schumpeter aborda o empreendedorismo de maneira muito mais tcnica e desapaixonada: a inovao, que o jovem Schumpeter, em 1911, tinha descrito de forma quase dionisaca, tornou-se agora muito mais apolnea em sua natureza e simplesmente definida no livro Business Cycle como a organizao de uma nova funo de produo (Swedberg, 2000:15). De qualquer maneira, Schumpeter insiste que o empreendedorismo marcado por uma nova combinao dos materiais e das foras j existentes e que ele consiste em fazer inovaes. Schumpeter lista cinco traos do empreendedorismo: 1. a introduo de um novo bem; 2. a introduo de um novo mtodo de produo; 3. a abertura de um novo mercado; 4. a conquista de uma nova fonte de oferta de matrias-primas e 5. a criao de uma nova organizao na indstria.

    Mesmo que se opondo orientao schumpeteriana a idia de empreendedorismo de pequeno porte encontra respaldo em outras tradies tericas. Para Jean-Baptiste Say (1776-1832) o empreendedor aquele que compra por um preo certo e vende por um preo incerto. Para Richard Cantillon (1680-1734) o empreendedorismo consiste na combinao dos fatores produtivos no interior de um organismo (Swedberg, 2000:19). O importante, nestas definies e isso ser retomado, posteriormente por Friedrich von Hayek (1899-1992) que o empreendedorismo envolve no apenas risco, mas, sobretudo, conduz a um processo de descoberta das condies produtivas, das oportunidades de mercado por parte dos prprios atores sociais.

    Ambientes sociais marcados por pobreza, dependncia personalizada dos indivduos com relao aos que vivem da explorao de seu trabalho e mercados pouco desenvolvidos no so propcios inovao e, portanto, inibem o empreendedorismo. Ao mesmo tempo, nas organizaes internacionais de desenvolvimento cada vez mais recorrente a constatao de que o fortalecimento do empreendedorismo de pequeno porte um

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    elemento decisivo no revigoramento de regies atrasadas e, de forma geral, na luta contra os efeitos destrutivos do desemprego em massa. Existem ao menos trs razes para se falar de empreendedorismo de pequeno porte ao caracterizar as atividades dos agricultores familiares e dos trabalhadores urbanos por conta prpria:

    1. Uma parte significativa, embora minoritria, destas atividades tem um potencial de inovao e por a de desenvolvimento que o trabalho de diversas organizaes de apoio (desde o SEBRAE at o movimento sindical, passando por inmeras organizaes no governamentais) frequentemente revelam: a insero de agricultores familiares em mercados certificados, as inovaes tecnolgicas envolvidas na convivncia com a seca no semi-rido so apenas alguns exemplos neste sentido.

    2. O empreendedorismo no apenas individual, mas tambm coletivo e no envolve apenas a figura mstica do empreendedor isolado e sim um conjunto de iniciativas socialmente coordenadas: arranjos produtivos locais, gesto de recursos comuns (desde recursos naturais at marcas territoriais de qualidade) so algumas das mais importantes expresses do empreendedorismo coletivo.

    3. Falar em empreenedorismo de pequeno porte significa exatamente evitar o ponto de vista segundo o qual o trabalho por conta prpria uma forma social efmera, uma defesa dos indivduos contra o desemprego e que ser suprimida quando as polticas macroeconmicas permitirem a retomada do crescimento. Ignacy Sachs resume bem a questo ao mostrar que os corifeus da modernizao tendem a considerar estes pequenos produtores e empreendedores como resqucios de um passado fadado ao desparecimento medida em que a grande indstria, a agricultura mecanizada e os servios a elas associados acabaro por absorver no setor moderno da economia os excedentes de mo-de-obra acumulados no que se chamava de setor tradicional antes da introduo do conceito de economia informal (Sachs, 2002:55). A noo de empreendedorismo de pequeno porte afirma a importncia de polticas voltadas explicitamente a aumentar as capacidades produtivas e de melhor insero nos mercados de milhes de empreendimentos que hoje mals conseguem reproduzir-se.

    No se trata apenas de declarar que as polticas compensatrias sero acompanhadas de polticas estruturantes: necessrio contribuir para a criao de um ambiente em que a aprendizagem e a inteligncia sejam aplicadas no apenas aos segmentos econmicos de ponta, mas igualmente queles que s conseguem inserir-se em mercados hoje pouco dinmicos e com base em tcnicas produtivas e organizacionais rotineiras e, atualmente, de futuro pouco promissor (2).

    2 O atual governo parece sensvel criao desta inteligncia estratgica em alguns setores de ponta e neste sentido que se organiza sua poltica industrial. A criao de um centro de exelncia em circuitos eletrnicos, por exemplo, vai nesta direo. Edmundo de Oliveira resume a inteno, em entrevista ao jornal Valor Econmico (16/02/04, p. A3): a idia criar inteligncia no setor dentro de uma poltica de Estado e no de um ou outro governo. Embora existam organizaes e polticas voltadas a agricultores familiares e a empreendedores de pequeno porte, nem de longe se inserem dentro do mesmo tipo de horizonte estratgico.

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    A pobreza no se explica apenas por atributos dos indivduos seu nvel de escolaridade, seus ativos, seu capital fsico, humano e financeiro. Ela deve ser compreendida tambm com base no estudo de seu capital social (3), do limitado crculo de relaes humanas em que se movem e em sua restrita capacidade de ampli-lo para desfrutar de novas oportunidades.

    Este crculo social localizado e s pode ser, igualmente, localizada a criao das condies que vo permitir a quebra de seus limites e a ampliao de seus horizontes. A grande contribuio de Amartya Sen (1988 e 2001) aos estudos sobre desenvolvimento consiste em mostrar que superar a pobreza no apenas dispor de certos recursos materiais: , antes de tudo, ter acesso a novas oportunidades com base na aquisio e no exerccio de capacidades (capabilities) que no faziam parte dos hbitos sociais (beings e doings, os seres e os fazeres) at ento prevalecentes. O bem-estar dos indivduos, para Sen, no pode ser avaliado por uma medida to geral como o PIB. Os bens materiais de uma sociedade so apenas os meios e no os fins do desenvolvimento: tudo depende de quem utiliza e, sobretudo, de como utiliza estes bens materiais. isso que a noo de funcionamentos procura destacar, na obra de Sen. Os elementos que formam o PIB oferecem, apenas, uma espcie de leque virtual de possibilidades: mas os fins so os funcionamentos, o que, de fato, os indivduos fazem com o resultado das atividades sociais (4). Conseguir um emprego mais bem remunerado, transformar sua base tcnica em direo a novos produtos e novos mercados so conquistas cujo pressuposto bsico est no estabelecimento de relaes sociais inditas e que materializam valores, normas, expectativas, modelos mentais, em suma, instituies novas (North, 1990).

    Echeverri (2003) insis...

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