Crítica e autonomia em Kant: a forma legislativa entre ... ?· Em seu ensaio “Emanuel Kant e a filosofia…

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Universidade de So Paulo Faculdade de Filosofia, Letras e Cincias Humanas

Departamento de Filosofia

Crtica e autonomia em Kant:

a forma legislativa

entre determinao e reflexo

Maurcio Cardoso Keinert

So Paulo, dezembro de 2006

Universidade de So Paulo Faculdade de Filosofia, Letras e Cincias Humanas

Departamento de Filosofia

Crtica e autonomia em Kant:

a forma legislativa

entre determinao e reflexo

Maurcio Cardoso Keinert

Tese apresentada ao Programa de Ps-Graduao em Filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e Cincias Humanas da Universidade de So Paulo, como exigncia parcial para a obteno do ttulo de Doutor, sob a orientao do Prof. Dr. Ricardo Ribeiro Terra.

So Paulo, dezembro de 2006

Sumrio

Agradecimentos 4

Resumo 5

Apresentao 7

I - A poca da crtica: Consideraes sobre o conceito

kantiano de filosofia

11

Entre o conceito acadmico e mundano de filosofia:

a mediao da finalidade

16

II. Forma e reflexo: A finalidade como dever ser 27

Finalidade e sistema 44

A possibilidade de uma representao sistemtica da

natureza

62

III. Razo, reflexo e autonomia: A relao entre

fundamentao e aplicao na Crtica da razo prtica

69

Diferentes aspectos do uso prtico da razo:

repensando a noo de crtica

71

A lei moral como factum da razo 84

Lei moral e autonomia: A forma legislativa entre

determinao e reflexo

104

IV. Consideraes finais: A autonomia no direito e o

horizonte da histria

114

Bibliografia 127

4

Agradecimentos

Ao Prof. Ricardo Terra, pelas provocaes intelectuais e pela pacincia

generosa.

Aos Profs. Maria Lcia Cacciolla e Pedro Paulo Pimenta, pelas importantes

observaes feitas no Exame de Qualificao.

Ao Grupo de Estudos de Filosofia Alem, pela profcua interlocuo. Em

especial a Marisa Lopes, Rrion Melo e Fernando Mattos.

Ao Ncleo Direito e Democracia, onde encontrei novas perspectivas para a

realizao deste trabalho.

Secretaria do Departamento de Filosofia da USP, em especial a Marie

Pedroso, Maria Helena e Rubn.

FAPESP, pelo apoio sem o qual a execuo desta pesquisa no teria sido

possvel.

5

Resumo

A tese procura relacionar os conceitos de critica e autonomia na filosofia de

Immanuel Kant por meio do seguinte recorte: a noo de forma legislativa,

analisada luz dos juzos determinante e reflexionante, permite vislumbrar um

carter positivo para a critica, para alm do costumeiro carter negativo a ela

sempre atrelado. Com isso, a prpria idia de autonomia que, extrapolando o

seu lugar de origem na arquitetnica da razo, passa a ser a chave de

interpretao de tal carter positivo. Para isso, necessrio a este trabalho trs

passos argumentativos: analisar, em primeiro lugar, o prprio conceito kantiano

de filosofia a partir da relao entre os conceitos acadmico e mundano,

definidos por Kant na Lgica. Em segundo lugar, trata-se de analisar uma

possvel vinculao entre o conceito de finalidade e as relaes entre forma e

reflexo, inerentes a possveis representaes da natureza. Por fim, atravs

dos conceitos de fundamentao e aplicao, procura-se redimensionar o

conceito de autonomia que se encontra na Critica da razo pratica.

Palavras-chave: crtica, autonomia, determinao, reflexo, Kant.

6

Abstract

This work aims to establish a relationship between the concepts of critique and

autonomy in Immanuel Kants philosophy, through the notion of legislative form.

In regard to determining and reflecting judgments, that notion makes it possible

to notice a positive aspect of the critique, going beyond the usually recognized

negative aspect. Therewith, it is the idea of autonomy that, beyond its original

place in the architectonic of reason, becomes the interpretive key to such a

positive aspect. In order to show it, this work is divided into three steps: firstly, it

must analyse Kants concept of philosophy having in view the relationship

between the academic and the wordly concepts of philosophy as defined by

Kant in his Logic. Secondly, it must discuss a possible bond between the

concept of finality and those of form and reflection which are inherent to

possible representations of nature. Thirdly, it must, through the concepts of

foundation and application, reconsider the concept of autonomy from the

Critique of practical reason.

Keywords: critique, autonomy, determination, reflection, Kant.

Apresentao

Quando se pensa a noo de autonomia na arquitetnica da razo pura,

sabe-se a princpio que ela funciona, no mbito da razo prtica, como um dos

pilares de sustentao da moralidade. Que ela seja apenas isso, no entanto,

algo que talvez no se possa afirmar, ainda que boa parte dos comentadores

parea faz-lo, reforando certa viso didtica que reproduz a diviso do

sistema nos dois grandes domnios da teoria, de um lado, e da prtica, de

outro. Dada a suposta anterioridade da teoria em relao prtica, que tais

autores parecem assumir, a autonomia acaba sendo compreendida, luz do

juzo determinante, como uma mera operao de aplicao de regras.

interessante notar como, na base dessa leitura, est uma

compreenso da noo de crtica que, a partir da idia de um auto-exame da

razo, parece conter apenas o aspecto negativo de uma delimitao de suas

diferentes jurisdies, pois apenas este o resultado que se pode obter

quando se tem na forma lgica do juzo o ponto de partida para a constituio

do sistema. Ainda que este seja sem dvida um aspecto fundamental do

criticismo kantiano, talvez fosse possvel questionar a sua abrangncia: se no

queremos que o tribunal da razo, como crtica da faculdade da razo em

geral, se limite a fazer uma recenso das reas do saber, ento devemos

investigar a possibilidade de um sentido positivo imanente prpria noo de

crtica.

8

Se verdade que, em seus diversos usos, a razo sempre a mesma, e

ela quem faz e quem se submete crtica, ento o primeiro cuidado a tomar,

com vistas a esse auto-exame, o de no adotar como modelo o carter

determinante do juzo de conhecimento, mas sim verificar qual , entre os seus

vrios usos, o efetivo denominador comum, isto , aquilo que caracteriza a

atividade da razo como um todo. Segundo tentaremos mostrar na presente

tese, este um problema que no se deixa resolver unilateralmente, nem pelo

vis determinante nem pelo vis reflexionante do juzo, mas pela forma

legislativa que em ambos pode ser reconhecida, revelando um alcance da

noo de autonomia que normalmente passa despercebido.

Para tal, ser necessrio, em nosso primeiro captulo, repensar o prprio

projeto crtico em sua natureza essencialmente filosfica, isto , como um

projeto que no abre mo de realizar as finalidades ltimas da razo humana, e

que por isso mesmo tem de submet-las ao fim ltimo de sua prpria atividade

crtica. Pois essa a exigncia colocada ao filsofo pela poca da crtica, uma

poca que j no se deixa seduzir por um saber aparente; [que] um convite

razo para de novo empreender a mais difcil das suas tarefas, a do

conhecimento de si mesma.

Que a noo de finalidade, a envolvida, no pode ser pensada apenas

na chave da forma lgica, mas demanda um outro ponto de vista, ser

discutido no segundo captulo, em que o juzo reflexionante serve de base para

pensar uma finalidade da prpria natureza, isto , uma finalidade que revela o

alcance da atividade legisladora da razo. Nessa passagem da forma lgica

forma natural, percebemos ento como o ato de refletir dotado tanto de um

componente lgico como de um componente transcendental, exigindo este

9

ltimo o estabelecimento de uma representao sistemtica da natureza, a ser

forjada a partir da forma final.

A partir dessa possibilidade, estabelecida por Kant na Crtica do Juzo,

abrem-se novas perspectivas para pensar a vinculao entre os usos prtico e

terico da razo no mbito da Crtica da razo prtica. Em nosso terceiro

captulo, tentaremos mostrar que tal vinculao permite distinguir e comparar

semelhanas e diferenas entre os dois usos (na medida em que, como dito,

trata-se de uma e mesma razo), mas, mais do que isso, que o prprio

procedimento de instaurao da lei moral desvela a estratgia kantiana, a

saber: esse procedimento permite, ao mesmo tempo, tratar a questo da

moralidade tanto do ponto de vista sistemtico, com o surgimento do reino da

liberdade, quanto do ponto de vista da instaurao da legalidade e da

legitimidade da prpria lei moral. Nesse contexto, o factum da razo o ato da

razo e para a razo, um ato de reflexo que sugeriria, por fim, um ato de

autonomia da razo. Assim, o fato de a lei moral ser a condio da liberdade

representaria o modo pelo qual a razo institui a lei moral e, desse modo,

manifestaria a liberdade como autonomia, entendida esta, naturalmente, no

apenas como aplicao de regras, mas como a atividade leg