Comunicação Não-Violenta - Marshall Rosenberg

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<ul><li><p> CNVBrasil, 2006: www.cnvbrasil.org cbcnv@uol.com.br </p><p>1</p><p>DR. MARSHALL ROSENBERG | Sobre a Comunicao No-Violenta </p><p>O que ? </p><p>A Comunicao No-Violenta (CNV) um processo conhecido por sua capacidade de inspirar ao compassiva e </p><p>solidria. Ensinada h mais que 40 anos por uma rede mundial de mediadores, facilitadores e agentes voluntrios, </p><p>fundada pelo psiclogo Dr. Marshall Rosenberg, a CNV est sendo utilizada em cada nvel da sociedade por um </p><p>crescente numero de pessoas que desejam intervir e agir com meios prticos e eficazes em favor da paz. </p><p>Como funciona? </p><p>A CNV parte da observao de que a crescente violncia que nos cerca e na qual estamos inseridos reflexo de uma </p><p>lgica de ao e relao divorciada de nossos verdadeiros valores. Atravs de uma srie de distines precisas, o </p><p>trabalho revela como as formas culturais predominantes de nos comunicarmos, com ns mesmos e com os outros, </p><p>levam-nos a entrar em choque com colegas, familiares e pessoas com opinies ou culturas diferentes, e assim iniciar </p><p>ciclos de emoes dolorosos. Eminentemente prtico, o processo oferece alternativas claras aos confrontos em que </p><p>ficamos presos e lgica destrutiva da raiva, punio, vergonha e culpa. </p><p>No corao da Comunicao No-Violenta est a dinmica que d fundamento cooperao ns seres humanos </p><p>agimos para atender necessidades, princpios e valores bsicos e universais. Com a conscincia que esta constatao </p><p>nos fornece, passamos a enxergar a mensagem por trs das palavras e aes dos outros, e de ns mesmos, </p><p>independente de como so comunicadas. Assim, as crticas pessoais, rtulos e julgamentos dos outros, seus atos de </p><p>violncia fsica, verbal ou social, so revelados como expresses trgicas de necessidades no atendidas. </p><p>Alm de uma abordagem de clareza e mediao pessoal, a CNV possibilita mudanas estruturais no modo de encarar </p><p>e organizar as relaes humanas (gesto de grupos e organizaes) e na questo da responsabilidade, diminuindo a </p><p>chance de agresses ou dinmicas de grupo opressoras. </p><p>A Comunicao No-Violenta foi usada primeiramente em projetos federais do governo americano a fim de integrar </p><p>de forma pacfica escolas e instituies pblicas durante os anos sessenta. Ao longo dos ltimos 40 anos o Dr. </p><p>Rosenberg e sua equipe criaram sistemas de apoio vida nas relaes intra - e interpessoais, com administradores </p><p>escolares, professores, profissionais de sade, policiais, mediadores, sistemas jurdicos, gerentes de empresas, </p><p>detentos e guardas, lderes religiosos judeus, cristos, budistas e muulmanos, autoridades governamentais e </p><p>outros, em mais de 50 pases. </p></li><li><p> CNVBrasil, 2006: www.cnvbrasil.org cbcnv@uol.com.br </p><p>2</p><p>CNV em ao: </p><p>Nestes breves textos vermos a Comunicao No-Violenta aplicada a duas situaes bem diferentes: criao de </p><p>filhos e a um conflito inter-religioso envolvendo centenas de pessoas. No primeiro, Inbal Kashtan, diretora do </p><p>Projeto de Criao de Filhos do Centro de Comunicao No-Violenta, compartilha alguns dos desafios da educao </p><p>familiar que encontra na sua vida e no seu trabalho com pais e filhos. No segundo texto, extrado de uma entrevista </p><p>com Gary Zukov, Dr. Rosenberg descreve os primeiros passos no uso do seu trabalho como ferramenta de </p><p>reconciliao, numa situao de terrvel violncia. </p><p>Inbal Kashtan: </p><p>Como lidar com uma criana de dois anos quando ela arranca o brinquedo de uma amiga? O que podemos dizer a </p><p>algum de 4 anos que se recusa deixar que outras crianas brinquem no escorregador? Como podemos dialogar com </p><p>um adolescente sobre as tarefas que, mais uma vez, deixou de fazer? Como protegemos nossos filhos quando suas </p><p>escolhas arriscam sua segurana? Quais subsdios nos ajudaro a lidar com nossa raiva, frustrao e dor quando a </p><p>comunicao com as nossas crianas parece estressada ou inexistente? Como pais, ns estamos diante de situaes </p><p>como essas diariamente. </p><p>Multiplique a quantidade de crianas e os desafios tambm se multiplicam. Acrescente a presso do trabalho (ou </p><p>desemprego), dinheiro (ou a falta dele), tempo, relacionamento e outros compromissos, e a panela ameaa a </p><p>transbordar. Para algumas pessoas, ainda existe o stress de criar filhos sozinhos, sem um parceiro, familiares ou </p><p>comunidade. Para outros, os desafios de lidar com diferenas de opinio e estilo entre pais, ou entre pais e avs. E </p><p>existem ainda outros elementos complexos com os quais os pais se deparam. No de se estranhar que pais </p><p>almejem suporte, orientao e alento. Porm, quando consultamos os livros de ajuda na criao de filhos e os </p><p>especialistas, os aconselhamentos que encontramos so freqentemente contraditrios e podem no estar de </p><p>acordo com nossos prprios valores e esperanas em relao a nossos filhos e familiares. At mesmo quando </p><p>encontramos uma idia que queremos experimentar, mudar hbitos e padres em nossos relacionamentos pode ser, </p><p>por si s, imensamente desafiador. </p><p>Neste trabalho eu apresento aos pais, e outros que convivem com crianas, uma breve introduo de como a </p><p>Comunicao No-Violenta (CNV) pode apoiar, de forma prtica, a partir de hoje, seu processo de educar. </p><p>Especialmente espero me dirigir a pais que anseiam por uma conexo mais profunda consigo mesmos, seus parceiros </p><p>e suas crianas; desejosos por contribuir, atravs da educao, para promover a paz no mundo. Como podero </p><p>verificar, a abordagem que descrevo vai alm de solues imediatas, pois entra na esfera da transformao pessoal </p><p>e social. </p></li><li><p> CNVBrasil, 2006: www.cnvbrasil.org cbcnv@uol.com.br </p><p>3</p><p>"Poder sobre" versus "Poder com" </p><p>Quando pais querem que crianas faam algo que elas no querem fazer, pode ser tentador forar a obedincia da </p><p>criana utilizando a enorme fora fsica, emocional e prtica que os adultos tm sobre elas. (Por fora prtica eu </p><p>quero dizer que adultos tem um acesso maior aos recursos da sociedade no controle do curso de suas prprias vidas </p><p>e o de seus filhos). Mesmo assim, estou convencida de que o esforo de coagir uma criana a fazer algo que ela no </p><p>quer no funciona efetivamente a curto prazo nem apia famlias a conseguirem o que precisam a longo prazo. (A </p><p>nica exceo quando existe ameaa direta sade ou segurana, e nesse caso a CNV sugere que utilizemos a </p><p>fora de modo protetor e no-punitivo.) Na CNV, nos referimos ao uso da fora para impor o que queremos como </p><p>"poder sobre", em contraste com o uso de fora que atenda s necessidades de todos, ao qual nos referimos como </p><p>"poder com". </p><p>Maria, uma me que havia lido alguns dos meus artigos, fez uma pergunta que toca diretamente na tentao de </p><p>usar o controle que temos sobre recursos para influenciar o comportamento da criana: </p><p>"Eu venhonegociando com meu filho de dois anos, Guilherme; usando incentivos e castigos, e s vezes parece </p><p>bastante efetivo. Pelo menos faz com que ele faa o que eu quero, tal como comer o que tem no prato dele. Assim </p><p>mesmo, de alguma forma, eu me sinto desconfortvel com isso. Existe algum problema com incentivos e castigos se </p><p>eles funcionam?" </p><p>Acredito que h sim um problema com incentivos e castigos pois, no longo prazo, eles raramente funcionam da </p><p>forma que gostaramos. Na verdade, creio ser provvel que seus resultados viro contra ns. Marshall Rosenberg </p><p>investiga essa questo propondo aos pais duas perguntas: "O que vocs querem que seus filhos faam?" e "Quais </p><p>motivos querem que seus filhos tenham, no momento de fazer o que vocs querem que eles faam?" Pais raramente </p><p>querem que seus filhos faam algo motivados por medo das conseqncias, por culpa, vergonha, obrigao ou at </p><p>mesmo pelo desejo de serem premiados. </p><p>Nesse contexto, quando ouo pais - ou especialistas na criao de jovens - relatarem que castigos so eficazes, eu </p><p>me pergunto quais critrios esto usando para esta avaliao. Acredito que "eficaz" normalmente significa que os </p><p>pais conseguem obedincia de seus filhos que fazem o que os pais mandam fazer - pelo menos por um tempo. </p><p>Tanto o objetivo (obedincia) quanto os meios (incentivos e castigos) vm com um preo. Eles no apenas envolvem </p><p>medo, culpa, vergonha, obrigao ou desejo pelo prmio, como tambm so freqentemente acompanhados de </p><p>raiva e ressentimento. E porque incentivos e castigos so motivaes externas (extrnsecas), as crianas se tornam </p><p>dependentes delas e perdem contato com suas motivaes internas (intrnsecas) para atender suas necessidades </p><p>pessoais e s dos outros sua volta. </p><p>Acredito que a mais poderosa e prazerosa motivao interna dos seres humanos ao decidir por alguma ao o </p><p>desejo de atender suas necessidades e dos que esto sua volta. Ambos, crianas e adultos, agem repletos de </p><p>motivao interna quando sentem uma conexo genuna consigo mesmos e com os outros, quando confiam que suas </p></li><li><p> CNVBrasil, 2006: www.cnvbrasil.org cbcnv@uol.com.br </p><p>4</p><p>necessidades importam para os outros, e quando experimentam a liberdade de escolher contribuir para o bem estar </p><p>dos outros. Se quisermos que nossas crianas experimentem motivaes internas para fazer o que pedimos que </p><p>faam, podemos desapegar nosso foco de disciplina e autoridade imposta e concentr-lo, tanto quanto possvel, nas </p><p>necessidades persistentes de todos. Isso pode envolver o investimento de mais tempo na hora de dialogar ou agir </p><p>porque significa ir alm do problema presente e relembrar o que mais importa num cenrio maior. Mesmo assim, o </p><p>retorno vale o investimento. A longo prazo, famlias experimentam conexo, confiana e harmonia mais profundas, </p><p>e crianas aprendem poderosas habilidades para a vida . Acredito que a maioria dos pais acham estas metas mais </p><p>atrativas e valiosas que a mera obedincia. </p><p>Ao invs de incentivos e castigos, a CNV oferece trs pontos de partida para nos conectarmos com os outros: </p><p>oferecer empatia, expressar suas prprias observaes, sentimentos, necessidades e pedidos, e conexo consigo </p><p>mesmo atravs de auto-empatia. A seguir, veremos o uso da primeira opo em relao questo feita por Maria. </p><p>Empatia para com uma criana </p><p>Ter empatia com uma outra pessoa abre a porta para entendimento e conexo profundos. Quando Maria aborda </p><p>Guilherme com esta inteno, ela comea pela premissa de que algumas das necessidades dele no esto sendo </p><p>atendidas. At mesmo com uma criana de um ano, ou que no esteja acostumada a esta abordagem, provvel </p><p>que um pai consiga compreender as necessidades de seu filho. Quando Guilherme empurra a comida para longe ou </p><p>diz "no", Maria demonstra que quer entender como ele se sente e quais as necessidades que ele est tentando </p><p>atender, no lugar de tentar mudar a forma como ele est agindo naquele momento. Ela pode perguntar para si </p><p>mesma, em silencio: Ele esta dizendo no para a comida porque est tentando atender sua necessidade por </p><p>prazer - e no gosta dessa comida? Ele esta distrado por outras coisas e ento quer atender sua necessidade de </p><p>focar naquilo que chama sua ateno naquele momento? Ele esta irritado porque precisa de autonomia - para </p><p>escolher o que e quando comer? Talvez ele no esteja com fome, e ento se sente confuso porque precisa confiar </p><p>na sua habilidade de reconhecer as mensagens do seu prprio corpo? </p><p>Estando mentalmente conectada com as necessidades do seu filho, Maria pode avaliar se quer checar verbalmente </p><p>seu entendimento com Gui, para ver se uma dessas possibilidades ressoa para ele naquele momento. Ela pergunte, </p><p>por exemplo: "Voc est frustrado porque quer uma comida que goste mais?", "Voc est distrado? Quer prestar </p><p>mais ateno no seu jogo?", "T irritado porque quer escolher quando comer?". A linguagem pode ser simplificada se </p><p>a me estiver preocupada que a criana no v entender. Mas importante manter em mente que a criana </p><p>pequena entende mais do que consegue verbalizar. Alm disso, ao incluir sentimentos e necessidades no </p><p>vocabulrio delas, os pais estaro alfabetizando-as emocionalmente. Mesmo se a criana no responder, muitos </p><p>pais notaro que seu prprio tom de voz e linguagem corporal mudam, simplesmente porque estabelecem conexo </p><p>com as necessidades de seus filhos e que, em virtude dessa mudana, um potencial conflito, em que um domina e </p><p>o outro perde, foi evitado. </p></li><li><p> CNVBrasil, 2006: www.cnvbrasil.org cbcnv@uol.com.br </p><p>5</p><p>Agora Maria pode ir adiante, para achar estratgias que atendem as necessidades dos dois. No processo de oferecer </p><p>empatia, eu encorajo as pessoas a abandonarem a inteno especifica de querer que seus filhos faam o que os pais </p><p>mandam, e do jeito que mandam, e em vez disso, focarem a ateno na conexo humana com seus filhos. Ao </p><p>mesmo tempo, igualmente importante para os pais permanecer em contato com suas prprias necessidades </p><p>internas. Maria agora refletir sobre o que estaria disposta a fazer de forma diferente, para aumentar a </p><p>probabilidade de atender s necessidades de seu filho sem abandonar as suas prprias necessidades. Integrar as </p><p>necessidades de seu filho nas suas estratgias pode incluir mudar o cardpio dirio, oferecer-lhe comida num lugar </p><p>da casa onde ele possa comer enquanto brinca; inventar refeies divertidas e coloridas para comerem juntos,... as </p><p>possibilidades so infinitas. A estratgia em si importa menos que estar afinada com ambas as necessidades, do </p><p>filho e da me. Dessa maneira, atendendo s necessidades de seu filho, ela estar tambm atendendo as suas </p><p>prprias. Em ltima anlise, no existe conflito entre suas necessidades - eles apenas tinham estratgias e </p><p>prioridades diferentes naquele momento. </p><p>Marshall Rosenberg: </p><p>Fui chamado para ajudar a mediar um conflito entre duas tribos uma crist, a outra muulmana - na Nigria. A </p><p>enorme violncia entre elas foi provocada pela disputa por locais de exposio para seus produtos no mercado. Dos </p><p>quatrocentos membros da comunidade, cem j haviam sido mortos no ano em que eu cheguei. Um colega meu que </p><p>vive na Nigria, ao ver tanta violncia, se esforou muito para entrar em contato com os chefes dos dois lados e </p><p>convenc-los a se encontrarem para resolver o conflito. Demorou 6 meses mas, finalmente, ele conseguiu. E foi </p><p>assim que eu cheguei a trabalhar com eles. </p><p>Quando estvamos chegando na reunio, meu colega me disse baixinho: Prepare-se para um pouco de tenso, </p><p>Marshall. Trs das pessoas que estaro na sala sabem que o assassino de seu filho est entre os presentes. O clima </p><p>estava mesmo muito tenso. Depois de tanta violncia entre eles, aquela era a primeira vez em que os dois grupos </p><p>se sentavam juntos. Comecei perguntando. Quais so suas necessidades nesta situao e o que vocs querem dos </p><p>integrantes do outro grupo? Fiz a mesma pergunta para os dois. Quais so suas necessidades no atendidas e </p><p>como o outro lado poderia contribuir para isso? </p><p>Infelizmente, eles no sabiam como expressar necessidades. S sabiam expressar crticas e julgamentos. Ento, em </p><p>vez de responder minha pergunta O que voc precisa?, o primeiro chefe disse: Vocs so assassinos. E o outro </p><p>respondeu: Vocs esto tentando nos dominar e ns no vamos mais tolerar isso. Agora a tenso tinha aumentado </p><p>mais ainda porque em vez de expressar suas necessidades claramente, cada lado persistia no julgamento sobre o </p><p>outro. </p><p>A entra a Comunicao No-Violenta: ela me capacitou a ouvir os sentimentos e necessidades por trs dos </p><p>julgamentos. Por exemplo, em resposta ao que disse Vocs so assassinos, eu pergu...</p></li></ul>