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Universidade Federal de Santa Catarina Centro de Comunicao e Expresso (CCE) Bacharelado em Letras/Libras na Modalidade a Distncia

Rosemeri Bernieri de Souza Kapitaniuk

PSICOLINGUSTICA

Florianpolis 2010

SumrioIntroduo, p. 4 Unidade 1 Antecedentes filosficos e histricos, p. 6 1.1 O perodo embrionrio, p. 7 1.1.1 Os genes da Psicologia, p. 7 1.1.2 Os genes da Lingustica, p. 9 Unidade 2 O nascimento da Psicolingustica, p. 13 2.1 O registro, p. 13 2.2 A mudana Chomskyana, p. 15 2.2.1 Experimentos sobre unidades sintticas, p. 17 2.2.2 Experimentos sobre unidades perceptuais, p. 18 2.3 Desenvolvimento dos estudos psicolingusticos no Brasil, p. 19 Unidade 3 Psicolingustica - delimitao do objeto de estudo e metodologia, p. 20 3.1 A aproximao dos pontos de vista e a redescoberta do objeto, p. 20 3.1.1 A abordagem funcionalista, p. 21 3.2 Metodologias adequadas ao novo enfoque, p. 23 3.3 Problemas em Psicolingustica, p. 26 Unidade 4 Campo de atuao da Psicolingustica, p. 29 4.1 Neurofisiologia da linguagem, p. 29 4.2 Aquisio de Linguagem, p. 30 4.3 Relao entre pensamento e linguagem, p. 31 4.4 Apropriao e processamento de leitura e escrita, p. 32

4.5 Bilinguismo, p. 33 4.6 Psicolingustica comparada, p. 33 4.7 Psicolingustica Aplicada, p. 34 4.7.1 Aprendizagem e ensino de lnguas, p. 34 4.7.2 Processamento de traduo, p. 35 Unidade 5 Psicolingustica e Lngua de Sinais, p. 38 5.1 Aquisio de linguagem da criana surda, p. 39 5.1.1 Morfossintaxe e discurso, p. 40 5.1.2 O estudo da aquisio dos classificadores na perspectiva psicolingstica, p. 42 5.2 Bilinguismo do surdo, p. 43 5.3 Processamento de interpretao em LS, p. 45 Unidade 6 Psicolinguistica: sua relao com as novas cincias, p. 49 6.1 Neurolingustica ou Neuropsicologia, p. 49 6.1.1 A leitura sob o enfoque da Neurolingustica, p. 51 6.2 Cognitivismo, p. 53 6.3 Conexionismo, p. 53 Concluso, p. 56 Glossrio, p. 58 Referncias Bibliogrficas, p. 59

Introduo

Nesta disciplina abordaremos a origem e o desenvolvimento de uma disciplina cientfica que nasceu da interdisciplinaridade entre duas outras cincias: a Psicologia e a Lingustica. Conheceremos alguns antecedentes histricos que prepararam a sua emancipao enquanto cincia autnoma. Originado pelo consenso de especialistas, esse ato emancipatrio se realizou em dois encontros e se consubstanciou na publicao de um livro, onde as bases do seu contedo programtico foram fundadas. Como acontece com toda cincia, verificaremos que ela tambm passou e ainda passa por diversas mudanas e que ora foi influenciada por uma, ora por outras reflexes epistemolgicas conforme os avanos das pesquisas, dos modelos e teorias. Isso ocorre pelo fato de as cincias naturais e humanas estarem sujeitas s transformaes que os achados acrescentam gradativa e substancialmente, bem como s evolues sociais e histricas. Como bem salienta Scliar-Cabral (1991: 8)Um exame retrospectivo sobre os antecedentes, o surgimento e o desenvolvimento da psicolingstica tem a utilidade de servir como exemplo das inter-relaes entre as cincias humanas e mesmo fsicas e naturais no ltimo sculo, da busca fustica, porm mais uma vez destronada de uma explicao mais unitria sobre os processos envolvidos na recepo e produo de mensagens e do movimento pendular que enfatiza ora uma, ora outra as indagaes, acionado pelas teorias epistemolgicas que lhe subjazem e pelo cenrio histrico e cultural que lhe serve de pano de fundo.

Assim, percorreremos um breve percurso desde as pesquisas que antecederam seu nascimento que denominamos de perodo embrionrio. Passaremos pelo seu nascimento, quando, finalmente, ela foi batizada e registrada e, por fim, como foi seu desenvolvimento desde seu nascimento at a fase atual com vistas a uma perspectiva futura.

Identificaremos outras linhas de pesquisa que, certamente, influenciam e contribuem muito para o seu desenvolvimento maturacional. Essa metfora proveitosa no sentido de que, assim como o desenvolvimento fsico e cognitivo do homem, as cincias no nascem prontas. Elas se desenvolvem a partir de insumos do conhecimento que se somam ou mesmo se dissociam para dar lugar a novas descobertas. Por isso, sejam bem-vindos a nossa viagem, que antes de ser uma explorao minuciosa, uma apresentao do que chamamos hoje de Psicolingustica.

Unidade 1 Antecedentes filosficos e histricos

Antes de iniciarmos a abordagem sobre as duas disciplinas que geraram a psicolingustica, precisamos trazer baila alguns conceitos bsicos que nos ajudaro entender as idias que subjazem o desenvolvimento filosfico e mesmo iniciaram as discusses sobre pensamento e linguagem [verbal]. Trata-se de vises dialticas que se erigiram em Plato e Aristteles e, at hoje, influenciam muitas vertentes nas cincias humanas. Elas podem ser divididas em duas vises: A viso empiricista e a viso racionalista. A viso empiricista acredita que adquirimos o conhecimento por meio da observao e da experincia. Essa viso se origina em Aristteles que acreditava que a realidade situa-se somente no mundo concreto de objetos que nossos organismos percebem (Sternberg, 2000:23). J a viso racionalista utiliza o mtodo introspectivo lgico para compreender o mundo e as relaes das pessoas com ele. Essa viso adotada por Plato que acreditava que a realidade reside nas formas abstratas que os objetos representam em nossas mentes. Os racionalistas, portanto, tendem geralmente a deduzir exemplos especficos de um fenmeno, baseados em princpios gerais (op. cit, p. 23). Outra dualidade que repercute at os nossos dias, concerne origem das idias. Para Plato as idias so inatas e, por meio da introspeco pode-se chegar verdade sobre a mente. Para Aristteles as idias so adquiridas a partir da experincia. Essas duas concepes influenciam, at hoje, algumas vertentes das cincias modernas. Na verdade, a bifurcao dialtica desses antecedentes gregos pode ser aproximada nos estudos das cincias modernas, resultando de uma sntese entre fatores inatos e adquiridos. A viso aristotlica influenciou alguns filsofos como Locke, originando sua concepo de tabula rasa (quadro em branco) que acredita que os homens nascem sem conhecimento.

Em oposio, Descartes, aps muitas reflexes, chegou concluso de que as idias so inatas e que os sentidos so enganosos e incertos e no favorecem uma via segura para acessar o conhecimento atravs das informaes que os perpassam. Numa sntese dessas duas vias: a empirista e a racionalista, no sculo XVIII, Kant iniciou uma convergncia dialtica entre as questes inatas e adquiridas. Para ele ambas devem andar juntas, na busca pela verdade. E hoje, como essas idias so aceitas? o que aprenderemos a seguir.

1.1. O perodo Embrionrio Neste tpico entenderemos como essas correntes filosficas, acima descritas, influenciaram o desenvolvimento dos estudos psicolingusticos. A fase que antecede a concepo da psicolingustica como disciplina cientfica, circunscreve-se num momento em que Psicologia e Lingstica, sem ainda estarem firmadas como disciplinas autnomas, abordavam a questo central sobre a relao pensamento e linguagem, denominada Psicologia de Linguagem. Vamos entender melhor quais os princpios que eram fecundados no seio de cada uma dessas disciplinas.

1.1.1 Os genes da Psicologia Segundo Sternberg (2000), a Psicologia moderna comeou de uma fuso entre a filosofia e a fisiologia (medicina). A filosofia vista como introspeco e a fisiologia como empirismo. Ele diz que: medida que a psicologia se tornou crescentemente uma disciplina cientfica focalizada na mente e no comportamento, ela divergiu gradualmente da filosofia e da medicina. Atualmente, embora a psicologia, a filosofia e a medicina estejam essencialmente separadas, no o esto de forma to completa, pois muitas questes psicolgicas

permanecem arraigadas em temas tanto filosficos quanto fisiolgicos, com relao a vrios aspectos da cognio (2000:25)

O duplo foco: mente e comportamento gerou uma bifurcao entre duas perspectivas: A primeira visa compreender a mente humana pelo estudo de suas estruturas (configurao dos elementos) como fazemos ao estudar as estruturas anatmicas do corpo;

A segunda estuda as funes de cada organismo, ou seja, o processo como realizado no estudo da fisiologia. Dessas duas perspectivas foram derivadas trs correntes de pensamento: o

estruturalismo, o funcionalismo e o associacionismo. O Estruturalismo, como o nome sugere, busca entender a estrutura da mente e suas percepes, analisando tais percepes em seus fatores constituintes (op. cit., p. 25). Um dos principais precursores dessa corrente foi o psiclogo alemo Wundt (1832-1920)1 que se interessou pelos fenmenos da linguagem procurando neles a chave da psique humana (Titone, 1983:18). O Funcionalismo focaliza os processos de pensamento e no seu contedo, ou seja, como a mente funciona. Pelo fato de os funcionalistas utilizarem uma srie de mtodos com o objetivo de chegar s respostas desejadas, originou-se a viso pragmtica, sendo William James (1842-1910)2 um dos primeiros seguidores dessa orientao. Os pragmticos se interessam em saber o que as pessoas fazem e como esse conhecimento pode ser aplicado s questes prticas, como por exemplo, o desempenho escolar das crianas (Sternberg, 2000:27)

1

Wilhelm Maximilian Wundt foi um mdico, filsofo e psiclogo alemo. considerado um dos fundadores da moderna psicologia experimental. 2 Filsofo e psiclogo norte americano, considerado, ao lado de Charles Sanders Peirce um dos fundadores do pragmatismo. Ele escreveu livros influentes sobre a jovem cincia da psicologia, as variedades da experincia religiosa e do misticismo e a filosofia do pragmatismo.

O Associacionismo acredita na sntese integradora entre os fatos ou as idias e sua associao na mente que resultam numa forma de aprendizagem. Um dos associacionistas, Hermann Ebbinghaus (1850-1909)3, no final de 1800, aplicou sistematicamente esse princpio estudando seus prprios