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Universidade Federal de Santa Catarina Licenciatura em Letras-Libras na Modalidade a Distncia

LINGUSTICA APLICADA

Audrei Gesser Maria Jos Damiani Costa Zlia Anita Viviani

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Florianpolis, 2009 LINGSTICA APLICADA AO ENSINO DE LNGUAS

SUMRIO

UNIDADE 1. LINGUSTICA APLICADA O QUE VEM A SER? UNIDADE 2. A LINGUAGEM SEGUNDO VYGOTSKY E BAKHTIN UNIDADE 3. LINGSTICA APLICADA E ENSINO DE LNGUAS UNIDADE 4. O PAPEL DO PROFESSOR DE LNGUA UNIDADE 5. CONTEXTOS BI/MULTILNGES UNIDADE 6. VERTENTES DE PESQUISA SOBRE O BILINGISMO UNIDADE 7. O BILINGISMO NA COMUNIDADE SURDA UNIDADE 8. CONSIDERAES FINAIS

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UNIDADE 1. LINGUSTICA APLICADA O QUE VEM A SER?

Nesta primeira unidade vamos conhecer os percursos de constituio da Lingstica Aplicada (LA) no Brasil enquanto rea terica e inter/multidisciplinar no sentido de se desvincular tanto a relao unidirecional com a Lingstica bem como a noo da rea como campo de aplicao de teorias. Alm disso, discutiremos sobre os seus objetos de estudo, seus paradigmas de investigao e o fazer pesquisa em LA.

Quando somos iniciantes, nesta disciplina, e nos perguntamos: O que entendemos por Lingstica Aplicada (LA)? Na maioria das vezes, ao tentarmos definir esta rea do conhecimento, associamos automaticamente a disciplina de Lingstica, ou melhor, quase sempre nos parece seguro defini-la da seguinte maneira: so os paradigmas tericos da Lingstica levados prtica. Esta tendncia de conceituao que aparece, naturalmente, nas definies dos alunos principiantes se justifica pelo conhecimento prvio dos discentes sobre a disciplina de Lingstica e pelo adjetivo aplicada. De certa forma, como nos fazem lembrar alguns estudiosos da rea, as fronteiras entre Lingstica e Lingstica Aplicada, em determinados contextos, no esto claramente marcadas e, tambm, quando buscamos apoio em momentos histricos construo de um conceito de LA, inevitavelmente, encontramos a relao entre as duas disciplinas. Assim nos resulta difcil delimitar os territrios de atuao de cada uma das duas cincias.

No Brasil tambm no encontramos um cenrio diferente do mundial. A autora Angela Kleiman (1998) adverte que quase inevitvel definir LA sem buscar para esta construo conceitual sua relao com a Lingstica. E por que existe a dificuldade em determinar esta fronteira? Sobre este aspecto Kleiman (1998: 52), em seu artigo O Estatuto disciplinar da Lingstica Aplicada: o traado de um percurso, um rumo para o debate, esclarece: A questo histrica porque a Lingstica Aplicada emergiu um tanto tardiamente em relao ao momento que se configuraram importantes problemas de ensino de lngua materna no pas e foram os lingistas os que ocuparam os espaos de atuao aplicada que hoje a LA tambm reivindica. Esses lingistas propunham-se, no fim da dcada de 1960, ao responder s perguntas de professores confusos pelo insucesso com

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novos estudantes que a democratizao do ensino trazia para a escola, e pelo novo objeto - comunicao na lngua que a Lei 5.692/711 institua. Este dilogo entre as duas reas tambm ocorre na atualidade. As mudanas dos paradigmas que norteiam os estudos da linguagem tm deslocado, para muitos lingistas, o foco da lingstica estrutural. Desta maneira, sua investigao envolver a anlise do uso da linguagem em suas prticas sociais e, conseqentemente, fora do limite das cincias lingsticas, adentrando no territrio da Lingstica Aplicada. Segundo Celani (1998), em seu artigo Transdisciplinaridade na Lngistica Aplicada no Brasil, durante uma poca a LA foi tambm entendida como uma disciplina articuladora de muitos domnios do saber, dialogando, constantemente, com inmeros campos do conhecimento que tm preocupao com a linguagem. Assim, comenta a autora: No h dvida quanto ao carter multi/ pluri/ interdisciplinar da Lingstica Aplicada. Os que nela militam a todo momento se do conta de que esto entrando em domnios outros que os de sua formao inicial (na maioria das vezes,na rea de Letras),se do conta de que precisam ir buscar explicaes para os fenmenos que investigam em outros domnios do saber que no os da linguagem stricto-senso. Esse dilogo j faz parte da prtica dos lingistas aplicados (Celani, 1998: 131). Neste mbito multi/pluri/interdisciplinar, vrias disciplinas colaboram e se integram nas investigaes de um objeto. Vamos observar esta viso na Figura 1 apresentadada por Kleiman in Celani (1998:134):

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http://www.pedagogiaemfoco.pro.br/lindice.htm

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Atualmente, uma nova postura delimita a rea de atuao e define a pesquisa da LA: a transdisciplinaridade. Esta nova viso e prtica dos pesquisadores envolvem muito mais que a tmida relao de reas do conhecimento; ela requer uma colaborao das disciplinas para elaborar um eixo, uma trajetria, uma convivncia de saberes numa interface dinmica e laos mais slidos. Como reflexo desta nova atitude, novos conhecimentos so gerados e novas parcerias surgem com pesquisadores de outras reas criando-se o que Portela (1993) nomeia de esfera de coabitao. Esta postura est representada na Figura 2 que expe graficamente, o que (Kleiman, 1991) situa como Pesquisa: Relaes sociais entre interlocutores em sala de aula:

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Ento, como podemos observar na representao grfica, a Lingstica Aplicada, pautada em uma postura transdisciplinar, e que tem como objeto de investigao a linguagem, busca e observa as mltiplas disciplinas delineadas e sem esgotar as possibilidades de elos entre umas e outras, percorre-as entrecruzando o mbito de cada uma, at que se dissolve em seu objeto investigado. As linhas de pesquisa e seus projetos, nesta viso transdisciplinar, podem ser relacionados em quatro grandes grupos, conforme nos prope Celani (1998:136): 1. Interao em contextos institucionais e informais: estudos sobre contextos especficos tais como, negcios, academia, texto literrio, sala de aula (bilnge, bidialetal e monolnge), mdico/paciente, anlise crtica do discurso. 2. Interao em aprendizagem: projetos em letramento, aprendizagem de segunda lngua, interaes transculturais e interculturais em contextos pedaggicos, o foco sendo sociocultural, discursivo e psicolgico.

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3. Aquisio e desenvolvimento da linguagem (materna, estrangeira, [orais e de sinais]: inclui situaes tanto de primeira quanto de segunda lngua, inclui projetos sobre aquisio e desenvolvimento da escrita, de leitura, de habilidade oral, de letramento e alfabetizao. 4. Ensino de lngua: inclui, particularmente, projetos sobre traduo, do ponto de vista da teoria, da prtica e do ensino.

1.1 Viso crtica sobre duas correntes em LA

Maria Jos Coracini (2003), na Introduo ao livro que organiza, intitulado O Desejo da Teoria e a Contingncia da Prtica, nos apresenta outra diviso sobre o campo da pesquisa em LA, fazendo uma crtica pelo menos duas correntes salientes em pesquisas na rea da Lingstica Aplicada. Resumiremos o que expe a autora a propsito dessas duas correntes, para melhor compreendermos a Lingstica Aplicada como disciplina inserida no curso de Letras, de um modo geral. A primeira corrente, como cincia aplicada, tem sido a de servir-se da teoria da Lingstica para solucionar problemas da prtica, isto , da sala de aula de lngua (materna e estrangeira), ou melhor, do ensino/aprendizagem de lnguas. No entanto, como nos mostra Coracini (op. cit.), esta viso reducionista no sentido de que aponta para solues como verdades inquestionveis, porque apoiadas na teoria. Assim, sem nos preocuparmos com uma definio pura e simples de Lingstica Aplicada (porque na rea das cincias humanas no pode haver, pelo nosso entendimento, definies fixas e exatas), trataremos de ampliar nossos conhecimentos com base justamente no texto da autora mencionada. Essa corrente da Lingstica Aplicada se considera autorizada a prescrever melhores maneiras de se ensinar/aprender lngua, porque se apia em teorias as quais consideram inquestionveis, porque cientficas. Segundo a autora, tal posicionamento advm de uma concepo de linguagem como sistema - fixo e imutvel - e de uma concepo de sujeito absolutamente capaz de gerir os processos de ensino e aprendizagem, porque racional e capaz de fazer escolhas conscientes.

A segunda corrente apontada a que considera, ao contrrio, o sujeito como algum que no controla nem a si mesmo, nem o outro, nem os efeitos de seu dizer. (Veja-se, NO estamos querendo dizer, como na linguagem popular, no se 7

controla, isto , quando algum incapaz de controlar seus atos ou palavras, no caso de uma pessoa impulsiva). Compreender o sujeito como algum que no controla o seu dizer, significa nos compreendermos como indivduos que comunicam, mas que no podem controlar o que dizem porque somos perpassados por toda uma cultura - nem o que o outro vai interpretar ou como vai reagir (s podemos fazer alguma previso, no controlar pontualmente).

Que implicaes tm, afinal, essas consideraes acima, sobre a disciplina (ou a cincia) denominada Lingstica Aplicada? Coracini (2003) nos esclarece sobre as conseqncias de um e de outro posicionamento. No primeiro caso, tem-se a preocupao com o aporte de solues aos chamados problemas de sala de aula. assim que essa vertente pesquisa, por exemplo, estratgias de ensino e aprendizagem, abordagens mais sistemticas de gramtica, de uso de linguagem para comunicao, dentre outros aspectos. O problema que tal corrente, apesar de declarar o contrrio, privilegia, assim, a teoria sobre a prtica, o que significa que seria primeiramente a cincia a declarar o melhor a fazer em sala de aula de lngua (desfazendo-se, ento, a busca, por parte desses mesmos lingistas aplicados, de articulao teoria/prtica). No segundo caso, ao contrrio, ao considerar-se o sujeito como no-dono do seu dizer, compreende-se a impossibilidade de uma aplicao direta e imediata da teoria sobre a prtica. Sendo assim, os posicionamentos desta segunda perspectiva, problematizam a prpria noo de problema, de aplicabilidade2 de teori