o anjo da guarda do marquês de pombal

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O Anjo da Guarda do Marquês de PombalJosé Esteves PereiraEm 1775, saiu impresso na Régia Oficina Tipográfica um opúsculo apologético, de autor anónimo, intitulado PRECES E VOTOS DA NAÇAO PORTUGUEZA AO ANJO DA GUARDA DO MARQUEZ DE POMBAL. Sabemos que foi escrito por António Pereira de Figueiredo (1725-1797), o principal teórico do regalismo pombalino. Não se trata de mais um dos inúmeros textos de desagravo surgidos na altura em que parece ter sido urdida uma conspiração para matar o Marquês de Pombal protagonizada por um genovês, Giambattista Pelle. De facto, o conteúdo do escrito do oratoriano Pereira de Figueiredo assume especial significado pela invocação que nele é feito do Anjo Custódio de Portugal, elemento simbólico da representação do poder enquanto este é assistido por Deus.Trata-se de uma composição literária onde, aparentemente, apenas se amplifica o que se poderia desejar do apoio celestial no exercício do Poder, não pertencendo o texto, em todo o caso ao conjunto das deificações e heroicizações dos Príncipes (embora aqui esteja em causa, sobretudo, o Ministro Pombal) que se manifestam ao longo da história europeia e que assumiu particular significado com Luís XIV e a sua identificação com Alexandre Magno. No entanto, o modo como é construído o discurso das Preces e Votos converge, inequivocamente, para a representação da sacralização do poder régio absoluto em que tanto se verifica a expressão assumida do jusdivinismo e do regalismo, como se depreende uma atitude defensiva com a exorcização do Mal, em que os Jesuítas não podiam deixar de ser os réus da história.

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  • o Anjo da Guarda

    do Marqus de Pombal

    Jo s E ste v es Pe r ei r a

    EM 1775, SAIU IMPRESSO NA RGIA OFICINA Tipogrfica um opsculo apologtico, de autor annimo, intitulado PRECES E VOTOS DA NAAO PORTUGUEZA AO ANJO DA GUARDA DO MARQUEZ DEPOMBAL. Sabemos que foi escrito por Antnio Pereira de Figueiredo (1725 - 1797), o principal terico do regalismo pombalino. No se trata de mais um dos inmeros textos de desagravo surgidos na altura em que parece ter sido urdida uma conspirao para matar o Marqus de Pombal protagonizada por um genovs, Giambattista Pelle. De facto, o contedo do escrito do oratoriano Pereira de Figueiredo assume especial significado pela invocao que nele feito do Anjo Custdio de Portugal, elemento simblico da representao do poder enquanto este assistido por Deus.

    Trata-se de uma composio literria onde, aparentemente, apenas se amplifica o que se poderia desejar do apoio celestial no exerccio do Poder, no pertencendo o texto, em todo o caso, ao conjunto das deificaes e heroicidades dos Prncipes (embora aqui esteja em causa, sobretudo, o ministro Pombal) que se manifesta ao longo da histria europeia e que assumiu particular significado com Lus XIV e a sua identificao com Alexandre Magno. l No entanto, o modo como construdo o discurso das Preces e Votos converge, inequivocamente, para a representao da sacralizao do poder rgio absoluto em que tanto se verifica a expresso assumida do jusdivinismo e do regalismo, como se depreende uma atitude defensiva com a exorcizao do Mal, em que os jesutas no podiam deixar de ser os rus da histria.

    A circunstncia que motivou o opsculo, de carcter nitidamente oficial, prende-se, como j foi dito, com o atentado que, alegadamente, se preparava tendo como alvo o todo poderoso ministro de D. Jos L Antnio Pereira de Figuei-

  • Alegoria do Clria do Marqus de Pombal, gravura annima. Biblioteca Nacional de Lisboa

  • redo avanou, porm, nas suas consideraes panegricas, a certeza da cumplicidade dos jesutas. No ser demais sublinhar que a Companhia de Jesus estava j extinta pelo breve de Clemente XIV; Dominus ac Redemptoribus, de 23 de Julho de 1773 e, em Portugal, os seus religiosos tinham sido expulsos h perto de um quarto de sculo. Mas, o processo poltico e mental era permanentemente avivado como se pode verificar no Compndio Histrico do Estado da Universidade de Coimbra, de 1771, onde aparecem consignados os vrios estragos produzidos pelos inacianos. E assim, a par da autoria mais directa do atentado, realava-se a perniciosidade mortal dos jesutas para a sociedade portuguesa. Entretanto, o genovs foi julgado sem qualquer possibilidade de defesa, sentenciado em 9 de Outubro de 1 775 e imediatamente executado, na Junqueira, com requintes de crueldade, tendo sido os seus despojos queimados.

    Este pequeno enquadramento dos acontecimentos torna-se necessrio para uma melhor compreenso das Preces e Votos, como veremos.

    Na argumentao, sem dvida apologtica, verifica-se o espelhamento simblico da teorizao e aco polticas e de uma bem definida cultura de poder centrada no Ministro de D. Jos, sobre cuja figura Pereira de Figueiredo no hesita em dizer que lhe assiste um Anjo Prncipe para bem do Paraso da Europa que o Portugal pombalino.

    O estilo, exteriormente laudatrio, encobre uma apreciao rica sobre a representao do poder e, at, sobre a sua legibilidade mais popular, sem perder de vista o pano de fundo de uma teoria e prtica polticas. Por isso mesmo, antes de irmos ao encontro do Anjo da Guarda do Marqus de Poll1bal, importa reter o seguinte. Em 1775, . estamos no auge do exerccio' do poder

    pombalino, nas vsperas, tambm, de uma afirmao de Estado no contexto da poltica europeia. No plano jurdico, com a Lei da Boa Razo (1769), encontrara-se um instrumento essencial para interpretao e integrao das lacunas do direito ptrio. Alm disto, o invocar da Razo, como expresso de poder esclarecido, toma um lugar crescentemente preponderante para reiterar a aco poltica Nas Preces e Votos, exprobrando-se os jesutas, invoca-se o Altssimo e denunciam-se as ms aces dos que pretendem, e procuram com o ltimo empenho, e esforo tirar a vida ao mesmo Marquez de Pombal, pelos modos mais astutos, mais cruis, mais imprevistos; sem entretanto os refrear e coibir nem a santidade, e severidade das minhas Leis; nem os ditames da Razo Natural.2

    Mas a racionalidade do poder, que deve ser legitimada, exige a sua sacralizao, e neste contexto que a injuno da transcendncia presente na pequena obra apologtica de Antnio Pereira de Figueiredo adquire mais significado.

    Pombal salvara-se por intercesso do seu Anjo da Guarda. Mas, que Anjo da Guarda?

    A tutela ou custdia do Anjo sobre os povos est presente na simblica do Poder. A proteco divina estende-se a cada um dos homens, ou apenas aos eleitos, por intermdio de potncias subordinadas autoridade de Deus que tanto pode favorecer ou no os mortais. Esta proteco viria a estender-se, na fortssima tradio paulina, aos povos e s naes. Aceita-se o apoio, ao mesmo tempo anglico e poltico, do exrcito divino que se dobra de mensageiro, na acepo mais colada palavra grega angelos como expresso simblica do poder espiritual, devendo acrescentar-se, ainda, o seu ,papel esclarecedor dos homens e das naes.

    Antnio Pereira de Figueiredo, o principal teorizador do regalismo pombalino, adverte-nos sobre a questo anglica: teologia certa, e 24

  • Alegoria aclamao do rei D. Jos I, atribufda a Vieira lusitano. Ministrio dos Negcios Estrangeiros

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    corrente, que no s a cada homem, mas tambm a cada Reino, assinou a Providncia de Deus um Anjo por Tutelar.3 Recorrendo ao Antigo Testamento afirma que o Altssimo dividiu as Naes e separou uns dos outros os filhos de Ado, logo, segundo o nmero das Regies, e Provncias, destinou outros tantos Anjos de Deus.4

    A sacralizao do poder, que sucede separao crescente do Sacerdcio e do Imprio, foi intensamente discutida, sobretudo a partir do sculo XVII. Entre outras obras que nos interessam para esta questo refiram-se autores como Nicolau de Hontheim (Febrnio), Zeger van Espen e o prprio Pereira de Figueiredo, onde se procede a uma avocao acrescida de signos vinculadores de um exerccio rgio de fundamento jus-divinista.

    Quanto avocao simblica, no texto de Antnio Pereira de Figueiredo deparamos com uma formulao menos presa teorizao jurdica e jus-cannica do autor. Na legitimao sacralizadora do exerccio do poder pombalino que transparece nas Preces e Votos aparece-nos, por um lado, a figura do soberano, D. Jos, o segundo David e, por outro lado, de modo mais veemente, a mensagem do divino pela voz dedicada, pelo conselho ntimo propiciado pelo Altssimo ao Marqus ao mesmo tempo que, implicitamente, se assegura a incolumidade do Ministro, merc da bondade do esprito celestial: Trata-se da incolumidade, e segurana no de algum Homem intil, cuja vida importe pouco Repblica, mas da incolumidade, e segurana de um Ministro, a quem eu com especial Providencia mandei ao Mundo, e escolhi nestes ltimos tempos de tanta calamidade, e corrupo; para que estando ao lado de D. JOS, Rei de Portugal, como seu primeiro Ministro; procurasse reparar

    os gravssimos danos, e estragos, que por espao de dois sculos amontoou a malcia de uns Homens to ingratos.5

    Mas, como identificar o anjo salvador e conselheiro? Pereira de Figueiredo interroga:

    1 . Ser o Grande Anjo (Gnesis, III, 24) que expulsa Ado do Paraso proibindo-o com uma espada a nele entrar?6 Logo o ex-padre Nri avana com algumas suposies. Se fosse tal potestade simbolizaria, qui, a Espada da Razo e da Autoridade Rgia. interessante seguir o jogo metafrico. A aco rgia josefino-pombalina, virtuosamente, expulsara os prevaricadores jesutas transformando Portugal no Paraso da Europa.? A este propsito, no se pode esquecer o impacto europeu que teve a deciso de expulsar os jesutas e a internacionalizao das prprias teses regalistas pereirianas que mereceriam especial ateno por parte das Nouvelles Eclsiastiques, rgo jansenista.8

  • 2. Seria o Anjo do xodo (XIII, 2 1) que conduziu pelo deserto o povo de Deus protegendo-o contra a inclemncia do Sol e abrindo-lhe o caminho, na Noite, como um facho?9

    Talvez fosse concorde aco pombalina este sinal do Anjo j que, Pombal (cliente do Anjo e da proteco divina) ia propiciando quer a construo (material) que abriga os sbditos, quer os ditames do poder (espiritual) esclarecido mediante leis iluminadas.

    3. Ou, em configurao mais aceite, de sentido neotestamentrio, surgiria o Anjo de entre a celestial Milcia como Miguel, Rafael ou Gabriel?l0

    Pereira de Figueiredo suspende a sua indagao valorizando a prpria ocultao do nome, mas no do poder da sua natureza, como veremos. A ocultao do nome aumenta para o admirador de Pombal o significado da injuno tute-

    lar, a prpria grandeza do arcano face ao eleito. O velamento propositado na inquirio exegtica permite-lhe magnificar o Anjo concluindo pois que para o Restaurador (magnnimo) , Defensor (intrpido) e Heri (inigualvel) s se revela adequada a proteco e a assistncia nica de um Anjo Prncipe, de um ARCANJO, passando o Padre Figueiredo, sem mais delongas, estratgia de uma dvida que prevemos vir a ser imediatamente esclarecida:

    E quem pode duvidar ser um mesmo o Anjo Custdio de Portugal, e o Anjo Custdio do nosso Marquez? 1 1

    Ao lado da especulao angeliolgica, Pereira de Figueiredo no deixar de lembrar vinte e cinco anos de estupendas obras e aco de um magnnimo Rei e de um Magistrio inspirado, guiado, favorecido, e protegido do invencvel

    Alegoria do Marqus de Pombal, desenho de Antnio Fernandes Rodrigues e gravura de Setphen Fessard, c. 1762. Biblioteca Nacional de Lisboa

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  • Preces e volos ... , Fac-simile do documento original. Bibl ioteca Joanina da Universidade de Coimbra

    27

    influ

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