tavira, o marquês de pombal e a fábrica de tapeçarias

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A acção política do marquês de Pombal na 2ª metade do séc. XVIII teve como objectivo a centralização do poder no Estado-Pessoa. Porém, quase em simultâneo, desenvolveu iniciativas de fomento económico que, em grande parte, contribuíram para um vasto programa de reformas, quer na organização da administração pública, quer no ordenamento social, introduzindo ideias e projectos que se assemelham, em certa medida, à revolução iluminista. O fomento do sector industrial foi um dos sectores de maior sucesso e grande dinamismo económico durante o seu consulado. A cidade de Tavira foi contemplada com o apoio à instalação de uma unidade fabril dedicada à produção de tapeçarias. Razões de vária ordem, nomeadamente o afastamento do Marquês do poder, contribuíram para o insucesso mercantil e encerramento desta unidade industrial, única em toda a História do Algarve.

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  • 1. Tavira, o Marqus de Pombal e a Fbrica de Tapearias Jos Carlos Vilhena Mesquita Universidade do Algarve
  • 2. 109 Na longa Histria do Algarve, de cujas origens se desconhece a firmeza das razes, mas que se percebem distantes e profundas, ressalta, pela nobreza dos seus pergaminhos e imponncia do seu patrimnio, a cidade de Tavira. Burgo mourisco de ancestrais tradies martimas, cujas embarcaes escalavam os portos andaluzes e a bacia mediterrnica, mercadejando os frutos da terra e do mar. Gente da borda dgua, de amplos horizontes, pacfica e obreira, que se fez destemida e valorosa na conquista e posterior defesa das praas de frica. Terra de mareantes, mas tambm de nobres e de mercadores. Estabeleceu desde tempos imemoriais os seus alicerces na zona oriental do Algarve, designada no cdigo emprico das gentes martimas por Sotavento, devido serenidade das suas guas e raridade de ventos. Apresenta-se margeando o rio Gilo, que a divide mas no separa, merc da sua velha ponte estacada durante a ocupao romana. O alongamento da cidade na bordadura do rio, virando as suas janelas e sacadas para o espelho das cristalinas guas umas vezes humildes e calmas outras furiosas em transbordante caudal confere- lhe um semblante veneziano de inigualvel beleza no contexto arquitectnico do Algarve. A sua teia urbanstica, de singular urdidura, conserva os traos dum passado longnquo, no s visvel no seu riqussimo patrimnio histrico em que se destaca almedina mourisca com o seu castelo convertido ao modelo cristo como tambm identificlvel no valioso acervo da sua arquitectura religiosa, cuja profuso valeu vetusta cidade o epteto de Roma do Algarve. Em todo o caso, o que mais distingue e acentua a invulgar mole arquitectnica que envolve o casco histrico da urbe tavirense, claramente a protuberncia piramidal dos seus telhados de tesouro, cujas influncias orientais dos pagodes chineses so por demais evidentes. O mesmo acontece com as suas to peculiares portas de reixa, moldadas num imbricado figurino de ascendncia mourisca. As suas lendas e tradies etnogrficas evidenciam um povo de f e de arreigadas crenas, com um carcter sensvel e emocional, embasado nos princpios ticos da honra e da lealdade, consolidado ao longo dos tempos em fortes convices socioculturais. Nos frteis campos da luzidia Tavira assentaram alicerces as rudes silharias daquela a que poderamos chamar a genuna nobreza algarvia. No foram, certamente, equiparveis aos mui nobres e granticos solares da Ribeira Lima, mas antes humildes casas rurais do nosso vetusto e desditoso senhorialismo agrrio. Refiro-me, s famlias que se nobilitaram neste estremenho cho ptrio pelo seu valor militar ou pela sua honrada participao na administrao pblica. Merecem, entre outras, particular distino as famlias tavirenses que usaram os apelidos Baio, Corte- Real, Franca, Horta, Lemos Faria, Lobo, Moniz, Neto, Pimentel, Simes e Zagalo, pois que delas descendem os mais impolutos pergaminhos nobilirquicos do Algarve. O Algarve, e muito particularmente a cidade de Tavira, tiveram ao longo da nossa histria um papel supostamente pouco relevante. Abstraindo-nos da epopeia dos Descobrimentos e da figura tutelar do Infante D. Henrique mtico obreiro no processo de pr-globalizao da economia- mundo praticamente o Algarve passa inclume e incuo no tablado da Histria. As nicas excepes tero ocorrido, em meu entender, durante o consulado reformista do Marqus de Pombal e na fugaz, mas decisiva, participao no processo de implantao do Liberalismo em Portugal. Em ambos os casos, julgo que a posio geo-estratgica do Algarve, e a importncia castrense da cidade de Tavira, tero pesado decisivamente na ateno militar e no interesse poltico do centro. No presente momento referir- me-ei unicamente importncia que teve a administrao pombalina no processo de desenvolvimento socioeconmico do Algarve, com particular nfase no apoio criao da Fbrica de Tapearias de Tavira.
  • 3. 110 ALGUMAS DAS PRINCIPAIS INICIATIVAS DO POMBALISMO NO ALGARVE No tenho dvidas em afirmar que Sebastio Jos de Carvalho e Melo, vulgo o Marqus de Pombal ttulo nobilirquico que o consagrou no palco da Histria e no imaginrio popular como um indomvel autocrata s despertou a ateno da ribalta poltica e a admirao da Coroa a partir do memorvel cataclismo do 1. de Novembro de 1755, fatdica jornada de morte e destruio que abalou os alicerces do pas. O Algarve foi varrido por sucessivas ondas ssmicas que produziram um efeito devastador em todas as aldeias, vilas e cidades, arrasando casas, igrejas, castelos e fortalezas, como se uma impiedosa e cruciante rasoira talhasse cerce as testemunhais protuberncias da vida social, militar e religiosa de um povo com sculos de gloriosa existncia.1 As cidades de Lagos e Silves, assim como as vilas de Portimo e Lagoa foram as mais atingidas pelo megassismo.2 Lagos ficou praticamente por terra, demorando cerca de um sculo a levantar as vetustas estruturas do seu histrico casco urbano.3 O palcio dos Governadores do Algarve ficou de p, mas a cidade nunca mais voltaria a ser considerada o centro poltico militar da regio.4 A cidade de Tavira ficou ligeiramente debilitada nas freguesias urbanas de Santiago e St. Maria, mas esteve longe de sofrer os estragos materiais e a perda de vidas humanas que se chegou a temer e at a propalar.5 Nas Memrias Paroquiais redigidas pelos procos de todo o pas em resposta ao inqurito de 1758 emanado pelo governo pombalino consta que a cidade de Tavira foi das menos flageladas do Algarve, registando-se apenas danos considerveis no Convento de S. Francisco.6 A forma decidida, corajosa e esforada como Carvalho e Melo, ento Secretrio de Estado dos Negcios Estrangeiros e da Guerra, enfrentou a calamitosa situao, valeu- lhe em 1759 o ttulo de Conde de Oeiras e a nomeao para a pasta do Ministrio do Reino, equivalente posio actual de Primeiro Ministro. Iniciava-se, a partir daqui, a chamada administrao pombalina, uma espcie de consulado poltico, marcado por um forte centralismo e por uma inquestionvel autoridade do poder rgio. A carta do ttulo de Marqus de Pombal s lhe foi concedida em 16-9- 1769, certamente em recompensa pela sua dedicao ao fortalecimento do aparelho de Estado. Nessa altura estava na forja a reforma do ensino, desde o sector primrio ao universitrio, reconhecendo-se hoje que o sucesso da poltica educativa pombalina colocou o nosso pas no topo da Europa civilizada.7 Ignorando, aqui, todas as crticas que se possam antepor ao autocracismo pombalino, o certo que nunca antes o pas havia experimentado to intenso e efectivo caudal legislativo, reformulador, regenerativo e revivificador da vida econmica, social, educativa e cultural.8 No caso do Algarve pode dizer-se que a acessibilidade da sua costa martima e a riqueza dos seus recursos naturais foram alvo da ateno governativa, que atravs de diversas aces polticas, estribadas em diplomas rgios e consolidadas por incentivos fiscais ou apoios financeiros, surtiram efectivo sucesso e deram inquestionveis frutos de carcter econmico. De entre essa cuidada aco poltico-administrativa comeamos por realar o combate criminalidade, reprimindo os roubos e outras violncias de forma rpida e exemplar em toda a regio a sul do Tejo.9 O reforo da autoridade do Estado viabilizava a segurana dos cidados, proporcionando um ambiente de estabilidade social, condio indispensvel ao desenvolvimento das actividades econmicas. Seguiu-se a defesa militar, mandando o governo proceder inspeco das fortalezas e ao levantamento das suas insuficincias, quer de equipamento blico, quer de recursos humanos. Encarregou-se dessa misso o Marqus de Tancos que veio defender o litoral algarvio das incurses mouriscas, cujas for
  • 4. 111 talezas estavam arruinadas por efeito do terramoto.10 A criao de cinco Companhias de Drages, com trinta cavalos cada, um pequeno exemplo da poltica de defesa do Algarve.11 No mbito da poltica fiscal reprimiu o contrabando e reorganizou os servios aduaneiros, nomeando para o efeito um Superintendente Geral das Alfndegas do Algarve.12 Extinguiu os juzes leigos das alfndegas de Faro, Lagos e Portimo, por incorrigveis prticas de absurdos substituindo- os pelos Juzes de Fora.13 Para abastecer o mercado cerealfero suprimiu de direitos alfandegrios o trigo, farinha, centeio, milho, aveia, legumes e todos os outros semelhantes gros nos portos do Algarve.14 Em contrapartida isentavam-se de quaisquer direitos alfandegrios as embarcaes portuguesas que exportarem sal ou quaisquer outros produtos do Reino [do Algarve] para Espanha e seus Domnios.15 O sal, essa espcie e ouro branco do Algarve, foi um alvo privilegiado das atenes pombalinas, atravs da reactivao das velhas salinas e da construo de novas marinhas, cujo aforamento aos salineiros privados se tornou obrigatrio para todas as pores dos Sapais de Tavira que eram os de melhor qualidade na regio. Na verdade o sal, por fora das determinaes inscritas no Foral, tornara-se num monoplio da coroa administrado pela Alcaidaria Mor de Tavira, cujo preo, a exarado, ficou, com o desenrolar dos tempos, desajustado da realidade, o que contribuiu para a desactivao da actividade extractiva e total decadncia das Marinhas de sal da cidade de Tavira. Os cerca de 1360 talhos existentes nos sapais, mais os 96 talhos que se achavam defronte da ermida de Santa Ana, constantes do Regimento do Sal de 25-2-1532, cuja produo abastecia as armaes de pesca e as praas militares do norte de frica, estavam, em 1769, to arruina

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