a temática do holocausto no ensino de literatura ...· um poema de vinícius de moraes ... se um

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    A temtica do holocausto no ensino de literatura brasileira:

    um poema de Vincius de Moraes e uma tela de Lasar Segall*

    Kenia Maria de Almeida Pereira**

    * Parte deste artigo foi tema de palestra proferida na II Jornada Interdisciplinar para o ensino do Holocausto, USP - So Paulo - em agosto de 2006. Disponvel em: e tambm na revista Athos Ethos, Patrocnio-MG, v. 2, p. 11-348, 2002.** Universidade Federal de Uberlndia (UFU).

    Resumo: Este artigo tem como objetivo principal apontar alguns caminhos para a discusso do Holocausto (Sho) nas aulas do Ensino Mdio, propondo, por meio da literatura comparada e de importantes tericos sobre o tema, um estudo da poesia de Vincius de Moraes em interface com a arte de Lasar Segall. PalavRas-Chave: Literatura Brasileira; Holocausto; Poesia; Pintura.

    abstRaCt: This paper aims mainly to point some ways to discuss the Holocaust (Shoah) in senior high school classes, proposing, by means of the Comparative Literature and of important theoreticians on the subject, a study of Vinicius de Moraes poetry in interface with Lasar Segalls art.KeywoRds: Brazilian literature; Holocaust; Poetry; Painting.

    Se ministrar literatura brasileira no Ensino Mdio uma tarefa desafiadora, tambm no deixa de ser um instigante exerccio de criatividade, de anlise cultural e de postura poltica para o professor no mundo contempo-rneo. Alis, estes trs elementos se mesclam muito bem quando o assunto a ser discutido em sala de aula a tem-tica da Sho, ou do Holocausto. Tratar deste tema com-plexo e espinhoso talvez seja um dos momentos polticos mais intensos que tanto os alunos da licenciatura como os professores podero enfrentar no exerccio do magis-trio. Theodor Adorno j chamava a ateno para este fato em seu belo texto intitulado Educao aps Aus-

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    chwitz. Para este filsofo, ensinar um estado de crtica permanente e a exigncia que Auschwitz no se repita a primeira de todas para a educao. (ADORNO, 2006, p. 119). J Primo Levi, adverte que se deve, sempre que possvel, falar para o jovem sobre o Holocausto, muito embora os adolescentes de hoje, em sua grande maioria, sejam cticos e desconfiados quanto a temas histricos mais complexos. No entanto, afirma Levi, na medida do possvel, deve-se trazer o assunto baila, uma vez que a Sho aconteceu

    [...] contra toda previso, aconteceu na Europa; incri-velmente aconteceu que um povo civilizado, recm-sa-do do intenso florescimento cultural de Weimar, seguis-se um histrio cuja figura, hoje, leva ao riso; no entanto, Adolf Hitler foi obedecido e incensado at catstrofe. Aconteceu, logo pode acontecer de novo; este o ponto principal de tudo quanto temos a dizer. (LEVI, 1990, pp. 123-124).

    Tal qual Primo Levi, a professora Maria Luiza Tucci Carneiro em seu livro Holocausto: Crime contra a Humani-dade (2002), tambm aponta para o fato de que o estudo do tema do Holocausto desempenha um importante papel de conscientizao, pois alerta a humanidade a no incor-rer nos erros do passado. J para o filsofo Zygmunt Bau-man, apoiado em Raul Hilberg, comenta que urgente trazer para o debate escolar a questo do Holocausto, j que muito perturbador pensar que

    [...] os criminosos foram pessoas educadas de sua poca. Esta a questo crucial sempre que indagamos o sig-nificado da Civilizao Ocidental depois de Auschwitz. Nossa evoluo foi alm da nossa compreenso; j no podemos fingir que temos pleno alcance de nossas ins-tituies sociais, estruturas burocrticas e tecnologia. (BAUMAN, 1998, p. 106).

    J para Mrcio Seligmann-Silva, o estudo da Sho

    no Brasil ainda um tema restrito a um pequeno grupo de pesquisadores, no entanto, tal fenmeno necessita ser mais estudado e compreendido uma vez que a Sho foi

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    um acontecimento terrvel, uma fora devastadora, que chegou mesmo a transformar a

    [...] literatura tradicional, a filosofia e a nossa viso mesma do homem moderno ocidental. Vimos que este continua sendo capaz de praticar genocdios desta mag-nitude e o progresso tecnolgico no implica progresso moral. O holocausto exige mais do que nunca a litera-tura para podermos enfrentar a realidade da violncia. (SELIGMANN-SILVA, 2010, p. 12).

    Assim, tendo por suporte terico estes importan-tes estudiosos do Holocausto, bem como a necessidade do educador de levar tal tema para a sala de aula, que elaboramos com os alunos do Estgio Supervisionado em Literatura, da Universidade Federal de Uberlndia (MG), um projeto no qual trabalhamos alguns textos da literatura brasileira, cuja temtica est relacionada com a Sho. H mais de dez anos, desenvolvemos um projeto de pesquisa com alunos de iniciao cientfica e do curso de mestrado, cujo assunto gira em torno da poesia e do Holocausto na literatura brasileira. Algumas dissertaes j foram defendidas sobre este tema e tambm alguns tex-tos j foram publicados pelos alunos da iniciao, bem como artigos e livros lanados por mim sobre esta temti-ca, alm de palestras ministradas para educadores das es-colas municipais e na Universidade de So Paulo (USP), durante as Jornadas Interdisciplinares para o ensino do Holocausto, sob a superviso da professora Maria Luiza Tucci Carneiro. A boa procura de alunos e pesquisado-res sobre o tema permitiu-nos que, em 2012, crissemos tambm o LEJ (Laboratrio dos Estudos Judaicos) o qual est devidamente registrado no diretrio dos grupos de pesquisa do CNPq.

    Resolvemos, assim, dar continuidade a este projeto, levando para os alunos do curso de graduao em Letras, futuros educadores do ensino fundamental e mdio, pro-postas para enfrentarmos este tema de forma ao mesmo tempo poltica e criativa, provocando o prazer esttico e problematizando as questes sociais e filosficas embuti-das nos textos propostos por ns. Lembremos aqui Paulo Franchetti (2009, p. 5), o qual afirma que a mais profunda

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    fruio do texto literrio pressupe um exerccio amplo da cultura, naquilo que ela tem de relao com o passa-do, de continuidade, de ponte a transcender os limites do tempo e as formas da sensibilidade do presente.

    Alis, trabalhar com o tema do assassinato em massa de milhes de judeus, alm de polmico e rduo, tambm uma forma de conscientizao, pois um aler-ta, como apontamos antes, uma tentativa de discutirmos com os jovens sobre erros do passado. Da a importncia de falar sobre o tema sempre que possvel, uma vez que a Sho foi um fenmeno to imprevisto e to complexo, em que jamais tantas vidas humanas foram eliminadas num tempo to breve, e com uma to lcida combinao de engenho tecnolgico, de fanatismo e de crueldade. (LEVI, 1990, p. 7).

    Outro fato que muito nos preocupa durante nossos estudos sobre as temticas do judasmo e do Holocausto a questo relacionada aos inmeros blogs antissemitas, racistas e homofbicos que circulam hoje livremente pela internet. Segundo o site Pragmatismo Poltico:

    O crescimento do nmero de simpatizantes neonazistas tem se tornado uma tendncia internacional. o que aponta um monitoramento da internet realizado pela antroploga e pesquisadora da Unicamp, Adriana Dias. De 2002 a 2009, o nmero de sites que veiculam infor-maes de interesse neonazistas subiu 170%, saltando de 7.600 para 20.502. No mesmo perodo, os coment-rios em fruns sobre o tema cresceram 42.585%.1

    Blogs, sites e redes sociais que so acessados todos os dias, por muitos dos adolescentes que cursam hoje o ensino mdio e a universidade, ou seja, alunos que convi-vem conosco no dia a dia da sala de aula. Torna-se, por-tanto, urgente que o tema do Holocausto venha para o centro do debate, se possvel, em algumas aulas de litera-tura, em interface ou em dilogo interdisciplinar, sempre que possvel, com professores de histria, geografia, filo-sofia e sociologia. E quando a questo o direito litera-tura e o respeito dignidade humana, lembramos sempre de Antonio Candido, que nos recorda que:

    1 Disponvel em: . Acesso em: 08 jul. 2013.

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    [...] nas nossas sociedades a literatura tem sido um ins-trumento poderoso de instruo e educao, entrando nos currculos, sendo proposta a cada um como equipa-mento intelectual e afetivo. Os valores que a sociedade preconiza, ou os que consideram prejudiciais, esto pre-sentes nas diversas manifestaes da fico, da poesia e da ao dramtica. A literatura confirma e nega, prope e denuncia, apoia e combate, fornecendo a possibilidade de vivermos dialeticamente os problemas. (CANDIDO, 1995, p. 243).

    Assim, neste intercurso literrio entre a esttica e a poltica, entre a cultura e o passado, entre o afetivo e o educativo, entre o complexo e o humanizador, que propomos uma anlise do poema de Vincius de Moraes, intitulado A balada dos mortos do campo de concentrao, em dilogo com a pintura Campo de Concentrao, 1945, do pintor Lasar Segall.

    Em primeiro lugar, propomos uma leitura inicial do poema:

    A balada dos mortos do campo de concentrao Vincius de Moraes Cadveres de Nordhausen Erla, Belsen e Buchenwald! Ocos, flcidos cadveres Como espantalhos, largados Na sementeira espectral Dos ermos campos estreis De Buchenwald e Dachau. Cadveres necrosados Amontoados no cho Esqulidos enlaados Em beijos estupefatos Como ascetas siderados Em presena da viso. Cadveres putrefatos Os magros braos em cruz Em vossas faces hediondas H sorrisos de giocondas E em vossos corpos, a luz Que da treva cria a aurora. Cadveres fluorescentes Desenraizados do p

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    Que emoo no d-me o ver-vos Em vosso xtase sem nervos Em vossa prece to-s Grandes, gticos cadveres! Ah, doces mortos atnitos Quebrados a torniquete Vossas louras manicuras Arrancaram-vos as unhas No requinte de tor