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<ul><li><p>7/26/2019 Teoria geral do Direito Civil.pdf</p><p> 1/112</p><p>Teoria Geral do Direito Civil I Ins Catarina Pedreiro Gomes Prof. Dr. Pinto Monteiro </p><p>Resumos do Livro do Dr. Mota Pinto</p><p>1</p><p>I</p><p>Teoria geral do Direito Civil</p><p>Introduo</p><p>1. mbito da TG do Direito Civil</p><p>- Caracterizar figuras, equacionar problemas e formular solues respeitantes a todo odomnio do Direito Civil, rectius, uma temtica comum generalidade das normas dodireito civil ou generalidade das relaes jurdico-civis (e at, mais latamente,</p><p>jurdico-privadas).</p><p>2. O problema da Parte Geral do Cdigo Civil e da existncia de uma disciplina deTeoria Geral</p><p>- A autonomizao de uma disciplina de Teoria Geral simultaneamente um problemacientfico e um problema didctico e coenvolve o de saber se se justifica autonomizaruma Parte Geral, quer pela doutrina, quer pelo legislador; mas pode-se autonomizar umaParte Geral antes, ou independentemente, da sua consagrao legislativa.</p><p>- A consagrao da Parte Geral no BGB (Brgerliches Gesetzbuch) Cdigo Civilalemo tal como ns, no Cdigo Civil, consequncia da adeso ao modelo</p><p>pandectstico. Esta parte o produto mais tpico da cincia jurdica alem e arrastaconsigo a imagem de marca da doutrina pandectstica do sculo XIX (tarefa de dar</p><p>ordem sistemtica ao Digesto de Justiniano, dividido em 50 livros). O Cdigo Civil de1966, remata o processo de aceitao, pela generalidade da doutrina nacional, dosistema das Pandectas.</p><p>- O Cdigo Civil de 1966, rompendo com o sistema do Cdigo anterior, adoptou asistematizao germnica, que inclui a Parte Geral. No regulamento resultante daComisso de reviso do Cdigo Civil ficou logo assente que no projecto se adoptaria ocritrio hoje generalizado de dividir o direito civil em cinco partes. Manuel de Andradeque elaborou o anteprojecto da Parte Geral afirma a existncia de um fundo comum</p><p>bastante aprecivel.</p><p>- A Parte Geral tem a pretenso de concentrar os princpios comuns a todo o DireitoCivil, nela se incluindo os elementos ou denominadores comuns das partes especiais isto facilita o conhecimento e compreenso da lei, importante para a sua aplicao</p><p>prtica.</p><p>3. Contedo da Teoria Geral do Direito Civil. Plano do Curso</p><p>1. Impe-se naturalmente o conhecimento das fontes actuais do Direito Civil Portugus.Entende-se por fontes de direito civil no tanto os modos de surgimento da regra</p><p>jurdico-civil (no um problema especfico do Direito Civil), mas as prprias sedes</p></li><li><p>7/26/2019 Teoria geral do Direito Civil.pdf</p><p> 2/112</p><p>Teoria Geral do Direito Civil I Ins Catarina Pedreiro Gomes Prof. Dr. Pinto Monteiro </p><p>Resumos do Livro do Dr. Mota Pinto</p><p>2</p><p>onde se localiza o direito civil j nascido. Considera-se os diplomas fundamentais dosistema de Direito Civil portugus</p><p>2. Princpios bsicos que formam a arquitectura do nosso actual sistema de DireitoCivil: para elucidar sobre o contedo material dos mais importantes domnios do ramo</p><p>jurdico.</p><p>3. Teoria geral da relao jurdico-civil: os elementos (os sujeitos, o objecto, o factojurdico e a garantia) que, embora no estando no ncleo ou cerne da relao, sonecessrios para a sua existncia. Veremos, assim, a teoria geral dos sujeitos, a teoriageral do objecto, teoria geral do facto jurdico e a garantia da relao jurdico-civil.</p><p>4. Diviso da Teoria Geral do Direito Civil: Teoria Geral do Ordenamento JurdicoCivil e Teoria Geral da Relao Jurdica Civil</p><p>- Palavra direito em sentido objectivo = conjunto dos princpios regulamentadores, deregras de conduta, de normas de disciplina social; corresponde expresso inglesa thelaw.</p><p>- Palavra direito em sentido subjectivo = poder ou faculdade; corresponde expressoinglesa the right.</p><p>- A teoria geral da norma jurdica civil a teoria geral do direito objectivo e a teoriageral da relao jurdica a teoria geral do direito subjectivo (estudo da estrutura eelementos deste), pois o lado activo das relaes jurdicas integrado pelo direito</p><p>subjectivo em sentido amplo (direitos subjectivos propriamente ditos e direitospotestativos) trata-se da considerao de duas categorias fundamentais doconhecimento do Direito: a norma jurdica e a relao jurdica.</p><p>II - A norma ou regra jurdica uma dimenso fundamental do Direito: um veculoimprescindvel da realizao dos valores jurdicos.</p><p>- O direito visa, na sua funo de meio de disciplina social, realizar determinadosvalores, fundamentalmente a certeza dessa disciplina e a segurana da vida dos homens,</p><p>por um lado, e a rectido ou razoabilidade das solues, por outro, abrangendo a</p><p>justia, a utilidade, a oportunidade e a exequibilidade prtica. Estes valores reclamam amxima objectividade na aplicao do direito, pela existncia de um dado normativoobjectivo (um pensamento-pensado), que possa garantir a calculabilidade do direito ea mxima garantia possvel contra decises jurdicas imprevistas. H-de ser o ponto de</p><p>partida do juiz na sua valorao da situao concreta e o limite de legalidade da soluoque ele encontrou. Assim, a existncia de um direito recto (justo e oportuno) e certoimplica, pois, a sua formalizao normativa, a formulao de prescries gerais. Aactividade do juiz valorativa, mas deve necessariamente compatibilizar-se nos seusresultados com os dados verbais, sistemtico-formais e sistemtico-materais do</p></li><li><p>7/26/2019 Teoria geral do Direito Civil.pdf</p><p> 3/112</p><p>Teoria Geral do Direito Civil I Ins Catarina Pedreiro Gomes Prof. Dr. Pinto Monteiro </p><p>Resumos do Livro do Dr. Mota Pinto</p><p>3</p><p>ordenamento legal ( uma exigncia do princpio da legalidade e do fundamentodemocrtico da actividade legiferante).</p><p>- A exigncia de formalizao normativa no significa que o direito objectivo se esgotenecessariamente apenas em normas ou regras, de hiptese e estatuio perfeitamente</p><p>delimitadas. Ao lado destas, tem-se chamado a ateno para a necessidade dereconhecer uma outra dimenso: a dos princpios jurdicos, que so igualmente direitovigente: enunciam intenes de regulamentao, explicitam fundamentos das valoraessubjacentes s normas ou regras e indicam o sentido geral de resoluo de problemasnormativos; admitem, quando confrontados com princpios opostos, uma combinaocom eles, no sendo to rgidos como os critrios normativos.</p><p>III A noo de relao jurdica est na base da sistematizao do nosso actual DireitoCivil: Parte Geral (engloba os temas relativos aos elementos comuns s outras quatro</p><p>partes), Direito das Obrigaes, Direito das Coisas, Direito da Famlia, Direito dasSucesses (direito aplicvel a quatro espcies ou modalidades diversas de relaesjurdicas). Esta sistematizao conhecida por sistematizao germnica ou plano deSavigny.</p><p>O Direito no regula o homem isolado, mas o homem no seu comportamentoconvivente. Pressupe sempre a vida dos homens com os outros e visa disciplinar osinteresses contrapostos nesse cruzar de actividades e interesses, disciplina que conseguida dando supremacia a um interesse e subordinando outro. Por fora dessadisciplina criam-se, portanto, enlaces, nexos, liames entre os homens, nos termos dos</p><p>quais a uns so reconhecidos poderes e a outros impostas vinculaes precisamenteessa relao entre os homens, traduzida em poderes e vinculaes, constitui a relao</p><p>jurdica. A situao da pessoa releva juridicamente apenas quando ela est em relaocom os outros: como relao jurdica. O direito supe a sociedade e esta no umacontiguidade esttica, mas uma convivncia.</p><p>Vrias vozes tm formulado contra a noo de relao jurdica como base do DireitoCivil, um veredicto anti-humanista, submergindo a pessoa humana na noo formal eabstracta de sujeito da relao jurdica. Mas esta crtica no pretende negar a</p><p>possibilidade de, num sistema como o sistema germnico, se realizar uma eficaz tutelada personalidade e do seu crculo de direitos essenciais na verdade, desde logo, oactual Cdigo Civil portugus disciplina os direitos de personalidade com mais largueza(arts. 70. e ss. Do CC) do que fazia o Cdigo portugus de 1867. Pretende a colocaona penumbra da pessoa como nica realidade primria para o Direito, assentando assimo sistema na relao jurdica, numa estrutura formal e isto no nos deve fazer olvidaros interesses que subjazem s formas jurdicas, o principal escopo do Direito Civil: atutela da personalidade do indivduo humano.</p><p>Outra crtica: uma teoria geral visa formular princpios vlidos para todos os tipos de</p><p>relaes jurdico-privadas; ora, designadamente na teoria do negcio jurdico (a mais</p></li><li><p>7/26/2019 Teoria geral do Direito Civil.pdf</p><p> 4/112</p><p>Teoria Geral do Direito Civil I Ins Catarina Pedreiro Gomes Prof. Dr. Pinto Monteiro </p><p>Resumos do Livro do Dr. Mota Pinto</p><p>4</p><p>importante espcie de factos jurdicos), poucos princpios so vlidos para todos osdomnios do Direito Civil (nomeadamente no caso dos negcios pessoais e os dirigidosa efectivar uma sucesso por morte actos mortis causa).</p><p>Devemos tomar como um conceito jurdico fundamental e basilar da nossa dogmtica,maximecivilstica, por uma razo de ndole terica (baseada na alteridade o Direitovisa regular a vida de relao, distribuies de recursos e conflitos entre as pessoas - ouintersubjectividade do direito) e uma razo de direito positivo (o nosso actual CdigoCivil baseia a sua parte geral no esquema da relao jurdica: o Ttulo II da Parte Geralest estruturado de acordo com os elementos da relao jurdica: Pessoas; Coisas;Factos Jurdicos; Exerccio e tutela dos direitos).</p><p>Toda a situao relacional (ou s interessa ao Direito como tal) e toda a relaoenvolve uma posio do sujeito em causa. Situao (posio) e relatioso, assim, para o</p><p>Direito, indissociveis, sendo que a realidade social s releva juridicamente, pormenquanto relao.</p><p>5. O Direito Civil como parte do Direito Privado</p><p>Importa determinar o domnio prprio do Direito Civil, delimitando-o dos outros ramosdo direito.</p><p>O Direito Civil Direito Privado, constitui o Direito Privado Geral.</p><p>Segundo uma clssica distino, o direito divide-se em dois grandes ramos: direito</p><p>pblico e direito privado.</p><p>6. Direito Pblico e Direito Privado</p><p>1 Um critrio divulgado o que delimita o direito pblico e o direito privado segundoa chamada teoria dos interesses (Ulpiano):</p><p>Direito Pblico quando o fim da norma for a tutela de um interesse pblico, id est, deum interesse da colectividade;</p><p>Direito Privado quando a norma visa tutelar ou satisfazer interesses individuais, isto ,interesses dos particulares como tal.</p><p>Crticas: a) todo o direito (pblico e privado) visa proteger simultaneamente interessespblicos e interesses particulares.</p><p>As normas de direito privado no se dirigem apenas realizao de interesses dosparticulares, tendo em vista frequentemente, tambm, interesses pblicos (v.g, normaque sujeita as vendas de imveis a escritura pblica como requisito da validade do acto,art. 875. CC): um regime que permite ter em qualquer momento a certeza sobre se oacto se realizou ou no, bem como as condies em que se realizou; da que sesubmetam essas alienaes ao requisito formal representado pela escritura pblica, sob</p></li><li><p>7/26/2019 Teoria geral do Direito Civil.pdf</p><p> 5/112</p><p>Teoria Geral do Direito Civil I Ins Catarina Pedreiro Gomes Prof. Dr. Pinto Monteiro </p><p>Resumos do Livro do Dr. Mota Pinto</p><p>5</p><p>pena de nulidade do acto, evitando o risco de dvida ou surpresa que existiria se o actopudesse ser verbal. O mesmo se passa com as restantes normas que exigem requisitos deforma para determinados actos, ou que tornam dependente de registo a eficcia dosactos jurdicos relativamente a terceiros. Pense-se igualmente nas normas de direito da</p><p>famlia (casamento; filiao) ou das normas disciplinadoras do arrendamento; ou aindaas normas reguladoras dos poderes do proprietrio ou da liberdade de modelao docontedo dos contratos, ligados a interesses pblicos importantes.</p><p>As normas de direito pblico, por sua vez, para alm do interesse pblico visado,pretendem, tambm, dar adequada tutela a interesses dos particulares (v.g, normas quedefinem as condies de promoo dos funcionrios pblicos, ou de acesso funo</p><p>pblica, que alm do interesse pblico do eficaz funcionamento dos servios, tem emvista uma proteco justa dos legtimos interesses das pessoas singulares a que sedirigem e de tal modo assim que estas podem dirigir-se jurisdio administrativa</p><p>(tribunais administrativos) para obter a reintegrao do seu interesse, quando o entenderlesado por violao das referidas normas).</p><p>Acresce que todas as normas, por cima dos interesses especficos e determinados quevisam, miram um fundamental interesse pblico: o da realizao do Direito, dasegurana e rectido.</p><p>b) O critrio apresentando poder ser aceite por exprimir uma nota tendencial: o direitopblico tutela predominantemente (no exclusivamente) interesses da colectividade e odireito privado protege predominantemente (no exclusivamente) interesses dos</p><p>particulares.</p><p>Ainda assim, no poder ser aceite, pois: a) No pode saber-se, em muitos casos, qual ointeresse predominante (resultando incerteza e dvidas insuperveis); b) H normasque, dado o lugar da sua insero no sistema jurdico e dada a tradio e odesenvolvimento histrico do direito, so pacificamente classificadas como de direito</p><p>privado e, todavia visam predominantemente interesses pblicos ( o que acontece coma maioria das normas imperativas (de ius cogens). Tais normas no podem ser</p><p>postergadas por clusulas dos particulares em contrrio, porque esto ao servio de</p><p>interesses pblicos suficientemente importantes para prevalecerem o que sucedecom as normas que exigem um certo formalismo para os negcios jurdicos (875.,947., 1029.), com as normas que estabelecem os efeitos pessoais do casamento(arts. 1671. e ss.): parece claro que tais normas visam predominantemente interesses</p><p>pblicos.</p><p>II Poderia pensar-se em recorrer ao critrio, segundo o qual o direito pblico disciplinarelaes que esto numa posio de supremacia e subordinao ou de supra-ordenao einfra-ordenao, enquanto o direito privado regularia relaes entre entidades numa</p><p>posio relativa de igualdade ou equivalncia.</p></li><li><p>7/26/2019 Teoria geral do Direito Civil.pdf</p><p> 6/112</p><p>Teoria Geral do Direito Civil I Ins Catarina Pedreiro Gomes Prof. Dr. Pinto Monteiro </p><p>Resumos do Livro do Dr. Mota Pinto</p><p>6</p><p>Sucede, porm, que o critrio no , tambm, adequado, pois:</p><p>a) O direito pblico regula, por vezes, relaes entre entidades numa relao deequivalncia ou igualdade, como acontece com as relaes entre autarquiaslocais (municpios e freguesias);</p><p>b) O direito privado disciplina, tambm, algumas vezes, situaes onde existemposies relativas de supra-ordenao e infra-ordenao, como acontece com opoder paternal (cfr. Arts. 1878., 1881., 1882., 1887.), ou a tutela (cfr. Arts.1927. e 1935. e ss.), com as relaes entre associaes e sociedades e os seusmembros, ou com a relao laboral (emergente do contrato de trabalho).</p><p>Pode apenas dizer-se que a equivalncia ou posio de igualdade dos sujeitos dasrelaes jurdicas normalmente caracterstica da relao disciplinada pelo direito</p><p>privado e a supremacia e subordinao caracterstica normal da relao de direitopblico.</p><p>III O critrio mais adequado e que hoje rene a maioria dos sufrgios pode serdesignado por teoria dos sujeitos, em virtude de assentar na qualidade dos sujeitosdas relaes jurdicas, na posio em que intervm os sujeitos.</p><p>Segundo este critrio, o direito privado regula as relaes jurdicas estabelecidasentr...</p></li></ul>