sobre a refutação do idealismo

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Texto de G. Moore.

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PUC - SPDaniel Costa SimesTeoria do conhecimento: Psicologismo e anti-psicologismo. Anlise do texto de G. E. Moore: The refutation of idealism.So Paulo2015 Para analisar o texto de Moore, deve-se primeiramente explicitar o que o autor entende por Idealismo, pois s assim ser possvel compreender quais foram suas motivaes em escrever o artigo. Para isso, tambm indispensvel entender o contexto histrico no qual o autor est inserido, uma correta interpretao do texto depende, entre outras coisas, de explicitar devidamente esse contexto. Somente definir o conceito de Idealismo no ser suficiente, mas deve-se tambm apresentar de qual maneira Moore procura fazer a refutao no decorrer do artigo. A partir do entendimento de idealismo e da maneira qual pretende refutar, pode-se fazer uma leitura adequada. Esta relao entre texto e contexto presente no trabalho filosfico, deve ser intrnseca: Na realidade, texto e contexto no constituem um agregado, mas uma estrutura, uma indissolvel unidade hermenutica. No entanto, a noo de contexto nos remete a histria, ao processo mesmo do devir. Contra toda aparncia provocada pela inrcia do pensar irreflexivo, a historicidade do contexto e sua integrao estrutural com o texto no se contradizem, seno que, pelo contrrio, se requerem de modo necessrio. (PORTA, 2014, p.77) Moore ir fazer sua crtica ao que chama de Idealismo Moderno. No contexto qual escreve o artigo de 1903, est fazendo referncia ao pensamento empirista/idealista ingls que surgiu para contrapor o anterior materialismo/mecanicismo ingls. Esse pensamento remete a um empirismo radical, sobretudo, ao bispo Berkeley (1685- 1753), que procurou por tal via, provar a existncia de Deus. O conceito de Idealismo pode ter diversas denotaes, portanto no se deve confundir com outra corrente do sculo XIX: o Idealismo alemo do perodo ps-kantiano. O empirismo ingls para Moore permite uma forma de idealismo, onde partindo do pensamento berkeleyano o mundo/ realidade seria unicamente espiritual, fruto da percepo. Dentro dessa perspectiva radical, o pensamento de Berkeley um Idealismo dogmtico, pois (...) considera o espao, com todas as coisas a que ele adere como condio imprescindvel, como algo em si mesmo impossvel declara por isso que as coisas do espao so simples imaginaes (KANT apud ABBAGNANO, 2012, P.607) Inicialmente, h duas importantes afirmaes desse idealismo moderno em que Moore foca a ateno da sua crtica: (1) a de que o universo muito diferente do que se parece e que (2) a de que possui um grande nmero de propriedades quais no parecem ter. Para ele, isso pressupe que o universo puramente espiritual, ou seja, para o idealista a realidade espiritual. Um primeiro ponto criticado pelo autor que ao afirmar o universo como espiritual, incluindo todos os objetos, no haveria ao homem/sujeito qualidades nicas, como por exemplo, a inteligncia. Assim, estaria de certo modo afirmando que existe conscincia por igual em tudo o mais no universo. A viso idealista de mundo acaba colocando certa equivalncia entre o sujeito e objeto, se contrapondo totalmente ao senso comum ou realista, e implicando diversas preposies necessrias ao idealista provar. Esse um dos servios da filosofia de Moore, refutar aquilo que se contrape ao senso comum. Essa sua motivao. Moore deixa claro que no pretende simplesmente dizer que o Idealismo falso, afirmando que a realidade no espiritual, pois para ele isso seria impossvel de provar. O idealismo se preocupa com questes muito profundas e complexas, diferentes das questes tcnicas, como no caso da fsica, por exemplo. Isso reconhecido, mas o que procura evidenciar o quo insustentvel e sem fundamento a tese idealista. Logo anunciado na maneira como pretende trabalhar o texto: If I can refute a single preposition wich is a necessary and essential step in all idealistic arguments, then, no matter how good the rest of these arguments may be, I shall have proved that Idealists have no reason whatever for their conclusion.(MOORE, 1903, p.435) Todo o artigo trabalhado a partir de uma proposio bsica e ambgua formulada por Berkeley: Esse es percipi. Ele considera que essa tese essencial ao pensamento idealista qual pretende criticar (que inclui tambm caractersticas do Sensacionalismo e do Agnosticismo), portanto, pretende mostrar a falsidade de tal preposio. Moore no se limitada a uma nica interpretao da tese berkeleyana, pode-se observar no decorrer do texto diferentes interpretaes para o entendimento de Esse es percipi. Essas interpretaes so divididas em 3 teses berkeleyanas(TB), onde mostrando cada uma delas Moore ir apresentar seus argumentos. Os prprios idealistas possuem essas interpretaes diferentes entre si, que podem ser demonstradas pela seguinte diviso: TB1 - A primeira tese entendida como Ser perceber. O que quer que seja, algo experienciado. H uma equivalncia direta onde Esse = percipi. Ao colocar a realidade da experincia como sinnimo da percepo, forma-se uma tese analtica de identidade. Realidade entendida como algo mental. TB2 - A segunda tese, inclusiva. Pode ser entendida como ser, tambm ser percebido. O mundo existe, aparte da nossa percepo, mas tambm presente nela. uma tese analtica parcial. Moore posteriormente vai apontar uma contradio dessa tese que identifica a parte como o todo. TB3 - A terceira tese para os idealistas uma verdade auto evidente. sinttica. Se o Idealista afirmar que a sua tese uma verdade auto evidente, no h como Moore refutar, mas apenas dizer que no acredita. TB3i - H ainda uma variao da terceira tese, onde afirma-se que s h objeto a partir de um sujeito que percebe. O objeto da experincia inconcebvel sem o sujeito. Tudo o que existe, portando, s existe dentro do perceber mental, fruto da experincia. No existe nada aparte da experincia, j que necessria uma relao de sujeito (percebe) e objeto (percebido). Em relao primeira tese, Moore sugere que a equivalncia de Esse e percipi apresentada por parte dos Idealistas um erro: I am suggesting that the Idealist maintains that object and subject are necessarily connected, mainly because he fails to see that they are distinct, that they are two, at all (MOORE, 1903, p.442). Essa confuso poderia ser explicada pela diferena entre uma cor e a sensao dessa cor, que para Moore, so coisas distintas. Ele tambm toma esse argumento para afirmar que a tese falsa por confundir sensao com ideia, colocando como equivalente e no diferenciando. Ainda no exemplo da sensao das cores, Moore introduz a noo de conscincia. A sensao de azul, certamente difere da sensao de amarelo, mas existe algo em comum entre as duas sensaes: o que chama de conscincia. Portanto, h conscincia e h objeto de conscincia, separadamente. A sensao entendida como conscincia algo constante, enquanto o objeto varivel. Moore acredita que os idealistas cometeram um erro lingustico ao confundir sensao e ideia, em tratar coisas diferentes usando um mesmo termo. Da mesma maneira, um juzo de existncia difere da existncia em si. Para Moore possvel ter juzos de existncia das coisas, mas isso no quer dizer que as coisas s existam a partir de uma conscincia/percepo delas, como no caso do Idealismo. Ele procura apontar que o azul existe independentemente da conscincia. Moore alega um erro autocontraditrio quando o idealista coloca azul e conscincia de azul como equivalentes, pois no podem ser a mesma coisa. Seguindo o pensamento de Moore, onde conscincia difere de objeto de conscincia, pode-se comear a falar em contedo. Ou seja, os objetos so tambm contedos (sensao/ ideia) da conscincia, e isso permite fazer uma distino. Contedo tomado como aspecto inseparvel de existncia, mas Moore pretende refutar isso ao exemplificar o que um contedo. Para clarificar a noo de contedo, toma-se o exemplo de uma flor azul. O azul contedo da flor azul, portanto a sensao de azul no pode ser equivalente sensao de flor azul. Faz-se referncia a uma qualidade desse algo que existe. Moore v novamente uma identificao auto-contraditria que pe equivalncia entre a existncia de azul e a de sensao de azul. O conceito de imagem mental, vem de uma noo de contedo, dando na ltima parte do texto a possibilidade de uma teoria representacional para a interpretao de Esse es percipi, onde entre sujeito e objeto existe uma imagem mental, uma representao. Essa teoria representacional tambm refutada por Moore. A maneira com que apresenta sua argumentao que pode-se ter conscincia de azul, sem implicar em uma teoria mental: To be aware of the sensation of blue is not to be aware of a mental image-of a thing, of wichblue and some other element are constituent parts in the same sense in wich blue and glass are constituents of a blue bead. It is to be aware of an awareness of blue; awareness being used, in both cases, in exactaly the same sense.(MOORE, 1903, p.449) Ao retomar detalhadamente seus argumentos contra o idealismo, Moore conclui que a nica forma razovel para admitir que a matria existe tanto quanto o esprito, a partir de um ceticismo absoluto. Idealismo e o agnosticismo possuem, segundo ele, fundamentos supersticiosos dada maneira insustentvel em que se apresentam.BibliografiaABBAGNANO, Nicola. Dicionrio de filosofia. So Paulo: Martins Fontes, 2012.MOORE, G.E. The refutation of idealism. Oxford: Oxford University Press, 1903.PORTA, Mario Ariel Gonzlez. A filosofia a partir de seus problemas: didtica e metodologia do estudo filosfico. So Paulo: Edies Loyola, 2014.