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SANTIAGO, Silviano. A democratização no Brasil (1979-1981): cultura versus arte. In: O cosmopolitismo do pobre: crítica literária e crítica cultural. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004. p. 134-156. “Suas idéias sobre o papel do artista na sociedade, sobre arte e engajamento, sobre a função política e erótica da obra de arte, sobre a produção e disseminação do conhecimento no espaço urbano escapam ao ramerrão do livro. E é por isso que, se não se sente patrulhado, sente que incomoda um número cada vez maior de pessoas, como na história do elefante. É o que constata: “o que mais incomoda [as pessoas] é a minha vontade de cotidianizar a política ou de politizar o cotidiano”. Como elemento mediador entre o cotidiano e a política, o fazer -- o próprio fazer artístico. Pelo seu produto é que o artista se exprime politicamente no cotidiano. Acrescenta ele: “me sinto ligado a tudo que acontece mas através do que eu faço”. Caetano está definindo, no dizer do Raymond Williams de The Long Revolution, ‘culture as a whole way of life’, apagando a conjunção E que ligava tradicionalmente cultura e sociedade” (SANTIAGO, 2004, p. 6). Referência ao capítulo “O minuto e o milênio ou Por favor, professor, uma década de cada vez”, do livro Anos 70: música popular, de José Miguel Wisnik (SANTIAGO, 2004, p. 9). Wisnik critica a má disposição de Adorno para com a música popular e afirma que, no caso da Alemanha, o desequilíbrio entre a produção de música popular e erudita, pendendo

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SANTIAGO, Silviano. A democratizao no Brasil (1979-1981): cultura versus arte. In: O cosmopolitismo do pobre: crtica literria e crtica cultural. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004. p. 134-156.

Suas idias sobre o papel do artista na sociedade, sobre arte e engajamento, sobre a funo poltica e ertica da obra de arte, sobre a produo e disseminao do conhecimento no espao urbano escapam ao ramerro do livro. E por isso que, se no se sente patrulhado, sente que incomoda um nmero cada vez maior de pessoas, como na histria do elefante. o que constata: o que mais incomoda [as pessoas] a minha vontade de cotidianizar a poltica ou de politizar o cotidiano. Como elemento mediador entre o cotidiano e a poltica, o fazer -- o prprio fazer artstico. Pelo seu produto que o artista se exprime politicamente no cotidiano. Acrescenta ele: me sinto ligado a tudo que acontece mas atravs do que eu fao. Caetano est definindo, no dizer do Raymond Williams de The Long Revolution, culture as a whole way of life, apagando a conjuno E que ligava tradicionalmente cultura e sociedade (SANTIAGO, 2004, p. 6).

Referncia ao captulo O minuto e o milnio ou Por favor, professor, uma dcada de cada vez, do livro Anos 70: msica popular, de Jos Miguel Wisnik (SANTIAGO, 2004, p. 9).

Wisnik critica a m disposio de Adorno para com a msica popular e afirma que, no caso da Alemanha, o desequilbrio entre a produo de msica popular e erudita, pendendo grandemente para o lado desta, justifica a rgida posio do autor. Em contrapartida, o Brasil no dispe, historicamente, de um sistema articulado de obras, compositores e ouvintes de msica erudita (conforme teorizou Antonio Candido em sua Formao da Literatura Brasileira), o que contribui ainda mais para o amplo predomnio da msica popular na cultura brasileira. Alm disso, a apreciao musical no Brasil e na Alemanha se opem substancialmente: enquanto Adorno atribui ao ouvinte um papel de contemplao da evoluo de estruturas e formas, no Brasil, a apreciao musical est predominantemente vinculada a prticas sociais e religiosas (WISNIK apud SANTIAGO, 2004, p. 9-11).

O caso do Brasil, com msica popular, especial; muito forte o mercado de msica popular, muito grande o interesse pelo que se faz... inclusive o status intelectual e poltico da criao de msica popular no Brasil. aberrante esta importncia: todo mundo intui uma fora cultural, poltica, intelectual e filosfica na msica popular brasileira. E isso existe porque a msica popular muito forte, vem muito de dentro, expressa e atua muito sobre o pas. Talvez no do modo como em geral se pensa, mas acho que no poderia haver tudo isso se no houvesse de fato uma fora estranha na msica popular no Brasil... (VELOSO apud SANTIAGO, 2004, p. 11).

No trnsito entre as foras opostas e contraditrias, Jos Miguel aposta em trs oposies que, por no o serem, acabam por integrar os elementos dspares da realidade brasileira no caldeiro social em que se cozinha a msica popular-comercial: embora mantenha um cordo de ligao com a cultura popular no-letrada, desprende-se dela para entrar no mercado e na cidade; b) embora deixe-se penetrar pela poesia culta, no segue a lgica evolutiva da cultura literria, nem filia-se a seus padres de filtragem; c) embora se reproduza dentro do contexto da indstria cultural, no se reduz s regras da estandardizao. Em suma, no funciona dentro dos limites estritos de nenhum dos sistemas culturais existentes no Brasil, embora deixe-se permear por eles (WISNIK apud SANTIAGO, 2004, p. 11-12).