olimpíadas da língua portuguesa 2012 - vencedores

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  • 7/30/2019 Olimpadas da Lngua Portuguesa 2012 - vencedores

    1/40

    Poem

    a

  • 7/30/2019 Olimpadas da Lngua Portuguesa 2012 - vencedores

    2/40

    Minha AstorgaAluno: Ulisses Gallo de Lima

    Vou num p e volto noutro.

    Tic-tac, tic-tac, TRIMMMM...

    Acorda, menino!

    Pra escola vou sozinho,

    pois conheo o caminho.

    Vou num p e volto noutro.Ao stio levar o almoo.

    A colheita est em pleno vapor.

    Sol e vento nos cachos de trigo,

    um mar dourado, a plantao.

    Vou num p e volto noutro.

    Com os amigos na rua brincar,

    chutar bola, pega-pega, esconde-esconde,

    na sombra das rvores me refrescar.

    Carro na rua quase no passa

    e o vov estica a vida na praa.

    Vou num p e volto noutro.

    Ver a lua pontear no chafariz

    as cordas do violo.

    Praa Chitozinho e Xoror,

    uma homenagem sua cano.

    Vou num p e volto noutro.

    Cidade pequenatem esta vantagem.

    A todo canto posso ir,

    sem fazer grande viagem.

    Astorga dizem ter outra na Espanha,

    com belos castelos e esplendor.

    Mas a minha Astorga assim,

    todo lugar a que vou...

    Vou num p e volto noutro.

    Professora: Carla Ambili Gallo Gimenez Lima

    Escola: E. M. E. I. E. F. Monsenhor Celso Astorga (PR)

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    O Joo de IpumirimAluno: Joo Pedro Artifon Canton

    Blm, blm, blm!...

    Toca o sino da matriz

    So seis horas da manh

    Me acordo, sou o Joo!

    O Joo da poesia

    O Joo da antiga Vila HarmoniaO Joo da alegria

    O bisneto da nona Maria.

    O Joo de Ipumirim

    Que cuida do jardim

    Que pratica esporte, lazer

    Dana gacha folclrica, prazer.

    O Joo que ama a escola

    Vive chutando bola

    Ama a rua onde mora

    No deixa pssaro na gaiola.

    O Joo que faz fogo no fogo

    Que sapeca o pinhoQue toca seu violo

    Que bebe o bom chimarro.

    O Joo que brinca no parque da praa

    Que com o amigo faz graa

    Que desenha na vidraa

    Que feliz quando abraa.

    O Joo que vai piscina

    Que no jud fascina

    Que anda de skate na esquina

    Que sua bicicleta empina.

  • 7/30/2019 Olimpadas da Lngua Portuguesa 2012 - vencedores

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    O Joo que d bom-dia

    Pro vizinho, pro amigo, pra tia

    Que a vida desaa

    Convivendo com alegria.

    O Joo que cultiva o cho

    Cuida da terra com a moPlanta milho, pipoca, feijo...

    Divide tudo com o irmo.

    O Joo que anda a cavalo

    Que d comida pro galo

    Que no rio Engano pesca

    Que com os amigos faz festa.

    Professora: Salete Ins Lecardelli

    Escola: N. E. M. Professor Claudino Locatelli Ipumirim (SC)

    O Joo que nasceu nessa cidade

    Que cresce com liberdade

    Tem amigos de verdade

    S existe amizade.

    O Joo que aqui feliz

    Que aqui criou raizQue toca o sino da matriz

    Que desse povo um aprendiz.

    Blm, blm, blm!...

    Toca o sino da matriz

    18 horas a hora

    Que na famlia a conversa rola.

  • 7/30/2019 Olimpadas da Lngua Portuguesa 2012 - vencedores

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    Manh manhosa mineiraAluna: Lamaira Condack Gonalves

    Acorda, manh manhosa

    Que vem vindo o vento frio

    Faz curva, faz manha, faz graa

    Brinca na beira do rio.

    Vem ligeiro. Eta! menino faceiro!

    Vem trazendo um buchicho

    Cochicho de maritacaE l da mata.

    Balana quati, jaguatirica, tucano

    Danando ao chu-chu

    Da cachoeira do Chiador

    Vu de noiva

    Da princesinha da Zona da Mata mineiraEsperando feliz o seu noivo.

    X, bem-te-vi! Olha o chiado!

    Chacoalha o chocalho

    Ruge o trovo

    Gotas gorduchas de chuva

    Rolam na poeira

    Encharcam o cho

    Enverdecem a plantao.

    Sol brincando de pique-esconde

    Menino travesso! Escondeu atrs do monte

    Logo ali, onde esto os panhadores

    colhendo ouro

    Mas no ouro qualquer

    Ouro verde, vermelho, ouro preto

    Esse ouro o caf.

    Acorda, manh dengosa

    Levanta, abre teus olhos de aprendiz

    Vai percorrer as ruas

    Catar frutas frescas nos quintais

    L fora o vento frio,

    De braos abertos, te Espera Feliz.

    Professora: Argelia Peixoto

    Escola: E. E. Interventor Jlio de Carvalho Espera Feliz (MG)

  • 7/30/2019 Olimpadas da Lngua Portuguesa 2012 - vencedores

    6/40

    de casa?!Aluno: Henrique Douglas de Oliveira

    , , ... Morena

    , , ... Machada

    , , ... Grauno

    , , ... Pelada.

    O vaqueiro solta a voz

    No oco do mundo,Com seu aboio triste,

    Em poucos segundos,

    Encanta gente e gado.

    Eita aboio profundo!

    Chapu de couro e gibo,

    Luvas e peitoral,Perneiras e sandlias,

    Tudo artesanal.

    Ofcio de meu pai,

    Vaqueiro magistral.

    O sertanejo anseia

    Uma visita em nossa terra,Faz as honras da casa

    E ansioso espera,

    So Jos intercede

    E o povo por ela reza.

    Quando a visita chega

    Molha o tapete vermelho,

    Desbota ele todo,

    O caminho s lameiro,

    Pra ns festa,

    festa pros violeiro.

    Eles cantam e encantam

    Aqui no nosso recanto,

    Em noite de cantoria

    Improvisam com seu canto,

    coisa da nossa gente

    Aqui do nosso canto.

    Stio Gerimum

    Este o meu lugar,

    Pedao de cho resistente

    Como o povo que aqui est,

    Que semeia coragem,

    E faz a esperana brotar.

    Meu Gerimum com G,

    Voc pode ter estranhado,

    Gerimum em abundncia

    Aqui era plantado,

    E com a letra G

    Meu lugar foi registrado.

    Professora: Simone Bispo de Moura CostaEscola: E. M. Ariamiro Germano da Silveira Jos da Penha (RN)

    Este ano a visita

    Raramente se aconchegou,

    Sua ausncia causou tristeza

    E o nosso serto chorou,

    Nem as lgrimas derramadas

    O cho seco molhou.

    O tempo parece mudado,

    Mudou o verde do capim,

    A brisa est mais quente,

    No faz um carinho assim,

    At os passarinhos

    Voaram pra longe de mim.

    Espero que os bons ventos

    Fluam em nossa cidade,

    Visitem Jos da Penha

    Sem nos deixar saudade,

    Tragam-nos boa-nova

    Espalhando prosperidade.

    Enquanto espero a visita

    Voc pode entrar,

    Tambm meu convidado,

    Pode se aproximar

    Nossa essncia permanece

    Sinta... Est no ar!

  • 7/30/2019 Olimpadas da Lngua Portuguesa 2012 - vencedores

    7/40

    Quero pintar de verde meu sertoAluna: Ana Letcia Oliveira Dutra

    I

    Alto Santo minha terra

    Fica no serto, precisamente

    Onde toda tardezinha

    Fico olhando o sol poente

    Esse sol que sem a chuva

    Deixa o meu serto to quente.

    II

    A seca que aqui vivemos

    Deixa tudo acinzentado

    Na estrada carros-pipas

    Passam por todo lado

    O jumento leva guaSubindo o morro cansado.

    III

    Quando o serto no tem gua

    Precisamos nos mudar

    E a cor roxa da saudade

    Vai nos acompanharE o preto da tristeza

    No corao vai car.

    IV

    O pincel que o senhor usa

    Emprestado eu vou pedir

    Com as gotinhas que dele

    Certamente vo cair

    S assim eu poderei

    O meu serto colorir.

    V

    Quando as gotinhas carem

    E o verde se espalhar

    O feijo, arroz e milho

    Do cho vo poder brotar

    E a fartura, pormVai mudar o meu lugar.

    VI

    Animais magros no pasto

    As vaquinhas a cair

    Quando eu pintar de verde

    Isso no vai existirE o aboio do vaqueiro

    Vamos voltar a ouvir.

  • 7/30/2019 Olimpadas da Lngua Portuguesa 2012 - vencedores

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    Professora: Maria Gislia Bezerra Gomes

    Escola: E. M. E. F. Urcesina Moura Cantdio Alto Santo (CE)

    VII

    Nas noites de So Joo

    Milho assado na fogueira

    O beiju de mandioca

    Cheirando na farinheira

    Queijo e manteiga da terra

    Sendo feitos na queijeira.

    VIII

    Assim com o pincel

    Deixo verde o meu serto

    O cajueiro na caatinga

    As aves de arribao

    A umburana oridaO branco do algodo.

    IX

    O verde do xique-xique

    Sozinho no vai car

    Muitas ores vo se abrir

    E no meu serto cheirar

    Sem o preto, o cinza, o roxo

    Cores tristes do lugar.

    X

    Quando tudo colorir

    E o verde predominar

    Quero agradecer ao Senhor

    Por poder me emprestar

    O pincel que transformouA vida do meu lugar.

  • 7/30/2019 Olimpadas da Lngua Portuguesa 2012 - vencedores

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    M

    em

    ria

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    liter

    rias

  • 7/30/2019 Olimpadas da Lngua Portuguesa 2012 - vencedores

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    Carreiro de memrias

    Aluna: Beatriz Aparecida Melo Garcia

    O tempo passou sem que eu percebesse. L se foram 81 anos, todos vividos neste casaro

    centenrio, cheio de histrias, ncado nas terras de Minas Gerais, na pequena comunidade dos

    Antunes, zona rural de Santa Brbara do Tugrio.

    Ainda h pouco, sentado na varanda, com o pito de palha no canto da boca, matutando, avis -

    tei meu carro de boi, carcomido pelo tempo, abandonado debaixo da gameleira. Aquela imagem

    me fez voltar infncia e carrear antigas lembranas. poca em que a cana-de-acar, o alambi -

    que, a cachaa e a bagaceira movimentavam esse lugar. Tudo orquestrado pelo canto do carro deboi. Meu av, tenente Antunes, forte como aroeira e doce como jabuticaba, estava no comando.

    Eu tinha 7 anos quando ele me ordenou que o aguardasse no escritrio. Temi que meu av

    houvesse descoberto que eu armara um alapo para pegar canarinho. Ele dizia: Quem prende

    passarinho no entende nada de beleza, tem aleijo na alma. Com minhas asas encolhidinhas,

    rumei para o escritrio. No tardou, ele chegou e falou de supeto: A partir de amanh voc

    ser o carreiro da nossa comunidade, condutor dos bois que transportam cana para o alambi -

    que da fazenda.

    Naquela poca, carreiro era a prosso mais importante do lugar. Eu no tinha noo disso,

    era apenas um menino. Sabia s do alvio que senti por no ser pego em minha travessura.

    Passei a sair de madrugada. Levava no embornal (bolsa para transportar alimentos) a mar -

    mita, a rapadura e o coit (moringa feita de cabaa) com gua. Comigo iam dois homens bons:

    Doraci e Benondio. Quanto mais pesada era a carga, mais o carro cantarolava. Os bois obedeciam

    ao meu comando. No era preciso usar ferro. tardezinha, voltvamos para casa. De longe eu sentia o olhar orgulhoso de meus pais e de

    meu av me abenoando. Minha me aquecia uma caarola com gua e colocava na bacia para

    eu me banhar. Depois nos servia o jantar, preparado em panelas de ferro, no velho e bom fogo a

    lenha. Da a pouco, todo o pessoal do lugar se reunia no casaro para estudar. Meu av contratara

    um professor e zera do maior salo desta casa a primeira sala de aula de nossa comunidade.

    Todos, sem distino, foram convidados a estudar aqui.

  • 7/30/2019 Olimpadas da Lngua Portuguesa 2012 - vencedores

    11/40

    Professora: Maria Ins ResendeEscola: E. M. Antnio Francisco da Silva Santa Brbara do Tugrio (MG)

    O domingo era dia santo, de reza e descanso. Ns, alm de rezar, jogvamos bola. Tnhamos

    dois times: Arranca Toco e P Rachado. Soltvamos pipa, tomvamos banho no ribeiro e ouva -

    mos as histrias de meu av.

    O mais curioso que hoje, com toda a tecnologia e brinquedos eletrnicos, as crianas aindainsistem em brincar assim. S mudaram os gurantes. Os meninos so outros. O contador de his -

    trias tambm. Sou uma criana de ontem que sopra o passado nos ouvidos das crianas de hoje

    e que sente por no poder contar ao av, menino de anteontem, uma histria que se inicia agora.

    Pois no me esqueo do domingo em que o acompanhei at o poro. Ele me contou que

    na poca de seu pai, meu bisav Joaquim Antunes, ali era uma senzala e que foram os escravos,

    sem receber um vintm, que ergueram a casa-grande. Trouxeram, de longe e nos braos, pedras

    e madeiras enormes. Muitos morreram de exausto. Falou-me da vergonha que sentia e da nossa

    dvida para com o povo negro. Aquilo caiu em meu peito como uma orao de domingo, e o res -

    peito aos afrodescendentes se enraizou em mim.

    por isso que eu queria comungar com ele uma histria que comea agora. Sei que sua alma,

    sem aleijo, iria sorrir ao ouvir que hoje os negros tm lugar reservado em universidades e que

    nas escolas, inclusive nas do nosso municpio, as crianas estudam a cultura africana. Ser que

    comeamos a saldar nossa dvida? Espero que sim.E, enquanto a vida ruma para o amanh, da minha janela vejo o carro de boi cabisbaixo.

    Cabisbaixo tambm estou. Camos em desuso. J no se pode ver o carro de boi passar cantando,

    conduzido pelo menino que se divertia em carrear. Nossa poesia se perdeu no tempo. Resta a ele

    trazer-me as recordaes daquela poca. Resta a mim carre-las.

    (Texto baseado na entrevista feita com o senhor Vicente Antunes Garcia.)

  • 7/30/2019 Olimpadas da Lngua Portuguesa 2012 - vencedores

    12/40

    O tempo, o chiado e as echasAluno: Jhonatan Oliveira Kempim

    Era no tempo das matas virgens. Os espiges de Espigo dOeste eram cobertos de cerejeiras,

    mognos, cedros, jatobs, ips e de imensas castanheiras. Os rios e igaraps tinham vida e eram

    limpos. O sol nascia e se punha na maior paz. Ao dormir, podamos ouvir o silncio da noite que

    s era rompido pelos bramidos de macacos e de onas-pintadas. Morvamos em uma casa de ma

    deira lascada de amburana. Ainda no existiam serrarias. O cho era de barro batido e o telhado,

    de folhas de buriti. Pelas frestas das paredes o vento nos visitava, deixando nossas noites sempre

    fresquinhas. Andava pelas matas ouvindo os sonoros cnticos dos pssaros. Olhava para o cu e

    via a moldura que envolvia a natureza.

    Por algum tempo tive a certeza de que aqui era o paraso. Era um territrio indgena. Era o

    paraso da tribo Suru.

    Daquele tempo, do que minha mente no me escapa, foi a manh do dia 17 de julho do ano

    de 1973. Fazia um calor insuportvel. O sol ardia vermelho no cu, a fumaa ardia cinzenta em

    meus olhos e as fuligens desciam como se chovesse... Havia queimadas por todos os lados. Pre

    cisvamos de pasto. Queramos o progresso. Na cozinha somente uma cuia, uma moringa, duas

    panelas de pedra e uma panela de presso ornamentavam o ambiente junto do fogo a lenha.

    Nessa manh, meu lho mais velho brincava no terreiro e eu, dentro de casa, preparava o

    almoo. Meu marido havia sado com outros homens para fazer derrubada. Ouvi o primeiro chia

    do da panela de presso que cozinhava o feijo. Observei a sombra da bananeira para marcar o

    tempo do cozimento... Foi esse o tempo que jamais queria que tivesse existido... Foi esse o tempo

    que jamais me esqueci...Pela janela avistei Jlio Csar apanhando goiabas... A panela ainda chiava... Olhei mais uma

    vez para o quintal e Jlio Csar estava sentado a comer as frutas. Tudo era muito calmo... A panela

    ainda chiava... O tempo. O chiado. A echa... Fiquei perplexa... A panela chiava... Jlio Csar no

    comia mais as goiabas, elas estavam espalhadas ao seu redor... A panela chiava... Fiquei surda e

    muda... No ouvi mais chiados, no falei mais nada, no pensei mais em nada, no queria ver mais

    nada... O tempo parado. Eu surda. E meu grito:

    Noooooooooo...

  • 7/30/2019 Olimpadas da Lngua Portuguesa 2012 - vencedores

    13/40

    Professor: Alan Francisco Gonalves SouzaEscola: E. M. E. F. Teobaldo Ferreira Espigo dOeste (RO)

    O tempo me mostrou mais uma echa, como a outra, certeira. Ela tambm veio fazer morada

    ao lado da anterior, na garganta do meu lho. Minhas trmulas pernas me levaram ao encontro de

    algo que parecia mentira. Queria que tivesse sido apenas um sonho. No foi sonho. Era to real

    quanto a fuligem negra que cobria meu corpo; to real quanto o vermelho do sol e dos meus olhosque agora ardiam no s pela fumaa, mas tambm pela dor; era to real quanto o vermelho que

    passeava para fora do corpo de meu lho.

    O chiado trouxe as echas das mos de um assustado suru inocente, que foi combater o

    estranho e acabou tirando a vida de Jlio Csar. Foi o chiado, estranho som que no fazia parte

    daquele paraso habitado por inocentes ndios, araras, macacos e onas-pintadas. O desconheci -

    do assusta. O chiado assustou o ndio. A echa me assustou.

    Hoje me assusto ao olhar nossos espiges cobertos por pastos, abrigando uma ou outra

    castanheira e alguns ips, sobreviventes rvores que resistiram s aes dos seus desconhecidos

    brancos. Imponentes rvores que assistem ao progresso das casas sem frestas para dar passagem

    ao vento, protegidas por grades e cercas eltricas. Imponentes rvores que assistem falta dgua

    dos rios e dos igaraps. Imponentes rvores que encantam nossos olhos. Imponentes rvores que

    se fazem vivas para assistir ao maravilhoso espetculo desse nosso cu rondoniense. Maravilhoso

    cu que presenciou o tempo, o chiado e as echas. Maravilhoso cu que meu cmplice... Mara -vilhoso cu que divide comigo o sumio da panela de presso.

    (Texto baseado na entrevista feita com a senhora Terezinha Von-Rondon Gonalves.)

  • 7/30/2019 Olimpadas da Lngua Portuguesa 2012 - vencedores

    14/40

    A sede que gua no mataAluno: Bruno Marques da Silva

    Para mim, um dos maiores prazeres da vida receber gua pura na boca seca, degustando

    algo sem cheiro, sem cor, sem gosto, mas que nos satisfaz tanto. E na grandeza das guas que

    a minha histria comea.

    Quando menino, morava em uma casa que dava fundo para o Rio Itapecerica. A parede do

    meu quarto nem podia ser rebocada porque a umidade fazia o reboco cair. O rio que existia na -

    quela poca era bem diferente deste que vemos agora. Ele era limpo, majestoso. Diria at que ele

    era feliz. O som de suas guas parecia deliciosas gargalhadas. Hoje ele ainda est l, no mesmolugar, mas a sua essncia, que me fazia to feliz, desapareceu. apenas um amontoado de guas

    poludas lutando para continuar vivo.

    Morvamos prximo ponte do bairro Niteri. Ela era mais estreita do que hoje. No era

    possvel aos carros irem e virem ao mesmo tempo. Por isso, os carros que seguiam em uma deter -

    minada direo eram obrigados a parar para esperar os que seguiam em direo oposta. Porm,

    isso no era problema, porque no havia muitos automveis naquela poca. Mas embaixo da

    ponte, nas guas e na margem do rio, que minhas lembranas mergulham.

    Todas as manhs esperava a brisa do rio vir de mansinho me acordar. Logo dava um pulo da

    cama, pegava uma banda de po sovado, com bastante acar por cima, e ia correndo ver o rio.

    No havia vista melhor do que aquela. Tomava caf ali mesmo. Depois, entrava correndo na cozi -

    nha, colocava a caneca esmaltada em cima da mesa e ia brincar com meus amigos.

    Quase todas as nossas brincadeiras, de alguma forma, estavam relacionadas ao rio. Jogva -

    mos futebol na prainha. Usvamos bola de capota, bola feita de couro e que possua uma cmarade ar. Ter uma bola dessas era um luxo. E eu era o dono da bola. Mesmo no sabendo jogar direi -

    to, era sempre convidado para os jogos. s vezes, atravessvamos o rio e amos at uma fazenda

    que cava do outro lado para roubar frutas.

    Entretanto, a nossa brincadeira preferida era nadar. Isso era a nossa maior diverso. Eu me

    lembro de que certa vez engoli uma piabinha inteira s porque diziam que isso ajudava a nadar

    melhor. Deslizvamos feito sabo sobre as enormes pedras que ainda hoje podem ser vistas sob

    a ponte. Construamos jangadas de troncos de bananeiras jogados no rio. Pegvamos os grandes

  • 7/30/2019 Olimpadas da Lngua Portuguesa 2012 - vencedores

    15/40

    Professora: Elizete Vilela de Faria SilvaEscola: E. M. Otvio Olmpio de Oliveira Divinpolis (MG)

    troncos, um a um, os jogvamos na beira no rio e amos pegar cip nas rvores mais prximas.

    Amarrvamos com o cip tronco a tronco at hastear uma folha de bananeira e velejvamos feito

    velhos marujos.

    Sinto muita saudade daqueles tempos.Recordo-me das adorveis tardes de domingo, passadas com minha famlia e amigos, sempre

    reunidos na margem do Itapecerica. Acontecia isso porque a cidade antigamente era mais religio -

    sa, todos guardavam os domingos para ir s missas, e depois, celebravam grandes e deliciosos

    almoos para se divertir.

    Passaram-se os anos e seguimos nosso curso. A cidade que um dia foi chamada de Esprito

    Santo do Itapecerica hoje conhecida como Capital da Moda. Eu mudei de vizinhana, casei-me

    e j sou av. E o rio? O rio corta a cidade ao meio, passando por vrios bairros. De uma maneira

    silenciosa, ele parece nos dizer que, independentemente do caminho que seguimos, ele estar

    sempre presente. Anal, ainda precisamos dele.

    Minha vida foi marcada por muitos momentos e meu corao est cheio de recordaes das

    experincias que zeram de mim o homem que sou. Mas com o rio diferente. Sempre que me

    lembro dele meus olhos se banham de emoo e meus pensamentos parecem seguir correnteza

    abaixo at trazer de volta aquele menino que um dia foi vizinho do rio. Nessa hora, sinto sededaquele tempo...

    (Texto baseado na entrevista feita com o senhor Ccero.)

  • 7/30/2019 Olimpadas da Lngua Portuguesa 2012 - vencedores

    16/40

    Cores, aromas e sabores de infnciaAluna: Nathalya Cristina Trevisanutto

    Os aromas sempre despertam em mim lembranas e saudades. Como bom voltar infncia

    e deixar escapar dos guardados de minha memria fragmentos de um tempo to bom! Fecho

    meus olhos e parece que vejo o lugar: Stio So Salvador

    Lembro-me das casas enleiradas, todas pintadas de azul e iluminadas pela luz do sol. Sete

    casas, sete famlias e muitas crianas para pintar o sete!

    O cafezal dominava a paisagem e consumia o trabalho de toda a famlia, at das crianas.

    Minha tarefa era limpar os troncos com as mos e tirar do interior dos ps de caf os preciososgros que teimavam em car escondidos entre galhos e folhagens. A lavoura rendia trabalho para

    o ano todo: capinar, arruar, derriar, rastelar, peneirar, ensacar. Ufa...! A melhor parte era quando

    a colheita estava no terreiro para secar.

    O cheiro do caf secando ao sol no me sai da memria... Ao nal do dia toda a famlia ia

    amontoar e cobrir os gros para proteg-los do sereno da noite. Depois de coberto, o monte de

    caf se tornava nosso brinquedo preferido: um escorregador gigante, nosso parque de diverso!

    noite, depois do banho de bacia e do jantar luz de lamparina, todos os moradores se

    juntavam no terreiro para um dedinho de prosa. O que se ouvia era uma sesso de casos e

    causos. As crianas tremiam de medo quando as histrias eram de assombrao. No stio

    ainda no tinha a luz eltrica para ofuscar o brilho das estrelas e nem da luz cintilante dos vaga -

    -lumes. As crianas amavam capturar aqueles seres enigmticos. Cantvamos a rima mgica

    Vaga-lume tem, tem, seu pai t aqui, sua me tambm. No sei se por crena ou por questo

    de coincidncia os bichinhos sempre eram atrados para nossas mos. Pobres insetos! S eramdevolvidos natureza depois de conferidos e contabilizados. que apostvamos para ver quem

    era o maior e melhor caador de vaga-lumes.

    No nal da dcada de 1970, meu padrinho, que era o proprietrio do stio, apareceu com

    uma novidade que mudaria para sempre a nossa rotina noturna: um televisor preto e branco que

    funcionava a bateria. Logo fomos enfeitiados por aquela mquina. O terreiro foi deixado de

    lado. Os vaga-lumes passaram a voar sossegados. Ningum queria perder um captulo da novela

  • 7/30/2019 Olimpadas da Lngua Portuguesa 2012 - vencedores

    17/40

    Professora: Vaniclia de Oliveira Sousa RebeloEscola: C. E. E. F. M. Dr. Dulio T. Beltro Tamboara (PR)

    O direito de nascer . A parte engraada da histria que no assistamos a nenhum comercial. A

    televiso era cuidadosamente desligada nos intervalos para economizar a bateria.

    Nas noites de So Joo o cheiro das delcias exalava das janelas de todas as casas. Bolo de

    milho, biscoito de polvilho, ch, ximango, quento e muita diverso. Sete casas, sete fogueiras! Eno nal o santo tero em homenagem ao santo do dia.

    As primeiras letras aprendi em uma escolinha rural. Era de madeira, com apenas uma sala

    dividida para duas turmas. Dois quadros, carteiras duplas. A professora tambm se dividia em

    duas, para atender os alunos e preparar nossa merenda no fogo a lenha. Se bem me lembro, pelo

    menos uma vez por ms lavvamos a escola: gua de poo, sabo de soda, vassoura e escovo. O

    assoalho de tbua bruta cava branquinho!

    ramos to felizes, mesmo no tendo todas as facilidades de hoje! Gostvamos da luz da

    lamparina, do sabor da gua do pote, do aroma do ferro a brasa, do macio e delicioso chiado do

    colcho de palha. Mas tudo o tempo leva...

    Quando meu padrinho faleceu, o stio foi vendido. Tivemos que nos mudar para a cidade. As

    casas foram sendo demolidas, uma aps outra. O caf deu lugar pastagem e hoje o destrudo

    espao da minha infncia no lembra em nada o que j foi um dia. Neste ano, as ltimas rvores

    do nosso pomar foram arrancadas. O stio foi tomado pelo verde da plantao de cana.Passei toda a minha infncia naquele stio maravilhoso localizado aqui mesmo no municpio

    de Tamboara. Foi assim minha infncia, vivida com simplicidade e amor, com minha famlia to

    querida! Hoje tudo o que era alegria virou saudade, sinto falta das cores, aromas e sabores daque -

    le lugar. Quando revivo esses momentos, meus olhos se enchem de lgrimas.

    (Texto baseado na entrevista feita com a senhora Vaniclia de Oliveira Souza Rebelo.)

  • 7/30/2019 Olimpadas da Lngua Portuguesa 2012 - vencedores

    18/40

    O mundo encantado do engenhoAluna: Isabela Kethyes Bezerra Bessa

    Sentado aqui no alpendre da casa-grande, olhando em volta desse mundo silencioso em que

    hoje vivo, me lembro de cada momento que passei neste lugar. O rodopiar dos ventos no canavial,

    o cheiro da cana verde misturado ao ar puro das guas cristalinas do aude, o barulho dos animais,

    as vozes dos trabalhadores... Tudo isso est guardado na minha memria.

    Era poca de fartura, o engenho acolhia de braos abertos todos os que ali iam chegando.

    Meu pai, homem forte, comandava com braveza e ao mesmo tempo com humildade os trabalha -

    dores que rudemente transformavam com habilidade a cana em rapadura.Dentro e fora do engenho ouvia-se o lepe-lepe das palhetas, mexendo o tacho fervente de

    mel. A moenda subia e descia com um ranger musical, esmagando a cana e soltando uma garapa

    esverdeada. Jumentos iam e vinham, trazendo nos lombos cangalhas cheias de cana, cujas folhas

    se arrastavam pelo cho e pareciam cantar uma cano, alegrando nossos ouvidos.

    O cheiro vindo da gamela da rapadura, ora com mistura de cravo e erva-doce, ora de coco,

    fazia com que aguasse o paladar de quem passava. As mulheres esparramavam o mel na pedra

    para comear o puxa-puxa do alfenim, seus corpos moviam-se sem parar, pareciam bailarinas ou...

    borboletas.

    O almoo dos trabalhadores era feito na casa-grande e logo de manh cedo os jumentos

    encostavam-se ao engenho, trazendo em caus as enormes panelas cheias de comida, geralmente

    a carne dos porcos que eram criados na fazenda. Enquanto alguns mexiam os tachos, outros

    sentavam no cho para pegar o de comer.

    tardinha esfriavam os corpos para irem banhar-se no aude. De longe ouviam-se os gritosdas maritacas misturados algazarra dos trabalhadores, que pareciam crianas brincando de

    pega-pega. Ceavam na casa-grande... E vinham chegando, no corpo traziam o cheiro gostoso

    do sabonete Alma de Flores, considerado um luxo naquela poca, cabelos limpos, cheios de

    brilhantina, que espelhavam de longe. Depois da ceia, sentavam em redes ou tamboretes, ilumi -

    nados pelo claro da lamparina, e contavam histrias reais ou de trancoso. O caf era servido, e

    o canivete, retirado da cintura, para cortar o fumo de rolo com o qual faziam um cigarro grosso,

    enrolado com palha de milho seco que pegavam na tolda, o isqueiro de metal a querosene

  • 7/30/2019 Olimpadas da Lngua Portuguesa 2012 - vencedores

    19/40

    Professora: Maria Gislia Bezerra GomesEscola: E. M. E. F. Urcesina Moura Cantdio Alto Santo (CE)

    rodava de mo em mo para acender os cigarros. Alguns resolviam ir namorar, mesmo que o pai

    da moa casse no meio dos dois.

    Naquele tempo tudo era diferente, as pessoas eram mais amigas umas das outras e viviam

    mais felizes.Hoje, o engenho est de p, bem conservado, as pessoas sempre vm para tirar retratos e

    ouvir histrias de como funcionava tudo aquilo, mas nunca vo entender como funcionava o cora -

    o, a amizade de cada pessoa que ali vivia, pois essa mquina de tirar retrato jamais vai retratar

    as lembranas, as saudades e a histria real do mundo encantado do engenho.

    (Texto baseado na entrevista feita com o senhor Jos Enias Bessa.)

    Glossrio

    Cangalha armao feita de madeira, colocada em animais, para carregar coisas, objetos.

    Caus espcie de bolsa de couro, colocada no jumento, para levar objetos.

    Brilhantina espcie de gel perfumado que os homens usavam nos cabelos nas dcadas passadas.

    Tolda terreno adubado para plantar milho.

  • 7/30/2019 Olimpadas da Lngua Portuguesa 2012 - vencedores

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    C

    rn

    ica

  • 7/30/2019 Olimpadas da Lngua Portuguesa 2012 - vencedores

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    Sob um teto de estrelas

    Aluna: Lvia da Silva dos Santos

    Era um m de tarde, desses que fazem o cu assumir seu tom mais alaranjado. Deitada no pe -

    queno sof encaixado milimetricamente entre duas das paredes da salinha apertada , absorta

    em meus pensamentos, mal pude ouvir o som desesperado l fora. De repente o bater na porta

    convida-me a sair. Parado porta est um homem: alto, magricela, colete laranja tal como o cu

    tambm se vestia , careca, o bigode escuro escondendo a boca com a qual me intima:

    Senhora, o seu prdio vai desmoronar. Por gentileza, retire-se do edifcio imediatamente.

    As paredes alm do homem mostravam-se ssuradas e desgastadas pelo tempo. Semprepassando por elas, no entanto, nunca havia me dado conta dessa situao. O teto parecia apenas

    aguardar, cordialmente, a sada de seus protegidos. O cho, tentando resistir, bravamente, ero -

    so, no obtinha sucesso. Nada se ouvia alm do choro, do desespero, da agonia. As cores, em

    substituio ao laranja, agora se faziam vermelho e azul e danavam agitadas aos gritos desespe -

    rados e inquietos das sirenes sobre os automveis l embaixo. Tentei correr, pegar as coisas que

    me valiam, mas logo fui impedida pela mo do homem que segurava meu brao enquanto dizia:

    Senhora, no h tempo. Pela sua segurana, retire-se do prdio.

    Pernas trmulas, olhos marejados. Desci cada degrau das escadas relutando com a realidade

    que me ssurava, marcava, como cada uma das paredes. Elas estavam marcadas pelo tempo;

    eu, pela ausncia deste. Cmeras, microfones, reprteres, curiosos. No ptio, colches, crianas,

    foges, geladeiras, animais, cadeiras, mulheres, todos brigavam igualmente por um espao no

    caminho de mudanas.

    Olhei para a rua que sempre me abrigara nas noites de tdio, quando o sof era, por qualquerngulo, desconfortvel e as conversas nos tamboretes eram mais instigantes. Ela agora se mos -

    trava acolhedora, como uma me, e imensa. Sem Cho, Sem Teto (e, se isso indica alguma ambi -

    guidade ao leitor, est no caminho certo). Os outros edifcios, abandonados ou no, cercavam-me

    como paredes. Sem laranja. As cores agora assumiam seu tom mais escuro. O azul e o vermelho

    recusavam-se a sumir.

  • 7/30/2019 Olimpadas da Lngua Portuguesa 2012 - vencedores

    22/40

    Professora: Tatiana Simes e Luna

    Escola: I. F. P. E. Campus Recife Recife (PE)

    Sentei-me num meio o e esperei atenta. Na pequena pracinha verde, as senhoras conver -

    savam aitas sobre a tragdia. A feira da sulanca, emprestada gentilmente pela festiva cidade de

    Caruaru (e cam aqui os meus sinceros agradecimentos), que alegrava umas noites intercalares

    desse pequeno lugar, foi obrigada a dividir a ateno de seus contempladores com o tal edifcio,que no saa da boca do povo. Eu, ainda impactada, ouvia ecoar as palavras que jorravam da boca

    de Mir, o poeta da Muribeca, que chorava, pedia, implorava pelo simples direito de seus irmos

    terem um lar.

    E no se ouvia falar em mais nada. Cada morador narrava sua verso do enredo. Quem dera

    fosse s o meu enredo, ou que se limitasse aos que me acompanharam nele. A histria se repetiu,

    a histria se repete em cada edifcio do pequeno Conjunto Muribeca, um barrosinho do Bero da

    Ptria, quase invisvel diante de um Leo do Norte, mas que ainda ostenta em letras garrafais

    as boas-vindas aos seus visitantes, aos moradores e queles que tentam car, pois em terra de

    Muribeca quem tem casa Rei, mas h sempre um cantinho velho para um desabrigado.

  • 7/30/2019 Olimpadas da Lngua Portuguesa 2012 - vencedores

    23/40

    Menino ladinoAluna: Mara Domingos da Silva

    No ms de agosto, a minha cidade recebe a visita de um menino malandro e muito agitado.

    Logo pela manh, quando acordo, j ouo o seu assobio melodioso. Tomo o meu caf rapidamen -

    te e vou para fora. L encontro o menino e ele j comea a me provocar, bagunando os meus

    cabelos, sacudindo as minhas roupas, quase me carregando para onde ele vai, mas co rme e

    sigo em frente. Por um minuto ele some, e logo volta, com mais fora, levando consigo os aromas

    da natureza e das pessoas que encontra.

    Vou para a escola e ele me acompanha com muita alegria. Toca o sinal para comear a aula etenho que deix-lo l fora. Mas, quando olho pela janela, vejo o moleque convidando as rvores.

    Viro-me para prestar ateno no que a professora diz, de repente algum bate janela buscando

    ateno, olho e no vejo nada, ento co atenta, a m de escutar o seu chamado suave. Uma

    batida na porta. A professora abre prontamente, ele entra com felicidade e carrega tudo que v

    pela frente: papis, lpis, cortinas... Entretanto, o que ele mais gosta de carregar so os nossos

    cabelos. Ah! Menino ladino!

    tarde eu vou para a fazenda e o menino vai comigo, cantando de um jeito que s elesabe: ssssssss. Nas lavouras de trigo at parece um professor que ensina os alunos a danar bal.

    lindo ver a plantao sendo conduzida por ele, em ondas, em voltas e reviravoltas.

    Volto para casa e ele me acompanha, invade a minha vida e com insistncia me convida para

    brincar. s vezes, resolve seguir outras direes e desaparece. Depois de algum tempo retorna, ora

    discreto, ora atrevido, disposto a no mais nos deixar. noite, quando me deito e a cidade ca em

    silncio ouo o seu canto novamente, parece que est cantarolando uma cano de ninar para eudormir, fecho os olhos e tenho a impresso de ouvi-lo sussurrar ao meu lado e assim adormeo.

    Quando setembro chegar ele ir embora, deixando um rastro de saudade no ar. Assim so

    os ventos do ms de agosto em So Pedro do Iguau: um moleque arteiro que vive a aprontar,

    deixando tudo fora do lugar.

    Professora: Lucilene Aparecida Spielmann Schnorr

    Escola: C. E. E. F. M. So Pedro So Pedro do Iguau (PR)

  • 7/30/2019 Olimpadas da Lngua Portuguesa 2012 - vencedores

    24/40

    Planalto forever

    Aluno: Pedro Henrique Siqueira de Sousa

    Terra, poeira; ps descalos, com unhas encravadas; meninos suados, sujos, fedidos e apaixo -

    nados por futebol. Um ponto de encontro e nossa segunda casa. Assim poderamos denir o Pla -

    nalto. Lugar de felicidade e muitas bolas ao vento, onde altas jogadas, feias ou bonitas, sempre

    proporcionavam aqueles gols fenomenais. Havia sempre aquele bonzo que no nal pagava um

    gol no Inacreditvel Futebol Clube. s vezes tinham jogadas a la Ronaldinho, Pel e at Messi,

    mas a participao dos sem querer no podia faltar, e, como sempre, aparecia um toque especial

    e particular de cada jogador.Quando chegavam os moleques fazamos a contagem, se consegussemos seis para cada

    lado, no importava se eram amigos ou inimigos, os times estavam formados e era s um gritar,

    num dialeto bem paraense: Agora ta du vale! (est valendo), que a paz acabava. Era sebo nas ca -

    nelas, partamos pro jogo, ali virava um campo de batalha, cada um com a sua estratgia, porque

    ser treinador ningum queria, queramos mesmo era a magia da pelota; e assim, bola pra c, bola

    pra l, goleiros passando perrengues, zagueiros dando bico na redondinha e sempre saia um:

    Pega ela. Acredita.Isso virara um bordo. Podia fazer sol, chuva e at sereno, mas toda vez jogvamos at no

    ver a bola. Quando a escurido caa, no importava se tivesse 90 a 0, quem zesse o ltimo gol

    era consagrado campeo do dia. Juiz ali no tinha (sorte pra me dele), brigas ali tiveram algumas,

    assim como muitas amizades encontradas e renascidas, mas nada que interferisse nas nossas

    peladas.

    Nosso maior dolo foi o Toin, revelado pelo Planalto F. C., que dali foi jogar no Paysandu,l jogou apenas trs jogos e no ltimo entrou para fazer parte da maior vitria daquele time e o

    infeliz foi o River Plate: aos 43 do segundo tempo o nosso Toin fez o to sagrado gol, e na come -

    morao veio o nosso orgulho, tirou a camisa, mesmo consciente do carto amarelo que levaria, e

    com outra por baixo mostrou a frase que para os planaltenses era a mais linda de todas.

    Planalto, eu I Love, Planalto!

    Com vrios erros, mas foi o nosso maior orgulho mesmo!!!

  • 7/30/2019 Olimpadas da Lngua Portuguesa 2012 - vencedores

    25/40

    Professora: Nbia Silvana Lima Machado Franchini

    Escola: E. M. E. F. Tancredo Neves Novo Progresso (PA)

    Mas como tudo o que comea acaba. Agora o barulho das mquinas revela que a cidade est

    crescendo e que o novo proprietrio do terreno onde cava o nosso Planalto vai realizar o seu

    sonho de um prdio novo, nem se importando com as tristezas e saudades das crianas, jovens

    e adultos que faziam daquele lugar um magnco estdio. No entrou ali um velho de canivetena mo para cortar a bola e faz-la sangrar, entraram engenheiros e operadores para cavoucar e

    enterrar a nossa alegria.

    Da quadra da escola, vemos indo embora os nossos risos, silenciando os gritos de euforia

    e brotando a lgrima da saudade. Queria ter agora a fora de um super-heri para poder parar

    aquelas mquinas cruis. De p na arquibancada, com os nossos coraes partidos, calados, com

    o choro enroscado na garganta observamos tudo ir de trave abaixo. Homens trabalhando para

    construir uma cidade mais moderna, evoluda, fazendo brotar salas que recebero os ps limpos,

    unhas feitas, sapatos engraxados, de salto, no lugar que at bem pouco tempo recebia os ps de

    moleques que sonhavam em um dia ser jogador de futebol!

    Mas Planalto assim, pra sempre!

  • 7/30/2019 Olimpadas da Lngua Portuguesa 2012 - vencedores

    26/40

    Relgio jumentoAluna: Roberta Oliveira Morim

    Por aqui no tem shopping, no tem cinema, no tem churrascaria, no tem pizzaria, no tem

    funerria, no tem feira, no tem zoolgico, no tem Pronto-Socorro, no tem espao cultural,

    no tem parque, no tem quase nada. Mas aqui tem uma coisa que cidade nenhuma tem. Sabe o

    que tem aqui? O jumento do tio Joozinho. O despertar da manh com o galo, que nada! Aqui o

    despertador na base do zurrar do jumento.

    O Paioso (que foi o nome dado a ele) reside aqui pertinho, numa chcara. Alm de desper -

    tador, no pensamento do Paioso ele se acha um timo co de guarda. L na chcara se ele vchegar algum, vai logo dando o alarme, se escuta qualquer barulho, vai logo zurrando. um

    tipo de jumento de guarda. Mas o que ele gosta mesmo de acordar a cidade, o Paioso como

    um despertador. s 6 horas da manh ele solta a voz literalmente, quando os pees chegam na

    chcara para tirar o leite das vacas. Lembrando, o Paioso no pode ver nem escutar nada que

    ele vai zurrando, e nesse horrio, na chcara, muito movimento, a ele zurra que uma beleza!

    Acordando a cidade inteira com o seu som engraado.

    No comeo dessas zurraes era bem chato. Pois imagine voc, sendo acordado todosos dias, bem cedinho, pelo zurrar de um jumento? Pois , mas eu me acostumei e o povo daqui

    tambm. Alguns se acostumaram tanto que parecem zurradores prossionais, sabem imitar

    direitinho o zurrar do jumento. Poderia at ser organizado um concurso por aqui, para ver qual

    o melhor imitador do Paioso, certamente teramos muitos concorrentes e iria ser uma disputa

    acirradssima e muito engraada!

  • 7/30/2019 Olimpadas da Lngua Portuguesa 2012 - vencedores

    27/40

    Professora: Rosangela Aparecida Morim

    Escola: E. E. Anita Ramos Douradoquara (MG)

    H trs tipos de jumento: o jumento baiano, o jumento nacional e o jumento pega. O Paioso

    um jumento pega, que tem mais ou menos 1,30 metro de altura, de cor acinzentada, genioso,

    atrevido, inconveniente e cheio de caras e bocas quando grita. Pense, uma gracinha no?! Podem

    existir milhares de outros jumentos iguais a ele na cor, na altura, na raa e at no nome, mas eutenho a certeza que nenhum tem a funo de despertador e jamais algum outro jumento tomar

    o lugar do Paioso. Infelizmente, claro que chegar o dia nal, o dia em que o jumentinho ter

    que partir... E eu j comeo a imaginar que se merecia fazer um grande funeral para ele, como

    j ocorreu quando um importante poltico daqui faleceu. Um caminho do corpo de bombeiros

    levaria o seu corpo, logo atrs a fanfarra, e claro uma cavalgada (pois, por aqui, qualquer evento

    que acontea tem a fanfarra tocando e uma cavalgada acompanhando) com jumentos, mulas,

    guas, cavalos, burros. Ah! Quanta emoo... E todo o povo acompanhando seu funeral. E, por

    m, merecia-se tambm uma esttua com a imagem dele na entrada da cidade, juntamente com

    uma placa escrito: Aqui jaz um relgio jumento....

  • 7/30/2019 Olimpadas da Lngua Portuguesa 2012 - vencedores

    28/40

    O senhor dos covos

    Aluno: Elias dos Santos Marinho

    No h nada melhor do que fazer o que a gente gosta! Escrever, rimar ou cronicar. Tanto faz!

    O importante liberar o olhar encardido para o meu quintal.

    O que a mente me traz pro dia de hoje so os covos. Ontem, andando pelas trilhas que nos

    levam Fonte da Juventude, sob um sol de rachar os miolos, at de um menino como eu, encon -

    trei o Meu Senhor.

    Sentado em um toco de uma jaqueira, o mestre fumava um cigarro apavorante. No meio de

    talas e cips, o cheiro do fumo incendiava o pasto. E o velho senhor, l, ruminando os sonhos dequem acredita ainda na natureza para arrancar alguns trocados.

    De ccoras, tasquei um olhar para o poo e reetido nas guas aluviadas do riacho: o Senhor

    dos Covos. Aquela cena me lembrava a de um guerreiro, o Zumbi dos Palmares, rompendo o limite

    entre a luta, o golpe, e o destino.

    E as lutas daquele senhor negro so muitas: uma delas ser o construtor de covos. Meu

    Senhor agarra camaro com eles, depois vende na feira e entrega o dinheiro para sinh Maria.

    Pense em um trabalho mido de doer. Depois de cortar a taboca em pequenas talas, o artistausa uma espcie de cip par enredar cada haste, fazendo uma espcie de cone. E so esses covos

    que os pescadores daqui usam para pescar camares. s vezes, a lontra nos tira a renda do dia,

    reclama Z Neguinho, olhando pra mim, quase que gemendo.

    Nesse momento foi a minha barriga que gemeu. Roncou, roncou feio! Encolhi-me.

    T com a pana roncando, menino?

    No, senhor!

    Se quiser chegue pra c e pegue um pedao de p de moleque, pois, camaro, s amanh!

    No disse mais nada, emudecido quei a contemplar aquele homem com as suas pelejas para

    sobreviver. A fora dele me comove e me leva a ver entre as bananeiras daquela fonte, as tas

    coloridas daquele mestre, o Mateus do Reisado. O seu canto agora invade meus pensamentos.

  • 7/30/2019 Olimpadas da Lngua Portuguesa 2012 - vencedores

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    Professor: Luciano Acciole Gomes

    Escola: E. M. Vereador Joo Prado Japaratuba (SE)

    Continuo minha sina. Olho pra trs e vejo l longe o Senhor dos Covos, a anar as talas.

    Pego-me cantando J chegou as onze estrelinhas..., no tenho dvida que ele umas das

    onze estrelinhas, e com o seu raio dourado ainda vai iluminar muitas outras histrias de resistn -

    cia. O vaqueiro, o marcador, o cantor, o rezador, o toador, o pescador...Enquanto ainda o camaro resistir, o Senhor dos Covos estar nas canoas da vida, fazendo as

    guas carregarem o peso do fazer do povo.

  • 7/30/2019 Olimpadas da Lngua Portuguesa 2012 - vencedores

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    A

    rtig

    ode

    o

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  • 7/30/2019 Olimpadas da Lngua Portuguesa 2012 - vencedores

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    Revoluo verde?Aluno: Carloci dAvila Menezes

    A partir da dcada de 1970 intensica-se a chamada revoluo verde, programa idealizado

    para multiplicar a produo agrcola nos pases menos desenvolvidos. O modelo incentiva o uso

    de sementes geneticamente modicadas, insumos, mecanizao, produo em massa, irrigao,

    barateamento dos custos e gerenciamento de produo.

    Santa Margarida do Sul, pequena cidade da fronteira oeste do Rio Grande do Sul, mas com

    uma rea rural signicativa, no foge a esse modelo. Hoje, ao cultivar gros como a soja, cevada,

    canola, trigo e milho, alm de uva, ctricos e hortalias, ostenta uma economia diversicada.Para manter e ampliar a produo dessas culturas, os produtores se sentem dependentes dos

    fertilizantes, para enriquecer o solo, e dos agrotxicos, para combater as pragas que atacam as

    suas lavouras. Com o passar do tempo, os efeitos dos agrotxicos surgem, como a contaminao

    humana e do meio ambiente. As pragas tornam-se resistentes e, por isso, eles deixam de ser

    efetivos, levando adio de mais aplicaes ou o uso de novas molculas ainda mais potentes.

    Quanto a isso, h posies antagnicas, que geram discusses.

    Os defensores dos agrotxicos argumentam que no h como garantir a produo e a sua

    qualidade sem os agrotxicos e que inexiste a produo de agentes naturais que possa atender,

    s no Brasil, milhes de hectares de terra. O senhor Rogrio Estrazulas, um dos proprietrios da

    Fazenda Santa Eullia, refora dizendo que so feitas vrias pulverizaes anuais nas suas lavouras

    e, se todos os produtores deixassem de faz-las, a produo entraria em colapso, pois as pragas

    destruiriam as plantaes e, como efeito, haveria a escassez de alimento.

    J os que so contra o uso dos agrotxicos armam que os riscos sade so evidentes, como

    aborto, distrbios cognitivos, de comportamento, endcrinos, conforme arma a pesquisadora da

    Fiocruz, Lia Geraldo. Isso se manifesta de forma crnica pelos alimentos, ou aguda, naqueles que

    esto expostos ao produto, como ocorreu com o senhor Isaltino Teixeira, 71 anos, que disse, em

    entrevista, que, quando h pulverizao, sofre nuseas, dor de cabea e alergia. Ademais, argu -

    mentam que contaminam o solo, o ar e os cursos dgua, ameaando a biodiversidade. O enge -

    nheiro agrnomo, Paulo Fassina, da Secretaria da Agricultura e Meio Ambiente, alerta-nos que o

    aqufero ssural do escudo cristalino, que abastece o municpio, ainda no registra contaminao,mas isso poder ocorrer, pois o uso dos agrotxicos abusivo e no h monitoramento adequado.

  • 7/30/2019 Olimpadas da Lngua Portuguesa 2012 - vencedores

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    Professor: Luiz Carlos Leivas Saldanha

    Escola: E. E. E. M. Marechal Hermes Santa Margarida do Sul (RS)

    Embora reconhea que ainda inexista a produo de agentes tecnologicamente corretos que

    venham atender a todas as lavouras quanto ao combate s pragas, discordo do uso dos agrot -

    xicos. Sou partidrio da cultura orgnica, porque no provoca malefcio ao meio ambiente e ao

    ser humano. mais saudvel, nutritiva e saborosa que a convencional. Ainda que seu custo sejaalto, vale a pena investir mais em qualidade do que na aquisio de um alimento mais barato,

    mas que oferea riscos. Tambm apoio as tcnicas que no lesem a natureza, como o ch produ -

    zido a partir de plantas bioativas que repelem pragas e atraem predadores naturais, e o falco,

    um predador natural de ratos e caturritas que atacam o milho. Essa prtica j vivenciada por

    duzentos agricultores familiares da Regio Sul do Estado. O seu sucesso fez com que a Embrapa,

    em Pelotas, encampasse a ideia, fazendo experimento com cinco plantas: camomila, chinchilho,

    arruda, funcho e pata-de-vaca.Assim, penso que no se resolver a questo dos agrotxicos em curto prazo, mas creio que

    somente com forte investimento em pesquisa, tanto de iniciativa governamental quanto privada,

    que se vislumbrar o caminho de uma agricultura sustentvel. Temos que tirar lies do ontem

    e do hoje para alcanarmos um amanh sem agresses ao planeta. A revoluo verde no pode

    dar margem a interrogaes. H necessidade urgente de promover a mudana de cultura, assim

    como de priorizar a ateno responsabilidade social. Os princpios da agroecologia precisam ser

    resgatados, pois, caso contrrio, materializar-se- o pensamento do antroplogo francs Claude

    Lvi-Strauss: O mundo comeou sem o homem e acabar sem ele.

  • 7/30/2019 Olimpadas da Lngua Portuguesa 2012 - vencedores

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    O Haiti aquiAluno: Paulo Renan de Souza Figueiredo

    A populao acriana vivencia um processo inusitado com a entrada dos haitianos em nosso

    territrio pela fronteira Bolpebra Bolvia, Peru e Brasil. Em Rio Branco, lugar onde vivo, h gran -

    de nmero de haitianos que, com o terremoto de 7,0 graus na escala Richter, ocorrido em 2010,

    em Porto Prncipe, capital de seu pas, resolveram buscar melhores condies de vida no Brasil,

    pas responsvel pelas foras de segurana da ONU que intervm em sua ptria.

    Com a ateno do governo acriano situao calamitosa dos haitianos, a fronteira foi libera -

    da. A entrada e a forma de atendimento aos refugiados geraram divergncia de opinio por parteda populao: deve o Acre continuar dedicando esforos para acolher os haitianos, sendo ainda

    um Estado em desenvolvimento?

    Determinada parte da populao posiciona-se contra, inclusive o secretrio adjunto de direi -

    tos humanos Jos Henrique Corinto, argumentando que os haitianos tm como foco o mercado

    de trabalho no Acre e em outras cidades, como Cuiab, Manaus e Porto Velho, alm de regies

    promissoras como o Centro-Sul.

    Alguns haitianos vieram pensando em ganhar dinheiro e, em seguida, retornar sua terranatal. Entretanto, sem documentos para comprovar escolaridade, alguns se depararam com m -

    todos de contratao racista, em que, segundo um representante de uma empresa: Trabalhador

    bom aquele que tem canela na. No vamos contratar quem tem panturrilha grossa porque

    preguioso. Por atos como esse, atrelados aos baixos salrios oferecidos, muitos viram seu sonho

    cair por terra. um absurdo! Em pleno sculo XXI o Brasil ainda tem cidados que cultivam pr -

    ticas racistas do tempo da escravido.

    O Governo Federal forneceu cerca de 2 milhes de reais ao Estado do Acre, a m de que fos -

    sem utilizados para alimentao e moradia do grupo de refugiados. Alm dessa quantia, o governo

    autorizou a emisso de 4 mil vistos de trabalho aos haitianos em solo acriano e aos outros que

    estariam por vir.

  • 7/30/2019 Olimpadas da Lngua Portuguesa 2012 - vencedores

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    Professora: Maria Iracilda Gomes Cavalcante Bonifcio

    Escola: E. E. Professor Jos Rodrigues Leite Rio Branco (AC)

    Alguns acrianos acreditam que o dinheiro deveria ter sido aplicado em infraestrutura nos

    bairros rio-branquenses, em vez de ser destinado a suprir as necessidades dos haitianos. Anal, ao

    mesmo tempo em que o Acre recebia de braos abertos os estrangeiros, os moradores da capital

    acriana passavam por uma grande calamidade: a maior alagao de todos os tempos ocorridacom o transbordamento do rio Acre 25% de nossa cidade cou debaixo dgua.

    A imigrao de haitianos uma questo que deve ser analisada no apenas pelo prisma local,

    ela tem projees internacionais. At que ponto se recusar a prestar ajuda humanitria no cons -

    titui demonstrao de xenofobia? Sabemos que a averso ao estrangeiro uma realidade entre

    os povos: pases ricos fazem da xenofobia um comportamento comum.

    Para ns, acrianos, a presena de haitianos em nosso territrio representa a chance de

    demonstrar ao restante do Brasil toda a hospitalidade que marca registrada de nosso povo.Somos o nico Estado da federao que lutou para ser brasileiro, escrevendo com o sangue de

    seringueiros revolucionrios uma das mais belas pginas da histria de nossa nao.

    Sou plenamente a favor da entrada de haitianos no Brasil. Defendo veementemente que

    funo nossa, neste momento de calamidade, prestar ajuda humanitria a quem dela necessita.

    Para os imigrantes, a possibilidade de um trabalho seria uma forma de garantir a prpria sobrevi -

    vncia e enviar ajuda famlia.

    Diante da singular situao que se apresenta, penso que acolher os estrangeiros a atitude

    mais coerente, porque ns, acrianos, sabemos bem como nos sentir estrangeiros em nossa

    prpria nao. Vez por outra, ao acessar pginas de relacionamento na internet ou viajar para

    outros lugares do Brasil, ouvimos a clebre pergunta: O Acre existe?. Seria essa uma excelente

    oportunidade de mostrar que existimos, sim, e que reconhecemos que, acima de rivalidades

    motivadas pela no aceitao do diferente, esto valores como a solidariedade e a cooperao

    entre os povos. Assim, veremos um pas devastado pelo terremoto se reerguer, gerando um efeitoem cadeia. Aceitando-os aqui no Brasil, poderamos ultrapassar as fronteiras e trocar uma atitude

    xenofbica por um ato de solidariedade humana.

  • 7/30/2019 Olimpadas da Lngua Portuguesa 2012 - vencedores

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    Natal: Noiva do Sol, Amante da ProstituioAluna: Taiana Cardoso Novais

    evidente o motivo pelo qual a cidade de Natal conhecida como Noiva do Sol. Tudo se deve

    s belas praias aqui existentes, ao cu quase sempre ensolarado, ao clima quente e convidativo.

    O inimaginvel, no entanto, o que se esconde noite nessas mesmas praias: o turismo sexual,

    que d cidade a alcunha de Amante da Prostituio.

    Nas praias, s sombras dos coqueiros, h mulheres e at garotas pasmem! espera de

    que os turistas, principalmente os estrangeiros, venham procur-las. Uma realidade vergonhosa

    no somente para os habitantes daqui, como eu, mas para todos os brasileiros. Sendo assim, coerente questionar: Por que a indstria do turismo sexual tem um crescimento exponencial que

    desaa toda sorte de organizaes, bem como o poder pblico?.

    O prostiturismo , muitas vezes, estimulado pela nata natalense: donos de hotis, de agn -

    cias de turismo, de empresas de txi, todos lucram com a prtica, chegando at a anunci-la

    mundo afora. Por mais inacreditvel que parea, os cartes-postais da cidade, agora, vo alm do

    Morro do Careca e, proporo que a publicidade aumenta, crescem tambm as srdidas estats -

    ticas. Segundo uma pesquisa do Unicef, a explorao sexual est presente em 930 centros urba -nos brasileiros, dos quais 436 so cidades nordestinas, sendo Natal a lder, paraso do sexo fcil.

    muito comum ouvirmos comentrios de que a culpa da prostituio das prprias mulheres

    submetidas a essa vida. No entanto, dicilmente citada a maior causa, provavelmente, de muitas

    se iniciarem nessa prosso: a sobrevivncia. Uma pesquisa realizada pelo setor de cincias hu -

    manas da UFRN constatou que as mais movimentadas zonas de prazer, entre as 29 j conhecidas

    pela polcia civil no municpio, so a Rua do Salsa e a Avenida Roberto Freire, ambas situadas em

    um dos bairros mais nobres da cidade, onde boa parte dos turistas/clientes se hospeda.

    Andr Petry, renomado jornalista, em artigo para a revista Veja, defende a regulamentao da

    prestao de servios sexuais como prosso efetiva, dizendo ser essa a nica maneira de retirar

    as prostitutas da mngua. Em minha opinio, essa no a soluo mais vivel, pois no basta dar

    condies de trabalho a quem usa a prostituio como meio de sobrevivncia. O que deveria ser

    defendido era a abolio desse tipo de servio, posto que visto pela maioria como algo degra -

    dante e que fere a dignidade de quem o pratica.

  • 7/30/2019 Olimpadas da Lngua Portuguesa 2012 - vencedores

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    Professor: Ladmires Luiz Gomes de Carvalho

    Escola: E. E. E. Professor Jos F. Machado Natal (RN)

    Vale ressaltar tambm que tal prtica se associa concomitantemente violncia e ao uso de

    drogas, o que conrmado pelos dados da pesquisa da Associao dos e das Prossionais do

    Sexo e Congneres do Rio Grande do Norte (Asprorn). Segundo ela, mais da metade das prosti -

    tutas utilizam algum tipo de psicoativo, entre os quais esto o lcool, o crack e a cocana. Alm

    disso, essa mesma parcela j sofreu ou inigiu algum tipo de violncia. Um dado arbitrrio tica.

    Infelizmente, diante dessas circunstncias est o descaso de parte da sociedade natalense e

    do poder pblico para com a problemtica. Penso que esse desinteresse se d devido relao

    direta que a cidade de Natal tem com a indstria do turismo sexual. E, em razo de o turismo ser

    a principal atividade econmica da capital, o raciocnio simples: garotas de programa atraem

    visitantes, que, por sua vez, injetam dinheiro na economia.

    A prostituio um problema de ordem social e coletiva e, nesse contexto, preciso a for -mao de uma aliana entre os cidados potiguares e as instituies pblicas responsveis no

    intuito de que sejam elaboradas medidas que evitem a entrada de novas mulheres e jovens nesse

    mercado ilcito, tais como a fundao de mais escolas tcnicas, no mpeto de prossionaliz-las.

    Outra medida a ser tomada seria a scalizao do prostiturismo pela polcia, alm da inten -

    sicao do cumprimento das leis que combatem a questo. Sendo assim, unidos Estado e

    sociedade , possivelmente poderemos evitar a consolidao do ttulo de Amante da Prostituio

    e invalidar o dito do grande mestre Cmara Cascudo de que o potiguar s est de acordo se for

    para ouvir ou narrar anedotas.

  • 7/30/2019 Olimpadas da Lngua Portuguesa 2012 - vencedores

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    Os piratas do rio AmazonasAluna: Ana Lina Souza de Oliveira

    Vivo em um lugar que est localizado no meio do mundo, na maior regio do Brasil. Macap,

    a nica capital do Brasil cortada pela linha do equador, no norte do pas. Abenoada por riquezas

    naturais e nicas, como o maior parque nacional de oresta tropical do mundo As Montanhas do

    Tumucumaque, o parque ocupa 26,5% da rea total do Estado do Amap e guarda uma grande

    biodiversidade de espcies raras e ameaadas de extino como beija-ores multicoloridos e uma

    espcie rarssima s vista nesta regio do pas, o gigante beija-or-brilho-de-fogo, o maior e mais

    bonito do Brasil, a suuarana, a ona-pintada, o macaco parauau, o lagarto amapasaurus entreoutras espcies.

    Macap uma cidade privilegiada por ser rodeada pela maior oresta do planeta, a Amaz -

    nica, e banhada pelo maior rio do mundo, o Amazonas. Mas o nosso mar doce est sendo ame -

    aado pelo trco de suas guas e espcies aquticas. O rio que antes era usado somente como

    rota dos navios para exportao de minrios e produtos da oresta, gerando trabalho e renda,

    hoje vtima de piratas.

    Cientistas, autoridades brasileiras e amapaenses foram informadas que navios cargueiros que

    entram no Estado para buscar minrios no Porto de Santana abastecem seus reservatrios com

    as guas do Amazonas antes de sair do Estado para comercializ-la em seu pas de origem, prati -

    cando ao mesmo tempo dois crimes: a hidropirataria e a biopirataria, levando com a nossa gua

    diversidades de espcies aquticas. Essa modalidade de saque dos recursos naturais vem tirando

    o sossego dos amapaenses. Clculos preliminares mostram que cada navio tem se abastecido com

    250 milhes de litros, ou seja, a ingerncia estrangeira nos recursos naturais da nossa Amaznia

    tem aumentado signicativamente nos ltimos anos - esto roubando nossa gua e biodiversidade

    bem diante de nossos olhos, ao lado da Fortaleza de So Jos de Macap, na orla da cidade, onde

    podemos ver os grandes navios ancorados.

    O engenheiro Paulo Edgard Fiamenghi, que trata as guas do rio Negro, que abastece Ma -

    naus por processos convencionais, comentou em uma pgina na internet que levar gua para se

    tratar no processo convencional muito mais barato para os pases de fora que o tratamento por

    osmose reversa.

  • 7/30/2019 Olimpadas da Lngua Portuguesa 2012 - vencedores

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    Professora: Lilian Torres Chaves

    Escola: E. E. Rivanda Nazar da S. Guimares Macap (AP)

    Em minha opinio, esto economizando, furtando a nossa gua para transport-la para a Eu -

    ropa e sia, j que com a dessalinizao pelo processo de osmose reversa lhes custaria mais caro.

    Com tudo isso, ns nos perguntamos: Quantos e quantos milhes de litros de gua tero que

    ser roubados do nosso Amazonas para que alguma providncia seja tomada? O que as autorida -

    des deste Estado esto esperando para punir e autuar os piratas do rio Amazonas?.

    Portanto, a falta de uma denncia formal Agncia Nacional de guas (ANA) o que impede

    uma mobilizao por parte da Marinha do Brasil para dirigir-se at o local com auxlio de outros

    rgos, bem como da comunidade, para coibir essa prtica e proteger nosso patrimnio garantido

    por lei no artigo 26, inciso I, da Constituio Federal, assim protegendo o bem de nosso Estado,

    o rio Amazonas.

    preciso que o povo macapaense cobre mais das autoridades locais, para que eles scalizemos crimes praticados contra o rio.

    No consigo nem imaginar que o governo brasileiro esteja permitindo o abastecimento de

    gua doce para outros continentes, puramente para benefcio comercial, ou at mesmo pensando

    em privatiz-la num futuro prximo, enquanto o povo amapaense v de camarote o rio sendo

    saqueado e os ribeirinhos perdendo o seu sustento e bem mais precioso, essencial para a vida de

    todos ns, e nada sendo feito para proteger nossas guas.

    Assim, deixo todo o meu repdio com frases de Elton Glademir e Newton Lima: Chegamos

    ltima instncia do absurdo... Chegamos ao ltimo patamar da ganncia e da safadeza humanas,

    em que assistimos ao crescimento material. gua no mercadoria.

    Hoje no devemos abusar dos recursos naturais que temos, devemos proteg-los, garantindo

    que geraes futuras e diversas espcies que aqui habitam, tenham a oportunidade de sobreviver

    naturalmente do rio Amazonas. A gua um bem ambiental de uso comum da humanidade, por

    isso a preservao dessa reserva garantir a biodiversidade mundial do lugar onde vivo.

    f d

  • 7/30/2019 Olimpadas da Lngua Portuguesa 2012 - vencedores

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    A favor da memria

    Aluna: Patrcia Vieira de Queiroga

    Recentemente uma questo polmica surgiu em minha cidade, Pombal, Paraba: a chamin

    da fabrica da Brasil Oiticica deve ou no ser derrubada? A questo divide opinies. Aps quase

    trs dcadas de aparente esquecimento e indiferena por parte da sociedade, a compra do terre -

    no da extinta Brasil Oiticica e a destruio das instalaes da indstria, que no atingiu a chamin

    por interveno de alguns cidados, acenderam um debate entre os pombalenses em torno do

    que realmente importante para o desenvolvimento e para a histria da nossa comunidade.

    Instalada na dcada de 1930 em Pombal, a lial da Brasil Oiticica exportou leo de oiticicapara ser utilizado na produo de armamento na II Guerra Mundial. Inovadora na sua poca, a

    empresa fundou, alm de uma escola para os lhos dos operrios, um time de futebol e propor -

    cionava nos ns de semanas saraus e bailes para a comunidade. Um grande marco na memria

    coletiva a sua sirene, que, em determinados horrios, sinalizava a entrada e a sada dos traba -

    lhadores e que funcionava como referncia de horrio para toda a populao, sendo comparada

    ao relgio londrino. Contribuiu, de forma decisiva, para o desenvolvimento da economia na poca,

    garantindo emprego e renda para muitas famlias sertanejas. Em 1987, sua falncia foi declarada.Diante de to signicativa contribuio econmica, histrica e, por que no dizer, cultural,

    seria justo demolir a chamin? O argumento mais comum entre aqueles que se opem sua

    preservao que o terreno ocupado por ela, uma rea pequena, poderia ser usado para a

    construo de empreendimentos econmicos, inclusive valorizando o bairro onde est locali -

    zada, que perifrico e marginalizado. No entanto, a preservao da chamin poder trazer

    benefcios econmicos e valorizao do bairro, caso seja transformada em um ponto turstico.

    O que pode ser comparado chance das geraes futuras de verem de perto um monumento

    que represente a histria do nosso povo ou ao orgulho de ter uma das cinco chamins desse

    modelo existentes no mundo?

    H ainda aqueles que argumentam que no se deve preservar algo que, de certa forma,

    contribuiu, mesmo que indiretamente, para a II Guerra Mundial. Ora, dessa forma, grandes monu -

    mentos histricos que tiveram relao direta com barbries deveriam ser demolidos. S para citar

    dois exemplos: o Coliseu, palco de espetculos degradantes na sua inaugurao, os jogos lrealizados causaram a morte de 9 mil animais e 2 mil gladiadores; e o Muro de Berlim, que dividiu

    Al h O id t l O i t l t d d h j t t ti i

  • 7/30/2019 Olimpadas da Lngua Portuguesa 2012 - vencedores

    40/40

    Professora: Sandra Regina de Oliveira Lcio

    Escola: E. E. E. F. M. Monsenhor Vicente Freitas Pombal (PB)

    as Alemanhas Ocidental e Oriental a parte do muro preservada hoje o ponto turstico mais

    visitado da Alemanha.

    A chamin, de uma forma ou de outra, interferiu em nossa vida. Todo pombalense tem um

    parente ou um conhecido que, ao relembrar aquele tempo, cita algo relacionado Brasil com nos -

    talgia. Segundo Snia Regina Rampim Florncio, coordenadora de educao patrimonial do Iphan,

    a partir da memria e da cultura local, as pessoas comeam a se sentir pertencendo ao local,

    portanto recomeam a resgatar uma memria coletiva, e isso gera um processo de autoestima na

    comunidade, que fundamental para escolher os caminhos do desenvolvimento daquele lugar.

    Ela ainda arma que no se valoriza somente o que se conhece, mas tambm o que a gente se

    sente pertencendo. Partindo dessa armao, pode-se concluir que a chamin deve ser preserva -

    da, pois nossa historia est ligada a ela. Ela nos pertence.Tenho a convico de que a chamin deve permanecer erguida no para relembrar apenas a

    historia da empresa Brasil Oiticica, mas para manter viva a memria de uma poca to importante

    para o povo de Pombal.

    No se prega tanto o desenvolvimento sustentvel preservando a fauna e a ora, por que

    tambm no preservar a nossa histria? certo que para se transformar em patrimnio histrico

    e cultural, ainda segundo Snia Regina Rampim Florncio, necessrio que haja aes educativas

    para haver um reconhecimento do patrimnio como nosso, pois o patrimnio histrico-cultural

    pertence comunidade e cabe a ela julgar relevante ou no sua permanncia. Portanto, impor -

    tante que a comunidade se mobilize para garantir chamin a condio de patrimnio histrico

    material imvel de nossa comunidade, para que se mantenha viva, na memria coletiva, a

    lembrana de um caminho percorrido e para rmarmos nossas razes.