morte de salazar

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O DIA EM QUE SALAZAR CAIU DA CADEIRA Uma pessoa daquelas não podia simplesmente ser vítima de um acidente tão banal, ainda por cima por mero desequilíbrio ou fraqueza de uma cadeira de praia e durante a frivolidade dos dias de férias. Faz hoje 40 anos, num dia de sol esplendoroso, o ditador de Portugal, António Oliveira Salazar, terá sido um pouco mais descuidado a sentar-se do que era seu hábito. Salazar lançou-se sobre a cadeira de lona (tinha 79 anos, idade excessiva para descuidos) caiu e bateu violentamente com a cabeça no chão de pedra. O choque provocou-lhe um hematoma cerebral, o suficiente para limitar a sua capacidade de raciocínio, mas que passou despercebido. O próprio Salazar recusou que se chamasse um médico. Para a História, fica a ideia de que estava distraído, a ler o Diário de Notícias, inclinando-se de forma apressada. A versão de Franco Nogueira é de que se preparava para tratar dos calos e a queda foi testemunhada pelo calista Augusto Hilário e pela governanta, Maria de Jesus. Mas há outras versões, uma das quais nem sequer tem cadeira. Em outro caso, foi a perna da cadeira que não aguentou o peso do corpo. Mas ninguém contesta que o motivo da distracção tenha sido um interessante artigo do DN, talvez o noticiário sobre a crise da Checoslováquia, na primeira página da edição desse fatídico 3 de Agosto de 1968.  Na altura, ninguém percebeu que o fim do regime começava naquela queda tão comum e, afinal, tão devastadora. A imprensa não soube do estado de saúde do chefe de governo e as autoridades mantiveram segredo sobre este facto de rara importância política. Muitos dirigentes nem terão notado que se  passara algo de anormal. O País soube pela Emissora Nacional, mas apenas a 7 de Setembro, que Salazar fora operado a um hematoma intracraniano. A causa tinha sido uma queda da cadeira, na sua residência de Verão, no forte de Santo António de Estoril. A data do tombo não foi divulgada. 3 de Agosto de 1968. Há exactamente 40 anos, o todo  poderoso Presidente do Conselho gozava um período de férias, no forte de Santo António do Estoril, quando o improvável aconteceu. Não se saberá nunca se foi por descuido, desiquilíbrio - ou por mera debilidade da cadeira de lona. O que é certo é que bateu violentamente com a cabeça no chão de pedra. Nunca mais recuperou. Morreu dois anos depois. O regime ainda lhe sobreviveu mais quatro anos. Até à morte, a 27 de Julho de 1970, o ditador  julgou que ainda gover nava Portugal  Dizia-se que na altura da queda a vítima não sofrera mais do que forte dor causada pelo choque, embora nos dias seguintes, segundo precisavam as notícias, o chefe do governo começasse a sentir problemas de visão e de movimentos. Nessa fase, a imprensa era tranquilizadora, mencionando o pós- operatório sem alarmes.  Nove dias depois da operação, às 13 e 45, um acidente vascular no hemisfério cerebral direito de António Salazar interrompeu com brutalidade todo o processo da recuperação.  Não havia alternativa senão substituir o líder. A 26 de Setembro de 1968, o Presidente Américo Tomás nomeou Marcelo Caetano primeiro-ministro (na altura, chamava-se Presidente do Conselho). O contexto da transição era difícil e foi decidido manter, para o doente no hospital da Cruz Vermelha todas as honras inerentes ao cargo de chefe do governo. Este é um dos elementos talvez mais simbólicos do apodrecimento do regime autoritário. Salazar estava mentalmente muito limitado, mas os ministros fingiam realizar Conselhos de ministros na sua presença. O ditador julgava que ainda decidia. À queda da cadeira seguia-se o declínio de uma mente que se esvaziava, em farsa e simulacro. Em Julho de 1970, terminou a lenta agonia. O antigo chefe de Governo, que os jornais insistiam em chamar "Presidente Salazar", como se ainda governasse, sofreu um súbito agravamento do estado de saúde, por infecção. Pneumonia ou infecção renal, insuficiências cardiovasculares profundas, a situação agravou-se de dia para dia, até ao colapso definitivo, no dia 27 de Julho de 1970, de manhã, quase dois anos depois da mítica queda da cadeira. O regime não iria sobreviver muito tempo a Salazar. Caiu a 25 de Abril de 1974 e o estrondo ouviu- se em todo o País.  Luís Naves www.dn.pt 1,20   O JORNAL PREFERIDO DOS PORTUGUESES

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8/19/2019 MORTE DE SALAZAR

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O DIA EM QUE SALAZAR CAIU DA CADEIRA

Uma pessoa daquelas não podia simplesmente ser vítimade um acidente tão banal, ainda por cima por merodesequilíbrio ou fraqueza de uma cadeira de praia e durante afrivolidade dos dias de férias. Faz hoje 40 anos, num dia de solesplendoroso, o ditador de Portugal, António Oliveira Salazar,terá sido um pouco mais descuidado a sentar-se do que era seuhábito.

Salazar lançou-se sobre a cadeira de lona (tinha 79 anos,idade excessiva para descuidos) caiu e bateu violentamentecom a cabeça no chão de pedra. O choque provocou-lhe umhematoma cerebral, o suficiente para limitar a sua capacidadede raciocínio, mas que passou despercebido. O próprio Salazarrecusou que se chamasse um médico.

Para a História, fica a ideia de que estava distraído, a ler oDiário de Notícias, inclinando-se de forma apressada. A versãode Franco Nogueira é de que se preparava para tratar dos calose a queda foi testemunhada pelo calista Augusto Hilário e pelagovernanta, Maria de Jesus. Mas há outras versões, uma dasquais nem sequer tem cadeira. Em outro caso, foi a perna dacadeira que não aguentou o peso do corpo.

Mas ninguém contesta que o motivo da distracção tenhasido um interessante artigo do DN, talvez o noticiário sobre acrise da Checoslováquia, na primeira página da edição dessefatídico 3 de Agosto de 1968.

 Na altura, ninguém percebeu que o fim do regimecomeçava naquela queda tão comum e, afinal, tão devastadora.A imprensa não soube do estado de saúde do chefe de governoe as autoridades mantiveram segredo sobre este facto de raraimportância política. Muitos dirigentes nem terão notado que se passara algo de anormal.

O País soube pela Emissora Nacional, mas apenas a 7 deSetembro, que Salazar fora operado a um hematoma

intracraniano. A causa tinha sido uma queda da cadeira, na suaresidência de Verão, no forte de Santo António de Estoril. Adata do tombo não foi divulgada.

3 de Agosto de 1968.  Há exactamente 40 anos, o todo poderoso Presidente do Conselho gozava um período deférias, no forte de Santo António do Estoril, quando oimprovável aconteceu. Não se saberá nunca se foi pordescuido, desiquilíbrio - ou por mera debilidade da cadeirade lona. O que é certo é que bateu violentamente com acabeça no chão de pedra. Nunca mais recuperou. Morreu

dois anos depois. O regime ainda lhe sobreviveu maisquatro anos.Até à morte, a 27 de Julho de 1970, o ditador

 julgou que ainda governava Portugal 

Dizia-se que na altura da queda a vítima não sofrera maisdo que forte dor causada pelo choque, embora nos diasseguintes, segundo precisavam as notícias, o chefe do governocomeçasse a sentir problemas de visão e de movimentos. Nessafase, a imprensa era tranquilizadora, mencionando o pós-operatório sem alarmes.

 Nove dias depois da operação, às 13 e 45, um acidente

vascular no hemisfério cerebral direito de António Salazarinterrompeu com brutalidade todo o processo da recuperação. Não havia alternativa senão substituir o líder. A 26 de

Setembro de 1968, o Presidente Américo Tomás nomeouMarcelo Caetano primeiro-ministro (na altura, chamava-sePresidente do Conselho). O contexto da transição era difícil efoi decidido manter, para o doente no hospital da CruzVermelha todas as honras inerentes ao cargo de chefe dogoverno.

Este é um dos elementos talvez mais simbólicos doapodrecimento do regime autoritário. Salazar estavamentalmente muito limitado, mas os ministros fingiam realizarConselhos de ministros na sua presença. O ditador julgava queainda decidia. À queda da cadeira seguia-se o declínio de umamente que se esvaziava, em farsa e simulacro.

Em Julho de 1970, terminou a lenta agonia. O antigo chefede Governo, que os jornais insistiam em chamar "PresidenteSalazar", como se ainda governasse, sofreu um súbitoagravamento do estado de saúde, por infecção. Pneumonia ouinfecção renal, insuficiências cardiovasculares profundas, asituação agravou-se de dia para dia, até ao colapso definitivo,no dia 27 de Julho de 1970, de manhã, quase dois anos depoisda mítica queda da cadeira. O regime não iria sobreviver muitotempo a Salazar. Caiu a 25 de Abril de 1974 e o estrondo ouviu-se em todo o País.

 Luís Naves

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