milton santos - urbanizao brasileira - milton santos

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SANTOS, Milton. A urbanizao Brasileira, So Paulo: Hucitec, 1993. Por isso, a grande cidade, mais do que antes, um plo da pobreza ( a periferia no plo...) o lugar com mais fora e capacidade de atrair e manter gente pobre,ainda que muitas vezes em condies sub-humana. A grande cidade se torna o lugar de todos os capitais e de todos os trabalhados, isto , o teatro de numerosas atividades marginais do ponto de vista tecnolgico, organizacional, financeiro, previdencirio e fiscal. Um gasto pblico crescentemente orientando `renovao e reviabilizao urbana e que sobretudo interessa aos agente socioeconmicos hegemnicos, engendra a crise fiscal da cidade, e o fato de que a populao no tem acesso aos empregos necessrios, nem aos bens e servios essenciais, fomenta a expresso da crise urbana. Algumas atividades continuam a crescer, ao passo que a populao se empobrece e observa a degradao de suas condies de existncia. 10 A cidade em si como relao social e como materialidade, torna-se criadora de pobreza, tanto pelo modelo socioeconmico de que o suporte como por sua estrutura fsica, que faz dos habitantes das periferia ( e dos cortios ) pessoas ainda mais pobres. A pobreza no apenas o fato do modelo socioeconmico vigente, mas, tambm, do modelo espacial. 10 Ao longo do sculo, mas, sobretudo nos perodos mais recentes, o processo brasileiro de urbanizao revela uma crescente associao com a da pobreza, cujo locus passa a ser, cada vez mais, a cidade, sobretudo a grande cidade . O campo brasileiro moderno repele os pobres, e os trabalhadores da agricultura capitalizada vivem cada vez mais nos espaos urbanos. A indstria se desenvolve com a criao de pequeno nmero de empregos e o tercirio associa formas modernas a formas primitivas que remuneram mal e no garantem a ocupao. 10 Durante sculos o Brasil como um todo um pas agrrio, um pas essencialmente agrcola, para retomar a clebre expresso de Conde Afonso Celso. ...No dizer de Oliveira Vianna (...) O urbanismo condio modernssima da nossa evoluo social. Toda a nossa histria a histria de um povo agrcola, a histria de uma sociedade de lavradores e pastores. no campo que se forma a nossa raa e se elaboram as foras ntimas de nossa civilizao. O dinamismo da nossa histria, no perodo colonial, vem do campo. Do campo, as bases em que se assenta a estabilidade admirvel da nossa sociedade no perodo imperial. 17 Referindo-se aos primrdios da urbanizao, Nestor Goulart Reis, estuda o perodo entre 1500 e 1720, em que destaca trs principais etapas de organizao do territrio brasileiro. A primeira fase, entre 1530 e 1570 (....) cujo ponto de maior intensidade estaria compreendido entre os anos de 1530 a 1540. Entre a fundao do Rio de Janeiro em 1567 e a d Filipia daParaba em 1585, h um intervalo em que apenas ocorre a instalao de Iguape. O segundo perodo fica entre 1580 e 1649, anos d dominao-espanhola, com dois pontos de maior intensidade: os anos entre 1610 e 1620, com a fundao de uma vila e trs cidades e entre 1630 e 1640, com a fundao denove vilas, (...) Num terceiro momento, entre 1650 e 1720, foram fundadas trinta e cinco vilas, elevando-se duas delas categoria de cidades: Olinda, e So Paulo...18 De modo geral, porm, a aprtir do sculo XVIII que a urbanizao se desenvolve e a casa da cidade torna-se a residncia mais importante do fazendeiro ou do senhor de engenho, que s vai sua propriedade rural no momento do corte e da moeda da cana..19

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Se o ndice de urbanizao pouco se alterou entre o fim do perodo colonial at o final do sculo 19 e cresceu menos de quatro pontos nos trinta anos entre 1890 e 1920 ( passando de 6,8% a 10,75), foram necessrios apenas vinte anos, entre 1920 e 1940, para que essa taxa treplicasse passando a 31,24%. 22 A urbanizao brasileira conhece, nitidamente, dois grandes regimes, ao longo das diferentes periodizaes que se proponham. Aps os anos 40-50, os nexos econmicos ganham enorme relevo, e se impem s dinmicas urbanas na totalidade do territrio, conforme veremos depois com mais detalhe, e antes desse momento, o papel das funes administrativas tem, na maior parte dos estados, uma significao preponderante.24 Pode-se grosseiramente admitir que a base econmica da maioria das capitais de estado brasileiras era, at o fim da segunda guerra mundial, fundada na agricultura que se realizava em sua zona de influncia e nas funes administrativas pblicas e privadas, mas, sobretudo, pblicas...... At a segunda guerra mundial, o peso das capitais no processo urbano e na populao urbana sobreleva, tanto do ponto de vista quantitativo como qualitativo. nos estados em que a atividade extrativa predominante que a parcela da populao vivendo nas capitais maior. 25 O Brasil foi, durante muitos sculos, um rande arquiplago, formado por subespaos que evoluram, segundo lgicas prprias, ditadas em grande parte por suas relaes com o mundo exterior. Havia, sem dvida, para cada um desses subespaos, plos dinmicos internos. Estes, porm, tinha entre si escassa relao, no sendo interdependentes. 26 A partir dos naos 1940-1950, essa lgica da industrializao que prevalece: o termo industrializao no pode ser tomado, aqui, em seu sentido estrito, isto , como criao de atividades industriais nos lugares, mas em sua mais ampla significao, como processo social complexo, que tanto inclui a formao de um mercado nacional, quanto os esforos de equipamento do territrio para torno-lo integrado, como a expanso do consumo em formas diversas, o que impulsiona a vida de relaes e ativa o prprio processo de urbanizao. Essa nova base econmica ultrapassa o nvel regional, para situar-se na escala do Pas; por isso a partir da uma urbanizao cada vez mais envolvente e mais presente no territrio d-se com o crescimento demogrfico sustentado das cidades mdias e maiores, includas, naturalmente, as capitais de estados. 27 Entre 1940 e 1980, d-se verdadeira inverso quanto ao lugar de residncia da populao brasileira. H meio sculo atrs (1940), a taxa de urbanizao era de 26,35% em 1980 alcana 68,86%. Nesses quarenta anos, triplica a populao total do Brasil, ao passo que a populao urbana se multiplica por sete vezes e meia...29 E na dcada de 70-80, o crescimento numrico da populao urbana j era maior que o da populao total. O processo de urbanizao conhece uma acelerao e ganha novo patamar, consolidado na dcada seguinte. 30 O forte movimento de urbanizao que se verifica a partir do fim da segunda guerra mundial contemporneo de um forte crescimento demogrfico, resultado de uma natalidade elevada e de uma mortalidade em descenso, cujas causas essncias so os progressos sanitrios, a melhoria relativa nos padres de vida e a prpria urbanizao.31

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Esse perodo duraria at fins dos anos 60. O golpe de Estado de 1964 todavia aparece como um marco, pois foi o mviemnto militar que criou as condies de uma rpida integrao do Pas a um movimento de internacionalizao que aparecia como irresistvel, em sacala mundial. A economia se desenvolve, seja para atender a um mercado consumidor em clebre expanso, seja para responder a uma demanda exterior. O Pas se torna grande exportador tanto de produtos agrcolas no tradicionais ( soja ctricos) parcialmente beneficiados antes de se dirigirem ao estrangeiro, quanto de produtos industrializados. A modernizao agrcola, alis, atinge, tambm produes tradicionais como o caf, o cacau, o algodo; alcana produtos como o trigo, cujo volume plantado e colhido se multiplica, impanta-se em muitos outros setores e se beneficia da expanso da classe mdia e das novas equaes d e um consumo popular, intermitente, com o desenvolvimento da produo de frutas, verdura e hortalias. A populao aumentada, a classe mdia ampliada, a seduo dos pobres por um consumo diversificado e ajudado por sistemas extensivos de crdito, servem como impulso expanso industrial. 36 Neste perodo, no caso brasileiro,alguns fatos tm que ser resultados: 1) H um desenvolvimento muito grande da configurao territorial. A configurao territorial formada pelo conjunto de sistemas de engenharia que o homem vai superpondo natureza, verdadeiras prteses de maneira a permitir que se criem as condies de trabalho prprias de cada poca . O desenvolvimento da configurao territorial na fase atual vem com um desenvolvimento exponencial do sistema de transportes e do sistema de telecomunicaes e da produo de energia. 2) Outro aspecto importante a levar em conta o enorme desenvolvimento da produo material. A produo material brasileira, industrial e agrcola, muda de estrutura; a estrutura da circulao e da distribuio muda; a do consumo muda exponencialmente; todos esses dados da vida material conhecem transformaes extraordinria, ao mesmo tempo em que h disseminao no territrio dessas novas formas produtivas... 3) Outro dado importante a considerar o desenvolvimento de novas formas econmicas: no apenas h um desenvolvimento das formas de produo material, h tambm uma grande expanso das formas de produo no-material: da sade, da educao, do lazer, da informao e at mesmo das esperanas. So formas de consumo no-material que se disseminam sobre o territrio. 38 Esse movimento de fundo, no territrio e na sociedade vai dar em conseqncia uma nova urbanizao brasileira. Um dos elementos fundamentais de sua explicao o fato de que aumentou no Brasil, exponencialmente, a quantidade d trabalho intelectual. No se dir, com isso, que a populao brasileira se haja trinado culta, mas ela se tornou mais letrada. O fato de que se haja tornado mais letrada est em relao direta com a realidade que vivemos neste perodo cientfico-tcnico, onde a cincia e a tcnica esto presentes em todas as atividades humanas..49 No sistema urbano, as categorias consideradas homlogas, os nveis tidos como paralelos so cada vez mais diferenciados entre si. H pois diferenciao extrema entre os tipos urbanos. Houve tempo em que se podia tratar a rede urbana como uma entidade onde as cidades se relacionavam segundo uma hierarquia de tamanho e de funes. Esse tempo passou. Hoje, cada cidade diferente da outra,no importa o seu tamanho, pois entre as metrpoles tambm h diferenas. 53 Graas `a evoluo contempornea e da sociedade e como resultado do recente movimento de urbanizao e de expanso capitalista no campo, podemos admitir, de modo geral, que o territrio brasileiro se encontra, hoje, grosseiramente repartido em dois grandes subtipos que agora vamos denominar de espaos agrcolas e espaos urbanos. Utilizando , com um sentido, a expresso regio, diremos que o espao total brasileiro atualmente preenchido por regies agrcolas e regies urbanas. Simplesmente, no mais se trataria de regies rurais, e de cidades. Hoje, as regies agrcolas ( e no rurais) contm cidades; as regies urbanas contm atividades rurais. .... Quanto s cidades ,aquelas cuja dimenses so maiores, utilizam parte dos terrenos vazios dentro

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da aglomerao ou em suas proximidades com atividades agrcolas freqentemente modernas e grandemente destinadas ao consumo da respectiva populao. As regies metropolitanas, oficiais ou de fato, so o melhor exemplo desse fenmeno. 65 A partir dos anos 70, o processo de urbanizao alcana novo patamar, tanto do ponto de vista quantitativo, quanto do ponto de vista qualitativo. Desde a revoluo urbana brasileira, consecutiva revoluo demogrfica dos anos 50, tivemos,primeiro, uma urbanizao aglomerada, com o aumento do nmero - e da populao respectiva dos ncleos com mais de 20.000 habitantes e, em seguida, uma urbanizao concentrada, com a multiplicao de cidades de tamanho intermdio, para alcanarmos, depois , o estgio de cidades milionrias e de grandes cidades mdias ( em trono de meio milho de habitantes). 69 E a partir dos anos 50 que se nota mais freqentemente uma tendncia aglomerao da populao e da urbanizao. 69.... A populao urbana da aglomeraes com mais de 20.000 habitantes cresce mais depressa que a populao total e que a populao urbana do Pas, e o mesmo fenmeno tambm se verifica em escala regional. 71 A expanso e a diversificao do consumo, a elevao dos nveis de renda e a difuso dos transportes modernos, junto a uma diviso do trabalho mais acentuada, fazem com que as funes de centro regional passem a exigir maiores nveis de concentrao demogrfica e de atividades. Somente nas reas mais atrasadas que tais funes so exercidas por ncleos menores. 73 As cidades milionrias, que eram duas em 1960 ( So Paulo e Rio de Janeiro) so cinco em 1970, dez em 1980 e doze em 1991. Esses nmeros ganham maior significao se nos lembrarmos de que em 1872 a soma da populao das doze maiores cidades brasileiras no chegava a 1.000.000 de habitantes, reunindo apenas 815.729... Esta a nova realidade da macrourbanizao ou da metropolizao. Mas se levarmos em considerao as aglomeraes ou quase -conurbaes que beiram essa cifra, seu nmero ser consideravelmente aumentado. A palavra metrpole , todavia, timidamente utilizada no Brasil, quando as novas realidades da mundializao ampliam o processo de sua criao como o locus por excelncia das relaes sociais e econmicas...75 As a tuais Regies Metropolitanas tm como pontos comuns dois elementos essenciais: a) so formadas por mais de um municpio, com o municpio ncleo que lhes d o nome representando um rea bem maior que as demais; b) so objeto de programas especiais, levados adiante por organismos regionais especialmente criados, com a utilizao de normas e de recursos em boa parte federais.....A socializao capitalista favorecida pelo poder pblico nessas reas metropolitanas acompanhada por uma expanso perifrica, que inclui a criao de Direitos Industriais explcitos e implcitos, e pela concentrao geogrfica dos servios de interesse coletivo. 76 H, pois, paralelamente ampliao do fenmeno de urbanizao, tendncia metropolizao, as entre as metrpoles maior delas que cabe a parcela maior de novos habitantes, sobretudo no ltimo decnio intercensitrio. 78 ......o fenmeno da macrourbaizao e metropolizao ganhou, nas ltimas duas dcadas,, importncia fundamental: concentrao da populao e da pobreza, contempornea da rarefao rural e da disperso geogrfica das classes mdias; concentrao das atividades relacionais modernas, o que inclui a crise fiscal; involuo metropolitana, com a coexistncia de atividades

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com diversos nveis de capital, tecnologia, organizao e trabalho; maior centralizao da irradiao ideolgica, com a concentrao dos meios de difuso das idias, mensagens e ordens; construo de uma materialidade adequada realizao de objetivos econmicos e socioculturais e com impacto causal sobre o conjunto dos demais vetores. 79 Urge reverte esse quadro para que os estudos metropolitanos brasileiros retomem, em diversos nveis, a busca de interpretaes globais, com base nas realidade do presente, o que supe o conhecimento do perodo histrico atual- o perodo tcnico-cientfico e suas repercusses sobre a sociedade o territrio. Essa linha de reflexes aponta para dois autor aspectos do fenmeno a desmetropolizao e a dissoluo da metrpole nacional.79 Houve, ao longo da histria brasileira quatro momentos do ponto de vista do papel e da significao das metrpoles. Quando o Brasil urbano era um arquiplago, com ausncia de comunicaes fceis entre as metrpoles, estas apenas comandavam uma frao do territrio, sua chamada zona de influncia. Num segundo, h esforos pela formao de um mercado nico, mas a integrao territorial , praticamente, limitada ao Sudeste e Sul. Um terceiro momento quando um mercado nico nacional se constitui. E o quarto momento quando conhece um ajustamento: primeiro expanso e, depois, crise desse mercado, que um mercado nico, mas segmentado, nico e diferente; um mercado hierarquizado e articulado pelas firmas hegemnicas, nacionais e estrangeiras, que comandam o territrio com apoio do Estado. No demais lembrar que o mercado e espao, ou ainda melhor, mercado e territrio, so sinnimos. Um no se entende se, o outro. 89 Com o fim da segunda guerra mundial, a integrao do espao brasileiro e a modernizao capitalista ensejam, em primeiro lugar uma difuso social e geogrfica do consumo em suas diversas modalidades e, posteriormente a desconcentrao da produo moderna, tanto agrcola quanto industrial. Em outro sentido, todavia, h um movimento de concentrao das formas de intercmbio, no nvel nacional e estadual ou regional, tanto no mbito material, quanto no intelectual. A comercializao tende a se concentrar, economicamente e geograficamente, ainda que a pobreza persistente da populao assegure a permanncia de pequenos comrcios e servios,com estabelecimentos dispersos. As novas formas de um trabalho intelectual mais sofisticado, de que dependem a concepo e o controle da produo, so, tambm, concentrados,ainda que outras formas de trabalho intelectual, cada vez mais numerosas,ligadas ao processo direto da produo mas tambm sua circulao, sejam objeto de disperso geogrfica, atribuindo novas funes s cidades de todos os tamanhos. 90 A nova diviso do trabalho territorial atinge, tambm, a prpria regio concentrada, privilegiando a cidade de So Paulo, a respectiva regio metropolitana, e seu entorno, onde a acumulao de atividades intelectuais ligadas nova modernidade assegura a possibilidade de criao de numerosas a atividades produtivas desponta, ambos esses fatos garantindo-lhe preeminncia em relao s demais reas e lhe atribuindo, por isso mesmo, novas condies de polarizao. Atividades modernas presentes em diversos pontos do Pas necessitam de se apoiar em So Paulo para um nmero crescente de tarefas. So Paulo fica presente em todo o territrio brasileiro, graas a esses novos nexos, geradores de fluxos de informao indispensveis ao trabalho produtivo...... desse modo que So Paulo se impe como metrpole onipresente e, por isso mesmo, e ao mesmo tempo, como metrpole irrecusvel pata todo o territrio brasileiro. 90 Agora, a metrpole est presente em toda parte, e no mesmo momento. A definio do lugar , cada vez mais no perodo atual, a de um lugar funcional sociedade como um todo. E,

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paralelamente, atravs das metrpoles, todos as localizaes tornam-se hoje funcionalmente centrais. Os lugares seriam, mesmo, lugares funcionais da metrpole. 90 Mas, ao contrrio do que muitos levados a imaginar e a escrever, na sociedade informatizada atual o espao se dissolve, abrindo lugar apenas para o tempo, nem este se apaga. O que h uma verdadeira multiplicao do tempo, por causa de uma hierarquizao do tempo social, graas a uma seletividade ainda maior no uso das novas condies de realizao da vida social. A simultaneidade entre os lugares no mais apenas a do tempo fsico, tempo do relgio, mas do tempo social, dos momentos da vida social. Mas o tempo que est em todos os lugares o tempo da metrpole, que transmite a todo o territrio o tempo do Estado e o tempo das multinacionais e das grandes empresas. Em cada outro ponto, nodal ou no, da rede urbana ou do espao, temos tempos subalternos e diferenciados, marcados por dominncias especficas. Com isso, nova hierarquia se impe entre lugares, hierarquia com nova qualidade, com bases em diferenciao muitas vezes maior do que ontem, entre os diversos pontos do territrio. 91 Co diferena de grau e de intensidade, todas as cidades brasileiras exibem problemticas parecidas. O seu tamanho, tipo de atividade, regio em que se inserem etc. So elementos de diferenciao, mas em todas ela problemas como os do emprego, da habitao, dos transportes, do lazer, da gua, dos esgotos, da educao e sade, so genricos e revelam enormes carncias. Quanto maior a idade, mais visveis se tornam essas mazelas. Mas essas chagas esto em toda parte. Isso era menos verdade na primeira metade deste sculo, mas a urbanizao corporativa, isto , empreendida sob o comando dos interesses das grandes firmas, constitui um receptculo das conseqncias de uma expanso capitalista devorante dos recursos pblicos, uma vez que estes so orientados para os investimentos econmicos, em detrimento dos gastos sociais. 95 As cidades, e sobretudo, as grandes, ocupam, de modo geral, vastas superfcies, entremeadas de vazios. Nessas cidades espraiadas, caractersticas de uma urbanizao corporativa, h interdependncia do que podemos chamar de categorias espaciais relevantes desta poca: tamanho urbano, modelo rodovirio, carncia de infra-estrutura, especulao fundiria e imobiliria, problemas de transporte, extroverso e periferizao da populao, gerando, graas s dimenses da pobreza e seu componente geogrfico, um modelo especfico de centro-periferia. Cada qual dessas realidades sustenta e alimenta as demais e o crescimento urbano, , tambm, o crescimento sistmico dessas caractersticas. As cidades so grandes porque h especulao e vice-versa; h especulao porque h vazios e vice-versa; porque h vazios as cidades so grandes. O modelo rodovirio urbano fator de crescimento disperso e do espraiamento da cidade. Havendo especulao, h criao mercantil da escassez e o problema do acesso terra e habitao se acentua. Mas o dficit de residncias tambm leva especulao e os dois juntos conduzem periferizao da populao mais pobre, e , de novo, ao aumento da tamanho urbano.As carncias em servios alimentam a especulao, pela valorizao diferencial das diversas fraes do territrio urbano. A organizao dos transportes obedece a essa lgica e torna ainda mais pobre os que devem viver longe dos centros, no apenas porque devem pagar caro seus deslocamentos como porque os servios e bens so mais dispendiosos nas periferias. E isso fortalece os centro em detrimento das periferias, num verdadeiro crculo vicioso. 96 A especulao imobiliria deriva, em ltima anlise, da conjuno de dois movimentos convergentes: a superposio de um stio social ao stio natural e a disputa entre atividades ou pessoas por dada localizao. A especulao se alimenta dessa dinmica, que inclui expectativas. Criam-se stios sociais uma vez que o funcionamento da sociedade urbana transforma

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seletivamente os lugares, afeioando-os s suas exigncias funcionais. assim que certos pontos se tornam mais accessveis, certas artrias mais atrativas e, tambm, uns e outras, mais valorizadas. Por isso, so as atividades mais dinmicas que se instalam nessas reas privilegiadas, quanto aos lugares de residncia, a lgica a mesma, com as pessoas de maiores recursos buscando alojar-se onde lhes parea mais conveniente, segundo os cnones de cada poca, o que tambm inclui a moda. desse modo que as diversas parcelas da cidade ganham ou perdem valor ao longo do tempo. O planejamento urbano acrescenta um elemento de organizao ao mecanismo de mercado. O marketing urbano ( das construes e dos terrenos) gera expectativas que influem nos preos.96 Assim, um primeiro momento do processo especulativo vem com a extenso da cidade e a implantao diferencial dos servios coletivos. O capitalismo monopolista agrava a diferenciao quanto dotao de recursos, uma vez que parcelas cada vez maiores da receita pblica se dirigem cidade econmica, em detrimento da cidade social. A lei da escassez se afirma, ento, com mais fora, e se ampliam as diferenas j existente entre lugares urbanos, do ponto de vista das amenidades. O estabelecimento de um mercado da habitao por atacado1, a partir da presena do Banco Nacional de Habitao e do sistema de crdito correspondente, gera novas expectativas, infundadas para a maioria da populao, mas atuantes no nvel geral. Como isso se d paralelamente expanso das classes medias urbanas e chegada de numerosos pobres cidade, essa dupla presso contribui para exacerbar o processo especulativo. A terra urbana, dividida em loteamento ou no, aparece como promessa de lucro no futuro, esperana justificada pela existncia de demanda crescente. Como as terras apropriadas, mas no utilizadas, so cada vez mais numerosas, a possibilidade de dota-las dos servios requeridos sempre menor. Da, e de novo, uma diferenciao no valor de troca entre as diversas glebas e assim por diante. assim que as extenses incorporadas ao permetro urbano fiquem cada vez maiores. 97 A organizao interna de nossas cidades, grandes, pequenas e mdias, revela um problema estrutural, cuja anlise sistmica permite verificar como todos os fatores mutuamente se causam, perpetuando a problemtica. 97 No Brasil moderno ps-64, conjugam-se como a mo e a luva, as exigncias de insero em nova ordem econmica mundial que se desenha e as necessidades internas de um Estado autoritrio. A integrao dos transportes e das comunicaes, rapidamente modernizados, necessria viso panptica do territrio, , igualmente, condio material para a difuso, alm das regies centrais mais desenvolvidas, de atividades industrias e agrcolas altamente capitalista. 99 Para Florestan Fernandes ( Capitalismo dependente ) , o perodo atual revela um padro de dominao extrema que se d em conjunto com a expanso das grandes empresas corporativas nos pases latino-americanos empresas que trouxeram regio um novo estilo de organizao, de produo e de marketing, com novos padres de planejamento, propaganda de massa, concorrncia e controle interno das economias dependentes pelos interesses externos. Elas representam o capitalismo corporativo ou monopolista, e se apoderam das posies da liderana atravs de mecanismos financeiros, por associao com scios locais, por corrupo, presso ou outros meios - ocupados anteriormente pelas empresas nativas e por seus policy-makers . 102 A unificao, agora fortalecida, do territrio e do mercado responde pelo processo de concentrao da economia,com a constituio de empresas oligopolistas que ampliam, cada vez

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mais, seu raio de ao e seu poder de mercado, integrando ainda mais esse mercado e o prprio territrio. 102 Na fase do capital concorrencial, demandas sociais podiam ser mais facilmente atendidas pelos cofres municipais e, em muitos casos, as burguesias locas tambm participavam, juntamente com o resto da sociedade urbana, do esforo de equipamento social. A demanda de capitais comuns pelas atividades econmicas era relativamente menor. 102 Bem diferente o que se vai passar quando o capitalismo competitivo for cedendo lugar ao capitalismo monopolista, at este se impor. O capital monopolista supe, dentro e fora da cidade, a utilizao de recursos macios. De um lado, preciso dotar as cidades de infra-estruturas custosas, indispensveis ao processo produtivo e circulao interna dos agentes e dos produtos. De outro, para atingir o mercado nacional, exigida uma rede de transportes que assegure a circulao externa. Esse processo concomitante ao de centralizao dos recursos pblicos em mos do governo federal que os utiliza em funo de suas prprias opes. 102

A ideologia desenvolvimentista dos anos 50 e a posterior ideologia do crescimento e do Brasil potncia justificavam e legitimavam a orientao do gasto pblico em benfico de grande empresas cujo desempenho permitiria ao Brasil aumentar suas exportaes para poder se equipar mais depressa e melhor.... As administraes locais viam reduzidos os seus recursos prprios e, ainda por cima, perdiam o poder de deciso sobre os recursos que lhes eram alocados. O essencial dos meios com que contavam era ( e ainda ) destinado aos gastos com a economia, e a prpria indigncia dos cofres municipais aconselhava a atrao de atividades capazes de pagar impostos e desse modo ampliar as receitas locais. 103 Legitimada pela ideologia do crescimento, a prtica da modernizao cria, no territrio como um todo, em particular nas cidades, os equipamentos, mas tambm as normas indispensveis operao racional vitoriosa das grandes firmas, em detrimento das empresas menores e da populao como um todo. Da, em pouco tempo, resultados concomitantes: a extraordinria gerao de riquezas, cada vez mais concentradas,, no contraditria com a enorme produo de pobreza, cada vez mais difundida, enquanto surgem novas classes mdias. Estas so indispensveis operao do sistema, na cidade e no campo, onde se instalam como nervo e instrumento da circulao e como alavanca de uma produo e de um consumo hegemnico, isto , comandados pelas corporaes. 104 Pode-se dizer que nos dois ltimos decnios, o espao nacional conheceu transformaes extensas e profundas. A modernizao o principal elemento motor dessas mudanas, acarretando distores e reorganizaes, variveis segundo os lugares, mas interessando a todo o territrio. 104

No perodo atual da histria, quando as novidades se espalham celeremente em escala mundial, o novo aparece simultaneamente em um grande nmero de lugares, e torna-se temerrio falar de modernizao tardia, como, talvez impropriamente, em outro momento, se falou em capitalismo tardio. Neste ltimo caso, partiu-se de uma comparao com os pases do centro, para afirmar que o capitalismo brasileiro veio muito depois. Se as precedentes vagas de modernizao davam-se no Terceiro Mundo ( e no Brasil tambm), no apenas com defasagens, mas com difuso limitada, tanto na sociedade quanto no territrio, a modernizao atual, baseada na revoluo tcnico -cientifica e, paralelamente, nas transformaes estruturais das bases

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econmicas e sociais do sistema capitalista, conhece difuso mais rpida e mais ampla, tanto na vida social quanto na configurao espacial. 105 No Brasil, grande pelo territrio e seus vastos recursos, portador de populao numerosa, e pas subdesenvolvido mas industrializado, as marcas materiais, sociais e culturais do novo perodo se imprimem com mais fora e com mais rapidez, acarretando resultados mais notveis que em outras naes; grande crescimento, baseado em considervel desenvolvimento material e, como contraponto , no campo social e poltico, uma evoluo negativa, levando ao desenvolvimento simultneo de uma classe mdia relativamente numerosa e de uma extensa pobreza. 106 Legitimada pela ideologia do crescimento, a prtica da modernizao a que vimos assistindo no Brasil, desde o chamado milagre econmico, conduziu o Pas a enormes mudanas econmicas, sociais polticas e culturais, apoiadas no equipamento moderno de parte do territrio e na produo de uma psicoesfera tendente a aceitar essas mudanas como um sinal de modernidade. Tal conjunto, formado pelas novas condies materiais e pelas novas relaes sociais cria as condies de operaes de grandes empresas, nacionais e estrangeiras, que agem na esfera da produo, da circulao e do consumo e cujo papel direto ou por intermdio do poder pblico, no processo de urbanizao e na reformulao das estruturas urbanas,sobretudo das grandes cidades, permite permite falar de urbanizao corporativas. 106

Alis, a modernizao do Pas e do seu territrio no apenas uma preocupao do prprio Pas, mas tarefa de interesse mundial, embora seja a sociedade nacional que deva arcar com esse nus. O equipamento do territrio nacional freqentemente financiado com a conjugao de recursos nacionais e de recursos externos, na forma de emprstimos multilaterais. O Banco Mundial, atento s preocupaes de insero do Pas na nova ordem economia mundial , foi um desses fornecedores de fundos. Essa , talvez uma das razes pelas quais a dvida externa brasileira , que fora de 3,1 bilhes de dlares em 1960 e d 21, 2 bilhes em 1975 passa a 81,3 bilhes em 1983 e a 105b bilhes em 1989. 108 Em primeiro lugar, o arranjo espacial das cidades muda, tanto pelo seu tamanho consideravelmente aumentado, como pelo sua localizao mais dispersa. Mudam, sobretudo, suas funes. As cidades so, de um lado, os elos de uma cooperao e de uma regulao que se devem dar em escala nacional, a servio das atividades com dimenso nacional, isto , as grandes empresas e o Estado. Por isso, devem ser localmente equipadas para o exerccio dessa vocao nacional, indispensvel realizao do modelo nacional adotado. As respectivas tarefas so consideradas prioritrias e as aglomeraes urbanas so preparadas para realiza-las a contento. As demais tarefas, consideradas menos relevantes, agregam-se, por necessidade funcional, mas de forma subordinada, s tarefas hegemnicas. A cidade se define segundo as modalidades regional e da amplitude da respectiva diviso territorial do trabalho. As atividades no-hegemnicas so, em geral, deixados espontaneidade do mercado. De um ponto de vista poltico, as atividades centrais,isto , programadas como condio de xito para o projeto nacional, so as que interessam ao prprio Estado e s corporaes. 108 A produo recente de uma classe mdia mais preocupada com as prticas que com as finalidades, fenmeno precipuamente urbano, tambm um dos dados dessa mentalidade corporativista. As prprias classes inferiores so vtima desse estado de esprito, em sua qualidade de vtima das exigncias de um consumo ainda no satisfeito, seno marginalmente. O

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consumo, alis freqentemente a base de egosmos de grupo ou territoriais e se encontra por trs da defesa til ( e s vezes bem-sucedida) de interesses corporativos. 109 O cidado no raro ensombrecido pelo usurio e pelo consumidor, afastando para muito depois a construo do homem pblico. Da a busca de privilgios em vez de direitos. 109 (...) o poder pblico chamado, nos ltimos trinta anos, a exercer um papel extremamente ativo na produo da cidade. Seguindo o movimento geral do sistema capitalista que consagra concentraes e centralizaes, a cidade do capital concorrencial cede lugar cidade do capital monopolista ou oligopolista (...0 Num primeiro momento, boa parte ( varivel segundo os lugares) da formao do capital geral, devia-se aos prprios atores principais do jogo econmico, que arcavam com uma parcela de responsabilidade na implantao das economias de aglomerao indispensveis ao funcionamento da mquina economia e do organismo social. Numa fase de transio, o poder pblico levado a assumir cada vez mais esses encargos, mas as obras pblicas tambm beneficiam uma parcela considervel da populao e um nmero importante de empresas. NA cidade corporativa, o essencial do esforo de equipamentos primordialmente feito para o servio das empresas hegemnicas; o que porventura interessa s demais empresas e ao grosso da populao praticamente o residual na elaborao dos oramentos pblicos. Isso obedece mais estrita racionalidade capitalista, em nome do aumento do produto nacional, da capacidade de exportao.. 110. Os habitantes urbanos, novos e antigos reclamam por mais servios, mas os negcios, as atividades econmicas tambm necessitam das chamadas economias de aglomerao,isto , dos meios gerais de produo. O oramento urbano no cresce com o mesmo ritmo com que surgem as novas necessidades. A ideologia do desenvolvimento que tanto apreciamos nos anos 50 e sobretudo a ideologia do crescimento reinante desde fins dos anos 60 ajudam a criar o que podemos chamar de metrpole corporativa, muito mais preocupada com a eliminao das j mencionadas deseconomias urbanas do que com a produo de servios scias e com o bem-estar coletivo. 130 Desse modo, o processo de urbanizao corporativa se impe vida urbana como um todo, mas como processo contraditrio opondo parcelas da cidade, fraes da populao, formas concretas de produo,modos de vida, comportamentos. H oposio e complementaridade, mas os aspectos corporativos da vida urbana tendem a prevalecer sobre as formas precedentes das relaes externas e internas da cidade, mesmo quando essas formas prvias, chamadas tradicionais, de realizao econmica e social, interessam a populao mais numerosa e a reas mais vastas. A lgica dominante, entretanto, agora, a da urbanizao corporativa e a da cidade corporativa. 111 O prprio poder pblico torna-se criador privilegiado de escassez; estimula, assim a especulao e fomenta a produo de espaos vazios dentro das cidades, incapaz de resolver o problema da habitao, empurra a maioria da populao para as periferias; e empobrece ainda mais os mais pobres, forados a pagar caro pelos precrios transportes coletivos e a comprar caro bens de um consumo indispensvel e servios essenciais que o poder pblico no capaz de oferecer. O poder pblico, entretanto, no age apenas de forma indireta. Ele tambm atua de forma direta na gerao de problemas urbanos, ainda que prometendo resolve-los. O caso do BNH dava o como instrumento de melhoria das condies de moradia dos habitantes urbanos. Na verdade, esse banco tornou-se, em primeiro lugar, o banco da cidade,a instituio financeira estatal

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destinada a preparar as cidades para melhor exercer seu papel na fase do capital monopolista que se estava implantando. Ele iria realizar essa tarefa mediante utilizao de recursos arrecadados junto a todos os trabalhadores atravs de suas poupanas voluntrias e tambm de FGTS, constante de um porcentual dos salrios e mensalmente recolhido pelos empregados. 112 A modernizao da economia, com a excluso dos trabalhadores considerados excedentrios, paga pelo conjunto da classe trabalhadora. E os recursos restantes so sobretudo utilizados com duas distines: 1) o equipamento das cidades, renovando seu estoque de infra-estrutura para acolhimento mais cabal de atividades modernas; 2) o financiamento da construo de apartamentos e casas sobretudo para as classes mdias, j que os programas de atendimento s populaes de baixa renda somente foram mais largamente desenvolvidos a partir do final da dcada de 70. Os conjuntos residenciais levantados com dinheiro pblico mas por firmas privadas- para as classes mdias baixas e os pobres se situam quase invariavelmente nas periferias urbanas, a pretexto dos preos mais acessveis dos terrenos,levando, quando havia presses, a extenso de servios pblicos, como luz, gua, s vezes esgotos, pavimentao e transporte custeados, tambm com os mesmos recursos.... Produzem-se novos vazios urbanos, ao passo que a populao necessitada de habitao, mas sem poder pagar pelo seu preo nas reas mais equipadas, deve deslocar-se para mais longe, ampliando o processo de periferizao.112 Todo melhoramento numa rea pobre faz dela o teatro de um conflito de interesses com as classes mdias em expanso, para no falar das classes altas. A rapidez com que se instala o processo de verticalizao, tem como paralelo um processo de suburbanizao. Como o nmero de pobres se expande ainda mais depressa, h presso pela terra tambm entre os pobres e o resultado uma expanso geogrfica da cidade, periferizao que se d com a criao de vazios, graas ao modelo rodovirio. um equvoco pensar que problemas urbanos podem ser resolvidos sem soluo da problemtica social. esta que comanda e no o contrrio. 113 A planificao urbana, entretanto, sobretudo,voltada para os aspectos da cidade cujo tratamento agrava os problemas, em vez de resolve-los, ainda que primeira vista posa ficar a impresso de resultado positivo. Trata-se de planificao sobretudo tcnica, preocupada com aspectos singulares e no com a problemtica global, planificao mais voltada para o chamado desenvolvimento econmico quando o que se necessita de uma planificao sociopolitica que esteja de um lado preocupada com a distribuio dos recursos sociais e, de outro, consagre os instrumentos polticos de controle social, capazes de assegurar a cidadania plena. 113 A eficcia das grandes empresas vem de sua presena em lugares estratgicos do espao total, pontos escolhidos por elas mesmas, dos quais exerce sua ao sobre outros pontos ou zonas, diretamente ou por intermdio de outras firmas. A ao espacial das corporaes no necessita da continuidade espacial ( isto , de recorte propriamente geogrfico), mas da continuidade temporal. 115 Sabemos como diferenas de enfoque conduzem a diferenas de resultado. O nosso enfoque aqui ainda o que arduamente defendemos de longa data: o do espao como instncia social, conjunto inseparvel da materialidade e das aes do homem. Devemos, desse modo,levar em conta as tendncias atuais de reorganizao do territrio, no mundo inteiro e no Brasil de forma particular, o que obriga a levar em conta as caractersticas do que chamamos de meio tcnicocientfico, isto , o meio geogrfico tal como hoje se d, ou tende a ser, e em cuja elaborao a contribuio da cincia, da tecnologia e da informao cada vez maior. 118

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Esse meio tcnico-cientfico configura o que hoje se poderia chamar de Brasil emergente, um Brasil diferente daquele onde cincia, tecnologia e informao ainda no eram caractersticas fundamentais do territrio, nem dados essenciais de explicao do acontecer econmico social e poltico. 118 No Brasil contemporneo, a mobilidade das pessoas aumenta, paralelamente a muitas outras formas de exacerbao do movimento, e como resultado de uma diviso social do trabalho mais intensa. Eram 8,5% de brasileiros ausentes de seu estado de nascimento em 1940, 10,3% em 1959, 18,25 em 1860, 31,6% em 1970, 38,9% em 1980. Mais da metade dos brasileiros estariam vivendo, no fim do decnio, fora dos seus lugares de origem. 119 A urbanizao crescente uma fatalidade neste Pas,ainda que essa urbanizao se d~e com o aumento do desemprego, do subemprego e do emprego mal pago e a presena de volantes nas cidades mdias e nas cidades pequenas. Este ltimo um dado normal do novo mercado de trabalho unificado, bias-frias etc. no so recrutados por intermedirios. Esse mercado urbano unificado e segmentado leva a novo patamar a questo salarial, tanto no campo como na cidade. O fato de que os volantes vivendo na cidade sejam ativos na busca por melhores salrios, constitui tambm dado dinmico na evoluo do processo de urbanizao,como no processo poltico do Pas. 121 Por conseguinte, os prximos anos, quem sabe at os prximos decnios, marcaro ainda um fluxo crescente de pobres para as grandes cidades, ao passo que as cidades mdias sero o lugar dos fluxos crescentes das classes mdias. Em resumo, a metropolizao se dar tambm como involuo, enquanto a qualidade de vida melhorar nas cidades mdias. 123 Por outro lado, o futuro urbano tambm vai depender da forma que tomar a flexibilizao tropical em nossas cidades, em contraponto decantada flexibilizao oriunda do progresso tecnolgico, criadora, alis de rigidez. Em nosso Pas, j conhecemos desde muito uma flexibilizao tropical do trabalho, que o mecanismo pelo qual se criam tantos empregos urbanos, evitando a exploso das cidades. A forma como se d o processo de involuo urbana assegura trabalho para centenas de milhares de pessoas dentro das cidades. Essa uma pergunta crucial: como ser o trabalho nos prximos anos? Da forma como ele for, depender a forma como a urbanizao se dar, tambm porque a pode estar a semente de nova conscincia poltica. Ora, a vontade poltica o fator por excelncia das transfuses sociais. Nesse particular, as tendncias que assume a urbanizao neste fim de sculo aparecem como dado fundamental para admitimos que o processo ir adquirir dinmica poltica prpria, estrutural, apontando para uma evoluo que poder ser positiva se no for brutalmente interrompida. 126

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