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  • Mario Quintana - Caderno HCADERNO H

    Mario Quintana

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    Nota: na edio impressa desta obra, a numerao das pginas encontra-sena parte superior das folhas.

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    Abas do livro

    Aba esquerda:

    O Caderno H foi iniciado na"Provncia de So Pedro", por volta de1940. Da colaborao mantida naquelarevista, Mario Quintana selecionou ostrechos, as coisas - diz ele - queintegraram o Sapato Florido, um dosseus livros de maior xito. Mais tarde,as anotaes do Caderno passarampara o "Correio do Povo", ondeaparecem at hoje sob o titulo DoCaderno H. A aceitao que elas tmmerecido levou a Editora Globo acoleitar do autor uma segunda seleode matria, que a que vai agorapublicada neste volume. Indagado sobre a origem dadenominao Caderno H, Quintanaesclarece: no significa nada, um nomecomo qualquer outro, no tem nenhumparentesco com Hora H. "Sempre preciso batizar pessoas e livros, no preciso? Pois o Caderno no ia serexceo." Quanto ao gnero, cabealgum comentrio. A ficha catalogrficaque abre o volume o d como poesiaepigramtica e, apesar do sentido maisou menos restrito que a expressoadquiriu no dia de hoje, o prprio autor a prefere a prosa potica, como jtem sido rotulado o material quecompe o seu Caderno. Prosa potica, defato, no diz bem: d a impresso deprosa enfeitada, rebuscada, cheia debrilhos - exatamente o contrrio daprosa de Quintana, to limpa, todepurada, e por isso mesmo tantas vezesa constituir exatos e esplndidospoemas. No seu mais amplo significado,pode-se falar aqui de epigramas, pois

    (Continua na 2 aba)

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    Aba direita:

    Pgina 1

  • Mario Quintana - Caderno Ho que vemos no so notas puramentelricas (at as h polmicas, ounostalgicamente rememorativas, e possivelse dizer tambm sem risco de faltar verdade, que estamos diante depequenas crnicas e contos, nos quaisse misturam sempre em boa dose afantasia e o "humour". Fique, pois, olivro oficialmente classificado como depoesia epigramtica. (O ideal, porsimples e cmodo, e sobretudo por definira notvel pessoalidade do que vemnestas pginas, sabemos que Seriaestender a tudo do primeiro aoderraceiro pargrafo - o mesmo termoquintanares que usou Manuel Bandeiraem memorvel saudao ao poeta. Euma palavra rpida e feliz: diz que istoaqui simplesmente Quintana.Ao leitor, uma s recomendao:o Caderno H no tem continuidade edeve ser lido como foi escrito - aolu das horas, "que no so apenaspassageiras, mas de humor variado". Epode ser aberto em qualquer ponto.Aberto e interrompido. No Quintanamesmo quem assegura o valor daspausas? "Livro bom aquele de ques vezes interrompemos a leitura paraseguir - at onde? - umaentrelinha, Leitura interrompida? No. Esta a verdadeira leitura continuada." amelhor maneira, dizemos ns, de seaproveitar o Caderno H - livro contidona palavra e penetrante no dizer,prdigo em refletida ironia, alegre,melanclico s vezes, ora impiectoso e oraamvel, sempre novo, inesperado eelegante, e sempre, a cada linha e acada pensamento, luminado de poesia.

    Publicao daEDITORA GLOBO

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    CADERNO H

    Mario Quintana

    Aqui o poeta funde em poesia todo o seuestar entre as miudezas (ou as pequenasgrandezas) do universo: ri, pensa,divaga, espanta, sensibiliza. O mundo detodos ns ganha os benefcios da revisoponderada. Um olhar transfiguradorcai sobre as coisas e atravs dele vemosrevelada uma nova face. So asverdadeiras "coisas" do mgico Quintana,nas linhas e (principalmente) nasentrelinhas do Caderno H.

    Pgina 2

  • Mario Quintana - Caderno H

    Coleo Sagitrio

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    Obras de Mario Quintana

    A RUA DOS CATAVENTOSCANESSAPATO FLORIDOO APRENDIZ DE FEITICEIROESPELHO MGICOPOESIASANTOLOGIA POTICA

    FICHA CATALOGRFICA

    [Preparada pelo Centro de Catalogao-na-fonte,Cmara Brasileira do Livro, SP]

    Quintana, Mrio, 1906-067c Caderno H. Porto Alegre, Globo, 1973.p. (Sagitrio) 1. Epigramas brasileiros 2. Poesiabrasileira 1. Ttulo. 73-0669 CDD-869.915 -869.985CADERNO H

    ndices para o catlogo sistemtico:1 . Epigramas Sculo 20 Literatura brasileira 869.985 2. Pensamentos Sculo 20 Literatura brasileira 869.985 3. Poesia Sculo 20 Literatura brasileira 869.915 4. Sculo 20 Epigramas Literatura brasileira 869.985 5. Sculo 20 Pensamentos Literatura brasileira 869.985 6. Sculo 20 Poesia Literatura brasileira 869.915

    Copyright 1973 by Mario Quintana

    Capa de Jussara Gruber Schmidt

    Planejamento grfico de Maria Las Fett Lima

    Direitos exclusivos de edio, em lnguaportuguesa, da Editora Globo S. A.

    Pgina 3

  • Mario Quintana - Caderno HPorto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil

    CADERNO H

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    MASTIGA-ME DEVAGARINHO

    "Deu um suspiro, retesou-se no assento e tombou."

    Tomei nota da frase para estudar o que havia deerrado nela, ou em mim, visto que a achei de umcmico irresistvel. A notao e seqncia dos fatos estava exata, oestilo enxuto. Como era, ento, que a gente ria tanto, emvez de chorar? Mas agora, passando a limpo a referida transcrio(de um de nossos clssicos), no atino como nodescobri logo a coisa. O pique estava na rpida e por assimdizer convulsiva sucesso dos gestos, como naquelesjornais cinematogrficos de antigamente. O suspenserequer suspenso do tempo, emoo em cmara lenta.O suspense o striptease do horror. "Mastiga-me devagarinho!" - dizem os viciados, noescuro das salas de projeo, enquanto no Outro Mundo,ou quem sabe se logo ali por detrs da tela, Sacher-Masoch e o Marqus de Sade esto danando os dois emvagarosa pavana...

    Muito bonito, mas no bem assim. "Suspense",por culpa de Mestre Hitchcock, tem-se aplicadounicamente a essas taradezas. O que eu queria dizer quetodas, todas as coisas tm de ser dosadas com suspense,para poderem impressionar e encantar.

    Mestra de estilo, feiticeira da arte narrativa, eraaquela negra velha que nos contava histrias empequeninos. Ficvamos literalmente no ar, nemrespirvamos quando ela, encompridando a corda, diziaarrastadamente esta longa frase, cheia de nada e de tudo:

    - E vai da o prncipe pegou e disse...

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    DELICIA

    O que tem de bom uma galinha assada que ela no cacareja.

    ACIDENTES

    O despertador um acidente de trfego do sono.Mas um s. Ao passo que durante o dia somos a todahora sinistrados pelos telefones.

    Pgina 4

  • Mario Quintana - Caderno HBARULHO & PROGRESSO

    O progresso a insidiosa substituio da harmoniapela cacofonia.

    A HERANA

    Se eu fosse um iluminado, com que habilitaespoderia eu distribuir a minha carne e o meu sangue?Apenas diria aos discpulos famintos: - Eis aqui os meus ossos.

    INCORRIGVEL

    O fantasma um exibicionista pstumo.

    ADVERTNCIA

    Esse leo da Metro - quase fono e que pareceter perdido toda a sua leonidade - o maior exemplocontra o uso das boletas.

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    O MUNDO DO SONHO

    O mundo do sonho silencioso como o mundosubmarino. Por isso que faz bem sonhar.

    O MUNDO DE DEUS

    Aquele astronauta americano que anunciou terencontrado Deus na lua no fim de contas menossimplrio do que os primeiros astronautas russos, os quaisdeclararam, ao voltar, no terem visto Deus no cu. Porque, se Deus paz e paz silncio afinal, deveEle estar mesmo muito mais na lua do que nasmetrpoles terrenas. E, pelo que me toca, a verdade que nunca pudeesquecer estas palavras de um personagem de Balzac:"O deserto Deus sem os homens".

    O RELGIO

    O relgio de parede numa velha fotografia - estparado?

    COISAS DO TEMPO

    Com o tempo, no vamos ficando sozinhos apenaspelos que se foram: vamos ficando sozinhos uns dosoutros.

    Pgina 5

  • Mario Quintana - Caderno H

    LGICA & LINGUAGEM

    Algum j se lembrou de fazer um estudo sobre aestilstica dos provrbios? Este, por exemplo: "Quemcospe para o cu, na cara lhe cai". Tal desarranjosinttico faria a antiga anlise lgica perder de sbito arazo.

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    Mas que movimento, que vida, que economia demsculos: a gente chega a acompanhar com a cabeaa trajetria da frase! Espero que a anlise lgica do meu tempo tenhasido substituida por uma anlise psicolgica. Ah!aquela preocupao dos velhos lentes, de nos mandarem pros Lusadas na ordem direta... Vai-se ver, elesinconfessavelmente deviam estar tentando corrigir o VelhoBruxo!

    SIMPLIFIQUEMOS

    Sempre me pareceu que as antigas gramticascomplicavam muito as coisas. L diziam elas, porexemplo: "Coloca-se o pronome oblquo depois do verbo".Muito bem! O diabo que se seguia uma lista de 15ou 16 excees. Ora, ficaria muito mais fcil sedissessem: "o pronome oblquo colocado antes do verbo,exceto quando este inicia uma frase". E olhe l!

    O QUE ACONTECE COM AS CRIANAS

    Aprendi a escrever lendo, da mesma forma que seaprende a falar ouvindo. Naturalmente, quase semquerer, numa espcie de mtodo subliminar. Em meustempos de criana, era aquela encantao. Lia-secontinuamente e avidamente um mundaru de histrias (e noestrias) principalmente as do Tico-Tico. Mas lia-secorrido, isto , frase aps frase, do princpio ao fim. Ora, as crianas de hoje no se acostumam a lercorrentemente, porque apenas olham as figuras dessashistrias em quadrinhos, cujo "texto" se limita asimples frases interjetivas e assim mesmo muita vezincorretas. No fundo, uma fraseologia de guinchos e uivos.uma subliteratura de homem das cavernas.

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    Exagerei? Bem fei