mrio quintana sapato florido

Download Mrio Quintana Sapato Florido

Post on 29-Dec-2015

110 views

Category:

Documents

4 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

  • Mrio Quintana

    Sapato florido

  • Orelhas do livro

    Orelha esquerda:

    Publicado em 1948, Sapato Florido o terceiro livro de Mario Quintana.

    Nele, o poeta faz uso da prosa potica, que, como o nome indica, um

    gnero limtrofe entre as duas formas de expresso. Em um s verso, em uma

    pequena historieta ou ainda em breves reflexes, Quintana comprova sua

    inclinao para o coloquial, para a palavra liberta de medidas, traos que

    identificaro para sempre sua produo.

    No conjunto da obra de Quintana, este um livro singular no qual se

    exprime um particular entendimento dos fatos, dos costumes e uma intuitiva

    compreenso dos homens e da vida.

    Tania Franco Carvalhal

    Orelha direita:

    Esta nova edio das obras de Mario Quintana no se limita mudana do

    projeto grfico. Coordenada por Tania Franco Carvalhal, uma das maiores

    especialistas na obra do poeta gacho, responsvel tambm pela fixao do

    texto, a presente reedio recupera a forma original dos primeiros livros, na

    seqncia em que foram publicados.

    O leitor tem em mos, portanto, o mesmo Quintana que cativa leitores h

    mais de sessenta anos, agora em verso definitiva.

  • Coleo Mario Quintana

    Copyright 1994 by Elena Quintana

    Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta edio pode ser

    utilizada ou reproduzida - em qualquer meio ou forma, seja mecnico ou

    eletrnico, por fotocpia, gravao etc.-, nem apropriada ou estocada em

    sistemas de bancos de dados sem a expressa autorizao da editora.

    Reviso: Ana Maria Barbosa, Maria Sylvia Corra,

    Maria Slvia Mouro Netto

    ISBN 8S-250-3553-X

  • Sumrio

    Entre as ruas e a estrela Aldebaran

    Das metamorfoses

    O milagre

    Epgrafe

    Da paginao

    Os vira-luas

    Momento

    Bar

    O estranho caso de Mister Wong

    Cho de outono

    A vingana

    Purssima

    Objetos perdidos

    Provrbio

    Horror

    Triste poca

    Arte de fumar

    Do indito

    Telegrama a Lin Yutang

    Crise

    Meu trecho predileto

    Paisagem de aps-chuva

    Prosdia

    Clopt! Clopt!

    S para si

    A companheira

    Feliz!

    Janela de abril

    Virao

    Carreto

    O paraso perdido

    Sinais dos tempos

    Parbola

  • Os mascaras

    O poema

    Comunho

    A adolescente

    Passarinho empalhado .66

    Gare

    Estufa

    Aventura no parque

    O espio

    Apario

    Inferno

    A bela e o drago

    Eplogo

    Quem bate?

    Trgico acidente de leitura

    Envelhecer

    Exegese

    Perversidade

    Fatalidade

    Quien supiera escribir!

    Que haver no cu?

    Cntico dos cnticos

    Velha histria

    Da dvida

    Do tempo

    Intercmbio

    A princesa

    O cachorro

    Da humilde verdade

    Mudana de temperatura

    Boca da noite

    Est na mesa

    Cozinha

    Hai-Kai da cozinheira

    Mentiras

    Mentira?

    Noturno

    Ps de fora

    Sono

  • Interldio

    Antemanh

    Ouverture

    O despertar do egotista

    O despertar dos amantes

    Viver

    O vento

    Passeio

    Calada de vero

    Construo

    Da cor

    Topografia

    Viagem

    Pequenos tormentos da vida

    O susto

    Cruel amor

    Os fantasmas do passado

    As falsas recordaes

    Ventura

    Reminiscncias

    Comentrio ouvido num bonde

    Dos velhos hbitos

    Mangraff

    Histria

    RBTD

    O recurso

    Apocalipse

    Ananias

    O desinfeliz

    O misantropo

    Triste mastigao

    Solo

    Noturno da viao frrea

    Tableau!

    Do sobrenatural

    Desespero

    O sapo verde

    O Cgado

    Fil

  • O lampio

    Estampa

    Crianas gazeando a escola

    Conto cruel

    Entre as enormes runas

    O Anjo Malaquias

    Bibliografia

    Cronologia

  • Entre as ruas e a estrela Aldebaran

    Armindo Trevisan

    Foi o prprio poeta quem se preocupou em desarmar o leitor que poderia

    ficar desnorteado com a originalidade de sua nova produo potica em Sapato

    florido. Apelou para o humor de um clssico: Molire. Na epgrafe da obra l-

    se:

    Sr. Jourdain:

    - No, eu no quero nem prosa nem verso.

    Mestre de filosofia:

    - preciso que seja uma ou outra coisa.

    Sr. Jourdain:

    - Por qu?

    (O gentil-homem burgus. Ato II, Cena Iv).

    Como classificar, efetivamente, o eros potico de tal livro? Trata-se de uma

    coletnea, na qual textos de diversa ndole se sucedem aparentemente sem nexo

    algum. Falta-lhes o elemento reiterativo, noutras palavras, o verso, que a

    repetio de ritmo e repetio de sonoridades verbais. Escreveu Fernando

    Pessoa:

    A pausa de fim de verso independente do sentido, e to ntida como

    se ali houvesse pontuao. (...) A poesia assim a prosa feita msica, ou a prosa

    cantada; o artifcio da msica conjurado com a naturalidade da palavra. (...)

    Mais tarde, dispensa-se essa base musical, mas, para que a guia no falte,

    estabelece-se um sistema de referncias pelo qual se sabe onde termina o verso,

    e esse sistema a rima. (Fernando Pessoa. Obras em prosa. Rio de Janeiro: Editora

    Nova Aguilar, 1995, p. 274.)

    Ora, leitores desinformados, ou no habituados poesia dos anos 40,

    estranhariam a ausncia de ambas as coisas no livro de Quintana. Alis, ele

    mesmo se encarregou de brincar com o leitor, em certo poema do livro:

    Juquinha estava lendo, em voz alta, 'A Confederao dos Tamoios'.

  • Tarararararar, tarararararar,

    Tarararararar, tarararararar

    L pelas tantas, Gabriela deu o estrilo:

    - Mas no tem rima!

    Sensao. Ningum parava de no acreditar. Juquinha, desamparado, l s

    pressas os finais dos ltimos versos... qurulo... branco.., tuba... inane... vaga...

    infinitamente...

    Meu Deus! Como poderia ser aquilo?!

    - A rima deve estar no meio, - diz, sentencioso o major Pitaluga.

    E todos suspiraram, agradecidos. (p. 113)

    Sim, o poeta sabia que seus novos poemas iriam causar sensao, porque

    os hbitos tradicionais estavam to arraigados nas pessoas que estas no iriam

    descobrir facilmente neles a poesia. Tratava-se disso: de uma nova poesia, a da

    prosa sem verso e sem rima, diversa da prosa-prosa. Mas seria isso uma

    inveno pessoal de Quintana?

    O autor de Sapato florido sabia que ningum pai de si mesmo. Os

    verdadeiros inovadores tinham sido dois poetas franceses, como esclareceu

    Aurlio Buarque de Holanda no prefcio de sua traduo de Pequenos poemas

    em prosa de Charles Baudelaire:

    Mais de 10 anos levou (Baudelaire) na elaborao de tais poemas em

    prosa, gnero de que, na opinio mais generalizada, so ele e seu antecessor

    Aloysius Bertrand os criadores. (Charles Baudelaire. Pequenos Poemas em Prosa. 2

    ed. Rio de Janeiro: Civilizao Brasileira, 1965, p. 4.)

    Estamos persuadidos de que Quintana foi buscar em Baudelaire a sua

    inspirao para Sapato florido. H textos do poeta francs que se assemelham

    aos de Quintana, ou antes - naturalmente - textos de Quintana que so

    semelhantes, no esprito e at no estilo, aos do autor de Flores do Mal.

    Por exemplo:

    Aquele que olha, da rua, atravs de uma janela aberta, jamais v tantas

    coisas como quem olha para uma janela fechada. Nada existe de mais profundo,

    mais misterioso, mais fecundo, mais tenebroso mais deslumbrante, que uma

    janela iluminada por uma lamparina, O que se pode ver ao sol nunca to

    interessante como o que acontece por tr{s de uma vidraa. (Idem, p. 111.)

    Outro exemplo de Baudelaire:

    E, reentrando sozinho em casa, a essa hora em que os conselhos da

    Sabedoria j no so abafados pelos zumbidos da vida exterior, disse ele entre

    si: - Tive hoje, em sonho, trs domiclios, onde encontrei igual prazer, Por que

  • constranger o corpo a mudar de lugar se a alma viaja to clere? E de que serve

    executar projetos, se o projeto em si mesmo um gozo suficiente? (Idem, p. 71.)

    Sem querer forar as coisas, parece-nos descobrir a uma aproximao

    entre o texto de Baudelaire e o seguinte texto de Quintana: Amar mudar a

    alma de casa.

    No pretendemos minimizar a originalidade de Quintana: so

    aproximaes, afinidades eletivas, desenvolvimentos de um gnero que, mesmo

    inventado por algum, no de ningum. Ou negaramos a S de Miranda e a

    Cames a genialidade por que no foram eles os inventores do soneto?

    Existem outras afinidades entre Quintana e Baudelaire: uma delas, as

    nuvens. Escreve Quintana:

    As nicas coisas eternas so as nuvens (p. 29)

    Baudelaire:

    Ento! a que que tu amas, excntrico estrangeiro?

    - Amo as nuvens.., as nuvens que passam... longe... l muito longe.., as

    maravilhosas nuvens (Idem, p. 9.)

    Falar em confluncias (em vez de coincidncias), como o prprio Quintana

    o fez, no diminuir a verdadeira criatividade do autor de Sapato florido.

    Ainda que na dedicatria a Arsne Houssaye, Baudelaire tinha deixado claro

    que lhe estava enviando uma pequena obra da qual ningum poderia lhe

    dizer, sem injustia, que no tem p nem cabea: tudo nela ao contrrio, ao

    mesmo tempo cabea e p, alternativa e reciprocamente, (Idem, p. 7.) certo

    que alguns poemas de Quintana foram mais alm dos de Baudelaire. isso,

    precisamente, o que d ao poeta gacho um lugar parte na literatura

    brasileira,