mario quintana - poemas

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O LTIMO POEMA Enquanto me davam a extrema-uno, Eu estava distrado... Ah, essa mania incorrigvel de estar sempre pensando noutra coisa! Alis, tudo sempre outra coisa - segredo da poesia E, enquanto a voz do padre zumbia como um besouro, Eu pensava era nos meus primeiros sapatos Que continuavam andando, que continuam andando, At hoje Pelos caminhos deste mundo. Mrio Quintana Preparativos de Viagem

Introduo: Mrio Quintana um importante poeta no cenrio cultural brasileiro. Soube capturar como ningum a poesia do cotidiano e p-la no papel. Seus poemas nos surpreendem e enternecem! Organizei esse e-book que enviarei meus amigos com as minhas poesias preferidas de Quintana como forma de homenage-lo! Poeta! Deves estar no cu escrevendo poesias para Deus e teus sapatos (na forma de tuas poesias) seguem andando entre ns. Lenise Marques fevereiro de 2.007. Agradeo preciosa assessoria do amigo Pierino Bonifazio sem a qual este e-book no estaria completo. Para perfeita visualizao do e-book ajuste o zoom do Word para 75%. Breve Biografia: Mario Quintana (Alegrete RS, 1906 - Porto Alegre RS, 1994) estudou em colgio militar, em Porto Alegre, de 1919 a 1924.

Em 1919, foi colaborador na revista Hyloea, dos alunos do colgio. Em 1926 ganhou prmio em concurso de contos do Jornal Dirio de Notcias. No mesmo ano, trabalhou na Livraria do Globo. Entre 1929 e 1932, foi redator do jornal O Estado do Rio Grande. Na poca, publicou poemas na Revista do Globo e no jornal Correio do Povo. Nos anos seguintes, trabalhou como tradutor (de 1936 a 55, traduziu para a Editora Globo ningum sabe quantos ttulos.) e colaborador em peridicos. Seu primeiro livro de poesia, A Rua dos Cataventos, foi publicado em 1940. Seguiram-se Canes (1946), Sapato Florido (1948), O Batalho das Letras (1948). Em 1966 recebeu o Prmio Fernando Chinaglia de melhor livro do ano por Antologia Potica. Destacam-se em sua obra potica os livros P de Pilo (1975), Apontamentos de Histria Sobrenatural (1976), Quintanares (1976), Ba de Espantos (1986), Preparativos de Viagem (1987), Velrio sem Defunto (1990). Em 1981, recebeu o Prmio Machado de Assis e, em 1981, o Prmio Jabuti de Personalidade Literria do Ano.

Pertencente segunda gerao do Modernismo, Mrio Quintana incorporou em sua poesia o bomhumor, o coloquialismo e a brevidade caractersticos das vanguardas modernas. De sua vida particular sabe-se pouco, foi sempre um solitrio por opo e morou a maior parte de sua vida em penses e hotis. Morou durante muitos anos no Hotel Magestic em Porto Alegre que foi transformado na Casa de Cultura Mrio Quintana. Para alegria do poeta, a Casa de Cultura foi inaugurada com Mrio ainda vivo e presente na cerimnia de inaugurao. Faleceu, em Porto Alegre, no dia 5 de maio de 1994, prximo aos seus 88 anos.

Cano da Primavera

(Para rico Verssimo) Primavera cruza o rio Cruza o sonho que tu sonhas. Na cidade adormecida Primavera vem chegando. Cata-vento enlouqueceu, Ficou girando, girando. Em torno do cata-vento Dancemos todos em bando. Dancemos todos, dancemos, Amadas, Mortos, Amigos, Dancemos todos at No mais saber-se o motivo... At que as paineiras tenham Por sobre os muros florido. Mrio Quintana Canes

O POEMA Um poema como um gole dgua bebido no escuro. Como um pobre animal palpitando ferido. Como pequenina moeda de prata perdida para sempre na floresta noturna. Um poema sem outra angstia que a sua misteriosa condio de poema. Triste. Solitrio. nico. Ferido de mortal beleza. Mrio Quintana O Aprendiz de Feiticeiro

Viver to s de momentos Como estas nuvens do cu... E s ganhar, toda a vida, Inexperincia... esperana... E a rosa louca dos ventos Presa copa do chapu. Nunca ds um nome a um rio: Sempre outro rio a passar. Nada jamais continua, Tudo vai recomear! E sem nenhuma lembrana Das outras vezes perdidas, Atiro a rosa do sonho Nas tuas mos distradas... Mario Quintana Canes

CANO DO DIA DE SEMPRE (Para Norah Lawson) To bom viver dia a dia... A vida assim, jamais cansa...

I - A RUA DOS CATAVENTOS Escrevo diante da janela aberta. Minha caneta cor das venezianas: Verde!... E que leves, lindas filigranas Desenha o sol na pgina deserta! No sei que paisagista doidivanas Mistura os tons... acerta... desacerta... Sempre em busca de nova descoberta, Vai colorindo as horas quotidianas... Jogos da luz danando na folhagem! Do que eu ia escrever at me esqueo... Pra que pensar? Tambm sou da paisagem... Vago, solvel no ar, fico sonhando... E me transmuto... iriso-me... estremeo... Nos leves dedos que me vo pintando! Mrio Quintana

II A RUA DOS CATAVENTOS Dorme, ruazinha... tudo escuro... E os meus passos, quem que pode ouvi-los? Dorme o teu sono sossegado e puro, com teus lampies, com teus jardins tranqilos... Dorme..no h ladres, eu te asseguro... Nem guardas para acaso persegui-los... Na noite alta, como sobre um muro, As estrelinhas cantam como grilos... O vento est dormindo na calada, O vento enovelou-se como um co... Dorme, ruazinha...no h nada... S os meus passos...Mas to leves so Que at parecem, pela madrugada, Os da minha futura assombrao... Mrio Quintana

III- A RUA DOS CATAVENTOS Quando meus olhos de manh se abriram, Fecharam-se de novo, deslumbrados: Uns peixes, em reflexos doirados, Voavam na luz: dentro da luz sumiram-se... Rua em rua, acenderam-se os telhados. Num claro riso as tabuletas riram. E at no canto onde os deixei guardados Os meus sapatos velhos refloriram. Quase que eu saio voando cu em fora! Evitemos, Senhor, esse prodgio... As famlias, que haviam de dizer? Nenhum milagre permitido agora... E l se iria o resto de prestgio Que no meu bairro eu inda possa ter!... Mario Quintana

XV - A RUA DOS CATAVENTOS (Para rico Verssimo) O dia abriu seu pra-sol bordado De nuvens e de verde ramaria. E estava at um fumo, que subia, Mi-nu-ci-o-sa-men-te desenhado. Depois surgiu, no cu azul arqueado, A Lua - a Lua! - em pleno meio-dia. Na rua, um menininho que seguia Parou, ficou a olh-la admirado... Pus meus sapatos na janela alta, Sobre o rebordo... Cu que lhes falta Pra suportarem a existncia rude! E eles sonham, imveis, deslumbrados, Que so dois velhos barcos, encalhados Sobre a margem tranqila de um aude... Mrio Quintana

UMA ALEGRIA PARA SEMPRE (Para Elena Quintana) ASTROLOGIA Minha estrela no a de Belm: A que, parada, aguarda o peregrino. Sem importar-se com qualquer destino A minha estrela vai seguindo alm... - Meu Deus, o que que esse menino tem?J suspeitavam desde eu pequenino. O que eu tenho? uma estrela em desatino... E nos desentendemos muito bem! E quando tudo parecia a esmo E nesses descaminhos me perdia Encontrei muitas vezes a mim mesmo... Eu temo uma traio do instinto Que me liberte, por acaso, um dia Deste velho e encantado Labirinto Mrio Quintana Ba de Espantos As coisas que no conseguem ser olvidadas continuam acontecendo. Sentimo-las como da primeira vez, sentimo-las fora do tempo, nesse mundo do sempre onde as datas no datam. S no mundo do nunca existem lpides... Que importa se depois de tudo - tenha "ela" partido, casado, mudado, sumido, esquecido, enganado, ou que quer que te haja feito, em suma? Tiveste uma parte da sua vida que foi s tua e, esta, ela jamais a poder passar de ti para ningum. H bens inalienveis, h certos momentos que, ao contrrio do que pensas, fazem parte de tua vida presente e no do teu passado. E abrem-se no teu sorriso mesmo quando, deslembrado deles, estiveres sorrindo a outras coisas. Ah, nem queiras saber o quanto deves ingrata criatura... A thing of beauty is a joy for ever

- disse, h cento e muitos anos, um poeta ingls que no conseguiu morrer. Mrio Quintana Ba de e Espantos

POEMAS O grilo procura no escuro o mais puro diamante perdido. O grilo com as suas frgeis britadeiras de vidro perfura as implacveis solides noturnas.

XXI - DAS ILUSES Meu saco de iluses, bem cheio tive-o. Com ele ia subindo a ladeira da vida. E, no entanto, aps cada iluso perdida... Que extraordinria sensao de alvio! Mrio Quintana Espelho Mgico

E se o que tanto busca s existe em tua lmpida loucura - que importa? isso exatamente isso o teu diamante mais puro! Mrio Quintana Apontamentos de Histria Sobrenatural

EU QUERIA TRAZER-TE UNS VERSOS MUITO LINDOS Eu queria trazer-te uns versos muito lindos colhidos no mais ntimo de mim... Suas palavras seriam as mais simples do mundo, porm no sei que luz as iluminaria que terias de fechar teus olhos para as ouvir... Sim! Uma luz que viria de dentro delas, como essa que acende inesperadas cores nas lanternas chinesas de papel. Trago-te palavras, apenas... e que esto escritas do lado de fora do papel... No sei, eu nunca soube o que dizer-te e este poema vai morrendo, ardente e puro, ao vento da Poesia... como uma pobre lanterna que incendiou! Mario Quintana Apontamentos de Histria Sobrenatural

SESTA ANTIGA A ruazinha lagarteando ao sol. O coreto de msica deserto Aumenta ainda mais o silncio. Nem um cachorro. Este poeminho, Brotando spero e quebradio a nica coisa do mundo. Mrio Quintana Apontamentos de Histria Sobrenatural XII - DAS UTOPIAS Se as coisas so inatingveis... ora! No motivo para no quer-las... Que tristes os caminhos, se no fora A presena distante das estrelas! Mrio Quintana Espelho Mgico

ESTE QUARTO... (Para Guilhermino Csar) Este quarto de enfermo, to deserto de tudo, pois nem livros eu j leio e a prpria vida eu a deixei no meio como um romance que ficasse aberto... que me importa esse quarto, em que desperto como se despertasse em quarto alheio? Eu olho o cu! Imensamente perto, o cu que me descansa como um seio. Pois o cu que est perto, sim, to perto e to amigo que parece um grande olhar azul pousado em mim. A morte deveria ser assim: um cu que pouco a pouco anoitecesse e a gente nem soubesse que era o fim... Mrio Quintana Apontamentos de Histria Sobrenatural

DEIXA-ME SEGUIR PARA O MAR Tenta esquecer-me... Ser lembrado como evocar um fantasma... Deixa-me se