Guimarães Rosa – “O Feiticeiro das palavras”

Download Guimarães Rosa – “O Feiticeiro das palavras”

Post on 30-Dec-2015

61 views

Category:

Documents

34 download

Embed Size (px)

DESCRIPTION

Guimares Rosa O Feiticeiro das palavras. I O Autor Permanncia realista do testemunho humano Universalizao do Regionalismo Mundo de fantasia e realidade do serto (mstico ) mineiro Sondagem do mundo interior de personagens com poder generalizante. - PowerPoint PPT Presentation

TRANSCRIPT

<p>Slide 1</p> <p>Guimares Rosa O Feiticeiro das palavras</p> <p>I O AutorPermanncia realista do testemunho humanoUniversalizao do RegionalismoMundo de fantasia e realidade do serto (mstico ) mineiroSondagem do mundo interior de personagens com poder generalizante.Grande preocupao em manter o enredo e o suspense.A natureza, alm de cenrio, um agente ativo, participante, diretamente ligado aos destinos do homem.Revitalizao dos recursos da expresso potica, tais como ritmo, rima, aliteraes, cortes e deslocamentos de sintaxe, vocabulrio inslito, erudito e arcaico, neologismos, a fim de captar e imortalizar os valores espirituais, humanos e culturais de um povo .A lrica e a narrativa fundem-se, abolindo os limites entre ambos.O Serto o mundo O Serto est em toda a parte.O Serto est em ns.</p> <p>II A Obra SagaranaElementos centrais: M.G., serto,bois,vaqueiros e jagunos,o bem e o mal, solido, amor, violncia.Repletos de histrias dentro de histrias, de digresses filosficas e de monlogos interiores que desvendam o universo dos homens, dos bichos e das coisas, os contos nos permitem uma espcie de ritual de iniciao, ao longo da leitura.Esta iniciao ocorre se conseguirmos compreend-los em sua simbologia, na cosmoviso algica, mgica, mtica e potica que humaniza em sentido profundo os protagonistas.SAGA- radical de origem germnica, significa canto hericoRANA- lngua indgena, que significa maneira deL em cima daquela serra, / passa boi, passa boiada,passa gente ruim e boa, / passa a minha namorada.Assim, todas essas histrias tm um tom pico, herico, embora no grandiloqente, mas lrico.Em Sagarana, pontuam-se aqueles valores espirituais comuns aos homens de qualquer lugar ou poca, valores estes que consagram a radiosa aventura humana, ou seja, a coragem, a alegria e o amor. A filosofia religiosa, a intuio e o sentimento de universo colocam seus contos no nvel das grandes obras da literatura universal.</p> <p>III Linguagem- Criao de vocbulos: o que podemos chamar de neologismos: a) derivao prefixal. Um dos prefixos mais usados ainda ds-: desfeliz, desinquieto, desenxergar, etc. sempre em sentido negativo ou como mero reforo. b) derivao sufixal. funciona como expressivo recurso estilstico, principalmente em se tratando de linguagem popular. Exemplos: vaqueirama, assinzinho, coisama, pensao, cigarrar, rapaziar, quilometrosa, maismente, saudadear, pererecar, etc. s vezes o sufixo usado mesmo em palavras que no o comportam, como o caso, j citado, de maismente, assinzinho, arranjeizinho (Arranjeizinho l um lugar de guarda-civil) e amormeuzinho que aparece no conto So Marcos. c) derivao parassinttica. Consiste no uso de prefixo e sufixo ao mesmo tempo. No muito freqente em Sagarana, mas mesmo assim podemos anotar alguns exemplos: avoamento, esmoralizado, desbriado, amaleitado, etc. d) abreviao. Na abreviao, registre-se o caso de estranja (voc no tem vergonha de trabalhar pra esses gringos, pra uns estranjas, gente atoa? ), alm de largo uso da sncope, como o caso de corgo em vez de crrego, pra em vez de para, e muitos outros casos que refletem a nossa lngua popular. Veja-se ainda vambora para vamos embora e ixa para virgem (como interjeio). e) composio aglutinada. Consiste na juno de dois vocbulos de modo que percam a sua individualidade fnica. o caso de: passopreto (pssaro + preto), milmalditas (mil + malditas), suaviloqncia (suave + eloqncia), destamanho (deste + tamanho), membora (me + embora), santiamin (santo + amm) e o curioso nomopadrofilhospritossantamin (em nome do pai, do filho e do esprito santo, amm) que sugere a rapidez com que Nh Augusto fez o sinal da cruz, naquelas circunstncias em que se achava. curioso tambm o deist (deixa + est) de largo uso no </p> <p>f) composio justaposta. Consiste na unio de dois ou mais vocbulos em que se mantm a integridade fnica de ambos. Como exemplo, anote-se: hoje-em-dia, mulheres-atoa, todo-o-mundo e aqueles vocbulos formados pela introspeco bovina de Conversa de Bois como: boi-grande-que-berra-feio-e-carrega-uma-cabea-na-cacunda (para marrus, touro) e homem-do-pau-comprido-com-o-marimbondo-na-ponta ( homem que guia os bois e leva o ferro). </p> <p>2 - Arcasmos: arcasmos so vocbulos, formas ou construes frasais que saram do uso na lngua corrente. O arcasmo em Sagarana um reflexo da linguagem popular, visto que a lngua do interior, afastada do contato com a civilizao, esttica, conservando muitos vocbulos do portugus arcaico. Exemplos: riba (por riba do monte), banda (em lugar de lado), vigiar (em vez de olhar), quentar (em vez de esquentar) e uma enfiada de verbos com prtese de um a, outrora bastante em voga em nossa lngua e que ainda existe na fala do nosso homem do interior: agarantir, alembrar, alumiar, amostrar, arreconhecer, arrenegar, arresolver, arresponder, arresistir, etc. </p> <p>3 Eruditismo: ocorre sempre quando o escritor que narra, quando no pretende registrar modismos regionais ou a linguagem popular. Nesse sentido nos parecem vlidos os contos So Marcos e Minha Gente, principalmente este ltimo, donde extramos este exemplo: Eu tinha cochilado na rede, depois de um almoo gostoso e pesado, enquanto Tio Emlio, na espreguiadeira, lia sua pilha de jornais de uma semana. A varanda era uma praia de ilha, ao mar da chuva. Meu esprito fumaceou, por ares de minha s pos-se e fui, por inglas de Inglaterra, e marcas de Dinamarcas, e landas de Holanda e Irlanda. Subi viso de deusas, lentas apsaras de sabor de ptalas, lindas todas: Dria, da Circssia; Ragna de Aase; e Gdrun, a de olhar cor dos fiordes; e Vivian, violeta; e rika, slfide loira; e Varvra, a de belos feros olhos verdes; e a princesa Vladislava, csnea e junoniana; e a princesinha Berengria, que vinha, sutil, ao meu encontro, no alternar esvoaante dos tornozelos preciosos... 4 - Figuras: aqui sobressaem pelo menos trs figuras importantes:a) Metfora. Consiste numa transposio do sentido de um vocbulo por se tornar opaco ou gasto o existente. Anote-se: De noite, saiu uma lua rodo-leira, que alumiava at passeio de pulga no cho ; em vez de dizer que a lua era cheia e brilhava intensamente; Estou como ovo depois de dziapara dizer que est sobrando; em mo de vaqueiro com dez anos de lida nos currais do serto para dizer que o vaqueiro era experiente; S de vez em quando que um quer me saudar com a mo canhota para indicar que, vez por outra, surgiam ingratides, ou coisa semelhante; aproveitava para encher, mais um trecho, a infinda lingia da vidapara indicar que ia levando a vida de qualquer jeito; arquiplago de reses para indicar ajuntamentos de reses aqui e ali. E assim muitas outras.b) Anacoluto. Ou frase quebrada aquela em que uma palavra ou locuo, apresentada inicialmente, se segue uma construo oracional em que essa palavra ou locuo no se integra.A definio de Mattoso Cmara, que acrescenta: Na lngua oral coloquial o anacoluto um processo freqente de construo de frase. Guimares busca a estilizao da sintaxe popular.Veja-se esse exemplo:Que h? O senhor sabe que, a mim, eu gosto de estimar e respeitar os meus amigos, e, grande principalmente, as suas famlias excelentssimas... </p> <p>c) Silepse. A silepse uma concordncia ideolgica. Quer dizer, uma concordncia que se faz com a idia e no com o termo expresso. o caso do coletivo com o verbo no plural que ocorre vrias vezes em Sagarana. Eu acho que a boiada vai bem, so Major. No vo dar muito trabalho, porque esto bem gordos Ele de uma turma de gente sem-que-fazer, que comeram carne e beberam cachaa na frente da igreja, em sexta-feira da Paixo, s pra pirraar o padre e experimentar a pacincia de Deus... d) Musicalidade: o que o escritor chama de plumagem e canto das palavras. Com efeito, amide Guimares apela para os aspectos auditivos (canto) e visuais (plumagem), fazendo uma verdadeira orquestrao sonora com as palavras. Rimas: Vejam-se esses exemplos: por amos e anos ; boi sanga sapiranga; veio apropinquando, brando; suspiro de vaca no arranca estaca,etc. Onomatopia: Entre outros, citemos: A boiada entra no beco - Tchou! Tchou! Tchou!... para tanger o gado; lho... lho... lho... - vo, devagar, as braadas de Sete-de-Ouros , para o burrinho atravessando o rio; -Prrr-tic-tic-tic! para chamar galinha; i-tchungs-tchungou uma piabinha , para o movimento da piaba, etc. </p> <p>IMPORTANTE:Aliterao:repetio de dado fonema, numa frase, em vocbulos seguidos, prximos, distantes e simetricamente dispostos Boi bem bravo, bate baixo, bota baba, boi berrando.. . Dana doido, d de duro, d de dentro, d direito... Vai, vem, volta, vem na vara, vai no volta, vai varando... </p> <p>Ritmo: elemento potico que se pode constatar em Sagarana. Principalmente em O Burrinho Pedrs, onde a disposio das palavras parece acompanhar as marchas e contra-marchas do rebanho que comea a trotar em passos cadentes: Galhudos, gaiolos, estrelos, espcios, combuscos, cubetos, lobunos, lompardos, caldeiros, cambraias, chamurros, churriados, corombos, cornetos, bocalvos, borralhos, chumbados, chitados, vareiros, silveiros... E os tocos da testa do mocho macheado, e as cuarmas antigas do boi cornalo.... </p> <p>Assim, em Sagarana, no a linguagem que se acomoda realidade, mas a realidade que se transforma em linguagem.Uma tragdia paira sobre as cabeas: Silvino quer matar Badu; a escurido trevosa envolve a noite; a enchente embarga a travessia.Os vaqueiros enfrentam as trevas, com exceo de Joo Manico e Juca, sendo tragados pela fria das guas daquela noite sinistra. Apenas se salvam o Francolim e Badu, o primeiro agarrado cauda de Sete-de-Ouros, o segundo crina do burrinho que, alquebrado, decrpito, desacreditado, salvara duas vidas humanas. O autor procura mostrar, tendo como pano de fundo o mundo dos vaqueiros, que todos tm a sua hora e sua vez de ser til. o caso do burrinho a gente segue a esperteza mansa do bicho, a sua finura de instinto e inteligncia que o faz poupar-se, furtar-se a choques e maus pisos e, por fim, orientar-se e salvar-se numa cheia onde os cavalos afogam, carregando um bbado s costas e ainda outro nufrago enclavinhado no rabo(Oscar Lopes). Em O Burrinho Pedrs, o mote implcito de que no vale a pena nadar contra a correnteza, responde-se pela lgica da espiral como modelo de funcionamento para todos os elementos constituintes do conto; a chuva, o rio, a boiada, o amor, o dio.Tudo a girar propondo sempre a volta, a reversibilidade dos movimentos.Sete-de-Ouros todo potncia e fora no usada.</p> <p>Observe-se que tudo colocado como coisa do Destino, acontecida por acaso, dentro do espao de um dia: Mas nada disso vale fala, porque a estria de um burrinho, como a histria de um homem grande, bem dada no resumo de um s dia de sua vida. E a existncia de Sete-de-Ouros cresceu toda em algumas horas - seis da manh meia-noite - nos meados do ms de janeiro de um ano de grandes chuvas, no vale do Rio das Velhas, no centro de Minas Gerais. Veja-se que as outras histrias contadas no decorrer do conto esto tambm neste sentido: os caprichos inexplicveis do Destino que esmaga o homem. Dentro desse Fatalismo sobressai a hora e vez de Sete-de-Ouros, apenas um burro. Na espiral dos acontecimentos, ele tem a sabedoria de deixar que o movimento do mundo o envolva sem desperdcio de v oposio.O burrinho, que personificado como um velho e sbio, que lembra um monge oriental, possui dois cavos sobre as rbitas, que lembram culos; no tem pressa e triunfa com serenidade, sabe que no fundo de tudo, tem o ptio, com os cochos, muito milho, na Fazenda; e depois o pasto: sombra, capim e sossego. </p> <p>Espanto pasmagrico. Olhos que se arregalam e enregelam. Lalino, o que vendera a mulher, voltara. EEntra na poltica do Major Anacleto. Faz o diabo. Tudo dentro dos conformes e da paz. Lalino tinha tino e tirocnio. Tinha diplomacia, sim senhor, tinha: E falando nisso, que magnfico, o senhor Eullio! Divertira-os! o Major sabia escolher os seus homens. Sim, em tudo o Major estava de parabns... - elogio grado. De altas personalidades. Gente do governo. Final feliz: Maria Rita volta. O Major aceita. O dia afoita. Falece a (des)ventura. De Lalino. De Maria Rita.As eleies estavam ganhas com a volta do marido prdigo: no brejo - frissimo e em festa - os sapos continuavam a exultar O conto apresenta tambm, de forma picaresca, os caprichos do Destino: Lalino, o marido prdigo, d voltas e desvoltas pela vida, e acaba tudo bem. Com a mulher. Com a poltica. Consigo mesmo:No alto, com broto de brilhos e asterismos tremidos, o jogo de destinos esteve completo. Ento, o Major voltou a aparecer na varanda, seguro e satisfeito, como quem cresce e acontece, colaborando, sem o saber, com a direo-escondida-de-todas-as-coisas-que-devem-depressa-acontecer. O que tem que acontecer, acontece. 3. Sarapalha A ao de Sarapalha se desenvolve sobre um monte de runas causadas pela maleita: Ela veio de longe (...) matando muita genteE o resultado da calamidade foi a morte e tristeza dos moradores: os primeiros para o cemitrio, os outros por a afora, por este mundo de Deus.Numa fazenda em runas, perto do vau da Sarapalha, Primo Ribeiro, ora em dilogo, ora em monlogo, vai reconstituindo, alquebrado e decrpito pela maleita, a sua histria ao Primo Argemiro, uma das poucas pessoas que lhe restaram. Trgica e triste histria a do Primo Ribeiro: Luisa, a sua mulher, fugira com outro, deixando-o s com sua maleita: - Pra que que h-de haver mulher no mundo, meu Deus?... - pondera Primo Argemiro.Mas ao saber que o Primo Argemiro pretendia-lhe a mulher tambm, Primo Ribeiro enxota-o da sua presena, e Argemiro dos Anjos sai por a, perambulando por entre maleitas e belezas, buscando um lugar para cair e morrer: - Mas, meu Deus, como isto bonito! Que lugar bonito pra gente deitar no cho e se acabar Sarapalha de linha trgica, o que contrasta com o conto anterior.Mostra no s um mundo em runas, ainda fumegando os efeitos da Malria, como a infidelidade feminina com o conceito de honra do sertanejo. So dois mundos em runas: a populao vitimada pela maleita e o primo Ribeiro sucumbido pela mulher infiel: a maleita era uma mulher de muita lindeza 4. O DueloO duelo, que no houve propriamente, foi entre Turbio Todo e Cassiano Gomes. Motivo dhonra: Turbio encontra, certa vez, voltando a casa sem contra-aviso, a mulher em pleno adultrio com o Cassiano Gomes.O marido chifrado no fez nada. Preferiu agir traioeiramente e assim procurou dar finalmncia ao desonrador, baleando-o bem na nuca.Quanto esposa, Dona Silvana, o narrador escreve irnica e humoristicamente: Nem por sonhos pensou em exterminar a esposa (Dona Silvana tinha grandes olhos bonitos, de cabra tonta), porque era um cavalheiro, incapaz da covardia de maltratar uma senhora, e porque basta, de sobra, o sangue de uma criatura, para lavar, enxaguar e enxugar a honra mais exigente. Mas enganara-se o Turbio Todo: eliminara no o Cassiano Gomes, mas sim o Levindo Gomes, irmo daquele. Foi exatamente esse engano que veio pr dois bons sujeitos, pacatssimos e pacficos, num jogo dos demnios, numa comprida complicao. Trava-se um comprido duelo: Turbio fugindo e o outro atrs. E nessa desa...</p>