de figueiredo, caio nogueira - formalismo russo. monografia

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TENSÕES ENTRE HISTÓRIA E LITERATURA: UM ESTUDO SOBRE OS FORMALISTAS RUSSOS (1916-1930). CAIO NOGUEIRA DE FIGUEIREDO RIO DE JANEIRO 2014

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  • TENSES ENTRE HISTRIA E LITERATURA: UM ESTUDO SOBRE OS

    FORMALISTAS RUSSOS (1916-1930).

    CAIO NOGUEIRA DE FIGUEIREDO

    RIO DE JANEIRO

    2014

  • ii

    TENSES ENTRE HISTRIA E LITERATURA: UM ESTUDO SOBRE OS

    FORMALISTAS RUSSOS (1916-1930).

    CAIO NOGUEIRA DE FIGUEIREDO

    Trabalho de concluso de curso apresentado

    ao Instituto de Histria da Universidade

    Federal do Rio de Janeiro, como requisito

    parcial para obteno do ttulo de Bacharel

    em Histria.

    Orientador: Prof.Dr. Felipe Charbel Teixeira

    RIO DE JANEIRO

    2014

  • iii

    TENSES ENTRE HISTRIA E LITERATURA: UM ESTUDO SOBRE OS

    FORMALISTAS RUSSOS (1916-1930).

    CAIO NOGUEIRA DE FIGUEIREDO

    Monografia submetida ao corpo docente do Instituto de Histria da Universidade Federal

    do Rio de Janeiro - UFRJ, como parte dos requisitos necessrios obteno do grau de

    Bacharel.

    Data de aprovao: ____/ ____/ _____

    Banca Examinadora:

    ________________________________________________

    Prof. Dr. Felipe Charbel Teixeira Orientador

    ________________________________________________

    Prof. Dr. Henrique Buarque de Gusmo

    ________________________________________________

    Prof. Dra. Luiza Laranjeira da Silva Mello

    Rio de Janeiro

    2014

  • iv

    De Figueiredo, Caio Nogueira.

    Tenses entre Histria e Literatura: Um estudo sobre os Formalistas Russos

    (1916-1930) / Caio Nogueira de Figueiredo. Rio de Janeiro 2014

    vii ; 35 p.:

    Monografia (Bacharel em Histria) Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ, Instituto de Histria, 2014

    Orientador: Felipe Charbel Teixeira

    1.Formalismo Russo. 2. Histria Literria. 3. Teoria Literria. Evoluo

    Literria. I Teixeira, Felipe Charbel. (Orient.). II. Universidade Federal do Rio de Janeiro. Instituto de Histria.Tenses entre Histria e Literatura: Um estudo

    sobre os Formalistas Russos (1916-1930)

  • v

    RESUMO

    De Figueiredo, Caio Nogueira. Tenses entre Histria e Literatura; Um estudo sobre os

    Formalistas Russos (1916-1930). Orientador: Felipe Charbel Teixeira. Rio de Janeiro:

    UFRJ / IH ; 2014. Monografia (Bacharelado em Histria)

    O presente estudo consiste na discusso de artigos publicados pelos jovens

    intelectuais do movimento conhecido como formalismo russo em consonncia com a

    literatura produzida a seu respeito. Nesse sentido, possui por inteno compreender o que

    se entende por formalismo russo, suas motivaes e o desenrolar de seus estudos,

    apresentando tambm s crticas dirigidas aos seus principais representantes e por fim,

    discutir a maneira como lidaram com a problemtica da histria literria.

    Palavras-chave: Formalismo Russo; Histria Literria; Teoria Literria; Evoluo

    Literria.

  • vi

    ABSTRACT

    De Figueiredo, Caio Nogueira. Tenses entre Histria e Literatura; Um estudo sobre os

    Formalistas Russos (1916-1930). Orientadior: Felipe Charbel Teixeira. Rio de J\neiro:

    UFRJ / IH ; 2014. Monografia (Bacharelado em Histria)

    The present study consists in the discussion of articles published by the young

    intellectuals of the movement known as Russian Formalism in line with the literature

    produced about it. Thereafter, has for intent to understand what is meant by Russian

    formalism, their motivations and the course of their studies, and also provides the criticism

    directed at its main representatives, and finally discuss how they dealt with the problems of

    literary history.

    Keywords: Russian Formalism; Literary History; Literary Theory; Literary Evolution

  • vii

    SUMRIO

    INTRODUO, 01

    CAPTULO I DEFINIO, CRONOLOGIA, AMBIENTE INTELECTUAL E ARTSTICO E O SURGIMENTO DO FORMALISMO RUSSO, 04.

    1.1. FORMALISMO RUSSO UMA PREOCUPAO TERMINOLGICA, 04.

    1.2. O LEVANTE ANTI-POSITIVISTA E O AMBIENTE ACADMICO RUSSO NA VIRADA DO SCULO XX, 05.

    1.3. AMBIENTE POTICO DO FORMALISMO RUSSO E O FUTURISMO

    RUSSO, 08.

    1.4. O SURGIMENTO DO FORMALISMO RUSSO E QUESTES DE

    PERIODIZAO, 11.

    CAPTULO II - O MTODO FORMAL EM SUAS FONTES - DEBATE E

    CONCEITOS, 14.

    2.1. OS ANOS DE ENFRENTAMENTO E POLMICAS (1916-1920), 17.

    2.1.1. ROMAN JAKOBSON E VICTOR CHKLVSKI, 17.

    2.2. O DESENROLAR TURBULENTO (1921-1926), 20.

    2.2.1 BRIS EIKHENBAUM, VICTOR JIRMUNSKI E AS CRTICAS AO

    MTODO FORMAL, 20.

    CAPTULO III O MTODO FORMAL EM QUESTO CRISE, SUPRESSO E HISTRIA LITERRIA, 26.

    3.1 CRISE E SUPRESSO 1926-1930, 26.

    3.1.1 POR UMA HISTRIA LITERRIA YURI TYNIANOV E ROMAN JAKOBSON, 26.

    CONSIDERAES FINAIS, 31

    BIBLIOGRAFIA, 33

  • INTRODUO

    Existe um conjunto de dificuldades gerais e especficas que devemos assinalar na

    realizao do presente estudo. Esta pequena introduo imbui-se da tarefa de expor em

    linhas gerais tais problemas, mais como advertncias que por mea culpa. Assim sendo,

    primeiramente faremos uma rpida explicao relativa s tradues e transliteraes que

    foram constantemente utilizadas conjuntamente com uma pequena observao relativa s

    datas. Posteriormente levantaremos brevemente questes a respeito das dificuldades de

    lidar com o tema proposto. Por fim, faremos uma rpida discusso, em tom propositivo,

    sobre as barreiras disciplinares gerais que esto envolvidas na temtica tratada a saber,

    Histria, Crtica e Teoria Literria.

    Todos os nomes dos tericos bielo-russos, russos, tchecos e eslavos que sero aqui

    tratados, foram retirados das tradues feitas na coletnea de Dionsio de Toledo de ttulo

    Teoria da Literatura formalistas russos. Foram transliteradas e traduzidas por ento

    alunos da faculdade de filosofia da UFRGS (Ana Mariza Ribeiro Filipouski, Maria

    Aparecida Pereira, Regina Levin Zilberman e Antnio Carlos Hohlfeldt) e, com o auxlio

    da professora Reasylvia Kroeff de Souza, e, posteriormente, a professora Rebeca Peixoto

    da Silva. A coletnea de difcil acesso, diga-se de passagem foi publicada na dcada de

    70. Numa rpida pesquisa a respeito destes profissionais, nota-se que boa parte deles foi

    afastada na mesma dcada de publicao das atividades que desempenhavam nas

    universidades pelos expurgos do Regime Civil-Militar brasileiro. Pouco se publica, desde

    ento, a respeito dos formalistas russos no Brasil. Muito se deve, convm destacar, s

    barreiras lingusticas e o pouco conhecimento que se possui sobre a histria da Rssia.

    Estes fatos reverberam na carncia de estudos havendo raras edies que foram a pblico.

    Outro problema merece ser apontado. Este, muito caro aos historiadores. A Rssia

    passou por sucessivas mudanas no calendrio. Somente no perodo revolucionrio foram

    duas alteraes1. Somente aps o trmino da Guerra Civil a Rssia adotou o calendrio

    gregoriano. O presente estudo adota as datas das publicaes grafadas na coletnea de

    Toledo e na recente edio de Ekaterina Amrico e Sheila Grillo da obra de Medviedv.

    1 Este fato ser reiterado no presente estudo, no mais, alguns autores atestam essas transformaes.

    Dois artigos que nos parecem instrutivos: NRBY, Toke. The Perpetual Calendar a helpful tool to postal historians. Disponvel em: < http://norbyhus.dk/calendar.php#Russia >.Acesso em: 16jan.2014. 04:35:00. E

    outro de SHILOVA, Irina. Building the Bolshevik Calendar through Pravda and Isvestiia. Toronto:

    Universityr of Toronto. Toronto Slavery Quarterly: Academic Eletronic Journal in Slavic Studies. Disponvel

    em: < http://www.utoronto.ca/tsq/19/shilova19.shtml> Acesso em 16jan.2014. 05:30:00.

  • 2

    Nesse sentido, constatamos que possveis diferenas no sero determinantes no presente

    estudo.

    Tambm sofreu sofre com muitas discordncias a respeito da lngua russa as

    ltimas notcias da grande mdia sugerem conflitos polticos que envolvem disputas na

    adoo da lngua russa, principalmente em pases pertencentes ex-URSS. Existem

    linguistas que falam em lnguas russas ao invs de lngua russa. Este problema,

    felizmente, no ser determinante no presente estudo, pois os textos utilizados, em sua

    maioria, foram traduzidos conjuntamente por importantes intelectuais e linguistas

    familiarizados com a lngua russa como Bris Schnaiderman, Haroldo de Campos e Aurora

    Bernardini. Ademais, e a par de tais dificuldades, o presente trabalho tem um objetivo

    menos pretensioso. Procura, fundamentalmente, recuperar algumas discusses propostas

    pelos tericos do formalismo com a inteno de suscitar questes pertinentes aos campos

    da histria, teoria e crtica literria.

    A segunda dificuldade mencionada se refere forma com que deveramos abordar

    as teorizaes propostas pelos formalistas russos. Quando se fala em formalistas russos e

    sua relao com a histria pensa-se em negao ou ento na ideia de uma histria literria

    internalista. Deixar-se envolver ou mesmo enamorar-se pelo objeto de pesquisa e

    aceitar suas proposies criaria enormes dificuldades para qualquer um neste caso, as

    dificuldades seriam inmeras. Confundir o mtodo empregado na investigao do objeto

    com o mtodo empregado pelo objeto em sua investigao traria resultados muito

    negativos. O presente estudo procura desvencilhar-se de tais dificuldades estando sempre

    atento a esta questo. Teoria, Crtica e Histria Literria j trazem nexos por demais

    sensveis e complexos e mercem ser tratados com devida ateno.

    Neste mbito, em fascinante estudo que aborda a definio das trs reas acima

    mencionadas, Ren Wellek apoia uma distino entre os trs campos disciplinares apesar

    de confirmar uma estreita colaborao entre eles. Conforme Wellek Teoria literria

    o estudo dos princpios da literatura, de suas categorias, critrios, e assim por diante, ao

    passo que os estudos de obras concretas so crtica literria, ou histria literria.

    .2Apesar da simplicidade da definio, Wellek constata que depois de escritas tais

    palavras, inmeras tentativas surgiram nos estudos literrios ora para apagar tais

    distines, ora para torna-las mais evidentes.

    2 WELLEK, Ren. Conceitos da Crtica (Trad. Mendes, Oscar). So Paulo: Editora Cultrix.1972.p.13.

  • 3

    Esta questo, a nosso ver, no parece uma barreira a ser transposta ou um problema

    a ser resolvido. Mas sim uma constatao clara e evidente dos limites disciplinares que se

    encontram abertos nas cincias humanas. Nos ltimos tempos, por exemplo, a

    antropologia, a histria e a teoria literria tm sofrido transformaes evidentes e

    multiplicam-se os artigos, ensaios e novas propostas. Em resumo, inmeras tentativas de

    aproximao entre tais campos podem ser percebidas, como se desde o princpio eles

    estivessem separados. Talvez, um tema como o formalismo russo, deva caminhar entre as

    fronteiras das disciplinas que o colocam como objeto de inquirio. Nesse sentido, a

    histria, a teoria e a crtica literria podem fornecer bons instrumentos para a investigao

    cientfica se trabalharem conjuntamente, isso, se souberem respeitar seus limites.

    Wellek, no artigo mencionado, deixa tal questo em aberto. Contudo, sua afirmao

    final parece-nos frutfera por tocar em questes to preciosas queles que se interessam

    pela literatura e pelo seu eterno caso com a histria. O trecho final de seu ensaio aponta

    questes cruciais nesta tarefa:

    Andr Malraux falou eloquentemente do museu imaginrio, o museu

    sem paredes, resultante um conhecimento de mbito mundial das artes

    plsticas. certo que na literatura enfrentamos a mesma tarefa de crtico

    de arte, ou pelo menos uma tarefa anloga: podemos mais direta e

    facilmente reunir nosso museu numa biblioteca, mas temos ainda diante

    de ns as paredes e barreiras das lnguas e de suas formas histricas.

    Grande parte de nosso trabalho tem por fim derrubar essas barreiras,

    demolir essas paredes por meio de tradues, estudo filolgico,

    editorao, literatura comparada, ou simplesmente simpatia imaginativa.

    Finalmente, a literatura, como as artes plsticas, como as vozes do

    silncio de Malraux, um coro de vozes articuladas atravs das idades afirmando o desafio do homem ao tempo e ao destino e sua vitria sobre a instabilidade, a relatividade e a histria.

    3

    3 WELLEK, Ren. Conceitos da Crtica (Trad. Mendes, Oscar). So Paulo: Editora Cultrix.1972.p28.

  • 4

    1.0 - CAPTULO I DEFINIO, CRONOLOGIA, AMBIENTE INTELECTUAL E

    ARTSTICO E O SURGIMENTO DO FORMALISMO RUSSO.

    1.1 O FORMALISMO RUSSO UMA PREOCUPAO TERMINOLGICA

    O chamado formalismo russo no pode ser costumeiramente encarado como uma

    variao supranacional de formalismo que surgiu na crtica literria russa no incio do

    sculo XX. Deve ser compreendido como uma escola4 russa de erudio literria que

    surgiu por volta de 1915 e foi suprimida no final da dcada de 20 do mesmo sculo

    (ERLICH, 1973). Contudo, o termo formalismo merece uma pequena apreciao inicial.

    Pois ele suscita questes que devem comear pela problematizao do prprio termo.

    Formalismo foi o rtulo criado mais pelos seus opositores que por seus membros

    professos. Este termo largamente utilizado em vasta literatura e no senso comum

    acadmico como uma preocupao excessiva com a mera forma. O seu uso, em grande

    parte pejorativo, encontra-se de maneira bastante recorrente em debates intelectuais

    acalorados, sendo um adjetivo com contornos claramente negativos. Parece-nos apropriado

    levantar estas observaes, pois elas elucidam a forma pela qual foram tratados os

    formalistas russos, constantemente rotulados como aqueles que se preocupam

    exclusivamente com a forma ou como um novo modismo acadmico russo pretensamente

    revolucionrio.

    Possveis termos mais adequados foram sugeridos por um de seus prprios

    membros, a saber, Bris Eikhenbaum. Os nomes, morfolgicos e especificadores

    fariam referncia imediata a suas preocupaes iniciais5. Entretanto, tais termos nunca

    foram largamente utilizados e, as possveis razes para tanto se devem multiplicidade de

    opinies destoantes que ressaltariam o carter heterogneo do movimento russo ou por um

    fato mais simples: seus membros aceitaram a alcunha imposta.

    Estas observaes iniciais so necessrias antes da caracterizao do que se entende

    por formalismo russo no pela simples preocupao terminolgica ou por motivos que

    ensejariam uma simples reparao histrica de seus membros e seus trabalhos. So

    4 O termo escola literria parte de uma discusso realizada por Krystyna Pomorska em livro

    importantssimo para este estudo. No pretendemos estender tal discusso. Para mais detalhes ver:

    POMORSKA, Krystyna. Formalismo e Futurismo A teoria Formalista Russa e seu Ambiente Potico. So Paulo: Editora Perspectiva S.A, 1972.pp.59-71.

    5 Segundo Victor Erlich daria nfase no trabalho literrio, nas suas partes componentes e na

    insistncia da autonomia da escola literria. Tal discusso ser alargada no decorrer do presente trabalho.

  • 5

    indispensveis para a melhor compreenso da forma como so plasmadas vises a respeito

    do movimento e, deste modo, levantarmos questes pertinentes sobre seus estudos e

    questes. Parece-nos igualmente necessrio encararmos o formalismo russo se me

    permitem os jarges histricos como um produto intelectual de seu tempo, ou, em

    referncia a ensaio de Roman Jakobson dedicado memria de Maiakvski, como

    genunos membros da gerao que esbanjou seus poetas6.

    Mas antes de descrevermos quem foram, de onde surgiram e o que pensavam os

    chamados formalistas russos, convm levantarmos um brevssimo histrico acerca do

    estado dos estudos literrios na Rssia no incio do sculo XX. Tal tarefa no ser extensa

    e muito menos tem a ambio de imbuir motivos determinantes ou possveis causas e

    efeitos de maneira simplista. Mas possui a inteno de descrevermos o clima intelectual e

    artstico em que floresceram tais estudos. Estes fatores no podem e no devem ser de

    maneira alguma ignorados na abordagem do tema proposto, como iremos observar.

    1.2 O LEVANTE ANTI-POSITIVISTA E O AMBIENTE ACADMICO RUSSO NA

    VIRADA DO SCULO XX.

    Como o ttulo acima sugere, existiu uma grande reviravolta, uma grande reviso na

    erudio literria no incio do sculo XX. Esta tendncia, apresentada e discutida por

    Wellek7 (1965), foi antes de tudo um levante contra os mtodos tradicionais de estudo em

    literatura recorrentemente identificados como positivismo. Wellek no acredita que tal

    reao tenha sido motivada contra o positivismo em si, pois duvida que todos os antigos

    estudiosos seguiam fielmente os preceitos de Spencer e Comte. Positivismo ou no, alguns

    pontos devem ser destacados como fatores que motivaram tal levante: a rejeio a um

    antiquarismo turro, isto , uma pretensa acumulao de fatos antigos; a rejeio a um

    factualismo exagerado ou mesmo um historicismo8grosseiro; a emulao dos mtodos das

    6 Em referncia ao ttulo do ensaio de Jakobson. Ver: JAKOBSON, Roman. A gerao que esbanjou

    seus poetas. Trad. S. R. M. Gonalves. So Paulo: Cosac & Naify, 2007. 7 Ren Wellek (1903-1995) Foi um importante crtico literrio nascido em Viena e esteve ligado

    ao Crculo Linguistico de Praga. Responsvel por importantes livros como A Histria da Crtica Moderna,

    Conceitos da Crtica e Teoria da Literatura com Austin Warren. reconhecido com um dos mais

    importantes crticos literrios do sculo XX. 8 O termo "historicismo largamente utilizado de maneira pejorativa e sem maiores

    problematizaes em boa parte da bibliografia e nas fontes aqui utilizadas. No objetivo deste trabalho

    escrutinar os significados deste termo ou expor suas consequentes implicaes, pois acredito que tal rejeio

    e uso pejorativo est mais associado a negao dos mtodos utilizados do que a prpria reflexo crtica

    acerca do que se entende por historicismo.

  • 6

    cincias naturais nas anlises literrias e por ltimo, mas no menos importante, um certo

    ecletismo acadmico presente nas anlises literrias.

    Tambm as cincias naturais sofreram com essa grande reviso de mtodos em

    meados do sculo XIX. Representou antes de tudo uma profunda reformulao dos

    pressupostos metodolgicos e antigas certezas como leis da natureza, causalidade e

    determinismo9. As artes, de igual modo, se transformaram profundamente passando por

    uma grande reao ao naturalismo e realismo, entrando em sua fase moderna, por assim

    dizer.

    Este clima geral de rejeio dos mtodos tradicionais descrito por Wellek afetou

    sensivelmente a Rssia, pois possua fortes laos com a tradio intelectual ocidental,

    principalmente, pela produo de pases como a Frana, Inglaterra e Alemanha. O caso

    particular da Rssia, onde gozavam de grande prestgio intelectuais como Alexander

    Veselovski, eminente linguista e especialista em literatura comparada que escreveu um

    famoso livro de histria da literatura russa uma histria natural das formas literrias

    (WELLEK, 1965) , e Alexander Potebni, importante linguista, terico e folclorista,

    conhecido por influenciar fortemente o simbolismo russo (ERLICH,1973). Estes dois

    tericos seriam mais tarde alvos dos ataques dos tericos do formalismo russo em seus

    primeiros trabalhos.

    Ainda sobre o ambiente intelectual, segundo Pomorska (1972), nas dcadas de 80 e

    90 do sculo XIX, o centro intelectual de Moscou esteve ligado aos Neogramticos10

    representados pela figura de Filip Fortunatov11

    , que formou uma gerao de professores e

    seguidores. Um dos mais importantes linguistas que sucederam Fortunatov foi Aleksey

    Chakmatv. Este, foi um famoso fillogo e um acadmico respeitado e ocupava o posto de

    secretrio da Academia de Cincias Russa e futuramente, seria um dos principais

    responsveis pela reforma ortogrfica russa em 1917. Foi justamente nos seminrios de

    9 O artigo de Wellek parece-me fundamental. Supracitado, inclusive pelos responsveis pelos

    principais trabalhos de peso a respeito do formalismo russo. O estudo com Austin Warren tambm de

    extrema relevncia, contudo, o livro Conceitos da Crtica se apresenta como um valioso repositrio de informaes teis, recheado de indicaes bibliogrficas, uma reviso crtica das tendncias gerais da crtica,

    teoria e histria literria de forma condensada. Um livro mpar. 10

    Nome associado fundamentalmente a um grupo de linguistas da escola de Leipzig no final do sculo XIX. Os neogramticos, inspirados por Scherer, postularam princpios fixos na mudana sonora de

    acordo com as disposies geogrficas afetando de forma determinante a metodologia dos estudos

    lingusticos de sua poca. Para maiores detalhes ver: GONALVES, Carlos Alexandre V. Uma Histria blica (e bela) : Impasses na doutrina neogramtica.

    11 Filip Furtunatovich Fortunatov (1848 -1914) foi um renomado linguista e historiador da literatura

    que teve influencia determinante na Academia de Cincias Russa. Seus estudos se tratavam desde lnguas

    eslavas passando pelo pli, armeno, vdico e at mesmo o snscrito.

  • 7

    Chakmatv que Roman Jakobson e outros formalistas russos iniciaram seus estudos e, sob

    o seu beneplcito, criariam o Crculo Linguistico de Moscou no inverno de 1914-15.

    Por outro lado, existiu tambm um famoso centro de estudos lingusticos modernos,

    em Kazan. Em torno de 1870-80, o famoso linguista Jan Badouin de Courtenay 12

    assumiu

    a ctedra desse local formando uma gerao que esteve essencialmente atrelada esttica

    do futurismo russo13

    . O futurismo russo por sua vez, seria tambm um elemento crucial na

    compreenso dos estudos dos formalistas russos, pois ambos se complementariam

    fornecendo um ao outro substrato terico e experimentao artstica.

    Outro grupo de estudiosos na Rssia deve ser destacado. Foi o grupo que ficou

    conhecido como o Crculo de Bakhtin. Este crculo de estudiosos, que tem seus nomes

    vinculados a Mikhail Bakhtitn (1895-1975) conhecido contemporaneamente como um dos

    principais pensadores da teoria literria e da comunicao, Pvel Medviedv (1892-1938)

    um eminente professor universitrio e militante comunista e Valentin Voloshinov (1895-

    1936) um importante linguista sovitico. A produo intelectual do Crculo Bakthiniano

    possui atualmente grande relevncia por toda comunidade mundial. Bakhtin

    principalmente. Entrementes, existe um grande debate que talvez no tenha tanta

    relevncia a respeito da autoria dos textos produzidos por esses autores. Um dado

    interessante que a alguns desses autores atribudo o rtulo de formalista, ps-

    formalistas e seus congneres. Contudo ficar explcita a diferena do modo de abordar a

    literatura. Um tpico especfico deste trabalho abordar s crticas do crculo Bakthiniano

    em especial, Pvel Medviedv.

    Todo esse clima intelectual no estaria completo se no descrevssemos

    brevemente o terreno artstico de onde o formalismo russo surgiu. Nesse sentido, as

    vanguardas artsticas russas desempenharam um papel fundamental no desenvolvimento

    dos estudos dos formalistas em seus primeiros anos. Este fato ser acentuado no presente

    trabalho e constantemente tratado como determinante em praticamente toda a bibliografia

    (POMORSKA 1972, SELDEN, 2010, MEDVIEDEV 1996, ERLICH 1973, STEINER).

    Simbolismo, acmesmo, ego-futurismo, cubo-futurismo e suprematismo formaram as

    principais tendncias da arte russa nas mais diversas esferas artsticas indo das artes

    12 Jan Niecislaw Badouin de Courtenay (1845-1929) foi um importante linguista, fillogo e

    professor universitrio nascido em Radzym, atual cidade polonesa. Badouin de Courtenay considerava os

    sons na linguagem como entidades autnomas, sendo assim, algumas vezes atribudo a este, certo

    vanguardismo em relao aos estudos deixados por Ferdinand Sausurre. A despeito desta ltima questo,

    Badouin de Courtenay foi figura importantssima nos meios universitrios russos na virada do sculo XIX. 13

    POMORSKA, Krystyna. Formalismo e Futurismo A teoria Formalista Russa e seu Ambiente Potico. So Paulo: Editora Perspectiva S.A, 1972, p.27.

  • 8

    plsticas poesia, e, suas experimentaes artsticas e concepes sobre arte e literatura

    afetariam de maneira decisiva os tericos do formalismo. Vejamos com mais detalhes

    algumas questes relativas a este tpico.

    1.3 O AMBIENTE POTICO DO FORMALISMO RUSSO E O FUTURISMO RUSSO

    O movimento simbolista que surgiu na Rssia no final do sculo XIX, conhecido

    por uma renascena da experincia religiosa e posteriormente um forte tom messinico e

    catastrfico14

    , trouxe de volta para a ordem do dia os problemas relativos aos sons na

    poesia. Este tema seria fundamental para os poetas de orientao futurista e para os

    tericos do formalismo russo, mais precisamente em seus primeiros estudos, ao tratar da

    mtrica, ritmo e mais tarde a respeito dos experimentos que ficaram conhecidos como a

    linguagem transracional15

    . Entrementes, a influncia dos temas relativos aos sons,

    levantados pelo simbolismo russo e posteriormente pela potica dos futuristas, possuem,

    sem sombra de dvidas, ressonncia nas questes suscitadas pelos tericos formalistas.

    Curiosamente, o prprio termo simbolismo tambm uma categoria um tanto

    quanto vaga, recorrentemente associada a diversos tipos de artistas plsticos e das artes

    visuais at poetas como Alexander Blok e Andrey Bili, que sofreram crticas dos tericos

    do formalismo. Mas o principal nome citado nas crticas dos formalistas dirigidas ao

    simbolismo foi o j mencionado Alexander Potebni, identificado imediatamente como o

    terico do simbolismo 16. No obstante, como resultado - ou por meio - do simbolismo

    russo, duas outras tendncias nas artes se formaram: os acmestas e os futuristas - cubo-

    futuristas e ego-futuristas. Os acmestas, segundo Pomorska (1972) eram considerados a

    ala direita do simbolismo, ao contrrio do futurismo e o seu direcionamento mais

    radical ou esquerda.

    A ala direita, melhor dizendo, os acmistas ou adamistas - como gostavam de ser

    chamados - constitua um pequeno grupo menos conhecido, porm no menos importante,

    14 Para um debate mais acurado a respeito do simbolismo russo, consideramos frutfera a leitura do

    artigo DANGELO, Biagio. O simbolismo Russo, uma potica do desencontro. Universidade Catlica de Budapeste, PPKE. Disponvel em: < http://dlcv.fflch.usp.br/node/33 > Acesso em: 10jan2014, 20:34:00.

    15 O zum ou linguagem transracional ou transmental, fruto dos experimentos lingusticos de

    Velmir Khlbnikov e Krutchnik. Como costumeiramente se pensa o zum no destitudo de sentido. Ele

    atuaria como uma linguagem mgica. Seria a mais pura essncia da sonoridade potica. A linguagem nesse

    sentido evocaria novos sentidos. A respeito deste tema, Chklvski possui um artigo de difcil acesso chamado

    sobre a poesia e a linguagem transracional Vzamin priedislvia. 16

    POMORSKA, Krystyna. Formalismo e Futurismo A teoria Formalista Russa e seu Ambiente Potico. So Paulo: Editora Perspectiva S.A, 1972. p.20.

  • 9

    se reunindo sob o programa da chamada Guilda dos Poetas (POMORSKA,1972). Seus

    principais nomes foram Ana Akhmatova (1888-1966) com sua poesia permeada de

    motivos emocionais misturadas com imagens religiosas e Ossip Madelstam (1891-1938)

    que participou brevemente do movimento, integrando posteriormente reunies do Crculo

    Linguistico de Moscou e teve fim trgico em um campo de concentrao sovitico aps

    uma poesia dedicada a Stlin. Mandelstam, conforme Pomorska (1972) se aproximou

    brevemente dos acmestas, tendendo muito mais poesia simbolista por seus motivos de

    predominncia catastrfica interligada quietude clssica. O acmesmo foi considerado um

    desenvolvimento do movimento simbolista. Em consonncia a este fato, Wachtel

    caracteriza o movimento acmesta da seguinte maneira:

    Acmesim is a neo-classical form of modernism, which purported to

    reject the excessive mysticism of Symbolism and replace it with a new

    ideal of clarity. In many respects, however, the Acmeists were a logical

    extension of the Symbolists, with their emphasis on poetic craft and

    cultural continuity [] 17

    O acmesmo desta forma se caracterizava como um desdobramento e uma das reaes

    esttica simbolista. A rejeio ao misticismo e a transcedentalidade, marca da poesia

    simbolista, tambm ser uma das fontes de crtica por parte dos formalistas russos que,

    logo aps o declnio dos acmestas, captaram alguns de seus poetas que participariam do

    incio de seu movimento.

    Por outro lado, a chamada ala revolucionria, os futuristas russos, so conhecidos

    principalmente pelo grupo da Hilia que lanara o manifesto conhecido como Tapa na

    cara do gosto pblico18 assinado por David Burliuk, Alexander Krutchnik, Velmir

    Klhbnikov e Vladmir Maiakvski. Este grupo, famoso por seus recitais pblicos de

    poesia, era reconhecido por suas vestimentas esdrxulas, hbitos e trejeitos extravagantes e

    outras excentricidades associadas a eles. Sua poesia, contudo, era marcada pelo seu tempo:

    os avanos gerais da tcnica, a era das maquinas e da velocidade, os experimentos

    pictricos dos cubistas, a constante renovao da forma termo muito caro aos formalistas

    como iremos ver no qual ela mesma um tema e um alvo de desenvolvimento,19 so

    17 WACHTEL, Michael. The Cambridge Introduction to Russian Poetry. Cambridge, New York:

    Cambridge University Press.2004.p.8. Disponvel em: . Acesso em:

    10 jan.2014, 03:40:32. 18

    Slap in the face of public taste. Disponvel em Acesso em: 17jan2014. 06:04:00.

    19 POMORSKA, Krystyna. Formalismo e Futurismo A teoria Formalista Russa e seu Ambiente

    Potico. So Paulo: Editora Perspectiva S.A, 1972.p.74.

  • 10

    caractersticas muito fortes do futurismo russo. A poesia se renovava logo no incio do

    sculo XX em diversas frentes.

    Os poetas futuristas protestavam contra praticamente toda a tradio literria e

    potica existente. Como todo movimento de vanguarda20

    , buscavam se afirmar a partir da

    negao da tradio. Jogar fora Pushkin, Dostoivski, Tlstoi etc., etc. para fora do Navio

    da Modernidade21 soava como um golpe desferido contra uma sociedade apegada aos

    valores estticos da intelectualidade vigente, contra os cnones dos bons gostos e costumes

    russos e contra toda a tradio acadmica nas anlises literrias. A inteno era renovar a

    poesia pela linguagem e concentrar-se na palavra em si mesma. A poesia entrava em uma

    nova fase renovao em congruncia com as constantes transformaes que ocorriam na

    Rssia. interessante notar que a

    [...] a teoria potica que se delineou, aos poucos, na Rssia, a partir do

    simbolismo, era feita pelos poetas, a partir de sua prpria prtica e no

    pelos professores dos crculos universitrios [...] 22

    Este trecho em destaque do estudo de Toneto versando sobre a relao entre o futurismo

    russo e a teoria de Roman Jakobson, eminente terico do formalismo russo, alm de atestar

    a quebra do monoplio acadmico no que diz respeito criao e ao estudo da poesia,

    corrobora a tese de que o formalismo russo deve ser abordado conjuntamente com os

    experimentos e os trabalhos dos poetas de seu tempo. Mesmo que poetas, membros do

    formalismo russo e crticos de arte se confundam, eles devem ser considerados no corpo de

    suas similaridades e afinidades, sem ignorar, obviamente, as peculiaridades de cada uma

    dessas prticas discursivas. Precisamente nesse sentido que trabalhos como o de Krystyna

    Pomorska, o j citado Futurismo e Formalismo, devem ser compreendidos. Pomorska

    escrutina as relaes existentes entre as vanguardas artsticas tais como o simbolismo, o

    acmesmo e os futurismos e seu enlace com a teoria potica formalista23

    . Voltaremos a este

    ponto por diversas vezes no presente estudo.

    20 No teremos a pretenso de fazer uma reflexo terica a respeito da categoria vanguarda.

    Existem inmeros trabalhos dedicados essa categoria e diversos usos conflitantes em relao ao termo. Para

    maiores informaes ver (Calinescu 1999; Burguer ; 2008; Poggioli 1968) 21

    Slap in the face of public taste (traduo nossa). Disponvel em: http://www.391.org/manifestos/1912futurists_slapintheface.htm. Acesso em: 15 jan,2014.

    22 TONETO, Diana Junkes Martha. Entre a poesia e a crtica: Algumas consideraes sobre o

    futurismo russo e Roman Jakobson. Cadernos de Semitica Aplicada. Vol. 5.n.1, agosto de 2007.p.4.

    Disponvel em: http: .seer.fclar.unesp.br casa article 9 >. Acesso em: 19 set.2013, 19:39:00. 23

    Para maiores detalhes ver POMORSKA, Krystyna. Formalismo e Futurismo A teoria Formalista Russa e seu Ambiente Potico. So Paulo: Editora Perspectiva S.A, 1972

  • 11

    No obstante, neste conjunto amalgamado de referncias tericas, reaes

    extremadas, questes levantadas e experimentaes artsticas, os primeiros formalistas se

    organizaram e desenvolveram seus trabalhos. O ambiente intelectual e a influncia potica

    das vanguardas artsticas estava em plena sincronia em relao ao clima poltico-social e as

    sucessivas guerras que atravessaram a Rssia na virada do sculo XIX para o XX. A

    monarquia russa cambaleava, os levantes populares tornavam-se frequentes. Entre greves

    massivas e crescentes, rpidas transformaes na paisagem urbana pela construo de

    ferrovias, estradas, indstrias e fbricas e a necessidade crescente de mo-de-obra se

    apinhando nas cidades, a Rssia era uma panela de presso prestes a explodir. Isso, se no

    formos mencionar a influncia dos grupos anarquistas e socialistas, perspectivas

    ideolgicas que estavam em concorrncia. Neste contexto geral, seus poetas e intelectuais

    entravam em xtase, em pleno furor revolucionrio.

    No presente momento, estamos a par do ambiente intelectual, artstico e um pouco

    do clima poltico-social do qual surgiu o formalismo russo. Mas conveniente reafirmar

    que este ambiente no deve ser encarado como um jogo simples de causas e efeitos. Mas

    sim como um contexto que pde propiciar o surgimento do formalismo em extrema ligao

    com a poesia, a intelectualidade e as convulses sociais de sua poca.

    1.4 O SURGIMENTO DO FORMALISMO RUSSO E QUESTES DE

    PERIODIZAO

    Os formalistas russos foram os jovens estudantes que promoveram estudos sobre

    lingustica e linguagem potica, iniciando suas atividades a partir da criao do Crculo

    Linguistico de Moscou (CLM) em 1914, em intenso intercmbio com o grupo da

    Associao para o Estudo da Lngua Potica (OPOIAZ) criada Petrogrado em 1915. O

    grupo de Moscou, que entre seus nomes contavam com Roman Jakobson e Ossip Brik, e o

    de Petrogrado pelos nomes de Victor Chklvski, Yuri Tynyanov e Bris Eikhenbaum

    apenas para dar alguns exemplos ainda contava em algumas reunies com jovens

    promissores poetas tais como Maiakvski, Pasternak, Khlibnikov e Mandelstam. Estes

    poetas com exceo de Mandelstam - so costumeiramente elencados como poetas

    futuristas.

    Entretanto, importante apontar que os anos de criao do Crculo Linguistico de

    Moscou e da OPOIAZ no sero tomados como marcos cronolgicos iniciais para a

  • 12

    confeco deste trabalho. A proposta que se apresenta toma como balizas a sugesto de

    Victor Erlich, que sugere uma periodizao em trs etapas principais de atuao dos

    formalistas russos, isto , os anos de 1916 a 192 , os chamados anos de enfrentamento e

    polmicas; o desenrolar turbulento que compreende os anos de 1921 a 1926; e a crise

    e supresso 24 das atividades dos formalistas pelo governo stalinista no perodo de 1926

    at 1930. Essa escolha no se embasa unicamente na autoridade reconhecida dos trabalhos

    de Erlich, mas tambm no fato de que os artigos trabalhados esto circunscritos nos trs

    perodos estabelecidos pelo autor. importante tambm ressaltar que, excepcionalmente,

    so utilizados artigos anteriores ao recorte sugerido. Mas este fato no dominante no

    presente trabalho, servindo somente como recurso para fortalecer a hiptese que se

    levantar ao final desta exposio.

    Nesse sentido, outra preocupao cronolgica deve ser apontada. Os anos que

    compreendem a atuao dos formalistas russos so os anos das duas revolues russas, da

    IGM e da Guerra Civil Russa. Estes mesmos anos acompanharam intensas transformaes

    sociais e polticas, mas tambm bruscas mudanas cronolgicas. Refiro-me s mudanas

    no calendrio russo. A substituio do calendrio Juliano, corrigindo 13 dias pelo

    calendrio Gregoriano, foi feita por Lnin em 1918. Este fato se agrava quando se adiciona

    outro calendrio revolucionrio de curta utilizao, diga-se de passagem - em que os

    meses so identificados por nmeros com diferenas nas correes dos meses. Tais fatores

    no devem passar despercebidos e devem ser tomados como relevantes para a

    compreenso da experincia temporal que estes atores experimentavam e a sua prpria

    forma de dispor da temporalidade. As escolhas cronolgicas, nesse sentido, acentuam o

    carter complexo e extremamente delicado do perodo, sendo estas utilizadas

    principalmente como um recurso didtico e formal.

    Futuramente, nos anos 20, estes dois centros do formalismo seriam integrados s

    instituies acadmicas. A OPOIAZ ao Instituto Estatal para a Histria das Artes em

    Petrogrado e o CLM se integraria Academia Estatal para o Estudo das Artes de Moscou.

    Estes fatos, como nos mostra Steiner (2010), sero determinantes para a evaso e incluso

    de diversos membros sob a alcunha de formalistas. As controvrsias que surgiram

    posteriormente se acentuaram com a migrao de Roman Jakobson para Praga e a

    incorporao de outros intelectuais sob o rtulo de formalistas. A partir de meados dos

    24 Optei por uma traduo livre do ingls para o portugus com auxlio da edio em lngua

    espanhola dos subttulos dos perodos estabelecidos por Victor Erlich. O livro supracitado Erlich, Victor

    Russian Formalism: History Doctrine. Princeton, New Jersey: Princeton University Pres.1981.

  • 13

    anos 20, muitos tericos do formalismo voltaram atrs de suas afirmaes iniciais. As

    crticas comearam a se acentuar e a perseguio poltica promovida por Stlin em seus

    expurgos condenou de vez o formalismo e as suas atividades no final da dcada de 20.

    Munidos de tais informaes, podemos agora discutir o formalismo russo em suas

    fontes, em constante intercmbio com os textos de seus representantes e da bibliografia

    concisa, diga-se de passagem, que tratou do tema.

  • 14

    2.0 - CAPTULO II - O MTODO FORMAL EM SUAS FONTES - DEBATE E

    CONCEITOS

    Os esforos dirigidos na caracterizao do mtodo formal encontram grandes

    dificuldades. Este fato deve-se a um intenso debate pela prpria definio do que se

    entende por mtodo formal. Poderamos dizer que existe uma contenda dentro da

    OPOYAZ e do CLM, e outro debate externo abrangendo os intelectuais que orbitaram

    estes dois polos25

    . Controvrsias surgem quando se trata deste ponto. Talvez em razo da

    nomenclatura vaga, mtodo formal possa querer dizer inmeras coisas pouco precisas,

    abrangendo um grande nmero de tericos cujas obras so imensamente diversas.

    Um exemplo interessante o do Crculo de Bakhtin. bastante comum a incluso

    de Mikhail Bakthin ou mesmo de Pvel Medviedv26

    como parte dos formalistas russos.

    Ao final deste captulo, nos dedicaremos ao caso particular de Medviedv, que tece fortes

    crticas ao grupo e parece pouco crvel que este possa ser considerado um formalista

    russo.

    A despeito de controvrsias, optou-se aqui por considerar como formalistas os

    tericos envolvidos no Crculo Lingustico de Moscou e da Sociedade para o Estudo da

    Lngua Potica. importante ressaltar, contudo, que no h homogeneidade quanto a esta

    caracterizao, como nos mostra Peter Steiner

    Segn ls moscovitas Bogatyrv y Jakobson, mientras que el Crculo

    Lingstico de Mosc parte del supuesto de que poesa es lenguaje em su

    funcin esttica, ls de San Petersburg defienden que el motivo potico

    no siempre es um simple desdoblamiento del material lingustico. An

    ms: mientras aqullos sostienen que el desarrollo histrico de ls formas

    artsticas tiene un fundamento sociolgico, stos insisten em la autonomia

    total de estas formas 27

    25 Refiro-me principalmente a Victor Jirmunski, professor e historiador da literatura que talvez nem

    possa ser considerado um formalista russo. H tambm Mikhail Bakhtin e Pvel Medviedv que so

    corriqueiramente elencados dentro da corrente formalista. 26

    O autor entende que a caracterizao de Medvidev entre os formalistas russos se deva a

    indefinio e mesmo disputa do mtodo formal. Ao que consta, somente a partir da dcada de 70 houve

    esforos para traduzir diversos literatos e tericos russos, como o caso de Bakhtin. Outro fato possvel se

    deve ao ttulo de seu ensaio O mtodo formal nos estudos literrios: introduo crtica a uma potica sociolgica. Alguns pontos deste ensaio sero analisados no captulo final.

    27 STEINER, Peter. "Formalismo ruso." In: SELDEN, Raman. Historia de La crtica literria Del siglo XX. Del Formalismo al Postestructuralismo. Traduccon Muoz Santamaria, Juan y Lpez Cuenca,

    Alberto. Akal, 2010. 8 vols. p.11-29.

  • 15

    A diversidade de opinies se manifesta inclusive entre os dois grupos, como mostra o

    trecho destacado. Essa observao nos parece importante. Entretanto este fato no ser

    dominante no desenvolvimento das nossas hipteses.

    Ademais, OPOYAZ E CLM alcanaram resultados similares, at mesmo devido

    participao ativa de seus membros nos dois grupos. Em Petrogrado (posteriormente So

    Petersburgo), o grupo da OPOYAZ possua forte influncia da filosofia husserliana:

    Husserl sustentava que todos os fenmenos espirituais isto , no materiais, tinham a sua

    prpria existncia independente28

    Isto , tais fenmenos deveriam ser estudados em sua

    essncia, em sua pura e plena forma. Este fato possuir grande impacto para os estudos de

    Victor Chklvski e da OPOYAZ.

    Em consonncia, o Crculo Lingustico de Moscou, na mesma poca, desenvolvia

    as sugestes elaboradas por Ferdinand de Sausurre, opondo a dimenso da langue

    identificada como eixo sincrnico, sistmico; e a parole, identificada como eixo

    diacrnico, das sucesses, histrico. Os moscovitas deram prioridade ao eixo sincrnico,

    descrevendo a linguagem como um sistema, que possua independncia em oposio

    diacronia. Conforme Krystyna Pomorska (1972)

    Os dois pontos bsicos dessas oposies [langue e parole] correspondem

    noo husserliana do carter independente do fenmeno espiritual ou

    no-material, segundo a qual este fenmenos s pode ser compreendido

    atravs de sua essncia. 29

    Os esforos se dirigiam literatura per si, isto , tratar a obra literria de forma imanente.

    Somente desta forma poderiam construir uma cincia autnoma, formular questes

    prprias e promover novos estudos. A caracterizao de Bris Schnaiderman parece-nos

    bastante ilustrativa sobre a atitude dos formalistas

    [...] Por uma recusa categrica s interpretaes extraliterrias do texto. A filosofia, a sociologia, a psicologia, etc., no poderiam servir de ponto

    de partida para a abordagem da obra literria. Ela poderia conter esta ou

    aquela filosofia, refletir esta ou aquela opinio poltica, mas, do ponto de

    vista do estudo literrio, o que importava era o priom, ou processo, isto ,

    o princpio da organizao da obra como produto esttico, jamais como

    um fator externo. [...] 30

    28 POMORSKA, Krystyna. Formalismo e Futurismo A teoria Formalista Russa e seu Ambiente

    Potico. So Paulo: Editora Perspectiva S.A, 1972.p.25. 29

    Ibid. 30

    SCHNAIDERMAN, Bris. Prefcio p9-10.

  • 16

    Como observa Schnaiderman (1970), os formalistas se recusavam a aceitar os

    pressupostos da histria literria tradicional por exemplo, um antiquarismo turro ou

    mesmo um historicismo primitivo, os mesmo descritos por Wellek em sua anlise31.

    Como resultado desse rompimento, a literatura teria de ser estudada por meio de mtodos e

    procedimentos especficos, que fossem prprios a uma cincia literria, e no aqueles que

    valorizassem aspectos considerados externos, como a biografia do autor, sua histria

    pessoal e de sua poca ou mesmo fatores sociolgicos que teriam implicaes no texto.

    Tal abordagem parte de um claro ataque s tradies acadmicas russas e esttica

    que tendia transcedentalidade e ao misticismo do simbolismo. Os formalistas

    enfatizavam contingente e o que poderia ser caracterizado como especfico do fenmeno

    literrio.

    Contudo, no presente momento, o leitor pode constatar que utilizamos

    majoritariamente referncias de terceiros, isto , estudos que falaram a respeito dos

    formalistas. Nesse sentido convm esmiuarmos algumas formulaes feitas pelos prprios

    formalistas na tentativa de levantarmos questes centrais para o maior entendimento do

    tema. Nesse sentido, optamos por estudar alguns autores que nortearo as discusses

    realizando uma progresso at os seus ltimos anos de atuao.

    Em primeiro lugar, nos dedicaremos aos anos de enfrentamento e polmicas

    (1916-1920), tratando fundamentalmente do moscovita Roman Jakobson (1896-1982) e de

    Victor Chklvski (1893-1984), nascido em Petrogrado. Jakobson fundou com Ossip Brik

    (1888-1945) o Crculo Lingustico de Moscou e talvez possa ser considerado o membro de

    maior expresso dentro e fora do formalismo russo, reconhecidamente um dos maiores

    linguistas do sculo XX. Chklvski foi um dos mais importantes membros e fundadores da

    OPOYAZ em Petrogrado e responsvel pelo conceito de estranhamento, que possui

    ressonncia at mesmo sobre as teorizaes da teoria da informao.

    Posteriormente partiremos da reviso crtica feita por Bris Eikhenbaum (1886-

    1959), membro importante do formalismo, tratando assim dos anos que ficaram

    conhecidos como o desenrolar turbulento (1921-1926). Encontraremos algumas crticas

    31 Estas caractersticas seriam indicativas da onipresena de outras disciplinas que eclipsariam um

    projeto de cincia literria, inteno pretendida pelos formalistas russos. Assim sendo, no objetivo deste

    trabalho avaliar ou discutir o termo cincia literria ou mesmo qu significaria tradio. Seria demasiado extenso e complexo merecendo um trabalho de maior flego, objetivo este alm das possibilidades da

    presente monografia.

  • 17

    feitas por Victor Jirmunski (1891-1971) e outros autores como Pvel Medviedv. O debate

    crucial sobre histria literria deste trabalho ficar no ltimo captulo.

    2.1 OS ANOS DE ENFRENTAMENTO E POLMICAS (1916-1920):

    2.1.1 ROMAN JAKOBSON E VICTOR CHKLVSKI

    O perodo revolucionrio fomentava novas possibilidades e novos enfoques. Os

    jovens estudantes procuravam autonomia, desejavam profundamente o novo. Libertar a

    palavra, para os formalistas, significava a derrocada da poesia simbolista em favor dos

    poetas futuristas. Este intenso desejo explica o ttulo do ensaio de Victor Chklvski

    intitulado A Ressurreio da palavra, um dos primeiros manifestos do grupo em

    formao. Podemos observar na primeira pgina da brochura o seu tom incisivo:

    Palavra: a imagem e sua petrificao. Epteto como meio de

    renovao da palavra. A histria do epteto: a histria do estilo potico. O

    destino das obras dos antigos artistas o mesmo que o destino da prpria

    palavra: eles realizam o caminho da poesia para a prosa. A morte das

    coisas. A tarefa do futurismo ressurreio das coisas devoluo ao ser humano da vivncia do mundo. A ligao dos mtodos da poesia futurista

    com os mtodos do pensamento lingustico geral. A linguagem da poesia

    antiga parcialmente compreensvel. A linguagem dos futuristas 32

    .

    A clara ligao dos tericos formalistas com o futurismo russo inquestionvel. Como

    Krystyna Pomorska afirma, a disciplina pela qual mais se interessavam os futuristas era a

    lingustica moderna. Nas reunies do Crculo Linguistico de Moscou, Maiakvski fazia

    leituras de suas poesias e convidava assim os seus companheiros a possveis descries

    cientficas como nos relata Jakobson:

    Quando surgiu entre alguns fillogos de Moscou uma discusso sobre que atributos constituam os eptetos, Maiakvski, ento presente

    declarou incisivo: Mas para mim tudo epteto.33

    A mxima de Maiakvski corrobora a primeira pgina da brochura de Chklvski,

    confirmando de forma indubitvel a presena da potica futurista no direcionamento

    32 CHKLVSKI, apud MEDVIDEV, Pvel Nikolievitch. O mtodo formal nos estudos literrios:

    introduo crtica a uma potica sociolgica. Traduo de Ekaterina Vlkova Amrico e Sheila Camargo

    Grillo. So Paulo: Contexto, 2012. 269 p103. 33

    JAKOBSON, Roman. apud. POMORSKA, Krystyna. Formalismo e Futurismo A teoria Formalista Russa e seu Ambiente Potico. So Paulo: Editora Perspectiva S.A, 1972.p.12

  • 18

    terico do formalismo russo. O epteto como meio de renovao da palavra faz clara

    referncia obra de Vesseslovski A Histria do epteto em fuso com as declaraes de

    Maiakvski e outros futuristas34

    . O futurismo russo seria o responsvel para trazer de volta

    ao mundo a vivncia das coisas. Se a palavra, ou melhor, a poesia se encontrava morta

    ou carcomida por um velho ideal esttico, agora ela teria uma nova alternativa para

    florescer e, seu terreno precisava estar livre.

    A alternativa dada pelos formalistas a estas questes era isolar a literatura das

    disciplinas que a subjulgavam como se tratassem de um subcampo das humanidades e,

    investigar aquilo que imanente literatura. Roman Jakobson um pouco mais enftico

    em suas afirmaes, como podemos observar no trecho abaixo:

    Deste modo, o objeto do estudo literrio no a literatura, mas a

    literariedade, isto , aquilo que torna determinada obra literria. E no

    entanto, at hoje, os historiadores da literatura, o mais das vezes,

    assemelhavam-se polcia (...) Tudo servia para os historiadores da

    literatura: os costumes, a psicologia, a poltica, a filosofia. Em lugar de

    um estudo da literatura, criava-se um conglomerado de disciplinas mal-

    acabadas. (...) Se o estudo da literatura quer tornar-se uma cincia, ele

    deve reconhecer o processo como seu nico heri35

    Nesse sentido, se faz imperativo um termo: literariedade, que justamente o que o

    estudioso em literatura deve procurar estudar. No a literatura que se deve interrogar,

    mas precisamente aquilo que confere o carter literrio ao texto. A definio das tarefas do

    mtodo formal, da forma de investigao e o qu faz um artista quando faz literatura

    tambm uma preocupao de Victor Chklvski. Chklvski, de maneira anloga a

    Jakobson, tambm dedica seus estudos a definio dos problemas literrios. Esse

    processo (ou priom em russo), mencionado por Jakobson, exatamente a funo potica

    da literatura, isto , aquilo que confere o carter literrio ao texto. Vejamos mais

    detidamente um de seus trabalhos mais famosos.

    Victor Chklvski, em artigo publicado em 1917, chamado A arte como

    procedimento, define a funo potica partindo de um ataque ao famoso terico

    simbolista Potiebni, empreendendo uma anlise sobre a funo potica em Tlstoi, para

    34 MEDVIDEV, Pvel. O Mtodo formal nos estudos literrios. Introduo a uma potica

    Sociolgica. Traduo de Ekaterina Volkova Amrico. Editora Contexto, 2010 35

    Cf. SCHNAIDERMAN, Bris. Prefcio In TOLEDO, Dionsio de Oliveira. Teoria da Literatura:

    formalistas russos. Porto Alegre: Editora Globo ,1971.pp. 36-37.

  • 19

    confirmar a sua teoria da singularizao36

    . O autor argumenta a partir da mxima A arte

    pensar por imagens que boa parte das escolas poticas, principalmente aquelas ligadas

    tradio simbolista, representadas por Potiebni, incorreram no erro de elevar este

    pensamento at as suas ltimas consequncias. Chklvski afirma que uma razo possvel

    para esse equvoco, se deve ao fato de Potiebni no distinguir a lngua prosaica da

    lngua potica. Para Chklvski, a linguagem potica, a partir de certos procedimentos

    particulares, criadora de objetos estticos que so capazes de darem uma percepo

    diferenciada e mxima ao leitor. Esses procedimentos abrangem as figuras de linguagem,

    tais como comparaes, repeties, metforas, paralelismos e etc. A linguagem prosaica,

    por outro lado, obedece em certa medida, a uma lei da economia de energias proferida por

    Spencer, na qual um objeto enxergado pelo seu reconhecimento imediato, sem

    necessidade do leitor ter um estranhamento na narrativa. Um bom exemplo dessa lei de

    economia de energias seria a total algebrizao da comunicao, na qual um leitor

    conseguiria discernir, quase sem trabalho algum, os significados e o encadeamento do

    texto e das palavras.

    justamente neste sentido que Chklvski argumenta que a funo da linguagem

    potica fazer com que se perceba o objeto narrado como nico. A este procedimento deu

    o nome de singularizao ou desautomatizao, que visa dar um novo reconhecimento

    ao objeto, mesmo ele sendo mundano. H uma ressalva feita por Chklvski que diz que

    esse procedimento no busca adivinhar ou eufemizar um objeto, mas sim dar uma nova

    impresso destacada desse objeto dentro do encadeamento da narrativa. Esse procedimento

    axial para o entendimento da abordagem formalista textual. E tal diferenciao visa

    alargar a distino entre linguagem potica e linguagem prosaica. Sendo o ritmo esttico

    consistindo de uma violao do ritmo prosaico. O trecho mais relevante o que diz:

    O objetivo da arte dar a sensao do objeto como viso e no como

    reconhecimento; o procedimento da arte o procedimento de

    singularizao dos objetos e o procedimento que consiste em obscurecer

    a forma, aumentar a dificuldade e a durao da percepo. O ato de

    percepo em arte um fim em si mesmo e deve ser prolongado; a arte

    um meio de experimentar o devir do objeto, o que j passado no importa para a arte.

    37

    36 Singularizao o termo que Chklvski utiliza em seu texto. Contudo, desautomatizao e

    estranhamento so sinnimos. 37

    CHKLVSKI, Victor. A arte como procedimento In TOLEDO, Dionsio de Oliveira. Teoria da Literatura: formalistas russos. Porto Alegre: Editora Globo ,1971.pp.40-41.

  • 20

    Nesse sentido, singularizao o procedimento artstico que visa dar um novo

    olhar a algo usual. Que visa aumentar a experincia da percepo do leitor no contato com

    o objeto transformado em artstico. Antes ordinrio, agora percebido como nico e

    singular. Que dentro da experincia do leitor com o texto, estranha, singulariza ou

    desautomatiza, alarga a sua percepo em relao ao objeto vendo-o como novo e nico. A

    experincia esttica torna-se o estranhamento do objeto pela percepo do leitor. A

    insistncia na exposio deste conceito no leviana, pois se faz mister para a

    compreenso da funo potica formalista, sendo Chklvski o seu idealizador.

    O tom incisivo e ao mesmo tempo polmico de Chklvski no lhe era nico. A

    caracterstica dominante dos trabalhos dos formalistas nos cinco primeiros anos era esse

    profundo desejo de diferenciao e embate e por vezes, polmico como gostam de

    sugerir seus detratores. Deste modo, despertaram muita ateno dos principais crculos

    intelectuais de sua poca. As maiores revistas de crtica em arte e literatura fizeram-lhes

    crticas vorazes e elogios que beiraram a bajulao. Contudo, seus adversrios se

    levantariam e lhe fariam duros julgamentos fixando assim uma ideia na histria da

    literatura a respeito dos formalistas. Muito de sua fama foi cunhada a partir desses anos de

    desenvolvimento turbulento. Voltaremos especificamente s crticas no final do presente

    captulo.

    2.2 O DESENROLAR TURBULENTO (1921-1926)

    2.2.1 BRIS EIKHENBAUM, VICTOR JIRMUNSKI E AS CRTICAS AO MTODO

    FORMAL.

    A medida que o mtodo formal ganhava contornos mais ntidos e despertava a ateno

    dos meios intelectuais russos, erguiam-se as crticas contra os seus principais

    representantes. Nesse mbito, os problemas fundamentais do mtodo formal encontram

    reviso no artigo de Bris Eikhenbaum chamado A teoria do mtodo formal38, publicado

    em 1925. O artigo prope um grande esboo histrico da evoluo do mtodo formal,

    desde o esclarecimento de algumas controvrsias, partindo dos anos de seu surgimento at

    o presente momento em que o autor escreve. Eikhenbaum se imbui da tarefa de dar um

    38 EIKHENBAUM, Bris. A teoria do mtodo formal. In TOLEDO, Dionsio de Oliveira. Teoria

    da Literatura: formalistas russos. Porto Alegre: Editora Globo,1971.pp. 3-4.

  • 21

    sentido ao conjunto de trabalhos realizados dentro do mbito da OPOIAZ, citando seus

    principais tericos e estudos, para expor a sua prpria concepo do que entende por

    mtodo formal. Alguns trechos merecem destaque

    O chamado mtodo formal no resulta da constituio de um sistema metodolgico particular, mas dos esforos para a criao de uma cincia autnoma e concreta (...). Realmente no falamos, nem

    discutimos sobre nenhuma metodologia. Falamos unicamente de alguns

    princpios tericos que nos foram sugeridos pelo estudo de uma matria

    concreta e de suas particularidades especficas e no por este ou aquele

    sistema completo, metodolgico ou esttico.39

    Neste visada, o mtodo formal pode ser encarado como consistindo no conjunto de

    problemas que foram suscitados para o estabelecimento de uma cincia literria. um

    conjunto de novas questes que merecem ser examinadas por uma tica particular, prpria

    do trato literrio. Eikhenbaum parece-nos bem ponderado em suas observaes.

    Eikhenbaum ainda nos esclarece alguns pontos referentes compreenso do que consiste a

    obra de arte literria. O autor ainda nos lembra de uma reflexo extremamente relevante

    que necessita ser aludida.

    Distanciando-se de Potiebni, os formalistas possuem uma noo de forma um

    tanto quanto peculiar. A correlao forma-contedo perde todo o sentido, se encararmos a

    noo de forma como uma integridade dinmica e concreta que tem um contedo em si

    mesma. Esta distino rompe completamente com a correlao tradicional forma-contedo.

    Agora, para os formalistas, a noo de forma como invlucro, como um recipiente no qual

    se deposita o contedo, no mais necessria. Isto faz sentido se lembrarmos que a arte o

    conjunto de procedimentos adotados para a confeco de um objeto artstico que tem um

    fim em si mesma, e deve ser entendida ignorando-se a dicotomia tradicional entre forma-

    contedo. A noo de forma obtinha outro significado e no necessitava de nenhuma

    noo complementar, nenhuma correlao.40

    Eikhenbaum parece concordar com as afirmaes iniciais de seu companheiro,

    Chklvski, particularmente aquelas referentes radical distino entre linguagem prosaica

    e linguagem potica. O autor afirma que os trabalhos da OPOYAZ visavam o

    alargamento e aprofundamento dos problemas, mas tambm no sentido e diferenciao a

    39 Ibid., p.5.

    40 EIKHENBAUM, Bris. A teoria do mtodo formal. In TOLEDO, Dionsio de Oliveira. Teoria

    da Literatura: formalistas russos. Porto Alegre: Editora Globo, 1971..p.13.

  • 22

    medida que o grupo ia aumentando41. justamente neste mbito que podem ser

    compreendidos a extenso de trabalhos sobre a teoria do verso, as ligaes entre

    construes sintticas ligadas ao ritmo e os nexos entre o enredo e o estudo da prosa.

    O autor, dando prosseguimento a sua anlise, alimenta controvrsias mesmo

    negando que seu artigo tenha finalidade polmica. O trecho exposto a seguir, trata da sua

    tentativa de reconstruo histrica da evoluo do mtodo, e pode ser encarado como um

    esclarecimento, mas tambm como uma defesa frente aos opositores dos formalistas - ou

    mesmo de seus prprios companheiros.

    Nossos adversrios e muitos de nossos discpulos no se deram conta

    disso [se referindo ao mtodo formal]. Estamos rodeados de eclticos e

    epgonos que transformam o mtodo formal num sistema imvel de

    formalismo, o qual deve servir-lhes para a elaborao de termos,

    esquemas e classificaes.42

    Esta passagem faz clara referncia aos intelectuais que se aproximaram do

    movimento e a grande querela a respeito da definio do mtodo formal. O autor, que

    gozava de grande prestgio entre seus companheiros, propunha-se at mesmo a julgar os

    trabalhos de Victor Jirmunski, um eminente professor universitrio e historiador da

    literatura que se aproximou da OPOYAZ no incio dos anos 20.

    Curiosamente, estas tenses ficam claras inclusive na escolha dos artigos a serem

    elencados como formalistas na edio reeditada por Tzvetan Todorov sob os auspcios de

    Roman Jakobson.43

    So at mesmo visveis no prefcio da segunda edio da obra

    fundamental de Victor Erlich, que se mostra um tanto quanto receoso ao incluir Victor

    Jirmunski entre os trabalhos dos formalistas.44

    No mais, vejamos as palavras de

    Eikhenbaum:

    Todos os trabalhos tericos de Jirmunski tiveram consequentemente um

    carter pedaggico de classificao. Trabalhos deste gnero no tiveram

    importncia fundamental na evoluo geral do mtodo formal e indicam

    unicamente uma tendncia que procura atribuir um carter acadmico ao

    41 Ibid.

    42 Ibidem.

    43 Cf. ausncia do artigo de Jirmunski na traduo feita por Tzvetan Todorov. As controvrsias

    ficam claras quando se leva em conta que Jirmunski no era considerado formalista por seus prprios

    companheiros 44

    Para maiores detalhes, ver: ERLICH, Victor. Prlogo. El formalismo ruso. Historia Doctrina. Editorial Seix Barral S.A. Barcelona. 2004. No pretendemos julgar a reviso crtica de Erlich, contudo,

    lcito supor que Roman Jakobson tenha no mnimo ratificado suas opinies..

  • 23

    mtodo formal. Por isso no surpreendente que Jirmunski se tenha

    separado inteiramente da OPOIAZ.45

    Esta defesa do mtodo formal por Eikhenbaum deve ser compreendida luz das

    prprias discordncias internas do movimento. E principalmente, como resposta s crticas

    elaboradas no artigo de nome Sobre a questo do mtodo formal46 de 1923, de autoria de

    Victor Jirmunski.

    Jirmunski, dois anos antes do artigo de Eikhenbaum, suscitava questes relativas ao

    artigo citado de Chklvski, principalmente em relao ao ttulo A arte como

    procedimento. Jirmunski v um duplo sentido, no termo procedimento indicando por

    um lado um mtodo e por outro, uma frmula. Jirmunski afirma:

    [...] que de maneira ingnua, esta teoria atribui ao prprio poeta

    exclusivamente tarefas artsticas: porm a existncia de tarefas no

    estticas no processo de criao (em particular tarefas morais), facilmente comprovada pelas declaraes dos prprios poetas [...]

    47

    Esta ambiguidade enxergada pelo autor no procedimento artstico pode ser

    explicada pelo fato de considerar de extrema relevncia, problemas que seus companheiros

    colocavam em segundo plano, como por exemplo, as tarefas morais, apontadas no trecho

    destacado. O vocabulrio era extenso: tarefas morais, motivos psicolgicos ou causas

    primeiras eram frases que no vinham somente de Jirmunski, mas de outros adversrios

    de tendncia marxista. Marxista ou no, Jirmunski tece crticas um tanto quanto

    superficiais aos formalistas e parece no ter entendido muito bem a proposta de seus

    companheiros ou pior, ignorado e confirmado a tese de Eikhenbaum. A despeito de tais

    concluses, suas crticas a Chklvski e aos outros tericos do formalismo russo nos

    parecem muito s crticas marxistas que se fixaram e se mantiveram. Uma boa sntese

    delas realizada por Katerina Clark e Michael Holquist em estudo sobre Bakthin e os

    formalistas e pode ser observada no trecho abaixo:

    A maioria dos tericos literrios filiados ao marxismo limitava-se a

    repetir os clichs do dogma marxista clssico segundo o qual a literatura

    no era mais do que uma superestrutura ideolgica a refletir a base

    45 EIKHENBAUM, Bris. A teoria do mtodo formal. In TOLEDO, Dionsio de Oliveira. Teoria

    da Literatura: formalistas russos. Porto Alegre: Editora Globo, 1971. pp. 15-16. 46

    JIRMUNSKI, Victor. Sobre a teoria do mtodo formal. In TOLEDO, Dionsio de Oliveira. Teoria

    da Literatura: formalistas russos. Porto Alegre: Editora Globo, 1971.p.59. 47

    Ibid.,p.61.

  • 24

    econmica, ficando para ser especificado como tal processo teve lugar

    efetivamente em exemplos concretos da histria literria. 48

    De fato, os formalistas russos no negavam que a existncia de fatores externos

    poderia influenciar as anlises literrias. Na realidade, como foi apontado, os estudos se

    dirigiam aos processos que conferiam o carter potico literatura, isto , os recursos

    empregados tais como o ritmo, a estrutura mtrica, as figuras de linguagem e outros

    procedimentos que deveriam ser compreendidos como intrnsecos literatura. Aos

    elementos exclusivos da literatura, no a fatores externos.

    No parecem justas as ponderaes de Jirmunski, nem as de outros marxistas como

    P.N.Saklin que sustentava que os formalistas ignoravam os fatores sociais e polticos49

    ou mesmo as de Leon Trotsky que acusava o mtodo formal como extremamente

    arrogante e imaturo 50. Conforme Clark e Holquist (1998), muito mais adequadas eram as

    crticas de Meviedv51

    que enfrentou o formalismo no territrio real de seus problemas.

    Pvel Nikolavievitch Medviedev, que compunha o crculo Bakthiniano, desfere um ataque

    de feies marxistas, s que com argumentos mais consistentes que aqueles defendidos

    pelos outros crticos, no estudo O Mtodo formal nos estudos literrios Introduo

    crtica a uma potica Sociolgica. O livro prope-se a criticar os supostos exageros e

    incoerncias dos formalistas russos. Clark & Holquist sublinham o problema de forma

    enftica:

    Apesar de toda apregoada ateno ao texto mesmo, eles chegavam, no fim, em sua definio da literatura, a uma explicao extratextual,

    baseada em pressupostos sobre a percepo ou, em outras palavras, sobre

    a psicologia humana. Com efeito, acusa-os Bakhtin [Medviedv], eles

    meramente redirecionam a antiquada preocupao crtica com a vida

    psicolgica de autores e personagens para a psicologia dos autores.52

    48 CLARK, Katerina; HOUQUIST, M. Mikhail Bakhtin. Trad.J.Guinsburg. Editora Perspectiva, So

    Paulo, 1998.p.213. 49

    Ibid.,p.212. 50

    TROTSKY, Leon. A Histria da Revoluo Russa. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1977

    volume 2.p.163. 51

    Clark e Holquist atribuem essas crticas Bakthin. Refiro-me a antiga discusso a respeito da

    autoria dos textos de Bakhtin. O autor do presente estudo procura se desvencilhar de tais questes e aceitou a

    autoria de Medviedv unicamente como recurso didtico. 52

    CLARK, Katerina; HOUQUIST, M. Mikhail Bakhtin. Trad.J.Guinsburg. Editora Perspectiva, So

    Paulo, 1998.p214.

  • 25

    Esta contribuio de Mdviedev e do Crculo Bakhtiniano importantssima no que

    tange a teoria do estranhamento de Chklvski. Tal crtica s chegou a ser publicada no ano

    de 1928, aps os prprios formalistas revisarem alguns de seus pressupostos no estudo da

    literatura. Mas uma coisa fica clara a respeito do crculo Bakhtiniano: eles se distanciaram

    radicalmente das formulaes do formalismo russo e merece um estudo a parte pela

    profundidade de reflexes apresentadas, que no caberia no presente trabalho.

    Mas mais uma vez, o artigo de Eikhenbaum parece-nos muito importante para

    entendermos a atitude de seus companheiros nos primeiros anos. Um ltimo trecho do

    supracitado A teoria do mtodo formal. merece destaque para desvelarmos o ltimo

    objetivo deste trabalho:

    A histria nos exigia uma verdadeira paixo revolucionria, teses

    categricas, ironia impiedosa, recusa audaciosa de todo o esprito de

    conciliao. (...) O prprio estado das coisas nos pedia que nos

    separssemos da esttica filosfica das teorias ideolgicas da arte. 53

    Este trecho apresenta de forma sucinta, uma defesa de toda a atitude ofensiva frente

    s anlises que prezavam uma esttica filosfica, um biografismo excessivo como

    mtodo de compreenso textual, uma atitude primordialmente sociolgica e histrica no

    trato literrio. O artigo que se propunha a inmeros esclarecimentos como se pode

    constatar inclusive a julgar a atitude primeira de seus companheiros como foi demonstrado.

    Mas a primeira frase do trecho destacado reveladora no que tange a uma

    particular percepo temporal e uma sensvel conscincia histrica de Eikhenbaum. Estas

    tenses ficam claras no prximo captulo que tratar especificamente do problema da

    histria literria.

    53 EIKHENBAUM, Bris. A teoria do mtodo formal. In TOLEDO, Dionsio de Oliveira. Teoria

    da Literatura: formalistas russos. Porto Alegre: Editora Globo,1971.pp.13.

  • 26

    3.0 CAPTULO III O MTODO FORMAL EM QUESTO CRISE, SUPRESSO

    E HISTRIA LITERRIA.

    3.1 CRISE E SUPRESSO 1926-1930

    3.1.1 POR UMA HISTRIA LITERRIA YURI TYNIANOV E ROMAN

    JAKOBSON

    Ainda nos resta uma ltima questo, relativa perspectiva particular dos tericos

    do formalismo russo na compreenso da histria literria. A histria literria ou nas

    palavras dos formalistas russos, a evoluo literria pode ser entendida como um

    movimento das formas literrias, um movimento interno, sincrnico, sistmico e orgnico.

    Essa noo contrape-se srie diacrnica, das mudanas e das sucesses. Como

    observado por Pomorska, Erlich e Wellek, os formalistas nos anos iniciais estavam a par

    das sugestes elaboradas por Ferdinand de Sausurre, opondo a dimenso da langue

    (identificado como eixo sincrnico) e da parole (identificado como eixo diacrnico). A

    dimenso proposta pelos formalistas era submeter os fatos histricos s variveis formas e

    tipos de procedimentos utilizados na confeco do objeto artstico. Submeter as leis

    histricas s sries literrias era necessrio para a manuteno de sua autonomia quanto ao

    seu campo. Essa noo foi aprofundada por Yuri Tynyanov como o movimento e mudana

    das formas. O artigo analisado o chamado Da evoluo literria, e datado de 1927:

    Deveramos opor os fatos histricos concretos, a instabilidade e a

    variabilidade da forma, a necessidade de levar em considerao as

    funes concretas deste ou daquele procedimento, isto , de contar com a

    diferena entre a obra literria tomada como um certo fato histrico e sua

    livre interpretao. 54

    Tynyanov dedica o artigo chamado Da evoluo literria55, em meio

    perseguio do regime stalinista, a nada mais que seu companheiro formalista, Bris

    Eikhenbaum. Este dado nos parece relevante, pois Eikhenbaum julgava a atitude ofensiva e

    radical frente s anlises histricas, como uma necessidade dos primeiros anos do

    estabelecimento do formalismo russo, como grupo preocupado com determinadas tarefas

    54 TYNIANOV, Yuri. Da evoluo literria. In TOLEDO, Dionsio de Oliveira. Teoria da

    Literatura: formalistas russos. Porto Alegre: Editora Globo,1971.p.106. 55

    Ibid.

  • 27

    da anlise textual. A julgar pela atitude, Tyninanov parecia ainda um tanto quanto radical

    em suas afirmaes.

    Tynyanov acreditava que a literatura poderia ser estudada em correlao com outras

    sries vizinhas, isto , a vida social a biografia, a histria, a psicologia e outras

    disciplinas auxiliares. Vejamos mais um trecho, em tom conclusivo, de Tynyanov

    O estudo da evoluo literria no possvel a no ser que a

    consideremos como uma srie, um sistema tomado em correlao com

    outras sries ou sistemas e condicionada por eles.(...) O estudo da

    evoluo literria no rejeita a significao dominante dos principais

    fatores sociais; pelo contrrio, somente neste quadro que a significao

    pode ser esclarecida em sua totalidade. 56

    Como se pode depreender no se nega a histria das anlises literrias, mas a

    considera como uma srie que tem correlao direta com as sries literrias. A histria,

    nesse sentido, no expulsa das anlises literrias, mas sim reconsiderada em seus

    aspectos relacionais com a srie literria. Tyinanov acreditava que era necessrio enxergar

    o problema da evoluo literria de maneira autnoma e o isolamento que se propunha no

    significava o seu abandono, antes, era recoloca-lo verdadeiramente.

    Mas Medviedv lembra-nos que o problema das sries literrias tinha razes nas

    primeiras formulaes dos formalistas. Particularmente Chklvski ao falar que A histria

    da literatura avana seguindo uma linha descontnua e quebradia57. Chklvski - segundo

    Eikhenbaum - argumenta que a sucesso das escolas e correntes literrias avana no de

    pai para filho, mas sim de tio para sobrinho acontecendo aquilo que os formalistas

    chamam de canonizao da linha menor58.

    Em captulo motivado a combater essa perspectiva, Medviedv atribui o cerne da

    discusso sobre a sucesso histrico-literria a concepes baseadas nas leis de

    automatizao-perceptibilidade, que fundamentariam a simultaneidade histrica, mas

    nunca uma sucesso. Vejamos trecho que resume bem o argumento de Medviedv:

    Para essa sucesso necessrio que a gerao seguinte a gerao dos filhos se junte linha menor e perceba as suas formas de maneira mais aguada do que a gerao dos pais (...). A gerao

    56 Ibidem, p.118.

    57 CHKLVSKI, apud MEDVIDEV, Pvel Nikolievitch. O mtodo formal nos estudos literrios: introduo crtica a uma potica sociolgica. Traduo de Ekaterina Vlkova Amrico e Sheila Camargo

    Grillo. So Paulo: Contexto, 2012. 269 p.230 58

    Ibid.

  • 28

    dos filhos se v na situao do asno de Buridan entre a linha menor

    e a maior. As premissas psicolgicas de perceptibilidade de ambas

    as linhas so exatamente as mesmas e apenas um impulso ocasional

    pode fazer com que o mesmo asno de Buridan se movimente (...)

    Dessa forma, com igual probabilidade que pode se dar tanto a

    canonizao da linha menor quanto a prosperidade subsequente da

    linha maior canonizada [...] 59

    A astcia de Medviedv ao atacar um dos principais problemas do formalismo russo em

    livro to importante talvez possua resposta indireta. Um ltimo artigo, publicado um ano

    aps Da evoluo literria de Tynyanov, assinado por ele mesmo e por Roman Jakobson,

    considerado muito similar s famosas Teses de 1929 que inaugurariam a lingustica

    estrutural em Praga, por Jakobson, Mukarvski e Trubetzkoy. O artigo chamado Os

    problemas dos estudos literrios e linguisticos, de carter imperativo, enumerando s suas

    teses conclusivas de teor profundamente revisionista, embora sucinto, merece uma ltima

    meno para sugerirmos um caminho, um direcionamento, um sentido das propostas dos

    estudos dos formalistas russos

    4 Para a lingustica assim como para a histria literria, a ntida oposio entre o aspecto sincrnico (esttico) e o aspecto diacrnico era

    uma hiptese de trabalho fecundo. Entretanto, o caso do qual se trata

    leva em considerao precisamente o dos tericos envolvidos no

    Crculo Lingustico de Moscou e da OPOYAZ uma vez que mostrava o carter sistemtico da lngua (ou da literatura) em cada perodo

    particular da vida. Hoje as concluses da concepo sincrnica obrigam-

    nos a reexaminar os princpios da diacronia.60

    Este trecho extremamente revelador, pois expe, de forma sucinta, as tenses em

    que estavam imbricados os formalistas russos e seus estudos referentes histria literria

    nos seus ltimos anos de atuao. O dado interessante que, como nos mostra

    Medvidedv, este problema sempre existiu. Observamos agora que ele foi tardiamente

    identificado. Entrementes, uma reviso sobre as perspectivas diacrnicas era necessria,

    para darem continuidade aos estudos das sries literrias e estabelecerem suas relaes

    com mais preciso. O trecho mais interessante o ltimo: reexaminar os princpios da

    59 MEDVIDEV, Pvel Nikolievitch. O mtodo formal nos estudos literrios: introduo crtica a

    uma potica sociolgica. Traduo de Ekaterina Vlkova Amrico e Sheila Camargo Grillo. So Paulo:

    Contexto, 2012. 269 p.230. 60

    TYNYANOV, Yuri e JAKOBSON, Roman. Problemas nos estudos literrios e lingusticos. In

    TOLEDO, Dionsio de Oliveira. Teoria da Literatura: formalistas russos. Porto Alegre: Editora

    Globo,1971.p.95.

  • 29

    diacronia. Um problema caro no somente aos formalistas russos, mas, particularmente, a

    toda historiografia da poca sem falar das outras correntes que lidaram com os problemas

    da diacronia e sincronia. De todo modo, um ltimo trecho merece destaque:

    6 - O estabelecimento de duas noes diferentes parole e langue e a anlise de sua relao (escola de Genebra) foram extremamente fecundas

    para a lingustica. Aplicar essas duas categorias ( a norma existente e os

    enunciados individuais) literatura e estudar a sua ligao, um

    problema que deve ser profundamente examinado.61

    De fato, este problema s seria realmente reexaminado dcadas depois. Contudo,

    poderamos afirmar que Jakobson e Tyinanov salientavam a necessidade de um conceito

    moderno de tempo, baseado no na cronologia mtrica do calendrio e da cincia fsica,

    mas numa interpretao de ordem causal em experincia e memria 62. Esta frmula de

    Ren Wellek, um dos herdeiros do Crculo Lingustico de Praga que ganhou fora aps o

    desmembramento do formalismo russo, sendo considerado um dos seus desdobramentos.

    Mas voltemos: os princpios da diacronia e sincronia j no suportavam as inmeras

    questes que haviam sido levantadas e os interminveis debates em que eles se

    envolveram. Talvez o problema merea ser examinado de outra forma.

    Wellek argumenta que uma obra de arte, no pode ser encarada simplesmente como

    uma unidade de uma srie cronolgica, um elo na cadeia. Mas sim uma totalidade de

    valores que no devem ser genericamente elencados numa estrutura, mas que constituem a

    prpria natureza da obra de arte. E a prpria natureza da obra de arte, s pode ser

    compreendida se levarmos em conta o valor dela, que a prpria essncia do objeto

    artstico.63

    A despeito das concluses de Wellek a respeito do valor da obra de arte e do papel

    da crtica literria, ele nos aponta os problemas que os formalistas russos encararam em

    seus ltimos artigos, antes de Jakobson e os outros formalistas se exilarem ou se redimirem

    frente ao regime stalinista em ascenso. E este problema justamente o de uma perspectiva

    temporal que d conta do conceito moderno de tempo que os formalistas

    experimentavam de maneira bastante intensa nos seus anos de atuao, procurando

    61 Ibid.,p. 98.

    62 WELLEK, Ren. Conceitos da Crtica (Trad. Mendes, Oscar). So Paulo: Editora Cultrix.1972,

    p.53. 63

    WELLEK, Ren. Conceitos da Crtica (Trad. Mendes, Oscar). So Paulo: Editora Cultrix.1972,

    p.54.

  • 30

    possveis alternativas, em constante reviso. Uma necessidade ento urgente aos estudos

    literrios e histricos.

  • 31

    CONSIDERAES FINAIS

    O presente trabalho no pretendeu esgotar os problemas, conceitos, questes

    propostas e concluses que os formalistas russos apontaram durante o recorte proposto,

    mas sim se basearam na perspectiva que se faz necessrio estudar suas propostas e os

    possveis ecos de seus estudos conjuntamente com suas motivaes originais, para uma

    reflexo mais acurada acerca dos problemas que envolvem os estudos de histria da

    literatura. Nesse sentido, a abordagem proposta se fez necessria pela carncia de estudos

    atuais e histricos a respeito dos formalistas russos e suas tenses histrico-literrias

    brevemente estudadas e analisadas pela bibliografia. O domnio dos problemas de uma

    histria literria, no caso especial dos formalistas russos, exige uma anlise histrica que se

    faz urgente na compreenso dos problemas e no entendimento que se tem a respeito dos

    formalistas russos.

    Ademais, os estudos dos tericos do formalismo russo levantaram questes que

    mereceriam melhor ateno, como por exemplo, o conceito de estranhamento de Victor

    Chklvski ou mesmo os estudos a respeito da linguagem transracional, o zum. Talvez, as

    experimentaes tericas destes homens possam revelar-nos importantes contribuies a

    respeito dos limites entre arte, potica e linguagem. Por exemplo, podemos traar

    paralelos64

    com o conceito de rudo de Brillouin (1968)65

    e o conceito de estranhamento de

    Chklvski.

    Naturalmente, os formalistas russos devem ser reconsiderados de acordo com o seu

    contexto. Significa que o clima poltico, filosfico e artstico deve ser mais bem estudados

    para que estas investigaes faam jus a memria e ao conhecimento que se tm a seu

    respeito. Nesse sentido, a compreenso da poca, o desenrolar dos acontecimentos da

    histria russa, as mudanas de calendrio, a unificao ortogrfica, o perodo

    revolucionrio e de guerras e a prpria biografia dos formalistas russos e sua aliana com

    os poetas e artistas futuristas, poderiam ser tomados como sinais do clmax intelectual,

    64 O paralelo possvel com o conceito de correspondncia de Mallarm. Para maiores detalhes ver:

    STROPARO, Sandra M. O estranhamento de Mallarm. XII Congresso Internacional da ABRALIC.Centro,

    Centros tica, Esttica. UFPR: Curitiba. Julho de 2011. Disponvel em: Acesso em: 16jan2014

    03:40:00. 65

    Ver LATOUR, Bruno; WOOLGAR, Steve. 1997. A ordem a partir da desordem. In: A vida de

    laboratrio: a produo dos fatos cientficos. (Trad. Angela R. Vianna) Rio de Janeiro: Relume Dumar.

    [1988]. Latour e Woolgar se utilizam de conceitos da teoria da informao, mais especificamente o conceito

    de sinal/rudo de Brillouin, que nos parecem muito claros se considerarmos o conceito de estranhamento de

    Chklvski.

  • 32

    artstico e social frente s profundas transformaes nas perspectivas temporais e histricas

    que estavam envolvidos estes atores sem mencionar as implicaes polticas de seus

    estudos. Talvez sua experincia espao-temporal deva ser analisada com maior nfase.

    Precisamente nesta perspectiva que se abrem possveis especulaes dos problemas

    histrico-literrios apresentados pelos intelectuais que foram estudados. Desta forma, seria

    lcito supor, ou mesmo apontar, um possvel caminho, ou mesmo uma ampliao da

    perspectiva histrico-temporal que poderia afetar, ao menos de forma sensvel, vossa

    compreenso da experincia temporal destes atores. As palavras de Victor Chklvski

    poderiam ser tomadas como um importante sintoma: A histria da literatura avana

    seguindo uma linha descontnua e quebradia66. Talvez, analogias possveis ofereceriam

    um novo caminho a ser considerado.

    66 MEDVIDEV, Pvel Nikolievitch. O mtodo formal nos estudos literrios: introduo crtica a

    uma potica sociolgica. Traduo de Ekaterina Vlkova Amrico e Sheila Camargo Grillo. So Paulo:

    Contexto, 2012. 269 p.230

  • 33

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