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Artigo jurídico sobre legalidade na busca pessoal

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Abordagem policial: a busca pessoal e seus aspectos legaisKim Nunes AlvesKim Nunes Alves

Publicado em 08/2011. Elaborado em 06/2011.Pgina 1 de 4

85%gostaram7votosASSUNTOS:TEORIA GERAL DA PROVAPODER DE POLCIABUSCA E APREENSOPODER DE POLCIA NO DIREITO DA SEGURANA PBLICABusca pessoal, abordagem pessoal, revista, "dura", "baculejo" etc. so referncias tcnicas e vulgares ao ato de procurar, no corpo ou "a borda" do indivduo realizador de conduta possivelmente criminosa, elementos que comprovem esse comportamento.

Resumo: A busca pessoal ato realizado pela Policia Militar que, diariamente, utiliza este procedimento como instrumento de promoo da segurana pblica. Contudo, a utilizao deste meio de proteo atinge determinados direitos individuais, instituindo assim, conflitos entre o direito da coletividade e a observncia do princpio da dignidade da pessoa humana. Alm disso, a subjetividade do elemento "fundada suspeita" fornece lastro para diversas interpretaes, o que possibilita a realizao de atos lesivos aos direitos do cidado, sob o manto de fundamentaes ilegtimas.

Palavras-chaves: Abordagem policial, busca pessoal, fundada suspeita.

1.INTRODUO.

A Polcia Militar exerce sua funo inibidora e repressora de atos criminosos por meio de instrumentos que auxiliam o combate ao crime. Neste contexto, encontra-se inserida a busca pessoal, que remete a relao Estado/cidado a uma fronteira delicada, onde direitos so tolhidos em nome da coletividade e da paz social. Apesar de sua importncia, existem poucos estudos e referncias sobre o tema, optando, o Cdigo de Processo Penal, por enfatizar a busca domiciliar, subsidiando a prtica diria, incontvel e constante da abordagem. O imediato trabalho tem o intuito de apresentar a busca pessoal em abordagens policiais militares e suas limitaes, bem como, analisar o arcabouo jurdico que sustenta esta ao, o entendimento dos tribunais quanto interpretao e aplicao do ato de abordar, os principais argumentos quanto a sua suposta lesividade e as consideraes sobre seus requisitos de validade, ponto essencial do tema, lastreado de subjetividade pela "suspeio fundamentada", que possibilita interpretaes desvirtuadas do instrumento, empregando-o em esferas ilegtimas e marginalizando a abordagem perante a sociedade. A escolha do tema conexa profisso do autor, que soldado da Polcia Militar do estado da Bahia, lotado no Batalho de Polcia de Choque. Neste diapaso, convivendo diariamente com o instrumento da busca pessoal "aplicada" e presenciando inmeras abordagens de validade questionvel e incabveis a qualidade de representante do estado, surgiu a urgente necessidade de uma reflexo sobre o tema, fato que, excetuando-se ponderaes extremamente superficiais, no foi proporcionado pela instituio durante trs anos e meio de vida militar. Assim, analisando essa desateno de um ato importante, que lida com invases aos direitos individuais dos cidados e a limitao de direitos constitucionalmente protegidos, buscou-se entender o instrumento, sem esgotar o tema, erguendo-o da obscuridade, a fim de revel-lo a sociedade e possibilitar futuras discusses. Com o fulcro principal de eliminar esses episdios de incertezas, zelando sempre pelo cidado, sua dignidade e a preservao de seus direitos, que surge o presente estudo, abordado atravs do mtodo hipottico-dedutivo, servindo-se de pesquisas bibliogrficas, artigos cientficos publicados na internet e jurisprudncias. Ex positis, a anlise da matria possui grande pertinncia, e alude a uma velha desinteligncia social: a Polcia versus o Cidado.

2.DOS ELEMENTOS QUE CERCAM A ABORDAGEM.

Jean-Jacques Rousseau afirma em sua obra que a ordem social estruturada por convenes, e, destas, surge o contrato social, onde, em benefcio da vida em coletividade, o homem abdica de sua liberdade natural e adquire liberdade civil, possibilitando a convivncia em sociedade [01]. Na efetivao da abordagem pessoal, o Estado, que convencionado e legitimado por seus cidados, adota a restrio de determinados direitos e liberdades civis, em proveito de uma ao que garantiria a segurana pblica, um dos valores supremos da sociedade. Para isso, a Constituio Federal Brasileira confere garantias quanto regncia da segurana pblica atravs do caput do artigo 5 [02], e, posteriormente, por meio do captulo terceiro, exclusivo a segurana, que a define como direito e dever de todos, cujo objetivo principal a preservao da incolumidade das pessoas e do patrimnio, atravs de rgos especficos. Dentre estes rgos, a Polcia Militar, com definio de sua competncia atravs do pargrafo 5, artigo 144:

5 - s polcias militares cabem a polcia ostensiva e a preservao da ordem pblica; aos corpos de bombeiros militares, alm das atribuies definidas em lei, incumbe a execuo de atividades de defesa civil.

Para realizar esta atribuio, os policiais militares utilizam-se do poder de polcia, que, segundo Bandeira de Mello, "a atividade estatal de condicionar a liberdade e a propriedade, ajustando-as aos interesses coletivos [03]". Deste modo, o poder de polcia instrumento de restrio de direitos individuais em prol da coletividade, como visto no artigo 78 do Cdigo Tributrio Nacional:

Art. 78. Considera-se poder de polcia a atividade da Administrao Pblica que, limitando ou disciplinando direito, interesse ou liberdade, regula a prtica de ato ou absteno de fato, em razo de interesse pblico concernente segurana, higiene, ordem, aos costumes, disciplina da produo e do mercado, ao exerccio de atividades econmicas dependentes de concesso ou autorizao do Poder Pblico, tranquilidade pblica ou ao respeito propriedade e aos direitos individuais ou coletivos.

Partindo da instrumentalizao do poder de polcia, a realizao da abordagem, que manifestao estatal, representa o surgimento de ato administrativo que, como aponta Bandeira de Mello, deve respeitar os requisitos essenciais de finalidade, competncia, motivo, forma e objeto [04], ou, como acrescenta lvaro Lazzarini,

O Policiamento ostensivo uma modalidade de "polcia de manuteno da ordem pblica", exclusivo da Polcia Militar, por fora da legislao federal pertinente, inclusive, de natureza constitucional. O "ato de Polcia Administrativa" ou "ato de polcia preventiva", como exteriorizao do Poder de Polcia da Administrao Pblica, tem a mesma infraestrutura de qualquer outro ato administrativo. Nele se encerra a manifestao do "Poder de Polcia" e, assim, para ser vlido, o "ato de polcia" deve partir de rgo competente, tendo em vista a realizao do bem comum, observando a forma que lhe for peculiar e que poder ser a escrita, verbal ou simblica, tudo diante de uma situao de fato e de direito que diga respeito atividade policiada, devendo, finalmente, ser lcito o seu objeto [05].

Assim, a abordagem policial serve de instrumento ao Estado para realizar a finalidade pblica, finalidade esta que deve permear toda a concretizao do ato de abordar, desde a formao da conduta suspeita, at o objetivo imutvel de promover a segurana e de proteger a sociedade, que o fim deste ato de interferncia.

Anterior s observncias expostas, impera absoluto entre os elementos marginais a abordagem, o Princpio da Legalidade, convencionado no artigo 5, inciso II da Constituio, orientando que ningum ser obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa, seno por lei, norteando os seus limites e condies, pois, atendendo a legalidade na fundamentao e na forma de realizao da busca pessoal, no se atinge sua utilizao desvirtuada. Nas palavras de Alexandre Resende, "O Princpio da legalidade a expresso maior do Estado Democrtico de Direito, a garantia vital de que a sociedade no est presa s vontades particulares, pessoais, daquele que governa [06]", ou, englobando a abordagem, daquele que recebe poderes do Estado para proteger os cidados.

2.1.CONCEITO.

Busca pessoal, abordagem pessoal, revista, "dura", "baculejo", entre outros termos, so referncias tcnicas e vulgares ao ato de procurar, no corpo ou "a borda" do indivduo realizador de conduta possivelmente criminosa, elementos que comprovem esse comportamento. Segundo Herclito Antnio Mossin, "usa-se o termo busca pessoal para indicar a procura no prprio corpo da pessoa, ou em seus objetos de uso pessoal, v.g.: Pastas, valises, bolsas; assim como em veculos automotores [07]". Rogrio Sanches e Ronaldo Batista Pinto apontam que, "a busca pessoal, ou revista pessoal, realizada no corpo da pessoa, tem por objetivo encontrar alguma arma ou objeto relacionado com a infrao penal [08]", e, de tal modo, condensam a definio de busca pessoal como o ato desenvolvido por autoridade policial, atravs de exame corporal ou de elementos externos sob a posse do revistado, motivada por fundada suspeita que este traga consigo elementos que comprovem a realizao de crimes, devendo ser realizado, devido a sua atuao ofensiva a esfera individual, com a observncia da finalidade pblica, dos direitos individuais e da razoabilidade em sua feitura, caracterizando abuso ou constrangimento, qualquer excesso a esta interpretao.

O Manual Bsico de Abordagem Policial da Polcia Militar da Bahia, em face contextualizao prtica da abordagem, ensina que, para a realizao da busca pessoal, necessria a utilizao de trs tcnicas, a saber: a abordagem policial, a busca e a identificao. A abordagem reveste-se quando, materializada a fundada suspeita e tendo por meta a finalidade pblica de segurana e proteo da sociedade, os policiais partem para uma aproximao do suspeito, realizando a tomada de posio de segurana, que serve ao policial e ao cidado abordado, a fim de minimizar eventuais reaes, assegurando o prprio abordado quanto a uma interpretao errnea de seus movimentos, que, no nervosismo ou surpresa da abordagem, pode ocorrer. Deste modo, realiza-se a busca, posteriormente identifica-se o abordado, informando-o sobre a motivao que despertou a abordagem. Ainda segundo o manual,

Todo ato de abordar deve estar embasado numa motivao legal. No deve ser um ato isolado do Estado, ali representado pelo policial, arbitrrio ou ilegal. Essa motivao deve ser explicitada para o abordado assim que for possvel a fim de faz-lo compreender a ao da polcia, o uso do poder do Estado para limitar ou impedir direitos individuais em prol de um bem maior, de um bem social ou coletivo [09].

Ou ainda, como afirma Miguel, em sua tese de mestrado,

O policial o agente pblico que mais representa a manifestao do Estado na preservao da segurana e, mesmo agindo legitimamente, empregando a fora, no pode descurar-se dos direitos fundamentais que decorrem os direitos do ser humano, a sua dignidade. H uma linha tnue entre o uso da fora pelo Estado e os Direitos Humanos que pode levar o profissional de segurana pblica a ser responsabilizado por sua conduta, quer no plano jurdico interno, quer no externo [10].

Nesta observncia de no descuidar dos direitos fundamentais na abordagem, a forma pela qual se realiza a busca orienta-se pela segurana, (tanto do cidado abordado, como do policial), pelo respeito aos direitos individuais, e, principalmente, pela razoabilidade. Definir modos especficos para "efetuar" a busca, seria uma tentativa de limitar inmeras situaes, que necessitam de procedimentos diferentes, para que seja realizado do modo ideal a salvaguardar o revistado, o local que cerca a situao e o policial. Entretanto, a utilizao de meios excessivos, ou desnecessrios, constituem abusos de autoridade.

2.2.DOS ASPECTOS LEGAIS.

O Cdigo de Processo Penal, aventando sobre meio de provas (Ttulo VII), em seu captulo XI, trata da busca e apreenso e, atravs do artigo 240, pargrafo segundo, informa que a busca pessoal ser realizada quando existir fundada suspeita de que algum oculte armas ou objetos relacionados a atos criminosos, secundum legem,

2 Proceder-se- busca pessoal quando houver fundada suspeita de que algum oculte consigo arma proibida ou objetos mencionados nas letras b a f e letra h do pargrafo anterior.

Os objetos apresentados no pargrafo primeiro so as cartas destinadas ao acusado ou em seu poder que possibilitem a elucidao de ato criminoso, as coisas achadas ou obtidas por meios criminosos ou qualquer outro elemento de convico. Tambm, a busca pessoal autorizada no ato das prises em flagrante ou por ordem judicial, quando existe fundada suspeita de cometimento de crime, ou, quando ordenada no curso de busca domiciliar, sendo que, para sua realizao em todos os casos expostos, surge independncia de mandado, como informa o artigo 244, do CPP:

Art. 244. A busca pessoal independer de mandado, no caso de priso ou quando houver fundada suspeita de que a pessoa esteja na posse de arma proibida ou de objetos ou papis que constituam corpo de delito, ou quando a medida for determinada no curso de busca domiciliar.

O Cdigo de Processo Penal Militar (CPPM) tambm regula o tema, atravs do artigo 180, definindo a busca como a procura corporal, vestual, ou em objetos em poder do revistado. Discretamente, o Cdigo de Processo Penal Militar, assim como Jorge de Cesar Assis, difere o termo "busca" pessoal do termo "revista", afirmando que a revista seria um termo mais restrito, referente pessoa e suas vestes, e a busca seria mais ampla, envolvendo objetos exteriores ao abordado [11], como previsto no artigo 181, despontando certa redundncia nesse aspecto. O artigo 182 do CPPM, conforme o Cdigo de Processo Penal (CPP) corrobora a independncia de mandado para a realizao da busca em pessoa que deva ser presa, quando determinada em uma busca domiciliar, bem como, na existncia de suspeita de ocultao de corpo de delito:

Art. 182. A revista independe de mandado: a) quando feita no ato da captura de pessoa que deve ser presa, b) quando determinada no curso da busca domiciliar; c) quando ocorrer o caso previsto na alnea a do artigo anterior; d) quando houver fundada suspeita de que o revistando traz consigo objetos ou papis que constituam corpo de delito; e) quando feita na presena da autoridade judiciria ou do presidente do inqurito.

O artigo 184 completa o artigo 182, informando que a busca pessoal por mandado ser executada por oficial de justia ou, no inqurito, por oficial mais antigo ou superior, sendo militar.

Art. 184. A busca domiciliar ou pessoal por mandado ser, no curso do processo, executada por oficial de justia; e, no curso do inqurito, por oficial, designado pelo encarregado do inqurito, atendida a hierarquia do psto ou graduao de quem a sofrer, se militar.

A Busca pessoal em mulheres prevista do mesmo modo, nos artigos 249 do CPP e 183 do CPPM, com o entendimento que sua realizao deve ser efetuada por outra mulher, caso no retarde ou prejudique a diligncia.

Valter Ishida, consoante a legislao pertinente, entende que "a busca em mulher deve ser realizada por mulher, exceto se implicar retardamento [12]", devendo, policial do sexo masculino, em caso que se justifique a necessidade da abordagem em mulher e, inexistindo a possibilidade de sua realizao por policiais femininas, evitar o constrangimento desnecessrio e balizar-se na razoabilidade que a conduta exigir, sob pena de incidncia em crime, quando houver excesso ou, v.g., realizao de parafilias, como visto em deciso do Tribunal de Justia Militar de So Paulo:

Ementa. Atentado violento ao pudor. Revista pessoal realizada de forma libidinosa por policial militar. Caracterizao. Credibilidade do depoimento das vitimas, harmnico com o restante do conjunto probatrio. Correta condenao pelo delito tipificado no artigo 233 do com. Comete o crime de atentado violento ao pudor policial militar que, durante revista pessoal, valendo-se do temor provocado por sua condio, constrange as vitimas a permitirem a pratica de atos libidinosos diversos da conjuno carnal. Decreto condenatrio fundado no depoimento das vitimas com forte significncia probatria, em harmonia com as demais provas materiais e circunstanciais [13].

Assim, possibilita-se a realizao da busca pessoal por policiais em suspeito do sexo oposto, desde que exista real necessidade e sejam esgotadas as possibilidades de realizao da busca por policial do mesmo sexo, devendo, o policial, neste caso, pautar-se ainda mais pelo respeito e a razoabilidade.3.Da "Fundada Suspeita".

Para que exista legitimidade na busca pessoal, de extrema importncia observncia da fundada suspeita, expresso permeada de subjetividade e sem definio legal, possibilitando interpretaes questionveis e realizaes de condutas ilcitas. Segundo Nucci,

Suspeita uma desconfiana ou suposio, algo intuitivo e frgil, por natureza, razo pela qual a norma exige fundada suspeita, que mais concreto e seguro. Assim, quando um policial desconfiar de algum, no poder valer-se, unicamente, de sua experincia ou pressentimento, necessitando, ainda, de algo mais palpvel, como a denncia feita por terceiro de que a pessoa porta o instrumento usado para o cometimento do delito, bem como pode ele mesmo visualizar uma salincia sob a blusa do sujeito, dando ntida impresso de se tratar de um revlver. Enfim, torna-se impossvel e imprprio enumerar todas as possibilidades autorizadoras de uma busca [14].Como apresentado, "suspeita" difere de "fundada suspeita", pois, enquanto "suspeita" remete ao "desconfiar", a sua realizao fundamentada sustenta uma materialidade, uma concretizao da suspeita de uma determinada conduta para a sua formao, no sendo admitida a busca que no atenda este requisito, pois, "se a busca pessoal for feita sem que haja fundada suspeita, a conduta do agente policial poder se caracterizar como crime de abuso de autoridade, por exemplo, se o fizer somente para demonstrar seu poder [15]", como assevera Silva Junior:

No estado de Direito a persecuo penal somente possvel na forma da lei, assegurada dignidade da pessoa humana. Essa limitao ao poder punitivo no uma proteo ao bandido, mas uma garantia ao cidado honesto; pois impede que nas atividades estatais a pessoa humana seja tratada como coisa, como meio para se atingir um objetivo [16].Portanto, a fundada suspeita no pode orientar-se por elementos subjetivos, j que, em virtude do carter lesivo a direitos individuais, importante a existncia da reverncia ao princpio da legalidade, impedindo sua utilizao como "atividade preventiva de delito confiada na experincia do policial [17]", como visto em deciso do Supremo Tribunal Federal:

A "fundada suspeita", prevista no art. 244 do CPP, no pode fundar-se em parmetros unicamente subjetivos, exigindo elementos concretos que indiquem a necessidade da revista, em face do constrangimento que causa. Ausncia, no caso, de elementos dessa natureza, que no se pode ter por configurados na alegao de que trajava, o paciente, um "bluso" suscetvel de esconder uma arma, sob risco de referendo a condutas arbitrrias ofensivas a direitos e garantias individuais e caracterizadoras de abuso de poder. Habeas corpus deferido para determinar-se o arquivamento do Termo [18].Por conseguinte, quando a lei oferece espao na indefinio da fundada suspeita, permite a interveno de experincias e conceitos pessoais formados no decorrer da vida do policial militar, que pode alargar-se a parcialidade e a seletividade.

A busca pessoal autorizada com o nascimento da fundada suspeita, e essa fundamentao deve ser material, real, e justificvel. Fsico, contextos sociais, cor, preferncias sexuais, vestes, tatuagens ou cicatrizes, entre outros elementos que individualizam o homem, no podem, de maneira alguma, servir de fundamentao para suspeita. Pois, diferente dessa escolha "lombrosa" de suspeio natural, o ponto de anlise da fundada suspeita incide na conduta humana que aponte a realizao de ato criminoso, ou melhor, na suspeita da realizao de algum ato ilcito, que pode ser exposto por denncia de terceiros, ou atravs do prprio policial quando, v.g., avista um volume que poderia ser uma arma, independente de contextualizaes externas ao indivduo. Seja qual for a suspeita, indiscutvel a necessidade de sua materialidade e que, utilizar-se de esteretipos socioeconmicos ou raciais, como filtragem tnica [19], no representa autorizao para o ato, mas sim, abuso de autoridade.

3.1.Da Legalidade da busca e a dignidade humana.

inegvel que a abordagem restringe direitos individuais e constrange o cidado. Consoante esta afirmao, a constituio brasileira confere ao cidado garantias e direitos individuais que limitam o poder estatal, como realiza o artigo 5, atendendo ao princpio da presuno de inocncia (inciso LVII), a proibio de violao da intimidade, o respeito vida privada, a honra, a imagem das pessoas (Inciso X), o direito de ir e vir (Inciso XV), e atravs da obrigatria observncia da dignidade da pessoa humana (artigo 1, Inciso III), que, em face ao ato de "abordar", seriam embaraados, sofrendo limitaes em suas plenitudes. Entretanto, o que se busca proteger atravs da busca pessoal a segurana da sociedade, conflitando, o direito da coletividade, com o ilusrio absolutismo do direito individual. Desta forma, no h que se falar em ilegalidade da busca pessoal prevista em lei, pois esta legitimada socialmente e possui previso legal, quando realizada conforme proposto pela lei, a fim de resguardar os cidados. Neste conflito, os direitos individuais cedem espao segurana da coletividade, bastando que, o policial, que o instrumento de realizao do ato de abordar, siga o padro legitimado pela sociedade. Consoante ao apresentado, o Tribunal de Justia do Estado de Minas Gerais julgou que:

Constitucional. Processo Penal. Direito de livre locomoo. Busca forada. Revista. Possibilidade, quando no interesse da segurana coletiva. O direito individual liberdade deve ser combinado com medidas preventivas de defesa da incolumidade pblica e da paz social. A revista, ante suspeita sria de irregularidade que possa causar distrbio vida, sade ou segurana das pessoas, defensvel quando efetivada em estado de necessidade coletiva [20].Desta maneira, justifica-se a busca pessoal, devido a sua regulamentao por lei e sua finalidade de promover a segurana dos cidados, desde que seja realizada respeitando os princpios que orientam o ordenamento jurdico, entendendo a limitao e o controle da busca pessoal consoante sua existncia em um contexto de leis que prezam, primeiramente, pela pessoa humana.

Contudo, os direitos individuais e a dignidade da pessoa humana sero desmedidamente afrontados, atravs do instrumento da busca pessoal, quando sua realizao fundamentar-se em ilegalidades e excessos. O liame que diferencia a abordagem legal, do "baculejo" ilegal, extremamente sensvel, logo, as acusaes de ilegalidade referentes ao tema no se originam na abordagem legal, mas sim, em sua deturpao, sua utilizao indevida, por despreparo de alguns policiais, ou quando, dolosamente, marginais transvestidos de Estado se utilizam desse recurso legitimado pela sociedade para exercer condutas criminosas, depreciando a dignidade e os direitos individuais do homem e marginalizando um instrumento de disseminao da segurana, com o intuito de satisfazer seus sadismos, ou propagar a violncia gratuita, atravs de agresses, abusos e humilhaes fsicas e morais, alm de outras condutas inaceitveis, como apresentado em julgamento do Tribunal de Justia do Distrito Federal:

PENAL E PROCESSO PENAL MILITAR. LESES CORPORAIS. ART. 209 DO CPM. PEDIDO DE ABSOLVIO POR INSUFICINCIA DE PROVAS DA MATERIALIDADE E AUTORIA DO CRIME. RECURSO DESPROVIDO. 1. Comprovadas a materialidade e autoria do crime de leses corporais praticadas por policial militar na ocasio de abordagem e busca pessoal, momento em que despeja sobre o corpo da vtima um recipiente contendo tner, causando-lhe queimaduras, no h falar em absolvio. 2. Robustecidas as provas por meio de laudos de exame de corpo de delito, prova documental, declaraes da vtima, testemunhas e relatos do prprio acusado, deve ser mantida a condenao do agente pblico. 3. Apelao desprovida [21].E no julgamento do Tribunal de Justia do Rio Grande do Sul:

RECURSO CRIME. ABUSO DE AUTORIDADE. ART. 3, ALNEA I DA LEI 4.898/65. TIPICIDADE DA CONDUTA E SUFICINCIA DO CONJUNTO PROBATRIO. SENTENA CONDENATRIA MANTIDA. PRESCRIO.

1- Demonstrado de forma suficiente pela prova colhida que o policial militar, em abordagem, desferiu um tapa no rosto da vtima sem motivo aparente, est caracterizado o abuso de poder.

2 - No transcorrido lapso temporal superior a 2 (dois) anos entre a data do fato e o recebimento da denncia, ou entre este e a publicao da sentena penal condenatria, no h falar em prescrio. APELAO IMPROVIDA [22].Sobre o abuso de autoridade, em face a busca pessoal, A lei 4.898, de 09 de Dezembro de 1965 versa atravs do artigo 3, e em suas letras a, c e i, que:

Art. 3. Constitui abuso de autoridade qualquer atentado: a) liberdade de locomoo; c) ao sigilo da correspondncia; i) incolumidade fsica do indivduo.Do mesmo modo, o artigo 4 da mesma lei inclui:

Art. 4 Constitui tambm abuso de autoridade: a) ordenar ou executar medida privativa da liberdade individual, sem as formalidades legais ou com abuso de poder; b) submeter pessoa sob sua guarda ou custdia a vexame ou a constrangimento no autorizado em lei; h) o ato lesivo da honra ou do patrimnio de pessoa natural ou jurdica, quando praticado com abuso ou desvio de poder ou sem competncia legal.Segundo Hely Lopes Meireles, esse abuso de autoridade gnero, do qual so espcies o desvio de finalidade e o excesso. Conforme o autor, O excesso de poder acontece quando a autoridade ultrapassa a linha da legalidade, excedendo-se em sua competncia, pois,

ningum pode agir em nome da Administrao fora do que a lei lhe permite. O excesso de poder torna o ato arbitrrio, ilcito e nulo. uma forma de abuso de poder que retira a legitimidade da conduta do administrador pblico, colocando-o na ilegalidade e at mesmo no crime de abuso de autoridade quando incide nas previses penais da Lei 4.898, de 9.12.65, que visa a melhor preservar as liberdades individuais j asseguradas na Constituio [23].

O desvio de finalidade realiza-se quando o policial desvirtua o ato, utilizando-se de um ato superficialmente legal, que acompanham meios e motivos ilegais, quando, v.g., utiliza-se da busca pessoal pra disseminar discriminaes, satisfazendo interesse prprio [24].

Portanto, o abuso praticando por excesso, quando o policial militar, mesmo revestido de legitimidade para abordar, o faz de modo descomedido, agredindo fisicamente um revistado ou adotando procedimentos no razoveis, e realizado em desvio, quando o policial no representa o Estado, mas sim, age por vontade e interesses prprios, sem atender a finalidade pblica, disseminando seus convencionalismos, e criando a sua prpria margem de lei.

Deste modo, ilustra-se que a ilegalidade do ato de abordar surge justamente do abuso de poder, da seletividade, da sua utilizao para propagao de preconceitos de quem efetua o "baculejo", da no observncia da dignidade da pessoa humana, do silncio da sociedade motivado por medo de represlias em face ao corporativismo militar, ou, para manter a sensao imaginria de segurana que o cidado tem, proporcionada tambm na abordagem ilegal, desde que o abordado no seja ele.

Acerca da dignidade da pessoa humana, atendimento primeiro, no s na abordagem policial, mas a qualquer ramo do ordenamento jurdico brasileiro, Lus Roberto Barroso ensina que o princpio surge no mandamento religioso de "respeito ao prximo [25]", originando os direitos fundamentais e baseando os ideais de liberdade, igualdade e justia. Em face a esta evoluo, o artigo primeiro da Constituio federal, em seu inciso III, estabelece como fundamento da Repblica Federativa do Brasil, a dignidade da pessoa humana. Esse conceito abrange uma infinidade de valores, a bem da proteo e valorizao do homem, ou, como afirma Ftima Ferreira,

O Princpio da Dignidade da Pessoa Humana est na base de todos os direitos constitucionais consagrados. Sejam direitos e liberdades tradicionais (art. 5); direitos de participao poltica (art. 14); direitos sociais (art. 6); direitos dos trabalhadores (art. 7) e direitos s prestaes sociais (art. 203). Porm, sua efetividade est longe das necessidades da populao (...). Historicamente, o Brasil sempre foi vtima de uma das maiores desigualdades do mundo, superando at mesmo alguns pases africanos. Esta desigualdade social claro, reflete-se diretamente no Judicirio e deste chega ao Direito Penal, criando-se uma desigualdade criminal [26].

Segundo a autora em tela, o Estado serve ao homem e deve medir, em todas as suas aes, o atendimento a dignidade da pessoa humana, incidindo em inconstitucionalidade qualquer ato que no observe este ditame, que trata de equidade, de valorao do homem, tendo como requisito, unicamente, a existncia deste, ou, em uma conotao religiosa: a reverncia em face criao.

O respeito ao princpio da dignidade vital, em qualquer situao, e principalmente neste encontro Estado/cidado proporcionado pela busca pessoal, pois, como fonte do respeito condio humana, a dignidade no pode ser atendida seletivamente, a depender de classe, cor, ou atribuies fsicas. Assim, o respeito ao homem, indiferente a qualquer atributo, deve ser base de qualquer conduta estatal, policial ou cidad, que, no fim, so de origem comum.4.Da busca pessoal na fiscalizao do trnsito, e outros embates.

Alm do exposto, existem embates e discusses doutrinrias sobre aspectos que rondam a abordagem policial, como a representada atravs da lei n 9503, de 23 de setembro de 1997 que institui o Cdigo de Trnsito Brasileiro, e, em seu anexo I, define Policiamento Ostensivo de Trnsito (a famigerada Blitz) como a funo exercida pela Polcia Militar, para fiscalizar veculos e motoristas, zelando pela segurana pblica e pelas normas de segurana de trnsito. Contudo, a realizao dos bloqueios policiais no possui o escopo primeiro de fiscalizao de veculos e condutores, mas sim, o de abordar "preventivamente" o cidado, buscando precaver e inibir a sociedade em face de condutas delituosas. Destarte, como j indicado, a observncia da fundada suspeita essencial abordagem, pois, sem ela, o ato reveste-se de ilegalidade, banalizando-se o instrumento da busca. Nesta situao, os veculos selecionados para a abordagem, salvo eventuais excees, so escolhidos ao acaso, parados indiscriminadamente, por amostragem, para revista pessoal do condutor e dos ocupantes, bem como do veculo, sem qualquer denncia ou indcio de cometimento de ato criminoso, logo, sem a legitimao da fundada suspeita. Assim, Souza demonstra em seu artigo que,

no legal e legtima a solicitao do agente policial para que o condutor de um veculo saia do mesmo para se submeter revista pessoal, salvo quando ocorrer a "fundada suspeita" de que esteja transportando produto de natureza ou de origem criminosa. No se admite critrios subjetivos, assim admissvel a recusa do condutor em sair do veculo, no constituindo esta simples recusa em crime de desobedincia do art. 330 do Cdigo Penal e pelo mesmo motivo no h que se falar em crime de desacato [27].Ou, nas palavras de Silva Junior:

Portanto, o baculejo ser ilegal quando caracterizar-se como atividade estatal preventiva de delito. Como ocorre, por exemplo, no chamado bloqueio relmpago ou blitz que realiza tambm a busca pessoal de maneira genrica sem a fundada suspeita. Todos que forem parados no bloqueio so revistados. Essa atividade do Estado no tem previso na ordem jurdica. Entenda-se bem. A blitz de trnsito, aquela que fiscaliza documentos e condies do veculo tem previso legal no Cdigo de Trnsito. Ilegal o bloqueio policial que submete o cidado ao baculejo como ao preventiva de delito. Ele no suspeito de ocultar nada. Na verdade, um azarado, estava no local errado na hora errada; por isso obrigado a descer do carro, mos na cabea, ser apalpado e o carro vasculhado, sob a mira de arma de fogo e aos olhos de todos [28].Rogrio Greco entende que a blitz pode e deve ser realizada, como atividade de preveno, no obstante, observando-se a suspeio fundada, tendo como intolervel qualquer abuso [29], e afirma a prerrogativa de funo de magistrados e promotores, entre outras autoridades com prerrogativas de funo, como fator de dispensa em abordagens:

em carro particular no pode ser feita em pessoa que goza de foro com prerrogativa de funo. Ou seja, um magistrado ou um membro do ministrio publico no pode ser revistado por agentes policiais, desde que se identifique; e, caso haja duvidas sobre a sua identidade, o fato dever ser encaminhado unidade policial mais prxima, para que o respectivo chefe da instituio comparea e proceda a revista, ou da forma que entender cabvel [30].As revistas realizadas em aeroportos so reguladas atravs do Decreto n 7.168, de 05 de maio de 2010, que dispe sobre o Programa Nacional de Segurana da Aviao Civil Contra Atos de Interferncia Ilcita, disciplinando a busca pessoal como revista corporal, vestual, e em demais objetos realizada por policial ou por agente de proteo da aviao civil, com consentimento do inspecionado, na existncia de suspeita de que haja arma ou algum objeto proibido ou na impossibilidade da inspeo por outro mtodo, sendo vedado o embarque do passageiro que no permitir a inspeo. Tvora e Alencar discordam, afirmando que abordagens realizadas em aeroportos, boates e festas no so reguladas pelo CPP, e devem "atender a razoabilidade e respeitar a intimidade. Esto afetas ao lado contratual. Aquele que no desejar se submeter mesma, tem a opo de no se valer do servio ofertado ou simplesmente no frequentar o estabelecimento [31]".

Apoiando a idia de busca preventiva em eventos, independente de fundada suspeita, Assis entende que

a busca e a revista pessoal tem carter mais preventivo do que repressivo, podendo ocorrer de forma preventiva nos campos de futebol e locais de show onde ocorra aglomerao considervel de pessoas (...) quando ela preventiva, no visa ningum em especial, todos sendo submetidos a busca. Em face do aumento da violncia e criminalidade, tambm se faz busca pessoal preventiva por meio de instrumentos nos bancos e at em escolas [32].Textos relacionados

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Apesar das disparidades, unnime o entendimento que a forma da abordagem, em qualquer dos casos ilustrados, deve se pautar pela razoabilidade e respeito dignidade e direitos individuais do homem. Isto posto, exigir que algum deite ao cho em postura de submisso, utilizar-se de armamento em riste ao revistado, conduzir a revista pessoal de forma excessivamente constrangedora, sem que haja real necessidade para tal, conduta ilegal. Medidas enrgicas so consideradas excessos quando desnecessrias, acrescentando que, as abordagens realizadas em espetculos, shows, que particularizam o indivduo e no sua conduta para definio da fundada suspeita, no possuem outra forma, se no, a de total ilegalidade. E, mesmo possuindo indcios que fundamente a fundada suspeita, devem-se evitar atos humilhantes e desmoralizantes alm do razovel, no olvidando que a busca realizada em favor da segurana coletiva e do cidado, nunca como instrumento de ofensa ao indivduo.

Ainda em exposio de embates, existem, em determinadas unidades policiais e operaes, o obrigatrio atendimento a nmero especfico de abordagens, quando o servio realizado por meio de rdio patrulhamento em viaturas. Assim, h a determinao por parte dos superiores hierrquicos que administram esse servio, de que sejam realizadas abordagens pessoais em nmeros pr-determinados, exigindo-se do policial o cumprimento de metas quantitativas de buscas pessoais, incidindo em ilegalidade, visto essa exigncia de que se realize um ato administrativo que limita direitos individuais, independente da existncia de seus requisitos.

Ante o exposto diversificado de interpretaes quanto utilizao da abordagem pessoal, suas limitaes, os elementos que possibilitam sua feitura, e a incluso ou no da fundada suspeita como elemento essencial ao tema, surge a lancinante necessidade se controlar essa desarmonia, bem como, combater a utilizao indevida da abordagem, que segue sendo realizada, confrontando a ordem e a legalidade.

5.Consideraes Finais.

Em respeito aos direitos individuais e a dignidade da pessoa humana, a abordagem pessoal no recebe devida ateno pela legislao brasileira, que, sem compromisso, entrega a enorme responsabilidade de limitar direitos individuais, partindo de um conceito subjetivo, ao policial militar, confiando em sua imparcialidade e na sua leal utilizao do instrumento de abordar. A busca pessoal essencial sim, pois atravs dela impede-se a realizao de crimes diariamente, bem como, eleva-se a sensao de segurana da sociedade. Contudo, possui parmetros a serem analisados, que, na sua inobservncia, eiva de ilicitude sua realizao, deixando o policial de ser legtimo representante do Estado, para figurar-se a margem da lei. A Fundada Suspeita elemento essencial que autoriza e limita esse ato, no existindo fundamentao para a busca pessoal sem este elo de conexo. Todavia, no existe definio especfica do termo e, analisando o contexto onde surge a busca, nem deve existir, pois impossvel definir todas as situaes que apontem a necessidade da revista. A quem entenda a argcia policial como legitimadora, devido a sua experincia em campo, outros estudiosos afirmam a necessidade da concretizao da suspeita, seja atravs de denncia, ou da prpria verificao do servio policial na rea, retirando achismos e conceitos pr-estabelecidos da gama de sua realizao. Apesar da divergncia, entende-se, consoante a maioria dos estudos analisados, que fora da fundada suspeita, do respeito aos direitos individuais e da dignidade da pessoa humana, "no existe salvao", e, o policial militar que utiliza o instrumento da busca pessoal por meio de critrios prprios, opinativos, quantitativos, ou no atendendo o principio da legalidade ao no basear-se nos ditames da lei, realiza abuso de autoridade e constrangimento ao cidado.

A busca pessoal ato administrativo limitador de direitos individuais, previsto em lei, instrumentalizado pelo poder de polcia, a fim de salvaguardar a segurana da sociedade, e legitimado atravs da fundada suspeita, que, deste modo, a concretizao da imprecisa suspeio, por meio de condutas que demonstrem a possvel realizao de um ilcito. Utilizar-se desse instrumento para realizao de aes preventivas, como ocorre em bloqueios policiais, para estabelecer filtragens sociais ou raciais, "escolhendo" aqueles que sero abordados, ou at mesmo, quando a ao for legtima, para utilizar-se excessivamente deste instrumento, ilegal, e no compreende fato autorizante da busca pessoal por limitar direitos individuais sem a permisso do Estado, e sem o intuito pr-sociedade, assim tambm deve ser entendido o modo pelo qual se realiza a abordagem. O policial, alm do respeito aos direitos individuais, deve ateno a segurana do revistado e a prpria segurana, sendo possvel a admisso por uma postura enrgica, se contextualmente adequada para a realizao da busca, evitando o uso da fora, desde que a razoabilidade exija. Contudo, no atendendo a razoabilidade imposta, em face situao, o policial incide em abuso.

Entretanto, vivendo em uma sociedade selecionadora, preconceituosa e discriminante, que estigmatiza esteretipos como alvos e define o carter de um homem por suas vestes, cor, ou classe social, difcil construir essa imparcialidade, at porque, o policial, antes de ser um representante estatal, fruto dessa sociedade, , apesar de sua posio de representante, mais um cidado, e, geralmente, desenvolve-se justamente no meio em que se utiliza da abordagem ilegal com mais "liberdade". Consoante a esta verdade, nota-se a complexidade de esperar em um homem, que, ao exercer a funo miliciana, seja imparcial e tenha seu raciocnio livre de vcios e conceitos firmados.

Quanto falta de limitao ou de lei em face de busca pessoal, o entendimento o mesmo quanto ao restante do ordenamento brasileiro: necessria a organizao deste desalinho. Reformulaes das leis que versam sobre a busca pessoal, por mais que paream atraentes, no so urgentes, devendo surgir, na verdade, uma melhor organizao e posicionamento dos doutrinadores em face aos fatos que rondam o tema, visando extinguir as duvidas que maculem o instrumento, pois, mesmo quando entende-se "fundada suspeita" como a existncia fsica de fato que autorize a busca, ainda imperam duvidas quanto a outras questes que participam da matria. Contudo, durante essa empreitada de conceituar a abordagem policial como um todo, inserido em um ordenamento jurdico que, por si, j deve reverncia ao princpio da dignidade humana, no se deve olvidar de combater a prevalncia da esfera "opinativa" do policial e a utilizao criminosa da abordagem, fiscalizando a observncia dos direitos individuais, da dignidade da pessoa humana e do princpio da legalidade, combatendo a abordagem ilcita, bem como, os seus realizadores.