a redução da maioridade penal e o impacto na educação obrigatória dos 4 aos 17 anos – por...

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Por Juliana Hermes Luz – 01/08/2015 A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 define como direito fundamental social (direito fundamental de 2ª geração) a Educação (art. 6º), direito de todos e dever do Estado e da família, promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho (art. 227, art. 4º e 35 do ECA). Do mesmo modo, a CRFB/88 impõe que o dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de educação básica obrigatória e gratuita dos 4 (quatro) aos 17 (dezessete) anos de idade (art. 4º, inc. I da LDB), assegurada inclusive, sua oferta gratuita para todos os que a ela não tiveram acesso na idade própria (art. 208, I). A redução da maioridade penal e o impacto na educação obrigatória dos 4 aos 17 anos – Por Juliana Hermes Luz Colunas e Artigos Espaço do Estudante Hot Empório

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A Redução Da Maioridade Penal e o Impacto Na Educação Obrigatória Dos 4 Aos 17 Anos – Por Juliana Hermes Luz _ Empório Do Direito

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Page 1: A Redução Da Maioridade Penal e o Impacto Na Educação Obrigatória Dos 4 Aos 17 Anos – Por Juliana Hermes Luz _ Empório Do Direito

Por Juliana Hermes Luz – 01/08/2015

A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 define como direito fundamental social (direito

fundamental de 2ª geração) a Educação (art. 6º), direito de todos e dever do Estado e da família, promovida e

incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para

o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho (art. 227, art. 4º e 35 do ECA).

Do mesmo modo, a CRFB/88 impõe que o dever do Estado com a educação será efetivado mediante a

garantia de educação básica obrigatória e gratuita dos 4 (quatro) aos 17 (dezessete) anos de idade (art. 4º, inc.

I da LDB), assegurada inclusive, sua oferta gratuita para todos os que a ela não tiveram acesso na idade

própria (art. 208, I).

A redução da maioridade penal e o impacto na educaçãoobrigatória dos 4 aos 17 anos – Por Juliana Hermes Luz

Colunas e Artigos Espaço do Estudante Hot Empório

Page 2: A Redução Da Maioridade Penal e o Impacto Na Educação Obrigatória Dos 4 Aos 17 Anos – Por Juliana Hermes Luz _ Empório Do Direito

Por sua vez, em redação similar o art. 53 do Estatuto da Criança e do Adolescente diz ser a eles assegurados,

dentre outros: a igualdade de condições para o acesso e permanência na escola, ensino fundamental,

obrigatório e gratuito, inclusive para os que a ele não tiveram acesso na idade própria.

Ainda, a Lei Federal nº 12.594/2012 que instituiu o Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo –

SINASE e regulamenta a execução das medidas socioeducativas destinadas a adolescente que pratique ato

infracional, enfatiza que os Planos de Atendimento Socioeducativo deverão, obrigatoriamente, prever ações

articuladas nas áreas de educação, saúde, assistência social, cultura, capacitação para o trabalho e esporte,

para os adolescentes atendidos, em conformidade com os princípios elencados no ECA.

Nesse contexto, a Lei nº 7.210, de 11 de julho de 1974 – Lei de Execução Penal (LEP) em seu art. 126, aduz

que o condenado que cumpre a pena em regime fechado ou semiaberto poderá remir, por trabalho ou por

estudo, parte do tempo de execução da pena, sendo que a contagem do tempo será feita à razão de 1 (um)

dia de pena a cada 12 (doze) horas de frequência escolar – atividade de ensino fundamental, médio,

inclusive profissionalizante, ou superior, ou ainda de requalificação profissional – divididas, no mínimo, em 3

(três) dias.( já falei da remição pela leitura aqui).

Sob esse contorno introdutório, discute-se no cenário político-jurídico nacional a redução da maioridade

penal dos 18 para os 16 anos.

Além de ser uma afronta ao pacto constitucional, e com todos os inúmeros aspectos em sentido contrário, a

redução da maioridade penal ensejaria uma gigante modificação na forma em que a educação é ministrada

dentro dos presídios.

Hoje o que é uma faculdade aos segregados, seria uma obrigação aos encarcerados com idade inferior aos 18

anos, por força da própria Constituição e da Lei de Diretrizes e Bases, conforme já dito.

Sob esse aspecto, haveria também a necessidade de verificar-se a compatibilidade entre a remição da pena

pelo estudo face a sua obrigatoriedade aos menores de 18 anos, levando-se em conta as formas de avaliação

de ensino previstas pelas normas do Conselho Nacional da Educação, por exemplo: se o menor de 18 anos

encarcerado reprovar, haveria a possibilidade de ser remida a sua pena? Se não há sequer uma lei federal

que regule a remição pela leitura, o que irá regular a avaliação no sistema de educação no cárcere? O que

fazer com a frequência ao ensino obrigatório do preso colocado em RDD? Como controlar o mínimo de horas

exigidos em calendário escolar pela Lei de Diretrizes e Bases?

A Resolução nº 03, de 11 de Março de 2009, dispõe sobre as Diretrizes Nacionais para a oferta de Educação

nos estabelecimentos penais, e em seu art. 2º aduz que as ações de educação no contexto prisional devem

estar calcadas na legislação educacional vigente no país e na Lei de Execução Penal, devendo atender as

especificidades dos diferentes níveis e modalidades de educação e ensino.

Ainda, segundo a Resolução, a oferta de educação no contexto prisional deve: I – atender aos eixos

pactuados quando da realização do Seminário Nacional pela Educação nas Prisões (2006), quais sejam: a)

gestão, articulação e mobilização; b) formação e valorização dos profissionais envolvidos na oferta de

educação na prisão; e c) aspectos pedagógicos; II – resultar do processo de mobilização, articulação e gestão

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dos Ministérios da Educação e Justiça, dos gestores estaduais e distritais da Educação e da Administração

Penitenciária, dos Municípios e da sociedade civil; III – ser contemplada com as devidas oportunidades de

financiamento junto aos órgãos estaduais e federais; IV – estar associada às ações de fomento à leitura e a

implementação ou recuperação de bibliotecas para atender à população carcerária e aos profissionais que

trabalham nos estabelecimentos penais; e V – promover, sempre que possível, o envolvimento da

comunidade e dos familiares do(a)s preso(a)s e internado(a)s e prever atendimento diferenciado para

contemplar as especificidades de cada regime, atentando-se para as questões de inclusão, acessibilidade,

gênero, etnia, credo, idade e outras correlatas.

Do mesmo modo, a Resolução nº 2, de 19 de maio de 2010 do Conselho Nacional de Educação que dispõe

sobre as Diretrizes Nacionais para a oferta de educação para jovens e adultos em situação de privação de

liberdade nos estabelecimentos penais, dispõe em seu art. 3º que a oferta de educação para jovens e adultos

em estabelecimentos penais obedecerá às seguintes orientações: I – é atribuição do órgão responsável pela

educação nos Estados e no Distrito Federal (Secretaria de Educação ou órgão equivalente) e deverá ser

realizada em articulação com os órgãos responsáveis pela sua administração penitenciária, exceto nas

penitenciárias federais, cujos programas educacionais estarão sob a responsabilidade do Ministério da

Educação em articulação com o Ministério da Justiça, que poderá celebrar convênios com Estados, Distrito

Federal e Municípios; II – será financiada com as fontes de recursos públicos vinculados à manutenção e

desenvolvimento do ensino, entre as quais o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e

de Valorização dos Profissionais da Educação (FUNDEB), destinados à modalidade de Educação de Jovens e

Adultos e, de forma complementar, com outras fontes estaduais e federais; III – estará associada às ações

complementares de cultura, esporte, inclusão digital, educação profissional, fomento à leitura e a programas

de implantação, recuperação e manutenção de bibliotecas destinadas ao atendimento à população privada de

liberdade, inclusive as ações de valorização dos profissionais que trabalham nesses espaços; IV – promoverá

o envolvimento da comunidade e dos familiares dos indivíduos em situação de privação de liberdade e

preverá atendimento diferenciado de acordo com as especificidades de cada medida e/ou regime prisional,

considerando as necessidades de inclusão e acessibilidade, bem como as peculiaridades de gênero, raça e

etnia, credo, idade e condição social da população atendida; V – poderá ser realizada mediante vinculação a

unidades educacionais e a programas que funcionam fora dos estabelecimentos penais; VI – desenvolverá

políticas de elevação de escolaridade associada à qualificação profissional, articulando-as, também, de

maneira intersetorial, a políticas e programas destinados a jovens e adultos; VII – contemplará o atendimento

em todos os turnos; VIII – será organizada de modo a atender às peculiaridades de tempo, espaço e

rotatividade da população carcerária.

Ocorre que, referidas resoluções foram criadas sob o contexto do estudo facultativo ao presidiário, e não

obrigatório.

O ensino obrigatório dos 4 aos 17 anos é regido por Leis e Resoluções próprias federais, bem como sobre as

normativas dos Conselhos Estaduais de Educação e Secretarias Estaduais e Municipais de Educação, em cada

Estado e Município.

Paralelamente à proposta de redução da maioridade penal não há nenhum comentário a respeito da alteração

quanto ao oferecimento do ensino obrigatório no presídio para as pessoas dessa faixa etária, o que torna

ainda mais clara a intenção da resposta mais rápida àquela com melhores resultados (segregação x educação).

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Inclusive é de se salientar que o não oferecimento do ensino obrigatório pelo poder público ou sua oferta

irregular importa em responsabilidade da autoridade competente.

Vale dizer também, que a oferta do ensino obrigatório deverá, segundo o art. 206, inciso VII, da CRFB/88, e o

art. 3º, inciso IX da LDB, ser oferecido com garantia do padrão de qualidade, nos termos do Plano Nacional da

Educação.

A Lei nº. 9.394/96,  enfatiza em outros dez momentos o termo qualidade: padrão de qualidade, padrão

mínimo de qualidade, avaliação de qualidade, e melhoria de qualidade (art. 3º, IX, 4º, IX, 7º, II, 9º, VI, 47,§4º,

70, IV, 71, I, 74, 75, caput, §2º, da LDB0[1].

Juntamente ao padrão da qualidade de ensino, a educação escola obedece, dentre outros, o princípio da

“igualdade de condições para o acesso e permanência na escola”, que exige a quem cabe a oferta da

educação, ou seja, do Estado, da sociedade e da família, a adoção de novas estratégias de inclusão escolar.

Vale dizer que a Lei complementar n. 170/1998 do Estado de Santa Catarina, estabelece como dever do

Estado a garantia também de padrões de qualidade, sendo que isso não se limita a dimensão pedagogia e

administrativa de gestão da instituição, mas também, inclui os recursos materiais e imateriais da dimensão

física da escola.

Nesse sentido, as instalações das escolas estaduais de educação básica serão caracterizadas, segundo o art.

67 da referida Lei com:

I – suficiência das bases físicas, com salas de aula e demais ambientes adequados ao desenvolvimento do

processo educativo; II – adequação de laboratórios, oficinas e demais equipamentos indispensáveis à

execução do currículo; III – adequação das bibliotecas às necessidades de docentes e educandos nos

diversos níveis e modalidades de educação e ensino, assegurando a atualização do acervo bibliográfico; IV –

existência de instalações adequadas para educandos com necessidades especiais; V – ambientes próprios

para aulas de educação física e realização de atividades desportivas e recreativas; VI – oferta de salas de aula

que comportem o número de alunos a elas destinado, correspondendo a cada aluno e ao professor áreas não

inferiores a 1,30 e 2,50 metros quadrados, respectivamente, excluídas as áreas de circulação interna e as

ocupadas por equipamentos didáticos.

Em um país em que há superlotação carcerária, encontrar vontade, recurso e viabilidade para o oferecimento

do ensino de padrão de qualidade, será, no mínimo, interessante.

Nesse contexto inegável o impacto da redução da maioridade penal também na esfera da educação. A

alteração da legislação e implantação de outras diversas medidas pelo Estado visando a efetivação deste

direito social é uma consequência irrefutável.

Muito embora nesse momento esteja sendo questionada a real intenção do constituinte quanto a idade de

imputabilidade penal, não estão questionando (ainda!!!!!) a fundamentalidade da Educação, advindo-se da

Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, por si só, a obrigatoriedade de proteção a referido

direito fundamental.

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Notas e Referências:

[1] FERREIRA, Luiz Antonio Miguel. Gestão administrativa-pedagógica da escola: considerações legais. In: ABMP,

Todos pela educação (org.) Justiça pela qualidade na educação. São Paulo: Saraiva, 2013.p.387

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Juliana Hermes Luz é  Aluna de Pós Graduação da Academia Brasileira de Direito

Constitucional.

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Imagem Ilustrativa do Post: Back to School // Foto de: Phil Roeder // Sem alterações

Disponível em: https://www.flickr.com/photos/tabor-roeder/6085668928

Licença de uso: http://creativecommons.org/licenses/by/4.0/legalcode

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