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A minha ligação com casas foi sempre muito forte. No princípio eu fazia casa pra brincar: me fingia de construtora e usava livros pra fazer de parede, de telhado, de degrau. Mais tarde eu fazia casa pra morar: desenhava a casa que eu queria construir ou reformar, ia fazendo (ou refazendo) ela aos poucos, levava anos a fio, não fazia mal: fazer e refazer era bom. Depois eu inventei uma Casa, querendo agregar dentro dela três gostos muito fortes que desde pequena eu tenho: o gosto da escrita, o gosto do teatro, e o gosto do fazer à mão: queria realizar projetos ligados a livros e palcos, da maneira mais artesanal possível. Essa Casa eu destinei a investigação, a experimentação. Eu queria investigar, por exemplo, se era ou não possível encontrar um caminho genuinamente meu pra voltar ao palco. Não pra voltar a fazer teatro (no passado fui atriz), mas pra falar de LIVRO de um jeito teatral: era esse o caminho onde queria andar. Andei. Continuo andando: volto agora a subir num palco pra fazer A Entrevista – uma apresentação cênica que antecede o aparecimento de Retratos de Carolina. Este é o quinto projeto de palco saído da Casa. O primeiro foi Livro, onde eu me posicionava como leitora, falando dos meus casos de amor literários. Depois veio Fazendo Ana Paz, onde eu contava a história de um livro meu, vivenciando os sete personagens da história. Nos dois projetos seguintes (De cara com a Lygia e Depoimento), criei minha encenação vivenciando pro público episódios ligados à criação dos personagens que – na época – eu tinha acabado de criar. Durante alguns anos fiz essas apresentações pelo Brasil afora, e de maneira muito artesanal: uma cadeira, um ponto de luz, e pronto. Fora um teatro ou outro, que me abrigou aqui no Brasil, e também no exterior, essas apresentações foram feitas em espaços ligados a livros: bibliotecas, universidades, feiras de livros, casas de leitura, casas de cultura...

Da Casa saiu também a minha primeira publicação: um livro artesanal, feito em casa, numa tiragem limitadíssima, fora do circuito comercial, e que se chamou Feito à Mão. O papel de cada página, de cada livro, foi feito à mão pelas artesãs do Ateliê Terra, e em vários momentos do livro, eu me meto dentro dele, transcrevendo o meu texto à mão. Com essa vontade que não me larga de querer sempre estreitar mais o meu relacionamento com o LIVRO, quis agora investigar que caminho é esse que os meus personagens percorrem a partir do momento em que eu entrego eles pra uma editora até o momento de me encontrar de novo com eles numa livraria ou num outro espaço qualquer: enfarpelados, impressos, encapados, orelhados, plastificados, anunciados... que caminho era esse, meu deus? E, de tanto ficar cismando se o caminho era de pedra, se o caminho era assim, ou se o caminho era assado, resolvi trazer pra dentro da Casa essa nova entidade: uma editora. Que não só vai dar guarida aos meus personagens, mas vai também me revelar o caminho que eles têm que percorrer até chegar a você – que me lê. Quando comecei essa nova investigação, avisei logo pro meu eu-artesanal: dessa vez é melhor você ficar de boca fechada. Mas ele é teimoso demais: quis logo bisbilhotar como é que Retratos de Carolina virava objeto-livro, e acabou se metendo a fazer letra de capa, de folha de rosto, de abertura de capítulo e não sei que mais. E, se fosse coisa de dizer que ele tem letra caprichada! mas nem isso. Paciência: ele é mais forte do que eu. É com Retratos de Carolina que eu começo essa nova caminhada. Aqui, eu me misturo com a Carolina, viro personagem também: queria ver se dava pra ficar todo mundo morando junto na mesma casa: eu, a Carolina, e mais os outros personagens: na Casa que eu inventei.

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PINÇA Reverção

andado até hoje: o começo – o que não deixa de ser um diferencial, é ou não é?

No ano seguinte à publicação de Retratos, meu primeiro livro (Os Colegas) foi liberado de sua antiga editora e veio morar na Casa. Foi quando tomei a resolução de dar o mesmo aspecto a todos os meus livros, fazer deles uma coleção, digamos assim. E assim foi feito. E assim permaneceu até hoje. Só que a roupagem que escolhi pra futura coleção, embora calcada na vestimenta que dei a Retratos de Carolina, ficou diferente, sobretudo nos toques artesanais que dei em Retratos e que resolvi não repetir nos outros livros.

Dois anos depois da chegada d’Os Colegas na Casa, comemoramos a reunião de todos os meus personagens na nova morada.

Nos dezesseis anos decorridos desta minha caminhada, quando, às vezes, vejo meus livros enfileirados numa estante qualquer, meu olho sempre tropeça na lombada de Retratos e eu me pergunto: vai ficar assim? diferente?

Hoje, finalmente, resolvi: sim, vai ficar assim: os mesmos textos que escrevi para as orelhas e a quarta capa da publicação original do livro, a

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mesma tipologia bojunguiana aqui e ali, a mesma foto já meio desbotada que o Peter tirou de mim, justo no local onde me despedi da Carolina, vai ficar tudo igualzinho, do jeito que foi pensado e feito.

Muito mais poderia ser contado desta minha caminhada, mas prefiro me despedir aqui, deixando Retratos de Carolina com a mesma cara – em respeito à Memória deste primogênito da Casa.

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15Retratos de Carolina

arolina ia atravessando os seis anos quando conheceu a Priscilla. Já fazia quase um mês que as aulas tinham começado quando uma manhã a Priscilla entrou na sala de aula e anunciou da porta:

– Não vim antes porque andava viajando com a minha família. Sento onde?

A Professora apontou:– Se você achar a cadeira baixa, depois a gente

regula a altura.– Dá pra regular agora? Eu não gosto de cadeira

baixa.– Depois, Priscilla, depois. Agora preste atenção

ao que eu estou ensinando.Priscilla?!Carolina se encantou: era a primeira vez que ela

via uma Priscilla. Achou o nome lindo. Disse pensado:

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16 Lygia Bojunga

Priscilla. Pensou mais alto: Priscilla. E pra ouvir o som disse baixinho, Priscilla.

Priscilla virou a cabeça (ela tinha se sentado em frente da Carolina).

Carolina encabulou; meio que riu pra disfarçar e disse um oi cochichado.

Priscilla respondeu um oi bem alto, abriu a cara num riso e começou a procurar o jeito de regular a cadeira.

Se fosse só o nome! Mas que cara tão de Priscilla a Priscilla tinha! Assim, de olho verde-escuro e de riso fazendo covinha no queixo e na bochecha. Carolina se perturbou. Ficou olhando pro cabelo em frente: comprido, encaracolado e ainda por cima avermelhado. Era a primeira vez que ela via cabelo dessa cor. Na hora do recreio quis saber:

– Você já nasceu assim, Priscilla?– Assim como?– Com o cabelo dessa cor?Priscilla soltou uma risada. (De novo uma e a

outra covinha.)– A minha mãe disse que quando eu era criança

ele ainda era mais vermelho.Carolina se espantou:– Mas você não é mais criança?

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17Retratos de Carolina

– Mês que vem eu faço sete anos.– Ah, então você é mais velha do que eu.– Mais velha quanto?– Dois meses.Priscilla, benevolente, meio que encolheu o ombro:– Coisa à toa.– Você já sabe ler?– E escrever.– Eu também– Corrido?– Depende.– De quê?– De não ter palavra que a gente tropeça.E, por falar em tropeço, quando o recreio acabou

a Professora perguntou:– A cadeira ficou boa, Priscilla?– Boazinha.A Professora olhou pra classe:– Antes de começar o ditado, eu quero saber uma

coisa: como é que se escreve o sci de Priscilla?O braço da Carolina se levantou num pulo:– Com cê.A professora fez que não. Apontou uma outra

menina, que baixou o braço e levantou o corpo pra responder:

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18 Lygia Bojunga

– Com dois esses.– Não. – E a Professora apontou um garoto.O garoto se levantou e deu um soco no ar. (Era

assim que ele fazia quando matava uma charada.) Gritou entusiasmado:

– Bota cê-cedilha nessa Priscilla!E a cabeça da Professora disse devagar que não.Perplexidade geral.Priscilla levantou um braço lânguido e a

Professora mandou:– Escreva Priscilla aí no quadro, Priscilla.A Priscilla foi e escreveu.Quando a Carolina viu Priscilla escrito, achou

ainda mais bonito que Priscilla falado: primeiro porque era uma Priscilla de dois eles pra gente ficar mais tempo com a ponta da língua no céu da boca (quem sabe ela também virava uma Carolina de dois eles?); segundo porque os dois deviam ser tão unha e carne, o esse e o cê, que mesmo Priscilla não precisando do esse, o esse não quis se separar do cê. Teve tanta certeza desse afeto dos dois, que cochichou ele pra Priscilla, assim que ela voltou do quadro.

A Priscilla gostou da ideia. Jogou ela logo em voz alta pra Professora.

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19Retratos de Carolina

A Professora já não se entusiasmou tanto assim. Se limitou a comentar:

– Vocês ainda são muito pequenas para entender a grandeza da Língua Portuguesa.

Mas o parecer da Professora não abalou a convicção da Carolina de que o esse e o cê eram assim: unha e carne. Vai ver até a razão de tanta certeza era a vontade que Carolina tinha de ter uma amiga-unha-e- carne, corda-e-caçamba, onde-vai-uma-vai-outra; uma amiga confidente, uma amiga pra amar. Assim, feito ela amava o Pai. Não. Assim, não. Tinha que ser diferente. O Pai era muito mais velho. E era pai. Não dava pra ser amado do mesmo jeito que ela ia amar a amiga. Mas será que algum dia ela ia encontrar essa amiga pra amar?

E, de repente, aconteceu. Aconteceu uma Priscilla na vida da Carolina. Uma Priscilla que foi se apriscillando mais e mais, à medida que Carolina descobria novos aspectos do talento e da vida da amiga. Por exemplo: a Priscilla dançando era uma graça! Outro exemplo: teve aula de canto na escola e a voz da Priscilla logo se destacou. Mas também, pudera! A mãe da Priscilla era cantora de ópera, imagina. (Durante dias a Carolina e a mãe da Carolina ruminaram, impressionadas, o fato da mãe da Priscilla ser cantora de ópera e, ao mesmo tempo, ser mãe de

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20 Lygia Bojunga

sete filhos. Sete filhos! A Priscilla era a caçula. E a única mulher. Seis irmãos, já pensou? E Carolina, filha única, era só pensar que alguém podia ter seis irmãos, que pronto: já se arrepiava.)

Feito coisa que tudo isso era pouco, o pai da Priscilla era cirurgião plástico, e a Priscilla estava sempre contando pra Carolina tudo que é operação que o pai fazia. Nossa! era coisa da gente nem acreditar: botava nariz novo, tirava ruga velha, sumia com barriga grande, tapava cicatriz de ferida, mudava feitio de orelha; se mulher tinha peito grande e não gostava, ele cortava; se outra queria grande, ele botava nem mágico fazia o que o pai da Priscilla fazia.

E quando a Priscilla convidou a Carolina pra ir na casa dela a Carolina ficou sem saber o que pensar, de tanto que ela nunca tinha pensado que uma Priscilla só pudesse ter tanto de tudo. Mas adorou o quarto da Priscilla; achou ele lindo, todo assim, só amarelo e branco.

E agora elas são amigas.Pra Priscilla: mais uma amiga.Pra Carolina: a amiga sonhada, admirada, unha e

carne, amiga amada.

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Carolina (já se viu no caso do esse e do cê) era dada a convicções. E outra das muitas convicções que ela tinha é que amiga-amiga tem que partilhar tudo que é segredo da gente. Então, bastava Carolina achar que uma coisa tinha cara de segredo pra já ir correndo contar pra Priscilla. Mas a Priscilla não retribuía na mesma moeda. E isso deixava Carolina pensativa.

– Não aconteceu nenhum segredo com você, Priscilla?

– Quando?– Hoje.– Por enquanto, não.– E ontem?– Se aconteceu, já esqueci.– Se acontece amanhã, você me conta antes de

esquecer?– Conto.– Promete?– Prometo.Mas não contava. Carolina às vezes pensava,

coitada da Priscilla, ela não tem segredo nenhum! (feito coisa que a Priscilla não tinha uma orelha ou um dedo), outras vezes ela duvidava: será que ela tem e não me conta? Sentia uma coisa doendo dentro dela. Mas não sabia que era a dor da

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suspeita. E, na esperança de que segredo-com-segredo-se-paga, ela tratava de ir contar pra Priscilla mais um pedacinho do Grande Segredo, que ela tinha acabado de descobrir.

(Uma vez, falando de segredos, o pai da Carolina disse pra ela que a vida é um grande segredo, que vai se desvendando devagar, à medida que a gente vive. Disse que quanto mais a gente presta atenção nele, mais ele se mostra. Mas disse também que, por mais que a gente preste atenção nele, ele jamais se mostra todo. Carolina logo se interessou pelo Grande Segredo. Quis saber mais. O Pai falou:– Muita gente passa a vida espiando o Grande Segredo por uma frestinha estreita assim.– ?– Já outros conseguem espiar pra ele por frestas mais largas.– ?– Tem ainda outros que não se contentam com frestas: querem ver tudo do Grande

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Segredo. Mas eu já te disse que ele é mestre nesse jogo de esconde-esconde: ganha sempre.– ?– Pra qualquer um que entra no jogo, ele vai logo abrindo frestas. Mas estreitas. Sempre muito mais estreitas do que a gente quer.– ?– Não nos resta alternativa melhor senão tentar alargar cada uma.– ?Mas com tanta interrogação no olho de Carolina, o Pai achou melhor continuar a conversa outro dia. Ou melhor, outro ano. Depois dessa conversa, sempre que o Pai falava pra Carolina do Grande Segredo, pegava um tom meio segredado. Um pouco por brincadeira, um pouco por achar que assim, apresentada como um grande segredo, a descoberta da vida ainda se tornava mais estimulante pra filha.A imagem das frestas se instalou na imaginação de Carolina. Numa porta que ia se abrindo, mas não se abria; numa fenda que riscava um muro; na folha de uma janela

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que quase se encontrava com a outra, Carolina adivinhava uma fresta importante; tentava espiar por ela; e bastava ver alguma coisa que, pronto: já achava que tinha desvendado mais um pedacinho do Grande Segredo. Ia correndo contar pra Priscilla, usando a tal voz segredada que tinha aprendido com o Pai.A Priscilla não entendia por que que a Carolina fazia mistério de tanta coisa que não tinha cara nenhuma de segredo. E, da mesma maneira, a Carolina não entendia por que que a Priscilla não compartilhava nenhum segredo com ela.)

Até que numa sexta-feira de manhã se abriu pra Carolina uma fresta inesperada. E Carolina viu um pedaço de Grande Segredo pra Priscilla nenhuma botar defeito. Sentiu até medo. Mas não foi só medo que a Carolina sentiu: confusão, tristeza, até desespero ela teve que aguentar. E ela quis tanto, mas tanto! ir logo dividir com a amiga a dor que estava sentindo.

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Mas a tal sexta-feira foi justo o dia dos sete anos da Priscilla: a casa da amiga se abria para uma grande festa. E a Priscilla tinha que tratar do cabelo, e a Priscilla tinha que tratar do vestido, e a Priscilla tinha que tratar de mil coisas, porque a minha festa tem que ser uma grande festa.

Carolina teve que suportar sozinha a dor. Durante horas a fio. Descobrindo no sofrimento solitário uma medida nova de vida. Se agarrou na expectativa de chegar na festa e desabafar com a Priscilla tudo que tinha acontecido; e ficou esperando o tempo passar.

Carolina chegou na festa de cara mostrando que muita lágrima tinha rolado por lá. Abraçou a Priscilla...

– Muitas felicidades, Priscilla. ...e entregou o presente que tinha trazido:

– Toma pra você.– Nossa! que cara horrível, Carolina.– É que aconteceu uma coisa horrível. – Já fez

o anúncio com voz de segredo. E vendo o monte de gente, de salgadinho e de doce, pediu supersegredado, deixa um pouquinho a tua festa pra lá e me escuta?

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A Priscilla arregalou cada olho assim:– Deixar a minha festa pra lá?!– Só um pouco Priscilla. Aconteceu uma

coisa que não podia ter acontecido, eu preciso te contar!

Priscilla suspirou resignada:– Tá. Vamo lá pro meu quarto. – E foi puxando

a Carolina pela mão. Mas no caminho avisou: – Não pode ser um desabafo muito grande, viu? Festa é festa.

Entraram no quarto.– Fecha a porta.A Priscilla fechou.– Priscilla, você sabe que...– Pera aí, primeiro deixa eu ver o meu presente. –

Desembrulhou a caixa. Era uma boneca.– Ainda bem que a minha mãe comprou ela

ontem, Priscilla. Se fosse hoje ela não comprava mais. Gostou?

– Gostei sim. Obrigada. Mas por que que ela não comprava se ontem fosse hoje?

Carolina procurou um lugar na cama pra sentar, mas tinha presente em cima da cama toda. E em cima da penteadeira. Em cima da cômoda. Em cima da mesa de estudo. Em cima do armário também. Nas cadeiras. No chão. Então, Carolina desabafou de pé:

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– A minha mãe me bateu!Priscilla ficou esperando.– Ela nunca tinha me batido antes, Priscilla, essa

foi a primeira vez. E foi uma surra que você precisava ver. De chinelo! O chinelo do meu pai, ainda por cima. Ela já tinha me dado beliscão, puxão de orelha, essas coisas, mas uma surra eu nunca tinha apanhado na vida, foi horrível, Priscilla, foi horrível! e o pior é que tem um horrível ainda pior que esse horrível pr’eu te contar.

A Priscilla esperando.Carolina fez um esforço pra continuar falando; a

vontade era só de chorar:– O pior é que eu pedi a ela... por favor... POR

FAVOR... pra ela não contar pro meu pai. Se ela não contasse, Priscilla, eu perdoava ela de ter me batido do jeito que ela me bateu, ainda por cima com o chinelo do meu pai. Eu desculpava ela e ia gostar dela feito eu gostava antes. Mas ela esperou o meu pai chegar e a primeira coisa que ela fez quando ele chegou foi contar tudo pra ele. – O esforço se desmanchou, o choro voltou.

– Mas, Carolina, o que que você fez?– Eu não sabia que era uma vergonha assim tão

grande, Priscilla.

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28 Lygia Bojunga

– O quê?– Brincar de teu pai com o Serginho.Priscilla olhou pra Carolina com aquela cara que

ela olhava muitas vezes: total incompreensão.Carolina reforçou o tom de segredo:– A gente combinou que hoje de manhã ia brincar

de médico, o Serginho e eu. A minha mãe tinha saído. Quer dizer, eu pensei que ela tinha saído. Da última vez que o Serginho foi lá em casa brincar, sabe Priscilla, a minha mãe disse pra ele ir embora porque eu tinha que estudar e...

– Conta logo tudo de uma vez, Carolina, eu tenho que voltar pra festa.

– Por favor, Priscilla, você tem que me escutar.– Então conta logo!– Hoje de manhã o Serginho foi lá em casa...– Você já disse!– ...pra gente brincar de teu pai.– Mas que que é isso, brincar de meu pai?– De médico– Médico, não: o meu pai é ci-rur-gi-ão plás-ti-co.– Pois é, eu sei, e o Serginho ia fazer uma plástica

em mim. Desde o dia que eu vi o pintinho dele, eu fiquei querendo também um pra mim...

– Pintinho??

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– ...e quando ele me mostrou que legal que era fazer xixi pro alto, eu ainda fiquei querendo mais. Ele falou que quanto mais grande o pintinho, mais alto o xixi sobe.

– Puxa, Carolina, até hoje você não sabe que só criança muito criancinha demais é que chama pau de pintinho?

– Pau?!– Fala baixo!Por um momento Carolina se esqueceu da aflição

que estava devorando ela.– Mas por quê?– O quê?– Que é pau?– Ah, isso eu não sei, mas que é pau, é pau, e

vamo logo com essa história que eu tenho que voltar pra festa.

Ainda meio confusa, Carolina tocou a história pra frente:

– E quando eu disse pro Serginho...– Esse Serginho é aquele que mora em frente da

tua casa?– É.– O olho dele parece de vidro.– Você acha, é?

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30 Lygia Bojunga

– Bom, e aí?– E aí, quando eu disse pro Serginho que a minha

mãe tinha ido ao médico, ele perguntou se eu também não queria ir, e quando ele disse que o médico era ele, eu topei, e a gente foi lá pro fundo do quintal, e foi aí que a gente teve a ideia de fazer a... como é mesmo quese chama essa coisa que o teu pai faz?

– Ci-rur-gia...– Plástica! E ele me perguntou que tamanho que

eu queria o meu...pau, e eu disse que queria um bem grande, pra fazer xixi lá pra nuvem, e então a gente começou a procurar um pedaço de pau lá no quintal pra... ah, Priscilla! quem sabe é por isso que chama assim? Porque o Serginho também chama pintinho de pintinho, mas na hora de procurar um pra botar em mim ele foi procurar um pedaço de pau.

O olho da Priscilla corria a toda hora pra porta.

– Anda com essa história, Carolina.– Aí a gente encontrou um pedaço assim desse

tamanho, e foi lá pra dentro da casinha de ferramentas pra ele fazer a operação. – A voz foi se ajeitando melhor no tom de segredo-absoluto. – Aí eu tirei a minha calça pra botar o pedaço de pau em mim e ele também tirou a calça dele pra poder ver bem onde é que o pau dele

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31Retratos de Carolina

começava e aí fazer tudo certinho em mim. E quando a gente tava vendo a porta abriu e a minha mãe entrou.

– Xi!– Foi logo falando gritado, disse que a gente tava

fazendo indecência.– Mas ela não tinha ido ao médico?– Desmarcou e não falou.– E aí?– Disse pro Serginho que ia contar tudo pro pai

dele (o pai dele é uma fera, Priscilla!). O Serginho pegou a calça e saiu correndo, e naquela afobação nem viu que a minha calça tava junto e levou ela também; e quando a minha mãe mandou eu botar a calça: cadê? Aí ela me pegou assim pelo braço, foi me arrastando pra dentro de casa, me jogou em cima da cama dela e, quando viu o chinelo do meu pai no chão, disse assim: deu as calças pra ele, não é? melhor pro chinelo! E me bateu, e me bateu, e me bateu.

O pé da Priscilla já não sossegava, ia e vinha no chão.

– Eu nunca tinha apanhado antes, Priscilla!– Bom, pelo menos já viu que ruim que é.– E o pior é que ela me bateu com o chinelo do

meu pai.– Pior por quê? O pé dele é muito grande?

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– Não é isso! É que o chinelo é dele...– E daí?– ...e eu sei, eu sei! que nada dele é pra bater em

mim.– Esquece. Vamo pra festa, vem.– Espera! eu ainda não te contei o pior.A Priscilla arregalou um olho alarmado, já

prevendo a demora que ia levar esse pior:– Depois você me conta.– Não! eu preciso te contar. Esse tempo todo

que a minha mãe me puxou e me bateu e me gritou, ela falou uma porção de coisas que eu não entendi direito, negócio do Serginho se aproveitando de mim, negócio de imoral, não! moral, não! amoral, sei lá, depois eu lembro direito...

– Isso! depois. Vem.– ...mas aí ela disse sabe o quê? Que era só o

meu pai chegar em casa que ela ia contar pra ele a minha sem-vergonhice, e ela falou tanto que eu era sem-vergonha, que só de pensar que o meu pai ia ficar sabendo que eu era sem-vergonha eu fiquei pra morrer, e aí, sabe, Priscilla... – A Priscilla agora puxava a Carolina pela mão, mas a Carolina se segurava na beirada da cômoda. – ...aí eu pedi pelo

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amor de deus pra ela não contar nada pro meu pai, eu jurei que nunca mais na vida eu brincava com o Serginho, eu jurei que nunca mais tirava a calça, eu falei que jurava tudo que ela queria, mas por favor! por favor não conta nada pro meu pai, e foi só o meu pai chegar em casa que ela contou tudo pra ele.

– Puta!O breve diagnóstico da Priscilla saiu tão forte

quanto inesperado.A própria Priscilla se espantou. E feito coisa que

a mão de uma tinha dado um choque na mão da outra, as duas mãos se largaram e o pé da Priscilla galopou pra porta.

Te espero lá embaixo, Carolina. – E pronto, a Priscilla voou pra festa. *

* Quando um dia perguntaram pra Priscilla por que que ela e a Carolina já não eram amigas, a Priscilla respondeu:

– A Carolina esfriou comigo.– Ué, por quê?– Porque eu chamei a mãe dela de puta. Mas foi sem querer, viu?Será que a Priscilla achava mesmo que era por isso? Será

que nunca passou pela cabeça dela que o esfriamento da Carolina foi pelo que veio depois, quando cortaram o bolo de aniversário com as sete velas recém-sopradas?

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Agora Carolina está sozinha no quarto da Priscilla. Continua agarrada na cômoda. Uma onda nova de choro faz ela se virar pro móvel, rodeia ele com o braço e fica assim, a bochecha colada no gavetão de cima.

Feito coisa que era pouco tanta zanga da mãe e tanta vergonha do pai, agora ainda mais essa: a Priscilla nem espera ela acabar o desabafo, corre pra festa, não dá a menor bola pra tudo que ela está sofrendo.

Carolina se abraça com mais força na cômoda; vai lembrando, ainda outra vez, do Pai chegando em casa e da Mãe contando pra ele tintim por tintim de tudo, calça, Serginho, etc. E o tempo todo ela ali escutando. Doida pra espiar a cara do Pai. Mas sem coragem de levantar o olho. E mesmo quando a Mãe contou da surra, e mesmo quando ouviu a voz aborrecida do Pai repetindo, não precisava ter batido nela, não precisava, mesmo aí ela não teve coragem de levantar o olho pra ele. Só ficou esperando a Mãe contar que tinha batido com o chinelo dele. Mas a Mãe não contou. Será que a Priscilla não entendia que não tinha coisa pior na vida do que o Pai não gostar mais dela? E quando, depois, o Pai disse que levava ela na festa (a mãe já tinha dito eu não te levo, e sozinha é claro que você não vai), mesmo aí ela não teve coragem de olhar pra

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ele. Não olhou nem quando eles chegaram na casa da Priscilla e o Pai perguntou: a que horas você quer que eu venha te buscar? Respondeu seis horas e correu pra dentro, sem nem virar a cabeça nem nada.

E só agora, a cara se afastando da cômoda, a testa formando uma ruga, Carolina se lembra que, no caminho pra festa o Pai tinha contado uma história pra ela. Como é mesmo que era a história? Ah! um cachorro era unha e carne com um gato, e aí... Mas se o Pai tinha contado uma história pra ela, feito ele sempre contava, então ele continuava igual ao que ele sempre era... É ou não é? E se ele continuava igual ao que ele sempre era, então ele não estava contra ela... estava?

Se apercebe de repente de um cheiro gostoso. É a madeira da cômoda. Cheira ela mais fundo. Vai relaxando o abraço. Presta atenção nos puxadores; acha eles bonitos. Se desabraça de vez; olha pro móvel com mais atenção; se lembra de um detalhe, ah! teve outra coisa também: quando ela estava entrando lá embaixo no jardim o Pai tinha feito uma festa na cabeça dela. Uma festa feito ele sempre fazia. Bom, mas então... então o pai não estava contra ela, estava?

Carolina começa a se dar conta do barulho da festa, palma, risada, gritaria. E ela ali não fazendo

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outra coisa senão chorar! não era à toa que a Priscilla tinha perdido a paciência. Tira um lenço da bolsa; enxuga as lágrimas; se assoa com força, se sente mais animada. Desce pra festa.

A entrada do bolo na sala causou sensação: o bolo era um exagero de tamanho e decoração. A Priscilla não conversou: exagerou também no soprão; e, de sete velas apagadas, olhou vitoriosa pra Carolina. Uma riu pra outra.

Cantoria. Palma. Grito. Assobio.A Mãe-da-Priscilla pegou um talher e bateu

num copo:– Atenção! Atenção! Vou explicar o bolo.A criançada fez um silêncio espantado. Bolo

tinha explicação?– O bolo não é assim tão grande só porque vocês

são uma porção. É que tem três prêmios dentro dele. E os três são deste tamanho. – Mostrou no ar o tamanho dos prêmios. Riu.

Os convidados se apertaram em redor da mesa: cadê? cadê os prêmios?

– O primeiro prêmio é o que eu gosto mais – a Priscilla segredou pra Carolina. Mas segredou

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mesmo, com cara e voz de mistério, a mão meio que tapando a boca.

Carolina saudou o momento com um suspiro de felicidade: que bom que era sentir no ouvido a voz segredada da Priscilla, ah que bom! Até que enfim a Priscilla segredava; até que enfim o dia se endireitava.

Em volta, outra vez a pergunta, cadê os prêmios? cadê?As luzes se apagaram e, num andor improvisado,

carregado por dois empregados da casa, entrou o primeiro prêmio, iluminado pelas velas de um castiçal. Era uma boneca do tamanho da Carolina, cabelo, roupa e sapato um luxo só; e entrava de pé, embalada em celofane e papelão. Foi saudada com um entusiasmo tremendo.

A Mãe-da-Priscilla bateu o talher no copo:– Atenção! Quando eu mostrei o prêmio pro meu

marido, ele disse, mas boneca é coisa de menina, você agora tem que comprar um prêmio bem de menino. – A cara se resignou. – Aí eu fui e comprei.

Entrou outro andor na sala, iluminado também de velas.

– Pra que tanta vela? – um garoto de boné azul perguntou cochichado pra Carolina. – Será que acabou a luz?

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Carolina fez cara de dúvida, espichou o queixo pra sala ao lado, que continuava de luz acesa, e o garoto do boné concluiu:

– Então é pra depois a gente soprar.Em pé no andor, também metida em celofane e

papelão, vinha uma espingarda de ar comprimido.Outra vez o talher no copo, e a Mãe-da-Priscilla

falando em tom de ópera:– E aí eu contei pro meu marido (ele ainda

não chegou porque está fazendo uma cirurgia plástica di-fi-cí-li-ma), eu contei pra ele que tinha comprado este outro prêmio e ele perguntou, e se uma menina ganha o prêmio arma e um menino ganha o prêmio boneca, você acha que eles vão trocar? E então ficou combinado que quem ganhar vai ter que trocar.

Algazarra.Talher batendo no copo. Voz (contralto) pedindo

silêncio:– Então está combinado, não é? Se uma menina

ganha a espingarda e um menino ganha a boneca, eles trocam, tá?

– E se a menina quer ficar com a espingarda? – uma menina perguntou.

– Ah, mas ela não vai querer.

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39Retratos de Carolina

– Se for eu, eu quero: eu não me amarro em boneca. E aí? como é que fica?

– Ela fica, pronto – a Priscilla foi logo dizendo – ela fica com a espingarda.

– E o garoto fica com a boneca?– Problema dele, ué! (Paciência não era o forte da

Priscilla.)Mas a Mãe-da-Priscilla já tinha solução pro

possível impasse:– Quem quiser trocar pode trocar pelo terceiro

prêmio. O meu marido achou melhor ter também um prêmio neutro. Aí vem ele.

Todo mundo se virou. A recepção dessa vez foi silenciosa. O terceiro prêmio era uma gaiola grande, toda feita de bambuzinho, um trabalho artesanal belíssimo. Dentro, um pássaro também grande e belo. No alto da gaiola, uma argola em madeira esculpida. E parecendo até que tinham ensaiado a cena, ficaram todos assim: parados, mudos, só esperando o pássaro fazer qualquer coisa. Mas no pássaro todo só o olho se mexia. Então a Carolina perguntou:

– Ele canta?A Mãe-da-Priscilla sacudiu a cabeça e a fisionomia

pegou um ar risonho de mistério.

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A Menina-que-não-se-amarrava-em-boneca quis saber:– Mas se ele não canta, então pra que que ele serve?– Ele é só pra olhar, não é, mãe?A Mãe-da-Priscilla passeou um olhar vagaroso

pela sala:– Vocês não repararam nada de diferente neste

pássaro?A garotada olhou pro pássaro com mais atenção.Carolina foi a primeira a se manifestar:– Ele tem uma coleira no pescoço.– E pra que que ele tem uma coleira no pescoço,

Carolina?Carolina deu uma espremida violenta na

imaginação e o resultado foi uma pergunta indecisa:– Pra servir de cachorro?Um sorriso deste tamanho desmanchou o ar de

mistério na cara da Mãe-da-Priscilla.– Isso! pra servir de companhia. Este pássaro é

um pet.A Priscilla fez uma careta:– É um quê?– Pet, filhinha; pet é a palavra inglesa para esses

bichos que a gente tem em casa pra servir de companhia. Se a gente quiser tirar este pássaro da gaiola pra dar uma voltinha com ele é só ir puxando

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ele pela coleira e pronto: não tem perigo dele bater asas. Porque vocês sabem, não é? o pet foi feito pra ficar com a gente; sem a gente, o que que ele vai fazer?

Tlin-tlin! (talher no copo).– Olhem aqui, prestem atenção: pra abrir a porta

da gaiola a gente levanta esse bambuzinho aqui, olha só que gracinha que ele é; puxa ele assim pra cima da argola, ó.

Enquanto tudo que é criança rodeava a gaiola pra examinar o Pet e a coleira, Carolina se perguntava, mas, se ele é pra servir de cachorro, por que que não veio logo um cachorro?

O garoto de boné azul quis saber:– Por que que a senhora disse que os prêmios tão

dentro do bolo?O tal ar de mistério voltou pra cara da Mãe-da-

Priscilla:– Ah!... mas tão.Todos largaram o Pet pra lá e voltaram a atenção

pro bolo.Tlin-tlin!– Atenção! O recheio deste bolo tem muitas

ameixas. Sem caroço, é claro. Mas... atenção: três delas têm caroço. E é no caroço que está marcado o número dos prêmios. Número um: a boneca... – Um

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coro unânime saudou o primeiro prêmio. – Número dois: a espingarda... – um coro animado saudou a espingarda. – Número três, o Pet. – Uma ou outra voz fraquinha foi tudo o que se ouviu. – Portanto, mastiguem com muito cuidado: a ameixa pode estar premiada com um caroço.

A recomendação não adiantou nada: todos já estavam de prato estendido, e era só a fatia de bolo ser servida pra ser logo devorada.

Talher no copo:– Mastiguem devagar! pode ter uma ameixa com

caroço aí dentro.– E a gente arrisca de quebrar um dente, não é? –

disse a menina-que-não-se-amarrava etc.Priscilla reforçou o perigo:– O pior é se a gente engole o prêmio.A recomendação incessante da Mãe-da-Priscilla

(que já estava ficando alarmada de ver a rapidez com que a criançada engolia o bolo e estendia de novo o prato) não fez nenhuma diferença pra Carolina: ela não sabia fazer nada correndo: mastigou devagar. Mas sorte é sorte: foi só provar o bolo que o dente já travou numa dureza. Surpreendida, ela cuspiu o caroço na mão em concha e anunciou gritado:

– Ganhei um caroço!

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Assim que Carolina gritou, pronto! a Priscilla já estava junto dela, olhando pro número (muito bem marcado, por sinal) que o caroço mostrava. E antes mesmo da Carolina se recuperar da emoção de ter ganho o maior prêmio da festa, a Priscilla já tinha pegado o caroço da mão da Carolina, anunciando num estardalhaço:

– A Carolina ganhou! a Carolina ganhou! Sou eu que dou os prêmios: eu sou a dona da festa.

A Mãe-da-Priscilla suspendeu a fatiação do bolo e foi ajudar a Priscilla a entregar a gaiola pra Carolina.

– Não, não, Priscilla! – a Carolina protestou –, o meu prêmio é a boneca, é o número um, vê aí.

A Priscilla fez cara de espanto e estendeu o caroço na palma da mão. O caroço estava marcado com o número três. Carolina segredou pra Priscilla:

– Mas ele saiu da minha boca com o número um, eu vi!

Mas a Priscilla já estava batendo palmas e comandando um coro de Viva! Viva! a Carolina agora tem um pet!

Um garoto gritou, ganhei!! A Priscilla correu pra junto dele:

– Ah, isso não é caroço, seu bobo, isso é uma noz!O bolo emagrecia a olhos vistos.

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A menina-que-não-se-amarrava-em-boneca gritou, ganheeeeeeeeeei!

A Priscilla correu pra junto dela, e foi só olhar pra mão estendida da menina que soltou uma gargalhada:

– Foi ela mesma! Foi ela mesma que ganhou a espingarda! Número dois!

De novo a fatiação do bolo foi interrompida. A Mãe-da-Priscilla ria que só vendo.

– O meu marido vai a-do-rar essa história.Enquanto tudo isso ia rolando, o olho da

Carolina não largava mais a Priscilla, fiscalizando tudo que é movimento que a mão da Priscilla fazia. Passada a surpresa do caroço ter mudado de número, um farrapo de lembrança foi voltando devagar pra memória da Carolina: um gesto que a Priscilla tinha feito, quando pegou o caroço da mão da Carolina e correu pra buscar a gaiola; um gesto muito rápido: a mão entrando e saindo do bolso da saia. E agora Carolina se pergunta, será que eu vi mesmo? será que eu vi bem? e o olho não se solta mais da mão da Priscilla.

Não demora muito e a Priscilla grita de boca cheia:– Dentei um caroço!O olho da Carolina vê direitinho a Priscilla parar

de mastigar o bolo; vê a mão da Priscilla fazer feitio

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de concha, ir pra junto da boca e recolher um caroço, e vê a outra mão, que entra e sai rapidinho do bolso da saia e vai dar um “apoio” à mão que está junto da boca.

– Número um!! – a Priscilla grita, estendendo a mão pra exibir o caroço.

A Mãe-da-Priscilla fica vexada:– Ô, filhinha! não fica bem a dona da festa ganhar

o primeiro prêmio.– Não tenho culpa de ter sorte, não é, mãe? –

Rasga o celofane que envolve a caixa; alisa com prazer o cabelo, o vestido, o sapato da boneca...

Carolina olhando. ...examina o fecho da bolsa que a boneca segura: abre e fecha, abre e fecha. Volta pra junto da mesa e ordena: – Tira esse bolo daqui, mãe! Todo mundo já comeu tanto bolo que, se come mais, vai passar mal.

– É verdade.O bolo é retirado da mesa e a Priscilla anuncia:– A festa agora vai esquentar! A gente vai

brincar de dança-e-senta. – Liga o som. Volume pra megaevento nenhum botar defeito. Cadeiras são arrastadas. Priscilla começa a dançar. A garotada se reveza entre a mesa de doces e a brincadeira. Priscilla chega perto da Carolina e puxa ela pela mão:

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– Vem, Carolina, vem dançar, vem!A mão da Carolina volta depressa pra dona.– Não posso, Priscilla, o meu pai vem me buscar.

Vou esperar ele lá fora, tchau. – Vai saindo.– Não esquece de levar o teu prêmio.Carolina se vira; quer gritar que aquele não é o

prêmio que ela ganhou. Mas o grito não sai. Nem uma palavra sai. Corre pra porta; para; hesita; volta pra sala e, num puxa-pra-cá-empurra-pra-lá, consegue sair pro jardim com a gaiola. O olho bate num viçoso pé de azaleia branca, que está todo em flor. Mas Carolina não vê que bonita é a planta, só vê que atrás dela os dois podem sumir, ela e o Pet. Na aflição de se esconder depressa, mal chega atrás da planta, empurra a gaiola contra os galhos do arbusto; desaba no chão, o coração batendo forte, pronto, pronto, agora nem a Priscilla nem ninguém vai ver ela, agora ela vai ficar pra sempre ali escondida, todo mundo perguntando, cadê a Carolina? a Carolina não está no jardim? Todo mundo procurando, você viu a Carolina? meu deus, cadê a Carolina? E ela ali escondida. Aí, passava um dia atrás do outro, atrás do outro, atrás do outro, até que um dia chegava o dia que ela perdoava a Priscilla. Aí sim, ela podia sair de trás da planta e

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olhar de novo a Priscilla na cara, porque aí sim, olhar pra cara da Priscilla era feito olhar pr’uma cara qualquer. Mas agora, não! agora ela não queria ver a Priscilla na frente dela porque não foi você que eu ganhei, tá ouvindo? tá ouvindo? Eu ganhei foi o primeiro prêmio e não você; e de testa encostada na gaiola, o olho fuzilando o Pet, Carolina repete, ela disse que eu ganhei você, mas não foi você que eu ganhei, não foi você, e bate e bate na gaiola de punho fechado.

O tom de voz é baixo, um tom que quer ser segredado mas que sai convulsionado, traindo uma emoção que a Carolina nunca tinha experimentado antes.

O Pet, que já vinha assustado desde que prenderam ele na gaiola, se assusta ainda mais: pula pr’aqui, pula pra lá, bate asa, pula de novo.

– Você pensa que eu não vi, mas eu vi: tava marcado e bem marcado: número um. Mas ela tirou ele da minha mão e tirou do bolso um outro marcado três, eu vi a mão dela trocando, eu vi, eu vi, eu vi! (Pra cada fala repetida a mão repete a batida.) Ela fez aquela mentirada toda pra ficar com o que era meu. Mas por quê? por quê? por quê? Ela tem tudo mais de um, até ele no nome ela tem mais que um, ela tem tanta boneca no quarto que não dá nem pra contar, então

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por que que ela ainda quis a minha, que era minha, que eu ganhei, me diz! diz, diz!

O Pet não sossega na gaiola.– Fica quieto aí! E fica também sabendo que eu

não tô a fim de você. A boneca que eu ganhei, sim, eu podia brincar com ela, mas com você eu brinco de quê, se você taí preso? Eu não quero bicho que é preso, eu não quero saber de você! E não é só você que eu não quero: ela também: eu não quero mais, nunca mais. – O dedo esbarra com força na argola que prende a porta: – Droga! – A dor no dedo aumenta a raiva. Carolina luta com o bambuzinho pra desprender ele da argola, mas só pensando e repetindo, por que que ela fez isso comigo, por quê? A mão libera o bambu e empurra a porta com força.

Talvez a surpresa da porta tão grande.Talvez a estranheza de uma gaiola tão aberta. O

fato é que, num de repente, o Pet se imobiliza, intuindo que a liberdade está à espreita.

Carolina nem vê na frente dela a porta aberta; e também não se dá conta da expectativa do Pet. Encosta a testa na gaiola e faz força pra não chorar.

Pouco a pouco uma pergunta vai se formando no pensamento de Carolina: mas pode? pode assim uma coisa virar na outra? E quanto mais ela pensa em tudo

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que sentia pela Priscilla, mais ela se surpreende com tudo o que sente agora. É raiva! é raiva que ela sente onde antes sentia amor, e fica confusa, cada vez mais confusa, sem saber formular direito a pergunta que quer fazer: mas pode? pode assim um ser amado virar tão depressa odiado?

Em redor, o anoitecer vai se espalhando.Pode?... Mas, se pode... como é que pode?...Até que, lá pelas tantas, reprime um grito de

susto: sentiu na cabeça uma coisa pousando. Se vira tão rápido que o olho nem tem tempo de dissimular: entra direto pelo olho do Pai adentro. O Pai tinha se inclinado pra mão alcançar a cabeça da Carolina.

– O que que você está fazendo aí, minha filha?Durante um tempo Carolina só fica assim:

olhando pro Pai. Enquanto a lembrança de tudo que tinha acontecido antes da festa vai voltando.

– Que que foi, Carolina? você está com uma cara tão... tão... Você está bem?... Você não está gostando da festa?... Quando eu entrei aí no portão eu vi a ponta desse teu laço vermelho. Estranhei: será que é a fita da Carolina? E era. – Endireita o corpo.

Carolina vai levantando a cabeça pra não tirar o olho de dentro do olho do Pai. Deixa o corpo descansar contra a gaiola. Sente um começo de

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sossego: o Pai está olhando pra ela igualzinho feito toda vida ele olhou.

– Vamos embora? – ele convida.Ela continua só olhando.– Você ainda quer ficar mais, Carolina?Devagar ela faz que não.– Então vamos. – O Pai estende a mão. Mas

Carolina ainda hesita. Só depois:– Pai...– Hmm?– Você não tá contra mim?– Contra você?– A mãe... ela disse pra você que eu sou... que eu

sou uma...– Isso tudo passou, minha filha, eu já esqueci;

esquece também.– Pai... você tá... você... você ainda gosta de mim, pai?– Ô, minha filha... – O Pai pega as duas mãos de

Carolina e puxa ela pra ele. Num ímpeto, Carolina mergulha naquele abraço, se abandonando a uma sensação de alívio e prazer. E só sai do abraço porque, de repente, começa a rir. Puxa a mão do Pai:

– Vem, vem!– Você quer ir lá pra festa?– Não! eu quero ir embora com você, vem, vem!

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Que bom que a festa vai ficando pra trás; e que tão bom ver o Pai assim, se esquecido das calças, do Serginho, de tudo... Logo-logo ela também: vai se esquecer da Priscilla. Mas, melhor que tudo, ah, nem se fala, melhor que tudo é sentir a mão do Pai apertando firme a mão dela.

E assim, aliviada, vendo que o dia sofrido (e que comprido que ele foi!) vai chegando ao fim, Carolina nem se dá conta de que está indo embora sem se lembrarmais da gaiola e do Pet.

Lá na cozinha da casa da Priscilla, a cozinheira se senta pra descansar e comer sossegada uma fatia do bolo de aniversário; e quando o dente trinca uma ameixa com caroço, ela faz concha da mão, cospe o caroço dentro e joga ele fora. Já faz tempo que acabou a função de ameixa e de prêmio, ela nem se lembra de olhar pro caroço. Se olhasse, ia ver ele marcado com o número três.

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arolina estava com quinze anos quando foi conhecer a Europa. Fazia tempo que essa viagem vinha sendo planejada, calculada, adiada, reorganizada. A Mãe sonhava com Portugal (faço questão de conhecer a terra de onde veio o meu avô: eu era a neta predileta dele) e Espanha: não abro mão de Barcelona: a Quiqui nunca mais arredou o pé de lá, eu morro de saudades dela! e vocês sabem muito bem que ela sempre foi a minha irmã preferida.

O interesse forte do Pai era a Itália. Desde garoto se sentiu atraído pelas coisas de lá; achava a língua italiana belíssima, escuta só o som dessa língua, escuta só! E recitava emocionado:

Ma dimmi, c’è misura nel male?Dimmi, è giusto dimenticare i morti?E dove fiorisce tale usanza?Là non vorrei alcun onore.

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Toda a vida tinha sido um amante da ópera italiana, Verdi, então, nem se fala, era só chegar junto da mala pra já começar a cantarolar árias da Traviata, do Rigoletto, do Trovatore. Começou a fazer a mala logo depois de reservar as passagens; um dia optava por uma tal camisa, um tal livro, um tal suéter, dia seguinte achava melhor levar um tipo diferente de leitura, uma camisa mais fina, um suéter mais grosso, e já na outra semana achava que o livro era muito pesado, a camisa clara demais, ia sujar logo, suéter assim tão grosso ocupava muito lugar na mala. Se foi difícil resolver a bagagem, imagina a hesitação na hora de resolver o roteiro: sonhava com Veneza, Roma e Florença, mas sonhava também com cidades pequeninhas das Dolomitas, da Toscana, da Costa Amalfitana, da Sicília. Cada dia se lembrava de um outro quadro que queria ver na viagem, chamava Carolina pra mostrar o quadro reproduzido num livro e outro, você vai ver como os pré-rafaelitas tinham razão, Carolina, a grande arte é anterior a Rafael, a gente vai ver cada obra-prima de arrepiar, olha pra esse Adão e Eva do Masaccio que tem lá na Capela Brancacci (quem sabe é melhor botar mais dias pra Florença?), olha só pra esse Giotto, minha filha! a gente vai ver esses afrescos lá em Assis e em Pádua.

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E suspirava emocionado, se imaginando cara a cara com Giotto, e depois com Boticelli, e depois com Mantegna, e depois...

Carolina aguardava a viagem com a mesma ansiedade que o Pai. Queria conhecer tudo. Mas, mais que tudo, queria ver Paris e Londres. Não tinha dúvida de que Paris ia ser uma paixão; e se perguntada, tendo que escolher uma só, qual das duas você escolhe? ela nem hesitava: Paris.

Londres marcou a etapa final de uma viagem que durou mais de três meses (vai ver o Pai intuía, por tudo que economizou e planejou, que aquela seria sua primeira e última viagem à Europa); e Londres foi a grande paixão que Carolina sentiu.

Na hora em que o roteiro ficou pronto, quinze dias foram reservados pra Paris e quinze pra Londres. Chegando em Paris, Carolina logo achou que era dia demais reservado pra Londres. Mas agora, neste último dia da viagem, Carolina, sozinha, vai varando a tarde cinzenta e volta devagar pro hotel, mal segurando a vontade de chorar, de tanto que dói pensar que está indo embora de Londres. Não se conforma de terem sido só quinze dias por lá e, enquanto vai botando um

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olhar triste de despedida em cada prédio, cada gradil, cada árvore, não para de se perguntar, quando é que eu volto pra cá?

(“Mas, Carolina, hoje a gente vai jantar mais cedo por causa do concerto que tem depois.”“Eu sei, mãe, eu sei, mas eu quero me despedir da cidade.”“O programa de despedida é de noite, minha filha.” “Mas eu quero me despedir mais!”“Descansa um pouco, Carolina, você não parou desde que chegou aqui.”“Eu não quero perder um minuto desta cidade.”“Mas onde é que você vai?”“Andar por aí, olhar pra ela.”“Mais?”“Mais.”)

E aí vai Carolina pensando, eu tenho que dar um jeito de voltar pra cá; mas que jeito? Uma bolsa de estudos? Será? Eu podia vir trabalhar aqui e... não: só com dezoito anos; puxa, esperar mais três anos? Ah, não! é demais; mas bolsa também não vai dar, primeiro eu tenho que me formar, mas então que jeito eu vou dar? ô, meu deus, por que que a gente só reservou

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57Retratos de Carolina

esses míseros quinze dias pra cá? Joga um último olhar pro rio, pros barcos passando, pra cúpula de St. Paul, sente vontade de voltar à National Gallery e se despedir de dois quadros que ela tinha amado.* Atravessa a estação de Charing Cross, sai no Strand, se encaminha pra Trafalgar Square, absorta num

* Um Turner e um Stubbs. Carolina já tinha ido duas vezes à Galeria, na companhia do Pai. Quando disse pra ele que, podendo escolher dois quadros pra levar pro Rio, ela levava aqueles dois, o Pai se surpreendeu:

– De todas as pinturas que você viu desde que saiu do Brasil?

– É.O Pai brincou:– Eu sei que você adora cavalo. Mas você não acha esse do

Stubbs um pouco grande demais pra levar?– A gente dá um jeito...– E por que que você gostou tanto do Turner? Vai ver foi

por causa da lebre...– Não, não, eu acho esse trem meio fantasma, ele me

intriga: ele me encanta...O Pai riu:– Confessa, Carolina, essa predileção é porque se trata de

dois pintores ingleses, não é não?...

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papo mental com um amigão que deixou no Rio; há pouco tempo ele tinha ido à Europa, mas não foi a Londres, e por que que você não foi lá? ela quis saber, fazer o quê? ele respondeu, eu não gosto daquela cidade, mas como é que você pode não gostar se você nunca foi lá? porque eu sei que eu não vou gostar, mas sabe como?, sabendo, ué, essas coisas a gente intui... Agora, abrindo caminho entre os pombos de Trafalgar, Carolina já está escutando a pergunta que o amigo vai logo fazer quando ela chegar, você quer, por favor, me explicar por que que você gostou tanto de Londres? Ah, sei lá, paixão é coisa difícil de explicar, eu concordo que Paris é mais bonita, Veneza então nem se fala, Madri eu também achei linda, mas elas todas se mostram logo, tipo: olha eu aqui, vê só o arraso que eu sou! mas Londres, não: ela se esconde, se a gente não gasta sola de sapato procurando, acaba não encontrando os maiores encantos que ela tem; não olha assim pra mim, é verdade: ela não é uma cidade que vai logo se entregando, a gente tem que ir atrás e, mesmo assim, ela só vai se revelando aos pouquinhos, eu acho lindo esse jeito assim fechado que ela tem, ah! e tem também outra coisa, quer dizer, outra não! tem um monte de coisas que só com tempo é que vai dar pr’eu te contar, mas essa coisa que eu

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59Retratos de Carolina

ia te contar agora é um negócio de atmosfera, que eu fiquei entendendo melhor quando eu soube de tudo que é vilarejo que, com o tempo, foi se juntando até formar essa cidade gigante que ela é hoje; então, quando você começa a descobrir a cidade, você vai sentindo uma porção de atmosferas diferentes: o tal negócio dos vilarejos do passado; puxa! eu vou te contar de quando eu descobri Hampstead e Highgate e... não, primeiro deixa eu te contar do Heath, ah não! antes eu preciso te descrever Kenwood e, de lembrança em lembrança, o papo vai se estendendo, Carolina querendo convencer o amigo que, em matéria de intuição ele é um fracasso, quando se dá conta de que a Galeria Nacional já ficou pra trás e que ela está em pleno agito de Leicester Square. Ainda se orientando mal na cidade, vai pro lado oposto ao que pretende: atravessa Piccadilly e começa a descer Regent Street. Foi aí que, de repente, o olho bateu no vestido.

O vestido veste um manequim sem cabeça.Vai ver foi também por isso que a primeira reação de Carolina foi achar ele diferente.

O vestido está numa vitrine grande de uma loja famosa pelos espaços que cria nas vitrines que

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apresenta ao público. Esta agora é uma ambientação de Londres, armada com ampliações de fotos antigas que mostram vários pontos conhecidos da cidade: o Parlamento, a Torre, o Tâmisa, o Big Ben, os jardins de Kensington, o palácio de Buckingham, alguns pubs, a estação de Vitória, a abadia de Westminster, Harrods, e a própria loja, diante da qual Carolina está agora parada. O antigo das fotos deixa elas meio sépia.

Há uma encenação na vitrine: lampiões em ferro trabalhado criam a ilusão da luz a gás; um certo fog, uma reminiscência da fumaça que saía das chaminés, acinzenta o cenário. E o cenário exibe um único vestuário feminino: o vestido, o sapato, a bolsa, o chapéu e o abrigo. Dispersos; fragmentados; um no chão, outro pendurado num velho cabide de pé, outro atirado numa cadeira, e ovestido, confeccionado em gaze, passando pela mesma variedade de acinzentados que caracteriza a vitrine, ora o cinza se esbranquiçando, às vezes se azulando, outras vezes se avizinhando do preto. O decote do vestido é ousado. A cintura é ajustada por um rolotê, no tom onde a gaze mais se azula. O mesmo tom aparece no início das mangas, o azul assim realçando os despencamentos do tecido ao longo dos braços e das

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pernas, criando mangas e saia de caimento variado e comprimento não uniforme.

Carolina, fascinada, vai chegando mais pra junto do vidro, meu deus! esse vestido é a cara de Londres. Olha pro cenário; se encanta nos lampiões e no cabide de pé, mas o olho quer voltar pro vestido e se demorar por lá. Depois ela examina os acessórios, o abrigo (tipo manto) retém o olho por um momento, mas ele volta pro vestido, é incrível! é incrível! botar esse vestido vai ser feito me vestir de Londres.

Carolina começa a se imaginar no vestido. Volta e meia o olho dá um pulinho na arquitetura do Parlamento, do Palácio, dos prédios que aparecem nas fotos, e Carolina se pergunta se houve a intenção de mostrar que o que tem qualidade atravessa o tempo, e que aquele mesmo vestuário, a julgar pelos quadros que ela viu nas galerias de arte, podia muito bem estar em moda um século atrás.

Quanto mais Carolina olha pro vestido, mais sente um enamoramento que nunca sentiu por roupa nenhuma. O vidro da vitrine agora faz também de espelho: Carolina se examina, já se vendo no vestido.

A tristeza da despedida de Londres, que tanto vinha doendo, vai sendo varrida pra longe, e o lugar agora varrido é logo todo ocupado pela vontade

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intensa de possuir o vestido. Carolina sai correndo pro hotel.

Carolina entra no quarto do hotel de fôlego já se perdendo:

– Paizinho, paizinho, eu sei que não é hora de pedir um presente, mas eu preciso que você me dê um presente. Agora. Já! A loja não é longe, vem, vem comigo! – Puxa o Pai pra porta; pergunta segredado: – Cadê a mãe?

– Acabou de entrar no banho.– Maravilha! ela não ia deixar você me dar aquele

presente, mas você tem que me dar, paizinho, olha, você sabe que eu não sou de pedir presente, não é?

– Bom, essa viagem é um presentão, não é não?– Claro, claro, mas eu não pedi, e foi presente pra

nós três. Um presente só pra mim, faz muito tempo que eu não te peço, é ou não é?

– É. Mas escuta, minha filha...– Você ainda tem dinheiro?– Tenho uma reserva que...– Paizinho, por favor, por favor! Gasta essa

reserva no meu presente e eu te prometo que eu vou passar outro tempo enorme sem te pedir mais nada.

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63Retratos de Carolina

– Mas Carolina, o que é que te deu? que agitação é essa?

– Acabei de me apaixonar! Vem.– Apaixonar?!– Por um vestido.– O quê?– Vem!– Um vestido? Você? Mas... pera aí.– Não posso esperar, vem! – vai arrastando o Pai

pra fora do quarto; grita pro banheiro:– Mãe! Tô dando uma saidinha rápida com o pai;

a gente já volta.Agora os dois vão indo tão depressa pela rua

movimentada (Carolina na frente, sem largar a mão do Pai), que nem dá pra perguntar mais nada, explicar mais nada.

Carolina para na frente da vitrine, toma fôlego e faz um gesto de apresentação:

– O vestido!O Pai fica olhando pra vitrine, muito mais

empenhado em se recuperar da correria do que em apreciar o vestido.

– Não é o máximo, paizinho? Não é a cara de Londres?

O Pai passeia o olhar pelas fotos. Aponta uma delas:

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– Olha que interessante aquela foto. Deve ter sido tirada há mais de um século e, veja, Carolina, aquela parte da cidade se manteve inalterada.

– O vestido, pai, o vestido!– O quê?– O meu vestido. Não é o máximo?O Pai fixa o olhar no vestido. Inclina a cabeça

pr’um lado; recua um passo; inclina a cabeça pro outro lado; chega de novo pra perto do vidro.

– Não é demais, pai?– Bom, minha filha, eu não entendo muito de moda.– Esse vestido não tem nada a ver com moda, é

por isso que eu gosto dele. Moda é coisa feita pra passar depressa, esse vestido já era legal pra minha avó quando era moça, é legal pra mim agora, vai ser legal pra minha filha...

O olho do Pai caminha vagaroso pelo vestido.– Mas... Carolina... você não acha que esse vestido é

assim mais pra... uma mulher mais... você não acha que você é ainda meio garota pra esse vestido?

– Que garota que nada, pai! Esse vestido é Londres: bom pra qualquer idade. Me dá ele, pai, me dá? Ah, me dá.

– Mas logo você! Sempre de calça, sandália e camiseta, vai enlouquecer por um vestido assim?

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– Você falou! En-lou-que-cer. Taí, paizinho, é isso: eu estou enlouquecida. Primeira vez na vida que eu me apaixono assim por um vestido. Eu nem sabia que a gente podia se apaixonar por uma roupa.

– Mas me diz uma coisa, minha filha, quando é que você vai usar um vestido desses? Isso não é coisa pra se usar assim todo dia, é?

– Claro que não! Ele é um vestido especial. Feito pra ser usado numa hora especial. – Piscou o olho. – Talvez até hoje à noite. Na nossa despedida dessa viagem maravilhosa. Ah, pai, me dá ele de presente. Por favor.

O Pai estava, no mínimo, surpreendido. Já tinha visto Carolina se apaixonar por livros, por filmes, por móveis, por casas, por ideias, por lugares, e, embora nenhum dos amigos e namorados da filha tivesse despertado nela nenhuma paixão, o Pai estava sempre conjeturando como seria, e por quem seria, a paixão de Carolina por alguém (ela se deixava arrebatar tão intensamente! será que ia ser o alguém certo pra ela?...), mas o que o Pai não tinha imaginado é que Carolina podia também se apaixonar por um vestido. E foi confundido por essa surpresa que o Pai lançou um último olhar pro vestido e se virou pra filha. Ela estava de respiração suspensa, aguardando a decisão.

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Resistir como? O Pai fez que sim com a cabeça e Carolina se precipitou pra entrada da loja. Empurrou a porta de vidro. Empurrou com mais força. Recuou. Procurou uma maçaneta, um fecho, uma campainha. O Pai chamou a atenção de Carolina para uma placa discreta de metal polido, onde estavam impressos os horários de funcionamento da loja, o encerramento marcado para as cinco e meia. Carolina olhou pro relógio: vinte pras seis.

– Não acredito! Não acredito!! Nenhuma loja pode fechar assim tão cedo. – Começou a bater na porta. O Pai se assustou:

– Que é isso, Carolina!– Não é possível, pai, eles têm que abrir essa

porta, isso não é hora de loja nenhuma fechar. – E toca a bater com a mão espalmada na porta.

– Para com isso, Carolina.– Mas ainda tem gente aí dentro, eu tô vendo

daqui, tem gente!– Carolina, a loja já fechou. Você já viu como rola

isso aqui: fechou, tá fechado, não tem dá-um-jeito não.

– Mas amanhã de manhã não vai dar tempo.– Não vai mesmo: a gente tem que estar no

aeroporto às oito horas.

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67Retratos de Carolina

– Mas então o que que eu faço? o que que eu faço? – Voltou a bater na porta.

– Minha filha, já estão até olhando, para com isso.– Se a gente não compra ele agora, não compra

nunca mais.Um funcionário se aproximou, abriu a porta, e

perguntou o que que Carolina desejava. Num inglês macarrônico ela respondeu que queria comprar aquele vestido. Apontou. O funcionário se desculpou, indicou o horário da loja na plaqueta de metal, pediu licença, fechou a porta e Carolina desatou a chorar.

A surpresa do Pai virou perplexidade:– Mas, Carolina, o que que é isso? Chorando por

causa de um vestido? Você?!E ela, aos soluços:– Você fala como se fosse um vestido qualquer.

Então você não vê que ele é especial?– Francamente, minha filha, eu estou te

desconhecendo.– Perdido. Perdido pra sempre. Pra nunca mais. –

Foi se distanciando devagar da loja. Agora eram duas perdas pra sofrer: Londres e o vestido. A primeira doía, mas Carolina sabia que não era irreparável: mais dia menos dia eu volto aqui. A segunda, no momento, doía mais porque parecia eterna, nunca mais eu vou

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gostar de outro feito eu gostei dele; nunca mais eu vou ver ele!

Como é que ela podia imaginar, não é? Que um dia os dois iam se encontrar de novo, ela e o vestido...

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arolina está com vinte anos. Cursa uma faculdade de arquitetura. É lá que ela encontrou a Bianca; e as duas enturmaram. Não por afinidade: os valores de uma são bem diferentes dos da outra. A Bianca estuda arquitetura porque acha lindo dizer que estuda arquitetura. Ainda vai achar mais lindo um dia poder dizer, eu sou casada com um arquiteto. Faz planos pra isso. E declara, sem a mais leve inibição: o melhor lugar pra conhecer um futuro marido arquiteto é uma faculdade de arquitetura.

A Bianca é fascinada pela Carolina. Não só porque a Carolina pretende mesmo projetar espaços, mas porque a Carolina ensina pra ela muito do que os professores não conseguem fazer ela entender. Mas a fascinação por Carolina vai além da arquitetura: a Bianca sempre quis ser alta, a Bianca vive às voltas com regime pra emagrecer, a Bianca acha lindo gostar de ler;

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e quanto a gostar de estudar, a Bianca sempre disse, é o máximo!

E assim, de Carolina magra, alta e sempre de livro na mão, pronto: a Bianca não largou mais a Carolina.

– Hoje você não vai mais pegar em livro nenhum, Carolina: hoje você vai a uma festa comigo.

– Outra? – Outra como? Tem cinco dias que eu não vou a

festa nenhuma. Desse jeito eu acabo num convento. Ainda existe convento, Carolina?

– Mas que festa vai ter hoje?– Um coquetel. No consulado francês.

Chiquérrimo.– Xi!...– E você vai comigo. Ah, vai! Você sabe que eu

odeio chegar sozinha nesses lugares. Fica descansada: você não vai ter trabalho nenhum: pego o carro da mãe e te apanho às sete horas; na volta também: te deixo na porta de casa. Serviço a domicílio pra ninguém botar defeito.

– Mas coquetel é uma coisa tão chata, Bianca, a gente nunca tem um papo legal com ninguém, é tudo uma conversa picadinha, um nhenhenhém sem fim.

– Escuta aqui, Carolina, você não vai ser arquiteta? Não vive dizendo que vai viver do seu trabalho?

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Então? Tem que conhecer gente! Que mania de só querer viver numa de livro, de cineminha, de papo a dois, você tem que ampliar o seu círculo de relações, conhecer mais gente, circular! badalar! Sete horas eu tô te apanhando em casa, tchau-tchau.

Carolina se resignava; ia. Não sempre, é claro: mesmo que se interessasse pela intensa vida social da Bianca, não ia ter tempo pra acompanhar a programação: a Bianca adorava se relacionar com um monte de gente e vivia esvaziando tudo que é recurso imaginativo que tinha na tarefa de ser convidada pra coquetel, pra vernissage, pra estreia de peça de teatro, pra show, pra reunião íntima, pra megafesta, pra ensaio de escola de samba, e, se tinha velório de gente badalada, quase sempre a Bianca estava lá.

Quando Carolina acompanhava Bianca a essas festas, quase nunca se interessava em saber o motivo da reunião. O que sempre despertava a curiosidade dela era o espaço onde elas iam. Casa, apartamento, pátio, varandão, barracão, o que fosse. E, junto com o espaço, os móveis. Carolina era ainda bem pequena quando deu pra se interessar por mesa, cadeira, armário, escrivaninha, cômoda. Folhear livro de mobiliário era tão bom quanto ver filme bom. Muito cedo resolveu estudar arquitetura. Entrou ano e saiu

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ano e ela nunca desresolveu. Vivia desenhando plantas e interiores, tô treinando, dizia, e todos os espaços que ela projetava nasciam e cresciam junto com os móveis, nesse canto mora uma cômoda, essa parede é toda tomada por uma estante, essa janela tem um banco embaixo, pra essa porta funcionar aqui tem que ter um armário ali, e passava dias e semanas idealizando o armário, o banco, a estante, que iam dar relevância a uma parede, uma janela, uma sequência de degraus. Então, no coquetel, na reunião, na festa, lá estava a Carolina de ar distraído, o olho zanzando no soalho, subindo pro teto, descendo pr’uma janela, se detendo na mobília em volta; e lá estava ela entrando e saindo várias vezes por uma mesma porta, pra examinar melhor a maçaneta, a fechadura, o alizar, o batente. E se, na volta pra casa, a Bianca perguntava, gostou?, a Carolina, sempre um pouco tomada de surpresa, respondia, mais ou menos; e se, chegando em casa, a Mãe perguntava, a dona da festa estava bem vestida? ela é bonita? o bufê estava bom? a Carolina fazia um esforço de memória e acabava sempre virando a mão de um lado pra outro, registrando no ar um gesto vago de mais ou menos.

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– Por que, hein, Bianca?– Por que o quê?– Essa mania que você tem de conhecer mais e

mais gente. Isso já nem é mania, é aflição.– Quanto mais gente eu conheço, mais chance eu

tenho de encontrar o homem certo.Carolina caiu na gargalhada.– Tá rindo de quê?– Desse teu homem certo.– Por quê?– O que que você acha que um homem precisa

pra ser certo?– Certo pra mim.– Sim, não há de ser pra mim. Mas me explica: o

que que um homem tem que ter pra ser certo-pra-você? Além de ser arquiteto.

– Bom, também não tem que ser arquiteto. Se for, melhor. Se não for, paciência.

– Mas, o que mais que ele precisa pra ser certo-pra-você?

– Ah, Carolina, você já me perguntou isso antes.– Eu sei: não é a primeira vez que você fala nesse

tal de homem certo. Então, não é de hoje que eu tô querendo saber o que que você acha que um homem tem que ter pra ser certo.

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– Já te disse antes: na hora que eu encontrar o homem certo, eu te explico di-rei-ti-nho o que que um homem tem que ter pra ser certo.

Aí, um belo dia aconteceu: a Bianca telefonou pra Carolina e anunciou:

– Encontrei o homem certo! – E desligou. (Então ia perder essa chance de deixar a Carolina na maior curiosidade?) Só dias depois forneceu mais detalhes: o Homem Certo tinha o dobro da idade dela. E ela não tinha a menor dúvida: isso era coisa que só um homem certo podia ter. Era casado. Quer dizer, descasado: a mulher tinha ido embora com outro, e você não imagina como ele ficou carente, coitado; e você sabe, não é, Carolina, um homem pra ser certo tem que ser carente. Mais uns dias, mais uns detalhes: ele é alto, magro, usa o cabelo assim meio comprido, e aqui, sabe, eu já vi uns fiozinhos brancos, nossa! mas que homem certo. Mais adiante, veio uma dúvida, eu não sei se ele cheira pó, viu, Carolina, às vezes eu acho que sim, às vezes, eu acho que não, e essa coisa de eu-acho-e-desacho tem a ver com o jeito que às vezes ele olha pra mim.

– Que jeito?– É um jeito assim... como é que eu vou te

explicar... um jeito... ah, não sei. Mas é lindo.

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– O jeito?– O jeito, ele, tudo, lindo, lindo, certo, certíssimo!

– E no outro dia já escancarava a confissão. – Carolina, eu tô numa paixão que eu não te conto. Sabe que ele mora numa casona? Pelo jeito deve ganhar uma grana firme: homem certo pra caramba, minha amiga.

– Trabalha em quê? – Não sei direito, parece que é negócio de

investimento, bolsa, sei lá! essas coisas.– Mas, Bianca... se ele não é arquiteto, como é que

ele é o teu homem certo? Você não disse sempre que...– Ah, isso não faz mal, Carolina, não faz mal

mesmo. Pra que que ele precisa ser arquiteto? a casa dele já é tão linda.

Carolina se interessou:– A casa é bonita, é?– Se é! E ele mora lá sozinho, já pensou? Quer

dizer, sozinho-sozinho, não: ele tem uma empregada, dessas que tem toda a cara e todo o jeito de dona da casa, sabe como é que é? Ele chama ela de Dona Judite. Não é lindo? Ah! e ele tem também um cachorro. Pastor-alemão. Se chama Piedoso.

– Se chama o quê?– Piedoso.– Que nome esquisito pr’um pastor.

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– Não acho não. Acho lindo. Tipo do nome pro cachorro de um homem certo. Quer conhecer?

– O Piedoso?– A casa.– E o Homem Certo também?– Claro, ué. Vamos marcar um jantarzinho lá?Marcaram. Coisa íntima. Só elas, o Homem

Certo, o Piedoso e a Dona Judite.– Não vai esquecer: quinta-feita às oito horas.

Te apanho em casa.– Combinado.

Bianca tocou a campainha. Um latido dentro de casa respondeu.

– É o Piedoso – Bianca segredou contente.Pouco depois dona Judite abria a porta:– O patrão está um pouco atrasado, Bianca. Mas

ele me telefonou há coisa de uma hora pedindo pra você fazer as honras da casa até ele chegar.

Bianca não se fez de rogada: tirou o sapato (o Homem Certo dizia que pé de mulher é pra ser admirado em sua inteireza), se serviu de uísque (o homem certo não gostava de beber sozinho), foi até a cozinha ver o andamento do jantar (o Homem Certo

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dizia que toda mulher deve manter uma certa intimidade com a cozinha), e quando voltou pra sala e viu Carolina analisando o caimento do teto, se lembrou:

– Esta casa tem um banheiro art déco pra lá de engraçado; o vitral, então, vai te interessar demais.

– Onde?– Lá em cima. No fim do corredor.– Posso ir ver?– Claro, ué.Carolina subiu a escada, enveredou pelo corredor,

passou por uma porta que estava fechada, passou por outra entreaberta, logo adiante parou, a curiosidade aguçada pelo pedaço de armário entrevisto na porta. Voltou atrás. Espiou melhor; o armário parecia uma peça interessantíssima. Empurrou devagarinho a porta, e a cara se abriu num espanto emocionado ao dar com o guarda-roupa inteiro. Peça de colecionador, ela pensou, o olho já devorando os três segmentos do armário. Sem nem se dar conta, foi entrando na ponta do pé pra não perturbar o silêncio em volta. Parou diante do guarda-roupa, analisando cada detalhe. A porta da seção da esquerda tomava toda a altura do móvel; a da direita se dividia em duas partes. A seção do meio era a mais larga das três e tinha, na parte superior, um espaço vazio (pra livros? pra um

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objeto de decoração?); a seguir uma porta de uns três palmos de altura, esculpida em toda a extensão; a parte inferior era tomada por três gavetões. Encantada com a tonalidade da madeira, Carolina se juntou ao guarda-roupa, querendo identificar pelo cheiro que madeira era aquela. Alisou um veio com a ponta do dedo; se perdeu na contemplação dos puxadores: não tinha visto iguais em livro e museu nenhum, nem tampouco parecidos: tão delgados e elegantes! o metal trabalhado, miniaturando os motivos geométricos da pequena porta esculpida.

A curiosidade de Carolina ia num crescendo. De onde tinha vindo esse móvel? Será que por dentro ele era forrado de tecido, feito aquele armário que ela tinha visto no... O dedo que alisava a madeira parou no puxador da porta mais alta. Uma peça assim tão trabalhada, tão inventada, tinha que ter uma surpresa qualquer lá por dentro, será que... O dedo recuou, não, que horror! imagina! abrir o guarda-roupa de uma pessoa que ela nem conhecia; se fosse um guarda-comida, um guarda-louça, um guarda... E enquanto Carolina pensava distraída, o que que um guarda-o-quê podia guardar pra não ser assim tão horrível de abrir e olhar, a mão aproveitou a distração do pensamento e, fingindo que só estava

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fazendo uma festa no puxador, abriu a porta um bocadinho só.

Foi mais que espanto: foi susto. Um susto tão grande, que a mão se esqueceu que disfarçava e escancarou a porta do guarda-roupa.

Não tinha mais que meia dúzia de vestidos pendurados. E ele era o segundo. Da esquerda pra direita.

A mão não pensou duas vezes: arrancou o cabide do guarda-roupa e levantou ele alto, pro olho vir deslizando vestido abaixo.

Mas era possível? Era mesmo possível? Ah, era sim, era ele mesmo, mesminho, ele todo!

Carolina cheirou o vestido. Sentiu que ele tinha sido pouco usado; sentiu ele perfumado; sentiu ele há muito tempo guardado. A aparência era de um vestido novo em folha, o tecido, o rolotê, tudo perfeito.

Dentro de Carolina, Londres acordou num pulo; o perfume de uma trepadeira (madressilva?) e o ruído de um bater de asas (pombo?) permeando uma sucessão de imagens da cidade. Emocionada e perplexa pelo reencontro imprevisto, Carolina acariciava o vestido, revivendo a mesma atração sentida quando viu ele na vitrine de Regent Street. A vontade frustrada daquele dia londrino, em que

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ela quis tanto se enfiar no vestido, voltou com força. Esquecida por completo da casa onde estava, do jantar, da Bianca, de tudo, agora ela só pensava na porta fechada da loja, onde ela batia, batia e ninguém abria. Nem sentia a mão desabotoando a blusa e a saia que vestia, nem tampouco o pé se livrando do sapato esportivo que não tinha nada a ver com o vestido. Meio que se encolhendo, meio que se arrepiando, foi assim que, num vagar sinuoso, ela foi pra dentro do vestido; e mesmo antes de se olhar no espelho que cobria a parte interna da porta do guarda-roupa, ela já tinha pensado, eu sabia, eu sabia que ele foi feito pra mim.

Olhou pro espelho. Primeiro, só enamorada do vestido. Depois, se enamorando da imagem toda. Ficou de costas; foi virando o pescoço pra se ver refletida assim; ondulou o corpo pro vestido se movimentar; e rodopiou devagar querendo ver o movimento se completar.

– Eduarda!Que susto. Ah, mas que susto-que-logo-virou-

vergonha quando ouviu aquela voz exclamando Eduarda!, e quando viu o homem parado na porta do quarto. Se abraçou, querendo se cobrir, feito coisa que estava nua. O olhar admirado do homem tinha arrancado ela do devaneio, e agora, sem atinar com

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nenhuma explicação, nenhuma frase convincente, ela se limitou a balbuciar:

– Eduarda? Não. Eu sou Carolina.– Carolina! – a Bianca gritou da porta. – E ela

também, ficou de olho admirado. – Que bonita que você ficou dentro desse vestido! – Veio chegando pra junto de Carolina. – Que vestido tão... Mas onde é que... – Olhou pra porta do guarda-roupa aberta; disfarçou: se virou pro homem: – Essa é que é a minha amiga. – E pra Carolina: – Esse é o dono da casa...

O constrangimento da Carolina cresceu; perguntou baixinho:

– O Homem Certo?A Bianca soltou uma risada (pouco risonha):– É.O Homem Certo continuava parado. Parecia

hipnotizado por Carolina. Bianca olhou pra ele; olhou pra Carolina; resolveu não disfarçar mais nada: perguntou com clareza:

– E esse vestido? saiu de onde? A cabeça da Carolina fez um gesto lento pro

guarda-roupa.Bianca olhou de novo pro Homem Certo.Nesse momento o Piedoso entrou em cena.

Saltou pra junto de Carolina, um salto tão impetuoso,

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que deixou ela aterrorizada. Começou a farejar o vestido.

Se abraçando ainda mais forte, Carolina fechou os olhos pra não ver o pior que ainda ia acontecer.

Mas o que aconteceu foi teatralmente ótimo: Dona Judite apareceu na porta e anunciou que o jantar estava servido.

Foi só escutar que o jantar estava servido e Carolina abriu os olhos, arrebanhou saia, blusa e sapato, correu pro banheiro e se trancou. Respirou fundo. Saiu de dentro do vestido e pendurou ele num cabide atrás da porta. O susto foi serenando, a vergonha não: Carolina tinha a impressão de que o rosto estava fervendo. Se inclinou pra pia e começou a jogar água na fervura, mas por quê? por que que ela tinha entrado naquele quarto? como é que ela ia enfrentar agora o olhar do Homem Certo? Se assustou de novo: ele devia estar esperando por ela. Ele, a Bianca, a Dona Judite. E a comida devia estar esfriando. Será que o Piedoso também estava esperando? Quem sabe ali atrás da porta?... Enxugou o rosto, se vestiu e se calçou depressa. O olho se despediu do vestido. Respirou fundo de novo; a mão

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abriu a porta devagar. Bom, pelo menos o Piedoso não estava à vista. Desceu pro jantar.

Assim que se sentaram pra comer, Carolina quis logo desabafar o caso do vestido: o primeiro encontro que teve com ele na vitrine da loja de Regent Street; o amor à primeira vista; a frustração da loja fechada; a lembrança amorosa que sempre guardou do vestido. Depois falou do fascínio que ela sente por móveis raros; da curiosidade insustentável que ela sentiu pelo guarda-roupa quando viu um pedaço dele pela porta entreaberta, querendo, então, ver ele todo e, por causa do guarda-roupa, o reencontro com o vestido, revivendo nela a vontade intensa de sentir ele na pele. Tomou coragem pra enfrentar o olhar do Homem Certo (que ela sentia o tempo inteiro cravado nela), e concluiu:

– Eu sei que nada disso pode desculpar o fato de ter entrado no seu quarto...

– Não é meu, era o quarto de vestir da Eduarda.– ...de ter aberto o seu guarda-roupa...– Não é meu, era da Eduarda. Eu digo era porque

ela abandonou o coitado.– ...e de ter tido a ou-sa-dia de experimentar um

vestido da Eduarda.– Ele também: foi abandonado por ela.Carolina ficou abismada:

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– Ela abandonou o vestido? O Homem Certo fez que sim. Carolina não

encontrou o que dizer: o olho desceu pro prato, a testa se franziu, como era possível? como era possível? Mas o Homem Certo estava fascinado por toda aquela história, queria mais detalhes do caso, como era a loja? e que dia era? de que mês? de que ano? Ah, então o vestido ficou muito tempo na loja, ele e a Eduarda tinham ido a Londres uns seis meses depois de Carolina ter passado por lá.

– E o vestido ainda estava na vitrine?– Não, não, estava lá dentro. Tão escondido que

eu nem sei como é que a Eduarda descobriu.– Ah, mas tinha mais é que descobrir! E foi

também... é ... amor à primeira vista?– Foi. Mas ela quase que não usou ele.– Por quê?O Homem Certo ficou olhando pra Carolina.

E foi a Bianca que acabou respondendo:– Porque você não tem nada que ver com isso.Houve uma pequena pausa pra digerir a resposta

da Bianca. E durante o resto do jantar não se falou mais no vestido.

Comida ótima. O vinho também. Teve risada. Teve muito caso que a Bianca contou. O Homem

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Certo escutava distraído, estudando a Carolina. A Bianca falava e falava, estudando o Homem Certo. E quando veio a sobremesa a Carolina começou a se estudar: era susto que ela estava sentindo? mas o susto já tinha passado, não tinha não? era a vergonha, então? não, também não, ah, vai ver era o vinho que estava deixando ela assim... mas assim como? assim tão... com medo?... é ... mas medo de quê? de olhar pra ele?... por quê?... medo dele estar olhando pra ela?... medo dele não estar olhando pra ela?... mas ele estava! mesmo não olhando pra ele ela via ele olhando pra ela... era isso que estava deixando ela assim?... mas assim como?... E o estudo recomeçava.

No final da noite, Carolina se despediu do Homem Certo sem deixar o olhar dela se encontrar com o dele. Medo de revelar o resultado de tanto estudo?

No outro dia, quando Carolina saiu da faculdade, encontrou a Bianca esperando por ela. Séria, cerimoniosa, convidou Carolina pra ir tomar um café. Depois do primeiro gole fez o seguinte discurso:

– Carolina, eu vou ser franca: nunca passei uma vergonha tão grande na vida feito a que você me fez

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passar ontem à noite. Eu falei tanto pra ele que você era a minha melhor amiga! Até agora ele deve estar pensando que se a melhor amiga, na primeira vez que aparece na casa dele, vai entrando pelos quartos, remexendo nos armários, se apossando de vestidos...

– Ah, ‘pera lá, Bianca, eu...– ...imagina só o que não vai fazer a pior.– Mas eu disse... – Pra não piorar ainda mais as coisas, Carolina,

eu acho melhor não te levar mais lá. E como agora nós estamos sempre juntos, ele e eu, eu também acho melhor ficar um tempo sem te ver. Mais pra frente eu te procuro de novo. Mas agora deixa a poeira assentar. – Levantou, pagou o café e soprou um beijinho pra Carolina.

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té o dia de se casar com o Homem Certo, Carolina viveu numa casa antiga, de um pavimento só, numa das ladeiras de Santa Teresa, no Rio.

O móvel da casa que ela gostava mais era a escrivaninha do Pai.

Quando Carolina tinha uns três ou quatro anos, um dia ela quis saber onde é que estava o Pai. A Mãe respondeu que ele estava no esconderijo dele. Carolina gostou da resposta: ela adorava brincar de se esconder, e o fato do escritório do Pai ser um esconderijo fazia daquela peça ensolarada, onde duas janelas olhavam pra rua, e onde as paredes se cobriam de livros, um lugar mais que especial: pra Carolina, o escritório era mágico.

A escrivaninha morava entre as janelas e vivia na companhia de duas cadeiras de assento de palhinha: uma tinha braços e a almofada que a Mãe bordou

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em ponto de cruz; a outra era pequena, de perna curta e sem braços, mas do mesmo estilo e da mesma madeira da cadeira maior. O Pai tinha dado a cadeira pequena pra Carolina quando ela fez cinco anos, mas não demorou muito pra Carolina tirar a cadeira do quarto dela e levar pro escritório:

– Pode, pai? pode deixar a minha cadeirinha aqui?– Se você gosta dela aqui...– Gosto.E a cadeira pequena ficou morando ao lado da

escrivaninha, de frente pra cadeira do Pai.O escritório tinha um sofá e uma poltrona, mas

era na cadeira da escrivaninha que o Pai se sentava pra ler. Horas a fio.

O Pai era um homem quieto, reservado, tudo que usava, roupa, sapato, banheiro, deixava limpo e arrumado. Tinha hábitos enraizados, saía e voltava do trabalho sempre à mesma hora. Chegava, ia dar um alô pra mulher, trocava de roupa e, no tempo de Carolina pequena, ia logo brincar, jogar, contar história pra ela. Depois ia pro escritório e encostava a porta (nunca fechava; nunca deixava ela aberta), sentava na cadeira de braços e lia. Ora de cotovelo apoiado na escrivaninha, ora descansando o queixo na mão, às vezes apoiando a testa na ponta dos dedos, ou então levando o livro com

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ele quando se recostava no espaldar da cadeira. Tomava nota num caderninho de tudo que impressionava ele mais na leitura; um pensamento, uma frase, uma dúvida. Não gostava de sublinhar nada nem de fazer anotação na margem: mais tarde Carolina podia ler o livro e ele não queria influenciar a filha com uma preferência ou uma dúvida dele.

Mas as notas que o Pai tomava não se limitavam aos livros que lia. Não, não: ele tomava nota das despesas da casa, dos filmes a que assistia, das músicas que ouvia, e na viagem que fez à Europa anotou tintim por tintim de tudo.

Cada assunto tinha um caderno. Todos de formato igual (pequeno). Na capa, o Pai desenhava o assunto do caderno: livro, mapa, projetor de filme, Carolina, etc. Sempre gostou de desenhar. Desenhava pequeno, miniaturas. E nunca mostrou desenho algum pra ninguém. Nem mesmo pra Carolina. Nos cadernos-Carolina, ele sempre desenhava a filha a partir de uma foto qualquer; e repetia o que fazia com a leitura: anotava no caderno tudo que chamava mais a atenção dele no comportamento e nas palavras da filha. A cada aniversário de Carolina ele tirava novas fotos dela. Escolhia as que gostava mais pra colar no caderno,

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anotando embaixo: Carolina aos seis anos, Carolina aos quinze anos, Carolina aos...

Anotando assim tanto de tudo, em cadernos sempre pequenos, não só a escrivaninha se povoou por inteira, como virou a guardiã dos pensamentos do Pai.

Quando pequena, Carolina se intrigava de ver o Pai passar tanto tempo na companhia da escrivaninha. De intriga em intriga, criou o hábito de sempre pensar nele junto dela, ora ela servindo de apoio pro livro que ele lia, ora ela de gaveta aberta se deixando arrumar, ora, simplesmente, os dois se olhando. Já nessa época a Carolina e o Pai conversavam bastante: costume e prazer que, anos afora, deitaram raiz profunda. Mas desde cedo Carolina intuiu que o Pai não gostava de se trazer para o papo. Ele falava de tudo, mas não dele. Então, sem mesmo se dar conta, Carolina começou a imitar o Pai: tentava se enfiar no canto mais escondido da conversa. Às vezes conseguia, outras vezes não. Mas nada disso perturbava o gosto que os dois sentiam no papo. Ao contrário: vendo o prazer dos dois conversando, a gente podia até opinar que um papo assim tão curtido era justo, porque nem um nem outro se metia na conversa...

E a escrivaninha ali: ladeando Carolina; olhando pro Pai. Entra ano e sai ano. E agora também: os

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três ali juntos. Mas em silêncio. Mais de uma vez um papo nasceu. Logo morreu. Hoje Carolina não está querendo se esconder na conversa: quer falar dela, DELA! Mas reluta em começar. O Pai quer ajudar:

– Que foi, minha filha? Ei!... Carolina?– Hmm?– Eu estou te achando meio pertur... meio... longe.

Você está viajando? Está indo pra que país?– Pai...O Pai espera.– Eu estou me sentindo tão... esquisita.O Pai esperando.– Pai...– Hmm?– Eu não sei direito o que que eu estou sentindo,

porque eu nunca senti o que que eu estou sentindo, mas é que... eu acho que... é paixão.

O Pai fica alisando de leve a madeira da escrivaninha.

– É, acho que é isso, pai. E dessa vez não é por uma cidade, nem por um espaço, nem por um vestido. Agora se trata de um homem. Que tem o dobro da minha idade. E que ainda por cima é... quer dizer, era o namorado da Bianca.

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O movimento da mão alisando a madeira agora é mais lento.

– Pai.– Hmm?– Eu nunca me senti tão mexida, tão... atingida pelo

olhar de alguém como eu me sinto pelo olhar dele.– ?– Do Homem Certo.– Quem?Carolina ri um riso curto.– Homem Certo. É assim que a gente começou a

chamar ele, a Bianca e eu. – Outro riso curto. – Vai ver ele é até o Homem Errado, não sei. O que eu sei é que eu nunca fiquei assim tão... perturbada, feito você disse.

– Eu?– Você não ia dizendo pertur... quando mudou

pra... longe?– É: ia. – Pois é, nunca ninguém me deixou assim. Feito

ele me deixa.Está ventando lá fora. Durante um tempo o Pai

fica acompanhando o balanço do galho de uma trepadeira que, volta e meia, bate de leve na vidraça. Faz um gesto de cabeça:

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– Tua mãe plantou essa dama-da-noite não faz muito tempo; olha só como ela cresceu: já alcançou a janela.

– É aquela que só abre a flor quando cai a noite?– É. E que perfume!– Mas ela já está dando flor?– Deu ontem pela primeira vez.– Não vi.– Você não estava em casa.– Ah, é.O galho bate, e bate, e bate no vidro. Carolina

desabafa:– É um tesão por ele que não tem mais tamanho,

pai. Eu nunca pensei que tesão podia ser uma força forte assim. É isso também que está me deixando tão perturbada. Eu digo também porque tem uma coisa que eu não sei direito o que que é, eu só sei que é uma coisa que... me fascina, mas que... ao mesmo tempo que me fascina, me incomoda; mais até: uma coisa que me assusta um pouco.

O Pai olha pra ela.– É o jeito que ele olha pra mim.O olho do Pai vai voltando pra dama-da-noite:– É um jeito especial?– É! É! É, sim. Só que eu não sei te dizer que jeito

que é. – Puxa a cadeirinha mais pra junto do Pai e,

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sem se dar conta, pega aquele tom segredado que ela em pequena pegava quando achava que por uma fresta qualquer tinha desvendado outro segredo da vida:

– Mas t’aqui, ó – bate na testa – t’aqui o tempo todo, e t’aqui e t’aqui também. Se eu tô comendo, se eu tô me vestindo, se eu tô na faculdade, se eu tô conversando, tudo parece assim... irreal, a única coisa que existe, mas que existe mesmo, é ele olhando pra mim.

O Pai nota, na superfície da escrivaninha, uma mancha no couro que ele não se lembrava de ter visto antes. Olha as manchas que tem no braço (sol? idade?), comparando as manchas que estão na pele e as que estão no couro.

– Pai, eu fico sem saber se... – se cala.– Fala, Carolina.– Você acha que paixão e amor... se confundem?O Pai responde com uma espécie de riso. Carolina

olha pra ele numa indagação.– Acho que não, Carolina, acho que não.– E, pra você, a diferença qual é?– Ah, minha filha, que coisa tão difícil de definir,

essa, que a gente chama amor.– E a outra?– A paixão?

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– É.– Bom, eu acho que a paixão é uma emoção que

nos cega. Nos confunde. Nos arrasta...– Ah, pai.– Que foi?– Mas é isso mesmo que está me acontecendo,

eu estou cega pro resto: só vejo ele; eu estou confusa demais: nunca pensei que meu primeiro amor por um homem fosse pegar esse feitio; eu me sinto arrastada pelo olhar dele, pelo jeito dele, pelo cerco dele. Ele está me cercando, pai! Mas é um cerco tão lindo, todo feito de chocolate e de flor, e de voz no telefone que eu adoro ouvir, e de cartão e de carta, que eu leio não sei quantas vezes, e tudo me chama tanto pra ele! e mesmo não sabendo direito pra onde é que eu tô indo, eu quero ir, e mesmo intuindo que eu tô indo pra onde eu não devo, eu me sinto arrastada por ele, confundida por ele, cegada por ele, ah, pai: paixão.

À medida que Carolina foi crescendo (sobretudo depois que ela levou a cadeira dela pra junto da escrivaninha), as histórias que o Pai contava pra ela, os jogos que os dois brincavam, as conversas que tinham foram acontecendo no escritório. Um dos

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fatores que mais pesava na atração que Carolina sentia por aquele espaço era a escrivaninha.

“Não entra! Teu pai está escrevendo.” “Deixa ela entrar.”

“Sai de perto dessa porta! Teu pai está lendo.” “Já acabei. Entra, Carolina.”

Carolina rondava de levinho a porta encostada do escritório. Mas, se o Pai não chamava, ela não entrava. E a atração pela escrivaninha não era só porque ela tinha associado o pai ao móvel: era também pelo móvel escrivaninha.

Quem arquitetou a escrivaninha obviamente tinha problemas em relação à mesmice: não só ela era diferente do comum das escrivaninhas, mas também nela mesma, ela não se repetia. Assim, as gavetas que moravam dos dois lados, vizinhas do espaço vazio onde o Pai estendia as pernas, não só eram todas de altura diferente, como o interior variava: as mais altas sem repartições, boas pra pastas, fichários; as médias tinham repartições que também variavam; duas delas tinham chave (os assuntos íntimos...), as outras só puxador; encimando o espaço pras pernas, uma de

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altura pequeníssima, onde o Pai enfileirava caneta, lápis, borracha, apontador, canivete, tesourinha, pregador assim, abridor assado, e mais um monte de imprescindíveis miúdos, que encontravam ali a morada ideal.

O couro que revestia grande parte da superfície da escrivaninha também se diferençava no tom, dependendo do mais ou do menos que teve, aqui ou ali, o roçar de mão.

E no pé também: a escrivaninha nasceu calçada de metal, que se azinhavrou mais pra mais, mais pra menos dum lado e doutro.

A extremidade da superfície (encostada na parede, entre as duas janelas) sustentava um “dúplex” de escaninhos. Também: variando de altura, de largura e de privacidade (uns tinham portinha, outros não; duas portinhas tinham chave, a outra não; uma chave trancava, a outra só puxava).

Gavetas e escaninhos foram se povoando e, às vezes, se superlotando ao longo dos anos. Com a ordem que botava em tudo, o Pai organizou aquele condomínio de maneira exemplar: aqui caderninho disso, aqui daquilo, aqui envelope, aqui papel de carta, aqui fichário, aqui jornal dobrado, aqui suvenir.

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Guardar suvenir era outra predileção do Pai. Guardava suvenir de tudo que é lugar que ia, de todo passeio que fazia; se gostava do filme, da peça, do concerto, guardava o programa de recordação; e a gaveta de folhas secas tinha tantas, que, se não fosse o hábito do Pai escrever em cada uma local, data, acompanhamento-ou-não, nunca que ele ia se lembrar do porquê de ter guardado tal ou qual folha.

Muitas vezes Carolina se perguntou se o Pai tinha comprado a escrivaninha porque calhava às mil maravilhas pra tanta pequena coisa e pra tanta grande lembrança, ou se ele começou a colecionar tanta anotação, tanto suvenir, tanto papel, pra povoar tudo que é gaveta e escaninho e repartição da escrivaninha. Um dia fez a pergunta a ele. Mas o Pai se limitou a um leve encolher de ombros: sabe que eu não sei?

Desde bem pequena Carolina gostou de se avizinhar da escrivaninha. É lá que ela está agora. Ela e o Pai.

– Que cheiro tão bom que tem essa escrivaninha, não é, pai?

– Tua mãe tá sempre massageando ela com cera de abelha...

– Ah, é isso. – Respira fundo. – É isso que dá pra ela esse cheiro de ar livre; a gente se sente meio, sei

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lá, meio no campo, na vizinhança de uma floresta, na beirada de um riacho, pisando um capinzinho recém-lavado de chuva...

O Pai riu. E pensou que, depois, ia anotar no caderno-Carolina o que a filha tinha acabado de dizer. Sem nem pensar que ia também anotar o que ela vai dizer agora, e que vai dar nele uma vontade tão grande de chorar.

– A mãe saiu?– Foi fazer compras.– Bom, então quando ela chegar eu conto pra ela.– O quê?– O que eu vou te contar agora.O Pai reclina as costas no espaldar da cadeira e

fica olhando pra Carolina. Ela meio que ri. Depois suspira, feito quem toma fôlego:

– Ele tem insistido tanto, pai! Não resisti mais: hoje disse a ele que sim.

– Sim... o quê?– Eu caso com ele, sim.O Pai mal disfarça o susto:– Casar? Casar, Carolina??– É, pai. Sabe, eu nunca vi um cerco assim tão

fechado. Eu já tinha te falado disso, não é? Logo depois do nosso primeiro encontro ele começou a me

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cercar e, de saída, foi falando em casamento. E todo dia é a mesma coisa. Em cada encontro, em cada telefonema, em cada presente que chega, vem sempre o mesmo pedido: casa comigo! Não resisti mais, pai, hoje eu disse que sim.

Mais que susto: o Pai parece alarmado.– Que foi, pai?Ele ganha tempo. Esfrega a testa com a mão.– Pai, que é?– Mas... pra quê, Carolina, pra quê?– O quê?– Casar? Ou melhor, casar com ele? Por quê?– Você não gostou dele?– Não se trata de gostar ou não gostar... a conversa

que nós dois tivemos foi... muito superficial, mas... mesmo assim, eu... eu acho que... – Parece que não está encontrando as palavras que busca. Se cala.

– É porque ele é muito mais velho que eu? – Não! claro que não.– Então por que que você não gostou dele?– Já te disse, não é questão de gostar ou não.– É então que questão?– Bom, me pareceu que... que vocês não têm muito

a ver um com o outro... – Arrisca olhar bem dentro do olho de Carolina: – Você acha?

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– Que eu tenho a ver com ele?O Pai faz que sim.– Bom, pai, tem tanta gente que casa sem ter a

ver um com o outro. E dá certo. Até tem um ditado, não tem? que diz dois bicudos não se beijam?...

– Mas por que essa pressa de casar, minha filha?...– A pressa é dele, pai!– ...se dê um pouco mais de tempo, pra ver com

que cara essa paixão vai ficar mais pra frente.– Ah, pai, não tá dando mais pr’aguentar.– O quê? A paixão?– Também, mas...– Você não tem que aguentar, você tem que viver

essa paixão. Quem sabe até, vivendo... ela morre?– ...mas, mais difícil de aguentar é a pressão, pai.

Você viu, não é? Ele não me deixa, não me larga. Cerco assim, cheio de charme, quem é que aguenta? Você viu, até a mamãe, sempre sisuda, já anda toda derretida por ele. Você não acha ele charmoso?

– Carolina...– Eu acho. Eu acho demais.– Carolina...– Só tem uma coisa que, sei lá, continua, volta e

meia, me incomodando; não, intrigando. É, intrigando: é um certo jeito que ele tem de olhar pra mim.

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O Pai se surpreende com a própria voz apelando com firmeza:

– Pense mais um pouco nessa decisão que você está tomando, Carolina.

– Ih, pai, eu tenho pensado tanto!– Mas muito depressa. Pensamento é como

tudo mais: pra dar fruto tem que ser trabalhado, pede vagar.

– Quando eu contei pra ele da minha paixão por Londres, ele logo me arrastou para uma agência de turismo pra escolher o roteiro e as datas de uma ida à Europa. Pra nossa lua de mel. – Se levanta e enlaça o pescoço do Pai. – Vai dar certo, paizinho, vai dar certo, você vai ver.

O Pai resolve não dizer mais nada. O abraço de Carolina se prolonga. O Pai então desresolve:

– Escuta, filha, antigamente era difícil uma moça dar rédea livre pr’uma paixão, mas hoje em dia é tão fácil, vocês tão tão liberadas. Viva essa paixão com a mesma intensidade que você vive tudo. Mas não se amarre tão depressa num casamento que...

Carolina ri:– Mas, meu pai, eu já dei rédea livre pra minha

paixão. – Estreita ainda mais o abraço. – Eu tenho

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vivido ela intensamente. E é tão bom! – Segreda: – Vai dar certo. Eu te garanto que vai dar certo.

Carolina e o Homem Certo se casaram em cerimônia simples, assistida por poucos amigos e pela família de Carolina.

A ausência da família do Homem Certo, no dia do casamento, se explica por esse

Quando o Homem Certo conheceu a Eduarda, se apaixonou logo por ela. Não sossegou até o dia em que ela concordou em se casar com ele.

Passado um tempo, a Eduarda começou a reivindicar do Homem Certo o abandono de antigas predileções, feito cheirar pó (você vive dizendo que não é dependente; mas se não é, vai ficar), adular o uísque (por que você não aprende a parar depois do primeiro ou segundo?), fumar três maços por dia (se você não se importa de morrer, eu me importo: não tô mais aguentando respirar tanta fumaça), um consumismo que ela achava excessivo (você não é mais

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criança, já tinha que saber que não se pode gastar desse jeito!), um ritual superelaborado na fazeção de amor (lá uma vez que outra, tá bem, mas isso todo dia não tem que aguente), etc.

Mas as predileções do Homem Certo estavam muito enraizadas.

Eduarda resolveu reivindicar com mais energia.Tudo continuou na mesma.Um belo dia ela deu o ultimato:– Você escolhe: ou eu, ou esse estilo de vida que

você não faz o mais leve esforço pra mudar.Ele escolheu a Eduarda:– Você sabe que eu não vivo sem você. – E fez

um pequeno esforço pra atenuar as predileções. Achou que bastava. Não bastou: tanto a Eduarda quanto as predileções eram mais fortes do que ele e, um dia, lá por volta das cinco da tarde, a Eduarda declarou: vai pro inferno! Largou tudo pra lá, marido, casa, guarda-roupa, pastor-alemão, e foi s’embora pra nunca mais voltar. Pior: foi s’embora com outro, que tinha muitos anos menos que o Homem Certo, e só bebia água mineral, e jamais teve a curiosidade de experimentar nem um único baseado, e liderava campanhas antitabagistas, e estava empenhado em abrir uma pousada numa praia quase

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deserta da Bahia, e disse pra Eduarda: a praia é lindíssima, vem comigo, vem! e ela foi.

Foi só a mulher ir s’embora que o Homem Certo se entregou pr’as predileções: ele não tinha mentido quando disse que não podia viver sem a Eduarda; desde o dia em que conheceu a Eduarda ele viveu em estado de fascínio por ela, e quando ela sumiu da vida dele bem que ele andou cogitando de ir mesmo pro inferno, mas na hora faltou coragem e então optou pela alternativa mais fresquinha do gelo no copo.

O tempo passou. Mas a falta da Eduarda, não. Ao contrário: aumentou.

Às vezes o Homem Certo experimentava um namoro. Se entediava rapidinho. Só conseguia transar acompanhado de todas as predileções. Fechava o olho com força. A mesma força que empregava pra imaginar que a mulher que ele tinha nos braços era a Eduarda. Mas a imaginação do Homem Certo não era lá essas coisas: nem sempre se prontificava a prestar ajuda.

E aí, e por causa do vestido, aconteceu o momento mágico: já meio entediado do namoro recente com a Bianca, o Homem Certo chega em casa pra jantar, vai lá em cima trocar de roupa, e quem é que ele vê quando passa pelo quarto de vestir da Eduarda?

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A Eduarda.Pois é.Não que a semelhança física da Carolina e da

Eduarda fosse extraordinária. Mas, assim sem sapato (feito a Eduarda gostava de andar), com o cabelo preso, e mal preso, no alto da cabeça (feito a Eduarda costumava usar), mais pra magra e mais pra alta, feito a Eduarda era também, e, ainda por cima, vestida no vestido da Eduarda, o Homem Certo, e por que não? achou que a Carolina era a Eduarda-que-tinha-voltado.

E (aí é que foi curioso) quando viu que a Carolina não era a Eduarda, não se decepcionou muito, não. É. Ficou cativado pelo jeito da Carolina olhar, pelo jeito da Carolina falar (achou que era jeito-de-Eduarda), e já que ela não era a Eduarda, ele agora transformava ela numa cópia do original, pronto.

Durante o jantar, quanto mais ele estudava a Carolina (e quanto mais vinho provava), mais ele se convencia de que podia reeditar a Eduarda na Carolina.

Quando chegou a sobremesa, a Bianca já era objeto de museu pro Homem Certo; quando o café foi servido o Homem Certo já tinha resolvido que no dia seguinte começava o cerco.

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E começou. Um verdadeiro bombardeio de cesta de flor, de pedido de encontro misturado com chocolate, de telefonema, de presente, e de charme e mais charme se derramando pela voz no telefone, pela letra nos bilhetes, pelo olhar no abraço.

E quando, “de brincadeira”, só pra relembrar o primeiro encontro, o Homem Certo pediu pra Carolina se enfiar outra vez no vestido, ficou tão seduzido pelo jogo amoroso daquela noite, que contagiou Carolina e ela se seduziu também.

O fato é que o Homem Certo ainda era apaixonável. Bonito toda vida. Envolvente que só vendo. E ainda tinha dinheiro: contava ponto pra caprichar no cerco. E, se a gente diz que ainda era e ainda tinha é porque, no passado, ele foi e teve muito mais: nasceu numa família rica e devotada: cada vez que o Homem Certo se endividava demais, morria um pai, uma mãe, um tio, uma tia, um avô, e o Homem Certo herdava. Era só liquidar tudo que é dívida pra começar a se endividar outra vez, aguardando, confiante, a próxima morte. Essa história de trabalhar nunca chegou a despertar uma curiosidade muito grande no Homem Certo. Mesmo porque

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ele começou a ter cedo as tais predileções, e logo entendeu que a manhã tinha sido feita pro sono.

Agora, recém-chegado aos quarenta, o Homem Certo já mostra na cara e já sente no bolso um certo ar de fim de festa, e, cada vez que se lembra que só tem mais um parente devotado pra morrer, a cara mostra mais um bocadinho do apagar das luzes.

Mas a Carolina só conheceu o Homem Certo agora: não pode comparar o que ele é com o que ele foi. Resultado: se enfeitiçou. E quando ele disse, vamos casar! não quero mais esperar pra você ser minha, exclusivamente minha, a Carolina (sem achar esquisito nem nada de passar a ser de alguém depois de vinte e um anos sendo dela) só perguntou:

– E a Eduarda?Ele já ia respondendo, você é a Eduarda. Mas se

segurou a tempo e respondeu a pergunta com um afago sedutor.

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ssa ampulheta é tão parte da escrivaninha! Há quantos anos ela taí, pai?

– Desde que o teu avô morreu. Você tinha... deixa ver... você tinha quatro anos.

– Ah, então é por isso que eu não me lembro de jamais ter visto a escrivaninha sem a ampulheta.

– Depois da morte dele, quando a mamãe começou a distribuir as roupas, os sapatos, os objetos de uso pessoal dele, ela me chamou lá e disse, toma, essa ampulheta é pra você: um dia o teu pai e eu estávamos conversando sobre você e ele me disse, olha, se eu morrer de repente (parecia até que ele estava adivinhando!), você dá essa ampulheta pra ele: ele também gosta de olhar pra ela e ficar vendo o tempo medir a vida que passa. – Fica pensativo. Depois conclui: – Cheguei em casa e botei ela aí. Justo aí, onde ela está até hoje.

– É um objeto tão bonito, não é?

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– Sabe que o papai descobriu essa ampulheta na lua de mel dele?

– É mesmo?– É.– Olha só! e você nunca me contou.– Não?– Não.– Pois foi. Em Buenos Aires. Meio escondida no

canto de um antiquário. Você tem a quem sair: teu avô sempre gostou de móveis, vivia visitando antiquários. Resolveu logo comprar a ampulheta, pra ficar de lembrança da lua de mel. Chorou o preço que só vendo. Não adiantou nada: o dono do antiquário não baixou um tostão: disse que era um objeto tão velho quanto raro.

– Deve ser muito antigo mesmo, olha só pra essa madeira aqui. Sabe que eu nunca vi outra ampulheta? Quer dizer, vi sim: umas pequenininhas assim, de plástico, tem gente que usa elas na cozinha pra medir o tempo certo de um ovo quente. Mas uma ampulheta assim grande, bonita, pra valer, feito essa... hmm-hmm: só essa.

– Não senhora.– Não o quê?– Você já viu uma outra, e até bem parecida.

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111Retratos de Carolina

Carolina arregala o olho; fica vasculhando a memória; de repente grita:

– Ah, já sei, já sei, lembrei! Num quadro lá do Museu do Prado: uma pintura impressionantíssima: uma moça, uma velha e a Morte: a Morte está segurando uma ampulheta.

– Isso!Riem.– É verdade! como é que eu fui m’esquecer? Ah,

pai, mas essa ampulheta aqui é mais bonita.– Também acho.Ficam olhando o escoar lentíssimo da areia. O riso

vai se apagando do rosto dos dois. Depois:– Pai.– Hmm?– Eu tranquei a minha matrícula na faculdade.Silêncio comprido.– Já deu pra notar que o teu marido não vê com

bons olhos os teus estudos.– Ele se recusa a entender o quanto eu quero, o

quanto eu preciso ter a minha profissão.O Pai não diz nada; continua olhando pra ampulheta.– Sabe o que que ele diz? “Você vai ser a arquiteta

da nossa vida”. E acha isso engraçado, imagina.Outra vez o silêncio.

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– Puxa, pai, eu fiz tudo, absolutamente tudo, pra ele compreender que desde muito cedo eu quis ter a minha profissão, eu quis ser uma arquiteta. Você sabe, não é, pai, você sabe melhor que ninguém: eu nunca mudei de ideia. Todo mundo que eu conheço ora quer ser uma coisa, ora quer ser outra, mas eu não! você sabe, eu sempre quis criar espaços, eu sempre... ah, deixa pra lá.

O olho do Pai larga a ampulheta e corre pra Carolina:– Deixar pra lá??– Pelo menos por enquanto.– Mas você já largou a faculdade? – Já, já! Você sabe que eu detesto essa história

de ficar brigando, discutindo, e a gente agora estava sempre brigando e discutindo por causa do meu interesse pelo estudo. Ele cismou que eu não preciso estudar, que eu não preciso trabalhar, que eu não preciso ter uma profissão, que eu não... – Tranca a boca. Espera um tempo pra se acalmar. – Ele é uma pessoa muito... insegura, sabe, pai. Muito mesmo. – Se levanta: – É melhor eu ir andando, hoje a gente vai jantar fora. – Se inclina e beija a testa do Pai: – Tchau, paizinho.

– Tchau, minha filha.

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Pai entra no escritório e vê Carolina sentada na cadeira dele, o corpo inclinado pra frente, a cara escondida no braço que se apoiou na escrivaninha.

– Carolina? – o Pai chama baixinho.Ela não se mexe. O Pai estende o braço pra

acender a luz. Muda de ideia. Se encaminha devagar pra junto da filha.

O escritório está iluminado somente pela luz que vem da rua.

De repente, Carolina sente a presença do Pai e se assusta. Levanta a cabeça. Mas logo vira o rosto pro lado, evitando olhar pra ele.

– Pensei que você estava dormindo.– Não, não, pai... Eu estava pensando.O Pai percebe que ela está tentando controlar a voz.– Tua mãe me disse que há horas você está aqui

fechada...

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Depois de um tempo:– É.– ...sem querer falar com ela...– É.– ...sem querer ver ninguém.– É.– Você prefere continuar aqui sozinha, minha filha?– Não, não. – E, ainda sem olhar pra ele, ela se

levanta, senta na cadeirinha e vira a cabeça pra janela. – Senta, pai.

O Pai se senta com certo esforço. Um esforço que Carolina não chega a notar.

– Eu hoje tive que fazer uns exames, por isso é que eu cheguei mais tarde. Mas se eu soubesse que você estava aqui me... Você estava me esperando, Carolina?

– Não. Quer dizer, vai ver estava. Não sei. É que eu precisava ficar quieta. Num lugar bom... que eu amo... Aqui. – Parece que vai se virar pro Pai; hesita; acaba ficando na mesma posição. – Pra ver se passa, pra ver se eu... – Meio que encolhe o ombro; se cala de novo.

– É melhor dizer pra tua mãe que você vai jantar aqui conosco?

– Não, não, eu não tenho fome, vai você, pai, vai jantar.

– Tua mãe ainda não chamou.

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115Retratos de Carolina

O Pai tenta respeitar o silêncio de Carolina. Mas vai ficando angustiado de sentir a dor que ela está sentindo; angustiado de não saber que dor que ela está sentindo. Mesmo sem conseguir encontrar o olhar da filha, parece ao Pai, num relance, que a fisionomia de Carolina está enrijecida, dura, e ele pensa: uma dureza que só a revolta sabe engendrar. Sente que precisa fazer qualquer coisa, mas fazer o quê, se Carolina não fala? Quando não consegue mais suportar o silêncio, ele pergunta:

– Que foi, Carolina? Que foi, minha filha?– Eu não tô legal, pai.– Isso eu sei, mas...– É melhor a gente não falar da gente. É melhor a

gente nem falar.O Pai se contém. Reclina as costas e não diz mais

nada.Lá pela tantas, sentindo que já pode dominar a

voz, Carolina pergunta:– Pai?– Hmm.– Você se lembra daquele dia, quando eu era

criança e você foi me buscar numa festa de aniversário de uma amiga que eu tinha, a Priscilla?... Naquele dia que a mãe me bateu com...

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116 Lygia Bojunga

– Lembro! lembro, claro. Por quê?– Você... você se lembra se eu abri a porta da

gaiola?– Se... o quê?– Quando você me encontrou eu estava junto de

uma gaiola, lembra? Uma gaiola quase da minha altura, não lembra não?

O Pai começa a procurar a cena na lembrança.– Dentro da gaiola tinha um pássaro grande.

Preto. Bonito. Você lembra, pai, você lembra?– Eu estou me lembrando, sim: tinha uma gaiola

do teu lado, mas... mas tava meio escuro naquele jardim, não estava não?

– Estava.– E você estava muito perturbada, não é?– É.– Pois é, eu devo ter ficado também perturbado de

te ver assim porque eu não me lembro de ter prestado atenção nem no pássaro, nem na gaiola.

– Você não viu se a porta estava aberta ou fechada?– Não, eu não me lembro desse detalhe. Eu acho

que... é, eu acho que eu só prestei atenção em você. Mas por quê?

– É que... sempre que eu recordo essa cena, eu fico em dúvida se eu cheguei a abrir a porta da gaiola

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117Retratos de Carolina

pro Pet poder fugir... ou se eu deixei ele lá preso. Eu contei pra você, não é? que eu tinha ficado muito magoada com a Priscilla naquele dia. A gente não ficou mais amiga, a Priscilla e eu. E nem ia dar pra ficar: pouco tempo depois a família dela se mudou do Rio, a gente nunca mais se viu. Então... – deixa a frase no ar.

– Mas por que que você está se lembrando disso agora?

– É que... sei lá... eu passei anos e anos sem me lembrar disso, mas agora... ultimamente... é... eu tenho me lembrado dele... do Pet... tão grande, tão bonito... preso naquela gaiola... Com tanto lugar pra voar e ele ali preso. A gente... tava lá escondido no jardim... eu e ele... ninguém ia nem ver se eu ajudasse ele a fugir... mas... mas eu acho que eu não abri a porta... eu acho que eu deixei ele continuar lá... prisioneiro. Ah!...

O ah de Carolina faz o Pai reviver a impressão que tinha tido de relance, quando pareceu ver a fisionomia da filha endurecida de revolta. E já que ela se obstina a não olhar pra ele, ele se levanta e tenta olhar ela de frente, querendo confirmar a impressão.

A Mãe entra no escritório:– Vamos jantar?

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Carolina se levanta num movimento rápido. Vê que a Mãe vai acender o abajur da escrivaninha; se interpõe:

– Não vai dar pra ficar, mãe: eu tenho um compromisso, já estou atrasada. – Corre pra porta e mal se vira pra jogar um beijo pros dois.

A Mãe fica esperando o portão lá fora bater.– A comida já está na mesa.– Estou indo.A Mãe sai. O olho do Pai vai pra ampulheta. No

último ano ele fica mais e mais tempo olhando a areia escorrer, pensando no quanto o tempo vem marcando Carolina, marcas sempre tão visíveis a cada visita que ela vem fazer. Visitas que vêm se espaçando, se espaçando cada vez mais.

Chega a voz da Mãe avisando que a comida está esfriando.

O Pai se levanta devagar.

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119Retratos de Carolina

telefone toca; Carolina atende e tem uma surpresa: é o Pai, pedindo pra ela ir lá falar com ele. E, surpreendendo Carolina ainda mais (é a primeira vez, desde que Carolina saiu de casa, que o Pai telefona pra “cobrar” uma visita), o Pai acrescenta que se trata de um assunto pessoal, coisa muito minha, que eu preciso falar com você.

– Daqui a pouquinho mesmo eu já estou aí, pai.

A porta do escritório estava encostada, como de costume, mas assim que Carolina entrou o Pai pediu pra ela fechar a porta.

A tarde ia acabando do mesmo jeito que a manhã tinha começado: chuvosa e fria. Era junho, e os dias curtos; ainda não tinha dado cinco horas, mas só um resto de luz do dia entrava pela vidraça.

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O abajur sobre a escrivaninha estava aceso, e foi só o Pai levantar a cabeça do livro que tinha na mão pra Carolina ver que o pai estava abatido e envelhecido. Beijou ele na testa, pensando que talvez o abajur estivesse sombreando o rosto dele; puxou a cadeirinha mais pra perto, sentou e olhou pro pai de outro ângulo. Não: ele estava mesmo envelhecido e com uma fisionomia cansada. Se lembrou da última visita que tinha feito, e só então se deu conta de que, naquela ocasião, não tinha olhado pro Pai.

– Estava com saudades, Carolina.– Eu também.– Faz tempo que você não aparece.– É.– Você está bem?Ela disse por dizer que estava, sabendo que ele

sabia que ela não estava.– Hmm.E os dois ficaram calados.No meio do silêncio, nasceu um susto na Carolina.

Que logo cresceu, se espalhou nela toda, esfriando pé e mão, fazendo o coração bater forte, a garganta secar.

Na Carolina é assim; a intuição sempre dispara na frente; disparou também agora, dando a notícia que só depois o Pai vai dar.

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121Retratos de Carolina

O silêncio se encomprida.Lá pelas tantas, sem querer, o olho do Pai se

encontra com o olho de Carolina. Um encontro curto. Mas suficiente pra apagar o brilho de esperança que tinha se acendido no olho dela. E pronto, se separam.

Os livros na última prateleira da estante encostam no teto. É pra eles que Carolina fica olhando.

Quando o silêncio fica longo demais, o Pai fala:– Eu não vou querer prolongar a doença, Carolina.

Já avançou muito. Com uma rapidez que nos tomou de surpresa, os médicos, a tua mãe, eu. Daqui pra frente, vai ser só sofrimento. – Pausa. – Dor. – Pausa. – Despesas. – Pausa. – Por que consumir o pouco que eu consegui economizar numa vida que já está condenada? – Pausa. – Não, não quero.

E o silêncio outra vez.– Mas quando é que essa doença começou, meu

pai? – Eu não vinha me sentindo bem já desde o ano

passado. Mas você sabe, não é? Eu sou meio alérgico a médico, remédio, hospital, essa coisa toda; não tomei nenhuma providência. Há coisa de dois meses eu comecei com umas dores fortes no estômago. Os primeiros exames que eu fiz acusaram o câncer em estado avançado.

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122 Lygia Bojunga

– Dois meses? E eu sem saber de nada?!– Achei que você ia sofrer, pedi pra tua mãe

não falar no assunto com ninguém, nem contigo. Já bastava o que estava te acontecendo. – Carolina olhou pro Pai; ele corrigiu: – O que está te acontecendo.

Ela conseguiu fazer uma cara meio desconfiada, meio brincalhona:

– E o quê que está me acontecendo?– Frustração. – Se calou. Ela também ficou quieta.Não era só a notícia sombria do câncer que fazia

a conversa assim, tão intercalada de silêncios; era mais aquela falta de costume que os dois tinham de trazer um pro outro o desabafo de emoções.

– Frustração grande – ele acrescentou. – Grande, não: enorme.

Carolina continuou sem dizer nada. Só quando ele pediu uma confirmação: – Não é? – é que ela fez que sim com a cabeça.

– Por que, Carolina?– O quê?– Que isso continua?– Isso? – O teu casamento.É mesmo, ela ficou pensando, por que será que

isso continua? e o Pai continuou:

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123Retratos de Carolina

– Já está indo pra quatro anos que você se casou. Na época eu te perguntei, por quê? Bastou ter conhecido teu marido pra ver que vocês não tinham nada a ver um com o outro. Você lembra que eu te perguntei, por quê?

– Claro. E eu te respondi, eu me apaixonei.– E eu não te perguntei mais nada: quando eu

era moço, eu também me apaixonei por uma mulher que não tinha nada a ver comigo. – O olhar dos dois se encontrou de novo. Dessa vez um encontro mais demorado. – E me casei com ela. E, se alguém tivesse me perguntado, por quê?, eu teria respondido isso mesmo: me apaixonei; a beleza dela me seduziu: tua mãe foi sempre muito bonita, não é?

Carolina fez que sim. Lembrou que ainda era bem pequena quando se perguntou, pela primeira vez, por que será que ele se casou com ela? E quantas vezes mais tarde ela tinha se perguntado, será que ele não tem vontade de ir embora dela? Foram tantas as vezes que ela perguntou isso calada, que, de tanto ficar sem resposta, de repente a pergunta saiu em voz alta:

– Demorou pra descobrir que vocês não tinham nada a ver?

– Menos do que está durando o teu casamento...– Mas o teu dura até hoje...

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124 Lygia Bojunga

– É.Silêncio.Será que ela tinha o direito de continuar

avançando pela emoção dele adentro? Esperou. Ele acabou vindo ao encontro da expectativa dela:

– Quando eu era moço, a separação era um bicho de mais cabeças do que é hoje em dia. Fora disso, quando a minha paixão foi diminuindo, eu comecei a sentir pena da tua mãe. Uma pena que, essa sim, não diminuiu nunca de tamanho.

– Pena? – e abaixou a voz, repetindo, pena? – Pra mim, ela é uma coitada. E é por isso,

porque eu acho ela uma coitada, que hoje eu quis ter essa conversa contigo. – Apoiou o cotovelo na superfície da escrivaninha, descansou a cabeça na mão, e o olhar se perdeu lá por onde o pensamento andava. – Quando você nasceu, eu fui surpreendido pelo interesse que eu senti em ser pai. Interesse e alegria. Que foram crescendo te vendo crescer. E o fato de você procurar sempre a minha companhia, e termos nos tornado tão bons companheiros, foi muito significativo na minha vida; foi tão importante pra mim que por si só bastaria pra não ter desfeito a relação pobre que eu sempre mantive com a tua mãe. – Ficou um tempo pensativo. Meio que encolheu o

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ombro. – Talvez ela não ache pobre, não sei; ela foi programada pra achar que, se as contas são pagas, o conforto assegurado, a família agregada, a casa limpa e arrumada, então está tudo bem, o resto não chega a interessar. Então, é possível que ela seja feliz. De uma coisa eu tenho certeza: ela não se acha uma coitada.

– Por quê?– Coitada?– É.– Passou a vida dependendo de mim pra tudo. Só

porque se casou comigo. Até hoje diz que não sabe conferir conta nenhuma, preencher um cheque qualquer; nunca falou em dinheiro: só fala essa coisa de dinheiro, e pra ela, essa coisa é coisa feita pra marido resolver. Arte é coisa feita pra essa gente boêmia; política é coisa pra homem; pobreza é coisa pra pobre, e diz que se Deus criou pobres e ricos, Ele deve ter lá suas razões. Criatividade, pra ela, é uma palavra oca, feita só pra impressionar. Nunca teve a curiosidade de abrir um só desses livros pra ver o que é que tem dentro; nunca pensou que, provando o estudo, podia gostar do gosto; sequer cogitou se valia ou não a pena ir ao encontro de uma profissão, de um projeto de trabalho. E quando um dia eu disse pra ela (isso no tempo em que eu ainda imaginava que

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ela podia mudar), quando eu disse pra ela que, por ser mulher ela não precisava ser uma coitada, ela não entendeu: pra tua mãe, só é coitada a mulher que não arruma um homem pra sustentar ela.

Carolina estava tão surpresa com o desabafo do Pai, que ficou olhando pra ele, sem nem mesmo pensar se devia falar qualquer coisa ou não, e, por um momento, a surpresa chegou até a amortecer a dor que estava sentindo com a revelação da doença grave.

Já não entrava mais nenhuma claridade pelas janelas.

Depois de um tempo o Pai retomou a fala, no mesmo tom baixinho e cansado:

– Então, pra mim era uma alegria enorme te ver optando por um caminho tão diferente do dela, tão rico de possibilidades. Com o talento que você tem, e com a tua vocação pra lidar com espaços, senti tanta pena quando, por causa desse casamento, te vi abandonando tudo que sempre te interessou tanto. O fato mesmo do teu marido ter te feito abandonar teus estudos, tua vocação, teus amigos, me pareceu prova não só da insegurança dele quanto dos sentimentos que ele tem por você. – Esperou um comentário qualquer de Carolina, mas ela continuava não só surpresa com a maneira pessoal e direta do Pai se

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expressar, como sentia de novo a garganta apertada, agora menos por ele do que por ela. Quis dizer alguma coisa pra ele. Mas só teve vontade de chorar por ela. Respirou mais fundo, querendo fazer a vontade passar.

– Eu posso estar enganado, mas eu não te sinto mais enamorada do teu marido.

Carolina quieta.– Você ainda gosta dele?Ela experimentou outra vez respirar fundo.– Desculpa, Carolina, eu sei que eu estou

invadindo o teu espaço...– Que é isso, meu pai?– ...mas eu sei também que... sem essa conversa...

eu não vou poder enfrentar com serenidade... o que eu tenho que enfrentar.

Feito coisa que não bastava o corpo assim tão pra frente, Carolina chegou a cadeirinha ainda mais pra perto da cadeira do Pai. E quando, afinal, começou a falar, falou baixinho feito ele; mais até: falou no tom cochichado que, em pequena, ela usava quando achava que tinha descoberto um outro pedaço do Grande Segredo:

– Você não está enganado, não: é isso mesmo: eu não gosto mais dele. Mas não é que ele me

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seja indiferente, não, não! É mais: eu des-gos-to dele. Pior: cada dia que passa eu desgosto mais. Eu me apaixonei, eu me envolvi com ele depressa demais, não foi? É... Mas, em compensação, eu estou me desenvolvendo devagar pra caramba. Já faz tempo que a paixão foi embora. Mas isso não resolveu o problema: no lugar dela entrou a revolta. Mas o que que adianta a revolta se a gente sente medo? se a gente sente culpa? dá no mesmo, ué: a gente continua atolada. Lembra quando, logo no princípio dessa história toda, eu te contei que eu ficava meio perturbada com o jeito que ele olhava pra mim? um jeito que eu nunca tinha sido olhada antes. Lembra que eu te contei?

O Pai faz que sim.– Perturbada e intrigada. Quer dizer: fascinada.

Você sabe, não é? pra mim, fascínio é feito de intriga. Eu estava tão envolvida com ele, que eu não sacava, mas não sacava mesmo que o jeito dele olhar pra mim me intrigava porque não era um jeito dele olhar pra mim: era um jeito dele olhar através de mim. Pai, o olho dele me atravessa com força (e com que força!) pra enxergar a Eduarda. Lá – a mão de Carolina experimenta desenhar no ar o contorno de um espaço vago. – Lá, onde mora a fantasia dele, sei lá! Só sei

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que é lá que a Eduarda mora, e que pra encontrar ela lá, o olho dele tem que me atravessar. É claro que desde o princípio eu vi que ele gostava de me ver na roupa que ela largou pra trás, no perfume que ela abandonou, na cama que ela ocupou, usando o armário, a penteadeira, o banheiro que ela usou. Mas eu levava isso tudo um pouco na brincadeira; achava que fazia parte de um jogo amoroso que agradava ele, e, se agradava, por que não?; achava que ia passar. Mas em vez de passar foi aumentando, se complicando, e só devagar é que eu fui entendendo que eu era o instrumento que ele precisava pra ter outra vez a Eduarda nos braços. – Suspira de um jeito que parece que está tomando fôlego. – Ah, pai, como me doeu descobrir que, pra ele, eu não era eu. Me lembro do dia em que eu, afinal, saquei; pra ele eu sou um mero instrumento; e depois me corrigi, mero coisa nenhuma! pra ele esse instrumento é tão precioso que ele não quer arriscar nada que tire esse instrumento da mão dele; e só aí eu entendi o cerco cada vez mais fechado pra me botar na gaiola, pra me manter prisioneira. Que faculdade, que amigos, que estudos, que profissão coisa nenhuma! era perto dele que eu tinha que estar; sempre ao alcance: ele nunca sabe quanto tempo, quantos copos, quanto pó vai precisar

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pra chegar lá onde a Eduarda está. – Dá uma pausa. Depois: – Aí, quando o meu olho encontrava o dele, eu já não me intrigava mais: o fascínio tinha sumido. E foi sumindo tudo atrás; sumiu a vontade de deitar na cama que foi dela, de abrir o armário que era dela, de morar na casa onde ela tinha morado. Você não imagina como ele se sentiu inseguro, pai. Começou, então, a me ameaçar. Primeiro, pouco. Depois, mais. Ficou violento. Um dia me agrediu. De um jeito que me deixou atordoada. Você sabe, não é, pai, a única vez que eu sofri uma agressão física foi naquele dia do aniversário da Priscilla, lembra, pai? lembra que a mãe...

– Lembro, sim, Carolina, lembro.– Aí eu não consegui mais deitar com ele. Mas

não consegui mesmo. Era só ele chegar perto de mim que eu já ficava assim, ó, tão tensa, tão rígida, que uma perna não conseguia descolar da outra. Passei a dormir no sofá da sala. Aí... uma noite... eu estava dormindo... ele me acordou e...

O Pai vê a mão de Carolina se crispar, nota a voz dela se alterando, a fisionomia se ensombrando.

– ...e veio com aquela história d’eu vestir o vestido... o vestido que eu te contei uma vez que eu

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encontrei na casa dele, o vestido que você viu em Londres, na vitrine daquela...

– Eu sei, minha filha, eu me lembro.– É um vestido odioso! horrendo! Eu odeio

aquele vestido, eu acho que eu nunca odiei nada tanto feito eu odeio aquele vestido, e aí ele foi tirando a minha roupa, e me abraçando, eu vi que ele estava superbebido e disse que não, tô cansada, eu quero dormir, me deixa em paz, ele disse que não, eu disse me deixa! e quando eu quis fugir dele, ele me pegou à força e aí a gente se engalfinhou pra valer, eu esperneava, eu dava pontapé, eu unhava, eu mordia, mas ele é grande, não é, pai? mesmo assim, com aquela tonelada de uísque dentro dele, ele é forte, abriu minhas pernas na marra, e quando eu disse que ele estava me estuprando, ele achou até graça: perguntou se eu tinha esquecido que eu era casada com ele. Feito coisa que casamento dá direito do homem violentar a mulher. – Fica um momento só lembrando. – Naquela noite, depois que... que ele se encontrou com a Eduarda, e que... tudo acabou... ele virou pro lado e dormiu, e eu... eu resolvi que tinha que acabar com essa relação.

O Pai vai reclinando o corpo no encosto da cadeira.

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– Mas quando eu participei isso a ele, foi uma tragédia. Jurou que ia me matar, jurou que ia se matar, ameaça atrás de ameaça. Eu comecei a me sentir mais insegura do que eu já vinha me sentindo, e quando a gente se sente assim, vai dando uma... sei lá... uma espécie de paralisia, não é? A gente se convence que... que tem que ganhar tempo, não é? ...pra arrumar coragem... acho que é isso... insegurança acaba com a coragem que a gente precisa ter pra fazer o que tem que fazer. E foi quando eu caí nessa paralisia que chegou o dia da menstruação e: cadê? Não precisou atrasar mais que uma semana e eu já tinha certeza, sem exame, sem nada, que eu estava grávida. Quando eu fiz o exame não deu outra.

O olho do Pai procura a gravidez no corpo de Carolina, mas só vê a linha esguia de sempre.

– Eu fiquei desesperada, meu pai; quis tanto vir falar com você de tudo que eu estava pensando e sentindo.

O Pai, quase alarmado:– E por que não veio?Ela hesitou. Depois:– Achei que... pra te contar o que eu queria fazer,

eu ia... sei lá, eu ia chatear você, e aí eu ainda ia me sentir pior. Ah, pai, eu não devia estar te contando tudo isso agora. Justo agora que...

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133Retratos de Carolina

– Por favor, Carolina, não interrompe o teu desabafo. Eu quero ouvir; eu preciso ouvir. Por favor.

Carolina ficou quieta um tempo; depois fez que sim:

– Tá. Mesmo porque, não é?... se eu não te conto o que eu estava te contando, como é que você vai entender por que que eu ainda continuo com ele. – Suspira fundo. – Mas eu também não sei se você vai me entender se eu te digo que a coisa que eu mais queria, quando eu descobri que estava grávida, era me livrar da gravidez. Acho que é difícil um homem entender direito esse pesadelo que tanta mulher tem que viver. O pesadelo de saber que aqui... dentro da gente... começou a se formar um ser que a gente não planejou, nem quer ter. Eu pensava nisso o dia inteiro. E de noite acordava pra pensar nisso também. Cada dia que nascia eu me dizia e repetia que ia acabar me habituando com a ideia de ser mãe. Mas cada dia que acabava só fazia o pesadelo crescer: tinha passado mais um dia pro ser-que-um-dia-ia-ser... ser. Entende? – Ela faz a pergunta sem olhar pro Pai nem esperar resposta. – E quanto mais eu pensava no ser que eu tinha que criar, mais eu me dava conta de que não era uma hospedagem de nove meses dentro de

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mim, depois uma parição e pronto: era uma vida, que eu autorizava ou não, mas que, autorizando, eu ia ser pra sempre responsável por ela; e mesmo depois da criança não ser mais criança eu ia sempre saber, sempre sentir, que ela tinha nascido pra uma vida que eu tinha dado e que, então, eu tinha que dar o melhor de mim. Feito você me ensinou a tentar. Lembra quando eu era garota? Volta e meia eu queria fazer isso e aquilo, e fazia. Fazia de qualquer jeito e pronto. E você me dizia, pra fazer de qualquer jeito, pra que fazer? Fazer de qualquer jeito é fácil demais, Carolina, não vá atrás do que é tão fácil assim. – E agora ela olha pro Pai: – Lembra?

Ele faz que sim.– Pois é. Imagina só fazer uma vida. Uma vida

que nasceu de uma violência, gerada de um homem que eu não gosto mais. – Muda de posição na cadeirinha; muda o tom de voz. – A ideia de me emaranhar numa maternidade que eu não queria, e continuar num casamento que eu não queria mais, me su-fo-cou: resolvi abortar. Eu sabia, ou melhor, eu sei que se eu não retomo as minhas expectativas de vida, as que eu sempre tive, as que você me ajudou a ter, e que eu fui traindo uma a uma depois que eu me casei com ele, eu não vou nunca mais me recuperar direito dessa

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traição. A ideia do aborto me desgostava (alguma mulher pode gostar?), e, além disso, eu estava atolada naquela paralisia que eu te contei: cada dia eu me dizia, amanhã eu vou e faço; e não fazia. E a angústia crescia: eu estava dando mais um dia pro ser-que-não-ia-ser... Foi por isso que eu sumi, meu pai: não queria que você sentisse a angústia que eu estava sentindo.

– Mas eu senti. Da última vez que você veio, eu senti.

– Até que... até que, lá pelas tantas, eu não aguentei mais aquela aflição: fui e fiz. E depois que fiz contei pra ele que tinha feito. Aí o mundo veio abaixo. Primeiro ele cismou que o filho devia ser de outro. (Eu sei que ele queria demais ter um filho da Eduarda. Mas não teve.) Quando acreditou que era dele, em vez de apelar pra violência (como eu imaginava), caiu numa depressão que me desarmou, se declarando o culpado d’eu ter matado uma criança. É assim que ele diz, é assim que ele fala. Chamou a minha mãe lá e se abraçou com ela.

– A tua mãe foi lá?– Foi, foi. E ele começou a chorar nos braços dela,

e contou como gostava de mim, e contou do aborto, e disse que o responsável pelo crime (é assim que ele fala! e o pior é que ela também) era ele. Porque ele

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não tinha sabido me fazer feliz. Ela foi ficando com uma pena danada dele e acabou querendo convencer ele que não, não! Ele não tinha culpa nenhuma, a culpada de tudo era eu. – A voz de Carolina começa a se complicar, ora gagueja, ora some, ora volta. – Eu não sei se... de tanto eles falarem em culpa, eu, que tinha me sentido tão aliviada depois de tudo acabado, comecei a me sentir culpada. Culpada, inclusive, de ter resolvido acabar com o meu casamento. Quando ele contou isso pra ela, ela começou a convencer ele de que eu ia mudar de ideia; falou que nem ia contar nada disso pra você porque você ia morrer de desgosto e me disse não sei quantas vezes: é claro que você não pode dar esse desgosto pro teu pai. – A voz agora já se complicou demais. Carolina se cala.

Durante um tempo grande, os dois ficam em silêncio. Carolina olhando pro sapato que o Pai usa em casa; o Pai olhando pra ampulheta.

– Carolina... minha filha... eu estou me sentindo aliviado.

Carolina levanta a cabeça, olha surpresa pro Pai.– Repito o que eu já te disse, Carolina: as minhas

expectativas em relação a você sempre foram grandes. Eu sempre te senti corajosa, honesta com você mesma, apta a uma vida plena. Mas, depois que você se

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casou, aos poucos eu comecei a achar que você estava se perdendo de vista. A cada ano eu achava mais. E confesso que, ultimamente, eu já estava duvidando que você ia se reencontrar. – Traz o corpo pra frente. Estão agora cara a cara:

– O teu desabafo reviveu as minhas expectativas, que alívio! Apesar de te ver ainda desfigurada pela crise que você viveu, que você ainda está vivendo, eu já te sinto reencontrada contigo mesma, com teus ideais, com tua coragem...

– Coragem?– Sim: coragem. Por quê?– Você não condena o que eu fiz? Não acha que

foi covardia?– O aborto?– É.– É um direito teu. Você escolheu ter filhos

quando, ou se, achar que está preparada pra essa tarefa. Só você vai saber fazer essa hora; ninguém mais.

– Quer dizer que você... me entende?– Mais, Carolina: eu te dou razão: a hora que você

está vivendo, em relação ao teu casamento, é o tipo da hora adversa para a criação de um novo ser: você disse agora mesmo que só está ganhando tempo pra encerrar essa relação de uma vez por todas, não disse?

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– Disse.– Então?– E isso também... não te magoa?– O quê?– Eu ir m’embora dele...– Do teu marido?– É.– Mas se é esse justamente o grande alívio que eu

estou sentindo, Carolina! Você não pode imaginar como me perturbava a ideia de ir m’embora da vida te sabendo presa a uma relação que está te fazendo tão mal. – Vai levando o corpo pra trás. Mal consegue disfarçar um gemido. Carolina olha assustada pra ele. Mas assim, reclinado na cadeira, o Pai parece sereno. Ficam quietos durante um tempo. Depois:

– Meu pai...– Hein?– Às vezes eu acho que essa... culpa que eu ando

sentindo de deixar ele... é mais medo que culpa.– Medo? De quê?– Pois é isso que eu me pergunto: será que é medo

das ameaças que ele me faz?– Vai ver é medo de que a tua mãe queira que

você venha morar com ela depois da separação.

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139Retratos de Carolina

Outra vez Carolina olha surpresa pro Pai. E vendo a expressão meio brincalhona no olho dele, ri. O Pai então ri também. E ela acha tão bom ver ele rindo, que ri mais.

O Pai aproveita o embalo do riso e assume de vez o ar brincalhão:

– Mas eu acho que você devia, gentilmente, declinar do convite...

– Você acha mesmo?– Acho.– Ah, que bom, eu também acho; na hora de

recomeçar a minha vida era assim mesmo que eu queria: eu comigo só. – Volta ao tom segredado: – Mas você vai ver: ela vai fazer tragédia d’eu morar sozinha.

– Agora você é dona outra vez da tua vida.– Ainda não.– Mas a hora está chegando.– Você acha mesmo?Ele faz que sim. Ficam de novo sérios. Calados.

Carolina pensa na doença do Pai: se sente outra vez invadida por uma tristeza grande, uma quase vontade de morrer também. O Pai fica pensando que bom que ia ser viver pra ver a vida que Carolina vai ter. Inclina de novo o corpo pra frente:

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– Escuta... tem mais uma coisa que eu queria conversar contigo. – Alisa de leve a superfície da escrivaninha. – A minha vida está memorizada aqui, em tudo que é gaveta, escaninho, pasta, caderno, suvenir. – Levanta o olhar pra Carolina: – Você sempre gostou desta escrivaninha, não é?

– Claro: você e ela sempre juntos...– Eu quero te fazer presente dela. Assim mesmo:

com tudo que tem aí dentro.– Ah, pai, por favor, não vai agora...– Deixa eu acabar o que eu estava dizendo, minha

filha. Hoje, afinal, chegou o dia de conversarmos de coisas íntimas: deixa eu te falar disso também.

Carolina percebe o cansaço tomando conta do Pai. Cruza os braços no peito, querendo sossegar o coração.

– Eu quero que você leve a escrivaninha pra tua nova morada. Assim mesmo, feito ela está aqui, com a ampulheta, o abajur e o que tem nas gavetas. Espero que ela te faça boa companhia. – Outra vez um leve alisar na madeira. – Feito ela sempre fez pra mim. O resto, Carolina, e você sabe que não é muito (eu deixo tudo especificado aqui nessa gaveta do meio), o resto é pra tua mãe. Ela me parece incapaz de abrir qualquer caminho: vai precisar de tudo que

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eu consegui armazenar. Caso contrário, ela vai se pendurar em você, e eu creio que a coisa que você mais vai querer, na hora de se livrar desse casamento, é se sentir livre...

– Pra abrir o meu caminho! É, sim, pai, é.– É por isso que eu, abre aspas, te lesei, fecha

aspas, nas minhas disposições financeiras. Espero que você me compreenda e perdoe.

A porta se abre e a Mãe pergunta:– A conversa particular ainda continua?O Pai se recosta na cadeira:– Há tanto tempo a Carolina não aparecia por aqui...– Mas que tanta economia de luz! Não é melhor

acender essa outra lâmpada? – A Mãe vem pra junto da escrivaninha e acende a lâmpada mais forte do abajur.

O Pai protege os olhos com a mão e diz pra mulher:

– Escuta, a Carolina vai mandar buscar essa escrivaninha dentro de poucos dias...

Carolina olha pra ele, mal conseguindo disfarçar a surpresa que os poucos dias causaram nela.

– ...tem uma papelada imensa aqui dentro, a Carolina vai fazer uma limpa, ver o que que guarda e o que que não guarda.

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142 Lygia Bojunga

– Ah, é: essa história de papelada não é comigo. E você sempre gostou desse móvel, não é, Carolina?

– É.– O abajur e a ampulheta vão junto – o Pai fala.

– E a cadeirinha também.– Que dia você vai mandar buscar isso, Carolina?O olho de Carolina se encontra com o olho do

Pai. Não é um encontro demorado, mas dura o suficiente pro Pai ver a afirmativa tão buscada, e que, agora encontrada, deixa ele tranquilo.

– Dentro dos poucos dias que o pai falou, mãe. Eu te aviso com antecedência.

A gravidade da doença do Pai demoliu Carolina. Chegou em casa querendo encontrar um amigo só: o travesseiro; e se abraçar com ele no escuro; e dar pra ele tudo que é lágrima que ela escondeu na conversa com o Pai.

Muito tempo Carolina e o travesseiro ficaram lá abraçados, antes dela mudar de posição e descansar a cabeça nele. Agora, de olho já seco, ela vê na escuridão do quarto a tranquilidade que apareceu no semblante do Pai quando ela confirmou que ia mandar buscar a escrivaninha dentro de poucos dias. Ah! que bom

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que o Pai tinha visto no olho dela a certeza, nascida naquele justo momento; a certeza que varria longe o medo, varria a culpa, varria a dúvida; a certeza de que eram mesmo poucos dias que separavam ela... dela mesma. Certeza que agora vai apaziguando Carolina, até fazer ela cair num sono pesado.

É despertada pelo telefone chamando na madrugada. Era a Mãe, dizendo, acordei ainda agorinha, não vi teu pai na cama, fui no escritório ver se ele ainda estava lendo e encontrei ele sem vida, debruçado na escrivaninha.

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144 Lygia Bojunga

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145Retratos de Carolina

arolina se senta no banco e deixa o olho passear à vontade pelo espaço em volta. Vai se lembrando de cada demão de tinta que deu nas paredes, de cada raspada e encerada que deu no soalho, de cada quadro e cada pôster que pendurou, de cada objeto, cada vaso de planta, cada agrupamento de livros, cada um dos poucos móveis que arrumou.

O olho se detém satisfeito em cada uma das duas janelas, a pequena, da quitinete, e a grande, do quarto e sala; depois inspeciona cada uma das duas portas, a do banheiro e a da entrada, e Carolina pensa, nossa! que mão de obra que essas quatro me deram. Examina tudo tintim por tintim e aí descansa as costas na parede e suspira contente. Que diferença da semana passada, quando ela tinha entrado pela primeira vez ali por aquela porta. Ela e o corretor.

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146 Lygia Bojunga

Ficaram olhando esmorecidos pras paredes que outrora foram pintadas de cor-de-rosa, e quando Carolina olhou pro soalho pintado, ou melhor, descascado de verde, o corretor tentou fazer graça: devia ser um mangueirense fanático que morava aqui, ele disse.

Era na Glória. Edifício antigo. O andar, alto. O conjugado, de fundos. A janela mostrava um pedaço generoso de Santa Teresa; vegetação generosa também, e céu, muito céu pra olhar. O aluguel era mais baixo do que a maioria dos horrores pequenos que Carolina tinha visitado. Alugou. Se mudou. Mandou buscar a escrivaninha. Se entregou de corpo e alma pra tarefa de recompor e decorar o espaço, raspando, inventando, pintando, arrumando, encerando, criando, se sentindo melhor à medida que o trabalho progredia.

E agora ela está aí sentada. Mas volta e meia se levanta, e puxa um pouco a cortina, e empurra um vaso pro canto, e faz um ou outro livro ir morar num lugar diferente, e se senta de novo, e fica outra vez olhando, e compara, lembrando, era assim e ficou assim.

Se levanta mais uma vez. Mas agora pra fazer um café e se deixar ficar na companhia dele, aproveitando aquele momento bom.

Campainha na porta.

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147Retratos de Carolina

Susto duplo de Carolina: é a primeira vez que ela escuta a campainha e acha o som estridente; não está esperando ninguém, mas intui que é a Mãe. Fica parada.

A campainha toca de novo.Carolina espia no olho mágico: é a Mãe.Abre a porta.A Mãe entra, vestida de cinza na saia e de preto

no blazer; uma blusa de seda branca clareia a fisionomia. No dedo, o anel e a aliança que ela usa sempre. No pulso, o relógio de ouro que ela olha sempre. No pescoço, uma corrente de três voltas. Na orelha, brinco pequeno e preto. Meia. Saltinho no sapato fechado.

É só a Mãe entrar e o espaço de Carolina é tomado pelo perfume que a Mãe usa sempre.

Um beijo de cada lado de cada rosto.Carolina fecha a porta.O olho da Mãe dá uma corrida em volta, se

detém na escrivaninha e na cadeira do Pai, relanceia a cadeirinha, a ampulheta e o abajur, anda vagaroso pelo estrado com colchão, cobertos por um pano artesanal, e depois segue para a mesa estreita, ladeada de dois bancos, junto da quitinete.

A Mãe ignora a janela e se aproxima de um banco:

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148 Lygia Bojunga

– É aqui que eu me sento?– Onde você quiser, minha mãe.– Não tem muita escolha, não é?– Tem a minha cama aqui.– Cama?– O colchão é muito bom, e olha, se você bota

as almofadas assim, fica ótimo pra sentar.– Espero que o fato de você não ter trazido a

sua cama (a que ficou lá em casa, eu quero dizer), signifique que você pretenda voltar.

– Eu não trouxe a cama porque o meu quarto ficou sendo quarto de hóspedes depois que eu saí de casa, mãe...

– Mas Carolina...– Eu não quero desarrumar aquele arranjo que você

fez: ficou tão bom! Mas, se você não quer sentar aqui, tem aí a cadeira do Pai, que...

– Essa é a cadeira dele. – Hesita entre a cama e os bancos. Acaba escolhendo um deles pra sentar e descansa a bolsa de alça curta no outro.

Unha bem tratada: o esmalte rosa antigo, que sempre usou.

Cabelo bem cortado, bem curtinho, bem pintado.A idade continua pouco alterando o rosto: olho,

boca, nariz, tudo irretocável. Mas os anos trouxeram

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149Retratos de Carolina

quilos a mais, e quando a Mãe se arruma pra sair, se não está muito calor, ela se aperta num blazer pra disfarçar. Esse que ela está usando agora tem botão esmaltado.

A Mãe continua tendo no olhar uma certa expressão de ingenuidade, que sempre acrescentou (ela sabe) mais encanto ao rosto. É só ela se sentar e o indicador da mão direita cai no antigo hábito: a unha começa a empurrar a cutícula da unha do polegar.

De sola de sapato bem apoiada no chão, a Mãe levanta um bocadinho o salto e fica imprimindo à perna um movimento de vaivém, pra cima e pra baixo, pra cima e pra baixo.

Carolina senta na cadeira do Pai. O olho foge pela janela. A mão fica alisando de leve a beirada da escrivaninha.

– Às vezes eu me belisco, Carolina, pra ver se eu estou sonhando, e acordo.

O blazer da Mãe tem enchimento nos ombros.Carolina fica aguardando o resultado do belisco.– Eu tenho tentado, Carolina. Eu juro que eu

tenho tentado te entender. Mas não consigo.– Mas, mãe, o que mais que tem pra entender

que eu já não tenha te explicado? Não tem mistério nenhum em nada.

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150 Lygia Bojunga

A Mãe olha incrédula pra Carolina. Desabotoa um botão do blazer.

– Você mata o seu filho, você se separa do seu marido, você se recusa a morar com sua mãe, você despreza uma casa simples mas confortável (a minha, do seu pai, a nossa casa) e uma casa luxuosa (a do seu marido) pra se enfiar nesse... nessa coisinha aqui, e você acha que eu posso entender uma atitude dessas? Nem eu, nem ninguém!

– Eu não tinha dinheiro pra alugar um apartamento maior que este.

– Mas você não tinha que alugar coisa nenhuma! você estava morando numa casa excelente.

– Que não era minha.– A partir do momento em que você se casou com

ele, a casa passou a ser tão sua quanto dele.– Ô, mãe, por favor, não vamos voltar a isso, você

sabe que eu não quero nada do que é dele.– Mas não vamos voltar a isso como, se é sua vida

que está em jogo...– A minha vida não tem mais nada que ver com

ele nem com nada que é dele.– ...e se é a minha vida que está em jogo

também.– A sua vida? Por quê?

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151Retratos de Carolina

– Porque a minha filha, a minha única filha, está me abandonando na hora mesma em que eu fico viúva e desamparada, na hora em que eu mais preciso de alguém junto de mim.

– Mas, mãe, eu não estou abandonando você, eu apenas não quero morar com você.

– Lá em casa é muito mais confortável do que aqui, Carolina, e além disso...

– Mas eu não estou atrás de conforto, eu já te expliquei que o importante pra mim agora é ficar sozinha comigo mesma pra...

– Você ainda é moça demais pra ficar sozinha.– Mãe, eu não estou querendo ficar sozinha pra

sempre...– Mas você não precisa ficar sozinha...– ...eu estou querendo ficar sozinha agora.– ...só fica sozinha quem precisa...– Mãe...– ...e sozinha por quê?, se eu estou querendo, se

eu estou pedindo pra você ir lá pra casa, nem que seja por enquanto.

– Mas é justamente por enquanto que eu quero...– E tem outra coisa, Carolina...– ...que eu quero só, não: que eu preciso ficar

sozinha comigo mesma. Não dá pra entender que...

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152 Lygia Bojunga

– ...não sou só eu que estou querendo a sua companhia, o seu marido também está. Ele falou comigo, Carolina. E não foi por telefone não, minha filha, ele foi lá em casa pedir para eu interceder junto a você.

Carolina esfrega a testa com a mão.A Mãe desabotoa outro botão e chega mais pra

beirada do banco:– Ele não se conforma com a separação, Carolina.

Ele disse que está pronto pra perdoar o crime que você cometeu...

– Eu não cometi crime nenhum! Crime seria ter um filho que eu não queria, nascido de um estupro que eu sofri.

A Mãe toma um susto tão grande, que se levanta num pulo:

– Você foi estu... estru... ai, eu não consigo dizer essa palavra...

– Eu fui estuprada, sim.– Meu Deus do Céu!– Por ele. Ele me pegou à força...– Ele...– ...quando eu já não gostava mais dele...– ...quem?– ...quando a coisa que eu mais queria já era me

separar dele.

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153Retratos de Carolina

– ...o teu marido??Carolina vai responder que... Mas o espanto que

ela vê na cara da Mãe faz ela calar a boca. Se levanta e vai olhar Santa Teresa da janela.

A Mãe desabotoa o último botão. A unha do indicador recomeça o empurra-empurra na vizinha.

– Carolina...?Silêncio.– Minha filha...?– Hmm?– Eu não... – Mas o resto da fala sai em feitio de

risada.Carolina se vira.A Mãe tapa a boca com a mão. Meneia a cabeça:– O teu pai tinha razão: você tem cada uma! Dizer

que foi estup... pelo marido, ah! Só mesmo você, Carolina.

– Você tá a fim de um café, mãe?A Mãe fica séria:– Não, não se incomode, nós ainda não acabamos

de falar.– A gente já falou que chega disso tudo.– Você pode ter falado, mas eu não: afinal de

contas, eu vim aqui com uma missão, e você nem me deixou terminar: o teu marido...

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154 Lygia Bojunga

– Ele não é mais meu marido!– Pra ele, é. Continua sendo. E perante a lei

também: ele é teu marido. E nem ele nem eu nos conformamos de ver você aqui enfiada num...

– Eu estou muito contente com esse cantinho que eu arrumei. Tem uma estação de metrô logo aí adiante: vai ser bom pra ir pra faculdade quando eu recomeçar os estudos, e já está sendo bom pr’eu procurar trabalho.

– Você vai trabalhar?!– Mas, se eu não trabalho, como é que eu pago esse

aluguel? e a comida? e...A voz da Mãe agora é estridente, exaltada:– Que coisa mais absurda, Carolina!– Mais absurda por quê?!– Pare com esse fingimento!– Que fingimento?– O teu marido lá te esperando de volta naquela

bela casa, eu te querendo na minha casa, e você aqui bancando a vítima: procurando emprego pra pagar o aluguel desse buraco... isso só pode ser um fingimento pra nos castigar ainda mais! – Olha pro céu e pergunta: – Que pecado eu cometi, meu Deus, pra que a minha filha, a minha única filha, me queira assim tão mal?

– Ah, mãe, não fala assim...

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155Retratos de Carolina

– Não estou falando com você, estou falando com Deus.

– ...não diga isso outra vez, você sabe que não é verdade.

– Carolina, se você gostasse de mim, se você gostasse um pouquinho de mim, você não poderia me ferir assim: três vezes! E tão fundo, que eu mesma não sei qual dos três golpes me fere mais; se é você não querer dar uma segunda chance ao seu marido...

– Mãe, o que mais que eu preciso dizer pra você conseguir entender que eu não posso continuar junto de um homem que eu passei a detestar.

– ...se é você não querer morar comigo...– Mãe, depois dessa crise toda, eu tô vivendo um

momento difícil, doído; você não vê que eu preciso ficar sozinha pra poder... pra poder digerir a minha dor e...

– Eu também estou sozinha e nem por isso eu quero ficar longe de você.

– Mas nós somos muito diferentes. Será que você nunca percebeu?

A voz da Mãe se descontrola:– Diferentes, iguais, que que importa?! O que

importa é que estamos as duas sem marido e temos que nos unir.

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156 Lygia Bojunga

– Calma, mãe, calma, não comece agora a ficar agitada. Procure compreender que você está presa a um passado, a um tempo em que uma mulher tinha que ter um marido. Pra ser sustentada. Pra ser respeitada. Pra ser confortada. Pra...

– Isso não mudou! Toda mulher quer um marido.– Toda mulher quer alguém que ela ame, que

ela respeite, com quem ela se entenda, pra poder partilhar o bom e o ruim da vida, não precisa ser um marido.

– Você fala assim porque está pouco se incomodando com o fato de que eu estou sozinha, sozinha, SOZINHA!

– Eu também. Depois que o pai morreu, eu também tô me sentindo muito sozinha.

– Pois então? Nós temos que nos juntar.– Mãe, somar solidão só pode dar numa solidão

maior.– Tá vendo só como você é? Não adianta pedir,

não adianta querer te mostrar como eu tô sofrendo, como o teu marido está sofrendo, isso pra não falar naquele que mais sofreu: o teu filho, que, por tua causa, sofreu a maior de todas as privações: a própria vida. Você não se comove diante de nada disso: pra você, só interessa o que você quer. Eu só me pergunto é o que

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157Retratos de Carolina

que eu te fiz pra você me querer assim tão mal. – Se levanta. De dedo nervoso, tenta abotoar o blazer.

Carolina vai chegando devagar pra junto da escrivaninha. A ponta do dedo ensaia de leve um risco na madeira. A voz pergunta, baixo, mais pra ela mesma, Carolina, do que pra Mãe:

– Mas se eu não me sinto livre, eu não posso ser eu mesma... posso?... eu não posso abrir o meu caminho... posso?

O dedo da mãe desiste de lutar com o botão.– Ainda bem que o teu pai não está aqui vendo

até que ponto vai o teu egoísmo: o meu caminho, a minha liberdade, a minha vida: a vida dos outros que se dane, não é? você está pouco se incomodando com os outros! – Pega a bolsa e sai.

Durante um tempo Carolina permanece imóvel. Depois vai devagar fechar a porta. Vai pra quitinete. Fica um tempo enorme parada, encostada no fogão. Até que, lenta, cada vez mais lenta, faz um café, despeja numa caneca de louça, volta pra escrivaninha segurando a caneca com as duas mãos; senta na cadeira do Pai e fica olhando pra ampulheta. De vez em quando levanta a caneca e bebe um gole; e mesmo

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158 Lygia Bojunga

quando o café acaba ela continua assim, segurando a caneca com as duas mãos.

Carolina só se mexe quando o vaso superior da ampulheta se esvazia: inverte a posição dos vasos; e só aí se dá conta do tempo que ficou ali parada, o olho de fora acompanhando o escorrer vagaroso da areia, o olho de dentro acompanhando o escuro que vai se alastrando dentro dela.

A escuridão se adensa lá fora. Dentro de Carolina também.

De repente, Carolina tem um movimento de dor: se sente trespassada por uma saudade intensa do Pai. Que vontade de se sentar na cadeirinha baixa e ver ele na frente dela, sentado onde ela está.

Sabe, pai, na semana passada, quando eu conversei com a mãe... Por um momento a frase fica em suspenso: Carolina pensando que está pegando o hábito de conversar pensado com o Pai; depois retoma o que estava dizendo: ...teve uma hora lá que eu pensei que ela ia compreender as minhas razões. Mas hoje, ela... Também, pensando melhor, por que que ela ia compreender, não é? por quê? Cada um é como é, e pronto. Ninguém muda assim, de uma hora pra outra, não é?

Ah, pai.

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159Retratos de Carolina

Meu deus, tanta coisa que eu queria conversar com você, tanta coisa.

Mas assim... sem te ver, sem te ouvir, é feito... feito... Não sei, pai, eu estou me sentindo tanto... mas tanto mesmo, dentro daquela velha imagem do túnel que a gente tem que atravessar...

Tá escuro, meu pai.Tá escuro esse túnel.E eu tô com tanto medo.Tanto, que... ah, não dá mais pra falar.Carolina sente o pensamento meio que se

apagando. Procura se concentrar na areia.Lá pelas tantas o pensamento meio que se aviva e

ela tenta retomar o papo, que que é isso, pai? que apagão tão grande é esse que tá de novo tomando conta de mim? Eu tava indo, pai, eu tava caminhando... Hoje teve até um momento em que eu cheguei a me sentir contente... Mas agora... É culpa, não é?... Será que é?... Custou tanto pr’eu me livrar da culpa com ele... Agora é com ela?... Será? Me diz, pai, é culpa? é medo? são os dois? é o quê? O que que eu faço? diz, diz!

Ah.Outra vez tenta se concentrar na areia.Tô cansada, pai. É melhor a gente deixar esse

papo pra outra hora.

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160 Lygia Bojunga

A noite vai avançando.E Carolina ali. O olho na areia que escorre, mais

adivinhada do que vista: a noite é sem lua.No pensamento, um vazio.Na imaginação, a imagem flutuante de um túnel

comprido e escuro.No peito, uma angústia palpitando.

Outra hora que passa, outra hora que passa, outra hora...

Uma claridade levíssima anuncia o dia que vem lá.Carolina se debruça na escrivaninha, atendendo ao

sono chegando.Lá pelas tantas, num ponto qualquer do sono, a

imagem do túnel se intromete, vira sonho:

Carolina está na boca de um túnel comprido e escuro, que ela tem que atravessar. A angústia no peito se traduz em medo. Cada vez que ela vai entrar no túnel, falta a coragem pra travessia: dá pra trás.

Mas de dentro do túnel vem um canto de pássaro. Carolina se surpreende. Avança pra escuridão. Estende

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161Retratos de Carolina

os braços; as mãos se espalmam pra fazer de escudo, prontas pra defender um embate. Vai avançando. O pé rasteja cada pedaço de chão antes de prosseguir. A boca do túnel desaparece.

O canto silencia.A ansiedade aumenta: parece que o pé vem

rastejando há muito, muito tempo; parece que o túnel não vai mais ter fim. Carolina experimenta correr: consegue aos bocadinhos; para a todo instante pra tomar coragem.

De repente, o embate temido: os dedos entram por uma coisa adentro. Logo recuam, apavorados.

Carolina está paralisada, sentindo uma presença na frente dela.

Quem é? Consegue enfim articular num sopro.Silêncio.A angústia agora é quase insuportável.Sem identificar a presença, Carolina sente que

não pode se mexer, não pode mais avançar. A mão se estende e procura um rosto; não encontra; desce então, hesitante, tateia: encontra a presença: macia. A mão começa a investigar, apalpar, não é seda, não é algodão, nem cetim. Fica nervosa quando sente que é gaze. Treme na descida que faz à procura do rolotê, chega nele, o dedo rodeia ele todo, é ele, é o vestido!

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162 Lygia Bojunga

As pernas de Carolina vão se vergando; a mão escorrega pelo vestido e tenta se apoiar no chão pra aparar a queda do corpo. Mas no chão tem outra presença. A mão se encolhe, medrosa.

Feito coisa que a escuridão não basta, Carolina junta as duas mãos feito bacia e mergulha a cara lá dentro. Pra não ver ainda mais.

Mas é compulsório: a mão tem que investigar: vai desfazendo a bacia e se abaixa pra tatear, pra buscar. Encontra e apalpa a presença no chão. O dedo afunda nela; afunda mais; e aí desliza suave pelo couro macio e velho do sapato.

É só a mão reconhecer o sapato que o Pai usava em casa que já levanta ele do chão pra se agarrar mais nele. No gesto atabalhoado, o sapato cai. A mão tateia atrás dele. Mas ele não está mais lá. Procura então o vestido. Mas também não tem mais.

Sem coragem de retomar a travessia Carolina se sente morrer. Fecha os olhos. Quando abre eles de novo, mal acredita: o que que é aquilo lá?

É uma luz.Deve ser um sonho, ela pensa, será que lá é o

fim daqui? E já vai se levantando. E já vai andando. À medida que avança pra luz, vai vendo que a luz é feérica.

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163Retratos de Carolina

O medo vai indo s’embora. A ansiedade vai atrás. Uma energia nova toma o lugar que eles largaram: Carolina apressa o passo, apressa mais, vislumbra um pedaço de céu, ah, é lá fora! e agora Carolina corre, e corre, sentindo uma urgência de ver de perto, de ver direito que traços tão fortes são aqueles que a luz ilumina.

Os traços ganham nitidez. O espanto para Carolina, já a poucos passos da presença iluminada: é a gaiola do Pet.

A gaiola está de porta aberta.Aberta, só, não: escancarada.Dentro da gaiola, um vazio bonito demais: um

vazio de libertação.Carolina chega junto da gaiola. Pega o broto

de bambu que serve de fecho pra porta. Aperta ele na mão.

E vai se sentindo encantada pela certeza de que ela fez a coisa certa, naquele dia, lá atrás, o dia do aniversário da Priscilla, quando ela sentiu tanta raiva e tanta mágoa que nem se deu conta do que a mão dela fazia.

Mas a mão tinha feito a coisa certa: tinha aberto a porta da gaiola pro Pet ir s’embora, voar, ser livre.

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O encantamento faz Carolina abrir os braços e soltar a voz: fui eu, fui eu! com essa minha mão aqui, que abri a porta pra ele ir s’embora, voar! ser dono de novo da vida que é dele. Espalma a mão no ar e olha pra ela com a curiosidade de quem está vendo uma coisa pela primeira vez; e repete, feito custando a crer, e fui eu! e fui eu que abri a porta pra ele ser dono da vida dele. Com essa mão aqui. Com essa minha mão aqui.

A luz começa a diminuir.Vai diminuindo, diminuindo...

Agora é a luz sutil da madrugada que entra pela janela.

O olho de Carolina vai se acostumando com a mudança de luz, vagueia pela escrivaninha, desce pro soalho, trepa na janela pra espiar o dia que nasce.

E aí Carolina se lembra. É mesmo! eu tinha me esquecido por completo da sensação daquele broto de bambu na minha mão. Se lembra da voz da Mãe-da-Priscilla dizendo, pra abrir a porta da gaiola a gente levanta esse bambuzinho aqui, olha só que gracinha que ele é, puxa ele assim pra cima da argola, ó.

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165Retratos de Carolina

A lembrança vai se esfumando. As imagens do sonho também.

Carolina tira o olho da janela e dá uma volta com ele no espaço que ela recriou. Gosta do que vê. Examina as plantas, devem ter dormido bem, ela pensa, que bonitas que elas tão.

Em câmara lenta, Carolina estica o corpo, a mão, o dedo; vai compondo com o corpo um s’espreguiçar; a boca vai se abrindo em feitio de superbocejo; o olho meio que se fecha, embalado no prazer do afrouxamento do corpo, mas em seguida se abre, atento à mão que se espalmou no ar.

Durante um tempo Carolina fica olhando pra mão, tentando trazer pra lembrança uma imagem sonhada que fugiu.

A cabeça começa a fazer um movimento de assentimento. A voz sai clara, sublinhando

o que a cabeça afirma:– Ser dona da minha vida...

Com essa minha mão aqui... eu vou

fazer.

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169Retratos de Carolina

Na segunda versão do meu livro Feito à Mão, em forma de introdução, eu converso com você, que me lê. Hoje, aqui, nos Retratos de Carolina, eu venho conversar de novo (obviamente, gostei da prática), mas já disposta a mudar um pouco o feitio do nosso papo.

Deixa ver se eu me explico: se lá no Feito à Mão eu uso o espaço da nossa conversa pra te contar como é que eu desenvolvi o projeto de um livro artesanal, aqui, nos Retratos, eu uso um espaço diferente (justo quando o livro vai acabando é que eu começo o papo) pra te contar a hesitação que me perseguiu até conseguir botar um ponto final na Carolina. Só que, dessa vez, eu converso com você em feitio de história-que-continua.

Foi também no Feito à Mão que eu perdi de vista o meu gosto de privacidade e trouxe as minhas moradas pro texto do livro. Agora, aqui, nos Retratos, retomo também essa prática: a de trazer minhas

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moradas pro meu texto. Mas com um propósito um pouco diferente: o de começar a integrar minhas personagens com os meus espaços (pensando assim: se eu sou uns e outras, por que dissociar uns das outras?), encarando o fato de que agora nós – meus personagens e eu – passamos, “fisicamente”, a morar juntos.

Foi por causa disso que:

um dia desses, no Cata-vento, ouvi a porta se abrindo e fechando lá embaixo. Pensei, qual deles está chegando? Mas quando escutei a cadência dos passos subindo a escada eu logo senti que era a Carolina. Ela parou na porta e passeou um olhar atento pela minha mesa de trabalho:

– Você estava escrevendo?– Na cabeça; quer dizer: tava pensando.– Em mim?Hesitei. Ela veio chegando pra perto:– Será que dá pra gente conversar um pouco?– Claro, ué.Ela puxou uma cadeira pra junto da mesa e

sentou:– Desde que você botou aquele ponto final em

mim eu estou querendo esse papo contigo. Mas eu

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sei que, quando eu resolvi reconstruir a minha vida com essa minha mão aqui – espalmou a mão sobre a mesa – você logo se envolveu com o Discípulo, e eu não quis, de saída, perturbar o affair de vocês dois. – Meio que riu.*

Fiquei olhando pra mão espalmada: grande, forte, sem esmalte na unha curta, sem anel em dedo nenhum; mão de quem vai mesmo abrir um caminho, eu pensei; que bom que eu fiz ela assim. Carolina recolheu a mão e disse, eu queria te pedir pra fazer mais um ou dois retratos de mim.

Não olhei com bons olhos pra ela.– Já sei – ela foi logo dizendo –, já sei que o

teu interesse tá agora no Discípulo, e que você me considera, abre aspas, acabada, fecha aspas. Sei também que você não gosta que a gente se intrometa no teu trabalho, mas... – Hesitou. – Bom, pra ser bem franca: eu não me conformo da gente se separar assim: só deixando retratos negativos de mim.

– Negativos?– Então não são?

*Discípulo é o personagem-chave de uma peça que eu estou escrevendo.

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– Não mesmo! Eu te retratei estudiosa, corajosa, criativa; eu te fiz valorizar uma coerência com você mesma, uma...

– Você pode até ter me feito uma pessoa legal, como você diz, mas os retratos que você fez de mim são todos negativos.

– Negativos por quê?– Mas será que você não se deu conta disso?– Disso o quê, Carolina?– Ora o quê! Primeiro você me retrata aos seis

anos, sentindo todo o alvoroço de um primeiro amor; mas em vez de fazer a minha amizade com a Priscilla florescer, você logo bota uma traição no meio e nos separa. Não me dá nem tempo de curtir a Priscilla e a família dela: aqueles irmãos todos que ela tinha, o pai que fazia gato e sapato de nariz, peito e orelha...

Comecei a rir. Carolina parou de falar e ficou me olhando. Séria.

– Eu concordo com você, Carolina, a Priscilla e a família dela davam um monte de retratos coloridos. Mas eu estava a fim de preto e branco, o que que eu posso fazer? Estava a fim de te fazer descobrir bem cedo que amor e ódio andam assim, ó, juntinho um do outro; tava a fim de te mostrar de saída a dor de uma traição.

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– Então tá bem, você podia ter me mostrado e pronto. Mas você não se deu por satisfeita, muito ao contrário: me leva pra outros retratos e cria em cada um deles uma nova frustração.

– Ah, Carolina, para com isso! Posso ter te frustrado aqui ou ali, mas te dei também muita coisa boa. Não vai me dizer agora que você não adorou aquela viagem à Europa e aquela paixão por Londres.

– Mas no meu retrato com Londres...– E nesse amor eu não te frustrei, te fiz voltar lá

na tua lua de mel, e do jeito que eu te fiz resoluta pra abrir o teu caminho, eu tenho certeza que você vai poder matar muitas vezes a saudade desse amor.

– Mas no meu retrato com Londres o que aparece mesmo é uma frustração!

– Frustração de quê?!– Daquela loja fechada! Do vestido que não deu

pr’eu comprar.– Mas, se eu não fecho a loja, como é que, depois,

você vai se enfiar num vestido da Eduarda? E criar o impacto que criou no Homem Certo?

– E pra quê? e pra que o impacto? Tudo que é retrato que você fez de mim a partir do momento que eu me apaixono por ele é uma frustração atrás da outra. Pra não falar na morte do meu pai, não é? Você pega

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aquele homem adorável, e que doença você dá pra ele, me diz! Ora, francamente, você tem mais é que concordar comigo: teus retratos são uma sequência de negativos.

Senti que a Carolina queria levar longe aquela discussão. Senti que a coisa que eu menos queria era encompridar a discussão: me levantei. Mas ela estava embalada:

– Até na minha profissão você me prepara uma frustração.

– Essa agora eu não entendi.– Por que que você me forçou essa vontade de ser

arquiteta?– Não forcei nada, Carolina, você já nasceu assim.– Podia ter nascido com a vontade de ser modelo,

não é? Alta e magra, feito eu sou.– O que que te deu hoje, hein? Se você fosse

uma Carolina-querendo-ser-modelo você não ia ser a Carolina-que-você-é. E você não ia ter o pai que você teve: um homem apaixonado pelas artes e que passou essa paixão pra você. E ele sabia, como você também deve saber, que a arquitetura é a arte na sua forma mais abrangente. Então eu te dei essa vocação de presente. Em vez de ficar contente, você me vem agora com esse enigma de que eu te preparei outra frustração.

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– Enigma nenhum. Será que você desconhece que quem estuda arquitetura, ou come o pão que o diabo amassou pra poder ser criativa ou mofa num escritório o resto da vida, detalhando e calculando plantas que não têm nada a ver com o que a gente quer criar.

– Mas então você pensa que isso também não acontece com...

– E nessa profissão, se a gente é mulher, come dobrado o pão que o diabo amassou.

– Em qualquer profissão.– Numas mais que outras.– Mas, Carolina, esse tal pão que o diabo amassa,

se é bem digerido, não faz tão mal assim; em muitos casos pode até fortalecer. E não esquece também que eu te dei um bom aparelho digestivo: isso conta ponto, viu? E agora me dá licença que eu vou acabar de arrumar minhas coisas: tô voltando pro Rio.

– Eu vou com você.– Ah, não vai não.– A gente ainda não acabou o papo.– Tá acabado, sim.– Eu preciso te convencer a fazer outro retrato de

mim.– Esquece isso, meu bem.– Deixa eu ir junto, me leva.

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– Não, Carolina, o Discípulo tá me esperando lá em Santa Teresa.

– Eu prometo que eu não perturbo vocês dois.– Então eu não te conheço? – Nem deixei ela falar

mais nada; vim m’embora pro Rio.

8 de setembro

Ela foi s’embora e me deixou aqui. Melhor que tivesse me deixado na Boa Liga: lá a gente olha de cada janela e só tem verde-que-te-quero-verde: montanha, vale, floresta; é um lugar retirado, estradinha de terra, ainda não tem poluição visual. Mas aqui? Eu chego na janela e o meu olho de arquiteta tropeça logo num horror qualquer de tijolo e cimento. Não me conformo de ver essa desarmonia arquitetônica, esse levantar de parede às carreiras, esse fazer de qualquer jeito invadindo tudo.

Mas isso, que me incomoda tanto, ela parece que nem vê. Diz que amestrou o olho: assim que ele chega na janela, vai direto pro mar; ou pra lagoa; ou pras dunas; ou então pras salinas.

Há muitos anos atrás, quando ela conheceu São Pedro d’Aldeia, ela se encantou com essa lagoa aí: tão

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imensa, tão gostosa pra nadar, tão aberta pro mar e pros pescadores, águas (naquela época) tão limpas. Planejou uma morada na colina mais alta de São Pedro, planejou um barquinho pra explorar a lagoa, e quando visitou uns amigos que tem lá (o dia era claro e sem névoa) apontou a outra margem da lagoa, lá longe, e quis saber o que que tinha lá. Só se via um risco tênue, delineando o estreito istmo que separa a lagoa do oceano. Disseram que era um local de salinas; falaram em Massambaba, Praia Seca; ela quis ir lá ver, mas avisaram que a estrada era muito ruim. Ela ficou imaginando que máximo de lugar era aquele, beiradeando uma lagoa que mudava de cor todo dia e que, ainda por cima, tinha só uma carreira de dunas separando ele do mar.

A morada de São Pedro d’Aldeia todo ano era adiada pro outro ano. Ela ia lá, visitava o terreno que tinha comprado, curtia os amigos, nadava na lagoa e, se não tinha névoa, ficava olhando a ponta de Massambaba, o olho forçando caminho pra ver até onde podia chegar.

Até que um dia ela veio. A estrada era um areão, ainda nem se pensava em asfalto, mas se não chovia demais dava pra vir solavancando por aí afora. Se apaixonou por esse lugar na hora. A praia deserta. O

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mar encapelado. As dunas e as salinas a perder de vista. Montes de sal. Os cata-ventos rodando (aqui venta que só vendo). Paixão que virou logo compulsão: aqui ela ia ter a morada do mar. Foi procurar o corretor da região: a casa tinha que olhar pro mar, pra lagoa e pras dunas; tinha que custar pouca grana; podia ser bem pequena; e não precisava estar pronta não. (Quase tudo que é casa por aqui ficava inacabada: estrada difícil, grana difícil, construção difícil acabavam esmorecendo os entusiastas da região). Mas a casa precisava ter quarto, banheiro, cozinha e poço, “pra gente entrar logo e morar”. Dormiu numa pousada que descobriu no caminho, e no dia seguinte comprava esta casa aqui. De saída achou a casa mais com jeito masculino que feminino, chamou ela de Cata-vento. E durante três anos ficou naquela coisa de troca daqui, completa dali, espicha de lá.

15 de setembro

Esse vento tá me dando nos nervos. É o nordeste. Às vezes ele sopra assim a semana inteirinha. Noite e dia. Não dá nem pra gente abrir uma janela, voa tudo. O quarto dela então é um terror! tem duas janelas e uma claraboia, cada uma espiando pr’um lado: o vento

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ali deita e rola. Mas, sei lá, parece que ela não se incomoda.

Ela pensa que eu vou desistir, mas eu não vou não: quando ela voltar eu começo a martelar a mesma tecla: ela tem que fazer mais retratos de mim.

Mas, até ela voltar, o que que eu fico fazendo aqui nesta casa? Não adianta querer planejar a minha vida, o meu trabalho, nada! Eu ainda dependo dela pra tudo.

2 de outubro

Quando ela chegou, da vez passada, ela disse que tinha vindo me buscar; falou que me deixou aqui descansando antes de me dar tchau, no caso de ainda surgir uma dúvida aqui, outra ali; e quando foi dormir já falou no Discípulo, disse que agora ia se concentrar nele.

Mas, quando ela foi embora, ela disse que não me levava junto porque eu ia perturbar os dois, ela e o Discípulo.

Hmm...

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Se ela tivesse mesmo resolvida a me dar tchau, ela me levava embora e pronto.

É...Se ela não me levou é porque ainda não me

desligou.Então eu tenho que aproveitar pra martelar a

minha tecla.Hmm...Mas será mesmo que ela ainda está ligada em mim?

10 de outubro

Me lembro que um dia eu estava lendo um livro sobre arquitetura e tinha lá um dito muçulmano que era mais ou menos assim: a gente dá forma às construções, depois as construções nos dão forma.

Uma das coisas que sempre me fascinou em arquitetura é ver como é que ela influencia todo o mundo.

Eu sei que a maioria das pessoas nem se dá conta das construções que vão se espalhando nos lugares onde elas moram, nas ruas onde elas andam. Eu cansei de fazer essa experiência com a Bianca. E com outros colegas também. Que prédio tem naquela

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esquina onde todo dia a gente dobra?, eu perguntava. E naquela outra onde todo dia a gente para esperando o sinal abrir? Nunca ninguém soube dizer. E sempre com a mesma desculpa: é tudo igual... Mas eu sei também que, mesmo que a gente não preste atenção na arquitetura em volta, ela é uma presença que influi no astral da gente.

20 de outubro

Nesse tempo todo que eu estou aqui pendurada, só esperando ela voltar, eu fico sonhando um sonho que toda a vida eu sonhei: de repente, um poderoso qualquer me chama e diz, Carolina, aqui vai nascer uma cidade, você tem carta branca pra planejar ela todinha. (Será que o Niemeyer e o Lúcio Costa também sonhavam com isso desde pequenos?) E aí eu começava a inventar plano-piloto, rua, prédio público, moradia, tudo. Meu deus, que tesão que deve ter dado no Lúcio quando recebeu o convite pra planejar Brasília!

Mas não precisava ser um poderoso-presidente, não! Não precisava ser nem governador. Podia ser o prefeito de um município qualquer. E podia já ser uma

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cidade existente. Desse tamanhinho assim. Podia ser esse vilarejo aqui! O prefeito lá de Arraial me chamava e dizia: Carolina, carta branca pra reestruturar aquele distrito onde “penduraram” você.

– Mas, Sr. Prefeito, já aconteceu cada barbaridade por lá!...

– Reestruture. Bote abaixo, se for preciso.– Pode?– Carta branca, já disse.– Mas olha que pra cada barbaridade abaixo a

gente vai dar uma senhora indenização.– Dê!– A prefeitura aguenta?– Tenho uma verba gigantesca pra salvar essa

região do desastre ecológico que vem se anunciando faz tempo.

– Vindo de onde?– Do FMI.– De onde?!– Tudo que é juro que o Brasil já pagou dessa

famigerada dívida externa está sendo devolvido. Com juros.

– Não acredito.– Nosso município vai ganhar um bolão desse

bolão. Justo pra isso: salvaguardar nossas riquezas

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ambientais; restaurar nosso patrimônio arquitetônico. Vamos acabar com essa poluição toda que anda por aí, dona Carolina! inclusive a visual: reestruture! bote abaixo!

– Mas vão mesmo devolver essa grana toda, Sr. Prefeito? Olha que é grana pra caramba.

– Pra caramba!– Isso não vai dar ensejo a corrupções?– E eu? o que que eu estou fazendo aqui? Você se

esquece que os prefeitos foram feitos pra garantir os interesses públicos? É claro que nós não vamos permitir que o povo seja lesado por qualquer corrupção.

(Se é pra sonhar, vamo’ lá.)Aí eu ia e começava a atacar cada barbaridade.

Começava por qual? Deixa ver... Xi! já são tantas... Bom mesmo era começar da estaca zero: terreno limpo; o primeiro projeto, as primeiras linhas, ah! que máximo que ia ser. Quanta planta e quanto projeto eu já desenhei, sonhando com o dia em que eu vou poder criar eles. Mas sempre gostei de começar do zero, ela não: só teve uma casa que ela começou do princípio: a Boa Liga; nas outras moradas ela sempre pegou casa já levantada e já vivida por gente que chegou antes. Engraçado, parece que ela não se incomoda com isso. Acho até que ela gosta é assim: vai transformando

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devagar. Um belo dia some uma parede. Meses depois aparece uma janela onde não tinha, e onde tinha uma porta de repente não tem mais.

Sempre andando juntos: tijolo e cimento, caderno e livro. Ela já disse que vai ser assim até o fim. Se envolve com as moradas do mesmo jeito que se envolve com a gente.

Só uma vez ela alugou a morada de Santa Teresa, durante um tempo grande que ficou lá por Londres. Quando voltou, a inquilina contou pra ela que tinha tido um filho lá na casa; durante mais de um ano amamentou a criança numa cadeirinha baixa, de braços, que morava lá. A vivência de amamentar ali o filho tinha sido tão maravilhosa, que nem ela nem a criança podiam mais dispensar a cadeira: ao deixarem a casa, levaram a cadeira junto. Ela riu, achou ótimo, tipo da coisa natural, e disse que ela também era assim: os personagens que ela nutria numa morada durante meses, às vezes anos, deixavam uma impressão tão forte no lugar que, depois que eles iam embora, ela continuava presa ao lugar onde tinha criado eles.

Não sei se é por isso, mas que ela deita raiz nessas casas, ah! deita.

Por isso que, quando há pouco eu me lembrei daquele dito muçulmano, eu me lembrei logo dela: cada

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uma dessas moradas a que ela dá forma vai formando ela. Ela e a gente. É meio esquisito, mas é assim.

Essa casa aqui, por exemplo, o Cata-vento. Não tem nenhum sofá, nada de confortável pra gente afundar, é tudo tão despojado, só tem cadeira dura pra gente sentar. Se quer afundar, tem rede lá embaixo, ela diz. E pronto. No chão, só ladrilho; nas paredes também quase nada, e pra quê? ela pergunta, se tem janela pra gente ver a lagoa, as dunas, o mar? Mesmo livro tem pouco. Aqui ela quer tudo bem pouco. Já chega a natureza, ela diz, que aqui se mostra tão exuberante, quase excessiva, no jeito que o céu se incendeia quando é hora do pôr do sol; na quantidade de astros que aparecem quando a noite vem chegando; na fúria que, volta e meia, ataca o mar; na estridência do assobio do vento; na brancura-de-doer-olho de uma duna ou de um monte de sal; ou então no verde mutante que a lagoa sabe mostrar; é tudo tão grandioso que ela se sente compelida a se despir o mais possível, não só de roupa e de enfeite, mas também de atos, palavras...

Essa casa então dá essa forma pra ela: aqui ela lê pouco, escreve pouco, conversa pouco. É coisa demais pra ver, ela fala. E vê sempre a mesma coisa: o céu, o mar, as dunas, a lagoa.

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Antes, ela ficava um tempão olhando a salina aí embaixo: os cata-ventos em movimento, o sal brotando nos retângulos da água que evapora.

A salina virou um loteamento vale-tudo, quer dizer, sem planejamento. Ela não olha mais pra lá: o olho se distancia pras salinas mais distantes que, um dia desses, vão também acabar.

29 de outubro

Ela está demorando a voltar.Será que ela vai me esquecer por aqui? Será que...

Não: mais dia, menos dia ela tem que voltar. Foi sempre assim: ela não aguenta ficar muito tempo numa morada só.

Quando eu cheguei no Cata-vento fui logo dizendo pra Carolina que não ia demorar, tinha ido só pra fazer uns pagamentos e no dia seguinte já pretendia voltar.

– Pra ficar junto dele, não é?Nem precisei olhar pra ela: o tom de voz já foi

suficiente pra me alertar que a Carolina estava em plena crise de ciúme.

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– Bom, eu nunca fiz mistério, não é, Carolina? eu estou mesmo muito envolvida com o Discípulo.

– Mas se você está tão envolvida assim, por que deixa ele lá? Você podia ter trazido ele com você, não podia?

– Não.– Por quê?– Ora, Carolina.– Porque eu estou aqui?– Claro, não é?– Mas eu já prometi que eu não vou perturbar

vocês. Seja aqui, seja lá.– Mas eu sei que você vai. Eu te conheço muito

bem, Carolina, eu sei que quando você empaca, empaca; e agora você empacou nessa história de que eu tenho que te retratar outra vez.

– Outra vez, não: de um jeito... um jeito que... que não me frustre como você me frustrou.

– De novo, Carolina? Mas eu já te disse, eu compensei tuas decepções com essa tua determinação de abrir um caminho com essa tua mão aí. E pronto! Não me aborrece mais com isso. – Subi pro meu quarto, fui botar o short e o pé no chão que eu logo boto quando chego lá e tomei um susto quando ouvi atrás de mim a voz da Carolina perguntando:

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– Como é que ele é, hein? – E, em seguida, num tom convincente e meigo: – Você nunca me contou como é que ele é...

A Carolina, quando quer, sabe ser muito sedutora. Fiquei logo em guarda quando vi que ela estava querendo me ouvir falar do Discípulo. Mas aparentei bobeira:

– Ele quem?– Ora quem! o Discípulo. – Sentou no peitoril da

janela. – Me fala um pouquinho dele, vai.– Não.– Puxa, que que custa?– Mais do que você pensa.– Pelo menos o nome dele você vai me dizer, não

é?– Você já sabe...– Não sei não: você só chama ele de discípulo...– Pois então? Ele se chama Discípulo.– Isso não é nome.– Pra mim, é.– Mas por que que você chama ele assim?– No dia em que a peça ficar pronta você vai saber.– Que idade ele tem?– Mais velho que você.– Muito mais?

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– Hmm...– Que nem o Homem Certo?– Não, não!– Uns... trinta anos?– É... por aí. Um pouco menos.– Alto ou baixo?– Assim... assim mais ou menos da tua altura.– Mais pra claro ou pra moreno?– É... assim... É: mais pra moreno. Os olhos são

escuros. E o cabelo também, se é que você quer saber.– Comprido?– O quê?– O cabelo!– Ih... sabe que eu não me detive nisso?– Puxa, mas cabelo é coisa que a gente repara

logo.– Bom... vai ver... Ah, já sei! ele amarra o cabelo

atrás do pescoço.– Ah, que lindo, então é comprido.– Amarrado assim, ó. É: agora eu sei que é assim.– E o que que ele faz?– Como, o que que ele faz?– Não precisa ficar impaciente, não é? Puxa, afinal

de contas não custa tanto assim falar um pouquinho dele pra mim.

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– Sabe que hoje eu ainda não fiz nenhum exercício? vou lá na lagoa nadar um pouco. – Fui pegar minha bolsa de praia. Carolina veio atrás:

– Mas, hein?– O quê?– O que que ele faz? tem profissão? não tem? tá

desempregado? não tá? – Ele é um... Carolina, vamos deixar essa conversa

pra outra hora, tá? – E saí.Dizem que todo mundo tem lá suas superstições;

dizem que, às vezes, elas se escondem tão bem que a pessoa nem se dá conta de que é supersticiosa. Não sou exceção. E sempre me dei conta da minha superstição maior: acho que se eu falo dos personagens que ainda estou criando eles vão me escapar. E sei que um dos tropeços maiores da minha profissão (e não tão infrequentes...) é, de repente, perder um personagem de vista.

Me demorei bastante na lagoa; depois fui pras dunas ver o pôr do sol no mar, voltei com a lua. Estava cansada. Comi uma coisinha, fui ler, mas dormi logo.

Acordei lá pelas tantas com a Carolina sacudindo o meu ombro; ouvi a voz dela perguntando, ou melhor, suplicando:

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– Diz: o que que ele faz?– Amanhã, Carolina, amanhã.– Não: agora. Não custa nada, vai; só um

pouquinho, que que custa?Acendi o abajur:– Mas que interesse tão grande é esse, de repente?– Curiosidade, ué.– Ou ciúme?– Também. Se você me abandona por causa dele,

eu tenho mais é que ficar com ciúme, não tenho não?Amoleci:– Você acha mesmo que eu estou te abandonando,

meu bem?– Então não tá? Então não me deixa aqui fechada?

Pendurada? Nessa expectativa de ver você atender ou não ao meu pedido?

– Que pedido?– Ah, não te faz de boba: você vai ou não vai fazer

mais retratos de mim?Positivamente a Carolina estava acabando com o

meu sossego: ou queria saber do Discípulo, ou voltava a bater na tecla dos retratos. Suspirei: vi que ela não ia me deixar dormir. Sentei na cama, cruzei os braços e fiquei olhando pra ela. Ela sentou também e ficou esperando.

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192 Lygia Bojunga

E se eu falasse um pouco dele? Só um pouco. Será que ele me escapava?

– Mas, hein? O que que ele faz?Afinal de contas, a Carolina não era uma pessoa

qualquer, era a Carolina; e falar do Discípulo pra Carolina era praticamente a mesma coisa que falar dele pra mim: ele não ia poder me escapar. Eu estava levando aquela superstição longe demais, não estava não?

– Ele é cientista? ele é artista?– Não, ele é um terrorista.– Ele é um quê?!– Terrorista.Ela ficou me olhando assustada. Mas depois

riu:– Não vai me dizer que ele tinha conexões com o

Bin Laden.– Bom, já que eu te contei o que que ele é, agora

você pode me deixar em paz, não é?– Ah, não! Agora você tem que me contar mais

desse terrorista. Ele é a favor desses ataques suicidas? Ele aprovou os ataques a Nova York e Washington?

– Não.– Ah, que bom! então ele é um terrorista...

pacífico. – Riu.

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193Retratos de Carolina

– E-xa-ta-men-te. E esse é o grande problema, o grande dilema que ele está enfrentando.

Carolina se ajeitou melhor na cama, revelando toda a intenção de não sair dali tão cedo.

– Mas como é que um cara pacífico vira terrorista?

– Bom, desde adolescente o Discípulo é antenado nas questões sociais. Ele era ainda bem garoto quando começou a se envolver em movimentos estudantis de protesto. Mas sempre defendendo o protesto pacífico. Como era um rapaz muito carismático (era e é), em poucos anos assumiu a liderança de várias iniciativas de protesto pacífico; e como vivia pregando que cada um tem que trabalhar mais sua capacidade de resistência, vencendo pela tenacidade e não pela violência, ele começou a ser chamado de discípulo de Ghandi...

– Ah!...– ...e entrou em conflito com a família, que

queria ver ele formado em odontologia, pra logo começar a ganhar a vida “dignamente” no consultório do pai, em vez de “perder tempo com aquelas coisas que não levavam a nada”. O Discípulo é um apaixonado, sempre foi...

– É mesmo?

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194 Lygia Bojunga

– ...tudo que ele faz é na base da paixão, mergulha de cabeça...

– Bem que eu desconfiava que ele era assim.– ...começou a escrever pra jornal e revista,

folhetim, cartaz, qualquer coisa servia pra divulgar e incitar as mudanças que ele julgava mais necessárias: a reforma agrária, o ensino gratuito de qualidade, as creches, a valorização do professorado de ensino básico. Enfiava a noite escrevendo, acabou abandonando estudo, casa, conforto, pra viver na pele a vida da maioria da nossa gente: os que não têm nada ou quase nada.

– Cara legal, não é?– É... ele era um cara legal.– Era? – Era.– Ele mudou?– Mudou.– Mas por quê? O que que você arrumou com o

teu discípulo de Ghandi?– Bom, eu acho que você saiu tão com mania de

querer ser coerente com você mesma, que acabou sobrando pro Discípulo: ele já nasceu trazendo dentro dele um belo talento pra incoerência. Então, lá pelas tantas, ele mergulha de cabeça numa paixão pela Tânia.

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195Retratos de Carolina

– Tânia.Achei curiosa a entonação que Carolina emprestou

à voz quando repetiu o nome da paixão do Discípulo.– Bom, o Discípulo sempre foi meio mulherengo,

sabe, Carolina. Mas até aí tudo bem, nenhuma incoerência. Só que ele nunca foi muito apegado a nenhuma namorada. O que também me parece coerente: afinal de contas, o apego maior dele era a defesa das causas sociais. Até o dia que ele encontrou a...

– O que que ela faz?– Primeiro ela disse pro Discípulo que fazia isso,

depois aquilo, depois começou a se referir a si própria como ativista política. Mas o Discípulo nem se ligou no que ela fazia ou deixava de fazer...

– Ué.– ...só prestava atenção no olho de gata que ela

tinha e na cabeleira ondulada que se arrepiava também toda quando a Tânia dizia que se arrepiava de horror diante do poder dos poderosos. Por mais que ele tentasse entender como é que aquele maciço de cabelo se arrepiava daquele jeito, ele não conseguia. Mas não conseguia mesmo. No princípio a Tânia não explicou direito de que poder e de que poderosos ela falava. E também não ocorreu ao Discípulo perguntar, porque, de repente, ele também: só de olhar pra Tânia ele se

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196 Lygia Bojunga

arrepiava todo, e tanto, que o resto saía de foco. Bom, mas uma coisa eu tenho que dizer pra você, Carolina: a Tânia é belíssima.

– Hmm.E o Discípulo mergulhou numa paixão que eu não

te conto.– Hmmm. – E depois de uma pausa: – E ela?– Retribuiu. Igualzinho. Só que ela é de natureza

essencialmente dominadora: gostando ou não gostando de alguém ela tem que moldar as pessoas com quem ela convive: “botar do meu jeito”, feito ela diz. Nasceu assim; moldar o outro já virou uma prática enraizada. Começou logo a moldar o Discípulo. E lançou mão da prática de uma maneira tão sedutoramente eficiente que ele nem se deu conta do quanto ela estava transformando a crença dele de vencer pela resistência e não pela violência, na crença dela de combater o poder estabelecido mediante o emprego da violência.

– Então ela era uma terrorista?– Era, não, minha querida: é. Das mais convictas.

Capaz até de se lançar com tranquilidade numa missão suicida. Levando o Discípulo junto, se ela achar que é bom pra causa. O início da peça é o gradual despertar do Discípulo, quer dizer, ele começa

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197Retratos de Carolina

a se dar conta do quanto o envolvimento com a Tânia já puxou ele pro fundo do poço. A essas alturas, ele já participou de um atentado com o grupo da Tânia, e a polícia está atrás deles.

O olhar intenso da Carolina cravado em mim de repente me despertou: vi que estava indo longe demais no “bocadinho” que ela tinha me pedido pra contar. Me freei:

– Bom, já fiz a tua vontade, já te falei bastante do Discípulo. Amanhã eu tenho que ir cedo, ele está me esperando; tô cansada e quero dormir, TÁ? – Apaguei a luz e sumi debaixo do lençol.

7 de novembro

Quando ouvi o motor do carro voei lá pra baixo. Ainda era cedo, mas ela já tinha ido nadar na lagoa. (Agora ela pegou essa mania, diz que é mágico: uma ou outra gaivota; às vezes um vira-lata zanzando na areia; e, lá pelas tantas, toc-toc-toc: o barulhinho do motor da embarcação precária que os pescadores daqui usam, e que, de longe, já anuncia a volta de um deles que saiu pra pesca noturna; fora isso mais nada, mais ninguém.) Ela já estava indo pro Rio.

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198 Lygia Bojunga

– Me leva junto! – eu pedi. E jurei que não perturbava ela nem o Discípulo, mas...

– Carolina, será que não dá pra entender que, no momento, eu só estou querendo me ocupar dele?

Foi s’embora e me deixou aqui de novo em banho-maria.

Bom, pelo menos eu sei que enquanto ela me deixa aqui pendurada é porque ela ainda tá hesitando no tal tchau.

Foi sempre assim: ela custa demais pra se separar da gente de vez.

Eu tô quase apostando que eu acabo ganhando: ela vai fazer mais retratos de mim.

15 de novembro

Puxa, ela bem que podia trazer ele pra cá...Eu levava ele pra ver tudo de tão lindo que ainda

tem por aqui.As bromélias lá na restinga.A igrejinha de Massambaba.

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199Retratos de Carolina

Quilômetro e mais quilômetro de praia deserta pra gente ir andando com o pé dentro d’água... (De mão dada?)

Aí, a gente subia numa duna pra ver melhor a chegada da lua...

(Eu desmanchava? Ou se desmanchava o atado no cabelo dele?)

Na volta a gente ia pro belvedere pra ver lá longe tudo que é luzinha de Araruama, Iguaba, São Pedro. Mas o vento tinha que estar manso pra...

Ah, eu não devia ter insistido tanto pra ela me falar dele.

Não devia mesmo.Agora ele não sai da minha cabeça.Mas eu sempre fui assim, o que que eu posso

fazer? eu sempre fui intuitiva. Foi só saber do envolvimento dela com o

Discípulo que eu já senti esse troço aqui no meu peito. No princípio eu pensei que era ciúme só.

Ciúme dela.Mais que ciúme até: mágoa: antes mesmo de se

separar de mim ela já andava às voltas com ele, então não é pra me magoar?

Mas, depois que ela me falou dele, eu saquei que essa coisa aqui no peito era mais que ciúme, era

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200 Lygia Bojunga

intuição. Intuição pura. Senti direitinho que o Discípulo ia me tirar do sério. Não: mais. É: mais: senti direitinho que a gente pode ter nascido um pro outro.

16 de novembro

E a Tânia? O que que ela podia fazer com aquela medonha Tânia pra tirar ela do caminho?

Ora o quê! Uma missão suicida e pronto: lá vai a medonha junto com a bomba e não se fala mais nisso.

Mas aposto que a Tânia ia querer levar o Discípulo junto...

Ele não ia, ué! A gente não deixava.Bom, isso é um detalhe.Hmm... Não é tão detalhe assim.Ah, mas ela dá um jeito, inventa um troço

qualquer, escritora é pra isso.E ela disse, não disse? que a polícia já andava atrás

deles...Taí: a polícia pega a Tânia, mas o Discípulo

escapa, pronto: que mais que precisa?Puxa, não precisa mais nada: ele escapa e vem aqui

pro Cata-vento,Tá resolvido.

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201Retratos de Carolina

17 de novembro

Esta noite eu tive um sonho incrível.Era de noite e eu saí pra andar na restinga.Tinha um quarto minguante que clareava muito

mais ou menos as dunas. Quando eu desci uma delas vi um homem deitado

na areia.Não tive a menor dúvida: é ele, eu pensei. Parecia

que estava dormindo. Braço cruzado tapando a cara. Joelho levantado. Pé enterrado na areia. Do lado, uma mochila pequena e uma sandália velha de couro.

Sem susto nem nada sentei do lado dele e fiquei vendo ele dormir. Escutando ele dormir. Rocei minha mão na dele pra sentir ele dormir.

A impressão é de que passou muito tempo só assim, a onda batendo na praia e ele dormindo junto de mim.

O primeiro que se moveu foi o braço: destapou a cara dele.

A lua era minguante, mas tinha muita estrela no céu: eu vi o olho dele se abrindo e olhando pra mim.

E a gente ficou assim, só se olhando e mais nada.Senti meu corpo amolecendo; foi só minha mão se

abraçar com a dele que eu já senti eu-me-molhando; e quando me abaixei pra dizer, eu tenho te esperado,

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202 Lygia Bojunga

não deu pra dizer o tanto que eu queria: a língua dele travou minha fala, meu dente roçou no dele, e eu senti, eu senti! que ele estava deixando a Tânia pra trás, eu senti ele se apaixonando por mim. E aí a gente...

Nossa! Eu acordei quase morta.De vergonha? Não, não, que é isso! De prazer

e de esperança: acho que ela vai fazer a gente viver uma história... não: uma tremenda história de amor.

20 de novembro

Ela precisa transformar minha intuição em realidade. Ela tem que fazer a gente viver o sonho que eu tive.

Dia 26

Cada vez que ela demora a voltar, eu fico pensando se ela não vai mais voltar. Quer dizer, voltar eu sei que ela volta, o que eu fico pensando é se ela vai “esquecer” os meus retratos aqui pra sempre.

É bem capaz.

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203Retratos de Carolina

Não havia de ser a primeira nem a última vez que ela “se esquece” da gente pra sempre numa morada dessas.

Não, não pode ser... Essa demora deve ser porque ela foi embora chateada com o Cata-vento. Chateada de ver construção brotando feito cogumelo nesse paraíso todo por aqui, que é área de preservação ambiental. Loteamento tomando lugar de salina; invasão acontecendo pra cá e pra lá; às vezes vem o Ibama e a invasão desacontece: às vezes vem o Ibama e a invasão continua acontecida; e quase tudo que é construção fica no tijolo; dizem que é a falta de grana que não acaba a casa; mas dizem também que casa-que-não-acaba não paga IPTU. Será?

Mas o que deixou ela mais perturbada foi que, quando ela chegou aí na janela, viu um trator fazendo terraplenagem na restinga. Justo lá onde eu sonhei que tinha encontrado o Discípulo e que a gente... Hmm... foi tão bom! Quem sabe essa noite eu sonho de novo com ele...

Dia 29

Quando ela voltar, vai ficar aliviada: a invasão na restinga desaconteceu: o Ibama embargou.

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204 Lygia Bojunga

E essa invasão não era de quem-não-tem, era de quem-tem: dono de salina. Dono? Os antigos da região falam que isso tudo por aí não foi comprado: foi arrendado pra explorar o sal. Quem arrenda não é dono, é ou não é? um dia tem que devolver. Sei lá. Só sei que essa discussão de invade não invade tá sempre vindo à baila aqui no Cata-vento. Tem os que acham que se o istmo não resiste a essas invasões todas, o cerco da lagoa se fecha e ninguém mais salva ela da poluição total. (Mas será possível que vão deixar esse milagre da natureza sem salvamento?) E tem os que defendem as invasões. Eles falam que, se é invasão de pobre, a gente tem que respeitar: o importante é quem não tem casa passar a ter; e, se é invasão de rico, quer dizer, loteamento, também é bom: dá emprego, atrai veranista, ajuda o comércio local. É cada discussão que rola por aqui!

Agora eu fiquei pensando que lado o Discípulo ia defender: invade ou não invade?

Acho que eu vou ficar pensando mais nisso: já notei que, sempre que eu fico pensando o dia inteiro numa coisa de noite, eu sonho com ela. Ia ser tão bom sonhar de novo com o Discípulo...

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205Retratos de Carolina

Dia 30

Sonhei!(Ou será que imaginei?)Ele estava lá mesmo. Na restinga. Deitado. O

braço atrás da cabeça, fazendo de travesseiro.O olho bem aberto pro céu.Pensando.– Em quê, meu amor? – eu quis saber. E me sentei

do lado dele.A barba dele tinha crescido.Ele pegou a minha mão e ficou roçando a barba na

palma dela.Bom.Tinha uma orquídea em flor bem perto dele.

Amarela e roxa.Bonito que era olhar pros dois. Mas eu queria

saber:– Pensando em quê, meu querido?– Você.Fui me sentindo meio bamba. Que nem da outra

vez. (Foi ontem a outra vez, não foi?) (Esse negócio de tempo... aqui... é meio irreal...)

E aí eu desabafei pra ele: eu tenho estado tão sozinha que você nem imagina; faz tempo que eu não

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206 Lygia Bojunga

transo com ninguém; por isso que só da tua barba roçar minha mão eu já fico assim, ó, sente só.

Ultimamente eu sonho tanto com essas coisas que eu acordo até cansada.

Isso eu não disse pra ele, eu tô pensando é agora.Sonho de me acabar!Com sexo.Mas aí, no sonho eu quero dizer, quando ele tirou

minha blusa pra casar a barba dele com o meu peito, chegou um garoto. Magrinho toda vida. Pé no chão. Short rasgado. Camiseta que político distribui em tempo de eleição. Disse que tinha um recado pra dar: “Tão esperando vocês dois pra votar lá na eleição.”

“Que eleição?”“Hoje vão resolver como é que fica essa história de

invasão.”“Mas logo agora?”“Todo mundo já votou. Só falta vocês dois.”Eu disse que a gente não podia ir: “A gente agora

vai se amar.”Mas o garoto não arredou pé: “Tem que ir. O lado

que apoia invasão tá perdendo. Vão querer derrubar casa que invasor levantou, e a gente vai morar onde? Mas vocês votando a favor a gente empata, vem, vem!”

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207Retratos de Carolina

O Discípulo foi falar. Minha boca tapou a dele.O garoto estava aflito: “A votação tá acabando,

vem!”Mas o meu tesão já tinha incendiado o Discípulo.“Vem, vem!”“Agora, não! Diz pra eles aguentarem a mão:

depois a gente vai lá e vota, juro! Some!”O garoto sumiu.Só eu e o Discípulo de novo. Nosso incêndio foi

se alastrando, se alastrando, e depois... eu acordei.Cansada daquele jeito.E a gente não foi lá votar, que vexame, meu deus!

um assunto tão importante desses e nós dois ali, só querendo transar. Que coisa.

Quando eu cheguei no Cata-vento, nem sinal da Carolina. Em compensação, logo vi o diário dela. Estava na minha mesa. Bem aberto. Em frente da cadeira onde eu me sento pra ler e escrever. Resolvi fingir que não tinha visto. Abri a janela que dá pras dunas. Que surpresa tão gostosa! Não tinha nem vestígio de trator nem de máquina nenhuma, a terraplenagem tinha sido suspensa. Iam respeitar a restinga! Iam deixar ela em paz. Fiquei tão

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208 Lygia Bojunga

desperturbada, tão levinha, que fui logo tirando roupa e sapato pra me meter num maiô e ir pra lagoa nadar.

Mas meu olho não largava o diário.Não-largava-e-não-largava. Acabei não resistindo

ao convite e me sentei pra ler. Quando acabei, fechei o caderno devagar e saí de mansinho. Doida pra não encontrar a Carolina. Nem a Carolina, nem ninguém. Minha leveza tinha sumido e eu estava outra vez perturbada: “minhas” dunas não tinham ido embora, mas “meu” Discípulo tinha. E agora? Em vez de ir nadar fui pra lagoa ruminar. Fiquei lá muito e muito tempo, sentada na areia, com o pé dentro d’água, pensando e pensando neles, no Discípulo e na Carolina. Depois voltei pro Cata-vento.

Foi só abrir o portão que a Carolina veio correndo ao meu encontro. Me abraçou, me beijou e logo quis saber:

– Dessa vez você trouxe ele, não trouxe?– Quem? – Ora.– O Discípulo?– Quem mais?Fiquei um tempo olhando pra Carolina, pensando

devo? ou não devo? contar logo pra ela o que aconteceu dentro de mim depois que eu li o diário. Resolvi que devia, sim, devia dizer:

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209Retratos de Carolina

– Trazer o Discípulo por quê, se você já se apossou dele?

– Eu o quê?– Carolina, Carolina...– Não estou te entendendo.– Olha dentro do meu olho, Carolina. Você não vai

me dizer agora que não se lembra de ter deixado o teu diário bem aberto lá na minha mesa, num pedido mais que óbvio pr’eu ler tudo que você tinha escrito, vai?

Um risinho espreitou no olho dela.– E você leu?– O que que você acha?O riso se aventurou mais um pouco:– Tinha mais é que ler mesmo, não é?– É.– E aí?– E aí você achou que, com isso, ia me influenciar

pr’eu te retratar do jeito que você quer: vivenciando uma romântica história de amor com o Discípulo, é ou não é?

– Bom... – E o riso se mostrou todo: – É.Suspirei:– Ah, Carolina, esse teu lado me escapa; sempre

me escapou.– ?

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210 Lygia Bojunga

– Esse teu lado fantasioso, eu quero dizer. Não satisfeita de ter fantasiado um amor impossível...

– Impossível não sei por quê.– ...você fantasia que essa fantasia vai me fazer

te retratar do jeito que você quer.O riso foi indo s’ embora; deixou no olho dela

uma decepção:– E não vai não?– Mas, Carolina, te retratar pra quê, se você

já se retratou? Agora só falta o título: Autorretrato aos 26 anos.

Silêncio.Carolina me olhando. De repente, resolveu

protestar com veemência:– Ah, pera lá! A única coisa que eu fiz foi rabiscar

um diário que...– ...que agora é parte da tua história...– ...que fala de uma vontade, que tece uma

fantasia...– ...e que dá um feitio diferente ao Discípulo que

eu inventei.– Não foi por mal.– Isso eu sei.– Foi só pra te mostrar que, fazendo uma história

de amor entre nós dois, você salvava ele...

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211Retratos de Carolina

– Mas eu não botei ele na minha peça pra ser salvo!

– ...você fazia ele voltar a ser o discípulo de Ghandi que ele era antes...

– Carolina...– Você não vê que ele tem que se livrar da Tânia?

Ela tá levando ele pr’uma desgraça total. Você precisa sumir com aquela mulher!

– Eu não preciso sumir com ninguém, porque eu não tenho mais Discípulo: você trouxe ele pra tua história. E se eu não tenho mais Discípulo eu não tenho mais peça. Foi isso que aconteceu, Carolina, só isso: a minha peça já era.

Carolina ficou me olhando perplexa. Depois de um tempo perguntou: já era? A tua peça já era? Feito coisa que não dava pra entender o que eu tinha dito.

– O Discípulo não é onipresente, não é? Ou bem ele está lá na minha peça, ou bem ele está aqui na tua história. – Fui sentar no degrau da porta. Carolina sentou também, sem tirar o olho de mim.

– Não era à toa que eu relutava tanto pra te falar dele; não era à toa que eu deixava ele sempre no Rio quando vinha...

– Mas, se a tua peça já era, como é que ele fica?

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212 Lygia Bojunga

– Hein?– Como é que ele fica? como é que ele fica?– O Discípulo?– Quem mais, quem mais?!– Calma, Carolina, não precisa ficar nervosa.– Mas como é que ele fica?– Ué: fica como ficou no teu autorretrato. Nem

mais, nem menos.– Mas não pode.– Por que que não pode?– É claro que não pode! Lá ele não tem... não tem

história. Não tem começo-meio-e-fim. Lá ele... ele só vive na minha imaginação; não é feito o meu pai, feito... a minha mãe, feito a Bianca...

– Mas você mesma não disse, lá no teu diário, que eu sou fruto desses espaços que eu venho criando? Então? O Discípulo fica sendo fruto do espaço da tua imaginação, dos teus sonhos. É só lá que ele vai viver.

– Mas por quê? por que que agora que não tem mais peça... – Franziu a testa, ficou em dúvida: – Você disse, não disse? que não tinha mais peça?

– É, Carolina, não tem mais peça. O que antes era peça vai virar papel rasgado. Que vai pro lixo. O caminhão vai levar. E vai deixar no depósito de reciclagem. E o que era peça vira papel reciclado.

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213Retratos de Carolina

E vai pr’uma papelaria. E um dia eu passo por lá. E vejo o papel à venda. E acho ele legal, bom pra escrever. Compro e levo ele pra casa. Começo a escrever nele. Me assalta a impressão de que eu já lidei com ele em algum lugar, em alguma época. Começo a criar nele um novo personagem. Diferente do Discípulo. Mas que, lá pelas tantas, dá uma risada igualzinha a uma risada que o Discípulo deu numa das páginas que foi pro lixo, e que o caminhão levou, e que deixou no depósito de reciclagem, e que...

– Pelo amor de deus! quer fazer o favor de se concentrar no que a gente tava falando?

– Hmm?– Você jura que a tua peça já era?– Quantas vezes você quer que eu repita?– Mas então aproveita e bota o Discípulo pra

valer dentro da minha história! Faz outro retrato de mim, dessa vez vivendo uma história de amor caprichado e não aquela paixão esdrúxula que você me fez viver com o Homem Certo.

Comecei a rir. Carolina se levantou:– Tá rindo de quê?!– Não é de você não, meu amor, é do esdrúxula:

nunca te imaginei usando essa palavra.Carolina sentou de novo; me abraçou:

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214 Lygia Bojunga

– Diz! Diz que vai fazer outro retrato de mim.– Puxa vida! Já não chega ter me tomado o

Discípulo, não? – Me levantei, fui pro quarto e fechei a porta, resolvida a não dar mais trela pra Carolina.

Mas hoje, já no café da manhã, Carolina voltou a martelar a tecla do “retrato não-frustrante”. Só que, dessa vez, ela martelou com tanto charme, com tanto abraço e carinho, que me seduziu de vez: acabei prometendo que ia retratar ela de novo:

– Mas do meu jeito, tá bem, Carolina? do meu jeito. Não vai você querer se intrometer no meu trabalho e dizer que tem que ser assim e que tem que ser assado. Combinado?

Ela concordou.

E agora eu estou aqui. Olhando pro papel em branco.

Acho que já que a Carolina se habituou no Cata-vento é melhor fazer o retrato aqui mesmo nesta mesa. Pausando o olho na lagoa. No mar. Nas dunas.

Continuo escrevendo à mão. Agora usando mais caneta que lápis. Às vezes experimento o computador. Mas volto pro papel e pra caneta:

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215Retratos de Carolina

é feito voltar pra casa, tirar o sapato e botar o short.

Uma coisa já resolvi: pra história de amor já basta o que ela andou sonhando no autorretrato.

Se ela martelou tão bem martelada a tecla de um novo retrato, eu vou também agora martelar a minha tecla...

Outra coisa resolvida: já se passou algum tempo desde aquele dia em que a Carolina sonhou com a gaiola vazia do Pet, lá no apartamentinho da Glória.

Quanto tempo? Um?... dois... três... quatro anos? ... É: quatro anos. Então:

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217Retratos de Carolina

á antes de se formar, Carolina tinha conseguido emprego num movimentado escritório de arquitetura, onde ela trabalha até hoje. Sempre sonhando com a chance de criar inteiro, criar redondo, quer dizer, criar ela mesma espaços que vão ser levantados, em vez de ficar na prancheta, desenhando e calculando detalhes de plantas que outros arquitetos criam (os donos da empresa, por exemplo). É competente no que faz. Já teve dois aumentos de salário. Mas a tarefa de desenhar e calcular esse ou aquele segmento dessa ou daquela planta é uma tarefa que se repete, e se repete, e se repete.

Todo dia a mesma prancheta. Todo dia o mesmo canto da sala. Nove horas Carolina chegando, ué! de novo essa planta aqui na minha prancheta pra ser recalculada? Seis horas Carolina saindo, e no dia seguinte às nove horas voltando e encontrando outra

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218 Lygia Bojunga

vez a planta, que tem que ser redesenhada, tem que ser recalculada, pra ficar mais econômica, e ser mais competitiva, tudo tão repetitivo!

Repetitivo, é. Mas tem emprego: viva! E já botou a vida em dia, e já pagou o que devia, e já comprou a parafernália-dita-necessária: microsoft, microonda, microisso, microaquilo, faxfreezervídeotevêsomcelular. Casa própria nem pensar: continua alugando o conjugado da Glória, mas já comprou um terreno na serra, está pagando em prestação, e já inventou a casa que vai levantar quando acabar de pagar: uma casa tão inventada, que ela vai se desfrustrar de todo esse tempo que ela fica naquela mesma prancheta, naquele mesmo canto de sala, recalculando e redesenhando cálculos e desenhos que têm que ser mais econômicos, mais competitivos, mais repetitivos.

Namora um pouco.Dança um pouco. Se diverte um pouco.Visita a Mãe um pouco.Tudo um pouco.Muito só sonho.Mas hoje Carolina acordou com muito de uma

outra coisa: depressão.Em vez de pular da cama e se entregar pra ioga

que vem fazendo, se encolheu debaixo do lençol.

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219Retratos de Carolina

Pela primeira vez, desde que começou a trabalhar, se sentiu sem coragem pra enfrentar a mesma prancheta, e mais as tais linhas, e mais os tais cálculos. Queria criar com paixão! Namorar com paixão! Viver com paixão! Mas acordou achando a vida dela tão nhenhenhém, que só tinha vontade de puxar o lençol pra cabeça, e puxou; só queria se esconder dela, da vida, de tudo que é sonho que continuava sonho, de tudo que é expectativa que continuava esperando, de tudo que ia acontecer e que todo dia não acontecia; e se escondeu.

Passou a hora da ioga.Passou a hora do café da manhã.Passou a hora da condução.E a Carolina ali, coberta de lençol dos pés à cabeça

pra não enxergar nem uma fresta do mundo lá fora.Quando a manhã já ia alta, resolveu se sacudir

daquela inércia. Foi pro banheiro, abriu um chuveiro frio e se demorou debaixo d’água até tomar ânimo pra enfrentar o resto do dia. Depois bebeu o suco que sempre bebia, tomou o iogurte que sempre tomava, comeu a torrada que sempre comia e pegou o metrô que nunca pegava: depois de somar tanto baixo astral, o resultado tinha sido um hiperatraso no horário de trabalho.

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220 Lygia Bojunga

Tinha lugar no carro do metrô. Sentou. Tirou da bolsa o livro que vinha lendo. Mas voltou a inércia: ficou de livro esquecido na mão, olhando-por-olhar as pessoas que estavam em volta.

Estação Catete.Uma moça entrou, olhou em redor, não encontrou

lugar pra sentar, ficou de pé, perto de Carolina.Carro em movimento.Carolina olhou pra moça.Lá pelas tantas a moça olhou pra Carolina.Ficaram se olhando um momento. Desviaram o olhar.Depois de um tempo pequeno, o olho da

Carolina voltou pra moça: um jeito de olhar entre pensativo e intrigado.

O olho da moça foi voltando pra Carolina, também meio pensativo.

A testa de uma se franziu; a mão da outra pegou uma ponta de cabelo e ficou virando ele no dedo, de um jeito que a gente só vira quando está muito absorta num pensamento qualquer.

O olho de uma saiu do olho da outra. Mas não demorou muito voltou. Se afastaram outra vez.

A testa que tinha se franzido, se franziu com mais força. O dedo que virava a ponta do cabelo, virou mais rápido.

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221Retratos de Carolina

E outra vez – agora mais demorado, mais fundo – o encontro do olho de uma e de outra.

A boca da moça foi se abrindo de leve, feito coisa que queria falar, perguntar. A boca da Carolina se apertou um pouquinho. E o olho das duas, agora mostrando uma dúvida, uma certa perplexidade, saiu andando pelo chão, pelo teto, pela cara das outras pessoas que estavam no metrô.

Estação Largo do Machado.Entrou uma porção de gente. Alguns se colocaram

entre a moça e Carolina.Carolina começou a procurar no banco uma

posição melhor pra ver a moça. A moça foi se deslocando, abrindo caminho, se

chegando pra Carolina.O olho das duas se encontrou de novo. A moça

conseguiu dar mais um passo, Carolina foi se levantando devagar, e quando, afinal, se viram assim cara a cara, se perguntaram justo-justo ao mesmo tempo:

– Carolina?– Priscilla?E as duas fizeram que sim.Estação Flamengo.O alvoroço foi o mesmo numa e noutra; Priscilla

mostrou ele inteiro, Carolina foi mais reservada. No

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222 Lygia Bojunga

princípio elas não sabiam muito bem se se abraçavam, se riam, o que é que faziam com um encontro assim tão-fora-de-qualquer-cogitação.

– Quanto tempo, Carolina?– Bom, eu estou agora com vinte e nove.– Eu também. Puxa! vinte e dois anos!– Já pensou?E o que mais alvoroçava a Priscilla, e também a

Carolina, era o fato de, agora, mulheres, as duas terem se reconhecido, elas que, então, eram tão crianças.

Estação Botafogo.– Eu tenho que saltar aqui.– Eu também.Saltaram. Ora andando, ora parando, Priscilla

foi detalhando pra Carolina, tintim por tintim, tudo que a lembrança e a imaginação tinham trabalhado a partir do momento em que o olho das duas se encontrou no metrô. Às vezes andava mais depressa, puxando Carolina pelo braço; mais adiante parava e continuava despejando palavras que Carolina ouvia atenta, aqui e ali o olho roubando a atenção pra examinar Priscilla, às vezes se prendendo no cabelo comprido e anelado (e não é que continuava avermelhado?), outras vezes na gesticulação abundante e no riso descontraído que volta e meia se enfiava

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223Retratos de Carolina

pelas palavras adentro; e quando a Priscilla andava, o olho logo seguia o jeito pra lá de firme que ela pisava. De repente, toda aquela movimentação parou de estalo e a Priscilla exclamou:

– Puxa! já é quase meio-dia. Deixa eu te convidar pra almoçar? Olha, aqui bem perto tem um restaurantinho que eu acho um barato. Vamos lá.

Carolina se deteve hesitante: almoçar com a Priscilla? Mas...

A Priscilla não quis saber de hesitação nenhuma:– Ah, vem! Vem me contar o que que você andou

fazendo esse tempo todo.– Mas eu tenho trabalho, Priscilla.– Eu também, ué– Você?– Por quê?– Bom...– Eu não trabalhava quando você me conheceu

porque eu só tinha seis anos – e o riso veio logo botar um ponto na frase.

A curiosidade da Carolina foi mais forte que a hesitação:

– Trabalha em quê?– Eu dirijo a fundação do meu pai. – E deu um

empurrãozinho na Carolina pra ela sair andando.

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224 Lygia Bojunga

– Mas o teu pai não era médico?– Ci-rur-gi-ão plás-ti-co, é. Só que ele ganhou

tanto dinheiro tirando peito, tirando ruga, tirando barriga, tirando tudo que todo mundo quer que tire achando que vai ficar mais bonito, e botando tudo que todo mundo quer que bote achando que vai ficar menos feio, que até eu, que sou consumista de nascença, um dia fiquei meio chateada de ver ele ganhar tanto dinheiro em cima de tanta vaidade e sugeri que ele botasse um pouco desse dinheirão todo numa fundação qualquer que atendesse gente que não tem grana (e como tem, meu deus!) e que precisa de uma plástica pra corrigir coisa séria: queimadura, acidente, defeito de nascença, o diabo.

– Legal.– Essa sugestão veio no meio de uma discussão

que a gente teve (a gente discute à beça); falei que na hora dele prestar contas a Nosso Senhor, Nossa Senhora, Santa Teresinha, esse pessoal todo com quem ele vive às voltas (meu pai é carola que você precisa ver), isso ia contar ponto. Pelo menos, eu falei, você vai poder dizer pra eles que aqui na terra você não atendeu somente à vaidade; eu tenho certeza que isso vai impressionar eles bem. – Priscilla ia andando tão depressa que Carolina mal

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225Retratos de Carolina

conseguia acompanhar. – Acertei na mosca com esse argumento dele ganhar ponto pra entrar no céu. Mas ele é meio turrão, sabe, e falou assim:

“Eu tenho uma fila gigante de nariz e ruga e peito e bunda me esperando: onde é que você quer que eu arrume tempo pra organizar uma fundação?...”

“Quem vai organizar sou eu.”“...pra procurar uma casa...”“Quem vai procurar sou eu.”“...pra levantar um espaço que...”“Deixa comigo” eu falei. – Parou em frente de um

sobradinho. – O restaurante é esse. Vamos entrar?O restaurante estava recém-abrindo. Tudo

tranquilo. Escolheram a mesa mais simpática, num canto junto à janela, e Priscilla se acomodou com prazer na cadeira, querendo saber o que que Carolina fazia: trabalhava onde? tinha estudado o quê?

Foi só Carolina falar na vocação de arquiteta, arraigada desde criança, que Priscilla logo se mostrou interessadíssima. Estimulada pela atenção da ex-amiga (e pela caipirinha que Priscilla fez chegar à mesa), Carolina começou a falar nos sonhos e nas frustrações da carreira de arquiteta. E mesmo depois que a caipirinha acabou e que escolheram o que iam comer, Carolina, puxada pelas perguntas cada

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226 Lygia Bojunga

vez mais interessadas da Priscilla, foi detalhando sonhos, projetos e desilusões. Perguntas e respostas só ganharam uma pausa quando chegou o prato que Carolina escolheu: uma lasanha.

A lasanha ocupava o centro de um prato grande e oval; do lado esquerdo, mais como decoração do que como acompanhamento, folhas de alface, lisa, crespa e roxa, formavam uma flor; o miolo da flor era uma ameixa seca.

Foi só olhar pra ameixa que Carolina emudeceu. E ficou um tempo parada, só olhando pra ameixa e mais nada. Quando afinal levantou o olho do prato, meio que se surpreendeu com a expressão de intriga que viu no rosto da Priscilla. Voltou a pousar o olho no prato. E as duas começaram a comer em silêncio.

Lá pelas tantas a Priscilla reclamou:– Mas conta mais, Carolina!– Contar o quê?– Ora! Tudo que você estava me contando que fez

e que sonhou desde aquele dia em que brigou comigo.– Mas eu não briguei com você, Priscilla.– Ué: eu me lembro que no dia seguinte do meu

aniversário eu cheguei na escola e você mal me olhou. – Carolina fez menção de retrucar, mas Priscilla continuou: – E, no outro dia, menos ainda. – Riu.

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227Retratos de Carolina

– Aí eu quis mostrar pra você que eu não estava me incomodando com a tua zanga e fui eu que não te olhei mais. Bom, e aí foi aquela reviravolta na minha vida: saiu a nomeação do meu pai pro Hospital de Cirurgia Plástica em Washington, minha mãe recebeu uma proposta pra cantar no Metropolitan, ficou num alvoroço medonho, fizeram as malas correndo, resolveram que eu era muito pequena pra ficar com os meus irmãos, quando eu vi... estava chegando em Nova York. E pronto: ficamos morando lá nos Estados Unidos. Mas chão da gente é chão da gente, não é? No fim de cinco anos tava todo mundo louco pra voltar. Começando por meu pai, que resolveu abrir uma clínica em São Paulo; depois em Belo Horizonte; depois em Curitiba; ia de uma pra outra, operava noite e dia, já tava querendo até operar dentro do jatinho que levava ele pra cá e pra lá. Funcionava em ritmo frenético; foi desaprendendo o resto da vida, só sabia falar de nariz, orelha, peito e ruga que era assim e ficou assado. – Caiu na gargalhada. Mastigou uma garfada e, de repente, num tom sério, quase solene: – Antes tarde do que nunca: queria te pedir desculpas de ter chamado a tua mãe de puta. – E vendo uma expressão de total incompreensão no rosto de Carolina: – Naquele dia. Dos meus sete anos.

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228 Lygia Bojunga

Você desabafando comigo toda dor de uma surra que a tua mãe tinha te dado com o chinelo do teu pai, lembra? e eu ali, não só morta de impaciência de ficar te ouvindo, como ainda acabo chamando a tua mãe de puta. Você tinha mesmo que se magoar comigo, não é, Carolina. Você era tão sensível. Era, não: eu sinto que você continua igualzinha. Então... com toda a sinceridade, aqui fica o meu pedido de desculpas.

O olho de Carolina foi descendo devagar pro prato. Mas era possível? Era possível que a Priscilla tivesse achado... mesmo... que esse tinha sido o motivo da mágoa? Era possível que... até hoje ela achasse? Devagar, o olho foi voltando pra Priscilla.

– Sabe que eu nunca tinha pensado nisso, Priscilla?

– Nisso o quê?– Que você pudesse achar que a minha mágoa

tinha sido por causa disso.Silêncio. As duas se olhando.– Mas não foi não?– Não, claro que não.– Mas... mas foi por que então?Será que era de verdade essa cara de espanto que a

Priscilla mostrava? Será que ela não estava representando?

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229Retratos de Carolina

– Foi por quê, Carolina??– Foi por causa do caroço da ameixa.Pausa.– Caroço?– Priscilla, você está bem lembrada daquele dia?– Estou. Quer dizer, acho que estou. Faz tanto

tempo, não é?– O caroço da ameixa. As ameixas que vinham no

bolo. Três caroços estavam marcados pros três prêmios. A boneca maravilhosa, do tamanho da gente. A espingarda de ar comprimido. O Pet.

– Pet?– O pássaro preso na gaiola de bambu, lembra?– Ah, lembro, lembro.– Eu ganhei a boneca: o caroço da ameixa que eu

mastiguei tava marcado com o número um. Mas você fez uma “mágica”, Priscilla: transformou o meu caroço de número um num caroço de número três, e eu fiquei com o Pet. Pouco depois você fez a segunda “mágica”: tirou do bolso um caroço marcado com o número um, fazendo todo mundo acreditar que você tinha tirado ele da boca. E ganhou a boneca. Eu nunca entendi o porquê dessa traição: você tinha todas as bonecas que queria... – Baixou o olho pro prato e recomeçou a comer devagar.

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230 Lygia Bojunga

Durante um tempo bem grande as duas ficaram em silêncio.

Foi Carolina que acabou quebrando a pausa:– Anos atrás eu tive um sonho que me deixou uma

impressão muito forte.– Conta.– Não tem muito que contar: foi um sonho

curto (embora me desse a impressão de que tinha sido supercomprido). Ainda há pouco você disse que se lembrava do Pet, o tal pássaro-prêmio do bolo do teu aniversário... – Notou que a Priscilla desviava o olhar e a fisionomia pegava um ar um pouquinho... impaciente? contrariado? – Mas tocou a fala pra frente: – No meu sonho eu vi a gaiola dele, não sei se você lembra, uma gaiola grande, toda feita de...

– Lembro, lembro.– No sonho, a gaiola estava vazia e a porta aberta;

e eu acordei com a certeza de que eu tinha aberto a gaiola pro Pet ir embora daquela prisão.

Priscilla ficou esperando.– Ele... o Pet... fugiu mesmo, Priscilla? naquele

dia? no dia da tua festa? a porta estava mesmo aberta?– Estava. Lembro que, no fim da festa, o

jardineiro trouxe a gaiola vazia. De porta aberta. Disse

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231Retratos de Carolina

que tinha ido recolher um guarda-sol e viu a gaiola escondida atrás de uma planta.

– E aí?– Aí a minha mãe quis te avisar, mas eu falei que

na certa você não estava a fim do prêmio, tinha soltado o pássaro e largado a gaiola pra lá. E ficou tudo por isso mesmo.

Carolina ficou um momento olhando pra Priscilla. Depois resolveu desconversar. Meio que suspirou:

– Então eu sonhei certo: que bom. – Olhou pro relógio: – Xi! Tenho que voltar pro trabalho. Voltar, não: eu nem fui de manhã, mas...

– Pera aí, pera aí, Carolina, eu quero te contar uma ideia que eu tive ainda agorinha mesmo. Pode te interessar. Pode, não: vai te interessar, eu tenho certeza. Mas antes deixa eu pedir um cafezinho pra gente. Ei! Amigo! Dois expressos, por favor. No capricho. A ideia é a seguinte, Carolina: a gente tá procurando um arquiteto. A gente sou eu. Quer dizer, eu e o Nando. O Nando é o meu marido. Incorporador imobiliário; vive às voltas com construção de prédios; tá sempre metido com arquitetos...

Carolina se endireitou na cadeira.

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232 Lygia Bojunga

– ...e joga no teu time: fissurado em arquitetura. Mas, no momento, a gente quer um determinado arquiteto. Não é pro Nando, não, é pra mim; quer dizer, pra fundação do papai; quer dizer, minha: eu quero a fundação pela fundação, e o papai só quer a fundação pra impressionar o pessoal lá de cima. Mas eu e o Nando não estamos a fim de nenhum arquiteto já famoso, que vai logo cobrar um monte; a gente resolveu procurar um cara de talento mas ainda não conhecido. Por que não uma cara? você?

Carolina ficou imóvel: será que ela tinha escutado bem?

– Mas... Priscilla... você, vocês não conhecem nada das minhas ideias, do meu trabalho...

– Mas é exatamente isso que eu pensei te propor: conhecer; marcar um encontro de nós três, você, Nando e eu (ele tá sempre atrás de novos talentos) e aí você nos mostra projetos de tudo que você fez e gostou, de tudo que você não fez e gostaria de fazer. Se bater com a gente, eu te dou o projeto: você planeja tudinho que eu quero enfiar lá naquele prédio. A fundação começou a engatinhar numa casa precaríssima lá no Catete, mas que tinha um terrenão. Tinha, não: tem. O prédio, além de precário, é medonhento: já convenci o papai a implodir o monstrinho e executar um projeto pra valer.

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233Retratos de Carolina

Na imaginação de Carolina saltaram colunas e telhados, rampas e degraus.

– Tem espaço pra ter lá-fora também? um jardim, quero dizer.

– Tô te dizendo: é um terrenão.E da cabeça de Carolina já brotaram arbustos e

árvores, plantas rasteiras, trepadeiras em flor.– Teu café vai esfriar.A mão da Carolina até tremeu um bocadinho

quando pegou a xícara.– Me dá teu telefone. Vou falar com o Nando, ver

o dia que é bom pra ele, e depois te dou um toque pra marcar nosso encontro.

Parei de escrever; olhei pra janela: o sol estava se pondo lá no mar: hora pra andar na areia, o pé recebendo a onda que termina, o olho flanando na vastidão do céu ainda incendiado de tudo que é vermelho e amarelo que vão pintando o fim da tarde.

Mas antes de sair imitei Carolina: deixei meu caderno bem aberto no Carolina aos vinte e nove anos e escrevi um bilhete pra ela, dizendo: “Gostaria de ouvir tua opinião sobre o teu novo

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234 Lygia Bojunga

retrato”, e saí pra curtir o escoar espichado dessas tardes de verão.

Estava já no meu caminho de volta quando vi Carolina correndo ao meu encontro. Chegou rindo. Me abraçou e me puxou pra sentar na areia, ali mesmo onde a onda vem morrer. Eu estava curiosa:

– Então? gostou do seu almoço com a Priscilla?– Puxa! você me pegou de surpresa: nunca na

vida eu pensei que ia me encontrar outra vez com a Priscilla. E vou te contar: quando o meu olho bateu no dela, lá no metrô e, devagarinho-devagarinho, o olho-da-Priscilla-de-sete-anos foi abrindo caminho na minha memória, olha! foi mesmo interessante a gente se ver e se sentir assim: transformada pelo tempo. É: isso foi legal.

– E... o que é que não foi legal?– Bom... tem uma coisa que não me caiu bem lá

no almoço.– ?– Eu fiquei sem saber se a Priscilla tava sendo

sincera quando disse que eu tinha me magoado com ela porque ela chamou a mamãe de puta. E até agora eu tô sem entender porque que ela não disse nada, ab-so-lu-ta-men-te nada quando eu falei da traição do caroço de ameixa.

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235Retratos de Carolina

– É verdade.– É verdade o quê?– Foi mesmo muito desconcertante aquela atitude

da Priscilla. A gente fica sem saber, não é? se ela estava fingindo, se ela ficou surpresa, se ela nunca imaginou que você tivesse percebido a trapaça, se ela estava arrependida, se ela estava o quê.

– E afinal?– Afinal o quê?– Ela estava fingindo?– Ah, Carolina, isso eu não sei.Carolina ficou me olhando, feito coisa que eu

estava brincando.– Não sabe?Fiz que não.– Como, não sabe?– Não sei, ué.– Mas você tem que saber!– Mas eu não sei, o que que eu posso fazer?Carolina não gostou:– Ah, essa não! Se você não sabe, quem é que vai

saber?Espichei o queixo, levantei o ombro.Carolina ainda gostou menos. Levantou a voz:– Mas isso não pode ser! Você tem que saber.

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236 Lygia Bojunga

Me impacientei:– Mas que mania vocês todos têm de que a gente

tem que saber tintim por tintim de vocês. Desde quando alguém sabe tintim por tintim de um outro alguém?!

O olho de Carolina me abandonou, foi pra alto- mar. Notei que eu tinha deixado ela meio emburrada. Já-já vai passar, eu pensei. Esperei; e depois perguntei:

– Mas, fora essa incerteza, você ficou satisfeita com esse teu novo retrato?

– Ainda não acabou, não é?– Falta pouco.– Pouco? A Priscilla ainda nem me telefonou pra

marcar o tal encontro...– Ah, mas é um telefonema muito rápido: só pra

dizer que ela e o Nando tão te esperando no sábado: reservaram a tarde toda pra você.

– E o que que vai acontecer no sábado?– Você vai levar as tuas melhores plantas, os teus

melhores projetos (desde mocinha que você vive às voltas com isso, não é), vai expor pra eles as tuas melhores ideias, eles vão ficar entusiasmadíssimos (porque talento a gente já sabe que você tem...), e a Priscilla vai te contratar pro projeto da fundação. Não é maravilha?

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237Retratos de Carolina

Carolina ficou me olhando. Agora tinha um sorriso gostoso no olhar dela.

– Ah, isso é ótimo. E depois?– Depois o quê?– E depois do encontro, o que que vai acontecer?– Puxa, Carolina, você é mesmo insaciável, hein?

Então não chega? Não deu pra ver que essa é a chance profissional que você estava esperando? Ainda mais com o tal do Nando sempre às voltas com novos empreendimentos, superdisposto a dar um empurrão em novos talentos (incluindo você), meu deus, que chance maior que você quer, Carolina? é claro que agora você vai deslanchar.

– Calma, calma, eu não tô reclamando, eu tô achando superlegal, só que...

– Só que... o quê?– Só que... já que você tá me retratando agora de

um jeito menos frustrante, mais... mais positivo, não é? não vai te custar continuar nesse caminho, vai?

Me deu um cansaço!... uma impaciência!... Mas me controlei:

– O que que você ainda está querendo, meu bem?– Ah, você sabe.– Carolina, você não vai voltar agora pr’aquela

história do Discípulo, vai?

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238 Lygia Bojunga

– Vou. Vou, sim.– Ah, não.– Ah, vou.– Escuta aqui, moça, você já acabou com a minha

peça, você já ganhou o retrato positivo que queria, mas você continua empacada nessa bobagem de viver uma história de amor com o Discípulo. Você não acha que está passando um pouco dos limites?

– Mas uma história de amor pra você não custa nada! num instantinho você faz. Olha aqui, você pega a Tânia, bota ela numa missão...

– Carolina, vê se entende, filha: a tua história chegou ao fim. Com esse teu retrato aos vinte e nove anos eu quis deslanchar a tua profissão, a tua criatividade, a tua independência econômica e, acima de tudo, a tua confiança nessa tua mão aí. O resto, Carolina, inclusive essa tal história de amor que você tanto quer viver, isso... e o mais... virão como consequência, pode ter certeza.

– Mas o Discípulo...– Ele fica na tua fantasia, eu já disse: o papel

dele acabou sendo esse. O que não é nada de fazer ninguém chorar: quantas coisas, quantos alguéns ficam morando pra sempre na fantasia da gente?

– Mas sem ele, você...

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239Retratos de Carolina

– Não te preocupa, Carolina, eu já tenho outro no lugar.

– O quê?– É.– No lugar dele?– É.– Apareceu quando?– Ainda há pouco. Assim que eu saquei que o teu

reencontro com a Priscilla vai dar aquele empurrão pra você criar o que sempre quis criar, eu fiquei tranquila. E vim andar aqui na praia. E entre ver o mar e ver o céu, eu vi ele também.

– Ele... quem?– Ah, minha querida, esse eu não vou te contar.

Senão você ainda me pega ele, me bota ele na tua fantasia, e aí começa tudo outra vez. – Me levantei. Ela se levantou também:

– Mas escuta...– Psiu! – e fiz o gesto de selar a boca com o

dedo.Ela entendeu. E, por um momento, ficamos nos

olhando.Intensamente nos olhando.E aí eu fui me afastando pra duna.– Espera! – ela gritou.

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240 Lygia Bojunga

Mas eu continuei me afastando. Sem querer olhar pra trás.

Eu não vou mais olhar pra trás.Eu não vou mais olhar pra trás.Mas não resisti, acabei me virando: Carolina

continuava no mesmo lugar. A fisionomia dela estava resignada. Resignada, não: serena. Muito serena.

Respirei aliviada. Levantei o braço e acenei com a mão.

Esperei.Sem pressa, mas sem nenhuma hesitação,

ela respondeu ao meu aceno, me dizendo também:

tchau.

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241Retratos de Carolina

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OBRAS DA AUTORA

Os Colegas - 1972Angélica - 1975

A Bolsa Amarela - 1976A Casa da Madrinha - 1978

Corda Bamba - 1979O Sofá Estampado - 1980

Tchau - 1984O meu Amigo Pintor - 1987

Nós Três - 1987Livro – um Encontro - 1988

Fazendo Ana Paz - 1991Paisagem - 1992

Seis Vezes Lucas - 1995O Abraço - 1995

Feito à Mão - 1996A Cama - 1999

O Rio e Eu - 1999Retratos de Carolina - 2002

Aula de Inglês - 2006Sapato de Salto - 2006

Dos Vinte 1 - 2007Querida - 2009

Intramuros - 2016

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Este livro foi composto na tipologia Centaur, no corpo 13,5.A capa em Cartão Supremo 250g e

miolo em papel Pólen Bold 90g.Impresso na Imos Gráfica e Editora Ltda.

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A minha ligação com casas foi sempre muito forte. No princípio eu fazia casa pra brincar: me fingia de construtora e usava livros pra fazer de parede, de telhado, de degrau. Mais tarde eu fazia casa pra morar: desenhava a casa que eu queria construir ou reformar, ia fazendo (ou refazendo) ela aos poucos, levava anos a fio, não fazia mal: fazer e refazer era bom. Depois eu inventei uma Casa, querendo agregar dentro dela três gostos muito fortes que desde pequena eu tenho: o gosto da escrita, o gosto do teatro, e o gosto do fazer à mão: queria realizar projetos ligados a livros e palcos, da maneira mais artesanal possível. Essa Casa eu destinei a investigação, a experimentação. Eu queria investigar, por exemplo, se era ou não possível encontrar um caminho genuinamente meu pra voltar ao palco. Não pra voltar a fazer teatro (no passado fui atriz), mas pra falar de LIVRO de um jeito teatral: era esse o caminho onde queria andar. Andei. Continuo andando: volto agora a subir num palco pra fazer A Entrevista – uma apresentação cênica que antecede o aparecimento de Retratos de Carolina. Este é o quinto projeto de palco saído da Casa. O primeiro foi Livro, onde eu me posicionava como leitora, falando dos meus casos de amor literários. Depois veio Fazendo Ana Paz, onde eu contava a história de um livro meu, vivenciando os sete personagens da história. Nos dois projetos seguintes (De cara com a Lygia e Depoimento), criei minha encenação vivenciando pro público episódios ligados à criação dos personagens que – na época – eu tinha acabado de criar. Durante alguns anos fiz essas apresentações pelo Brasil afora, e de maneira muito artesanal: uma cadeira, um ponto de luz, e pronto. Fora um teatro ou outro, que me abrigou aqui no Brasil, e também no exterior, essas apresentações foram feitas em espaços ligados a livros: bibliotecas, universidades, feiras de livros, casas de leitura, casas de cultura...

Da Casa saiu também a minha primeira publicação: um livro artesanal, feito em casa, numa tiragem limitadíssima, fora do circuito comercial, e que se chamou Feito à Mão. O papel de cada página, de cada livro, foi feito à mão pelas artesãs do Ateliê Terra, e em vários momentos do livro, eu me meto dentro dele, transcrevendo o meu texto à mão. Com essa vontade que não me larga de querer sempre estreitar mais o meu relacionamento com o LIVRO, quis agora investigar que caminho é esse que os meus personagens percorrem a partir do momento em que eu entrego eles pra uma editora até o momento de me encontrar de novo com eles numa livraria ou num outro espaço qualquer: enfarpelados, impressos, encapados, orelhados, plastificados, anunciados... que caminho era esse, meu deus? E, de tanto ficar cismando se o caminho era de pedra, se o caminho era assim, ou se o caminho era assado, resolvi trazer pra dentro da Casa essa nova entidade: uma editora. Que não só vai dar guarida aos meus personagens, mas vai também me revelar o caminho que eles têm que percorrer até chegar a você – que me lê. Quando comecei essa nova investigação, avisei logo pro meu eu-artesanal: dessa vez é melhor você ficar de boca fechada. Mas ele é teimoso demais: quis logo bisbilhotar como é que Retratos de Carolina virava objeto-livro, e acabou se metendo a fazer letra de capa, de folha de rosto, de abertura de capítulo e não sei que mais. E, se fosse coisa de dizer que ele tem letra caprichada! mas nem isso. Paciência: ele é mais forte do que eu. É com Retratos de Carolina que eu começo essa nova caminhada. Aqui, eu me misturo com a Carolina, viro personagem também: queria ver se dava pra ficar todo mundo morando junto na mesma casa: eu, a Carolina, e mais os outros personagens: na Casa que eu inventei.