o regime constitucional do direito à educação básica

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1 O regime constitucional do direito à educação básica Andréa Zacarias Vieira Resumo: Este artigo consiste em analisar os principais aspectos do regime jurídico atribuído pela Constituição Federal de 1988 ao direito à educação básica. Procura-se demonstrar uma estrutura constitucional que engloba regras e princípios destinados a conferir máxima proteção ao ensino básico, bem como a promover a universalização desta etapa de educação. Palavras chaves: Educação Básica; Direito Social; Princípios Constitucionais; Direito Constitucional. Abstract: This article is to analyze the main aspects of the legal system attributed by the Federal Constitution of 1988 to the right to basic education. It seeks to demonstrate a constitutional structure that encompasses rules and principles designed to give maximum protection to basic education, and also to promote the universalization of this stage of education. Keywords: Basic Education; Social Law; Constitutional Principles; Constitutional Law. Sumário: Introdução. I – Direito à Educação como Direito Fundamental Social. II– Educação básica: direito público subjetivo. III – Direito à educação básica sob a luz dos princípios constitucionais. IV – Conclusão. Referências Bibliográficas. Introdução. A educação configura um direito inseparável da natureza humana, e dele depende o desenvolvimento das capacidades e

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Artigo O Regime Constitucional Do Direito à Educação Básica

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Page 1: O Regime Constitucional Do Direito à Educação Básica

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O regime constitucional do direito à educação básica

Andréa Zacarias Vieira

 

Resumo: Este artigo consiste em analisar os principais aspectos do regime jurídico

atribuído pela Constituição Federal de 1988 ao direito à educação básica. Procura-se

demonstrar uma estrutura constitucional que engloba regras e princípios destinados a

conferir máxima proteção ao ensino básico, bem como a promover a universalização

desta etapa de educação.

Palavras chaves: Educação Básica; Direito Social; Princípios Constitucionais; Direito

Constitucional.

Abstract: This article is to analyze the main aspects of the legal system attributed by

the Federal Constitution of 1988 to the right to basic education. It seeks to demonstrate

a constitutional structure that encompasses rules and principles designed to give

maximum protection to basic education, and also to promote the  universalization of this

stage of education.

Keywords: Basic Education; Social Law; Constitutional Principles; Constitutional Law.

Sumário: Introdução. I – Direito à Educação como Direito Fundamental Social. II–

Educação básica: direito público subjetivo. III – Direito à educação básica sob a luz dos

princípios constitucionais. IV – Conclusão. Referências Bibliográficas.

Introdução.

A educação configura um direito inseparável da natureza humana, e dele depende o

desenvolvimento das capacidades e potencialidades do ser humano. Os aspectos

envolvidos no processo educacional são diversos, mas devem sempre buscar a

construção da cidadania, viabilizando, assim, uma integração social cada vez mais

ampla do indivíduo. A sociedade que privilegia a educação está alicerçada numa base

muito mais sólida, consubstanciada num modelo centrado no respeito aos direitos

fundamentais.

A Constituição Federal de 1988, reconhecendo a importância da garanti do direito à

educação, consagrou-o no artigo 6º como um direito fundamental social. Da

configuração constitucional deste direito, decorre um regime jurídico que se caracteriza

pela incorporação de princípios e objetivos fundamentais que informam o Estado

Democrático brasileiro, de caráter social, declarados nos artigo 1º e 3º da Constituição.

Considerando o papel da educação para a formação da cidadania, reveste-se de especial

relevo a educação voltada aos primeiros anos de vida, à fase correspondente à infância e

adolescência. Em vista da necessidade de maior proteção do direito à educação cujos

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titulares se encontram  nesta faixa de idade, a Constituição reuniu diversas normas

destinadas à garantir este direito. Neste artigo, será analisado o regime jurídico

delineado pela Constituição para reger o direito à educação básica, que se estende da

pré-escola ao ensino médio.

Embora a educação não se restrinja ao ensino, trataremos mais especificamente dos

dispositivos constitucionais disciplinadores da educação formal das crianças e

adolescentes. Inicialmente, serão apreciados elementos característicos do regime

jurídico dos direitos fundamentais sociais, que se estendem à educação básica.

Posteriormente, analisaremos o conteúdo de direito público subjetivo do direito ao

ensino básico. Por fim, será feita uma exposição sobre a leitura dos enunciados

constitucionais atinentes ao direito à educação básica em consonância com os princípios

constitucionais que devem  orientar a interpretação e concretização deste direito.

I – Direito à Educação Básica como Direito Fundamental Social.

A educação concebida como um processo de transmissão de conhecimentos e valores de

relação humana reputa-se indispensável ao desenvolvimento intelectual, psicológico e à

construção da cidadania. A educação se desenvolve em diversos ambientes, não apenas

na escola, mas no seio familiar, entidades religiosas, dentre outros. REGINA MARIA

FONSECA MUNIZ (2002) afirma que a educação vai mais além do objetivo de instruir,

mas também o de aflorar a ideia de humanidade que já existe em cada um de nós.

Do significado de ministrar o necessário para o desenvolvimento da personalidade do

indivíduo, compreendendo um processo de desenvolvimento de suas capacidades para

sua melhor e efetiva integração individual e social. Reconhecendo a relevância social da

educação, aduz JEAN PIAGET (2008:29): “Falar de um direito à educação é, pois, em

primeiro lugar reconhecer o papel indispensável dos fatores sociais”.

O Direito à Educação é assegurado pela Constituição Federal como um direito

fundamental de matiz social, tendo sido contemplado pela Constituição no artigo 6 º,

localizado no capitulo intitulado “Direitos Sociais”, o qual, por sua vez, está inserido no

titulo “Dos Direitos e Garantis Fundamentais”. A qualificação atribuída pela

Constituição ao direito à educação corrobora o valor inestimável contido neste direito, e

proclama o lugar de destaque ocupado por ele na ordem constitucional brasileira.

 A fundamentalidade do direito à educação é inquestionável, notadamente quando se

trata do nível básico da educação, o qual compreende desde a pré-escola até o ensino

médio. O efetivo exercício do direito à educação nos primeiros anos de vida é

primordial para o desenvolvimento do ser humano, considerando suas capacidades

intelectuais individuais, e sua vocação social.  O efetivo acesso à educação básica

Page 3: O Regime Constitucional Do Direito à Educação Básica

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constrói a estrutura necessária para que o indivíduo se integre à sociedade, na medida

em que propicia ao mesmo as ferramentas necessárias para o desenvolvimento de suas

potencialidades e aptidões.

Por ser um direito fundamental, a educação está alicerçada no princípio da dignidade

humana, e almeja a proteção desta dignidade em todas as suas dimensões. Esta relação

umbilical se fortalece quando se trata da educação das crianças e adolescentes. Nesta

fase, são lançadas as sementes para a formação da cidadania. O aceso ao ensino básico

de qualidade é pressuposto para o exercício pleno pelo indivíduo, desde a infância até a

fase adulta, de outros direitos fundamentais, como o direito ao trabalho, saúde, moradia

digna, alimentação, o que revela a sua fundamentalidade para a consolidação da

cidadania.

Deste modo, ao se oferecer as condições necessárias para o pleno exercício do direito à

educação básica, respeita-se o direito fundamental à educação, bem como concede

proteção a outros direitos fundamentais. Como é cediço, a dignidade da pessoa humana

foi alçada a princípio fundamental do Estado Democrático Brasileiro, consagrada no

artigo 1º, inciso III da Constituição Federal. Com isto, infere-se que a efetividade direito

à educação básica deve ser orientada por este princípio supremo do ordenamento

constitucional brasileiro.

Não só a total ausência da prestação do direito à educação básica como também sua

oferta deficitária vulnera o princípio da dignidade humana, afronta a Constituição e

enfraquece a democracia. Neste aspecto, adverte CANOTILHO (2010:14) sobre o

comprometimento do Estado Social com o alcance deste princípio: “o desenvolvimento

da personalidade ancorado na dignidade da pessoa ainda é o fundamento mais

inquestionável das prestações sociais a cargo do Estado”.

Como um mecanismo de proteção do direito fundamental, a Constituição Federal de

1988 inseriu esta categoria de direito no chamado núcleo imutável, intangível. Isto é, o

poder constituinte reformador não poderá suprimir ou restringir o núcleo destes direitos,

pois estão insertos nas cláusulas pétreas constitucionais. O direito à educação, em razão

da sua natureza de direito fundamental social, também está protegido por este

mecanismo contramajoritário estabelecida pela Constituição brasileira.

Percebe-se, assim, que o respeito e efetividade do direito à educação, nele incluída a

educação básica, é condição de realização da democracia constitucional brasileira.

Reforçando a proteção constitucional conferida a estes direitos, especificamente, no

tocante à educação básica, INGO SARLET (2008:435) acrescenta: “no âmbito de um

direito à prestação do ensino público gratuito, verificou-se a possibilidade de se

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reconhecer um direito subjetivo individual ao ensino fundamental obrigatório gratuito

em estabelecimentos oficias de ensino, que, situando-se já num patamar mínimo em

termos de exigências sociais, certamente não poderá ser suprimido ou restringido, nem

por meio de uma emenda à Constituição”.

Por ser um direito social, a educação possui um núcleo que se identifica com o chamado

mínimo existencial ou mínimo vital, consistente nas prestações materiais necessárias

para usufruir de uma vida digna. Quando se refere ao direito à educação básica este

mínimo existencial salta aos olhos, pois ele representa a base de toda a arquitetura da

cidadania. Inobstante a dificuldade da delimitação definitiva deste mínimo, o

delineamento de seu conteúdo, no caso concreto, deve se pautar no princípio da

dignidade humana, basilar no nosso sistema jurídico brasileiro.

O direito à educação, em virtude de sua natureza de direito social, possui um conteúdo

prestacional, o que significa que a sua efetividade depende da atuação positiva do Poder

Público, consistente na elaboração e implementação de políticas públicas.  Neste

sentido, o Estado é o agente principal, e possui o dever inafastável de oferecer os

serviços concretizadores do direito à educação, com prioridade para os cidadãos mais

carentes. No que tange à educação básica, a Constituição preceitua no artigo 208 incisos

I e IV, ser dever do Estado efetivar a educação básica, que abrange a educação infantil

(pré-escola), ensino fundamental e ensino médio (17 anos).

Assim sendo, como corolário de um direito de matiz social, o direito à educação

configura um direito subjetivo público. Ao dever do Estado em prestar a educação

básica, conforme prescreve o dispositivo constitucional mencionado corresponde um

direito de exigir o cumprimento do mesmo em face do Estado pelo cidadão titular deste

direito. A vulneração do direito subjetivo público à educação básica agride a dignidade

humana e atenta contra a cidadania, instalando-se um cenário de flagrante desrespeito a

princípios democráticos reconhecidos na Constituição, o que leva à prática de um ato

inconstitucional pelo Poder Público.

O perfil social do Estado Democrático brasileiro foi explicitamente declarado pela

Constituição Federal de 1988, conforme se observa no artigo 1º, inciso III, que alça a

dignidade humana a princípio fundamental do Estado. Além disto, no artigo 3º estão

consagrados os objetivos perseguidos por um Estado de caráter social, a saber, a busca

por uma sociedade livre, justa e solidária (inciso I) e a redução das desigualdades

sociais (inciso III). 

O alcance destes objetivos democráticos depende da realização dos direitos

fundamentais, dentre eles, destaca-se o direito à educação. Neste sentido, leciona

Page 5: O Regime Constitucional Do Direito à Educação Básica

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CLARICE SEIXAS DUARTE (2007:694) que não só o respeito aos direitos

individuais, mas também o respeito aos direitos sociais, de que são exemplos o direito à

educação, tem sua concretização como imposição para que sejam acolhidos os

princípios de um Estado Social e democrático de Direito.

Mister repisar inovação trazida pelo artigo 5º, § 1º da CF/88 que atribui aplicabilidade

imediata às normas definidoras de direitos e garantias fundamentais. Embora não haja

consenso quanto a isto aponta um tratamento diferenciado e reforçado a ser dispensado

a essa categoria de direitos, abalando a doutrina    que atribuía o caráter de normas

programáticas aos direitos sociais, como se fossem desprovidos de caráter imperativo,

ou seja, como se não fossem capazes de vincular a atuação dos poderes públicos.

A efetividade do direito à educação é de suma importância para o exercício da

cidadania, visto que proporciona ao indivíduo condições de exercer em sua plenitude os

direitos individuais e fundamentais, tanto os individuais como os de índole social. A

educação, em especial a de nível básica, é pressuposto para a efetividade de outros

direitos fundamentais, visto ser estruturante na construção da cidadania. Neste diapasão,

aduz MOTAURI CIOCCHETTI DE SOUZA (2010:25) que a educação é a base da

construção da cidadania, atributo da dignidade humana, bem maior objeto da tutela dos

direitos fundamentais, como brota do próprio art. 1°, III, da Constituição Federal.

O regime jurídico constitucional do direito à educação foi bem delineado na

Constituição de 1988. Foram estatuídas normas constitucionais consagrando princípios

e objetivos informadores deste direito, bem como foram enumerados os deveres do

Estado voltados à educação, especialmente a de nível básico (artigo 206). Ademais

foram previstas normas definidores dos deveres de cada ente federativo, que deverá agir

em regime de colaboração (artigo 211 e parágrafos), e um sistema específico de

financiamento, com vinculação de receitas, que deverá priorizar o ensino obrigatório

(artigo 212 e parágrafos). Enfim, são inúmeros os dispositivos constitucionais que

compõem o regime jurídico do direito à educação, sendo que a maioria dos aspectos

relacionados à efetivação deste direito encontra-se nos artigos 205 a 214 da Constituição

Federal.

O direito fundamental à educação também é consagrado em diversos documentos

internacionais de proteção dos direitos humanos, que inclusive influenciaram a

Constituição de 1988. Destaca-se a Declaração Universal dos Direitos Humanos da

ONU, de1948, artigo 26. Outro importante documento internacional que merece citação

é o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais de 1966, artigo 13.

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Alem destes, a Declaração Universal dos Direitos da Criança estabelece efetiva garantia

à educação básica, em seu artigo 7º, a saber:

“toda criança terá direito a receber educação, que será gratuita e compulsória, pelo

menos no grau primário. Ser-lhe-á propiciada educação capaz de promover a sua cultura

geral e capacitá-la, em condições de iguais oportunidades, desenvolver as suas aptidões,

sua capacidade de emitir juízo e seu senso de responsabilidade moral e social, e a

tornar-se membro útil da sociedade”.

Importante registrar que a Lei de Diretrizes e Base da Educação Nacional (Lei 9394/96)

constitui a lei de maior importância para o sistema educacional pátrio, e traça os

principais princípios e objetivos da educação nacional. A LDB possui natureza

estrutural e especifica as diretrizes constitucionais referentes à educação, reproduzindo,

em grande parte, as normas contidas nos artigos 205 e 206 da Constituição. No tocante à

educação de crianças e adolescentes, o Estatuto da Criança e Adolescente, juntamente

com a LDB, encerra as principais normas no plano infraconstitucional.

A seguir, será analisado o tratamento conferido pela Constituição Federal ao direito à

educação básica, enfatizando os aspectos que desenham o regime jurídico constitucional

deste direito, com destaque para o ensino básico.

II – Educação básica: direito público subjetivo.

Por ser um direito fundamental social, a educação não se circunscreve ao âmbito

individual, sendo-lhe conferida uma dimensão coletiva, visto que envolve interesses de

diversos grupos de pessoas, de diferentes regiões, inclusive de gerações futuras. A

proteção do bem jurídico como a educação envolve a consideração de interesses supra-

individuais, que confere dimensão coletiva e difusa a este direito.

Diante da importância patente da garantia do direito à educação para a formação do

indivíduo e o progresso de uma sociedade, a Constituição Federal, no artigo 205

estabelece de forma clara e explicita que a educação é um direito de todos e dever do

Estado.  Portanto, titularidade do direito à educação é outorgada a todos os indivíduos,

crianças, jovens e adultos, o que representa característica da universalidade, inerente ao

direito à educação. A Constituição estatui, ainda, que a educação deve ser prestada não

apenas pelo Estado, mas também pela família, devendo ser promovida e incentivada

com a colaboração da sociedade.

Da atribuição do dever de educação à família e da necessidade de colaboração da

sociedade sobressai o reconhecimento constitucional de que a educação não se resume

ao ensino (educação formal), mas implica também transmissão de valores, de novos

conhecimentos, de noções de cidadania que ultrapassam gerações. Ao abarcar diversos

Page 7: O Regime Constitucional Do Direito à Educação Básica

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agentes educacionais no compromisso com o direito à educação, o objetivo do

Constituinte deu-se no sentido de conferir a este direito a máxima proteção, viabilizando

sua máxima efetividade. Porém, a prestação precípua dos serviços educacionais cabe ao

Estado, que possui o dever de fazê-lo. 

Quando trata da universalidade da educação formal no artigo 205, a Constituição

declara os objetivos que devem  nortear a sua prestação:  pleno desenvolvimento da

pessoa, o seu preparo para o exercício da cidadania e à qualificação para o trabalho.

Portanto a universalidade no acesso à educação deve perseguir estes fins explicitados

pela Constituição, o que significa que a elaboração e execução das políticas

educacionais, tanto no âmbito normativo quanto administrativo, está vinculada a estes

objetivos constitucionais. Ademais, toda a interpretação das normas disciplinadores do

direito à educação deve se pautar neste preceito constitucional.

A Constituição arrola no artigo 208, os deveres voltados ao Poder Público em matéria

de educação, cuja observância é indispensável para que o direito à educação seja

assegurado. E neste dispositivo, a Constituição enuncia diversos deveres do Estado para

com o ensino básico e revela a especial atenção conferida pela Constituição à educação

formal nesta etapa. Como bem ressalta MOTAURI CIOCHETTI (2010: 48), o artigo

208 não traça qualquer hierarquia ao enumerar as diversas áreas de atuação do Estado

na seara educacional. Contudo, os deveres básicos da educação se encontram

devidamente arrolados neste dispositivo constitucional.

A educação formal básica abrange três níveis de ensino: infantil, fundamental e médio.

Com relação à educação infantil, a mesma consiste na devida oferta de creche e pré-

escola às crianças até cinco anos de idade, conforme redação do artigo 208, inciso IV da

CF. O ensino fundamental inicia-se a partir dos seis anos de idade, e tem duração de

nove anos, nos termos do artigo 32 da Lei de Diretrizes e Base da Educação Nacional

(Lei Federal nº 9.394/96). A última etapa do denominado ensino básico reside no ensino

médio, cuja duração mínima deverá ser de três anos, nos moldes do artigo 35 da Lei

9393/96.

O Poder Público possui o dever constitucional de prestar educação básica e gratuita às

crianças e adolescente dos quatro anos aos dezessete anos (inciso I), bem como

disponibilizar serviços de educação infantil em creches e pré-escolas às crianças até

cinco anos (inciso IV). Ressalta-se que, embora o vocábulo obrigatório só conste no

inciso I, o oferecimento da educação infantil também é um dever impositivo do Poder

Público. O caput do artigo 208 da CF é explícito ao enunciar a prestação deste serviço

de natureza social como dever do Estado. Ademais, esta é interpretação que se encontra

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em consonância com o artigo 205 da Constituição Federal, e em harmonia com os

objetivos e princípios constitucionais aplicáveis ao direito à educação.  

O atendimento de todas as regras insertas no artigo 208 da Constituição Federal é

imperativo imposto ao Poder Público, sendo certo que a respectiva obrigação já emana

do próprio dever de garantir previsto no caput do mencionado dispositivo. Portanto,

atendimento pelo Estado dos serviços públicos concretizadores dos direitos elencados

nos incisos do artigo 208 é imperativo, sendo suscetível de exigibilidade da prestação

positiva.

Atenta à importância da educação básica para a observância da dignidade humana e a

efetividade de outros direitos fundamentais, a Constituição  preceitua no artigo 208, § 1º

que o acesso ao ensino obrigatório e gratuito é direito público subjetivo. O

reconhecimento do direito à educação básica como um direito subjetivo já derivaria da

inclusão da educação no artigo 6º da Constituição Federal, assim como do conteúdo

caput do artigo 208.

Contudo a Constituição quis reforçar a proteção do direito à educação básica ao criar

um inciso que enuncia o direito público subjetivo à educação básica. Tanto que, em

seguida, estabelece, no artigo 208 §2 º, que o administrador público terá

responsabilidade pessoal pelo não oferecimento do ensino obrigatório ou por sua oferta

irregular.

Portanto, a prestação de todas as modalidades de ensino básico – infantil, fundamental e

médio – afigura-se um imperativo constitucional dirigido ao Poder Público, constituindo

direito público subjetivo. O Estado deve fornecer o serviço público que concretiza este

direito de forma universal e com qualidade, em condições de igualdade. Portanto, o

infante ou adolescente que tiver o seu direito fundamental ao ensino básico de qualidade

violado, poderá, através de seus representantes, exigir do Estado sua prestação.

Importante constar que a previsão de progressiva universalização do ensino médio

gratuito inscrita no artigo 208, inciso II da Constituição Federal não deve ser

interpretada de modo que leve a um esvaziamento do direito público subjetivo ao ensino

médio fornecido pelo Poder Público. O sentido que deve ser atribuído a este dispositivo

deve estar em consonância como toda a estrutura constitucional, em especial, com o

regime jurídico constitucional que rege o direito à educação.

Assim sendo, o objetivo deste preceito foi de reforçar o dever constitucional do Poder

Público em implementar políticas públicas que efetivem o acesso gratuito ao ensino

médio, especialmente para os mais carentes, criando melhores condições de estrutura e

de qualidade nesta etapa da educação básica.

Page 9: O Regime Constitucional Do Direito à Educação Básica

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Reafirmando a obrigatoriedade do Estado no ensino médio, a Lei de Diretrizes e Base

da Educação Nacional, no artigo 4º, inciso II, passou a apregoar a efetiva

universalização do ensino médio, suprimindo o vocábulo “progressivo”, afastando, com

isso, qualquer dúvida remanescente. Como bem acentua Clarice Seixas Duarte, a noção

de progressividade dos direitos sociais não pode ser confundida com a possibilidade de

sua não aplicação.

Sendo a educação um direito de todos, conforme preceitua o artigo 205 da Constituição

Federal, deve ser orientada pelo critério de universalidade. Entretanto, esta

universalidade deve ser entendida sob o prisma dos princípios constitucionais, tanto os

princípios que informam o caráter social do Estado Democrático, quanto os princípios

direcionados especificamente ao ensino básico. 

III – O direito à educação básica sob a luz dos princípios constitucionais.

O princípio da igualdade insculpido no artigo 5º da Constituição Federal deve permear a

interpretação e concretização de todos os direitos fundamentais sociais, dentre eles, o

direito à educação. Por ser um direito social, tende a realizar a equalização de situações

sociais desiguais, ligando-se, assim, ao direito à igualdade material, o que, por sua vez

proporciona condição mais compatível com o exercício efetivo da liberdade (JOSÉ

AFONSO DA SILVA, 2010: 285-286).

Por conta disto, a Constituição contempla, no artigo 206, inciso I, o princípio da

igualdade como vetor que orienta a prestação do ensino no país, dentre eles, o de nível

básico A efetividade do acesso à educação básica só se verifica quando as condições de

acesso e permanência se derem em condições de igualdade. Para a concretização deste

princípio, não basta que a vaga esteja disponibilizada ao aluno se o mesmo não tiver

condições de permanecer na escola, em razão, por exemplo, da distância da unidade

escolar de sua residência.

O artigo 206 da Constituição Federal enuncia os princípios que devem servir de

parâmetro de interpretação das normas constitucionais relativas ao direito à educação.

Tais princípios constituem também diretriz para o Poder Público na formulação e

implementação das políticas públicas voltadas à educação formal. Portanto, estes

princípios incorporados no artigo 208 juntamente com os princípios e valores que se

propagam na Constituição devem nortear a interpretação e concretização do direito à

educação, dentre eles a de nível básico.

A efetividade do direito à educação básica se avalia não apenas com base por um

princípio do regime constitucional da educação inserido no artigo 206, mas pela

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combinação de mais de um princípio, pois eles se correlacionam de modo a revelar o

verdadeiro delineamento do regime constitucional do direito à educação.

O princípio que declara a igualdade de condições para o acesso e permanência na escola

está intrinsecamente relacionado com o princípio de garantia do padrão de qualidade

(inciso VII). Afigura-se irrefutável o fato de que não se assegura a igualdade no acesso à

educação básica se a qualidade em sua prestação for completamente desnivelada. Nas

escolas onde não há infra-estrutura para o professor e o aluno, ou quando as aulas são

ministradas por professores despreparados não se tem um padrão mínimo de qualidade.

A todo o momento, nos sobressaltamos com notícias de escolas onde o ambiente é até

insalubre para as crianças, tendo as mesmas que estudar em lugares improvisados,

muitas vezes ao ar livre.

Ciente da garantia de qualidade na prestação do ensino básico como fator indispensável

à consecução dos objetivos atribuídos à educação pela Constituição Federal, REGINA

MARIA FONSECA MUNIZ (2002:224) assevera que:

“O Estado não pode fugir de sua função educadora e muito menos pode deixar que as

suas escolas privadas o suplantem no cumprimento deste dever. Deverá estar presente

na formação de seus cidadãos, em parceria com a sociedade, preocupado,

precipuamente, com a formação da personalidade infantil, implantando programas

educacionais de qualidade e não apenas abrindo novas escolas. É preciso estar atento ao

conteúdo das mesmas, procurando proporcionar à criança as condições de vida mais

próximas de um lar, formando hábitos sadios, ensinando-lhes e estimulando sua

capacidade gradativa no meio social com treinamentos e seleção criteriosa de pessoal e

de voluntários”. 

O atendimento ao princípio da qualidade na prestação do ensino perpassa

obrigatoriamente pela valorização do professor, com salários dignos e incentivos para

capacitação, atualização e aprimoramento profissional. A situação dos professores do

ensino fundamental e médio no nosso país é muito desprivilegiada, que vem gerando

uma verdadeira fuga destes profissionais das salas de aulas escolares.

Preocupado com a situação dos profissionais de educação, a Constituição conferiu

maior proteção ao consagrar como princípio constitucional norteador do ensino a

valorização dos profissionais da educação escolar, garantindo-lhes planos de carreira, e

ingresso exclusivamente por concurso público aos da rede público (inciso V).

Avançando ainda mais no intuito protetivo do direito à educação básica, a Emenda

Constitucional nº 53/2006 introduziu como princípio (inciso VIII) o piso salarial

Page 11: O Regime Constitucional Do Direito à Educação Básica

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profissional nacional para os profissionais da educação escolar pública, fixado por lei

federal.

A gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais também foi consagrado

como princípio constitucional do ensino, nos termos do artigo 206, inciso IV da

Constituição Federal. O princípio da gratuidade do ensino público está intimamente

ligado ao problema da democratização do acesso à educação e constitui um direito, “não

uma concessão ou favorecimento”, no dizer de CLARICE SEIXAS DUARTE

(2007:705).

O reconhecimento constitucional do princípio da gratuidade do ensino repercute a

essência do direito social, natureza jurídica do direito à educação, especialmente, no

caso do ensino básico. Os economicamente desfavorecidos são os principais

destinatários dos direitos sociais, e a gratuidade do ensino almeja atender esta parcela da

população. Deste modo, privilegiando a igualdade material, atende ao objetivo de

universalização do ensino básico.

Em atendimento ao princípio da igualdade, vetor da interpretação e efetivação do direito

à educação, a Constituição Federal elenca como dever do Estado, no inciso III do artigo

208, o atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência,

preferencialmente na rede regular de ensino.  Denota-se o compromisso constitucional

em assegurar o direito à educação dos grupos socialmente marginalizados, e promove

sua inclusão social. A previsão da escola inclusiva atente o princípio da igualdade, no

sentido de adotar critérios discriminatórios para alcançar a igualdade no acesso à

educação básica.

O poder Público deve disponibilizar nas escolas públicas recursos necessários para o

atendimento dos alunos portadores de necessidades especiais. Revela-se, assim, mais

uma norma constitucional que se curva aos objetivos da educação instituídos no artigo

205 da Constituição.

A proteção especial conferida pela Constituição à educação básica é mais uma vez

consolidada no enunciado correspondente à parte final do inciso I do artigo 208.  Este

dispositivo assegura a oferta gratuita do ensino fundamental e médio para aquelas

pessoas que, por algum motivo, não tiveram acesso na idade própria. Ressalta-se que

esta previsão contem um direito público subjetivo do cidadão, que pode exigir do

Estado o seu cumprimento.

Com vistas a garantir o acesso à educação básica em condições equânime, a

Constituição prescreve no inciso VII do artigo 208 que é dever do Estado atender o

educando, em todas as etapas da educação básica, por meio de programas suplementares

Page 12: O Regime Constitucional Do Direito à Educação Básica

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de material didático escolar, transporte, alimentação e assistência à saúde.  Esta previsão

constitucional declara um direito público subjetivo do aluno em ser atendido pelo Poder

Público na prestação destes serviços, e prestigia o princípio da igualdade aplicado ao

acesso universal ao ensino consagrado no artigo 206, inciso I da Constituição.

Este preceito constitucional confirma a preocupação especial protetiva do constituinte

com relação ao ensino básico, bem como revela incontestável interseção entre os

direitos fundamentais. Uma criança desnutrida, com a saúde debilitada terá dificuldades

no aprendizado, e muitas vezes, não consegue sequer frequentar a escola. O direito à

alimentação, a assistência à saúde também devem ser garantidas pelo Poder Público,

pois além de serem direitos fundamentais, da sua garantia depende a concretização do

direito à educação básica.

No prisma da igualdade no acesso e permanência universal à educação, um aspecto que

deve ser levado em conta são as desigualdades decorrentes do efetivo acesso à escola,

nas diversas regiões do país. Como se sabe nas áreas rurais e até nas regiões periféricas

das cidades grandes, há dificuldades para os alunos chegarem até a escola, por

insuficiência dos meios de transporte ou pela impossibilidade de custeio deste serviço

pelas famílias de baixa renda. Por isto, deve-se tratar este grupo vulnerável e

desfavorecido com prioridade na implementação das políticas públicas.

Consciente desta realidade, o poder constituinte, no artigo 209, inciso VII, assegurou o

direito ao transporte às crianças e adolescentes que se encontram na situação aludida

acima Vale acrescentar que o Estatuto da Criança e Adolescente, em sintonia com a

Constituição, assegurou o oferecimento pelo Poder Público do serviço de transporte a

estes alunos para a escola mais próxima, caso haja insuficiência ou ausência de vagas

numa escola pública próxima a residência do aluno ou na ausência de escola nas

proximidades (artigo 53).

Percebe-se que o preceito constitucional em comento tem como principal destinatário

parcela as crianças e jovens oriundos de parcela mais carente da sociedade, os quais,

muitas vezes, não têm acesso pleno e efetivo aos direitos fundamentais

consubstanciados no inciso VII do artigo 208. Na essência deste dispositivo

constitucional está o principio da igualdade consagrado no artigo 5º caput e no artigo

206, inciso I da Constituição. Ao assegurar os direitos elencados no inciso VII, o Poder

Público amplia as condições de igualdade no acesso ao ensino básico com qualidade,

perseguindo, assim, a universalização ínsita ao direito à educação e reconhecida no

artigo 205 caput da Constituição Federal.

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A relevância na proteção constitucional do ensino fundamental é evidenciada no artigo

208 § 3º da Constituição, ao estabelecer o dever do Estado em realizar recenseamento

dos educandos nesta etapa do ensino básico, a fim de identificar os infantes que

permanecem à margem do sistema de ensino fundamental. O Poder Público deve

intervir junto aos núcleos familiares para que a falta constatada se converta na inserção

da criança ou adolescente na rede publica. A finalidade desta intervenção não é

meramente estatística, devendo ser utilizada para a efetiva universalização no ensino

fundamental.

 Portanto, o Poder Público tem o dever de atuação junto ao núcleo familiar caso seja

verificada a recusa dos pais ou responsáveis em permitir que seus filhos frequentem a

escola. Esta imposição constitucional afigura-se como um desdobramento do dever

constitucional da família em garantir o direito à educação, consagrado no artigo 205

caput da Constituição.

Percebe-se, ainda, que no tocante ao ensino fundamental, a obrigação tem natureza

dúplice, vez que imposto ao Estado o dever de atendimento universal, assim como aos

pais a obrigação de matricularem seus filhos. Se o pais não adotarem as providências

necessárias para que seus filhos cursem o nível fundamental poderão incorre em crime

de abandono intelectual tipificado pelo artigo 246 do Código Penal.

 A família ocupa, ao lado do Estado, a função de agente educacional. Com bem acentua

ANDRÉ TRINDADE (2010 ,44), “o Estado e a família são os principais ícones da

moderna educação”. Importante consignar que a Constituição estabelece no artigo 227 a

prioridade no atendimento das crianças e adolescente do seu direito à educação. O dever

da família em zelar pela educação formal das suas crianças também é prevista no

Estatuto da Criança e Adolescente (artigo 22), e na Lei de Diretrizes e Base da

Educação (artigo 6° e 87, § 3°, inciso I).

Cumpre consignar que a Constituição também positivou o direito à educação através de

garantias institucionais (VIDAL SERRA NUNES JUNIOR, 2009:77). É o que se

verifica no artigo 212 e incisos da Constituição Federal, o qual prevê a vinculação de

receita resultante dos impostos – mínimo de 18% para a União e de 25 % para os

Estados, o Distrito Federal e Municípios – na manutenção e desenvolvimento do ensino,

excepcionando o princípio da não afetação (ou não vinculação) da receita, nos termos

do artigo 167, inciso IV da Constituição Federal.

Esta previsão constitucional constitui um dos mais importantes mecanismos de

efetividade do direito à educação, e confere tratamento prioritário à educação básica e

obrigatória na destinação destes recursos orçamentários, atendendo a universalização,

Page 14: O Regime Constitucional Do Direito à Educação Básica

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garantia de padrão de qualidade e equidade, conforme preceituado no parágrafo 3 º do

artigo 212 da Constituição Federal.

Os diversos entes federativos atuam no que diz respeito aos seus sistemas de ensino em

regime de colaboração, de modo a assegurar a universalização do ensino obrigatório. O

artigo 211, caput e § 4° da Constituição determina à União, Estados, Distrito Federal e

Municípios a organização em regime de colaboração. Nos termos do artigo 211, § 1°, a

Constituição Federal estabelece que compete à União, em matéria educacional, a função

redistributiva e supletiva. No que concerne aos Municípios, estes atuarão

prioritariamente na educação infantil e no ensino fundamental e médio (artigo 211, §

3°da Constituição Federal).

De modo a atender as prioridades traçadas no texto constitucional, registra-se a

instituição do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de

Valorização dos Profissionais da Educação (FUNDEB), com a nova redação dada ao

artigo 60 dos Atos das Disposições Constitucionais Transitórias pela Emenda n.53 de

2006. De natureza contábil, o Fundo reúne recursos destinados à manutenção e

desenvolvimento do ensino para a educação básica pública, objetivando a

universalização do ensino básico de qualidade em todos os seus níveis e a melhoria na

remuneração dos profissionais de educação, em especial, dos professores. Estes

objetivos deverão ser perseguidos em atendimento ao Plano Nacional de Educação, nos

termos do artigo 212, § 3° da Constituição Federal.

Daí o relevante papel atribuído ao Plano Nacional de Educação, que, de acordo com o

artigo 214 da Constituição, tem por objetivo primordial, dentre outras metas, a

manutenção e desenvolvimento do ensino em seus diversos níveis, etapas e

modalidades, por meio de ações integradas dos poderes públicos das diferentes esferas

federativas, que conduzam à erradicação do analfabetismo. Os entes federativos devem

também, além de atender ao Plano Nacional de Educação, elaborar seus respectivos

Planos de Educação locais, que leve em consideração as peculiaridades locais em

termos de infra-estrutura, demanda escolar. (ver estatística).

IV- Conclusão.

Após esta exposição sobre os principais aspectos constitucionais do regime jurídico que

rege o direito à educação básica, evidencia-se a atenção especial conferida pela

Constituição Federal de 1988 ao ensino dirigido às crianças e adolescentes. A previsão

explícita na Constituição do direito à educação básica como um direito público

subjetivo representou um notável avanço na proteção do direito à educação. A ausência

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ou a deficiência na prestação do serviço público concretizador deste direito enseja a

exigibilidade judicial em face do Poder Público.

Ao enunciar os princípios que devem informar a prestação do direito à educação, a

Constituição privilegia o princípio da igualdade inscrito no artigo 5º, caput. A estrutura

principiológica consubstanciada no artigo 206 da Constituição foi desenhada com vistas

a universalizar o ensino básico observando a garantia de seu acesso em condições de

igualdade. Ao preocupar-se na consagração de princípios específicos da educação, a

Constituição constrói um regime jurídico destinado a alcançar os objetivos primordiais

da educação, enunciados no artigo 205.

Assim, a concretização do direito à educação básica deve se pautar nestes princípios,

juntamente com aqueles sob os quais se funda o Estado Social Democrático brasileiro.

Ao ser orientado por estes princípios, o acesso ao ensino básico afigura-se em sua

plenitude e se aproxima dos objetivos que a Constituição Federal traçou para a

educação.

Neste sentido, o conteúdo do direito à educação não pode estar restrito ao oferecimento

de vagas nas unidades escolares pelo Estado. O núcleo mínimo deste direito vincula-se a

outros aspectos como oferecimento do ensino básico com qualidade, ou promoção da

inclusão social de grupos que estão à margem do sistema de ensino básico.

A universalização da educação básica deve ter como parâmetro a igualdade de acesso e

permanência das crianças e adolescentes nas unidades de ensino. Esta é a essência do

acesso efetivo à educação básica que a Constituição buscou proteger.

 

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Informações Sobre o Autor

Andréa Zacarias Vieira

Mestranda em Direito Constitucional pela PUC/SP. Especialista e Direito Internacional

pela COGEAE/PUCSP. Graduação em Direito pela UERJ. Professora de Direito

Internacional

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