ensinar música no ensino básico. (comunicação)

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Ensino de Música no Ensino Básico1Mário RelvasFinalidade do ensino de Música no Ensino BásicoO entendimento actual em vários Sistemas Educativos Ocidentais é o de ensinar Música a todos, de desenvolver as capacidades musicais de todas as crianças e não apenas de algumas, numa perspectiva do desenvolvimento global do ser humano. Se esta perspectiva não é nova, já a questão de como a realizar e alcançar tem sofrido bastantes alterações, tanto a nível internacional como em Portugal.Currículo

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Ensino de Música no Ensino Básico1 Mário Relvas

Finalidade do ensino de Música no Ensino BásicoO entendimento actual em vários Sistemas Educativos Ocidentais é o de ensinar Música a todos,

de desenvolver as capacidades musicais de todas as crianças e não apenas de algumas, numa

perspectiva do desenvolvimento global do ser humano. Se esta perspectiva não é nova, já a

questão de como a realizar e alcançar tem sofrido bastantes alterações, tanto a nível

internacional como em Portugal.

Currículo de Música do Ensino Básico:Ao longo dos últimos vinte anos é possível detectar mudanças ao nível de vários conceitos:

Ensinar Música deixa de ter como finalidade o ”saber Música” e passa a centrar-se no “fazer Música”;

1 Comunicação apresentada no Encontro – Debate “O Ensino da Música em Portugal, Hoje. Estudar, Ensinar, Crescer com a Música”, promovido pela Escola de Música do Conservatório Nacional (org.) e realizado no Centro Nacional de Cultura em 26 de Maio de 2005

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Fazer Música começa por ser entendido fundamentalmente como Interpretar (vocal e instrumentalmente), evolui para a inclusão da Audição Musical, incorpora mais tarde a Composição (no sentido lato, composição, improvisação, arranjo, orquestração) e actualmente também integra o Contexto enquanto factor determinante das práticas Musicais.

Estas mudanças trouxeram outra forma de o currículo se desenvolver:

de abordagem sequencial dos elementos musicais, à organização destes em espiral por níveis de desenvolvimento musical do aluno, a uma abordagem multidimensional, integrada, em que a Música está no centro do projecto, do processo de ensino-aprendizagem;

já não se procura apenas que os alunos sejam capazes de adquirir e desenvolver determinadas técnicas e conhecimentos, pretende-se que sejam capazes de mobilizar as técnicas e os conhecimentos quando fazem Música — “o saber em uso”.

Em termos metodológicos, as ideias centrais são “aprende-se fazendo” e “primeiro o som, depois

o símbolo”. Estas mudanças são enormes, positivas, com implicações a todos os níveis, sejam

eles filosóficos, psicológicos, sociológicos ou pedagógicos. Operar e incorporar estas mudanças

de forma generalizada tem levado décadas nos outros Sistemas Educativos e o mesmo se tem

passado em Portugal. As dificuldades estão diagnosticadas e algumas soluções já há muito

foram apresentadas. Porque não foram ainda aplicadas?

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Docência de Música no Ensino Básico e formação de docentes:

Educação de Infância e 1º ciclo

Nestes níveis de ensino existem dois dados importantes a reter: defende-se a monodocência e a

experiência vem mostrando que a esmagadora maioria dos educadores e professores do 1º ciclo

não fazem Música com os seus alunos de forma regular e planeada. A solução está vertida no

artigo 8º da Lei de Bases do Sistema Educativo, desde a sua primeira versão e dá pelo nome de

coadjuvação. Esta parceria pedagógica na preparação, realização e avaliação do ensino de

Música, volta a ser proposta pelas ESEs ao Ministério da Educação em 1997 e a sua

necessidade é reforçada em 1999 no relatório apresentado pelo grupo de contacto entre os

Ministérios da Educação e da Cultura. Passados quase 20 anos a coadjuvação não foi

regulamentada, não foi instituída a nível nacional e a sua aplicação continua ao livre arbítrio dos

vários actores envolvidos: educadores, professores do 1º ciclo, professores de Educação

Musical do 2º ciclo, professores de Música do 3º ciclo e Secundário, Comissões Executivas dos

Agrupamentos de Escolas, Autarquias e Direcções Regionais. Ao longo dos anos têm existido

alguns bons projectos de coadjuvação, mas são escassos, de curta duração e manifestamente

insuficientes para a mudança necessária. Se a coadjuvação é a solução por todos defendida

para os actuais educadores e professores do 1º ciclo, para os futuros, para aqueles que irão ser

formados, o diagnóstico e outras soluções também já há muito foram apresentadas. Há

exactamente 20 anos, em 1985, Isabel Carneiro e Eugénia Moura escreviam no Boletim da

APEM nº 47 “As Escolas de Educadores de Infância e de Magistério Primário enfrentam a grave

impossibilidade de, em três anos, prepararem os futuros docentes, que não possuem na grande

maioria à sua entrada para a escola quaisquer noções prévias de música.” Em 1997, em carta

enviada ao Ministro da Educação, Marçal Grilo, as ESEs propõem que “a fim de viabilizar a

referida parceria pedagógica e de acordo com o estabelecido na Reforma do Sistema Educativo,

a formação de professores generalistas do 1º ciclo deve contemplar uma formação disciplinar e

metodológica mais significativa na área da música.” e em 1999 o acima mencionado grupo de

contacto entre Ministérios vai mais longe ao propor que “as expressões nos currículos das

licenciaturas em Pré e 1º ciclo só melhorarão quando o ME definir percentagens mínimas para

as quatro expressões, tal como já o faz para as Ciências da Educação e para a Prática

Pedagógica.” Mais uma vez, as soluções já foram apresentadas, “só” falta aplicá-las e avaliá-las.

2º e 3º ciclos do Ensino Básico

O ensino de Música no 2º ciclo do EB é assegurado por portadores da habilitação legal para a

docência da disciplina de Educação Musical. Com a democratização do acesso ao ensino,

ocorrida após o 25 de Abril de 1974, aumentou substancialmente o número de alunos no

Sistema Educativo. Para satisfazer as necessidades em recursos humanos, foram definidas para

a docência de Educação Musical habilitações muito abaixo do que seria desejável e mesmo

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assim, em 1985, ainda 50% das pessoas que leccionavam Educação Musical no então chamado

Preparatório não tinham estas habilitações. A criação, nas ESEs, de cursos de formação de

professores do 1º ciclo na variante de Educação Musical e de cursos de formação de

professores de Educação Musical do Ensino Básico tem vindo a alterar este cenário de forma

positiva e hoje temos novos profissionais com um perfil de desempenho muito mais adequado:

mais formação em Música, com formação metodológica, pedagógico-didáctica e com inserção

na prática profissional. Se tivermos em conta que os primeiros diplomados do primeiro destes

cursos datam de 1991, ou seja, de há apenas 14 anos, chegaremos à conclusão de que muito

tem sido feito, mas que é insuficiente para alterar significativamente o panorama do ensino de

Música no 2º ciclo do EB. Precisamos de actuar a vários níveis e, mais uma vez, algumas

propostas já foram apresentadas:

Ao nível da formação inicial dos professores, o modelo de variante provou não ser adequado às nossas necessidades e deveríamos todos adoptar o modelo de especialista em Educação Musical para o Ensino Básico (proposta apresentada pelas ESEs a Marçal Grilo em 1997, para além de propostas individuais das ESEs do Porto e de Lisboa que sempre foram recusadas pelos vários Ministros da Educação);

Ao nível das habilitações para a docência, estas deveriam ser actualizadas no sentido de não permitir que ainda hoje alguém possa leccionar com habilitações manifestamente insuficientes. Tanto mais que os vários ramos e cursos de formação de professores de Música e de Educação Musical, ministrados nas Universidades e Politécnicos, asseguram, em grande medida, a satisfação das necessidades do Sistema;

Relativamente aos docentes do quadro do 2º ciclo do EB, estes deveriam ser acompanhados e apoiados na sua formação ao longo da vida, com incentivos na progressão da carreira para aqueles que adequarem o seu desempenho e reforço do apoio para os que precisarem de mais tempo para o fazer. Este não é um problema específico da Música, mas sim de todo o Sistema Educativo: em Portugal, só 5% dos docentes são acompanhados ao longo da sua carreira, enquanto a média Europeia é de… 65%!

Relativamente ao 3º ciclo a situação está ainda muito longe do aceitável, desde logo pela

condição opcional da disciplina de Educação Musical, mas também pela dificuldade em formar

um número de docentes que produza rapidamente uma alteração qualitativa. Aquando da

Reforma do Sistema Educativo, a natureza opcional da disciplina decorreu da escassez de

recursos humanos, mas agravou-se porque as condições nas escolas a tornaram fictícia. Como

poderia esta “opção” ser verdadeira, quando em muitas EB23:

existiam professores do quadro de Francês que não tinham horário porque os alunos não optavam por esta língua no 5º ano de escolaridade; ou

não existiam professores de Educação Musical do quadro do 2º ciclo ou do 3º e era necessário solicitar docentes às respectivas Direcções Regionais de Educação; ou

quando existiam professores do quadro de Educação Musical 2º ciclo, muitos não propunham aos respectivos Conselhos Pedagógicos a abertura da opção no 3º ciclo.

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Mais recentemente, aquando da Revisão Curricular do Ensino Básico em 2003, o problema

agravou-se: o plano de estudos do 3º ciclo contempla três disciplinas na Área Artística,

Educação Visual, Educação Tecnológica e uma Outra à escolha da Escola. Esta “Outra” poderá

ser Educação Musical, mas também poderá não ser, daí a constatação que a situação se

agravou. Desde 2003 até hoje a situação ainda piorou porque agora é permitido às escolas não

oferecerem uma terceira disciplina da área artística, sendo neste caso, a carga horária atribuída

à disciplina de Educação Tecnológica. Perante tão grandes maus tratos não é espantar que

alunos e encarregados de educação tenham uma imagem negativa da disciplina e que procurem

nas escolas de ensino vocacional a satisfação das suas necessidades.

A formação de docentes para o 3º ciclo, ainda que em quantidade reduzida, começa a dar os

seus frutos. Os ramos educacionais das licenciaturas ministrados nas universidades Nova de

Lisboa, Católica do Porto e Aveiro, entre outras, e a profissionalização em serviço nas ESEs de

licenciados em ramos não educacionais destas licenciaturas estão a permitir o aparecimento de

práticas lectivas consentâneas com as actuais linhas de orientação referidas no início deste

texto. Se aproveitarmos as oportunidades que estão a surgir com a criação do espaço europeu

de ensino superior, por exemplo, com a oferta de licenciaturas conjuntas entre as ESEs e as

Escolas Superiores de Música, então estaremos seguramente a contribuir para a melhoria do

desenvolvimento e fazer musical dos nossos alunos.

PerspectivasEm 20 anos muitos aspectos melhoraram no ensino de Música no Ensino Básico, mas ainda nos

encontramos num nível manifestamente insatisfatório. As dificuldades estão identificadas e

existem propostas para as ultrapassar:

incentivar a coadjuvação de forma adequada e em todo o país;

estabelecer percentagens mínimas para a formação musical nos cursos de formação de educadores de infância e de professores do 1º ciclo;

formar professores de Educação Musical para o Ensino Básico;

tornar obrigatória a disciplina de Educação Musical no 3º ciclo do Ensino Básico;

elevar as habilitações mínimas para a docência de Educação Musical;

estabelecer programa de acompanhamento e formação dos docentes de Educação Musical do 2º ciclo.

Há muito a fazer. Vamos a isto.