Da sedio dos mulatos conjurao baiana de 1798: a construo ...

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  • Universidade de So PauloFaculdade de Filosofia, Letras e Cincias Humanas

    Departamento de Histria

    Da Sedio dos Mulatos Conjurao Baiana de1798: a construo de uma memria histrica.

    Patrcia Valim

    Dissertao de Mestrado apresentadaao programa de Ps-Graduao emHistria Social do Departamento deHistria da FFLCH, sob orientaodo Prof. Dr. Carlos Alberto de MouraRibeiro Zeron.

    So Paulo2007

    1

  • Universidade de So PauloFaculdade de Filosofia, Letras e Cincias Humanas

    Departamento de Histria

    Da Sedio dos Mulatos Conjurao Baiana de1798: a construo de uma memria histrica.

    Patrcia Valim

    Dissertao de Mestrado apresentadaao programa de Ps-Graduao emHistria Social do Departamento deHistria da FFLCH, sob orientaodo Prof. Dr. Carlos Alberto de MouraRibeiro Zeron.

    So Paulo2007

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  • s minhas moas, Ana Carolina eMaria Eduarda. Amor pra

    sempre...

    3

  • RESUMO

    Em 8 de novembro de 1799, quatro homens foram enforcados e esquartejados em praapblica na cidade de Salvador. Condenados por conspirarem contra a Coroa de Portugal, osalfaiates Joo de Deus do Nascimento e Manuel Faustino, e os soldados Lucas Dantas deAmorim Torres e Luiz Gonzaga das Virgens e Veiga foram considerados pelosDesembargadores do Tribunal da Relao da Bahia como sendo os nicos protagonistas deum movimento conhecido atualmente como Conjurao Baiana de 1798. O trgico fimdesses homens foi reputado pela historiografia oitocentista como sendo uma anomaliasocial e manifestao da barbrie habilmente abortada pelas autoridades rgias. Sob a penados intelectuais do sculo XX, entretanto, o evento foi considerado como a mais populardas revoltas que antecederam a emancipao poltica do Brasil, em 1822. Sendo que oexemplo mais notvel, nesse caso, a importante obra de Affonso Ruy, A PrimeiraRevoluo Social Brasileira. Dessa feita, aps as comemoraes do primeiro centenrio daIndependncia do Brasil, percebe-se que a pena histrica encarregou-se no s de alargar asbases sociais do evento, originalmente circunscrita aos mdios e baixos setores dasociedade baiana da poca, como, a partir de uma inverso historiogrfica dos plos dasanlises o transformou em um dos tournants da nossa histria nacional. Da Sedio dosmulatos Conjurao baiana de 1798, portanto, a histria da memria histrica de umevento ptrio cujo legado simblico de seus protagonistas foi retomado de tempos emtempos e parece ser destinado a servir de instrumento privilegiado para a reflexo ao saborde distintas conjunturas.

    Palavras-chaves: Conjurao Baiana de 1798; Memria Histria, Historiografia.

    4

  • ABSTRACT

    On November 8th of 1798, four men were hanged and quartered in a public square in the cityof Salvador. Condemned for conspiracy against the Royal Government of Portugal, thetailors Joo de Deus do Nascimento and Manuel Faustino and the soldiers Lucas Dantas deAmorim Torres e Luiz Gonzaga das Virgens e Veiga were identified by the chief judge ofthe Tribunal da Relao of Bahia as the only protagonists of a movement known nowadaysas Conjurao Baiana de 1798. The tragic end of these men was considered by the 19thcenturys historiography as a social anomaly and a demonstration of the barbarity skilfullysuppressed by the royal authorities. However, according to the intellectuals of the 20thcentury, the event was the most popular revolt that preceeded the political emancipation ofBrazil, in 1822 and A Primeira Revoluo Social Brasileira, a book by Affonso Ruy, is anotable example of this interpretation. After the celebrations of the first centenary ofBrazilian Independence, it is possible to say that the historians not only spreaded out thesocial basis of the event, originally confined to the medium and low portions of Bahiassociety at that time but also by making an historiographical inversion of the extremepoints of the analyses - transformed it in a turning point of our national history. To sum up,From the Sedition of the mulattoes to the Conspirao baiana de 1798, here we have ahistory of the historical memory of a native event which simbolic legacy of its protagonistshas been constantly rehabilitated in order to act as a powerful instrument of analysis due todifferent circumstances.

    Key Words: Conjurao Baiana de 1798; Historical Memory; Historiography.

    5

  • Agradecimentos

    Final de uma etapa sempre um momento de balano. Nos ltimos quatro anos, o

    caminho percorrido para a redao final desta pesquisa nem sempre foi fcil. Ocupar-me

    com a memria histrica dos baianos de 1798, prospectando a pertinncia de se reabrir a

    discusso, significou uma obstinao at ento desconhecida. Uma espcie de metafsica do

    menos vir a ser mais algum dia... S que, desta vez, a tarefa no foi to simples quanto

    convencer o gerente do meu banco. Foi necessrio, primeiro, convencer a mim mesma

    sobre a pertinncia das minhas inquietudes, para, depois, tentar convencer os demais que a

    minha teimosia, ao menos neste caso, fazia algum sentido.

    As dificuldades no foram apenas essas. Deparei-me com situaes absolutamente

    inslitas ao longo do caminho. Desconsider-las neste momento significaria que elas foram

    renegadas ao confortvel e intocvel lugar das memrias indesejveis. No o caso.

    Significaria tambm minimizar o papel quase pedaggico que elas tiveram durante a

    pesquisa. Com essas situaes eu pude perceber que muito mais tranqilo, menos

    complicado, lidar com histrias alheias do que com a nossa; muito mais confortvel

    tergiversar sobre o passado do que intervir na circunstncia e em si prprio. Seja como for,

    o tempo, sempre ele, se encarregou dos desdobramentos dessas situaes. Olhando para

    isso tudo, hoje, no final desta etapa, a sensao de inadequao diante do embrutecimento

    alheio cedeu lugar para um sentimento de pertinncia, de segurana. bem verdade que

    isso s foi possvel porque, durante esse perodo, eu tive imensa sorte de contar com o

    amor, carinho e a amizade de vrias pessoas queridas. Por isso e por outras tantas coisas eu

    gostaria de agradecer as pessoas que de uma maneira ou de outra sempre estiveram por

    perto.

    s minhas meninas, Ana e Maria. Amor de muito!!! Vocs foram o meu cho em

    vrios momentos da minha vida e so os sonhos mais lindos que eu poderia ter. Sou a maior

    f e no tem nada que substitua a alegria e o prazer de conviver diariamente com vocs.

    Aos meus pais, Cida e Gilberto, pelo amor em todos os momentos da minha vida. Agradeo

    aos dois pela fora durante o perodo de pesquisa; por financiar boa parte dos meus sonhos;

    pela compreenso nos momentos de contratempo e pela enorme dedicao s meninas nas

    minhas ausncias. Ao meu querido irmo Jlio Csar pelo amor. Ter sonhos o primeiro

    6

  • passo para realiz-los. Ao meu irmo Marco Antnio, querido, sempre me apoiando,

    ajudando e aconselhando com muito carinho. Homem ntegro, de carter invejvel e tudo

    isso sem perder a ternura! Seu sua maior f! Obrigada por tudo! A Aline, minha cunhada,

    valeu pela fora e pelo carinho com as meninas!

    Ao Marcos Gonzaga, pelo amor s nossas filhas e por estar sempre presente na

    minha ausncia. Apesar de ocupar o ingrato papel social de ex-marido, voc um grande

    amigo. Este trabalho no seria possvel sem a sua ajuda. Ao Nelso Stepanha, pela tinta com

    a qual transformamos a nossa histria em uma grande amizade. Valeu pela fora em vrios

    momentos, pelos bate-papos e pelo dicionrio de filosofia na Augusta.

    Ao Rodrigo Ricupero, por tudo, sempre! Pela amizade construda ao longo desses

    anos. Pela militncia poltica mesmo quando programaticamente estivemos em lados

    opostos. Felizmente, foram poucas vezes. mais confortvel t-lo por perto! Ao Mrcio

    Fncia, amigo dos bons; daqueles que sempre me faz voltar pra terra! Fernanda Luciani,

    querida amiga que eu tive a sorte de encontrar no ltimo ano de pesquisa. Valeu pela fora

    na bibliografia e pelo carinho nos momentos finais! Ao amigo de todas as horas no alm-

    mar, Prof. Dr. Jos Augusto dos Santos Alves. Pelo apoio e orientao durante a estadia

    lisboeta, pelo congresso na UCLA, pelas provocaes polticas e pelas constantes gentilezas

    bibliogrficas.

    Aos amigos e companheiros de quinto esquerdo em Lisboa: Lus Filipe Silvrio

    Lima, Evandro Domingues, Micha, Luciana Gandelman, Jaqueson da Silva. Agradeo a

    alegria dos encontros regados a imperiais e cafs naquele rigoroso inverno de 2003.

    Ermelinda Pataca, que alm de Lisboa, compartilhou comigo momentos de grande

    entusiasmo histrico na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro e no Instituto Histrico e

    Geogrfico Brasileiro. Aos amigos de ps: gatha, Breno, Evando Melo, Fbio Joly,

    Fabiola Holanda, Luana Chnaiderman, Lucas Jannoni, Gustavo Tuna, Igor de Lima, Jair,

    Joana Climaco, Joana Monteleone, Juliana Monzani, Laurent de Saes, Lidiane, Ligia Sena,

    Luiz Vailati, Miguel Palmeira, Nelson Cantarino, Priscila Bonne Fee, Rafael Benthien,

    Srgio Alcides, obrigada pelas leituras rigorosas do meu trabalho, pela alegria dos nossos

    encontros e a fora de sempre.

    7

  • Ao meu orientador, Prof. Dr. Carlos Alberto de Moura Ribeiro Zeron, especial

    agradecimento por compartilhar um projeto de pesquisa cujas dimenses e desafios eu

    mesma desconhecia. Agradeo a liberdade com a qual conduziu a orientao deste trabalho.

    Ao Prof. Dr. Bernardo Ricupero pela inspirao acadmica e intelectual. Profa.

    Dra. Raquel Glezer, pela orientao de argumentos e idias elaboradas pelas inspiradas

    discusses realizadas no curso de Historiografia, e pelo apoio em vrios momentos. Aos

    dois sou imensamente grata pelas valiosas contribuies como membros da banca

    qualificadora e no decorrer deste trabalho.

    Ao professor Fernando Antonio Novais pelas valiosas contribuies durante o curso

    de Historiografia realizado nos momentos finais deste trabalho. Tenho a maior admirao

    pelo senhor e pela gentileza com a qual sempre tratou os alunos do curso. Agradeo ao

    Professor Rogrio Forastieri pela generosidade bibliogrfica e por participar do seminrio

    da ps-graduao com valiosas contribuies.

    Ctedra Jaime Corteso, em particular Profa. Dra. Vera Lcia Amaral Ferlini,

    pela concesso da bolsa de pesquisa que possibilitou minha ida a Portugal. Por me aceitar

    no PAE, pelo enorme apoio na etapa final deste trabalho e pelo devir. CAPES, que

    concedeu a bolsa no ltimo ano e meio de pesquisa. Meu especial agradecimento aos

    funcionrios do setor de ps-graduao da fefelche, Bete, Andra e Priscila.

    Ao Marquinhus, um grande amor que eu tive a sorte de encontrar quando a vida

    estava um tanto confusa. Obrigada por tudo: pelo amor, pelo carinho, pelas generosas

    tintas, pela intensidade e por essa histria linda.

    SUMRIO

    8

  • Alguma Explicao ............................................................................................... p. 10Captulo 1: Prmio e Castigo: a histria das devassas da Conjurao Baiana

    de 1798 .................................................................................................................... p. 221.1 Circunscrevendo possibilidades ..................................................................... p. 221.2 Algumas outras possibilidades ....................................................................... p. 65Captulo 2: Memrias da revolta baiana de 1798: a represso bem sucedida

    ou a insistente sublevao? ................................................................................... p. 732.1 A(s) revolta(s) baiana(s) de 1798 na pena dos contemporneos ................. p. 732.1.1 Frei Jos do Monte Carmelo ....................................................................... p. 732.1.2 Jos Venncio de Seixas ............................................................................... p. 852.1.3 Lus dos Santos Vilhena ............................................................................... p. 902.2 Os contemporneos e a revolta baiana de 1798 ............................................ P. 99Captulo 3: A revolta baiana de 1798 no oitocentos: uma outra histria

    ptria ...................................................................................................................... p. 1103.1 Incio Accioli de Cerqueira e Silva ............................................................... p. 1103.2 John Armitage ................................................................................................. p. 1173.3 Francisco Adolfo de Varnhagen ................................................................... p. 1313.4 Joaquim Caetano Fernandes Pinheiro .......................................................... p. 142Captulo 4: A Conjurao Baiana de 1798 no sculo XX: da punio

    exemplar revoluo malograda ......................................................................... p. 163Parte I: O regionalismo soteropolitano: foram quatro os Tiradentes da

    Conjurao Baiana de 1798? ............................................................................... p. 1644.1 Francisco Vicente Viana ................................................................................. p. 1644.2 Francisco Borges de Barros ........................................................................... p. 1674. 3 Braz Hermenegildo do Amaral ..................................................................... p. 177Parte II: Das contradies do sistema colonial revoluo malograda ........... p. 1864.4 Caio Prado Jnior ........................................................................................... p. 1864. 5 Affonso Ruy de Sousa .................................................................................... p. 191Parte III: O debate atual sobre a Conjurao Baiana de 1798: a esperana

    venceu o medo? ...................................................................................................... p. 202Concluso ............................................................................................................... p. 222Bibliografia ............................................................................................................ p. 231

    9

  • Alguma explicao.

    Fazer poltica passar do sonho s coisas, do abstrato aoconcreto. A poltica o trabalho efetivo do pensamento social; apoltica a vida. Admitir uma quebra de continuidade entre a teoriae a prtica, abandonar os realizadores a seus prprios esforos,ainda que concedendo-lhes cordial neutralidade, renunciar causa humana. A poltica a prpria trama da histria.

    Maritegui1.

    Da sedio dos mulatos Conjurao Baiana de 1798: a construo de uma

    memria histrica um trabalho de histria da histria. Um trabalho desta natureza um

    estudo sobre a manipulao de um fenmeno histrico pela memria coletiva a partir de

    consensos estabelecidos pela historiografia. Nesta perspectiva de pesquisa, histria,

    historiografia e memria so conceitos fundamentais que se interpenetram constantemente

    de forma dinmica, ainda que sejam fenmenos de representao do real que em essncia

    no so da mesma natureza. Parte-se, portanto, da existncia de uma relao dialtica entre

    esses conceitos.

    Carlos Alberto Vesentini2, ao tratar das relaes dialticas entre esses conceitos,

    afirma que a produo historiogrfica uma construo, uma representao de diferentes

    seguimentos sociais, que o autor identifica como um processo absolutamente pertinente

    construo da memria histrica. luz da Revoluo paulista de 1930, o autor demonstrou

    que a memria histrica pode ser freqentemente apropriada e re-elaborada pelo poder, em

    circunstncias diversas. Para o autor vencedor e poder, identificados, reiteram o mesmo

    procedimento de excluso3. Isso porque, ainda segundo o autor, a construo da memria

    histrica relaciona-se com a luta poltica, na qual a memria amplamente difundida

    sociedade aquela que triunfou a partir da excluso, i.e., das disputas com as verses dos

    segmentos vencidos. A memria histrica que prevalece, com efeito, a memria dos

    vencedores, e, segundo o autor, a investigao sobre o processo de construo dessa

    1J. C. Maritegui. Do sonho s coisas: retratos subversivos. So Paulo, Boitempo: 2005. Traduo de LuizBernardo Perics. 2 Carlos Alberto Vesentini. A teia do fato: uma proposta de estudo sobre a memria histrica. So Paulo:Hucitec, 1997. 3 Idem, p.17, passim.

    10

  • memria pressupe, inevitavelmente, trilhar as vias pelas quais essa memria imps-se

    tanto aos seus contemporneos quanto a ns at os dias de hoje.

    Vesentini vai alm em suas consideraes acerca dos meandros da construo da

    memria histrica de um determinado evento. O autor afirma em tom provocativo que em

    alguns casos necessrio entender a histria como uma memria e perceber a integrao

    que ocorre de maneira contnua entre a herana recebida e projetada at ns. O autor

    sugere que a ateno seja voltada, nesse caso, para o dispositivo ideolgico com o qual o

    historiador confere objetividade para seu objeto de reflexo: temas fatos e agentes, neste

    processo, tm existncia objetiva independentemente do processo de luta e da fora de

    sua projeo e recuperao, como tema, em cada momento especfico que o retoma e o

    refaz4.

    Para tanto, Vesentini chama a ateno para a necessidade de o historiador depurar

    fontes e fatos em bruto, como que lhes dando certa qualidade cientfica, liberando-os do

    mundo das paixes e percepes parciais interessadas de forma a garantir, anlise, pontos

    firmes de apoio. Nesse caso, as verses contemporneas, em que as disputas entre as

    memrias ainda so turvas e impedem a viso do conjunto, devem ser isoladas, cotejadas e

    depuradas para que, segundo o autor, se possa abrir caminho cincia e s suas

    interpretaes. O rastreamento dessas vises, de acordo com Vesentini, equivaleria

    gnese do processo de construo da memria histrica. Entretanto, o prprio autor alerta

    para o fato de que deslocar subjetividades e idias, do fato em si, uma pretenso

    extremamente complicada, uma vez que a subjetividade da idia no se coloca como

    exterioridade. Ou ela reside no prprio interior do fato, constituindo-o, ou ele no nos

    aparece como fato5.

    Da que autor sugere que o pesquisador da memria histrica deve, antes de mais

    nada, buscar o prprio movimento do fato no caminho da unicidade que torna possvel a

    construo da ampla temporalidade caracterstica da memria do vencedor; da unificao

    de percepes divergentes advindas de fontes opostas, que se chocaram, confluram ou se

    anularam no processo mesmo de luta. Uma vez localizada a realizao da histria em um

    ponto-chave e de sua memria unitria, organizada de tal forma qualificar o tempo e

    absorver todo um conjunto de momentos e fatos, segundo Vesentini, o historiador deve,

    4 Ibidem, p. 18.5 Idem, Ibidem, p. 163.

    11

  • ento, se concentrar nas anlises e revises que recuperaram aquele conjunto abrangente, de

    modo que tambm se integrem naquela ampla memria. Ser esse o caminho trilhado neste

    trabalho para que o processo de construo da Conjurao Baiana de 1798 possa ser

    analisado.

    A histria da histria da Conjurao Baiana de 1798 um processo longo e

    ininterrupto de disputas e controvrsias, originado da interpretao dos acontecimentos da

    revolta baiana de 1798 pelas autoridades locais, em 1799. Desde a sua origem at hoje, o

    que as autoridades rgias denominaram de Sedio dos mulatos percorreu um longo

    caminho. Foi: sedio dos mulatos, para Jos Venncio de Seixas (1798);

    sublevao, para o carmelita descalo Frei Jos do Monte Carmelo (1798); insistente

    sublevao, para Lus dos Santos Vilhena (c.1798-1800); sublevao intentada, para

    um annimo (c.1798-1800); revoluo e movimento, respectivamente na 1a. e 2a. edio

    para Varnhagen; conjurao de Joo de Deus para Joaquim Caetano Fernandes

    Pinheiro; sublevao, para Francisco Vicente Vianna; conspirao republicana, para

    Brs do Amaral; primeira revoluo social brasileira, para Affonso Ruy; articulao

    revolucionria, para Caio Prado Junior; movimento revolucionrio baiano (em 1961)

    e sedio de 1798 (em 2003), para Lus Henrique Dias Tavares; movimento

    democrtico baiano (em 1969), e revoluo dos alfaiates (em 2004), para Ktia

    Mattoso; ensaio de sedio (edio de 1996) e inconfidncia baiana (tambm em

    1996), para Istvn Jancs; inconfidncia baiana, para o compilador dos Autos da

    Devassa e Seqestro da Biblioteca Nacional conspirao dos alfaiates, na 2a. edio de

    1998 dos Autos das Devassas; e na verso popular, conhecido por conjurao baiana

    de 17986.

    Chamamos ateno para o fato de que Conjurao uma palavra que deriva de

    Conjura, que significa uma forma de resistncia tipicamente aristocrtica, herdeira direta

    das Conjurationes das ligas medievais; Sedio significa perturbao da ordem pblica ou

    tumulto popular; Inconfidncia significa revelao de segredo confiado; Conspirao

    significa tramar contra; Sublevao significa levante, amotinar ou iniciar uma revolta, e

    Revolta significa indignao ou protesto. Considerando os significados dos termos e as6 Cf. Lus Henrique Dias Tavares. Da Sedio, op.cit., p. 30. O historiador apresenta a diferena em relao denominao do evento. Ampliamos o rol dos autores incluindo, inclusive, o prprio historiador que altera adenominao ao longo dos trabalhos publicados.. Cf. Antonio Manuel Hespanha e Jos Mattoso (Orgs).Histria de Portugal O Antigo Regime (1620-1807). Lisboa: Editorial Estampa, Vol. 4, 1998.

    12

  • hipteses aventadas nesta pesquisa, utilizar-se- a denominao Conjurao Baiana de

    1798, uma vez que a variao dos nomes , como se ter oportunidade de mostrar, fruto de

    uma constante disputa entre os que versaram sobre o evento quando ele ainda estava em

    processo de investigao e, depois, ao longo dos sculos XIX e XX.

    Entre a historiografia que versou sobre a revolta baiana de 1798 ao longo dos

    sculos XIX e XX, ainda que s avessas, assente que o carter popular do evento designa

    a participao de homens livres pobres como alfaiates, milicianos e outros ofcios, bem

    como a participao de escravos domsticos. Com efeito, para o sculo XIX, a Conjurao

    Baiana de 1798 foi uma tentativa de revolta que conclamou o povo pelos pasquins

    sediciosos cuja redao e contedo demonstram a nfima relevncia social dos partcipes

    (Accioli, 1835); um arremedo da Revoluo Haitiana e uma chamada incendiria da

    Revoluo Francesa na Bahia, cujos conspiradores no eram homens de talento nem de

    considerao, posto que a pouca valia dos revolucionrios se deduz do modo estranho como

    projetaram a execuo dos planos (Varnhagen, 1857); uma revolta, cujos cabeas foram

    quatro infelizes alucinados pela m interpretao que fizeram das idias dominantes na

    Revoluo Francesa que, dada a ignorncia visvel dos chefes do movimento, deram-lhe

    uma cor socialista pouco prpria para angariar a simpatia e o apoio das classes mais

    ilustradas e influentes da sociedade colonial baiana (Fernandes Pinheiro, 1860); e, uma

    sublevao popular resultante das idias proclamadas pela Revoluo Francesa, e que foi

    habilmente abafada por d. Fernando Jos de Portugal e Castro, ento governador da Bahia

    (Vicente Viana, 1893).

    Para o sculo XX, contudo, a Conjurao Baiana de 1798 teve suas bases sociais

    ampliadas e foi considerada um levante com a participao de vrios setores, inclusive a

    participao da fina flor da sociedade baiana, que assumia propores assustadoras

    alastrando-se do Recncavo ao centro da Capitania, resultando na execuo de quatro

    homens que tiveram o mesmo papel de Tiradentes (Borges de Barros, 1922); uma sedio

    que evidencia sua relevncia pelo grande nmero de proslitos que teve, os quais no eram

    somente pessoas elevadas da colnia, mas homens que constituam a massa de uma nao

    que, no obstante aos severos castigos, continuaram a causa at 1822 (Braz do Amaral,

    1927); uma articulao revolucionria realizada entre as camadas populares da capital

    baiana: escravos, libertos, soldados e pequenos artesos que estiveram lado a lado a alguns

    13

  • intelectuais (Prado Junior, 1933); a primeira revoluo social brasileira ou revoluo

    proletria, dado o ambiente de operrios, artesos e soldados que propagavam as doutrinas

    socialistas e irreligiosas da Frana, embora os atos e as palavras socialistas tenham sido mal

    ouvidas e nunca absorvidas (Affonso Ruy, 1942); um projeto de revolta, que teve como

    protagonistas um grupo de homens livres inseridos nas camadas mdias e baixas da

    sociedade urbana, cuja inteno foi propor uma aliana poltica com a elite local (Mattoso,

    1969, 2004); um levante, na medida em que houve elaborao de um projeto de ao

    poltica por homens livres, mas socialmente descriminados como mulatos, soldados,

    artesos, ex-escravos e descendentes de escravos , cujo objetivo era alterar as relaes de

    poder vigentes a partir da idia de uma repblica que garantisse igualdade (Dias Tavares,

    1969, 1975, 2003); o primeiro ensaio de aliana de classes em torno de propostas

    explicitamente polticas, que significou a face soteropolitana da crise do Antigo Sistema

    Colonial (Jancs, 1975. 1996, 2001); um levante de elementos subalternos que buscavam

    a ordem perdida daquela sociedade a partir de manifestaes proto-nacionalistas que

    reapareceriam em 1822 (Motta, 1967, 1996); um projeto de insurreio armada, planejada

    pelos artesos pardos que, de to amargurados e anti-clericais, eram to avessos aos

    brasileiros ricos quanto dominao portuguesa (Maxwell, 1977, 1998); uma inconfidncia

    protagonizada por gente mida, artesos, soldados, na grande maioria mulatos, alguns

    escravos entre eles, cuja componente nacionalista marginal, uma vez que no h, assim

    como em Minas em 1789, o ataque ao ponto fundamental da dominao portuguesa: o

    exclusivo de comrcio (Alexandre, 1993).

    Nenhum dos nomes da revolta baiana de 1798, ou mesmo as interpretaes supra

    citadas, abarcam sozinhos todos os significados do evento. Mas cada um deles funciona

    como um prisma para observarmos o processo de construo da memria histrica de um

    evento ptrio, cujo legado simblico de seus protagonistas foi retomado de tempos em

    tempos e parece ser destinado a servir de instrumento privilegiado para a reflexo ao sabor

    de distintas conjunturas como marco de referncia e ruptura popular.

    * * *

    14

  • Em uma tpica manh quente da mesma cidade de Salvador, em 22 de agosto de

    2003, o Ministro da Cultura Gilberto Passos Gil Moreira abriu um encontro que tratou da

    questo de gnero e raa com um discurso que versou sobre a relevncia de polticas

    pblicas para a incluso social dos brasileiros discriminados. O Ministro chamou a ateno

    para as aes do governo federal como condio estruturante da verdadeira democracia,

    legitimando-as como o ponto de partida para a efetivao da permanente promessa, por

    suposto ainda no cumprida, de um governo brasileiro representativo de fato. Para tanto,

    afirmou o Ministro

    [...] nesta cidade de So Salvador da Bahia, em 1798 e l se vaimuito tempo! homens pardos, pretos, mestios todos, levantaram-se pela transformao da Bahia em uma terra de liberdade.Postulavam os princpios contemporneos da Revoluo Francesa:a liberdade e a igualdade. Aqueles soldados e alfaiates do povoconceituaram muito precisamente a liberdade que propugnavam.Diziam eles, em um dos seus panfletos revolucionrios, que aliberdade era o estado feliz do no abatimento. Entendiam quenada deveria abater, rebaixar, humilhar o cidado perante seusemelhante nem perante o Estado. Compreendia-se o abatimentoeconmico, o rebaixamento social, a humilhao racial, a exclusopoltica, o abatimento moral. A felicidade como materializao daliberdade s teria sentido pela realizao radical da igualdade.Ainda hoje este ideal est vivo!7

    Um ano antes, em 2002, no decorrer da campanha presidencial que elegeria Lula

    presidncia do Brasil, a populao de modo geral e os alunos do ensino mdio da

    modalidade suplncia, em particular, foram contaminados pela esperana. Aguardavam

    ansiosos pelo dia em que um de seus pares, um ex-sindicalista da regio, assumiria o mais

    alto posto da burocracia estatal, a Presidncia da Repblica Federativa do Brasil. A

    possibilidade indita de um governo popular que efetivamente os representasse nas esferas

    internas do Estado, fez da escola um dos espaos privilegiados para que os alunos-

    trabalhadores refletissem sobre a historicidade da sua participao na Histria. Sociedade

    essa que, em seus termos, at o momento insistia em exclu-los do universo da poltica. Foi

    7 Conferncia do Ministro da Cultura Gilberto Passos Gil Moreira, publicada pela assessoria de comunicaodo MINC em 22 de agosto de 2003, e acessado em 08 de julho de 2005, no stio: www.cultura.gov.br/notcias

    15

  • nesse espraiar que o tema das revoltas coloniais malogradas no final do sculo XVIII foi

    abordado em sala de aula e suscitou manifestaes de toda sorte.

    O livro didtico8 sugerido pela coordenao do curso abordava o tema das referidas

    revoltas vislumbrando-se a Independncia como o fim do caminho. Assim, foi via 1822,

    que o livro encadeou o acontecimento mineiro de 1789 e o baiano de 1798, carregando na

    tinta o processo dialtico de amadurecimento da ao poltica separatista. Para a concluso

    do tema, o recurso adotado no livro um quadro adaptado da obra de Fernando Antonio

    Novais, Portugal e Brasil na crise do antigo sistema colonial (1777-1808), com a seguinte

    citao:

    A Inconfidncia Mineira e a Conjurao Baiana podemlegitimamente considerar-se movimentos precursores daemancipao poltica do Brasil. Elas formam um crescendo detomada de conscincia que, pelo menos para o Nordeste, no seconteve com a vinda da corte e as mudanas que isso implicou9.

    Embora a abordagem buscasse as contradies e as similitudes dos eventos,

    tornando o episdio baiano tributrio do mineiro, a partir da distinta composio social

    que as revoltas adquirem significao no livro didtico. Assim, exceo de Tiradentes, a

    Inconfidncia Mineira aparece como um movimento poltico liderado por membros da elite

    mineira colonial e a Conjurao Baiana, um movimento liderado por pessoas simples,

    como mulatos, libertos e at mesmo escravos10. Para a verificao da aprendizagem, o

    livro indica uma atividade na qual os alunos escrevessem a respeito das semelhanas e

    diferenas dos movimentos de 1789 e 1798, relacionando-as com o trecho da obra de

    Carlos Guilherme Mota:

    O conceito de independncia surge mais ntido nas Minas Gerais:a situao colonial pesa para esses homens proprietrios; oproblema mais colonial que social. [...] na Bahia de 1798, ainquietao orientada por elementos da baixa esfera e a revoluo pensada contra a opulncia [...]11.

    8 Jos Jobson de Arrusa. & Nelson Piletti. Toda a Histria: Histria Geral e Histria do Brasil. So Paulo:tica, 2000.9 Op. cit. p. 257.10 Idem.11 Carlos Guilherme Mota. Idia de Revoluo no Brasil. So Paulo: Cortez, 1986, p. 115, apud, Jos Jobsonde Arruda, op.cit.

    16

  • No exemplar do professor do livro didtico, no item com as respostas das atividades

    propostas, duas questes eram fundamentais para uma resposta correta em relao ao tema:

    a dicotomia da composio social dos episdios Mineira/elite X Baiana/popular , e a

    relao dos movimentos com a Independncia do Brasil. As respostas das atividades

    seguiram o padro estabelecido pelo livro didtico, contudo um aluno apresentou o tema da

    seguinte forma:

    [...] a Bahia [Conjurao Baiana de 1798] foi um exemplo de lutados companheiros por melhores condies de trabalho, salriosjustos e por oportunidades de participao naquele governo.Infelizmente eles [partcipes] no tiveram uma liderana capazchefiar o movimento e brigar contra os poderosos, por isso foramenforcados. [...] No sei se eles queriam uma Revoluo, achomesmo que nem saberiam fazer naquele momento. Foi preciso muitotempo para que o povo aprendesse que chegada a nossa hora, otempo de vingarmos os destinos daqueles pobres coitados. [...] nolutamos pelos privilgios da burguesia como os mineiros[Inconfidncia Mineira de 1789], mais (sic) por dignidade, por umlugar na sociedade, por trabalho, comida e casa, assim comoaqueles baianos12.

    Os trechos acima sugerem que tanto o Ministro da Cultura quanto o aluno, cada um

    a sua maneira, re-interpretaram o que as autoridades rgias denominaram de sedio dos

    mulatos, em 1799, para, no sculo XXI, transform-lo no ponto de partida de um longo

    processo de amadurecimento poltico que efetivaria a promessa de um governo democrtico

    e representativo de fato. Para o Ministro, a cidade eixo central do discurso, o lcus

    privilegiado para a efetivao dos ideais democrticos ainda vivos e que animaram as lutas

    dos baianos dos tempos idos e estavam ainda presentes, como promessa a ser cumprida, em

    2003.

    A redao do aluno, por seu turno, silencia a Independncia do Brasil e indica um

    outro evento no horizonte: a eleio de um lder sindicalista Presidncia do Brasil. Cabe

    lembrar novamente que, nos idos de 2002, a vitria de um lder popular aparece no trecho

    como a efetivao da promessa de um governo representativo de fato e a participao da

    classe trabalhadora nas estruturas internas do Estado projeto que o aluno reconhece como

    seu e, concomitantemente, dos baianos de 1798. H referncia precria condio de vida

    12 A redao utilizada nesta pesquisa foi gentilmente cedida e elaborada por um aluno do 2o. ano do EnsinoMdio da modalidade Educao de Jovens e Adultos, no 2o. semestre de 2002.

    17

  • daqueles baianos e ausncia de possibilidade de participao naquela sociedade, mas,

    paradoxalmente, no o limite poltico e social para os homens livres em uma sociedade

    escravocrata, imposto pelo Estado absolutista e pelo esquema interno de foras articulado

    pela elite colonial, o principal ponto de significao do evento na redao do aluno. Ao

    contrrio, o ponto de significao a ausncia de amadurecimento poltico dos baianos de

    1798, i.e., a redao ressalta a incapacidade de articulao poltica dos baianos e a falta de

    uma liderana popular e de projeto poltico consistente.

    No toa, na ausncia de um lder que levasse a cabo as reivindicaes dos

    baianos de 1798 que o aluno v a razo do malogro do evento e do derivado enforcamento

    dos quatro homens pardos em praa pblica condenados por crime de lesa-majestade. Nessa

    perspectiva, a representao do evento aparece como a etapa inicial de um longo processo

    de amadurecimento poltico da classe popular que, como vimos, no representou o perigo

    que as autoridades da poca vislumbraram, pois para o aluno, tanto na Bahia de 1798 como

    no Brasil de 2002, buscava-se um espao naquela sociedade e no a subverso da sua

    ordem.

    A redao do aluno e o discurso do Ministro, ainda que no sejam textos

    historiogrficos e contenham elementos aparentemente anacrnicos, por suposto

    partidrios, estabelecem uma relao extremamente fecunda a partir da confluncia

    temporal de projetos polticos contemporneos no processo de atualizao do evento baiano

    de 1798. Digno de nota o fato de que o carter popular e os ideais democrticos so os

    eixos da punio exemplar na lgica do poder rgio em 1799, e ainda permanecem como

    pontos de forte identificao poltica do evento como promessas a serem cumpridas.

    Os dois excertos apresentados, ainda que pontualmente distintos, fazem parte de um

    mesmo movimento no qual a memria histrica se sobreps histria e, tal como a fora de

    um arete, forneceu simbolicamente os parmetros para uma espcie de acerto de contas no

    presente com o legado do nosso passado colonial. Parece inegvel que, em ambos os casos,

    h a idia de um evento cujas categorias histricas teriam entrevistas sua prpria

    superao, confluindo para um outro evento, esse sim dotado da idia de mudana. Nesse

    processo, se por um lado, a memria histrica discurso do Ministro e redao do aluno ,

    se realimenta de consensos estabelecidos pela historiografia, por outro lado, cabe histria

    pr em xeque os ngulos de coerncia desses consensos que compem e realimentam a

    18

  • memria histrica. Caberia saber, ento, que implicaes levaram as autoridades rgias a

    denominarem de Sedio dos mulatos um evento que, passados dois sculos, se

    transformou em Conjurao Baiana de 1798 denominao do livro didtico -, um evento

    que traz consigo a idia de mudana, de ruptura? Teriam as autoridades rgias avizinhado

    uma ameaa socialmente legitimada que significasse, poca, uma ruptura com Portugal?

    Quais foram os partcipes do evento, segundo as autoridades locais? A circunscrio social

    do evento, definida pelos Desembargadores do Tribunal da Relao da Bahia, foi

    corroborada pelos depoimentos e assentadas dos partcipes? Por que os quatro rus

    enforcados e esquartejados foram os nicos que sofreram a pena ltima por crime de lesa-

    majestade? Seriam potencialmente revolucionrias as idias dos partcipes da revolta baiana

    de 1798? Todos os partcipes tiveram a mesma percepo dos acontecimentos? Quais as

    percepes que os contemporneos tiveram dos acontecimentos? Teriam eles entrevisto a

    possibilidade de ruptura com Portugal nas aes dos partcipes da revolta? O que os

    contemporneos absorveram das aes das autoridades locais na conduo das

    investigaes? Quais as causas da revolta? Os protagonistas? O projeto da revolta baiana de

    1798? Haveria apenas um projeto? Como a historiografia do sculo XIX interpretou a

    revolta baiana de 1798? Haveria uma histria ptria oitocentista hegemnica? Qual a

    documentao consultada no oitocentos? Os autores oitocentistas leram os

    contemporneos? Como a historiografia novecentista versou sobre a revolta baiana de

    1798? Haveria uma histria hegemnica acerca do evento? Se sim, qual? Se no, quais so

    as histrias? Qual a documentao consultada? Como foi consultada? Os contemporneos

    foram incorporados nas anlises? Como? Finalmente: a revolta baiana de 1798, como um

    marco de referncia e ruptura da Independncia do Brasil estaria na agenda poltica dos

    partcipes de evento tal como aparece no livro-didtico, no discurso do Ministro e na

    redao do aluno?

    E como promessa a ser cumprida apresentam-se os seguintes caminhos: no captulo

    I desta dissertao procurou-se reconstituir a histria das devassas da Conjurao Baiana de

    1798. A partir das anlises das informaes dos Autos das Devassas do evento percebe-se

    que na lgica punitiva do poder local e das autoridades metropolitanas, a circunscrio das

    bases sociais do evento decorreu de uma clivagem social com vistas manuteno de uma

    certa ordem cara, no aqum e no alm-mar, conjuntura do final do sculo XVIII. Por um

    19

  • lado, puniu-se exemplarmente quatro homens livres, pobres e pardos e, por outro, negociou-

    se com um grupo de notveis que, alm de colaborarem efetivamente nas denncias e

    execuo dos rus, tinham em comum tinham o fato de serem todos proprietrios dos

    escravos indiciados nos processo e agentes da administrao local. Essas informaes,

    entrementes na prpria documentao h muito analisada, foram desconsideradas pelas

    autoridades rgias e, como se ter oportunidade de demonstrar, pela historiografia que

    versou sobre o evento ao longo dos sculos XIX e XX.

    O captulo II ocupou-se dos relatos contemporneos de Jos Venncio de Seixas,

    Lus dos Santos Vilhena e Frei Jos de Monte Carmelo sobre a revolta baiana de 1798, que

    analisados em conjunto so menos esquemticos do que a lgica do poder local. Os relatos

    indicam outras possibilidades e pontos de significao distintos dos que foram

    circunstanciados pelos Desembargadores do Tribunal da Relao da Bahia na concluso dos

    processos, sobretudo no que se refere composio social e natureza do evento. No

    obstante, os intelectuais oitocentistas fizeram letra morta dessas informaes, subsumindo a

    participao indireta do grupo de notveis. No sem surpresa, os intelectuais oitocentistas

    mantiveram em suas anlises os eixos definidos pelo poder rgio em 1799. Todavia, quando

    eles analisam o evento h certas diferenas na aparente hegemonia do mundo dos iguais: se

    para Francisco Adolfo Varnhagen o evento baiano foi um arremedo da Revoluo Haitiana

    habilmente abortada pelas autoridades locais; para Joaquim Caetano Fernandes Pinheiro,

    entretanto, diante da iniqidade das autoridades dos tempos coloniais era legtimo o direito

    rebelio dos povos, ainda que o cnego adjetivasse os protagonistas da revolta como as

    fezes daquela sociedade. O debate poltico subjacente s interpretaes sobre a Conjurao

    Baiana de 1798, a partir da segunda metade do oitocentos, foi balizado pelos vrios

    significados do processo de independncia de 1822. Para Fernandes Pinheiro h uma

    diferena entre a administrao dos tempos coloniais e a sagrada mansido instituda pela

    administrao do segundo Reinado, poca bastante desgastado.

    No captulo III, dividido em trs partes, analisou-se a historiografia que versou sobre

    o evento no sculo XX. nesse perodo que o evento sofre mutaes pela pena do saber

    histrico, quando deixa de ser considerado uma anomalia social, uma sedio dos mulatos

    nos termos das autoridades rgias, para ser reputado como a Conjurao Baiana de 1798. A

    historiografia novecentista, a partir da Primeira Repblica, inverteu os plos das anlises

    20

  • oitocentistas quanto relevncia da baixa abrangncia social, por um lado, e, por outro,

    suspendeu o conservadorismo oitocentista e passou a analis-lo luz da crise do Antigo

    Sistema Colonial. A partir desse processo de inverso historiogrfica, o evento

    interpretado como contradio e tentativa de superao do prprio sistema colonial. As

    aes dos partcipes em alguns casos como manifestao proto-nacionalistas e, ao fim e ao

    cabo, como a etapa popular do processo de emancipao poltica do Brasil.

    Com efeito, conferido ao evento uma forte coeso ideolgica em torno de um

    projeto de nao predefinido. o caso das anlises de Istvn Jancs e Carlos Guilherme

    Mota. O impacto ideolgico dessa vertente explicativa foi to forte que, at hoje, se

    reconhece o sentido democrtico subjacente no projeto e nas aes dos homens livres,

    pobres e pardos que participaram da Conjurao Baiana de 1798. Mesmo nos trabalhos de

    Ktia Mattoso e Lus Henrique Dias Tavares que, cada um a sua maneira, procuram

    compreender o evento como a expresso de uma srie de contradies e ambigidades

    prprias do perodo. Todavia, a natureza separatista, democrtica e popular so apenas

    sutilmente questionadas.

    21

  • Captulo 1. Prmio e Castigo: a histria das devassas daConjurao Baiana de 1798.

    Prmio e castigo so os dois plos sobre que estriba toda amquina poltica.

    D. Rodrigo de Souza Coutinho, 179813.

    1.1 Circunscrevendo possibilidades.

    Passados pouco mais de dois meses das primeiras prises decorrentes da

    publicizao de pasquins de contedo revoltoso na manh de 12 de agosto de 1799, d.

    Fernando Jos de Portugal, ento governador-general da Bahia, envia uma extensa carta a d.

    Rodrigo de Souza Coutinho, Ministro de d. Maria I14 explicando os procedimentos adotados

    na consecuo das Devassas instauradas para se descobrir, respectivamente, o(s) autor(es)

    dos pasquins e os partcipes do movimento. Justificando-se, inicialmente, pelas

    providncias imediatamente tomadas que pedia matria to delicada e melindrosa, o

    governador afirma que para descobrir os autores dos papis ele praticaria todos os mais

    procedimentos que julgasse necessrios. E assim o fez. Aps as prises e as informaes

    obtidas nas primeiras acareaes, o governador pondera com d. Rodrigo sobre os meios

    mais adequados para se descobrir os rus

    [...] reflectindo eu ao meio da devaa, posto que o mais conforme aLey neste cazo, no he regularmente o [meio] mais eficaz para sedescobrirem os Reos dessa qualidade de delicto, que procuram usarde todo o desfarce, segredo e cautela quando o cometem, para quefaltem testemunhas oculares que o comprovem, e que se devio fazertodas as averiguacoens, ainda que incertas e duvidosas [...]15.

    O caminho duvidoso escolhido por d. Fernando foi o exame de vrias peties

    antigas que se encontravam na Secretaria de Estado e Governo do Brasil, sob o comando de13 Incio Accioly de Cerqueira e Silva, Memrias Histricas e Polticas da Bahia, anotadas por Braz doAmaral, 6 vols. Bahia: Imprensa Oficial, 1919-1940, vol. III, p. 95.14 Biblioteca Nacional, doravante BN, Sesso de Manuscritos, I-28, 26, 1, no. 13. Carta de 20 de outubro de1798.15 Idem.

    22

  • Jos Pires de Carvalho e Albuquerque. O objetivo era confrontar as letras dos documentos

    oficiais com a letra dos pasquins sediciosos. Note-se que os documentos entregues ao

    governador eram documentos referentes s tropas urbanas de milcia, circunscrevendo o(s)

    ru(s) antecipadamente a um determinado grupo daquela sociedade, os milicianos. O exame

    resultou na descoberta de duas peties que indicavam ser de autoria de Domingos da Silva

    Lisboa, homem pardo16. A priso foi decretada ainda que esse indcio fosse remoto e

    falvel, pois o governador ouviu dizer ser o dito Domingos algum tanto solto de

    lingoa17. Para alm da frouxido verbal do acusado, pesou sobre ele seu ofcio.

    Domingos da Silva Lisboa nasceu na Freguesia da Nossa Senhora da Encarnao,

    em Lisboa, era filho de pais desconhecidos, solteiro, requerente nos Auditrios e Alferes do

    Quarto Regimento de milcias da Salvador. Foi preso aos quarenta e trs anos de idade e foi

    descrito no termo de sua priso, hbito e tonsura, pelo escrivo Verssimo de Sousa Botelho

    como um

    [...] homem pardo de Estatura alta groo [sic] do Corpo, Cabeagrande cabelo atado e Crespo, testa alta, sobrancelhas finas, epretas, olhos grandes e pardos, nariz groso e afillado, boca grande,Lbios finos digo Lbios groos [sic], Rosto comprido, e cheio debarba, estaua uestido Com camisa de bertanha, Siroula de pano deLinho, Sapatos nos pes [...]18.

    Era praxe para a averiguao de crimes, sejam eles quais fossem, a elaborao do

    termo de priso, hbito e tonsura no mesmo dia ou no dia seguinte priso do acusado para

    assegurar sua integridade fsica a partir da descrio de suas caractersticas19. No caso de

    Domingos da Silva Lisboa chama a ateno o fato de que a data exata de sua priso no

    consta nos autos. Entretanto, pode-se asseverar pelo auto de achada e aprehenso,

    realizado em 17 de agosto de 1798, que o acusado se no foi preso no mesmo dia, foi no dia

    seguinte. Contudo, seu termo de priso foi elaborado oito meses depois, precisamente no16 Auto de exame, e combinao das Letras dos pesquins [sic], e mais papeis sedicciozos [sic], queapparecero nas esquinas, ruas, e Igrejas desta Cidade que se acho incorporados na Devassa, que estadebaixo do N. 1 e do papel que elles esto escritos, com as letras de Domingos da Silva Lisboa naspeticoens, que foro achadas em sua caza, e com o papel limpo, que ahi tambem se achou, e tudo se achajunto ao auto da achada, e aprehenso constante do appenso N. 9. In: Autos da Devassa da Conspiraodos Alfaiates. Salvador: Imprensa Oficial do Estado, 1998, vol. 1, pp. 86-89. Doravante ADCA. 17 Ibidem; ADCA, vol 1, p. Asentada, p. 62. 18 Cpia do termo de prizo, habito e tonura feita ao Reo Domingos da Sylva Lisboa. In: ADCA, vol.1, p.143.19 Arno Wehling. Administrao portuguesa no Brasil de Pombal a D. Joo (1777-1808). Braslia: FUNCEP,1986, vol. 6. Ver, especialmente, o captulo VII, Administrao Judiciria Itinerrios possveis dosprocessos da justia colonial, pp. 151-172.

    23

  • dia 02 de maro de 1799. Esse estranho procedimento tambm ocorreu com o prximo

    acusado.

    A suspeita de d. Fernando em relao a Domingos da Silva Lisboa no se confirma.

    Dez dias aps a referida priso apareceram dois bilhetes destinados ao Prior dos Carmelitas

    Descalos, provando que no fora Domingos da Silva Lisboa o autor dos papis, e o tal

    meio utilizado para a averiguao dos cabeas do movimento era de fato bem duvidoso.

    No obstante, o governador novamente procura evidncias nas tais peties da Secretaria de

    Estado e encontra trs documentos que comprovam, dessa vez, que os pasquins foram

    escritos por Luiz Gonzaga das Virgens e Veiga, homem igualmente pardo e soldado do

    Primeiro Regimento de Linha da Praa da Salvador e Quarta Companhia de Granadeiros20.

    Ocorre que dessa vez pesou sobre o ru um requerimento atrevido enviado certa feita

    pelo acusado para que d. Fernando

    [...] o nomeasse Ajudante do quarto Regimento de Milcias destaCidade, composto de homens pardos, alegando que estes devio serigualmente attendidos que os brancos, a que no deferi, e queconservava em meu poder pela sua extravagncia [...]21.

    Por analogia ao teor da carta, o governador chega ao contedo dos pasquins

    sediciosos, uma vez que os papis tambm inculcavo aquela mesma igualdade entre os

    pardos, pretos e brancos. Isto posto, faz no s conjecturar mas persuadir ser elle [Luiz

    Gonzaga das Virgens e Veiga], e no outrem o autor dos Papeis Sediciozoz. Luiz Gonzaga

    das Virgens e Veiga nasceu em Salvador, filho legtimo de Joaquim da Cunha Rob e de

    Rita Gomes e poca de sua priso tinha trinta e seis anos. Foi descrito pelo escrivo

    Verssimo de Sousa Botelho como um

    [...] homem pardo de ordinria estatura cheio do Corpo, tem acabea Redonda, e examinando a no lhe achei Coroa, ou Sinaldella, e Sim o Cabelo que h preto, e algum tanto trocido [sic], ecrescido por detrs, e com falta delle adiante, Rosto Comprido,orelhas grandes testa alta, olhos pretos, sobrancelhas pretas, efinas, naris afillado, boca Rasgada, Lbio groos a barba feixada,

    20 Auto de combinao de letra dos pesquins [sic], e papeis sediciosos, que apparecero nas esquinas, ruase Igrejas desta Cidade, incorporados na Devassa debaixo do n. 1 com a letra de Luiz Gonzaga das Virgensnas peticoens que esto no appenso n. 4 e papeis juntos por linha ao appenso n. 5, e com a letra deDomingos da Silva Lisboa nas peticoens,.... In: ADCA, vol. 1, pp.123-124.21 BN, Sesso de Manuscritos, I-28-26, 1, n. 13.

    24

  • est vestido Com Camisa de bertanha, e Siroulas de pano de Linho,embrulhado com hum Cazuz de pano azul, Calado somente comsapatos, e sem fiuellas [...]22

    Apesar de ter sido preso em 23 de agosto de 1798, seu termo de priso foi elaborado

    em 24 de fevereiro de 1799, uma semana antes do termo de priso do ento primeiro

    acusado, Domingos da Silva Lisboa. Sentenciado o acusado em Relao, de maneira

    bastante duvidosa e falvel, d. Fernando cria ter resolvido com a maior prontido o crime

    sobre os papis sediciosos. Todavia, no foi o que ocorreu.

    No dia 25 de agosto de 1798, dois dias aps a priso de Luiz Gonzaga, o governador

    surpreendido por trs denncias cujo teor davam conta de que outro pardo, Joo de Deus

    do Nascimento havia convidado algumas pessoas do Regimento de Artilharia para uma

    reunio que seria realizada naquela noite, no Campo do Dique do Desterro, cujo objetivo

    era

    [...] formar huma rebelio, e revoluo, que entravo outraspessoas que to bem chamara ao seu partido rogando-lhe que seachasse na noite do dia seguinte em sua caza, para ir dali com elle[Joo de Deus] e os mais, ao Campo do Dique, a fim de ajustarem omodo, meios, e occazio em que havia ter efeito a projectadarevoluo[...]23.

    A reunio no Campo do Dique, como se sabe, foi abortada. Uma das razes foi

    haver entre os partcipes quem reconhecesse os denunciantes e desconfiasse de suas

    presenas. Aps esse episdio, no dia 26 de agosto do mesmo ano, outra devassa foi

    instaurada para investigar o crime de conjurao, sob os cuidados do desembargador

    Francisco Sabino da Costa Pinto. Vrias pessoas foram presas ao longo de seis meses.

    Dentre elas algumas apenas prestaram esclarecimentos, outras foram consideradas culpadas

    a priori, pois o que ocorreu foi a clivagem social para que houvesse diferenciao entre os

    acusados, conforme d. Fernando explicitou a d. Rodrigo de Sousa Coutinho:

    22 Copia do termo de prizo habito e tonura feita ao Reo Luis Gonzaga das Virgens. In: ADCA, vol. 1,pp. 142-143.23 Denncia publica jurada e necessria que d Joaquim Joze da Veiga, homem pardo, forro, cazado eofficial de ferrador [...]; Denncia publica [...] que d o Capito do Regimento Auxiliar dos homenspretos Joaquim Joze de Santa Anna [...]; Denuncia publica [...] Joze Joaquim de Serqueira, homem brancoe Soldado Garnadeiro do primeiro Regimento pago desta Praa [...]. In: ADCA, vol. II, pp. 910-920.

    25

  • [...] o contexto dos Papeis sediciozoz, to mal organizados, postoque sumamente atrevidos e descarados; o caracter e qualidade doseu autor, e das principaes cabeas que trataram da rebelio taescomo Luiz Gonzaga das Virgens, Joo de Deos Alfaiate, LucasDantas, e Luiz Pires lavrante, todos quatro homens pardos, depssima conducta, e faltos de Religio, me fez capacitar, que nestesattentados, nem entravo pessoa de considerao, nem deentendimento, ou que tivessem conhecimento e Luzes, o que melhorse tem acontecido pelas confissoens destes Ros [...]24.

    Segundo as informaes dos autos, a situao no era exatamente a narrada na carta

    por d. Fernando Jos de Portugal. Paralelamente s prises, os desembargadores Manoel

    Magalhes Pinto e Avellar de Barbedo e Francisco Sabino lvares da Costa Pinto colhiam,

    desde o dia 17 de agosto de 1798, os depoimentos dos presos e coordenavam as

    Asentadas, depoimentos de testemunhas que, nesse caso, eram senhores de engenho,

    comerciantes, duas mulheres pardas e alguns homens livres que alguma relao tiveram

    com os acusados. As informaes que se apreende dos depoimentos dos acusados e de

    algumas testemunhas indicam a existncia de uma sociabilidade poltica entre os partcipes

    do evento que no esteve apenas circunscrita s mdias e baixas camadas daquela sociedade

    como d. Fernando insistia em afirmar para d. Rodrigo de Sousa Coutinho, pois por ocasio

    do relato da priso do primeiro acusado, Domingos da Silva Lisboa estivera [...] aliciando

    e convidando para este fim [revolta], como convidaro, a vrios Escravos de diversos

    Senhores, e alguns soldados, e outros indivduos que foram sucessivamente prezos [...]25.

    D. Fernando Jos de Portugal e Castro, ao longo da carta e mesmo na conduo do

    processo demonstra certo cuidado no que respeita procedncia social dos homens que

    participaram da revoluo projectada. Ao longo de cinco meses dos depoimentos para se

    confirmar o autor dos papeis revoltosos e nervosos, as testemunhas afirmaram que

    ouviram dizer sobre o contedo dos ditos papis, mas que no tinham certeza de seu

    autor. O testemunho de Francisco Pereira Rabello, homem branco, Alferes do Tero

    Auxiliar das Ordenanas e morador em Itapagipe, cercania de Salvador, bastante

    significativo. Afirma o Alferes

    24 Carta de 20 de outubro de 1798. BN Sesso de Manuscritos.25 Idem.

    26

  • [...] que publicamente tem ouvido dizer que aparessero hunscertos papeis atrevidos pellas Esquinas, porem que elle [...] nem temnoticia de quem os fizesse ou para isso concorresse. E [...] estandoelle no Citio do Bomfim e dando-se a noticia da prizo de Domingosda Sylva Lisboa, elle testemunha dissera que o dito Lisboa no tinhacido Autor dos papeis mas sim que seos maiores e que so lhesfaltava ter a Tropa a seo favor [...]26.

    Doutor Manoel Magalhes Pinto de Avelar e Barbedo no verificou a informao do

    depoente preferindo relat-la ao governador. No bastasse a denncia de que os superiores

    das tropas estavam envolvidos no movimento, outro depoente, Jos Fernandes de Miranda

    no s confirmou a informao como acrescentou que, quando estivera em uma casa indo

    para So Bento, soubera que

    existio quinhentos homens ocultos para darem execuo aoprojecto a que se dirigio os sobreditos papeis [pasquins], e que elletestemunha [...] tinha ouvido contar em huma conversa de humaspoucas [corrodo] pessoas cujos nomes no se lembra27.

    Ciente da possibilidade dos comandantes das tropas urbanas serem os cabeas do

    movimento e comandarem um grande nmero de homens para a execuo do levante, d.

    Fernando no comenta essas informaes na carta enviada a d. Rodrigo de Souza Coutinho,

    preferindo ganhar tempo na consecuo das devassas, sem contudo verificar a procedncia

    dessas denncias. Como as informaes evidenciavam uma maior amplitude social dos

    envolvidos, a conduo dos processos caminhava para um engenhoso mecanismo de

    silenciamento das informaes.

    Nos depoimentos e na acareao entre o ento acusado Domingos da Silva Lisboa e

    as testemunhas Bento Jos de Freitas e Thomas Pereira da Fonseca, foram longos oito

    meses e os encontros ocorreram em trs momentos diferentes. Ainda sob a condio de

    principal suspeito, no dia 27 de agosto de 1798, quinze dias aps a publicao dos pasquins

    em locais pblicos, os desembargadores perguntaram a Domingos da Silva Lisboa se era ele

    o autor dos pasquins publicados nas esquinas da Salvador e se reconhecia ser dele a letra de

    algumas peties que estavam na Secretaria de Estado. Domingos da Silva Lisboa

    26ADCA, vol. 1, p. 61. Grifo meu.27 Idem.

    27

  • respondeu negativamente a primeira pergunta e positivamente a segunda. O desembargador,

    contudo

    [...] foi instado que [Domingos da Silva Lisboa] dissesse averdade, porquanto pello exame judicial a que se tinha procedido naprezena delle Menistro, feita huma exacta observao eCombinao, entre os sobreditos requerimentos por ellereconhecidos, e os sobreditos papeis revoltozos, se tinha achado, eassentado pellas razoens ahy alegadas, que ero estes escrituradospor elle respondente, e a Letra delles a sua prpria no obstante quedesfigurada, ou desfarada algum tanto28.

    A insistncia sobre a letra dos pasquins ser do acusado continuou por mais quatro

    perguntas acrescidas da informao que porquanto hera de voz pblica que o acusado

    falara temerria e audaciozamente sobre matrias de Governo, e Religio posto serem

    estes, para o desembargador, fortes indcios de que o acusado era capaz de escrever os

    pasquins. Aps as negativas do acusado sob a argumentao de que vivia catholicamente e

    sob as Leys de seo Governo, uma nova pergunta foi feita referente ao teor das obras

    aprendidas na casa do acusado pelas autoridades29. Assim, foi proguntado (sic) se elle

    respondente [Domingos da Silva Lisboa] reconhecia como seos, huns veros feitos a

    Liberdade, e igualdade, que se aprehendero em sua Caza, imediatamente a sua prizo30.

    O acusado respondeu que os tais versos no eram seus e que se foram encontrados

    entre seus pertences porque teriam sido postos por um homem chamado Manoel

    Henriques que ficara abrigado em sua casa por dois meses, e tinha o intuito de lhe

    prejudicar, pois fora expulso por ser ele muito bbado. Com a mesma veemncia sobre a

    letra dos pasquins, insistiu-se com o acusado sobre a pertena dos versos, dado que

    imediatamente aps a sua priso, Domingos da Silva Lisboa havia pedido ao carcereiro que

    fosse at a sua casa retirar um versos sobre a liberdade que haviam sido feitos pello

    defunto Salvador Pires31, ou no seu tempo.

    28 ADCA,vol. 1, p. 93.29 Cf. Auto de aprehenso nos bens achados em caza de Domingos da Silva Lisboa, e depozito delles. ADCA,vol. I, pp. 81-82. Nos autos consta a apreenso do seguinte: huma caixa grande j velha, e dentro dellabastantes Livros, e alguns desencadernados, e hu boceta grande de folha, huma estante de pes com cento, esetenta e nove Livros grandes e pequenos de varios Autores, e hum de Capa de pergaminho ainda em brancocom alguns asentos [...]. 30 ADCA., vol I, p. 94.31 Salvador Pires de Carvallho e Albuquerque, acadmico renascido, morreu em 1795 e era um dos filhos deJos Pires de Carvalho e Albuquerque, proprietrio do morgado dos Pires e do morgado da Casa da Torre deGarcia dvila, herdado pela prtica de endogamia familiar e social pelo casamento com d. Leonor Pereira

    28

  • O acusado respondeu afirmando que era [...] o sobredito Henriques, o qual dizia

    ter Introduo, e conhecimento com o defunto Salvador Pires de Carvalho. Ainda que o

    desembargador tivesse mencionado o nome do proeminente defunto, nada mais disse a seu

    respeito naquele momento. J ao final do depoimento, as perguntas feitas referiam-se s

    obras encontradas na casa do acusado, entre elas hum papel revolucionario intitulado

    Orador dos Estados Geraes32, pelo que o acusado reconheceu serem suas sem, contudo,

    concordar com a doutrina que elas incitavam. Todavia, ser na segunda etapa de

    depoimentos com Domingos da Silva Lisboa, realizada alguns meses depois, aos vinte e

    seis dias do ms de fevereiro de 1799, que sero esclarecidas as questes apenas apontadas

    no primeiro depoimento. A principal questo da segunda etapa para os desembargadores

    foram as obras encontradas na casa do acusado e que o mesmo insistiu que no eram suas.

    Entretanto, o acusado modificou sua resposta com uma informao preciosa:

    o dito papel [versos sobre liberdade e igualdade] lhe confiarasendo vivo Salvador Pires de Carvalho, para que elle Respondenteovesi (sic) e sobre ele proferise o seu sentimento, [...] porem que elleRespondente nunca aprovara as maximas que o dito papel de suapropria letra, e nem era caps elle Respondente dizer o Juzo[corrodo] semelhantes doutrinas pelo digo tendo vividocatolicamente, e como bom Vasalo33.

    O desembargador afirmou que essas declaraes eram falsas e fraudulentas, uma vez

    que o acusado havia inventado a existncia do tal Manoel Henriques para se livrar das

    acusaes, no obstante a minuciosa descrio que Domingos da Silva Lisboa fornecera

    sobre o dito Manoel Henriques34. Em contrapartida, seria por demais ingnuo

    considerarmos que passou desapercebido ao desembargador o fato do acusado haver

    afirmado no ter ele relaes com Salvador Pires de Carvalho e Albuquerque para em

    Marinho de Arago. Amealhou uma das maiores fortunas da Bahia de meados do sculo XVIII. Cf. LuizAlberto Torres Moniz Bandeira. O Feudo. A casa da torre de Garcia dvila: da conquista dos sertes independncia. Rio de Janeiro: Civilizao Brasileira, 2000, captulo X, pp. 313-353; Pedro Calmon.Introduo e notas ao catlogo genealgico de Frei Jaboato. Salvador: Imprensa Oficial do Estado, 1985. 32 Cf. Ktia M. de Queirs Mattoso. Presena francesa no Movimento Democrtico Baiano de 1798.Salvador: Itapu, 1969. Sobre o teor da obra Orador dos Estados Gerais, ver especialmente o captulo 2.Cabe ressaltar que, segundo a autora, a obra fazia parte apenas das bibliotecas de outros envolvidos naConjurao Baiana de 1798, nomeadamente, Cipriano Jos Barata de Almeida e Hermgenes Francisco deAguillar Pantoja. 33 ADCA,vol. 1, p. 98.34 Idem.

    29

  • seguida alterar seu depoimento e indicar que no s tinha relao como esta deveria ser bem

    prxima. Todavia, esta questo foi retomada pelo prprio acusado apenas na acareao

    entre ele, o carcereiro Bento Joze de Freitas e o escrevente Thomas Pereira de Afonseca, no

    dia 06 de maro de 1799.

    Iniciou-se a acareao com a leitura das perguntas e respostas obtidas nos

    depoimentos de Domingos da Silva Lisboa e perguntou-se se o acusado concordava com o

    teor das informaes. Ratificando-as, o acusado presenciou o testemunho do carcereiro

    Bento para depois confirm-lo. O carcereiro confirmou que o acusado lhe dissera sobre

    humas Stiras francezas que lhe dera Salvador Pires de Carvalho j defunto e se tirio

    [...] aprehendido os seos papeis ou se havia alguma pessoa que lhe fosse tirar as ditas

    Stiras ou versos35. Domingos da Silva Lisboa no s confirmou a informao como fez

    questo de mencionar novamente o modo pelo qual ele tomara conhecimento das tais

    Stiras, pelas mos de Salvador de Carvalho e Albuquerque.

    Novamente, nada foi dito a respeito. Chamado Thomaz Pereira de Afonseca a

    participar da acareao e feita as perguntas e ratificaes de praxe, o acusado mais uma vez

    cita o dito Salvador, entretanto acrescenta mais uma nova informao:

    [...] hera verdade o que o Cariante [Thomaz] tinha declaradoporquanto elle mesmo Cariado [Domingos] he que tinha dado aoCariante para tresladar o referido papel, porem que fora por ordemdo defunto Salvador Pires de Carvalho que o dera a elle Cariado,assim como igualmente ao dito Cariante outro papel intitulado e quenomeia Secreto dos Jesutas36, o qual tambem ouvera [sic] domesmo Salvador Pires de Carvalho37.

    35 Ibidem, p. 100.36 H fortes indcios de que Segredo dos Jesutas a denominao utilizada nas reunies sediciosas para olibelo editado originalmente em latim Monita privata Societatis Jesu, em 1612 por um ex jesuta polacobanido da Companhia. Depois de circular por mais de um sculo sob a forma manuscrita em Portugal, foipublicado primeiro em 1767 ainda em lngua latina, depois, j na lngua portuguesa, a obra foi editada em1820, 1834, 1859, 1881, 1901 e 1910. Ocorre que por ocasio da expulso dos jesutas, em 1759, Pombalmandou que se aumentasse a divulgao do manuscrito para que se tivesse uma imagem negativa dos jesutas,que poca eram vistos como uma organizao destituda de qualquer interesse no progresso das naes. Noltimo quartel do sculo XVIII, entretanto, tem-se notcia de que as edies do manual foram realizadas emPortugal e na Frana, por centros republicanos e maons, o que sugere que o manuscrito pode ter sidoinstrumentalizado em termos polticos para o movimento em questo. Cf. Jos Eduardo Franco & ChristineVogel. Monita Secreta: instrues secretas dos jesutas. Histria de um manual conspiracionista. Lisboa:Roma Editora, 2002. Agradeo ao Prof. Eduardo Franco por enviar-me a obra. 37 ADCA, vol. 1, p. 101.

    30

  • Dessa vez no havia como o desembargador desconsiderar a informao de que

    obras proibidas pelo aparato repressivo da Coroa no s circulavam na Salvador da poca

    junto com folhetos de propaganda anti-jesutica como eram traduzidas e discutidos em

    reunies de carter eminentemente poltico. Nitidamente acuado, o desembargador pergunta

    o motivo pelo qual Domingos da Silva Lisboa logo de incio no afirmara ter sido ele que

    mandara tresladar o referido papel, antes pelo contrrio afirmara lhe tinha sido

    Comunicado pelo sobredito Salvador Pires de Carvalho para ser elle interpor o seu

    pareser38. Domingos da Silva Lisboa respondeu:

    [...] perturbado da prizo se no lembrara de fazer a referidadeclarao ao longo da primeira vez que fora proguntado [sic]. E[...] por duvidar que fosse acreditada a sua comunicao com o ditosenhor Salvador Pires de Carvalho visto ser elle Cariado de inferiorqualidade e ultimamente por ter se passado intervallo de annos, eelle Cariado ter perdido a lembrana do mesmo papel e ignorar seestava ou no em seu puder39.

    O desembargador encerrou a acareao e nada mais foi perguntado a respeito. A

    resposta de Domingos da Silva Lisboa trouxe luz que a despeito da macula da cor, raa e

    nascimento serem os critrios definidores das posies sociais da sociedade soteropolitana,

    em 1798, havia uma fluda relao de homens provenientes de vrios setores, mas

    especialmente entre senhores de escravos e de terras, escravos urbanos e os milicianos das

    tropas urbanas. O depoimento do dito Domingos, sugere, ainda, que essa sociabilidade tinha

    um fim especfico que superava a cordialidade entre os convivas, pois as reunies ocorridas

    nas casas dos senhores de escravos e nas tabernas tinham como tema recorrente a poltica

    local, as idias de francezia40 e os acontecimentos revolucionrios em Frana.

    38 Ibidem.39 Ibidem. Grifo meu.40 A idia de Francezia concebida poca, via de regra, relacionava-se s doutrinas que questionavam oEstado Absolutista, especialmente os princpios revolucionrios franceses difundidos pelos Clubes, aps 1789.Em ofcio ao governador d. Fernando Jos de Portugal e Castro, datado de 21 de fevereiro de 1792, Martinhode Melo e Castro expressou com bastante clareza a idia que os agentes metropolitanos faziam do termo.Afirma o Ministro [...] servindo para espalhar a semente da Insurreio entre Vassalos dos seus respectivosSoberanos, [...] j de escritos sediciozos, e incendirios, conseguindo por estas abominveis maquinaoens oalterar em alguns deles a tranqilidade de que gozavo os Povos debaixo do Sbio e paternal Governo dosseus naturaes e Legtimos Imperantes [...]. Sobre a francezia chegar aos domnios coloniais portugueses, oMinistro alertou: Com a propagao destes abominveis princpios atearam os mesmos Clubs nas ColniasFrancezas o fogo da Revolta, e da insurreio, fazendo levantar os Escravos contra os seus Senhores, eexcitando na parte Franceza da Ilha de So Domingos huma Guerra Civil entre uns e outros, em quecometero as mais atrozes crueldades, que jamais se praticaro [...]. BN Sesso de Manuscritos, doc. II

    31

  • Nas declaraes dos depoentes, muitos deles forneceram detalhes do contedo dos

    pasquins e dos pressupostos polticos dos partcipes, por ouvir dizer a respeito, porque

    tiveram conhecimento dos fatos por ouvirem de voz pblica ou ouvir dizer

    publicamente. Diante do nvel de boato que caracterizava aquela sociedade, as autoridades

    locais no desconheciam o fato de que havia uma intensa circulao das notcias francesas e

    da revoluo projectada nesta Praa. A circulao dessas idias no parece ter sido a

    maior preocupao das autoridades, a despeito da censura rgia. O problema era saber o uso

    que se poderia fazer dos princpios de francezia por um setor especfico daquela

    sociedade, pois o circuito das idias comeava pelo alto com os homens principais e as

    informaes eram rapidamente pulverizadas entre os homens livres, pobres, pardos e

    escravos citadinos41.

    Aos doze dias do ms de fevereiro de 1799, teve incio o depoimento de outro

    acusado de participar da projectada revoluo e ser sectrio dos princpios franceses. O

    acusado era Francisco Muniz Barreto de Arago, branco, filho de Antonio Felix de Arago

    e Souza e Bernarda de Assumpo Muniz Barreto, solteiro e professor rgio de gramtica

    na vila do Rio de Contas, na Comarca de Jacobina42. O Desembargador Francisco Sabino

    lvares da Costa Pinto, inicia o interrogatrio perguntando para o acusado sobre as suas

    relaes sociais na Salvador e se ele era sectrio das idias de francezia. O acusado

    responde que em 1797, vivera na cidade do Salvador e fora vizinho de Jos Borges de

    Barros homem pardo, que pouco tempo antes tinha vindo aqui [Salvador] da Ilha da

    Madeira, com o dizignio de se estabelecer em negcio [...]43. O desembargador pergunta

    sobre o teor das conversas entre o acusado e Jos Borges. O professor responde que

    todas as suas conversaoens com Joze Borges se reduzio areflexes sinceras, sobre o governo economico desta Terra, e sobreo Estado Poltico da Europa, segundo as poucas notcias, que a elleambos podio chegar a este respeito, sem que jamais costumassemconcorrer na dita caza outras algumas pessoas44.

    33.29.29. 41 Cf. Florisvaldo Mattos. A comunicao social na Revoluo dos alfaiates. Salvador: AssembliaLegislativa do Estado/Academia de Letras da Bahia, 1998, 2a. edio. Ler, especialmente, o captulo 5: 1798:a teia da comunicao. Pp. 71-90.42 Perguntas a Francisco Moniz Barreto de Arago, homem branco e prezo nas cadeas da Relao. In:ADCA, vol. 2, pp. 886-902.43 Idem, p. 887.44 Ibidem.

    32

  • As perguntas subseqentes referem-se ao contato do professor com o Tenente

    Hermgenes Francisco de Aguillar e com o escravo de Dona Maria Francisca de Arago, o

    pardo Lira, e se o teor das conversas era sobre o Systema da Nao Francesa. O acusado

    responde que conhece ambos os homens e que entre eles o teor das conversas nunca se

    animara semelhantes absurdos, [pois ele] antes sempre abominou e abomina tais

    princpios45. Aps vrias perguntas, o desembargador questiona se o professor tinha em

    seu poder alguns manuscritos libertinos e sediciosos que persuadissem os povos para o

    systhema da revoluo. O acusado respondeu que certa feita tinha em seu poder alguns

    manuscritos traduzidos de huma obra de Valney [sic], intitulada a Revoluo dos tempos

    passados, em que figuravo os povos revoltados pelos diversos systemas de Religio,

    representados na Turquia, e na Rssia [...]46. O acusado continua seu depoimento

    afirmando, entretanto, que a tal obra no estava mais em seu poder, pois emprestara para

    algumas pessoas que tinham ido para a Corte.

    No final da primeira parte do depoimento do professor Francisco Muniz, o

    desembargador apresenta as obras confiscadas em sua casa por ocasio de sua priso e

    pergunta se o acusado reconhece serem dele. Afirmando a pergunta, o acusado

    confrontado com a apresentao de uma cpia manuscrita de Julia ou a Nova Helosa de

    Rousseau e mais dois tomos de uma obra em verso do mesmo autor que o desembargador

    pergunta se o acusado reconhece a letra da cpia como sua. O professor confirma ser o

    dono do manuscrito e foi questionado pelo desembargador por que motivo sendo

    perguntado a este respeito [sobre as obras serem do acusado] to repetidamente, e por

    tantos modos, se firmou uma redonda negativa, agora desfeita e convencida?47.

    O professor disse que os tais manuscritos eram para sua leitura pessoal, sem que se

    destinasse a algumas sinistras intencoens contra o Estado. Encerra-se o depoimento sem

    nada constar. Passados cinco dias, o professor novamente chamado a depor, e dessa vez

    pesava sobre ele o depoimento de Hermgenes Francisco de Aguillar Pantoja, branco,

    Tenente do Segundo Regimento de linha da Salvador e filho legtimo do Sargento-Mor

    Pantoja48. O tenente havia dito que o professor

    45 Idem, p. 888.46 Idem, p. 889.47 Idem, p. 891.48 Copia do termo de prizo habito e tonura feito ao reo Hermgenes Francisco de Aguillar, Tenente doSegundo Regimento de Linha desta Praa, ao vinte dias do ms de Fevereiro de 1799. In: ADCA, vol. II, p.1085.

    33

  • no s freqentava esta sociedade [reunies], mas que at assistiaas diversas prticas [...] sobre matrias secidiozas [sic], sobre aconstituio, e liberdade da Nao Franceza, applicando estasidias ao povo da Bahia com o perniciozo projecto [de] conseguirhuma sublevao49.

    O desembargador prossegue com seus argumentos afirmando que o professor

    espalhara as dcimas sobre liberdade por diversas mos, at o ponto de a conservarem de

    memria alguns dos cmplices desta infame rebelio, sem que possa escuza-lo a frgil

    coartada [...] por se acharem corrigidos e emendados por elle [...]50. O longo depoimento

    atinge os seus momentos finais com o desembargador arvorando o fato de que tanto o

    professor quanto o Tenente Hermgenes eram homens brancos e collocados entre os

    povos, portanto, era inadmissvel que homens como eles fossem sectrios das idias de

    francezia, uma vez que deveria ser do conhecimento deles o contgio de semelhante lio,

    e o mal que vinha em conseqncia de sua descoberta51.O interessante notar que nos

    depoimentos sobre a acusao de Domingos da Silva Lisboa e Luiz Gonzaga das Virgens,

    as informaes fornecidas pelos pardos e escravos no foram averiguadas, no obstante

    terem sido utilizadas com o professor e o tenente para demonstrar o lugar e o papel de cada

    um naquela sociedade.

    As informaes dos escravos e de alguns pardos ora eram negligenciadas, ora eram

    utilizadas para um fim especfico. Do total de trinta e duas pessoas presas, dez eram

    escravos e foram indiciados na devassa realizada pelo desembargador do Tribunal da

    Relao, Francisco Sabino lvares da Costa Pinto, para verificar os fatos conexos aos

    pasquins sediciosos publicizados na manh do dia 12 de agosto de 1798. O modo pelo

    qual o desembargador chegou participao dos escravos bastante significativo, e

    conforme a expresso de um dos proprietrios, fez-se pronta entrega dos escravos52.

    Temerosos por serem acusados de conivncia em aes sediciosas, conforme a

    informao do autor annimo da Relao de Francesia formada pelos homens pardos na

    49 Idem, p. 893.50 Idem, p. 893.51 Idem.52 ADCA, vol. II, p. 925, Testemunho de Manoel Vilella de Carvalho, proprietrio do escravo Jos Felix daCosta.

    34

  • cidade da Bahia no ano de 179853, os senhores resolveram no s entregar seus escravos

    como dois deles foram importantes testemunhas na devassa instaurada sobre a conjurao.

    Em meados de 1799, j eram nove escravos, pois um deles, Antonio Jos, morrera

    na priso aparentemente por um mal sbito depois que se alimentou de uma comida trazida

    por outro escravo do mesmo dono, o Tenente Coronel Caetano Maurcio Machado54. Dos

    escravos indiciados nos Autos quase todos eram pardos e nascidos na Bahia55, domsticos,

    citadinos, sabiam ler e escrever, e socializavam pelas ruas da cidade de Salvador. Conforme

    as informaes nos autos fornecidas pelos rus Luiz Gonzaga das Virgens e Veiga, Joo de

    Deus do Nascimento e Manuel Faustino, os escravos presenciaram e participaram de

    encontros de seus senhores com homens livres, alguns brancos, outros pardos; alguns

    militares, oficiais de baixa e mdia patente; artesos, e, ainda, alguns intelectuais56.

    Igncio Pires, vinte anos, escravo do Capito-Mor e Secretrio do Estado e Governo

    do Brasil, Jos Pires de Carvalho e Albuquerque, foi a nica testemunha que teve direito ao

    Auto de Justificao, entre os pardos e cativos. Trata-se de uma auto defesa na qual o

    escravo se isentou das denncias que lhe foram imputadas pelos rus, dando a entender que

    no podia responder pelos seus atos, pois

    [...] h quatro, ou Sinco annos, pouco mais, ou menos [ele] foiatacado de molstia capital, que lhe desordenou o juzo [...] [amolstia] he da qualidade que possa [sic] Segunda vez Sobrevir poralguns acidentes, ou em algumas ocazioens [...]57.

    Testemunharam a favor do escravo Igncio Pires, o cirurgio Manuel Jos Estrela, o

    oficial da Secretaria de Estado e Governo do Brasil, Joo Nepumoceno da Trindade, o

    comerciante Jos Joaquim Pinheiro e o caixeiro Custodio Jos Pinto Coelho. Todos os

    53 Arquivo do IHGB, Descripo da Bahia, Tomo IV, DL, 399.2, Relao de francesia formada peloshomens pardos da cidade do Salvador, pp. 294-301. 54 ADCA, vol. I, pp. 356-357.55 Dos dez escravos indiciados, o nico preso e processado foi o escravo alfaiate de aluguel, Vicente. Escravoafricano da mina, Vicente era de propriedade de Bernardino de Sena e Arajo, Tabelio de Notas da Bahia.Cf. Lus Henrique Dias Tavares. Os escravos na sedio de 1798 na Bahia. In: Da sedio de 1798 Revoltade 1824 na Bahia. So Paulo/Salvador: Unesp/Editora da UFBA, 2003, pp. 85-124. 56 Cf. Relao dos reos prezoz, a que dis respeito o alvar para se lhe correr folha. ADCA, vol. II, pp 939-944; BN 28, 26, 1, n. 13, sesso de manuscritos; Relao das pessoas que se acho prezas na cadea destaCidade da Bahia por ocazio dos factos revolucionrios de que por Portaria do Illmo. Exmo. Governador eCapito General desta Capitania Dom Fernando Jos de Portugal tem devassado o Dezembargador dosagravos da Relao desta Cidade, o Doutor Francisco lvares da Costa Pinto, Bahia 23 de outubro de1798. ADCA, vol. II, pp. 812-815.57 Autos de justificao de Igncio Pires menor de vinte annos, escravo do Capito Mor Joze Pires deCarvalho e Albuquerque In: ADCA, vol. II, pp. 1088-1099.

    35

  • homens eram brancos, collocados entre os povos e tinham relaes estreitas com o

    Secretrio de Estado. A presena de escravos no evento, ainda que seja merecedora de um

    maior detalhamento, remete a outra ponta que essa condio legal designa: seus

    proprietrios. Os proprietrios dos escravos citados nas devassas da Conjurao Baiana de

    1798 so um grupo homogneo, pequeno e composto pelos donos das maiores fortunas da

    Salvador de 1798. O grupo era assim constitudo: o Capito-Mor das Ordenanas da cidade

    da Bahia e Secretrio de Estado e Guerra do Brasil, Jos Pires de Carvalho e Albuquerque

    possua quatro escravos; o Tabelio Bernardino de Senna e Arajo possua um escravo;

    Francisco Vicente Viana, Baro do Rio das Contas e primeiro Presidente da Provncia da

    Bahia (1823-1825) possua um escravo; o Tenente-Coronel Caetano Mauricio Machado

    possua um escravo; Manoel Jos Villela de Carvalho 58 possua dois escravos, Maria

    Francisca da Conceio, cunhada de Jos Pires de Carvalho e Albuquerque possua um

    escravo e abrigou em sua casa o condenado forca, Manoel Faustino dos Santos Lira; o

    Capito Paulino de S Tourinho, casado com Teodora Maria da Conceio, prima de Maria

    Francisca da Conceio, possua um escravo, e por fim, Joaquim Pereira Basto possua um

    escravo59.

    exceo de Maria Francisca da Conceio, quase todos os homens eram

    habilitados na Ordem de Cristo60 e a maioria deles exercia um ou mais postos estratgicos

    da administrao rgia. A personalidade mais proeminente desse grupo foi sem dvida o

    detentor do monoplio do comrcio de tabaco, Jos Pires de Carvalho e Albuquerque e no

    58 No incio de 1799, d. Fernando recebeu o relato de uma representao feita na Corte, cujo teor referia-se aoatraso de pagamentos dos professores rgios da Bahia. A queixa recaa sobre o tesoureiro dos ordenados,Manoel Jos Villela de Carvalho, um dos proprietrios dos escravos indiciados nas devassas da ConjuraoBaiana de 1798 e suspeito de fazer mau uso da verba pblica. BN- sesso de manuscritos fundo Marqus deAguiar, n. 140.59 Para uma viso de conjunto sobre as famlias dos proprietrios de escravos da Conjurao Baiana de 1798,ler: Catlogo genealgico das principais famlias que precederam de Albuquerques e Cavalcantes emPernanbuco e Caramurus na Bahia. Segundo Moniz Bandeira, esta obra foi escrita por volta de 1768 epublicada pelo Instituto Histrico e Geogrfico Brasileiro em 1889. A reedio em dois volumes que data de1985 foi acrescida por uma introduo e notas de Pedro Calmon, op.cit; Antonio de Arajo de Arago BulcoSobrinho. O patriarca da liberdade bahiana: Joaquim Incio de Siqueira Bulco, 1. Baro de SoFrancisco. Bahia, 1946. Antonio de Arajo de Arago Bulco Sobrinho. Famlias Bahianas (Bulco, Pires deCarvalho e Vicente Viana), vol. 1, Bahia: Imprensa Oficial, 1945. 60 Arquivo Nacional da Torre do Tombo, doravante ANTT, Cdice Habilitao da Ordem de Cristo: JosPires de Carvalho e Albuquerque, filho de outro do mesmo nome, e de D. Isabel Joaquina de Arago. De 19de maio de 1779. Habilitao da Ordem de Cristo. Letra J, Mao 49, nmero 5; Bernardino de Sena e Arajo.Habilitao da Ordem de Cristo, Letra B, Mao 9, nmero 1; Caetano Maurcio Machado. Habilitao daOrdem de Cristo, Letra C, Mao 8, nmero 3; Manoel Jos Vilela de Carvalho. Habilitao da Ordem deCristo, Letra M, Mao 37, nmero 8; Manoel Jos Vilela de Carvalho. Habilitao da Ordem de Cristo, LetraM, Mao 29, nmero 42.

    36

  • por acaso seu escravo foi o nico a ter direito do auto de justificao. Segundo attestao

    do ento Governador da Bahia d. Rodrigo Jos de Menezes, de 03 de janeiro de 178861, Jos

    Pires de Carvalho e Albuquerque servia nos empregos de Secretrio de Estado e Governo

    do Brasil, cargo que era proprietrio por herana; de Intendente da Marinha e Armazns

    Reais; Vedor Geral do Exrcito; e Provedor e Ouvidor da Alfndega da Bahia e Deputado

    da Junta da Real Fazenda rgo em que os Autos das Devassas foram recolhidos por

    ordem de d. Fernando Jos de Portugal e Castro62.

    H muito pouca informao a respeito da presena do dito secretrio no decorrer das

    devassas ou mesmo nos testemunhos e assentadas. Entretanto, o seu nome est nas duas

    devassas por ocasio da pronta entrega de seus escravos. A atuao do secretrio

    bastante obscura. Em primeiro lugar, como Deputado da Junta da Real Fazenda, as devassas

    ficaram sob seus cuidados e toda a correspondncia oficial referente ao evento trocada entre

    o governador, d. Maria I e d. Rodrigo de Souza Coutinho era copiada por um funcionrio

    designado por ele. Depois, Jos Pires de Carvalho e Albuquerque era muito influente e

    justamente por isso teve l seus desafetos.

    Em Lisboa foram vrias as denncias que acusavam o secretrio de enriquecimento

    ilcito, de contrabando de tabaco, de disputa pela herana do principal morgadio da Bahia, o

    da Casa da Torre dos Garcia Dvila, e, principalmente, de uma atuao duvidosa frente

    da Real Fazenda, principal rgo do governo. No ano de 1797, Antonio Ferreira de Andrade

    escreve a d. Rodrigo de Souza Coutinho uma carta referente aos pssimos procedimentos de

    Jos Pires de Carvalho e Albuquerque. Quem intervm a favor do dito secretrio ningum

    menos que o prprio governador e o Tabelio Bernardino de Sena Arajo, outro

    proprietrio de escravo63. O problema da denncia estava em torno do pagamento que a

    Real Fazenda fazia ao ofcio de escrivo dos rfos da Bahia. No se averiguou

    efetivamente a denncia sobre o secretrio, concluindo-se um ms depois que o dito era de61 AHU_ACL_CU_005, Cx. 210, doc. 14878: Papis de Servio do Capito-Mor das Ordenanas da cidadeda Bahia e Secretrio de Estado e Guerra do Brasil, Jos Pires de Carvalho e Albuquerque, para fins dejustificao. In: Inventrio Castro e Almeida.62 Cf. Cpia da Portaria do Illustrissimo Governador e Capito General desta Capitania pela qual mandaRecolher o processo de Sublevao a Secretaria de Estado. In: ADCA, vol. II., pp. 1221-1224. Segundo Brsdo Amaral, nas anotaes que fez na obra de Incio Accioli, Justo considerar que a iniciativa desseutilssimo trabalho [conservao de documentos na Secretaria do Governo da Bahia] se deve ao secretrio doEstado Jos Pires de Carvalho e Albuquerque. APUD, Incio Accioli, Op. Cit., vol III, p. 81, nota 8. 63 AHU_ACL_CU_005, Cx. 206, doc.14741 Oficio de Antonio Ferreira de Andrade a D. Rodrigo de SouzaCoutinho, processo contra Jos Pires de Carvalho e Albuquerque.; AHU_ ACL_CU_005, Cx. 210, doc.14878 Papis de servio do Capito-mor das Ordenanas da Cidade da Bahia e Secretrio de Estado eGuerra do Brasil, Jos Pires de Carvalho e Albuquerque para fins de Justificao.

    37

  • inteireza limpeza de mos. Entretanto, uma certido aparentemente desconexa fornece

    informaes preciosas sobre as razes da contenda. O documento informa que

    [...] serve Bernardino de Sena e Arajo o officio de Escrivo dosOrffaons pelo donativo annual de oitenta mil ris, quarenta mil risde meia annata e cento e trinta e trs mil, trezentos e trinta e trsris de tera parte [...]64.

    Para alm do valor que Bernardino de Sena e Arajo recebia da Real Fazenda,

    importa que o governador designou para testemunhar a favor do secretrio um dos maiores

    beneficirios do rgo e o denunciado na representao: o prprio Bernardino de Sena e

    Arajo65. Ocorre que a contenda se arrastou por anos, mas o ponto alto da disputa ocorreu

    no ano de 1798, quando o secretrio de Estado e o coronel Antonio Ferreira de Andrade

    travaram uma disputa sem precedentes pela herana do morgado Jos Pires de Carvalho e

    Albuquerque66.

    Por ora, cabe ressaltar que as contendas foram protagonizadas por dois homens que

    eram membros de grupos da elite local que pontualmente discordavam sobre os

    beneficirios do Errio Rgio. As attestaes de ambas as partes demonstram que, de um

    lado estava o grupo do denunciante o Coronel Antonio Ferreira de Andrade, professo na

    ordem de Cristo, membro de uma das mais bem abonadas famlias e [dono] de

    importantes propriedades de engenho de asscar. As attestaes em seu benefcio foram

    fornecidas por Jos Clarique Lobo, Jos Teles de Menezes, Sebastio Alves da Fonseca,

    Manuel de Almeida Maciel, Francisco Jos de Mattos Ferreira e Lucena, Sebastio da

    Rocha Soares, Jos Vieira de Arajo e Jos da Silva Freire. Desse grupo, todos eram

    homens brancos, comerciantes de grosso trato e donos de engenho de mdio porte, e no

    foram chamados testemunhar ou formular culpa nas devassas sobre a revolta baiana de

    1798.

    64 AHU_CU_Cx. 76, doc. 14659-14660 Requerimento de Jos Maria Caldas pede se lhe passe certido dosofficios de escrives dos orfaons da cidade da Bahia. 65 AHU_CU_CA_BAA, Cx. 210, doc. 44 Papis de servio do Capito-mor das Ordenanas da cidade daBahia e secretrio de Estado e Guerra do Brasil, Jos Pires de Carvalho e Albuquerque para fins dejustificao. Ler, especialmente a attestao de d. Fernando Jos de Portugal e Castro a favor do secretrio,datada de 20 de abril de 1798.66 AHU_CU_CA_BAA, doc.18245 - Officio do Governador d. Fernando Jose de Portugal para d. Rodrigode Sousa Coutinho, no qual informa acerca de um requerimento de Antonio Ferreira de Andrade, sobre aherana do margado Jos Pires de Carvalho e Albuquerque de quem era testamenteiro e tutor de seus filhosnaturaes e menores, Bahia, 29 de abril de 1798. AHU_CU_CA_BAA, doc. 18247 Carta particular deAntonio Ferreira de Andrade para D. Rodrigo de Sousa Coutinho, relativa a referida herana de Jos Piresde Carvalho e Albuquerque. Bahia, 14 de abril de 1797. No final da carta, Antonio Ferreira de Andradeinforma sobre as mercs rgias que recebera at aquele momento.

    38

  • O grupo comandado por Jos Pires de Carvalho e Albuquerque era composto por

    Antonio Estanislao Correia, Domingos da Rocha Barros, Jos Gularte da Silveira, Antonio

    Cordeiro Villaa, Bernardino de Sena e Arajo, Manoel Jos Villela de Carvalho, Francisco

    Vicente Viana, Antonio Barbosa de Oliveira e Caetano Maurcio Machado. Desse grupo

    quase todos ocuparam cargos da administrao local e fizeram parte de alguma maneira na

    consecuo das devassas. Trs deles, como se viu, eram proprietrios de escravos e dois

    deles foram importantes testemunhas chaves para a formulao da sentena sobre os quatro

    rus.

    Francisco Vicente Viana que foi ouvidor da comarca da Bahia formulou culpa sobre

    a participao de Luiz Gonzaga das Virgens na projectada revoluo67. Em seu

    testemunho, aps isentar seu escravo de qualquer participao mais efetiva na reunio do

    dia 25 de agosto no Campo do Dique do Desterro, afirmou que soube

    [...] pela voz pblica sabe que se tentava fazer hum levantamentonesta Cidade [Salvador] com saque, e assassino [sic] com effeito dese estabelecer nella hum Governo Democrtico, livre eindependente; de cujo artefacto so os authores huns poucosmulatos em que tinho a primeira parte Luiz Gonzaga das Virgens[...]68.

    Francisco Vicente Viana termina seu testemunho afirmando que o tal fuo69, Luiz

    Gonzaga das Virgens era de hum carather insolente, e dezavergonhado, bem capaz de

    entrar nesta diablica empreza [revolta]. No mesmo dia, foi chamado a formular culpa

    outro senhor de escravo, Manoel Jos Villela de Carvalho que tambm era negociante da

    praa da Bahia. Seguindo o padro do testemunho de Francisco Vicente Viana, Manoel Jos

    isenta seus dois escravos e afirma que no dia em que fora preso o dito fuo, Luiz

    Gonzaga, era pblico

    [...] e notoriamente, que Se projectava fazer hum levante nestaCidade [Salvador] com saque, e assassinos para se estabelecer umGoverno Democrtico, livre e independente, e que os autores desta

    67 Cf. Testemunhas da devassa.... Ler, especialmente a testemunha n. 6, Francisco Vicente Viana, ADCA,vol. 2, pp. 923-924.68 Idem.69 Nos depoimentos de Francisco Vicente Viana e de Manoel Jos Villela de Carvalho, ambos senhores deescravos, freqente o termo fuo referente aos rus pardos acusados de crime de lesa-majestade.

    39

  • empreza foro huns poucos de mulatos, e animozos entre os quaisforo os primeiros Luiz Gonzaga das Virgens [...]70.

    Do total de 13 testemunhas que formularam culpa sobre Luiz Gonzaga das Virgens

    e, depois, em outra devassa sobre mais trs pardos, o poder local aproveitou-se da

    animosidade existente entre pardos livres e escravos e convocou a depor os escravos dos

    senhores citados. Jos Felix da Costa, escravo de Francisco Vicente Viana, forneceu um dos

    mais importantes testemunhos dos processos. Disse que fora chamar um fuo que morava

    na casa do Secretrio de Estado Jos Pires de Carvalho e Albuquerque. Entrando ele,

    testemunha, na casa, nela achou um pardo fuo que disse que h dias o andava

    procurando para

    [...] lhe comunicar hum particular em beneficio de todos, tmelleito a voss para entrar nelle [levante], porque temos muitaspessoas Principais, e ate o Excellentissimo Governador que Sabedisso, e convm; porm no quer que se saiba, e temos os dousRegimentos dos pardos, e dos negros a nosso favor declarando-lheao mesmo tempo consistir o particular em hum levantamento, pormeio do qual se propunha reduzir o continente do Brazil a humaRepublica, o que havia de acontecer no dia em que estivesse deGuarda o Regimento Pago de Artilharia [...]71.

    Jos Felix continua o testemunho, afirmando que o pardo dissera que mesmo os

    oficiais do Regimento pago da artilharia estavam prontos a entregarem as guardas e as

    pessoas principaes interessadas no mesmo levantamento, esperavo duas embarcacoens

    em Socorro dele, pois j tinham escrito para fora sem declarar para onde72. Perguntado

    sobre a causa para um governo republicano o escravo respondera que

    [...] era por evitar o grande furto que o Prncipe faz a Praa destaCidade, o que bem se conheceo na demora do grande comboio; queultimamente daqui Sahio, ficando os Negociantes a pedirem humaesmolla: e que havio j mais de trezentas pessoas a seo partido

    70 Cf. Testemunho de Manoel Joz Villela de Carvalho, homem branco solteiro Negociante desta praa emorador a rua direita da S.. ADCA, vol. 2, pp. 924-925.71Cf.Testemunha de Joz Felix da Costa, homem pardo escravo do Doutor Francisco Vicente Viana em cujacasa assistia ao tempo em que foi preso....,ADCA, pp. 925-928. 72 Idem, p. 926.

    40

  • [revolta], alm da escravatura dos Engenhos do Ferro, e Bulco73,que estavo prontos [...]74.

    Aps mais algumas informaes das quais sugeriu ser Luiz Gonzaga das Virgens

    um dos cabeas, e apesar delas, o escravo termina o seu testemunho afirmando que no

    imaginara que fosse verdadeiro o dito levante e, por isso, no comentara com ningum,

    apenas com o pardo cabeleireiro Francisco Villaa que aps as prises decorrentes do

    encontro do dia 25 de agosto no Campo do Dique do Desterro, lhe aconselhara a delatar

    tudo o que soubera a seu senhor.

    Chamado novamente para uma acareao com Luiz Gonzaga das Virgens, na qual

    Jos Felix da Costa afirmou que Luiz Gonzaga queixava-se constantemente da situao dos

    milicianos, cabos de esquadras e cadetes, e negou a afirmao de que ele tinha perguntado

    sobre huns papeis sediciozoz que tinho apparecido, o Desembargador Francisco Sabino

    lvares da Costa Pinto afirmou que o cativo, o careante, sustentou a sua resposta com

    todo o vigor, dizendo mais [...], que quem os tinha feito [pasquins sediciosos] era tolo; pois

    devia ter-se aconcelhado com elle careado [Luiz Gonzaga das Virgens]75.

    Luis Leal, escravo de Manoel Jos Vilella de Carvalho, por sua vez, contou que

    estava na casa do seu senhor quando o soldado do Primeiro Regimento, Romo Pinheiro,

    foi procur-lo para comunicar que ele

    [...] e outros muitos [tinham] determinado fazer hum insulto [...]com o qual ficaria muita gente felix [sic], e porque hum dos Chefesdesta aco he Luiz Gonzaga que est prezo [e] he preciso adiantareste particular, antes que o dito Gonzaga declare as pessoas, quenelle esto metidas, parte das quais vivem atemorizadas depoisdaquelle prizo; e por isso andamos convocando alguns sujeitos de

    73 Joaquim Incio de Siqueira Bulco, professo na Ordem de Cristo, proprietrio de vrios engenhos de acarjunto com a famlia de seu cunhado Jos Pires de Carvalho e Albuquerque, Secretrio de Estado e Guerra doBrasil. Joaquim Incio escondera dois dos rus da revolta baiana de 1798 em suas terras, aps a reunio noCampo do Dique do Desterro, todavia, no foi chamado a testemunhar nas devassas. Joaquim Incioempregara mecanismos novos para obter melhor proveito ao limpar e descascar algodo, arroz e o caf, almde empregar mtodos modernos para o cultivo do tabaco e o acar. Cf. AHU_CU_CA_BAA, doc. 19693 Carta de Jos da Silva Lisboa para d. Rodrigo de Souza Coutinho, sobre os engenhos de assucar e osmechanismos empregados na sua preparao, propondo que se conferisse uma recompensa a JoaquimIncio de Siqueira Bulco, por ter sido o primeiro proprietrio que adoptara novos processos de moagem dacana. Bahia, 28 de maro de 1799. 74 ADCA, p. 926.75 ADCA, p. 738. Cabe ressaltar que Luiz Gonzaga das Virgens afirmou sobre Jos Felix da Costa, quandoperguntado pelo Desembargador Costa Pinto se conhecia o cativo: Disse que o conhece no pelo nome, massim pela pessoa, pelo ver ser escravo de Francisco Vicente Viana.

    41

  • capacidade para a dita aco [reunio no campo do Dique doDesterro] em que podia ser felix [sic], sendo alias cativo [...]76.

    O escravo disse que era melhor que o soldado se retirasse e no o viesse atacar para

    um convite como aquele. Concluiu seu testemunho afirmando que depois que ele vira

    algumas pessoas presas por intentarem um levante e quando soubera que o dito Romo no

    estava entre elas, resolvera ele delatar ao seu senhor tudo o que soubera sobre o soldado. E

    mais no disse.

    No dia 14 de outubro de 1798, logo aps a sua priso, Jos Pires, escravo de D.

    Maria Francisca da Conceio e Arago, cunhada do Secretrio de Estado e Governo do

    Brasil, Jos Pires de Carvalho e Albuquerque foi chamado pelo Desembargador Costa e

    Pinto para prestar esclarecimentos sobre Manuel Faustino, ento suspeito de ser um dos

    cabeas da revolta, que tambm morava na casa de D. Maria Francisco da Conceio e

    Arago, por lao de batismo. O Desembargador Costa e Pinto perguntou ao cativo se ele

    conhecia Manuel Faustino, e se este o convidara para algum levantamento que se

    projectava fazer nesta cidade [Salvador]. Jos Pires afirmou que conhecia o acusado por

    morarem na mesma casa, e que o acusado perguntou a ele se queria ser forro. Ao

    responder que sim, lhe replicou o declarante [Manuel Faustino] que se pozesse pronto77.

    O Desembargador pergunta, ento, se o cativo tinha sido avisado sobre o encontro

    no Campo do Diquei do Desterro na noite de 25 de agosto do mesmo ano, para se iniciar

    um levantamento. Jos Pires respondeu que no foi convidado por pessoa alguma, para

    se achar nessa noite no campo do dique. Infomou que esteve na roa durante o dia

    acompanhando sua senhora e que quando voltaram serio sete e meia, ahi encontrou a

    Lus de Frana Pires, escravo do dito Secretrio deste Estado, e que s perguntou ao dito

    Lus de Frana onde hiro?78. O Desembargador disse ao cativo que ele falasse a verdade,

    pois Lus de Frana tinha afirmado que ele, Jos Pires, tambm escravo, estava pronto para

    a reunio no Campo do Dique do Desterro, pois, aps o convite que lhe fizera Manuel

    Faustino sobre ser forro, Jos Pires comeou a frequentar a caza de Lucas Dantas, onde

    76 Testemunha Luis Leal homem pardo escravo de Manoel Joze Villela de Carvalho...., ADCA, pp. 928-929.77 ADCA, p. 771. 78 Idem.

    42

  • ascistia as Sessoens, que ai se fazio acerca do mesmo levantamento, e tanto delle sabia

    [...]79.

    Jos Pires disse que as informaes do escravo do Secretrio de Estado, Lus Pires,

    eram falsas. Afirmou que passava na casa de Lucas Dantas sempre que l estava Manuel

    Faustino, pois ele, depois de aceitar o convite para ser forro, ia a tal casa para saber se

    Manuel Faustino estava pronto, pelo que ele lhe respondia sim, mas jamais passasse a

    dizer-lhe outra alguma couza, e nem o Lucas Dantas; e nem ouviu tratar de materia

    alguma. Um ms depois, em 10 de novembro de 1798, os escravos Jos Pires e Lus de

    Frana Pires, junto com os acusados Manuel Faustino e Lucas Dantas, foram chamados

    para uma acareao, na qual deveriam esclarecer as informaes contraditrias de seus

    depoimentos.

    Jos Pires, cativo de D. Maria da Conceio, iniciou a acareao afirmando seu

    depoimento anterior, Manuel Faustino perguntou se ele tinha ouvido falar na voz da

    liberdade e perguntou se ele estava pronto para defend-la, pelo que ele respondeu que sim

    e nada mais lhe falou o miliciano pardo em observncia da recommendao que lhe fez

    Lucas Dantas de Amorim Torres para que elle [o cativo] no manifestasse as pessoas do

    levante. O Desembargador Costa Pinto perguntou para o ento acusado se ele confirmava

    as informaes do escravo Jos Pires. Manuel Faustino no concordou e disse que no

    havia falado em voz da liberdade com o cativo porque desconhecia do levante marcado

    no Dique do Desterro. Mas perguntou ao cativo se queria ser forro porque soube que ele

    e sua me andavam guardando dinheiro para se libertarem. De acordo com Manuel

    Faustino, por isso sempre respondia [Jos Pires] que estava pronto, porque tinha pronto o

    dinheiro para a liverdade80.

    Na acareao entre os escravos, depois que ambos reafirmaram seus conflitantes

    depoimentos, o Desembargador Costa Pinto pediu que eles chegassem a um acordo acerca

    da reunio marcada no Dique do Desterro na noite do dia 25 de agosto de 1798. A

    insistncia do Desembargador, contudo, no funcionou. Lus da Frana Pires, escravo do

    Secretrio de Estado, insistiu em seu depoimento que Jos Pires, escravo de D. Maria

    79 Idem, p. 772. 80 ADCA, p. 774. Chamo ateno para o termo liberdade dito pelo miliciano pardo Manuel Faustino aocomentar sobre a pergunta feita ao cativo Jos Pires.

    43

  • Conceio, no s sabia da reunio no Diquei do Desterro como tambm disse a Manuel

    Faustino que participaria81.

    Manoel Jos de Vera Cruz, escravo do Secretrio de Estado, Jos Pires de Carvalho

    e Albuquerque, tambm foi chamado a prestar esclarecimentos ao Desembargador Costa

    Pinto. Manoel Jos inicia seu depoimento afirmando que o escravo do mesmo senhor, Lus

    da Frana Pires, era algum que vivia mal com elle, para, em seguida, negar a acusao

    do outro cativo de que ele, Manoel Jos, sabia e aceitara participar do levante no Dique

    do Desterro. No s negou a participao na dita reunio como tambm afirmou que nunca

    tinha conversado com o cativo do mesmo senhor e nem com ningum sobre semelhante

    matria82, como, para demonstrar a m inteno do cativo, afirmou que Lus da Frana

    Pires, depois de preso publicamente dis tem pesar de no poder meter no levantamento as

    escravas pardas da caza, a fim de seos senhores ficarem sem quem os sirva, e nem terem

    quem lhe de agoa para lavarem o rosto83.

    A animosidade entre os cativos, inclusive do mesmo dono, no parou por a. Joo

    Pires, escravo do Secretrio de Estado Jos Pires de Carvalho e Albuquerque, afirmou em

    depoimento que Lus da Frana Pires, escravo do mesmo senhor, tinha estado no campo

    do dique com outros mais, para fazer revista da gente que havia para o levantamento

    projectado. Em seguida, afirmou que dias antes da referida reunio, Lus da Frana Pires o

    tinha convidado para huma funo, sem declarar o fim della, e que fora disto no tratou

    outra couza alguma com o dito Lus da Frana Pires84.

    Cosme Damio Pereira Basto, escravo de Joaquim Pereira Bastos, foi chamado a

    depor porque Lus da Frana Pires, escravo do Secretrio de Estado, e os acusados Lucas

    Dantas e Manuel Faustinos afimaram em depoimentos que ele, Cosme, mantinha estreita

    amizade com o ento acusado, de tal sorte que ele descobrira o segredo da revoluo, por

    ter sido convidado a participar. Desde de ento, segundo o Desembargador Costa Pinto,

    Cosme Damio passara a frequentar amiudadas vezes a caza de Luvas Dantas, onde se

    repetio sessoens, e conferencias a respeito do mesmo levante. Coagido diante das

    informaes, Cosme Damio inocentou Lucas Dantas e confirmou a estreita amizade com

    Manuel Faustino, dizendo que em razo desta he que o [Manuel Faustino] persuadio a

    81 Idem. 82ADCA, p. 779. 83 Idem, p. 782. 84 ADCA, p. 784.

    44

  • que estivesse pronto com sua pessoa e armas para entrar em hum levante para Liberdade,

    que elle [...] no aceitou apezar das muitas instancias85.

    Todas as acareaes feitas entre os cativos foram resultantes do depoimento de Lus

    de Frana Pires, escravo do Secretrio de Estado e Governo do Brasil, tomado pelo

    Desembargador Costa Pinto, em 29 de agosto de 1798 quatro dias depois da abortada

    reunio no Campo do Dique do Desterro. Sem um motivo aparente o Desembargador

    perguntou se o escravo conhecia Joo de Deus do Nascimento. Lus de Frana Pires

    respondeu que no, pelo que foi pedido que falasse a verdade pois tinha sido visto com Joo

    de Deus pelas aves-maria no dia da reunio do Campo do Dique. O escravo confirmou que

    no tinha estreita amizade com o acusado e nada mais foi perguntado. No dia seguinte, Lus

    de Frana Pires foi chamado a depor novamente. O escravo iniciou seu depoimento

    afirmando que estava pronto a dizer hoje, porquanto hontem tinha faltado a ella

    [verdade] em razo de persuadir a isso o Soldado Igncio da Silva Pimentel, que tambm

    estava preso na Relao86.

    Lus de Frana Pres afirmou que o soldado Igncio Pimentel lhe tinha dito para que

    negasse qualquer pergunta sobre a reunio do Dique do Desterro porque qualquer ru que

    no fosse confesso no era punido com a pena ltima. O Desembargador perguntou,

    ento, qual o objetivo da reunio. O escravo respondeu que o soldado lhe dissera que hia

    ver se podia ser feliz. O escravo no obedeceu o juramento que tinha feito ao soldado no

    dia anterior e passou a delatar detalhes dos acontecimentos. Em seguida disse que estavo

    com o dito Joo de Deus as pessoas seguintes Igncio da Silva Pimentel, Soldado,

    Joaquim Joz da Veiga, official de ferrador, e Vicente escravo do Tabellio Bernardino de

    Senne e Arajo87. Nesse dia, Lus de Frana Pires terminou seu depoimento afirmando que

    soube da participao das referidas pessoas na reunio porque ia casa de uma irm, que

    ficava perto do local marcado. O escravo disse que ao voltar, encontrou com Lus Pires,

    oficial de lavrar prata e ouro com loja no Tabuo, acompanhado de outra pessoa que o

    escravo no reconheceu, entretanto, Lus de Frana Pires afirmou com os dois homens iam

    se encontrar com Joo de Deus. No afinal afirmou que foi para a casa de sua irm assustado

    porque no caminho encontrou com Alexandre Theotonio com trs negros de pistollas

    85 ADCA, p. 789. 86 ADCA, pp. 379-380. 87 ADCA, p. 381. Chamamos ateno para o fato de que Vicente era o nico escravo africano entre os grupode cativos presos.

    45

  • atras, dando sinaes que ainda trazia outra: elle declarante [o escravo Lus de Frana Pires]

    assim que ouvio isto logo se retirou, deixando-os88.

    No dia seguinte, o escravo Lus de Frana Pires foi novamente chamado a depor.

    Confirmou o depoimento do dia anterior e acrescentou que ao voltar para o segredo da

    Relao, tinha dito o soldado Igncio Pires que havia negado tudo para deste modo

    conseguir delle algumas noticias mais particulares a respeito do convite do dia vinte e

    cinco, e dos fins delle89. O escravo voltou a depor no dia 17 de setembro do mesmo ano,

    quando afirmou novamente que no tinha dito a verdade porque seguiu a orientao do

    soldado Igncio, e depois quando confessou que tinha estado no campo do dique se no se

    lembrou como la fora ter, [mas] que agora mais bem lembrado tem declarado o motivo e

    cauza da ida a elle: porem que na verdade sempre ignorou o destino e o fim a que se

    dirigia aquele convite. O escravo Lus de Frana Pires terminou o depoimento nesse dia

    afirmando que Lucas Dantas, um dos acusados, era amazio da irma delle declarante

    [escravo] a parda Francisca, escrava da dita Dona Catharina Correa, e por esta mesma

    cauza no se comunicava com elle90.

    No dia 1 de outubro de 1798, Lus de Frana Pires inciou seu depoimento mais uma

    vez afirmando que estava determinado a dizer toda a verdade, a que tem faltado por

    temor. Iniciou seu depoimento contando que no ms de junho do mesmo ano, Vicente, o

    escravo do mesmo dono, o Secretrio de Estado, lhe dera um recado de Manuel Faustino

    para que ele o encontrasse. Lus de Frana afirma que no encontro Manuel Faustino, um dos

    acusados lhe perguntara se ele estimava a liberdade e ser forro?91. O escravo respondeu

    que sim, e contou ao Desembargador que Manuel Faustino lhe disse que estava projectado

    um levantamento nesta Cidade [Salvador] o qual se executava dahi a hum, ou dous mezes,

    a fim de serem libertos todos os pretos e pardos cativos e viverem em huma igualdade tal,

    que no haveria distino de ceres, e assim vivirio todos contentes.

    Lus de Frana Pires continuou contando que Manuel Faustino pedira que ele usasse

    uma espada para defender

    o partido do levante, e que a cauza da escravido em que vivio ospretos e pardos nesta Cidade nascia da Igreja, de quem se devio

    88 ADCA, p. 381. 89 Idem. 90 ADCA, p. 385. 91 ADCA, p. 386. Chamo ateno para os termos da pergunta feita ao escravo.

    46

  • queixar e que Bonaparte no tardaria aqui [Salvador] quatro mezesa defender com grande armada o partido da liberdade92.

    Logo em seguida, Lus de Frana Pires denunciou a presena de outros escravos do

    mesmo senhor que ele, afirmando que Manuel Faustino havia convidado para o levante o

    pardo Ignacio escravo do dito Secretario deste Estado, irmo de Fortunato da Veiga

    Manoel Joze, e o carapina Joo pardos e escravo do mesmo Secretario deste Estado os

    quais tinho aceitado o convite, e estavo prontos93.

    O Desembargador Costa Pinto perguntou, ento, se Manuel Faustino havia

    convidado a Manoel Joze, Joo carapina e Ignacio, escravos do dito Secretrio deste

    Estado, pelo que o escravo Lus de Frana Pires esclareceu que havia acompanhado Joo

    de Deus do Nascimento ao Campo do Dique do Desterro e quando l chegou encontrou o

    pardo Joze de alcunha Tubias, escravo de Dona Maria, cunhada do mesmo Secretario,

    como tambm soubera que Manoel Faustino declarou ter convidado aos sobreditos

    [escravos do Secretrio] e [...] tinho aceitado o convite94. Perguntado se ele sabia da

    participao de Fortunato da Veiga, o escravo Lus de Frana Pires respondeu que no

    sabia, mas que o vira com muita particularidade na casa de Lucas Dantas juntamente

    com Manuel Faustino e o pardo Ignacio, escravo do Secretrio de Estado, participando de

    muita comunicao na qual tinham um credo, feito a cerca da liberdade, que sempre

    repetia [Fortunato da Veiga], e elle declarante [Lus de Frana Pires] o prezenciava, e ser o

    princpio delle Creio no grande Bonaparte95.

    Como se viu, o escravo do Secretrio de Estado e Governo do Brasil, Jos Pires de

    Carvalho e Albuquerque, Lus de Frana Pires forneceu um dos mais importantes

    depoimentos ao Desembargador Costa Pinto do Tribunal da Relao da Bahia, durante o

    ano de 1798. Depois de contar ao Desembargador que tentaria manipular o soldado Igncio

    preso na Relao, Lus de Frana no s contou detalhes a respeito da reunio do Campo

    do Dique do Desterro, como confirmou a culpa de Lucas Dantas e Manuel Faustino, alm

    delatar a participao de outros escravos do dito Secretrio em reunies nas quais davam

    vivas Bonaparte. Parece inegvel que o escravo Lus de Frana Pires teve uma

    participao importante na revolta de 1798, uma vez que sabia de detalhes do que se92 Idem. 93 Ibidem. 94ADCA, p. 388. 95 ADCA, p. 389.

    47

  • passara nos meses que antecederam as prises. Caberia saber os termos dessa participao e

    as razes pelas quais o escravo denunciou os outros escravos s autoridades.

    Depois, comparando o teor dos testemunhos dos demais escravos com os dois que

    formularam culpa sobre a participao de Luiz Gonzaga das Virgens no levante, Jos Felix

    e Lus Leal, h algumas diferenas. Ocorre que coagidos pelos depoimentos de seus

    proprietrios, os dois escravos foram induzidos a ressaltar a participao de homens

    mulatos e pardos livres sob a liderana de Luiz Gonzaga e negar a presena de cativos.

    Como se viu, os nicos cativos mencionados foram dos dois senhores cujos escravos no

    foram indiciados nas devassas. Entretanto, as informaes de Jos Felix dando conta de que

    os negociantes por vezes ficavam na misria, quando as mercadorias saiam no comboio

    sugerem, ao menos, que as razes que motivaram as aes dos partcipes eram muito mais

    amplas, social e economicamente, do que o poder local relatava para a metrpole. De fato, o

    escravo tinha razo ao sugerir o descontentamento dos negociantes, pois naquele mesmo

    ano, ciente do lucro que a exportao do tabaco significava ao Errio Rgio96, os agentes

    metropolitanos quase que duplicaram a tributao do tabaco, fazendo com que alguns

    principais da cidade de Salvador, entre eles alguns proprietrios de escravos aqui citados,

    ficassem insatisfeitos. Talvez no seja por acaso que no pasquim 9o., intitulado Aviso ao

    clero e ao povo bahiense indouto h referncia abertura dos portos e o progresso do

    comrcio

    [...] Portanto fas saber e da ao prelo que se axo as medidastomadas para o socorro Estrangeiro, e progresso do Comercio deAcar, Tabaco e pau brazil e todos os mais gneros de negocio emais viveres; com tanto que aqui viro todos os Estrangeiros tendoporto aberto, mormente a Nao Franceza [...]97.

    Parece estranho que tais questes estivessem no horizonte dos escravos e

    aparecessem nos depoimentos, exceto pelo fato de que, como se viu nos depoimentos dos

    cativos, eles escutaram e presenciaram conversas que diziam respeito a uma revoluo, nos

    termos das autoridades locais, e um levante ou levantamento nos termos do escravo Lus

    de Frana Pires. A questo que enquanto as autoridades referem-se revoluo em vrios96 AHU_CU_CA_Baa, doc. 18375 Mappa da exportao dos productos da Capitania da Bahia para oReino e outros portos do Brasil e frica no anno de 1798. Gneros exportados: assucar, aguardente de mel,algodo, arroz, cacao, couros em cabello, caf, cordas de piassaba, farinha de mandiaoca, gomma,ipicacuanha, madeiras, sal, sola, tabaco, e varas para parreiras. Valor total da exportao em 1798: 3.114:457$360. Cabe ressaltar que o tabaco ocupa algo em torno de 20% do total. 97 APUD, Ktia M. de Queirs Mattoso. Op. cit., p.155. Grifo meu.

    48

  • momentos dos depoimentos dos cativos e dos acusados, novamente o escravo Lus de

    Frana Pires esclarece a questo quando denunciou que os convites aos cativos para

    participarem de um levantamento eram feitos nos seguintes termos: estimava a

    liberdade e ser forro?98. Neste particular, no parece inoportuno sugerir, em primeiro

    lugar, que a participao dos escravos na revolta baiana de 1798 significaria a possibilidade

    de libertao e emancipao da condio de cativo. Depois, cabe ressaltar que os termos

    dos convites feitos aos escravos com o objetivo de arm-los para o levante uma estratgia

    bastante significativa dos homens livres e pobres, nomeadamente Joo de Deus do

    Nascimento, Manuel Faustino e Lucas Dantas talvez, por essa razo, as autoridades locais

    insistentemente tenham se referido a revolta baiana de 1798, durante os depoimentos dos

    cativos, como uma revoluo.

    Com efeito, abertura dos portos a outras naes uma chave de entendimento que

    muito provavelmente apenas os negociantes e senhores de escravos faziam em suas

    conversas e reunies. Portanto, muito provavelmente os escravos Joo Felix e Lus Leal

    tenham comentando essas questes em seus depoimentos como uma forma de denunciar a

    participao de seus senhores em reunies que discutiam no s os acontecimentos da

    Frana revolucionria como a tributao da Coroa portuguesa. Se no se averiguou as

    informaes fornecidas pelos cativos, assim como as autoridades fizeram com as

    informaes do escravo Lus de Frana Pires, foi porque o poder local no quis, pois tinha

    conhecimento de que tanto os pasquins quanto a reunio para se iniciar o levante eram a

    ponta de um problema muito mais profundo.

    Percebe-se, assim, que o padro presente no interrogatrio dos escravos o mesmo

    dos depoimentos e acareao de Domingos da Silva Lisboa, homem pardo. Encerravam-se

    as perguntas no momento em que os nomes dos principais eram citados e retomava-se o

    processo em um ou dois dias depois sem que se verificasse a procedncia das informaes.

    Entretanto, as informaes sobre a participao dos principais, em reunies de contedo

    sedicioso, chegavam ao conhecimento das autoridades metropolitanas por vrias denncias.

    D. Rodrigo de Sousa Coutinho, a propsito de algumas denncias que recebera em maio99

    daquele ano de 1798, encaminhou um ofcio a d. Fernando, em 04 de outubro de 1798, no

    qual afirma que em Lisboa98 ADCA, p. 386. 99 Cabe ressaltar que os pasquins sediciosos foram afixados em locais pblicos da Salvador apenas em agostode 1798.

    49

  • [...] depois que chegou o ltimo comboio, se espalharam vozes quedo grande cuidado e que denunciam que as pessoas principaisdessa cidade [Salvador], por uma loucura incompreensvel e porno entenderam os seus interesses, se acham infectas dosabominveis princpios franceses e com grande afeio absurdapretendida constituio francesa, que varia a cada seis meses100.

    As idias de francezia, nomeadamente as que d. Rodrigo de Sousa Coutinho chamou

    de abominveis princpios franceses, foram um grande problema para a monarquia

    portuguesa e foi pauta de boa parte das cartas trocadas entre os agentes rgios durante os

    ltimos anos do sculo XVIII. Em resposta a d. Rodrigo de Sousa Coutinho, um ms antes

    da publicizao dos pasquins, em 17 de junho de 1798, o governador afirma que as

    denncias eram infundadas, mas mesmo assim

    [...] supostas as circumstancias do sculo e lio dos papeispblicos, como por exemplo, correios da Europa, gazetas inglezas,que no so prohibidos e outros que excito a curiosodade, em quese descrevem os successos do mundo com reflexes bastante livres,haja como acontece em toda a parte, huma ou outra pessoa,especialmente entre a mocidade, menos cordata e leve deentendimento, que discorra com mais alguma liberdade sobre osacontecimentos da Europa, nem por isso se tem aqui [Bahia]introduzido princpios jacobinos, nem espcie de sociedade ouajuntamentos perniciosos [...]101.

    Muito provavelmente o governador se referiu aos milicianos das tropas urbanas que,

    segundo as idades dos indiciados nos autos, eram jovens e eram vistos poca como um

    grupo de homens no muito cordatos, segundo Vilhena102. Apesar da informao,

    chamamos ateno para o fato de que treze dias aps os pasquins terem sido divulgados

    pelos partcipes do movimento, d. Rodrigo envia a d. Fernando Jos de Portugal uma carta

    na qual institui uma campanha anti-francezia cujo alvo no eram os populares, pois a seu

    ver esses mal sabiam ler, mas as proeminentes pessoas daquela sociedade, pois ao mesmo

    tempo em que comunicava que foram tomadas medidas econmicas para aplacar

    100 APUD, Incio Accioli de Cerqueira e Silva. Memrias histricas e polticas da Bahia. Op. cit, vol. III, p.95, nota 17. 101 AHU_CU_CA, BAA, doc. 18360 Officio do Governador D. Fernando Jos de Portugal para D.Rodrigo de Sousa Coutinho, no qual se refere a uma denuncia em que se acusavam certas pessoas de seremjacobinas. Bahia, 17 de junho de 1798. 102 Lus dos Santos Vilhena. Recopilao de notcias soteropolitanas e braslicas. Salvador: Itapu, 1969. Lero item sobre as tropas urbanas, vol. 1, p.245 e segs.

    50

  • possveis descontentamentos dos principais, mandou-se traduzir gazetas para noticiar o

    terror que ocorria em Frana

    No perdendo sua Majestade de vista meio algum daquelles quedirecta ou indirectamente tendem a perpetuar o socgo [sic], e porconseqncia a felicidade dos seus Vassalos, j instruindo-os domettodo mais econmico e lucrativo de adiantarem e aperfeioaremas suas Lavouras e engrossarem os seus ganhos, j fazendo chagasao seu conhecimento, como agora o Manda praticar, hum Quadroverdadeiro e fiel no s dos motivos que arrojaro a NaoFrancesa a hum [corrodo] de calamidades, mas dos effeitosnecessrios dos mesmos motivos e dos excessos, absurdos eattentados a que dissolutamente se tem abandonado. E contando naReal Presena que em Londres se tinha traduzido em Portuguezhuma obra em que energicamente se manifesto os princpios evistas do actual Governo de Frana. Mandou sua Magestade virhum certo nmero de exemplares dos quaes ordena se remetto a V.S. os que vo com este officio para que V. S. procure derram-losnesse Estado, a fim que a todos os seus habitantes seja constante enotrio, que to odiozos e to horrendos so os Crimes que temcaracterizado a atroz Revoluo Franceza e manchando aquellaNao que at os mesmos Americanos detesto e aborrecem comindignao a pssima doutrina e as mximas mais depravadas aindadaquelle Governo, terror e prfido103.

    Alm das notcias sobre a Revoluo Francesa e a Americana, cabe lembrar que no

    ano de 1798, a revolta dos escravos da colnia francesa de So Domingos estava em curso,

    fazendo com que as autoridades ficassem sobressaltadas. Flvio dos Santos Gomes

    demonstra que as autoridades portuguesas do aqum e do alm mar, naquela conjuntura,

    temiam que os cativos entrassem em contato com as idias perigosas a respeito das

    notcias que davam conta das revolues da Europa e do Caribe atravs de Caiena. Os

    exemplos mais evidentes para o temor das autoridades alm dos acontecimentos em So

    Domingos (1791-1804), foram as rebelies de escravos em Guadalupe (1794), Santa Lcia

    (1794), Cuba (1795), Venezuela (1795) e as revoltas escravas (guerras maroons) da

    Jamaica e das Guianas (1795-1797)104. Preocupou-se, primeiramente, com as regies

    fronteirias, pois em 1795 noticiou-se a presena de dois franceses prximo ao Oiapoque

    103 BN, Sesso de manuscritos, cdice: II 33, 29, 70. Ofcio de D. Rodrigo de Souza Coutinho a D. FernandoJos de Portugal. 1798.104 Cf. Flvio dos Santos Gomes. A hidra e os pntanos: mocambos, quilombos e comunidades de fugitivos noBrasil (sculos XVII-XIX). So Paulo: Ed. UNESP/Ed. Polis, 2005. Ler, especialmente, o item Conexes,idias e roteiros, do Captulo 1, pp. 85-100.

    51

  • que autoridades criam que eles fossem agitadores da massa escrava do Gro-Par105.

    Depois, diante do fluxo dos portos de Salvador e do Rio de Janeiro, os contatos e as idias

    de liberdade que circulavam naquela conjuntura eram compartilhados tanto por negros

    como por ndios em vrias partes do Brasil, e as autoridades sabiam que as informaes

    circulavam em uma velocidade que lhes escapava do controle.

    Se por um lado as autoridades baianas desconsideraram as informaes que os

    cativos forneceram sobre seus proprietrios ao longo do processo, subestimando a

    percepo que eles tinham dos acontecimentos, por outro lado, afirmavam que os cativos

    podiam ser contagiados pelas idias de francezia advindas da Europa via comunicao com

    os agentes das colnias estrangeiras. Novamente o depoimento de Jos Felix ilustrativo

    dos termos que os cativos domsticos tiveram daquela conjuntura. Ao mencionar o

    problema dos negociantes para as autoridades como causa para a implantao de um

    governo republicano, o depoimento do escravo revela uma estratgia de protesto que passou

    pela circulao e entendimento das idias libertrias em seu termo, atingindo a manipulao

    do medo do seu senhor e das autoridades diante dos acontecimentos.

    Considerando que a oralidade era o modo pelo qual as pessoas tinham cincia do

    ocorria no mundo, no parece exagerado sugerir que os cativos interpretaram as notcias,

    conferindo significados prprios e instrumentalizando em alguma medida idias libertrias

    que circulavam106. Cabe lembrar que todos os escravos indiciados nos autos sabiam ler e

    escrever107. Alm disso, o professor Francisco Moniz Barreto de Arago foi acusado de

    traduzir mximas libertrias e recit-las at que pardos livres e cativos pudessem

    memoriz-las, da que as autoridades temiam as comunicaes e reforavam a necessria

    circunspeo na consecuo das devassas, pois, caso contrrio, segundo d. Fernando,

    [...] poderia nascer da sua execuo huma desordem no pequena,posto que momentnea, muito mais de reciar em hum Paiz deConquista de tanta escravatura, e em tal poca, de que resultariotalvez assassinos, e roubos, levantando-se a voz da liberdade108.

    105 Idem, p. 97.106 Nesse caso, no se trata de influncia das idias revolucionrias, libertrias ou de francezia. H sugestivasanlises que fornecem pistas na direo da circulao, entendimento e significados prprios dessas idias nasregies de escravatura. Para o caso da Revoluo do Haiti, ler, Michel-Rolph Trouillot, op.cit. Para o casobrasileiro, ler: Flvio dos Santos Gomes. A hidra e os pntanos. So Paulo: Unesp, 2005; e Marcus JoaquimMaciel de Carvalho. Liberdade: rotinas e rupturas do escravismo. Recife, 1822-1850. Recife: Ed.Universitria da UFPE, 1998. Ler, especialmente, o captulo 9 Rumores e Rebelies, pp. 193-212.107 Cf. Informaes nos termos de priso dos escravos. ADCA, vol. 2.pp. 1071-1087.108 BN, sesso de manuscritos, Carta de 20 de outubro de 1798.

    52

  • Concorria tambm para o temor das autoridades o fato de que os responsveis pela

    circulao das idias de francezia que chegavam aos cativos urbanos, segundo os autos,

    eram os homens livres. Conviver de perto com os mulatos ou pardos na condio de

    milicianos ou mesmo de colonos livres, aos olhos das autoridades, era um motivo a mais

    para os cativos buscarem a liberdade. No parece ser por outra razo que tanto as

    autoridades locais quanto os senhores de escravos reforavam nos depoimentos e

    testemunhos a diferena entre cativos e livres, incitando que os primeiros delatassem os

    segundos. Joo Pires, escravo do secretrio de Estado Jos Pires de Carvalho e

    Albuquerque, ao ser perguntado sobre o levantamento projectado na cidade, respondeu

    que nunca tivera noticia de semelhante materia, seno depois queprincipiaro algumas prizes por esta cauza, e ento he que soubeque se tratava do dito levante, por alguns pardos, e por issoninguem o convidou para tal [...]109.

    Cabe lembrar que Joo Pires foi preso porque outro escravo do mesmo senhor, Lus

    de Frana Pires, deixara escapar que ambos haviam sido convidados pelo miliciano Manuel

    Faustino a participarem do levante que se realizaria no dia 25 de agosto de 1798. Inocentou-

    se da culpa ao denunciar Manuel Faustino, homem pardo e de quebra sugeriu que Lus Pires

    havia confundido a matria110. Aos olhos do cativo urbano, certamente a condio dos

    homens livres de cor era melhor do que a deles, ainda que a legislao especfica sobre o

    status do livre pobre, quando no era discriminatria, era silenciosa. Russel-Wood afirma

    que a situao desses homens era tal que, naquela conjuntura, eles constituam uma

    anomalia legal; o que para Caio Prado, em perspectiva distinta, equivale ao resduo

    inorgnico da sociedade111. O que importa, por ora, que os homens livres e pobres,

    especialmente os milicianos das tropas urbanas circulavam muito pelas ruas da cidade baixa

    e alta de Salvador e por suas cercanias. Pela prpria natureza do ofcio, os milicianos se

    sociabilizavam com os escravos de ganho, vadios, mendigos, quitandeiras, estrangeiros que

    chegavam nos comboios e pequenos comerciantes e grandes negociantes112. Por tudo isso,109 Perguntas feitas a Joo Pires, homem pardo escravo do Secretario deste Estado Joze Pires de Carvalho eAlbuquerque, prezo nas cadeas da Relao. ADCA, vol. II, pp. 783-784.110 Idem, p. 784.111 Cf. A. J. R. Russel-Wood. Escravos e libertos no Brasil colonial. Rio de Janeiro: Civilizao Brasileira,2005. Essa a traduo da obra: The back man in slavery and freedom in colonial Brazil. London: MacMillanPress, 1982; Cf. Caio Prado Junior. A formao do Brasil contemporneo. So Paulo: Brasiliense, 1971, ler,especialmente o captulo sobre a vida social. 112 Cf. Thomas Lindley. Narrativa de uma viagem ao Brasil que terminou com o apresamento de um naviobritnico e a priso do autor. So Paulo: Companhia Editora Nacional, 1969.

    53

  • esses homens foram grandes agentes na circulao das idias libertrias e de francezia, e

    assim como os cativos, eles tambm forneceram significados prprios sobre os

    acontecimentos.

    O soldado Luiz Gonzaga das Virgens foi preso no dia 23 de agosto de 1798 sob a

    acusao de ter sido ele e no Domingos da Silva Lisboa o autor dos pasquins sediciosos.

    Luiz Gonzaga das Virgens era bem conhecido das autoridades locais. Aos vinte anos o

    soldado assentou praa e foi destacado para a companhia de granadeiros do 1o. regimento de

    tropa de linha, jurando bandeira a 30 de agosto de 1781 e teve baixa como desertor em 30

    de outubro do mesmo ano. Jurou bandeira e desertou por mais duas vezes, sendo que depois

    de 1791 vagou pelos sertes at ser preso e responder processo verbal no Conselho de

    Guerra instalado a 9 de abril de 1793113.

    Foi na documentao sobre Luiz Gonzaga do Conselho de Guerra que ficava

    guardada na Secretaria de Estado, que o governador comparara a letra dos pasquins com

    algumas peties que o acusado escrevera certa feita. A petio que corroborou para sua

    condenao dava conta de que

    sendo os homens pardos recrutados e adscritos ao grmio Militardas Tropas pagas [...] eram os ditos homens pardos da mesmamassa, e sensibilidade dos outros indivduos albicantes [sic] daSociedade Militar, e Civil, sem maior differena que a da cor,accidente dissimilar com que os distinguio a natureza [...] ficandocontudo equivalentes aos brancos, tanto pela substancia Material,como a principal, a espiritual, [entretanto, so tratados] comoobjectos da escravido, do desprezo [corrodo] e finalmente comoexterminados, ou esprios do mnimo accso, e graduao dospostos [...], e sem premio, que he s, o que faz gostozos os trabalhospretritos [...]114.

    Luiz Gonzaga finaliza a petio solicitando isonomia para ascenso dos postos mais

    graduados da carreira militar, alegando que sendo ele

    hum individuo da classe dos referidos desgraados [pardos] tem amagua, magua inconsolvel de ver subir aos postos [...] a cor

    113 ADCA...vol. 1, p.127 Concelho de Guerra feito a Luiz Gonzaga das Virgens. 114 Cf. AAPEB, Mao 581, apenso n. 5, letra L Comparao da assinatura de Luiz Gonzaga das Virgens nodocumento do Conselho de Guerra com as peties e requerimentos que ele teria escrito. Este documento foiincorporado na segundo edio dos Autos das Devassas, de 1998, por ocasio das perguntas feitas a LuizGonzaga das Virgens e Veiga. Cf. ADCA, vol. 1, pp. 116-117.

    54

  • branca, no havendo outros relevantes motivos que [no] differentesmerecimentos, e nobiliarchia115.

    Antes da plubicizao dos pasquins sediciosos na manh de 12 de agosto de 1798,

    Luiz Gonzaga pede a merc de hum anno de licena sem perda de soldo, po, e seqentes;

    para que mais comodamente, em razo da sua pobreza116. Pedido que lhe foi negado antes

    de aparecer preso na Relao. Durante os depoimentos, Luiz Gonzaga forneceu

    informaes importantes sobre o que fizera por ocasio de sua estada no serto. Disse ter

    conhecido Joo da Silva Norbonha, na cidade de Natal dos Reis Magos, no Rio Grande do

    Norte117. Informou que o dito Joo era portugus nascido no Porto, negociante que morava

    em Salvador, mas vrias vezes ia para o Recncavo a negcios. Foi perguntado sobre os

    nomes das pessoas com as quais o dito Joo mantivera conversas, pelo que Luiz Gonzaga

    respondeu que tinha [Joo] amizade em Caza do Padre Francisco Agostinho Gomes e

    Jacinto Dias Damasio, e muitos outros homens da Praia, e que em casas destes tomava

    fazendas para o seu negcio [...]118.

    Perguntado sobre o que eles costumavam conversar, Luiz Gonzaga disse que Joo

    da Silva Norbonha era um homem muito instrudo e informado dos acontecimentos na

    Europa pelo que lia nos jornais sobre a situao da Frana e Inglaterra, e que discorria

    freqentemente sobre a igualdade dos homens e humanidade com que deviam ser tratados,

    principalmente sobre a injustia de nam serem admitidos os pardos a maiores asseos,

    sem que contudo isso intervisse mxima alguma contra a Igreja ou contra o Estado119. As

    autoridades nada mais perguntaram, retomando o depoimento em outra data e adotando o

    mesmo padro dos depoimentos dos escravos e de Domingos da Silva Lisboa.

    O teor das peties e dos depoimentos, das assentadas e das acareaes demonstram

    que os termos das idias libertrias e de francezia de Luiz Gonzaga das Virgens

    significavam, sobretudo, maior insero na hierarquia militar da qual ele ocupava o mais

    baixo posto. O entendimento do que o soldado ouvira das conversas que tivera com Joo da

    115 Idem, p. 117.116 AHU_CU_Baa_Cx. 96, doc. 18920: Requerimento de Luiz Gonzaga das Virgens e Veiga, no qual pedeum anno de licena para tratar no Reino dos seus interesses. Tem anotao de Jos Luiz de Magalhes eMenezes ao dia 4 de maio de 1798. 117 ADCA, vol. 1, p. 101 Perguntas feitas a Luiz Gonzaga das Virgens e Veiga, soldado da Companhia deGranadeiros do Primeiro Regimento desta Praa. 118 ADCA, vol. 1, p. 117.119 ADCA, vol.1, pp. 104-105.

    55

  • Silva Norbonha sobre os acontecimentos revolucionrios na Frana no sugere uma atitude

    revolucionria no sentido moderno do termo, ainda que solicitar isonomia para os critrios

    de ascenso nos postos militares significasse uma afronta s autoridades rgias, dada a

    mcula de sua cor. A leitura dos textos de dAnglas, Carra, Volney e o Aviso de So

    Petersburgo encontrados em sua casa, por sua vez, obtiveram novos significados diante das

    condies sociais insatisfatrias e tornaram-se reivindicaes pontuais. Contudo, parece

    que, assim como os cativos, tais leituras potencializaram as reivindicaes daqueles homens

    milicianos e tornaram-se ferramentas com as quais eles criam poder mudar suas vidas de

    alguma maneira. Os cativos e os milicianos que sabiam ler e escrever criam ter condies

    de reivindicar por seus direitos, uma vez que tais leituras e conversas os tornaram mais

    sensveis para a hierarquizao da qual eram vtimas. Com efeito, relatar s autoridades

    locais a participao de homens colocados entre os povos na projetada revoluo no

    foi uma estratgia apenas dos cativos.

    Embora as autoridades locais no averiguassem as informaes fornecidas pelos

    cativos e milicianos, ao longo de mais de um ano de investigao, as denncias sobre a

    participao de homens colocados entre os povos chegaram a Lisboa. E medidas foram

    tomadas. A esse respeito, a trajetria de Francisco Agostinho Gomes, dono de uma das

    maiores fortunas da poca e proprietrio da melhor e a maior livraria particular do Brasil

    de ento composta de milhares de livros120, significativa da contemporizao do poder

    local face s manifestaes dos notveis baianos de alguma forma envolvidos nos

    acontecimentos de 1798. O religioso passou de suspeito de participar dos acontecimentos

    de 1798 a parceiro da Coroa em uma trajetria para l de elucidativa do modus operandi da

    administrao local na conduo das devassas. Assim como outras pessoas principais da

    sociedade soteropolitana da poca mencionados nos Autos das Devassas121, Francisco

    Agostinho Gomes teve seu nome constantemente citado pelas testemunhas e por diversas

    vezes fora denunciado por cartas enviadas da Bahia para a Corte entre os anos de 1797 e

    1798122, por ser simpatizante das idias de francezia.

    120 Lus Carlos Villalta. Liberdades imaginrias. In: Adauto Novaes (Org.). O Avesso da Liberdade. SoPaulo: Companhia das Letras, 2002, pp. 319-342. 121 Cf. ADCA, vol. 1.122 AHU_CU_BAA, docs. 19.117-19.178. Auto da devaa a que se procedeu o Ouvidor Geral do Crime,doutor Manuel de Magalhes Pinto de Avellar e Barbedo, para averiguao dos factos de que era acusado opadre Francisco Agostinho Gomes.

    56

  • Como se viu, foi por ocasio dos depoimentos do acusado Luiz Gonzaga das

    Virgens que o nome do religioso apareceu. Aps vrias denncias o ento prncipe regente

    d. Joo VI solicita ao governador que se averiguasse com a devida limpeza de mos os

    fatos. D. Fernando ordena a abertura de uma investigao para se descobrir quem era o dito

    Norbonha e suas relaes com o padre. Doze testemunhas foram ouvidas, mas as

    autoridades no interrogaram nem o padre Francisco Agostinho Gomes, nem o Jacinto Dias

    Damsio, homem citado no depoimento de Luiz Gonzaga das Virgens. Concluiu-se, ento,

    que o tal Norbonha havia sido inventado por Luiz Gonzaga das Virgens para escapar

    ardilosamente das acusaes que pesavam sobre ele.

    Francisco Agostinho Gomes no devia ser muito bem quisto por algumas pessoas de

    Salvador pois as denncias a respeito de suas atividades e comportamentos no paravam de

    chegar em Lisboa. A denncia que irritou profundamente d. Rodrigo de Souza Coutinho

    dava conta de que o padre tinha por hbito dar jantares em dias santos, sexta-feira da

    paixo, durante alguns anos, 1796, 1797 e 1798. O ministro mandou que d. Fernando

    instaurasse uma nova devassa para verificar a procedncia de to pernicioso fato. A

    denncia sobre o referido jantar datada de 4 de outubro de 1798 e a devassa foi instaurada

    somente no dia 15 de janeiro de 1799123. O desembargador Manuel de Magalhes Pinto de

    Avellar e Barbedo, o mesmo das devassas instauradas para se descobrir o autor dos

    pasquins e fatos conexos com a reunio do Dique do Desterro, ouviu 23 pessoas entre os

    dias 19 e 23 de janeiro de 1799. Dessas, 22 brancos e um pardo. Das testemunhas ouvidas,

    vinte e uma pessoas tinham ouvido dizer que o dito padre dera um jantar de carne em dia

    santo. Forneceram detalhes de que os jantares ocorreram durante os sucessivos anos de

    1796, 1797 e 1798, no porto da Barra, nas partes de So Pedro e na praa da Liberdade, e

    entre os partcipes estivera um grupo de pescadores, muitos dos quais escravos124.

    Chama ateno o depoimento do Bacharel Tomaz da Costa Ferreira, advogado nos

    Auditrios da Salvador:

    Disse que sabe por ouvir dizer que h dous annos [1797], poucomais ou menos, em occasio em que aqui [Salvador] se achavo

    123 Devaa a que se procedeu em conseqncia da acussao feita ao padre Francisco de Agostinho Gomesde ter dado um jantar de carne em sexta-feira da Paixo. A devassa est integralmente publicada, por Brs doAmaral, na obra de Incio Accioli.Cf. Accioli, op. cit., vol. III, pp. 140-150. Os documentos originais estoem Lisboa, no Arquivo Histrico Ultramarino, no cdice Caixas da Bahia, doc. 20.807.124 Cf. Lus Henrique Dias Tavares. O desconhecido Francisco Agostinho Gomes. In: Da sedio de 1798 Revolta de 1824 na Bahia. So Paulo/Bahia: Editora da Unesp/EDFBA, 2003, pp. 125-142; Accioli, op. cit.,p. 143.

    57

  • huns certos Francezes arribados que se pretendera dar hum jantarno stio da Barra, o qual fora impedido por ordem do Illmo. e Exmo.Governador, de forma que no se effectuara [...]125.

    Parece que era do conhecimento de d. Fernando os jantares que ocorriam com a

    participao do padre Francisco Agostinho Gomes, de pescadores, de escravos e de alguns

    Franceses, como tambm parece ter sido do conhecimento do governador o teor das

    conversas nesses encontros, nomeadamente a situao que ocorria em Frana. Seguindo o

    padro de limpar algumas informaes obtidas nos depoimentos dos cativos e milicianos, o

    desembargador Barbedo encerrou a devassa aps trs dias. E, no obstante o ouvir dizer

    ter sido mais do que suficiente para a acusao dos quatro milicianos pardos por

    participarem de reunies de contedo sedicioso e serem os autores dos pasquins; com

    Francisco Agostinho Gomes, ao contrrio, o ouvir dizer livrou-o das acusaes, posto que

    se averiguara serem falsos os fatos126.

    Significativo o argumento utilizado por d. Fernando com o objetivo de justificar os

    procedimentos adotados na devassa do padre e o termo a que se chegou, pois a concluso

    no agradou algumas pessoas que acusaram o governador de frouxo. Afirma d. Fernando

    para d. Rodrigo que a maioria dos governadores estabelecidos na Amrica eram

    [...] despticos ou frouxos: se castigo de modo extraordinrio,sem processos, sem figura de juzo, preteridas as formalidadesprescriptas nas Leys e os meyos que ellas tem estabelecido, dedevaa, querela, summario de denuncias, merecem o nome dedespticos; se pelo contrario procedem em conformidade com asmesmas Leys, ouvindo-se as partes, perante aquelles magistradosprprios e destinados para conhecerem em geral dos delictos [...],merecem na opinio de algumas pessoas indiscrectas, de espritomalfico, de que se tem sido desatendidas nas suas queixas erepresentaes, posto que [...] o nome de frouxos, sem se lembraremque h hum meio termo entre estes dous extremos que aquelle queeu tenho seguido [...], aquelle que se queixa contra ao Governadorde ferimento, roubo, ou outro qualquer dellicto [...] sejaencaminhado para o juiz competente pelo mesmo Governador, sem

    125 Accioli, idem. 126 AHU_CU_CA_Baa, doc. 19.177. Officio do Governador D. Fernando Jos de Portugal para D. Rodrigode Sousa Coutinho, no qual se refere a uma devassa a que mandara proceder contra o Padre FranciscoAgostinho Gomes e pela qual se averiguara serem falsos os factos de que o acussavam. Bahia, 12 defevereiro de 1799.

    58

  • ser ouvido e convencido por mero requerimento do queixoso, ouainda por huma simples informao que manda tirar do caso 127 .

    Francisco Agostinho Gomes foi inocentado das acusaes que lhe imputaram.

    Imediatamente aps a devassa128, o padre viajou para Lisboa para solicitar a concesso do

    monoplio de explorao de uma mina de ferro e cobre na Serra da Borracha129. Francisco

    Agostinho Gomes foi agraciado com a merc rgia referente concesso de sesmarias com

    o monoplio na explorao das terras em que se descobrissem minrios de ferro e cobre e

    onde existissem florestas que garantissem suprimento de carvo vegetal. O monoplio foi

    concedido com alguns privilgios e isenes de direitos que se fazem necessrios para

    hum to til estabelecimento130.

    D. Fernando, como se viu, limpou as evidncias que pesaram sobre o padre

    Francisco Agostinho Gomes no ofcio de 13 de fevereiro de 1799, sob o argumento de que

    no havia prova contra o padre para, simultaneamente, contribuir para que o mesmo fosse

    agraciado pela magnificncia da Santssima Majestade e lhe fosse concedido o prmio de

    merc. Em outro ofcio a d. Rodrigo, o governador tenta amenizar a pssima impresso

    sobre o padre causada pelas denncias e o descreve como algum de confiana e um

    homem sumamente atado, acanhado131. Se por um lado o padre Francisco Agostinho foi

    inocentado pela acusao de ser sectrio dos ideais libertrias e de francezia, e premiado

    por merc rgia, por outro, os quatro homens livres, pobres e pardos foram castigados, pois

    o governador reafirmou ao seu caro missivista, d. Rodrigo de Sousa Coutinho, que dos

    partcipes da projetada revoluo de 1798

    [...] quaze todos pardos, entrando neste numero hum Tenente e humInferior do Regimento de Artilharia contra os quaes resulto certosindcios, sem que aparea at agora hum s preto convidado, aexcepo do segundo denunciante, ou seja por certa opozio queh entre pardos e pretos, ou por aqueles, alem de serem maisprezumidos e vaidozos, so reputados como mais astutos e sagazespara qualquer empreza132.

    127 Accioli, op.cit., Vol III, p. 133. Documento transcrito integralmente por Brs do Amaral na nota 17.128 AHU_CU_Caixas da Bahia, doc. 20.177.129 AHU_CU_CA_Baa, doc. 20.459.130 Idem.131 AHU_CU_Caixas da Bahia, doc. 20.177.132 Idem.

    59

  • Potencializando a animosidade entre cativos e libertos pobres e aproveitando-se de

    algumas acusaes mtuas nos depoimentos e testemunhos de participarem da projectada

    revoluo, como se viu, o poder local no convocou nenhum dos proprietrios de escravos

    a prestarem esclarecimentos sobre suas participaes em reunies de contedo sedicioso.

    Eles aparecem para formularem culpa sobre as aes sediciosas dos milicianos, como

    Francisco Vicente Viana e Bernardino de Senna e Arajo. Se o padre Francisco Agostinho

    Gomes foi devassado em apenas trs dias porque as denncias romperam o circuito das

    devassas e, portanto, o controle do poder local na conduo dos processos e chegaram a

    Lisboa. O procedimento do governador em relao ao padre sugere, ao menos, que era de

    seu conhecimento o significado da circulao das idias libertrias e de francezia pelos

    principais, pois eles tambm poderiam instrumentaliz-las para seus interesses. Esse

    parece ter sido o caso do padre Francisco Agostinho Gomes que de acusado passou a ser

    parceiro da Coroa.

    Considerando que em um dos pasquins os partcipes reivindicaram a abertura dos

    portos e a comercializao com a inimiga nao franceza, pode-se asseverar que a

    instrumentalizao das idias libertrias e de francezia pelos principais acarretaria maior

    densidade poltica ao evento na lgica do discurso do poder local. Com efeito, a revolta

    baiana de 1798 deixaria de ser um acontecimento apenas de pardos milicianos faltos de

    religio e fidelidade, como afirmou o governador a d. Rodrigo de Souza Coutinho, e

    significaria uma ameaa socialmente legitimada, uma vez que definitivamente ameaaria o

    ponto nevrlgico da dominao portuguesa no Brasil, o exclusivo metropolitano, e as

    relaes da derivadas.

    Ciente do verdadeiro qiproqu diante dos acontecimentos que poderiam

    comprometer sua bem sucedida carreira de agente metropolitano133, d. Fernando passou a

    retirar as pistas sobre a composio social do que ocorrera na cidade de Salvador de 1798

    ser mais ampla do que ele freqentemente relatava para d. Rodrigo de Sousa Coutinho, pois

    133 D. Fernando Jos de Portugal e Castro era filho de uma famlia de fidalgos que servira Coroa portuguesadesde o sculo XVI. Formou-se em Leis pela Universidade de Coimbra. Foi membro do Tribunal da Relaodo Porto e Desembargador da Casa de Suplicao de Lisboa. Foi governador da Bahia durante os anos de1788-1801, depois vice-rei (1801-1806) e, retornando a Portugal, presidiu o Conselho Ultramarino entre osanos de 1806-1807. Em 1808, novamente no Brasil, foi nomeado por d. Joo VI, Ministro dos Negcios doReino, cargo que ocupou at a sua morte em 1817. Cf. Mariane Reisewitz. Dom Fernando Jos de Portugal eCastro: prtica ilustrada na colnia (1788-1801). Dissertao de Mestrado, So Paulo, DH/FFLCH/USP,2001.

    60

  • [...] o que sempre se receou nas colnias a escravatura [...] nosendo to natural que os homens bem empregados e estabelecidos,que tm bens e propriedades, queiram concorrer para umaconspirao ou atentado, de que lhes resultariam pssimasconseqncias134.

    Isto posto, as autoridades rgias escrevem a d. Fernando sobre a imperiosa punio

    exemplar sobre os partcipes da projetada revoluo

    [...] sejo estes Ros sentenciados em Rellao pello merecimentodos autos devendo elles ser julgados com maior promptido, e com apublicidade que permitem as Leys [...] recebendo o merecido castigopelos seos crimes, uzando-se com elles de toda a severidade dasLeys, tanto a respeito dos Cabeas, como dos que aceitaro oconvite; e dos que no denunciaro tal, e enorme Crime, devendopara o futuro constar a todos que em to grande atentado o bempblico, no sofre moderao alguma de pena ordenada pella Ley[...]135

    O poder rgio ordenou que a punio exemplar fosse aplicada sem distino entre os

    cabeas e os demais partcipes do evento pois, no limite, criam ser pouco provvel que os

    principais da Salvador fossem faltos da necessria fidelidade de um vassalo e

    conseqentemente sectrios dos princpios franceses. Nessa lgica, apenas os populares

    poderiam compartilhar dos abominveis princpios franceses. Em contrapartida, para o

    poder local a situao era merecedora de cautela. Face s ordens da Coroa e das

    informaes que os depoentes forneceram ao longo das devassas, d. Fernando pondera

    sobre a necessria distino na aplicao da pena, uma vez que

    [...] consta haver varias classes de Ros, huns no numero talvez dequatro ou seis reputados como principaes cabeas desta sedio,outros que posto no fossem os autores prestaram o seuconsentimento, e convidaro varias pessoas, outros que aceitaro oconvite e assistio aos conventiculos em que alternadamentecomparecio, outros que sendo convidados no denunciaro comoero obrigados, e alguns, finalmente, que ainda nem aceitaro oconvite antes repugnaro, ou que foram meramente sabedores destadesordem, tivero a inconsiderao de se calarem e guardaremsegredo, ou por assentarem que no terio effeito semelhantes

    134 Ibidem.135 Cpia da Carta Rgia de sua Majestade Fidelssima, d. Maria I a d.Fernando Jos de Portugal e Castro.ADCA, vol. 1, pp. 71-72.

    61

  • projectos revolucionrios, ou por ignorncia, se he que a podemalegar de faltarem a primeira, e a mais essencial obrigao de humvassalo, estando por conseqncia incursos huns em pena ordinriae Capital, e outros na de degredo, mais, ou menos grave, por maiorou menor numero de annos, segundo diversos graos de imputaoque contra elles houver136.

    Aos dezoito dias do ms de outubro de 1799, foram definidos os critrios para as

    sentenas e o termo de concluso da devassa instaurada para averiguar a projectada

    revoluo. Concluiu-se que alguns habitantes da cidade de Salvador tentaram executar

    uma sublevao para subtrair o governo de Portugal. Para que se chegasse ao termo da

    sublevao, as autoridades afirmaram que os partcipes elegeram chefes e cabeas que eram

    indivduos das mais baixa [...] classe dos homens pardos,qualidade que lhes era odioza pretendendo por isso extingui-la pormeio da indistincta igualdade a que aspiravo [...] fasendodisseminar ideas Livres e sentimentos antipoliticos entre aquellesque suppunho mais capazes e dispostos segui-los [...] asimaginarias vantagens, e prosperidades dhuma RepublicaDemocrtica, onde todos serio Communs sem diferena da cor enem da condio, onde elles occupario os primeiros Ministrios,vivendo debaixo dhuma geral abundncia, e contentamento [...]137.

    O relato minucioso do termo de concluso demonstra que inculcando ao mesmo

    tempo de sabedores, e interessados na sua execuo [convidaram] pessoas de tal

    preheminencia, autoridade, e honra, que estas mesmas qualidades as excluem do mais leve

    pensamento de infidelidade, e aps um ano em que machinavo a oculta conspirao

    foram achados nas ruas, templos e igrejas vrios pasquins, os mais mpios, atrevidos e

    sediciozos, que podia abortar ha imaginao esquentada e destituda de lume da

    Religio, e respeito devido ao Sumo Imperante que resultou na captura de um monstro

    de maldades138. Aps a primeira priso, os desembargadores concluram que o encontro do

    dia 25 de agosto no Campo do Dique do Desterro ocorrera porque aps as declaraes do

    ento acusado, os partcipes por

    receo de serem descubertos pelas Confissoens, e declaracoens doseu Scio e Amigo [Luiz Gonzaga das Virgens] e considerando-seem ha Crize arriscadas, e perigoza, tomaro o partido de

    136 Carta de d. Fernando Jos de Portugal a d. Rodrigo de Souza Coutinho. BN, Sesso de manuscritos. 137 ADCA, vol. II, pp. 1122-1123.138 Idem.

    62

  • desenvolver todo o fel dos seus projectos, procurando os meios de osadiantar, e reduzir a effectiva execuo[...]139.

    Concluiu-se que os culpados de crime de lesa-majestade por conspirarem contra a

    Coroa portuguesa ao projetarem um levante no Campo do Dique do Desterro foram

    os infelices, e desgraados RR [rus] Lucas Dantas de Amorim,Joo de Deos do Nascimento, Manoel Faustino dos Santos Lira,Romo Pinheiro e o auzente Luis Pires Condemnados a morte peloRespeitvel Acrdo [em branco], assim como tambm o Tenente do2. Regimento de Linha desta Praa Hermgenes Francisco deAguillar Condemnado em hum anno de prizo, e os RR [rus]Manoel Jose da Vera Crus e Igncio Pires condemnados em 500aoutes, e vendidos para fora da Capitania [...]140.

    Luiz Gonzaga das Virgens, por sua vez, foi o nico condenado de ser o autor dos

    pasquins sediciosos afixados nas ruas da Salvador na manh de 12 de agosto de 1798, pois

    se concluiu que Domingos da Silva Lisboa no poderia ser autor dos papis. A 7 de

    novembro de 1799, o termo de concluso da devassa instaurada para averiguar o autor dos

    pasquins proferiu

    Justia que a Rainha Nossa Senhora manda fazer a este execrvelreo Luiz Gonzaga das Virgens, homem pardo, natural desta Cidade[Salvador], a que com barao, e prego seja levado ate o lugar daforca, erigida para este supplicio, e que nella morra morte naturalpara sempre sendo-lhe depois de morto separadas as mos, ecortada a cabea, que ficaro postadas no dito lugar da execuo,ate que o tempo as consuma, no que foi condenado, e na confiscaode seos bens para o Fisco, e Cmara Real, e nas custas por Acrdoda Relao que outrosim declarou infame sua memria, de seosfilhos e netos, mandando outrosim que sendo propria a caza de suahabitao, seja demolida, Salgada para nunca mais se edificar [...]141.

    Quanto aos escravos Jos Felix da Costa e Lus Leal que formularam culpa na

    devassa de Luiz Gonzaga das Virgens e depois foram indiciados na devassa para

    averiguao da projectada revoluo, o primeiro foi degredado para as regies da frica

    fora dos domnios de Portugal e o segundo foi inocentado por ser absolutamente isento de

    139 Idem, p. 1124.140 Idem, p. 1144.141Termo de concluzo, Notificao do Acrdo e Prego para o reo Luiz Gonzaga das Virgens. ADCA,vol. 1, pp. 175-176.

    63

  • qualquer culpa142. Os escravos do secretrio de Estado do Brasil, Jos Pires de Carvalho e

    Albuquerque, por sua vez, tiveram suas penas aliviadas, pois foram culpados pella falta de

    delatao do crime projectado, tendo delle noticia, a sua ignorncia os contistue na

    necessidade de merecerem o alivio referido. Sendo escravos elles no podio saber da

    obrigao de delatarem[...]143.

    O professor Francisco Moniz Barreto de Arago foi condenado pena de degredo

    por ser sectrio das idias de francezia, entretanto teve sua pena comutada depois que

    apresentou certides que comprovaram sua nobiliarquia. O termo final de sua sentena foi

    assim definido

    outrosim commuto as penas impostas ao Reo Francisco deArago em hum anno de prizo to somente na Cadea publica destaCidade, e na privao da Cadeira, que tem exercido, e inhabilidadepara ministrio de ensino publico, visto tambem que se nomanifesta com a preciza concludencia, que elle commonicasse, edenominasse as sediciozas dcimas, que lhe foro achadas, ou,fizesse applicao da sua detestvel doutrina144.

    Quanto aos abominveis princpios franceses que tanto preocupavam os agentes

    metropolitanos, os desembargadores do Tribunal da Relao concluram que apenas os

    homens pardos eram sectrios dos perniciosos princpios, pois, aps as investigaes, as

    denncias que davam conta de que algumas pessoas importantes tambm aprovavam a

    doutrina, no procediam. Eram arroubos intelectuais de rapaziada impossveis de atalhar,

    pois no somente os impressos em que se baseavam eram de controle difcil e circulavam

    livremente145 Para que no houvesse nenhuma dvida a respeito e para encerrar

    definitivamente a questo, o governador astutamente relembra d. Rodrigo sobre um ofcio

    no qual o prprio Ministro ordenava que se espalhasse no Brasil uma obra traduzida para o

    Portugus noticiando os malefcios da doutrina de francezia e acrescenta que

    [...] contudo he-me summamente sensvel que se considere porquem quer que seja como huma das causas de hum facto que se noverificou, a frouxido deste Governo, como se eu devesse procederinconsideradamente, sem denncias, sem provas, sem indcios, emmatria de tanto melindre e gravidade contra o sobredito Padre ou

    142 ADCA., vol.2, p. 1191.143 ADCA, vol.2, p. 1161.144 ADCA, vol. 2, p. 1191.145 In: Accioli, op. cit., vol. III, p. 133

    64

  • contra outro qualquer, s porque l correios da Europa, Gazetasinglezas que so remettidos dessa Crte a differentes pessoas

    1.2 Algumas outras possibilidades.

    Como se teve oportunidade de demonstrar, os fatos conexos histria das devassas

    da Conjurao Baiana de 1798 sugerem hipteses, cuja verificao transcende os limites

    desta pesquisa, pois, ao que tudo indica, no ser possvel analis-las sem o rastreamento da

    atuao do grupo de notveis proprietrios dos escravos em confronto com a inegvel

    arquitetura poltica do poder local em limpar as evidncias sobre uma maior amplitude

    social do evento. Assim como a pesquisa sobre os termos das participaes dos cativos. Por

    ora, resta-nos levantar algumas questes sobre a lgica punitiva em relao ao desafio

    imposto pelos que participaram da revolta baiana de 1798.

    Sob o ngulo da documentao analisada, em primeiro lugar, as devassas que

    ocorreram concomitantemente durante o perodo de 1798 e 1799, so processos separados,

    mas que precisam ser analisados em conjunto. Os testemunhos, as assentadas e os

    depoimentos esto encadeados de forma desconexa, quando no aparecem repetidos porque

    era comum poca um funcionrio da secretaria de Estado copiar a documentao jurdica

    do Tribunal da Relao. O conjunto geral de documentos que compem as devassas, por

    sua vez, composto por outros pequenos processos de justificao, comprovao

    nobilirquica de algumas pessoas indiciadas, confisco das obras e bens dos acusados e

    duplicao de parte das correspondncias oficiais. Todavia, os documentos oficiais que

    compem as devassas no obedecem a uma ordem cronolgica e muito menos uma lgica

    sobre os temas abordados nas correspondncias entre os agentes da poltica metropolitana.

    A razo para ausncia de nexo na correspondncia oficial que parte da documentao

    referente s devassas no foi incorporada nos autos, pois atualmente a documentao est

    pulverizada em vrios arquivos do alm e aqum-mar: no inventrio Castro e Almeida do

    Arquivo Histrico Ultramarino, na Chancelaria da D. Maria I do Arquivo Nacional da Torre

    do Tombo, ambos em Lisboa, e, no Brasil, na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, e no

    Arquivo Pblico do Estado da Bahia. O que vale afirmar que para a reflexo sobre a

    65

  • Conjurao Baiana de 1798, imperativo o rastreamento da correspondncia oficial que

    no est vinculada aos autos das devassas.

    Sob o ngulo da estratgia poltica do poder local na conduo dos processos, como

    se viu, o governador ordenou que as devassas fossem recolhidas Real Fazenda, principal

    rgo da secretaria de Estado e Governo do Brasil, que poca esteve sob administrao de

    Jos Pires de Carvalho e Albuquerque. Considerando que o secretrio teve quatro de seus

    escravos indiciados nos processos e suas aes em relao s investigaes so bastante

    suspeitas, no parece exagerado sugerir que o dito secretrio tivesse razes para excluir

    parte da documentao dos autos das devassas. Corrobora para a hiptese o fato de que Jos

    Pires de Carvalho e Albuquerque fez parte de um grupo da elite local muito bem quisto pela

    administrao de d. Fernando. Fazia parte desse grupo o padre Francisco Agostinho Gomes

    que, como se viu, graas ao governador recebeu a merc rgia da explorao de uma mina

    de ferro e, em 1821, foi deputado na corte de Lisboa. A trajetria do grupo de proprietrios

    dos escravos indiciados nas devassas no foi diferente. Chamamos ateno para o fato de

    que alguns dos senhores de escravos tiveram seus cabedais quase dobrados depois de 1799,

    sendo que Jos Pires de Carvalho e Albuquerque, em 1805, junto com seu cunhado

    Joaquim Incio de Siqueira Bulco, futuro Baro de So Francisco, eram donos de nove

    engenhos de acar no Recncavo146. Alguns reapareceram em importantes postos da corte

    joanina no Rio de Janeiro, aps 1808. E a maioria desses proprietrios exerceram papis

    fundamentais nas lutas da Independncia na Bahia. Francisco Vicente Viana, por exemplo,

    torna-se presidente da junta governativa da Bahia, durante os anos de 1823-1825147. Nesse

    caso, a ateno para a atuao de outro grupo de protagonistas, portanto, o rastreamento das

    atividades do grupo de notveis, proprietrios dos escravos indiciados nos processos da

    Conjurao Baiana de 1798, pode esclarecer e trazer novas informaes sobre a

    sociabilidade poltica da poca que, ao que tudo indica, deve ser considerada antes e depois

    do marco cronolgico definido pelas autoridades: 1798.

    As cartas que D. Fernando Jos de Portugal e Castro enviou a d. Rodrigo de Souza

    Coutinho forneceram indcios significativos de que o governador arquitetou politicamente a

    instaurao do processo no sentido de limpar as manifestaes de descontentamento de

    pessoas principais envolvidas com algum tipo de atividade sediciosa. Definiu como146 Ler: Affonso Costa. Genealogia Baiana. RIHGB, Rio de Janeiro, n. 191, 1946.147 Cf. Brs do Amaral. A histria da Independncia na Bahia. Salvador: Livraria Progresso Editora, 1957, 2a.edio.

    66

  • ponto de partida a participao exclusiva de um grupo de protagonista que no outros:

    homens dos mdios e baixos setores daquela sociedade. Viu-se no ponto de partida o que s

    poderia alcanar no ponto de chegada, isto , desde o primeiro momento da instaurao das

    devassas circunscreveu-se s aes sediciosas aos milicianos e alfaiates pardos.

    Considerando o tempo destinado na conduo das devassas dos partcipes e do padre

    Francisco Agostinho Gomes, no parece impossvel entrever que o poder local necessitou

    ganhar tempo para a construo dos elementos que comporiam a concluso do processo,

    dado que o desafio imposto aos agentes metropolitanos no foi de pouca monta. Por um

    lado, se as autoridades locais e o poder mariano tinham clareza da conseqncia de uma

    revolta protagonizada pelos setores mais baixos daquela sociedade, por outro, parece que o

    maior perigo estava no fato de que idias republicanas francesas eram compartilhadas por

    um grupo local de grande poder e prestgio, e, justamente por isso, poderia utiliz-las como

    um canal de negociao poltica.

    Do ponto de vista da circunscrio social do evento, a aplicabilidade da punio

    exemplar aos quatro homens pardos no parece ser de pouca relevncia, uma vez que nas

    acareaes das devassas esses homens aparecem como verdadeiros agentes de difuso das

    idias, seja para seus pares do corpo da tropa, seja para os escravos com os quais

    socializavam, seja, ainda, entre os intelectuais que liam gazetas e livros franceses enviados

    pelo prprio reino ou adquiridos por contrabando. O que vale dizer que se de um lado

    homens como Francisco Agostinho Gomes tinham obras francesas e inglesas, de outro, os

    homens livres e cativos urbanos tinham informaes sobre as revoltas escravas e a

    Revoluo Francesa por ouvir dizer nas conversas de seus senhores e pelo ntimo contato

    entre eles e entre os homens que chegavam em comboios no porto de Salvador.

    Depois, como se viu nos depoimentos dos cativos, caberia saber as razes pelas

    quais o termo revoluo foi constantemente ligado ao termo liberdade pelas autoridades

    locais, uma vez que tudo indica que os termos que os cativos fizeram de liberdade era o de

    libertao e emancipao. Vincular liberdade, revoluo e Bonaparte foi uma arguta

    estratgia do Desembargador Costa e Pinto, com a inegvel colaborao do escravo do

    Secretrio de Estado e Governo do Brasil, Lus de Frana Pires. A respeito da denncia do

    escravo Lus de Frana sobre a participao de seus pares, outros escravos do mesmo

    senhor, caberia saber por que, depois de negar por duas vezes, o escravo resolveu fornecer

    67

  • um dos mais importantes depoimentos das devassas delatando outros escravos e

    confirmando a culpabilidade dos rus Manuel Faustino, Lucas Dantas e Joo de Deus do

    Nascimento. Ainda sobre os cativos presos e interrogados, caberia saber se Lus de Frana

    Pires teria sido coagido pelo seu senhor. Qual o entendimento que os escravos faziam dos

    acontecimentos em curso? Por que no h uma posio hegemnica entre eles, uma vez que

    Lus de Frana Pires tambm foi condenado a degredo assim como alguns escravos? Por

    que as autoridades vincularam a participao dos cativos s idias de francezia?

    Parece que o que esteve em jogo para as autoridades dos dois lados do atlntico no

    era apenas a circulao das idias de francezia que, como vimos, as autoridades tinham

    conhecimento de uma ampla difuso dessas idias a despeito da censura rgia. A questo

    central parece ter sido o modo pelo qual essas idias eram apropriadas por todos os grupos

    envolvidos no evento e o uso poltico que delas se poderia fazer. A reconhecida capacidade

    de se fazer poltica em territrio colonial que as autoridades no subestimaram nem

    menosprezaram. Ademais, parece ter sido bastante conveniente para autoridades rgias

    esclarecer que apenas esses homens eram simpatizantes dos ideais da Frana

    revolucionria.

    O Secretrio de Estado da Marinha e Ultramar, d. Rodrigo de Sousa Coutinho, em

    ofcio ao governador enviado aps o primeiro ms da instaurao da devassa, alertava-o

    para que impedisse a disseminao de idias contrrias religio e ao Estado e terminava

    com a recomendao para o governador ficar atento ao comportamento dos magistrados,

    militares e comerciantes e no da gente mida148. A razo para a recomendao de d.

    Rodrigo foi uma representao enviada ao Reino antes de aparecerem os pasquins que

    deflagraram o contedo tido sedicioso da revolta em curso, na manh de 12 de agosto de

    1798, por Joo Lus Ferreira149 queixando-se de todos os magistrados da Relao da Bahia

    que administravam mal a justia, no cumpriam as leis rgias e estavam envolvidos em

    inmeros casos de corrupo150. Aps o afastamento de Amorim e Castro151, a representao148 AHU, Cdice 606, liv. 7o. Ofcio de 28/09/1798. Agradeo Teresa Cristina Kirschner a indicaodocumental e a gentileza de ter cedido o texto sobre o conflito que envolve o Juiz de Fora Joaquim deAmorim e Castro na Cachoeira de 1797: Elites ilustradas na Bahia do final do sculo XVIII. Trajetrias,conflitos e acomodaes. 2o. Colquio Histria Social das Elites. Instituto de Cincias Sociais, Universidadede Lisboa, novembro de 2003.149 Joo Luis Ferreira era comerciante de grosso trato em Cachoeira e foi um dos principais homens que exigiujunto ao Reino o afastamento de Joaquim de Amorim e Castro do cargo de juiz de fora. Cf. Kirschner. Op. cit.150 AHU, Cdice 606, liv. 7o. Ofcio de 28/09/1798, fls. 219.151 No obstante ao afastamento do cargo, Joaquim de Amorim e Castro foi agraciado com duas mercs rgiaspor d. Joo VI. Cf. Joaquim de Amorim Castro: Desembargador do Pao. Ttulo do Conselho, por Carta de 20

    68

  • de Cachoeira diz respeito Relao da Bahia, sugerindo que o Juiz de Fora de alguma

    maneira estava envolvido com o grupo de proprietrios, e que a to alardeada ausncia de

    limpeza de mos do grupo de notveis nos cargos da administrao local no era

    desconhecida de d. Fernando Jos de Portugal e Castro.

    Depois, em uma sociedade de forte contedo litrgico, rituais e posies

    estabelecidos, como a baiana de 1798, tudo leva a crer que o grupo de proprietrios de

    escravos, intelectuais, milicianos e escravos domsticos no fizeram questo de esconder a

    natureza das reunies sediciosas e sabiam perfeitamente que, diante o impacto da

    Revoluo Francesa de 1789 e a Haitiana desde 1791, as autoridades do Reino ficariam

    sobressaltadas com tais manifestaes e a participao dos cativos no movimento,

    desencadeando, portanto, uma srie de providncias. Seja como for, a documentao sugere

    que as reunies entre homens de distinta condio social, discutindo assuntos considerados

    sediciosos poca, foram estratgias bastante significativas.

    A respeito da experincia poltica no Brasil, de uma espcie de cultura de

    contestao, Luciano Figueiredo demonstra que os anos que se seguiram Restaurao do

    reino em 1640, at o final do XVII, na esteira das felizes aclamaes ao soberano, a

    instabilidade e a insegurana trazidas com o novo governo em vrios dos domnios

    ultramarinos transformaram-se em um ricochetear de revoltas, motins de soldados, conjura

    de fidalgos, rebelies anti-fiscais e anti-jesuticas, quase sempre resolvidas pela deposio

    do governador, vice-rei ou capito-general o tirano palpvel aos olhos dos sditos

    vexados e oprimidos pela poltica colonial que dilacerava o equilbrio entre os grupos de

    poder locais, suspendia privilgios seculares e rompia a cadeia de redes clientelares. Para o

    autor, a reao em cadeia sugere uma certa coerncia nas prticas polticas ativadas para

    superar situaes de tenso e reajustes152. O impacto da ideologia restauradora, a difuso e a

    releitura da doutrina que legitimaria o rompimento com a Espanha, tanto na literatura

    jurdica quanto nas decises das Cortes de 1641, reavivaram o papel do equilbrio entre a

    obedincia (atributo dos sditos) e a justia (do soberano) na regncia do pacto da

    de Dezembro de 1814. Livro 30o. fol. 98 verso.Joaquim de Amorim Castro: Desembargador do Pao. FidalgoCavalleiro, por Alvar de 18 de Janeiro de 1815. Livro 31o. fol. 118 verso.152 Luciano Raposo de Almeida Figueiredo. O Imprio em apuros: notas para o estudo das alteraesultramarinas e das prticas do Imprio colonial portugus, sculos XVII e XVIII. In: Jnia Ferreira Furtado,Dilogos Ocenicos..., op.cit., pp. 197-254.

    69

  • monarquia: o rei que governar com justia ser devidamente obedecido, desde que

    respeite usos e costumes, o direito natural e as regras tradicionais153.

    O estabelecimento da legitimidade do direito revolta contra os reis opressores,

    segundo o autor, sofreria uma metamorfose na periferia do imprio a fim de sustentar

    reaes contrrias aos interesses das comunidades locais. Ou seja, se a ideologia

    restauradora ofereceu a letra da composio que embalaria as contestaes nas vrias partes

    do Imprio Portugus, durante boa parte do seiscentos, o impacto local da poltica

    metropolitana daria a sua cadncia da para frente e assim por diante. Para Luciano

    Figueiredo, das expulses dos governadores no seiscentos s rebelies mineiras na primeira

    metade do sculo XVIII firmou-se um percurso decisivo que alterou significativamente as

    formas de luta e o discurso poltico at ento elaborados. Os sditos passaram a explorar os

    limites da autonomia que a dialtica do mando impunha, a partir da experincia coletiva

    partilhada por geraes de moradores em um mesmo lugar, sem que isso se traduzisse em

    uma crtica anti-absolutista. O que estava em jogo, na cultura de contestao do Brasil em

    meados do setecentos, para o autor, era um novo modo de fazer poltica cuja resistncia

    conjugava um senso de identidade colonial, reiterao das conquistas dEl-Rei e expectativa

    de reconhecimento de seus direitos.

    A esse respeito, parece significativo que uma obra de propaganda anti-jesutica

    tenha circulado entre os partcipes do evento baiano de 1798, e as autoridades mais uma vez

    nada fizeram a respeito da informao de Domingos da Silva Lisboa. Monita Secreta ou

    Instruo secreta dos jesutas, referido nos autos como segredo dos jesutas foi divulgado

    aos partcipes pelo acadmico renascido Salvador Pires de Albuquerque. A histria da

    publicao do Monita Secreta demonstra que a circulao do manuscrito e depois suas

    reedies ocorreram em momentos de forte recrudescimento da poltica portuguesa e do

    papel religioso nessas conjunturas154. Momentos de grandes indefinies polticas em

    Portugal e nas vrias partes do Imprio em que se buscavam mecanismos de negociao

    com o Reino chamando ateno do pblico colonial sobre as artimanhas do jesuitismo para

    a tomada de poder, fundamentado no aforismo maquiavlico os fins justificam os meios,

    ainda que esses fossem condenveis aos olhos de Deus pela ilicitude moral. Segundo o

    autor da edio fac-smile utilizada nesta pesquisa, no h notcia de que at a data da

    153 Idem, p. 217.154 Cf. Vtor Neto. O Estado, a Igreja e a Sociedade em Portugal (1832-1911). Lisboa: IN-CM, 1998.

    70

  • expulso dos jesutas tenha sido feita uma edio em Portugal. Entretanto, h indcios de

    que o libelo era utilizado direta e indiretamente nas campanhas anti-jesuticas de Pombal.

    Um dos casos mais emblemticos desta utilizao, segundo o autor, a circulao de um

    catecismo anti-jesutico enviado a todos os bispos do reino de Portugal e dos seus territrios

    ultramarinos. Trata-se dos Erros mpios e sediciosos que os Religiosos da Companhia de

    Jesus ensinaram aos Rus, que foram justiados, e pretenderam Espalhar nos Povos destes

    Reinos, publicados por Miguel Rodrigues em Lisboa no ano de 1759155. Foi a partir da

    publicizao do contedo normativo do Monita Secreta e do catecismo Erros mpios que

    Pombal legitimou ideologicamente a expulso dos jesutas. No cabe, neste captulo, o

    aprofundamento sobre essas questes. O que importa que a obra mencionada nas devassas

    sugere a imperativa reflexo sobre o papel da ideologia anti-jesutica nas vrias partes do

    Imprio, aps 1759. Seriam apenas as idias de francezia as leituras e apropriaes feitas

    pelos partcipes da revolta baiana de 1798?

    Depois, em que se pese a conjuntura da Bahia no final do sculo XVIII, o

    silenciamento das autoridades locais ante a participao do grupo de notveis na revolta,

    pode relacionar-se com a disputa pelo controle da governao local na expectativa de

    ampliar os direitos polticos e econmicos secularmente conquistados. Nesse caso, a

    presena desse grupo de notveis, at o momento bastante obscura, conferiria revolta

    baiana de 1798 maior densidade poltica e uma ameaa socialmente legitimada aos olhos

    das autoridades metropolitanas. Razo pela qual o pragmatismo das autoridades em relao

    s punies das revoltas seiscentistas, com o afastamento do governador em alguns casos,

    serviu para que as autoridades rgias no desconsiderassem, nas dcadas finais do

    setecentos, o poder das elites locais e a atuao do governador na conduo das

    investigaes. Talvez seja justamente por isso que o grupo de notveis tenha fica margem

    das investigaoes. A esse respeito, significativo o fato de que o governador no s foi

    poupado pelos partcipes de 1798, pois em um dos bilhetes aparece como o futuro chefe da

    Repblica Democrtica Bahinense, como foi um importante interlocutor que

    contemporizou as denncias de prtica sediciosa pelo grupo de proprietrios de escravos

    que chegam no Reino. Tudo leva crer que foi essa a razo de as autoridades rgias

    circunscreveram a composio social da revolta aos homens livres, pobres e pardos, alm

    155 Cf. Jos Eduardo Franco e Christine Vogel, op. cit., p. 31. Segundo os autores, h uma documentao noANTT que relaciona o atentado a d. Jos I obra Monita Secreta.

    71

  • de desqualificarem os princpios polticos exteriorizados nos pasquins ditos sediciosos,

    nomeadamente os abominveis princpios franceses.

    Por fim, o quadro apresentado neste captulo est longe de esgotar os pontos-chaves

    para a anlise da Conjurao Baiana de 1798, clivadas pelas autoridades rgias na

    concluso das devassas, especialmente em relao aos protagonistas do evento, sejam eles

    milicianos, forros, escravos domsticos ou mesmo o grupo de notveis de grande influncia

    na administrao local da poca. O fato que somente a partir deste captulo foi possvel

    tornar visvel dois aspectos relevantes na gnese do processo de construo da memria

    histrica da Conjurao Baiana de 1798. O primeiro aspecto que a relao da construo

    do fato com a lgica do poder local, portanto, o vencedor, no foi considerado aqui um

    pressuposto, uma platitude. A inteno inicial foi constatar, em primeiro lugar, a existncia

    da relao entre fato e vencedor, para depois explicitar os meandros dessa relao. Nesse

    ponto em especial, parece inegvel a existncia dessa relao quando as autoridades

    definiram o conjunto que compem os eixos de significao, os pontos-chaves sobre os

    quais a Conjurao Baiana de 1798 deveria ser lembrada da para frente e assim por diante.

    A contrapartida dessa relao que a definio do conjunto pressups, como se viu, o

    silenciamento de questes conexas ao evento, que analisadas em conjunto indicam outras

    possibilidades de interpretao que colocariam em xeque os ngulos de coerncia desse

    prprio conjunto e, portanto, dessa memria em especial. Depois, a partir da explicitao

    dos meandros da relao entre fato e vencedor possvel sublinhar o peso da herana do

    conjunto de pontos-chaves da Conjurao Baiana de 1798 fato, documentos e a lgica da

    resposta-explicao definidos pelas autoridades locais, em 1799 -, para os contemporneos

    do evento e para a historiografia dos sculos XIX e XX. o que se apresenta a seguir.

    72

  • Captulo 2. Memrias da revolta Baiana de 1798: arepresso bem sucedida ou a insistente sublevao?

    O povo naturalmente submisso e obediente s leis. Quem ocorrompe e deprava os seus sentimentos o governo com osarbtrios e violncias que comete.

    Domingos Antonio Raiol156.

    2.1 A(s) revolta(s) baiana (s) de 1798 na pena dos contemporneos.

    Aps a anlise dos eixos de significao da revolta baiana de 1798, na lgica

    punitiva do poder local, em resposta ao desafio imposto pelos partcipes do evento,

    exteriorizada em um dos ltimos espetculos do Antigo Regime portugus na Amrica,

    nomeadamente o enforcamento seguido de esquartejamento das partes dos quatro rus,

    interessa-nos evocar a ressonncia imediata desses acontecimentos. primeira vista, o que

    os contemporneos souberam dos acontecimentos que as autoridades denominaram em seu

    conjunto de projectada revoluo? O que perceberam dela? Que fizeram dela? Ou ainda

    melhor, em que medida as percepes dos contemporneos corroboram ou divergem da que

    foi elaborada pelos desembargadores do Tribunal da Relao da Bahia, em 1799? As

    respostas foram buscadas nos relatos do Frei Jos do Monte Carmelo, de Jos Venncio de

    Seixas e Lus dos Santos Vilhena.

    2.1.1 Frei Jos do Monte Carmelo.

    Assim que d. Fernando Jos de Portugal e Castro, governador-general da Bahia,

    ordenou a instaurao da devassa para se descobrir o(s) autor(es) dos boletins sediciosos

    afixados em locais pblicos da Salvador, na manh de 12 de agosto de 1798, seguiu-se a

    priso de Domingos da Silva Lisboa, aps um precrio exame das letras dos boletins e

    algumas peties da Secretaria de Estado e Governo do Brasil157. Todavia, como se viu no

    captulo anterior, no dia 20 de agosto de 1798, foram encontradas duas cartas na Igreja do156 Domingos Antonio Raiol. Motins polticos ou histria dos principais acontecimentos polticos naProvncia do Par, desde o ano de 1821 at 1835. Coleo Amaznia, Srie Jos Verssimo, Belm,Universidade Federal do Par, 1970, 5 Tomos, vol. 1, p. 346.

    73

  • Carmo assinadas pelos annimos republicanos158. A primeira delas foi destinada ao prior

    dos carmelitas descalos e afirmava

    Reverendssimo em Christo Padre Prior dos Carmelitas Descalos:e para o futuro Geral em Chefe da Igreja Bahinense: segundo aseco do Plebiscito de 19 do corrente: quer e manda o Povo queseja feita a sua revoluo nesta Cidade por conseqncia de serexaltada a bandeira da igualdade, Liberdade, e fraternidadePopular, portanto manda que todo o sacerdote Regular e Irregularassim o aprove, e o en[ten]da alias............................Vive et vale159.

    A segunda carta foi para d. Fernando Jos de Portugal e Castro e afirmava

    Illustrissimo e Excellentissimo Senhor, o Povo Bahinense, eRepublicano na seco de 19 do prezente mez houve por bem eleger;e com efeito ordenar que seja Vossa Excellencia invocadocompativelmente como cidado Prezidente do Supremo [Tribu]nalda Democracia B[ahinense] para as funcoens, da futura revoluo,que segundo o Plebiscito se dar no prezente pelas duas horas damanh, conforme o prescripto do Povo. Espera o Povo que VossaExcellencia haja por bem o exposto. Vive et vale160.

    O desembargador Avellar e Barbedo no verificou as informaes sobre o

    governador ter sido escolhido para ser o chefe do que viria a ser a Repblica Bahinense.

    Tampouco procurou verificar a relao do prior dos carmelitas descalos com os partcipes

    da revolta. Digno de nota, entretanto, o fato de os carmelitas descalos terem sido os

    padres que acompanharam os momentos finais dos condenados no segredo da Relao.

    Esses momentos foram descritos por um deles, frei Jos do Monte Carmelo161.

    157 Auto do exame, e Combinao das Letras dos pasquins e mais papis sediciozos, que apparecero nasesquinas, ruas, e Igreja desta Cidade que se acho incorporados na Devassa... in: ADCA, vol. 1, p. 89. 158 ADCA, vol.1, p. 39-40.159 Idem. 160 Ibidem. 161 Outra relao feita pelo P. Fr. Joze DMonte Carmelo, religiozo carmelita descalo. Instituto Histrico eGeogrfico Brasileiro, Notcia da Bahia, tomo IV, Lata 402, manuscrito 69. O documento est integralmentetranscrito na obra de Lus Henrique Dias Tavares. Histria da Sedio intentada na Bahia em 1798 (AConspirao dos Alfaiates). So Paulo/Braslia: Pioneira/INL, 1975, pp. 123-137, passim.

    74

  • Conta-nos Frei Jos do Monte Carmelo, carmelita descalo162 e prior do Convento e

    Igreja de Santa Teresa, que Manuel Faustino, depois de ser preso no segredo da Relao,

    tentou se suicidar vrias vezes por influncia nefasta do demnio. Como o ru foi livrado

    da morte em todas as vezes, ele voltou-se me de Deus porque a malcia ainda no tinha

    lanado razes fundas no seu corao e passou seus ltimos dias de vida rezando de dia e

    de noite163. Mas, no dia 5 de novembro de 1799, aps todos os delinqentes terem sido

    chamados para ouvirem as sentenas, Manuel Faustino e os outros condenados foram

    encaminhados ao segredo da Relao para que fossem ouvidos em confisso pelo frei Jos

    de Monte Carmelo antes de serem executados em praa pblica.

    Aps relutar por sentir uma repugnncia em ir pessoalmente, tanto contra o q eu

    achava em mim para com outros em semelhantes ocazioens, qe me obrigavao a usar

    algumas pessoas, frei Jos chegou noite no oratrio da Relao para comear as

    confisses. O carmelita conta minuciosamente que assim como Manuel Faustino, os outros

    condenados tambm tentaram o suicdio. A idia era demonstrar o milagre divino diante das

    tentaes do demnio. Nessa luta vitoriosa do bem sobre o mal, frei Jos narra a rebeldia

    dos condenados, verdadeiros loucos, para demonstrar que os mesmos converteram-se nos

    momentos finais pelo milagre que estava por vir164.

    Assim, na manh quente de 8 de novembro de 1799, segundo o Frei, as tropas de

    linha ocuparam desde cedo a Praa da Liberdade, amplo quadriltero localizado no centro

    de Salvador. O povo curioso no parava de chegar. Estabeleceu-se um cordo de isolamento

    entre a tropa e o patbulo pblico construdo especialmente para a ocasio. Pelas onze

    horas, iniciou-se a procisso. frente, banda de cornetas e tambores, seguida das

    irmandades revestidas das suas opas e capas, de cruz alada e com seus respectivos

    vigrios. Logo aps, os condenados a degredo caminhavam de mos atadas s costas,

    precedidos do porteiro do Conselho, com as insgnias do seu cargo, seguido dos quatro rus

    162 A ordem dos Carmelitas surgiu no final do sculo XI, na regio de Monte Carmelo, na Palestina. A partirdo sculo XVI, j no Ocidente, especificamente na Espanha, os Carmelitas passaram por um movimento derenovao com Santa Tereza Dvila e So Joo da Cruz. A ordem foi dividida em Carmelitas Calados, queseguiam a ordem antiga, e os Carmelitas Descalos seguidores do movimento renovador. A ordem chegou aoBrasil em 1580 e estabeleceu-se em Pernambuco, onde fundou o Convento do Carmo de Olinda, em 1583.Estabeleceram-se na cidade de Salvador, em 1586, onde fundaram seu segundo convento. A esse respeito ler:Eduardo Hoornaert. Histria da Igreja no Brasil. Petrpolis: Vozes, 4a. edio, 1992; Waldemar Mattos. OsCarmelitas Descalos na Bahia. Salvador: Man, 1964. Lus dos Santos Vilhena, entretanto, afirma que osCarmelitas Descalos fundaram seu mosteiro em 1665. Cf. Vilhena, op.cit., vol. 2, p. 446.163 Tavares, op.cit., p. 124.164 Idem.

    75

  • condenados pena capital pelo crime de lesa-majestade de primeira cabea, acompanhados

    de dois frades franciscanos, alm de todos os escrives, meirinhos e o porteiro do Tribunal

    da Relao da Bahia. Seguiam-nos empunhando a bandeira de Portugal o Senado da

    Cmara, os vereadores, os alcaides-mores e mirins, e o procurador do Conselho. Mais atrs,

    a irmandade da Misericrdia e o carrasco, ostentando as insgnias de seu ofcio.

    As gentes iam lotando as janelas das casas para ver a procisso dos condenados. O

    cortejo percorreu as ruas da S, desde o Terreiro de Jesus at o cimo da ladeira do Tira

    Preguia, chegando em frente Piedade. Aps o ruflar dos tambores, o meirinho-mor leu

    pela ltima vez os preges reais que anunciavam a morbidez com a qual os acusados seriam

    punidos por serem considerados pelas autoridades rgias os cabeas da projectada

    revoluo que instituiria um governo democrtico no Brasil. Diante dos trs regimentos

    pagos daquela praa, postos em armas para prevenir qualquer acidente que se pudesse

    originar em favor dos rus, os condenados subiram ao cadafalso.

    O primeiro a ser enforcado foi Luiz Gonzaga das Virgens e Veiga. Antes, segundo o

    carmelita descalo, o ru o chamou para um ato de protestao segundo o qual o ru se

    arrependeu de seus atos, especialmente por ter desrespeitado a Igreja. A admirao que

    cauzou a todos o q dice Gonzaga foi singular165. Afirma o carmelita que Luiz Gonzaga

    disse para todos ouvirem eu confeo, qeste Pai piedozo [...] derramou no s por elles,

    mas tambm por muitos o seu sangue para me salvar; neste espero o meu remdio [...].

    Continuou sua confisso pblica queixando-se do dano que lhe causaram as ms

    companhias, aconselhando a todas as gentes para fugirem delas, e pediu perdo por no ter

    seguido os virtuosos conselhos que sua madrinha lhe dera e terminou fazendo as mais

    ternas splicas a Deus para q se dignasse salvalo (sic). Aps confessar-se foi enforcado

    em meio comoo das gentes diante de suas exclamaes.

    Chorando muito aps presenciar o enforcamento de Luiz Gonzaga das Virgens e

    Veiga, Joo de Deus do Nascimento pede que frei Jos se aproxime para um fervoroso ato

    de contrio166. Segundo o carmelita descalo, minutos antes de ser enforcado, Joo de

    Deus despediu-se da vida dizendo ao inumervel povo que se encontrava naquela praa

    que

    165 Idem, p. 134.166 Idem, p. 135.

    76

  • Sigao a ley verdadeiro Deos, a Religiao Catolica he, a so e nicaverdadeira, e tudo o mais he engano; quando eu a seguia semduvida alguma vivia enao (sic) bem ainda qpobre, talvezindependente, porem depois qeu dei ouvidos a uns cadernos, a umVoltaire, a um Calvino, a um Rousseau, deixei o qnao devera e porisso vim parar a este lugar. Senhores quem quizer ser mau seja sopara si, e nao convoque os mais. [...] Liberdade e igualdade he istoapontando p. a forca167.

    Ainda de acordo com o frei

    [...] dizia Joo de Deus a todos q o ouviao e sendo chegado oltimo momento de sua vida, e emplorando de Deus misericrdia, epedindo socorro dos Sacerdotes; pedio tambm ao algoz q lhe desseuma boa morte. Ento antes que casse do patbulo, agitandosse(sic) at morrer, e gritando por Jesus Maria, chaio ultimamente dopatbulo, acabando a ultima de suas palavras na vida dizendo:misericrdia, misericrdia...168.

    execuo dos outros dois rus seguiu-se o esquartejamento dos corpos. A cabea

    de Lucas Dantas foi degolada, assim como as dos outros trs, e depois espetada em um

    poste no Dique do Desterro. Os outros pedaos foram expostos no caminho do Largo de

    So Francisco, onde Lucas Dantas residiu. Em frente ao mesmo local, foi colocada a cabea

    de Manuel Faustino dos Santos Lira, por ser ele freqentador assduo daquela residncia e

    por no ter endereo fixo. A cabea de Joo de Deus foi exposta na rua Direita do Palcio,

    atual rua Chile; suas pernas, os braos e o tronco foram espalhados pelas ruas do Comrcio,

    local de grande movimento da Cidade Baixa. No patbulo ficaram espetadas as cabeas e as

    mos de Luiz Gonzaga, por ter sido considerado pelas autoridades rgias o responsvel

    pelos pasquins que anunciaram populao a projectada revoluo.

    No dia seguinte ao mrbido espetculo, os corpos expostos ao calor davam sinais de

    rpida decomposio e atraam uma revoada de urubus que enchiam a cidade de emanaes

    pestilentas. No dia 11 de novembro de 1799, o ar da cidade era irrespirvel; a podrido

    invadira todas as casas e a populao temia por sua sade. Diante do precrio estado

    sanitrio da cidade, algumas autoridades e irmos da Misericrdia intervieram junto ao

    governador d. Fernando Jos de Portugal e Castro, solicitando a retirada dos corpos mortos

    167 Ibidem.168 Outra Relao ..., p. 137.

    77

  • e expostos a mando da justia para o exemplo dos povos. O pedido foi deferido, mas s na

    madrugada do dia 15 que as autoridades recolheram os despojos e enterram em local ermo

    at hoje desconhecido.

    Como quase todos os rus em seus momentos finais de vida clamaram perdo

    Virgem Maria, o religioso cria que o seu relato perpetuasse na memria do povo o prodgio

    dos desvalidos rus e a misericrdia divina que, em terra, os homens no foram capazes de

    lhes conceder. Entretanto, no final da narrativa, frei Jos questiona a pena imputada aos

    quatro rus, mas o faz afirmando que o milagre da misericrdia divina s foi possvel

    porque Deus, que tudo v, sabia que os quatro homens enforcados em praa pblica no

    foram os nicos que cometeram o delito rgio, provando se lhes como diz a Sentena de

    terem sido cabeas de uma sublevao q nesta mesma Cidade se intentara169. Assim,

    depois q foro justiados os ditos padecentes; aos quaes assisti dentro do Oratrio de

    dia, e de noite.... Afirma finalmente que

    ao segundo q eu tenho como de F, qsendo tantos os culpados nomesmo delito, e q se estes 4 por desvalidos paragao com penaultima Deus q olha os pequeninos [rus], e abraa estes[autoridades] q olham do desprezo; permitio q a mizericordia sefizesse 170.

    Oscilando entre a luz da misericrdia divina e as trevas das tentaes do demnio,

    exteriorizadas tanto na tentativa de suicdio dos rus quanto na rejeio dos preceitos da

    religio catlica, por darem ouvidos a um Voltaire, Rousseau e Calvino, frei Jos do

    Monte Carmelo relata os momentos finais dos rus enforcados e esquartejados. Tratando-os

    por pequeninos, frei Jos parece sugerir que os rus foram tentados pelo demnio em

    funo de uma certa inocncia moral, que resultou em desobedincia e poderia levar

    revolta, caso essa no tivesse sido malograda. Apesar do carter laudatrio do texto,

    interessa reter no relato do carmelita descalo que a misericrdia divina surge como uma

    reao divina aos desvios dos pequeninos e condenao pena capital dos rus por

    parte do poder sendo tanto os culpados no mesmo delito.

    Nesse ponto em especial, parece tomar vulto no relato do carmelita descalo a

    misericrdia divina como redentora s paixes humanas em um contexto em que a verdade169 Idem. 136. Grifo meu.170 Ibidem. 137.

    78

  • moral passa a ser balizada e tensionada pelos ideais da Revoluo Francesa, Revoluo

    Haitiana e o liberalismo em curso171. Frei Jos do Monte Carmelo parece associar a revolta

    paixo no como o desejo que brota do sujeito, mas a paixo como algo que afeta, que se

    impem aos homens, que os cega, pondo-os fora de si e de sua natureza primitiva, que os

    torna loucos. No toa, a crtica elaborada pelo frei aparece dissimulada, teatralizada a

    partir do resgate do drama do enforcamento e esquartejamento dos quatro pequeninos. O

    resgate do drama dos rus, neste particular, paradigmtico da posio do carmelita

    descalo em relao s foras diametralmente opostas no final do sculo XVIII:

    razo/revelao; liberdade/despotismo; natureza/civilizao; moral/poltica; luzes/trevas.

    O perigo do desvio da natureza humana, a paixo como a possibilidade de

    corromper o tecido social, parece ser a espinha dorsal do relato laudatrio do frei, que se

    deixa arrebatar pelo contedo normativo da sociedade baiana do final do sculo XVIII,

    convertendo-a em punio e redeno divina. Uma das razes para que o frei tenha

    elaborado sua crtica nos limites do Estado Absolutista, ao que tudo indica, est relacionada

    com o papel desempenhado pelos padres das Ordens Terceiras junto administrao local e

    aos proprietrios de engenhos. Os carmelitas descalos ou tersios ocupavam posio de

    prestgio na Bahia do final do sculo XVIII. Em 1759, os carmelitas descalos eram

    proprietrios de 75 prdios na cidade de Salvador e viviam dos rendimentos de

    emprstimos aos proprietrios de engenhos e comerciantes172.

    Luciana Gandelman demonstra que a concesso de emprstimos a juros fez parte da

    movimentao de recursos de praticamente todas as atividades praticadas pelas entidades

    leigas das cidades portas do mar em Portugal e seus domnios. Para a autora, como no

    existiram bancos nos territrios ultramarinos americanos at 1808, as principais fontes de

    crdito disponveis eram as instituies religiosas. Durante muito tempo, a Misericrdia era

    a principal fornecedora de crdito na Bahia, porm a autora chama ateno para a

    proeminncia do papel desempenhado pelas Ordens Terceiras, no final do sculo XVIII. Do

    ponto de vista financeiro, alm das Ordens Terceiras serem grandes tomadoras de dinheiro,

    eram grandes credoras, de tal sorte que entre os seus muturios principais estavam os

    senhores de engenho que respondiam por 55% dos emprstimos tomados173. Depois, em

    relao aos cuidados da alma, alm das Ordens Terceiras admitirem mulheres, seus padres171 A respeito da inocncia moral ser projetada no presente pelos oprimidos como forma de contestao, lerReinhart Koselleck. Crtica e crise. Rio de Janeiro: EDUERJ/Contraponto, 1999, p. 19. 172 Waldemar Mattos, op.cit.

    79

  • se revelaram mais permeveis incluso das camadas mdias da populao nos

    recolhimentos, aumentando seus prestgios junto s elites locais e, inegavelmente, aos

    setores mdio e baixo da sociedade.

    O contato maior dos carmelitas descalos com as camadas mdias e baixas da

    populao da Bahia, por um lado, e o prestgio desses padres junto s elites locais, por

    outro, talvez esteja relacionado com o fato de o prior dos carmelitas descalos ter sido

    escolhido pelos annimos republicanos como chefe do que viria a ser a Igreja na

    Repblica Bahinense174, ao mesmo tempo em que eles foram os padres chamados a

    acompanhar os momentos finais dos rus. Ainda que a proposio transcenda os limites

    desta pesquisa, cumpre retomar a afirmao sobre as Ordens Terceiras serem mais

    permeveis incluso dos populares e seu prestgio junto s elites locais, na tentativa de

    melhor elucidar o laudatrio relato de frei Jos do Monte Carmelo.

    Evaldo Cabral de Mello, ao versar sobre a briga dos nris175, demonstra o papel

    representado pelas ordens religiosas no cisma que aconteceu em Pernambuco, no final do

    sculo XVII, entre os padres do Oratrio. Na contenda, o autor chama ateno para o

    carter insurreto dos capuchos, ou franciscanos reformados, e os tersios, ou carmelitas

    descalos, como os principais promotores da agitao176. Os carmelitas descalos, porque

    gozavam de reduzida influncia nesse momento, aliaram-se aos franciscanos, pois, segundo

    o autor, eram a ordem hegemnica na capitania pelo nmero dos seus conventos, pela sua

    implantao rural, de que as demais religies careciam, e pela sua popularidade em todos

    os estratos sociais177. Evaldo Cabral de Mello v a aliana dos carmelitas descalos com

    os franciscanos como uma relevante estratgia dos regulares na disputa pelo controle das

    misses e maior participao e influncia na administrao local178.

    173 Cf. Luciana Mendes Gandelman. Mulheres para um Imprio: rfs e caridade nos recolhimentosfemininos da Santa Casa da Misericrdia (Salvador, Rio de Janeiro e Porto sculo XVIII). Tese deDoutorado, IFCH/UNICAMP, 2005. Sobre as Ordens Terceiras, ler, especialmente, o captulo 2, pp. 85-165. 174 Cabe lembrar que local marcado para o encontro entre os partcipes da revolta na noite de 25 de agosto de1798 ficava nas cercanias do convento de Santa Clara do Desterro, das carmelitas descalas. Alm do mais, adocumentao at agora analisada indica que as mulheres dos rus enforcados em 1799 foram recolhidas noconvento de Santa Clara do Desterro. 175 O termo Nri refere-se Confederao do Oratrio de So Filipe Nri. Veja-se: Evaldo Cabral de Mello. Afronda dos mazombos. Nobres contra mascates, 1666-1715. So Paulo: Editora 34, 2a. edio revista, 2003.Ler, especialmente, o captulo 3 Clericus clerico lupissimus, pp. 111-139. Cf. a publicao deste captulocom o ttulo A Briga dos Neris, Revista de Estudos Avanados, vol. 8, n. 20, So Paulo, 1994, pp. 153-181.Este artigo est disponibilizado em PDF. no stio: www.scielo.br 176 Evaldo Cabral de Mello, Clericus, op.cit, p. 134. 177 Idem.178 Ibidem.

    80

  • Depois, a atuao dos carmelitas descalos junto aos populares como estratgia para

    quebrar a hegemonia dos jesutas, substituindo-os na gesto da mo-de-obra indgena, e

    sobrepondo os seus prprios interesses econmicos novamente atestada por ocasio da

    Revolta de Beckman, no Maranho, em 1684. Mrcia de Souza e Mello afirma que a

    escassez de mo-de-obra escrava para as atividades econmicas da regio, em funo da

    proibio do cativeiro dos ndios pela lei de 1o. de abril de 1680, foi a principal razo para a

    deflagrao do levante. Segundo a autora, a revolta dos moradores contou com o apoio dos

    religiosos franciscanos, carmelitas e seculares diocesanos, que inflamavam os nimos dos

    colonos contra os jesutas, contribuindo, assim, para que esses fossem expulsos da capitania

    no curso da revolta179. Aps a participao das contendas em Pernambuco, os carmelitas

    ganharam prestgio junto Coroa por colaborarem efetivamente no processo de conquista

    das terras na Amaznia, devidamente consolidado no sculo XVIII, com as aldeias

    missionrias dos religiosos carmelitas portugueses ocupando boa parte do curso do rio

    Solimes180.

    No obstante, o fato que as aes e estratgias polticas dos carmelitas descalos

    nos conflitos supra citados181 parece ter maculado o prestgio dos padres junto

    administrao rgia. Em relao s elites locais a situao parece ter sido outra, pois tudo

    leva a crer que em 1798, em Salvador, os carmelitas tinham estreitas relaes com o grupo

    de notveis que a administrao local, como se viu, deliberadamente deixou margem das

    investigaes acerca dos protagonistas da revolta de 1798. Depois, cabe considerar a

    argcia das autoridades rgias ao designarem o prior dos carmelitas descalos,

    nomeadamente frei Jos do Monte Carmelo, para acompanhar os momentos finais de vida

    dos rus. Como se viu, frei Jos foi escolhido pelos partcipes da revolta como o chefe da

    Igreja da Repblica Bahienense, portanto, nesse caso, caberia saber em que medida os

    179 Mrcia Eliane Alves de Souza e Mello. As juntas das misses ultramarinas na Amrica Portuguesa (1681-1757). Anais da V Jornada Setecentista. Texto disponibilizado em pdf e acessado em 13/06/2006 no stio:www.humanas.ufpr.br/departamentos/dehis 180 Ler: Flavio dos Santos Gomes. Nas fronteiras da liberdade: mocambos, fugitivos e protesto escravo naAmaznia Colonial. In: Anais do Arquivo Pblico do Par, Belm: Secretaria de Estado da Cultura/ArquivoPblico do Estado do Par, vol. 2, t. 1, 1996, pp. 125-152. 181 Cabe lembrar, a esse respeito, as impresses de Louis Franois Tollenare sobre o hbitos de os carmelitasdescalos darem jantares nos quais se discutiam as conseqncias da Revoluo Francesa, em Olinda, um anoantes da Revoluo de 1817. A obra de Joo Jos Reis tambm demonstra a efetiva participao doscarmelitas descalos no episdio conhecido como Cemiterada. A esse respeito, ler, respectivamente, LouisFranois Tollenare. Notas Dominicais. Traduo de Alfredo de Carvalho, Salvador: Progresso, 1956; JooJos Reis & Flvio Gomes. Liberdade por um fio. Histria dos quilombos no Brasil. So Paulo: Cia. dasLetras, 1996.

    81

  • carmelitas descalos participaram ou no dos acontecimentos? Seria uma estratgia poltica

    dos padres para obterem maior participao na administrao local? Quais os termos das

    relaes entre os carmelitas descalos e o grupo de notveis proprietrios dos escravos

    envolvidos na revolta?

    Seja como for, o relato de frei Jos do Monte Carmelo, em 1799, alm de sugerir

    outras possibilidades de anlise, inclusive a partir de sua prpria atuao junto aos homens

    livres e pobres, uma crtica ao desfecho da sentena proferida pelas autoridades locais

    sobre os acontecimentos deflagrados no ano anterior. Luiz Carlos Villalta, ao analisar o

    romance Tereza Filsofa, cuja autoria atribuda por alguns estudiosos ao Marqus

    dArgens, demonstra o modo pelo qual a discusso sobre a religio e a ordem poltica

    perpassam os argumentos do narrador de Legislateur Moderne. A obra em questo um

    libelo a favor dos postulados das luzes, especialmente a tolerncia religiosa, da defesa

    da ordem monrquica, censura aos clrigos seculares e, de algum modo estrutura

    eclesistica, sem, contudo, abdicar da necessidade da religio, vista como freio s paixes

    entre o vulgo182.

    Ocorre que, como se viu, frei Jos do Monte Carmelo fez questo de mostrar o

    arrependimento de um dos rus, momentos antes de ser enforcado, por ter dado ouvidos a

    Voltaire, Rousseau e Calvino pensadores, segundo Villalta, que defendiam a religio

    como um freio s paixes do vulgo. O carmelita descalo, todavia, encaminha seu relato em

    outra direo ao demonstrar a religio, a misericrdia divina, como a nica redentora das

    paixes do vulgo. A esse respeito, tudo leva a crer que Frei Jos do Monte Carmelo tenha

    formulado um relato de certa forma crtico em relao atuao duvidosa das autoridades

    locais no encaminhamento das investigaes porque, na conjuntura poltica do final do

    sculo XVIII, nas vrias partes do Imprio, como demonstra Lus de Oliveira Ramos, a

    Coroa portuguesa interfere cada vez mais nos assuntos eclesisticos, seja para melhor os

    controlar, seja para obter novas fontes de receita183. Nesse processo, o autor afirma que os

    padres das ordens terceiras, em especial os beneditinos e os carmelitas descalos, foram

    objetos de duras crticas por parte dos filsofos das luzes porque alm de alguns deles terem

    182 Luiz Carlos Villalta. Luzes e Colonizao em Le lgislateur moderne ou les mmoires du Chevalier deMeillcourt (1739), do Marqus dArgens. Texto acessado em 18/11/2006 no stio:www.realgabinete.com.br/coloquio 183Cf. Lus A de Oliveira Ramos. Problemas e virtualidades da Congregao de So Bento nos fins do sculoXVIII. Revista da Faculdade de Letras Histria. Porto, 2a. Srie, vol. 1, 1984, pp. 159-186.

    82

  • se mostrado relutantes no embate entre a mstica e o racionalismo, eles primavam pela

    manuteno dos privilgios que gozavam at ento dotaes rgias e auxlios pecunirios

    -, e lhes garantiam lugar de destaque nas vrias partes do Imprio.

    Neste particular, cumpre destacar a maneira bastante curiosa pela qual o carmelita

    descalo elaborou a sua narrativa, chamando ateno para a iniquidade do poder local em

    relao ao enforcamento dos quatro rus na Praa da Piedade. A curiosa maneira de frei

    Jos do Monte Carmelo encarar o problema acerca da punio exemplar na Conjurao

    Baiana de 1798 faz parte de uma perspectiva na qual o religioso e o poltico passam a ser

    partes de um todo e, portanto, passvel tanto de apreciao como de crtica, ainda que muito

    conservadora. O relato do carmelita descalo bastante ilustrativo desse processo em

    particular e de um outro mais amplo no qual a especificidade colonial passa a ser a via pela

    qual se comea a pensar e propor questes acerca do Imprio Portugus nas ltimas dcadas

    do sculo XVIII. O que importa reter dessa conjuntura, por ora, que as crticas formuladas

    a partir das especificidades nas vrias partes do Imprio no s eram aceitas como

    desejveis.

    Isso porque, com a queda do Marqus de Pombal e a ascenso de d. Rodrigo de

    Sousa Coutinho frente do Ministrio da Marinha e dos Domnios do Ultramar, no perodo

    mariano, os intelectuais brasileiros184, a maioria egressa da Academia dos Renascidos e

    formados nos quadros da Universidade de Coimbra reformada, foram chamados a colaborar

    na dinamizao da administrao da colnia como scios correspondentes das academias

    portuguesas para reconhecer as potencialidades econmicas existentes nos domnios

    ultramarinos. Fortaleceu-se, assim, nos dois lados do Atlntico, a percepo da cultura

    como um instrumento estratgico de ao do Estado, como, alis, indicam as manifestaes

    de alguns membros por ocasio da criao da Academia Real de Cincias, fundada em

    Lisboa em 1779185. A fundao da Academia Portuguesa foi o que mais fielmente exprimiu

    o sentido poltico do reformismo luso-brasileiro do perodo mariano, cuja principal herana

    184 Cabe ressaltar que a maioria dos intelectuais brasileiros, aps as reformas pombalinas, estudou naUniversidade de Coimbra reformada (1772). Neste sentido, a Universidade passou a ser o principalinstrumento de homogeneizao para o Imprio Portugus em termos de difuso de valores e padres decomportamento dos indivduos que pertenciam elite e que almejavam a ocupar os cargos da administrao.Cf. Luiz Cabral Moncada. Um iluminista portugus do sculo XVIII: Luis Antonio Verney. So Paulo: Saraiva& Cia. 1941, passim. 185 Ler, especialmente, a introduo de Jos Lus Cardoso. Memrias econmicas da Academia Real dasCincias de Lisboa para o adiantamento da agricultura, das artes, e da industria em Portugal, e suasconquistas (1789-1815). Lisboa: Banco de Portugal, 1990.

    83

  • do consulado pombalino foi o pragmatismo cientificista reputado como grau mximo de

    validao poltica. A orientao da agremiao consistia basicamente em formar homens

    pblicos, tecnicamente preparados e politicamente comprometidos com os interesses da

    Monarquia, capazes de promoverem a retomada da prosperidade econmica do Reino186.

    Definia-se, com efeito, uma peculiar associao entre saber e poder, que imprimiria

    o tom do reformismo do final do sculo XVIII, e serviria para que o Estado Absolutista

    buscasse estrategicamente resolues para as tenses nas vrias partes do Imprio e

    assegurasse em novas bases os laos de sujeio e explorao econmica187. Tal fenmeno,

    entretanto, porque era extensivo a todos os domnios portugueses, envolvia os agentes

    ultramarinos em toda uma rede de relaes pessoais, de parentesco, de amizades e

    interesses locais, que, por um lado, esgarava gradualmente a ambigidade inerente

    burocratizao do Estado portugus, e, por outro, propiciava e estimulava o aparecimento

    de inteligncias individuais, vislumbrando maior participao poltica na administrao

    mariana. 188.

    O intercmbio cultural entre a intelectualidade dos domnios portugueses, contudo,

    foi profundamente abalado pelas notcias da Revoluo que ocorria em Frana. Cientes de

    que os revolucionrios questionavam, entre outras coisas, o direito divino e hereditrio da

    Monarquia francesa, instituindo o divrcio entre religio e Estado, rapidamente

    desencadeou-se, nas vrias partes do Imprio, uma onda de propaganda financiada pela

    monarquia lusa contra os abominveis princpios franceses. O Imprio portugus, a partir

    do violento aparato repressivo do implacvel Intendente da Polcia Pina Manique189, voltou-

    se contra todos os simpatizantes das idias revolucionrias, escandalosas, libertinas e

    sediciosas190, que, segundo Lcia Pereira das Neves, representavam grande perigo para o

    poder rgio portugus, uma vez que confundiam a liberdade e felicidade das naes com a

    186 Veja-se Ana Rosa Clocet da Silva. Minas no contexto da acomodao. As relaes de poder, asprticas polticas e as tessituras das identidades. Revista Aulas, Dossi Identidades Nacionais, n. 2,outubro/novembro, 2006. 187 Cf. Oswaldo Munteal Filho. A Academia Real das Cincias de Lisboa e o Imprio Colonial Ultramarino(1779-1808). In: Jnia Ferreira Furtado (Org.). Dilogos Ocenicos. Minas Gerais e as novas abordagenspara uma histria do Imprio Ultramarino Portugus. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2001, pp. 483-518.188 Stuart Schwartz. Burocracia e Sociedade no Brasil Colonial. A Suprema Corte da Bahia e seus juzes:1609-1751. So Paulo: Perspectiva, 1979. 189 Lucia M. Bastos Pereira Neves & Tnia M. Bessone da C. Ferreira. O medo dos abominveis princpiosfranceses: a censura dos livros nos incios do sculo XIX no Brasil. Acervo: Rio de Janeiro, n. 4., pp. 113-119.190 Carta de Sua Majestade Fidelssima d. Maria I d. Fernando Jos de Portugal e Castro, governador-generalda Bahia. In: ADCA. Op. cit., vol. 1, pp. 71-72.

    84

  • licena e mpetos grosseiros dos ignorantes, desassossegavam o povo rude, perturbavam a

    paz pblica e procuravam a runa dos governos191. Foi nessa conjuntura que Jos

    Venncio de Seixas saiu de Lisboa para assumir seu cargo na administrao de d. Fernando

    Jos de Portugal e Castro e escreveu a respeito da revolta baiana de 1798.

    2. 1. 2 Jos Venncio de Seixas.

    Assim que chegou na Salvador, em 1798, depois de tomar posse do cargo de

    provedor da Casa da Moeda, Jos Venncio de Seixas escreveu uma carta a d. Rodrigo de

    Souza Coutinho, Secretrio de Estado da Marinha Ultramar entre 1796 e 1801, relatando

    sua chegada na cidade e o que ali encontrara192. As impresses do provedor sobre a cidade

    de Salvador muito semelhante de outros contemporneos seus. Salvador naqueles anos

    finais do sculo XVIII era uma cidade abarrotada de gente. Em suas ruas e ladeiras

    circulavam ociosos urbanos de toda sorte: homens livres, libertos e escravos; brancos,

    mulatos e pretos; europeus, brasileiros ou filhos da terra e africanos193.

    Muitas das gentes, especialmente os negros mestios ou mulatos, eram trabalhadores

    manuais empregados nos mais variados e menos prestigiados ofcios. Grande parte do

    contingente do povo mecnico, a partir de uma srie de reformas iniciadas por Pombal,

    foi incorporada progressivamente fora militar, de tal sorte que todos os brancos sem

    nenhum ofcio, mulatos forros e negros libertos tinham praa nos diversos corpos, tanto da

    tropa de linha, como das milcias urbanas194. Diante do recrutamento das gentes, muitas

    vezes fora, com castigo fsico, fome, ausncia de pagamento de soldo, Jos Venncio 191 Op. cit., Intelectuais brasileiros, p. 14.192 Cf. Carta de Jos Venncio de Seixas para D. Rodrigo de Souza Coutinho, em que lhe participa terchegado Bahia e ter tomado a posse do logar de Provedor da Casa da Moeda, referindo-se a diversosassumptos de servio pblico e especialmente descoberta de uma associao sediciosa de mulatos. Bahia, 20de outubro de 1798. AHU_CU_, BAA, CA_doc. 18433.193 Idem. 194 Miguel Antnio de Melo, Conde de Mura. Informaam sobre a Bahia. Agradeo a Nelson MendesCantarino a indicao e cpia do documento. Em forma de carta, o documento foi escrito em 30 de maro de1797, embora haja esquerda uma observao de d. Rodrigo de Souza Coutinho remeteu-se ao governadorda Bahia um extrato desta carta, sem o nome de quem a escreveu, em setembro de 1798. Apesar da data, noh nenhuma referncia revolta baiana de 1798. O autor do manuscrito, todavia, descreve minuciosamente asituao da Salvador da poca decorrente do ele chama de frouxido do governador, d. Fernando Jos dePortugal e Castro. H uma cpia do documento na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, Diviso deManuscritos, I-31, 21, 34, doc. 1 e 2. H uma cpia microfilmada cuja indicao AHU_CU_Baa, caixa 205,doc. 14690. Guilherme Pereira das Neves afirma a existncia de outra cpia da carta no IHGB, lata 358, pasta28 e traz a data de 30 de maro de 1797. Cf. Guilherme Pereira das Neves. Em busca de um ilustrado: MiguelAntnio de Melo (1766-1836). Acessado em 10 de janeiro de 2007 no stio: www.realgabinete.com.br

    85

  • mais um dos que poca assemelham o recrutamento militar escravido, condio da qual

    estavam muito prximos.

    No toa, o provedor da Casa da Moeda via nessa semelhana a razo para alguns

    dos tumultos e motins que encontrara na Salvador de 1798. Todavia, como funcionrio

    rgio absolutamente afinado com o projeto mariano de maior racionalizao administrativa,

    mormente a administrao da justia, o provedor, assim como outros funcionrios rgios,

    diagnosticou em sua carta o estado das coisas, e, em seguida, formulou solues que ele

    cria exeqveis para a manuteno dos laos de sujeio dos vassalos Coroa Portuguesa195.

    Para Jos Venncio, os tumultos dos milicianos das tropas urbanas eram decorrentes das

    polticas adotadas pelo Marqus de Pombal, especialmente no que se refere ao recrutamento

    de pardos, mulatos e pretos, pois

    a Carta Rgia de 1766196 foi segundo me parece hum erro depoltica em administrao de colnias, porque mandando formarcorpos milicianos desta qualidade de indivduos [pardos, mulatos enegros], se viram condecorados com postos de coronis e outrossimilhantes, com que esta gente naturalmente persuadida, adiantouconsideravelmente as suas idias vaidosas, o que junto ao esprito dosculo, os faz romper em toda a qualidade de excessos197.

    Jos Venncio afirma que um desses excessos, talvez o maior deles, foi o perigo em

    que estiveram os habitantes da Salvador com a descoberta do que as autoridades locais

    reputaram de Sedio dos mulatos e para o provedor foi

    huma associao sediciosa de mulatos, que no podia deixar de terperniciosas conseqncias, sem embargo de ser projectada porpessoas insignificantes; porque para se fortificarem lhes bastavam

    195 Sobre a poltica d. Rodrigo de Sousa Coutinho, ler, especialmente, Andre Mansuy Diniz Silva. D. Rodrigode Sousa Coutinho. Textos polticos, econmicos e financeiros (1783-1811). Lisboa: Banco de Portugal,1993. 196 Jos Venncio de Seixas refere-se aos desdobramentos da carta rgia de 22 de maro de 1766, do rei D.Jos I, que dava bases para a reorganizao das tropas de segunda e terceiras linhas. Uma das principaisinstrues da carta rgia de 1766, foi a instituio s milcias de cor de todas as honras, graas, franquezas,liberdades, privilgios e isenes que gozavam os capites da tropas pagas, normalmente composta porbrancos e portugueses. Kalina Vanderlei Paiva da Silva afirma que na prtica difcil acreditar que osmilicianos chegassem a ter realmente os mesmo privilgios e honras dos oficiais portugueses, mas com ainstitucionalizao das milcias de cor, a Coroa cria a expectativa de posse dos ditos privilgios, alm depermitir, involuntariamente, formas de ascenso para negros e pardos militares. Cf. Kalina Vanderlei Paivada Silva. Nas solides vastas e assustadoras: os pobres do acar e a conquista do serto de Pernambuconos sculos XVII e XVIII. Tese de Doutoramento, UFPE, Recife, 2003, p. 183. Ler, especialmente o item 2.2Henriques e Pardos: as milcias de cor, pp. 157-185.197 Jos Venncio, cit., grifo meu.

    86

  • os escravos domsticos inimigos irreconciliveis de seus senhores,cujo jugo por mais leve que seja lhes he insupperavel198.

    A carta de Jos Venncio para d. Rodrigo de Souza Coutinho foi escrita em 20 de

    outubro de 1798, momento em que as autoridades do Tribunal da Relao da Bahia estavam

    tomando os depoimentos e as assentadas das devassas instauradas a mando de d. Fernando

    Jos de Portugal para se descobrir o autor dos pasquins sediciosos e os partcipes da

    projetada revoluo. Nesse perodo, como se viu no captulo anterior, as autoridades

    interrogavam apenas os alfaiates e os milicianos denunciados. Nenhum escravo domstico

    ainda tinha sido preso a mando de seus senhores para prestarem esclarecimentos. Portanto,

    Jos Venncio no menciona a participao desses escravos na revolta de 1798, pois

    considera a participao dos cativos em tumultos e motins como fator de extremo

    desequilbrio para o poder colonial. Como ele os tm como inimigos irreconciliveis de

    seus senhores, dado o jugo qual estavam submetidos, Jos Venncio sugere ao seu

    missivista que os escravos domsticos tinham contatos com as idias que circulavam sobre

    as revoltas escravas, poca em curso, ou mesmo dos acontecimentos sobre a Revoluo

    Francesa. A esse respeito Jos Venncio afirma que

    h alguns annos se tem ido formando na Villa da Cachoeira humQuilombo de negros fugidos e ultimamente se forma outro aindamais perigoso a 5 ou 6 legoas de distancia desta cidade. A deserodos escravos tem sido agora mais que nunca excessiva e V. Exa. noignora o que tem feito os negros mares nas colnias francezas ehollandezas. O mesmo se pode recear vindo os Quilombos a crescer,se no forem destrudos antes que tomem consistncia....

    O provedor, com efeito, liga a associao sediciosa de mulatos formao de

    quilombos e s revoltas escravas de outras colnias. A consistncia para uma revolta de

    perniciosas conseqncias seria, portanto, justamente a participao do contingente

    formado pelos escravos e milicianos das tropas urbanas, que conviviam nas ruas da cidade

    de Salvador e almejavam liberdade e ascenso na carreira militar, respectivamente. Desta

    feita, Jos Venncio sugere o retorno situao em que as tropas urbanas e as ordenanas

    se encontravam antes da reforma de 1766, pois 198 Ibidem.

    87

  • nesta occasio [antes de 1766] que todas as ordens antigasdirigidas ao Brazil a respeito de mulatos, os fazia conservar em humcerto abatimento, prohibindo-lhes a entrada em qualquer officiopublico ou posto militar, inhibio que era ampliada ainda mesmoaos brancos casados com mulatas199.

    Ao relembrar a hierarquia militar na colnia antes de 1776 e vincular a associao

    sediciosa de mulatos, em 1798, revolta escrava provavelmente de So Domingos, iniciada

    em 1791, Jos Venncio encaminha sua carta alertando as autoridades para a necessidade

    de um recrudescimento poltico quanto presena de pardos e mulatos no corpo de milcias

    das tropas urbanas e aos critrios de ascenso social. Mas, ao mesmo tempo, no parece

    imprudente supor que Jos Venncio ao diagnosticar as conseqncias das brechas abertas

    pelas reformas pombalinas sugere haver problemas na administrao do governador d.

    Fernando Jos de Portugal e Castro na conduo dos negcios do reino em Salvador200.

    A esse respeito, digo de nota o fato de que durante os anos de 1797-98, vrias

    denncias, a maioria apcrifas201, chegaram ao Reino dando conta dos desmandos

    cometidos pelos funcionrios da administrao do governador d. Fernando Jos de Portugal

    e Castro. Nessas cartas, o que mais causava revolta aos denunciantes, para alm da

    convulso social da cidade freqentemente denunciada, e, justamente por isso, era a

    frouxido com a qual d. Fernando conduzia os interesses metropolitanos em Salvador e a

    contemporizao em relao ausncia de limpeza de mos de alguns dos funcionrios

    da sua administrao, especialmente os Ministros do Tribunal da Relao da Bahia202. O

    governador responde s denncias reafirmando o seu compromisso com a administrao

    metropolitana, mas, no sem ironia, lembra d. Rodrigo que ele continuava seguindo

    [...] o sistema de mandar ouvir aos homens pblicos nosrequerimentos em que as partes se queixam deles e seria coisa

    199 Ibidem. Cabe ressaltar que a partir de Pombal o casamento entre brancos e negros, ou brancos e ndios nodesignava nenhum impeditivo para ascender na carreira burocrtica ou na militar, embora na prtica a situaofosse outra. Cf. ris Kantor, op.cit; Cf. Kalina Vanderlei Paiva da Silva, op.cit.200 Jos Venncio de Seixas, cit. 201 Algumas denncias eram reenviadas para que o denunciado tomasse cincia sem o nome do denunciante. o caso, por exemplo, de uma extensa carta de D. Fernando Jos de Portugal e Castro a d. Rodrigo de SouzaCoutinho na qual o governador respondeu as denncias sobre o seu governo. Afirma o governador, em 20 dejaneiro de 1799 ... sendo bem natural que V. Excia. Seja sabedor do autor delas [denncias], se que noocultaram os seus nomes, como s vezes o praticam como de pssimas conseqncias, no s porque destemodo soltam a lngua mais atrevida e sem rebuo, dando muitas vezes lugar calnia, mas tambm porquedesta sorte fica impune a maledicncia que devera ser castigada quando os fatos ou se no verificam, ou soconcebidos em termos insolentes e insultantes.... Carta de d. Fernando Jos de Portugal e Castro para d.Rodrigo de Sousa Coutinho. Citada integralmente por Brs do Amaral na obra de Lus dos Santos Vilhena.Notcias Soteropolitanas e Braslicas. Salvador, Itapu, 1969, vol. 2, p. 367. 202 Cf. As denncias e representaes acerca da administrao local tratadas no captulo I.

    88

  • estranha e de pssimas conseqncias queixar-se por exemplo osoldado ou o oficial do coronel do Regimento, o paisano doMagistrado, do Capito-Mor [...] no sei como se atreveram emuma das representaes [afirmar] que o corpo militar vivedesgostoso por eu mandar ouvir os chefes dos Regimentos quandoalguns indivduos se queixam deles; pois, alm de ser um absurdoobrar o contrrio, bem constante que em nenhum governo tem sidoa tropa desta Capitania mais atendida e promovida do que por mim,ou para melhor dizer por S. Majestade que se tem dignado aprovaras minhas propostas, havendo oficiais que tm obtido dois e trspostos203.

    As representaes eram muitas e d. Rodrigo de Sousa Coutinho por diversas vezes

    solicitou ao governador esclarecimentos mais circunstanciados a respeito dos desmandos na

    administrao da Capitania da Bahia. Conquanto as propostas do governador eram aceitas e

    apreciadas pela Coroa, d. Fernando Jos de Portugal e Castro manteve-se no governo at

    1801, para, em seguida, ser membro do Errio Rgio, no reino, e retornar ao Brasil como

    vice-rei de d. Joo VI204. Talvez seja em funo do prestgio de d. Fernando na burocracia

    mariana que Jos Venncio de Seixas no tenha elaborado uma crtica mais detalhada sobre

    a situao da administrao local da qual passou a ocupar importante cargo aps 1798.

    Jos Venncio encerra as suas consideraes acerca do que ele qualificou de

    associao sediciosa de mulatos afastando a possibilidade de nela ter havido a participao

    de homens de outros setores sociais. E antes de tratar em sua carta dos pormenores de seu

    cargo na Casa da Moeda, o provedor afirmou a d. Rodrigo que

    Foi Deus servido descobrir por hum modo bem singular205 a pontadesta meada, ao fim da qual julgo se tem chegado, sem que nella seache embaraada pessoa de estado decente. Creio que V. Exa.receber nesta occasio huma conta muito circunstanciada destecaso que ensina a desconfiar para o futuro206.

    A advertncia de Jos Venncio de Seixas a d. Rodrigo de Sousa Coutinho para as

    conseqncias de uma associao sediciosa de mulatos bastante simblica da poltica

    mariana de coibio de questionamentos e manifestaes sobre a idia de unio natural203 Vilhena, vol. 2, p. 371.204 Cf. Mariane Reisewitz, op.cit; Otvio Tarquno de Sousa. Histria dos fundadores do Imprio do Brasil.Rio de Janeiro: Jos Olympio, 1960. 205 O modo bem singular, como se viu no captulo anterior, foi o exame comparativo das letras de algumaspeties com as letras dos pasquins sediciosos, sugerido pelo ento Secretrio de Estado e Governo do BrasilJos Pires de Carvalho e Albuquerque. 206 Ibidem. Grifo meu.

    89

  • entre as partes do Imprio Portugus no final do sculo XVIII. O sucesso da poltica

    portuguesa, nesse perodo, dependia, entre outros fatores, do apoio na colnia de um corpo

    de funcionrios qualificados e afinados com a Coroa portuguesa. A arregimentao desses

    funcionrios, em sua maioria oriundos da Universidade de Coimbra, poltica

    metropolitana, ocorreu a partir de nomeaes para uma srie de cargos administrativos nas

    mais variadas partes do Imprio, como o caso de Jos Venncio de Seixas207.

    O provedor ao prestar contas sobre o estado das coisas na cidade de Salvador, em

    1798, sobre seu cargo e a situao que encontrara na Casa da Moeda, formula um

    diagnstico sobre a situao dos milicianos, critica as brechas abertas pelas reformas

    pombalinas no perodo da administrao de d. Fernando Jos de Portugal e Castro, e prope

    o recrudescimento nos critrios de ascenso aos cargos e honrarias para pardos, mulatos e

    pretos. Isso porque, nesse processo de arregimentao de letrados administrao, d.

    Rodrigo de Sousa Coutinho era sensvel ao princpio do mrito, ouvia as opinies e

    conselhos dos funcionrios rgios, assumindo, assim, o papel de protetor dessas carreiras na

    administrao colonial208. A carta de Jos Venncio de Seixas no foi a nica que dava

    conta da situao poltico-administrativa nas vrias partes do Imprio Portugus. Vrios

    funcionrios rgios, nesse perodo, elaboraram relatrios apreciados pela metrpole sobre a

    situao da colnia. Nesse processo, eventuais crticas poltica da Coroa, elaboradas nos

    limites do Estado Absolutista portugus, eram aceitas, pois se vislumbrava o bem comum

    do Imprio. nesse quadro de referncias que outro funcionrio rgio, ao escrever sobre a

    situao do Brasil, narrou em poucas linhas a Conjurao Baiana de 1798.

    2. 1. 3 Lus dos Santos Vilhena.

    Lus dos Santos Vilhena (1744-1814), animado pelo esprito e estilo literrio

    comuns poca209, escreve uma obra em forma de cartas, a que chamou de Recopilao de

    notcias soteropolitanas e braslicas210, dedicada e endereadas inicialmente ao Prncipe

    Regente, a quem chama de Filipono - aquele que aprecia o esforo do trabalho -, e, mais207 Veja-se Jos Carlos Chiaramonte. Pensamiento de la Ilustracin. Economia e sociedad iberoamericanasen el siglo XVIII. Caracas: Biblioteca Ayaucho, 1979. 208 Cf. Andre Mansuy, op.cit. 209 A obra de Lus Antonio Verney O verdadeiro mtodo de estudar, em 1746, teve a publicao doscaptulos divididos em dezesseis cartas, cada uma com um assunto e um destinatrio especfico. Cf. Moncada,op. cit.

    90

  • tarde, as ltimas trs cartas foram dedicadas ao Conde de Linhares, ministro de D. Joo VI,

    d. Rodrigo de Sousa Coutinho, a quem Vilhena chama de Patrifilo - amigo da Ptria -.

    Assinando com o pseudnimo Amador Verssimo de Aletia, ou aquele que ama a

    verdade em oposio ao erro211, Vilhena descreve o passado de vrias capitanias, mas das

    vinte e quatro cartas escritas, quinze tratam especificamente da Bahia, capitania na qual o

    cronista residiu desde que chegou do Reino, em 1787.

    O cronista nasceu em Lisboa, em 1744212. Foi militar durante dez anos, com

    exerccio no Regimento de Setbal. No tempo que lhe restava ocupou-se dos estudos das

    lnguas latina e grega. Dispensou-se do servio militar e requereu exame para exercer o

    ofcio de professor de uma das duas lnguas que dominava. Foi nomeado pela Real Mesa

    Censria como professor de latim em Alvito, cargo que no exerceu por motivo de doena.

    Em 1787, Lus dos Santos Vilhena foi nomeado para o Servio Real e mandado para

    Salvador como professor da cadeira de lngua grega213, em um momento em que mudanas

    sistemticas foram implantadas na rea educacional e nas formas de instruo.

    Embora no haja referncia em suas cartas a respeito dessas mudanas, impossvel

    pensar que um professor rgio no tenha tomado conhecimento do momento em que vivia,

    sobretudo ignorar a implantao de reformas no mbito educacional iniciadas no consulado

    pombalino e mantidas no reinado mariano sob a pena de d. Rodrigo de Sousa Coutinho. As

    reformas educacionais pombalinas instituram as aulas rgias de latim, grego, retrica e

    filosofia, alm da instruo primria e secundria com aulas de ler, escrever e contar, tanto

    em Lisboa como nos domnios coloniais. Instituiu-se, para tanto, o subsdio literrio cujo

    objetivo era fomentar materialmente o sistema de ensino. Nessa conjuntura Vilhena comea

    a lecionar grego em Salvador.

    210 Cf. Leopoldo Collor Jobim. Luis dos Santos Vilhena e o pensamento iluminista no Brasil. Porto Alegre:PUC/RS, Dissertao de Mestrado, 1981. A obra de Lus dos Santos Vilhena ficou indita at o incio dosculo XX, quando foi publicada por Braz do Amaral, a quem se atribui a descoberta desse tesouro naDiviso de Manuscritos da Biblioteca Nacional. Braz do Amaral quem nos informa sobre a originalidade dotexto, cuja grafia comparou com outros documentos de Vilhena e a aquisio das cartas em Lisboa,encadernadas em sete volumes pelo colecionador Jos Carlos Rodrigues. Tais manuscritos foram utilizadospara a edio de 1923, e tambm para a ltima, em 1963, organizada por Edison Carneiro, publicada emSalvador pela Editora Itapu, com o ttulo A Bahia no sculo XVIII.211 Cf. F. E. Peters. Termos filosficos gregos: um lxico histrico. Lisboa: Fundao Calouste Gulbenkian,1974, 2a. edio, traduo de Beatriz Rodrigues Barbosa.212 Cf. Leopoldo Collor Jobim, op.cit., especialmente, captulo I. 213 ANTT Chancelaria de D. Maria I, Livro 29, folhas 288 e 288 v.

    91

  • Em vrios momentos de suas cartas o cronista afirma que a relao dos professores

    rgios com as autoridades estava longe de ser tranqila, pois vrias representaes

    chegavam em Lisboa denunciando desmandos na Real Fazenda e o atraso no pagamento

    dos professores rgios214. Fatos denunciados que, como se viu, causaram indignao ao

    governador, pois d. Fernando afirma, ao responder mais uma denncia, que a sobredita

    Reprezentao he inteiramente falta de verdade [...] pelo que toca ao motivo do

    atrazamento dos pagamentos dos Professores [...]215.

    Lus dos Santos Vilhena nunca se conformou com o desprestgio com o qual a

    administrao local tratava os funcionrios do ensino pblico. Para ele, ocupar alguns

    cargos do servio pblico na cidade de Salvador de finais do sculo XVIII significava se

    equiparar aos homens de pouca relevncia,

    homens livres da capitania que ho de ser soldados, negociantes,escrives, ou escreventes, oficiais em algum dos tribunais...[ocuparo]alguma outra repartio pblica que no possa ser das reparties dosnegros216.

    Alm disso, para o cronista, a Junta da Real Fazenda - rgo responsvel pelo

    recebimento das Cmaras da coleta do subsdio literrio para em seguida pagar todos os

    professores -, padecia dos vcios decorrentes de um seleto grupo que Vilhena denominou de

    corporao dos enteados217. Os desmandos da Junta Real da Fazenda e dos Comandantes

    das Ordenanas foram responsveis pela desordem em relao s aulas rgias, indigncia

    com a qual alguns professores estavam submetidos, por serem obrigados a apresentar uma

    atestao para o recebimento de seus provimentos, e a forma pela qual os alunos eram

    recrutados para o servio militar218. Nessas circunstncias, inevitavelmente Vilhena associa

    a queda de seus provimentos substituio das patentes dos agregados que havia nos

    corpos de milcias, pois parte dos provimentos do subsdio literrio foi usado para a despesa

    com fardas e patentes que, a seu ver, para nada lhes ficava servindo.

    Vilhena conta que na cidade de Salvador havia uma verdadeira averso corporao

    de professores e atribui ao recrutamento dos estudantes a causa para tamanho descaso, pois

    os homens mais graduados das tropas urbanas invadiam as Aulas Rgias e arrancavam214 BN Sesso de manuscritos, doc. n. 140.215 Idem.216 Lus dos Santos Vilhena. Notcias Soteropolitanas e Braslicas. Salvador: Itapu, 1969. vol. 1, p. 138.217 Op. cit. pp. 282. Grifo meu. 218 Vilhena, op. cit. pp. 278-279.

    92

  • delas, para fazer soldados, os estudantes mais hbeis e aplicados vspera de mostrarem

    em exames pblicos o fruto de seu trabalho219. Assim, o cronista via a sua profisso de

    professor ser ameaada diante dos recursos destinados corporao e a forma de

    recrutamento dos estudantes, pois afirma que na cidade do Salvador, por volta de 1798-

    1799, havia quarenta e trs estudantes que freqentavam as aulas, mas logo que surgia a

    notcia de se fazer recrutas, s ficavam nelas poucos meninos 220.

    As cartas de Vilhena foram escritas no perodo em que d. Fernando Jos de Portugal

    e Castro era governador da capitania da Bahia e por ocasio da descrio dos seus feitos no

    lhe poupa elogios, mas, paradoxalmente, ironiza a brandura de nimo e o carter

    contemporizador do governador como causa para a desordem da administrao local221. Os

    defeitos do governador, segundo Vilhena, eram atenuados pelos atos maus dos que lhe

    aconselham. Tanto mais que o cronista afirma que todas as obras pblicas iniciadas pelo

    governo anterior foram cessadas para realizao de algumas promoes nos mais variados

    postos administrativos, concorrendo para que algumas pessoas fundassem suas fortunas a

    partir de ento.

    por ocasio dos relatos sobre o governo de d. Fernando Jos de Portugal e Castro

    que Vilhena trata em poucas linhas sobre o que as autoridades rgias reputaram de Sedio

    dos Mulatos e Jos Venncio de Seixas de Associao sediciosa de mulatos. Para o

    cronista os eventos ocorridos na Salvador de 1798 relacionam-se convulso social

    causada por parte do corpo da tropa de milcias em decorrncia da desordem administrativa,

    sobretudo, pelos desmandos que alguns funcionrios rgios praticavam. Para Vilhena,

    [...] o corpo das tropas igualmente saiu dos limites da razo, falo dossoldados, por se verem livres da terra da Piedade, e lazareto a quemtinha mais respeito que a Angola e a ndia. No se largaria talvez ofogo ao patbulo pblico nem se fixariam nle ludibriosos pasquins222[diante da] contemporizao porm de uns, a suma bondade de outros,e a rebuada malignidade de alguns so em parte as causas dstes ealguns outros procedimentos, o que no de admirar em terras topopulosas como a Bahia, onde eles so inevitveis223.

    219 Idem, p. 247.220 Idem, p. 279.221 Idem, pp. 423-428.222 Grifo meu.223 Ibidem, pp. 425.

    93

  • Vilhena, que havia criticado alguns setores da administrao colonial, sobretudo a

    Junta Real da Fazenda, que na ocasio havia sido substitudo o comando de Jos Pires de

    Carvalho e Albuquerque pelo escrivo Francisco Gomes de Souza e cujo tesoureiro era o

    proprietrio de escravo indiciado nas devassas de 1798, Manoel Jos Villela de Carvalho,

    passa a elogiar a atuao do ento governador. Aps a mudana administrativa, o cronista

    ressalta a admirvel ordem da Secretaria do Estado, que dantes era um caos [...] como da

    Junta da Arrecadao da Real Fazenda224. Em decorrncia das mudanas, Vilhena chama

    ateno para

    [...] o avultado emprstimo nacional com que esta praa concorreupara as urgncias do Estado devido a sua [d. Fernando Jos dePortugal e Castro] incansvel diligncia, e persuaso, bem como sedeve nmia perspiccia a pacificao dos malvados revoltosos queperfidamente haviam projetado a insubsistente sublevao, e cruelmassacre, produes tudo da ignorncia, ociosidade, e embriaguez225.

    Ao elogiar a diligncia administrativa de d. Fernando bem como sua perspiccia em

    pacificar os malvados revoltosos, Vilhena associa o fogo no patbulo pblico aos

    pasquins afixados em locais estratgicos da Salvador, cujo teor explicita os pressupostos

    polticos e filosficos dos partcipes do evento embora no os tenha mencionado em suas

    cartas. O fogo no patbulo pblico ocorreu, provavelmente, entre maio e junho de 1797, e

    esse episdio frequentemente relacionado ao jantar de carne em sexta-feira santa,

    promovido, entre outras pessoas, pelo padre Francisco Agostinho Gomes226. No trecho,

    Vilhena apresenta o aparecimento dos pasquins como um dos excessos dos membros das

    Tropas Urbanas, cuja causa, para o cronista, alm da ignorncia e bebedeira, tudo leva a

    crer que era a contemporizao do governo de d. Fernando e a malignidade de uns

    muito provavelmente os comandantes dos regimentos das tropas urbanas.

    Ao narrar sobre as tropas urbanas, Vilhena no poupa crticas aos comandantes dos

    quatro regimentos, que tinham em comum o fato de ocuparem outros postos estratgicos da

    administrao local e, alguns deles, serem proprietrios dos escravos indiciados nas

    devassas da revolta de 1798. Antes da deflagrao da revolta, o comando do ento

    regimento pardo de Salvador regimento que alguns dos rus condenados faziam parte -

    passado pela primeira vez para um comandante branco, contrariando o contedo normativo224 Ibidem, pp. 426.225 Idem.226 Veja-se no captulo 1, os termos da devassa sobre o padre Francisco Agostinho Gomes.

    94

  • desses regimentos, que at ento impunham comandantes da mesma qualidade das

    tropas227. Chama a ateno, a esse respeito, a observao do cronista em relao ao Quarto

    Regimento Auxiliar da Artilharia,

    [...] bem certo , que com esta qualidade de gente se no perdetodo o cuidado que haja, mas no merece muita aprovao otratamento que com aquele corpo se v praticar o seu Comandante,que de Tenente que era em um dos Regimentos de Linha passou aSargento-mor para comandar o dos Pardos, ficando to pago de sicom a sua no esperada fortuna, que segundo a fama divulga,parece ter transgredido os limites da eqidade com todos os que tmpraa no Regimento do seu comando [...]228.

    Vilhena prossegue o seu relato descrevendo os dois teros de ordenanas da Bahia,

    um do Norte, cujo capito-mor era Cristvo da Rocha Pita, e outro do Sul, comandado

    pelo capito-mor Jos Pires de Carvalho e Albuquerque, que tambm fora responsvel pela

    Secretaria do Estado e Governo do Brasil em um momento, segundo Vilhena, de muita

    desordem. O cronista lembra que a desordem era tanta por parte dos capites mores e dos

    comandantes, que de um dia para o outro ocorriam alteraes considerveis e bem dignas

    de ateno. Entretanto, na dcima carta enviada a Filipono, Vilhena confessa a dificuldade

    de fornecer notcias mais circunstanciadas a respeito, pois

    Em razo de nenhuma dependncia que de mim h, me tem sidopenosssimo alcanar a notcia que me pedes do rendimento de cadaum dos empregos que h nos tribunais [...] a no haver quem mecomunicasse parte do que j se havia indagado sobre o assunto229.

    Talvez seja por essa razo que nas cartas de Vilhena no haja referncia aos

    desmandos no Tribunal da Relao por parte de alguns desembargadores, aos abominveis

    princpios franceses e campanha anti-francezia em curso, de que certamente o cronista

    tinha conhecimento. Para um exmio narrador das formas do viver em colnia, que

    absorveu no cotidiano os problemas urbanos daquela populosa cidade de Salvador,

    denunciou os desmandos da administrao pblica, chamando a ateno para os excessos

    que ocorriam nos mais variados postos das administrao local, digno de nota o fato de

    que apenas dois pargrafos foram destinados revolta de 1798 no conjunto geral das cartas.

    Em uma sociedade de forte contedo litrgico como a baiana, a execuo dos rus, o

    227 Cf. Kalina, op.cit.228 Lus dos Santos Vilhena. Op. cit., p. 245, vol. 1.229 Vilhena, op.cit., vol. 2, p. 333.

    95

  • impacto do enforcamento seguido do esquartejamento das partes na Praa da Piedade, na

    manh de 8 de novembro de 1799, e a presena de escravos domsticos indiciados nos

    Autos das Devassas so fatos que no passariam desapercebidos; no obstante, no h

    nenhuma observao a respeito.

    O fato de Vilhena no ter mencionado a execuo em praa pblica no significa

    que ele no tenha tomado conhecimento da situao230, mas como ele insistentemente se

    detm nos desmandos da administrao local possvel entrever que a revolta tenha servido

    para o cronista, assim como para Jos Venncio, como um alerta para a frouxido do

    governador em relao ausncia de limpeza de mos dos funcionrios da administrao

    local, que em alguns casos tambm eram os comandantes das Ordenanas e os proprietrios

    do escravos indiciados. Como para Vilhena a condio de professor rgio se equiparava aos

    ofcios mecnicos, dada a iniqidade do poder local, ele cria ser essa situao a razo para a

    exasperao dos nimos dos soldados pardos, mulatos e pretos. Ao denunciar os

    desmandos dos comandantes das tropas urbanas, Vilhena alerta seu missivista Filipono que

    a matria pedia uma reflexo mais detalhada, posto que as condenveis atitudes podiam

    gerar

    [...] alguma conseqncia no esperada, logo que eles seconsideram em sumo desprezo, por se lhes dar um comandante, queno seja da sua qualidade, e que este seja um sargento-mor, quandoos Henriques, com quem eles no querem comparar-se, ficam com oseu Coronel preto231.

    Vilhena prossegue a referida carta comentando sobre algumas reformas ocorridas na

    Intendncia da Marinha e Armazns Reais e afirma sobre a Secretaria de Estado e Governo

    do Brasil que

    houve em 1797 a alterao de se acrescentarem a meio dobro osordenados aos oficiais dela, imitao de alguns na Junta daArrecadao da Real Fazenda, e isto por representaes que a favorde todos fez o nosso exmo. Governador atual [d. Fernando], e poreste motivo j aqueles ofcios, e outros mais carecem de novasavaliaes...232.

    230 Lus dos Santos Vilhena viaja para Lisboa logo depois do enforcamento seguido de esquartejamento dosrus em Praa Pblica. Cf. Jobim, op.cit.; Jos Honrio Rodrigues, op.cit. 231 Idem.232 Vilhena, idem, p. 345.

    96

  • Vilhena refere-se novamente aos desmandos na administrao de d. Fernando Jos

    de Portugal e Castro. A situao era tal que no raras vezes os prprios membros da justia

    denunciavam uns aos outros. o caso, por exemplo, dos Livros-Mestres dos Regimentos

    que para nada servia, pois [...] a honra de servir nesse Reino [Portugal] a S. Majestade

    observei, que eram como sagrados os Livros-Mestres; aqui porm os vejo em extremo

    profanados233. No parece ser toa que Vilhena elogia a atitude da administrao

    metropolitana ao proibir, em 1799, que os Ministros do Conselho Ultramarino e todos os

    Ministros do Tribunal da Relao da Bahia aceitassem presentes, por mais insignificantes

    que fossem, da parte dos governadores e das demais pessoais empregadas [no] Real

    servio... [e] nesta real determinao esto includos os oficiais da Secretaria de

    Estado234.

    Dada a observncia de Vilhena sobre o viver em colnia e a qualidade dos relatos,

    tudo leva a crer que o cronista fora freqentemente incentivado pelas autoridades

    metropolitanas a relatar a situao na capitania da Bahia e, especialmente, a administrao

    de d. Fernando Jos de Portugal e Castro. Entretanto, diante dos fatos circunstanciados,

    Vilhena entrevia uma possvel represlia por parte da administrao local

    Filipono amigo da maior estimao, e quem desejo servir eagradar. para mim em extremo rdua a empresa em que me metes,qual dar-te notcia dos governadores, que tm vindo desde o seuprincpio governar esta Capitania...235.

    Talvez seja por isso que o viver em colnia para o cronista no era das menores

    desgraas porque nela a lei que de ordinrio se observa a vontade do que mais pode236.

    Alis, a impresso que Vilhena tem do viver em colnia refere-se aos limites de ascenso

    social naquela circunstncia, pois em vrios momentos das cartas o cronista ressalta as

    diferenas entre os cargos administrativos na colnia e no reino, especialmente o ofcio de

    professor-rgio, pois para ele, em Salvador ser professor, e no ser nada, a mesma

    coisa237. A partir dos relatos sobre a situao das Capitanias, em especial sobre a situao

    233 Vilhena, p. 247.234 Vilhena, idem, p. 362. Brs do Amaral indica nas anotaes obra de Vilhena que o documento originalest no Arquivo Publico da Bahia, no cdice das Ordens Rgias, 1799, livro 83, doc. n. 539. 235 Vilhena, vol. 2, p. 375.236 Vilhena, op. cit. pp. 280.237 Vilhena, vol. 1, p. 273.

    97

  • da Bahia, Vilhena formula reformas que pudessem servir de novas bases para a manuteno

    dos laos de sujeio e explorao colonial. Desta feita, altera o interlocutor das cartas,

    dedicando as trs ltimas a d. Rodrigo de Sousa Coutinho, uma vez que o Ministro era o

    destinatrio mais apropriado para acolher suas propostas reformadoras. Sem contar que

    caso o Ministro reconhecesse o mrito das propostas e a diligncia de sua tarefa, Vilhena

    contaria com um importante apadrinhamento. Jos Honrio afirma que Vilhena, sentindo-se

    desterrado na colnia, pediu renovao de seu ofcio de professor-rgio por mais seis anos,

    mas temendo que fosse abolida a cadeira de lngua grega ou ser conferida a Jos da Silva

    Lisboa, por assim pensar o governador, pediu para ir tratar-se no reino238. Aps uma longa

    espera, em dezembro de 1799, um ms aps a execuo e esquartejamento em praa pblica

    dos rus da revolta de 1798, o cronista viaja para Lisboa e resolve pedir a jubilao do

    cargo de professor-rgio na Bahia, solicitando a merc de uma aposentadoria, no Reino,

    com os rendimentos integrais de seu ofcio de professor239.

    O cronista no foi membro de nenhuma academia literria e no ocupou cargo

    pblico de maior projeo social, como ocorreu, por exemplo, com Jos da Silva Lisboa,

    professor rgio de Filosofia, Deputado e Secretrio da Mesa de Inspeo da Bahia240, que

    recebeu a merc da sesmaria que lhe fora dada de uma lgua de terra nas margens do Rio

    Itapemirim241. Embora a obra de Vilhena seja atualmente uma das principais referncias

    sobre a Bahia colonial, poca, suas cartas ao prncipe regente e depois a d. Rodrigo no

    proporcionaram qualquer merc ou privilgio para seu autor. Ao contrrio, d. Fernando Jos

    de Portugal e Castro o jubilou com a metade de seu subsdio e mesmo assim aps um ano

    de espera242. Apesar de todas as suas queixas sobre o viver em colnia, Vilhena voltou

    Bahia e faleceu pobre aos setenta anos de idade, em 29 de junho de 1814, sem obter a

    merc real que desejava243. No foi grande no Imprio e por ocasio de sua aposentadoria

    foi o prprio d. Fernando Jos de Portugal e Castro quem atestou sobre o correto

    desempenho de Vilhena na sua funo, mas, em seguida, no sem ironia, afirmou que a238 Cf. Jos Honrio Rodrigues. Histria da Histria do Brasil. Historiografia colonial. So Paulo/Braslia:Companhia Editora Nacional/INL, 1979, pp. 503-509.239AHU_CU_Cx. 107, doc. 20.847. O pedido de aposentadoria com o recebimento integral dos rendimentosera comum entre os professores rgios da colnia. Note-se, para tanto, o rpido processo de aposentadoria deFrancisco Martinho de Sampaio, professor de lngua latina: AHU_CU_CA_Baa, 23131-23138 e de Joo daSilva Lisboa, professor de filosofia: AHU_CU_Cx. 204, doc. 14673.240 AHU_CU_CA_Baa, docs. 20869-20875.241AHU_CU_CA_Baa, doc. 20153.242 AHU_CU_Cx. 116, doc. 22775.243 Cf. Jos Honrio Rodrigues, op.cit., p. 504.

    98

  • cadeira de lngua grega no era das mais freqentadas, justificando assim o processo de

    aposentadoria de Vilhena com a metade de seus provimentos244.

    2.2 Os contemporneos e a revolta baiana de 1798.

    O fato que tanto a interpretao de Frei Jos do Monte Carmelo, Jos Venncio de

    Seixas e Lus dos Santos Vilhena, sobre a revolta de 1798, so menos esquemticas do que

    a formulada pelas autoridades do Tribunal da Relao da Bahia, em 1799, nos Autos das

    Devassas. exceo do carmelita descalo, os funcionrios rgios abriram outras

    possibilidades de interpretao sobre a revolta de 1798, ainda que haja em seus relatos um

    padro de silenciamento sobre a circulao das idias de francezia e sobre o enforcamento

    seguido de esquartejamento dos quatro homens pardos considerados os nicos rus pelas

    autoridades. Em primeiro lugar, ao interpretaram a revolta de 1798 como mais um dos

    motins e tumultos dos milicianos anteriormente ocorridos, insistente sublevao nos termos

    de Vilhena, os funcionrios no afirmam em nenhum momento o envolvimento de outros

    setores, especialmente os escravos domsticos que foram entregues s autoridades por seus

    senhores e condenados pena de degredo e aoites em praa pblica.

    Considerando que, poca, a revolta escrava de So Domingos estava em curso, a

    participao dos escravos domsticos nos acontecimentos representaria um perigo de tal

    sorte que provavelmente no seria desconsiderada nas cartas dos funcionrios rgios. Jos

    Venncio afirmou inclusive que para se fortificarem [milicianos] lhes bastavam os

    escravos domsticos245. Vilhena, por sua vez, ao tratar dos cativos domsticos em suas

    cartas, prope um verdadeiro controle social dos grupos populares com o objetivo de

    assegurar a ordem poltica da cidade. Rafael Marquese demonstra que para o sucesso da

    poltica de controle social proposta pelo professor rgio era necessrio que os senhores dos

    cativos domsticos mudassem os padres de governo de seus escravos para evitar uma

    revolta escrava de pssimas conseqncias246. Segundo Marquese, no h dvidas de

    244 AHU_CU_Cx 107, doc. 20847. Cf. Jos Honrio Rodrigues. Op. cit. 245 Carta de Jos Venncio de Seixas, doc. cit.246 Rafael de Bivar Marquese. Feitores de corpo, missionrios da mente. Senhores, letrados e o controle dosescravos nas Amricas, 1660-1860. So Paulo: Companhia das Letras, 2004. Ler, especialmente, o item 4, pp.185-189.

    99

  • que no tom da advertncia de Vilhena uma cidade povoada de escravos, cafres, e to

    bravos como feras - esteve imbudo o espectro da revolta escrava247.

    A informao ganha vulto se se considera que os escravos condenados pelas

    autoridades rgias por participarem dos acontecimentos de 1798 eram, como se viu no

    captulo anterior, de propriedade dos funcionrios rgios veementemente criticados por

    Vilhena em suas cartas. A esse respeito possvel entrever algumas questes. Em primeiro

    lugar, em ambos os relatos a participao dos cativos aparece como uma possibilidade a ser

    considerada para no futuro ser evitada pois caso ocorresse de fato uma revolta com a

    presena dos cativos, segundo os relatos, efetivamente colocaria em risco os termos da

    colonizao na cidade de Salvador.

    Depois, ao ligarem a revolta de 1798 iniqidade do poder local em relao aos

    desmandos de um grupo de funcionrios da administrao de d. Fernando Jos de Portugal

    e Castro, mais contundente em Vilhena do que em Jos Venncio, os funcionrios rgios

    reafirmam os milicianos como os nicos protagonistas do evento; entretanto o fazem

    porque suas exasperaes so conseqncias do que eles sugerem haver na administrao

    local: desordem causada pela frouxido do governador em relao ao contedo normativo

    da metrpole. Jos Venncio foi taxativo em relao aos desdobramentos da reforma de

    1776, especialmente no que se refere s brechas abertas na governao local pelas reformas

    implantadas a partir do consulado pombalino.

    As propostas de Vilhena, por sua vez, sobre a ordem poltica da cidade de

    Salvador em relao ao controle social dos cativos, bem como dos homens livres e sem

    nenhum ofcio, para alm de buscar inspirao nas prticas das ordens religiosas

    proprietrias dos cativos no Brasil, circunscrevem-se no espao da cidade e relacionam-se,

    de alguma maneira, com a administrao local. Primeiro, porque Vilhena, segundo Rafael

    Marquese, critica o trfico de escravos. No que ele fosse contra a escravido, mas a

    entrada macia de escravos africanos na Bahia significava, a seu ver, a corrupo dos

    costumes, especialmente em relao detrao do trabalho manual. Depois, Rafael

    Marquese demonstra que

    se o controle social dos escravos na cidade ocupou a imaginaode Vilhena, nada foi escrito a respeito do campo: em nenhummomento o autor articulou o problema da resistncia escrava em

    247 Idem, p. 188.

    100

  • larga escala ao tema do governo dos cativos nas plantations doRecncavo Baiano 248.

    Cabe lembrar que, a partir das reformas implantadas no consulado pombalino, os

    cativos comearam a monopolizar os ofcios urbanos. Essa situao, para Vilhena, era uma

    das principais causas para que os brancos pobres e homens de cor livres ficassem na

    vagabundagem, mendicncia e bebedeira. Cabe aqui, novamente, levar em conta os

    desdobramentos polticos das reformas pombalinas nos vrios domnios portugueses e os

    termos de ordem poltica de Vilhena. Raimundo Faoro acertadamente chamou ateno

    para os desdobramentos da descompresso poltico-administrativa abertas pelas reformas

    pombalinas. Alm de o Estado se aproximar de novos setores e renovar a elite, fomentou

    um novo pensamento poltico nas vrias partes dos domnios portugueses, uma ideologia e

    uma filosofia poltica [...]249. Esse pensamento caracterizado, contudo, por um esprito

    crtico em relao ao contedo normativo do consulado pombalino e pela formulao de

    reformas que objetivavam, no caso de Vilhena, o reajuste poltico-administrativo no

    perodo mariano, i.e., novas bases para a salvaguarda do pacto de sujeio.

    Como o maior expoente do consulado pombalino, Verney, mesmo paradoxalmente

    por seu catolicismo e sua identidade monrquica forte, buscou uma interface entre a cultura

    portuguesa e os progressos do pensamento europeu fundado em Locke e em Newton,

    especialmente no que se refere idia de progresso como realizao da racionalidade.

    No caso portugus, essa racionalidade era manifestada na vontade do sujeito na consecuo

    de um projeto que implicava a realizao de um fim especfico: reformas factveis que

    garantissem a manuteno dos laos de sujeio e o bem comum. De acordo com os

    pensadores do Direito Natural adotados em Coimbra, a filosofia poltica da poca no era

    adversa idia de pactos expressos ou tcitos para haverem de gozar uma vida mais

    segura e mais tranqila250.

    A tranqilidade dos povos, segundo Verney, era assegurada pela tica que ensina o

    modo de regular as aes dos homens particulares enquanto membros da sociedade

    civil251. Neste sentido, digno de nota o fato de que para uma sociedade hierarquizada,

    248 Marquese, op.cit., p. 187. 249 Faoro, p. 30-31250 Faoro, op.cit., p. 39251 Verney, op.cit., p. 294.

    101

  • fundamentada portanto em privilgios252, e escravista, cujo ponto de partida era a negao

    da igualdade nos termos do sufrgio universal, a idia de bem comum de Vilhena e Jos

    Venncio est menos na direo coletivista de um Rousseau do que na filosofia poltica de

    Locke. O povo a que se referia Locke restringia-se, basicamente, aos homens proprietrios,

    livres e instrudos, para os quais se deveriam governar e cujos direitos fundamentais

    deveriam ser respeitados. Nesse ponto no h dvidas: os escravos estavam fora da

    sociedade civil porque no haviam participado do pacto que a institua, na medida em que o

    cativo no era proprietrio sequer de si mesmo. Neste particular, a idia de bem comum

    liga-se salvaguarda do pacto social pelo poder estatal, especialmente a liberdade

    individual e a propriedade.

    No parece ser por acaso que, como lembrou Carlos Guilherme Mota, a propriedade

    o objeto de seus [Vilhena] maiores louvores253. Entretanto, o conceito de

    propriedade, como aparece em Vilhena ou mesmo em Jos Venncio, porque est ligado

    liberdade individual e ao trabalho em uma sociedade hierarquizada e balizada pelo

    escravismo, relaciona-se com posse dos direitos naturais, i.e., no apenas terras e cativos,

    mas tambm e sobretudo cargos, mercs e honrarias254. Neste sentido, as formas de

    pensamento de Vilhena e Jos Venncio, que permitiram algumas formulaes a respeito da

    realidade vivida na Salvador de 1798-99, no necessariamente caminham na direo da

    superao de uma ordem, uma vez que nessas formulaes os interesses particulares e o

    interesse pblico integram um todo harmnico, o bem comum, a ser garantido por meio

    da ao do monarca. 252 A literatura do tema extensa, mas para o caso brasileiro, ler o primeiro captulo de Srgio Buarque deHolanda. Razes do Brasil. Rio de Janeiro: Livraria Jos Olympio, 14a. edio, 1981, pp. 3-11. 253 Carlos Guilherme Mota. Formas de pensamento intermedirias. O caso tpico: Vilhena, o colonoilustrado. In: Idia de Revoluo no Brasil (1789-1801). So Paulo: tica, 1996, pp. 82-96. Consideramospor demais cansativo retomarmos a polmica entre o autor e Srgio Buarque de Holanda por conta doequivocado conceito da palavra polcia utilizada por Carlos Guilherme Mota ao analisar Lus dos SantosVilhena. Entretanto, como se ter oportunidade de demonstrar no ltimo captulo, Carlos Guilherme Motaatrapalhou-se, tambm, com o significado da palavra propriedade empregada por Vilhena. Segundo osdicionrios da poca, a palavra propriedade designava terra, escravos e cargos. Portanto, para Vilhena, apalavra tem um sentido mais amplo do que o autor faz referncia. Vilhena, alm de ser um exmio conhecedordo viver em colnia, nobilitou-se por seus conhecimentos das lnguas grega e latina. No volume I de suaobra h em vrios momentos o uso do termo propriedade e propriedade de terra. Cf. Lus dos SantosVilhena, op.cit., vol 1. Ademais, chamamos ateno para o fato de que na obra supracitada de CarlosGuilherme Mota no h um pargrafo acerca das formulaes de Vilhena sobre a revolta baiana de 1798. Oautor ser objeto de reflexo no ltimo captulo desta dissertao. 254 Cf. John Locke, Segundo tratado sobre a sociedade civil. Rio de Janeiro: Vozes, 1994. Segundo Locke, oobjetivo capital e principal da unio dos homens em comunidades sociais e de sua submisso a governos apreservao da propriedade, p. 156, n. 124. Consultar, a respeito do caso brasileiro, o trabalho de MariaSylvia de Carvalho Franco. Homens livres na ordem escravocrata. So Paulo: IEB/USP, 1969

    102

  • certo que a ordem colonial tem como suporte fsico a propriedade cativos, terras

    e cargos, uma vez que a essncia do Estado, no seio da tradio patrimonialista, consiste na

    sua privatizao em benefcio de uma minoria, que no constitui propriamente uma classe,

    mas uma espcie de casta estamental que administra o Estado como se fosse propriedade

    sua. A essncia do patrimonialismo, com efeito, a corrupo da noo de Estado como

    esfera do pblico no que se refere ao bem comum dos cidados, defesa dos seus direitos

    inalienveis vida, liberdade e s posses255. certo tambm que a propriedade cativos,

    terras e cargos -, em situao colonial pode gerar conflitos e formas no ajustadas ao

    sistema256. Para tanto, preciso saber, em primeiro lugar, se Vilhena e Jos Venncio tm

    uma idia de sistema da realidade em que vivem para, depois, considerar os termos das

    crticas formuladas para saber em que medida elas so formas no-ajustadas ao sistema

    e, portanto, indicativo de um conflito ou uma mudana irreversvel. Ou se os funcionrios

    rgios, agentes do prprio sistema, elaboraram uma retrica de contestao nos limites do

    poder, mesmo no caso de Vilhena, prospectando a manuteno e a freqente necessidade de

    reconfigurao das bases do poder, coexistindo com a resoluo de particularismos e

    incongruncias no interior daquela sociedade.

    Quando Carlos Guilherme Mota vislumbra em Vilhena a propriedade como base

    da nacionalidade [...] sendo que o nacionalismo emergente no final do sculo XVIII no

    Brasil , na base, anti-colonialista, o autor desconsidera a possibilidade de o ideal de

    estabilidade social entrevisto por Vilhena no ser indcio seguro da crise do Antigo

    Sistema Colonial257. No necessariamente a busca pela ordem perdida significa, em

    situao colonial, que a conscincia nacional comea a despertar, e passa a no ser

    contida pelas estruturas do Estado dentro do qual emerge258. Segundo Weber, a

    propriedade um dos elementos definidores da posio social dos indivduos constitudos

    em uma sociedade estamental, mas possvel encontrar em um mesmo estamento

    indivduos com nveis de propriedade diferentes. Neste caso, a noo de honra estamental e

    a manuteno desse status, a partir de diferentes nveis de propriedade, a principal forma

    255 Na pennsula ibrica a idia de que o cargo pblico era uma propriedade pessoal era disseminada pelaprtica de compra e venda de cargos, considerada como se fosse uma extenso do direito de propriedade. 256 Cf. Carlos Guilherme Mota, op.cit. 257 Cf. Carlos Guilherme Mota, op.cit., p. 129. 258 Idem.

    103

  • de se evitar o acesso de elementos socialmente desqualificados aos grupos

    estamentalmente privilegiados259.

    Pierre Bourdieu, por sua vez, chama a ateno para a noo weberiana de honra

    estamental representar junto s distines econmicas um papel fundamental nas relaes

    de poder. O capital simblico dessas relaes, configurado, portanto, pelo poder material e

    pelo poder simblico acumulados pelos agentes ou pelas instituies que agrupam estes

    agentes cumprem a funo poltica de instrumentos de imposio ou de legitimao da

    dominao. A propriedade, nesse caso, definidora do status dos agentes privilegiados

    porque culturalmente aceita e vlida pelos que ocupam as posies de mando. Da decorre

    a necessidade de os agentes perpetuarem suas posies hierrquicas para evitar que o acesso

    de desqualificados maculem o grupo dentro do espao social260. A esse respeito, cabe

    lembrar novamente a preocupao de Jos Venncio de Seixas em relao possibilidade

    de ascenso dos milicianos pardos e negros na hierarquia militar da colnia, aps a lei de

    1776. Vilhena, por sua vez, lamenta a detrao dos ofcios pblicos crescentemente

    ocupados por homens livres, pobres, pardos e negros libertos. No parece exagerado

    afirmar, portanto, que em ambos os relatos a grande preocupao refere-se incorporao

    da viso social dos grupos dominantes pelos desqualificados, segundo a qual, para os

    funcionrios-rgios, naturalizariam o antagonismo social estabelecido, uma vez que a

    ascenso social dos desqualificados, na hierarquia militar e administrativa, permitiriam-

    lhes moldar-se de alguma forma aos clivados contornos do espao social privilegiado.

    Talvez essa seja uma chave para o entendimento das razes pelas quais Vilhena no

    se preocupa com o governo dos cativos das grandes propriedades do Recncavo Baiano,

    uma vez que a grande propriedade e o trabalho escravo eram as bases do Antigo Regime

    Portugus no Brasil. Ainda segundo Pierre Bourdieu, os indivduos estamentalmente

    privilegiados, com diferentes combinaes de propriedades e capital simblico, defendem a

    si prprios, alegando defender os homens dos mdios e baixos setores sociais, quando a

    inteno reafirmar suas posies sociais e garantir seus capitais simblicos, vetando

    qualquer possibilidade de homens livres, pobres, pardos e negros libertos de amealharem

    um capital simblico que no detm261. Ora, mesmo quando Vilhena formula reflexes

    259 Max Weber. Economia e Sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. Braslia: Editora da UNB,1999, 2 vols., pp. 175-186. 260 Pierre Bourdieu. O poder simblico. Lisboa: Difel, 1989, p. 11261 Idem, p. 157.

    104

  • sobre os cativos citadinos, elas relacionam-se, como demonstra Rafael Marquese, com a

    detrao do trabalho manual e, como se viu, com a sua prpria situao vexatria no

    interior das estruturas do poder local. No parece ser por outra razo que Vilhena afirma em

    vrios momentos de suas cartas que seu oficio de professor rgio, em funo da iniqidade

    do poder local, quanto ao recebimento dos provimentos do Subsdio Literrio, se

    assemelhava ao trabalho manual crescentemente ocupado pela plebe.

    Neste caso, as formulaes de Vilhena esto menos voltadas para a direo de um

    processo histrico de formao da conscincia nacional que deriva justamente da

    condio de crise estrutural do sistema colonial262 do que no reconhecimento da

    complexidade das relaes sociais e econmicas, no final do sculo XVIII, exteriorizadas

    por intermdio de mltiplos projetos polticos que tratavam, quer das formas de produo e

    governao local quanto dos termos da (im)possibilidade de reconfigurao das bases de

    sujeio entre o Brasil e Portugal263. At porque, a garantia da boa governana dos povos,

    para Vilhena, levando-se em conta o conjunto geral da obra, parece ligar-se ao pensamento

    lockeano e relacion-la sobretudo com o consentimento como agente da confiana264, o

    que permite sociedade, em defesa prpria, resistir ao Rei quando necessrio. Quando o

    pacto do consentimento quebrado porque o Estado no assegurou a boa governaa dos

    povos, portanto a responsabilidade do governante perante a sociedade civil, a resistncia

    um dos recursos. Segundo Locke, todos os povos constitudos em sociedade teriam o direito

    de se oporem fora injusta e ilegal dos agentes inferiores ou quaisquer indivduos

    nomeados pelo Rei quando a m ao e a opresso atingem a maioria, sem que isto

    implicasse na destruio do corpo poltico265. John Locke no foi o nico a afirmar isso,

    mas o que lhe especfico que a legitimao da reao popular qualificada como defesa

    do seu seu direito natural, i. e., a propriedade instituda anteriormente ao pacto social, pois

    Aquele que se alimentou de bolotas que colheu sob um carvalho,ou das mas que retirou das rvores na floresta, certamente seapropriou delas para si. Ningum pode negar que a alimentao sua. Pergunto ento: Quando lhe comearam a lhe pertencer?Quando os digeriu? Quando os comeu? Quando os cozinhou?Quando os levou para casa? ou Quando os apanhou? evidente que

    262 Carlos Guilherme Mota, op.cit., p. 84263 Ler sobre o tema: Joo Fragoso, Maria de Ftima Gouva e Fernanda Bicalho, especialmente: O AntigoRegime nos trpicos: a dinmica imperial portuguesa (sculos XVI-XVIII). Rio de Janeiro: CivilizaoBrasileira, 2001. 264 Veja-se Eduardo Romero de Oliveira. A idia de Imprio..., op.cit., p.6.265 Cf. Locke, op.cit., p. 211.

    105

  • se o primeiro ato de apanhar no os tornasse sua propriedade, nadamais poderia faz-lo266,

    O objetivo do direito resistncia, com efeito, era combater os excesso dos agentes

    do Estado cometidos em uma longa sucesso de abusos, prevaricaes e fraudes,

    tornando a inteno dos agentes visvel ao povo sem poder deixar de ver o que o oprime

    nem de ver o que o espera. Assim, no de se espantar, ento, que ele se rebele e tente

    colocar as rdeas nas mos de quem possa lhe garantir o fim em si do governo267.

    Essa resistncia, entretanto, no seria exteriorizada apenas por uma ao insurreta,

    um levante ou motim. Antes, seria desejvel que ela se manifestasse por indivduos

    qualificados (proprietrios), atravs de suas instituies prprias (parlamento, corporaes

    etc.). Tudo leva a crer que esse o caso de Jos Venncio de Seixas e Lus dos Santos

    Vilhena. At porque, como se viu nos relatos do provedor e do professor-rgio, o nico

    agente capaz de garantir a boa governana dos povos diante da frouxido de d. Fernando

    Jos de Portugal e Castro em relao aos abusos cometidos pelos agentes da administrao

    local era d. Rodrigo de Souza Coutinho, o interlocutor da carta do provedor e das ltimas

    cartas do professor rgio.

    Ademais, no pensamento lockeano, o recurso resistncia atravs de um motim ou

    levante s deveria ser usado em casos extremos. Ao ressaltar a excepcionalidade do

    recurso, Locke chama a ateno para uma certa tendncia conservadora do povo quando

    tem de abandonar suas antigas constituies, de maneira que dificilmente se consegue

    convenc-lo a corrigir os defeitos reconhecidos da estrutura a que est acostumado, pois

    quando h defeitos introduzidos pela corrupo, no tarefa fcil conseguir que sejam

    mudados, mesmo quando todo mundo v que h oportunidade para isso268

    Quando Jos Venncio e Vilhena chamam a ateno para o perigo que representaria

    para a administrao a participao dos cativos na revolta de 1798, os funcionrios parecem

    sugerir que a excepcionalidade do recurso resistncia era justamente a revolta escrava

    como uma efetiva ameaa a ser evitada a qualquer custo. Neste ponto em especial, Locke

    passa a interrogar sobre a possibilidade de o recurso resistncia incitar freqentemente

    266 Idem, p. 98. 267 Idem, p. 221.268 Idem, p. 220.

    106

  • rebelio dos povos. Para o autor, a resistncia legtima em situaes de extrema misria,

    tirania e opresso, pois

    quando se lana o povo na misria e ele se v exposto ao mau usodo poder arbitrrio, proclame quanto quiser que seus governantesso filhos de Jpiter, considere-os sagrados e divinos, descidos ouautorizados pelos cus, faa com que paream com aquilo que vocquiser, a mesma coisa ir acontecer. O povo maltratado, governadode maneira ilegal, estar pronto na primeira ocasio para selibertar de uma carga que lhe pesa demais sobre os ombros. Eledeseja e busca a oportunidade que, nas flutuaes, fraquezas eacidentes das questes humanas, raramente tarda a seapresentar269.

    No seria, nessa perspectiva, impossvel ou improvvel sugerir a razo pela qual os

    funcionrios rgios no identificaram a revolta de 1798 como uma ameaa socialmente

    legitimada, pois alm de os cativos no participarem do processo, suas formas de

    pensamento sugerem que o liberalismo no mundo luso-brasileiro, do final do sculo XVIII,

    pode estimular tanto as insurreies quanto as reformas para evit-las. Nesse ltimo caso, a

    partir dos relatos dos funcionrios rgios, caberia saber em que medida o devir das idias

    liberais em situao colonial tem um vnculo inexorvel com a ao revolucionria. Seriam

    potencialmente revolucionrias ou irreversveis as formas de pensamento de um mundo

    colonial em crise? Em que medida a importao das idias europias foi a via pela qual

    os agentes da revolta baiana de 1798 tiveram percepo do viver em colnia?

    Como se viu, as formulaes a respeito da revolta baiana de 1798 do frei Jos do

    Monte Carmelo, Jos Venncio de Seixas e Lus dos Santos Vilhena ligaram-se a uma srie

    de questes muito mais complexas do que as definidas pela administrao local nos Autos

    das Devassas, em 1799. Questes essas que, no por acaso, os desembargadores do

    Tribunal da Relao da Bahia, sob a chancela do governador d. Fernando Jos de Portugal e

    Castro, examinadas no captulo anterior, foram negociando com o grupo de notveis

    durante a conduo das devassas em 1798-99, para, ao que tudo indica, deix-los margem

    dos processos. Para os funcionrios rgios, a revolta baiana de 1798 concebida em termos

    de um balano diante da iniqidade do poder local e no como um acontecimento que traz

    consigo a idia unvoca e irreversvel de crise estrutural do sistema colonial com tintas

    proto-nacionalistas revelia do que aparentemente pretendiam os agentes da revolta e

    mesmo da percepo dos funcionrios rgios acerca do viver na cidade de Salvador do final269 Ibidem, p. 221.

    107

  • do sculo XVIII. bastante paradigmtico, neste sentido, o fato de Vilhena ter denominado

    a revolta baiana de 1798 de insistente sublevao.

    Os relatos contemporneos, tomados em seu conjunto, sugerem, ainda, o

    questionamento sobre os agentes da revolta, os protagonistas do evento, suas intenes e a

    existncia de projetos concomitantes, especialmente quando se considera que a grande

    preocupao para ambos justamente o aspecto deliberadamente tangenciado pelas

    autoridades que conduziram as devassas durante os anos de 1798-99: as brechas abertas

    pela dialtica do poder local, a partir das reformas pombalinas, e a quebra do pacto da boa

    governana dos povos. Considerando os eixos de significao da revolta circunstanciados

    pelos Desembargadores do Tribunal da Relao da Bahia, analisados no captulo anterior, o

    que ficou de fora foi justamente o que os contemporneos, especialmente Lus dos Santos

    Vilhena, trouxeram luz em suas consideraes: a inabilidade dos agentes da administrao

    local e o exerccio desptico do governador na garantia do viver em colnia. Por um lado,

    cobraram, de acordo com uma lgica que lhes era prpria, o reconhecimento da dignidade e

    do lugar que esses funcionrios, especialmente Vilhena, julgavam merecer. Por outro,

    demonstraram fidelidade monarquia portuguesa, alimentando a mstica do rei trado

    quando, diante da iniqidade do poder local, a revolta baiana de 1798 foi compreendida

    como recurso legtimo assim como os seus relatos.270.

    Ao interpretarem a revolta de 1798 como um processo, como um ltimo recurso na

    tentativa de evitar o perigo de uma revolta escrava, os relatos dos contemporneos sugerem

    a necessidade de se evidenciar e investigar os matizados termos e dimenses dos projetos

    acerca do conflito ocorrido na cidade de Salvador de 1798, sem entrever o que para os

    agentes no era entrevisto e ao que tudo indicava deveria ser evitado: a emancipao

    poltica de 1822. De qualquer forma, se por um lado, frei Jos de Monte Carmelo e os

    funcionrios rgios abriram outras possibilidades de anlises sobre a revolta de 1798,

    especialmente no que se refere aos protagonistas do evento e, para os funcionrios rgios,

    concomitncia de projetos dos partcipes da revolta, por outro lado, poder-se- observar na

    historiografia oitocentista, que os relatos at aqui analisados inauguraram, em seu conjunto,

    a tradio no que respeita ao silenciamento de alguns aspectos acerca da revolta de 1798,

    inaugurado pelas autoridades locais nos autos das devassas. Especialmente em relao 270 Cf. Luciano Raposo de A. Figueiredo. Prticas polticas e idias ilustradas na Amrica Portuguesa. Textoapresentado no 10o. International Congress on the Enlightenment, Dublin, 25-31 julho, 1999; Antonio ManuelHespanha, op. cit.

    108

  • perspiccia das autoridades locais, ao abortarem rapidamente a projectada revoluo,

    reproduzindo a lgica punitiva das autoridades rgias de 1799. Lgica essa de enorme apelo

    ideolgico no processo de construo da Histria ptria brasileira, ao longo do sculo XIX,

    cujas anlises reafirmaro, de forma matizada, a circunscrio social do evento e a punio

    exemplar para os homens livres e pobres como o nico setor social sectrio das idias

    republicanas.

    109

  • Captulo 3. A revolta baiana de 1798 no oitocentos: umaoutra histria ptria.

    Pensem os visionrios como quiserem, a rebeldia sempre sercondenvel nas sociedades bem constitudas. Pintem-na com ascores mais vivas e sedutoras da imaginao; chamem-na tumulto ousedio; revolta ou insurreio; motim ou rebelio, nada alterar asua natureza e efeitos; dem-lhe o nome que melhor soe e agradeaos ouvidos dos incendirios, ela no deixar nunca de ser umatransgresso sujeita sano penal.

    Domingos Antonio Raiol271.

    Neste captulo contempla-se o primeiro momento de apropriao pela historiografia

    oitocentista da memria elaborada tanto pelas autoridades locais, em 1799, quanto pelos

    contemporneos, acerca da revolta baiana de 1798. Desta feita, os autores trabalhados

    foram Incio Accioli de Cerqueira e Silva, John Armitage, Francisco Adolfo de Varnhagen,

    Joaquim Caetano Fernandes Pinheiro.

    3.1 Incio Accioli de Cerqueira e Silva.

    Incio Accioli de Cerqueira e Silva (1808-1865) nasceu em Coimbra e veio ainda

    criana para Salvador e depois para o Par, onde seu pai Miguel Joaquim de Cerqueira e

    Silva foi nomeado juiz de fora, em 1818. Em 1822, aos quatorze anos, por ocasio das lutas

    da independncia, Accioli e seu pai foram presos pela junta governativa do Par e

    mandados para Lisboa. Em 1823 libertado junto com seu pai pelo prprio d. Joo VI e

    mandado de volta para o Brasil272. Conta-nos Hypolito Cassiano de Miranda que, embora

    Accioli tenha freqentado as aulas de humanidades na Bahia, o autor todavia no se

    formou. Accioli foi para Coimbra e cursou quase todo o curso de direito. Embora no

    tenha exercido a profisso, os conhecimentos adquiridos em Coimbra, segundo seus

    bigrafos, foram teis para a diligncia histrica do autor. Quando voltou para o Brasil, em

    conformidade com a Lei de 18 de Agosto de 1831, Accioli foi nomeado tenente-coronel271 Domingos Antonio Raiol. Motins polticos ou histria dos principais acontecimentos polticos naProvncia do Par, desde o ano de 1821 at 1835. Coleo Amaznia, Srie Jos Verssimo, Belm,Universidade Federal do Par, 1970, 5 Tomos, vol. 3, p. 1006. 272 Cf. Afonso Costa. Centenrio de nomes ilustres da Bahia. RIHGB, Rio de Janeiro, 211: 105-117,abril/junho, 1951.

    110

  • comandante do 5o. Batalho da ento Provncia da Bahia. Em 1836, Accioli foi nomeado

    pelo Conde da Palma diretor do Teatro So Joo, cargo que ocupou at meados de 1837273.

    De acordo com seus contemporneos, Accioli prestou relevantes servios no

    referido corpo militar, principalmente por ocasio da revolta republicana deflagrada em

    novembro de 1837, conhecida por Sabinada, e definitivamente combatida em maro de

    1838. Em funo dos seus feitos militares e trabalhos histricos, Accioli foi cavaleiro da

    Ordem Imperial do Cruzeiro e da Ordem de Cristo, Comendador da Imperial Ordem da

    Rosa, scio efetivo das Sociedades de Agricultura, Comrcio e Indstria, da Biblioteca

    Clssica Portuguesa, da Sociedade Filosfica da Bahia, membro titular da Politcnica

    Prtica de Paris e da Sociedade Real dos Antiqurios do Norte da Dinamarca, cronista-mor

    do Imprio e scio correspondente do Instituto Histrico e Geogrfico do Brasil desde

    1838274.

    Por longo tempo, Accioli gozou de boa posio na Bahia em funo de suas

    publicaes e de seus feitos militares, por ocasio da citada revolta de 1837. Todavia,

    algumas aes militares consideradas sediciosos fizeram com que seus inimigos o

    atacassem publicamente, maculando sua reputao de tal sorte que o prprio Accioli afirma

    ser essa a razo de ter ficado na penria sem meios para comprar casaca, em cujo peito

    pudesse mostrar a commenda da Rosa e os hbitos das Ordens do Cruzeiro e de Christo275.

    Incio Accioli faleceu muito pobre no Rio de Janeiro, em 1 de agosto de 1865276.

    Durante sua vida escreveu vrias obras e publicou textos em vrios peridicos do

    Rio de Janeiro e da Bahia. Entre suas obras mais conhecidas esto Corografia Paraense,

    ou descrio fsica, histrica e poltica da provncia do Gro-Par277 e Memrias

    histricas e poltica da provncia da Bahia. Considerando a histria da publicao da

    Memrias histricas e polticas da provncia da Bahia, o tomo 1 foi publicado na Bahia

    273 Hypolito Cassiano de Miranda. Notcia Biographica do Coronel Igncio Accioli de Cerqueira e Silva. In:Incio Accioli de Cerqueira e Silva. Memrias Histricas e Polticas da Provncia da Bahia. Anotaes deBraz do Amaral, Salvador: Imprensa Oficial do Estado, 1919, pp. 7-ss. 274 Idem, p. 18.275 Apud, Hypolito Cassiano de Miranda, p. 17. 276 Francisco Antonio Doria. Acciaiolis no Brasil. Caderno 3: Rio de Janeiro, 2000, pp. 69-71.Cf. BibliotecaNacional, sesso de manuscritos, cdice C-0254, 004 2: Incio Accioli de Cerqueira e Silva Requerimentoao Ministrio do Imprio, solicitando ser nomeado Cronista-mor do Imprio; Biblioteca Nacional, sesso demanuscritos, C-0254, 004 4: - Incio Accioli de Cerqueira e Silva Requerimento encaminhando aoMinistrio do Imprio, solicitando uma ajuda anual, enquanto no conseguir um emprego.277 Incio Accioli de Cerqueira e Silva. Corographia Paraense, ou descripo physica, histrica e poltica daprovncia do Gram-Par. Bahia: Typographia do Dirio, 1833.

    111

  • em 1835, os de nmero 2 e 3 em 1836, o de nmero 4 em 1837, o nmero 5 em 1843 e o

    nmero 6 em 1852278. Chama ateno a similitude da obra de Accioli com as cartas de Lus

    dos Santos Vilhena, ao menos no que se refere disposio dos temas no conjunto geral da

    obra, e ao encadeamento dado aos assuntos sobre a Bahia. Todavia, no prefcio do Tomo I

    de sua obra, publicado em 1835, diferentemente de Vilhena, Accioli afirma ter consultado a

    documentao da provncia da Bahia, sem contudo citar a referncia. Ainda no prefcio, o

    autor sugere o motivo pelo qual os eventos de natureza contestatria tm pouco espao no

    conjunto geral de sua obra, pois Accioli reconhecia

    [...] o quanto perigoso, principalmente escrevendo no prpriopaiz, o tractar-se de factos contemporneos cuja exposio nemagrada ao escriptor, nem ao leitor, porque os respeitos humanos, osinteresses dissidentes, as paixes exaltadas, e a implicncia comindivduos, no s impossibilito a completa e innofensiva narraodos factos, mas at o critrio exacto de suas qualificaes [...]279.

    Ciente dos acontecimentos polticos da poca, nomeadamente as revoltas

    protagonizadas por homens livres e pobres das grandes cidades, at a abdicao de Pedro I,

    Accioli afirma que no pertencia a nenhum partido e nem capitulava de prejuzos

    vulgares, pois

    com a narrativa dos acontecimentos de 1821 e 1823, jamais tiveem vista o despertar de idias, felizmente amortecidas, contra aaquaes quer (os) indivduos, que, encarando ento pela superfcie amarcha poltica de um governo systematico, praticaro erros deopinies[...]280.

    E foi a partir do reconhecimento de que poca as revoltas populares significavam,

    por um lado, a tentativa ilegtima de invaso dos espaos polticos pelos setores

    subordinados da populao livre citadina, e, por outro, a possibilidade de existir base social

    para a legitimao de projetos polticos de feio jacobina, nos termos dos liberais

    exaltados281, que Accioli interpreta a revolta baiana de 1798, evitando o despertar de

    idias, felizmente adormecidas, ou melhor, capitular de prejuzos vulgares. Incio

    278 Incio Accioli de Cerqueira e Silva. Memrias Histricas e Polticas da Provncia da Bahia. Bahia: Typ.Do Correio Mercantil, de Prcourt, 1835, Tomo I. Este tomo, como as anotaes de Brs do Amaral equivaleao Tomo III, p. 17 da edio elaborada em 1931 pela Tipografia Oficial do Estado da Bahia. 279 Incio Accioli de Cerqueira e Silva, op.cit., p. 2, 1a. edio, 1835.280 Idem.281 Cf. Marcelo Basille. Op.cit.

    112

  • Accioli estabeleceu um padro explicativo acerca da revolta baiana de 1798, que, de uma

    forma ou de outra, ter vida longa para os que se ocuparam do tema no decorrer do sculo

    XIX: a represso bem sucedida para os sectrios das idias jacobinas. No por acaso,

    Accioli reitera a circunscrio social elaborada pelas autoridades em 1799, no que se refere

    articulao dos protagonistas da revolta e seus princpios polticos, i.e., os homens livres e

    pobres como o nico setor social simptico s idias da Frana revolucionria.

    Assim como Lus dos Santos Vilhena, Incio Accioli interpreta a revolta baiana de

    1798 por ocasio dos relatos sobre a governao de d. Fernando Jos de Portugal e Castro,

    na Bahia. Aps dar conta da posse do referido governador, o autor versa sobre a

    tranqilidade desse governo, para ele infelizmente abalada com o desmoronamento de

    terras na cidade baixa de Salvador282. O episdio do desmoronamento serve para que

    Accioli, assim como Vilhena, relate a diligncia do governador, que conseguiu salvar a

    vida de quatro pessoas, que ainda se achavo vivas debaixo das runas283. A diligncia do

    governador, segundo Accioli, tambm constatada, em conformidade com as ordens de

    Martinho de Mello e Castro, em relao vigilncia e cautela em evitar nesta Provncia

    [Bahia] a introduco dos princpios revolucionrios, que se tinham desenvolvidos em

    Frana284.

    Neste sentido, d. Fernando Jos de Portugal e Castro, dotado de consummada

    providncia, viu-se obrigado, mais uma vez, a atender a segurana pblica logo que aos

    (sic) infundados boatos, levados como verdades ao ministrio, que o responsabilisou por

    qualquer frouxido a respeito...285. Para demonstrar a diligncia administrativa do

    governador, portanto a ausncia de frouxido de d. Fernando Jos de Portugal e Castro na

    conduo dos interesses do reino na Bahia, Accioli afirma que em Aviso de 23 de julho de

    1798, succedero as denuncias e [o] apparecimento de circunstancias, que exigiro de sua

    parte [governador] promptas medidas preventivas. s circunstncias referidas, seguem na

    interpretao de Accioli o aparecimento das idias anrquicas ligadas revolta baiana de

    282 Incio Accioli, op.cit., vol. III, p. 15. 283 Idem, p. 16 e ss. 284 Ibidem. 285 Ibidem, idem, p. 16. Como se viu no primeiro captulo e no item sobre Lus dos Santos Vilhena, Accioliprovavelmente se refere s Representaes que chegaram no Reino, dando conta da frouxido dogovernador em relao administrao local.

    113

  • 1798, como o princpio poltico que orientou as aes dos conspiradores286. A esse

    respeito, Accioli afirma

    Foi o primeiro denunciante ao sobredicto governo o Padre Jos daFonseca Neves, capello nos engenhos de Paulo e Argollo e Teive,accusando como conspiradores e propagadores de idas anarchicas[...] Cypriano Barata de Almeida e Marcellino Antonio de Souza;seguindo-se quele denunciante Manuel Jos de Jesus, comunicandoque os conjurados se distinguio por um bzio pendente nas cadeasdo relgio, e que fazio os seos conventiculos nos logares prximos fortaleza de S. Pedro, em cujos ajuntamentos davo vivas liberdade e a Bonaparte287.

    A seguir, Accioli nos conta que na manh de 12 de agosto de 1798 apparecero

    afixados [...] muitos papeis sediciosos concitando o povo a uma revolta, e conquanto a

    respectiva redaco e contexto decidissem assaz contra a importncia de seos autores [...]

    288. Accioli informa que mesmo diante da pouca importncia dos autores dos pasquins

    sediciosos, o governador, d. Fernando de Portugal e Castro, ordenou incontinenti que se

    procedesse s devassas pelas quais foram indigitados cabeas da sedio Luiz Gonzaga

    das Virgens, Joo de Deus do Nascimento, Lucas Dantas de Amorim Torres e Manoel

    Faustino dos Santos Lira. Segundo o autor, durante o curso das devassas instauradas, como

    os procedimentos legais adotados pelos desembargadores Manuel de Magalhes Pinto de

    Avellar de Barbedo e Francisco Sabino lvares da Costa Pinto, foram validados de acordo

    com os princpios da legislao desse tempo, tal situao justificou para Accioli o fato de

    d. Fernando ter rapidamente ordenado que as devassas fossem apresentadas em Relao,

    para o julgamento dos comprehendidos em tal facto, esentenciados pena ltima os trs primeiros cabeas mencionados eManuel Faustino dos Santos Lira, sofrero esta pena em o dia 8 denovembro de 1799 no patbulo, para esse fim levantado na praa daPiedade, sendo outros sentenciados priso e degredo289.

    286 Chamamos ateno para o fato de que os pasquins sediciosos surgiram na manh de 12 de agosto de1798. Segundo Lus Henrique Dias Tavares, o padre Jos da Fonseca Neves denunciou Cipriano Barata, emcarta para d. Maria I, em virtude de suas crticas monarquia absolutista e ao conservadorismo da IgrejaCatlica. Ler, a respeito, Lus Henrique Dias Tavares. Histria da Bahia. So Paulo: Editora da Unesp, 2001.Especialmente os captulos XIII e XVI, respectivamente. 287 Accioli, op.cit., p. 16. Grifo meu. 288 Idem, p. 17. 289 Accioli, op.cit., pp. 19-20.

    114

  • A narrativa de Accioli sobre a revolta baiana de 1798 termina sem fornecer qualquer

    informao mais circunstanciada sobre as pessoas presas e condenadas a degredo. Todavia,

    em nota de rodap, Accioli inicia a transcrio da denncia de Joaquim Jos da Veiga

    contra Joo de Deus do Nascimento, afirmando que disse-se por esta ocasio que pessoas

    de considerao influio na pretendida revolta; mas parece que isto no passava de mero

    boato infundado, por isso que nenhum sensato approva revoltas...290. Abre a questo sobre

    a composio social do evento sem, contudo, resolv-la. No mais, Accioli encaminha o fim

    da narrativa mencionando o zelo de d. Fernando Jos de Portugal e Castro com os negcios

    administrativos do Reino na Bahia.

    A anlise de Incio Accioli basicamente a primeira a relacionar os pasquins

    sediciosos revolta baiana de 1798, corroborando com a lgica do poder de que apenas os

    mdios e baixos setores da sociedade angariavam simpatia pelos princpios revolucionrios

    franceses. exceo da informao sobre a denncia das aes sediciosas de Cipriano

    Barata, que poca era visto como algum que defendia suas idias revolucionrias com

    violncia e virulncia291, chama a ateno o fato de Accioli ter elaborado para o Instituto

    Histrico e Geogrfico Brasileiro uma biografia, no publicada, do padre Francisco

    Agostinho Gomes292, que, como se viu, mereceu uma devassa parte durante o ano de

    1799, para que as autoridades locais averiguassem as denncias que chegaram no reino,

    dando conta da participao do padre em atividades sediciosas e jantares em dias santos.

    Embora Accioli no tenha escrito nada a respeito do padre ao interpretar a revolta baiana de

    1798, pode-se afirmar com relativa tranqilidade que o autor conhecia as informaes

    acerca das aes de Francisco Gomes em Salvador de 1798, at porque a transcrio da

    denncia sobre Joo de Deus do Nascimento em nota de rodap comprova que o autor

    consultou a documentao.

    Neste sentido, o autor reafirma a lgica punitiva do poder local sobre alguns

    aspectos centrais da revolta baiana de 1798. Primeiro, no que se refere circunscrio290 Idem, p. 17. Nota n. 86. 291 Cf. Wilson Martins. Histria da inteligncia brasileira (1794-1855). So Paulo: Cultrix/Edusp, vol. II, p.127-128. O fato de Accioli ter citado as aes anrquicas de Cipriano Barata por ocasio da revolta de1798, muito provavelmente se refere s conseqncias dos posicionamentos polticos de Barata imediatamenteaps a Independncia do Brasil, em 1822, e o fato de Accioli vislumbrar um ofcio caso o primeiro cursojurdico do Brasil fosse fundado no Rio de Janeiro. A esse respeito, Wilson Martins afirma que osdestemperos jornalsticos [Cipriano Barata e Jos da Silva Lisboa] concorreram indiretamente para excluir doRio de Janeiro a sede de um dos cursos jurdicos cuja criao a Cmara discutia em 1826.292 Instituto Histrico e Geogrfico Brasileiro. Biografia de Francisco Agostinho Gomes, por Incio Acciolide Cerqueira e Silva. Lata 113, doc. 4.

    115

  • social e punio exemplar para os baixos setores envolvidos na referida revolta. Depois,

    assim como as autoridades locais fizeram no processo de conduo das devassas, durante os

    anos de 1798-1799, Accioli, ao silenciar algumas informaes sobre Francisco Agostinho

    Gomes, o autor mantm em sua interpretao o silenciamento sobre o envolvimento de

    homens de distinta condio social na revolta de 1798, como tambm no escreve nada a

    respeito dos ngulos das memrias apontados pelos contemporneos.

    O silenciamento de alguns pontos acerca da revolta em tela, nomeadamente queles

    que pem em xeque a lgica punitiva definidas pelas autoridades locais em 1799, sero

    reiterados pelas interpretaes sobre o tema elaboradas ainda no oitocentos, nomeadamente

    entre os intelectuais ligados poltica do segundo reinado. Razo pela quais os intelectuais

    buscaro comprovar em suas anlises o quanto a elite dos tempos coloniais abominava os

    princpios franceses, sendo que esses princpios, a partir de meados do sculo XIX, so

    comumente relacionados autonomia provincial e aos projetos de nao de verniz

    republicano, sempre ameaadores da ordem poltica. Com efeito, a partir de Incio Accioli

    de Cerqueira e Silva, ainda muito preso aos padres descritivos de Lus dos Santos Vilhena,

    a revolta baiana de 1798 merecer destaque como um fato poltico memorvel no que se

    refere diligncia do poder em relao punio exemplar dos rus enforcados e

    esquartejados na Praa da Piedade, na cidade de Salvador de 1799, que deixaram-se

    contaminar pelos abominveis princpios franceses.

    O fato que a interpretao de Incio Accioli de Cerqueira e Silva sobre a revolta

    baiana de 1798 demonstra que o processo de emancipao poltica do Brasil, em 1822, e as

    conseqncias do processo de construo da recente nao foram as balizas pelas quais o

    sculo XIX brasileiro comea a esboar a histria dos tempos coloniais. As lutas pela

    independncia nas provncias significou para os agentes polticos da poca o medo da

    desagregao territorial, da anarquia e da violncia crescentemente exteriorizado pelos

    conflitos anti-lusitanos dos setores urbanos, que tentavam obter com as manifestaes

    meios que garantissem algum tipo de participao poltica293.

    Os setores urbanos, como se sabe, sempre mereceram preocupao dos agentes

    polticos, mas aps as lutas da independncia buscaram-se cada vez mais alternativas de

    controle social. A manuteno do regime monrquico, como criam os agentes polticos do

    293 Ler: Iara Lins F. S. Carvalho Souza. Ptria coroada: o Brasil como corpo poltico autnomo (1780-1831).So Paulo: Unesp, 1999.

    116

  • primeiro Reinado, garantiria no s a unidade nacional como a manuteno da ordem

    social, poltica e econmica da recente nao. Contudo, durante a dcada de vinte do

    oitocentos, tanto a idia de nacionalidade quanto o sentimento nacional, mesmo

    hostilizando o elemento estrangeiro, ainda eram ideais difusos294. Em grande parte porque a

    aclamao de Pedro I como Imperador do Brasil significou menos uma ruptura definitiva

    com Portugal. Havia um paradoxo poltico-ideolgico para os agentes do primeiro Peinado:

    assegurar o direito divino da Dinastia Bragantina reinar no Brasil ao mesmo tempo em que

    se discutia as bases da monarquia, responsvel pelo progresso da recente nao que viria a

    ser centralizada e constitucional. Ocorre que a centralizao monrquica de Pedro I,

    entendida por seus opositores como inclinaes absolutistas, desagradou a elites provinciais

    do Norte e Nordeste, desencadeando ainda mais a hostilidade popular em relao ao

    portugus e colocando em xeque a autonomia do recente Estado brasileiro em relao

    Portugal. John Armitage captou a tenso desse clima poltico como poucos, pois articulou o

    legado da colonizao portuguesa colocando em discusso a autonomia do Estado brasileiro

    durante o primeiro Reinado.

    3. 2. John Armitage.

    O ingls John Armitage (1807-1856) chegou ao Rio de Janeiro em 1828, aos vinte e

    um anos de idade, e mesmo trabalhando para a firma inglesa Philips, Wood and Co., viajou

    com o dinheiro do governo ingls, que tinha interesse em mediar os conflitos na regio

    Cisplatina295. Armitage foi o segundo a escrever, em sua Histria do Brasil, sobre a revolta

    baiana de 1798, aps a emancipao poltica do Brasil, em 1822296. Wilson Martins afirma

    que Armitage, assumindo expressamente o legado de Robert Southey, publicou em Londres

    os dois volumes de sua Histria do Brasil com o ttulo From the period of the arrival of the

    Braganza family, in 1808, to the abdication of Don Pedro the First in 1831. A publicao

    brasileira ocorreu em 1837, com traduo de Joaquim Teixeira de Macedo297. 294 Cf. Maria Odila Leite da Silva Dias. Ideologia liberal e construo do Estado. In: A interiorizao dametrpole e outros estudos. So Paulo: Alameda, 2005, pp. 127-149. 295 Cf. Francisco Iglesias. Historiadores do Brasil: captulos de historiografia brasileira. Rio de Janeiro/BeloHorizonte: Nova Fronteira/Editora da UFMG, 2000. 296 Joo Armitage. Histria do Brasil, So Paulo:EDUSP, 1981. A 1. edio inglesa de 1836. A primeiraedio brasileira de 1837. 297 Cf. Wilson Martins. Histria da inteligncia brasileira (1794-1855). So Paulo: Cultrix/Edusp, 1977, vol.II, p. 221.

    117

  • O autor descreve a revolta de 1798, assim como as demais revoltas do final do

    sculo XVIII, em apenas um pargrafo cada. A principal razo, para as revoltas ocuparem

    pouco espao no conjunto geral da obra, est na primeira pgina do captulo I: o autor no

    deixa dvidas sobre seu objetivo ao afirmar que o Brasil, pela poltica de Portugal, havia

    sido privado de toda a comunicao e comrcio com as outras naes da Europa, que

    das instituies coloniais pouco mais se sabia daquilo que a metrpole assentava dever

    comunicar298.

    Paulo Pereira de Castro demonstra que a obra de Armitage condensa e divulga

    experincias e reflexes de um negociante ingls, radicado no Rio de Janeiro, com o

    principal objetivo de transmitir as informaes coletadas para seus conterrneos, poca

    ambiciosos por estreitarem os laos comerciais com a recente nao brasileira299. Assim,

    Armitage inicia sua narrativa com uma breve descrio dos rgos da administrao rgia

    no Brasil: o poder judicirio, a municipalidade, as tropas de linha e as ordenanas, as ordens

    religiosas e a situao da populao. A concluso do autor sobre a colonizao portuguesa

    no chega a surpreender. Para Armitage, o Brasil estava na infncia da civilizao300. Ao

    tratar especificamente da populao colonial, o autor afirma ser

    bvio que no podia existir homogeneidade de idias e de costumesem um povo composto de tantas castas; contudo, o carter maisgeral era aquele que facilmente se pode calcular, segundo anatureza das instituies301.

    Para o atraso da civilizao brasileira, segundo o autor, concorria uma conjuno de

    fatores:

    Mantido pelo trabalho dos escravos, habitando um clima onde asprodues da terra so quase espontneas, privado do estmulo edas cincias que a livre comunicao com as naes estrangeirasteria ministrado, era pela maior parte um povo indolente eaptico302.

    298 Idem, p. 27.299 Cf. Paulo Pereira de Castro. A experincia republicana. In: Srgio Buarque de Holanda (Org.). HistriaGeral da Civilizao Brasileira. 2a. edio, So Paulo:DIFEL, 1967, tomo II, p. 7-ss; Isabel Marson. OImprio da Revoluo: matrizes interpretativas dos conflitos das sociedade monrquica. In: Marcos Freitas(Org.). Historiografia Brasileira em perspectiva. So Paulo: Contexto/UFS, 1998, pp. 73-102. 300 Armitage, op.cit., nota 7, p. 233. 301 Op.cit, p. 30.302 Idem.

    118

  • Ao tratar da falta de progresso na educao e na cultura da colnia portuguesa,

    Armitage afirma que as histrias da Grcia e Roma, o Contrato Social de Rousseau e [a

    obra] do Abade Raynal, que haviam escapado vigilncia das autoridades, foram as

    nicas fontes de instruo303. Para o autor tal era a ausncia de todos os dados de

    sociabilidade, que podia se afirmar a no existncia de uma opinio pblica.

    justamente com o objetivo de atestar a ausncia de opinio pblica e o estado

    infantil da civilizao brasileira, que Armitage descreve brevemente as revoltas ocorridas

    no Brasil, no final do sculo XVIII. O autor no se preocupa em estabelecer relaes

    especficas de causa e efeito para cada uma das revoltas; tampouco se preocupa com os

    princpios polticos e ideolgicos dos movimentos. Ao contrrio, as revoltas so tratadas em

    seu conjunto e so encadeadas no primeiro captulo com equvocos de datao, como o

    caso, por exemplo, da Revolta Carioca. Sabe-se h muito que essa revolta ocorreu em

    1794304, todavia Armitage no fornece uma data precisa para o evento, limitando-se a

    afirmar que durante o governo do Conde de Rezende, desde 1790 at 1801, tentou-se o

    estabelecimento de uma Academia Literria.

    Muito provavelmente o autor no considerava o estabelecimento da Academia

    Literria como uma revolta, mas o fato que foi cometendo outro erro de datao que

    Armitage tratou da revolta baiana de 1798, em apenas um pargrafo. O autor afirma que

    a gente de cor na Bahia tramou tambm uma revolta em 1801, masfoi descoberta antes que se tivesse efetuado tentativa alguma, porquea recproca comunicao das provncias no prestava para que segeneralizasse [...]305.

    A razo do malogro da revolta, como se viu, relaciona-se ausncia de uma esfera

    pblica e precariedade de infra-estrutura do perodo colonial. A situao dos brasileiros,

    para Armitage, era na verdade miservel comparada com a que gozavam os europeus pela

    civilizao, pois nada se comparava com a tirania sobre eles exercida306. Com efeito,

    para Armitage

    303 Ibidem. 304 Cf. Afonso Carlos Marques Santos. No rascunho da nao: Inconfidncia no Rio de Janeiro. Rio deJaneiro: Secretaria Municipal, 1992; Amrico Jacobina Lacombe. A conjurao do Rio de Janeiro. In: SrgioBuarque de Holanda, op.cit., tomo I, pp. 406-410. 305 Armitage, op.cit., p. 31.306 Idem.

    119

  • se no tivesse sido impelido por ocorrncias extraordinrias, oBrasil teria por sculos continuado a ser conhecido pela Europa,unicamente como um colosso submisso, sem pretenses, edependente de Portugal 307.

    Interessa reter, de momento, da narrativa de Armitage sobre as revoltas do final do

    sculo XVIII, o fato de que os erros de datao no encontram paralelo na documentao.

    Tanto mais que, nas notas de rodap, o autor limita-se a emitir impresses e consideraes

    pessoais acerca dos agentes metropolitanos no Brasil, que demonstravam maior erudio

    que os demais. Como para o ingls a erudio significava o domnio das lnguas inglesa e

    francesa, chama a ateno a exepcionalidade dos agentes narrados308. Portanto, nesse caso, a

    falta de erudio da populao em geral serviu para que o autor confirmasse a idia de

    atraso da civilizao brasileira.

    Depois, o erro de datao sugere que o autor deve ter obtido algumas informaes

    sobre as revoltas com as pessoas de seu convvio durante sua permanncia no Rio de

    Janeiro. Neste ponto em especial, cumpre ressaltar o circuito da informao sobre a

    punio exemplar na memria coletiva. A efetivao da lgica punitiva das autoridades

    rgias na aplicabilidade da punio exemplar dos rus condenados por crime de lesa-

    majestade, i.e., o enforcamento seguido do esquartejamento das partes de Tiradentes, em

    1792, e dos quatro rus enforcados e esquartejados em Salvador, em 1799, eram temas do

    tempo ido bastante eficazes para aquele momento particularmente conturbado pelos setores

    mdios e baixos, que ganhavam as ruas com seus tumultos e motins309. Seja como for,

    embora Armitage tenha escrito em nota de rodap a respeito da erudio de d. Fernando

    Jos de Portugal, no h em sua obra qualquer comentrio a respeito da atuao do

    governador para desbaratar a revolta baiana de 1798, ou mesmo sobre o enforcamento dos

    307 As ocorrncias extraordinrias, segundo Armitage, referem-se invaso napolenica e Revoluo doPorto, op.cit., p. 32 e 35, respectivamente. 308 Um dos agentes dotados de erudio para o ingls d. Fernando Jos de Portugal e Castro. AfirmaArmitage que d. Fernando em um perodo subseqente, quando Ministro de Estado sob d. Joo VI, publicouele uma traduo em portugus do Ensaio sobre o homem, de Pope, e do Ensaio sobre a crtica, do mesmoautor, acompanhado de muitas notas que evidenciam vasta erudio. Cf. Armitage, op.cit., nota 13, p. 235. 309 A literatura do tema vasta, mas Marcello Basile retrata com bastante propriedade o impacto dos vriostumultos causados pelo populacho durante o perodo em que Armitage esteve no Rio de Janeiro. Ler arespeito: Anarquistas, rusguentos e demagogos: os liberais exaltados e a formao da esfera pblica nacorte imperial (1829-1834). Dissertao de mestrado, IFCS/UFRJ/Rio de Janeiro, 2000.

    120

  • rus em praa. O autor, entretanto, reproduz a circunscrio social dos partcipes da revolta

    de 1798 formulada pelas autoridades locais: homens de cor da Bahia.

    Cumpre, ainda, ressaltar da narrativa de Armitage duas questes relacionadas idia

    de civilizao e progresso econmico. A primeira que o entendimento das revoltas do

    final do sculo XVIII, em seu conjunto, inscreve-se como parte de um mesmo processo,

    segundo o qual representaram uma manifestao de desagravo tirania do governo

    portugus, e foram malogradas justamente por isso, pela tirania do jugo colonial. A situao

    de tirania, para Armitage, comea a dar sinais de mudanas com os desdobramentos da

    instalao da Corte portuguesa no Rio de Janeiro, em 1808, nomeadamente a extino do

    exclusivo comercial e a transformao do estatuto poltico do antigo domnio colonial para

    a condio de Reino Unido a Portugal e Algarves, em 1816.

    A segunda questo relevante para Armitage foi o papel fundador das revolues

    liberais no progresso da civilizao europia e as respectivas conseqncias desses

    processos na Amrica. Para Armitage, pelos fins do XVIII sculo, os acontecimentos se

    sucediam, e seus efeitos deviam-se estender aos confins da terra310. Com a ateno voltada

    para o significado poltico-econmico das Revolues Americana e Francesa, Armitage

    afirma que

    os efeitos de suas vitrias no se limitaram ao hemisfrio em queeram conseguidas. Delas nasceu a independncia de todas asColnias Espanholas da Amrica Meridional, e [forou] a FamliaReal de Portugal a refugiar-se no Brasil, criaram (sic) uma nova erana histria deste pas311.

    No difcil entender a razo pela qual Armitage no tenha comentado sobre a

    lgica punitiva orquestrada por d. Fernando Jos de Portugal e Castro. Wilma Peres Costa

    demonstra o impacto econmico e poltico causado com a chegada da famlia real no Brasil,

    em 1808, para os agentes polticos brasileiros e para os estrangeiros que aqui estavam. Para

    a autora, a grande questo volta da qual estes homens estavam, em um primeiro momento,

    era a eliminao dos entraves econmicos da dominao colonial combinada

    continuidade do pertencimento, em novas bases, nao portuguesa312. Neste sentido,

    310 Armitage, op.cit., p. 31.311 Idem, p. 32.312 Cf. Wilma Peres Costa. A Independncia na historiografia brasileira. In: Istvn Jancs (Org.).Independncia: histria e historiografia. So Paulo: FAPESP/Hucitec, 2005, pp. 53-118.

    121

  • Armitage afirma, aps descrever uma srie de providncias tomadas com a chegada da

    famlia real, em 1808, que

    de todas as medidas, e principalmente a franqueza dos portos,seguiram-se para o Brasil grandes vantagens. As produes do pasalteraram de preo, ao mesmo tempo que diminuram os de todas asmercadorias estrangeiras; modificou-se muito o despotismo dosCapites Generais pela instituio dos novos tribunais; e acivilizao e as artes receberam um grande impulso da livreadmisso dos estrangeiros (...)313.

    Para o autor, alm da abertura dos portos ter significado maior impulso para a

    civilizao brasileira, alguns males sobrevieram em funo da permanncia do domnio

    portugus, mesmo em novas bases, aps 1808. Armitage afirma que o clima de

    descontentamento comeou a se instaurar, pois os portugueses que aqui chegaram

    pouco se interessavam pela prosperidade do pas: consideravamtemporria a sua ausncia de Portugal, e propunham-se mais aenriquecer-se custa do Estado, do que administrar justia ou abeneficiar o pblico314.

    A dinamizao comercial tambm corroborou para acirrar os nimos, pois o contato

    com as outras naes pela abertura dos portos produziu ampla notcia do que se passava

    em outros pases; e da se seguiu muito descontentamento contra o governo, especialmente

    nas provncias do Norte, que estavam ainda sujeitos a uma pesada quota de encargos ..315.

    Nesse ponto em especial, Armitage afirma que a conseqncia dos pesados encargos

    tributrios foi a organizao de uma sociedade democrtica em Pernambuco no ano de

    1814, com o fim expresso de se instaurar um Governo Republicano. Para Armitage,

    haveria talvez idias exageradas da parte dos conspiradores;porm, considerando que tinham a Amrica do Norte por um lado, eas Colnias Espanholas j lutando pela sua independncia do outrolado, era natural que assim tentassem (...)316.

    Segundo o autor, como os conspiradores visavam adoo de instituies

    representativas, o Prncipe Regente, tentando evitar o exemplo dos vizinhos espanhis,

    313 Armitage, op.cit., p. 32.314 Idem, p. 33315 Idem, p. 34. 316 Idem, p. 34.

    122

  • elevou o Brasil categoria de Reino Unido. Desta feita, quando Armitage interpreta a

    revolta pernambucana de 1817, alm de reafirmar o atraso da Coroa portuguesa em relao

    implantao de instituies representativas, inaugura de certa forma a perspectiva de

    interpretao sobre o impacto das revolues liberais no ocidente e o papel civilizador

    desses movimentos317.

    O fato que parece inegvel que a interpretao de Armitage sobre as revoltas do

    final do XVIII, nomeadamente a revolta baiana de 1798, mesmo reafirmando o

    protagonismo dos homens de cor da Bahia, se inscreve como mais uma manifestao de

    desagravo tirania colonial. Situao bastante distinta da interpretao sobre o significado

    da revolta pernambucana de 1817, pois Armitage a relaciona com os desdobramentos da

    chegada da famlia real, em 1808, e, num plano mais geral, com o impacto das revolues

    liberais na Amrica, especialmente a de 1776. Nessa perspectiva, Armitage no v a

    Independncia do Brasil como um desdobramento natural da colonizao portuguesa. Ao

    contrrio, pois alm de no esconder sua antipatia pelo herdeiro da dinastia bragantina e

    pelo legado da colonizao portuguesa, Armitage nunca escondeu seu entusiasmo pelos

    ideais liberais de 1776. Por essas e outras, a obra de John Armitage, especialmente a autoria

    de sua Histria do Brasil foi questionada, instaurando uma polmica entre os scios do

    Instituto Histrico e Geogrfico Brasileiro.

    No dia 25 de setembro de 1862, em um momento em que o Segundo Reinado j

    comeava a ficar desgastado, Francisco Luiz da Veiga escreveu para o cnego Joaquim

    Caetano Fernandes Pinheiro sobre uma carta de John Armitage endereada a Evaristo da

    Veiga. Conta Luiz da Veiga que encontrou

    uma carta de John Armitage dirigida ao Snr. Evaristo, escrita emBoulogne Sur mer a 21 de Setembro de 1836, a qual provaexhuberantemente e firma de uma vez a opinio controversa at hoje[1862], de ser aquelle cidado inglez o verdadeiro e nico autor daHistria do Brasil que traz o seo nome318.

    317 Essa perspectiva aparecer redefinida no sculo XX, a partir das concepes em torno do impacto daRevoluo Francesa na Amrica Latina. Como se ter oportunidade de demonstrar no prximo captulo, osautores que versaram sobre a revolta baiana de 1798, no sculo XX, cada um a sua maneira, interpretam aRevoluo Francesa como um fenmeno histrico democrtico que abalou o mundo ocidental como um todo.O fenmeno histrico francs, nessa perspectiva, teria seu ponto de partida nas colnias inglesas na Amricado Norte por volta de 1770 e o mesmo sopro revolucionrio teria fomentado na Europa e suas colnias umasrie de movimentos e revolues. 318 Carta de Luiz Francisco da Veiga ao Cnego Joaquim Caetano Fernandes Pinheiro, oferecendo um cadernocom 6 autgrafos correspondentes a 6 Hinos compostos por Evaristo Ferreira da Veiga por motivo daIndependncia e. Rio de Janeiro, 25 de setembro de 1862 2 fls. IHGB, cdice Joaquim Caetano Fernandes

    123

  • Francisco Luiz da Veiga refere-se a uma polmica entre os scios da agremiao em

    torno da verdadeira autoria da obra de John Amitage. Para o missivista, a razo da polmica

    era clara: muito natural que entretendo o historiador inglez relaes de amisades com o

    Snr. Evaristo [da Veiga], soffresse a sua historia a influencia moral dessas relaes319.

    Embora a polmica tenha ocupado muito tempo e alguma tinta dos beletristas, durante o

    perodo em que o ingls esteve no Rio de Janeiro, a amizade entre ele e Evaristo da Veiga

    (1799-1837) parece ter sido de fato muito estreita. Evaristo da Veiga foi considerado

    durante muito tempo o tradutor de boa parte da obra de Armitage, muito provavelmente em

    razo de suas posies polticas. Depois, o historiador ingls referiu-se ao peridico do qual

    Evaristo da Veiga era redator, Aurora Fluminense (1827-1839), como um jornal que

    exercera considervel influncia na cena poltica da poca. De acordo com Wilson

    Martins, o peridico em questo veiculava as mais duras crticas poltica centralizadora de

    Pedro I. O impacto da pena de Evaristo da Veiga foi tanto que a esse respeito Joaquim

    Nabuco chegou a afirmar que os dois relevantes acontecimentos intelectuais da poca

    tinham sido a pena de Evaristo da Veiga e a palavra de Bernardo Pereira de

    Vasconcelos320.

    Cabe ressaltar que os dois polticos mencionados por Joaquim Nabuco exerceram

    papis preponderantes nos momentos finais do primeiro reinado, sendo que, em 1831,

    Evaristo da Veiga estava entre os fundadores da Sociedade Defensora da Liberdade e

    Independncia Nacional, empenhado na defesa das liberdades constitucionais como

    condio sine qua non de consolidao da recente ptria brasileira321. Bernardo Pereira de

    Vasconcelos, por sua vez, deputado e futuro ministro do imprio, ao estrear na cena

    poltica, na legislatura de 1826, props na Cmara que se adotassem no Brasil instituies

    jurdicas segundo o modelo britnico, mencionando em discurso, inclusive, a revolta

    mineira de 1789 de maneira bastante positiva. Pereira de Vasconcelos afirmou que

    fama que os mineiros j pelo ano de 1790 conceberam omajestoso projeto de sacudir o jugo europeu: os homens mais gentis

    Pinheiro, Lata 177 Pasta 128.319 Idem, verso. 320 Wilson Martins, op.cit., vol. II, p. 128. 321 Idem, p. 134.

    124

  • nas letras e nas armas eram apontados como os autores destagloriosa empresa que no chegou a realizar-se [...]322.

    Apesar de garantir Provncia de Minas um papel relevante no processo de

    Independncia do Brasil, em 1822, quando estava definitivamente afastado o perigo de

    restaurao portuguesa, Bernardo Pereira de Vasconcelos, capitaneando outros polticos do

    perodo regencial, recuou em relao s propostas reformadoras e o significado da revolta

    mineira de 1789, afirmando, um ano depois:

    Fui liberal; ento a liberdade era nova no pas, estava nasaspiraes de todos, mas no nas leis, no nas idias prticas; opoder era tudo; fui liberal. Hoje, porm, diverso o aspecto dasociedade: os princpios democrticos tudo ganharam e muitocomprometeram, a sociedade que ento correia risco pelo poder,corre agora risco pela desorganizao e anarquia [...]323.

    Apesar de exercerem papis relevantes na cena poltica, durante na abdicao de

    Pedro I, em abril de 1831, Evaristo da Veiga e Bernardo Pereira de Vasconcelos no eram

    liberais exaltados, avessos ao liberalismo econmico e partidrios do socialismo utpico de

    Fourier e Saint-Simon. Ao contrrio, pois alm da mudana de posio de ambos os

    polticos demonstrarem que as revoltas coloniais do final do sculo XVIII, no plano

    ideolgico, significavam as ameaas da anarquia social e fragmentao da nao, cabe

    considerar que mesmo a crtica radical sociedade imperial encontrava na prpria

    sociedade imperial limites significativos324.

    Maria Odila Dias explicita as contradies liberais do perodo, quando demonstra

    que as reformas inspiradas no sistema presidencialista norte-americano, ao fim e ao cabo,

    fortalecem o poder central a fim de garantir o que estava constantemente ameaado pelas

    revoltas provinciais: a unidade nacional325. Srgio Buarque de Holanda argutamente

    percebeu as contradies desses liberais ao quererem adaptar para o Brasil as instituies

    democrticas americanas. Para o autor, essas contradies prepararam o caminho para a

    centralizao poltica, pois a implantao de instituies consideradas modernizadoras e322 Apud, Claudia Regina Callari. Os Intitutos Histricos: do Patronato de D. Pedro II construo doTiradentes. Revista Brasileira de Histria, So Paulo, v. 21, n. 40, 2001, p. 62. Texto disponibilizado pelostio: www.scielo.br323 Idem. 324 Veja-se sobre a atuao contraditria dos liberais exaltados durante o final do primeiro reinado e a regnciao trabalho de Marcelo Basille, op.cit.325 Maria Odila L. S. Dias, op.cit., p. 141.

    125

  • descrentalizadoras, como o jri e o juiz de paz eletivo, por exemplo, paradoxalmente

    reforaram o tradicionalismo e desencadearam as lutas entre as faces locais pelo

    mandonismo326.

    Nesse quadro, assimetria regional e cultural decorrente do descompasso de

    aspiraes polticas entre as provncias do Nordeste e do Sul, agravadas sobremaneira pela

    outorga da Carta de 1824, somaram-se o temor da elite imperial diante dos excessos

    democrticos da Frana revolucionria e dos desdobramentos da Revoluo Haitiana,

    freqentemente associada s conseqncias das revoltas populares na Corte e s revoltas

    provinciais. Com efeito, a oposio poltico-administrativa da elite em relao

    implantao de reformas propostas por adeptos dos princpios americanos a viabilidade de

    transformar o legado colonial em uma sociedade moderna - perdia fora ao confrontar-se

    com o perigo das mltiplas tenses raciais e sociais, as quais os ameaavam

    constantemente. Para Maria Odila Dias, a difuso dos princpios da Revoluo americana

    se faria num clima exarcebado de reao, provocado pela Revoluo de So Domingos e

    acentuado pelo terror na Frana...327. Nesse caso, para alm das medidas de controle

    social com a estabilidade do poder Judicirio combinado a um forte aparato repressivo, o

    medo de uma revolta escrava, o haitianismo, foi uma poderosa arma ideolgica dos agentes

    polticos mais conservadores, preocupados em afastar a ameaa dos princpios republicanos

    e reformas liberais no processo de consolidao do Estado brasileiro.

    Diante dos conflitos que ameaavam constantemente a unidade territorial brasileira

    e demonstravam que a opo republicana no estava de todo descartada, o ministrio das

    capacidades328, do Regresso conservador, percebeu que para manter a unidade territorial

    no bastava o uso da fora nos combates locais: era preciso conferir-lhe uma identidade

    nica329. A centralizao poltica, portanto, passou a ser o objetivo prioritrio para o

    Regresso conservador, estabelecendo-se, assim, instituies fundamentais para corrigir a

    orientao descentralizadora do perodo regencial330. Nesse empuxo, criaram-se instituies326 Srgio Buarque de Holanda. A herana colonial sua desagregao. In: Histria da CivilizaoBrasileira. So Paulo: Difel, 1995, vol. 1, p. 19. 327 Maria Odila L. S. Dias, op.cit., p. 133. 328 O Regresso conservador, com a nomeao do pernambucano Arajo Lima como regente do Imprio, em 18de setembro de 1837, representou basicamente a tentativa de por fim aos conflitos que prevaleceram durante aRegncia. Veja-se Ilmar Rohloff de Mattos. O Tempo Saquerema. So Paulo: Hucite, 2004. 329 Cf. Bernardo Ricupero. O Romantismo e a idia de Nao no Brasil (1830-1870). So Paulo: MartinsFontes, 2005. 330 Foram criados nesse perodo o Conselho do Estado, que voltou a funcionar em 1837, a lei de interpretaodo Ato Adicional, de 1840, e a reforma do Cdigo de Processo, de 1841. Ilmar Mattos afirma que o objetivo

    126

  • como: o colgio Pedro II, o Arquivo Pblico do Imprio e o Instituto Histrico e Geogrfico

    Brasileiro, em 1838, que tinham por objetivo comum o que Bernardo Ricupero demonstra

    ter sido a principal tarefa desses homens: completar a obra da emancipao poltica,

    dotando a nao em constituio de maior autonomia cultural331. Com efeito, como

    projeto poltico subvencionado pelo conservadorismo da poltica do Regresso, tanto a

    literatura quanto a historiografia nacional, forjadas a partir do Rio de Janeiro, inserem-se

    num mesmo processo, segundo o qual os homens de letras procuraro usar a cultura com

    objetivos prticos: organizar a hegemonia poltica do Estado brasileiro e promover o

    progresso material da nao sem, contudo, tocar no escravismo332.

    Articulando a definio de conceitos como unidade e identidade, a idia de nao

    brasileira oitocentista foi pensada por homens de letras que conviviam com relativa

    tranqilidade com a escravido, ao mesmo tempo em que tomaram para si a tarefa de

    civilizar a sociedade brasileira que eles criam ser marcadamente embrutecida por esse

    mesmo sistema. Com efeito, os romnticos colocaram a identidade brasileira como

    problema sem, contudo, resolv-la. Primeiro porque, como demonstra Emlia Viotti, a

    outorga de 1824 foi o primeiro alvor de um liberalismo, mais preocupado com a liberdade

    de proprietrio, de bens e de idias do que com a contestao das desigualdades jurdicas e

    polticas, legitimando em termos ideolgicos a coexistncia da cidadania de poucos e a

    escravido da maioria. Depois, o pensamento poltico brasileiro, no oitocentos, foi

    profundamente marcado pelo ecletismo da verso francesa do liberalismo conservador

    ingls, de inspirao lockeana, que se ajustava perfeitamente ao imprio poltico liberal de

    base escravista333. Bernardo Ricupero afirma que diferentemente dos romnticos franceses e

    alemes, que viam com desconfiana o progresso da civilizao e dos rumos do

    capitalismo, os romnticos brasileiros muitas vezes criticaram a barbrie da escravido ao

    mesmo tempo em que foram grandes entusiastas das oportunidades de progresso que o

    capitalismo poderia oferecer civilizao brasileira, conciliando a liberdade com a ordem

    existente334.

    dessas instituies era limitar a autonomia provincial, regulamentar a nomeao de juizes e unificar a polcia.Cf. Ilmar R. Mattos, op.cit., Bernardo Ricupero, op.cit., Manoel Lus Salgado Guimares, op.cit. 331 Idem, p. 98. 332 Antonio Candido. Formao da literatura brasileira. Belo Horizonte: Itatiaia, 1993. 333 Veja-se Emlia Viotti da Costa. Da Monarquia Repblica: momentos decisivos. So Paulo: EditorialGrijalbo, 1977, pp. 116-117. 334 Cf. Bernardo Ricupero, op.cit., especialmente o captulo 1.

    127

  • Nesse processo, o projeto de uma histria nacional foi deslocado do plano do

    discurso acadmico, como no caso do romantismo europeu335, para o plano da ao poltica.

    A respeito da exeqibilidade do projeto poltico no campo historiogrfico, Jos Murilo de

    Carvalho chama ateno para a homogeneidade ideolgica exercida pela elite poltica e

    intelectual formada em Coimbra, no final do sculo XVIII e incio do XIX, que integrou os

    quadros das instituies recm inauguradas para promover o progresso da nao

    brasileira336. No obstante a tese do autor sobre a homogeneidade ideolgica desse grupo

    explicar a singularidade do modelo de Estado adotado no Brasil em relao s ex-colnias

    espanholas, desconsiderando o peso para a unidade nacional da manuteno da escravido e

    do trfico at 1850337, o que importa reter das proposies do autor que o projeto de

    construo de uma histria nacional s foi possvel porque a homogeneidade ideolgica

    desse grupo, testa do Instituto Histrico e Geogrfico Brasileiro, configurou-se em uma

    militncia intelectual absolutamente afinada com o projeto centralizador da Regncia e

    depois do segundo Reinado338.

    Nessa circunstncia, o IHGB nasce da Sociedade Auxiliadora da Indstria Nacional

    (SAIN), entidade qual a agremiao inicialmente filiada e em cujas dependncias

    realizar sua primeiras reunies. Contam inicialmente com 50 scios efetivos, residentes na

    corte, metade pertencente seo de histria, a outra metade seo de geografia, alm de

    vrios scios honorrios e correspondentes339. A ligao dos quadros do IHGB com o poder

    tanta que, alm do fato de o Estado ser o responsvel por 75% da verba do instituto, logo335 Cf. Bernardo Ricupero, especialmente o captulo 1. 336 Ler: Jos Murilo de Carvalho. A construo da ordem: a elite poltica imperial. Rio de Janeiro: Campus,1980. 337 Luiz Felipe de Alencastro chama ateno para a manuteno da unidade nacional se relacionar om aescravido. O trfico de escravos foi proibido em 1831, mas tanto os polticos do Regresso conservadorquanto do Partido Conservador, no segundo reinado, no combateram o trfico efetivamente. Para o autor,centralizao e trfico de escravos faziam parte do mesmo projeto poltico, pois alm de o sistema federativoabrir brechas que colocariam a escravido em risco, as provncias do Norte e do Sul no contariam com anegociao do poder central para diminuir a ao da marinha inglesa no combate ao trfico. Veja-se, LuizFelipe de Alencastro. La traite ngrire et lunit nationale brsilienne. Revue franaise dOutre Mer, n. 244-245, 1979; Maria Odila da Silva Leite Dias, op.cit.; para o caso de Pernambuco, ler: Marcus Joaquim Macielde Carvalho. Liberdade: rotinas e rupturas do escravismo. Recife, 1822-1850. Recife: Editora Universitriada UFPE, 1998; para a Bahia, Ktia M. de Queirs Mattoso. Da Revoluo dos Alfaiates riqueza dosbaianos no sculo XIX. Salvador: Corrupio, 2004. 338 Ler a respeito: Lcia Maria Paschoal Guimares. O tribunal da posteridade. In: Maria Emlia Prado (Org.).O Estado como vocao: idias e prticas polticas no Brasil oitocentista. Rio de Janeiro: Access, 1999, pp.33-57; Lcia Maria Paschoal Guimares. Debaixo da Imediata Proteo de Sua Majestade. O InstitutoHistrico e Geogrfico Brasileiro (1838-1889). Tese de doutoramento. So Paulo: DH/FFLCH/USP, 1995. 339 Segundo Lcia Paschoal Guimares, a SAIN surge em 1827 e funcionar at 1904. Seu principal objetivoera difundir conhecimentos teis lavoura e demais industrias nacionais. A partir de 1840, o IHGB passa arealizar suas sesses no Pao Imperial. Debaixo da Imediata Proteo de Sua Majestade., op.cit.

    128

  • nos primeiro anos, dos 27 presentes sesso de fundao, 22 ocuparo papel de destaque

    durante o segundo reinado, dez deles tornado-se, inclusive, conselheiros de Estado e, seis,

    senadores340.

    Dos vinte e quatro scios fundadores cuja escolaridade conhecida, constata-se a

    predominncia da formao jurdica de Coimbra, seguindo-se os cursos de preparo para as

    carreiras das armas. Alm de ser um forte indicativo da homogeneidade cultural e

    ideolgica dos primeiros associados do IHGB, Lcia Paschoal Guimares rastreou a

    documentao sobre a procedncia social de 60% dos scios fundadores. Segundo a autora,

    ao contrrio do que afirma Jos Murilo de Carvalho sobre proeminncia dos cafeicultores

    fluminenses nos quadros da agremiao, predominavam no grupo dos primeiros scios os

    indivduos de origem urbana, descendentes de militares e funcionrios pblicos. Setores

    que, segundo a autora, articulados ao comrcio, foram os idelogos da Independncia,

    optando pela adoo do regime monrquico, que retornaram no final da Regncia e

    exerceram relevantes papis na poltica do Segundo Reinado341.

    O perfil dos scios correspondentes do Instituto no menos ilustre. O grupo

    constitudo por presidentes de provncias, juzes, lentes, diplomatas e alguns estrangeiros,

    membros de agremiaes congneres na Europa, evidenciando o empenho da instituio em

    atrair os representantes das provncias, a maioria produtores de acar e traficantes de

    escravos, para um mesmo projeto. Bernardo Ricupero afirma que foi a partir de aes como

    as da arregimentao da intelectualidade das provncias agremiao que o Estado pde

    funcionar como espao de unificao das classes dominantes as quais se converteram

    efetivamente em classe dirigente342.

    Aps o estabelecimento da agremiao no Pao Imperial, de fortalecer a figura do

    menino-imperador com pompa e circunstncia atravs de comemoraes dos natalcios

    imperiais, da cerimnia do beija-mo, entre outras, os scios do IHGB, sob a pena de seu

    secretrio-perptuo, o cnego Janurio, decidiu oferecer um prmio de 200$000 rs para

    quem apresentasse o melhor plano de se escrever a histria antiga e moderna do

    Brasil.... Embora o plano tenha sido considerado em um primeiro momento inexeqvel, a

    340 Bernardo Ricupero, op.cit.; Lcia Maria Paschoal Guimares, op.cit.; Jos Murilo de Carvalho, op.cit.;Arno Wehling. As origens do Instituto Histrico e Geogrfico Brasileiro. RIHGB, Rio de Janeiro, 1982, n.382. 341 Lcia Maria Paschoal Guimares. O tribunal da posteridade, op.cit., p. 42342 Bernardo Ricupero, op.cit., p. 128.

    129

  • comisso julgadora decidiu que a memria apresentada por Karl von Martius (1794-1868)

    serviria como modelo para futuros trabalhos apresentados ao IHGB343.

    Para Martius a histria uma mestra que deve despertar virtudes cvicas para

    um povo novo como o brasileiro. Se a expresso povo novo enunciava as trs raas a

    serem contempladas na obra, Martius mais especfico quando afirma que a histria do

    Brasil deveria ser escrita para

    os republicanos de todas as cores, idelogos de todas asqualidades. justamente entre estes que se acharo muitas pessoasque estudaro com interesse a Histria de seu pas natal; para eles,pois, dever ser calculado o livro para convenc-los por umamaneira destra da inexeqibilidade de seus projetos utpicos344.

    Para que no restassem dvidas quanto ao papel da histria no processo de formao

    da nao brasileira, Martius afirma que o historiador do Brasil dever escrever como autor

    monrquico-constitucional. Estabelecidas as diretrizes poltico-historiogrficas para a

    legitimao do processo de dominao social e poltica do Regresso conservador, a histria

    do Brasil ser escrita pelo scio mais diligente do IHGB, o diplomata e historiador

    Francisco Adolfo de Varnhagen345.

    3. 3 Francisco Adolfo de Varnhagen.

    Francisco Adolfo de Varnhagen, Visconde de Porto Seguro, nasceu na cidade de

    Sorocaba, ento provncia de So Paulo, em 17 de Fevereiro de 1816, filho do Sargento-

    Mor do Real Corpo de Engenheiros Frederico Luiz Guilherme de Varnhagen e de sua

    mulher D. Maria Flavia de S Magalhes. Seu pai era engenheiro militar com boa formao

    tcnica, prestando servios Coroa Portuguesa na fbrica de ferro de Figueir dos Vinhos,

    quando voltou para o Brasil convocado por d. Rodrigo de Souza Coutinho para trabalhar na

    fbrica de ferro de Ipanema346.

    343 Bernardo Ricupero, op.cit.; Maria Lcia Paschoal Guimares, op.cit.; Manoel Lus Salgado Guimares,op.cit.; Arno Wehling, op.cit. 344 Karl F. P. von Martius. Como se deve escrever a histria do Brasil. RIHGB, n. 6, 1844, pp. 381-403. 345 Cf. Nilo Odlia. As formas do mesmo: ensaios sobre o pensamento historiogrfico de Varnhagen eOliveira Vianna. So Paulo: Unesp, 1997. Ler a respeito das balizas polticas do Regresso conservador nopensamento de Varnhagen, especialmente, o captulo 1: Uma viso de mundo poltica., pp. 25-42. 346 So vrios os bigrafos de Francisco Adolfo de Varnhagen. Ler, entre outros: Hans Jrgen Wilhem Horsch.Francisco Adolfo de Varnhagen: subsdios para uma bibliografia (1816-1878). So Paulo: Unidas, 1982;

    130

  • Varnhagen permaneceu em Sorocaba por sete anos, transferindo-se com sua famlia

    para Portugal em 1823. Cursou seus primeiros estudos no Real Colgio Militar da Luz,

    matriculando-se, em seguida, na Academia da Marinha. Foi aluno do Colgio dos Nobres e

    cursou a Academia de Fortificaes, titulando-se engenheiro, em 1834. Com pretenses

    historiogrficas, Varnhagen submete seu trabalho As reflexes crticas sobre um texto de

    Gabriel Soares de Sousa, publicado em 1839, Academia Real das Cincias de Lisboa.

    Aos 24 anos, licenciou-se do exrcito portugus e retornou ao Brasil, pleiteando a

    nacionalidade brasileira ao governo imperial, que lhe foi concedida por decreto em 24 de

    setembro de 1844347. Contando com a relevante indicao de Antonio Meneses Vasconcelos

    de Drumond, ministro plenipotencirio do Imprio em Lisboa, Varnhagen foi admitido

    como scio-correspondente do Instituto Histrico e Geogrfico Brasileiro, por decreto de

    1840, cinco dias antes do golpe da Maioridade que encerrou o perodo regencial.

    Em 1842, foi nomeado Oficial do Imperial Corpo de Engenheiros, do qual mais

    tarde pediu demisso para seguir a carreira diplomtica. Em 1851 j era encarregado dos

    negcios de Madrid, servindo misso junto s Repblicas do Pacifico e Corte de Viena, e

    elegeu-se primeiro-secretrio do IHGB348. A partir da, conforme seus bigrafos,

    Varnhagem desempenhou relevantes servios junto s misses da Pennsula Ibrica das

    dcadas de 1840-1850, s misses americanas de 1859-1867 e ao Imprio austro-hngaro

    em 1868-1878349. A par disso, como primeiro-secretrio, Varnhagen passou a ter contato

    direto com Pedro II, que freqentava assiduamente as sesses da agremiao. Organizou a

    biblioteca da agremiao, compilou e organizou documentos sobre o Brasil, na maioria das

    vezes dispersos nas provncias e nos arquivos portugueses e espanhis.

    Orlando de Carvalho Damasceno. Ligeiro esboo biogrfico de Francisco Adolfo de Varnhagen: primeiro eltimo Visconde de Porto Seguro. Separata da Revista do Arquivo Municipal de So Paulo, n. 126,Departamento de Cultura, Diviso do Arquivo Histrico, 1949; Jos Honrio Rodrigues. Varnhagen, mestreda histria geral do Brasil. RIHGB, vol. 275, 1967, pp. 170-196; Clado Ribeiro Lessa. Vida e obra deVarnhagen. RIHGB, n. 224, 1954; Francisco Iglesias. Historiadores do Brasil: captulos da historiografiabrasileira. So Paulo/Belo Horizonte: Nova Fronteira/ Ed. Da UFMG; Capistrano de Abreu. Sobre oVisconde de Porto Seguro. Ensaios e Estudos (Crtica e Histria). Rio de Janeiro/Braslia: CivilizaoBrasileira/INL, 1a. srie, 2a. edio, 1975. 347 Cf. Lcia Maria Paschoal Guimares. Op. cit., p. 77; Temstocles Amrico Corra Cezar. Varnhagen: umhistoriador entre a Europa e o Novo Mundo: ensaio sobre o conceito de histria no Brasil do sculo XIX.Texto traduzido e gentilmente cedido pelo autor, que integra a tese de doutoramento Lcriture de lhistoireau Brsil au XIX sicle. Essai sur une rhtorique de la nationalit. Le cas Varnhagen. Paris, Ecle des HautesEtudes en Sciences Sociales, EHESS, Frana, 2002, II tomos. 348 Cf. A Misso Varnhagen nas Repblicas do Pacfico: 1863 a 1867. Centro de Histria e DocumentaoDiplomtica, Rio de Janeiro/Braslia: CDHH/FUNAG, 2005; Sacramernto Blake. Diccionario BibliographicoBrazileiro. Tomo II, p. 371.Lisboa: Edies Afrontamento.349 A Misso..., op.cit., p. 9.

    131

  • Pelo reconhecimento de seus mritos diplomticos e histricos, Pedro II concedeu-

    lhe o ttulo de Baro de Porto Seguro, em 1871, e Visconde com honras de grandeza do

    mesmo ttulo, em 1874350. Regressando a Viena aps uma viagem para a coleta de

    documentos em So Paulo, Gois e Bahia, Varnhagen faleceu em 1878. Francisco Adolfo

    de Varnhagen foi grande no Imprio: Comendador da Ordem Imperial da Rosa, Cavaleiro

    da Imperial Ordem de Cristo, Gr-Cruz da Ordem de Santo Estanislau da Rssia, da

    Coroa de Ferro da ustria, de Isabel a Catlica, de Espanha, e de Carlos III, tambm da

    Espanha. Participou como scio-correspondente de vrias academias congneres; e deixou

    extensa e variada obra, composta por livros, opsculos, artigos e memrias351. Mas

    Varnhagen nobilitou-se na cena historiogrfica nacional, sobretudo, pela obra Histria

    Geral do Brasil da sua separao e independncia de Portugal.

    A edio de lanamento do primeiro volume de Histria Geral do Brasil de

    Varnhagen foi em Madrid, em 1854352. A primeira edio composta de 54 seces ou

    captulos, encadeados no conjunto geral da obra de acordo com a cronologia evolutiva e

    linear dos acontecimentos dos tempos coloniais. Assim, os acontecimentos histricos so

    narrados por um continuum da colonizao portuguesa, que se inicia com o Brasil sendo

    concebido como uma herana do Tratado de Tordesilhas, aps a partilha do novo mundo

    entre as dinastias de Avis e Castela, e termina com a chegada da famlia real no Rio de

    Janeiro, em 1808. Entre o incio da colonizao portuguesa, com a chegada da esquadra de

    Cabral no litoral americano, e a chegada dos Braganas no Rio de Janeiro, a histria de

    Varnhagen consagrou a monarquia constitucional como regime ideal, louvou a dinastia

    bragantina, buscou no plano interno elementos comuns que assegurassem a identidade

    nacional e, no plano externo, a identidade brasileira foi pensada, sobretudo, em oposio s

    350 Maria Lcia Paschoal Guimares, Francisco Adolfo de Varnhagen..., op.cit.; Manuel Lus SalgadoGuimares, op.cit.; Arno Wehling, op.cit.; Clado R. Lessa, op.cit.; Jos Honrio Rodrigues, op.cit.;Temstocles Cezar, op.cit.351 Cf. Armando Ortega Fontes. Bibliografia de Varnhagen. Rio de Janeiro: Ministrio das RelaesExteriores, 1945. 352 A 2a. edio revista e ampliada pelo autor continha 1200 pginas e foi lanada em 1871, com alterao nadisposio dos dez primeiros captulos. A 3a. edio, datada de 1906, revista por Capistrano de Abreu,corresponde apenas tera parte da obra original, devido a um incndio na oficina impressora. As ediessubseqentes foram revistadas e anotadas por Rodolfo Garcia, nas quais h a incorporao das notas deCapistrano de Abreu e do prprio Varnhagen. Veja-se a esse respeito: Maria Lcia Paschoal Guimares.Francisco Adolfo Varnhagen: Histria Geral do Brasil. Op.cit., p. 79. Para a anlise da revolta baiana de1798 na obra de Varnhagen, a edio utilizada nesta pesquisa Histria Geral do Brasil. 10a. edio integral,Belo Horizonte/So Paulo: Itatiaia/Edusp, 1981, comparando-a com a primeira edio da obra, uma vez queentra a primeira edio e a que utilizamos manteve-se as alteraes do autor para a publicao da segundaedio.

    132

  • naes republicanas353. Nessa perspectiva, foi desqualificando o significado das idias

    republicanas, no item Voltaire. A Hespanha atrozmente contra Portugal, no perodo de

    regncia de d. Joo VI, na penltima seco da primeira edio de Histria Geral do

    Brasil, que Varnhagen versou sobre a revolta baiana de 1798. No item Pazes.

    Conspirao socialista na Bahia em 1798354, Varnhagen afirma que

    antes de passar adiante, cumpre referir que as chamasincendirias da revoluo francesa no deixaram de saltar aoBrazil, apezar da distncia, e na Bahia se chegou quase a atear,pelas suas labaredas, em agosto de 1798, um incndio, que foi diasantes prevenido355.

    Para Varnhagen,

    se a conspirao de Minas, to patritica em seus fins, to nobreem seus agentes, e to habilmente premeditada, julgamos que foi umbem que se mallograsse, com muito mais razo agradeamos (sic) aDeus o haver-nos amparado a tempo contra estoutra, comtendncias mais socialistas que polticas, como arremedo que eradas scenas de horror que a Frana, e principalmente a bella ilha deS. Domingos, acabavam de presenciar (...)356

    Como a revolta baiana de 1798 fora embalada ao santo grito de liberdade,

    igualdade e fraternidade, Varnhagen afirma que os partcipes esqueceram-se que em uma

    provncia

    com tanta escravatura, [caso] a sua generosidade lograssetriumfo, libertando a todos os escravos, como promettiam, depressa,como se viu no Haity, seriam victimas destes, desenfreados e emmuitssimo maior nmero357.

    Aps desqualificar a revolta pela influncia dos princpios da Revoluo Francesa,

    Varnhagen passa a descrever os partcipes da revolta baiana. No item da primeira edio

    Seus Cabeas. Ridculos pasquins e plebiscitos., o autor afirma que os conspiradores que

    se chegaram a descobrir no subiam a quarenta, nenhum deles homem de talento e de353 Cf. Manoel Lus Salgado Guimares. Usos da Histria: refletindo sobre identidade e sentido. In: Histriaem Revista, Dossi Historiografia, vol 6, 2000, pp. 21-36. 354 Arquivo Histrico do Itamaraty, doravante AHI, cdices 351-360, Lata 351, doc. A. A documentaoanalisada a primeira edio de Varnhagen com anotaes e alteraes manuscritas pelo prprio autor para apublicao da segunda edio, em 1871. 355 Idem, p. 292. 356 Idem. 357 Idem, ibidem.

    133

  • considerao; e quase todos libertos ou escravos, pela maior parte pardos. Para o

    Visconde a pouca valia dos revolucionrios se deduz do modo estranho como

    projectaram levar execuo os seus planos. Varnhagen afirma que a partir

    da leitura attenta dos depoimentos e autos das devassas 358 , etc., sereconhece que a conspirao na Bahia no tinha chefe: e quandomuito poderemos considerar como seus coripheus o alfaiate Joo deDeus do Nascimento, cabo desquadra de milcias, e os soldadosLucas Dantas e Luiz Gonzaga das Virgens. Tinha este 36 annos deidade, e aquelles, um 28, e outro 24359.

    Apesar da consulta documentao, chama ateno o fato de Varnhagen no citar

    neste ponto Manuel Faustino dos Santos Lira, um dos rus enforcados em praa pblica360,

    como um dos participantes ou coripheu da conspirao na Bahia. A par disso, a

    narrativa do Visconde sobre a revolta baiana de 1798 descreve, pela primeira vez, o

    contedo veiculado pelos pasquins afixados pelos partcipes em locais pblicos da

    Salvador, na manh de 12 de agosto de 1798. Afirma que de parte destes escriptos

    [pasquins] possumos cpias autnticas e nos inspiram lstima. Neste ponto da narrativa

    Varnhagen cita minuciosamente os termos dos pasquins, afirmando que por conseqncia

    da liberdade eram seiscentos e setenta e seis [partcipes]; que o soldado perseba 200 reis

    de soldo cada dia; que a liberdade consiste no estado feliz, no estado livre do

    abatimento; que a Frana est cada vez mais exaltada [...] o Pontfice j est

    abandonado e desterrado, e que os commerciantes e lavradores que teriam todo o direito

    soubre (sic) as suas fazendas361.

    Ao referir-se aos pasquins com desdm, o objetivo do autor o de justificar as aes

    das autoridades locais perante a nfima qualidade dos conspiradores. Varnhagen

    inevitavelmente passa a descrever as aes de d. Fernando Jos de Portugal e Castro, como,

    por exemplo, antes de ordenar devassa, e depois de acautelar-se com algumas

    providencias. As providncias tomadas pelo ento governador foram, em primeiro lugar,

    358 Varnhagen o primeiro historiador a citar a existncia de duas devassas simultneas acerca da revoltabaiana de 1798, bem como o de descrever o contedo veiculado nos pasquins sediciosos. Em relao sdevassas, Varnhagen afirma e agradece ao marqus de Palma, seu padrinho e amigo, pela documentao. Cf.As anotaes de Capistrano de Abreu na nota n. 66 da 10a. edio integral, p. 25. Na primeira edio,Varnhagen limita-se a agradecer ao marqus de Palma pelas cpias autnticas concedidas. 359 AHI, doc. cit., p. 293. 360 Cf. As denncias, as assentadas e os termos de concluso das devassas citadas no captulo 1. 361 AHI, doc. cit., p. 293.

    134

  • vendo que a lettra [dos pasquins] no fora disfarada [...] lembrou-se [d. Fernando] de

    comparal-a com a dos requerimentos e papis que havia na secretaria do governo362.

    Depois de resultar na priso em segredo de Domingos da Silva Lisboa, filho de Portugal e

    alferes de granadeiros de milcias, Varnhagen nos conta que, aps o aparecimento de

    dois novos documentos da mesma lettra que os antigos, o governador procedeu a novos

    exames, resultando destes a priso do prprio Luiz Gonzaga das Virgens.

    A respeito da priso de Luiz Gonzaga, para o autor pode-se dizer que pela sua

    inabilidade a si prprio confessara pela lettra, alm de denunciar a conspirao,

    publicando-a com loucos avisos e ridculos plebiscitos363. Sobre o aparecimento de dois

    novos documentos, Varnhagen afirma que

    eram duas cartas; uma para o prior dos Carmelitas descalosfuturo geral em chefe da igreja Bahinense, segundo a seco (sic) doPlebiscito de 19 do corrente [1798] em que ordenava que todosaprovassem a revoluo [...]. A outra, encontrada como esta poruma mulher, na igreja do convento do Carmo, no dia 22, era umofficio ao governador [...]364.

    Aps descrever a carta na qual os partcipes da revolta do conta de que d. Fernando

    Jos de Portugal seria o futuro chefe da Repblica Bahinense, Varnhagen afirma:

    deixando sem comentrio este documento, apressemo-nos a declarar que logo depois de

    ser preso o pardo Luiz Gonzaga, se apresentaram ao governador, para delatar a

    conspirao, trs denunciantes.... Os denunciantes contaram ao governador sobre a

    reunio do dia 25 de agosto de 1798, no campo do Dique do Desterro, que deu logar a

    poderem comprehender em suas denncias mais alguns infelizes, que todos foram presos

    antes do dia 28, que era o aprazado. A narrativa de Varnhagen sobre a revolta baiana de

    1798 termina enaltecendo as aes do governador que havendo resolvido sabiamente [...]

    prevenir antes o golpe para evitar as desgraas que poderiam succeder se elle se chega a

    tentar. O Visconde encerra o tema da revolta de 1798 na primeira edio afirmando que

    aps a Corte ter mandado o governador executar a sentena da Relao da Bahia

    subiram no dia 8 de novembro do anno seguinte [1799] aopatbulo, que se erigiu na praa da Piedade, alm dos trs

    362 Idem, p. 294. 363 Idem. 364 Idem, p. 295.

    135

  • mencionados cabeas, o jovem liberto Manuel Faustino, que apenascontava desoito annos365.

    Entretanto, nas edies ulteriores, o autor termina a interpretao sobre a revolta

    baiana de 1798, acrescentando a seguinte informao:

    com relao talvez ainda a esses sucessos, a carta rgia de 8 dejunho de 1800 pela qual D. Fernando Jos de Portugal era nomeadovice-rei do Rio de Janeiro continha algumas palavras referindo-seao aviso de 24 de julho de 1797; recomendando vigilncia contra osque propagassem doutrinas incendirias, e acrescenta: sendoevidente que muito mais acertado prevenir graves runas,afastando da sociedade aqueles que as podem produzir do quetolerando-os ao princpio, e expor-se depois a proceder contra elesos mais rigorosos e severos castigos366.

    A primeira edio da Histria geral do Brasil de Francisco Adolfo de Varnhagen,

    como se sabe, foi muito criticada poca e gerou vrias polmicas entre seus pares do

    Instituto Histrico e Geogrfico Brasileiro367. Nesse rol de polemistas esto, entre outros,

    nomes como Janurio da Cunha Barbosa, Domingos Alves Branco Moniz Barreto, Manuel

    Antonio de Almeida, Henrique de Beaurepaire Rohan, Joo Francisco da Silva Lisboa,

    Domingos Jos Gonalves de Magalhes, Antnio Henriques Leal. A principal razo das

    contendas desencadeadas com a publicao da primeira edio da Histria geral do Brasil

    de Varnhagen, segundo os autores que analisam o autor, foi o tratamento dispensado ao

    indgena.

    No conjunto geral da obra, Varnhagen buscou entrelaar coerncia e legitimidade

    nas aes dos colonizadores portugueses dos tempos coloniais como fundamentos para

    compor um determinado ideal de nacionalidade, articulando, como se viu, a cidadania de

    poucos e a escravido de muitos, buscando os caminhos para o progresso da civilizao

    brasileira. Essa histria da nao brasileira, com efeito, tem como fio condutor a histria da

    sua civilizao. Nesse processo, Varnhagen aposta na colonizao portuguesa da Amrica

    como salvaguarda do Estado e como meio de civilizar a populao. Em relao ao indgena

    no ser diferente. O autor, em primeiro lugar, ressalta a catequese como possibilidade de

    365 AHI, doc. cit., p. 295. 366 Francisco Adolfo Varnhagen. Histria geral do Brasil antes de sua separao e independncia dePortugal. Belo Horizonte/So Paulo: Itatiaia/Edusp, 10a. edio integral, vol. 3, tomo V, p. 26. 367 Veja-se a esse respeito: Lcia Maria Pachoal Guimares, op. cit.; Manoel Luiz Salgado Guimares, op.cit.;Temstocles Cezar, op.cit.; Nilo Odlia, op.cit.; Bernardo Ricupero, op.cit.; Wilson Martins, op.cit.; AntonioCndido, op.cit.

    136

  • civilizar os gentios, para, depois, apontar a tutela como a nica possibilidade de resgatar os

    ndios do estado natural de selvageria. Em relao civilizao do indgena, Varnhagen

    manteve-se irredutvel, de tal sorte que chegou a propor a restaurao das bandeiras para

    capturar os indgenas, acirrando os nimos de seus contendores.

    Em 1867, Varnhagen respondeu s crticas que lhe fizera Joo Francisco Lisboa,

    afirmando que a civilizao dos ndios, ponto que considero vital para o nosso progresso

    e desenvolvimento nacional [...] s poderia ocorrer atravs do uso da fora, pois seria

    impossvel colonizar pacificamente o atual imprio 368. Seus contemporneos revidaram

    com veemncia o argumento do uso da fora de Varnhagen. Manuel Antonio de Almeida

    utilizou, inclusive, um argumento muito caro ao Visconde, na tentativa de persuadi-lo: a

    civilizao dos letrados e o uso da razo. Para Almeida, por meio da razo o homem deve

    ajudar os mais ignorantes com a sua inteligncia369.

    As polmicas acerca do indgena ocuparam muito tempo e muita tinta foi gasta

    pelos beletristas do IHGB. O que importa reter das proposies indianistas de Varnhagen e

    das polmicas delas suscitadas o significado das contendas poca e o que lhe foi

    atribudo pela historiografia ulterior que versa sobre a obra e o pensamento poltico do

    autor, notadamente explicitado no Memorial Orgnico370. Lcia Paschoal Guimares afirma

    que, em 1855, a Histria Geral do Brasil havia sido encaminhada Comisso de Histria

    do IHGB, para dela receber um parecer. A inteno de Varnhagen era ser apresentado como

    historiador oficial da agremiao. No obstante, a autora afirma que a Histria geral do

    Brasil foi simplesmente esquecida..., pois os censores da Comisso encarregados de

    avaliar a obra, entre eles Joo Francisco Lisboa, no se pronunciaram a respeito e nem

    deram satisfaes Diretoria do IHGB371. Para a autora no h dvidas de que as

    proposies indianistas de Varnhagen tenham sido a principal razo para o isolamento

    intelectual do autor e a desconfortvel posio que passou a ocupar entre os scios do

    IHGB, aps a publicao da primeira edio de sua obra.

    368 Cf. Francisco Adolfo de Varnhagen. Os ndios bravos e o Sr. Lisboa, Timon 3o, apostila e nota G aos n. 11e 12 do Jornal do Timon, contendo 26 cartas inditas do jornalista e um extrato do folheto Diatribe contraTimonice, etc. Lima: Imprensa Liberal, 1867. 369 Manuel Antonio de Almeida. Civilizao do indgena, duas palavras ao autor do Memorial Orgnico.Correio Mercantil, 13 de dezembro de 1851. 370 Francisco Adolfo de Varnhagen. Memorial Orgnico. In: Revista Guanabara, tomo I, 1851. 371 Lcia Maria Paschoal Guimares. Debaixo da imediata proteo..., op.cit., p. 213.

    137

  • A respeito do isolamento intelectual de Varnhagen, cumpre ressaltar que o relato do

    autor sobre a revolta baiana de 1798 pode designar outras possibilidades sobre a questo.

    Bernardo Ricupero sugere um bom caminho ao avanar a proposio de Lcia Paschoal

    Guimares e chamar a ateno para a ameaa que as revoltas provinciais representavam

    para a unidade nacional e a manuteno da ordem da poltica do Regresso. Para Bernardo

    Ricupero no h dvida de que o programa poltico de Varnhagen basicamente

    conservador, pois assim como os saquaremas, para o Visconde no h fora sem unio, e

    no haver unio enquanto no se estabelea a verdadeira unidade372. Nessa perspectiva,

    a narrativa das revoltas dos anos finais dos tempos coloniais significava para os homens de

    letras do oitocentos o enfrentamento no plano ideolgico de duas questes ameaadoras

    para os conservadores da poltica do Regresso: o localismo das revoltas do final do sculo

    XVIII e o espectro das Revolues Francesa e Haitiana.

    Assim, no chega a surpreender que Varnhagen tenha dado especial ateno unio

    de descendentes portugueses, ndios e negros na expulso dos holandeses do Brasil. Em

    relao revolta baiana de 1798, como se viu, no chega a surpreender que o autor tenha

    utilizado o recurso providencialista somado s efetivas aes punitivas das autoridades

    locais sobre os rus dos mais baixos setores daquela sociedade, os nicos sectrios dos

    ideais republicanos, para explicar o malogro da referida revolta. Ou seja, a revolta baiana de

    1798 interpretada por Varnhagen como um movimento fadado ao fracasso, posto que fora

    protagonizada por homens dos mais baixos setores daquela sociedade, sectrios das idias

    republicanas.

    Contudo, se Varnhagen exprime com maestria o conservadorismo da poltica do

    Regresso ao escrever a Histria Geral do Brasil, seu conservadorismo em relao aos

    termos da escrita dessa histria ganha algumas cores, chegando mesmo a surpreender.

    Bernardo Ricupero chama a ateno para o fato de que no momento em que Varnhagen

    escrevia a sua Histria do Brasil, cerca de 1850, o prprio Visconde de Porto Seguro

    reconhecia que o esprito pblico das provncias do Norte j estariam bastante

    desenvolvidos. At porque a Independncia do Brasil, segundo o Visconde de Porto Seguro,

    s foi possvel com a presena do herdeiro da Coroa, que sem agir no teria levado a

    cabo esse movimento, organizando-se uma s nao unida e forte, desde o Amaznia at o

    372 Varnhagen, Memorial, op.cit., p. 241.

    138

  • Rio Grande do Sul373 Com efeito, para Bernardo Ricupero, a causa principal do repdio

    que sente Varnhagen pelas revoltas coloniais est no perigo que elas [idias republicanas]

    representavam para concretizar o Imprio americano legado por Portugal, ao fragmentar

    os pas em minsculas Guianas374.

    Neste ponto em especial, cabe retomar duas questes em relao interpretao de

    Varnhagen sobre a revolta baiana de 1798. O Visconde de Porto Seguro foi o primeiro

    historiador a descrever o contedo dos pasquins ditos sediciosos pelas autoridades do

    Tribunal da Relao da Bahia, em 1799. A informao no de pouca relevncia. Primeiro,

    porque ao descrever minuciosamente os princpios polticos e filosficos dos partcipes da

    revolta de 1798, na tentativa de desqualific-los, relacionado-os s aes dos escravos da

    Revoluo Haitiana, Varnhagen acaba tocando em duas questes delicadas do projeto

    poltico do Regresso conservador: o regionalismo e o republicanismo. Considerando que a

    poltica regressista objetivava antes de mais nada alcanar a ordem pblica, contando

    sobretudo com o apoio das elites provinciais, a descrio do contedo veiculado dos

    pasquins serviu, no plano ideolgico, como um programa poltico de vis republicano que

    poderia obstaculizar o projeto conservador de contar com a adeso poltica dos liberais

    moderados e exaltados das provncias. Depois, mesmo com a inteno de reafirmar os

    homens de nfima qualidade daquela sociedade como os nicos entusiastas das idias

    republicanas, ao descrever o contedo dos pasquins, Varnhagen confere relevncia ao

    movimento que at ento era tido por irrelevante.

    Manuel Salgado, fundamentando-se nas proposies de Jrn Rsen, demonstra que

    no processo de escrita da histria nacional, no sculo XIX, a transio da passagem do

    tempo, do passado para o presente, no foi um processo natural, i. e., a transio emergiu de

    um processo social e coletivo que transformou, em um primeiro momento, a experincia da

    passagem do tempo em passado para, em um segundo momento, transformar esse

    passado em histria375. Ainda que o objetivo de Varnhagen fosse desqualificar social e

    politicamente o evento em tela, a revolta baiana de 1798 passou a compor a narrativa ptria

    oitocentista sobre o passado colonial da nao brasileira.

    373 Francisco Adolfo de Varnhagen. A histria da Independncia do Brasil. Belo Horizonte/So Paulo:Itatiaia/Edusp, 7 edio, reviso e notas de Hlio Vianna, p. 259. 374 Bernardo Ricupero , op.cit., p. 143375 Cf. Manuel Lus Salgado Guimares. Repensando os domnios de Clio: angstia e ansiedades de umadisciplina. Revista Catarinense de Histria. Florianpolis, n. 5, 1998, pp. 5-20.

    139

  • O mais importante, contudo, que a descrio dos pasquins na interpretao de

    Varnhagen fez com que a revolta baiana de 1798 adquirisse relevncia, destoando da

    prpria interpretao que o autor elabora sobre a Independncia do Brasil, em 1822, uma

    vez que ao expressar os princpios polticos e filosficos dos homens de nfima qualidade

    o autor sugere um movimento pensado, elaborado e projetado, mesmo que malogrado na

    seqncia, a partir de um contedo normativo de bases republicanas. Ou seja, ao deixar

    falar a verdade dos documentos, pois para Varnhagen a verdade uma s, e h de

    triunfar em vista dos documentos que vo aparecendo376, o Visconde de Porto Seguro

    demonstra, no plano simblico, a capacidade de articulao poltica de um setor que ainda

    fazia muito barulho durante o oitocentos e, no toa, foi a grande preocupao dos arautos

    da poltica do segundo Reinado nos quadros do IHGB.

    Neste sentido, tudo leva a crer que no processo de composio dos fatos, elaborao

    e escrita da histria ptria Varnhagen, em relao revolta baiana de 1798, a idia de

    verdade histrica do autor se sobreps s orientaes polticas com as quais a histria do

    Brasil deveria ser escrita a partir de uma documentao bastante constrangedora para o

    acervo da Casa da Memria Nacional377. A esse respeito, Lcia Paschoal Guimares

    demonstra o destino melanclico de um manuscrito de Caetano Pinto de Miranda

    Montenegro relativo Revoluo Pernambucana de 1817, encaminhado Comisso de

    Histria do IHGB, em 1839, para que fosse julgado o mrito e a convenincia da

    divulgao. A Comisso recusou-a, sob a alegao de que a publicao do manuscrito

    comprometeria as pessoas ainda vivas, e recomendou que o documento fosse guardado nos

    arquivos do Instituto at que todas as pessoas mencionadas comparecessem perante o

    tribunal da posteridade378.

    Ocorre que a documentao que foi entregue pelo Conde de Palma, os pasquins

    elaborados pelos partcipes da revolta de 1798, no foi submetida Comisso de Histria

    do IHGB. Varnhagen, nesse caso, caminhou na contramo dos termos da poltica

    historiogrfica da agremiao sobre o que se podia dar a dizer e o que se deveria silenciar

    na interpretao dos tempos coloniais para, ao fim e ao cabo, compor a histria da nao

    brasileira do sculo XIX. por essas e outras, talvez mais por situaes como essa do que

    pelas polmicas em relao ao ndio, que Varnhagen amargou grande indiferena entre seus376 Francisco Adolfo de Varnhagen. Op. cit.377 Expresso de Lcia Maria Paschoal Guimares. 378 Lcia Maria Paschoal Guimares. O tribunal da posteridade. Op.cit., p. 33-34.

    140

  • pares scios efetivos do Instituto Histrico e Geogrfico Brasileiro, revertida apenas com a

    publicao do necrolgio que lhe dedicou Capistrano de Abreu, em 1878379. Considerando,

    como demonstra Lcia Paschoal Guimares, que o Imperador D. Pedro II, inclusive,

    parecia incentivar a polmica indianista ...380, caberia saber se essas contendas no

    encobriram ou serviram para desviar a ateno sobre as questes relativas ao

    republicanismo e ao haitianismo, que nunca deixaram de ameaar a hegemonia poltica e

    social do Regresso conservador e depois do Partido Conservador durante o Segundo

    Reinado.

    A esse respeito cumpre ainda destacar o impacto da publicao da primeira edio e

    as vrias alteraes feitas por Varnhagen para a segunda edio que foi publicada em 1871.

    Dos historiadores que se ocuparam com a repercusso da primeira edio da obra de

    Varnhagen e das alteraes feitas para a segunda edio, a maioria unnime em afirmar

    que houve da parte do Visconde de Porto Seguro a tentativa de explicar e at amenizar sua

    posio inicial em relao aos ndios381. Todavia, as alteraes feitas na interpretao da

    revolta baiana de 1798, em particular, e as revoltas coloniais do final do XVIII e incio do

    XIX, no geral, pouca ateno mereceram. Para a segunda edio, Varnhagen, em primeiro

    lugar, retirou os termos socialista e plebiscitos, que enunciavam o tema da revolta a ser

    abordado, e inseriu, como se viu, o comentrio onde ressalta a atuao de d. Fernando Jos

    de Portugal e Castro na punio exemplar dos rus enforcados em praa pblica. Depois, o

    autor cortou integralmente o contedo dos pasquins veiculado na primeira edio, que

    explicitava os termos polticos e filosficos dos partcipes, sem fazer qualquer referncia

    referida documentao, na segunda edio. Neste ponto em especial, tudo leva a crer que as

    crticas e as polmicas nas quais o historiador se envolveu no eram apenas sobre os

    indgenas, at porque no parece ser por outra razo que Varnhagen tenha escrito sobre as

    alteraes a serem feitas para a publicao da segunda edio, no canto direito da pgina

    292 da primeira edio, em tom de desabafo:

    379 O Necrolgio de Francisco Adolfo de Varnhagen, Visconde de Porto Seguro, foi publicado no Jornal doComrcio, em 1878, e depois reproduzido em apenso quarta edio de Histria Geral do Brasil. EmboraCapistrano tenha inserido o artigo do cnego Joaquim Caetano Fernandes Pinheiro na nota de rodap n. 66 naHistria Geral do Brasil, de Francisco Adolfo Varnhagen. 380 Lcia Maria Paschoal Guimares, Francisco Adolfo de Varnhagen. Histria Geral do Brasil. In: LourenoDantas Mota (Org.). Um banquete no trpico, op.cit., p. 95. 381 Antonio Candido, op.cit.; Arno Wehling, op.cit.; Bernardo Ricupero, op.cit.; Lucia Maria PaschoalGuimares, op.cit.; Manoel Lus Salgado Guimares, op.cit.; Nilo Odlia, op.cit.; Temstocles Cezar, op.cit.;Wilson Martins, op.cit.

    141

  • [...] e sobretudo dos documentos [ilegvel] delles q aquiincluiremos (sic). Se so verdadeiros pasquins, nem por isso sedevam desprezar, qdo. so elles to prprios para dar uma exactaidia da importncia dos revolucionrios382.

    Se para Varnhagen a documentao dos pasquins comprovava a irrelevncia dos

    revolucionrios, a documentao dos Autos das Devassas, como se viu no primeiro

    captulo, demonstra que foram seis os homens condenados pena capital pelos

    desembargadores do Tribunal da Relao da Bahia, em 1799. Considerando que um fugiu e

    outro teve a pena comutada, ainda assim para Varnhagen foram trs os rus condenados por

    crime de lesa-majestade, sendo que apenas no final do item o autor menciona o ru Manuel

    Faustino como um dos quatro rus enforcados em praa pblica. A informao no

    encontra paralelo na documentao, mas quando o autor omite o nome de Manuel

    Faustino do grupo de condenados, ele no aponta uma liderana do movimento. Razo pela

    qual o cnego Joaquim Caetano Fernandes Pinheiro dialogar criticamente com o Visconde

    de Porto Seguro, no artigo A Conspirao de Joo de Deus, publicado na Revista Popular,

    em 1860.

    3. 4. Joaquim Caetano Fernandes Pinheiro.

    Joaquim Caetano Fernandes Pinheiro (1825-1876) nasceu na cidade do Rio de

    Janeiro a 17 de junho de 1825. Pertencia a uma famlia de negociantes portugueses ilustrada

    nas letras e na cena social por seu tio Jos Feliciano Fernandes Pinheiro, Visconde de So

    Leopoldo e presidente interino do Instituto Histrico e Geogrfico Brasileiro. Durante a

    infncia, Joaquim Caetano freqentou o Seminrio Episcopal do Rio de Janeiro, e entrou na

    cena pblica da corte fluminense aos 20 anos de idade quando passou a publicar artigos de

    literatura religiosa em vrios jornais e revista, assim como um opsculo denominado

    Christianismo no Brasil. Ordenou-se presbtero no dia 21 de dezembro de 1848, e foi

    designado escrivo-ajudante da cmara eclesistica e secretrio particular do Bispo D.

    Manuel de Monte Rodrigues DArajo, Conde DIraj, por proviso de 29 de janeiro de

    1849. Foi no ano seguinte nomeado substituto do curso de teologia do Seminrio de So382 Cabe ressaltar, ainda, que a observao manuscrita de Varnhagen sobre o contedo dos pasquins no foiincorporada nas edies ulteriores da Histria Geral do Brasil, pelos anotadores Capistrano de Abreu eRodolfo Garcia. AHI, doc. cit, p. 292.

    142

  • Jos, e professor de retrica, potica e histria universal do mesmo seminrio, por proviso

    de 7 de maro de 1851383.

    Por carta imperial de 9 de fevereiro de 1852, foi apresentado para uma das cadeiras

    de cnego da catedral e capela imperial do Rio de Janeiro. Formou-se em teologia na

    universidade de Roma e, ao regressar ao Brasil, foi designado pelo Imperador para dirigir a

    educao religiosa dos meninos cegos na qualidade de capelo e vice-diretor do Instituto

    dos Cegos fundado no Rio de Janeiro em 1854. Por carta Imperial de 20 de novembro de

    1857, Joaquim Caetano foi nomeado professor de retrica, potica e literatura nacional do

    colgio Pedro II. Aps renunciar ao canonicato, tornou-se scio efetivo do Instituto

    Histrico e Geogrfico do Brasil, exercendo a funo de primeiro secretrio interino.

    Joaquim Caetano deixou uma extensa e variada obra. Foi anotador da Histria do

    Brasil, de Robert Southey (Londres, 1810-1819); em 1850, publicou um pequeno volume

    de poesias intitulado Carnes Religiosas; em 1851 escreveu o Cathecismo da Doutrina

    Christan para o uso dos alunos do instituto dos cegos, posteriormente adotado nas escolas

    do municpio da corte; em 1854, publicou um opsculo denominado Apontamentos

    Religiosos, no qual apresenta as idias sobre os melhoramentos da disciplina da Igreja

    brasileira, valendo-lhe uma advertncia do Papa. Igualmente adotado nas escolas pblicas

    foi o compndio denominado Episdios da Histria Ptria contadas infncia. Impressas

    nas Revistas do Instituto Histrico e Geogrfico Brasileiro se acham vrias memrias de

    sua autoria, sendo que as principais so: Ensaio sobre os Jesutas e a Frana Antrtica, ou

    o Bosquejo Histrico do Estabelecimento dos francezes no Rio de Janeiro durante o sculo

    XVI e as suas invases no sculo XVIII.

    O cnego pertenceu a quase todas as sociedades congneres do pas, e, por sua

    prpria letra, afirmou no participar da poltica do segundo reinado tanto em razo do meu

    estado, como por convico de no poder nella [oferecer] servio algum minha ptria,

    no offerecer a minha vida facto algum [...]384. No obstante, Joaquim Caetano Fernandes

    Pinheiro foi um grande publicista do segundo reinado. Redigiu de 1850-1852 a Tribuna

    Catholica, jornal consagrado das intenes religiosas; colaborou no mesmo sentido para o

    Dirio do Rio de Janeiro, Jornal do Comrcio e Correio Mercantil no decurso dos anos de

    1854-1856. Foi chefe de redao da Revista Guanabara de 1854 a 1856; em janeiro de383 Dados autobiogrficos de Joaquim Caetano Fernandes Pinheiro em resposta a questes de J. A. GomesFranco de Castro. Instituto Histrico e Geogrfico Brasileiro Lata 654 Pasta 12. 384 Cf. IHGB, idem.

    143

  • 1859 encarregou-se da colaborao da edio da Revista Popular e, no mesmo ano, da

    redao da Revista Brasileira, peridico fundado sob os auspcios do Imperador.

    A Revista Popular foi um dos mais importantes peridicos de circulao nacional,

    durante um importante momento da poltica do Segundo Reinado. De acordo com as

    informaes publicadas em A Marmota (1849-1861), em 1 de novembro de 1859,

    esta Revista [Popular] apparece nos dias 5 e 20 de cada mez.Compem-se de um volume de bom papel, typo, e de 68 pginas,com capa, etc. Os artigos de boa escolha, e de muito bom gosto, doa esta publicao a voga de que geralmente goza, sobre tudo entreas senhoras, que em suas pginas acham tudo o que lhes pode servirde instruo e recreio. Assigna-se a 12 $ por semestre, ou 20 $ poranno, na loja acima [rua do ouvidor, 69]. Quem assigna e paga aassinatura de um anno, recebi grtis dez bilhetes do prmio de 600$rs385.

    Nas comemoraes do primeiro natalcio da publicao, em 5 de janeiro de 1860,

    Alberico de M. Werden escreveu um artigo no Jornal do Comrcio, e posteriormente na

    prpria revista, no qual relacionou o sucesso do peridico

    felicidade de achar redactores e collaboradores entre os maisdistinctos do paiz, que auxiliaro constantemente as suas vistas.Com estes dados o exicto da empreza no podia ser duvidoso, porque o povo brasileiro um dos mais intelligentes do mundo, por queos hbitos da indolncia so muitas vezes entretidos por falta deelementos apropriados para despertar a actividade, porque emfim(sic), se a inconstncia dos leitores arreda a maior parte dosemprezarios, justo reconhecer, que as mais das vezes a poucaestabilidade das emprezas a primeira cauza do indifferentismo dosleitores386.

    Entre os redatores e colaborados da Revista Popular esto nomes como Antonio

    Gonalves Dias, Gonalves de Magalhes, Jos Joaquim Vieira Souto, Manoel de Arajo

    Porto Alegre, Jos Feliciano de Castilho, Justiniano Jos da Rocha, Francisco de Paula

    Candido, Francisco Adolfo de Varnhagen, Joaquim Norberto de Souza e Silva, Pedro de

    Alcntara Lisboa, Manoel de Macedo, Joaquim Caetano Fernandes Pinheiro, entre outros.

    Por esse rol de notveis, Alberico M. Werden afirmou que

    [...] depois de um anno [a revista] tornou-se o verdadeiro livro dopovo e das famlias. Na corte e nas provncias, nas casas mais

    385 Biblioteca Nacional, doravante BN, sesso de peridicos, A Marmota, 1 de novembro de 1859. 386 BN, sesso de obras raras, PR-SOR-03143[1-8], Ano Segundo, Tomo Quinto, Janeiro-Maro de 1860.

    144

  • conspcuas, como nas mais simples a Revista Popular o livro, emque os homens e mulheres, velhos e moos, estadistas e eruditos,commerciantes e industriaes, lavradores e artfices busco e achoartigos e noticias, que os instruem, os divertem, os entretem semcauzar-lhes fadiga. Bem se v que um tal livro era uma verdadeiranecessidade, porque nem todos tem o tempo de estudar os in-foliodas bibliothecas, e do outro lado os jornaes se occupo com certas edeterminadas questes. Faltava a leitura das horas vagas [...]387.

    Foi como leitura das horas vagas para homens e mulheres, comerciantes e letrados

    que a revista configurou entre as mais importantes do perodo, tendo sido editada em Paris,

    a partir de 1863, com o ttulo de Jornal das Famlias, porque a regularidade da publicao

    quinzenal comeou a dar prejuzos para a casa editorial de B. L. Garnier388. Aparecero nas

    suas pginas queixas contra a situao do homem de letras: no tolera a atual situao do

    pas que possa algum exclusivamente consagrar-se s letras, por exemplo389. A revista

    identifica nesse estado de coisas a causa principal do fracasso no pas de empreendimentos

    editoriais como o seu. Ou seja, na poca em que a revista circulou, os intelectuais

    brasileiros j demonstram ter certa conscincia de sua situao no interior da sociedade. A

    crtica sobre a situao dos intelectuais no exclua o fato dos beletristas terem o Estado

    como vocao 390. Tanto mais que a maneira de se relacionarem com o entorno social

    continuar a ser de buscar a patronagem, tanto por parte de particulares (Garnier) como

    dos representantes do aparelho do Estado, muitas vezes, as mesmas pessoas391.

    A Revista Popular, editada nos primeiros anos de desgaste poltico do Imprio, se

    diferenciar das publicaes anteriores ao insistir em seu carter apartidrio e dar especial

    ateno ao pblico feminino de leitores no que se refere aos temas da nacionalidade

    brasileira tratados de maneira mais aprazvel392. De acordo com Maria Eunice Moreira, as

    revistas literrias do perodo ps-independncia orientam-se por ideais nacionalistas,

    387 Idem. 388 Cf. Alexandra Santos Pinheiro. Revista Popular(1859-1862) e Jornal das Famlias(1863-1878): doisempreendimentos de Garnier. Dissertao de Mestrados, Departamento de Letras Modernas, UNESP, Assis,2002. 389 A esse respeito ler os artigos de Faustino Xavier de Novais: Os Homens de Lettras. Revista Popular, TomoXII, pp. 327-336; Os Homens de Tretas. Revista Popular, Tomo XIII, pp. 193-206.390 Cf. Maria Emlia Prado (Org.). O Estado como vocao: idias e prticas polticas no Brasil oitocentista.Op. cit. 391 Cf. Bernardo Ricupero, op.cit., p. 114.392 Idem.

    145

  • contidos no bojo do Romantismo brasileiro, mas nenhuma delas tratou de temticas caras

    identidade nacional como a Revista Popular. Para a autora, a Revista Popular o

    rgo considerado centro dinmico da renovao das idiasliterrias. O interesse da revista pelos assuntos nacionais e oendosso ao programa nacionalista pode ser comprovado pelaspublicaes de um de seus maiores colaboradores assduos:Joaquim Norberto de Souza e Silva393.

    Joaquim Norberto de Souza e Silva (1820-1891) considerado at os dias de hoje o

    primeiro historiador a versar sobre a Inconfidncia Mineira de 1789 a partir da

    documentao at ento indita dos Autos da Devassa394. Segundo Silvia Maria Azevedo,

    nas pginas da Revista Popular que o autor publicou em 1 de maro e 15 de abril de 1861,

    respectivamente, os artigos

    Estudos histricos sobre as primeiras tentativas para aindependncia nacional. Receios de Portugal relativos independncia do Brasil antes da proclamao, textos quecorrespondem parte introdutria da Histria da ConjuraoMineira [...], escrito em captulos lidos pelo autor em sesses doInstituto Histrico e Geogrfico Brasileiro, a partir de 23 denovembro de 1860395.

    Ainda segundo Silvia Maria Prado, como a revista objetivava atingir um pblico

    vasto e conferia especial ateno s mulheres, houve por parte de Joaquim Norberto a

    recuperao histrica da Inconfidncia Mineira a partir de estratgias como a publicao

    nas pginas da revista de perfis biogrficos, efemrides e dicionrios bibliogrficos.

    Joaquim Caetano Fernandes Pinheiro no ficou de fora do processo de recuperao

    histrica da revolta mineira de 1789, e junto com Joaquim Norberto, ocupou-se das

    biografias de alguns inconfidentes, publicadas na sesso Brasileiros Clebres. Entre os

    homens e mulheres biografados pelos historiadores, envolvidos direta ou indiretamente na

    revolta mineira de 1789, esto Cludio Manuel da Costa, Toms Antonio Gonzaga, Maria

    393 Veja-se Maria Eunice Moreira. Nacionalismo Literrio e crtica romntica. Porto Alegre: IEL, 1991, p. 54.394 A respeito dos trabalhos de Jos Norberto de Souza e Silva sobre a Inconfidncia Mineira, ler: KennethMaxwell, Mrcio Jardim, Jos Murilo de Carvalho, Luciano Raposo de A. Figueiredo, Joo Pinto Furtado,entre outros. 395 Cf. Silvia Maria Azevedo. Tiradentes ou a canonizao de um heri. Patrimnio e Memria. UNESP,FCLAs, CEDAP, vol. 1, n. 1, 2005, p. 4. De acordo com a autora, em 1873, Joaquim Norberto fez a leiturafinal do seu trabalho acerca da Inconfidncia Mineira de 1789, para os scios do IHGB.

    146

  • Joaquim Dorotia de Seixas e Brbara Heliodora. Para alm da evidente informao de que

    se tratam de pessoas de reconhecido prestgio social nas Minas do final do sculo XVIII,

    Silvia Maria Prado chama ateno para outra informao j menos evidente: as vidas

    biografadas podiam ser exploradas na chave do melodrama romntico, ressaltando a

    virtude, o amor maternal, a piedade filial, abnegaes e suplcios de pessoas envolvidas na

    referida revolta, que comearam a se tornar cada vez mais familiares do pblico na dcada

    de sessenta do oitocentos396.

    Ainda que a autora no tenha avanado no significado das virtudes das vidas

    biografadas para o pblico de leitoras, uma vez que as biografias so apresentadas quase em

    forma de catecismo - dado que o vocabulrio utilizado tem forte contedo religioso e

    aparece em tom grandiloqente -, caberia considerar o impacto dessas informaes no

    espao privado da famlia. O exame das listas dos assinantes da revista demonstra que as

    mulheres leitoras no aparecem entre os assinantes, sugerindo que o contedo veiculado nas

    pginas da Revista Popular era lido por toda a famlia do assinante, que, no caso, era o

    marido. O que importa ressaltar que o carter pedaggico e cvico das biografias dos

    inconfidentes ilustres se configura como uma importante estratgia dos historiadores que

    versaram sobre a Inconfidncia Mineira de 1789 nas pginas da revista, especialmente

    Joaquim Norberto de Souza e Silva e Joaquim Caetano Fernandes Pinheiro.

    Ao tratar da vida de inconfidentes ilustres, praticamente ressaltando a trade de

    virtudes do catecismo de Comte397 (1798-1857): o amor por princpio, a ordem por base e

    o progresso por fim, os historiadores no incluem Tiradentes entre os biografados na sesso

    Brasileiros Clebres398. Todavia, no dicionrio biogrfico elaborado por Joaquim Norberto,

    396 Idem, p. 6. 397 Cf. Auguste Comte. Catecismo Positivista. In: Os Pensadores: August Comte. Seleo de textos de JosArthur Gianotti. Traduo de Jos Arthur Gianotti e Miguel Lemos, So Paulo: Abril Cultural, 1978, pp. 118-318. Nunca demais lembrar que as primeiras manifestaes do positivismo no Brasil datam, de acordo comGianotti, de 1850, com a tese de doutoramento de Manuel Joaquim Pereira de S apresentada na EscolaMilitar do Rio de Janeiro. Cabe ressaltar, ainda, que para os adeptos da ortodoxia comteana no oitocentos,sobretudo aps a publicao do Catecismo na defesa do golpe de 1850, na Frana, que derrubou o regimeparlamentar, a obra paradigmtica do papel das mulheres para a preservao da ordem. Como para Comte asmulheres no tinham pretenso doutoral, a obra encadeada em dilogos, linguagem mais aprazvel, entre amulher e o sacerdote, para que elas pudessem persuadir seus maridos, os proletrios no caso, na luta de classe.Como para Comte os problemas polticos so de natureza moral, a luta de classe, segundo o autor, o amor pelopobre X o dio pelo rico, s poderia ser resolvida pela via da moral. Veja-se Comte. Os Pensadores. Seleode textos de Jos Arthur Gianotti. So Paulo: Abril Cultural, 1978, pp. V-XVII. 398 Cabe ressaltar que durante os anos de 1860-1870, a igreja catlica romana passou por uma srie de desafiosdiante da crescente secularizao dos Estados Nacionais. Durante esse perodo, o papa Pio IX tomou umconjunto de iniciativas destinadas a reforar as correntes tradicionais do catolicismo, os ultramontanos, quealm de combaterem a maonaria, o liberalismo e o racionalismo, defendiam a supremacia do poder espiritual

    147

  • denominado Os homens clebres de todos os tempos e de todos os lugares, igualmente

    publicado nas pginas da revista, Tiradentes ocupou lugar de destaque. Na edio da

    Revista Popular do dia 15 de junho de 1862, o verbete sobre Tiradentes definido nos

    seguintes termos: Mrtir da liberdade, que foi sacrificado como pequeno para o

    salvamento dos grandes, que mais parte tiveram do que ele no projeto da clebre

    conspirao mineira399.

    No se trata ainda de incorporar os heris vencidos ao panteo nacional, processo

    muito caro historiografia regional da Repblica Velha do sculo XX. Trata-se, ao que

    tudo indica, de um movimento capitaneado pela historiografia do IGHB, iniciado nas

    pginas dos peridicos de relativa circulao na corte, que comea a relacionar as idias

    republicanas s elites regionais, como oposio ideolgica s tenses polticas reais. A

    dcada de sessenta do oitocentos, especialmente entre os anos de 1862 e 1868, foi um

    perodo bastante tumultuado. Da Guerra do Paraguai dissoluo por Pedro II do

    Ministrio chefiado por Zacarias de Gis e Vasconcelos, poca contando com a maioria

    na Cmara, substituindo-o pelo Gabinete do ultra-conservador de Itabora, foram aes do

    imperador que soaram como um golpe, um abuso de autoridade e manifestaes

    extemporneas do poder absoluto do imperador400. Com a dissoluo do Gabinete de Gis e

    Vasconcelos, os meios partidrios e os jornais liberais protestaram cada vez mais,

    desencadeando uma nova fase na vida poltica imperial na qual os liberais radicalizaram-se

    e o republicanismo, nunca descartado, conheceu o seu primeiro grande surto.

    Nesse processo, o que at ento era interdito aos historiadores do IHGB comeou a

    se transformar em moeda de negociao com a oposio nas pginas dos peridicos,

    desencadeando uma srie de publicaes dos conservadores em resposta aos ataques

    liberais401. Ao que tudo indica, como o regime republicano passou a ser visto como algo

    sobre o poder civil. Nesse jogo de foras, Ktia Mattoso demonstra, na Bahia do sculo XIX, que acontrapartida dos ultra-liberais em campanha contra o predomnio da Igreja Catlica era a mesma adotadapelos adeptos ao recrudescimento da igreja pelas bulas de Pio IX. Os liberais lanavam mo de todos os meiospara atingir o pblico esclarecido. Suas idias eram difundidas por artigos de jornais, pela publicao delivros e, sobretudo, pela discusso em clubes, sales e escolas. A esse respeito, ler: Ktia M. de QueirsMattoso. Bahia, sculo XIX: uma provncia no Imprio. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1992. 399 Joaquim Norberto de Sousa e Silva. Os homens clebres de todos os tempos e de todos os lugares. Apud,Mrcio Vasconcelos Serelle. No incio da Histria da Conjurao Mineira: o fato e a fico na construoda obra de Joaquim Norberto de Sousa e Silva. Gragot, Niteri, n. 6, 1999, p. 191. 400 Veja-se Ilmar Rohloff de Mattos. O lavrador e o construtor. O Visconde do Uruguai e a construo doEstado Imperial. In: Maria Emlia Prado, op.cit., pp. 191-217. 401 Cf. Mrcio Vasconcelos Serelle. Os versos ou a histria: a formao da Inconfidncia Mineira noimaginrio do Oitocentos. Tese de doutoramento defendida no departamento de Teoria Literria, IEL,

    148

  • praticamente inevitvel, ainda que os intelectuais defendessem a centralizao de Pedro II,

    no segundo Reinado, os beletristas no questionaram mais a pertinncia dos princpios

    republicanos. A questo passou a ser outra.

    Assim, em 1860 - um ano antes dos primeiros artigos de Joaquim Norberto de

    Souza e Silva sobre a Inconfidncia Mineira de 1789 -, o cnego Joaquim Caetano

    Fernandes Pinheiro publicou na sesso contos e narrativas da Revista Popular o artigo

    intitulado A Conjurao de Joo de Deus narrativa dos tempos coloniais402. Em tom

    eloqente o autor inicia o relato afirmando que

    gravado ainda estava na memria de todos o triste desfecho datentativa republicana em Minas, parecia ainda ouvir-se as ltimaspalavras do Tira Dentes ou magoados queixumes do amante deMarlia, e j na antiga capital do Brazil erguia-se de novo ocadafalso de quatro infelizes hallucinados expiavo ahi seus sonhosde liberdade e independncia403.

    Joaquim Caetano afirma que durante o governo de d. Fernando Jos de Portugal

    apesar do cuidado com que hermeticamente fechados tinham os nossos portos

    [aportaram] a esses climas os princpios que em seu triumpho derrubaro o throno de S.

    Luiz, ateando por toda a Europa assombroso incndio. Segundo o cnego,

    audaciosamente procurados ero os corypheus ensyclopedicos, ecom o atractivo do fructo prohibido saboreadas as suas mximas.Podia-se com verdade dizer que, salvas raras excepes,sympathizavo os Brazileiros com as nossas idias, com tantoenthusiasmo por isso que se sentio opprimidos, e com secretopressentimento antevio os arreboes de sua emancipao404.

    Aps essa breve introduo acerca da situao da cidade de Salvador, na qual a

    Independncia do Brasil passa a ser pressentida pelos brasileiros oprimidos, Joaquim

    Caetano relata que, no dia 27 de agosto de 1798, compareceram perante o desembargador

    Francisco Sabino Alves da Costa Pinto, Joaquim Jos da Veiga, Joaquim Jos de

    UNICAMP, 2002. O autor discorda da idia corrente de que a Inconfidncia Mineira foi um movimentoignorado pelo Imprio e enaltecido pela Repblica, demonstrando que a valorizao da Inconfidncia mineiraacontece durante o segundo Reinado, quando o evento evoluiu de um quase estado de verbete, em que atento figurava, para obras literrias e histricas dedicadas inteiramente ao tema. 402 Cf. BN, sesso de obras raras, PR-SOR-03143[1-8]. A transcrio do artigo indito est no anexo 2 destapesquisa. 403 BN, idem, Revista popular, tomo VIII, p 218, 1860. 404 Idem.

    149

  • SantAnna e Jos Joaquim de Siqueira denunciando como conspiradores a Joo de Deus,

    alfaiate, e Lucas Dantas, soldado do regimento da artilharia. A seu ver,

    nem o caracter e posio social do denunciados, nem a naturezados planos, que lhes ero attribuidos, podio discutir o receio pelatranqilidade publica. Suspeita inquieta porm andava aauctoridade, e tanto bastava para que rodeando-se do aparato dalei, desse importncia ao que de si no tinha. A m interpretaodas idias dominantes na revoluo franceza, originada pelaignorncia dos chefes visveis da conjurao, davo-lhe uma corsocialista, pouco prpria para angariar-lhe as sympathias dasclasses mais illustradas e influentes da populao405.

    Neste ponto em especial, Joaquim Caetano retoma em outra perspectiva uma

    questo aberta por Incio Accioli Cerqueira e Silva acerca da composio social da revolta

    baiana de 1798. A esse respeito o cnego afirma que

    nem uma luz derramo os documentos que temos vista sobre overdadeiro chefe da mallograda empreza: na lista porem dos prezosdeparamos com o nome do bacharel Cypriano Jos Barata deAlmeida, cirurgio approvado. Ora, quem se recordar do importantepapel, que no tempo do Sr. D. Pedro desempenhou esse fogosotribuno, no dever acreditar que delle partisse o pensamento, cujaexecuo confiara a indivduos da plebe, porque nellaprincipalmente procurava apoiar-se. Na lista dos trinta e seis prezosavulta o seu nome, e no sabemos como escapasse essacircumstancia ao juiz formador da culpa, para, deixando immune, irdescarregar a espada da justia sobre a cabea dinsignificantescomparas406.

    Embora no reconhea nesse ponto o verdadeiro chefe da revolta baiana de 1798,

    Joaquim Caetano, assim como Incio Accioli, menciona Cipriano Barata como um fogoso

    tribuno, dada a virulncia com a qual defendia suas idias liberais, sugerindo que o

    cirurgio era, seno o mentor do da contestao, um dos partcipes do evento. Motivo pelo

    qual, a seu ver, justificaria a preocupao das autoridades locais acerca da revolta. Ao

    mesmo tempo, Joaquim Caetano afirma com argcia que Cipriano Barata no poderia ser o

    chefe da revolta, cujo pensamento teria sido confiado execuo por indivduos da plebe.

    O cnego passa a inteirar o leitor do programa dos conjurados, tal qual se collige de suas

    proclamaes e dos depoimentos dos negociantes. 405 Ibidem. 406 Idem, p. 219.

    150

  • Joaquim Caetano afirma que os pasquins afixados em locais pblicos da Salvador

    Annunciavo a egualdade e paternidade dos cidados, a aberturadas portas aos navios estrangeiros; a estinco dos tributos emonoplios; a liberdade de todos os escravos; o aumento dos soldosdas tropas, devendo cada soldado ganhar duzentos ris dirios; aaptido dos homens de cor aos mais altos postos da milcia; asupresso da clausura monacal, podendo os frades e as freiras quequizessem sahir de seus conventos407.

    De acordo com o cnego, ao lado dessas medidas, que poderio ser tachadas

    dinnocentes utopias, havio outras que revelavo os instinctos ferozes da plebe, e que

    tanto fazem-no tremer o seu domnio. Assim, Joaquim Caetano alerta com grandiloqncia

    que

    falavo os conjurados no assassinato das principais auctoridades,exceptuando-se o governador, que por um singular delrio julgavoseu cumplice, pretendendo collocal-o frente de sua chimericarepublica. No esquecio tambm a terrvel ameaa do saque quecomo a espada de Democles est sempre suspensa sobre a cabeados ricos suspeitos de no partilharem dos princpiosrevolucionrios408.

    Na tentativa de reafirmar a baixa composio social da revolta baiana de 1798, ao

    mesmo tempo em que associa as inocentes utopias s idias de Cipriano Barata, Joaquim

    Caetano reabre a questo sobre o verdadeiro chefe do movimento, com uma indagao

    Dissemos que nem o caracter, nem a posio social dospretendidos cabeas da revolta devero inspirar ao governo amenor inquietao: e de facto, que preponderncia poderio ter sobum povo to illustrado, como por certo era o baihano, o pobrepardo alfaiate Joo de Deus, e os soldados Lucas Dantas Amorim eLuiz Gonzaga das Virgens, elevado s honras de secretario, e decuja percia grammatical ficaro exuberantes provas nosdocumentos a que acima alludimos?409.

    Depois de afirmar que apezar da jactncia com que em seus plebiscitos diziam

    serem 676 os filiados em sua apreciao, contando-se nesse nmero pessoas de elevada

    posio, cremos piamente que no passavam elles do 36 [...], Joaquim Caetano toca numa

    questo praticamente indita do movimento, exceo de um breve comentrio de407 Idem, p. 220. 408 Ibidem. 409 Idem, ibidem.

    151

  • Varnhagen. Para o cnego, Joo de Deus do Nascimento e Lucas Dantas aliciaram grande

    numero de escravos, engodados na esperana dalforria, e sob este ponto de vista, cumpre

    confessar, que bem funestos poderio ser os resultados da planejada revoluo. O

    excesso retrico de Joaquim Caetano em relao ao nmero de escravos - foram nove,

    segundo os Autos das Devassas, depois que um deles morreu no segredo da Relao410 -,

    simblico do grande medo que assolava a intelectualidade durante boa parte do oitocentos:

    uma revolta escrava nos moldes da que ocorreu no Haiti, a partir de 1791. No parece ser

    por outra razo que nesse ponto Joaquim Caetano, assim como as autoridades locais em

    1799, utiliza o termo revoluo para (des)qualificar o movimento, tido inicialmente por

    conspirao.

    Joaquim Caetano passa a demonstrar o que ele denomina de estultcia dos

    conjurados, valendo-se do depoimento do denunciante Joaquim Jos da Veiga, assim

    como Incio Accioli o fez, para descrever os pormenores dum desses ajunctamentos,

    mencionando os partcipes do encontro malogrado no Campo do Dique do Desterro.

    Dadas as Ave Marias deu elle denunciante, na forma ajustadapara a porta do dicto Joo de Deus, onde achou j, alm desse, osseguintes: Jos do Sacramento, soldado do quarto regimento,official dalfaiate, que lhe parece assiste s Mercs; Luiz, pardo,escravo do secretario deste estado Jos Pires de Carvalho eAlbuquerque; Igncio da Silva Pimentel, soldado do segundoregimento; um moleque apprendiz, que lhe parece escravo dotabellio Bernardino de Senna e Arajo [...] e chegando ao Diqueno acharo pessoa alguma, do que admirado o dicto Joo de Deusdisse para elle denunciante e para os outros: - No sei como isto !Pois Antonio Jos, 1o. boleeiro de Caetano Mauricio, e LucasDantas, tinho ficado de vir e de trazerem ambos consigo sessentahomens e logo se resolvero a passar ao botequim, que fica pordetraz do muro das freiras do Desterro, que dum pardo chamadoManoel Anselmo, e ahi se mandou vir um copo de aguardente [...]411.

    A partir da citao at ento indita do nomes dos cativos e dos cargos ocupados por

    seus proprietrios, o cnego demonstrar a tenso social gerada quando, no oitocentos, se

    avizinhava qualquer possibilidade de participao poltica dos pelos setores populares. Para

    410 Cf. o primeiro captulo. 411 Joaquim Caetano Fernandes Pinheiro, op.cit., p. 221.

    152

  • Joaquim Caetano o mundo dividido entre os que governam, a classe senhorial e os que

    trabalham, os escravos, poderia ter o tecido social corrompido pelo mundo da desordem,

    constitudo basicamente pelos diferentes tipos de homens livres e pobres, que poca do

    segundo Reinado faziam muito barulho com suas revoltas. Um mundo de fronteiras porosas

    no qual homens como Joo de Deus aparece na anlise, de acordo com o dilogo

    depreciativo, corrompendo os dois mundos anteriores. Levando-se em conta que os

    dilogos da narrativa de Joaquim Caetano no encontram paralelo na documentao, o

    objetivo do cnego foi o de desqualificar as aes polticas do vulgo, homens como Joo de

    Deus do Nascimento. No parece ser por outra razo que, diferentemente de Varnhagen,

    Joaquim Caetano demonstrou ao pblico leitor da revista o que ele, finalmente, considerava

    ter sido a revolta baiana de 1798: concilibulos, compostos das fezes da populao

    bahiana, sem bases determinadas, reunidos em um lugar publico e terminando em um

    botequim!412.

    Em relao ao poltica do vulgo, Joaquim Caetano passa a identificar o chefe da

    revolta, afirmando categoricamente que do caracter irresoluto do ostensivo chefe Joo de

    Deus, fornece-nos provas outro trecho do depoimento supra citado [...]. A prova sobre o

    carter do chefe da revolta descrita por outro dilogo no qual Joo de Deus do

    Nascimento caracterizado como um bbado inconseqente, espertalho, novamente sem

    nenhum paralelo na documentao. O cnego afirma, inclusive, que o alfaiate Joo de

    Deus, o suposto chefe do vulgo, era carictico Catilina e tinha falta de energia e mesmo

    a habilidade que muitas vezes supre o talento e a instruo.

    A descrio do carter do chefe da revolta baiana de 1798 no um recurso de

    pouca relevncia, uma vez que o cnego caminha entre a falta de carter do vulgo como

    possibilidade de corromper a ordenao do corpo coletivo, a sociedade, e o respectivo

    controle no seu justo termo e limite. Os populares, faltos de carter por natureza, se

    perderiam no exerccio da poltica, universo por excelncia da classe senhorial. Tanto mais

    que, no desfecho da narrativa, o cnego retoma o que at ento tinha ficado em aberto,

    sugerindo, pela primeira vez, uma maior composio social do evento, a partir do

    questionamento da punio das autoridades coloniais aos rus enforcados em praa pblica.

    412 Idem. Chamamos ateno para o fato de que durante o ano de 1850, os principais motivos para a priso dehomens livres e pobres e escravos foram a desordem e a embriaguez, respectivamente. Cf. Keila Grinberg. Ofiador dos brasileiros: cidadania, escravido e direito civil no tempo de Antonio Pereira Rebouas. Rio deJaneiro: Civilizao Brasileira, 2002.

    153

  • Se, como conhece o Sr. Varnhagen, a revoluo da Bahia notinha chefe, ou pelo menos no queria elle manifestar-se, deixando-se at nas mos da ignorncia a redaco dos documentos officiaes,no vemos a necessidade das medidas de extremo rigor querecorreu o governo portuguez, confirmando a sentena proferidapela relao, que condennava morte a Joo de Deus doNascimento, cabo desquadra de milcias, os dous soldados LucasDantas e Luiz Gonzaga das Virgens, e o criolo liberto ManoelFaustino, que apenas contava com 18 annos de edade!413.

    Entrevendo que os condenados morte, dado o carter de Joo de Deus do

    Nascimento, foram a linha de frente para o verdadeiro chefe, muito provavelmente Cipriano

    Barata, Joaquim Caetano, ao demonstrar anteriormente que as quimricas utopias

    poderiam suscitar no vulgo aes criminais de toda sorte, questiona os termos das punio

    das autoridades dos tempos coloniais, pois, a seu ver,

    a priso, e talvez o desterro dos mais influentes e os castigoscorporaes applicados aos escravos, serio mais que sufficientespara abafar a idia da revolta, mallogrando uma conjurao quedeveu toda a sua importancia aos terrores que soube inspirar aosque nessa epocha governavo o nosso paiz. Pensavam porm osmagistrados e polticos desse tempo que era necessrio ostentar umgrande apparato de fora sempre que apparecia o menor simptomade rebellio414.

    O cnego retoma a retrica da revoluo como direito de resistncia, para

    demonstrar, a partir do ostensivo aparato da punio exemplar, a inflexibilidade dos

    magistrados e o despotismo das autoridades coloniais como causa da revolta baiana de

    1798. Neste particular, alm de demarcar as diferenas entre a sagrada mansido da

    administrao do segundo Reinado da qual o autor fazia parte e o despotismo da

    administrao dos tempos coloniais, Joaquim Caetano reafirma o que ele cria ter sido a

    verdadeira causa do conflito

    Uma proveitosa lico se pode comtudo tirar dessa burlescafara, infelizmente terminada no cadafalso, e vem a ser que odescontentamento popular originado pelos erros dos governantes,fornecer sempre o elemento vivaz de todas as revolues, e que pormaior cuidado que se tenha de submetter a severas quarentenas asidias liberaes faro ellas, similhana das epidemias que zombo

    413 Joaquim Caetano Fernandes Pinheiro, op.cit., p. 221. 414 Idem.

    154

  • dos lazaretos e cordes sanitrios, a sua erupo tanto mais terrvelquanto mais for o soffrimento imposto pelo despotismo415.

    Joaquim Caetano Fernandes Pinheiro altera o tom da crtica em relao s idias

    liberais quando passa a considerar quais seriam as conseqncias polticas se essas idias

    tivessem base social. Assim, o autor encerra a narrativa sobre a revolta baiana de 1798 com

    um recado com endereo certo:

    No descem as theorias metafysicas s camadas inferiores dapopulao, no comprehendem os mappas as theses de direitopublico, conhecem porm intuitivamente que padecem, aspiro pormelhorar a sua sorte, e prestam attentos ouvidos s seduces dealguns ambiciosos, que sobre a sua credulidade firmo o pedestaldo seu poder. Difficil, seno impossvel, sublevar um povo feliz,que vive sob o regime de sabias e justas leis: por conta pois dosmaus governos deveremos lanar a responsabilidade de todas asperturbaes da ordem social416.

    Joaquim Caetano Fernandes Pinheiro encerra sua interpretao sobre a revolta

    baiana de 1798 por uma crtica de vis moralizador e com explcito objetivo pedaggico

    para alertar o pblico leitor da revista sobre os excessos dos setores populares. Esse tipo de

    narrativa era muito comum nos romances histricos publicados a partir da segunda metade

    do oitocentos. inegvel que o autor consultou a documentao composta, basicamente,

    pelos Autos das devassas e pelos pasquins sediciosos, para compor sua narrativa acerca da

    revolta baiana de 1798. como tambm leu os autores anteriores que tinham interpretado o

    evento anteriormente. Entretanto, como se viu, o artigo no um texto propriamente

    historiogrfico, uma vez que o cnego intercala informaes extradas da documentao

    com dilogos ficcionais entre os partcipes da revolta.

    O romance histrico brasileiro, a partir da segunda metade do sculo XIX, como os

    de Joaquim Caetano Fernandes Pinheiro e mesmo de Joaquim Norberto de Sousa e Silva,

    intercalava aventuras por meio de dilogos a fatos de natureza histrica, procurando

    reproduzir de forma verossmil a fisionomia e a cor de uma poca. De acordo com

    Mrcia Abreu, at a dcada de 60 do oitocentos, os romances histricos publicados nos

    vrios peridicos da Corte eram vistos com certo descaso porque a leitura no era restrita

    415 Ibidem. 416 Idem.

    155

  • elite letrada versada no romantismo europeu. Essa crena se alicerava no fato de o

    romance de natureza histrica no requerer uma srie de procedimentos caractersticos das

    prticas de leitura dos gneros clssicos e historiogrficos417. Tanto mais que suas

    publicaes eram feitas nos peridicos de considervel circulao na poca. Todavia, se o

    romance era visto com reservas por alguns eruditos, parece inegvel que esse tipo de

    publicao tem um aspecto pedaggico em relao ao pblico leitor caro aos beletristas que

    compunham simultaneamente os quadros do IHGB e da administrao do segundo Reinado.

    o prprio Joaquim Norberto de Sousa e Silva, j presidente da agremiao, quem

    esclarece a relevncia poltica desse gnero histrico- literrio e a razo pela qual alguns

    scios efetivos do IHGB trataram de temas nacionais em romances histricos publicados,

    sobretudo, nas pginas da Revista Popular. Para Joaquim Norberto

    O romance dorigem moderna; veio substituir as novellas e ashistrias; que tanto deleitavam nossos paes. uma leituraagradvel, e diramos quase um alimento de fcil digestoproporcionado a estmagos fracos. Por seu intermdio pode-semoralizar e instruir o povo fazendo-lhe chegar ao conhecimento dealgumas verdades metaphysicas, que alis escapariam a (sic) suacompreenso418.

    Como se viu, o artigo de Joaquim Caetano Fernandes Pinheiro se enquadra na

    perspectiva moralizadora e pedaggica dos romances histricos acerca de algumas

    verdades sobre os temas caros histria ptria, cuja interpretao encontrava-se poca

    longe de ser hegemnica entre os que compunham as fileiras intelectuais do segundo

    Reinado. O autor estabelece um dilogo crtico com a interpretao inaugural de Francisco

    Adolfo de Varnhagen, especialmente no que tange ausncia de base social e

    operacionalidade poltica das quimricas utopias de homens como Cipriano Barata e,

    sobretudo, dos homens livres e pobres. Se Varnhagen, ao descrever as proposies dos

    partcipes da revolta, veiculadas nos pasquins sediciosos, demonstrou a existncia de bases

    tericas para as aes dos revoltosos livres e pobres, Joaquim Caetano, ao contrrio,

    inverteu essa lgica para demonstrar o perigo das idias republicanas quando apropriadas

    por esse setor. Ao descrever que as bases tericas de um Cipriano Barata no passavam de

    417 Cf. Mrcia Abreu e Nelson Schapochnik (Orgs.). Cultura letrada no Brasil: objetos e prticas.Campinas/So Paulo: Mercado das Letras/FAPESP, 2005. 418 Joaquim Norberto de Sousa e Silva. Vicentina. Romance do Snr. Dr. J. M. de Macedo. Revista Guanabara,Rio de Janeiro, Tomo III, n. 1, 1855, p. 17.

    156

  • uma utopia em quarentena, mas para o vulgo significava, antes de mais nada, a desordem

    social externalizada em assassinato das autoridades, saques e convulses sociais de toda

    sorte, o cnego sugere, por meio de dilogos ficcionais, o instinto selvagem desses

    homens. Chega, inclusive, a afirmar que no descem as teorias metafsicas s camadas

    inferiores da populao, sugerindo que as idias republicanas, devendo ficar em

    quarentena, eram universo poltico da classe senhorial, ainda que a esse respeito houvesse

    um srie de discordncias dentro das prprias fileiras polticas no segundo Reinado. Neste

    ponto em especial, Joaquim Caetano no condena, como Varnhagen, os projetos polticos

    de inspirao republicana, mas o didatismo do artigo do cnego caminha na direo de

    alertar seus opositores para a ameaa de corrupo do tecido social caso o vulgo

    efetivamente participasse do universo da poltica.

    Ao afirmar que Joo de Deus do Nascimento tinha falta de energia e mesmo a

    habilidade que muitas vezes supre o talento e a instruo, Joaquim Caetano, em primeiro

    lugar, direciona sua crtica ao ponto em que o Visconde de Porto Seguro excluiu da anlise

    da revolta baiana de 1798 na segunda edio, mostrando-se, sobretudo, receoso de

    mudanas polticas. Depois, mesmo sem explicitar a referncia, o cnego parece retomar

    Montesquieu em sua proposio de que as repblicas fundamentam-se, sobretudo, na

    virtude, demarcando a clivagem entre os virtuosos do poder e os faltos de carter. Da a

    explorao melodramtica da ausncia de carter do vulgo como impossibilidade de

    participao poltica sem avanar no vis republicano da revolta propriamente dita,

    explicitado na obra de Varnhagen com a descrio do contedo veiculado pelos pasquins.

    O ano da publicao do artigo de Joaquim Caetano Fernandes Pinheiro era 1860.

    Perodo no qual, como se afirmou anteriormente, o segundo Reinado j dava os primeiros

    sinais de desgaste e a campanha abolicionista ganhava cada vez mais as pginas dos

    peridicos da corte. Com a Lei Eusbio de Queirs, de 1850, que definitivamente decretou

    o fim do trfico internacional de escravos, houve o acirramento do abolicionismo e um

    crescente debate sobre a substituio da mo de obra escrava pelo trabalhador livre. Nesse

    processo, o lugar a ser ocupado pelos escravos na sociedade foi questo relevante para os

    beletristas de todas as cores. Quando Joaquim Caetano afirma a existncia de muitos

    escravos na revolta de 1798, ficcionando mais uma vez o dilogo entre Joo de Deus do

    Nascimento com alguns cativos, e o prprio nmero de cativos, o cnego retoma o

    157

  • argumento do Provedor Jos Venncio de Seixas e chama a ateno para o perigo de uma

    ameaa socialmente legitimada se houvesse de fato uma aliana poltica entre os setores

    populares da revolta: escravos e homens livres e pobres. Ao demonstrar uma espcie de

    cooptao poltica dos cativos revolta baiana de 1798, capitaneada por Joo de Deus, o

    cnego novamente reafirma sua posio diante dos clivados contornos sociais entre quem

    trabalha e quem faz poltica; entre quem manda e quem obedece, e quem ousou desviar sua

    trajetria original.

    Uma vez demarcada sua posio poltica com inegvel argcia, Joaquim Caetano

    passa a tocar em um ponto absolutamente frgil da poltica do segundo Reinado: a figura de

    Pedro II identificada por seus opositores com seus antepassados lusitanos absolutistas. A

    descontinuidade entre a interpretao de Varnhagen e Fernandes Pinheiro acerca da revolta

    baiana de 1798 bastante clara tambm quando os autores marcam suas posies em

    relao Independncia do Brasil, em 1822, i.e., entre o passado colonial e o segundo

    Reinado. Como demonstra Lcia Paschoal Guimares, tal como Ranke, Varnhagen

    privilegia sobretudo o Estado, da sua nfase na primazia dos fatos polticos,

    relativamente isolados das foras sociais419. Ainda que Varnhagen tenha incorporado o

    contedo dos pasquins sediciosos na primeira edio de sua obra, inegvel a prevalncia

    das aes poltico-administrativas dos portugueses colonizadores, por mais de trs sculos,

    em uma narrativa cuja lgica histrica era evolutiva e linear. Na segunda edio da obra,

    em 1873 - portanto depois do artigo de Joaquim Caetano Fernandes Pinheiro e no mesmo

    ano em que Joaquim Norberto publica, nos quadros da agremiao, a primeira obra que

    versa exclusivamente sobre a Inconfidncia Mineira de 1789 -, o que reforado na

    segunda edio da obra de Varnhagen a Independncia do Brasil como o resultado natural

    da ao colonizadora e civilizadora dos Braganas. Cabe lembrar novamente que o

    Visconde de Porto Seguro exclui para a segunda edio o contedo dos pasquins ao mesmo

    tempo em que introduz o item no qual refora a postura administrativa de d. Fernando Jos

    de Portugal e Castro, ento governador da Bahia.

    O artigo de Joaquim Caetano Fernandes Pinheiro caminha, mais uma vez, em outra

    direo. Cipriano Barata qualificado pelo cnego como algum que teve relevante papel

    na Independncia do Brasil, para, em seguida, ser considerado se no o mentor da revolta de

    1798, algum que defendia as quimricas utopias, cuja implantao, dada sua ilustrao,419 Lcia Maria Paschoal Guimares. Histria Geral do Brasil, op.cit. p. 95.

    158

  • no destinaria a homens como Joo de Deus do Nascimento. Joaquim Caetano, neste

    particular, no s prima pela descontinuidade entre a administrao do segundo Reinado da

    qual ele ocupava importante cargo, como refuta a acusao de despotismo extemporneo de

    Pedro II ao demonstrar que despsticos eram as autoridades dos tempos coloniais que

    enforcaram e esquartejaram os quatro homens livres e pobres, quando lhes bastariam a

    punio de degredo e aoites em praa pblica, uma vez que o estado natural de

    selvageria do vulgo no lhes permitiria teorizar a respeito da revolta.

    Ao retomar a proposio da retrica da revoluo como direito de resistncia, tudo

    leva a crer que o principal termo do artigo de Joaquim Caetano acerca da revolta baiana de

    1798 a redeno do selvagem, do vulgo, pela mensagem civilizadora da administrao

    de Pedro II. Essa imagem, presente com eloqncia no romance histrico do autor, pertence

    a uma espcie de construo consensual da imagem modernizadora de Pedro II e da sua

    administrao para reforar com tintas fortes as noes de ptria e nao que ainda no

    tinham encontrado lugar definitivo no imaginrio da sociedade oitocentista420. A partir de

    1848, com o fim da revolta praiera, nenhum evento de natureza contestatria ocorreu que

    ameaasse a consolidao interna da unidade nacional. Joaquim Caetano soube aproveitar

    com argcia esse dado quando afirmou que a principal causa para todas as rebelies era a

    ausncia de justas e sbias leis dos governos despticos dos tempos coloniais. Depois, ao

    mencionar as idias de Cipriano Barata na revolta baiana de 1798, contestando o

    absolutismo das autoridades dos tempos coloniais, no parece exagerada a afirmao de que

    Joaquim Caetano objetivou demonstrar mais uma vez clivagem entre o passado e o presente

    sugerindo a figura de Pedro II como algum sensvel ao elo entre a regio e o Imprio, entre

    as idias liberais em quarentena de um Cipriano Barata e os termos do regime

    republicano, ao que tudo indica, inevitvel.

    No parece ser por outra razo que, nos termos do prprio Joaquim Caetano, a

    administrao do segundo Reinado era caracterizada sobretudo por dois pilares de enorme

    apelo ideolgico e resultantes das caractersticas pessoais do imperador: a sagrada mansido

    e o progresso. A modernidade, portanto, foi pensada em oposio ao passado dos tempos

    420 Esse processo de construo consensual da idia de modernidade de Pedro II e sua administrao durante osegundo Reinado sugestiva da proposio de Pierre Bourdieu, para quem a concordncia e a integraosocial segue os pressupostos de Durkheim, no qual os smbolos tornam possvel o consensus acerca dosentido do mundo social que contribui fundamentalmente para a reproduo da ordem social: a integraolgica a condio da integrao moral. Cf. Pierre Bourdieu. O Poder simblico. Rio de Janeiro: BertrandBrasil, 1989, p. 9-11.

    159

  • coloniais e conferida nao brasileira sob os auspcios de Pedro II, cujo imprio viveu o

    apogeu de sua grandeza e estabilidade. As benesses da civilizao comeavam a irradiar

    pelos centros urbanos do pas como um todo, e nas letras, de acordo com Joaquim Caetano

    e Joaquim Norberto, o Brasil saiu do marasmo cultural e das agitaes polticas das

    primeiras dcadas do oitocentos para se reencontrar com o seu destino manifesto: o de um

    pas essencialmente agrcola. Se a imagem de Pedro II e da administrao do segundo

    Reinado foram construdas poca em oposio ao passado, a nao brasileira passou a ser

    pensada a partir de projetos que at ento eram conflitantes e interditos, sendo que o maior

    exemplo nesse caso so as idias liberais em quarentena como um dos possveis

    caminhos para o Brasil adaptar-se a uma nova ordem ocidental, a segunda Revoluo

    Industrial, poca em curso.

    O fato que as anlises de Francisco Adolfo de Varnhagen e Joaquim Caetano

    Fernandes Pinheiro acerca da revolta baiana de 1798 demonstram em seu conjunto que o

    processo de construo de uma histria ptria hegemnica ocorreu atravs de um profundo

    debate historiogrfico que reflexo das reais oposies polticas entre os partidos do

    segundo Reinado e, como se viu, entre as fileiras do mesmo grupo de intelectuais

    absolutamente afinados com o poder poltico hegemnico. A informao que beira a

    obviedade nos remete outra, menos evidente: mesmo refutando em termos gerais a ousadia

    popular quando contestou o poder dos tempos idos, e, portanto, construindo a idia da

    represso bem sucedida, em termos especficos no parece imprudente afirmar que a

    historiografia oitocentista responsvel pela valorizao da Conjurao Baiana de 1798

    enquanto fato da histria ptria. Os autores em questo estabeleceram um dilogo crtico

    acerca da composio social do evento e dos termos dos princpios polticos e filosficos

    dos partcipes que pouco refletem a proposio de parte da historiografia novecentista que

    versa sobre o evento ao sugerir, por exemplo, que

    a reabertura da discusso [Conjurao Baiana de 1798] coube aoshistoriadores republicanos, j liberados dos bloqueios mentais que,durante o anterior perodo monrquico e escravista recomendavam,sob o risco de coliso com os fundamentos do poder e do Estado, adesqualificao a priori de projetos polticos libertrios em cujointerior confraternizavam homens de condio social to desigualcomo ocorreu na Bahia421.

    421 Cf. Istvn Jancs. Um problema historiogrfico: o legado de D. Fernando Jos de Portugal. Anais do IVCongresso de Histria da Bahia, Salvador, Instituto Histrico e Geogrfico da Bahia/Fundao Gregrio deMattos, 2001, vol. 1, p. 299.

    160

  • No que se refere s interpretaes de Varnhagen e Joaquim Caetano acerca da

    revolta baiana de 1798, a questo parece circunscrever-se ao universo da poltica. Em

    relao Conjurao Baiana de 1798, as significativas alteraes feitas para a segunda

    edio da obra de Varnhagen, em 1873, e a permanncia dessa interpretao nas edies

    ulteriores, com anotaes de Capistrano de Abreu e Rodolfo Garcia, sugerem que a

    desqualificao da revolta em relao sua baixa composio social est longe de ser algo

    a priori. A interpretao construda no sculo XIX acerca do evento resulta do dilogo

    crtico estabelecido entre o Visconde de Porto Seguro e Joaquim Caetano Fernandes

    Pinheiro, bastante indicativo das fronteiras ainda porosas entre a histria e literatura,

    mesmo quando se ressaltava a relevncia da documentao no processo de escrita da

    histria.

    Depois, mesmo desqualificando a utilizao do gnero romance histrico de

    Joaquim Caetano, sob a alegao de que no se trata de um texto propriamente

    historiogrfico acerca do tema, no h divergncia entre os que se ocuparam e ocupam da

    obra e pensamento de Francisco Adolfo de Varnhagen, que as vrias alteraes feitas para a

    segunda edio e, como se viu tambm em relao Conjurao Baiana de 1798, foram

    muitas e significativas. Ademais, como demonstra Mrcio Serelle em relao

    Inconfidncia Mineira de 1789, assim como Bernardo Ricupero em termos mais gerais,

    histria e literatura fazem parte do mesmo processo, segundo o qual a afirmao sobre o

    compromisso fiel dos beletristas ao narrar o passado brasileiro, no oitocentos, tem de ser

    matizada, considerando, por um lado, a relao dos autores, obra e contexto no qual todos

    esto inseridos, e, por outro, o carter hbrido e o dever moral do intelectual oitocentista

    que, a partir da seleo dos documentos comprobatrios para a narrativa do passado

    colonial, poderia escrev-la tanto nos quadros do IHGB, como fez Francisco Adolfo de

    Varnhagen, quanto na Revista Popular, objetivando atingir um maior pblico, como o

    caso de Joaquim Caetano Fernandes Pinheiro422.

    Seja como for, parece no restar dvida de que o dilogo entre o Visconde de Porto

    Seguro e o cnego Joaquim Caetano Fernandes Pinheiro resultou nas premissas sobre a

    Conjurao Baiana de 1798 segundo as quais os historiadores do sculo XX, de uma forma

    ou de outra, transitaram e transitam at hoje.

    422 Cf. Mrcio Vasconcelos Serelle, op.cit., Bernardo Ricupero, op.cit.

    161

  • Captulo 4. A Conjurao Baiana de 1798 no sculo XX:da punio exemplar revoluo malograda.

    A histria a matria-prima para ideologias nacionalistas, ticasou fundamentalistas, da mesma maneira como as papoulas so amatria-prima para os viciados em herona. O passado umelemento essencial [...] quando no existe um passado adequado,ele sempre pode ser inventado.

    Eric Hobsbawm.

    Neste captulo, trata-se de compreender a dinmica especfica dos historiadores que

    versaram sobre a revolta baiana de 1798 no sculo XX. O captulo ser dividido em trs

    partes. A primeira, na qual identificamos a gnese do processo no qual a Conjurao Baiana

    de 1798 deixa de ser interpretada a partir da punio exemplar imputada aos rus, em 1799,

    para metamorfosear-se na Conjurao Baiana de 1798, um marco de referncia popular e

    ruptura regional da emancipao poltica do Brasil, em 1822. Esse perodo, aps a

    162

  • Proclamao da Repblica, em 1889, o momento em que vrios Institutos Histricos e

    Arquivos Estaduais foram criados e passaram a polarizar a produo historiogrfica dos

    diferentes Estados, cujos grupos sociais dominantes integraram esses espaos balizados,

    sobretudo, pelos debates sobre a federalizao do poder adotado na Constituio de 1891. O

    que se verificar nesse perodo o empenho de homens como Francisco Vicente Viana,

    Francisco Borges de Barros e Brs do Amaral que, ao interpretarem a revolta baiana de

    1798, disputaram um lugar de destaque na memria nacional para si prprios e para o

    evento.

    A segunda parte trata de compreender os desdobramentos desse processo nas

    anlises sobre o evento elaboradas aps a Revoluo de 1930, na qual Caio Prado Jnior,

    ainda que tenha interpretado o evento luz de uma brevssima biografia de Cipriano Barata,

    forneceu contribuio seminal para o debate acerca da Conjurao Baiana de 1798, na

    medida em que sua interpretao foi o ponto de partida para que as questes do evento

    fossem colocadas como uma das contradies e conflitos do carter mercantilista da

    colonizao portuguesa. Uma dcada depois, Affonso Ruy, trilhando o caminho aberto por

    Caio Prado Jnior, mas aproximando-se do dogmatismo das teses do PCB da poca,

    contribuiu para o debate acerca do evento na medida em que chamou a ateno para a

    doutrinao das massas e a misso histrica das classes.

    Por fim, a terceira parte trata de enunciar o debate de historiadores que at hoje

    versam sobre a Conjurao Baiana de 1798, iniciado na dcada de setenta do sculo XX, e

    que se mantm at os dias de hoje. Trata-se dos trabalhos de: Lus Henrique Dias Tavares,

    Ktia M. de Queirs Mattoso, Carlos Guilherme Mota e Istvn Jancs.

    Parte I O regionalismo soteropolitano: foram quatro os Tiradentes daConjurao Baiana de 1798? 423.

    4.1. Francisco Vicente Viana.

    Francisco Vicente Viana (1848-1893), filho do Baro do Rio das Contas e da

    Baronesa do mesmo ttulo e natural da Bahia, nasceu na Bahia, em 1848424. Neto do Baro

    423Ttulo da pea de Mrio Lago escrita em meados da dcada de sessenta e censurada pela Ditadura Militar. Apea est no cdice Mrio Lago, no Aquivo Nacional.424 Sacramento Blake. Diccionario Bibliographico Brazileiro. Rio de Janeiro: Tip. Nacional, 1883, Tomo III,p. 501.

    163

  • do Rio das Contas de mesmo nome, seu av perfilava entre os proprietrios dos escravos

    indiciados nas devassas da revolta baiana de 1798, e, por ocasio da lutas da Independncia

    na Bahia, seu av foi presidente da Provncia, entre 1823-1825425. Francisco Vicente Viana

    doutorou-se em medicina pela faculdade de Berlim, e de volta a Salvador foi o primeiro

    diretor do Arquivo Pblico do Estado da Bahia. Faleceu em 1893, ano da publicao de sua

    principal obra. Memria sobre o estado da Bahia foi feita por ordem do governador da

    Bahia, Joaquim Manoel Rodrigues, e auxiliado pelo amanuense do arquivo, Jos Carlos

    Ferreira426.

    Como primeiro diretor do arquivo pblico do Estado da Bahia, Francisco Vicente

    Viana interpreta o evento em trs pargrafos do ltimo captulo (673 pginas compem o

    conjunto geral de sua obra). Assim como seus conterrneos e contemporneos do evento,

    Francisco Vicente Viana aborda o tema a partir dos relatos sobre a administrao de d.

    Fernando Jos de Portugal e Castro. Segundo o autor, nos anos finais da administrao do

    agente metropolitano na Bahia, como resultado das idias proclamadas pela Revoluo

    Francesa, arrebentou na Bahia uma sublevao causada pelos papis afixados em

    vrios pontos pblicos da cidade, concitando o

    povo a uma revolta, sedio que d. Fernando com grandehabilidade conseguiu abafar, aprisionando os cabeas,processando-os e fazendo-os soffrer a pena ltima a 8 de novembrode 1799 na praa da Piedade e sofrendo outros a pena de priso edegredo.427

    Em um momento da escrita da histria, em que o uso documental j era prtica

    cotidiana do historiador, a obra em questo se caracteriza por um inexpressivo uso da

    documentao, pela despolitizao e por uma visvel semelhana com as obras de Lus dos

    Santos Vilhena e de Incio Accioli de Cerqueira e Silva no que respeita ao encadeamento

    dos temas e dos fatos abordados. Neste particular, cumpre ressaltar que o av de Francisco

    Vicente Viana vivenciou os acontecimentos ocorridos em Salvador, em 1798, como

    425 Cf. Oliveira Lima. O Movimento da Independncia, 1821-1822. Rio de Janeiro: Topbooks, 1997, 6a.edio; Brs do Amaral. Histria da Independncia na Bahia. Salvador: Livraria Progresso, 1957, 2a. edio.Ler, especialmente, o captulo III. 426 Francisco Vicente Viana. Memria sobre o Estado da Bahia. Salvador: Typographia e Encadernao doDirio da Bahia, 1893. O arquivo pblico do Estado da Bahia foi fundado pelo governador Manoel VitorinoPereira, em 16 de janeiro de 1890, sendo o seu primeiro diretor Francisco Vicente Viana. 427 Francisco Vicente Viana, op.cit., p. 635.

    164

  • proprietrio de um dos escravos condenados pena de degredo428. No obstante, no h

    nenhuma referncia a respeito, no texto. Alm disso, a ausncia de documentao causa

    estranheza porque a obra foi escrita nos quadros do arquivo pblico do Estado da Bahia,

    cujo primeiro diretor foi o prprio autor.

    O fato que a interpretao de Francisco Vicente Viana no significou uma inflexo

    do conhecimento elaborado sobre a Conjurao Baiana de 1798, durante o sculo XIX, por

    Francisco Adolfo de Varnhagen e o cnego Joaquim Caetano Fernandes Pinheiro; no h

    tampouco nenhum indcio que Francisco Vicente Viana tenha lido as interpretaes

    oitocentistas. A razo para isso, talvez esteja relacionada ao fato de que os anos

    imediatamente posteriores Proclamao da Repblica, foram um perodo de incertezas

    polticas e econmicas sobre os termos do novo regime. A inflexo sobre o conhecimento

    elaborado sobre a Conjurao Baiana de 1798 vir com a fundao do Instituto Geogrfico

    e Histrico da Bahia e as anlises histricas elaboradas por ocasio da comemorao

    republicana do primeiro centenrio da Independncia do Brasil, a partir de 1922.

    Com a fundao do referido Instituto, em 1894, os historiadores regionais buscaram

    ressaltar as suas especificidades no que diz respeito nfase da histria local/regional,

    vocacionadas sobretudo para afirmar a importncia da ento provncia da Bahia no processo

    de construo da histria nacional429. Nesse processo, a idia de uma histria nacional

    elaborada nos quadros do IGH foi pensada, sobretudo, em oposio s interpretaes

    elaboradas pelos intelectuais do IHGB, cujo contedo se caracterizava por um forte vis

    centralizador. De acordo com Maria Aparecida Silva de Souza, a idia de que a histria do

    Brasil fosse a somatria das histrias regionais surgiu logo nos primeiros discursos da

    fundao da agremiao baiana e apareceu vinculada a uma severa crtica ao papel exercido

    pelo IHGB, desde 1838, que primou por construir uma histria do Brasil fundamentada na

    unidade nacional, desprezando as especificidades regionais430.

    Com efeito, a historiografia regional nobilitou-se por consagrar novos mitos,

    representaes simblicas e um saber histrico destinado a demarcar o que deveria ser

    428 Cf. o captulo 1 desta dissertao. 429 Veja-se Maria Aparecida Silva de Sousa. Histria, memria e historiografia: abordagens sobre aIndependncia na Revista do Instituto Geogrfico e Histrico da Bahia (1894-1923). In: Politia: Histria eSociedade, Vitria da Conquista, vol. 5, n.1, pp. 177-195, 2005. Segundo a autora, em 1856, ocorreu afundao do Instituto Histrico Provincial da Bahia, que, todavia, seria fechado pouco tempo depois. Cf. p.180. Instituto Geogrfico e Histrico da Bahia, doravante IGH. 430 Idem, p. 183.

    165

  • rememorado e a excluir o que precisava ser esquecido, muitas vezes invertendo os plos

    das anlises elaboradas pela historiografia oitocentista no que se refere, sobretudo, aos

    eventos de forte identificao regional. Assim, do ponto de vista da escrita da histria,

    ainda segundo Maria Aparecida Silva de Souza, os integrantes do IGH responsveis pelos

    trabalhos histricos, com destaque para Braz do Amaral e Francisco Borges de Barros,

    adotavam uma metodologia assentada na viso da cientificidade dahistria, conferida por sua base documental o que pressupunha aadmisso da veracidade dos acontecimentos relatados por estadocumentao431.

    Do ponto de vista poltico, os historiadores do IGH buscaram os exemplos do

    passado que pudessem solidificar o sentimento patritico para promover a recuperao da

    histria baiana em uma conjuntura poltica bastante especfica. Segundo os discursos dos

    beletristas, o IGH coligir e estudar, para arquivar e publicar, as tradies e

    documentos que puder obter, concernentes geografia e histria, arqueologia,

    etnografia, s lnguas indgenas do Brasil, especialmente deste Estado432. Assim,

    Francisco Borges de Barros433 e Braz do Amaral434, inspirados ainda pela concepo

    tradicional e factual da prtica historiogrfica oitocentista, interpretaram a Conjurao

    Baiana de 1798 em perspectivas distintas, mas com um objetivo em comum: ressaltar a

    vocao republicana dos baianos dos tempos idos e demarcar a posio poltica do Estado

    da Bahia a partir dos feitos de outrora.

    Isso porque, instalada a Repblica por decreto, o 15 de novembro marcou o

    desfecho de um movimento que quase no teve nenhum contato com as foras populares,

    resultando em um golpe militar que precisava de legitimao, conforme analisou Jos

    Murilo de Carvalho435. A historiografia oficial republicana carioca consagrou Tiradentes

    como o heri nacional e, desde a dcada de sessenta do sculo XIX, como se viu no artigo

    431 Ibidem, p. 187. Cludia R. Callari demonstra o mesmo padro de escrita da histria nos quadros doInstituto Histrico e Geogrfico de Minas Gerais. Cf. Cludia R. Callari, op.cit. 432 RIGHB, n. 46, vol. XXVII, Salvador, 1920, p. 4. Apud, Maria Aparecida Silva de Souza, op.cit., p. 186. 433 Francisco Borges de Barros. Os Confederados do Partido da Liberdade. Salvador: Imprensa Oficial doEstado da Bahia, 1922. 434 Brs do Amaral. A Conspirao republicana na Bahia de 1798. Salvador: Tipografia Naval, 1941. Ver asanotaes do autor na obra de Incio Accioli de Cerqueira e Silva. Memrias Histricas e Polticas daProvncia da Bahia. Salvador: Imprensa Oficial do Estado da Bahia, 1931, 6 vols. 435 Cf. Jos Murilo de Carvalho. A Formao das almas: o imaginrio da Repblica no Brasil. So Paulo:Companhia das Letras, 2001, 11a. reimpresso. Ver o captulo 3: Tiradentes: um heri para a Repblica, pp.55-74.

    166

  • do cnego Joaquim Caetano Fernandes Pinheiro, em 1860, o republicanismo presente nos

    movimentos de contestao ocorridos em Minas Gerais e na Bahia, no final do sculo

    XVIII, j no era um projeto poltico de nao interdito. Aproveitando as trilhas abertas

    pela historiografia do IHGB, sobretudo as obras elaboradas durante o segundo Reinado, foi

    atravs da interpretao das revoltas coloniais ocorridas nas Capitanias no final do sculo

    XVIII que configurou-se uma importante ideologia patritica para a consolidao de

    algumas implantaes do regime republicano, especialmente em relao s tradicionais

    oligarquias regionais436. Com efeito, se por um lado a historiografia do IHGB consagrou

    Tiradentes como o heri nacional, por outro, a historiografia do IGH mostrar a sua

    contribuio enaltecendo seus heris regionais e o papel desempenhado pela ento elite

    local nas lutas pela Independncia, na Bahia.

    4.2 Francisco Borges de Barros.

    Francisco Borges de Barros foi diretor do Arquivo Pblico da Bahia e o primeiro

    Gro-Mestre da Grande Loja da Bahia, a primeira a ser fundada no Brasil aps a ciso de

    1927. Francisco Borges de Barros autor de vrios trabalhos sobre a Bahia, mas nobilitou-

    se na cena historiogrfica sobretudo pelas obras Os confederados do Partido da Liberdade:

    subsdios para a histria da Conjurao Baiana de 1798-1799 e Primrdios das

    Sociedades Secretas na Bahia437. Foi na obra Os confederados do Partido da Liberdade que

    Francisco Borges de Barros versou sobre a Conjurao Baiana de 1798.

    O objetivo geral da obra, segundo o autor, era demonstrar as conseqncias das

    causas econmicas e sociais internas da Salvador de 1798, somadas contingncia das

    idias francesas, que, a seu ver, abrira[m] novos horizontes vida dos povos438, fazendo

    436 Wilma Peres Costa chama ateno, sem aprofundar a questo, para o papel ideolgico da historiografiaregional como um dos caminhos possveis para a resoluo da crise poltica das oligarquias regionais emrelao ao papel das economias rurais numa ordem econmica capitalista. Contradio essa que, de acordocom as anlises de Francisco de Oliveira e Luiz Felipe de Alencastro, entre outros, comeou a serdefinitivamente resolvida com a Revoluo de 1930 e com a criao da SUDENE. Cf. Wilma Peres Costa,op.cit., p. 67. Veja-se a esse respeito Francisco de Oliveira. A questo regional: a hegemonia inacabada.Estudos Avanados, vol. 7, n. 18, Maio-Junho, So Paulo, pp. 43-63; Elegia para uma re(li)gio: Sudene,Nordeste, planejamento e conflito de classes. Rio de Janeiro: Paz & Terra, 1977; Luiz Felipe de Alencastro.Memrias da Balaiada: introduo ao relato de Gonalves de Magalhes. Novos Estudos Cebrap, So Paulo,n. 23, 1989, pp. 7-13.437 Francisco Borges de Barros. Primrdios das Sociedades Secretas na Bahia. In: Anais do Arquivo Pblicodo Estado da Bahia, vol. XV, pp. 44-45, 1928; Francisco Borges de Barros. Os confederados, op.cit. 438 Borges de Barros, op.cit., p. 20.

    167

  • com que o esprito pblico fosse se erguendo contra o throno. No item Symptomas de

    uma poca, seguindo o padro das obras que at ento trataram do evento, Francisco Borges

    de Barros inicia o tema a partir das aes do governador d. Fernando Jos de Portugal e

    Castro, valendo-se do trabalho do primeiro diretor do Arquivo Pblico do Estado da Bahia,

    Francisco Vicente Viana.

    Aps enumerar uma srie de medidas tomadas por d. Fernando Jos de Portugal e

    Castro, durante os anos finais do sculo XVIII, Borges de Barros afirma que no podia fazer

    a histria dessa sedio sem estudar a situao poltica de Portugal439. O autor descreve,

    ento, as dificuldades diplomticas e financeiras de Portugal durante os anos de 1797-1799,

    afirmando que agudssima era a crise econmica e financeira, desapparecendo a moeda

    mettalica deante da invaso do papel. Corroborava para aumentar o momento de crise,

    segundo o autor, o fato de que cercava d. Rodrigo uma camarilha ventruda, que

    procurava alapardar os lucros da ourama que sahia dos veeiros lassos do Brasil. A

    situao econmica e financeira de Portugal, de acordo com o autor, foi a razo pela qual a

    justia vivia subordinada aos maus funcionrios, fazendo com que a prevaricao dos

    juzes [atingisse] at a colnia brasileira 440.

    Depois de demonstrar muito rapidamente a situao de Portugal no final do sculo

    XVIII, Francisco Borges de Barros passa a tratar da situao especfica da Bahia na poca.

    No item A exorbitncia dos impostos contrabandos a lassido dos costumes o

    abandono, o autor afirma que os impostos asphyxiavam a vida do povo, e eram

    anualmente aumentados. Entretanto, a pesada carga tributria da Coroa, como o subsdio

    literrio, lanado para manter o estudo do latim e da geometria, eram desviados para fins

    diversos dos que determinaro sua creao441. Francisco Borges de Barros passa, em

    seguida, a descrever todos os impostos pagos pelo povo da Capitania para dedicar-se

    polmica do comrcio a retalho. De acordo com o autor, no ano de 1797, chegaram em

    Salvador mais de 80 mascates que logo iniciaram o comrcio de uma grande variedade de

    sedas vindas da ndia e de finssimos panos brancos, que eram vendidos a baixo preo

    porque os produtos no tinham passado pela Alfndega. O contrabando de sedas e tecidos,

    segundo o autor, explicava a corrupo dos costumes da sociedade baiana da poca, uma

    vez que negros e mulatos, dos mais remediados, vestiam seda e faziam concorrncia aos439 Idem, p. 5. 440 Idem, pp. 5-6. 441 Ibidem, p. 6.

    168

  • brancos nas festas do vero, na cidade442. Razo pela qual o Senado da Cmara

    reivindicou providncias ao governador que foram rapidamente tomadas.

    Segundo Francisco Borges de Barros, aps a elucidao do caso do comrcio a

    retalho, a devassa da Alfndega e a proibio dos vendedores ambulantes, a perseguio

    dos mulatos crescia dia-a-dia, quando, a seu ver, o governador deveria ter tomado

    providncias contra os abusos praticados pelos Ouvidores e Juzes de Fora, os quaes

    gastavam em rega-bofes as rendas dos processos443. Colaborou para a j afflictissima

    situao da Bahia o fato de que no ano de 1798 era grande o rendimento de fumo, motivo

    pelo qual o governo determinou por carta rgia que fosse lanado em carter obrigatrio o

    emprstimo de papel moeda na importncia de trs milhes de cruzados e juros de 6%444,

    seguindo-se a recusa dos negociantes das principais casas do comrcio.

    Em seguida, Francisco Borges de Barros afirma que feito o balano das foras

    econmicas e bem caracterizadas a afflictissima situao da Capitania chegaram os povos

    concluso de no ser mais possvel adaptarem-se s injunes do momento. Com efeito,

    no item As origens do movimento revolucionrio, o autor entra de fato na discusso sobre a

    revolta baiana de 1798, afirmando inicialmente que a disperso das idias era reflectora

    de uma poca de decadncia e opresso, para em seguida retomar o argumento de John

    Armitage sobre o papel da Revoluo Francesa que, de acordo com Borges de Barros,

    trouxe um largo contingente de idias novas e fechara um cyclo histrico e abrira

    novos horizontes vida dos povos445. Mesmo com um forte esquema repressivo das

    autoridades locais para barrarem qualquer propaganda ou folheto com notcias da Frana

    revolucionria, para o autor destarte, o esprito pblico ia se erguendo contra o throno.

    Apesar da fiscalizao rgia, as idias libertrias ligaram num mesmo elo, segundo

    Borges de Barros, maranhenses, pernambucanos e baianos. Isso porque, no ano de 1797,

    fundaram na ponta da Barra a Loja Cavalheiros da Luz, primeiro templo manico da

    Bahia. Neste particular, Francisco Borges de Barros abre uma polmica que at hoje no

    foi resolvida. O historiador publicou, em 1928, no volume XV dos Anais do Arquivo, s

    pginas 44 e 45, a histria da loja Cavaleiros da Luz, afirmando categoricamente a

    fundao da loja manica, sem, contudo, apresentar prova documental. O autor valeu-se

    442 Idem, p. 7.443 Idem, p. 9. 444 Idem.445 Francisco Borges de Barros. Os confederados, op.cit, p. 20.

    169

  • apenas do fato de ter sido um dos fundadores da Loja Manica da Bahia, em 1927 e de

    afirmar nas reunies do IGH que tinha lido alguns documentos da Maonaria e, dado o

    carter secreto da loja, no seria possvel public-los446.

    Essa polmica, entretanto, no de pouca relevncia uma vez que a fundao e a

    existncia da referida loja passa a integrar o conjunto de eixos de significao da

    Conjurao Baiana de 1798. Neste sentido, para Borges de Barros, a Maonaria passa a ser

    o centro difusor de idias e prticas dos agentes do evento. Tanto mais que, aps afirmar

    sem comprovao documental a existncia da Loja Manica Cavalheiros da Luz, Borges

    de Barros resgatar os possveis fundadores da loja associando-os revolta baiana de 1798.

    Sobre a participao de homens importantes da sociedade baiana no evento, que, a seu ver,

    seriam tambm os fundadores dos Cavaleiros da Luz, cumpre destacar uma observao de

    Francisco Borges de Barros, escrita na obra Primrdios da Sociedade Secreta na Bahia.

    Afirma o autor que

    Em princpios de julho de 1797 ancorava na Bahia a fragata LaPreneuse, que havia sustentado um combate com a corvetaportuguesa Santo Antonio Polyphemo, de que era comandanteManoel Nascimento Costa [...]. Naquela fragata houve inmerosentendimentos pelos homens mais esclarecidos da terra, e dessasconfabulaes fizeram parte: Jos da Silva Lisboa, o padreFrancisco Agostinho Gomes, Cypriano Barata, Igncio Bulco,Francisco Muniz Barreto e o tenente Hermgenes de AguiarPantoja, por ter pretendido dar um jantar aos franceses. DeFrancisco Muniz Barreto h uma parte interessante de seudepoimento que havendo estado na capital em 1797 freqentou acasa de Jos Borges de Barros, seu vizinho, h pouco chegado daIlha da Madeira, o qual era irmo de Domingues Borges de Barros,e muitas vezes conversou com o primeiro sobre o governoeconmico da terra, assim como sobre as notcias que chegavam doestado poltico da Europa. Este o estado de espritos sequiosos deliberdade, humanidade e igualdade, quando aos 14 de julho de 1797Larcher e os brasileiros citados fundaram na povoao da Barra aloja manica Cavalheiros da Luz [...]447.

    446 Veja-se a respeito da polmica sobre a fundao da loja Cavaleiros da Luz, Jos Castellani. A polmicaem torno da fundao da primeira loja manica do Brasil: uma novidade bastante antiga. In: RevistaAccia, Porto Alegre, 1995. Agradeo ao Prof. Jos Castellani a indicao do artigo, bem como algumasinformaes a respeito da loja manica. Sobre a sociabilidade manica no perodo da Independncia, ver,especialmente: Alexandre Mansur Barata. Maonaria, Sociabilidade Ilustrada e Independncia do Brasil(1790-1822). So Paulo/Juiz de Fora: FAPESP/Annablume-EDUFJF, 2006. 447 Francisco Borges de Barros, Primrdios, op.cit., p. 45.

    170

  • No parece ser por outra razo que o autor afirma que pelas investigaes feitas,

    chegamos a concluso de que trs homens dirigiram [...] a revolta baiana de 1798: Jos da

    Silva Lisboa, o organisador calmo, meditado e prudente; Cipriano Barata de Almeida,

    o agitador das ruas [...] idealista e mais sensvel que intelligente; e Francisco Agostinho

    Gomes, um santo e um sbio448. Jos da Silva Lisboa (1756-1831), inclusive, merece um

    item parte na obra de Francisco Borges de Barros: o povo apparece a figura de Jos da

    Silva Lisboa. Nesse item, o autor afirma que dos partcipes do evento acorooavam a

    fina flor da sociedade bahiana, e dos trs lderes da revolta baiana de 1798, citados acima,

    cumpre destacar a personalidade de Jos da Silva Lisboa, que por ser organizador calmo,

    meditado e prudente, ergueu uma bandeira de reivindicaes e disseminou os

    sentimentos da ptria que agitaram a grande colnia449.

    Quanto participao de homens dos mais baixos setores da sociedade baiana da

    poca, nomeadamente Joo de Deus do Nascimento e os demais homens enforcados e

    esquartejados em praa pblica, Borges de Barros afirma que eles tiveram o mesmo papel

    que Tiradentes: foram, como em todas as revolues, collocados na linha de frente450.

    Isso porque, a seu ver, as idias de igualdade embutidas aos pardos e pretos lhes

    affianavam o bom xito pelo argumento considervel de seu partido451. Neste particular,

    o autor inaugura a perspectiva de anlise que tem como ponto de partida a influncia das

    idias francesas, difundidas por membros da fina flor da sociedade baiana, como a

    cadncia dos partcipes da revolta baiana de 1798, pois o livro Runas, de Volney, vrios

    pamphletos e avulsos, inspirados na grande conquista da revoluo francesa, eram o

    catecismo dos sediciosos.

    Como os setores mdios e baixos envolvidos na revolta baiana de 1798 no teriam

    nenhuma expresso ou participao significativa nos acontecimentos, Borges de Barros

    encaminha o desfecho da anlise carregando na tinta a participao de pessoas

    proeminentes daquela sociedade. Nesse sentido, ele afirma mais uma vez que, entre os

    partcipes da revolta, acorooavam a fina flor da sociedade bahiana, uma vez que os

    senhores de engenho no eram estranhos ao movimento. Para comprovar a afirmao e

    enaltecer Jos da Silva Lisboa e Cipriano Barata como as cabeas pensantes do

    448 Francisco Borges de Barros, Os confederados, op.cit., p. 21. 449 Ibidem.450 Idem, p. 22. 451 Ibidem.

    171

  • movimento, Borges de Barros transcreve na obra trechos de uma carta entre os dois

    baianos ilustres, segundo a qual Silva Lisboa escreve para Cipriano Barata, do seu retiro de

    Mar, que

    No estado em que se acha Portugal devemos aproveitar aocasio para proclamar a independncia da capitania. Jdeve estar na barra uma esquadra francesa que vem ao nossoauxlio, e deve estar avisado o professor do Rio de Contas,que traz a expedio de mil homens. Ningum h de lhe dizera verdade como eu, nem interessar-se tanto pelo bem pblico.J o Jos Pires de Albuquerque [Secretrio de Estado eGoverno do Brasil] lhe deve ter comunicado a resoluo dosnossos amigos do Recncavo. Tenha cuidado com o frei Jos[do Monte Carmelo] e frei Francisco na disputa que mantmquanto ao querer cada qual ser o chefe da Igreja. Por cartade Marcelino Antnio sei que est firme. Estou a escrever osartigos do programa de governo452.

    O autor termina sua interpretao sobre a revolta baiana de 1798 transcrevendo

    alguns trechos dos depoimentos dos rus nos quais h referncia, de uma forma ou de outra,

    s atuaes de Jos da Silva Lisboa, Cipriano Barata e o padre Francisco Agostinho

    Gomes453. Francisco Borges de Barros, ao afirmar como os principais membros da revolta

    baiana de 1798 homens que tambm fundaram a primeira loja manica na Bahia, objetivou

    destacar o papel de alguns baianos ilustres da Maonaria no processo de Independncia do

    Brasil, em 1822. A esse respeito, cumpre ressaltar que a grande nfase nas obras elaboradas

    nos quadros do IGH, durante a comemorao do primeiro centenrio da Independncia do

    Brasil, o perodo considerado pelos historiadores da agremiao como o de maior glria

    para o povo baiano: a resistncia da provncia durante a guerra civil entre portugueses e

    brasileiros nas lutas pela Independncia do Brasil no decorrer dos anos de 1822-1823.

    Nesse empuxo, a produo historiogrfica do IGH, na segunda dcada do sculo XX,

    452 Francisco Borges de Barros no cita a referncia de nenhum documento pesquisado para a interpretao daConjurao Baiana de 1798. Limita-se apenas a escrever: Arquivo Pblico do Estado da Bahia. Contudo, estacarta de Jos da Silva Lisboa a Cipriano Barata citada na ntegra por Affonso Ruy e Florisvaldo Mattos, sema referncia documental. O recuso utilizado pelos os autores a afirmao documento citado por FranciscoBorges de Barros. A esse respeito, veja-se, respectivamente: Affonso Ruy. A primeira Revoluo SocialBrasileira (1798). So Paulo: Companhia Editora Nacional; Coleo Brasiliana, vol. 217, 1942, p. 54;Florisvaldo Mattos. A comunicao social na Revoluo dos Alfaiates. Salvador: Assemblia Legislativa daBahia: co-edio Academia de Letras da Bahia, 1998, p. 135. 453 Francisco Borges de Barros. Os Confederados ..., op.cit., p. 30 et. segs.

    172

  • caracterizada, sobretudo, por deslocar o marco da proclamao da Independncia do grito

    do Ipiranga para o 2 de julho de 1823 como um marco inconteste454.

    Nesse processo de estabelecimento de novos eixos cronolgicos da Independncia

    do Brasil, entre os trabalhos publicados na revista do IGH, chama a ateno, em primeiro

    lugar, o nmero de artigos dedicados s ilustres pessoas no cenrio regional durante o

    perodo das lutas da Independncia na Bahia e durante o Imprio. Entre os baianos ilustres,

    cabe ressaltar que Jos da Silva Lisboa, o Visconde de Cairu, sem sombra de dvidas a

    figura de maior destaque. No parece ser por outra razo que Francisco Borges de Barros

    considera Jos da Silva Lisboa455 como um dos lderes intelectuais da revolta de 1798, para,

    em seguida, demonstrar em sua anlise que o sentimento patritico comeava a despertar

    entre os baianos ilustres j nas dcadas finais do sculo XVIII.

    Uma das razes para o Visconde de Cairu ter sido um dos principais mentores na

    interpretao de Francisco Borges de Barros sobre a Conjurao Baiana de 1798, para alm

    do fato de Jos da Silva Lisboa ter sido Gro-Mestre da Maonaria, durante o primeiro

    Reinado, talvez esteja ligada situao da elite baiana durante a Primeira Repblica. A

    posio que a Bahia passou a ocupar na ordem republicana ocasionou acentuado

    desconforto em suas elites. bom destacar que durante o Imprio, polticos baianos

    exerceram vrios cargos administrativos de relevo, especialmente as pastas ministeriais. De

    acordo com alguns autores, a tera parte de todos os chefes de gabinete do Segundo

    Reinado e a quarta parte de todos que foram nomeados Ministros de Estado no mesmo

    perodo tiveram origem na Bahia. Sem contar que, at meados do oitocentos, a Bahia

    perfilava entre os trs principais centros econmicos do pas. J no perodo 1889-1930, a

    Bahia se tornou coadjuvante no cenrio poltico e econmico nacionais, provocando um

    grande desconforto na elite regional, que alegavam viver uma crise, cujos sinais eram o

    declnio econmico e a decadncia poltica456.454 Cf. Maria Aparecida Silva de Souza, op. cit., p. 187. A esse respeito, veja-se tambm: Braz do Amaral.Histria da Independncia na Bahia. Salvador: Progresso, 1957; Hendrik Kraay. Entre o Brasil e a Bahia: ascomemoraes do 2 de julho em Salvador, sculo XIX. Afro-sia, Salvador, n. 23, 2000, pp. 49-87; Joo JosReis. A elite baiana face aos movimentos sociais, Bahia (1824-1840). So Paulo: Difel, 1985, pp. 242-311;Lus Henrique Dias Tavares. Histria da Bahia. So Paulo/Salvador: Unesp/Edufba, 2001. 455 Jos da Silva Lisboa, apesar de ser considerado por alguns historiadores como um catlico fervoroso porseus escritos, a partir da fundao da Ordem Manica do Grande Oriente do Brasil, em 1822, cujo primeiroGro-Mestre foi Pedro I, e, depois, o prprio Jos da Silva Lisboa durante o primeiro Reinado. Cf. JosCastellani, op.cit.; Antonio Penalves Rocha, op.cit. 456 Sobre a hegemonia poltica baiana no Imprio, ler: Ktia M. de Queiros Mattoso. Bahia, sculo XIX: umaprovncia do Imprio. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992; Jos Murilo de Carvalho. A construo daordem: a elite poltica imperial; O teatro das sombras: a poltica imperial. Rio de Janeiro: Editora da

    173

  • Durante o perodo da Primeira Repblica, a Bahia apenas elegeu um vice-presidente

    no primeiro governo civil Manoel Victorino, na presidncia de Prudente de Morais (1894-

    1898) e at o ano de 1930, a Bahia foi mal sucedida todas as vezes que lanou candidatos

    presidncia. Nesse perodo, com efeito, as elites manifestavam seus descontentamentos

    culpando a ineficcia do novo regime como uma das causas do declnio. No parece ser por

    outra razo que as elites baianas da Primeira Repblica procuraram engendrar formas de

    reivindicar e marcar posio junto aos principais ncleos polticos nacionais,

    nomeadamente So Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. E a Histria da Bahia, nesse

    processo, configurou-se como uma importante ferramenta no que se refere ao

    reconhecimento das antigas tradies de luta e participao poltica dos soteropolitanos

    ilustres no processo de construo da Nao.

    Para alm do anacronismo de qualificar as aes de Jos da Silva Lisboa, Cipriano

    Barata e o padre Francisco Agostinho Gomes como um desejo de independncia do jugo

    metropolitano, ao enaltecer o papel desempenhado pelo Visconde de Cairu, Francisco

    Borges de Barros considerou o desfecho do processo de emancipao poltica do Brasil

    durante o perodo de 1822-1823, emprestando papel proeminente ao Visconde, durante o

    perodo imperial457. Por outro lado, Francisco Borges de Barros diz muito pouco sobre a

    atuao dos homens livres, pobres e pardos, e os cativos que foram presos no Segredo da

    Relao, acusados de participarem da revolta. Se o autor comparou os rus enforcados e

    esquartejados em praa pblica a Tiradentes, poca j considerado um heri nacional, foi

    porque, como o autor no faz nenhuma referncia documental, muito provavelmente no

    cit-los em sua obra comprometeria a verossimilhana da interpretao. Depois, Tiradentes

    era considerado heri nacional, mas, como se sabe, sua atuao tinha sido em Minas Gerais.

    Levando-se em conta a interpretao que o IGH elabora sobre as lutas pela independncia

    na Bahia, no parece ser por outra razo que Francisco Borges de Barros, em certo

    UFRJ/Relume-Dumar, 1996; Srgio Buarque de Holanda. O Brasil Monrquico: do Imprio Repblica.So Paulo: Difel, 1983. 457 A respeito da atuao poltica do Visconde de Cairu durante o perodo imperial, especialmente no primeiroReinado, veja-se: Antonio Penalves Rocha, op.cit. Chamamos ateno para o fato de que para Afonso Ruy,autor de uma importante obra sobre a Conjurao Baiana de 1798, muito provavelmente Francisco Borges deBarros confundiu-se na leitura do depoimento do soldado Igncio Pimentel, um dos acusados, no qual citadoo nome Silva Lisboa. Para Afonso Ruy, trata-se de Antonio da Silva Lisboa e no Jos da Silva Lisboa, oVisconde de Cairu. Essa informao se fosse comprovada invalidaria a anlise de Francisco Borges de Barrossobre a Conjurao Baiana de 1798, especialmente no que se refere participao e atuao do Visconde deCairu no evento. Cf. Affonso Ruy. A primeira Revoluo Social Brasileira. So Paulo: Companhia da EditoraNacional, 1942, p. 118.

    174

  • momento de sua interpretao, compara a Conjurao Baiana de 1798 Inconfidncia

    Mineira de 1789.

    A respeito da comparao dos rus enforcados, homens livres, pobres e pardos, a

    Tiradentes, e a participao da fina flor da sociedade da poca com os homens livres e

    pobres que foram linha de frente da revolta, cumpre destacar que essa interpretao de

    Borges de Barros foi considerada, a partir da dcada de setenta do sculo XX, como um

    indicativo de cooperao de classe. Na introduo historiogrfica sobre a Conjurao

    Baiana de 1798, elaborada por Istvn Jancs, a interpretao de Francisco Borges de Barros

    sobre o evento significa que o ideal de cooperao de classe j um valor que se faz

    presente.458 Foi analisando a interpretao de Borges de Barros sobre Conjurao Baiana

    de 1798 que, nos anos vinte do sculo XX, relacionaram-se as atitudes dos rus enforcados

    s idias de igualdade pensadas e divulgadas por homens maons. Tal no chega a ser um

    ideal de cooperao de classe, contudo, se considerarmos, por um lado, a idia de

    liberdade dos prprios agentes,459 e, por outro lado, que Francisco Borges de Barros

    sugere em sua anlise que a propagao das idias da Revoluo Francesa foi uma

    estratgia poltica extremamente eficaz de homens como Jos da Silva Lisboa, Cipriano

    Barata e Francisco Agostinho Gomes para a cooptao de um maior nmero de

    partcipes. A esse respeito, cabe lembrar que o desejo de liberdade dos homens livres

    pobres e dos cativos utilizado por Francisco Borges de Barros, e mesmo pelas autoridades

    locais, em 1799, para justificar a pena imputada aos quatro homens considerados como os

    lderes da revolta. Tanto mais que sobre o escravos e os demais milicianos e alfaiates o

    autor nada escreve a respeito. Ademais, os termos em que Istvn Jancs faz da interpretao

    de Francisco Borges de Barros parte da idia de um novo ordenamento do Estado

    Brasileiro, como um desdobramento inicial do comrcio europeu e, depois, como um

    espasmo do capitalismo. Nesse caso, a idia de cooperao de classe como emergncia de

    uma nova ordem que o autor vislumbra em um estgio inicial na interpretao de Francisco

    Borges de Barros sobre a Conjurao Baiana de 1798, ao fim e ao cabo, deriva da idia de

    que da natureza do Imprio ser negado pelo capitalismo, que, por sua vez, passa a exigir a

    458 Istvn Jancs. Um problema historiogrfico: o legado de d. Fernando Jos de Portugal. In: Anais do IVCongresso de Histria da Bahia, Salvador, Instituto Geogrfico e Histrico da Bahia/Fundao Gregrio deMaattos, vol. 1, 2001, p. 301.459 Cf. o primeiro captulo desta pesquisa, especialmente o teor dos depoimentos dos cativos e de homenscomo Joo de Deus do Nascimento.

    175

  • Repblica do Brasil. Ainda que a anlise nos remeta a uma idia caricatural do processo do

    fim do Imprio e a consolidao da Repblica, Renato Lessa chama a ateno afirmando

    que de fato mais ou menos isso. Segundo Renato Lessa, h uma tendncia de parte da

    historiografia brasileira do sculo XX de afirmar que as crises polticas s fazem sentido,

    em certa concepo, se so a ponta aparente de determinaes fundas na estrutura social,

    na econmica e na de classes. A idia a de que essa estrutura o capitalismo ou algo

    semelhante teria interpelado o Imprio e exigido a Repblica460.

    Seja como for, a interpretao de Francisco Borges de Barros sobre a Conjurao

    Baiana de 1798, como se viu, liga-se a uma circunstncia na qual h inmeros discursos

    publicados na revista do IGH que reivindicavam uma efetiva participao dos baianos

    ilustres na fundao da nao brasileira. De modo geral, os historiadores baianos da

    agremiao, durante a Primeira Repblica, ressaltavam que foi na Bahia onde a guerra de

    Independncia se travou primeiro e mais cruenta. O grito do Ipiranga Independncia ou

    morte foi precedido pelo brado de Cachoeira Independncia ou morrer repetido na

    cantinela patritica461. Essa era a idia corrente entre os beletristas soteropolitanos. Se de

    fato houve a cooperao de classe entre os partcipes do evento, esse ideal aparecer em

    seus estgios iniciais na interpretao que Braz Hermenegildo do Amaral elaborou sobre a

    Conjurao Baiana de 1798.

    4.3 Braz Hermenegildo do Amaral.

    Braz Hermenegildo do Amaral (1861-1949) era filho homnimo de Braz

    Hermenegildo do Amaral e de D. Josefina Virgnia do Amaral. Seu pai, capito de polcia,

    foi combatente na Guerra do Paraguai, cujo desempenho lhe rendeu vrias congratulaes.

    No obstante os feitos militares de seu pai, Braz do Amaral teve uma infncia muito pobre,

    de tal sorte que cursou a Faculdade de Medicina da Bahia, uma das primeiras do pas,

    enquanto lecionava no Colgio da Bahia. Tornou-se professor da Faculdade de Medicina e,

    como tal, integrou o corpo mdico das Tropas Oficiais na Guerra de Canudos. Enquanto

    460 Veja-se, Renato Lessa. A inveno da Repblica. Cadernos da Escola do Legislativo, Belo Horizonte, vol.5, n. 10, janeiro/julho, 2000, pp. 9-38.461 RIGHB, n. 46, vol. XXVII, 1920, apud Maria Aparecida Silva de Souza, op.cit., p. 192.

    176

  • lecionava, Braz do Amaral dedicou-se pesquisa e publicao de trabalhos sobre a

    historiografia baiana.

    Com bastante trnsito na vida pblica, especialmente no perodo em que Rodrigues

    Alves foi Presidente, Braz do Amaral ocupou a legislatura federal, pelo Partido

    Republicano, por dois mandatos durante os perodos de 1924-1926 e 1927-1929. Foi um

    dos fundadores do Instituto Geogrfico e Histrico da Bahia, ocupando inclusive diversos

    cargos diretivos na agremiao. Como membro-fundador da Academia de Letras da Bahia,

    Braz do Amaral ocupou a cadeira 4, cujo Patrono outro ilustre historiador baiano,

    Sebastio da Rocha Pitta. Braz do Amaral nobilitou-se na historiografia nacional por obras

    que versam sobre os limites e os aspectos polticos da Bahia e, sobretudo, por suas

    anotaes s obras de Incio Accioli de Cerqueira e Silva e Lus dos Santos Vilhena462 Foi

    na obra Conspirao Republicana da Bahia de 1798 que Braz do Amaral interpretou o

    evento463.

    Braz do Amaral inicia sua anlise afirmando que a revolta baiana de 1798 era um

    movimento muito pouco conhecido porque os autores dos compndios histricos de sua

    poca reproduziam o que os outros j escreveram e como o gosto das investigaes

    histricas ainda no era corrente entre os historiadores, ficou esta tentativa de

    independncia do Brasil, quase ignorada dos brasileiros [...]. Para o autor, entretanto,

    A Conjurao Baiana episdio de notvel relevo na vida destepovo, porque constitui prova irrefutvel de que se fazia ummovimento com instintos libertrios em todo o pas, nos fins dosculo XVIII e princpios do XIX, o qual apresenta trs grandesexpoentes, a saber: a conspirao de Minas Gerais em 1792,chamada tambm de Tiradentes, a conspirao da Bahia de 1798 ea revoluo de Pernambuco de 1817. V-se que no devem serisolados estes trs fatos, pois todos tiveram a mesma causadeterminante464.

    Para Braz do Amaral, tomadas em seu conjunto, as revoltas se concatenam e so

    sintomas de um estado poltico e social que foi o que teve finalidade em 1823, porque todos

    foram orientados pela aspirao que tinham os brasileiros de mudar a forma de

    462 Cf. Dicionrio de Autores Baianos. Salvador: Secretaria de Cultura do Governo da Bahia, 2006. 463 Braz do Amaral. A Conspirao Republicana da Bahia de 1798. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1926.Conferncia realizada no Instituto Histrico e Geogrfico Brasileiro, em 25 de junho de 1926. 464 Idem, p. 5.

    177

  • governo465. De acordo com a anlise do autor, a conjurao baiana [...] j se revelou

    mais importante que a primeira [Inconfidncia Mineira de 1789] porque ela mais digna

    de nota, pois demonstra uma

    fase mais adiantada do movimento liberal e porque abrangeu umnmero muito maior de implicados, o que prova a extenso que iatomando o anseio de independncia dos nacionais, aindademonstrando como se firmava a propaganda dos princpios deliberdade, tanto civil como religiosa466.

    A relevncia do evento se justifica, segundo o autor, porque entre os partcipes haviano somente pessoas das classes elevadas da colnia, mas homensdas classes que constituem a massa de uma nao, que nem oscastigos severos, nem a supresso de notcias, nem os outros meiosempregados, puderam impedir que a causa continuasse a conquistarinteligncias e coraes467.

    Aps afirmar que j se sentia em 1798 a alma do povo, Braz do Amaral caminha

    pela trilha aberta pela historiografia do IGB, ao enaltecer as lutas da Independncia na

    Bahia, cujo marco cronolgico da Independncia foi deslocado para 02 de julho de 1823, e

    afirma que a revolta baiana de 1798 no foi intil porque ela

    repercutiu onde devia repercutir, pois isto se deu na capitania, nolocal em que foi preciso sacrifcio, esforo e constncia para levar aefeito a independncia, visto como na Bahia a transformaopoltica no se operou sem luta, no foi realizada pelo governo, frente do qual achava-se o prncipe regente [...]468.

    O autor procura ressaltar a Bahia como um foco de luta, resistncia e anseio de

    mudanas polticas. Entretanto, diferencia-se de Francisco Borges de Barros ao afirmar que

    a qualidade de conspirao [foi] formada no seio do povo, fato indicativo de que a

    propaganda das idias liberais ia ganhando o terreno em todas as camadas da

    sociedade. Neste particular, o autor aponta a influncia das idias propagadas pela

    Revoluo Francesa para afirmar que

    a semente colhida nos livros franceses e nas notcias que chegavama alguns, logo a outros transmitidas, dos acontecimentosrevolucionrios da Europa e da Amrica, sempre avidamenterecebidas, produziram a germinao do movimento de Minas,

    465 Ibidem. 466 Idem, Ibidem, 6.467 Braz do Amaral, op.cit., pp. 6-7.468 Idem, p. 7.

    178

  • nascido entre homens de inteligncia [...]. Apesar de arrancada dali,veio a brotar em outro ponto [Bahia] por indivduos a que asmesmas doutrinas tinham seduzido, apaixonadas pela causa daemancipao dos povos e pela esperana de libertar o seu469.

    Braz do Amaral constri a idia da Conjurao Baiana de 1798 como um exemplo a

    ser seguido para sugerir que eventos como esse e a Inconfidncia de Minas de 1789 foram o

    ponto de partida para que espritos clarividentes elaborassem algumas reformas durante

    as primeiras dcadas do sculo XIX. O exemplo citado pelo autor Silvestre Pinheiro

    Ferreira, que props a separao administrativa da sua metrpole, constituindo uma

    monarquia dual, o que indcio de que possua opinio segura da necessidade desta

    reforma [...]. Como Braz do Amaral considera que a Coroa portuguesa s atendeu

    incompletamente os anseios de reforma, quando o Brasil foi elevado categoria de Reino

    Unido, no compreendendo que as reformas feitas a tempo evitam as revolues, o

    governo metropolitano, com efeito, no conseguiu impedir a separao completa do

    Brasil 470.

    Feitas as consideraes a respeito das causas e conseqncias da Conjurao Baiana

    de 1798, Braz do Amaral utiliza a documentao, em seguida, para comprovar as suas

    proposies acerca do evento, provas da exposio feita acima. Desse item em diante,

    nomeadamente da 8a. pgina 67a., Braz do Amaral transcreve quase integralmente uma

    pequena parte da documentao sobre a Conjurao Baiana de 1798: os pasquins

    sediciosos, parte das denncias, pequenos trechos dos depoimentos e termos de acusao.

    Aps a escolha das provas, o autor encaminha a concluso de sua interpretao afirmando

    categoricamente que os documentos acerca da revolta so prdromos da nossa

    Independncia que, como as grandes reformas pelas quais passam os povos, teve o seu

    perodo de preparao. A esse respeito, Braz do Amaral afirma que

    o perodo que serve de tema a este estudo foi um perodo detransio, em que os acontecimentos decorreram, logicamente, deoutros que os tinham preparado, o que no escapou a espritosavisados e perspicazes, como o de Silvestre Pinheiro Ferreira, quepercebeu no poder durar a ordem das coisas existentes at atornada incompatvel com a capacidade e cultura do povo do Brasil,

    469 Idem, ibidem. 470 Idem, p. 8.

    179

  • o que era revelado pelas mltiplas manifestaes dedescontentamento471.

    Como um dos expoentes da poltica regional da Primeira Repblica, Braz do Amaral

    afirma que tanto d. Rodrigo de Souza Coutinho como o governador d. Fernando Jos de

    Portugal e Castro opuseram resistncia a um sistema liberal que aparecia como sinnimo,

    naquele tempo, de iniqidade e violncias, como era o jacobinismo. No obstante, como o

    esprito da reforma no foi contido, os agentes metropolitanos concorreram para o

    estabelecimento de um regime poltico melhor do que o existente at a, e melhor tambm

    do que os dos revolucionrios franceses, pois foi escoimado dos excessos terroristas.

    Nessa perspectiva, os agentes metropolitanos citados representavam o gnio conservador

    que, mesmo na derrota, til 472, pois as resistncias e restries feitas ao jacobinismo

    lhe entravaram a fora e neutralizaram aes como as da fase do Terror da Revoluo

    Francesa.

    Braz do Amaral afirma que a atuao das autoridades, ao tentar conter o

    jacobinismo, deveu-se, principalmente, porque

    os interesses dos homens que compem os governos em face dosvcios que se introduzem nas classes em que se divide a populao,pelo enfraquecimento das crenas religiosas, pela dissoluo doscostumes e desorganizaes da vida de famlia, e ainda pelodesenvolvimento do luxo, conseqncia da riqueza, concorrendotodos estes elementos para destruir as bases das sociedades473.

    Aps descrever o quadro geral das razes para o descontentamento da sociedade

    baiana de 1798, Braz do Amaral afirma que a propaganda da evoluo das idias torna

    evidente a aguda necessidade de reformas. Algumas vezes elas vm a realizar-se

    lentamente, mas quase sempre so apressadas pelos abalos que se chamam revolues.

    No foi, porm, o jacobinismo que substituiu o regime absoluto e sim a monarquia

    moderada ou representativa, frmula inglesa que todos adotaram. O autor termina sua

    anlise da Conjurao Baiana de 1798 afirmando que

    graas ao tempo decorrido e graas aos exemplos que temos visto,podemos afirmar que [...] vinte e quatro anos depois destassentenas e destas sinistras execues, a independncia do pas que

    471 Braz do Amaral, op.cit., p. 67. Grifo meu. 472 Idem, p. 69. 473 Cf. Braz do Amaral, op.cit., p. 69.

    180

  • havia desejado os condenados bahianos se realizou e justamentepapel mais importante nela representou um prncipe da famlia real,neto da mesma senhora e rainha, em cujo nome suas justias tinhammatado e esquartejado. pena que tais lies no se aproveitem aosque se apoderam do governo dos povos e aos juzes que osservem474.

    Diferentemente da interpretao de Francisco Borges de Barros, parece inegvel que

    o ideal de cooperao de classe esteja presente na interpretao que Braz do Amaral fez da

    Conjurao Baiana de 1798, ainda que em seus estgios iniciais, pois tudo leva a crer que a

    participao da massa, ou do povo, segundo o autor, caminha mais para a idia de

    tutela. Parece inegvel tambm que, pela primeira vez, o processo de Independncia do

    Brasil, em 1822-1823, de acordo com os autores citados, foi a via pela qual o evento foi

    interpretado. Se Francisco Borges de Barros buscou ressaltar a atuao de alguns baianos

    ilustres em 1822-1823, considerando, para tanto, a atuao dessas pessoas nos quadros da

    maonaria, Braz do Amaral, ao contrrio, sugere a participao de pessoas importantes na

    revolta sem resolver a questo. Pois tudo leva a crer que este autor buscou demonstrar a

    generalizao do desejo de mudana e reformas da sociedade baiana de 1798 como um

    todo, mas pelo alto: homens ilustres disseminando as idias da Revoluo Francesa.

    Braz do Amaral, como se viu, foi Deputado pelo Partido Republicano por dois

    mandatos consecutivos. Uma das principais questes discutidas entre o membros do Partido

    Republicano Baiano era a acomodao e a adaptao da oligarquia rural baiana ao novo

    regime, sem abrir mo do tradicional jogo poltico das influncias, favores, demonstraes

    de prestgio e poder, permanecendo, portanto, durante a Primeira Repblica, a disputa de

    poder entre as tradicionais oligarquias475. Braz do Amaral no permanece alheio a esse

    processo. Ao contrrio. A grande questo para o historiador e deputado baiano que,

    embora o regime republicano representasse de incio a vitria do federalismo e da

    autonomia dos Estados, esse federalismo da Primeira Repblica acentuou as diferenas

    regionais, concentrando renda nos Estados mais ricos e, conseqentemente, aprofundando

    as desigualdades. Essa realidade repercutiu em vrios setores da vida baiana, cujo controle

    poca ainda era exercido pelas oligarquias rurais. Razo pela qual, durante a Primeira

    474 Idem, p. 71. 475 Cf. Consuelo Sampaio. Partidos Polticos da Bahia na Primeira Repblica. Salvador: Editora da UFBA,1998.

    181

  • Repblica, h vrias condenaes explcitas do liberalismo poltico entre aqueles que se

    opunham ordem poltica estabelecida.

    Assim, com base na evidncia de que os direitos polticos liberais no se efetivavam

    em um contexto viciado nas prticas oligrquicas, especialmente nos Estados Federativos

    mais pobres como a Bahia, Elisa Reis demonstra, a partir das teses de Bolvar Lamounier,

    que a oposio no lutou para a afirmao desses direitos, mas buscou sancionar uma

    concepo diferente de direitos na qual a coleo de indivduos planteada pelo liberalismo

    deveria ceder lugar a um indivduo coletivo, um todo orgnico nacional tutelado pelo

    Estado476. Esse processo, como demonstra a autora, caminha para a formao de um sistema

    ideolgico orientado no sentido de conceituar e legitimar a autoridade do Estado como

    princpio tutelar da sociedade. A autora caracteriza esse projeto autoritrio como uma

    ideologia de Estado, de forma a contrast-la com a ideologia do liberalismo clssico.

    Ainda que os vnculos com as bases scio-econmicas dessa ideologia de Estado de fato

    fossem extremamente frgeis, a produo intelectual a partir desse perodo teve uma

    enorme importncia, uma vez que trouxe a discusso da construo do Estado e da Nao

    para o primeiro plano. No parece ser por outra razo que essa ideologia autoritria

    encontrava respaldo no apenas dentro do Estado, mas tambm em amplos setores da

    sociedade anteriormente excludos da arena poltica. Essa ideologia, de acordo com a

    autora, durante a Primeira Repblica, provia justificativa tanto para o fortalecimento do

    Estado como para a incorporao de novos setores sociais que emulavam a nacionalidade477.

    Tudo leva a crer que essa seja a chave de entendimento que justifique o fato de Braz

    do Amaral ter ressaltado a participao de vrios setores na Conjurao Baiana de 1798.

    Ademais, em um texto intitulado O Federalismo, o autor inicia suas consideraes

    afirmando que

    a Independncia do Brasil no se fez apenas com duas frases, o queno fica bem at dignidade nacional [...] em detrimento daverdade e do reconhecimento do esforo e sacrifcios do povobrasileiro numa luta realmente gloriosa e nobre em que, semtraies, nem quebra nem lealdade, pelo ferro, e pelo sangue se fez agrande obra j preparada no seio da massa popular. Foi elaconseqncia de uma velha aspirao, como provam asconspiraes urdidas em Minas, na Bahia [...]478.

    476 Cf. Elisa P. Reis. O Estado como ideologia. Estudos Histricos, Rio de Janeiro, vol. 1, n. 2, 1988, p. 7477 Idem, p. 8478 Braz do Amaral. O Federalismo. In: Conspirao Republicana da Bahia de 1798, op.cit., p. 71.

    182

  • Ressaltar o anseio da massa na Independncia do Brasil, em 1822, foi um recurso

    extremamente eficaz no processo de identificao poltica regional e, pouco tempo depois,

    no cenrio nacional. Isso porque a idia de cooperao de classe presente na interpretao

    de Braz do Amaral sobre a Conjurao Baiana de 1798, ainda que incipiente do ponto de

    vista conceitual, uma vez que caminha para a idia de tutela, muito provavelmente um

    dos desdobramentos da ideologia autoritria na qual o Estado passa a atuar como um

    avalista da coalizo de poder que acomodava as oligarquias rurais tradicionais e o setor

    industrial emergente no Centro-Sul do pas. O coletivo da sociedade, desejando reformas e

    mudanas na estrutura de poder, constituindo um dos principais eixos da interpretao que

    Braz do Amaral fez da Conjurao Baiana de 1798, resolve, no campo ideolgico, duas

    questes muito caras aos anseios regionais na Primeira Repblica.

    A primeira delas concerne ao federalismo. O prprio Braz do Amaral afirma que a

    pretenso era separatista no sentido de autonomia poltica. No entanto, na Primeira

    Repblica, como novamente demonstra Elisa Reis, ao Estado coube o papel de tutor

    poltico e econmico com vistas conciliao dos conflitos entre as tradicionais oligarquias

    rurais e as elites industriais emergentes. O Estado, nesse sentido, desempenhava um papel

    estratgico e j se encontrava na posio de regular a entrada de novos elementos na cena

    poltica e de exercer um controle tutelar sobre a economia. Os conflitos decorrentes dessa

    tenso no foram poucos. Entretanto no foram suficientemente fortes para que as elites

    industriais do centro-sul formulassem um projeto hegemnico alternativo sociedade agro-

    exportadora, e no minaram, portanto, os arranjos polticos tradicionalmente estabelecidos.

    Cabe ressaltar que, poca, os vrios setores da economia se confundiam e os interesses se

    mostravam imbricados, porque na maioria dos casos os fazendeiros eram tambm

    industriais, banqueiros e exportadores.

    Chamamos a ateno para a especificidade desse contexto porque ela nos remete

    segunda questo, resolvida no campo ideolgico, da interpretao de Braz do Amaral: a

    cidadania. Mais uma vez, Elisa Reis quem nos mostra que o poder das oligarquias rurais

    dependia em grande medida da continuidade das relaes sociais de produo no campo, as

    quais mantinham a fora de trabalho fora da arena poltica479. A situao no era diferente

    no centro-sul. O que significa que, ainda que a situao fosse redefinida, i.e., a enorme479 Elisa P. Reis, op. cit., p.

    183

  • adaptabilidade das oligarquias rurais, dos fazendeiros de caf e dos industriais ao novo

    regime, a estrutura no foi abalada. Prticas oligrquicas perpetuaram-se e, ao fim e ao

    cabo, continuaram impedindo a extenso da cidadania a contingentes mais amplos da

    sociedade brasileira480. De acordo com Jos Murilo de Carvalho, a proclamao da

    Repblica, em 1889, no alterou o quadro j bastante incipiente em termos de direitos

    polticos e sociais do Imprio. Para o autor, a Constituio republicana de 1891 continuou a

    excluir do voto os analfabetos, as mulheres, os mendigos, os soldados, os membros das

    ordens religiosas. Essas contradies foram profundamente agravadas na Bahia, poca

    enfraquecida na economia e dividida na poltica.

    Essa conjuntura talvez explique o fato de os historiadores baianos concentrarem

    seus esforos na construo de uma espcie de embate simblico contra a hegemonia dos

    Estados de Minas Gerais e So Paulo, sobretudo no que se refere participao da elite

    local no caso de Francisco Borges de Barros e participao de amplos setores na

    anlise de Braz do Amaral. Esse processo da historiografia baiana reforou elementos

    regionais de forte identificao poltica, carregando na tinta o papel da Bahia no processo

    de formao do Estado e da nao. Com isso, a historiografia baiana da Primeira Repblica

    encontrou um lugar para si na histria do Brasil, contrapondo-se, sobretudo, a outros

    discursos identitrios regionais, poca j suficientemente fortes, como Tiradentes, o mito

    bandeirante e a idia de So Paulo ser a locomotiva do pas. Da a comparao da

    Conjurao Baiana de 1798 com a Inconfidncia Mineira de 1789, o movimento mais

    representativo do passado mineiro, que se pretendia republicano e nacional481. Coube,

    portanto, aos historiadores republicanos que abordaram a Conjurao Baiana de 1798, em

    primeiro lugar, reivindicar a idia oitocentista da punio exemplar, para, em seguida,

    inverter os plos das anlises de Incio Accioli de Cerqueira e Silva, Francisco Adolfo de

    Varnhagen e Joaquim Caetano Fernandes Pinheiro, e valorizar o evento na histria nacional

    justamente no ponto frgil para as anlises oitocentistas: republicanismo de cunho popular.

    Francisco Borges de Barros e Braz do Amaral demonstraram a vocao republicana

    sempre presente nas remotas aes dos soteropolitanos ilustres. Mas parece inegvel que

    foi Braz do Amaral quem realmente inverteu os plos das anlises oitocentistas ao chamar a

    ateno para o sangue dos rus enforcados no patbulo pblico, em 1799. Nesse processo de480 Cf. Jos Murilo de Carvalho. Desenvolvimiento de la ciudadania em Brasil. Mxico: Fondo de Cultura,1995. 481 Cf. Cludia Regina Callari, op.cit., p. 18.

    184

  • inverso historiogrfica, o autor procurou demonstrar a generalizao e o desejo de

    independncia do domnio portugus para todos os setores da sociedade de 1798, e deu

    assim o passo inicial de um processo historiogrfico que converteria a Conjurao Baiana

    de 1798 de um evento de grande identificao poltica regional em um movimento nacional

    representante das mais profundas aspiraes de amplos setores da sociedade. Embora a

    anlise de Francisco Borges de Barros no seja das mais citadas pela historiografia

    ulterior482, importa reter que o processo de incorporao de homens de distinta condio

    social, especialmente os setores mdios e baixos da sociedade baiana de 1798 excludos de

    qualquer participao poltica, foi a via pela qual Braz do Amaral abriu o caminho para que

    o evento encontrasse lugar definitivo na histria nacional. Lugar esse que ser

    definitivamente consolidado pela historiografia ulterior no que se refere, justamente,

    qualificao da articulao entre homens de vrios setores da sociedade baiana da poca,

    compreendida como um ideal de cooperao de classes com vistas Independncia do

    Brasil.

    Esse processo comea a encontrar lugar definitivo no cenrio historiogrfico

    nacional na dcada de 30 do sculo XX. Nesse perodo, o surgimento das primeiras

    Faculdades de Filosofia, em So Paulo e no Rio de Janeiro, e de alguns estudos de histria e

    cincias sociais, originais no esprito crtico que os animava com o objetivo precpuo de

    interpretar as mazelas que assolavam o pas para, posteriormente, orientar a prxis poltica

    , agitaram a cena artstica e cultural do pas. Paralelamente, a dcada de trinta assistiu

    Revoluo que, se no foi longe o suficiente para romper com as formas de organizao

    social, sem dvida abalou as linhas de interpretao da realidade brasileira j bastante

    influenciada pelo impacto da intelectualidade que emergiu em 1922, na Semana de Arte

    Moderna, por um lado, e, de outro, pela fundao do Partido Comunista483.

    Com a crise da oligarquia, a derrubada da Primeira Repblica e a proposta de um

    governo nacionalista em desenvolver um Estado com bases industriais que atuaria na

    formao da burguesia industrial nacional484, a intelectualidade da chamada gerao de 30

    482 Na introduo de seu livro, Istvn Jancs afirma que a obra de Francisco Borges de Barros marcada pelaligeireza no trato da documentao e [pelo] carter laudatrio do texto. Cf. Na Bahia contra o Imprio: ahistria do ensaio de sedio de 1798. So Paulo: Hucitec, 1996, pp. 21-22.483 Cf. Carlos Guilherme Mota. Ideologia da Cultura Brasileira. So Paulo: tica, 1985, 5a. edio, p. 28.484 Trata-se do Estado de Compromisso, segundo Boris Fausto, posteriormente criticado por Edgar deDecca. Ver, respectivamente: Boris Fausto. A Revoluo de 30: historiografia e histria. So Paulo:Brasiliense, 1972, 2a. edio; Edgar de Decca. 1930: O silncio dos vencidos. Memria, histria e revoluo.So Paulo: Brasiliense, 1997, 7a. edio.

    185

  • Caio Prado Jnior (1907-1990), Gilberto Freyre (1900-1987) e Srgio Buarque de Holanda

    (1902-1982)485 contestou de maneira radical as proposies historiogrficas da elite

    oligrquica oitocentista e, especialmente Caio Prado Jnior, redefiniu as proposies dos

    intelectuais baianos da Primeira Repblica.

    Parte II Das contradies do sistema colonial revoluo malograda.

    4. 4 Caio Prado Junior.

    Caio Prado Jnior nasceu na cidade de So Paulo, em 11 de fevereiro de 1907. Filho

    de Caio da Silva Prado e Antonieta Penteado da Silva, Caio Prado fez seus primeiros

    estudos em casa, hbito comum poca, e os estudos secundrios no Colgio So Lus, dos

    jesutas. Estudou um ano na Inglaterra, em Eastborn, no Colgio Chelmsford Hall. Ao

    voltar para o Brasil, Caio Prado cursou a faculdade de Direito de So Paulo, durante o

    perodo de 1924-1928486.

    Caio Prado filia-se ao Partido Democrtico em 1928, que poca participa da

    Campanha Liberal, apoiando a candidatura de Getlio Vargas presidncia, contra Jlio

    Prestes. Com a eleio deste ltimo, Caio Prado tem sua primeira priso por manifestar-se

    publicamente a favor de Getlio Vargas. Aps a priso, Caio Prado organiza-se com as

    foras oposicionistas em um sentido revolucionrio. De acordo com Fernando Novais,

    vitoriosa a revoluo que leva Getlio Vargas ao poder, na qualidade de chefe do

    governo provisrio, Caio trabalha no interior do Estado487. A desiluso vem quando Caio

    Prado percebe as dissenses internas e a falta de um programa revolucionrio.

    Em 1931, Caio Prado filia-se ao Partido Comunista. Ali, entrega-se ao trabalho de

    organizao do proletariado e posiciona-se contra os revoltosos da Revoluo

    Constitucionalista de 1932, por encontrar no movimento o perigo da restaurao da antiga485 Para uma viso da relevncia dos autores citados na cena intelectual nacional, ler, especialmente: AntonioCndido. Prefcio 5a. edio de Razes do Brasil, 1969; Dossi Intrpretes do Brasil Anos 30. RevistaUSP, n. 38, junho/julho/agosto, 1998. 486 Para a biografia completa de Caio Prado Jnior, ler: Fernando Antonio Novais. Sobre Caio Prado Jnior.In: Aproximaes: estudo de Histria e Historiografia. So Paulo: Cosac&Naif, 2005, pp. 277-294. Apublicao original deste artigo est na Introduo ao livro de Caio Prado Jnior, Formao do BrasilContemporneo, na edio de Silvano Santiago (org.), Intrpretes do Brasil. Rio de Janeiro: Nova Aguilar,2000, vol. 3, pp. 1105-1121. Para uma leitura sobre o conjunto geral da obra de Caio Prado Jnior, ler,especialmente: Bernardo Ricupero. Caio Prado Jr e a nacionalizao do marxismo no Brasil. So Paulo:Editora 34, 1999; Maria ngela DIncao. Histria e Ideal Ensaios sobre Caio Prado Jr. So Paulo:Brasiliense, 1989; Paulo Teixeira Iumatti. Dirios Polticos de Caio Prado Jr. So Paulo: Brasiliense, 1998. 487 Cf. Fernando Antonio Novais, op.cit., p. 279, passim.

    186

  • ordem. Viaja para a ento Unio Sovitica e, a partir de ento, passa a integrar o movimento

    da esquerda para a formao de uma frente ampla, que ser a Aliana Nacional Libertadora,

    com atuao em 1935. Aps o golpe de 1937, com a implantao do Estado Novo, Caio

    Prado preso novamente. Aps dois anos, consegue a liberdade e viaja para a Frana,

    integrando-se ao Partido Comunista Francs, que poca apia os republicanos espanhis.

    Caio Prado trabalha na fronteira entre a Frana e a Espanha, facilitando o trnsito dos

    estrangeiros que querem colaborar na luta antifascista, durante a Guerra Civil Espanhola.

    Caio Prado regressa ao Brasil em 1939, exercendo militncia discreta, dada a

    ilegalidade do Partido Comunista. Em 29 de outubro de 1945, Getlio Vargas forado a

    sair do Governo. O Partido Comunista disputa as eleies, elegendo doze deputados e um

    senador. Nas eleies suplementares de 1947, em So Paulo, a bancada comunista

    expressiva, e entre ela est Caio Prado Jnior. Com o Partido Comunista considerado fora

    da lei, os comunistas tm o seu mandato cassado. Antes de ser eleito deputado, Caio Prado

    abre a Livraria Brasiliense, a grfica Urups e funda a Revista Brasiliense. A partir de 1964,

    Caio Prado vrias vezes convocado a depor, e acaba sendo preso. Aps esse perodo, Caio

    Prado tenta a vida acadmica por duas vezes. A primeira como candidato ctedra de

    Economia Poltica na Faculdade de Direito da Universidade de So Paulo. Para o concurso

    escreve a tese Diretrizes para uma poltica econmica brasileira. De acordo com Fernando

    Novais, a banca no teve coragem de reprovar Caio Prado, mas no lhe deu o cargo de

    catedrtico, e sim o de livre-docente, ttulo que foi cassado em 1968488. J durante a

    Ditadura Militar, Caio Prado submete-se a outro concurso, desta feita para a ctedra de

    Histria do Brasil, do curso de Histria da Faculdade de Filosofia. Escreve ento a tese

    Histria e desenvolvimento, mas o concurso no chega a ser realizado. No perodo final de

    sua vida, Caio Prado faz algumas viagens pelo pas e pelo exterior; concede algumas

    entrevistas; conferncias e pequenos cursos, mas dedica-se, sobretudo, a escrever suas

    obras. Caio Prado falece em So Paulo no dia 23 de novembro de 1990.

    Caio Prado Junior autor de uma extensa e variada obra, entre as quais: Evoluo

    poltica do Brasil e outros estudos Ensaio de interpretao materialista da Histria do

    Brasil (1933); URSS: um novo mundo (1934); Formao do Brasil contemporneo (1942);

    Histria Econmica do Brasil (1945); Dialtica do conhecimento (1952); Diretrizes para

    uma poltica econmica brasileira (1954); Esboos dos fundamentos da teoria econmica488 Idem, p. 283.

    187

  • (1957); Introduo lgica dialtica (1959); O mundo do socialismo (1962); A revoluo

    brasileira (1966); Histria e desenvolvimento (1968); Estruturalismo de Lvi-Strauss,

    marxismo de Althusser (1971) e A questo agrria no Brasil (1979).

    Caio Prado Jnior interpreta a Conjurao Baiana de 1798 na obra Evoluo

    poltica do Brasil e outros estudos Ensaio de interpretao materialista da Histria do

    Brasil, publicada em 1933489. Ele inicia as suas consideraes na obra afirmando que sua

    inteno no era realizar apenas um ensaio que fosse uma sntese da evoluo poltica do

    pas em contraposio aos mitos e heris destacados pela historiografia oitocentista. A

    inteno , a partir da introduo de um mtodo relativamente novo, ir alm da superfcie

    dos acontecimentos para chegar aos processos constitudos pelo encadeamento dos mesmos

    e, sobretudo, s razes materiais dos acontecimentos. Nesse processo, o autor formulou uma

    compreenso integradora das dimenses polticas e econmicas do passado histrico a

    partir do pensamento marxista490. A esse respeito, Francisco Iglsias afirma que

    Na primeira e segunda edies aparecia com o subttulo de Ensaiode interpretao Materialista da Histria Brasileira, para indicar aoriginalidade de seu pensamento. Pela primeira vez o marxismo erainteligentemente aplicado na historiografia brasileira [...]. O autordepois abandonou o adendo e [em] 1946 publicou o ensaio juntocom outros menores, mas igualmente srios, como Evoluo Polticado Brasil e outros Estudos491.

    O conjunto geral da obra divide-se em quatro partes: duas relativas ao perodo

    colonial, uma ao processo de Independncia do Brasil e ao Primeiro Reinado, e outra ao

    Segundo Reinado e ao final do Imprio, totalizando quinze breves captulos. Entre eles,

    encontramos a biografia de Cipriano Barata, na qual o autor aborda em termos gerais a

    Conjurao Baiana de 1798. Nessa obra, Caio Prado destaca a preponderncia da grande

    propriedade fundiria e do trabalho escravo de negros e gentios nas relaes de produo

    vigentes na economia brasileira at o XIX. A perspectiva de colocar o trabalho escravo e as

    489 A edio utilizada nesta pesquisa a de 1975. Veja-se: Caio Prado Junior. Cipriano Barata (1764-1838).In: Evoluo Poltica Brasileira e outros estudos Ensaio de interpretao materialista da Histria doBrasil. So Paulo: Brasiliense, 1975, 9a. edio. Alguns trabalhos afirmam que a primeira edio da obra datade 1946, entretanto, de acordo com Florestan Fernandes, a primeira edio do livro de 1933. Cf. FlorestanFernandes. A obra de Caio Prado nasce da rebeldia moral. Folha de So Paulo, 7 de setembro de 1991. 490 Cf. Bernardo Ricupero, Caio Prado, op.cit., Fernando Antonio Novais, op.cit., Paulo T. Iumatti, op.cit;Wilma Peres Costa, A independncia na historiografia brasileira, op.cit., pp. 76-81. 491 Francisco Iglesias. Um historiador revolucionrio. In: Caio Prado Junior. So Paulo: tica, 1982, ColeoGrandes Cientistas Sociais, p. 7

    188

  • relaes dele derivadas no centro da anlise sobre a Histria do Brasil j diferenciava Caio

    Prado da historiografia que o antecedeu.

    Caio Prado, contudo, foi alm ao mostrar uma viso de conjunto da economia

    colonial e seus traos definidores, destacando o carter mercantil do processo de

    colonizao e o modo pelo qual os portugueses conquistaram o territrio e organizaram o

    trabalho, i.e., a apropriao de grandes extenses territoriais exploradas por meio do

    trabalho escravo de indgenas e negros. Para o autor, esse era o elo comum de todas as

    zonas econmicas do Brasil, que objetivava garantir a monocultura para a exportao. A

    partir dessas consideraes, Caio Prado passa a demonstrar as contradies desse quadro,

    fazendo emergir as personagens principais do processo poltico interno: os grandes

    proprietrios territoriais em oposio aos interesses da burguesia mercantil metropolitana,

    que controlavam a produo e exportao dos produtos coloniais492. O objetivo do autor

    demonstrar que o ponto alto de oposio dos interesses nos dois lados do Atlntico

    aconteceu no sculo XVIII, quando, a seu ver, as descobertas do ouro nas Minas teriam

    intensificado o controle metropolitano sobre a Colnia, deflagrando a crise poltica do

    sistema. As posturas restritivas da Coroa, segundo Caio Prado, teriam desencadeado um

    sem nmero de conflitos que acabaram por minar pouco a pouco a base e a estabilidade da

    colonizao portuguesa no Brasil.

    Com efeito, atravs da oposio de interesses econmicos e polticos nacionais e

    lusitanos, posicionando a luta de classe no centro da anlise sobre o processo de

    Independncia do Brasil, que Caio Prado ressalta a grande contradio do sistema:

    reivindicar a colonizao portuguesa para neg-la em 1822. A evoluo econmica, poltica

    e social da colnia desenvolveu, segundo o autor, interesses conflitantes entre as classes

    de proprietrios da colnia e a burguesia mercantil metropolitana. Desses conflitos vai

    resultar, de acordo com a anlise, a Independncia do Brasil. Para Wilma Peres Costa, em

    Evoluo Poltica do Brasil, Caio Prado enfatiza na anlise da Independncia do Brasil a

    idia de descontinuidade, uma vez que a idia de conjunto da economia colonial e seus

    traos definidores na poltica interna leva o autor a pensar a Independncia como uma

    Revoluo493. Para alm de radicar a idia de linearidade da Independncia, i.e., de que a

    492 Caio Prado Jnior, op.cit.493 Wilma Peres Costa, op.cit., pp. 76-81. A autora chama a ateno para o fato de que em Formao doBrasil Contemporneo, Caio Prado enfatiza a idia de continuidade do processo de Independncia aoprivilegiar o regime poltico adotado aps 1822 e a manuteno da escravido.

    189

  • nao no estava imanente no passado da colnia, Caio Prado recoloca as questes sobre o

    processo de formao do Estado e da nao brasileiros a partir da oposio entre colnia e

    metrpole de maneira at ento indita.

    nesse mesmo processo de anlise da dinmica colonial que Caio Prado interpretou

    brevemente a Conjurao Baiana de 1798, a partir das classes sociais como categoria

    analtica, explicando as lutas de ento pela articulao com as bases econmicas e sociais.

    Para o autor, reside justamente na ausncia da elite baiana da poca o notvel significado da

    revolta baiana de 1798. Retomando a circunscrio social elaborada inicialmente pelas

    autoridades rgias, em 1799, e depois apropriada por Incio Accioli, Francisco Adolfo de

    Varnhagen e, de certa forma, por Joaquim Caetano Fernandes Pinheiro, Caio Prado

    reivindica a baixa composio social do evento para definitivamente invert-la e valoriz-la

    em articulao com os pressupostos revolucionrios de intelectuais como Cipriano Barata.

    Alis, para o autor, o evento no inconfidncia, conjurao ou sedio, mas uma

    articulao revolucionria entre os populares baianos de toda a sorte, que agiram juntos

    com alguns intelectuais, como Cipriano Barata494. Embora a interpretao de Caio Prado

    sobre a Conjurao Baiana de 1798 seja breve e caminhe mais no sentindo panfletrio da

    ao revolucionria de Cipriano Barato, ela representou uma inflexo do conhecimento at

    ento elaborado, uma vez que o autor v nos pressupostos revolucionrios de Cipriano

    Barata a contradio interna da colonizao portuguesa no final do sculo XVIII e,

    conseqentemente, o desdobramento de influncias externas.

    Para Caio Prado Jnior, a situao da Bahia colonial no final do sculo XVIII,

    evidenciada pela tradicional estrutura agrrio-exportadora, deflagrou as razes internas do

    conflito, j suficientemente agravadas pelos desdobramentos de um fenmeno mais amplo

    o desenvolvimento do capitalismo comercial. O ponto central das reflexes de Caio Prado,

    em 1933, ano da primeira edio de Evoluo Poltica do Brasil, refere-se s teses do

    Partido Comunista, iniciadas em 1927, quando o Partido incorporou em seu III Congresso a

    tese da economia brasileira agrria, semifeudal e semicolonial495. Caio Prado contraps-se

    tese dogmtica da economia brasileira, reafirmando o predomnio do capital sobre o

    movimento de conjunto de formao do capitalismo, no quadro em que se inscreve o

    494 Caio Prado Jnior, op.cit., p. 202. 495 Cf. Carlos Alberto Cordovano Vieira. Interpretaes da Colnia: leitura do debate brasileiro deinspirao marxista. Dissertao de Mestrado, IFCS, UNICAMP, 2004. Segundo o autor, Caio Prado Jniorfaz oposio sobretudo s teses de Nelson Weneck Sodr.

    190

  • processo de formao da sociedade colonial. O autor procura destacar os diversos aspectos

    da vida colonial para demonstrar que suas determinaes estruturais e sistmicas esto

    inseridas em um totalidade mais ampla, na qual a sociedade colonial aparece na anlise

    como um elemento orgnico da histria do comrcio europeu. Ao observar a centralidade

    do comrcio europeu na anlise sobre a colnia, Caio Prado afirma que todos os nveis da

    sociedade colonial foram organizados para atender as exigncias do negcio mercantil, cujo

    sentido a ateno s necessidades de consumo alheias.

    Neste particular, Caio Prado afirma que no Brasil-Colnia, a simples propriedade

    de terra, independente dos meios de a explorar, do capital que a fecunda, nada significa.

    Nisso distingue a nossa formao da Europa Medieval sada dos brbaros496. No

    obstante a breve interpretao do autor sobre a Conjurao Baiana de 1798, cumpre

    destacar que, ao observar a centralidade dessa questo para a compreenso do evento e

    desenvolvimento posterior da sociedade brasileira, mesmo depois da emancipao poltica,

    Caio Prado Jnior acabou abrindo o caminho para os desdobramentos de sua interpretao.

    Estas viriam a aprofundar a discusso sobre a centralidade do capital mercantil no processo

    de transio do feudalismo para o capitalismo, notadamente nas anlises elaboradas por

    Carlos Guilherme Mota e Istvn Jancs durante a dcada de setenta do sculo XX. Mas foi

    ainda na dcada de quarenta que Affonso Ruy integrou o debate acerca da Conjurao

    Baiana de 1798, trilhando o caminho aberto por Caio Prado Jnior, com a elaborao de

    uma obra que chama a ateno pelo ttulo A Primeira Revoluo Social Brasileira

    (1798).

    4.5 Affonso Ruy de Sousa.

    Affonso Ruy de Sousa foi membro do Instituto Geogrfico e Histrico da Bahia,

    provavelmente durante o perodo de 1940-1960. Foi autor de vrios trabalhos sobre o seu

    Estado natal, a Bahia; entre eles: A Primeira Revoluo Social Brasileira 1798 (1942); O

    ltimo governador da Bahia no sculo XVIII: a famlia Portugal e Castro (1942); Pequeno

    guia das igrejas da Bahia (1949); Evoluo Histrica da Cidade do Salvador (1949);

    Velhos papis de famlia: Ruy Barbosa e a revoluo de 1893 (1949); Glorificao da

    Bahia no IV Centenrio da Fundao da Cidade do Salvador e Estabelecimento do

    496 Caio Prado Jnior. Evoluo Poltica do Brasil, op.cit., p. 18.

    191

  • Governo Geral (1951); Histria da Cmara Municipal de Salvador (1953); Pginas de

    Histria do Brasil (1955) e O Pao da Cidade (1969).

    Foi com a publicao de A Primeira Revoluo Social Brasileira (1798), que

    Affonso Ruy nobilitou-se na historiografia nacional. A obra o volume 217 da Coleo

    Brasiliana, fundada em 1931, por Fernando Azevedo e por ele dirigida at 1946. Segundo

    Eliana Dutra, a Coleo Brasiliana

    foi, sem dvida, um dos maiores empreendimentos editoriais da[Companhia Editora] Nacional, destinado a reunir um conhecimentosistemtico sobre o Brasil, ainda hoje sem equivalente na histria daedio do pas497.

    A autora nos mostra que a Coleo Brasiliana paradigmtica de um processo em

    que o trabalho editorial vai ser reivindicado como um trabalho engajado na formao de

    uma cultura brasileira e na educao do povo. Muito do sucesso da Editora Nacional e da

    Coleo Brasiliana deveu-se ao fato de que o Estado Novo possua projeto nacionalista que

    objetivava desenvolver a conscincia nacional e a consolidao de uma poltica de

    modernizao, cuja efetivao dependia do engajamento intelectual e da expanso da

    educao elementar498. Com efeito, as imbricaes entre a poltica educacional e a ideologia

    autoritria estadonovista surgem metamorfoseadas na idia de que a poltica era obra da

    educao, com vistas s transformaes sociais. Mas no eram quaisquer transformaes.

    A partir da Constituio de 1937, vrios rgos foram criados com o objetivo de

    divulgar as aes do governo de Getlio Vargas, reprimir as oposies ao novo regime e

    conferir legitimidade s idias de unidade e harmonia social, intervencionismo econmico e

    centralizao poltica. Nesse empuxo houve uma excessiva valorizao dos smbolos

    nacionais, profuso do sentimento nacionalista, paternalismo e centralizao poltica, cujo

    objetivo era no s dominar os cidados como tambm influenci-los a favor do Estado

    Novo499. Maria Helena Capelato nos mostra que, no processo de dominao dos cidados, o

    Golpe de 1937 e o Estado Novo eram justificados pela necessidade de salvar o Brasil contra

    497 Cf. Eliana de Freitas Dutra. Companhia Editora Nacional: tradio editorial e cultura nacional no Brasildos anos 30. Texto apresentado no I Seminrio do Livro e Histria Editorial. Casa Rui Barbosa, Rio deJaneiro, 2004, p. 7. Texto disponibilizado em PDF. no stio do evento: www.livrohistoriaeditorial.pro.br498 Idem, p. 15. 499 Veja-se: Marilena Chau. Brasil: mito fundador e sociedade autoritria. So Paulo, Fundao PerseuAbramo, 2000.

    192

  • os inimigos, especialmente os comunistas, salvar o Brasil das oligarquias decadentes e

    construir um pas novo e prspero economicamente500.

    nesse momento que Affonso Ruy interpretou a Conjurao Baiana de 1798,

    explicitando de certa forma sua crtica ao regime de Getlio Vargas e conduzindo suas

    proposies para a revoluo proletria. O livro composto de nove captulos, precedido de

    uma introduo Duas Palavras. Nela, Affonso Ruy afirma que

    A revoluo articulada na Baa e descoberta em 1798 mais no foique o ltimo marco da inquietao nacionalista que encheu todo osculo XVIII, nessa transitoriedade que atingiria o pice narevoluo pernambucana, em 1817 501.

    Para o autor, a reao nativista na Bahia de 1798 reflete, por um lado, a

    influncia espiritual e poltica de outras naes fora do domnio absolutista portugus e,

    por outro, revela o esforo em romper o padro econmico e a sujeio imposta pela

    coroa lusitana, incompatveis com a vida e interesses do Brasil. Affonso Ruy no v nas

    manifestaes dos partcipes do evento, a princpio, a unidade nacional que as distncias

    e os meios de transportes retardavam, mas se criavam uma conscincia que a

    universalidade da lngua e dos interesses ia plasmando, de tal sorte que, pouco tempo

    depois, ops-se ao esprito do despotismo um esprito de autonomia cada vez maior502.

    Retomando o argumento de Francisco Borges de Barros acerca da maonaria,

    entendida como um Partido que foi o centro difusor de idias e prticas sediciosas, Affonso

    Ruy afirma que quando

    o Marqus de Pombal desencadeou a sua violncia terroristahumilhando a nobreza, recalcando e aniquilando a teocracia parareforar o poder real, a Colnia aproveitou essa situao de alarmee descontentamento para tirar proveito prprio com associaessecretas que se estenderam no Reino inteiro, como rede defensiva darealeza contra a igreja503.

    Affonso Ruy afirma que o descontentamento na Bahia de 1798 no encontrou

    reao dos padres nem dos nobres, e por isso voltou-se contra a autoridade do rei.

    500 Veja-se: Maria Helena Rolim Capelato. Propaganda poltica e construo da identidade nacionalcoletiva. In: Revista Brasileira de Histria, vol. 16, n. 31 e 32, pp. 328-352, So Paulo, 1996. 501 Affonso Ruy. A Primeira Revoluo Social Brasileira. So Paulo: Cia. da Editora Nacional, ColeoBrasiliana, vol. 217, 1978, p. 9. 502 Idem. 503 Idem, ibidem, p. 10.

    193

  • Segundo o autor, clulas vivas do poder que eram, transformaram-se em conventculos da

    revoluo libertria. Isso porque o advento da Repblica na Amrica do Norte e a vitria

    da Revoluo Francesa reavivaram esperanas de independncia, criando um ambiente de

    inquietao sempre crescente nas vrias Capitanias [...] esperanados de lograrem

    vantagens comerciais sobre tudo que Portugal controlava ou fechava em privilgios504.

    Nesse particular, o autor chama a ateno para o fato de que foi tambm a partir dos

    contrabandos praticados na colnia que as idias propagadas pela Revoluo Francesa

    criaram maior possibilidade de xito [e] trouxeram novos alentos aos sonhadores.

    Todavia, na razo direta das atividades nacionalistas e violncias nativistas, o governo

    portugus, vigilante e enrgico, redobrava de esforos no sentido de arredar o

    estrangeiro e neutralizar as usas idias, agindo com pertincia, s vezes com violncia,

    aparando com sangue os focos de anarquia, cujas labaredas eram pressentidas.

    Para o autor, a razo pela qual Portugal preocupava-se com os desdobramentos da

    Revoluo Francesa estava no fato de que poca a Frana atirava o cartel do desafio s

    casas reinantes da velha Europa, ameaando, com o facho da Repblica e da liberdade,

    incendiar o mundo e destruir os tronos. A Coroa Portuguesa, especialmente na Bahia,

    hostilizou com denodo as suas idias [francesas], aprendendo-lhe os livros. Foi

    incansvel e inexorvel. Com efeito, para Affonso Ruy,

    no , pois, de admirar que o movimento social baiano, que melhorseria chamarmos de revoluo proletria, atendendo ao ambiente deoperrios, artesos e soldados que a propagavam e orientavam,doutrinados sob os auspcios polticos, socialistas e irreligiosos deFrana, tivesse, da Coroa, punio rigorosa com o castigo cruel doselementos mais em evidncia, visando apagar todos os vestgios coma imposio de maior silncio sobre aqueles fatos que importavamnuma afronta e desrespeito realeza bragantina505

    Feitas essas consideraes, Affonso Ruy toca em uma questo fundamental, pela

    primeira vez na histria da histria da Conjurao Baiana de 1798, que a documentao

    acerca do evento. O autor afirma que at aquela data, 1942, os autos da devassa, o sumrio

    dos seus partcipes ficaram injustificadamente repartidos entre a Biblioteca Nacional e o

    Arquivo Pblico do Estado. A seu ver, bem possvel que o pouco interesse e erro dos

    historiadores sobre a conjurao baiana, de muito maior projeo poltica e social que a504 Ibidem. 505 Idem, pp. 11-12.

    194

  • mineira [...], sejam resultantes do inqualificvel e criminoso resguardo em que at h

    pouco foi mantida a documentao.

    Affonso Ruy encaminha suas consideraes acerca do evento de maneira

    surpreendente:

    no se trata de um motim de quartis, uma inquietao dedescontentes ou levante de escravos, mas de trabalho lento epersistente de massas doutrinadas, conscientes, proclamando comopretendida finalidade as melhoras fsica, intelectual e moral domaior nmero, de que Saint-Simon, precursor do socialismo daesquerda, levantaria bandeira nos primeiros anos de 1800506.

    Isso porque, para Affonso Ruy, os partcipes da Conjurao Baiana de 1798

    pleiteavam a abolio das castas com a proclamao de umgoverno onde todas as classes colaborassem, segundo o valor eaptido dos mais hbeis, prometiam a extino dos privilgios erestries da propriedade dos produtos comerciveis comescoadouro franco nos portos, abertos a todas as naes, alm daindependncia espiritual, com a fundao da igreja brasileiraAmericana, desligada da Cria romana507.

    No decorrer dos captulos que compem o conjunto geral da obra, Affonso Ruy

    explicitar seus argumentos acerca do significado da Conjurao Baiana de 1798, que, de

    modo geral, corroboram com as proposies explicitadas na introduo do seu trabalho.

    Aps fornecer um abrangente panorama sobre a conjuntura europia e baiana do final do

    sculo XVIII, e fazer, assim como a historiografia que o antecedeu, um balano da

    administrao de d. Fernando Jos de Portugal e Castro, poca governador da Bahia, no

    6o. captulo o autor afirma que

    ao governo, difcil no foi reconhecer quanto haviam trabalhado osdirigentes da subverso da ordem, conseguindo implantar nascamadas inferiores da populao da Capitania as razes domovimento social que sacudiria, renovador, as velhas e rgidasorganizaes dominantes. Nenhuma dvida restava de que sepregava a independncia com a repblica508.

    Entretanto, o autor considera que, no fundo, o que a todos os confederados

    preocupava como imperativo mximo, era a revoluo social firmada nas bases em que

    506 Idem, ibidem. 507 Idem, ibidem, p. 13. 508 Idem, p. 105-106.

    195

  • predominavam as altas concepes que haviam discutido os filsofos e reformadores do

    sculo 18. Para o autor, os confederados do que ele chama de revoluo proletria, eram

    as massas doutrinadas por pessoas que por no terem sido codilhadas pela devassa

    figuras destacadas da Colnia [...] se tornaram pontos salientes em outros movimentos

    emancipadores. Nesse ponto, Affonso Ruy retoma a questo aberta inicialmente por

    Incio Accioli sobre a participao da elite baiana no movimento. O autor considera o fato

    de as autoridades e dos historiadores que o antecederam silenciarem a participao de

    homens da elite baiana da poca a razo pela qual erroneamente se tem dado pouca valia

    revoluo social, que processava na Baa a sua ltima fase preparatria.

    Em seguida, Affonso Ruy descreve fatos envolvendo o Secretrio de Estado e

    Governo do Brasil, Jos Pires de Carvalho e Albuquerque, proprietrio de quatro dos dez

    escravos implicados no evento509, e seu cunhado acerca de um emprstimo de 200 contos

    que Incio de Siqueira Bulco fizera para ajudar o movimento, sem, contudo, comprovao

    documental. Todavia, o autor taxativo ao afirmar que como demonstramos acima,

    elementos prestigiosos na Capitania estiveram empenhados na Conjura, para afirmar que

    houve, como se v, na inconfidncia, chefes, orientadores efinanciadores que, pela sua situao, precavidamente, no sepunham em contato com o povo, onde se fazia mister um trabalho deconstante assistncia, permanente convvio, o que se tornavaperigoso510.

    Para Affonso Ruy, quando

    Tudo estava fadado a uma vitria certa e talvez cruenta. [...] Era ahora da prestao de contas, agitadas pelos nacionalistas rubros,levantadas pelo dio, recalcado por sculos, dos pardos e mestios,amlgama de trs raas, que tornara, por isso mesmo, aquela gentea mais perigosa e temida do Pas. Foi, entretanto, bastante paratudo desfazer, desmoronar todo aquele castelo de esperanas, oarrojo de um desavisado conspirador, lanando boletins eproclamaes ao povo, na nsia de obter maior nmero deproslitos e rpido avano da causa que o enchia de destemidofervor511

    Nesse momento da anlise, aps demonstrar que a justia na Bahia do final do

    sculo XVIII era desacreditada, o autor descreve quais eram os procedimentos adotados509 Cf. O captulo 1 desta dissertao. 510 Affonso Ruy, op.cit., p. 119. 511 Idem, pp. 122-123.

    196

  • pelos Desembargadores do Tribunal da Relao da Bahia durante o curso do inqurito.

    Aps narrar os momentos finais dos rus enforcados e esquartejados na Praa da Piedade,

    na manh de 08 de novembro de 1799, e a presteza com a qual d. Fernando agiu na devassa

    do padre Francisco Agostinho Gomes, Affonso Ruy transcreve uma carta redigida em nome

    da Rainha na qual se pedia que o governador sugerisse os prmios e indicasse os premiados

    que, no caso, eram os denunciantes do movimento. O autor afirma que o gesto em nome da

    Rainha foi mal interpretado pelo governador, preocupado em poupar o errio pblico de

    novos encargos, uma vez que d. Fernando sugeriu um prmio bem menor do que a Coroa

    costumava dar em casos de delaes.

    A contemporizao do governador ao conceder os prmios aos denunciantes dos

    partcipes da Conjurao Baiana de 1798 foi a razo pela qual Affonso Ruy afirma que a

    Coroa Portuguesa elevando-o [d. Fernando] a Vice-Rei, pagava com juros aquela

    dedicada assistncia de mais de doze anos aos negcios reais na Capitania. Com efeito,

    quitava-se com d. Fernando Jos de Portugal da sua reacionria proteo Rainha e ao

    regime. Era o prtico que se lhe abria ao marquesado de Aguiar. O autor termina suas

    consideraes acerca da Conjurao Baiana de 1798 afirmando que

    encerra-se com o sculo XVIII o ciclo experimental da liberdade eda independncia; da por diante, as primeiras sementes daqueleapostolado regado a sangue comeariam a germinar em maiseficientes lutas do esprito e das armas, que levariam o Brasil aodomnio de si mesmo 512.

    Pelo que foi exposto, parece inegvel que a interpretao que Affonso Ruy faz da

    Conjurao Baiana de 1798 relaciona-se idia de uma Revoluo Burguesa malograda, na

    qual os membros da elite baiana de 1798 doutrinaram os proletrios, os homens livres e

    pobres, para romperem com as formas de poder do Antigo Regime e realizarem no s a

    Independncia como a implantao de uma Repblica Socialista, inaugurando uma nova era

    de progresso social. A questo enfrentada na anlise que Affonso Ruy fez da Conjurao

    Baiana de 1798 parece ser a razo pela qual o Brasil no fez a sua Revoluo Burguesa. Ao

    privilegiar o circuito das idias libertrias pela via da doutrinao, Affonso Ruy coloca no

    centro da anlise sobre o evento uma questo relevante: o circuito das idias elite-massa, ou

    proletrios. Quando afirma, por um lado, que a elite baiana estava disposta a doutrinar os

    512 Idem, ibidem, p. 201.

    197

  • setores populares, financiar o movimento, ainda que ela temesse a convivncia diria com

    esses homens, e, por outro, que o malogro do movimento deveu-se ao arrojo de um

    desavisado conspirador, Luiz Gonzaga das Virgens e Veiga, Affonso Ruy traz para a

    interpretao as desventuras prticas que impediram o sucesso da Revoluo Burguesa no

    Brasil.

    Nesse caso, nem a burguesia a elite baiana nem o proletariado homens livres e

    pobres estavam preparados para cumprir suas misses histricas. Essa idia do autor

    est, sem dvida, ligada s proposies marxistas em identificar uma determinada classe

    social com um devir histrico especfico, no qual a burguesia encarna o esprito de cada

    poca histrica, configurando-se em uma fora social transformadora superior s suas

    possibilidades histricas efetivas para levar a cabo o processo revolucionrio513. No parece

    ser por outra razo que Affonso Ruy afirma:

    A aproximao contnua desses elementos de maior valor daCapitania, pelo saber e bens de fortuna, a estudar e discutir osproblemas polticos e econmicos que revolucionavam o mundodespertaria [os setores populares], alimentando com esperanas queos acontecimentos que lhes acenavam, o grande ideal deimplantao da repblica que frutificava na Amrica do Norte e,promissoramente, frondejava na Frana514.

    Ao conferir lugar de destaque na anlise doutrinao dos populares por homens

    da elite baiana, e, portanto, ao papel transformador atribudo a esse setor, Affonso Ruy

    parece aproximar-se, em relao vocao histrica da burguesia, da reflexo elabora por

    Caio Prado Jnior, em 1933, ainda que o pressuposto conceitual de Caio Prado fosse

    evidentemente superior. Nessa poca, a reflexo marxista de Caio Prado propunha uma

    inverso radical do tipo de capitalismo at ento seguido, submisso s oligarquias rurais e

    sempre dependente, e incorporao das camadas populares ao processo poltico

    democrtico por meio da articulao poltica. certo que as teses do autor foram realmente

    definidas na obra A Revoluo Brasileira, publicada em 1966, mas inegvel que essa

    perspectiva est presente na obra de 1933, na qual ele versa brevemente sobre a Conjurao

    Baiana de 1798515.

    513 Cf. Caio Prado Jnior, op.cit.514 Affonso Ruy, op.cit., pp. 66-67. 515 Veja-se: Jos Carlos Reis. Anos 1960: Caio Prado Jr e a Revoluo Brasileira. Revista Brasileira deHistria, vol. 19, n. 37, So Paulo, 1999.

    198

  • Todavia, Affonso Ruy parece distanciar-se de Caio Prado e aproximar-se do modelo

    interpretativo e poltico marxista-leninista do PCB, cujas teses seguiam a orientao de

    Lnin e da III Internacional, que pensava a revoluo democrtico-burguesa a priori, ainda

    que vista a posteriori. Revoluo essa que s se realizaria, de acordo com as teses

    dogmticas do PCB, quando superada a etapa intermediria da transio do feudalismo para

    o capitalismo. Isso porque, como se viu, para Affonso Ruy, o processo iniciado na Bahia de

    1798 foi considerado a etapa da Independncia, implantao da Repblica e do Socialismo.

    Alm do mais, aps enaltecer a eficcia da doutrinao poltica, i.e., a persistncia com a

    qual as idias libertrias eram difundidas pelos homens da elite baiana aos populares,

    Affonso Ruy afirma que o fervor pelo movimento renovador cresceu de tal maneira entre

    os populares que a prpria clula dirigente se sentia incapaz de impor ordem onde s

    reinava a anarquia das paixes. Considerando que o autor justificou o temor da elite no

    contato dirio da doutrinao das massas em funo de uma espcie de perda de controle

    dos planos a serem executados por um conspirador desavisado, Affonso Ruy distancia-se

    novamente de Caio Prado Jnior porque a luta de classe trazia em si o risco da

    desagregao social. Da a razo para o malogro do evento ou o fracasso da Revoluo

    como acertadamente demonstra Istvn Jancs ao analisar a interpretao de Affonso Ruy516.

    O temor das elites, como a soluo encontrada por Affonso Ruy para explicar o

    malogro do evento, parece ligar-se a uma postura ambgua dos quadros do PCB, que se

    opunham dominao e explorao imperialista ao mesmo tempo em que temiam a

    participao popular da a idia de doutrinao do proletariado. Como se viu, Affonso

    Ruy retoma algumas questes abertas pelas autoridades locais na concluso das devassas,

    em 1799, e pela historiografia que lhe antecedeu, sobretudo no que respeita participao

    de homens da elite baiana de 1798. Como no h na anlise prova documental consistente a

    respeito, ainda que Affonso Ruy tenha tentado ampliar as bases sociais do evento, ele

    acabou por redefinir os pressupostos acerca da composio social do evento de Francisco

    Borges de Barros. Todavia, de maneira distinta da historiografia da Primeira Repblica que

    lhe antecedeu, o projeto da clula de dirigentes que foi educando homens de outros

    setores da sociedade tinha um objetivo muito claro na anlise do autor: a Independncia do

    Brasil, a instituio de um governo Republicano e do Socialismo.

    516 Cf. Istvn Jancs, Um problema historiogrfico, op.cit., p. 304.

    199

  • Parece no haver dvidas de que tanto a anlise de Caio Prado Jnior como a de

    Affonso Ruy sobre a Conjurao Baiana de 1798, ainda que de maneira distinta, foram

    encaminhadas prospectando a prxis poltica da transformao social. Uma vez colocada no

    centro das anlises a articulao revolucionria entre homens de distinta condio social e

    a doutrinao das massas pela elite baiana, o proletariado doutrinado e conduzido por

    uma vanguarda revolucionria, o autores at ento pouco tratadas: os princpios

    democrticos e a participao poltica dos setores populares como um devir ou uma

    promessa a ser cumprida no futuro. Chamamos ateno para o forte apelo de identificao

    poltica dessas questes a partir da dcada de cinqenta do sculo XX, uma vez que se

    resolve no plano ideolgico a implantao de um Estado democrtico de fato e a

    participao poltica dos setores populares, pois essas questes deixam de ser uma amea

    para ser uma promessa.

    Esse processo historiogrfico parece vir no empuxo de mudanas estruturais no

    campo artstico-cultural, a partir dos anos 50, segundo as quais a constituio do discurso

    histrico seria uma das formas possveis de engajamento poltico517. Nesse processo, a

    Repblica das Letras diluda na medida em que se avizinhava um pblico mais vasto,

    na maioria dos casos via mercado. A articulao do conhecimento histrico a partir do

    circuito intelectual-obra-pblico foi tensionada, sobretudo, pela necessidade de construir

    uma idia de popularidade nessa conjuntura. A popularidade, segundo Gramsci, foi

    objeto de reflexo da prpria gnese do pensamento nacional-popular de esquerda, sendo

    visto como a verdadeira realizao social da obra518. Com efeito, a construo da

    popularidade como uma ideologia nacional-popular seria uma ttica com a qual os

    intelectuais atingiriam seus objetivos polticos mais amplos de engajamento.

    Depois, tudo leva a crer que o processo de alargamento das bases sociais dos

    fenmenos histricos est ligado tanto s manifestaes de um romantismo

    revolucionrio da intelectualidade engajada dos anos 50-60519, quanto s tenses advindas

    da modernidade e peculiar configurao do povo/nao na esfera pblica, a partir dos

    517 O conceito de engajamento poltico aqui entendido tal como foi delimitado por Sartre: atuao dointelectual atravs da palavra, articulada em prosa e ensaio, colocada a servio das causas pblicas ehumanistas. Jean Paul Sartre. Questo de mtodo. So Paulo: Nova Cultural, 3a. edio, 1987, p. 11.518 Antonio Gramsci. Literatura e vida nacional. Rio de Janeiro: Civilizao Brasileira, 1978.519 Cf. Marcelo Ridenti. Em busca do povo brasileiro Artistas da Revoluo. Rio de Janeiro: Record, 2000.

    200

  • anos 60 do sculo XX520. Francisco de Oliveira, ao tratar do papel dos artistas engajados

    dentro da esfera pblica e poltica de poder, afirma que algumas trajetrias dos intelectuais

    de esquerda so paradigmticas de um processo de super-representao das classes

    mdias na poltica brasileira, diretamente proporcional s dificuldades de representao

    das outras classes521. Nessa perspectiva, as classes mdias se dessolidarizam das classes

    trabalhadoras, os populares. Todavia, Marcelo Ridenti matiza a afirmao demonstrando

    que certos intelectuais se solidarizam com os populares, mas arvorando-se em seus porta-

    vozes ou substitutos, e acabam por mistificar a atuao das classes populares nos processos

    histricos522.

    Este parece ser o caso da anlise de Affonso Ruy sobre a Conjurao Baiana de

    1798. Ao demonstrar a elite baiana de 1798 como uma espcie de vanguarda

    revolucionria, doutrinando o proletariado para o que ele chamou de Primeira Revoluo

    Social Brasileira, a anlise, no final das contas, absolutamente equivocada, porm

    honesta. Equivocada porque romntica; honesta porque revolucionria, i.e., ao sobrepor as

    cores no lugar dos conceitos, o autor explicita sua crtica sociedade capitalista a partir de

    um confuso encontro entre vanguarda voluntarista e viso monoltica e idealizada das

    classes populares agentes coletivos da revoluo social brasileira que, apesar de alguns

    ensaios, como se sabe, nunca ocorreu. A Conjurao Baiana de 1798, para Affonso Ruy523,

    portanto, um dos vestgios nostlgicos da construo da utopia do futuro, cujo modelo de

    homem, enquanto agente revolucionrio, estava nas aes dos homens livres e pobres de

    outrora os proletrios, nos termos do autor, doutrinados e educados pela vanguarda

    revolucionria elite baiana de 1798. Para alm da aparncia de um simples retorno ao

    passado nos moldes dos romnticos oitocentistas, trata-se, nesse contexto, de um

    romantismo modernizador, uma utopia nacional-popular que vai ecoar nos anos 70 na

    universalizao do fato histrico revestido por um certo pragmatismo que ser veiculado

    nos mais variados meios de comunicao.

    520 Veja-se Srgio Paulo Rouanet. Nacionalismo, populismo e historismo. Folha de So Paulo, 12 de maro,1988, p. D-3; Nestor Clancini. Culturas hbridas: estratgias para entrar e sair da modernidade. So Paulo:EDUSP, 2000.521 Cf. Francisco de Oliveira. Medusa ou as classes mdias e a consolidao democrtica. In: Dilemas eperspectivas da democracia no Brasil. So Paulo: Vrtice, 1988, p.52522 Marcelo Ridenti, op.cit. p. 322-323.523 Affonso Ruy. A primeira revoluo social brasileira, op.cit.

    201

  • Parte III O debate atual sobre a Conjurao Baiana de 1798: aesperana venceu o medo?

    A partir de meados da dcada de sessenta, os estudos histricos no Brasil

    comearam a passar por uma profunda renovao, com a crescente produo universitria

    ligada implantao dos programas de ps-graduao. Tais programas estavam

    influenciados, por um lado, pelas vertentes marxistas, e, por outro, pelas atividades dos

    pesquisadores franceses ligados revista Annales, conhecidos pela aproximao com as

    outras cincias humanas. A questo central dessa gerao, nem sempre orientados por um

    mesmo conjunto de conceitos e problemas, foi, via de regra, o estudo das mudanas sociais

    e polticas no Brasil, em perspectiva histrica. A crtica era antiimperialista e o mtodo era

    o revisionismo radical524, que desaguaria nos estudos mais sistemticos sobre a

    dependncia brasileira.

    Nesse ambiente, Fernando Antonio Novais525, radicalizando as teses de Caio Prado

    Jnior, interpreta o perodo final da colonizao brasileira, 1777-1808, como parte de um

    fenmeno emergente derivado da expanso do capitalismo industrial, de novos padres de

    dominncia que redefiniriam as condies de ordenamento das contradies internas de

    cada uma das partes constitutivas do Imprio Portugus. Para o autor, o Antigo Sistema

    Colonial, organizado como um mecanismo de acelerao da acumulao primitiva

    constituiu-se em fator vital para a passagem do capitalismo comercial para o capitalismo

    industrial, mas, em contrapartida, fomentou a emergncia de padres incompatveis com

    esse mesmo sistema de colonizao mercantilista.

    Exemplo desses padres incompatveis, a seu ver, foram as revoltas coloniais

    ocorridas no Brasil no final do sculo XVIII e incio do sculo XIX. Com efeito, justamente

    porque a tese do autor visa demonstrar a crise do Antigo Sistema Colonial, a Conjurao

    Baiana de 1798 interpretada na anlise como desdobramento da irreversibilidade da crise.

    Na Bahia de 1798, a contestao do colonialismo do Antigo Regime envolveu

    efetivamente os estratos mais subalternos da ordem social e radicalizou no limite as

    524 Expresso cunhada por Carlos Guilherme Mota. A ideologia da cultura brasileira (1933-1974) pontos departida para uma reviso histrica. So Paulo: tica, 5a. edio, 1985, p. 48. 525 Fernando Antonio Novais. Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial (1777-1808). So Paulo:Hucitec, 1995. 6a. edio.

    202

  • propostas de transformao poltica526. Transcendeu-se, com efeito, a tomada de

    conscincia da situao colonial e projetou-se a mudana que acarretaria na emancipao

    poltica do Brasil, em 1822. Ainda que Fernando Antonio Novais no tenha o objetivo

    especfico de abordar a Conjurao Baiana de 1798, a anlise relevante na medida em que

    foi o ponto de partida para as interpretaes de Carlos Guilherme Mota e Istvn Jancs.

    Em sua dissertao de mestrado, Idia de revoluo no Brasil (1789-1801),

    defendida em 1967 junto ento cadeira de Histria Moderna e Contempornea da

    Faculdade de Filosofia, Letras e Cincias Humanas da Universidade de So Paulo, Carlos

    Guilherme Mota interpreta a Inconfidncia Mineira de 1789 e a Conjurao Baiana de 1798

    atravs das formas de pensamento, indicativas da tomada de conscincia do processo

    histrico vivido, ao articular a crise Sistema Colonial s idias derivadas do conjunto527.

    Esposando as proposies de Florestan Fernandes e de Lucien Goldmann, para o autor, o

    conceito de propriedade se insinua de maneira significativa nos comportamentos e, no

    raro, nas tomadas de conscincia dos seres coloniais528. No que se refere Conjurao

    Baiana de 1798, em especial, Carlos Guilherme Mota vale-se da obra Recopilao de

    Notcias Soteropolitanas e Braslicas, para afirmar que, para Lus dos Santos Vilhena, a

    propriedade constitui a base da noo de ptria529.

    Segundo o autor, a propriedade funciona como um divisor de guas, uma vez que

    ela contraditria em situao colonial, deflagrando o que Carlos Guilherme Mota chama

    com certa cautela de relaes de litgio, j que no se trata de homens neutros, mas

    sim de contendores. A questo central da anlise do autor saber, em primeiro lugar, o

    que a propriedade dentro de um sistema de colonizao?, para, em seguida, procurar

    responder que tipo de problemas e soluo podem ser observadas e quais os

    encaminhamentos no nvel da conscincia possvel da poca?530. Para o autor, como a

    propriedade surge como uma entidade contraditria num sistema de colonizao, uma vez526 Cf. Fernando Antonio Novais. Prefcio: ao aluno. In: Aproximaes, op.cit., pp. 331-332. O texto original o prefcio ao livro de Istvn Jancs. Na Bahia contra o Imprio: histria do ensaio de sedio de 1798. SoPaulo: Hucitec, 1996, pp. 9-10. 527 Carlos Guilherme Mota. Idia de Revoluo no Brasil (1789-1801). So Paulo: tica, 1996, 4a. edio. Aprimeira edio do livro foi publicada em Lisboa, em 1970, com o ttulo de Idias de inovao no Brasil.Lisboa: Livros Horizonte, 1970. A primeira edio brasileira data de 1979, acrescida de um apndice comdois textos sobre a historiografia luso-brasileira e o problema das lutas de libertao nas ex-colniasportuguesas, com o ttulo: Idia de Revoluo no Brasil (1789-1801). Campinas: Editora Vozes, 1979. aanlise que permanece at os dias de hoje. Cf. Carlos Guilherme Mota. Prefcio 4a. Edio, op.cit., p. 7. 528 Idem, p. 103. 529 Idem, ibidem, p. 107. 530 Idem, ibidem, p. 108.

    203

  • que ela a base sobre a qual est assentada a dinmica da colonizao, ela ao mesmo

    tempo requisito e desintegrador do sistema: o xito da colonizao depende do seu

    fortalecimento e desenvolvimento e, justamente por isso, acaba se opondo s metas do

    processo.

    Para o autor, Lus dos Santos Vilhena um caso paradigmtico, uma vez que o

    professor-rgio considerado um dos tericos da propriedade na Colnia. Nele se

    encontram ao mesmo tempo o colonizador e o crtico da colonizao. O que vale dizer: a

    colonizao em crise. Para Carlos Guilherme Mota, pode-se apreender das leituras dos

    escritos de Lus do Santos Vilhena a ntida viso dos grupos sociais e dos processos em

    curso e, ao mesmo tempo, dos perigos da opresso, das quebras de disciplina e da m

    aplicao das leis, assim como dos antagonismos entre militares e povo. Isso porque, de

    acordo com o autor, como as consideraes de Vilhena permitem uma viso ntida das

    contradies dos grupos sociais e expresses prprias da crise do sistema colonial, Carlos

    Guilherme Mota considera sua obra uma das melhores anlises da propriedade como base

    da nacionalidade, bem como da propriedade interferindo nas relaes de homem a

    homem531.

    Com efeito, Carlos Guilherme Mota vislumbra na anlise de Lus dos Santos

    Vilhena sobre a conjuntura do final do sculo XVIII, as contradies do sistema, i.e., a idia

    de que a concentrao da propriedade da terra nas mos de poucos representava no

    somente a viabilizao de uma produo mercantil, mas tambm a excluso da grande

    maioria da populao de qualquer possibilidade de exerccio poltico532. A sistemtica

    excluso da participao da maioria da populao nas estruturas internas do Estado,

    segundo o autor, fez com que aqueles homens tomassem conscincia da situao de crise

    em que viviam e procurassem a ordem perdida ao manifestarem-se pela via da

    contestao poltica. Cumpre ressaltar que Carlos Guilherme Mota no cogita a participao

    de elementos da elite na Conjurao Baiana de 1798, pois a seu ver

    na Bahia, em 1798, a inquietao orientada por elementos debaixa esfera, pequenos artesos, ex-proprietrios de lavoura decana, militares de baixo escalo. A revoluo intentada contra a

    531 Ibidem, p. 84. Chamamos ateno para as consideraes feitas por Lus dos Santos Vilhena sobre apropriedade apresentadas no Captulo 2 desta pesquisa. 532 Florestan Fernandes. Circuito Fechado. So Paulo: Pioneira, 1976. Para uma viso da influncia do autornas proposies de Carlos Guilherme Mota, ver, especialmente, o captulo 6: Propriedade, nacionalismo erevoluo., pp. 105-125.

    204

  • opulncia. O problema mais social que colonial. O modelo serbuscado na histria da Frana, em rea no-colonial. Por essemotivo que se verifica em Salvador maior freqncia de conceitoscomo o de riqueza, misria, opulncia que o de independncia. Dealguma forma o problema social anestesiou as conscinciasrevolucionrias baianas, fazendo-as esquecer a situao colonial[...]. A revoluo, em Salvador, foi intentada por camadas no-proprietrias, e s nesse sentido foi mais profundo o movimentobaiano do que o de Minas533.

    No obstante o mrito do autor em inovar a interpretao da Conjurao Baiana de

    1798 a partir das formas de pensamento, cumpre ressaltar novamente que Carlos Guilherme

    Mota no considerou, como demonstramos no 2o. captulo, que no conjunto geral da obra de

    Lus dos Santos Vilhena h uma clara distino entre propriedade e propriedade de

    terra. No cabe aqui retomar o argumento desenvolvido anteriormente, mas cumpre

    destacar que ligar a noo de propriedade noo de ptria, em Vilhena, parece um recurso

    analtico fugidio, sobretudo quando esse recurso utilizado para afirmar que se por um

    lado a propriedade gera o sentimento de ptria, por outro o sentimento patritico surge

    como subversivo, na medida em que representa fratura no processo de colonizao. No

    final das contas, no matizar o conceito de propriedade, em Vilhena, possibilitou que

    Carlos Guilherme Mota afirmasse que o sentimento patritico, no Brasil do sculo XVIII,

    j significava revoluo534.

    Um segundo momento do desdobramento das proposies de Fernando Antonio

    Novais, acerca da inteligibilidade da Conjurao Baiana de 1798 remetendo ao conceito de

    crise como o articulador das esferas da existncia, no final do sculo XVIII, pode ser

    apreendido na anlise de Istvn Jancs. O autor situa a complexidade do evento ocorrido

    nos anos finais do sculo XVIII, na Bahia, no quadro geral das transformaes derivadas da

    crise do Antigo Sistema Colonial, uma vez que dentro desse quadro que se pretende

    analisar o processo poltico que antecede a Independncia do Brasil nos diversos planos

    em que se situam as prticas polticas possveis dos agentes dessa Histria [Conjurao

    Baiana de 1798]535. O estabelecimento do enquadramento geral do problema na crise do

    Antigo Sistema Colonial, de acordo com Istvn Jancs, permite situar o evento

    533 Carlos Guilherme Mota, op.cit., p. 128. 534 Carlos Guilherme Mota, op.cit., p. 115. 535 Istvn Jancs. Na Bahia contra o Imprio Histria do ensaio de sedio de 1798. So Paulo/Salvador:Hucitec/Edufba, 1996.

    205

  • no interior de um movimento permanente de transformaessociais, de propostas e prticas, de lutas, vitrias e derrotas querepresentam o processo de acumulao coletiva da experinciapoltica dos segmentos sociais que formam o conjunto da sociedadebrasileira, experincia que ser, em ltima anlise, uma das basessobre a qual se construir o Estado nacional brasileiro536.

    Para o autor, com efeito, a Conjurao Baiana de 1798 contou com a participao

    de elementos de origem social de amplitude no encontrada em nenhuma das outras

    manifestaes da crise poltica do sistema. Razo pela qual o autor afirma que o evento

    representou a busca de integrao do conjunto da populao, por cima das diferenas de

    riqueza, privilgios, origem e cor, em torno de um projeto de luta poltica, exteriorizadas

    nos pasquins sediciosos pelo esforo de elaborao de uma conscincia poltica que fosse

    capaz de produzir propostas que ultrapassassem os limites das reunies do letrados537.

    Ao privilegiar os elementos das camadas mdias e baixas da sociedade da poca,

    socializando com homens de condio social distinta, o autor demonstra no decorrer da

    anlise que o evento derivou da estratgia de mudanas concebida pela elite ilustrada que

    se empenhava na reforma do imenso Imprio portugus. Pois, segundo Istvn Jancs,

    a circunscrio do episdio a homens de reduzidas luzes e posses,ainda que hoje esteja claro (como o estava ento), que do processode articulao poltica que canhestramente eclodiu no episdio dospasquins e na malfadada reunio do Dique [do Desterro], tenhamparticipado homens de condio social de destaque, tanto pelariqueza quanto pelo saber538.

    Para o autor, a evidncia de uma maior amplitude social da Conjurao Baiana de

    1798 pode ser verificada na inteno de d. Fernando Jos de Portugal e Castro, ao colocar

    os membros da elite local, envolvidos na articulao sediciosa, margem da suspeio e

    da represso e, mais do isso, de restaur-los na desejvel condio de sditos do Trono.

    Ao ressaltar a emergncia de nova cultura poltica na qual amplos setores interagiam entre

    si, o autor chama a ateno para o projeto esboado por homens de diversas camadas

    representar, para as autoridades rgias, a emergncia de um grave risco para o projeto

    reformista ao introduzir entre o elenco de alternativas para a soluo da crise a extino

    536 Idem, p. 55.537 Idem, ibidem. 538 Idem, p. 204.

    206

  • pura e simples das relaes de subordinao. Todavia, o autor chama a ateno para a

    inviabilidade do projeto coletivo dos partcipes da Conjurao Baiana de 1798, i.e., para a

    perda dos fundamentos tidos por necessrios para a reiterao da sociedade colonial: a

    legitimidade das desigualdades e o vnculo colonial representam justamente os pontos mais

    frgeis do evento539.

    O autor argumenta que a adeso de segmentos sociais tidos e mantidos margem

    da vida poltica (povo mecnico, plebe urbana, massa de escravos) era, na prtica,

    incompatvel com os interesses de qualquer setor das elites coloniais, cuja adeso era

    reconhecida, e como tal enunciada, condio necessria de sucesso540. Neste sentido, o

    autor nega a existncia de uma articulao poltica que expressasse a construo de uma

    aliana de classes em torno de ntidos objetivos polticos. Isso porque, para Istvn Jancs,

    a matriz do processo que originou a constituio do grupo poltico, na Bahia de 1798, cuja

    expresso foi exteriorizada nas reivindicaes veiculadas nos pasquins sediciosos, indica

    que

    representavam um amplo espao para fazerem-se valer assubjetividades marcadamente individualizadas de cada qual, comrelativa autonomia diante das condicionantes sociais que asinformariam, desde que estivessem integradas num projeto polticode natureza coletiva541.

    Nesse processo, o autor confere papel central circulao das idias libertrias,

    sejam as notcias sobre a Revoluo Francesa, sejam as obras lidas em reunies entre

    homens de condio social distinta, para demonstrar que os integrantes no estrito plano

    da circulao das idias, ao romperem o espao da vida pblica sob a forma de um

    projeto coletivo, deflagraram o conflito. Para o autor, a relevncia desse processo reside no

    fato de que o projeto poltico coletivo, elaborado por homens de desigual condio social,

    ao instaurar-se como um desafio, no se efetivou em levante, sequer em motim, mas

    desencadeou uma seletiva, violenta e pedaggica represso, que, para Istvn Jancs,

    reveladora da luta de classes subjacente ao confronto. O autor demonstra que na lgica

    das autoridades locais, quando a nova forma de sociabilidade poltica foi exteriorizada no

    plano da coisa pblica, rompendo, portanto, o ordenamento da vida social e poltica da

    539 Idem, p. 206. 540 Idem, p. 208. 541 Idem, Ibidem.

    207

  • colnia, foi preciso no s desarticular o grupo de partcipes do evento, mas reverter a

    tendncia de expanso social da alternativa poltica que se anunciava542.

    O autor encaminha a concluso de suas consideraes acerca da Conjurao Baiana

    de 1798 afirmando que na abrangncia social subjacente articulao sediciosa que

    est o signo da mudana. nela que anuncia o novo nos interstcios do velho, ou, ao

    menos, de uma das formas possveis de super-lo. Essa a contradio do processo

    poltico deflagrado na Bahia de 1798, pois se, por um lado, a crise do Antigo Sistema

    Colonial converge para a subordinao do conceito geral de liberdade propriedade, por

    outro, a igualdade como condio da liberdade passa a ser incompatvel com os privilgios

    que configuravam as formas tradicionais de gesto da coisa pblica pela elite colonial. No

    parece ser por outra razo que o autor conclui sua anlise afirmando que a clivagem social

    da sociedade brasileira colonial,

    aquela que se expressa e se resolve na relao senhor-escravo,deixa de ser o substrato da integrao de uma parte (a Amricaportuguesa) num todo maior (o Imprio portugus), e passa condio de elemento ordenador da diversidade constitutiva de umanova totalidade que o Imprio brasileiro543.

    A inflexo da anlise do autor sobre o que especfico da Conjurao Baiana de

    1798, o projeto coletivo de homens de distinta condio social como o germe do novo no

    esconde, contudo, um pressuposto implcito que constitutivo da anlise: o entendimento

    de 1798 via 1822. Assim como Carlos Guilherme Mota, ainda que de maneira distinta e

    com um sofisticado arcabouo conceitual, ao conceber o evento como a expresso de

    categorias histricas cujo desenvolvimento projeta as contradies do presente em um

    futuro prximo no qual essas categorias teriam entrevistas uma superao, Istvn Jancs

    necessariamente chama ateno para as manifestaes do novo no crescente processo de

    tomada de conscincia ou mesmo de amadurecimento do fazer poltica em colnia, sendo

    que o principal deles o agente coletivo da projetada revoluo como uma organizao

    de tipo partidria544.

    542 Idem, p. 209. 543 Idem, ibidem, p. 211. 544 Cf. Istvn Jancs. Bahia 1798: a hiptese de auxlio francs ou a cor dos gatos. In: Jnia Ferreira Furtado(Org.). Dilogos Ocenicos: Minas Gerais e as novas abordagens para uma histria do Imprio Portugus.Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2001, pp. 361-388. Grifo meu.

    208

  • Nesse processo, a trama poltica deixa de ser aleatria para tornar-se um projeto

    poltico consistente, cuja efetivao pressupunha a articulao de amplos setores mediante

    um sem nmero de prticas interligadas e incompatveis com os postulados do

    absolutismo545. Com efeito, o autor carrega na tinta o significado das reunies entre os

    homens livres, pobres e pardos e alguns intelectuais para discutirem temas polticos,

    especialmente as notcias sobre a Frana revolucionria. Tais encontros, para o autor,

    sugerem, nos anos finais do sculo XVIII, uma progressiva criao de um espao pblico

    de discusso de temas polticos546.

    Ainda que na referida anlise a elaborao de um projeto poltico coletivo seja o

    fator aglutinador das aes populares at ento dispersas para alcanar a nova ordem

    desejada, i.e., fazer poltica e aprender a faz-la como o germe do novo e parte de um

    mesmo processo, para Istvn Jancs, como no havia tomada de conscincia da crise como

    modelo em vias de esgotamento entre os agentes, o recurso analtico foi a despolitizao

    das aes dos homens livres e pobres, com vistas a um crescendo de tomada de conscincia

    de um setor da elite baiana que, tempos depois, como se viu, participaria da fundao do

    Imprio do Brasil. A grande questo para Istvn Jancs que

    ainda que percebessem que a ampliao de sua autonomia polticaera de seu interesse, as elites regionais, na Amrica Portuguesaprimeiro, e no Imprio brasileiro, posteriormente, revelaram-seincapazes de se erigir em vanguardas de alianas de classe emescala regional, na medida em que seus interesses noapresentavam pontos de interseco com a grande maioria dapopulao547.

    Com efeito, na perspectiva de Istvn Jancs, ao desvendar a situao da Bahia de

    1798, na qual as diversas foras no interior do sistema haviam cado em desproporo e

    tornaram-se incompatveis com a velha ordem, os protagonistas do evento, mesmo no o

    querendo deliberadamente, mantm em funcionamento o processo imprevisvel e, como

    vimos, irreversvel, de crise do sistema, pois

    eles agiam por se sentirem concernidos pelo objetivo quereconheciam como seu (a nova ordem a ser alcanada), e no

    545 Idem, p. 379.546 Veja-se Istvn Jancs. A seduo da liberdade: cotidiano e contestao poltica no final do sculo XVIII.In: Laura de Mello e Souza (org.). Histria da vida privada no Brasil. So Paulo: Companhia das Letras, vol.I, 1997, pp. 387-437.547 Idem, p. 212.

    209

  • movidos pela natureza dos instrumentos a serem manejados para sechegar a ele, at porque careciam de experincia poltica quesustentasse opes dessa natureza548.

    O contedo normativo do que seria a nova ordem a ser alcanada divulgado nos

    pasquins sediciosos resultaria da concomitncia de projetos revolucionrios, pois

    apenas combinavam distintamente os elementos que j compunham o projeto j ento

    superado pelos fatos, mas que alimentavam, na Frana desde 1789, suas esperanas. Essa

    espcie de mimetismo jacobino veiculado nos pasquins sediciosos em decorrncia das

    notcias da Revoluo Francesa discutidas nas reunies entre os partcipes, refere-se no

    final das contas funo da razo iluminista invocada para derrubar o Antigo Regime,

    sendo que para o autor o absolutismo, em colnia, era tambm, e principalmente, o Antigo

    Sistema Colonial549. Foi essa razo iluminista, identificada pelo autor no programa

    poltico-ideolgico exteriorizados nos pasquins sediciosos, que foi divulgada pela

    intelectualidade ilustrada nas reunies sediciosas. Razo essa que os homens livres e pobres

    rapidamente identificaram como uma alternativa ao limite imposto pela correlao de

    foras entre a elite proprietria e o Estado Absolutista.

    No parece ser por outra razo que o centro da anlise de Istvn Jancs refere-se

    composio social dos partcipes que elaboraram um projeto poltico coletivo na Conjura

    Baiana, pois para ele os episdios da luta poltica na Bahia de 1798-1799 revelam o

    entrechoque de alternativas para a superao de uma crise que transcendia os limites

    espaciais da Capitania, e que se revelava, sob outras formas e em outros momentos, na

    Amrica portuguesa550. A emergncia do novo entendida, nesse processo, como

    postulados incompatveis com o absolutismo contradies do Antigo Sistema Colonial

    em um contexto de crise. Isso porque, para o autor, o capital mercantil se esgotando como

    ordenador do real, o que vinha assinalado pela emergncia do capital industrial que, uma

    vez estruturado, seria suficientemente decisivo para destruir suas prprias criaturas, como,

    por exemplo, as colnias551. Com efeito, o capital industrial, ao instituir o novo como, por548 Istvn Jancs, Bahia 1798..., op.cit., p. 380.549 Cf. Istvn Jancs, op.cit., p. 211.550 Veja-se Istvn Jancs. Na Bahia contra o imprio...op.cit., p. 203.551 Cf. Rogrio Forastieri da Silva. Colnia e Nativismo: a histria como biografia da nao. So Paulo:Hucitec, 1997, p. 91. O autor problematiza a constituio do discurso histrico oitocentista sobre o passadocolonial, especialmente sobre o objeto histrico global que a colnia. A colnia, segundo Forastieri, temmenos a ver com a nao do que com a expanso do capitalismo. Ao recolocar a colnia no Antigo SistemaColonial, a independncia um longo processo de ruptura desencadeado pela crise do Antigo Sistema

    210

  • exemplo, nao, homem livre, liberdade tem fora suficiente para se configurar como um

    novo ordenador do real.

    Ao deslocar o ordenamento do real para a crise Antigo Sistema Colonial, a

    Independncia passa a ser a chave analtica para as revoltas coloniais do final do sculo

    XVIII. Nesse enquadramento geral do problema, a Independncia vista como um longo

    processo de ruptura552, que, examinado em si mesmo, insere-se na desagregao do Sistema

    Colonial e na montagem do Estado nacional, e, no plano geral, na desagregao do Antigo

    Regime como um todo. A contradio do sistema colonial que, ao desenvolver-se,

    desemboca em sua crise, encaminhando-se para a sua superao. As revoltas coloniais

    ocorridas no final do sculo XVIII e incio do XIX, portanto, passam a ser compreendidas

    como um crescendo de tomada de conscincia da explorao colonial demonstraes da

    crise em desenvolvimento que, vistas em seu conjunto, formam o rastilho para um

    movimento mais amplo que desencadeou os processos de emancipao poltica em cada

    colnia553.

    No esforo de valorizar as rupturas do processo de Independncia do Brasil, ao

    privilegiar as estruturas a partir das situaes de crise, valorizando a alterao da estrutura

    do poder poltico, Carlos Guilherme Mota e Istvn Jancs negaram duas polaridades da

    historiografia coeva e que esto na base do discurso histrico oitocentista: a persistncia da

    colnia na nao e a anteviso da nao na colnia. No obstante a contribuio das

    anlises, ao demonstrarem que a colnia no contm a nao, e que o Estado e a Nao

    brasileiros no so desaguadouros naturais da Colnia, o processo de Independncia

    invariavelmente levaria o Brasil do Antigo Sistema Colonial ao Sistema Mundial de

    Colonial. Segundo o autor nesse processo que fica elidida a questo do movimento, da mudana, enfim, daprpria histria.552 Em importante obra sobre o processo de emancipao poltica do Brasil, em 1822, Carlos Guilherme Motae Fernando Antonio Novais afirmam que, entre a historiografia que versa sobre o tema, h duas proposies:uma que engloba todo o perodo de d. Joo VI no Brasil e estende o estudo at os limites do perodo regencial(1831-1840) e aquela que restringe os acontecimentos entre 1821 (volta de d. Joo para a Europa) e 1825(tratado de reconhecimento). Os autores apresentam uma terceira via, segundo a qual se entende aindependncia como um momento de um longo processo de ruptura, ou seja, a desagregao do SistemaColonial e a montagem do Estado Nacional. Nessa perspectiva, as revoltas mineiras de 1789 e a baiana de1798 passariam a integrar a genealogia da nao como contradies do sistema, em manifestaes da Crisedo Antigo Sistema Colonial. Cf. Carlos Guilherme Mota e Fernando Antonio Novais. A Independnciapoltica do Brasil. So Paulo: Hucitec, 1996, 2a. edio, p. 12. Sobre a relevncia das revoltas citadas noprocesso de 1822, ler, especialmente, o captulo 1: O contexto, pp. 15-34.553 Cf. Rogrio Forastieri, p. 19.

    211

  • Dependncias justificada em grande medida pelo carter revolucionrio atribudo ao

    movimento em termos polticos e conservador em termos ideolgicos554.

    Essa perspectiva analtica advm da interpretao do objeto histrico colnia

    elaborado por Fernando Antonio Novais em Portugal e Brasil na crise do Antigo Sistema

    Colonial (1780-1808). Segundo o autor, a histria da colnia integrada de modo sistmico

    na economia-mundo, que na poca de formao do capitalismo edificou uma histria

    propriamente mundial555. Examinada, pois, nesse contexto, a colonizao do Novo Mundo

    da poca Moderna apresenta-se como pea de um sistema, instrumento da acumulao

    primitiva da poca do capitalismo mercantil. Para Fernando Novais, o sentido profundo

    da colonizao brasileira seria, portanto, comercial e capitalista, i.e., o elemento

    constitutivo no processo de formao do capitalismo moderno. Nesse enquadramento do

    problema, a sntese da histria da colnia seria o momento mesmo de sua emancipao,

    pois trata-se de compreender a nao a partir da colnia e por oposio a ela, e indagar

    as possibilidades de transformao inscritas nesse processo556. Seja como for, parece

    inegvel que a partir da leitura de Fernando Antonio Novais, Carlos Guilherme Mota e

    Istvn Jancs, a Conjurao Baiana de 1798 definitivamente carrega consigo a idia de um

    evento popular de natureza contestatria como condio prvia de sua prpria superao, na

    medida em que seus agentes histricos tomam conscincia menos do processo em que esto

    inseridos e mais do processo a ser efetivado no futuro.

    Todavia, ainda no mesmo perodo, a histria tendeu a rejeitar a viso macroscpica

    e estrutural at ento dominante em proveito de novas abordagens inspiradas pela

    antropologia, que privilegiam o indivduo, o cotidiano, a narrativa e o acontecimento.

    Acompanhando essa corrente de uma nova histria cultural, destacam-se os trabalhos de

    Ktia M. de Queirs Mattoso e Lus Henrique Dias Tavares.

    554 A base dessa anlise constata o carter contraditrio da ideologia liberal do movimento de independnciado Brasil. Foi liberal porque suas lideranas viram-se obrigadas a mobilizar essa ideologia para justificara separao com a metrpole. O aproveitamento dessa ideologia, entretanto, foi basicamente conservador,por terem que manter a escravido e a dominao do senhoriato. In: Carlos Guilherme Mota e FernandoAntonio Novais. Op.cit., p. 83.555 Cf. Immanuel Wallerstein acerca do carter da emergncia da economia-mundo no sculo XVI. In: Osistema mundial moderno. Porto: Afrontamento, 1974, 2 vols.556 Fernando Antonio Novais. Colonizao e Sistema Colonial: discusso de conceitos e perspectivahistrica. In: Anais do IV Simpsio dos Professores Universitrios de Histria, So Paulo, 1969, pp. 243-268.

    212

  • A problemtica apresentada por Ktia Mattoso557 a influncia das idias libertrias

    na Conjurao Baiana de 1798 em um momento em a revoluo se fazia

    concomitantemente na Frana. Aps ressaltar o contexto da Bahia do final do sculo XVIII,

    um profundo mal estar social, no qual o movimento poltico no logrou xito, a autora

    demonstra os termos do projeto poltico elaborado pelos dos partcipes do evento a partir da

    anlise rigorosa dos pasquins sediciosos. Para a autora, o projeto de revolta teve como

    protagonistas um grupo de homens livres inseridos nas camadas mdias e baixas da

    sociedade urbana. Todavia, a autora chama a ateno para o fato de que, apesar da modstia

    situao, esses homens representavam no conjunto da populao de dominados

    categorias que, de certa forma, eram privilegiadas. Para Ktia Mattoso, so estes

    homens soldados, ou ento artesos, que se encontram frente do movimento, cuja

    inteno foi propor uma aliana poltica com a elite local558.

    Nesta perspectiva, a autora buscou ressaltar as aes dos partcipes derivadas de

    uma convulso citadina, pois, a seu ver, a cidade de Salvador de 1798 era o espao

    privilegiado para o aparecimento de conflitos nos quais tudo e todos se opunham, na

    medida em que predominavam as relaes sociais associativas primrias reguladas pela

    Famlia, pela Igreja e pelo Estado. As contradies e tenses sociais se resolviam,

    aparentemente, por mecanismos bem definidos, os quais geravam relaes sociais de

    dependncia, no sentido vertical, e de interdependncia no sentido horizontal. Desta

    maneira, a autora demonstra que os argumentos dos pasquins sediciosos, por um lado,

    queriam sensibilizar a maior parte do pblico baiano com a miragem da liberdade

    econmica, e, por outro, os partcipes procuram tambm demonstrar que uma eventual

    aquiescncia ao seu projeto poltico, no contribua para o abalo das estruturas profundas

    da sociedade559.

    Segundo a autora, admite-se que parte da populao mostra-se refratria

    mudana de regime e que esta parte, composta de clrigos e, sem dvida, de pessoas

    pertencentes elite, cuja resistncia preciso vencer. Da que Ktia Mattoso afirma que o

    557 Ktia M. de Queirs Mattoso. Presena francesa do Movimento Democrtico Baiano de 1798. Salvador:Itapu, 1969; Bahia 1798: os planfetos revolucionrios. Proposta de uma nova leitura. In: Da Revoluo dosAlfaiates riqueza dos baianos no sculo XIX. Salvador: Corrupio, 2004, pp. 317-330. Texto originalmentepublicado em Osvaldo Coggiola (org.). A Revoluo Francesa e seu impacto na Amrica Latina. So Paulo:Edusp/Nova Stella, 1990, pp. 341-356. 558 Cf. Ktia Mattoso, Bahia 1798..., op.cit., p. 344. 559 Idem, p. 349.

    213

  • discurso revolucionrio presente nos pasquins sediciosos indicava uma tentativa de

    resoluo dos conflitos entre coloniais e reinis, entre brancos, mulatos e pardos livres, para

    concluir que a projectada revolta nasceu, viveu e morreu no primeiro [...] ato da palavra.

    E, esta palavra nunca pretendeu se dirigir nem em favor dos escravos, nem contra eles. Foi

    uma palavra que os ignorou. Simplesmente560.

    Na mesma seara terica de Ktia Mattoso, o trabalho de Lus Henrique Dias Tavares

    aborda a complexidade dos fatos ocorridos em Salvador a partir das tenses e dos conflitos

    inerentes s relaes de natureza funcional: como, por exemplo, oficial-soldado e senhor-

    escravo561. Isso porque para o historiador, essas relaes contriburam para o aparecimento

    de pressupostos tericos como instrumentos de uma ao poltica imediata. O autor situa a

    Conjurao Baiana de 1798 no quadro geral das revolues democrtico-burguesas, assim

    como Ktia Mattoso. Aps apresentar-nos a situao da Bahia no final do sculo XVIII,

    assim como os historiadores que lhe antecederam, Lus Henrique Tavares descreve o

    contedo integral dos pasquins sediciosos, a abertura dos processos, depoimentos,

    assentadas e termos de concluso das devassas.

    Aps a descrio de alguns documentos nos quais o autor cita, inclusive, a

    comparao das letras dos pasquins com algumas peties dos milicianos que encontravam

    na Secretria de Estado e Governo do Brasil, Lus Henrique Tavares conclui que

    fosse quem fosse o autor dos boletins, tudo indica que agiu porconta prpria, tomando uma iniciativa que havia de precipitar numapossvel ao o tudo de apenas conversas mulatos arteso esoldados, libertos, filhos e descendentes de escravos 562.

    A afirmao do autor foi baseada no depoimento de um dos escravos presos acusado

    de estar envolvido no movimento de 1798, Lus de Frana Pires que, como se viu,

    contribuiu efetivamente com os Desembargadores do Tribunal da Relao da Bahia,

    denunciando todos os outros escravos de participao, inclusive do mesmo dono Jos Pires

    de Carvalho e Albuquerque. Nesse depoimento o cativo afirma que os pasquins sediciosos

    no podiam ser fabricados poralgum dos facionrios, porque os considerava j560 Idem, ibidem, p. 350. 561 Lus Henrique Dias Tavares. Histria da sedio intentada na Bahia de 1798. So Paulo: Pioneira, 1975;As idias dos revolucionrios baianos. In: Arquivos da Universidade da Bahia, n. 04, Faculdade de Filosofiade Salvador, 1975; O Movimento Revolucionrio Baiano 1798. Tese de Livre-docncia na Faculdade deFilosofia da Universidade da Bahia; Da Sedio de 1798 Revolta de 1824 na Bahia. Salvador/So Paulo:EDUFBA/UNESP, 2003.562 Cf. Lus Henrique Dias Tavares, Histria da sedio intentada, op.cit., p. 47.

    214

  • esquecidos de semelhante lembrana; antes o atribuia a algum inimigo delles, que tivesse

    desejo de ver verificada a mesma revoluo563. Neste particular, cumpre destacar que

    entre os documentos citados, Lus Henrique Tavares, pela primeira vez, procura conceituar

    com cuidado os termos que os prprios agentes do movimento fizeram de liberdade e

    revoluo. No final do livro, aps afirmar que a Conjurao Baiana de 1798 um

    movimento poltico com duas etapas, o autor transcreve trechos de um dilogo entre dois

    dos rus enforcados e esquartejados na Praa da Piedade.

    O autor chama a ateno quando Joo de Deus do Nascimento pergunta a Lucas

    Dantas o que era uma revoluo. Lucas Dantas respondeu

    he fazer uma guerra civil entre ns, para que no se distinga a corbranca, parda e preta, e sermos todos felices, sem exceio depessoa, de sorte que no estaremos sujeitos a sofrer hum homemtolo, que nos governe, que s governaro aqueles que tiverem maiorjuzo, e capacidade para commandar a homens, seje elle de queNao for, ficando esta Capitania em Governo Democrtico, eabsoluto564.

    Lus Henrique Dias Tavares conclui, em 1969, que a Conjurao Baiana de 1798

    significou

    a profunda contradio entre a velha ordem da exploraocolonial mercantilista e a nova ordem capitalista, a luta dosbrasileiros pela autonomia nacional, e o drama das discriminaesem sociedade altamente comprometida pelo sistema de trabalhoescravo565.

    Em recente trabalho publicado sobre a Conjurao Baiana de 1798, entretanto, Lus

    Henrique Dias Tavares recoloca algumas questes e sugere alguns caminhos. A partir dos

    resultados de pesquisas realizadas h alguns anos pela historiadora Ktia Mattoso nos

    Arquivos Nacionais da Frana e da Marinha Francesa, e de novas direes apontadas no

    estudo da historiadora francesa Jeanine Potelet, comprovou-se que as medidas tomadas

    para o socorro estrangeiro, segundo o 9o. aviso ao clero e ao povo bahinense indouto,

    relaciona-se com a estada de um comandante francs na cidade de Salvador um pouco antes

    563 Idem, ibidem. 564 Idem, p. 99. O autor preservou a grafia original da documentao. 565 Idem, ibidem.

    215

  • de deflagrado o movimento566. Segundo o autor, o comandante Larcher chegou ao porto de

    Salvador em 30 de novembro de 1796, obtendo autorizao do ento governador d.

    Fernando Jos de Portugal e Castro para que permanecesse na cidade por um ms. De

    acordo com as informaes, Lus Henrique Tavares questiona a presena do comandante

    Larcher na cidade de Salvador, em 1797, e a fundao da organizao secreta em julho do

    mesmo ano, afirmada por Francisco Borges de Barros567.

    Primeiro porque em um ofcio de d. Fernando Jos de Portugal e Castro ao Ministro

    d. Rodrigo de Sousa Coutinho, o governador relata a partida do comandante Larcher em 2

    de janeiro de 1797568. Depois, segundo o autor, Jeanine Potelet demonstra em seu Projects

    dexpditions et dattaques sur les ctes du Brsil (1796-1800), que, em 24 de agosto de

    1797, o comandante Larcher informou ao Diretrio, dispositivo supremo da Repblica

    francesa, a boa recepo que encontrara na cidade de Salvador para com a Declarao dos

    direitos do homem, bem como a existncia, entre os homens com os quais teve contato, da

    inteno de proclamar uma repblica bahiense569. Diante disso, Larcher apresentou ao

    Diretrio um ambicioso plano de ataque Bahia, consistindo no envio de quatro navios,

    trs fragatas e duas barcas, mil e quinhentos homens de infantaria e trezentos de

    artilharia570. Analisando o plano do comandante Larcher, o ponto alto da sua argumentao

    residia no enorme descontentamento econmico que identificou entre os homens com os

    quais convivera durante sua estada em Salvador, em 1797.

    566 Cf. Aviso ao clero e ao povo bahinense indouto. In: Ktia M. de Queirs Mattoso. Presena francesa noMovimento Democrtico Baiano de 1798. Salvador: Itapu, 1969, p. 155. Durante muito tempo Ktia Mattosofoi considerada a autora da melhor transcrio dos pasquins sediciosos. No final de 2004, entretanto, MarceloMoreira questiona a originalidade dos pasquins sediciosos que compem o cdice 581 do Arquivo Pblico doEstado da Bahia, reputados originais por alguns historiadores. O autor sugere que houve alterao dospasquins originais pelo funcionrio responsvel pela cpia da documentao que compe os Autos dasdevassas que, poca, estava na Secretaria de Estado e Governo do Brasil. Cf. Marcello Moreira. LitteraeAdsunt: cultura escribal e os profissionais produtores do manuscrito sedicioso na Bahia do sculo XVIII,1798. Politia: Vitria da Conquista, vol. 4, 2004; Marcello Moreira. Apontamentos bibliogrficos sobre osdocumentos relativos Conspirao dos Alfaiates. Politia, Vitria da Conquista, vol. 5, 2005. 567 A idia de uma organizao secreta manica ter sido fundada em 14 de julho de 1797 aparece pelaprimeira no trabalho de Francisco Borges de Barros. Os confederados do partido da liberdade. Salvador:Imprensa Oficial do Estado, 1922. Chamamos ateno para o fato de que a fundao da agremiao foidurante muito tempo considerada a chave pela qual os especialistas poderiam verificar a participao dehomens de considerao no evento.568 Cf. Algumas questes ainda no resolvidas na histria da Sedio de 1798 na Bahia. In: Lus HenriqueDias Tavres. Da Sedio de 1798 Revolta de 1824 na Bahia. Salvador/So Paulo: EDUFBA/UNESP, 2003,pp.27-54.569 Cf. Lus Henrique Dias Tavares, op.cit., p. 44; Jeanine Potelet. Projects dexpditions et dattaques sur lesctes du Brsil (1796-1800). In: LAmrique Latine face a La Rvolution Franaise. Caravelle. Cahiers DuMonde Hispanique et Luso-Brasilien, n. 54, pp. 209-222, Toulouse, 1990.570 Idem.

    216

  • Em seu ltimo trabalho publicado, Istvn Jancs viu na argumentao de Larcher

    um enorme sentimento anti-absolutista entre a parcela da elite com a qual convivera571,

    desconsiderando o fato de que, como afirma Lus Henrique Dias Tavares, a Frana poca

    era uma metrpole que tentava de todas as formas conter as aes dos escravos no Haiti

    para no perder uma de suas principais colnias. Istvn Jancs, a partir das atestaes das

    autoridades locais sobre a boa conduta do comandante, afirma ser impensvel a hiptese

    de Larcher ter confraternizado com pessoas de nvel social to distinto do seu, como o do

    soldado granadeiro [Luiz Gonzaga], tanto por limitaes de lngua quanto de valores572.

    O plano foi recusado, como se sabe. No obstante, a anlise de Istvn Jancs parece

    polemizar com a tese de Valentim Alexandre para quem o evento ocorrido na cidade de

    Salvador de 1798 no passou de uma Inconfidncia de

    gente mida, artesos, soldados, na grande maioria mulatos,alguns escravos entre eles, cuja componente nacionalista marginal, uma vez que no h, assim como em Minas de 1789, oataque ao ponto fundamental da dominao portuguesa: o exclusivode comrcio573.

    Ao contrapor-se s proposies de Valentim Alexandre, sobre o ataque ao exclusivo

    do comrcio no ter sido objeto da crtica dos partcipes da Conjurao Baiana de 1798,

    uma vez que para o autor a elite local se ausentou do processo, de certa forma Istvn Jansc

    acaba por se aproximar nesse trabalho da sugestiva tese de Lus Henrique Dias Tavares,

    para quem a Conjurao Baiana de 1798 tem duas fases distintas. A primeira, em 1797,

    rene baianos notveis, homens de propriedades, de cabedal, e que provavelmente

    ocupavam postos da administrao local, que, juntos com jovens militares, reuniam-se para

    conversas sobre os acontecimentos revolucionrios em Frana e sobre a abertura do

    comrcio. A segunda fase, em 1798, para Lus Henrique, corresponde ao perodo em que se

    elaborou a nota mais radical da crtica contra a colonizao, com participao de amplos

    setores que esboaram, inclusive, a liberdade dos escravos pela instituio de uma

    Repblica Bahinense574.

    571 Istvn Jancs. Bahia 1798. A hiptese do auxlio francs ou a cor dos gatos. In: Jnia Ferreira Furtado(Org.). Dilogos Ocenicos: Minas Gerais e as novas abordagens para uma histria do Imprio UltramarinoPortugus. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2001, p. 370. 572 Idem, p. 373.573 Cf. Valentim Alexandre. Os Sentidos do Imprio Questo nacional e questo colonial na crise do AntigoRegime portugus. Porto: Ed. Afrontamento, 1993.

    217

  • Eis o quadro atual das questes ainda no resolvidas sobre a Conjurao Baiana de

    1798, que, vistas em seu conjunto, referem-se s questes que a historiografia que versou

    sobre o evento apontou sem, contudo, resolver. Seja como for, hoje, pode-se afirmar com

    relativa tranqilidade que a Conjurao Baiana de 1798, entendida como um marco de

    referncia popular e de ruptura do processo de emancipao poltica do Brasil que se realiza

    em 1822, resultou de uma operao historiogrfica elaborada ao longo do sculo XX, a qual

    alargou as bases sociais do evento, por um lado, e, por outro, circunscreveu as esferas do

    real a partir de uma situao de crise, definindo, assim, as condies prvias para a

    instaurao de uma nova ordem. Esse processo de elaborao intelectual575 forneceu os

    parmetros para que o evento integrasse a genealogia da nao como a etapa popular da

    Independncia poltica do Brasil, em 1822.

    Tudo leva a crer que a constituio da Conjurao Baiana de 1798 como um dos

    cnones factuais da histria nacional foi tarefa da historiografia de inspirao marxista que,

    ao identificar novos pontos de significao do evento, forneceu os elementos teis para que

    sua simbologia fosse amplamente apropriada e divulgada para intervir numa determinada

    realidade social. Chamamos a ateno para o fato de que em 1955, no governo de Caf

    Filho, Nelson Werneck Sodr fundou o Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB).

    De acordo com Jos Petrnio Domingues, o instituto de ensino e pesquisa, sediado no Rio

    de Janeiro, tinha a tarefa de fabricar o projeto nacional-desenvolvimentista,

    definitivamente encampado pelo governo de Juscelino Kubitschek (1956-1961)576. Foi

    nesse ambiente de efervescncia cultural e euforia ncionalista, segundo o autor, que surgiu a

    proposta de empreender uma reviso sistemtica da histria do Brasil, cujo xito ocorreria

    no governo de Joo Goulart (1961-1964). Um grupo de jovens historiadores, coordenados

    por Nelson Werneck Sodr, levaram a cabo o projeto de re-interpretar a histria do pas

    luz do marxismo. Editou-se, com efeito, uma coleo sob o ttulo Histria Nova do Brasil,

    574 Cf. Lus Henrique Dias Tavares. Algumas questes ainda no resolvidas na histria da sedio da 1798na Bahia. In: Da Sedio de 1798 Revolta de 1824 na Bahia. So Paulo/Salvador:UNESP/EDUFBA, 2003;pp. 27-54; Lus Henrique Dias Tavares. Entrevista: as histrias regionais so a histria do Brasil. Revista deHistria da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, ano 1, n. 6, dezembro, 2005, pp. 44-48.575 A esse respeito, ler, sobre a Revoluo Francesa Franois Furet. Pensando a Revoluo Francesa. Rio deJaneiro: Paz e Terra, 1989. No caso brasileiro, ler, sobre a Inconfidncia Mineira, Joo Pinto Furtado. Omanto de Penlope: histria, mito e memria da Inconfidncia Mineira (1788-9). So Paulo: Companhia dasLetras, 2002. 576Petrnio Jos Domingues. Histria Nova do Brasil: um projeto abortado da Revoluo Brasileira. RevistaNovos Rumos, So Paulo, Ano 19, n. 42, 2004. O artigo est disponibilizado na internet no stio:www.novosrumos.com.br

    218

  • cujo objetivo principal era instrumentalizar o trabalho didtico dos professores do ensino

    secundrio.

    O autor demonstra que o projeto encabeado por Nelson Werneck Sodr visava

    proporcionar aos professores de nvel mdio textos que lhes permitissem fugir rotina

    dos compndios didticos adotados, ampliando as perspectivas da histria e

    proporcionando, mais do que conhecimentos, um mtodo capaz de, ainda no nvel mdio,

    mostrar aos jovens as verdadeiras razes histricas dos acontecimentos, atraindo-os para

    uma cincia apta a enriquecer-lhes os espritos577. Os historiadores vinculados ao ISEB

    entendiam que estudar histria era adquirir conscincia do passado, conscincia do que

    fomos para compreender e, principalmente, transformar o que somos, isto , o ensino da

    histria devia servir de fundamento ideolgico para uma ao transformadora das condies

    da vida do povo brasileiro. Cumpre destacar, ademais, que o modelo de marxismo

    postulado pelos historiadores responsveis pela Histria Nova do Brasil foi a defesa do

    nacionalismo como via de emancipao econmica e superao das desigualdades sociais

    intrnsecas formao do Brasil.

    Petrnio Domingues afirma que a coleo foi lanada em maro de 1964, a

    princpio, pelo Ministrio da Educao e Cultura (MEC). A principal razo para a coleo

    ter sido lanada por um rgo pblico, de acordo com o autor, relaciona-se idia corrente

    entre a intelectualidade do ISEB, segundo a qual repensar o passado brasileiro seria uma

    das formas possveis de subverter o presente e prospectar um futuro em outras bases. De

    acordo com o autor, a reviso do passado brasileiro s foi possvel porque, em termos

    polticos, o projeto da coleo Histria Nova do Brasil foi produto de um quadro histrico

    marcado pela radicalizao das lutas sociais e polticas no governo de Joo Goulart. No

    obstante, o projeto foi derrotado pela Ditadura Militar e seus historiadores presos e

    torturados. Lcia Paschoal Guimares, entretanto, chama a ateno para o fato de que a

    iniciativa da Histria Nova do Brasil representou avano na historiografia do livro didtico,

    um momento de ruptura, mesmo. A partir dali, as determinantes econmicas dos

    processos histricos seriam definitivamente incorporadas aos contedos dos compndios

    escolares578.

    577 Nelson Werneck Sodr, Histria da Histria Nova, p. 121, pud, Petrnio Jos Domingues, op.cit., p. 2578Lcia Maria Paschoal Guimares. O parecer do Instituto Histrico e Geogrfico Brasileiro sobre aHistria Nova, apud Petrnio Jos Domingues, op.cit.

    219

  • Os intelectuais de esquerda dos anos 70, a partir do golpe de 1964, foram isolados

    pela represso e depararam-se com uma espcie de destino fastico, de acordo com

    Marcos Napolitano. Com a ideologia pragmtica de mercado, as utopias revolucionrias e

    nacional-popular foram tensionadas a partir de uma paulatina incorporao do artista e do

    intelectual engajados na mdia e na indstria cultural. Napolitano afirma que o prprio

    capitalismo, ao colocar o problema da modernizao e seus corolrios, mobilizou

    dialeticamente projetos polticos alternativos modernizao liberal-burguesa. Da a

    necessidade dos intelectuais buscarem referncias espao-temporais a partir da interveno

    da esfera pblica, articulando idias e palavras e mostrando seus poderes de ao poltica a

    um pblico cada vez mais vasto. Nesse movimento, a prpria noo clssica de esfera

    pblica posta em xeque, pois ela contrria idia de grupo social coeso ao pressupor o

    conflito entrevisto pela conscincia crtica dos grupos sociais579.

    As implicaes ideolgicas do entrecruzamento da cultura de esquerda com a

    indstria cultural no Brasil so muitas, como atestam as trajetrias de sucesso da Msica

    Popular Brasileira e as novelas da Rede Globo, herdeiras de uma certa dramaturgia de

    esquerda, sob a pena de comunistas como Dias Gomes, Vianinha e Ferreira Gullar. No

    empuxo desse processo de cooptao, Mario Lago, por exemplo, alm de ser contratado

    pela Rede Globo, escreveu, nos idos dos anos 70, uma pea intitulada Foram quatro os

    Tiradentes da Conjurao Baiana. A pea no chegou a ser encenada, pois foi vetada pela

    censura da ditadura militar, por ser considerada muito radical580. No obstante a censura, o

    discurso histrico de inspirao marxista acabou fornecendo o quadro referencial para que a

    histria nacional incorporasse algumas mudanas e novos elementos.

    A ateno dada ao contedo revisionista veiculado no livro didtico e

    reformulao curricular em relao Histria da frica, por exemplo, entraram na agenda

    do movimento negro aps a constituio do Movimento Negro Unificado (MNU). A

    matriz poltica do MNU foi orientada por duas balizas principais: o nacionalismo e a

    esquerda e a busca de africanidade se desenvolver entre os campos acadmico e

    artstico581. Nesse processo de incorporao de novos elementos pela histria nacional, a

    partir da dcada de 70, houve por um lado um ensino de histria cada vez mais preocupado

    579 Marcos Napolitano. Em busca do tempo perdido: utopia revolucionria e cultura engajada. Revista deSociologia e Poltica, n. 16, Curitiba, junho, 2001. 580 O roteiro da pea, incluindo o parecer da censura, est no Arquivo Nacional, no cdice Mario Lago.581 Andr Guimares. Classes, raas e democracia. So Paulo: Editora 34, 2002, p. 99.

    220

  • com a realidade social brasileira, mas, por outro, ocorreu a vulgata na busca de categorias

    econmicas ou a lgica do sistema dos processos histricos. Entre uma e outra

    circunstncia, alguns contedos oscilaram entre a exaltao do heri das classes populares

    ou o fara como o criador do modo de produo asitico582. Nesse processo, ocorrer a

    substituio do positivismo caro ao pensamento conservador como ordenador da realidade

    brasileira pela teleologia, segundo a qual h uma causa primordial para os fenmenos

    histricos e a tendncia deles para um fim necessrio.

    Pensando nessa perspectiva, ainda que sujeita restrio, a Conjurao Baiana de

    1798 traz consigo protagonistas, idias, projetos que foram retomados de tempos em

    tempos e parecem ser destinados a servir do ponto de vista ideolgico ao sabor de distintas

    conjunturas. Como se viu, a idia do medo de uma revoluo protagonizada pelos setores

    populares, no sculo XIX, deu lugar esperana de uma revoluo protagonizada pelos

    mesmos setores populares, no sculo XX, que, de acordo com algumas anlises, no logrou

    justamente por isso. A pergunta que fica disso tudo se realmente a esperana venceu o

    medo? Se sim ou se no, a resposta no importa. Mas a pergunta talvez possa elucidar a

    razo pela qual os trechos do discurso do Ministro da Cultura e da redao do aluno sobre a

    Conjurao Baiana de 1798, apresentados no incio desta pesquisa, tenham ressaltado os

    ideais democrticos, como a liberdade e igualdade, e a efetiva participao popular na

    poltica e nas estruturas internas do Estado como um devir; uma promessa ainda a ser

    cumprida em um futuro prximo, mas no no presente ...

    582 Veja-se Paulo Miceli et alli. O ensino de histria e a criao do fato histrico. So Paulo: Contexto, s.d.

    221

  • Concluso

    Da Sedio dos mulatos Conjurao Baiana de 1798 a histria de uma histria

    que iniciou em 1799, quando os Desembargadores do Tribunal da Relao da Bahia

    definiram as sentenas para os rus condenados por crime de lesa-majestade: enforcamento

    seguido de esquartejamento das partes, na Praa da Piedade. Aps a execuo de Joo de

    Deus do Nascimento, Manuel Faustino dos Santos Lira, Luiz Gonzaga das Virgens e Veiga

    e Lucas Dantas de Amorim Torres, as devassas foram arquivadas na Secretaria de Estado e

    Governo do Brasil. No termo de concluso das devassas, as autoridades locais qualificaram

    o episdio deflagrado em 1798 de Sedio dos mulatos. Um movimento poltico

    protagonizado por homens livres, pobres, milicianos e soldados, que contou com o

    conhecimento de outras pessoas, entre elas alguns cativos.

    Uma vez localizada a realizao da histria em um ponto-chave - a participao de

    homens dos mais baixos setores da sociedade baiana de 1798 -, parece inegvel que as

    autoridades locais acabaram por definir uma memria unitria de forma a qualificar o

    evento e absorver todo um conjunto de possibilidades que a documentao suscita. A

    dissoluo de outros protagonistas, de outros projetos, de outros pontos-chaves do do

    movimento poltico deflagrado na cidade de Salvador, em 1798, parece ter sido essencial

    para a construo da memria a ser absorvida e projetada no futuro. Nesse processo, o

    termo de concluso das devassas viabilizou a perda e o esquecimento de instantes cruciais

    do evento que, uma vez resgatados, colocariam em xeque a memria definida pelas

    autoridades locais, em 1799.

    No desenvolvimento desta pesquisa percebemos que a memria unitria da

    Conjurao Baiana de 1798, definida pelas autoridades locais, exerceu uma peculiar

    capacidade de atrao para a historiografia ulterior, uma vez que a idia de um evento

    protagonizado por homens livres e pobres ligou-se muito mais uma srie de questes

    contemporneas dos historiadores do sculo XIX e XX, do que histria do evento

    propriamente dita. exceo do relato laudatrio de frei Jos de Monte Carmelo sobre os

    momentos finais do rus enforcados, chamamos a ateno para o fato de que as anlises

    222

  • contemporneas sobre o evento de Jos Venncio de Seixas e Lus dos Santos Vilhena no

    aparecem em nenhum dos trabalhos analisados.

    A razo parece ser muito clara: vistos em seu conjunto os relatos contemporneos

    colocam em xeque o ponto-chave da memria unitria definida pelas autoridades locais. Os

    relatos no questionam a participao de milicianos e alfaiates livres e pobres no evento,

    mas sugerem a existncia de outros protagonistas e projetos que, como se teve oportunidade

    de demonstrar, foram deixados margem das investigaes. Jos Venncio de Seixas

    entrev como causa do evento as conseqncias das brechas abertas pelo consulado

    pombalino no governo local, especialmente a situao dos homens livres e pobres na

    hierarquia militar. Lus dos Santos Vilhena vai mais longe ao relacionar o evento aos

    desmandos de um grupo de notveis nos rgos da administrao local, sugerindo haver

    uma relao de causa-efeito entre a ausncia de limpeza de mos de alguns agentes da

    administrao local e a revolta de 1798.

    A sugesto de Lus dos Santos Vilhena adquire relevncia se considerarmos que,

    como se viu no primeiro captulo, esse grupo de notveis era formado pelos proprietrios

    que fizeram pronta-entrega de seus cativos aos desembargadores do Tribunal da Relao da

    Bahia. Alis, em ambos os relatos, cumpre destacar que a participao dos cativos na

    revolta posta em xeque, uma vez que ela significaria a verdadeira ameaa a ser evitada

    motivo de desagregao da sociedade colonial e de um dos pilares da colonizao

    portuguesa. No parece ser por outra razo que Jos Venncio de Seixas qualifica o evento

    de Associao sediciosa dos mulatos, e Lus dos Santos Vilhena de Insistente Sublevao.

    O relato de Frei Jos do Monte Carmelo, por sua vez, no qualifica o evento, mas

    demonstra a tentativa de participao poltica dos homens livres e pobres como fator de

    corrupo da sociedade colonial. Ao considerar a revolta como conseqncia das paixes

    desenfreadas causadas pelas idias de Rousseau, Calvino e Voltaire, o carmelita descalo

    chama a ateno para o milagre da Misericrdia Divina como redentora no s dos rus,

    como garantia da ordem daquela sociedade colonial. A anlise do relato do carmelita

    descalo em confronto com as informaes dos autos das devassas sugere o

    questionamento de sua prpria participao no evento, uma vez que ele foi o escolhido

    entre os partcipes para ser o chefe da Igreja a ser implantada na Repblica Bahinense.

    223

  • Pelo que foi demonstrado nos captulos 1 e 2 desta pesquisa, os pontos-chaves

    identificados nos relatos do Frei Jos de Monte Carmelo, Jos Venncio de Seixas e Lus

    dos Santos Vilhena de fato colocam em xeque a memria unitria da Conjurao Baiana

    de 1798, uma vez que se configuraram em vias divergentes de anlise que negam o sentido

    do conjunto que compe a memria a ser projetada no futuro. A questo central do captulo

    3, portanto, foi identificar nas anlises oitocentistas a projeo da memria unitria e das

    memrias dos contemporneos e a objetividade das anlises a posteriori, em um momento

    em que se escolheu o elenco de temas e fatos da histria ptria.

    Tomadas em seu conjunto, as anlises de Incio Accioly de Cerqueira e Silva, John

    Armitage, Francisco Adolfo de Varnhagen e Joaquim Caetano Fernandes Pinheiro

    demonstram que a memria unitria da Conjurao Baiana de 1798 definida pelas

    autoridades rgias, em 1799, comea a encontrar lugar definitivo ao situar o problema do

    vencido no amplo conjunto articulado pelo vencedor, nos termos de Carlos Alberto

    Vesentini. Pode-se afirmar que no sculo XIX, a memria unitria da Conjurao Baiana

    de 1798 transubstancia-se em memria do vencedor, uma vez que a participao dos

    homens livres e pobres no evento a via pela qual os autores analisados trataram de

    questes bastante delicadas naquela conjuntura.

    Assim, foi a partir do reconhecimento de que poca as revoltas populares

    significavam, por um lado, a tentativa ilegtima de invaso dos espaos polticos pelos

    setores subordinados da populao livre citadina, e, por outro, a possibilidade de existir

    base social para a legitimao de projetos polticos de feio republicana que a Conjurao

    Baiana de 1798 foi analisada no oitocentos. Incio Accioli reitera a circunscrio social

    elaborada pelas autoridades em 1799, no que se refere articulao dos protagonistas da

    revolta e seus princpios polticos, i.e., os homens livres e pobres como o nico setor social

    simptico s idias da Frana revolucionria. John Armitage, por sua vez, reafirma a baixa

    composio social dos partcipes da revolta homens de cor da Bahia -, objetivando

    demonstrar o evento como um dos desdobramentos da infantil civilizao brasileira sob o

    domnio de Portugal.

    Ainda no sculo XIX, Francisco Adolfo de Varnhagen qualifica o evento como uma

    Conspirao Socialista, um arremedo da Revoluo Haitiana protagonizado por homens de

    nfima qualidade. O autor procurou desqualificar o localismo e o republicanismo

    224

  • subjacente ao programa dos pasquins sediciosos ao transcrever a documentao quase que

    integralmente na primeira edio de sua Histria Geral do Brasil. Joaquim Caetano

    Fernandes Pinheiro, como se viu, no entendeu dessa maneira e criticou a interpretao de

    Varnhagen ao demonstrar no artigo A Conspirao de Joo de Deus o perigo de corrupo

    do tecido social quando os homens livres e pobres tentaram fazer poltica em 1798.

    Nesse processo, o cnego Fernandes Pinheiro demonstra que a administrao de

    Pedro II, em 1860, era sensvel s quimricas utopias de homens como Cipriano Barata,

    mas aproveitou que os principais motivos para a priso de homens livres e pobres eram a

    bebedeira e o tumulto, para afirmar que o evento no passou de concilibulos, compostos

    das fezes da populao bahiana, sem bases determinadas, reunidos em um lugar pblico e

    terminado em um botequim. Aps a crtica do cnego, Varnhagen faz significativas

    alteraes para a publicao da 2a. Edio de sua obra na interpretao da Conjurao

    Baiana de 1798, ressaltando o medo de uma revolta nos moldes da Revoluo Haitiana.

    O que estava em causa para ambos os autores, no sculo XIX, era a unidade

    nacional e a manuteno da clivagem social no universo da poltica, em um momento em

    que os setores populares ganhavam s ruas com vrios motins. Com efeito, ainda que a

    Conjurao Baiana de 1798 seja um dos fatos da histria ptria oitocentista, Francisco

    Adolfo de Varnhagen e Joaquim Caetano Fernandes Pinheiro, sobretudo, reafirmaram o

    ponto-chave definido pela memria unitria em relao baixa composio social do

    evento, mas foram alm ao demonstrarem naquela conjuntura especfica que os setores

    populares eram os nicos sectrios dos princpios republicanos, justificando, portanto, a

    punio exemplar dos rus enforcados.

    Dessa forma, ainda que as interpretaes da Conjurao Baiana de 1798, no sculo

    XIX, tenham apontado outros ngulos relevantes para o entendimento de algumas linhagens

    do evento, como por exemplo a identificao do teor republicano nas idias de francezia

    e a participao de homens como Cipriano Barata, parece inegvel que o significado desses

    ngulos no foi divergente da fora hegemnica da memria do vencedor. Ao contrrio,

    pois definir um sujeito homens livres e pobres para o tema da repblica, no sculo XIX,

    foi o ngulo em que a efetivao de um projeto republicano, para os autores, estava fadado

    porque era vislumbrado justamente por esse setor.

    225

  • Essa questo no de pouca relevncia, uma vez que ela foi a via pela qual os

    historiadores do sculo XX, o segundo momento de projeo da memria unitria, de uma

    maneira ou de outra, perceberam certo grau de coerncia entre a participao dos setores

    populares e a idia de repblica concebida como desejo de autonomia baiana, depois

    nacional, do jugo portugus. Assim, exceo da interpretao de Francisco Vicente Viana

    que muito pouco diz sobre o evento, Francisco Borges de Barros e Braz do Amaral iniciam

    o processo de inverso historiogrfica dos plos das anlises oitocentistas ao chamarem, de

    maneira distinta, a ateno para o papel da Bahia no processo de formao do Estado

    brasileiro.

    Francisco Borges de Barros coloca no centro da anlise o papel da Maonaria como

    o centro difusor das idias libertrias e prticas sediciosas que fundamentaram as aes dos

    partcipes do evento. Como o autor vislumbra na fina flor da sociedade baiana de 1798 o

    desejo de mudana e o fim do domnio portugus, as aes de homens como Jos da Silva

    Lisboa, Cipriano Barata e Francisco Agostinho Gomes tm lugar de destaque na anlise.

    Ao passo que os rus enforcados e esquartejados foram comparados Tiradentes porque,

    para o autor, como em qualquer revoluo eles foram a linha de frente do evento. Dessa

    forma, no h inverso do ponto-chave da memria do vencedor no que se refere punio

    exemplar para os homens livres e pobres. O que h o alargamento das bases sociais do

    evento, ainda que a anlise do autor carea de comprovao documental.

    Contudo, foi Braz do Amaral quem realmente inverteu os plos das anlises

    oitocentistas no que se refere punio exemplar, ao chamar a ateno para o sangue dos

    rus enforcados no patbulo pblico, em 1799, representar a generalizao social do desejo

    de independncia do domnio portugus. Ao chamar a ateno para o coletivo da sociedade

    baiana de 1798, o autor d os primeiros passos para a idia de cooperao de classe em

    torno de um projeto poltico coletivo como um crescendo de tomada de conscincia.

    Nesse processo de inverso dos plos das anlises, os historiadores que versaram sobre a

    Conjurao Baiana de 1798, na Primeira Repblica, converteram o vis depreciativo das

    anlises oitocentistas em um evento de grande identificao poltica regional.

    Tudo mudou com a Revoluo de 30. A partir desse momento a Conjurao Baiana

    de 1798 deixa de ser um evento de identificao regional para tornar-se o representante das

    mais profundas aspiraes de amplos setores da sociedade brasileira. A Revoluo

    226

  • Burguesa brasileira ser a cadncia das anlises de Caio Prado Jnior e Affonso Ruy, seja

    para demonstrar a prtica revolucionria para que ela efetivamente acontea, seja para

    entender as razes pelas quais ela ainda no aconteceu. Seja como for, o tom ser o das

    utopias do futuro e a esperana por efetivas transformaes sociais.

    No por acaso, Caio Prado qualificou o evento como articulao revolucionria.

    A partir das classes sociais como categoria analtica, o autor explicou as lutas na Bahia de

    1798 pela articulao social com as bases econmicas. Para o autor, residiu justamente na

    ausncia da elite baiana da poca o notvel significado evento. Retomando a circunscrio

    social elaborada inicialmente pelas autoridades rgias, em 1799, e depois apropriada por

    Incio Accioli, Francisco Adolfo de Varnhagen e por Joaquim Caetano Fernandes Pinheiro,

    Caio Prado reivindica a baixa composio social do evento para definitivamente invert-la e

    valoriz-la em articulao com os pressupostos revolucionrios de intelectuais como

    Cipriano Barata.

    Uma dcada depois, inspirado nas teses dogmticas do PCB, para Affonso Ruy a

    revoluo articulada na Bahia e descoberta em 1798 mais no foi que o ltimo marco da

    inquietao nacionalista que encheu todo o sculo XVIII, nessa transitoriedade que atingiria

    o pice na revoluo pernambucana, em 1817. A grande questo na interpretao sobre o

    que o autor qualifica de Primeira Revoluo Social Brasileira relaciona-se prxis poltica

    de uma Revoluo Burguesa, malograda, na qual os membros da elite baiana de 1798

    doutrinaram os proletrios, os homens livres e pobres, para romperem com as formas de

    poder do Antigo Regime e realizarem no s a Independncia como a implantao de uma

    Repblica Socialista, inaugurando uma nova era de progresso social.

    Parece inegvel que nas anlises de Caio Prado Jnior e Affonso Ruy a idia de um

    evento que inauguraria em um futuro prximo uma nova era de progresso social pressupe

    a localizao, em uma poca, de problemas relativos a outra. O evento Conjurao

    Baiana de 1798 aparece acrescido de idias fundamentadas em recursos de mtodo, nos

    termos de Lucien Febvre, que o transubstancia em um produto historiogrfico sem, contudo

    negar-lhe o ponto-chave definido pela memria do vencedor: a participao dos setores

    populares. O resultado da transubstanciao do evento histrico ser a memria histrica

    da Conjurao Baiana de 1798 que conhecemos atualmente. A partir desse momento, o

    contedo amplamente divulgado sobre a Independncia do Brasil em 1822 e as revoltas que

    227

  • lhe antecederam tm no nacionalismo a via de emancipao econmica e superao das

    desigualdades sociais intrnsecas formao do Estado brasileiro.

    Assim, fundamentando-se nas teses de Fernando Antonio Novais, para Carlos

    Guilherme Mota na Bahia, em 1798, a inquietao foi orientada por pequenos artesos, ex-

    proprietrios de lavoura de cana, militares de baixo escalo. Para o autor, trata-se de uma

    revoluo intentada contra a opulncia, uma vez que o problema era mais social que

    colonial, representado a fratura do sistema colonial medida em que houve um crescendo

    de tomada de conscincia da situao de crise do sistema. Para Istvn Jancs, foi na

    abrangncia social subjacente articulao sediciosa que reside o signo da mudana, em

    um momento de profundas transformaes sociais e econmicas. na abrangncia social

    do evento que o autor v o novo nos interstcios do velho, ou, ao menos, de uma das formas

    possveis de super-lo, uma vez que se torna incompatvel com os postulados do

    absolutismo. Com efeito, Istvn Jancs afirma que o signo da mudana, entrevisto na Bahia

    de 1798, passa de elemento desagregador do sistema colonial condio de elemento

    ordenador da diversidade constitutiva de uma nova totalidade: o Imprio brasileiro.

    Ao analisar o contedo dos pasquins sediciosos elaborado pelos partcipes da

    Conjurao Baiana de 1798, Ktia Mattoso, por seu turno, afirma que os partcipes do

    evento eram homens que representavam no conjunto da populao de dominados

    categorias que, de certa forma, eram privilegiadas. Sendo assim, a autora demonstra que os

    argumentos dos pasquins sediciosos, por um lado, objetivaram sensibilizar a maior parte do

    pblico baiano com a miragem da liberdade econmica, e, por outro, demonstrar que

    uma eventual concordncia ao projeto poltico esboado, no contribuiria para o abalo das

    estruturas profundas da sociedade. Lus Henrique Dias Tavares, por sua vez, reafirma a

    baixa composio social do evento, mas o faz situando no quadro geral das revolues

    democrtico-burguesas. Para o autor, o evento representou uma a profunda contradio

    entre a velha ordem da explorao colonial mercantilista e a nova ordem capitalista, a luta

    dos brasileiros pela autonomia nacional, e o drama das discriminaes em sociedade

    altamente comprometida pelo sistema de trabalho escravo.

    Procuramos demonstrar nesta pesquisa a transubstanciao da Sedio dos Mulatos

    em Conjurao Baiana de 1798: um marco de referncia popular e ruptura da emancipao

    poltica do Brasil, em 1822. Esse processo de transubstanciao do evento histrico fez com

    228

  • que a idia original de Sedio dos mulatos fosse retomada, mudada, invertida, ampliada

    fazendo com que a idia do evento que temos hoje fosse definida apenas no movimento

    mesmo de suas interpretaes. A partir da anlise das diversas interpretaes sobre o

    evento, que tambm transubstanciaram a memria unitria em memria do vencedor, resta

    ainda uma questo mais precisa: no seria anacronismo ou teleologia, dependendo dos

    recursos de mtodo, imputar aos vencidos de 1798 responsabilidades que teriam existido

    apenas na memria histrica que comanda o exerccio de dominao?

    Tudo leva a crer que sim. Ao pensar a Conjurao Baiana de 1798 atualmente como

    um evento cujas categorias histrias teriam entrevistas a sua prpria superao, o

    movimento mesmo da histria s pode ser percebido quando a anlise leva em conta o

    resultado e a prpria superao das categorias histricas analisadas. Em relao

    Conjurao Baiana de 1798 isso s pode ser percebido a partir do desfecho da

    Independncia do Brasil, em 1822. Ainda que nessa perspectiva de anlise o objetivo tenha

    sido ressaltar as rupturas no processo de emancipao poltica do Brasil, h uma

    contradio implcita nessa interpretao e que o constitutivo implcito dos recursos desse

    mtodo que reside no fato de o movimento mesmo da histria, a ruptura, ser um devir, uma

    promessa sempre constante.

    No final das contas podemos falar de memria do vencedor sobre a Conjurao

    Baiana de 1798. Pois o que chegou at hoje sobre o evento uma histria poltica sem

    rupturas, com fortes traos de conservao no plano da ordem poltico-social, de renovao

    derivada dos espasmos do capitalismo, sem interveno social ou controlada por um acordo

    de elites, onde os grandes ausentes do processo formal de construo do Estado foram os

    setores populares. No queremos afirmar com isso que nessa perspectiva de anlise no

    haja conflitos, e sim que eles ganharam significaes especficas: medo, desordem, crise do

    sistema, mudana, agente do novo.

    Talvez seja por essa razo que mesmo aps o Golpe Militar, em 1964, o Ministrio

    da Educao e Cultura no tenha alterado a incorporao dos parmetros curriculares

    iniciado pelo projeto coordenado por Nelson Weneck Sodr, Histria Nova do Brasil, que

    definitivamente incorporou as determinantes econmicas e alargou as bases sociais dos

    processos histricos. A questo que se coloca na concluso desta pesquisa possibilidade

    de novas perspectivas de anlise no considerar a Independncia do Brasil como o resultado

    229

  • final de processos histricos como a Conjurao Baiana de 1798, uma vez que a

    documentao trabalhada no primeiro captulo sugere que essa proposio no

    demonstrvel muito menos verossmil como agenda poltica dos partcipes do evento

    homens de distinta condio social.

    Alis, a documentao tambm sugere haver procedncia na conceitualizao da

    Conjurao Baiana de 1798 tal como foi vivida por seus atores e percebida por seus

    contemporneos. Note-se que os autores do evento, nesse caso, no se resume ao grupo de

    homens, livres e pobres articulados com alguns intelectuais ilustrados. A situao bem

    mais complexa uma vez que caberia considerar a obscura e duvidosa participao do grupo

    de notveis e seus respectivos cativos, entregues s autoridades para serem presos e

    livrarem seus senhores de algumas acusaes.

    Neste particular, caberia, tambm, verificar a relao do poder local com todos os

    protagonistas do evento, pois a arguta anlise de Lus dos Santos Vilhena indica que o que

    chamamos nesta pesquisa de Conjurao Baiana de 1798 esteja intimamente relacionada

    com os desmandos do poder local e a busca por resolues de particularismos em uma

    conjuntura pra l de conflituosa. A partir dessas consideraes tudo leva a crer que essa

    histria da Conjurao Baiana de 1798 seria uma outra histria.

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    Da Sedio dos Mulatos Conjurao Baiana de 1798: a construo de uma memria histricaRESUMOABSTRACTSUMRIOAlguma explicao.Captulo 1.Captulo 2.Captulo 3.Captulo 4.ConclusoBibliografia